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A legislagao escolar como fonte para a Historia da Educacao: uma tentativa de interpretagao* Luciano Mendes de Faria Filbo Teme tba apresena os restos pares Wi TRE Inveggado de ee aon sem senda deseo Por wn EDS pesquisadores rece, ela fem de mais Pascifante: a sua-dinamicidade; e, finalmente, abriria mais uma possibilidade de interrela- cionar, no campo educativo, varias dimensdes do fazer peda- gOgico, As quais, atravessadas pela legislagio, vaio desde a politica educacional até as priticas da sala de aula que eu procuro fazer, a seguir, é explicitar al- guns elementos desta concepgio, tendo em vista a ex posicao de minha propria pratica de pesquisa com a legislagio. Observo, no entanto, que minha intengio nao esgotar 0 assunto. Ao fazé-lo, procuro, na medida do. possivel, empreender um duplo movimento que € com preender a legislagio como fonte“é, ao mesmo-tempo, como objeto de minhas investigagde: E preciso dizer, por isso mesmo, que tenho consciéncia da existéncia de lacunas importantes neste trabalho. Uma delas eu gostaria de salientar, inclusive para motivar outros a estudé-la. Trata-se, da tradi¢lo Jur dico-legislativa brasileira no campo da educagio. Como bem j 0 demonstrou E. P. Thompson para caso da Inglaterra (Thompson, 1984; 1987), é fundamental relacionar toda a pritica legislativa € os produtos da mesma, as leis, com as relagdes sociais mais amplas nas quais elas estio inseridas € as quais elas contribuem para produzir. O historiador inglés chama a atengio, particularmente, para a cultura e os costumes com os quais a legislacao, seja ela qual for, esté em intimo € continuado didlogo. Segundo ele, € impossivel compreender a legislacto inglesa a res peito de varios aspectos da vida social, econdmica e cul- tural daquele pais, abstraindo-a da relacao com os costumes, que ela veio substituir, entrando, portanto, em competicao ‘com os mesmos, ou mesmo, a partir dos quais a legislacao era continuamente interpretada ¢ reinterpretada. Pois bem, se Thompson pode falar, por exemplo, da tradicio do “inglés livre de nascimento” e de seu peso significativo na cultura inglesa, o mesmo nao ocorre aqui. 99 ngyque se refere A educagio, é um assunto bastante ines Como ja realgou Sérgio Adomo (1988:47), referindo-se ao século XIX brasileiroy-entre_nds a ret6rica da igualdade, Pot exemplo, encontra eco na lei, ou melhor, é produzida na lei, mas no encontra eco nos costumes. Na verdade, convém esclarecer que a relagao entre lei € costume é bem mais complexa. Veja-se, por exemplo, © que diz a esse respeito Norberto Bobbio (1996.p.95): “Como dliziamos, o caso do relacionamento entre Lei e costume € bem mais complexo porque no pode receber uma resposta sera: alguns ordenamentos consiceram o costume infetior 2 Le, €€ entio no easo de antinomia aplica-se o critério lev superion, ‘us ordenamentos consideram a Lei e o costume no mesmo plano, ¢ entio toma-se necessirio aplicir outsos critérios, Em eral a preponderiincia da Lei é fruto da formacio do Estado modemo com poder fortemente centraizaco,” Essa € uma questo jé posta, mesmo que indireta- mente, por estudos classicos no Brasil (estou me lembran- do aqui, particularmente, de um livro como 0 de Mari Silvia de Carvalho Franco (1983) —, ¢ de outros mais Tecentes, como o de Sérgio Adorno, ja citado. No entanto, forado que precisa ser melhor conhecido e explicitado nos trabalhos sobre a legislagio escolar. Outro aspecto de fundamental importincia, relacio- nado também com a legalizaclo refere-se a forma como © poder judiciario historicamente vem se relacionado com a legislacdo do ensino e qual a importincia da pritica judicis ria, seja na interpretacZo da lei, seja enquanto guardia das formas de garantia e controle da legalidade, ¢ como tem contribuide para a produgo de uma importante interface entre 0 campo juridico e 0 campo pedagégico no Brasil! A lei como ordenamento juri Segundo Norberto Babbig (1996.p.19), “as normas Juridicas nunca existem isoladamente, mas semipreem tin. * Uma interessante discussto a este respeito encontrase em Nunes (199) 100 contexto de normas com relacdes particulares entre si (.... Essa contexio de normas costuma ser chamado de ‘orde- namenio”. Essa perspectiva, detalhada longamente em todo o trabalho acima citado, a qual estou adotando, permite, me parece, compreender.a legislacio escolar como um ordenamento juridico especifico ¢, tempo, relacionado a outros ordenamentos. Aproximar da lei enquanto ordenamento-jurfdico significa, além de se dar conta de uma tradiglo e de suas relacdes com oulfas tradigoes e costumes, entender uma certa 16gica.em funcionamento. Como se sabe, a lei pre- cisa ser fegitima eegitimada,yo que, por sua vez, requer nto wth retGrica de igialdade-mas,-minimamén- te, a coldcacdo em funcionamento, no discurso legal, de uma légica de igualdade. Se assim fosse, a lei nao seria legitima e, muito menos, necessiria. l sempre deve “pois “a lei’ enquanto uma I6gica da iguaklade, sempre tentar transcender as desigualdades do poder de classe, 20 qual € instrumentalmente atrelada para servilo. E ‘a lef’ enquantdm———o interesses cle todos os ideologia, a qual pretende reconciliar os interesses gras cle homens, sempre Varios os. desdobramentos que gostaria de enfatizar. Em primeiro lugar, chamo a aten¢io para uma distingo necesséria entre dois momentos fundamentais: 0 momento da_pro- dugdo € 0 momento da_realizagdo da lel. Apesar do “carter marcadamente arbitratio dessa dlstingo, porquanto poderia entender perfeitamente que a produgto da le- gislaglo escolar é, ja, realizagio de outras leis, suponho que ela se faz necessiria, por remeter 0 pesquisador a sujeitos, instituicgdes e, até mesmo, como se vera a priti- cas sociais diferenciadas.> Em segundo lugar, exponho uma das quest6es que sti no Amago desta andlise: @ lei como pritica ordenadora ¢ instituidora, voltada para as relacoes socials. Aqui destaco tanto o cariter de interveng.io social subjacente A produgio € realizagio da legislacao escolar, quanto o fato de ser a legislacio, em seus diversos momentos € movimentos, lu- gar de expresso € construcio de conflitos e luta 1° Momento: a produgao da lei Trabalhando com a legislagio escolar mineira do século XIX, pude observar que relativamente & produ- ao da mesma precisa-se estar atento para, pelo menos, das ordens de fatores. Em primeiro lugar, para © tipo especifico de legislacio de que se trata. Nesse particu lar, posso especificar, pelo menos, trés dos mais impor- tantes: a_lei_propriamente dita; os regulamentos; as portarias € demais atos coti ‘As primeiras, geralmente discutidas e aprovadas pela Assembléia Provincial a partir dé-um projeto do executivo, eram sancionadas publicadas pelo Presidente da Provin- ia, inicialmente em jomais de maior circulago no territério mineito ¢, posteriormente, no 6rgio oficial do Estado: 0 Minas Gerais. J4 os regulameritos), estes eram produzidos pelo proprio executivo, a partir de autorizagdes, ora da legislaciio educacional specifica, ora por algum artigo de leis de caréter mais geral, as quais, por vezes, nenhuma relagio mantinham com a educagao., Por sua vez, as portiri-y as constituem fontes € indicios preciosos para a reconstru- do processo de realizagio das politicas de educ: Em segundo lugar, € preciso estar atento para os sujeitos envolvidos na producao da legislacao. A par da 5 Ver, a esse respeito, 0 que Bobbio (1596) chama de Unidade © relagio hieriquica no interior © entre ordenamentosjurdicos. 106 > tradigZo legislativa do executivo brasileiro, manifesta ainda nos dias de hoje, o legislativo nem sempre foi omisso ou~ simples chancelador dos projetos do executivo para_o campo educacional. Apesar das dificuldades de recons- ituir o proceso de produgio das leis, hi varios indici ‘de qué os projetos emanados do executivo tiveram que sér negociados ¢ modificados quando da sua tramitagio na_Assembléia. Provincial Exemplo dessa negociaglo € a Let n® 13 de marco de 185. Inicialmente 0 Projeto previa a existéncia de,trés graus de ensing; mas a lei, ao ser sancionada, apresenta apenas dois graus. Essa mesma lei é, no entanto, exemplo do poder do executivo para modificar, via regulamentos, aquilo que foi aprovado pela Assembléia. ORegulamento n® 3, como quase todos os regulamentos analisados, em muitas de suas disposig6es, altera as determinagdes legais aprovadas anteriormente nas Assembléias. Por outro lado, limitada seria minha anélise se me detivesse, apenas, no papel desempenhado por deputados € pelos presidentes de provincia e seus prepostos na pro- dugio da legislagio. Outros setores sociais interessados na questio tém ai uma participacio ativa. Eles utilizam diver- sos meios para fazer valer seus interesses ou para serem ouvidos. Um desses meios é, na verdade, representadlo por aqueles sujeitos que fazem e/ou publicam o jor. A faceta educativa da atividade jornalistica pode ser percebida quando se analisa suas posigdes frente aos debates sobre a politica ¢ legislacio educacionais, oca- sitio em que eles se colocam como expressiio da opinizio piblica e, sem divida, como momento mesmo de sua constituig2o. Isso pode ser percebido, nessa pesquisa nas manifestacdes que tiveram lugar n’O universal -no periodo de discussio da lei n® 13 & qual ja me referi. O joral, além de publicar o projeto inicial da lei e sua versio final, abre espago, também, para manifestacdes como a da “Sociedade Promotora da Instrucao Pablica”, 107 instituicao fundada quatro anos antes na cidade de Ouro Preto. Nessa ocasitio, afirmava a Sociedade: “A Sociedade Promotora, confiada nas vossas luzes, julga necessirio indicar-vos as precisdes «la Provincia, mas, para ser conseqiiente com os fins dle sua instituigao, niio pode deixar de invocar vosso patriotismo em favor da Instrugio Piblica, que € sem