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NAO FALE DO CODIGO DE HAMURABI! ‘A pesquisa sécio-juridica na pés-graduagtio em Direito yy _~ Luciano Oliveira 1, NOTA INTRODUTORIA Antes de esclarecer 0 sentido do seu enigmatico ~ e um tanto provocador — titulo, gostaria de comegar por situar o presente artigo. Mesmo néo sendo exatamente a continuag&o de um texto anterior tratando de ensino da Sociologia Juridica nas faculdades de direito (Oliveira, 2002), de certa forma dele deriva, na medida em que foi a partir daquele outro que germinou a idéia deste. No texto anterior abordei o ensino da disciplina para estudantes de direito de um modo. geral, sem explicitamente diferenciar a graduagio da pés-graduagdo, detalhe para o qual s6 atinei quando, apresentando uma proposta de programa para a disciplina, destaquei que ela se dirigia especificamente para os alunos da graduagto. Ou seja: ainda que contendo aqui e ali referéncias 4 minha experiéncia também na pés-graduag&o, o seu referencial eram realmente os estudantes da graduagio. Permiti-me ent&o pensar que, nesse caso, estaria faltando um texto sobre a Sociologia Juridica que tivesse por objeto de reflexfo sua . Este possivel (ou uma possive}) relevancia entre alunos de mestrado e doutorado em direit texto € o resultado dessas reflexdes. Esclarego que se trata de um texto bastante pessoal, na medida em que resulta fundamentalmente de minha experiéneia enquanto professor da disciplina e examinador de dissertag6es ¢ teses no Programa de Pés-Graduagto em Direito da Universidade Federal de Pernambuco. A minha experiéneia enquanto examinador esté baseada mais em dissertagdes do que em teses, o que & explicdyel até pelo fato de as primeiras existirem em maior 2 nniimero. As sugestfes que me permito fazer, entretanto, enderegam-se também aos que esto fazendo teses. Com isso quero dizer que, numa medida moderada, o texto exprime uma opinido com inteng&es prescritivas. Trata-se, num momento em que a presenga da Sociologia Juridica nos cursos juridicos ganha forga, de dar uma contribuiggo pessoal a um debate que, diferentemente do que ocorre com aquele especifico sobre a disciplina na graduagio, parece nfo ter sido ainda instaurado. Daqui para a frente irei, num primeiro momento, levantar alguns problemas que vejo amitide existir na produgiio académica da pés-graduagdo em direito; e, num segundo momento, sugerir, mais do que propriamente um modelo acabado de dissertagzc ou tese, um tipo de trabalho que chamarei de “pesquisa sécio-juridica” — cujo significado precisarei adiante. 2, COLOCANDO ALGUNS PROBLEMAS. Comegaria por destacar uma diferenga fundamental entre 0 que, numa escola de direito, fazem alunos da graduagio © da pés-graduago, na medida em que, a meu ver, essa diferenga deverd repercutir sobre a Sociologia Juridica a thes ser ministrada. Retomando Por comodidade os termos do texto anterior, lembraria que “o aluno da graduado ¢ um Jurista em formagao em busca de um diploma de bacharel, cnquanto o da pés-graduaydlo ja € um jurista formado que esta ali para produzir uma dissertagfio ou uma tese - isto é, um trabalho académico” (Oliveira, 2002: 111). Fixemo-nos assim neste Ponto, e coloquemos a questo nos seguintes termos: qual seria a melhor contribuig&o a ser dada pela Sociologia Juridica a um jurista que esté produzindo um trabalho desse tipo? A resposta parece surgir com uma naturalidade préxima da obviedade: na medida em que uma dissertagdo ou tese envolve necessariamente uma pesquisa, o papel da disciplina seria habilitar o aluno a fazer uma pesquisa em Sociologia Juridica. Convéim entretanto, como sempre, desconfiar das primeiras evigéncias, pois, como uma reflexdio mais detida logo torna evidente, ndo é uma coisa assim tio simples propor-se a habilitar juristas jé formados ~ a principio sem nenhuma formago nesse tipo de atividade ~ a fazer uma pesquisa em Sociologia Juridica. Até porque uma pergunta preliminar desponta rapidamente: eles quererio fazé-lo? © que leva a uma outra: sera legitimo exigir que eles 0 fagam? Afinal de contas, convém nfo esquecer que eles stio mestrandos € doutorando em Direito, e nfo em Sociologia. E, mesmo existindo toda uma discussdo a respeito de estatuto epistemolégico da Sociologia Juridica — se afinal seria um ramo da sociologin geral ou sobre o direito' -, a verdade é que um trabalho que se pretenda mero saber “eriti inserido nesse ramo do conhecimento seri um trabalho mais sociolégico do que propriamente juridico no sentido dogmético do termo. Quero com isso esclarecer que mesmo se quisesse, por assim dizer, “puxar a brasa para a minha sardinha” sociolégica, a verdade & que sou o primeiro a reconhecer que estudantes de uma pos-graduago em direito esto ali naturalmente para fazer uma pesquisa juridica, e nfo socioldgica. Dito isto, convém esclarecer melhor os termos dessa questo. Simplificando bastante para efeitos de exposiglo, por pesquisa soi considerando ~ tomando emprestado os termos que Eliane Junqueira utiliza para definir a Jogica estou Sociologia do Direito - uma pesquisa “que trabalha nfo um direito definido juridicamente, mas redefinido pelas citncias sociais, através de pressupostos teéricos ¢ epistemoldgicos destas” (Junqueira, 1993: 4) ~ grifei. A pesquisa juridica, por seu turno, teria por objeto justamente o direito ““definido juridicamente” ~ noutras palavras, 0 préprio ordenamento juridico, abordado mediante métodos ¢ técnicas préprias & chamada Dogmitica Juridica. ‘Ainda rendendo um tributo a simplificaglo, neste caso tomando emprestado uma imagem t6pica bastante conhecida, a pesquisa sociolégica olharia o direito “de fora”, enquanto a pesquisa juridica olharia o direito “de dentro”. Um exemplo de pesquisa do primeiro tipo seria um estudo que testasse a hipétese — altamente verificdvel, aliés - segundo a qual a aplicagdo da lei penal varia de acordo com a classe social do criminoso; jé a0 segundo tipo pertenceria uma pesquisa que tivesse por objetivo estudar a constitucionalidade de uma determinada lei editada sob a vigencia da Constituicfo de 1967, & luz dos novos dispositivos constitucionais vigentes a partir de 19887. Para essa discussio, que retomarei adiante, permito-me remeter 0 leitor ao meu texto ja referido (Oliveira, 002). ‘O exemplo que dou do que seria uma pesquisa estritamente jurdiea ~ propositadamente simplério para fins de exposigio - de forma alguma esgota as possibilidades do que seria uma pesquisa juridica, Joo Mauricio Adeodato, por exemplo, cita vérias outras possibilidades, sugerindo,objetos de pesquisa por assunto (“A dispense abusiva no contrato de trabalho"), por circunscrigio temporal E légico que, tratando-se de uma dissertagio ou tese, o autor deverd ter sempre presente no seu espirito que uin estudo desse tipo no poderd se confundir com um parecer para defender o interesse de um cliente. Como trabalho académico, ele deverd jungir-se a alguns Principios que 0 presidem, como 0 da objetividade e, tanto quanto possivel, o da sempre problemdtica ~ mas no final das contas ¢ em alguma medida incontorndvel ~ neutralidade axiolégica, Isso ndo significa dizer que 0 pesquisador seja um sujeito politicamente neutro; que ele ndo possa ter, desde 0 inicio do seu trabalho, um ponto de vista a defender. Apenas Quer significar que, no momento de colher na realidade — juridica ou sociolégica, pouco importa - os clementos para sustentar o seu argumento, ele deverd adotar uma postura metodolégica neutra, condig&o indispensavel para a elaboragso de um trabalho que se pretenda minimamente cientifico, sem a qual borrariamos qualquer diferenga entre um trabalho académico e o mero discurso idcoldgico. Falando de uma maneira bem simples, uma coisa é um advogado elaborando um parecer, como ja disse. Outra coisa € um académico sustentando uma tese, No primeiro caso, a primeira lealdade do parecerista € para com o interesse do seu cliente; ja a primeira lealdade do mestrando ou doutorando deverd ser para com a verdade. Por mais que esta seja uma nogao problematica, no podemos liminarmente descarté-la, Como as dificuldades em abstrato so melhor resolvidas no terreno do concreto, nada melhor do que trabalhar com um exemplo, Nesse caso, escolho 0 que dei mais atrés sobre a constitucionalidade de uma 'ei promulgada antes da Constituigao de 1988. A um parecerista que esteja interessado em demonstrar a inconstitucionalidade dessa lei, certamente no ocorrerd citar decisdes Judiciais que afirmem o contrario. S6 citard a jurisprudéncia a seu favor. J4 um trabalho académico que {aga jus a esse epiteto, terd de sopesar as varias posigses", Nao poderd, por (“Evolucao do concubinato na segunda metade do século XX"), pot circunscrigio espacial (“Agdes ge despejo na Comarca de Escada”) etc, (Adeodato, 1999: 144-5). , * Sobre esse assunto, permito-me remeter a um outro texto meu (Oliveira, 1988), onde discuto essa questo a luz de algumas reflexdes de Max Weber sobre o problema dos valores do pesquisador na alividade da pesquisa, {Como diz o prof. Eduardo Rabenhorst da UFPb, referindo-se especificamente a uma dissertagdo de mestrado, “o texto, enquanto trama, deve ser visto como uma tessitura de argumentos € objegdes” (Rebenhorst, 2002), exemplo, “esquecer” a jurisprudéncia que infirme a sua tese, sob pena justamente de estar desrespeitando a neutralidade axiolégica ‘Mas voltemos questo da pesquisa juridiea, de um lado, e da pesquisa sociolégica, de outro, Estamos tratando aqui, como é evidente, de tipos-ideais, como tais dificilmente encontréveis na realidade inteiramente purificados de contaminagdes, Na verdade, ¢ a0 contrétio até do que se poderia pensar & primeira vista - dado o positivismo normativista de corte Kelseniano teoricamente dominante nas escolas de direito -, a maior parte das dissertages teses nfo prima pela “‘pureza”. E comum encontrarmos, em meio aos argumentos juridicos, escapadas para fora do mundo do direito. Geralmente criticas - da iniqlidade da nossa distribuigfo de renda, do governo que nfo cumpre suas obrigacdes constitucionais, dos politicos que s6 pensam no proprio interesse etc. -, essas incursdes terminam inevitavelmente com as tradicionais exortagdes em termos de “urge”, “faz-se mister", “& imprescindivel” etc. que a sociedade se mobilize, que os cidadios se conscientizem, que a justisa, enfim, reine sobre a terra. ‘Umas e outras ~ eriticas e exortagBes — parecem pretender escapar da pecha tfo comumente aplicada aos juristas de fugirem do contato com a realidade empirica e se refugiarem num mundo de abstragdes, produzindo um saber “alienad« sociolégica” (j4 vi t6picos com esse titulo) do assunto que esto abordando. Na maioria das " Trata-se, assim, de dar uma “viséo vezes, entretanto, essa pincelada de realidade ndo chega a ser exatamente sociolégica, constituindo mais propriamente um discurso critico muito colado ao senso comum, Reconfortante, por certo, mas desnecessério ao argumento propriamente juridico que esté sendo desenvolvido. E, por certo, desnecessério também enquanto sociologia, pois o que ai . Tais ids, nfo se restringem a esse campo especifico do saber, pois so também se faz niio & exatamente sociologia, mas eritica social, o que nfo é mesma cois escapadas, ‘comuns, com especial insisténcia, incursées no campo da histéria, mas também da filosofia, ‘como veremos adiante. ‘Antes de abordar mais de perto esse problema da “impureza”, entretanto, deter-me-ei em alguns aspectos de natureza mais formal do que substantiva - aparentemente mais perfunctérios, mas, como sabem os analistas de literatura, nenhuma forma é pura forma, Porque toda ela carrega um conteiido... 2.1 —“Manualismo” e “Reverencialismo” Para tanto, comecaria por remeter a um texto do professor Joko Mauricio Adeodato, bastante critico por, sinal, no qual esse autor alinha alguns problemas que afligem os trabalhos produzidos por juristas na pés-graduagdo: ignordncia sobre como pesquisar, conjugada A falta de tempo para esse tipo de atividade; ampliagdo exagerada dos temas; escassas referéncias 4 jurisprudéncia e a casos priticos, apesar do contato constante com ambos por forga do préprio oficio; uso de manuais ¢ de livros de doutrina, em detrimento de artigos monograficos ~ etc. (Adeodato, 1999: 144-146), Se fago referéncia a essa avaliago € porque gostaria de incorporar & minha propria reflexio algumas das questées levantadas pelo autor ¢ de acrescentar a essa listagem, jé bastante severa, outras observagdes igualmente criticas. E na esteira dessa avaliagdo que enfatizaria alguns problemas de estilo, verdadeiros cacoetes que precisam ser evitados. Um deles, provavelmente decorréncia do uso abusivo de manuais e de livros de doutrina, é o que tenho chamado de “manualismo”, ou seja, a lendéncia a escrever na dissertagio ou tese verdadeiros capitulos de manual, explicando redundantemente ~ pois trata-se de coisas amplamente sabidas por quem jé passou por um curso de direito ~ o significado de principios € conceitos que so como que 0 bé-a-bé da disciplina Darei, em seguida, alguns exemplos extraidos um tanto ao acaso de trabalhos acadlémicos que passaram pelas minhas maos nos ultimos tempos®. Numa dissertagéo sobre o duplo grau de jurisdigdo, 0 seu autor dedica varias paginas a esmiugar os chamados “efeitos” do mesmo, a saber: devolutivo, translativo e suspensivo... Para qué? Noutra, sobre o problema da lesio nos contratos, vinte e cinco paginas so gastas com um capitulo que parece diretamente extraido de um livro didético sobre 0 assunto. O * Por se tratar de referéncias com intengdes criticas, manterei nesses ¢ noutros exemplos que se seguem, apesar do cardter piiblieo dos trabathos de onde foram retirados, © anonimato dos seus autores. ~ thulo do capitulo, alids, ¢ mais do que tipico: “A Teoria Geral dos Contratos”. Como niio poderia deixar de ser, nele se abordam t6picos como: coneeito, evolugio e importéncin dos contratos; elementos e caracteristicas dos contratos; interpretago dos contratos ~ e por af vai. Uma outra, sobre sentenga, tem mais de um capitulo com o mesmo tcor didatico. Num deles aborda-se 0 conceito de fato juridico, sua classificagfio etc. Noutro, aborda-se a questo da validade da sentenca e seus elementos constitutivos: relatério, fundamentaglo ete. J4 numa outra, temos a informagto de que, com a distribuigio da peticfo inicial junto a0 distribuidor, temos a propositura da ago, isto é, o seu ajuizamento — e assim por diante. Ainda dentro desse rol de questdes de estilo, um outro trago bastante encontradigo, e a ser a todo custo evitado — por ser ostensivamente anti-cientifico -, é 0 chamado argumento de autoridade. Contaminagfio talvez do estilo adotado no foro, onde é preciso convencer o juiz de que se esté com o melhor direito (e portanto com a melhor doutrina...), rata-se de um verdadeiro “reverencialismo” expresso em férmulas do tipo “como preleciona fulano de tal”, “segundo 0 magistério de sicrano” etc., tipico de advogados preocupados antes em convencer com apelos a uma retérica “coimbra” do que em demonstrar com dados cuja forga decorra da propria exposi¢fio®. Definitivamente, & preciso que os juristas se convengam de que, ao escreverem um trabalho académico, nfo podem tratar suas hipétese de trabalho como se estivessem defendendo causas. ‘Uma outra observagfo critica de Adeodato sobre a ignorncia em como pesquisar, aliada & falta de tempo para esse tipo de atividade, demanda uma reflexdo adicional. E curioso como essa falta de tempo venha junto com um outro defeito, a ampliago exagerada de temas, para a qual, parece Obvio, seria necessério justamente dispor de bastante tempo... “No momento em que escrevo essas linhas lembro-me, nfo sem certa nostalgia, do meu antigo professor de Introducfo a Ciéncia: do Direito que em aula, e isso com o ar mais sério e compenetrado do mundo, referia-se a Clévis Bevilaqua como “sibio e santo, santo e sébio”; e a Tobias Barreto como o “Mimalaia da cultura juridica brasileira”. 2.2 A falta de tempo Eis ai uma quest#o importante: falta de tempo, De um modo geral, o pés-graduando em direito, diferentemente do que geralmente ocorre em outras reas como a sociologia, a ciéncia politica etc., jé € um profissional qualificado ¢ detentor de um bom status social, ¢ ndo um simples bolsista que complementa os parcos recursos da bolsa com atividades préximas (dando aulas) ou correlatas (como a participagio numa pesquisa do seu orientador, de uma ONG ete.). Na drea juridica, o pés-graduando é freqlentemente um operador do direito, na maioria dos casos integrante do que chamarei, dando a esse conceito um sentido bastante lato, de “burocracia judiciaria”, pois além de compreender membros do Judiciério stricto sensu is etc. -, abrange procuradores, advogados, delegados de policia etc. Bem recentemente, fiz um pequeno levantamento junto aos meus alunos do ano Juizes, funciondrios de tribu letivo de 2002. Eram 19 alunos. Desses, nada menos do que 13 - ou seja, 68%, em Percentual redondo ~ integravam o que chamei de burocracia judiciéria, Apenas 6 alunos ~ em percentual, 32 % ~ compunham o perfil tipico de outras areas: eram apenas bacharéis, alguns com bolsa, ¢ tinham, paralelamente a pés-graduago, uma atividade docente. Nessas condigdes, compreende-se que a usual homenagem aos familiares impressa no pértico da tese ou dissertagio, com a inevitével mengdo ao “tempo roubado ao seu convivio”, nfo seja apenas um lugar comum, mas a expressdo de uma experiéncia verdadeira, Essa realidade sugere-me uma hipétese a respeito do aparente paradoxo realgado mais atrés — a combinagdo de falta de tempo com a ampliagio exagerada de temas. A hipdtese seria a de que essa ‘aparente incongruéncia se resolve exatamente pela intervengdo de alguns dos outros defeitos referidos, a saber: abuso de manuais ¢ de livros de doutrina em detrimento de jurisprudéncia atualizada ¢ de artigos monogréficos, de um lado; ¢ auséncia de referéncias a casos praticos, de outro. Afinal, suprir tais deficiéncias significaria dedicar-se a atividades de pesquisa que exigiriam do jurista-autor, escrevendo sua tese ou dissertagiio hos intersticios da elaboragdo de despachos ¢ pareceres, um esforgo bem maior do que o de voltar-se para a estante € pegar os consagrados livros dos doutrinadores que esto & mio! c rf Numa palavra, o aparente paradoxo se explica por aquilo que mais atris chamei de “manualismo”. Observo, levando adiante 0 raciocinio, que esse mesmo cacoete termina torando possivel as incursées por outras dreas do saber sem o devido preparo para tanto.. 2.3-A “impureza” metodol6gica Voltamos aqui a tocar no problema da “impureza” que assinalei mais atrés - 0 qual, mais tecnicamente falando, chamarei doravante de confusto epistemolégica, sobre o qual algumas palavras se fazem necessérias. Para comegar retomo a observagio jé feita, ancorada num prudente realismo, de que alunos da pés-graduaco em direito, a principio pelo menos, esto ali para fazer uma pesquisa juridica e nfo sociolégica - ou histérica, filoséfica ete. Atentemos de novo ao que diz Junqueira quando lembra que, para 0 soci6logo, 0 direito que interessa é um direito “redefinido pelas ciéncias sociais, através de pressupostos tebricos e epistemolégicos destas” (Junqueira, 1993: 4), Isso inclui, para ‘comeso de assunto, um arsenal de métodos e técnicas de pesquisa que o jurista, que nao foi preparado para isso, normalmente nfo possui’. Com isso nfo estou de forma alguma recomendando, o que seria aliés incompreensive! num praticante de sociologia juridica, que 0s alunos da pés-graduago em direito produzam trabalhos “alienados”. Aliés, « abertura idade de existéncia de algo que possa ser chamado para o real até como condig&o de poss de direito é uma perspectiva que se encontra até mesmo no mais “normativista” dos autores, ~o proprio Kelsen. Na sua Teoria Pura, em varios momentos o autor austriaco chama a tengo para o fato de que “uma ordem coercitiva que se apresenta como Direito sé send considerada vilida quando for globalmente eficaz” (Kelsen, 1985: 50)* — grifei. Supondo- se, como evidente por si mesmo, que a ordem coercitiva que interessé ao jurista seja aquela dotada de validade, segue-se que nfo existe nenhuma incompatibilidade, muito pelo 7 E nfio se trata de uma particularidade brasileira. A propria Junqueira, referindo-se a realidade dos estudos sécio.juridicos nos Estados Unidos, refere-se a uma observagtio feita por David Trubek a propésito das pesquisas desenvolvides por Stewart Macaulay, um dos mais conhecidos socidlogos do direito naquele pats: “... ocasionalmente (ele) pe junto alguma coisa que parece um survey. mas que nfo seria reconhecido como tal por pesquisadores quantitativos” (in Junqueira, 1995: 11). Sobre essa perspectiva, ver igualmente as pp. 88 ¢ 97, entre outras, da obra referenciada, 0 contrdrio, entre a produgdo de um saber normativo ¢ referencias a realidade empirica’, Para usar os termos da teoria sistémica de Luhmann hoje tilo em evidéncia nos cursos juridicos, se a autopoiese do direito significa, por um lado, que ele ¢ “normativamente fechado”, significa também, por outro, que ele ¢ “cognitivamente aberto”", Isso, entretanto, nao pode ser visto como uma licenga para se praticar a confusdo epistemolégica a que aludi, Com isso quero me referit a um outro trago bastante encontradigo em dissertagbes e teses: a insergdo de itens, as vezes de capitulos inteiros do que seriam a “visio” da sociologia- mas ‘anbém da histéria, da filosofia ete, ~ sobre o tema objeto do trabalho. Normalmente isso & apresentado como se se tratasse de uma perspectiva interdisciplinar. Mas termina sendo nada mais nada menos do que uma confusio, Aliés, talvez mais propriamente falando, freqUentemente sequer chega a se tratar de uma auténtica con-fusdo, ou seja, a justaposicao, hum mesmo trabalho, de capitulos que pertenceriam a mais de uma ciéncia, pois o que ‘muitas vezes aparece como tal resume-se a alguns lugares comuns extraidos daqui e dali ~ muitas vezes, repetindo 0 vezo jé conhecido, de ples manuais — sem maior consisténcia''. © que acontece com as habituais incursdes histéricas que via de regra antecedem a abordagem do tema no presente é, a esse respeito, exemplar. Seguramente a maioria dos trabalhos que tenho examinado néo dispensa uma incurs dess¢ tipo, muitas vezes apresentada sob a férmula “Evoluedo Histéria do(a)..", seguindo-se a mengo a0 objeto que esta sendo examinado, E com freqiéncia que, nesse momento, surge a referéncia @ uma antiga ¢, literalmente falando, mitol6gica legislagdo: o famoso Cédigo de Hamurdbi! ~ dai o titulo deste trabalho. Mas, aduzo rapidamente, esse problema ndo ocorre apenas no Brasil. Num trabalho Publicado na Franga em 1976, ¢ conhecido no nosso pafs sobretudo a partir de sua versio Portuguesa publicada em 1979 - Uma Introdugdo Critica ao Direito -, 0 seu autor, Michel ALE porque ~ seja-me permitido dizé-to em forma anedética numa nota de pé-de-pagina -, se assim nao fosse nao haveria como distinguir 0 Cédigo Civil dos Franceses de 1804 de um cédigo ivil editado por um Napoledo de hospicio. 1, Sobre 0 assunto, ver Marcelo Neves, 1994, Capitulo 3. “' Para Luiz Alberto Warat, com 0 seu gosto para a iconoclastia revestido de bom-gosto literario, seria o que ele chama de “senso comum tedrico dos juristas”, ou seja: “fragmentos de teorias vagamente identificaveis, coBgulos de sentido surgidos do discurso dos outros” (Warat, 1994: 13). Miaille, um nome que se tornou uma referencia obrigatéria nos estudos “criticos” do direito que entfio comegavam a aparecer entre nés, refere-se a essa mesma tendéncia nos trabalhos produzidos por juristas no seu pais. Ela a chama de “europeocentrismo”, ou seja, uma visio retrospectiva segundo a qual é “a partir do direito modemo e ocidental que so apreciadas as instituig6es jurfdicas de outros sistemas.” Adotando-se essa perspectiva, “serd possivel designar instituig6es muito afastadas no tempo como sendo ‘antepassados’ de instituiges actuais, invocar testemunho de uma ‘evolugdo’ para explicar a situagio actual” (Miaille, 1979: 49), Nos trabalhos que tenho examinado pululam exemplos que ilustram a perteicao essa maneira de ver 0 direito, Dou dois exemplos — mais uma vez tirados um tanto a0 acaso. Num trabalho sobre justia tributdria, seu autor, em nfo mais do que meia pagina, faz um percurso de milhares de anos que comega com os egipcios ~ “entre os quais ja se falava em contribuigdo dos habitantes para com as despesas piiblicas de acordo com as possibilidades de cada um” -, passa naturalmente pelo império romano e, no pardgrafo seguinte, j4 est no Brasil da Constituigo de 1988, a qual, obviamente, proclama todas os principios de justica tributéria que 0s egipcios j4 intufam... No trabalho sobre a lesio nos contratos, jé referido, ‘seu autor, discorrendo sobre a teoria da imprevisfo, diz que ela j4 esta bem delineada no Cédigo de Hamurdbi: “Se alguém tem um débito a juros, e uma tempestade devasia o campo ou destr6i a colheita...” etc, ete. Perguntar-se-ia: qual é 0 problema? A resposta ¢ plural, Em primeiro lugar, € preciso observar que esse tipo de histéria - que, muito grosso modo, podertamos classificar como pertencendo a linha do “evolucionismo”, onde as normas e valores do presente ja existem em embri&o no passado mais longinquo ~, esté, de um modo geral, em desuso entre os historiadores ha bastante tempo. Vejam bem: nfo se trata de descartar inteiramente uma historia desse tipo, mas advertir contra 0 seu uso inocente. O seu desuso atual, por exemplo, nfo significa necessariamente que esse tipo de histéria nfo possa ter lugar. O problema é que 0 jurista-autor - semelhantemente ao personagem de Moliére que fazia prosa sem o saber - adota um viés evolucionista sem consciéncia do que esti fazendo. Um evolucionismo, alids, que em tudo se assemelha a0 cumprimento de um simples ritual, pelo 12 fato de essas incursdes hist6ricas ndo serem o fruto de uma pesquisa original, mas, via de Fegra, uma compilagio de informagdes ¢ autores os mais diversos e variados - muitas vezes colocados lado a lado sem um fio que os costure -, hauridos mais uma vez em manuais ou livros de divulgado, € nfo em literatura especializada e especifica. Ainda que uma Perspectiva histérica de tipo evolucionista tendo o “europeocentrismo” como corolério estivesse correta, & de se perguntar para que serve afinal - como vi recentemente —, numa dissertagaio tratando de problemas trabalhistas brasileiros no comego do século XXI, a mengo ao Cédigo de Hamurdbi como a primeira codificagdo a consagrar um rol de direitos comuns a todos os homens, o que ¢ sem diivida um anacronismo, ¢ — anacronismo ainda maior ~ como precursor do moderno saldrio minimo! Prosseguindo na sua linha de reflexto critica, Miaille qualifica esse viés de “universalismo ahistérico”, ou seja: uma visdo da histéria segundo a qual as “vse destacam pouco @ pouco do contexto geogrifico e histérico no qual foram efectivamente Produzidas © constituem um conjunto de nogdes universalmente validas (universalisio) sem intervencdo de uma historia verdadeira[..] nesta abstragdo, totalmente idealizada, perde-se de vista ‘no s6 as relagBes que ligam tal tese com os caracteres socials © econémicas da época que a viu mas sobretudo, a problemtica sobre a qual tal tee se apoia” (idem, pp. 48 ¢ 51), Como, marxista, Miaille debita essa visto na conta do anti-materialismo que seria préprio dos juristas enquanto guardies da sociedade burguesa, cuja reprodugdo o direito assegura. Mas talvez no seja necessério ir to longe na explicagdo .desse fendmeno, Afinal, dissertagSes ¢ teses “criticas” do nosso modo de produggo também adotam essa mesma forma de argumentar.. Talvez a explicagdo seja bem mais simples, O direito, enquanto érea de saber submetida, como qualquer outra, & divisdo social do trabalho intelectual, tornou-se tum campo especifico para o qual so formados, nas faculdades, seus operadores, Nesse sentido Kelsen tem razdo ao reivindicar uma especificidade para 0 campo proprio do jurisia que jé nao seria o da psicologia, da sociologia, da teoria politica e, com a laicizagao do direito operada pela modemidade, até mesmo da ética (Kelsen, 1985). Com efeito, no é Preciso ser nenhum normativista bitolado para reconhecer que, alé por razdes oe eee Quando o leitor vai verificar a fonte de tais afirmagdes, depara-se com a referéncia a manuais,,. ‘ 1 3 imperiosamente priticas, a primeira tarefa do estudante de direito € conhecer 0 ordenamento dentro do qual vai trabalhar. Esse ¢ 0 saber que é ministrado nas escolas de direito, Observe-se de passagem que Kelsen no nega que haja uma “conexio” entre o direito ¢ as disciplinas mencionadas, Nem muito menos que seja possivel uma psicologia juridica, uma sociologia jurdica ¢ assim por diante. Apenas adverte contra o “'sincretismo metodolégico” que pode tentar o jurista — que & 0 que costumam fazer os nossos juristas-autores, icando aquilo que chamei de confusto epistemolégica. Como argumentarei adiante, isso prat ‘nfo significa que o jurista deva praticar uma ciéncia alienada da realidade social e dos dados que a histéria, a sociologia ete. possam fornecer. Muito pelo contrario. Mas a verdade é que, treinado em primeiro lugar ~ na maioria das vezes exclusivamente - para conhecer e operar o ordenamento, o jurista que ingressa na pés-graduaed0, por mais que esteja imbuldo de boas inteugdes, nfo pode pretender, de uma hora para outra, escrever capitulos de histéria ou de sociologia que merecam 0 reconhecimento de socidlogos e historiadores. Falta-lhes, para falar Ge um modo muito franco, traquejo para tanto. Dai o jnevitavel “manualismo” que também afeta suas incursSes nessas areas — as quais, exatamente como ocorre com o direito, tem também suas exigéncias metodolégicas critérios de validade com os quais o jurista no esté habituado. HA um tipo de pergunta que, enquanto professor de sociologia juridica na pés-graduagdo, éme frequentemente enderegada pelos futuros mestres e doutores que atesta, a um s6 tempo, sua boa vontade mas, também, seu desconhecimento dé como as coisos se passam na drea, Depois de expor o tema com que pretende trabether, 0 aluno pe a pergunta mas ou menos nesses termos: “Qual &a visto da sociologia sobre {sso A minha resposta freqUentemente os desconce decepgto, explico 0 que quero dizer com isso, “Nao existel”.. Passado 0 susto e, quem sabe, a Para comego de assunto, nfo existe algo chamado A Sociologia ~ entendida como um acervo pacifico © consolidado de saber contendo, para cada aspecto da realidade social, uma visdo... A sociologia ~ como, de resto, acontece com as ciéncias sociais e humanas de um modo geral ~é um vasto campo de embates teéricos, {deolbgicos e mesmo metodologicos, a ponto de jé se ter dito que existem tantas sociologias quantos sto os sociblogos... S6 para ficar com um exemplo eléssico, pensemos na tradig&o sociolégica derivada de Marx, dentro da qual a sociedade é vista como um campo de lutas entre interesses contraditérios, contraposta a uma coutratrodigfo que deriva de Durkheim, para quem a s8cledade ¢ sobretudo um todo integrado por valores 4 comuns cristalizados na chamads conscigneia coletiva, A sosiologia, no Fundo,talvez nfo seja endo um vasto © variado campo onde dialogam ¢ muitas vezes se confrontam os sociélogos. Nuo existe, assim, uma visto ‘univoca da sociologia sobre a propriedade, a familia, o crime, a administraglo, 0 que quer que seja, Existom, entremnto, obras sosiolégicas que abordaram esses fendmenos sociais, as quais podem eventualmente servir para o trabalho do jurist. Exemplificando: se alguém vai fazer um trabalho sobre corrupeio no Brasil e me pedir uma “visio sociolégica” sobre iss, ocorrer-me-ia recomendarlhe lero que tum Weber escreveu sobre burocracia patrimonial, ou, entre n6s, © que um Sérgio Buarque de Holanda (em faizes do Bras) ou wm Roberto DaMatta (em Carnovais, Malandros ¢ Herdis) esereveram sobre nossa Tentente resistencia a diferenciar 0 espago piblico do espafo prvado, Mas isso nko significa dizer que para ada tama que inteesse 20 jurisa haja um trabalho socolégico the esperando... , mais importante, que esse Imbalho seja a visa da sociologia sobre 0 assunto. Até porque, muito provavelmente, 0 aluno encontrard ‘rabathos muito diferentes efeitos sem o conhecimento um do outro. A ele caberd pesquisa, fazer a triagem €