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CoNCEITOS E DEFINICOES liagéo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Os diversos ramos da ciéncia desenvolveram terminologia propria, dando as pala- vras um significado 0 mais exato possivel, eliminando ambiguidades ¢ reduzindo a ‘margem para interpretagdes de significado. A gestéo ambiental, ao contrario, utiliza varios termos do vocabulario comum. Palavras como “impacto”, “avaliagdo” e mesmo a prépria palavra “ambiente” ou o termo “meio ambiente’, por exemplo, nao foram cunhadas propositadamente para expressar algum conceito preciso, mas apropriadas do vernaculo, e fazem parte do jargéo dos profissionais desse campo. Por essa razo, € preciso estabelecer, com a maior clareza possivel, o que se entende por expresses como “impacto ambiental” e “degradacio ambiental”, entre outras. Neste capitulo, serdo apresentadas definicdes de varios termos correntes no campo de planejamento ¢ gestio ambiental, empregados seguidamente neste livro. Essa revisdo conceitual tem © propésito de, em primeiro lugar, mostrar a diversidade de acepcdes, mesmo entre especialistas, e, em segundo lugar, estabelecer uma base terminolégica sélida que sera empregada ao longo de todo 0 livro. Uma visio histérica sobre 0 entendimento coletivo da problemdtica da degradacio ambiental constataré a grande diferenca conceitual entre “impacto ambiental” ¢ “poluico”, termo bem incorporado ao linguajar contemporaneo. A partir da década de 1950, palavra “poluicdo” passoua ser bastante difundida, primeiro, no meio académi co ¢, em seguida, pela imprensa. Foi incorporada a uma strie de leis que estabeleceram condigées ¢ limites para a emissio ¢ presenca de diversas substancias nocivas — chamadas de “poluentes” — nos diversos compartimentos ambientais. Durante algum tempo, a ideia de “poluicéo” dominou o debate sobre temas ambientais, mas a com- plexidade dos problemas de meio ambiente mostrou que esse conceito era insuficiente para dar conta de um sem-mimero de situacdes. Foi quando se consolidou a ideia de “impacto ambiental”, ao longo dos anos 1970. 0 préprio conceito de “ambiente” admite miltiplas acepgdes, que sero exploradas antes de se buscar conceituar “impacto ambiental’. A questao ambiental diz respeito a0 meio natural ou a0 meio de vida dos seres humanos? Quando se diz que deter minado projeto nao ¢ vidvel ambientalmente, 0 que se entende por ambiente? Ao se declarar que determinado produto é preferivel em relacdo a produtos similares porque causa menor impacto ambiental, de que ambiente se fala? Quem afirma que tal resi duo industrial nao representa um risco ambiental, refere-se a qual ambiente? Quando se ouvem alegacdes de que a qualidade ambiental nos paises desenvolvidos melhorou nos tiltimos dez anos, devemos entendé-las com referéncia ao ambiente total ou a determinado aspecto do meio? 1.1 AMBIENTE 0 conceito de “ambiente’, no campo do plangjamento ¢ gestio ambiental, é amplo, multifacetado ¢ maledvel. Amplo porque pode incluir tanto a natureza como a socie- dade. Multifacetado porque pode ser apreendido sob diferentes perspectivas. Maledvel porque, ao ser amplo e multifacetado, pode ser reduzido ou ampliado de acordo com as necessidades do analista ou os interesses dos envolvidos. Muitos livros-texto de ciéncia ambiental sabiamente passam longe de qualquer ten- tativa de definiggo do termo. Envolver-se em insohiveis controvérsias filosdficas ¢ Concerros & Deri "as ou em isperas discussOes sobre campos de competéncias profissio- Ser a sina de quem se arrisca nessa seara. Mesmo assim, néo so poucos os im. desde andnimos assessores parlamentares, redatores de projetos de lei, sados cientistas. Conceituar o termo “ambiente” esta longe de ter somente académica ou teérica. 0 entendimento amplo ou restrito do conceito de- © alcance de politicas publicas, de agdes empresariais ¢ de iniciativas da SWVIL No campo da avaliagao de impacto ambiental, define a abrangéncia Os ambientais, das medidas mitigadoras ou compensatorias, dos planos ss de gestdo ambiental. tido, a interpretacdo legal do conceito de “ambiente” é determinante na defi- aicance dos instrumentos de planejamento e gestéo ambiental. Em muitas para as comunidades humanas, seu modo de vida ou sua capacidade de tenda. Trata-se, claramente, de impactos sociais e econémicos que, de modo deveriam ser ignorados ou Mmenosprezados em um estudo ambiental dessa - E o que dizer quando agricultores perdem suas terras ou mesmo stas casas Ser lugar a uma represa? Nao ¢ apenas seu meio de subsisténcia que é afeta. © Préprio local em que vivem, onde nasceram muitos dos habitantes atuais Jezem seus ancestrais. 0 Impacto da hipotética barragem nio inclui uma Possivelmente radical, sobre os modos de viver e fazer dessas pessoas? 0 Bensar quando as aguas inundam os pontos de encontro da comunidade, locais S20 fluvial que ocorre todos os anos? Trata-se, nesse exemplo, de um signifi- © impacto sobre a cultura popular. Deveria ser levado em conta no estudo de o ambiental? = répida consulta leis de diferentes paises mostra similaridades ¢ diferengas na ncira de definir seu campo de aplicago. Na legislacdo brasileira, meio ambiente © Conjunto de condigées, leis, influéncias e interacdes de ordem fisica, quimica ¢ ica, que permite, abriga ¢ rege a vida em todas as suas formas” (Lei Federal = 6.938, de 31 de agosto de 1981, art. 3, 1), ® Chile, “meio ambiente" (medio ambiente) &“o sistema global constituido por ele- ‘Santos naturais ¢ artificiais de natureza fisica, quimica ou biologica, soctoculturais € Sess Interacdes, em permanente modificagto pela a¢do humana ou natural e que rege Scondiciona a existéncia ¢ desenvolvimento da vida em suas multiplas manifesta. ‘Secs" (Ley de Bases del Medio Ambiente n° 19.300, de 3 de margo de 1994, art. 2°. K). No Canadé, “ambiente” (environment) “significa os componentes da Terra, ¢ inclui (2) terra, gua e ar, incluindo todas as camadas da atmosfera; (b) toda 2 matéria ‘erginica e inorgénica ¢ organismos vivos; e (¢) os sistemas naturais em interagio que liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos incluam componentes mencionados em (a) (b)" (Canadian Environmental Assessment Act (2) 1, sancionado em 23 de junho de 1992) Na provincia canadense do Quebec, “ambiente” (environnement) é “a agua, a atmos- fera € 0 solo ou toda combinagéo de um ou outro ou, de uma maneira geral, 0 meio ambiente com o qual as espécies vivas entretém relagdes dinémicas” (Loi sur la Qualité de Environnement - L.R.O., c. Q-2, Section I, 1). No Quebee, a questo do aleance dos estudos de impacto ambiental é explicitada pelo Escritério de Audiéncias Puiblicas Ambientais (BAPE - Bureau ’Audiences Publiques sur l'Environnement) da seguinte form: A nogio de ambiente geralmente adotada pelo BAPE nao se aplica somente as questies de ordem biofisica; tal como designado na Lei sobre a Qualidade do Ambiente (LR.Q., ¢. Q-2 - 2.20), ela engloba os elementos que podem “amea- car a vida, a saide, a seguranga, 0 bem-estar ou 0 conforto do ser humano”, Quer tenham um alcance social, econdmico ou cultural, estes elementos so abordados, quando da andlise de um projeto, da mesma maneira que as preo- ccupagies acerca do meio natural. Esta visio ampliada do conceito de ambiente € reconhecida no Regulamento sobre a avaliagéo e a andlise dos impactos am- bientais [.] (BAPE,1986), Em Hong Kong, “ambiente” (environment) “(a) significa os componentes da terra; € (b) inclui (i) terra, agua, ar e todas as ca- madas da atmosfera; (ii) toda a matéria organica € inorganica e organismos vivos; ¢ (ii) os sistemas naturais em interagao que incluam qualquer uma das coisas referidas no subpardgrafo (i) ou i)” (Environmental Impact Assessment Ordinance, Schedule I, Interpretation, de 5 de fevereiro de 1997). Definigdes legais muitas vezes acabam por se revelar tautoldgicas ou, entao, incompletas, a ponto do termo nem Fig. 1.1 Parque Nacional Kakadu, situado nos Terrtérias Setentrionais, mesmo ser definido em muitas leis, dei- Australia, No plano médio, 0 mina de urénio Ranger e, 00 fundo, escarpa arenitica onde cultuam-se os espirites sogrados dos aborigenes. Uma dos princioais dificuldades para aprovagao deste projeto foi seu impacto sobre 0s valores culturais da populacéo aborigene xando eventuais questionamentos para a interpretacdo dos tribunais. 0 carater miiltiplo do conceito de ambiente n&o s6 permite diferentes interpretacdes, como se reflete em uma variedade de termos correlatos ao de meio ambiente, oriundos de distintas disciplinas e cunhados em diferentes momentos histéricos. 0 desenvolvimento da ciéncia levou a um conhe- cimento cada vez mais profundo da natureza, mas também produziu uma grande especializagao nao somente dos cientistas, mas também dos profissionais formados nas universidades. Por essa razio, 0 campo de trabalho do planejamento e gestdo ambiental requer equipes multidisciplinares (além de profissionais capazes de inte- grar as contribuigdes dos varios especialistas). As contribuicées especializadas aos estudos ambientais costumam ser divididas em trés grandes grupos, referidos como 0 meio fisico, 0 meio bidtico ¢ 0 meio antrépico, cada um deles agrupando o conheci- mento de diversas disciplinas afins. Uma sintese das diferentes acepgées do ambiente € de termos descritivos de diferentes clementos, compartimentos ou fungées é mos- trada na Fig. 1.2. Por um lado, ambiente ¢ 0 meio de onde a sociedade extrai os recursos essenciais & sobrevivéncia e os recursos demandados pelo processo de desenvolvimento socioeco- nomico. Esses recursos sio geralmente denominados naturais. Por outro lado, 0 ambiente é também o meio de vida, de cuja integridade depende a manutengéo de fungdes ecologicas essenciais vida. Desse modo, emergiu 0 conceito de recurso ambiental, que se refere nao mais somente a capacidade da natureza de fornecer recursos fisicos, mas também de prover servicos ¢ desempenhar fungoes de suporte a vida. Até a primeira metade do século XX era quase universal 0 uso do termo recurso na- tural. Desenvolveram-se disciplinas especializadas, como a Geografia dos Recursos Naturais ¢ a Economia dos Recursos ‘Concertos & Denna Naturais. Implicita nesse conceito esté Ambiente uma concepgéo da natureza como fornecedora de bens. No entanto, a Uitosfee sobre-explotacio dos recursos naturais oe a Biosfera Antroposfera desencadeia diversos processos de de- Pesesera gradacéo ambiental, afetando a propria Litologta ina 1 Eanes capacidade da natureza de prover os Solos Flora Sociedade servigos ¢ as fungies essenciais a vida. fess Ronbtemes Sta Aguas E nitido, entao, que 0 conceito de ambiente oscila entre dois polos: o for- necedor de recursos € 0 melo de vida, que sao duas faces de uma sé realidade. Ambiente nao se define “somente como um meio a defender, a proteger, ou mesmo a conservar intacto, mas também como potencial de recursos que permite renovar as formas mate- Tiais e sociais do desenvolvimento” (Godard, 1980, p. 7). —— Natureza Paisegem —— Ambiente natural Recursos ambientas, Para Theys (1993), que examinou varias classificagées, tipologias ¢ defi- nigdes de ambiente, ha trés diferentes maneiras de conceitua-lo: uma concep- io objetiva, uma subjetiva e outra que, — Patsimomio natural | — Capital natural Diferentes acepcbes do bindmio natureza-sociedade na falta de melhor termo, o autor deno- mina de tecnocéntrica. Na concepgao diferentes disciplinas —— Anmbiente fa spagos naturals —— Espags ais —e consiuido| urban Espacos— industrials. Recursos cuturais Capital social Capital econdmico —— Recursos natursis + —— fecursos humanos — Patino cute > Capital humane —! Fig. 1.2. Abrangéncia do conceito de ambiente ¢ termos correlatos usados em liagdio de Impacto Ambiental: conceitos e métodos objetiva, ambiente & assimilado a ideia de natureza e pode ser descrito como: uma colecdo de objetos naturais em diferentes escalas (do pontual ao global) e niveis de organizagio (do organismo & biosfera), ¢ as relac&es entre eles (ciclos, fluxos, redes, cadeias tréficas). Tal concepco pode ser vista como biocéntrica, uma vez que nenhuma espécie tem mais importancia que outra, ¢ a prépria sociedade, em certa medida, pode ser analisada a luz desses conceitos, como 0 fazem disciplinas como a Ecologia Humana (Moran, 1990). A concepsdo subjetiva encara o ambiente como “um sistema de relagdes entre 0 homem ¢ 0 meio, entre ‘sujeitos’ e ‘objetos” (Theys, 1993, p. 22). Essas relacdes entre 05 sujeitos (individuos, grupos, sociedades) ¢ os objetos (fauna, flora, agua, ar etc.) que constituem o ambiente implicam necessariamente relagdes entre esses sujeitos a respeito das regras de apropriagéo dos objetos do ambiente, transformando-os em objetos de conflito, e o ambiente, em um campo de conflitos. A concepgao antropo- céntrica pode ser profundamente fragmentada, na medida em que “cada individuo, cada grupo social, cada sociedade seleciona, entre os elementos do meio e entre os tipos de relagdes, aquelas que the importam” (Theys, 1993, p. 26), de modo que 0 ambiente ndo é uma totalidade, e sua apreensio depende do ponto de vista, de um sistema de valores, crencas, da percep¢o (uma implicagdo pratica desse relativismo serd vista no Cap. 6, em um estudo de impacto ambiental de uma grande barragem no Canada), Em qualquer caso, ambiente € algo externo ao agente ou a um sistema. Conflitos entre “desenvolvimentistas” ou “produtivistas” e integrantes de certas cor- rentes do movimento ambientalista podem ser facilmente vistos € interpretados sob esse angulo. No entanto, a extensio do “natural” no planeta Terra modifica-se conforme a huma- nidade expande sem cessar suas atividades e interfere de modo crescente na natureza. A relagdo das sociedades contempordneas com seu ambiente € mediada pelo emprego de técnicas cada vez mais sofisticadas, a ponto de muitas vezes diluir a propria nogo de ambiente como um elemento distante ou virtual. Na pratica, a sociedade moderna nao tem outra opgdo a nao ser gerir 0 meio ambiente, ou seja, ordenar e reordenar constantemente a relagio entre a sociedade e o mundo natural. Na verdade, a dis- tincdo entre “sujeito” e “objeto” perde muito de seu sentido, haja vista a crescente artificializagio do mundo natural. Mas, como nao ha nem pode haver independéncia ou autonomia da cultura em relagdo & natureza, faz-se necessario melhor gerir essa relacdo, e duas perspectivas so possiveis (Theys, 1993, p. 30): (i) tentar determinar as condigbes de producao do melhor ambiente possivel para o ser humano, renovando sem cessar as formas de apropriagio da natureza, ou (i) tentar determinar 0 que é suportavel pela natureza, estabelecendo, portanto, limites & acio da sociedade. Assim, sob um ponto de vista que, idealmente, coadune as visdes ¢ contribuigdes das diversas disciplinas para o campo do planejamento e gesto ambiental, deve-se buscar entender o ambiente sob miiltiplas acepcdes: nao somente como uma colegdo de objetos e de relacdes entre eles, nem como algo externo a um sistema (a empresa, a cidade, a regiao, o projeto) e com o qual esse sistema interage, mas também como um conjunto de condicdes ¢ limites que deve ser conhecido, mapeado, interpretado ~ definido coletivamente, enfim -, e dentro do qual evolui a sociedade. cori 1.2 CULTURA E PATRIMONIO CULTURAL Jé foi dito anteriormente que as repercussées de um projeto podem ir além de suas consequéncias ecolégicas. Agdes humanas repercutem sobre as pessoas, quer no plano econémico, quer no social, quer no cultural. O reassentamento de uma popu- lao deslocada por um empreendimento pode desfazer toda uma rede de relacdes comunitirias, causar 0 desaparecimento de pontos de encontro ou de referenciais de meméria e, com isso, relegar lendas, mitos ou manifestacées da cultura popular ao esquecimento. Ademais, empreendimentos modernizadores modificam profunda- mente os modos de vida das populacées tradicionais, nem sempre preparadas ou mesmo desejosas dessas modificacées. ‘A palavra “cultura” reflete uma nocdo muito vasta. Em certo sentido, tudo o que faz o ser humano é cultura, Cultura pode ser entendida como oposto ou o complemento da natureza. Cientistas sociais falam em cultura técnica, administradores, em cul- tura organizacional. Para se discutir “impacto cultural’, € preciso ter uma definigao operativa de cultura. Bosi (1994) sintetiza 0 conceito de cultura como “heranca de valores ¢ objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso”. Morin e Kern (1993, p. 60) a definem como: conjunto de regras, conhecimentos, téenicas, saberes, valores, mitos, que per~ mite e assegura a alta complexidade do individuo e da sociedade humana e que, nio sendo inato, precisa ser transmitido e ensinado cada individuo em seu periodo de aprendizagem para poder se autoperpetuar ¢ perpetuar a alta com- plexidade antropo-social. Uma maneira de tratar a cultura emprega a nog&o de “patriménio cultural”, que na atualidade é um conceito muito abrangente, abarcando um sem-ntimero de criagdes ‘humanas, passadas ou presentes. No passado, 0 conceito de “patriménio” limitava- se a bens de natureza material que recebiam alguma forma de reconhecimento oficial, como na locugao “patriménio histérico”. Modernamente, “patriménio cul- tural” inclui também bens de natureza imaterial, assim como produtos da cultura popular. A Constituigdo brasileira traz uma definicgo ampla e atual de patriménio cultural (art. 216) Constituem patriménio cultural brasileiro os bens de natureza material ¢ ima~ terial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referéncia & identidade, & ago, & meméria dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: 1 ~as formas de expressio; IL ~ os modos de erfar, fazer ¢ viver: II ~ as criagdes cientificas, artisticas ¢ tecnologicas; 1V ~ as obras, objetos, documentos, edificagdes e demais espagos destinados as manifestagdes artistico-culturais; V_ - 08 conjuntos urbanos e sitios de valor histérico, paisagistico, artistico, arqueolégico, paleontoldgico, ecologico ¢ cientifico. Os bens imateriais ou intangiveis incluem uma ampla variedade de produgdes coleti- ‘vas, como linguas, lendas, mitos, dangas e festividades, atualmente tdo necessitadas de protec quanto os recursos ambientais. 4 liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Os bens materiais podem ser clasificados em méveis ou iméveis. Aqueles s8o mais facilmente protegidos dos impactos que podem advir de projetos de desenvolvimento devido a sua prépria mobilidade (o que nao impede, contudo, sua descontextualizagao, gue ja € um impacto). Os bens iméveis constituem sitios de interesse cultural, que podem ser sitios arqueologicos, historicos, religiosos ou naturais. Exemplos de sitios naturais séo cavernas, vuleées, géiseres, cachoeiras, canions, sitios paleontologicos € locais-tipo de formagdes geolégicas. Paisagens, que muitas vezes combinam atri- butos naturals com a interferéncia do homem, também tém sido enquadradas nessa categoria, O patriménio genético representado pela biodiversidade também deve ser considerado como patriménio cultural, além de natural, pois supde conhecimento (cientifico ou tradicional) que permita seu aproveitamento. 1.3 PotuicAo Em paises como o Brasil, a incorporagéo de temas ambientais ao debate publico deu-se anos ou décadas apés a incluséo do tema na agenda internacional, e as primeiras leis que explicitamente visavam a protecdo ambiental (ou de uma parce- la dele) tratavam principalmente de problemas relativos & poluicéo. Dito de outra forma, a partir do momento em que o conceito de ambiente foi paulatinamente assimilado a ideia de meio de vida (e, portanto, de qualidade de vida), endo mais, somente como recurso natural, os problemas entao denominados ambientais foram assimilados & nocdo de poluicio. 0 verbo poluir € de origem latina, polluere, e significa profanar, manchar, sujar. Poluir ¢ profanar a natureza, sujando-a. No relatério preparado para a Conferéncia das Nacdes Unidas sobre 0 Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, intitulado Uma Terra Somente, Ward ¢ Dubos (1972) discutem “o prego da poluiga0”, do qual o mundo se conscientizava: entre outros exemplos, os autores citam o grande smog londrino de 1952, ao que se atribuiram mais de 3 mil mortes. Basicamente, poluigdo é entendida como uma condigao do enterno dos seres vivos (ar, agua, solo) que Ihes possa ser danosa. As causas da poluicio sfo as atividades humanas que, no sentido etimolégico, “sujam” o ambiente. Dessa forma, tais ativi- dades devem ser controladas para se evitar ou reduzir a poluigio. Jé em 1948, os Estados Unidos contavam com uma Lei de Controle da Poluigao das Aguas e a partir de 1955, com uma Lei de Controle da Poluigdo do Ar, enquanto, em 1956, o Reino Unido decretava uma Lei do Ar Limpo. A Declaragao de Estocolmo recomendava que os governos agissem para controlar as fontes de poluicao, e a década de 1970 viu florescer leis de controle de poluigao e surgir entidades governamentais encarregadas da vigilancia ambiental e da fiscalizagdo das atividades poluentes. Os Estados Unidos modificaram e atualizaram suas leis de controle de poluic¢éo durante essa década, enquanto, no Brasil, os Estados do Rio de Janeiro, em 1975, ¢ Sao Paulo, em 1976, estabeleceram suas préprias leis de controle de poluigao. E interessante verificar como estas foram definidas: Qualquer alteragao das propriedades fisicas, quimicas ou biclégicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente: capi Concertos € Deri 1 - seja nociva ou ofensiva satide, & seguranca e a0 bem-estar das popu- lagies: Il ~ crie condicdes inadequadas de uso do meio ambiente, para fins domésticos, agropecuarios, industriais, publicos, comercias, recreativos € estéticos; Il - ocasione danos a fauna, a flora, ao equilibrio ecolégico € as propriedades; IV nao esteja em harmonia com os arredores naturais. (Decreto-lei Estadual do Rio de Janeiro n* 134/75, art. 1°) A presenga, 0 langamento ou a liberagdo, nas éguas, no ar ou no solo, de toda e qualquer forma de energia ou matéria com intensidade, em quantidade, de con- centragdo ou com caracteristicas em desacordo com as que forem estabelecidas em decorréncia desta lei, ou que tornem ou possam tornar as aguas, 0 ar ou 0 solo: I~ impréprios, nocivos ou ofensivos a satide; IL ~ inconvenientes a0 bem-estar piblico; IIL - danosos aos materiais, a fauna e flora; IV- prejudiciais & seguranga, ao uso e gozo da propriedade e as atividades normais da comunidade. (Lei Estadual de So Paulo n° 997/76.) Tais definicdes legais sao coerentes com o conceito de poluigao entao vigente (e que continua atual). Comum a ambas é a conotagdo negativa do conceito de poluicao. Outra ideia comum ¢ a associacao entre poluicdo e emissdes ou presenga de matéria ou energia. Isso significa que 4 poluigdo podem-se correlacionar certas grandezas fisicas ou parémetros quimicos ou fisico-quimicos, que podem ser medidos e para os quais podem ser estabelecidos valores de referéncia, conhecidos como padrdes am- bientais. Séo exemplos de poluentes: ® Elementos ou compostos quimicos presentes nas 4guas superficiais ou subterra- neas, cujas concentragdes podem ser medidas por procedimentos padronizados (séo normalmente expressas em mg/é, yg/e ou ainda ppm) e para alguns dos quais existem padres estabelecidos pela regulamentagao. ‘® Material particulado ou gases potencialmente nocivos presentes na atmosfe- ra, cujas concentracées podem ser medidas por métodos normalizados (séo normalmente expressas em g/m?) e para alguns dos quais também existem padrdes estabelecidos pela regulamentacao. ® Ruido, medido usualmente em decibéis - dB(A), cujos niveis de presséo sonora sao fixados por textos legais ou normas técnicas. ‘® Vibracées, medidas, por exemplo, em mm/s, cujos valores sao estabelecidos por normalizagao técnica. ‘® Radiagdes ionizantes, medidas, por exemplo, em Bq/t ou Sievert, que séo também objeto de regulamentagio especifica. A possibilidade de se medir a poluigdo e estabelecer padrdes ambientais permite que sejam definidos com clareza os direitos e as responsabilidades do poluidor e do fiscal (os érgios piblicos), assim como da populacdo. Abre também campo para estudos cientificos que definam a capacidade de assimilacao do meio, estabelecendo, dessa forma, os padroes ambientais. Estes no sio estiticos, dados de uma vez por todas, mas esto em continua evoluczo, sendo fruto de pesquisas que tendem a aprofundar nosso conhecimento dos processos naturais, dos efeitos dos poluentes sobre o homem € os ecossistemas ¢ dos efeitos sinérgicos e cumulativos de diferentes poluentes. 2B liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Essa clareza esta ausente na defini¢ao de polui¢ao da Let da Politica Nacional do Meio Ambiente (Lei Federal n° 6.938, de 31 de agosto de 1981): poluicao é a degradagao da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saide, a seguranga e o bem-estar da populagio; ») criem condigdes adversas as atividades sociais e econdmicas; 6) afetem as condigées estéticas ou sanitérias do meio ambiente; @) lancem matéria ou energia em desacordo com os padres ambientais estabe~ lecidos, Ao igualar poluigao © degradacao ambiental, esta lei propde uma definigao muito ampla e demasiado subjetiva. HA uma série de processos de degradacio ambiental aos quais nao est associada a emissao de poluentes, como é 0 caso da alterago da paisagem ~ por exemplo, a cons- trucdo de um complexo turistico na orla maritima ou a submersdo das Sete Quedas pelo reservatério de Itaipu ~ ou dos danos & fauna causados pela supressio da vege- tagdo ou pela modificacao de habitats - como o aterro de um manguezal. Foi por razdes como essas, ou seja, porque imimeras atividades humanas causam per- turbagdes ambientais que nao se reduzem & emissao de poluentes, que o conceito de polui¢ao fot sendo ora substituido, ora complementado pelo conceito mais abrangente de impacto ambiental. Como consequéncia, as politicas ambientais evoluiram. Assim, pode-se trabalhar com a seguinte definicao operacional concisa de poluicao: introducto no meio ambiente de qualquer forma de matéria ou energia que possa afetar negativamente 0 homem ou outros organismos. De uma maneira geral, com pequenas mudancas na formulaco ou na terminologia, é esse o conceito de poluigéo que se encontra na literatura técnica internacional das tltimas quatro décadas. 1.4 DEGRADACAO AMBIENTAL Degradacdo ambiental ¢ outro termo de conotacéo claramente negativa. Seu uso na “moderna literatura ambiental cientifica ¢ de divulgagao é quase sempre ligado a uma mudanca artificial ou perturbacéo de causa humana ~ é geralmente uma redugdo percebida das condigdes naturais ou do estado de um ambiente” Johnson et al., 1997, p. 583). 0 agente causador de degradacdo ambiental é sempre o ser humano: “pro- cessos naturais nao degradam ambientes, apenas causam mudangas” (Idem, p. 584). A degradacdo de um objeto ou de um sistema € muitas vezes associada a ideia de perda de qualidade. Degradacao ambiental seria, assim, uma perda ou deterioraco da qualidade ambiental . A Lei da Politica Nacional do Meio Ambiente define de- gradagao ambiental como “alteragao adversa das caracteristicas do meio ambiente” (art. 3°, inciso 11), definigéo suficientemente ampla para abranger todos os casos de prejuizo a satide, a seguranca, ao bem-estar das populacoes, as atividades sociais € ccondmicas, a biosfera ¢ &s condigdes estéticas ou sanitarias do meio, que a mesma lei atribui a poluicao. ‘arity Concertos € Dest a Qualidade ambiental & com certeza, outro conceito controverso e dificil de definir. Johnson et al. (1997), que se dedicaram a uma compilacdo ¢ reflexdo sobre o significado dos termos mais usuais em planejamento ¢ gestio ambiental, consideram que qualidade ambiental “é uma medida da condigo de um ambiente relativa aos requisitos de uma ou mais espécies e/ou de qualquer necessidade ou ob- Jetivo humano” (p. 584). Se, de algum modo, a qualidade ambiental pode ser medida por indicadores, como se tenta fazer com a qualidade de vida ou com o desenvolyi- mento humano, Sachs (1974, p. 556) lembra que “a qualidade ambiental deve ser descrita com a ajuda de indicadores ‘objetivos’ ¢ apreendida no plano de sua percepcéo pelos diferentes atores soci Assim, degradacdo ambiental pode ser conceituada como qualquer alteragto adversa dos processos, funcées ou componentes ambientais, ou como uma alteragao adversa da qualidade ambiental. Em outras palavras, degradacio ambiental corresponde a impacto ambiental negativo. A degradacao refere-se a qualquer estado de alteragdo de um ambiente e a qual- quer tipo de ambiente, 0 ambiente construido degrada-se, assim como os espacos naturais. Tanto o patriménio natural como o cultural podem ser degradados, desca- racterizados ¢ até destruidos. Varios desses termos descritivos sero utilizados para caracterizar impactos ambientais. Assim como a poluigéo se manifesta a partir de um certo patamar, também a degradaco pode ser percebida em diferentes graus. 0 grau de perturbagao pode ser tal que ‘um ambiente se recupere espontanea- Tipo de sistema Fungoes ‘mente; mas, a partir de certo nivel de . degradacdo, a reeuperagio esponté- soe nea pode ser impossivel ou somentese dos icos naturas dar a prazo muito longo, desde quea 5 fonte de perturbagéo seja retirada ou & § reduzida. Na maioria das vezes, uma 3 ambiental. Se 0 ambiente pode ser degradado de diversas maneiras, a expressao drea degradada sintetiza os resultados da degradacao do solo, da vegetacdo muitas vezes das aguas. Em que pese a relatividade do conceito de degra~ dagio ambiental, a Fig, 1.4 mostra uma rea inegavelmente degradada. Situada em Sudbury, provincia de On- tério, Canada, uma vasta drea (cerca de 10.000 ha) no entorno das usinas Fig, 1.3 Conceitos de degradacdo e recuperagéo ambiental esua relacéo coma de metalurgia de niquel e cobre foi sustentabilidade (modificado de UICN/PNUMA/WWF, 1991) Produgdo industrial ede services: Sistemas pareialmente regulados pelo homem Potencialmente sustentivel Produgo de recursos naturals em estado agdo corretiva é necessaria. A Fig. 1.3 selvagem mostra de maneira esquemética 0 conceito de degradacéo ambiental ¢ a . ‘Agricultura, pecusria, 08 objetivos das agées de recuperacao hs Recuperagao ambiental Insustentve 28 liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Rr se mah degradada pelas emissdes de SO,, pro- Fig. 1.4 Area degradada em Sudbury, Conadé. A chuva écida resultante das ‘emissdes de 50, degradou a vegetacdo, com consequente perda de solo e venientes dos fornos de fundicéo por rejeitos das minas e pela poluico das Aguas, desde que as primeiras fundies comecaram a funcionar em 1888, libe- rando 0 diéxido de enxofre praticamente ao nivel do solo, matando a vegetacio © acidificando 0 solo e as aguas (Win- tethalder, 1995). A capacidade de um sistema natural se recuperar de uma perturbagio imposta Por um agente externo (agdo humana ou processo natural) € denominada resiliéncia, Esse conceito surgiu na Eco- logia, no inicio dos anos 1970, a partir degradosdo das éguas.Adrea era originalmente cobertapor florestasdeco- 4€ analogias com conceitos da fisica, nniferas, mas foi sujeita 0 exploragéo florestal desde o final do séculoXIX.Ao Como resisténcia ¢ elasticidade. Westman. funde, uma chaminé de 381 m de altura tem o objetivo de diluire dispersar (1978, p. 705) reviu varias definiges ¢ (0 poluentes atmosféricos conceituou resiliéncia como “o grau, maneira ¢ ritmo de restauragao da estru- tura e fung4o iniciais de um ecossistema apés uma perturbagio”. J4 Holling (1973, P. 17) da ao conceito de resiliéncia um entendimento distinto: “a capacidade de um sistema de absorver mudangas (.. ¢ ainda assim persistir”, Para esse autor, resiliéncia € diferente de estabilidade, entendida como “a capacidade de um sistema retornar a um estado de equilibrio depois de uma perturbagio temporaria”. 1.5 IMPacto AMBIENTAL A locucao “impacto ambiental” é encontrada com frequéncia na imprensa e no dia a dia. No sentido comum, ela é, na maioria das vezes, associada a algum dano & natu- reza, como mortandade da fauna silvestre apés 0 vazamento de petréleo no mar ou em um rio, quando as imagens de aves totalmente negras devido a camada de éleo que as recobre chocam (ou “impactam”) a opiniao puiblica. Nesse caso, trata-se, indu- bitavelmente, de um impacto ambiental derivado de uma situacao indesejada, que é 0 vazamento de uma matéria-prima Embora essa nogao esteja incluida na nocdo de impacto ambiental, ela dé conta de apenas uma parte do conceito. Na literatura técnica, hd varias definigdes de impacto ambiental, quase todas elas largamente concordantes quanto a seus elementos basi- cos, embora formuladas de diferentes maneiras. Alguns exemplos so: * Qualquer altera¢do no meio ambiente em um ou mais de seus componentes ~ provocada por uma aco humana (Moreira, 1992, p. 113.) * 0 efeito sobre o ccossistema de uma aco induzida pelo homem (Westman, 1985, p. 5). ‘* A mudanca em um parametro ambiental, num determinado periodo e numa determinada area, que resulta de uma dada atividade, comparada com a situagao que ocorreria se essa atividade no tivesse sido iniciada (Wathern, 1988a, p. 7). cdo adotada por Wathern, na linha do que havia sido proposto por Munn p. 22) tem a interessante caracteristica de introduzir a dimensdo dinamica dos sos do meio ambiente como base de entendimento das alteragées ambientais ‘nadas impactos (Fig. 1.5). Um exemplo de aplicacéo desse conceito pode ser com a seguinte situacdo: suponha uma determinada area ocupada por uma 40 vegetal, que ja foi, no passado, alterada por agéo do homem, com o corte ‘0 de espécies arbéreas. 0 estado atual da vegetacao dessa area pode ser descrito 2 ajuda de diferentes indicadores, como a biomassa por hectare, a densida- se individuos arbéreos de didmetro acima de um determinado valor ou algum lice de diversidade de espécies. Se a vegetacdo foi degradada por acao antrépica Passado, mas nao softe hoje pressées desse tipo, provavelmente estar em pro- de regeneragio natural, ou seja, tenderé, dentro de um certo periodo (talvez da de dezenas de anos), a voltar a uma si fo proxima @ original ou a de climax. A igo da situagio atual da area por meio uso de algum indicador pode sugerir que tenha pouca importancia ecolégica ~ abrigar poucos individuos arbéreos de ide porte, por exemplo. Mas com 0 passar tempo, a area deve estar em melhores con- gdes do que as atuais, abrigando arvores ‘aiores e de maior diversidade. De acordo com ‘econceito de Munn e Wathern, se um empreen- iento vier a derrubar a vegeta¢ao atual, seu ‘Impacto deveria ser avaliado néo comparando = possivel situagao futura (area sem vegetagao) com a atual, mas comparando duas Sttuagdes futuras hipotéticas: aquela sem a presenca do empreendimento proposto com a situago decorrente de sua implantacao. Projeto iniciado Indicador ambiental Na pritica da avaliagdo de impacto ambiental, nem sempre é possivel empregar esse conceito, devido a dificuldade de se prever a evolugéo da qualidade ambiental em uma Gada area. Nesses casos, que so muito frequentes, 0 conceito operacional de impacto ambiental acaba sendo a diferenga entre a provavel situacao futura de um indicador ambiental (com o projeto proposto) e sua situacao presente. Imagine o problema de ava fiar o impacto sobre a qualidade do ar de uma nova fonte de emissio de poluentes: o cendrio de referéncia para comparacéo normalmente seria o atual, e no um hipotético cendrio futuro, no qual novas fontes contribuiriam para deteriorar a qualidade do ar, uma vez que essas hipotéticas novas fontes ndo esto em anéllise hoje, ¢, caso venham ser consideradas no futuro, sera necessério avaliar seu impacto, levando em conta a situacdo do momento futuro. ‘Uma outra definicdo de impacto ambiental é dada pela norma NBR ISO 14.001: 2004 (versdo atualizada da primeira norma ISO 14.001, de 1996. Aqui é reproduzida a traducdo oficial brasileira da norma internacional,}!: “qualquer modificagao do meio ambiente, adversa ou benéfica, que resulte, no todo ou em parte, das atividades, pro- dutos ou servicos de uma organizacio” (item 3.4 da norma). f interessante conhecer © conceito de impacto ambiental adotado por essa norma porque muitas empresas ¢ Outras organizacdes tém adotado sistemas de gestéio ambiental nela baseados, Sob Concertos & Deri 29 Situapio sem projeto Impacto ambiental Situagdo com projeto Tempo Fig. 1.5 Representagao do conceito de impacto ambiental As normas da Organizagio Internacional de Normalizaséo ~ 150 (international Organization for Standardization) io traduzidas © publicadas pela Associagdo Brasileira de Normas Técnicas ‘ABNT, entidade privada brasileira Jfiliada @ 150. As nnormas ABNT do reconhecidas pelo governo, por intermédio do Inmetro ~ Instituto Brasileiro de Metrologia, Normalizacao © Qualidade Industrial. liago de Impacto Ambiental: conceitos e métodos tal ponto de vista, impacto ambiental ¢ uma consequéncia de “atividades, produtos ou servigos” de uma organizaco; ou seja, um processo industrial (atividade), um agrotoxico (produto) ou 0 transporte de uma mercadoria (servigo ow atividade) so causas de modificagées ambientais, ou impactos. Segundo essa defini¢ao, impacto é qualquer modificagio ambiental, independentemente de sua importancia, entendi- mento coerente com o de muitas outras definicées de impacto ambiental. Também as leis de diversos paises procuraram definir o que entendem por impacto ambiental. Na legisla¢Zo portuguesa, conjunto das alteragdes favoraveis desfavordveis produzidas cm pardmetros ambientais e sociais, num determinado periodo de tempo ¢ numa determi- nada arca (situagéo de referencia), resultantes da realizago de um projeto, comparadas com a situago que ocorreria, nesse petiodo de tempo e nessa érea, se esse projeto nao viesse a ter lugar. Na legislacio finlandesa, 0s efeitos diretos ¢ indiretos dentro ¢ fora do territdrio finlandés de um projeto ou operasées sobre (a) satide humana, condigdes de vida e amenity, (b) solo, gua, ar, clima, organismos, interagio entre eles, e diversidade biolégica, (6) a estrutura da comunidade, edificios, paisagem, paisagem urbana eo patriménio cultural, ¢ (d) utilizagao de recursos naturais. Na legislacao de Hong Kong, (a) uma mudanga on-site ou off-site que 0 projeto possa causar no ambiente; (b) um efeito da mudanga sobre (i) 0 bem-estar das pessoas, flora, fauna € ecossis~ ii) patrim6nio fisico e cultural; (i) uma estrutura, sitio ou outra coisa que seja de importincia historica ou arqueol6gica; (2) um efeito on-site ou off-site de ‘quaisquer das coisas referidas no parégrafo (b) das atividades desenvolvidas para ‘0 projeto; (d) uma mudanga do projeto que o ambiente possa causar, se a mudanga ou efeito ocorrer dentro ou fora do recinto do projeto. No Brasil, a definigéo legal é aquela da Resolugao Conama n° 1/86, art 1°: Qualquer alteragao das propriedades fisicas, quimicas ou biolégicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente afetem: 1 ~assatide, a seguranca e 0 bem-estar da populagao; IL ~ as atividades sociais e econdmicas; IIL - as condicdes estéticas ¢ sanitrias do meio ambiente; IV - a qualidade dos recursos ambientais, Salta aos olhos, no caso brasileiro, a impropriedade dessa definigéo, que felizmente nao é levada ao pé da letra na pratica da avaliagfo de impacto ambiental nem é tomada em seu sentido restrito na interpretagdo dos tribunais. Trata-se, na verdade, de uma definicao de poluig&o, como se observa pela mengao a “qualquer forma de matéria ou energia” como fator responsavel pela “alteracao das propriedades fisi- Concertos ¢ Des cas, quimicas ou biologicas” do ambiente. Paradoxalmente, a definigao de poluigao dada pela Lei da Politica Nacional do Meio Ambiente reflete melhor 0 conceito de impacto ambiental, embora somente no que se refere a impacto negativo. Como se sabe, impacto ambiental também pode ser positivo. £ oportuno agora apontar algumas caracteristicas do conceito de impacto ambiental quando comparado ao de poluigao: ® Impacto ambiental € um conceito mais amplo e substancialmente distinto de poluigao. ® Enquanto poluicao tem somente uma conotacio negativa, impacto ambiental pode ser benéfico ou adverso (positive ou negativo). ® Poluigio refere-se a matéria ou energia, ou seja, grandezas fisicas que podem ser medidas ¢ para as quais podem-se estabelecer padries (nivels admissiveis de emisso ou de concentraco ou intensidade). Virias ages humanas causam significativo impacto ambiental sem que estejam fundamentalmente associadas a emissio de poluentes (por exemplo, a constru- cdo de barragens ou a instalagio de um parque de geradores eélicos). ® A poluigéo é uma das causas de impacto ambiental, mas os impactos podem ser ocasionados por outras acdes além do ato de poluir. ® Toda poluigio (ou seja, emissio de matéria ou energia além da capacidade as- similativa do meio) causa impacto ambiental, mas nem todo impacto ambiental tem a poluig&o como causa. A possibilidade de ocorrerem impactos ambientais positivos é uma nocao que deve ser bem assimilada. Um exemplo corriqueiro de impacto positivo, encontrado em muitos estudos de impacto ambiental, é descrito como “criagao de empregos”. Trata-se, como € evidente, de um impacto social e econémico, campo em que é relativamente Facil ‘compreender que possa haver impactos benéficos. Mas também ha impactos positivos sobre componentes fisicos e bidticos do meio. Um projeto que envolva a coleta e 0 tratamento de esgotos resultaré em melhoria da qualidade das aguas, em recuperacdo do habitat aquitico e em efeitos benéficos sobre a satide publica. Uma indiistria que substitua uma caldeira a dleo pesado por uma caldeira a gas emitiré menos poluentes, como material particulado e éxidos de enxofre, a0 mesmo tempo em que, caso venha a ser abastecida por um duto de gs, sero eliminadas as emissdes dos caminhdes de transporte de dleo e os incOmodos causados pelo trifego pesado. Se impacto ambiental ¢ uma alterago do meio ambiente provocada por ago humana, entdo é claro que tal alteraco pode ser benéfica ou adversa. Mais que isso, um projeto pico trard diversas alteracées, algumas negativas, outras positivas, e isso deverd ser considerado quando se prepara um estudo de impacto ambiental, embora seja devido as consequéncias negativas que a lei exige a elaboragéio desse estudo. Pode-se, ento, postular que o impacto ambiental pode ser causado por uma aco humana que implique: 1. Supressao de certos elementos do ambiente, a exemplo de: ‘® supressao de componentes do ecossistema, como a vegetacio; destruicao completa de habitats (por exemplo, aterramento de um mangue); 3 2 liagéo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos destruicao de componentes fisicos da paisagem (par exemplo, escavagdes); supressao de elementos significativos do ambiente construido; ® supressao de referéncias fisicas & meméria (por exemplo, locais sagrados, como cemitérios, pontos de encontro de membros de uma comunidade); % supressdo de elementos ou componentes valorizados do ambiente (por exemplo, cavernas, paisagens notiveis). 2. Inseredo de certos elementos no ambiente, a exemplo de: ® introducdo de uma espécie exdtica; ® introducao de componentes construidos (por exemplo, barragens, rodovias, edificios, éreas urbanizadas). 3. Sobrecarga (introdugéo de fatores de estresse além da capacidade de suporte do ‘meio, gerando desequilibrio), a exemplo de: ® qualquer poluente; # introducao de uma espécie exstica (por exemplo, coelhos na Australia); ® reducdo do habitat ou da disponibilidade de recursos para uma dada espécie {por exemplo, impacto dos elefantes na Africa contemporanea); ® aumento da demanda por bens e servigos piiblicos (por exemplo, educacao, satide), A luz de todas essas consideragdes, 0 conceito de impacto ambiental adotado neste livro sera “alteracdo da qualidade ambiental que resulta da modificagao de processos naturais ou sociais provocada por aco humana” (Sanchez, 1998a). Tal definigao, ao trabalhar sob a dptica dos processos ambientais, tenta refletir o cardter dindmico do ambiente. Pode-se ponderar que as questdes ligadas & supressao ou insercdo de ele mentos em um ambiente nao estejam suficientemente explicitas nessa definigao, mas a vantagem da concisao é preponderante. Impacto ambiental é, claramente, 0 resultado de uma ago humana, que é a sua causa. Nao se deve, portanto, confundir a causa com a consequéncia. Uma rodovia nao é ‘um impacto ambiental; uma rodovia causa impactos ambientais. Da mesma forma, um reflorestamento com espécies nativas nfo ¢ um impacto ambiental benéfico, mas uma acao (humana) que tem o propésito de atingir certos objetivos ambientais, como a protecdo do solo e dos recursos hidricos ou a recriacao do habitat da vida selvagem. Ha que se tomar cuidado com a nogdo de impacto ambiental como resultado de uma determinada aco ou atividade, nfo 0 confundindo com ela. Uma leitura medianamente atenta de muitos estudos de impacto ambiental revelard que esse erro basico € frequente, Evidentemente, tal erro conceitual compromete a qualidade do estudo ambiental. 1.6 AsPECTO AMBIENTAL A série ISO 14.000 é uma familia de normas sobre gesto ambiental. Comegaram a ser desenvolvidas em 1993, tendo por base uma norma britanica de 1992 ¢ regulamen- tos europeus sobre auditoria ¢ gestio ambiental. A familia ISO 14.000 compreende normas sobre sistemas de gestdo, desempenho ambiental, avaliacio do ciclo de vida de produtos (equivalente & avaliagéo de impactos ambientais de produto), rotulagem Concertos € Dern ambiental (Selo verde) ¢ integrago de aspectos ambientais no desenho de produtos (ecodesign). Anorma ISO 14.001 introduziu o termo aspecto ambiental. Tal termo era desconhecido dos profissionais envolvidos em avaliacao de impacto ambiental, ou era utilizado com outra conotacao. No entanto, devido as normas da série ISO 14.000, passou Ientamente a ser incorporado ao vocabulario de profissionais da industria € de consul- tores, ¢ chegou também aos érgdos governamentais. A norma NBR ISO 14.001: 2004 assim define aspecto ambiental: “elemento das atividades, produtos ou servigos de uma organizagio que pode interagir com 0 meio ambiente” (item 3.3). Tal definigdo requer explicagdo e exemplificagdo. Situagées tipicamente descritas como aspectos ambientais so a emiss4o de poluentes e a geragio de residuos. Produzir efluentes liquidos, poluentes atmosféricos, residuos sélidos, ruidos ou vibracbes nao €0 objetivo das atividades humanas, mas esses aspectos esto indissociavelmente ligados aos processos produtivos. So, assim, elementos, cu partes dessas atividades ‘ot produtos ou servigos. Aqueles elementos que podem interagir com o ambiente sdo chamados de aspectos ambientais. Outros aspectos ambientais tipicos so aqueles igados ao consumo de recursos naturais. Ao consumir égua (recurso renovavel), reduz-se sua disponibilidade para outros usos ou para suas funcdes ecologicas. Ao consumir combustiveis fésseis, seu estoque (finito) é reduzido. 0 consumo de agua ‘ou de combustiveis, uma parte indissociével de um sem-niimero de atividades, so aspectos ambientais. ‘A palavra “aspecto” parece pouco adequada, pois é de uso corrente, mas consta de uma norma internacional, e por isso ¢ inevitével empregé-la. Uma caracteristica posi tiva da diferenciagéo entre aspecto e impacto ambiental adotada pela norma é deixar claro que a emissio de um poluente ndo é um impacto ambiental. Impacto é alteragdo da qualidade ambiental que resulta dessa emissio. £ a manifestagao no receptor, seja este um componente do meio fisico, bistico ou antrépico. A Fig. 1.6 mostra esquema- ticamente a relagéo entre as agdes humanas, os aspectos ¢ 0s impactos ambientais. ‘As ages sio as causas, os impactos séo as consequéncias, enquanto os aspectos am- bientais stio os mecanismos ou os processos pelos quais ocorrem as consequéncias. Aspecto ambiental pode ser entendido como o mecanismo através do qual uma ago humana causa um impacto ambiental. Exemplos desta cadeia de relagdes sao dados no Quadro 1.1. Evidentemente, uma mesma acdo pode levar a varios aspectos ambientais ¢, por con- seguinte, causar diversos impactos ambientais. Da mesma forma, um determinado impacto ambiental pode ter varias causas. Munn (1975, p. 21), um dos autores pio- neiros no campo da avaliagio de impacto ambiental, por sua vez, conceitua ¢feito ambiental como “um processo (como a erosio do solo, a dispersio de poluentes, 0 deslocamento de pessoas) que decorre de ‘uma agéo humana’. Diferencia-se, assim, |. 1.6 Relagéo entre agées humanas, aspectos ¢ impactos ombientais liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Quadro 1.1 Exemplos de relagées atividade-aspecto-impacto ambiental Lavagem de roups ——— consumo de agua ——__--5 reuctoida dlisponibitidade hidrica lavagem de louga ———» lancamento de agua ———— eutrofizacao com detergentes Cozimento de pao ——> emissio de gases 5 deteriofagao da qualidadeldo ar em fomoa lenha cparticules Pintura de uma pega ——» emisséo de compostos ———» deterioracao da qualidade do ar metdlica organicos votéteis ‘Armazenamento de =p: Vazairiento———- 5 eointaminacéo da solo @ agua combustivel subterranea Transporte de carga. ——» emissio de ruidos —————»incdmodo aos vizinhos por caminhdes ‘Trensportelde Caria >" aumento da ttafego 5 maior frequerica de congestiona= por caminhes mentos de impacto ambiental, entendido como uma alteracao na qualidade do meio ambiente. Segundo Munn, acdes humanas causam efeitos ambientais, que, por sua vez, produ- zem impactos ambientais. 0 conceito de efeito ambiental é usado em alguns estudos de impacto ambiental ¢ em alguns livros-texto sobre avaliacéo de impacto ambiental. Tem a vantagem de servir de “ponte” entre as causas (ages humanas) e suas consequéncias (impactos) € reservar 0 termo impacto ambiental para as alteragbes sofridas pelo receptor, seja ele elemento do ambiente fisico, bidtico ou antrépico. A fim de torné-la coerente com as demais definigbes adotadas neste texto, a definicao de efeito ambiental seré reformulada para alteragao de um processo natural ou social decorrente de uma acdo humana. Dessa forma, percebe-se que ha pontos em comum entre a nocdo de aspecto ambiental ¢ a nogio de efeito ambiental, ambos representando interfaces ou meca- nismos entre uma causa (ago humana) € sua consequéncia (impacto ambiental). 1.7 PROCESSOS AMBIENTAIS 0 ambiente € dindmico. Fluxos de energia e matéria, teias de relagdes intra e interes pecificas sio algumas das facetas dos processos naturais que ocorrem em qualquer ecossistema, natural, alterado ou degradado. Uma das maneiras de se estudar os impactos ambientais ¢ entender como as agdes humanas afetam os processos natu- rais. Um exemplo pode clarificar esse raciocinio: os processos erosivos. A crosio € um fendmeno (processo) que afeta toda a superficie da Terra. Sua intensi- dade varia dependendo de fatores, como clima, tipo de solo, declividade e cobertura vegetal. Em climas timidos, ha a formagdo de solos espessos e cobertura vegetal que tende a cobrir toda a superficie; j4 em climas aridos, a vegetagio é mais rala e os solos mais rasos; nesses casos, a erosdo edlica ¢ intensa. Em climas tropicais, ocorrem chuvas intensas (ou seja, grande quantidade de égua em curto periodo de tempo}, de grande potencial erosivo. Por sua vez, escarpas ingremes estdo mais sujeitas & aco erosiva da chuva do que vertentes suaves. Assim, a erosio natural varia em inten- sidade e pode ser medida em termos de massa de solo perdida por unidade de érea € por intervalo de tempo (t/ha/ano). A ago humana interfere no processo erosivo, Concertos € Den 35 ‘em geral tornando-o mais intenso. A substituigo de uma floresta por uma cultura, ‘essim como a abertura de uma estrada ou de uma mina, so agdes que expdem o solo esprovido de sua protegao vegetal natural a agéo da chuva e do vento, aumentando @s taxas de erosdo. © Quadro 1.2 mostra exemplos de taxas de erosao laminar no Brasil, em diferentes Jocais submetidos a diferentes formas de uso do solo. A perda de solos é medida por ‘experimentos realizados no campo, ¢ a busca de correlacdes entre os tipos de uso do solo e as taxas erosivas tem sido empreendida ha décadas. Observa-se claramente que 2 floresta atua como principal protetora do solo; quando substituida por pasta~ ‘gxm, as taxas de erosio séo cerca de uma ordem de grandeza (dez vezes) maior; jé nando ocorre a substituigdo por culturas, 0 processo erosivo € cerca de trés ordens Ge grandeza (mil vezes) mais inten- ‘so - as taxas de erosdo variam muito Quadro 1.2 Estimativas de taxas de erasGo, segundo diferentes catego- ée cultura para cultura e depen- _rias de uso do solo gem também das praticas agricolas ‘ssadas, como o plantio em curvas de ‘sivel, por exemplo. A implantagdo de Floresta Amazénica 150 Vertente com declividade (1) Jeteamentos urbanos ¢ a abertura de primaria, Roraima de 200% sins elevam ainda mais as taxas de Latossolo vermelho-amarelo oso, uma vez que os solos ficam — Pastageifide! 1.128 Vertente com declividade diretamente expostos & ago da agua _Brachiariaem antiga de 20% i) ‘de chuva e também dos ventos. Por- grea de florests Latossolo vermetno-amarelo santo, nao é correto afirmar que a — priméria, Roraima Senstrugéo de uma estrada, a aber- Floresta Amazonica 330 — @) ura de uma mina ou a derrubada pyiméria, Ronddnia om esas is ean 0 ee J} atua’ “Mata, Goiania 32 \Vertente com declividade “yam antes. O que essas acbes fazem é wie FA ‘etensificar a erosao, acelerando um ccesso natural (Figs. 1.7 € 1.8). Latossolo vermelho-amarelo - Pitt pasta de capi) 2300/9) VeHente con weatvidade ID corolario da erosdo € 0 assorca- MApieh Golanle ssi @ mento de corpos d'igua. Parte dos nnssole vermin amare. Cultivo de arroz, 51.655, Vertente com declividade sedimentos transportados por aco ‘des fguas fica retido no fundo de Goiénia de 11% Q ios ¢ lagos. Estudos feitos em um Latossolo vermelho-amarelo Jago de varzea de um afluente do rio Areas urbanas, 170.000 Solos de alteracdo de filitos, ‘Madeira, em Rond6nia, mostraram Quadrilatero xistos eitabiritos bacias (9) ‘gue, entre 0s anos de 1875 ¢ 1961, a Ferrifero, Minas hnidrografices com vertentes taxa de sedimentagdo média era de Gerais ingremes ‘0,12 glcm*ano, mas, a partir desse Areas de minerago, 700.000 Solos de alteracao de fltos, period, com a construcao da rodovia Quadrilétero xistos eitabirtos, bacias (3) BR-364, o desmatamento progressive Ferrifero, Minas Gerais hidrograficas com vertentes nessa bacia hidrogréfica ¢ a minera~ ingremes go aluvionar de cassiterita, a taxa Ti Barbosa Fearnside (2000); (2) Casseti, (1995); (3) Coppedé Jr. € Boechot de sedimentagdo aumento exponen- ialmente para atingir um valor dez 02) Figs. 1.7 © 1.8 Regido de Nyonga, no Zimbébue, um dos muitos locais do pilcneta afetados pelo uso excessive das capacidades de suporte do slo, no caso por atividades de criagdo extensive de gad em terras comunitérias, tendo como resultado o degradagdo dos solos e a eroséo intensa, exempli- ficada pela vororoca liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos vezes maior em 1985 (Forsberg et al., 1989). Esse exemplo ilustra que agdes como remogéo de vegetacio nativa também afetam outros processos, além do processo erosivo. A infiltragio de agua no solo é mais um dos processos mo- dificados pela retirada de vegetacdo. Nesse caso, 0 processo é retardado, ou seja, ao invés de se infiltrar e alimen- tar os reservatérios subterraneos, uma propor¢ao maior da Agua de chuva escoa superficialmente, aumentando o volume de Agua nos rios. Estudos realizados na Amazénia pelos autores Barbosa e Fearnside (2000) mostraram que o es- coamento superficial aumentou quase trés vezes em Roraima, onde a floresta foi substituida por pastagem, e até 30 vezes em Rond6nia, em situacdo similar. Neste tiltimo caso, sob cobertura vegetal, apenas 2,2% da chuva escoava super- ficialmente, mas, em dreas de pasto, 0 escoamento subiu para 49,8%. Além de acelerar a erosdo, 0 aumento do es- coamento superficial acarreta_ maior frequéncia e intensidade das inundagoes, outro processo do meio fisico modificado por acdes humanas. Outros processos podem ser induzidos ou deflagrados pela acio do homem. Por exemplo, 0 bombeamento de agua subterranea em dreas de rochas caleé- rias onde ocorrem cavernas (conhecidas como regides carsticas) pode deflagrar um processo de abatimento da superficie do terreno, formando depressoes fechadas, conhecidas como dolinas. ‘Varios processos podem ser retardados pela agdo humana, Em uma clareira aberta em uma floresta tropical, o proceso denominado sucesso ecolégica tende a restabe- lecer a vegetacdo nativa, primeiro pelo crescimento de espécies arbéreas adaptadas a Intensa luz solar € & temperatura elevada ~ as pioneiras - e, em seguida, depois do sombreamento da area, pelo crescimento de outras espécies adaptadas & sombra e & temperaturas mais amenas caracteristicas do solo dessas florestas. A dispersao de se- mentes pelo vento e pelos animais auxilia a regeneracdo. Todavia, o manejo humano dessa clareira pode retardar ou mesmo impedir a regenera¢o, como acontece em caso da semeadura de gramineas forrageiras para criagao de gado. Finalmente, processos naturais podem ser alterados de forma complexa, como no caso do lancamento de residuos do beneficiamento de bauxita em um lago situado as margens do rio Trombetas, em Oriximind, Para (Figs. 1.9 € 1.10). Até a implantagéo desse empreendimento, 0 Jago Batata havia sofrido pouquissima alterag4o antropica, 0 que o torna um caso muito interessante de estudo. Os rejeitos, constituidos por uma polpa de argilas e gua, cobriram os sedimentos acustres naturais, de onde nutrientes, como nitratos, fosfatos e sulfatos, eram liberados para a coluna d'égua € incor porados ao fitoplancton, ¢ dai a toda a cadeia alimentar, até retornarem ao fundo do lago na forma de detritos. Os rejeitos acumulados no fundo do lago interromperam esse ciclo, afetando a qualidade da gua e todo o ecossistema lacustre, com as seguintes consequéncias (Esteves, Bozelli ¢ Roland, 1990): @ redugéo na densidade de fito ¢ zooplincton e de peixes; @ redugio da densidade € alteracao da diversidade da comunidade benténica; ® redugio da liberagdo de nutrientes do sedimento para a coluna d'égui ® diminuigio da concentragdo de matéria organica no sedimento; Concenos « Desa 37 Figs. 1.9 © 1.10 Duos vistas do lago Batata, situado és margens do rio Trombetos, Pard. A primeira mostra o logo em sua condigao natural, € 0 ‘segunda, recoberto por rejeitas de lavagem de bauxita # alteracdo na ciclagem e na disponibilidade de mutrientes. Fornasari Filho et al. (1992) apresentam uma lista de processos do meio fisico que usualmente sio alterados por atividades humanas, alguns dos quais sto mostrados no Quadro 1.3, com alguns processos ecoldgicos. Além de completar 0 quadro com deze~ nas de outros processos fisicos ¢ ecolégicos, ¢ possivel acrescentar também processos sociais, formando, dessa maneira, uma base para o entendimento de como as ativi- dades humanas afetam a dinamica ambiental. Um processo social frequentemente induzido por obras de engenharia ¢ outros projetos ptiblicos ¢ privados é a atragio de pessoas em busca de oportunidades de trabalho, verdadeiros fluxos migratérios postos em marcha pelo mero antincio de um grande projeto. 28 liago de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Quadro 1.3 Exemplos de processos ambientais fisicas e ec Processes geslégicos Ge superficie Erosio Moviimentagao de massa (escorreaamentos etc) ‘Afundamentos cérsticos Process0s hidrol6gicos Transporte de poluentes nas aguas Eutrofizagao de corpos d'igua ‘Acumulo de poluentes nos sedimentos Inundagoes: Deposigao de sedimentos em rios € lagos Processos hidrogealigicas Difusdo de poluentes na égua subterranea Recarga de aquiferos Processas atmosféricos Transporte e difusdo de poluentes gasosos Propagacdo de ondas eldsticas Processas eeolégicos Biodegradacao de matéria organica em corpos d’agua Bioacumulacao de metais pesados Sucessae ceolégica Ciclaaem de nutrientes Insercéo de elementos no ambiente Supressio de elementos do ambiente Sobrecarga Situagdo futura do ambiente AAcSO proposta Situaedo atual do ambiente Processos ambientais Processos madificados Perma oe Qualidade ambiental modificads 1 I (ualidade ambienta| Fig. 1.11 Processo ¢ impacto ambiental A Fig, 1.11 mostra a relacdo entre pro- cessos ¢ impactos ambientais. A situacéo ambiental atual pode ser exemplificada por uma fazenda de criagio de bovinos, onde um empreendedor pretende implan- tar um loteamento; dentre os processos atuais, pode-se selecionar 0 processo erosivo, que, atuando sobre os pastos, im- plica certa perda de solo. A implantacao de um loteamento induz uma intensificagio dos processos erosivos, devido a abertura de vias e construgéo de casas, com maior exposicio do solo & agao das aguas pluviais. Esses processos modificados (no exemplo, intensificados) conduzem a uma nova situago ambiental, e 0 impacto ambiental do loteamento, com relagdo 0 processo erosivo, é representado pela situacdo futura com o loteamento em elagdo & evolugao (situagao futura) sem © loteamento. Nesse exemplo, para fins de simular a situaco futura sem o lotea- mento, pode-se levantar a hipétese que esta seria muito semelhante & situagio atual (pastagem), de modo que, nessa hi- iitese, 0 impacto pode ser determinado comparando a provavel situagdo futura com a situagao atual 1.8 AVAUIACAO DE IMPACTO AMBIENTAL 0 termo avaliacao de impacto ambiental (AIA) entrou na terminologia e na lite- ratura ambiental a partir da legislagao pioneira que criou esse instrumento de planejamento ambiental, National Environmental Policy Act - NEPA, a lei de politica nacional do meio ambiente dos Estados Unidos. Essa lei, aprovada pelo Congresso em 1969, entrou em vigor em 1° de janeiro de 1970 ¢ acabou trans- formando-se em modelo de legislagdes similares em todo o mundo. A lei exige a Preparacdo de uma “declaragao detalhada” sobre o impacto ambiental de iniciativas do governo federal americano. Tal declaracao (statement) equivale ao atual estudo de impacto ambiental necessdrio em muitos paises para a aprovacao de novos projetos que possam causar impactos ambientais significativos. 0 termo assessment passou a ser usado na literatura para cari ‘ar 0 proceso de preparactio dos estudos de impacto ambiental. Essa palavra a tem raiz latina, a mesma que deu origem a assentar, sentar, em portugués, ¢ imo de evaluation, outra palavra de origem latina, 0 mesmo que avaliar. Dai a 20 corrente em linguas latinas de environmental impact assessment como ava~ de impacto ambiental, evaluacién de impacto ambiental, évaluation d'impact Fenvironnement, valutazione d'impatto ambientale. ificado € 0 objetivo da avaliagdo de impacto ambiental prestam-se a intimeras wetagdes. Sem dtivida, sc sentido depende da perspectiva, do ponto de vista ¢ propésito de avaliar impactos. As principais definigées de avaliagio de impacto nntal so encontradas em livros-texto sobre o assunto. Algumas delas so trans- a seguir. Atividade que visa identificar, prever, interpretar e comunicar informagdes so- bre as consequéncias de uma determinada acio sobre a satide e 0 bem-estar humanos (Munn, 1975, p. 23.). Procedimento para encorajar as pessoas encarregadas da tomada de decisées a levar em conta os posstveis efeitos de investimentos em projetos de desenvolvi- mento sobre a qualidade ambiental e a produtividade dos recursos naturais e um instrumento para a coleta ea organizagio dos dados que os planejadores necessi- tam para fazer com que os projetos de desenvolvimento sejam mais sustentiveis ambientalmente menos agressivos (Horberry, 1984, p. 269). Instrumento de politica ambiental, formado por um conjunto de procedimentos, capaz de assegurar, desde o inicio do processo, que se faca um exame sistemtico dos impactos ambientais de uma acao proposta (projeto, programa, plano ou politica) e de suas alternativas, e que os resultados sejam apresentados de forma adequada ao piiblico e aos responsaveis pela tomada de decisio, e por eles sejam considerados (Moreira, 1992, p. 33). A apreciagao oficial dos provaveis efeitos ambientais de uma politica, programa ou projeto; alternativas & proposta; e medidas a serem adotadas para proteger 0 ambiente (Gilpin, 1995, p. 4-5). Um processo ‘sistematico que examina antecipadamente as consequéncias ambientais de acdes humanas (Glasson, Therivel ¢ Chadwick, 1999, p. 4). ® 0 processo de identificar, prever, avaliar e mitigar os efeitos relevantes de ordem biofisica, social ou outros de projetos ou atividades antes que decisbes importan- ‘tes sejam tomadas (IAIA, 1999). a definigdo sintética é adotada pela International Association for Impact Assess it~ IATA: “avaliagdo de impacto, simplesmente definida, ¢ 0 processo de identificar consequéncias futuras de uma ago presente ou proposta’. ‘ora com diferentes formulagdes, esses conceitos diferem pouco em sua esséncia. avaliagio de impacto ambiental é apresentada, seja como instrumento, seja, como cedimento (ou ambos}, visando antever as possiveis consequéncias de uma deci- ‘sao. E claro que os livros-texto tomam como pressuposto as legislagdes que, a partir & pioneira lei americana de 1969, foram adotadas em grande nimero de paises e ‘que, como a brasileira, vieram a exigir a aplicacao desse instrumento em determi- nadas situagdes. A tais exigéncias vieram somar-se os procedimentos adotados por imstituigdes multi ou bilaterais de ajuda ao desenvolvimento e, mais recentemente, 40 Aalto de dane ambiental ++ ‘logo de impacto ambient liagao de Impacto Ambiental: conceitos e métodos Por politicas voluntarias adotadas por algumas empresas. Em todos esses contextos, a avaliagéo de impacto ambiental guarda determinadas caracteristicas comuns: carter prévio e vinculo com o proceso decisério sdo atributos essenciais da ATA, aos quais se junta a necessidade de envolvimento puilico nesse processo, © cardter prévio ¢ preventive da AIA predomina na literatura, mas também se Pode encontrar referéncias & avaliagtio de impactos de ages ou eventos passados, Por cxemplo, depois de um acidente envolvendo a liberacao de alguma substancia quimica, Embora a nogio de impacto ambiental envolvida em tais avaliagdes seja fundamentalmente a mesma daquela da AIA preventiva, 0 objetivo do estudo nao é © mesmo, nem 0 foco das investigacées. Nesse caso, a preocupagao é com os danos causados, ou seja, os impactos negatives. E claro que também os procedimentos de investigagao sdo diferentes, pois néo se trata de antecipar uma situacao futura, mas de tentar medir 0 dano ambiental e, ocasionalmente, de valorar economicamente as perdas. A Fig. 1.12 representa graficamente essas duas acepcdes da avaliagdo de impacto ambiental. Para maior clareza, neste livro, ALA sera sempre referida como esse exer- cicio prospective, _antecipatério, tenpo previo € preventivo. O outro signifi- Passado Presente Futuco ado sera entendido como a atividade Hae : de avatiagéo do dano ambiental. Uma Fig. 1.12 Duas acepsées distintas da avaliagda de impacto ambiental preocupa-se com o futuro, outra, com © passado e o presente. Ambas tém um Procedimento comum, que ¢ a comparacéo entre duas situacdes: na avaliagéo do Gano ambiental, busca-se fazer a comparacdo entre a situacao atual do ambiente © aquela que se supde ter existido em algum momento do passado. Na avaliagao de impacto ambiental, parte-se da descrico dessa situagéo atual do ambiente para fazer uma projecao de sua situacdo futura com ¢ sem 0 Projeto em andlise. E claro ue, em ambos os casos, é necessario o conhecimento da situagdo atual do ambiente, Denomina-se diagnéstico ambiental a descrigdo das condigdes ambientais existentes em determinada drea no momento presente. A abrangéncia e a profundidade do diag- néstico ambiental dependerd dos objetivos e do escopo dos estudos. Nessa ordem de preocupagdes com o passado, outro termo bastante utilizado é passivo ambiental, aqui entendido como “o valor monetério necessario para reparar os danos ambientais” (Sanchez, 2001, 18), mas também usado para designar a propria mani- festacao (fisica) do dano ambiental “acimulo de danos ambientais que devem ser Teparados a fim de que seja mantida a qualidade ambiental de um determinado local” (Sanchez, 2001, p. 18) 1.9 RECUPERACAO AMBIENTAL O ambiente afetado pela acdo humana pode, em certa medida, ser recuperado mediante agées voltadas para essa finalidade, A recuperacdo de ambientes ou de ecossistemas degradados envolve medidas de methoria do meio fisico, por exemplo, a condigéo do solo, a fim de que se possa restabelecer a vegetaco ou a qualidade da dgua, a fim de capi Concertos & Deri que as comunidades bisticas possam ser restabelecidas - e medidas de manejo dos elementos biéticos do ecossistema - como o plantio de mudas de espécies arbéreas ou a reintroducao da fauna, Quando se trata de ambientes terrestres, tem-se usado 0 termo recuperacdo de dreas degradadas. A Fig, 1.13 mostra diferentes entendimentos ou variagies do conceito de recuperacao de areas degradadas. No eixo vertical, representa-se de maneira quali- tativa o grau de perturbago do meio, enquanto o eixo horizontal mostra uma escala temporal. A partir de uma dada condicdo inicial (nao necessariamente a condicéo “original” de um ecossistema, mas a situacdo inicial para fins de estudo da degrada ao), a area analisada passa a um estado de degradagdo, cuja recuperacao requer, na maioria das vezes, uma intervencao planejada ~ 2 recuperacdo de areas degradadas. Vale recordar 0 conceito de recuperacao ambiental expresso na Fig. 1.3, que funda- mentalmente significa dar a um ambfente degradado condiges de uso produtivo, restabelecendo um conjunto de funcdes ecolégicas e econdmicas. Recuperacéo ambiental ¢ um termo geral que designa a aplicagiio de téc- nicas de manejo visando tornar um ambiente degradado apto para um novo uso produtivo, desde que sustentével. Dentre as variantes da recuperacéo ambiental, 2 restauragdo & entendida como 0 retorno de uma drea degra- [ Ago corretiva Abantdono da degradagao, com 0 mesmo senti- do que se fala da restauracio de bens culturais, como edificios histéricos. Em certas situagdes, as ages de re- cuperago podem levar um ambiente degradado a uma condig&o ambiental “4 #* perturbagao melhor do que a situagao inicial (mas somente, é claro, quando a condicéo inicial for a de um ambiente alterado). Um exemplo é uma érea de pastagem com erosdo intensa que passa a ser usada para explotagao mineral e em seguida é re~ povoada com vegetacao nativa para fins de conservagio ambiental. degradades A reabilitagdo é a modalidade mais frequente de recuperacdo. No caso das atividades de mineracdo, esta ¢ a modalidade de recuperacdo ambiental pretendida pelo regula mentador, ao estabelecer que o sitio degradado deverd ter “uma forma de utilizacao”. As aces de recuperacao ambiental visam habilitar a 4rea para que esse novo uso possa ter lugar. A nova forma de uso devera ser adaptada ao ambiente reabilitado, que pode ter caracteristicas bastante diferentes daquele que precedeu a aco de degra- dag&o, por exemplo, um ambiente aquatico em lugar de um ambiente terrestre, pratica relativamente comum em mineracdo. Essa nova forma de uso é chamada de “redefi- nigo” ou “redestinacao” por Rodrigues e Gandolfi (2001, p. 238), através da criagao de um “ecossistema alternativo” (Cairns Jr., 1986, p. 473). 4a Tempo Recuperagao que supera 2 condiga0 inieial Restauragao Reabilitagao Remeciagzo ‘Atuagdo natural Recuperacio| espontinea Continuidade da deoradacdo Fig. 1.13 Diagrama esquemético dos objetivos de recuperagdo de éreas 2 Bens a proteger” €4 terminologia. ‘adotada no ‘Manual de Areas Contaminadas da Cetesb. Correspondem aos recursos ambientais definidos na Lei da Politica Nacional do ‘Meio Ambiente, & satide € a0 bem- estar pibiicos. liagdo de Impacto Ambiental: conceitos e métodos 0 Decreto Federal n° 97.632, de 10 de abril de 1989, que estabelece a necessidade de preparacdo de um Plano de Recuperacao de Areas Degradadas para todas as atividades de extractio mineral, define que: “A recuperacdo deveré ter por objetivo © retorno do sitio degradado a uma forma de utilizagao, de acordo com um plano pré-estabelecido para 0 uso do solo, visando 4 obtencao de uma estabilidade do meio ambiente” fart. 39. A remediacdo & o termo utilizado para designar a recuperacdo ambiental de um tipo particular de rea degradada, que so as areas contaminadas. Remediacao é definida como “aplicacao de técnica ou conjunto de técnicas em uma area conta~ minada, visando & remoco ou contencéo dos contaminantes presentes, de modo a assegurar uma utilizagio para a area, com limites aceitaveis de riscos aos bens a proteger™ (Cetesb, 2001). Uma modalidade de remediacao é conhecida como atenua- sao natural, na qual nao se intervém diretamente na area contaminada, mas deixa-se que atuem processos naturais - como a biodegradacao de moléculas organicas. A atenuagdo natural ¢ uma forma de regeneracao que somente tem sido autorizada em reas contaminadas se acompanhada por um programa de monitoramento. A inexisténcia de ages de recuperagéo ambiental configura o abandono da area. Dependendo do grau de perturbacdo e da resiliéncia do ambiente afetado, pode ocorrer um processo de regeneractio, que é uma recuperacao espontanea. 0 abandono de uma érea contaminada também pode, em certos casos, por meio de processos de atenuacéo natural da poluicao, levai sua recuperacdo, Quando se trata de ambientes urbanos degradados, tém sido empregados termos como requalificacdo ¢ revitalizagdo. Os ambientes urbanos podem ser degradados em Tazo de processos socioeconémicos, como a reducio dos investimentos publicos ou privados em certas zonas, ou em decorréncia da degradagao do meio fisico, como a poluicdo dos rios ou a contaminacdo dos solos. 1.10 Sintese Definir com clareza 0 significado dos termos que emprega ¢ uma obrigacio do profis- sional ambiental. Esse profissional est sempre em contato com leigos e técnicos das mais diversas dreas e especialidades. A comunicagao ¢ uma necessidade indissociavel da atuacdo profissional na érea ambiental. Por outro lado, estabelecer uma terminolo- gia comum é obrigatério para uma comunicacio eficaz entre autor ¢ leitor. Ao longo deste texto, serdo adotados os seguintes conceitos: %® Poluicdo: introdugao no meio ambiente de qualquer forma de matéria ou energi que possa afetar negativamente 0 homem ou outros organismos. @ Impacto ambiental: alteracao da qualidade ambiental que resulta da modificacao de processos naturais ou sociais provocada por a¢éo humana. ® Aspecto ambiental: elemento das atividades, produtos ou servicos de uma orga- nizacéo que pode interagir como meio ambiente (segundo NBR ISO 14.001: 204). ® Efeito ambiental: alteracdo de um processo natural ou social decorrente de uma aco humana. ‘Conceitos & Derg 43 ® Degradacao ambiental: qualquer alteragto adversa dos processos, fungées ou componentes ambientais, ou alteragio adversa da qualidade ambiental. @ Recuperacao ambiental: aplicago de técnicas de manejo visando tomar um ambiente degradado apto para um novo uso produtivo, desde que sustentavel. Diagnéstico ambiental: descrigao das condigdes ambientais existentes em deter- minada érea no momento presente. ® Avaliagéo de impacto ambiental: processo de exame das consequéncias futuras de uma aco presente ou proposta.