Você está na página 1de 12
A formagio de ditongos ¢ hiatos em Portugués Arcaico: a respcito da silaba¢ao do nome de um jogral* Gladis Massini-Cagliari UNESP/Araraquara; Oxford University — Linacre College 1. Introdugio Tnvestigar os padrBes de silabagio das linguas sempre constituiu um tema de enorme relevincia nos quadros da Teoria da Otimalidade (doravante, TO), tendo Sido, inclusive, um dos pontos de partida para a proposta da teoria. Neste sentido, a observagiio do comportamento dos encontros de yogais orais nos interessa sobre- tudo no que pode contribuir para a elucidagao da estrutura da Fonologia do Portu- gues daquela época, j4 que 0 stains fonologico dessas seqtiéncias vocdlicas ¢ o que determina a sua realizagio fonética (como ditongos ou hiatos). A partir de uma comparagio entre os dados do Portugués Arcaico (de agora em diante, PA) e do Portugués Brasileiro (de agora em diante, PB) atual, pode ser Ritidamente observada uma mudanga de comportamento quanto as estratégias de Silabagio de seqiiéncias de vogais nessas duas linguas — indicio de que uma mudan- a lingufstica, vista pela TO como alteragdo na hierarquia das restrig6es, teria acontecido, na passagem de um perfodo a outro da lingua. Em PA, encontramos creser; veer: ri-ir; mao; Ju-i-d-o; ji em PB, a silabagao, para os Mesmos casos, éa sepuinte: rer; ver; rir (versus com-prijein-der); mao; Jui-'do. . No presente trabalho, abordaremos principalmente as possibilidades de silaba- 40 de seqiiéncias de vogais orais altas (i+u; u-+i) em PA — ponto de partida impres- Cindivel para futuras abordagens diacronicas do fendmeno. A discuss’o acerca da silabagao do prenome do jogral Juido Bolseiro serve de ponto de partida para as teflexées sobre a hierarquia de restrigdes que comanda a silabagio em PA, jé que, a Partir da metrificagdo dessas cantigas, pode-se ter certeza de que “o nome de baptismo de um dos nossos talentosos jograis (...) tem rigorosamente quatro silabas (CV786): Ju-i-d-o” (Rodrigues Lapa, 1981: 230-231). Como corpus, considera-se uma selegao de cem cantigas medievais galego- ~portuguesas profanas, sendo cingiienta de amor, extraidas do Cancioneiro da Ajuda, e cinqiienta de amigo, escolhidas a partir do Cancioneiro da Biblioteca "© presente trabalho apresenta resultados de pesquisns financiadas m0 seu infcio. pelo CNPq (Produtividade em Pesquisa, processo: 301748/95-0) ¢ depois pela CAPES (Pds-Doutorado no Exterior, pracesso BEX0095/02 8). Agtadeco ao Prof. Dr, Stephen Parkinson, da Universidade de Oxford, pela gentileza da leitura de uma versio prévia deste artigo. B desnecessirio dizer, no entanto, que todos 05 erros ¢ imprecisbes so de minha inteira responsabilidade Actas do XVIM Encontro Nacional de Associagdo Portuguesa de Linguistica, Lisboa, APL, 2002, PP. 527-538, ACTAS DO XVII ENCONTRO NACIONAL DA APL Nacional de Lisboa. Como fontes secundarias, foram consultados os Glossdrios de Michaélis de Vasconcelos (1920) e Nunes (1973, vol. I: 575-704), o Indice Onomastico ¢ 0 Vocabulario de Lapa (1970), 0 Glosario de Mettmann (1989) ¢ 0 Lessico in Rima de Betti (1997). 2. Seqiiéncias de vogais orais em PA Em Massini-Cagliari (2003), analisando 0 mesmo corpus aqui considerado, constatamos a formagdo de 86,6% de ditongos, ao passo que os hiatos eram forma- dos em contexto intravocabular em apenas 13.4% dos casos. Deste fato, pode ser inferida a enorme preferéncia do PA pela silabagdio de seqiiéncias de vogais orais como ditongos. Dentre estes, nossos dados nos permitem chegar a um total de 87% de ditongos decrescentes e apenas 13% de ditongos crescentes. Com relagdo a presenga dos hiatos em PA, os dados nos permitem concluir que 43% dos casos eram constituidos da seqiiéncia i+a (140 em 325), 33%, de vogais duplas (108 em 325), e o restante (24%, 77 casos em 325) de seqiiéncias de outras vogais. E interessante notar que a combinagiio de vogais predominante entre os hiatos (i+a) é também a mais recorrente (134 em 135 casos) das duas Gnicas permi- tidas como ditongos crescentes. 3. A combinagio de vogais orais altas no PA: ditongos e hiatos Hi trés possibilidades para a silabagio de seqiiéncias de duas vogais orais, quanto & silabagiio, no PA: 1, a formago de um ditongo crescente; 2, a formagiio de um ditongo decrescente; 3. a formagio de um hiato. No corpus aqui considerado, contendo ditongos crescentes (sem considerar os casos das seqiiéncias QU-/GU-), apenas as seguintes palavras foram localizadas: mid, dérmio/dérmia, Simién, sobérvia, sdbia, cambiér, ravioso. Ja o levantamento que fizernos dos ditongos decrescentes no corpus aqui considerado apontou os seguintes casos de combinagio possivel entre vogais altas nos fimites de uma mesma silaba: a) Silaba tonica Silaba preténica iu dormiu, partiu _ ui cuido, fui, mui/muito, truita, aleluia — cuidar, cuidou, Vuitoron Nio hi casos de ditongos fonoldgicos de qualquer tipo (incluindo os formados apenas por vogais altas) em silabas posténicas no PA. A tinica excegiio sio os ditongos (fonéticos) formados por QU-/GU- + V (ex.: augua). No corpus que analisamos, nao encontramos seqiiéncias de vogais altas formando hiatos, quando a combinagao se dava entre a ténica e a post6nica, a nio ser quando a combinagao se dé entre dois us. Geralmente o hiato acontece se a primeira vogal alta envolvida no encontro ocupa a posigéo preténica, seguida de uma ténica ou de outra preténica. Os exemplos sic mostrados em (2): 528 AFORMAGAO DE DITONGOS BHIATOS EM PORTUGUES ARCAICO Q) ith ., rlir, Fiiz, cobiiga, embiigo, eamligo itu: vidva, fitza u+i: Juifio, juigar, juizo u+u: cou, nuu, muu _ Nao hé restrigdes, no entanto, quanto 4 formagao de ditongos decrescentes entre quaisquer vogais seguidas das vogais altas i ou u, a néio ser (obviamente} a de niio ee a mesma vogal alta, como mostra 0 quadro dos ditongos decrescentes do PA, abaixo. Q@) ai al contrairo, mus, vai, Pani, papagai, oimais, demais, bailada, bailar, baixado au augua ei ei, aleive, cavaleiro, deitei, derelto, dizei, estarei, farei, freira, lei, morrerei, queixo, queira, rei, serei. sei, despeito, ribeira, sospeita, deitar, deitei, leixar. queimar, queixar, queixumc, eu terminagao verbal: defendeu; ensandeceu; morreu; soffreu; u) | tolleu em outras posigdes na palavra: sandeu eu deu; deus; eu; [heu; meu; meus; Seu, seus @w oi coita, depois, foi, moira, noite, pois, ascoitar, coitado, aimais, coidar ou ‘cousa, dous, estou, ouve, vou, Mouro, sou, OULTO, deitou, pouco, cousimento, cousir, mouron, outorgar uu cuido, fui, mui/muito, cuidar, cuidou, muita, Vuitoron Quanto aos hiatos formados entre vogais orais altas e vogais de outra natureza, encontramos os seguintes resultados: *i forma hiato com outra vogal em posigao preténica, (piadade, piadoso) ¢ 0 (prioressa). *em posicio preténica, i sé forma hiato quando precedida de a (#raigon, sairei), 0 (coirmda) ou u Juido, jaigar), © quando preténica seguida de tnica, a vogal i forma hiato com todas as outras vogais, inclusive i mesmo (viir, rién): * em posigio ténica, sucedendo uma pretnica, rainha, af, ainda), e (reinka); i mesmo (vitr, riir}, 0 (oir) ¢ u Yutzo}: * quando cm posig&o ténica, as Unicas vogais posténicas com as quais i se combina para formar um hiato so @ (averria, dia, dizia, dean, diria, dormia, estaria, fazia, faria, valia (subst.), guia, ira, jograria, folia, Maria, morreria, perfia, querria, sabedoria, seria, ia, romaria, sandia, via) e 0 (ria); * quando em posigdo ténica, u se combina, para formar um hiato, com a duas, mia) e com 0 préprio u (cute, ute, rtutt). apenas seguida de a j forma hiato com a (sair, sai, 529 ACTAS DO XVI ENCONTRO NACIONAL DA APL 4. A combinagie de vogals altas no PA interpretada a luz da TO Como foi mostrado anteriormente a partir dos dados quantitatives extrafdos de Massini-Cagliari (2003), © ditongo decresceate é a silabagao preferida pelo PA para uma seqliéncia vocslica, inclusive para as seqlléncias de voguis altas. Neste sentido, pode-se dizer, em termos otimalistas, que o ditongo decrescente € a silabagio ima” para seqiiéncias de vogais orais no portugués medieval. Em trabalhos ante- tiores sobre a silabagao do PA (Massini-Cagliari, 2001, 2002a,b), mostramos que a raziio para este fato reside na exigéncia de fidelidade no PA entre as seqliéncias vocilicas do input e do output, j4 que. quando ha a formagao de ditongos, nao ha epéntese de material vocélico ou consonantal entre as vogais que se enconiram no input, nem apagamento de uma delas. Em termos otimalistas, pode-se afirmar que, no PA, dado um input VV e os outputs possiveis VG (ditongo decrescente, em que Gegtide), GV (ditongo crescente) e V.V (hiato), a realizacao estatisticamente mais relevante VG, na relacao entre o input dado 2 © ourput escolhido, aponta para a importancia das restrigdes DEP, MAX e ONSET, na silabago de encontros vocdllicos. Comparando-se um input VV com um ouput VG, constata-se gue este ultimo nao viola DEP, porque niio hé epénteses, nem MAX, porque também ndo ha apagamen- tos. ONSET também nfio é violada (a violag&o a essa sestrigéo aconteceria se 0 output preferido fosse 0 hiato, em que a segunda vogal inicia uma silaba de onset vazio). Como intravocabularmente os hiatos sao permitidos em PA, embora nao sejam a silabagdo mais recorrente, conclui-se que ONSET ocupa uma posigdo na hierarquia de restrigGes que gera a silabagiio das seqiiéncias vocdlicas em PA abaixo de MAX ¢ DEP. Se considerarmos a distribuigéo dos elementos vocdlicos ¢ consonantais na silaba do PA (Massini-Cagliari, 2001; Zucarelli, 2002; Biagioni, 2002) ¢ o compottamento das silabas contendo ditongos, que 6 anélogo ao das sflubas trava- das com relagio A acentvagdo (que leva em considerago 0 peso sildbico - Massini- -Cagliari, 1999), deve-se concluir que o PA sé aceita uma posigéo preenchida no niicleo; em conseqliéncia, nos ditongos decrescentes, o glide posiciona-se na coda, Assim, conclui-se também que a restrigio *CODA pode ser violada em PA para a formacio de ditongos decrescentes e de silabas travadas. A interagdo no compo- nente EVAL entre esta as restrigées a que aludimos no pardgrafo anterior é mostrada no tableau (4), em que a forma dtima é apontada pelo simbalo 7 ¢ os limites das silabas so representados por parénteses. As restrigdes de que tratamos neste pardgrafo e no anterior e que séo consideradas em (4) foram definidas em (5). O Hfuil Max | __DEP Onset_|_ *Copa (fui) : * & (fu) Diy Ht : a. (fu § *! z ees A YORMACAO DE DITONGOS E HIATOS EM PORTUGUES ARCAICO () MAx-10: os elementos do input devem ter correspondentes no output. Dep-10: os clementos do ouipuz devem ter correspondentes no input. OnSET: as sflabas t€m onsets. *Cona: as silabas acabam em vogal. Como o PA so permite 0 preenchimento de uma posigio no nucleo da sflaba, a atuagao de *COMPLEX(N) éxplica por que as seqiléncias de vogais iguais, no PA, sfio categoricamente silabadas como hiato.! Como mostra o tableau (6), abaixo, o apagamento de qualquer uma das vogais feriria MAX; a insergio de uma consoante entre clas, DEP. J4 a constituigdo de uma vogal longa fére “COMPLEX(N). A hierar- quia de testrigdes adotada abaixo explica a ocorréncia do hiato em todos os exem- plos de vogais duplas mapeados no corpus, incluindo riir, viir, Fitz, cobiiga, embiigo, enmiigo cun, nuu, miu. (6) Max | Dep_ | #ComPLrx(n)| Onset | *Coba V | *{ # & . (m@uy) *! ce (mu) (Qu) at ep ee (7) *CoMPLEX(N): Nucleos tém somente um elemento. De acordo cam o que se pode observar, as limitagdes para a silabagéo das sequiéncias de vogais altas em PA e da combinagiio dessus vogais com vogais de outra natareza (médias ¢ baixas) parece estar ligada a uma proibigéo de constiluigac de ditongos crescentes. Apesar de o PA dar preferéneia xo preenchimento da coda ao invés de preen- cher duas posigdes no nticleo da silaba. existem restrigOes quanto aos elementos que, podem aparecer na margem final da sflaba. Como mastramos emt Massini-Cagtiari (2001: 3), apenas podem figurar na coda 0 glide @ as consoantes: /RY (veer, mnoller, certo, andar, sennor, pastor, Portugal, amor); /V (algun, sol, culpado, mal. Poriu- gab); /S} (esto, faz, sospeira, aquesta, chug, solaz, tristey; e IN/ (entender, andar, nembrar, non, razom, coragon, cantiga, gran, branica). Isto quer dizer que ha a atuagiio da restrig#io CoDA-COND, alla na hierarquia, que restringe as possibilidades de consoantes na coda, conforme o estabelecido em (8). E por este motivo que a seqiiéncia /ei/ pode formar um ditongo (decrescente, no caso), uma vez que o glide fil, por ser {-voedlico; +soante] constiui uma coda aceitavel no PA. Jé a seqiiéncia on 1 A nio ser no caso ospeeifico de algumas flendes verbais (cf. Massini-Cagliari, 1999: 177-181), como sora visto adiante, 2. definiggo de CoDa-CONP, gue aparece orn (8), € relirada de Lee (1999: 147), jd que as restrigées para o aparecimento de codas niio mudaram, do PA ao PB. 53t ACTAS DO XVIU ENCONTRO NACIONAL DA Apr. fief forma um hiato, por dois motives: /e/ no é uma coda aceitdvel e ditongos crescentes sao proibidos, (8) Copa-Conn: A coda pode ter somente: {- voedllico, + soante] ou [- soante, + cont{nuo, + coronal] Peias razes expostas acima, o PA dé preferéncia 4 formagiio de ditongos decrescentes quando da combinagio de vogais altas. A atuagiio da hierarquia de resirigdes estabelecida em (6) impede a formagio de ditongos ctescentes nas seqiiéncias iu ¢ ui, ao escolher como output étimo as formas com a primeira vogal alta silabada no nucleo (simples) ¢ a segunda, na edda. Bo que se mostra no tableau 9). ®) _ffuif | Max: Dep | *CompLex(n)| ONSET *CODA _ a. (fui) b. (fui | 4 E iviuf | Max! Dep | *CompLtex(n)| ONSET (viv) : Gin) : Desta forma, a hicrarquia considerada em (6) c (9) dé conta néio sé da silaba- ¢o de ditongos formados exclusivamente por vogais altas, mas também prevé. a silabagio de todos os outros ditongos decrescentes encontrados no corpus. A hierarquia adotada acima prevé também porque a vogal i forma hiato com outra vogal em posi¢ao preténica, segnida de outra preténica: neste caso, apenas ditongos crescentes seriam possiveis — o que fere *COMPLEX(N) e COpA-CoNnD. O mesmo pode ser dito em relagao ao i prelénico seguido de a ténico, em que ocorre a forma- io de biato (fia, fiado, brial, enviar, liar, Santiago) e & formagiio de hiato enire i ténico ¢ a postdnico (averria, dia, dizia, dezian, diria, dormia, estaria, fazia, faria, valia (subst.), guia, iria, jograria, folia, Maria, morreria, perfia, querria, sabedoria, seria, ia, romaria, sandia, via) e entre u tonico ¢ a postonico (duas, rua). Trabalhos anteriores, elaborados com base em teorias derivacionais (Massini- Cagliari, 1999; Zucarelli, 2002; Biagioni, 2002) constataram que o PA proibe s(labas com ditongos seguidos de tavamento sildbico. A Gnica excegiio € 0 wava- mento pelo arquifonema /S/ (ex.: Deus, pois, mais) — unicamente em final de pala- vra. No caso do travamento por /S/, Zucarelli (2002) atribui esta restrigo ao fato de 0 glide, nos ditongos decrescentes, ocupar a posigio de coda; desta forma, a tnica consoante que poderia aparecer depois de um ditongo seria mesmo /S/, que é a tinica que pode ocupar a segunda posigiio de uma coda complexa (o que acontece até hoje, em PB: perspectiva, solstfcio, edustico). Nos termos da TO, essa restrigio 4 ocorréneia de formas como *ail, *air e *ain, em rimas do PA pode ser expressa a partir da ago da restrigfo0 COMPLEX-CODA-CONNITION — definida em (10) -, que atua em conjunto com CODA-COND. E por este motive que a silabagdo étima para o 532 AFORMACAO DE DITONGOS E RIATOS EM PORTUGUES ARCAICO exemplo sair € a formagio de um hiato entre a e 1, como aponta corretamente 0 tableau (11). (10) Comp1.-Copa-Conn: Codas complexas néo so permitidas, a néo ser as formadas por glides seguidos de /S/. ay | Copa-Conp: | Max 1 Dep | *ComeLex(N)] Onser |*Copa ay fs Compl-Cov- 14 -COND H {sa)lir) \ > (sair) | # Z | Pelos motives expostos acima, fica explicada a preferéncia pelo hiato na formagao de palavras como rainha/reinka e ainda. Em ainda, *ain € malformada, por ser uma rima supercomplexa, com trés elementos. O mesmo‘ocorre em rainha. ‘Trabalhos anteriores — Zucarelli (2002); Biagioni (2002) ~ ja estabeleceram que as consoantes palatais / vitiva; fiducia > fidza; Julianus > Juido; judicare > juigar: judicio > juico! Em um modelo éetivacional, poderia ser proposia uma conscante na forma de base dessas palavras, que bloquearia a formagio do ditongo decrescente e que seria eliminada em um momento posterior da derivado. O problema com relagao a esta solug&o é o fato de que é sincronicamente dificil separar os casos em que a consoante deve set apagada (ex.: traicon; Juido) daqueies em que a consoante deve. aparecer na superficie (avelana) ¢ ainda daqueles em que a consoante nilo existe mais na forma de base e nos quais, portanto, deve ser formado um ditongo (ex: sai). Além disso, esse tipo de processo derivativo é incompativel com os preceitos teGri- cos otimalistas. Pelos motivos expostos no paragrafo anterior, estritamente nos dominios da TO, é muito dificil idencificar a correta silabago dessas palavsas, dada a opacidade dos dados. A criagdo de uma restrigdo paroquial, exclusivamente para solucionar este problema a0 PA, embora marginal ¢ problemética, parece ser, no momento, a inica possibilidade de solugio dentro da teoria, j4 que mesmo a aceitagaio de processos derivacionais deixaria a distingo entre os grupos aludidos no pardgrafo anterior por resolver. Assim, propomos dar conta desses casos através da atuacdo de uma restrig&o da familia de fidelidade sobre as palavras desse grupo, que denomi- namos de Tipo VV: ALINHE(L, N} - definida em (16) e demonstrada no tableau ans (16) AUmNHE(y, N): Alinhe a mora das vogais das palavras do Tipo VV com 0 nticleo da silaba. G7) fuiaNof [AvINaR’ Max ' Dep | ONSET | *Copa (Tipo | uN) : VV) : ' aS (jusay(o) GuiyA)o) & Gul ao) 5 Fonte da ctimologia considerada: Diciondrio Eletrénico Houaiss da Lingua Portuguesa (2001). © Os paréntcses crvolvendo asteriscos, no tableau (17), indicam que a violagao & restrigio considerada nao é relevante para o fonémeno discutido. 536 A FORMACAO DE DITONGOS E HIATOS BM PORTUGUES ARCAICO 5. Conclusées Com base no estudo desenvolvido neste trabalho, pode-se afirmar que os Padrées sildbicos de superficie dos encontros vocdlicos intravocabulares formados entre vogais altas no PA sio obtidos a partir de interagdes e hierarquizagdes de Testrigdes de duas familias (de estruturagao silabica ¢ de fidelidade), de acordo com a abordagem da TO. A hierarquia aqui considerada d4 conta de prever e explicar a Silabagda de todas os encontros vocdlicos presentes no corpus, inclusive (e princi- Palmente!) a do nome do trovador Juido Bolseiro, tal como aparece nas cantigas CBN1181/CV786 ¢ CBN403 (com quatro silabas) - fato que gerou a inquietagao que deu origem a reflexdo que acima se apresenta. No entanto, ha casos em que ocorem variagoes, principalmente porque é Considerada um corpus poético como base da andlise. Como vimos, ha casos de Variagdo entre ditongos crescentes ¢ hiatos: mid vs. mia. E o préprio prenome do Jogra] Bolseiro aparece, em outras cantigas de escdrnio que ndo as consideradas por Lapa na citagiio apresentada no inicio deste trabalho, com trés silabas — ¢ um ditongo crescente na primeira silaba: Jui-d-o. Todos 05 casos de variacio, porém, originam-se em recursos estilisticos utilizados pelo poeta com a finalidade de Preservar ritmo e rima ¢ atuam, sem excegao (nos limites do corpus), no sentide de Produzir, a partir de um padrio excepcional, um mais previsivel: do ditongo ¢rescente ao hiato; do hiato, ao ditongo decrescente. Referéncias Bibliograficas Betti, Maria Pia (1997) Lessico in Rima. Rimario e Lessico in Rima delle Cantigas —” de Santa Maria di Alfonso X di Castiglia. Pisa: Pacini Editore. pp. 311-388. Biagioni, Andréia Bernardineli (2002) A Saba em Portugués Arcaico. Araraquara ._ FCLAUNESP. Dissertagao de Mestrado. Camara Jr., Joaquim Mattoso (1985) Estrutura da Lingua Portuguesa. 152 edigao. Petrdpolis: Vozes. 12 edi¢o: 1970. Cancioneiro da Ajuda — Lisboa: Ediges Tévola Redonda, 1994. Edig&o Fac-similada. Cancioneiro ia Biblioteca Nacional (Colocci-Brancuti). Cod. 10991, Reprodugao fac- -similada. Lisboa: Biblioteca Nacional/Imprensa Nacional — Casa da Moeda, 1982. Diciondrio Eletrénico Houaiss da Lingua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. _ CD-ROM. - Freitas, Maria Jodo (2001) Sons de ataque: segmentos compiexos, grupos segmentais & representagGes fonoldgicas na aquisi¢zo do Portugués Europeu. Letras de Hoje. Porto Alegre, c. 36, n® 3, pp. 67-83. setembro, 2001. Lapa, Manuel Rodrigues (1970) Canigas d'escarnho ¢ de mal dizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses. 24 edigSo revista e acrescentads. Vigo: Galdxia. Lapa, M. Rodrigues (1981) Ligdes de Literatura Portuguesa — Epoca Medieval. 108 edigo revista pelo autor. Coimbra: Ed. Coimbra. Lee, Seung-Hwa (1999) Teoria de Otimalidade ¢ Silabificacao do PB. in Mendes, E. A. M.: P. M. Oliveira & V. Benn-Ibler (orgs.) Revisitacdes: edic¢do comemorativa: 837 ACTAS DO KVIIEENCONTRO NACIONAL DA APL. 30 anos da Faculdade de Letras/UFMG. Belo Horizonte: UFMG/FALE. pp. 143-156. Massini-Cagiiari, Gladis (1999) Do poético aa lingiéistico no ritmo des trovadares: trés momentos da histéria do acento. Avaraquara: FCL, Laboratério Editorial, UNESP; Sio Paulo: Cultura Académica. Massini-Cagliari, G. (2001-no prelo) Questdes de: silabagio: comparacées entre o Portugués Arcaico e o Portugués Brasileiro. Conferéncia proferida no H EDiP - H Encontro de Estudos Diacrénicos do Portugués. Araraquara: FCL/UNESP, de 29 a 31 de agosto de 2001. a sair no livro: Descrigdo do Portugués: Estudos de Linguistica Histérica, organizado por G. Massini-Cagliari et al., a ser publicado pelo Laboratério Editorial da FCL/UNESP, Araraquara, ¢ pela Editora Cultura Académica, Sao Paulo, em 2004. Massini-Cagliari. G. (2002a) A silabag3o no Portugués Arcaico vista pela Teoria da Otimalidade. Estudos Lingiiisticos. Sio Paulo: FFLCH/USP, v. 31. CD-ROM. Massini-Cagliari, G. (2002b) A silabagdo da seqiiéncia a+i em Portugués Arcaico: uma abordagem otimalista da distingfio entre ditongos e hiatos. Comunicagio apresentada no 502 Semindrio do Grupo de Estudos Lingiiisticos do Estado de Sdo Paulo - GEL. S40 Paulo: FFLCH/USP, 23 a 25 de maio de 2002. Massini-Cagliari, G. (2003) Diphthong and hiatus in Medieval Portuguese profane cantigas, Paper presented at the XXX] Romance Linguistics Seminar. Cambridge: Trinity Hall, 3-4 January 2003 Mettrnann, Walter (1989) Glosario. IN Alfonso X, el Sabio. Cantigas de Sania Maria (cantigas 261 a 427) Hl. Madrid: Castalia. pp. 381-393. Michaélis de Wasconcelos, Carolina (1912-1913) Ligées de Filologia Portuguesa (segundo as prelecdes feitas aos cursos de 1911/12 e de 1912/13) Seguidas das Ligées Praticas de Portugués Arcaico. Rio de Janeiro: Martins Fontes, si. Michaélis de Vasconcelos, Carolina (1920) Glossario do Cancioneira da Ajuda. Revista Lusitana, XXIIL in Cancioneiro da Ajuda. Edigdo de Michaélis de Vasconcelos. Reiimpressao da edigéo de Halle (1904), acrescentada de um prefécio de vo Castro e do Glossdrio das cantigas (Revista Lusitana, XXH1). Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1990. Nunes, J. J. (1973) Cantigas d'amigo dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Centro do Livro Brasileiro. 1* edigio: 1926/1929. Wetzels, W. Leo (2000) Consoantes palatais como geminadas fonolégicas no Portugués Brasileiro. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v, 9, n2 2. pp. 5- -15, jul/dez. 2000. Zucarelli, Fernanda Elias (2002) Ditongos e Hiatos nas Cantigas Medievais Galego- -Portuguesas. Araraquara: FCL/UNESP. Dissertagio de Mestrado. 538,