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Espirit an © Devs ile Vivre, Espirito Santo O Deus que vive em nods Caio Fabio Publicado com a devida autorizagao e com todos os direitos reservados pela: EDITORA LUZE VIDA Rua Trajano Reis, 672 CEP 80510-220 Curitiba - PR Redagao com estilizagao do discurso oral: Allinges L. C. Mafra MacKn ight Coordenagao de produgao: Hans Udo Fuchs Capa e lay-out: Marianne Bettina Richter Impressao: Imprensa da Fé 12 Edicdo - 1991- CLC Editora 2? Edigao - 1991- CLC Editora 3? Edicao - 1993 - CLC Editora 4? Edicdo - 1996 - Editora Luz e Vida 5? Edicdo - 1997 - Editora Luz e Vida - 18-21 mil E proibida a reprodugao total ou parcial sem permissao escrita dos editores: Dedicatiria A Allinges Lenz César Mafra MacKnight, com minha gratidao por sua amizade, carinho e servicos prestados, espe- cialmente durante os ultimos trés anos. Allinges, sem sua efe- tiva dedicagéo, muitos dos meus livros — incluindo o presen- te texto — nao estariam ainda nas maos dos meus muitos leitores. Ao meu amadissimo filho Ciro Fernandes d’Aratijo, que com seu trabalho no computador tornou possivel que meus Ultimos livros viessem a publico sem enorme atraso. Obrigado, meu filho-amigo, por seu amor e boa vontade em servir 0 papai. indice I- Quem é 0 Espirito Santo?. 11 1. O Espirito Santo é Deus. 12 2. O Espirito Santo é uma pessoa. 16 1.0 eid Santo em relacao a Jesu: 2. O Espirito Santo em relacao a Palavra. 3. O Espirito Santo em relacao ao mundo. 29 4. O Espirito Santo em relacao ao crente. 31 5. O Espirito Santo em relagao a igrej 39 (UI} Pienitude do Espirito Santo... 1. A plenitude do Espirito como expe iéncia de crise 2. A plenitude do Espirito como um processo na vida. 52 3. Os sete principios sobre como obter a plenitude do Espirit 54 Didlogo e comunhao... . 55 Nutrigao do amor. 56 Ecumenicidad 57 O ciclo de Efésios. 58 Sofrimento e perseguica 65 A vida de oracao. 67 A Palavra... 68 Sinais da plenitude, 70 IV - O batismo com 0 Espirito Santo.. 73 1. Atos nao serve a teologia sistematica. 76 2. Teologia sistematica, somente nas cartas doutrinarias.. 77 3. O batismo com 0 Espirito Santo conforme o Novo Testamento... 78 4. Justificativas quanto a afirma¢&o pentecostal de ser o batismo com o Espirito Santo um segunda bén¢ao.......0 79 5. Por que afirmo que o batismo com o Espirito Santo é a conversao?.... iv} Os dons do Espirito Santo sao para hoje?... 1. Argumentos contestadores & movimentacao acerca do Espirito Santo . 2. O que aconteceu aos dons espi ituais entre os anos 400 e 1700. 3. Os dons existem e sao para hoje... {VI Distinguindo os dons do Espirito Santo ° 1. O dom de contribui 2. Odom de governo... VII - Obstdculos ao funcionamento dos dons no corpo de Cristo. VII - Como descobrir seus dons espirituai: 3.Odom de socorto.. 4.O.dom de administraga 5.O dom de misericérdia.. 6. Odom desabedori: 7. Odom deconheciment 8.Odom dafe 9.0 dom dacura... 10. Odom de operar milagres. 11.0 dom de discernimento de espiritos. 12.Odom de linguas.. 13. Odom de interpretaga 14. O dom de apostolad 15. Odom de evangelista.. 16. Odom de pastor... 17. O dom de solteiro ou de celibato. 18. O dom de pobreza voluntiria. 23. Odom de exortagac 24. O dom de hospitalidade. 25. O dom de missionari 1. Vencendo os obstaculos através de uma visdo equilibrada. 2.A que nos conduz o equilibrio?. 3. Dom de evangelist 4. Dom de pastor-mestr 5. Dom de operagao de milagres e cura. 6, Dom de socorro.... 7. Dom de governo, administragao. IX - Mutualidade dos dons no corpo de Cristo..... 1. Mandamentos da mutualidade referentes ao amor 2. Mandamentos da mutualidade referentes ao servico. 3. Comunhio espiritual entre os irmao.... 7 4. Mandamentos da mutualidade relacionados ao uso da lingua. X - Fluxo e refluxo do Espirito Santo no homem interior... Béngios do fluxo e do refluxo no nosso homem interior. 125 125 127 128 130 130 131 134 135 137 140 142 144 146 147 148 149 150 153 153 154 155 156 157 161 163 167 168 170 172 177 179 182 182 185 188 193 198 204 209 214 Prefacio O presente texto é resultado de uma série de pales- tras sobre o tema “Espirito Santo”, que realizei quando era pastor titular da Igreja Presbiteriana Betania, em Niterdi, e sentia, no dia-a-dia da minha experiéncia pastoral, como a tematica do Espirito Santo era mais que uma doutrina ou um fato abencoador na vida de muitos daqueles irmaos e irmas. Na realidade este assunto constituia para eles um elemento doutrinario altamente perturbador. Prova disso é que quase todas as semanas eu era abordado por pessoas que traziam consigo frustragdes, perplexidades e até enfermidades emo- cionais pelo fato de terem tido algum tipo de ma-relacao com grupos chamados carismaticos. Ora, como pastor, o que muito me perturbava era a constatagao de que elas acabavam, além de enfermas, um tanto cinicas com respeito ao genuino poder do Espirito San- to de Deus. Também havia aqueles que nao criam nas acées contemporaneas do Espirito, atribuindo quase sempre tais maus-contatos espirituais ao fato de o Espirito j4 nao estar em acao em nossos dias, razao por que as chamadas experi- éncias com ele nao passavam de meras experiéncias psicold- gicas, sendo vivenciadas com todos os riscos que tais relag¢des trazem em si mesmas. No entanto, como estava e estou convencido de que nao ha méa-relacao com o Espirito, o que sobrava para mim a nivel de conclusao era a dedug&o de que tais pessoas haviam- se relacionado com uma mera caricatura do Espirito. Eu nao negava que houvessem tido aluma experiéncia com o Espiri- to. No entanto estava convencido de que a satide de nossas relacdes —- tanto com os homens como com Deus — depen- de fundamentalmente de modo como entendemos a pessoa coma qual nos relacionamos. Assim, uma criatura maravi- 7 lhosa pode se tornar num elemento de promogao de en- fermidade emocional, se aquele que lhe devota tal amiza- de @ alguém que a encara numa perspectiva errada, distorcida. Foi por isso que resolvi entregar-me a estes estudos, que lhe chegam agora as maos na forma de livro. Minha intengao era tracar alguns perfis que pudessem ori- entar aqueles irmaos no seu discernimento de experiénci- as carismaticas. Alguns autores foram minhas fontes originais de inspiracao ou confirmacao de pensamento. Entre eles des- taco especialmente John Stott (Batismo e plenitude do Espirito Santo) e Michael Green (Creo en el Espiritu San- to). Alem desses, houve ainda dezenas de pequenos textos que no curso de minha vida tém nao so me influenciado como constituido fontes de inspiragao. Digo tudo isso a fim de deixar bem claro que as idéias aqui defendidas nao sao originais. Original é apenas a maneira de dizé-las, ou seja, meu modo particular de dizer coisas. Além disso, fiz tal tentativa, substanciando o livro, tanto quanto possivel, em minhas proprias experiéncias a fim de tornar evidente que nao estou tratando de algo a cujo respeito simples- mente ouvi falar, mas referindo-me a coisas que nao s6 tenho experimentado, como inclusive encontrado vasta fun- damentacao biblica. 7 Por ser este um livro cheio de ilustragdes relacio- nadas também a minha propria vida, acredito que me traraé alguns problemas. Primeiro, porque alguns amados irmaos de teologia bastante reformada poderao afirmar que fui longe demais na questao dos “dons espirituais”. Certamente muitos ficarao chocados com minhas opinides pessoais nes- ta area. Por outro lado, alguns amados irmaos de teologia pentecostal talvez digam que andei para tras no que se re- fere 4 minha persuasao do que seja “batismo com o Espiri- to Santo”. Isso porque minhas idéias sobre a contem- poraneidade dos dons espirituais podem ser entendidas como excessivamente carismaticas, para 0 sofisticado sabor dos mais tradicionais. Por outro lado, minhas convicgdes sobre o que seja batismo com o Espirito Santo serao certamente entendi- das como excessivamente moderadas e decepcionantes, para © gosto mais picante da fé pentecostal. 8 Preferi no entanto correr o risco de ser julgado dessa forma, porque estou convencido de que apesar dos riscos e das inevitéveis conseqtiéncias que tais “julgamen- tos” humanos trazem, havera um grupo imenso de irmaos e irmas que se identificarao com a posigao aqui advogada. Es- ses sao aqueles que conhecem suficientemente a Biblia e o Espirito Santo, a ponto de nao se atreverem a afirmar que ele limitou e circunscreveu seu exuberante poder aos dias apostélicos. Esses mesmos também sao suficientemente aferrados 4 compreensao a respeito da imensuravel graca de Deus a ponto de se recusarem a aceitar que ele se haja restringido a certas expresses temperamentais ou religio- so-evangélico-pentecostal-culturais. Em outras palavras: eles créem que o Espirito age ainda hoje e age como quer e de diferentes modos em diferentes grupos. Como membro de uma igreja de teologia chamada tradicional, sinto-me perfeitamente a vontade para dizer que muitas vezes, em nossas teologias, reservamos um lu- garzinho para o Espirito Santo, sendo amitide nossa inten- cao muito mais nao ofender o Espirito, através de nosso siléncio a seu respeito, do que realmente conhecé-lo e con- viver com ele de forma consciente e profunda. Finalmente, quando vocé ja se prepara para dar inicio a Jeitura deste livro, faco-lhe dois pedidos. O primei- ro é que 0 leia com coragao de ouvinte. Afinal de contas, o texto foi transcrito de sua forma falada, sendo, portanto, natural que nele aparecam muitas das maneiras usuais des- se tipo de comunica¢ao. O segundo pedido é que vocé ten- te nao ser “reformado” ou “pentecostal” em sua leitura, mas exclusivamente cristao — em harmonia com a beleza e a simplicidade neotestamentaria do que significava ser um cristéo nos primérdios da fé. Dessa forma vocé ira perce- ber que, nao obstante simples e teologicamente leve, pelo menos do ponto de vista dos mais exigentes na matéria, ele ira fazer um grande sentido com a Biblia e com o bom- senso com os quais a acao de Deus deve ser interpretada na historia. Rev. Caio Fabio D’Aratijo Filho Bc RS pass 6 i) Quem € o Espirito Santo? Seguramente o Espirito Santo é a pessoa da Trindade que menos atencao tem recebido no curso da historia da igreja, bem como por parte dos tedlogos nestes dois mil anos de reflexdo teolégica. Muito se fala sobre Deus o Pai e como ele age. Também a cristologia (doutrina relacionadas a obra de Cristo) tem recebido atencao especial, a tal ponto que muitas vezes nem sabemos o que fazer com tantas teologias a respeito da natureza e da obra de Jesus. Quanto ao Espirito Santo, aparece em doutrinas mofadas nos pesados livros de teologia sistematica, os quais muito raramente o povo de Deus abre e folheia; s6 mesmo os tedlogos mais meticulosos 0 fazem. Ha também um elemento imensamente contradit6rio relacionado a doutrina do Espirito Santo. Isso porque nao obstante ele seja a pessoa gregaria por exceléncia na Trindade — ele é o supremo edificador, agindo na perspectiva da promogao da unidade desde a dimensao da matéria fisica (da qual é o sustentador) até a vida espiritual da igreja (da qual é o unificador) — , sua doutrina tem sido pomo de discérdias, o 11 elemento mais significantemente divisor da Igreja de Cristo no curso da historia. No entanto, mesmo essa histéria — tao dividida em nome daquele que veio para unir — nado nos permite negar a realidade de que o Espirito Santo tem agido. O Espirito também tem sido objeto de compreensdes crist&s as mais variadas, na maioria das vezes ma compreensao. Pois é essa ma compreensao acerca do Espirito Santo que ora faz dele um mero agente especial em reunides de oracao carismatica, ora o transforma em “energia” de Deus, uma espécie de forga santa que age em nosso favor. Por outro lado, € comum acontecer de nao o conseguirmos relacionar de modo claro, especifico, a uma pessoa que sente. A maioria de nds nao pensa nele como pessoa e como Deus. Entao quem é, de fato, o Espirito Santo? Antes de mais nada faco esta afirmac&o categérica — que alids talvez a grande maioria pareca redundante: o Espirito Santo é Deus. Ele nao é uma emanacao secundaria da divindade, como pensava 0 presbitero Ario, de Alexandria, ai por volta do ano 300. Ario propagara a doutrina de que Deus, o Pai, criara Jesus Cristo, o Filho, e o Filho criara o Espirito Santo e o enviara a terra. Essa doutrina ganhou algum espacgo na Igreja Crista, até que, no ano 325, o credo niceno estabeleceu que Deus-Pai, Filho e Espirito Santo so igualmente Deus; ou seja, um so Deus em trés pessoas. O ESPiRITO SANTO E DEUS 1. O Espirito Santo é€ Deus porque sua natureza é divina; e a natureza basica essencial da divindade é espirito. Em Joao 4.24 Jesus fala sobre a natureza essencial de Deus, e afirma que Deus é espirito. Ora, se Deus é espirito, e o Espirito Santo € 0 espirito de Deus, e conseqiientemente tem a mesma natureza divina, resta-nos afirmar que ele é da mesma substancia essencial da divindade. 2. Ele é Deus porque estava presente na criacéo quando tirou as coisas do nada, do vazio, e do vazio fez o cosmos. E 0 que diz Génesis 1.1-2. No principio “criou Deus”. 12 “Criou” vem do verbo hebraico bara, que significa “tirar do nada”. O texto de Génesis poderia entao ser lido assim: “No principio tirou Deus do nada os céus ea terra. A terra, porém, era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e 0 Espirito de Deus pairava sobre as aguas.” 3. Ele é o mantenedor da vida, por isso é Deus. Em J6 34.14 e 15 encontramos uma das mais belas e significativas afirmagées biblicas a esse respeito: “Se Deus pensasse apenas em si mesmo e para si recolhesse o seu Espirito e o seu sopro, toda carne juntamente expiraria e o homem voltaria ao pd.” O que o texto esta dizendo é que quem energiza, quem sustenta toda vida, os coragées latejando, o sangue correndo; quem preserva a fotossintese dos vegetais; enfim, quem mantém vivo tudo que tem vida é o Espirito de Deus. No Salmo 104 encontramos também a mesma afirmacao de que o Espirito Santo é o mantenedor da vida. Confirme isto lendo o trecho entre os v. 5 e 30: “Langaste os fundamentos da Terra, para que nao vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuario e © cobriste; as Aguas ficaram acima das montanhas; a tua repreensao fugiram, a voz do teu trovao bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até o lugar que lhes havias preparado. Puseste as Aguas divisa que nao ultrapassarao, para que nao tornem a cobrir a Terra. Tu fazes rebentar fontes no vale, Cujas Aguas correm entre os montes; dao de beber a todos os animais do campo; os jumentos selvagens matam a sua sede. Junto delas tém as aves do céuo seu pouso e, por entre a ramagem, desferem o seu canto. Do alto da tua morada regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o servico do homem, de sorte que da terra tire o seu pao; o vinho, que alegra o coracao do homem, o azeite que lhe da brilho ao rosto, e o pao que lhe sustém as forcas. Avigoram-se as arvores do Senhor, e os cedros do Libano que ele plantou, em que as aves fazem seus ninhos; quanto a cegonha, a sua casa é nos ciprestes. Os altos montes sAo das 13 cabras montesinhas, e as rochas 0 refligio dos arganazes. Fez a lua para marcar o tempo: o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispée as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os ledezinhos rugem pela presa, e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis. Sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até a tarde.” E assim o salmista vai passo a passo descrevendo a criacéo magnificente e grandiosa de Deus, até declarar: “Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia est a Terra das tuas riquezas. Eis o mar, vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. Por ele transitam os navios, e o monstro marinho _ que formaste para nele folgar. Todos eles esperam em ti, que lhes dés de comer a seu tempo. Se lhes das, eles o recolhem; se abres a mao, eles se fartam de bens. Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiracéo, morrem, e voltam ao seu po. Envias o teu Espirito; eles sao criados e assim renovas a face da terra.” Este texto afirma que o Espirito Santo continua atuando hoje na perspectiva da renovacao da natureza e do cosmos. Deus nao apenas criou, mas continua mantendo, renovando e criando dentro da criag&o. O texto se refere, pois, a preservacao da vida, dizendo que Deus prosseque mantendo-a através do envio do seu Espirito (v.30). Dessa forma poderiamos dizer que vivemos numa Natureza Carismatica. Ou seja, poderiamos ver na chegada da primavera uma manifestac&o de uma espécie de Pentecoste natural, uma explosao de graca, uma tremenda renovacao da vida, um testemunho da permanente possibilidade de avivamento. Vendo a vida por essa perspectiva, 0 cosmos se torna um grande sacramento. O Espirito Santo nao é uma entidade confinada a guetos carismaticos e aposentos escuros. Ele trabalha em todo o cosmos! 4. Ele é Deus porque é chamado Deus na Biblia. Em Atos 5.3 e 4, passagem que narra o caso da mentira de 14 Ananias e Safira, bem como 0 juizo que Deus trouxe sobre eles, observe a palavra de Pedro: “Ananias, por que encheu Satands teu coracdo para que mentisses ao Espirito Santo?” E conclui: “Nao mentiste aos homens, mas a Deus.” © que Pedro diz é que mentir ao Espirito Santo é o mesmo que mentir a Deus. Ele é Deus, pois é chamado de Senhor. 2Corintios 3.17 diz: “Ora, o Senhor é 0 Espirito”; e no v. 18 diz: Todos nds, “contemplando como por espelho a gloria do Senhor, somos transformados de gloria em gloria, na sua propria imagem, como pelo Senhor, 0 Espirito.” Observe que a palavra Senhor segue-se uma virgula, depois do que esta dito: “o Espirito.” Ou seja; Paulo chama o Espirito de o Senhor. 5. O Espirito Santo é Deus porque possui atributos divinos. Em Hebreus 9.14 0 apéstolo diz que o Espirito possui eternidade, ao chamé-lo de “Espirito eterno”. O Salmo 139.7 e 10 declara que o Espirito Santo possui onipresenga, pois é capaz de estar a um s6 tempo em todo lugar. O salmista indaga: “...Para onde fugirei da tua face? Para onde me ausentarei do teu Espirito? Se subo aos céus, la estds; se faco a minha cama no mais profundo abismo, Ia estas também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda l4 me havera de guiar a tua m&o e a tua destra me sustera. Se eu digo: As trevas, com efeito, me encobrirao, e a luz ao redor de mim se fara noite, até as proprias trevas nao te serao escuras: as trevas e a luz séo a mesma coisa.” O Espirito do Senhor tem onipresenca! — é 0 que declara este salmo. Diz ainda a Biblia que ele tem onipoténcia. Lucas 1.35 fala sobre a concep¢ao milagrosa de Jesus no ventre de Maria, quando foi engendrado pelo poder do Espirito Santo, ea sombra do Altissimo cobriu Maria. O interessante é que na seqiiéncia imediata do texto conclui-se dizendo que “nao havera impossfveis para nenhuma das promessas do Senhor”, outra vez se criando uma conexao indissoltivel entre a obra do Espirito Santo (na concep¢ao de Jesus) e a onipoténcia de Deus (aquele para quem nao ha impossiveis). 15 Também nos é dito, em 1Corintios 1.10 e 11, que o Espirito Santo tem onisciéncia. “... O Espirito a todas as coisas perscruta; até mesmo as profundezas de Deus” — diz Paulo. Ele sabe tudo. Nao existe mistério algum para ele; nada lhe é oculto; as maiores profundidades da inteligéncia e da divindade sao inteiramente discernidas por ele. 6. O Espirito Santo é Deus porque possui nomes divinos. Em 1Corintios 3.16 ele é chamado de Espirito de Deus. Em Isaias 11.2, de “Espirito do Senhor”. Em Isaias 61.1, de “Espirito do Senhor Deus”. E em 2Corintios 3.3, de “Espirito do Deus vivente”. Lembre que a primeira afirmac&o que fiz sobre quem é o Espirito Santo foi que ele é Deus. Para a maioria das pessoas isto pode soar 6bvio. O fato, entretanto, 6 que nado poderiamos tratar dos assuntos aqui relacionados sem primeiro dizer quem é 0 Espirito Santo. O ESPiRITO SANTO E UMA PESSOA O Espirito Santo é Deus e é também uma pessoa. Ele nao é uma energia impessoal, uma mente fria, sem personalidade, sem coracao. A Biblia nao coloca o Espirito Santo na categoria de Isto, da coisa, mas do Tu, da pessoa. HA no entanto muita confusao a esse respeito, inclusive nos meios evangélicos. Nao que afirmemos teolégica e doutrinariamente que ele seja apenas uma Coisa Santa. Mas a verdade é que nds nos relacionamos muitas vezes com ele, o oramos a ele como se ele nao passasse de uma energia, uma forca. Vocé ja observou que as nossas oracées, quando relacionadas ao Espirito, muitas vezes lhe atribuem apenas poder energético? Oramos: “O Deus, manda a forca do Espirito, o poder do Espirito, a influéncia do Espirito...” De onde vira essa idéia a respeito da impessoalidade do Espirito Santo? A mim me parece que essa idéia resulta da ma compreensao das metaforas que a Biblia usa para caracterizar, manifestar e expressar a pessoa do Espirito. Se nao vejamos: 16 oo Em Joao 20.20, Jesus associa 0 Espirito ao félego. Jesus aparece aos seus discipulos e os satida: “Paz seja nesta casa.” Em seguida sopra e diz: “Recebi o Espirito Santo.” O Espirito aparece pois associado ao fdlego, ao sopro. Em Joao 3:6-8 ele o associa ao vento; “O vento [ou pneuma] sopra onde quer.” E acrescenta: “...Nao sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espirito.” Dessa maneira volta a nossa mente essa idéia de vento. Em Atos 2.1-3 0 Espirito se manifesta como fogo: “... E apareceram distribuidas sobre eles linguas como de fogo.” Portanto, quando o Espirito se manifestou no dia de Pentecoste, o elemento que ele escolheu para expressar a si mesmo foi o fogo. O préprio Joao Batista ja havia dito que o batismo do Espirito Santo seria também batismo com fogo: “Aquele que vem apds mim vos batizara com Espirito Santo e com fogo.” Ora, tudo isso me traz 4 memoria uma singela historia vivida por mim e Ciro, meu filho mais velho. Na ocasiao ele tinha uns trés anos, e mostrava muita curiosidade por assuntos de teologia. Um dia ele me perguntou: — Papai, Deus sabe tudo? — Sabe! — respondi. — Se ele sabia de tudo, por que entao criou Adao, se sabia que Adao ia pecar, papai? — Meu filho - esclareci -, eu pensei nisso pela primeira vez aos 13 anos. Vocé pensou 10 anos antes de mim... E tentei explicar como pude. Uns dois ou trés dias depois, eu estava em casa, a tarde. Ventava demais. Ele vinha chegando do quintal, cansado, suadinho, com o rosto cheio de terra. — Papai, eu queria ser cheio do Espirito Santo. Como é que faco? O que € 0 Espirito Santo? Eu nao sabia como explicar e como poderia me fazer entender. Fui para o quintal com ele. Nosso quintal era muilo 17 arborizado; ventava muito. O cabelo de Ciro, um pouco grande, comecou a se agitar. — Vocé esta sentindo esse vento em nossa direcdo? - perguntei. — Estou. — Pense como seria se este vento tivesse a capacidade de amar, de sentir, de saber tudo, de estar em todo lugar, de morar no seu coracao. Ele estava olhando para mim, atento e curioso. Entao acrescentei: — O Espirito Santo é como esse vento. Com a diferenca de que é um vento que ama; é uma “pessoa”. Ele pensou, respirou fundo, e disse: — Ah, papai, eu quero ficar cheio do Espirito Santo. Ora, estou desejando aproveitar memoria daquela minha conversa com o Ciro para dizer a vocé a mesma coisa: O Espirito Santo é energia, é forga, € poder, mas é sobretudo pessoa. Vejamos as razGes por que afirmamos que o Espirito Santo @ uma pessoa. 1. O Espirito Santo é pessoa porque pode entristecer- se. Em Efésios 4.30, Paulo diz: “E nao entristecais o Espirito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redencao.” O Espirito Santo @ uma pessoa capaz da tristeza, da dor e do sofrimento. Ele sofre quando eu peco, quando vocé peca. Ele vive em nds, e se entristece com as manifestacdes do nosso pecado. 2. O Espirito Santo é pessoa porque é capaz de sentir citimes, é Tiago quem nos diz isto quando afirma: “Infiéis, nao compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Ou supondes que em vao afirma a Escritura: E com citime que por nés anseia o Espirito, que ele fez habitar em nds?" (Tg 4.4,5). Quando traimos a Deus através dos nossos pecados, ambigitidades, contradicées, negagdes da fé, amasiamentos 18 com o mundo, o Espirito de Deus sente citimes, como o marido quando a mulher adultera, e vice-versa. Ele sente citimes do adultério moral (impureza), espiritual (idolatria), econdmico (amor ao dinheiro), politico (paixao e esperancas politicas mais acentuadas em relacao ao programa humano que ao Reino de Deus). O Espirito nao @ simplesmente alguém que entra em nos de vez em quando e depois sai. Ele vem e¢ fica. Além disso ele nao esta presente apenas para energizar-nos a vida. Nao: ele é uma pessoa com a qual mantemos relagdes pessoais. E 0 marido da nossa alma e da nossa consciéncia. 3. O Espirito Santo é uma pessoa porque pode gemer de dor empatica, é capaz de sentir conosco as agonias da nossa existéncia. Este talvez seja o aspecto mais existencial da acao do Espirito na vida do cristao. Paulo diz: “Também o Espirito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque nao sabemos orar como convém, mas o mesmo Espirito intercede por nds sobremaneira com gemidos inexprimiveis. E aquele que sonda os coragées sabe qual é a mente do Espirito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (Rm 8.26,27). O Espirito sente dores nao apenas em razao de nossos pecados, mas também das nossas dores. Ele sente nao somente as dores que nossos pecados causam nele, mas também as dores que sentimos. Paulo diz que o Espirito intercede por nds quando a nossa existéncia estA imersa em profunda fraqueza. O Espirito é€ aquele que se revolve na nossa interioridade, nos levando a orar. E também ele que expressa o inexprimivel da nossa alma diante de Deus com gemidos inexprimiveis, e faz oragdes coadunaveis com a perspectiva do Pai no que diz respeito a responder de acordo com as nossas necessidades. Foi por tudo isso que eu disse que provavelmente este seja o elemento mais existencial da acdo do Espirito Santo na vida humana. Jean Paul Sartre afirmou que a vida é angustia. No caso dele era uma angistia angustiadamente solitaria porque nao havia ninguém com ele. Nao obstante 19 estivesse repleto de amigos ao redor, estava irremediavelmente sozinho. Mas quando se conhece o Espirito Santo, mesmo nos dias mais escuros da alma havera alguem conosco, gemendo nosso gemido e orando o inexprimivel paro o Pai. 4. O Espirito Santo é pessoa porque tem uma mente que pensa, e pensa de maneira livre! (Rm 8.27). Paulo fala a respeito da “mente do Espirito”. Ele nao é um programado; nao @ o mecanismo intercessor da Trindade. Ele nao faz apenas aquelas coisas que desde a antigtiidade foi determinado que fizesse. Nao € mesmo surpreendente pensar no fato de que essa pessoa da Trindade, que mora em nés, tem uma mente, e pensa? E tal poder de pensar acontece simultaneamente ao nosso! O Espirito que vive em nés é livre para pensar. E por isso que ouso afirmar que todo estado de paz mental é resultado de uma harmonizacao entre o nosso pensar e o pensar do Espirito. Quando penso numa diregao diferente daquela na qual o Espirito pensa, entao o resultado é angtistia e depressao. 5. O Espirito Santo é uma pessoa porque é capaz de ensinar. Em 1Corintios 2.11 e 13, Paulo diz que o Espirito conhece e perscruta todas as coisas até as profundezas de Deus. No v.13 esta dito que ele nao apenas as conhece e revela, como também as ensina, o que implica 0 fato de que nos ensina a pensar. Ha sentido e ha ordem quando o Espirito fala. Deus nao fala com expressées sem sentido. O Espirito nos ensina a conferir coisa com coisa (1Co 2.13). Dai a minha certeza de que, quanto mais sadiamente espiritual uma mente @, mais capaz da reflexao em bom-senso ela sera. 6. O Espirito Santo é pessoa porque é capaz de falar, Este €, de acordo com os antropdlogos, o maior sinal de personalidade consciente que um ser pode manifestar: o poder de falar. A Biblia esta repleta de textos que nos afirmam que o Espirito fala. Fala porque é capaz disso. E fala porque faz isso de modo perceptivel e compreensivel. O livro de Atos deixa isso muito claro, quando registra expressdes como: “ disse-me o Espirito”, “falou-me o Espirito...” 20 Em Atos 8:29 lemos: “Ent&o disse o Espirito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o.” Em Atos 10.19- 20, depois de ter Pedro uma visdo, enquanto meditava sobre ela, diz-lhe 0 Espirito: “Esto ai dois homens que te procuram; levanta-te, pois, desce e vai com eles.” Ou em Atos 13.2, onde esta escrito: “...Disse o Espirito Santo: Separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.” Vemos que o Espirito nao falava apenas no Antigo Testamento, aos profetas, mas neotestamentariamente é descrito como alguém que fala a igreja. E ele nao falava apenas 4 igreja no primeiro século porque o canon da Escritura ainda nao estava terminado. Para os judeus na antigitidade — mesmo considerando que do ponto de vista deles a revelacao tinha chegado ao fim — 0 Espirito era livre para continuar se comunicando. Isso porque eles faziam diferenga entre o que o Espirito dizia e deveria ser escrito como Escritura, e 0 que ele dizia sem finalidade redatorial. E lamentavel que boa parte da Igreja de Cristo no mundo nao acredite mais que o Espirito fala. Pois ele fala quando ilumina a Escritura, mas também fala de acordo com os parametros biblicos. Nem tudo o que o Espirito fala é para ser escrito, mas tudo o que ele fala deve ser ouvido. Uma das maximas do livro de Apocalipse é advertir as igrejas acerca do que o Espirito diz. “O Espirito diz as igrejas...” — é o que lemos. 6. O Espirito é pessoa porque tem vontade. Se nao, veja o que a esse respeito diz a Escritura. Talvez a mais importante afirmagao seja a de que ele distribui dons segundo seu alvitre, conforme lhe apraz! Ele tem volicao, no sentido do termo (1Co 12.11). 7. O Espirito @ uma pessoa porque ama. A esse respeito Paulo diz: “Rogo-vos, [...] pelo amor do Espirito, que luteis juntamente comigo nas oragées a Deus a meu favor” (Rm 15.30). O apdstolo menciona o amor do Espirito num texto cheio de apelo a solidariedade crista. Paulo pede que os irmaos assumam uma espécie de integrac&ao de almas para 21 interceder junto com ele, com base no amor do Espirito. Ora, nesta mesma perspectiva do amor, Neemias chama o Espirito de “o bom Espirito”(9.20). O Espirito Santo é realmente uma pessoa. Ninguém pode entristecer o vento oriental. Ninguem pode despertar citmes no fogo, nem produzir paixao nas aguas. Ninguém irrita a lei da gravidade. Mas ao Espirito é possivel entristecer, enciumar, provocar paixao dolorida etc. O Espirito Santo é forca, é poder, e é energia. Entretanto, e antes de tudo, ele é uma pessoa — pessoa que sente, se entristece, ensina, fala, tem vontade e ama. 22 = - am = % eo Como Age o Espirito Santo? Neste capitulo estudaremos algumas das principais express6es de acao do Espirito Santo. Isso porque, como vimos no capitulo precedente, o Espirito é pessoa. E tal atri- buto é a propulsdo essencial para a capacidade de agir com consciéncia. O Espirito age com base no que sente, pensa, sofre, ama e deseja. Em outras palavras, suas agdes sao todas coerentes com seu ser essencial. Neste capitulo estudaremos cinco das principais relagdes do Espirito Santo. Comegare- mos observando o relacionamento do Espirito com Jesus. O ESPIRITO SANTO EM RELACAO A JESUS 1. O Espirito foi o agente da fecundaco de Jesus: “Descera sobre ti o Espirito Santo, e o poder do Altissimo te envolveré com a sua sombra; por isso também o ente santo que ha de nascer seré chamado Filho do Altissimo” (Lc1.35). Este é um fato sobejamente conhecido. O milagre do nasci- mento de Jesus foi milagre do Espirito. Foi ele quem criou as excepcionais e milagrosas condi¢ées biolégicas que permiti- ram a Maria conceber sem jamais ter tido relacao sexual. 23 Assim, Jesus nao foi uma criac&o de Deus fora da criagao, mas também nao foi apenas o resultado comum e natural do ininterrupto processo humano de concepcao e transferéncia — via concepcao — de todos os nossos legados humanos de corrupcao essencial. Jesus nasce de mulher herdando huma- nidade total, sem no entanto herdar pecados e corrup¢ao essenciais. , 2. Foi o Espirito também quem ungiu Jesus. Jesus, que sumariou o Deus eterno — o qual se encarnou nele, se engendrou nele, porque era Deus —, foi também ungido pelo Espirito Santo. E o que nos diz Lucas 3.22, quando afirma que no batismo de Jesus veio o Espirito em forma corpérea, como pomba, e pousou sobre ele. Jesus é Deus ungido por Deus como homem, mostrando que nem Deus no homem que ser homem sem a uncio de Deus. O fato de que Jesus é ungido pelo Espirito nos mostra que nao ha possibilidade de se fazer ministério cristao sem a uncao do Espirito. Nem Deus-homem age na histéria sem ungao. Lucas 4.1 nos diz que Jesus estava cheio do Espirito Santo; o v. 14 do mesmo capitulo nos informa que ao voltar da tenta¢ao ele iniciou seu ministério no poder do Espirito Santo. O livro de Atos do Apostolos diz que ele foi ungido pelo Espirito para fazer o bem, curar e libertar a todos os oprimidos do diabo (10.38). 2. Eo Espirito Santo que da testemunho de Jesus. Em Joao 15.26, Jesus afirma que ele, o Espirito, daria teste- munho dele, Jesus; exalta-lo-ia acima de tudo e antes de qualquer coisa. Jesus, em outras palavras, estava dizendo que o maior, mais profundo e essencial assunto e mensagem do Espirito Santo seria Jesus Cristo, sua morte, sua ressurrei- ao, sua sabedoria, seu poder salvador e seu senhorio. Assim é 0 Espirito que glorifica. Acerca disso Jesus afirma: “Ele me glorificara porque ha de receber do que é meu” (Jo 16.14). Apés a obra terrena de Jesus, ele veio habitar o coragao dos crentes. Em Joao 16.7, Jesus diz: “Convém que eu va, por- que se eu nao for, o Consolador nao vira para vs outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei.” O interessante é@ que, no 24 cap. 14, v. 14 de Joao, Jesus fala da companhia do Espirito Santo na comunidade dos discipulos. Jesus diz: “Ele habita convosco.” Ou seja: “Ele esta influenciando tudo; esta traba- lhando o coracdo de vocés nesses trés anos do meu ministé- rio.” Mas entao Jesus promete que o Espirito néo apenas habitaria com eles, mas estaria neles, nao mais como uma simples influéncia no ambiente, mas como presenga real no interior, no coracao, invadindo tudo, se embrenhando em tudo: miscigenando-se, fundindo-se 4 alma deles; selando, lacrando, morando definitivamente em seu coracao: “Ele ha- bita convosco, mas estaré em vés.” 3. A ressurreicao de Jesus é obra do Espirito Santo. Jesus ressuscitou dentre os mortos mediante a acao glorificante do Espirito Santo. Isto esta registrado em Romanos 8.11: “Se habita em vés o Espirito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou Cristo Jesus dentre o mortos vivificara também os vossos Corpos mortais por meio do seu Espirito que em vés habita.” 4. O Espirito Santo foi o agente da entrega dos man- damentos aos discipulos. Em Atos 1.1 e 2, Lucas afirma que Jesus, antes de ser assunto aos céus, entregou mandamentos por intermédio do Espirito Santo aos apéstolos por ele esco- lhidos. Todo o seu ensino foi impresso na mente dos discipu- los pelo poder da manifestacao especial do Espirito Santo, que lhes gravou verdades na alma, mesmo antes do Pentecoste. O ESPIRITO SANTO EM RELACAO A PALAVRA 1. O Espirito Santo inspirou as Escrituras. Pedro diz a esse respeito “que nenhuma Escritura provém de particular elucidagéo humana; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto homens santos fa- laram da parte de Deus movidos pelo Espirito Santo” (2Pe 1.20,21). Nao ha, a luz desse texto, margem para qualquer debulhacao critica das Escrituras, ou para descobrirmos a te- 25 ologia produzida por Paulo, Pedro, Tiago, ou quaisquer ou- tros, como se concebidas por homens, divorciadas entre si e seccionaveis para estudos que saciem a curiosidade humana. A Escritura, muito ao contrario, revela-se como um todo; toda ela é inspirada pelo Espirito Santo, ainda que tal revela- cao tenha sido gradual e progressiva. Pedro incluia, entre aquilo que ele chamava de Escritura, as cartas de Paulo. Ain- da em sua segunda epistola, cap. 3, v. 16, o apéstolo faz referéncia a elas dizendo que se equiparavam as “demais Es- crituras”. Diz o v. 16: “Nas quais ha certas coisas dificeis de entender, que os ignorantes e instaveis deturpam.” Pedro co- loca as cartas de Paulo em pé de igualdade com Jeremias, Isaias, os profetas, o Pentateuco e tudo o mais. Ele as consi- dera tao inspiradas quanto as outras partes da Palavra de Deus; corrompé-las eqitivalia, portanto, a deturpar a Escritu- ra. Afirma-se assim, mais uma vez, a inspiracao do Espirito na Palavra de Deus. Paulo, como homem, errou algumas vezes. Nem sua conversao o isentou de tal possibilidade. To- davia suas cartas foram mais que cartas. Foram cartas de Deus a igreja e a historia. 2. O Espirito Santo interpreta as Escrituras. Em Efésios 1.17 Paulo ora, pedindo a Deus que os homens rece- bam inspirac¢ao, iluminacao e espirito de sabedoria e de reve- lacgao, no pleno conhecimento e discernimento das coisas de Deus. Dessa forma a iluminacao do coracdo para discernir as Escrituras é obra do Espirito. Sem a iluminacao do Espirito é possivel conhecer muito da Escritura através dos instrumen- tos hermenéuticos. Também qualquer estudo histérico-técni- co do texto biblico é extremamente revelador em si mesmo, ainda que o estudioso nao ore e nem creia no Espirito. No entanto, tais estudos e instrumentos s6 nos possibilitam sua compreensao objetiva. E sem dtiwvida a Escritura se permite tal analise. Contudo, seu significado para hoje como Palavra de Deus dirigida a nds como pessoas, nao se da, de modo nenhum, mediante os instrumentos hermenéuticos. Ele de- corre da iluminacao do Espirito Santo. E neste sentido toda 26 instrugao e sabedoria do mundo sao totalmente intiteis. Afi- nal, quando somos estimulados pela Escritura a nela meditar e a entendé-la, somos instigados a um estudo inteligente, conferindo coisas espirituais com coisas espirituais. Nao ha, entretanto, um estudo técnico da Escritura. Tais estudos sao utilissimos quando acompanhados de piedade e reveréncia diante da Palavra de Deus. Caso contrario eles sao apenas estudos da letra morta da Palavra. Parece que foi exatamente isso que Joao quis dizer quando afirmou: “Quanto a vds ou- tros, a uncao que dele recebestes permanece em vos, e nao tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas como a sua uncao vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verda~ deira, e nao é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou” (1Jo 2.27). 3. O Espirito transforma a Palavra de Deus em espa- da. Paulo diz, em Efésios 6.17, que ela é a espada do Espiri- to. Sem o Espirito, a Escritura é um livro que alguns tedlogos céticos conseguem reduzir a quase nada. Sem ele, ela é lida, manifesta, e amitide nao produz os efeitos esperados porque, freqiientemente, pregamos a Palavra movidos por presuncao e nao pela un¢ao que faz da Escritura a Palavra-espada de Deus. Ela é espada, mas tem que ser usada pelo Espirito. Nas maos do Espirito ela edifica; nas maos de um ser humano presuncoso e sem temor de Deus ela é uma calamidade. Ser- ve para dar base a qualquer loucura humana. Nas maos do Espirito a Escritura golpeia o pecado, constréi o amor, de- fende a verdade, promove a justica, consola o aflito e entroniza Jesus; mas nas maos do espirita, por exemplo, ela exalta Chico Xavier, porque ele a interpreta de forma completa- mente errada, dela se aproveitando de modo desastroso. 4. O Espirito Santo torna a Escritura uma realidade escatolégica: “Quando vier, porém, o Espirito da verdade, ele vos guiara a toda verdade; porque nao falara por si mes- mo, mas dira tudo aquilo que tiver ouvido, e vos anunciara as coisas que hao de vir” (Jo 16.13). E portanto o Espirito Santo quem da a Escritura essa caracteristica preditiva. Jesus 27

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