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Dentre as virtudes que todo 0 homem deve viver, hé uma, prosaica, envergonhada, que éa chave das outras, vistosas e muito cotadas: ehama-se modes- tamente ordem. E como essas estacas fundas que sustentam 0 edificio. Seu destino é enterrar-se, agiientar sem aparecer; se alguma vez aparece, é porque o edifi- cio desabou. E uma virtude humilde e, na bolsa dos valores humanos, humilhada; depreciada: parece estribilho para meninos e meninas de colégio, ndo para homens feitos. E, no entanto, sem ela nada persiste, tudo cai, mais cedo ou mais tarde, ‘amontoa-se como entutho feio e incémodo em ter- reno baldio. A desordem é uma das razdes de fundo da nossa fragilidade, apesar dos nossos bons pro- Jetos. Nao se pretende tecer nestas paginas umas con- sideragdes de mera prudéncia, ditadas pelo senso- -comum, nem oferecer conselhos de auto-ajuda, nem enunciar modos de methorar 0 rendimento pessoal ou a eficdcia organizativa. Do que se trata éde compreender methor que a origem ¢ o fim tlti- mos da ordem se situam fora do espaco e do tempo: na eternidade que nos precede e nos aguarda, nm A virtude da ORDEM Francisco José de Almeida Se TEMAS CRISTAOS 120 A VIRTUDE DA ORDEM FRANCISCO JOSE DE ALMEIDA | QUADRANTE Sio Paulo 2006 Copyright © 2006 Quadrante, Sociedade de Publicagdes Culturais Capa José C. Prado Iustragio da eapa A Criagao: Deus no inicio da Criagao (1332), Michiel van der Borch, Koninklijke Bibliotheek, Holanda Ilustragdes internas Cristiano Chaui dos Internacionais de Catalogasio na Publicacio (CIP) (Camara Brasileira do Livro, ‘imeida, Fr Tost de ‘A virtade da ordem / Francisco José de Almeida ~ Sto Paulo ‘Quadrante, 2006 ~ (Temas cristios; 120) ISBN: 85-7465-009-9 - colesio ISBN: 85-7465-101-X - vol. 120: A vitude da ordem 1. Conduta de vide 2, Ordem 3. Vida erst 4, Virtudes 1. Titulo, IL. Série, 08.8832 cpp-241.4 Indices para catalogo sistemitic 1. Ordem : Virtdes : Erica crit 261.4 ‘Todos os direitos reservados a QUADRANTE, Sociedade de Publicagdes Culturais Rua Iperoig, 604 - Tel.: 3873-2270 - Fax: 3673-0750 CEP 05016-000 - Sao Paulo - SP info@quadrante.com.br / www.quadrante.com.br INTRODUGAO™ Num dos pontos iniciais do seu livro Caminho, diz ‘So Josemaria Escriva: “Nao voes como ave de ca- poeira quando podes subir como as dguias”'. Com essa imagem, records-nos que, no meio da sua vida distia, 0 cristo deve ter a cabeca, os olhos € 0 cora- lo postos no céu e, assim orientado, procurar ele- var-se até as alturas de Deus. Outro dos pensamentos do autor, agora em Forja*, fala-nos de um passarinho que, por suas forgas, mai consegue chegar & sacada do terceiro andar de um pré- dio, até que um dia uma guia o arrebata nas suas po- garras ¢, depois de ergué-lo até o azul dos cus, o solta dizendo-the: “Vamos! Agora voa!” Sabemos que, por designio divino, nfo fomos fei- tos para arrastar-nos pelo chiio ou para bater as asas como uma galinha espavorida, para afinal sé nos des- ocarmos um ridiculo metro € meio. Fomos feitos para um v6o em que experimentaremos a liberdade, 0 ar puro e a vista inesgotivel dos cumes. (1) Josemara Escivi, Caminko, 9. ed, Quadrante, Sio Paulo, 1999, n.7. (@) Josemaria Escrivi, Forja, 2 ed, Quadrant, So Paulo, 2005, 238. Sabemos disso, mas também sabemos que, por nds proprios, se é que comegamos bem, em breve nos as- sustamos ante a magnitude do firmamento que nos en- volve ¢ tomamos a procurar terra, onde nos sentimos seguros. Ea diferenga entre o dom das alturas ¢ a vida rente A terra, esgaravatando o chao sem parar. O peso da nossa mediocridade, a asfixia do imediato levam- -nos instintivamente a ter medo de continuar a voar € ‘a desistir, quando comegdvamos a experimentar ¢ a ‘encantar-nos com um panorama de luz sem sombras ¢ de paz silenciosa. Mas se no duvidamos de que a Aguia divina tem os olhas postos em nds © nos impulsiona, se a ela nos confiamos e a sabemos sempre por perto — nio apenas no ponto de arranque —, esse peso ndo nos forga a tar agarrados & terra. A graga do Batismo fez-nos, com ‘uma marca indelével, da raga ¢ da familia dos filhos de Deus. Os outros Sacramentos instilam-nos gota a gota a vida ¢ a forca do proprio Deus. Ouvimos no in- timo o incessante murmtrio encorajador dessa Tercei- a Pessoa, amavel e paciente, que € 0 Espirito Santo. ‘Temas & nossa disposigo, sempre que dela necessite- ‘mos, a temura do regago de Santa Maria, Mae de mi- sericOrdia. Estamos amparados por esse Corpo do qual somos membros vivos ~ a Igreja -, que nos vitaliza e nos reabastece em pleno véo. E tantas ajudas mais. ‘Mas a todas essas ajudas — que pela fé estio a0 nosso dispor , temos que dar-thes 0 suporte das nos- ‘sas prOprias asas, o ponto de aplicagao da graca divina. “Deus que te criou sem ti, ndo te salvard sem ti”, diz Santo Agostinho. E do cortejo de virtudes que com- poem ¢ fortalecem as nossas débeis asas, hd uma, pro- saica, envergonhada, que & a chave das outras, vistosas ‘e muito cotadas: chama-se modestamente ordem. 4 E como essss estacas fundas que sustentam o edi- ficio, Seu destino é enterrar-se, agiientar sem apare- cer; se alguma vez aparece, é porque 0 edificio desa- ou. E uma virtude humilde e, na bolsa dos valores humanos, humilhada, depreciada: parece estribilho pa- ra meninos e meninas de colégio, no para homens feitos. E no entanto sem ela nada persiste, tudo cai, mais cedo ou mais tarde, e amontoa-se como entulho feio e incdmodo em terreno baldio. A desordem é uma das razbes de fundo da nossa fragilidade, apesat dos bons projetos. Que acontece com um homem, uma mulher, um jovem estruturalmente desordenados? Nao os veremos dar um passo que seja seqiiéncia do anterior ¢ por isso nunca chegaro ao término do edificio. Ou serio o cata-vento que brilha e nada sustenta, inconstantes, frivolos, ociosos a espera de ver de que lado sopra 0 vento. Ou entiio esses homens afobados, esgotados, correndo atris dos planos inacabados, dos encontrées em si proprios nas esquinas da sua desarrumagao. Se se virem ao espelho da sua consciéncia, serio a ima- gem espectral da volubilidade ou do egoismo frenéti- co. E, para os outros, sero fundamentalmente pessoas ‘niio confidveis: nao respeitardo compromissos, nem prazos, nem amizades, ¢ menos ainda ideais, Talvez seja por falta de reflexio ou de uma vontade firme. Talvez. Ou entio, simplesmente por falta de ordem, ‘A ordem & uma virtude-serva: existe para servir. Mas, na sua raiz, é uma virtude-senhora: tanto pela sua origem, pelo seu bergo, como pela meta a que nos conduz, se aceitamos a servidio paradoxal de servir a essa virtude que nos serve. ‘Nao se pretende fazer aqui umas consideragdes de 5 ‘mera prudéncia, ditadas pelo senso-comum, nem ofe- recer conselhos de auto-ajuda, nem enunciar modos de melhorar 0 rendimento pessoal ou a eficécia organiza- tiva. Do que se trata é de compreender melhor que @ origem e o fim iltimos da ordem se situam fora do es- paco e do tempo, na eternidade que nos precede e nos aguarda. O QUE E A ORDEM? Em matéria de ordem nas nossas ocupagdes, todos tendemos a cuidar do imediato, se no do atrasado ou do urgente, sem refletir habitualmente nos principios que deveriam dar origem e razio de ser is nossas ati- vidades. Ouvimos falar dessa palavra ¢ logo pensamos nna mesa do nosso eseritério, atulhada de papéis pen- dentes...; no armdrio, na confusio do quarto das crian- gas ou dos nossos livros amontoados... Mas, na reali- dade, esse aspecto utilitério no é — nio deve ser — um Principio auténomo nem um fim em si mesmo, mas Conseqiiéncia de outra ordem fundamental, interior, que se traduz ¢ se projeta no que se faz. Para entender o que ¢ a ordem, & preciso comegar Por compreender que no é qualquer tipo de estrutura- Go das minhas coisas que pode realmente merecer esse nome. Sem it mais longe, uma ordem que se li- mitasse 4 mera organizacdo de coisas materiais ¢ ocu- ppagdes pessoais, vendo nela uma lei suprema, a ponto de converter-se numa mania, num verdadeiro idolo a0 qual se sacrificassem valores mais importantes, seria ha realidade uma grave desordem. Dai que seja muito importante conhecer e viver os critérios da ordem que ho de regular a vida e as coisas da vida. Por exemplo, poss ordenar a minha atividade segundo principios ue me ajudem a cumprir cabalmente o dever, ou en- 7 A ordem exterior 6 reflexo de outra ordem, mais fundamental, que é interior. tio pela lei do menor esforgo ou do gosto pessoal; se~ gundo critérios de generosidade ou de egoismo; em nivel puramente sensorial ou de acordo com critérios morais, etc. Em iiltimo termo, para cortar caminho, diremos que a ordem digna desse nome tem de partir e apontar para um objetivo muito alto: 0 de conseguir que todos (08 nossos atos se ordenem para uma vida virtuasa, que se proponha traduzir nesses atos a ordem querida por Deus para nés ¢ para as coisas que dependem de nés, tal como consigamos apreendé-la. A ordem seri as- sim, mais que uma virtude, 0 resultado de muitas vir- tudes juntas que refletirio a vontade de ajustar-nos a0 8 que Deus quer de nés: & ordem por Ele estabelecida para 0 nosso caso. ‘A ORDEM QUERIDA POR DEUS Deus estabeleceu uma ordem ao criar os seres ina- ‘imados € os seres vivos, em especial o homem. Nao criou por criar. Nada no universo existe sem finalida- de. O homem, dotado de alma imortal, menos ainda. E nao 86 0 homem em geral, mas eu em particular. Costuma-se dizer que “Deus s6 sabe contar até um”. Isto significa que eu ndo sou um ser perdido na imen- sido do universo, mas alguém muito especial em quem Deus pousou individualmente o seu olhar de Pai € de quem espera um comportamento determinado, ‘Ajustar-me a essa expectativa, conformar os meus pla- nos € agdes a esse projeto divino, cuidadosamente pro- ‘eurado e meditado, é a ordem que deve reger os meus dias e os meus pasos. ‘Nio pensemos que a idéia de Deus sobre cada um de nés ¢ algo vago, impossivel de ser apreendido, Em primeirissimo lugar, porque Ele nos fez conhecer os ‘seus principios de ordem para o género humano e, por conseguinte, para nés: os Dez Mandamentos. Cum- pri-los é o primeiro elemento ordenador da nossa vida; descumpri-los ¢ a desordem, melhor, a fonte de todas, as desordens e, no fundo, a verdadeira e tinica desor- dem: chama-se a isso pecado, ‘Aos olhos humanos — superficiais e mfopes -, 0 pecado nao parece as vezes tio importante. Mas no é verdade. Recordemos, a este propésito, a conhecida afirmagao do Cardeal Newman, quando se converteu do anglicanismo a Igreja Cat6lica: “A Igreja Catélica afirma que, se 0 sol ¢ a lua se precipitassem do firmamento, ¢ a terra se afundasse, e 0s muitos milhdes que a povoam morressem de inanigao em extrema agonia, tudo ‘sso, que causaria males temporais, tudo isso se- ria um mal menos grave do que o de uma tinica alma que nio s6 se perdesse, mas cometesse um linico pecado leve, dissesse deliberadamente uma mentira ou roubasse sem motivo uma moeda de cingiienta centavos”. A isso acrescenta-se 0 que diz 0 Catecismo da Igreja Catélica: “Os Dez Mandamentos fazem parte da reve- lagdo de Deus. Mas, a0 mesmo tempo, ensiniam- -nos a verdadeira humanidade do homem. Poem fem relevo os deveres essenciais e, por conse- guinte, indiretamente, os direitos fundamentais inerentes natureza da pessoa humana. O Decé- Jogo encerra uma expressio privilegiada da «lei naturaly”*, Quer isto dizer que todo 0 pecado, por ser uma ofensa a Deus, que, “escreveu os Dez Mandamentos «com o seu dedo» (Ex 31, 18; Deut 5, 22) e os revelou na Nova Alianga em Jesus Cristo no seu sentido ple- no” (cfr. op. cit. n. 2056), introduz um elemento de corrupeo na natureza do homem, desfigurando-a ¢ contaminando as relagdes humanas. Por menor que parega, 0 pecado &, pois, a maior desordem e a fonte @) Apologia pro vita sua, cap. 5. (4) Caecismo da fgreia Cathic, 1. 2070. 10 de toda a desordem, mesmo socialmente, Seria absolu- ‘tamente errado ver nos Dez Mandamentos um conjun- to de proibigdes. Sdo antes a sinalizagio que protege ‘contra 03 descaminhos e permite 0 avango ordenado ‘uma realizagao digna do ser humano ¢, em conse- {qiiéncia, da prépria sociedade. Escrevia 0 filésofo Ro- bert Spaemann que as condigdes de sobrevivéncia do hhomem e da sociedade nio sdo objeto de votagdo: so ‘como sto. Quer dizer, so ditadas pela propria nature- za do set humano, tal como Deus 0 criou. Ignoré-las ‘ou desrespeiti-las’ é destruir-se; cumpri-las € reali- zar-se, Essa € a ordem, (QUE COISAS ORDENAR? 1Na seqiiéncia dessa ordem comum a todo o ser hu- ‘mano, vem 0 seu detalhamento de acordo com a si- ‘tuagio particular de cada um. As grandes linhas de umo queridas por Deus exigem comportamentos in- dividuais, isto é, a aplicagdo a0 caso pessoal. Temos ‘de compreender que, ainda que conhegamos 0 cami- tho certo, isso ndo basta — até podemos acabar por sair desse caminho -, se cada passo contradiz 0 ante- rior e dificulta o seguinte, se temos 0 pé direito indo para a frente € 0 esquerdo, todo torcido, indo para ‘rds. Talvez nao possamos estar seguros de que, por exemplo, a ordem numa gaveta do nosso armério de roupa, colocando as camisas & direita e os lengos a es- querda, seja algo expressamente querido por Deus; fa- lando com objetividade, to agradével a Deus poderia Ser dispor as camisas a esquerda e os lengos a direita. Mas 0 que podemos afirmar é que nao seria agradavel n a Deus que, por preguiga ou negligéncia, as camisas ou os Iengos estivessem misturados com os sapatos. E isto porque o Senhor quer ordem, isto é, que cada coi- sa esteja no lugar que lhe cabe, racionalmente estuda- do, de modo a permitir o curso da vida, sem compli- céla a curto ou médio prazo. E isto leva também a nogdo das prioridades. As nossas coisas niio tém todas a mesma importincia, ¢, por conseguinte, 0 que & mais importante deve vir em primeiro lugar, € 0 que o € menos tem de vir em se- gundo, e assim sucessivamente. Essa subordinagdo é querida por Deus. Qualquer ordem inferior deixa de ser ordem se contradiz ou usurpa o lugar da ordem su- perior. Hi que subordinar 0 imediato ao necessirio, 0 pessoal ao familiar, o divertimento ao dever, 0 capri- cho a0 compromisso, e, em iiltima anilise, o egoista e mediocre ao virtuoso; numa palavra, o temporal ao eterno, 0 dia-a-dia a imitago de Jesus Cristo, 0 tinico Nome pelo qual podemos ser salvos (cfr. At 4, 12), ¢ desse modo ter uma antecipagdo, um comego, do eter- no no temporal. O que se joga aqui, como vemos, ¢ algo decisivo, porque tem a ver com 0 longo prazo, ‘com. 0 nosso destino, E verdade que nem sempre somos capazes de agir: ‘com toda a consciéncia por uma motivagao tio eleva- da, E é também evidente que, mesmo que assim fosse, no chegariamos a consegui-lo de hoje para amanha. Trata-se, pois, de duas coisas que se alimentam uma & outra. Primeiro, convencermo-nos de que, efetivamen- te, a razio ultima para vivermos, pensarmos € traba- Tharmos com ordem esti em que assim cooperamos para a realizagao do plano divino. Segundo, que essa finalidade suprema, se I no fim a queremos alcangar, tem de refletir-se agora na ordem com que colocamos 2 as camisas, os lengos ¢ os sapatos... Isto é na vida diéria. Qualquer fragmento de ordem,— nas coisas ma- teriais, nas atividades do espirito, no trabalho € no la- zer, na familia, etc., etc. ~ tem todo o valor, apesar de um ou outro parecer insignificante ou sem conexio com o fim tltimo. ‘Nao nos preocupemos se, a0 chegarmos pontual- ‘mente 20 trabalho ow repormos um livro no lugar de ‘onde 0 tiramos, 0 fazemos por uma razo imediata de eficdcia, ou para economizar tempo, ou como meio de niio perder a calma e a paz interior, ow por respeito a0 préximo ou mesmo por temperamento. Esses motivos imediatos, para um homem ou mulher de fé, no po- dem fazé-los esquecer que, por tris deles, se escon- dem chamadas divinas para uma unidade de pequenos atos didrios, que se hiio de entrelagar para dar cumpri- mento 4 ordem querida por Deus para 0 universo © para cada ser humano. & isso, nada mais ¢ nada me- nos, 0 que esti em jogo nessa virtude tio apagada, ca- seira, CRITERIOS DE ORDEM Santo Agostinho definiu a ordem como “uma dis- posigdo de coisas iguais ¢ desiguais, que dé a cada luma 0 seu lugar”. Dai que, antes de colocarmos as nossas coisas e tarefas no seu devido lugar, seja pri- ‘mordial definir esse lugar. ra, isso leva-nos a averiguar quais as realidades (9) De Chita Dei, L. 19, cap. 13. 3 que devem sobrepor-se ou subordinar-se a outras. Sio tantas as coisas que nos solicitam em cada momento, que é imprescindivel seleciond-las © hierarquizé-las pela sua relagdo e proporcdo com a finalidade da nossa vida. Caso contritio, pode acontecer o que dizia Santo Agostinho: Bene curris, sed extra viam, “voce corre bem, mas fora do caminho”. E, nesse caso, pode perfeitamente acontecer que, quanto mais corramos, ‘mais nos distanciemos da meta ultima, enredados num aciimulo de interesses, todos nobres, mas de peso di- verso. Mas que coisas so essas que se devem dispor? Alguém comparou a nossa vida a uma mio*. Para ‘que a mo possa realizar plenamente a sua funcdo, & preciso que tenha os cinco dedos: que nio falte nnhum, sem que, como veremos adiante, nenhum s mais curto ou mais longo que o devido; pois, na priti- ‘ca, provocaria maior limitagao funcional ter um dedo de dois ou de vinte centimetros de comprimento do que nao ter esse dedo. Os cinco dedos nessa imagem sto: = 08 trabalhos profissionais, simbolizados pelo dedo indicador; ~ 0s deveres religiosos, representados pelo dedo médio; tar 22 rleaedexfmilaes, Siguadas no dedo anu- lar; ~ odeseanso ¢ a cultura, expressas pelo dedo min- dinho; (©) Cli. José Luis Soria, Onden, Ediciones Palabra, Madeid, 192, ig. 28 4 eas responsabilidades de eardter social, refleti- das no dedo polegar. _ (s “cinco dedos" da ordem. Em primeiro lugar, os deveres para com Deus, re- presentados pelo dedo indicador nesse esquema. E ‘com toda a razio. Com efeito, tudo 0 que corresponde as verdades que se,prendem direta ou indiretamente com a nossa relagdo com Deus tem de estar em primeiro lugar. Disso depende a finalidade iiltima da ordem, porque de que serve ao homem ganhar 0 mundo inteiro se vier a perder a sua alma? (Mt 16, 26). Uma ordena- 40 de coisas e afazeres que em iltimo termo nio le- ‘vasse a esse final, comprometeria todos os demais pla- ‘nos. No fundo, trata-se de comesar por viver a ordem que esti nos alicerces de toda a outra ordem: a que su- 15 bordina a criatura ao seu Criador. £ ela que funda- menta ¢ dimensiona tudo 0 mais que nos possa ocu- par. Por ela se compreende que a matéria hé de estar subordinada ao espirito: 0 corpo a razio, a razio a alma, a alma a Deus. Um homem que cumprisse perfeitamente os seus deveres profissionais, que se dedicasse com toda a so- licitude a esposa ¢ aos filhos, que fosse um colega e amigo exemplar, mas nio alimentasse e baseasse tudo isso num relacionamento intimo com Deus, seria um homem estruturalmente desordenado, em equilibrio instivel. Lembraria 0 episédio daquele avd, empresi- rio bem-sucedido, que comegou a ensinar o catecismo neta e, depois de Ihe ler a primeira pergunta (que. di- zia: “A finalidade da vida do homem nesta terra € co- nhecer, amar e servir a Deus"), pés-se a chorar: “A iinica coisa que ndo fiz na vida foi cumprir a finalida- de da minha existéncia..” Ha quem reaja perante esta afirmacao protestando que nao podemos passar o dia inteiro rezando ou na igreja, porque... também é preciso comer. E uma obje- gio evidentemente simplificadora. Ninguém pretende afirmar que se deva dedicar a maior parte do dia a pri- ticas devocionais ou atos de culto, mas sim que os ele mentos necessérios para alimentar a vida religiosa nao podem ser sacrificados ou mesmo antepostos a quais- ‘quer outros objetivos. Nao falamos aqui de uma maior ‘ou menor dedicagdo de tempo, mas de hierarquia de valores. Uns minutos de orago sio certamente mais importantes que oito horas de trabalho seguido, e ndo passam de uns minutos. ‘Vem depois as obrigagSes que nascem do trabalho profissional e da nossa posi¢do na familia e na socieda- de: solteiros, casados ou vitivos; pais ou fillhos; empre- 16 gados ou dirigentes; estudantes, operirios ou aposenta- dos. Todas essas circunstincias e muitas outras consti- uem a base do que poderiamos chamar deveres de es- tado ¢ devem enquadrar-se na virtude da ordem. E vém por tltimo outros deveres, diriamos huma- nos, que também devem achar um espaco na nossa vida. E 0 cuidado com a saide, o descanso, a cultura, ‘0 esporte, 0 relacionamento social e, para um cristio ‘que tome a sério a sua condigao de batizado, a solida- riedade, que o leva a interessar-se pelo bem-estar ma- terial e espiritual das pessoas das suas relagdes: paren- tes e amigos, colegas de trabalho e, num circulo mais, ‘amplo, todos aqueles a quem podemos ajudar. A.AGENDA Diziamos que a ordem comeca pelo cuidado de atribuir um lugar a cada coisa, para depois colocar ceada coisa no seu lugar. Comecemos pelo primeiro as- ‘Havia um homem que, num momento de excesso de ocupages, com bom humor, pedia a Deus 0 dom a ubiqiiidade: que pudesse estar em mais de um lugar 20 mesmo tempo. Houve santos, muito poucos (neste momento s6 me ocorre Santo Antonio de Pédua ou de Lisboa), que foram contemplados com esse dom. Mas talvez a n6s ~ que de santos temos apenas a boa von- tade -, Deus nos dissesse: “Organize-se melhor, meu filo, e verd que esse milagre acontece na sua vida". Também haverd quem suspire por um dia de vinte cinco horas. E a esse, Deus responderd coisa pareci- “Com essa hora a mais, que farés que no possas fazer com as horas que todos tém? Nao é, em grande a medida, uma questio de método? De ordem na cabega € no coragdo?” Boa matéria para um exame de cons- cigncia a fundo seria perguntarmo-nos.sinceramente: “Se eu tivesse uma hora a mais em cada jorada, em que a empregaria? E se tivesse uma hora a menos, que coisas cortaria?” © problema resolve-se por algo muito simples ¢, talvez precisamente por iss0, dificil: a agenda. F esse cademinho, ou palm, ow outro objeto qualquer ~ hé quem use a porta da'geladeira... -, em que anotamos 08 nossos compromissos, o horirio para cada um de- les, © depois 0 consultamos como roteiro imprescindi- vel das nossas obrigagées. Dizia Sao Josemaria Escrivé, com o realismo que 0 caracterizava, que as poténcias do homem nid’ sio trés, mas quatro: meméria, inteligéncia, vontade e... agenda! E bem se vé que esta iltima, na sua modéstia, 6a que serve de fiadora das outras trés, humanamente tio elevadas ¢ nobres. Um homem, uma mulher, um profissional ou uma dona de casa que nio faga no co- mego do dia ~ melhor na véspera ~ a sua lista de com- promissos, sera sempre um barco a deriva, arrastado pelas ondas do imediatismo, da improvisago ou do comodismo... A agenda é 0 humilde instrumento a ser- vigo da grande idéia-forga do cumprimento do dever. E isso que esti em jogo. Os homens importantes, cheios de compromissos de todo 0 género, sio obrigados a ter a sua agenda do dia ca sorlhe figis: é para eles questio de vida ou morte, Nés, que somos ordinary people, no preci ‘mos menos desse garante da boa ordem. Agenda é a palavra latina ~ gerindio substantivado do verbo age- re, “agit” — que significa as coisas que devem ser fei- tas. Se queremos findar cada dia com a satisfacio do 18 dever cumprido, temos de comecar por cumprir esse primeiro dever, is vezes incdmodo, mas necessirio termos claramente presentes na cabeca o conjun- toe a hierarquia dos nossos compromissos. Para planejarmos 0 uso do nosso tempo, 0 sen- so-comum ¢ a experiéncia ditam-nos diversas regras: 1) Antes de mais nada, perguntarmo-nos com sinceri- dade 0 que temos de fazer hoje — no 0 que nos agrada ou nos é mais fécil fazer. 2) Montar a seqiiéncia do que temos de fazer: isto exige que definamos para cada ocupagio 0 mo- ‘mento exato em que devemos realiza-la. Quantos esquecem esta verdade elementar: s6 se pode fazer tuma coisa de cada vez; por isso andam intranqii Jos, com as mios numa coisa e a cabeca em outra, com interrupgdes e descontinuidades. Definir 0 ‘momento exato de cada coisa poder entregar-se a ela de corpo ¢ alma, concentrado na perfeita execugio € com paz de espirito. 3) Ser realistas na avaliago do tempo que cada coi a nos vai exigir; qualquer erro nesta matéria com- Dromete as cosas que vem a segue 0 di trans- -se num corre-corre estabanado ou em omis- Bes que sacrificam outras coisas que também ti- nhamos de fazer. 4) Esse planejamento realista precisa ter em conta no apenas 0 fazer, mas o fazer bem feito: “Deva- garinho, boa letra, que fazer as coisas bem im- Porta mais do que fazé-las”’. E preciso prever 0 {@) Antonio Machado, ‘Proverbs y cantare, XXIV, em Poesias Compleias, CLI, Espass-Calpe, Madrid, 1940. 19 » 9) 20 tempo para poder comegar ¢ acabar ~ “o inferno esti cheio de coisas feitas pela metade”, diz 0 ditado -; e para isso é preciso trabalhar com fol- ‘ga suficiente, com serenidade e paz. Festina len- te, diz 0 provérbio latino: “apressa-te lentamen- te”; 0 que também se pode traduzir pelas palavras que, segundo se diz, D. Pedro II costumava diri- gir a0 seu cocheiro quando tinha de sair: “V4 de- ‘agar porque tenho pressa”. Nao se trata de um convite a indoléncia, mas a previstio do homem prudente. Neste sentido, nem tudo 0 que é urgente deve ser resolvido na hora, Hé questdes urgentes que t¢m de ser pensadas, consultadas, ou até — depois de se ter chegado a uma conclusio — deixadas em ba- nho-maria por um certo tempo para ganhar maior certeza. E uma grande verdade que, em alguns problemas, “quem nao conta com 0 tempo, o tem- po se encarrega de desmenti-lo”. Mas isto no é um convite & protelagao; € um convite para que se ‘pense urgentemente. Prever o que temos de fazer hoje significa também prever que temos de fazer hoje a parcela didria daquilo que tem de ficar pronto daqui a uma se- ‘mana, um més, um ano... Um estudante sabe que, se em cada “hoje” nao dedica ao estudo pessoal um certo nimero de horas, ao fim do semestre ou do ano nfo conseguird ir bem numa prova; nio adianta que conte com noitadas a base de café coca-cola: esses conhecimentos engolidos sem ‘mastigar, colados com cuspe, irtio desqualificé-lo para uma carreira profissional séria. Isto aplica-se 2 todo o tipo de ocupagées a médio ou longo pra- zo: 05 que adiam dizendo: “Tenho tempo”, $20 0s 2) ‘mesmos que, com freqiiéncia, depois acabam la- mentando: “Jé nio tenho tempo”, Contar com os imprevistos de todo 0 género. Se so imprevistos, € porque no podemos progra- miclos, ¢ Sbvio, mas podemos precaver-nas. Se saio de casa com 0 tempo justo, 0 mais natural & que tenha de pedir desculpas pelo atraso, “Nao bu- ine; saia mais cedo”, diz a sabedoria do irmao de estrada. Nunca se viu um trem que safsse antes de outro pelo mesmo trilho e chegasse depois. Alias, ‘por que hi pessoas a quem acontecem mais impre- vistos do que a outras? Conspiragao césmica? Ter postos de observacao ~ por exemplo, a0 meio- dia, depois de terminada uma tarefa ou antes de entrar numa nova, etc. — para ver se até esse mo- mento tudo se cumpriu ou se vai cumprir a tempo e horas. Porque, se hé atrasos que no se podem reouperar, ha outros que tém remédio dentro do proprio dia. Muitas vezes, seri preciso refazer a nossa agenda segundo as novas circunstancias. & assim que procede 0 capitio de um navio em mar alto, que tem de corrigir a rota com freqiéncia. De qualquer maneira, ¢ necessério fazer um ba- Jango a0 fim do dia, porque a experiéncia tem de ser assimilada. Onde foi que perdi o tempo? Que coisas omiti ou no acabei? Por que furei este pra- Zo ou faltei iquele compromisso? Se no ha divi- da de que a ordem & uma virtude — no uma quali- dade com que se nasce, embora uns tenham por ‘ela maior inclinago natural que outros ~, isso sig- nifica que tem de ser adquirida e cultivada, e por- tanto pode e deve ser aprimorada de dia para dia. Assim estamos em condigSes de amanhi no tro- ecar na mesma pedra de hoje, ¢ de aumentar a a nossa capacidade de realizacdo. Henry Ford costu- maya dizer que sempre é possivel melhorar 0 rit- mo da produgio. 10) Todo 0 nosso planejamento cai por terra quando surge um dever de caridade. Se 0 meu proximo precisa de mim agora — alguém da familia, um co- lega de escola ou de trabalho, esse desconhecido que se acidentou ou desmaiou quando eu passava por ele -, toda a minha ordem consiste em aban- donar 0 que vinka fazendo, ou ia fazer, para s0- corré-lo, A pardbola evangélica do bom’ samarita- no (cft. Le 10, 20-37) mostra a diferenca entre a verdadeira ordem e a que nao é seniio um disfarce do egoismo, entre a verdadeira religiio e a falsa [sto no estava no meu plano para esta tarde”. Mas estava no plano de Deus. 11) Ena mesma linha da ordem da caridade, pesa mui- to a consideragdo de que, se a desordem jé ¢ um tual para mim, seria wm mal grave se pejudiasse que nao é teu, mas de Deus, e para a sua gléri Mas se, além disso, fazes que outros o percam, di- minuis por um lado 0 teu prestigio e, por outro, aumentas o esbulho da gldria que deves a Deus”? ‘A Deus, Senhor do tempo, nio se faz esperar, € essa & a barbaridade e desvergonha que comete- ‘mos quando 0 fazemos passar horas ~ sim, a Ele, za pessoa dos seus filhos muito amados — em salas de espera de consultérios médicos e pronto-socor- ros, de escritérios de advocacia, nas filas das re- (8) Josomaria Eserva, Forj, 2. ed, Quadrant, $40 Paulo, 2005, $52, 22 A caridade passa por cima de todas as ‘outras obrigacdes, mesmo as mais urgentes. Pattigdes puiblicas ou dos Bancos, dos meios de transporte, etc., etc. No fundo, so descasos para com Deus por parte dos profissionais, das autori- 12) E uma tiltima observagio, dentre as mil que se po- deriam acrescentar: ndo existem ~ nem humana- mente nem, muito menos, para um cristio — deve- tes mais importantes © deveres menos importantes. Se so deveres, todos sao igualmente importantes 2B e inadidveis, quer demandem cinco horas ou um minuto, Presidir pontualmente a uma reuniéo da empresa, em que se vai por fim decidir a fusio com uma multinacional, tem a mesma importincia em face da minha consciéncia que telefonar a um amigo intimo pelo seu aniversirio. UM LUGAR PARA CADA COISA Esse planejamento que garante a boa ordem preci- sa de uma infra-estrutura, que é a ordem nas coisas materiais. Resumem-se aqui, por serem muito expres- sivas, as consideragdes que faz 0 autor acima citado a propésito deste tema, ‘Com que freqdncia vemos alguém queixar-se de que, em casa, no escritério, na sua biblioteca, no en- contra 0 que procura “porque as coisas nao estio onde deveriam estar”! Talvez o mais freqiiente seja que isso acontega porque alguém deixou fora do lugar 0 objeto que usou; ou, ds vezes, somos nés mesmos a causa, porque nos falha a meméria onde antes nos falhou a ordem. Normalmente, as coisas inanimadas néo tém pemas para mudarem de lugar e desaparecerem por iniciativa propria. “Quem nao tem cabega, tem que ter pés”, tem de correr atrds, dos prejuizos, ¢ 0 mesmo se poderia dizer da ordem. E incrivel — e penoso ~ o tempo que se per- de por nfo se ter 0 habito de voltar a pér uma coisa no lugar de onde se tirou, depois de usé-la. ‘Alguém dado a estatisticas chegou 4 conclusiio de que se chega a perder um ano de vida & busca de coi- ‘sas que nao se sabe onde se deixaram. Pode ser um ‘exagero, mas no hé diivida de que nio ter um lugar 4 certo para cada coisa, ¢, depois de utilizé-la, nfo fazer 0 pequeno esforco de recolocé-la la, a0 menos é fonte de desassossego ¢ de mau-humor, além de provocar ‘atrasos que podem comprometer muita coisa. ‘Nao se trata de perder o tempo em minicias, mas de conseguir um minimo de estrutura que permita ter ‘cada objeto no seu lugar. Pastas, fichérios, estantes, méveis ¢ gavetas, armérios, cabides, caixas, e assim dante, so tudo instrumentos aparentemente esti- ficos que fazem fluir em ordem a torrente da vida. £ preciso evitar também, a todo o custo, esses pan- tanos que podemos designar com nomes pomposos como “Varios”, “Miscelinea”, “Pendentes”, mas que fo verdadeiros cemitérios de coisas e assuntos a es- ppera de um dia de ressurreicdo que nunca chega. E dai ‘vem 0 pesadelo dos prazos que no se cumprem, dos ‘compromissos que ndo se honram, da correspondéncia acumulada, etc. E quase, quase — diz 0 autor que cita- ‘mos ~ como viver “nessa terra de escuridao e sombra 1” de que fala o Livro de J6, “onde reinam as trevas ¢ a desordem, e onde a propria luz é como mor- te noturna”. (© SENTIDO DA ORDEM MATERIAL As aplicagdes praticas da virtude material da or- dem variam, logicamente, com as pessoas: serdo umas para uma dona-de-casa, outras para um profissional li- beral, para um empresirio, para um estudante e assim por diante. Mas, em qualquer dos casos, retenhamos desde jé que a chave para assegurar uma atitude vigi- ante nesta matéria tem sempre um s6 nome: espirito de sacrificio. Parece que niio, mas custa racionalizar a 25 cordem das nossas coisas pessoais ¢ methoré-la, se tal ‘como esti ¢ pouco pritica; custa dobrar o jomal de- pois de Ié-lo, ou voltar a pdr as cadeiras no lugar apés uma reuniio de familia; custa ter sempre a mesa de trabalho sem lembrar um campo de batalha ou o final de uma feira-livre, ter o armério de roupa com tipo de pegas bem separado, com “as gravatas a mes~ ‘ma altura”, como exemplificava alguém, ¢ por ai afo- ta. So tudo pormenores de autodominio que revelam ‘uma personalidade equilibrada. Gabriel Garcia Marques escreveu: “Descobri que @ minha obsessio por colocar cada coisa no seu lugar io era 0 prémio merecido de uma mente ordenada, ‘mas, pelo contrério, um sistema de simulagdo para ‘ocultar a desordem da minha natureza”. Esta observa- ‘¢40 desanimada nao se aplica a quem descobriu 0 va~ for divino do cuidado nos detalhes; os detalhes podem ser a expresso constante de um amor de Deus em que fecoam as palavras do Evangelho: porque foste fiel no rpouco, Eu te confiarei o muito (cft. Mt 25, 21). Néo ‘admira que se tenha chegado a dizer ~ com veia lirica, ‘mas com inteira verdade — que todas essas bagatelas so uma flor para Maria. ‘A Virgem Maria entende ‘gem dos pormenores de ordem, nas coisas pessoais © no cumprimento das obrigagées, porque toda a sua vida foi um ramalhete de pequenas fidelidades aos seus deveres de Mie de Deus. Comecou, sim, por aquele faca-se maravilhoso que a levou, preparada de modo extraordinario pela graga de Deus, a entregar todo o seu ser a Vontade divina e a aceitar a Encama- ‘edo do Verbo no seu seio. Mas depois foram décadas de servigo silencioso como dona-de-casa. A Virgem Maria ndo foi outra coisa. E, por essa fidelidade, ndo perfeitamente a lingua- 26 u 4 hora suprema da cruz e morte do seu Filho, jo todos o abandonaram, ¢ estava no Cendculo , com a vinda do Espirito Santo, ficou fundada Por esse tecido de fidelidades em que se des- fa sua vocagdo de Mie do Verbo, Ela mereceu nada ¢ venerada ao longo das geragdes como entora e Mae da Igreja. embalo desta referéncia a Nossa Senhora, veja- ‘alguns dos diversos exemplos que Mary Ann aponta como ocasides para uma dona-de-casa vviver a virtude da ordem?: Cada coisa no seu lugar. Mal tenha acabado de ddevolva-a imediatamente a esse lugar. . ‘objetos pessoais tém de ser guardados no de dormir de cada um (sapatos, brinquedos, li- .). Nao se deixam vista de todos. E preciso fazer a cama antes de tomar o café da gje 0 cardapio para uma ou até duas sema- ‘as compras de uma vez para esse periodo. deixe nunca os pratos em cima da mesa ou cozinka. Coloque-os imediatamente no lava- ‘ou lave-os a mio. pode reduzir a lavagem da roupa a uma ar semana se cada pessoa da familia tiver roupa ‘que for preciso e jogue no cesto dos papéis 0 que nao tiver interesse. Nao perca 0 tempo lendo todos os anincios, propaganda etc. que the traga 0 carteiro ou — podemos acrescentar nos nossos dias — the despeje 0 e-mail. — Acostume-se a fazer listas, a usar notas auto-ade- sivas para se lembrar do que tem que fazer. = Tenha junto do telefone um bloco de papéis ¢ uma esferogréfica para recados telefénicos © habitue as pessoas da casa a escrevé-los na hora. ~ Nao se irrite quando tiver que fazer fila: aprovei- te 0 tempo rezando ou pensando no modo mais delica- do de, sem adiar mais, fazer aquela adverténcia a um filho ou ter aquela conversa séria com 0 marido. — Nunca suba as escadas de méos vazias. Assim voce nfo se gasta e o tapete também nio. Qualquer dona-de-casa acrescentaria a estes deta- Ihes outros mil. E todos nés podemos adapti-los a0 ‘nosso caso. ‘Sio pequenos caminhos de boa ordem, mas sio caminho de imitagdo de Santa Maria, Esposa fidelissi- ma do Espirito Santo, que a todo 0 momento nos su- gere delicadamente novos modos de aprimorar esta virtude, e que nos quer santos através da prosa da vi- da difia, 28 OS CAMPOS DA ORDEM Retomemos a imagem dos dedos da mio: todos ‘tém que ter a sua altura © configuracdo prépria ¢ uns ho podem substituir satisfatoriamente os outros. “HA existéncias atropeladas, que passam os dias ‘com as suas obrigacSes em permanente conflito, deba- tendo-se na aflitiva necessidade de terem de fazer a de Sofia, sacrificando coisas muito caras por- se polarizam em alguma outra por falta de ordem sora. Sio Lucas transmite-nos uma frase do Se- que nos impede as desculpas: Importa fazer isio ‘omitir aquilo (cf. Le 11, 42). E proprio de pes- maturas desculpar-se de um dever de justiga ou ‘earidade invocando outros deveres. Ja vimos acima no hd deveres mais importantes ¢ deveres menos ; Se so deveres, todos so igualmente im- S. ‘Ora, os conflitos e as incompatibilidades em que ‘yezes nos vemos apanhados mostram que 0 g nos falta é reflexdo. No livro Sulco, Sio Josema- (Escriva conta que um dia quis louvar um subordi- diante do seu superior, e comentou: “Quanto tra- 29 balhal!” Deram-Ihe esta resposta: “Diga antes: quanto se mexe!”? ‘Ocupar-se em determinada tarefa sem pensar no momento do dia em que se teri de acabé-la — ou sus- pendé-la, para dedicar-se aquilo que passa para o pri- meiro lugar ~ ndo é trabalhar, mas mexer-se. Absor- vver-se numa tarefa sem a prévia preparagdo é garantir que se vai demorar nela mais que o devido. Um teste simples: tenho de interromper um relat6rio ou um e3- tudo, que escrevo ou dito a uma secretéria, para procu- rar um documento ou um texto de consulta? Outro tes te: o meu dia de trabalho é um constante “senta-levan- ta”, uma seqiiéncia de interrupgdes em cima de outras interrupgdes? Sio sinais de desordem mental, que de- notam falta de ponderagaio. E j que falamos de interrupgdes, vem a proposito lembrar as que resultam dos telefonemas que recebe- mos. Temos a impresstio de que, se é natural no po- dermos receber alguém que nos procura no escritério sem antes ter marcado hora, jé um telefonema deve ser atendido imediatamente, mesmo que estejamos concentrados em estudar um assunto sério ou em aten- der uma visita combinada. E quando recebemos al- guém, quantas vezes essa pessoa tem de ficar olhando para o teto a meio da conversa, enquanto nds atende- ‘mos 0 intrometido. Ha excegdes, sem diivida, e para isso estio os pedidos de desculpas, mas, regra geral, no é nenhuma mentira ~ a menos que seja por como- dismo — mandar dizer nesses casos que “estamos em reunio”; ligaremos depois, com toda a solicitude. E (10) Sosemaria Eservd, Sulco, 2 ed, Quadante, Sio Pavlo, 2005, 1. $06 30 _ fordem e, em muitos casos, delicadeza e fina caridade. Sperdio, é s6 um minutinho!” E ji sabemos que, com alguma fregiiéncia, no € assim. ‘Esse espirito de “barata tonta” pede que examine- ‘um pouco mais de perto esses cinco campos de sabilidade que mencionivamos, procurando hie- rarquizé-los. Comecemos por ver como Deus atu. Ha pessoas que pensam dever fazer cinco coisas de cada vez. 31 hora, diz Ele aos emissirios de Herodes; ide e di- ‘a essa raposa: “Eu expulso os demonios e faco cu- , e fé-las-ei amanha, € ao terceiro dia consu- ‘@ minha obra” (Le 13, 32); até que avisa aos los adormecidos no horto da Oliveiras: Chegou {4} Levantai-vos, vamos! (eft. Mt 26, 45-46). uncia com antecedéncia aos seus intimos, para no sustar nem desiludir, o momento em que seri en- as miios dos que 0 fario morrer, como hes cia 0 momento em que ressuscitars: ¢ ao terceiro rressuscitaré (eft. Mt 16, 21; 17, 23; 20, 19). Pre~ ra com calma, por etapas, a mente € 0 coracdo dos ipulos para 0 mistério da Eucaristia, desde os mi- da multiplicagao dos pies e peixes até a Ultima ‘A ORDEM DE DEUS motivos primor >, como indicava- mien iactra oretaeiaions dos outros, nio custa muito perceber que ao fazé-lo, nos aproximamos da fonte de toda a ordem, pois nos identificamos com o modo de agir de Deus, que, por assim dizer, procede “ordenadamente” na sua Provi- =p a ie ‘no modo como o Génesis descreve a criagdio do ‘mundo vers um espeticulo assombroso de ordem: 0 tniverso & todo ele, desde a criago, uma sinfonia de ‘ordem, como se admirava Einstein. Mas o mesmo se ‘observa no plano divino a respeito do ser humano, criado e decaido apés 0 pecado original. Chegada a plenitude dos tempos (cit. Gal 4, 4), iio antes nem depois, Deus envia o seu Filho unigéni- to para que, pelo sacrificio da Cruz, cancele o decreto de condenagao que 0 homem provocara pelo seu peca- do de desobediéncia. E depois assiste esse mesmo ho- ‘mem nos seus recuos, dando-Ihe meios superabundan- tes para que se levante das fraquezas, se assim livre- mente 0 quiser: envia-lhe o Espirito Santo, que 0 hi de amparar e fortalecer pelas suas inspiragdes, pela doutrina e pelos sacramentos de que faz. depositiria ¢ ‘administradora a Igreja que funda no dia de Pentecos- tes. Criacdo, salvagdo, santificacdo: trés etapas do pla- no divino para permitir ao homem que alcance 0 seu fim eterno, Nao & isto ordem? : E nao é ordem toda a existéncia de Cristo nos seus trinta e trés anos de vida terrena? Desde que nasce, no lugar predito, até que morre, no meio de softimentos igualmente preditos, nada na sua vida se passa como fruto de um querer arbitrario. Ainda ndo- chegou a mi- suas andangas apostélicas, atém-se aos limites rificos da missio que o Pai the estabeleceu: as yas de Israel. Esclarece os Apéstolos acerca do sias anunciado pelos Profetas, mas ndo teima em 4 forga as idéias erréneas que tém; quando, antes da Ascenso aos céus, ainda Ihe pergun- € esse 0 momento em que Vai restaurar o reino , responde-Ihes: Nao vos pertence a vés saber mpos nem os momentos que o Pai fixou no seu po- mas desceré o Espirito Santo... (ft. At 1, 7). Cris- Fesolve tudo, digamo-lo assim, porque seria ordem”. Segue o plano divino e deixa & ago ito Santo, apds a sua morte, o coroamento da & Muitas coisas tenko ainda a dizer-vos, mas |podeis suportar agora. Quando vier o Pardcli- Espirito de verdade, ensinar-vos-4 toda a verda- = Jo 16, 12). Serio 08 Apdstolos — nio Ele ~ que nder a sua mensagem de salvago até os con- terra. Nao impressiona essa obediéncia “dis 33 32 0 pe imposto, antes & um desfeco por Ele do ‘© qual livremente avanga ‘forma por Ele escolhidos. Lees js préprios milagres que faz, cada um deles flui n suavidade, sem brusquidSes intempestivas; emol- no imbito da “naturalidade” que torna tio ¢ tio proxima a sua figura. Nao & assim que jesse primeiro milagre das bodas de Cand? Ape- ‘pede que Ihe tragam um elemento tio corrente a figua , sem dizer uma palavra, transforma-a plinada” dAquele que detém todo o poder nos céus & nna terra (eft. Mt 28, 18)? E ainda, de tantos aspectos da sua vida que nos re- ‘velam pormenores de ordem, este a que ja aludimos: 0 que mostra como a ordem deve submeter-se i cari de. Mulher, nao chegou a minha hora, diz Jesus & sua Mae, que the pede uma intervengio extraordinéria nas bodas de Cana; mas depois, para poupar um vexame ‘aos recém-casados, antecipa a hora ¢ faz o milagre da transformagdo da gua em vinho. E, muito embora fio tenha sido enviado sendo s ovelhas de Israel, no ‘se importa de cometer a “desordem” de curar a filha da siro-fenicia, por um gesto de afetuosa caridade que acode a siplica nascida de uma fé humilde. ‘Enfim, ordem flexivel, que se acomoda aos inipre- vistos: Quando Jesus ouviu que Jodo fora preso, reti- rouse para a Galiléia (cfr. Mt 4, 12). E quando vé ‘que se adensam os conciliébulos para tramarem a sua morte, apés a ressurreigio de Lazaro, como ainda nio tinha chegado a sua hora, retirou-se para uma regitio vizinha do deserto, a wna cidade chamada Efraim (fr. Jo 11, 54), 0 que Ihe permitiria aleangar a frontei- ra da Samaria em caso de necessidade. ‘Tudo isto reflete a maravilhosa certeza de que Cris to, perfeito Deus, & também perfeito homem: nEle, 0 divino e o humano se fundem sem estridéncias nem pelo seu oa ofusca, ndo esmaga; vai ivamente 0s motivos para que ereiam o longo da vida piblica, esconde-se sob a de- o de “Filho do homem” — uma expressio obs- para 0s nio-entendidos ~, ¢ s6 diante de Caifis & explicitamente ser “o Filho de Deus muito bem considerar, sem agora ir ‘no mistério, que a chave dessa impresstio ‘esti. no equilibrio que dEle emana no meio ‘05 contratempos e oposigdes. Essa nota que ia osu ser © 0 seu agit—o dominar os acon- os ¢ ser por eles dominado — procede da zida da eternidade do Verbo. Ora a paz, no Santo Agostinho, é “a tranqililidade da or- 6 essa ordem na vida de Cristo, presente em n dos seus passos, que se toma para nés inspi- delo ¢ estimulo, Estaremos no caminho certo 0s esforgos por ordenar 0 nosso tempo e res- des se inspirarem e apoiarem na ordem da Para um cristo, seria um erro, além de ecimento e um atraso, ndo ir buscar direta- sa Vida a fonte e a pauta da sua ordem. hi nela situagdes de sibita exaltagdo “mistica”, de agi- tagio febril, nfo hé atropclos que derrubem o marco da serenidade € do absoluto dominio de todas as cit- cunstincias, por mais surpreendentes ou tréigicas que hnos paregam: o trigico do seu destino jamais da a sen- i 35 APRENDER A ORDEM PELO TRATO COM DEUS Por isso ndio é uma perda de tempo “perdé-lo” em cultivar 0 trato intimo com Cristo. Nao hi melhor ma- nual que o Evangelho para sabermos como ser homens ‘ordenados. E mais: para perseverarmos nessa discipli- rna no meio das confusdes da vida, ¢ sobretudo para rela encontrarmos, no uma camisa-de-forga, mas uma expressio de liberdade € um sentido muito alto para os sacrificios que a ordem exige no dia-a-dia. or outro lado, se queremos ganhar esse espirito de reflexdo que nos ajude a hierarquizar e ordenar as nos- sas ocupagées, ndo devemos abandonar a meditagao diaria: por ela, em conversa com Cristo antes de sair- ‘mos de casa para o trabalho, olharemos ¢ sentiremos ‘com os seus olhos € 0 set coragio 0 que nos cabe fa- zer € como, teremos a perspectiva eficaz para distin- guir o importante do secundério, o necessario do ime- diato. Numa palavra, veremos a luz de um critério di- ‘vino 0s assuntos qué nos devem ocupar. E 0s quinze minutos que se “perdem” em falar com Deus ~ que deixa de parecer tio remoto como parecia Javé ~ recu- peram-se folgadamente em objetividade no planeja- ‘mento e, depois, em energia para resolvermos 0s pro- blemas com isengdo ’imidade. Certa vez, in- terromperam 0 Papa Joo Paulo Il, na sua leitura do brevidrio, para comunicar-Ihe um problema urgente. “E muito urgente?”, perguntou o Papa. “Ento & hora de rezar”. E acabou de ler o brevi © mesmo se pode dizer de uma “paradinha” na igreja a caminho ou no regresso do trabalho: para pe- dir luzes e forgas no comeco do dia, ou para agradecer no fim da jomada os beneficios recebidos. E, se temos 36 a devida pureza de consciéncia, seré que nos parece tum exagero receber a Comunhao em dias de semana? corpo eo sangue do Senhor sao outra fonte de crité- rio e energias, infinitamente superior a0 sentido do de- ver, 4 capacidade de lideranga ou a pressio das cunstincias, para enfrentar com garbo as responsabili- dades pessoais. Todas estas “normas de piedade”, quando bem dis- tribuidas, tém 0 poder de constituir um valioso fator de ordenagdo do dia. Se a vida humana, como diz um au- tor'', se compe de ritmos ~ ritmos do coragio, da res- piragio, do dia e da noite, das refeigdes, da semana —, 6s tempos didrios dedicados a Deus devem fazer parte desses ritmos para se converterem num costume, tio vital como os que compdem a nossa existéncia. O cos- tume — a0 contririo da rotina — nfo deve ser entendido como algo negativo; antes pelo contrario, & a facilida- de de fazer naturaimente uma coisa que a principio exigia luta e esforgo, e € 0 que ocorre quando se ganha © habito de reservar todos os dias uns tempos para Deus: toma-se algo que se faz espontaneamente, com imenso gosto. Bem feitas as contas, o balango é um s6: gasta-se 0 mesmo tempo em ter uma vida santa do que em ter uma vida vulgar. Quem tome a sua fé a sério vera sobretudo que a razio iiltima da fidelidade a esses encontros com Deus ndo é apenas pritica, mas bem mais profunda. ‘Mostra-o um episédio relatado por um médico, Ber- ‘ard Nathanson, muito conhecido por ter sido um ‘campeao do abortismo — abortou por suas mos um fi- =, Flompo para Dies, Rialp, Madrid, 2001, pip. 37 tho concebido numa relago passageira -, € que mais tarde, finalmente enojado, se converteu em defensor da vida. Fazia o doutor a sua visita clinica aos pacientes de tum hospital e abeirou-se do leito de um canceroso que rezava sem parar. Travou-se este didlogo: — Que pede nas suas orages? ~ Nada em particular. —Entiio, se nflo é para pedir, para que serve rezar? ~ Para muito, Recorda-me que niio estou s6. Comenta Nathanson: “Corremos para Deus ou cor- remos figindo de Deus. Em qualquer caso, Deus este- vve no centro de tudo”, Nio té-lo por centro € retirar ao nosso dia o seu eixo, esvaziar de coesio 0s nossos atos ¢ caminhar a ppassos langos para uma vida feita de “oragdes subordi nadas”, sem a principal que as reiina e Ihes dé sentid aguarda-nos a amargura de uma vida sem nexo, na maior de todas as soliddes — a solidio de Deus. E hi a melancolia e a indefinigdo do poeta que se rebela e desatinadamente se proclama aut6nomo: “Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces, estendendo-me os bragos, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse Ah, que ninguém me dé piedosas intengdes! Ninguém me peca definigdes! Ninguém me diga:”Vem por aqui"! (...] (12) Cf. Bemard Nathanson, La mano de Dies, Palabra, Madi, 1998, 38 4 minha vida é um vendaval que se soliou. E wma onda que se alevantou. | ‘Nao sei por onde vou, ‘Nao sei para onde vou Sé sei que ndo vou por ai!” Um homem que cultiva o coléquio com Deus sabe para onde vai e por onde. E nunca esti s6. AS OCUPAQOES PROFISSIONAIS Obviamente, a profissio é o campo por exceléncia para a pritica da virtude da ordem, Seria descabido fa- Tar de ordem a quem vive de rendas. Nao € caso para nos determos agora a considerar como se pe 0 problema da ordem nas diversissimas situagSes de trabalho profissional. Mas pode servir de ema e guia este ponto de Caminko: “Faz 0 que deves € esti no que fazes” Em cada momento, j o viamos, ndo ha virias coi- sas a fazer, mas uma sé: a que ditam as nossas obriga- ‘Ges para esse momento, previamente pensado ou en- tio reclamado pela caridade urgente. Tudo o mais esta deslocado e acaba por doer como um osso fora de Iu- gar. Por outro lado, a isso que agora nos cabe fazer ~€ ‘unicamente a isso —, devemos aplicar-nos com os cin- (13) José Régio, “Cantico negro”, em Poemas de Deus do Diabo; cit. em id, Contos, Buropa-Aménia, 5, pg. 12. (14) Josemaria Escrivi, Caminho, $. ed, Quadrant, Sio Paulo, 1999, 815, 39. co sentidos: “estar no que fazemos” com todas as nos~ sas capacidades € entusiasmo. Este entregar-nos ds nossas tarefas de corpo ¢ alma reconduz-nos a ordem no apenas como elemento “organizador”, mas “inspi- rador": por que me ocupo nisto ¢ néo naquilo?; afinal qual é a intengdo que me move a realizar este trabalho eno aquele? Por outro lado, “estar no que se faz” implica nfo ‘86 que se apliquem os cinco sentidos, mas que, por essa ordonagdo ¢ intensidade, a pessoa atinja a verda- de da sua existéncia, isto é, que trabalhe de tal manei- ra que ela propria se realize como set humano cabal € como cristio auténtico: que, pelo modo como realiza 0 seu trabalho, este seja para ela uma forja de virtudes, {que estas a informem, isto &, Ihe déem forma. Encontramos a contraprova disso no clima em que se desenvolvem as nossas ocupagdes. Trabalhamos com sossego ou agitados?, sem precipitacd do dos assuntos, sem afligdes com prazos' pelar nem magoar ninguém, até com eleg! na? Uma maquina trabalha ordenadamente conforme ‘esti programada; um ser humano trabalhari ordenada- mente se a sua ordem nio for um mero automatismo, ‘mas refletir ¢ favorecer esse clima pela sua atitude in- terior. Nele, a ordem inclui essa “forma”. ‘Comega muito cedo 0 esforgo por adquirir habitos de ordem: desde a infiincia, com o carinhoso desvelo © firmeza com que o$ pais, e sobretudo a mie, ensinam 0 seus pequenos a ter um minimo de disciplina nos seus entretenimentos, nos brinquedos e nos objetos pessoais, na hora de deitar-se ¢ levantar-se, etc. Mas prossegue: nos tempos de estudante, nos do primeiro emprego e, dai em diante, ao longo de toda a vida de trabalho. Um estudante que, apesar de ser um pregui- 40 Ha pessoas cronicamente incapazes de se ‘ocupar do que fazem no momento, porque esido sempre pensando no que fardo depois. ‘9050, aposte em que hi de receber “cigncia infusa’”'s, ‘engana-se. Um recém-formado que, apoiado nas boas notas ou em recomendagdes, ache que o seu caso é “chegar, ver e vencer”, logo se desilude. Um profis- sional que pare de atualizar os seus conhecimentos, prepara um futuro negro. O éxito profissional exige (15) Cf, Josemaria Escrivd, Caminho, n. 340 41 idoneidade e esta depende em boa medida de uma vida disciplinada. E por isso que a ordem constitui uma virtude de alicerce e, portanto, como acabamos de ver, tem de comesar a ser aprendida desde muito cedo, inculcada desde’ a meninice. No seja que tenhamos de aplicar ‘a0 nosso caso 0 que diz o autor de um livro de ¢rd cas: “Cresci por distrao, consentindo que 0 estado de coisas se mudasse potico a pouco em estado de alma” ‘As normas priticas de ordem no trabalho variam de pessoa para pessoa, de atividade para atividade, mas basicamente sfio uma questio de sensibilidade. Todos os cursos de racionalizagao do trabalho, todas as auditorias que contratemos para a nossa empresa, fetc., etc., acabam por parar no mesmo: na consciéneia de que devemos criar habitos pessoais de ordem e de- pois, constantemente, reexamind-los para os modificar ‘ou melhorar. Dai que pouco adiantem os diagnésticos, ‘05 dados estatfsticos, os métodos recomendados em ‘vista de uma maior eficiéncia, as proprias reunides de avaliagdo — se depois falha a vontade de levar & prati- ca 0 que se pensou, Pode parecer ébvio ¢ até ridiculo concluir que tan- ta armagio de conhecimentos sobre como trabalhar ceficazmente numa atividade pessoal, ou numa empre- sa, ou num cargo piblico de responsabilidade, acaba por depender de pormenores pessoais muito elementa- res como os destas perguntas: (16) Anténio Lobo Antunes, Crinicas, Publicagdes Dom Quixote, Lisboa, 1998, pig. 323. 2 — Comego e termino habitualmente 0 meu trabalho a hora fixa?” ‘ = Tenho bem programada a agenda do meu dia? Sei prever, prevenir, prover? = Disponho dos suficientes instrumentos de traba- Iho e de pessoas que me auxiliam? — No meu planejamento profissional ¢ nos meus compromissos, cuido de ndo estender 0 brago mais que a manga? — Sé inicio uma tarefa depois de perfeitamente ter- minada a anterior? Como diz 0 reftao, “quando se pre~ tende tocar sete instrumentos ao mesmo tempo, algum desafina”. ~ Esvazio periodicamente, por exemplo no primei- ro dia da semana, a minha pasta de “pendentes”? = Tenho clara a idéia de que os prazos sio para se- rem cumpridos? — A minha ordem respeita e favorece a ordem dos outros? ~ Sci dizer “indo” a compromissos supervenientes, ‘4 menos que seja por um imperativo de caridade? Enfim, para dar com a chave das respostas pos vvas a estas e mil outras perguntas do género, e para in- (17) Alls, para assegurar a pontualidade em comegar a trabalhar, ‘importa muito levantar-e todos os dias de trabalho i mesma hora. N3o ‘devemos exaperar no tempo dediado ao sono. Nao hi epras fxas nest ‘materia, mas pode servir de referncia que diia um especialista com tum certo ar dogmitico: “Os homens precisam de cinco horas de sono ‘ara recuperar as energias; as mulheres, de seis; as erianeas, de see; os lots, de oto” (Zenzo Yamamoto, Veja ~ Sao Paulo, 2704.05) a3 troduzir as melhoras oportunas, 0 quesito fundamental para um cristio sera: = Trabalho com a consciéncia de que Deus, meu Pai, me vé aqui e agora, de que o tempo nio é meu, mas dEle, e ha de ser, pela pureza de sentimentos € pelo esmero, um ato continuo de adoragio ¢ louver, de gozoso acatamento filial? AS OCUPACOES FAMILIARES © Ambito dos deveres familiares — representado pelo dedo anular, simbolo de fidetidade ~ ¢ tipicamen- te aquele em que a preocupaco pela ordem tem um dos seus melhores campos de aplicago ¢ um dos seus resultados benéficos mais evidentes. Gente que atribui ao excesso de trabalho uma certa justificativa para cumprir pela metade os seus deveres familiares é 0 mais comum. £ uma fraca consolagao pensar que afinal, se se volta tarde do trabalho, se se reduz o tempo dedicado & mulher ou marido e aos fi- hos num fim de semana por causa dos compromissos profissionais, ¢ porque se trabalha para levar avante a familia. Mais do que nunca, é neste caso que o fim no jjustifica os meios. Tanto 0 carinho que se deve a0 ou- ‘ro cénjuge como 0 acompanhamento de cada filho jé desde as primeiras etapas da vida no se compadecem ‘com intermiténcias, nem com “no estar estando” — por cansaco, alheamento mental, etc. -, nem com pedi- dos de desculpas que ndo poem termo as excecdes, nem com esquecimentos, ‘Nao é mais uma piada, mas um caso que aconteceu 4 mesmo. Dois amigos resolvem encontrar-se no fim do expediente para tratar de montar.um negécio. Na ma- aha do dia combinado, um deles telefona a0 outro: = Desculpe-me, Mario, temos de adiar a nossa reu- nio porque surgiti um imprevisto. ~ Sem problema. Coisa séria? ~ Nao. E que me esqueci de que hoje a minha mu- Iher faz. anos... Realmente, um imprevisto e tanto, Sabemos que, como disse alguém, poucas vezes a familia € cenirio de atos herdicos, desses que se po- dcriam registrar na histéria: compde-se de um feixe de atos de dedicagdo aparentemente banais; mas é com eles que se consiréi a histéria. Ora, aquilo que Georges Chevrot, num livro de apenas cem paginas, chamou “as pequenas virtudes do lar”, depende, na sua grande maioria, de uma vida bem organizada, que libera tempo para a familia ¢ garante as melhores dis- posigées de animo', Nio & com as “sobras” ~ de tempo ¢ de disposicio ~ que se edifica a vida fami- liar. Quem habitualmente no chega a casa para jantar ‘com toda a familia, quem no tem cabeca e engenho para programar um domingo familiar alegre e diverti- do ~ festivo — e depois cumpri-lo, tem de reestruturar as prioridades da sua ordem, porque se vé a quiléme- ‘ros de distincia que a sua vida esti dominada pela desordem, E 0 estudos dos filhos? (18) Georges Chevrot, s pequenas vides dolar, Quadeanis, So Paulo, 1990. 0 Autor descevs, entre outs, as “pequenas viruses” da Cotesia, da ert, da discriglo, do bom humor, da pontalidade, da prcidncia, da perseveranea.. 4s Ha uns quarenta anos, certo governador do Estado do Parand visitava uma colOnia agricola recém-instala- da de imigrantes coreanos. Para espanto seu, a tinica ‘construgao de alvenaria da povoacdo era a escola: — Mas por que vocés jé construiram a escola, se ainda tm de morar em barracas? = Senhor governador, com perdio; somos agricul- tores, mas... no somos burros. Mas s6 no haverd burrice mesmo se, depois de garantirem uma boa escola para os seus filhos, os pais cuidarem da “escola doméstica”. Observava um ¢co- nomista que o grande arranque que experimentaram os “tigres asiéicos” result em boa parte da s6lida ins trugo que se jionou as geragdes jovens. E aqui ‘em o ado surpreendent: essa prepares0 soda nso se deveu fundamentalmente ao methor nivel técnico € pedagégico dos estabelecimentos de ensino, mas i de- dicagdo difria dos pais no acompanhamento em casa do estudo dos filhos. E um enfoque que se baseia numa experiéncia con- solidada e que por isso merece reflexio. Dificilmente se supre 0 tempo que 0s pais roubam & educaclo © formagio dos filhos em casa. DESCANSO E CULTURA E 0 dedo mindinho? O lazer tomou-se hoje sindni- mo de incultura. O lazer ¢ evasio, ¢ happy-hour, € a praia, so ~ para a juventude “bogalizada” — as raves ¢ os shows de massa, é a bendita televisiio nao selecio- nada mas navegada como se fosse a Intemet, causado- ra de tantos estragos, além de ser uma fabulosa perda de tempo. 46 No melhor dos casos, como também jé se disse, no Brasil - e por que s6 no Brasil? -, para ser intelectual, basta parecer intelectual. Verniz de cultura, semi- -analfabetismo, conhecimentos puramente_utilitirios ... em conseqiiéncia de tudo isso 0 “achismo”: eu acho, eu no acho, sobre qualquer coisa, desde a me- Thor logo pés-barba até a existéncia da alma, Tudo nivelado pelas sensagdes e impresses do momento, pelo comodismo, por uma propaganda que visa luctos muitas vezes a0 prego da dignidade humana, sobretu- do da dignidade da mulher. Ou pelo “politicamente correto” que se martela na midia e esta na boca de to- dos, sem ninguém ousar contradizé-lo, mesmo que em ‘nome do simples bom-senso. Como diz. um autor, “‘niio deixa de ser curioso que, ‘num mundo em que cada um é livre de fazer 0 que ‘quer, todos acabem fazendo 0 mesmo. Naturalmente, ‘quem niJo se adapta a0 conformismo imperante & acu- sado de ser inimigo da liberdade e marginalizado com a tipica intolerdncia dos totalitarismos””, em nome... da liberdade e da tolerincia. Cultiva-se a liberdade de pensamento de convic~ ges, entre outros meios, pela leitura. A leitura des- massifica, enriquece e descansa, sim. Descansar len- do? E a tltima coisa em que se cogita: soa a con- tra-senso. Dai o “pensamento débil” que, na expresso de Joo Paulo I, caracteriza a cultura de hoje, ou 0 “pensamento banal”, que se forja e se traduz na “lin- guagem fosca” da juventude monossilAbica, ¢ que, nos (19) Rino Camilleri, 1 mori dela Ragioni, Edizioni Ares, Milo, 1998, 41 mais velhos, leva a conversas ocas de bares ea “atos irelevantes”™*. Descanso e cultura fundem-se no ato de ler, no ha- bito de ler. De ler com eritério, entende-se. Por que a leitura ha de ser, no methor dos casos, mera “leitura de evasio”? E muitas vezes de pura porcaria, que faria ‘um caminhoneiro ou um botacheiro ruborizar-se? “Quantas vezes julgam levar debaixo do brago um ro... ¢ levam um montdo de lixo!”, diz Caminho”!. Seria necessério ter muitas vidas para ler 0 que de me- Thor se escreveu em romances que analisam os senti- mentos nobres da alma humana, em livros de Historia que tanto ensinam, em ensaios claros ¢ leves que abrem perspectivas, que ajudam a pensar, etc. etc. Para no sairmos deste tema da leitura como boa istragdo, um dos meios de distrair os filhos pequenos ‘ensinando-os & que os pais thes leiam historias € que, enquanto as Iéem, os escutem ¢ respondam as suas perguntas. E um excelente caminho para que as crian- ‘gas, sem por isso cortarem com os seus jogos e brin- cadeiras com os irmAos ou amigos, vio adquirindo © gosto pela leitura e aprendendo. Nao é este um forte ‘motivo para que os proprios pais gostem de ler? Ver ‘um pai ou uma mae concentrados em ler um livro com toda a paz, confortavelmente sentados numa poltrona = embora Sempre dispostos a serem interrompidos —, imprime nos filhos uma imagem que hio de conservar pelo resto da vida, materializada em hibito que eles proprios terdio reproduzido no seu dia-a-dia, Temos de convencer-nos de que, como dizia Paulo Francis, nao (20) Ch, Dora Kramer, O Estado de Sio Paulo, 26.01.95. (Qi) Josemaria Eserivd, Caminho, n. 339. 48 Saber ler é uma arte atraente. Ha clarnain areata oto veoellono 2 met, a ndo ser em consultas de pesquis se substi o ato de instrir-se ereflettlendo. Todos devemos conhecer alguma pessoa, extrema- mente atarefada, que nio se vai deitar sem ter lido ou relido umas paginas de um bom livro; descansa-o mais, do que sentar-se exausto diante da TV e deixar correr as imagens sem pensar em nada. Ou aquela outra que tem no carro, no assento ao lado, um livro que mantém aberto © no qual pega tdo logo o trinsito para; com fundo musical ou sem fundo musical ~ 1é! E além do mais ndo pragueja, o que também é itil para 0 coragdo 49 «, sobretudo, para chegar a casa sem os nervos em ponta, e abracar, e contar, e perguntar, ¢ ouvir... Como também da muita alegria ver um jovem ou uma jovem, no Gnibus ou na parada do Gnibus, lendo atentamente. Isto traz-nos de volta a0 que viamos atris sobre 0 modo de nos relacionarmos com Deus. Nao sentimos ‘a necessidade de conhecer melhor Aquele que nos pede que 0 amemos também com todo 0 nosso enten- dimento? “Tu como és, Senhor?”, dizia um homem Joucamente apaixonado por Deus, que por isso ardia cem desejos de saber mais. Nao se ama 0 que no se tconhece € pouco se ama 0 que pouco se conhece. Te- mos de aprender a amar a Deus e a descansar lendo sobre Deus, sobre 0 exemplo que nos deixou nos Evangelhos, sobre a milenar riqueza doutrinal da Igre- ja, sobre as virtudes do cristo comum. ‘A leitura diariamente continuada de um livto es ritual bem escolhido & como ler a carta manuserita de um ser querido, recém-chegada de longes terras: no ‘causa desprazer nem uma obrigagio, mas uma von- tade de proximidade, de encontro; ¢ fome de ter noti- cis, efusio de amor. Pode cansar? Em nenhum lugar melhor do que aqui cabe relembrar a pergunta que an- tes fuziamos: “Se 0 seu dia tivesse dez minutos a ‘mais, em que os empregaria?” Porque onde estd 0 tew tesouro, ai esté 0 teu coragdo (cft. Mt 6, 21). RESPONSABILIDADE SOCIAL Estamos cansados de saber que o homem é por na~ tureza um ser social, configurado para viver em comu- nidade, nascido numa familia ~ como Cristo ~, chama- 30 do por sua vez, na imensa maioria dos casos, 2 consti- tuir familia e a estabelecer vinculos de amizade e soli- dariedade com os seus préximos. Para um cristio, esse lago é fonte de responsabilidade: no s6 ¢ em primei- rissimo lugar no seio da familia, mas também no am- bito das relagdes que resultam do trabalho profissio- nal, dos conhecimentos que se travam, do trato com os vvizinhos, ete. Um cristio nfo pode encarar esse feixe de relagées como produto do acaso ou das eircunstin- cias, da mera simpatia natural ou camaradagem (esses parceiros num jogo de ténis ou de futebol nos fins-de- semana), € menos ainda como instrumento a servigo dos seus interesses: “Nos outros, niio vés irmios; vés «edegrausy”®, Esses homens, de um circulo mais amplo que a fa- milia, também tém alma, e quem me diz que Deus nio (8 pés em contacto comigo porque me quer responsa- bilizar pela sua satide espiritual? Posso eu encolher os ‘ombros ¢ repetir com Caim, depois de ter matado Abel: Acaso sou eu 0 guardidio do meu irmiio? (Gen 4, 9), Ou mais pitorescamente, como Juruna: “De vida privada, indio nao fala”? Nao € cristio; alids, nem se- ‘quer € humano. Tem-se observado que uma das maiores caréncias do homem do nosso tempo € nfo ter ninguém que possa tomar como confidente dos seus problemas inti- ‘mos ~ de temperamento, familiares, profissionais... ~ que esteja disposto simplesmente a ouvi-lo e, como aconteceri muitas vezes, a dar-lhe uma opinido, um ‘conselho, para as suas crises, impasses ou fraquezas. E (22) Josemaria Bsrivi, Camino, m 31 51 necessirio criar espago no nosso dia-a-dia para esse didlogo de amizade e confidéncia. Quando se fala de responsabilidade social, pen- sa-se logo em voluntariados para obras de benemerén- cia, de assisténcia aos desvalidos, aos presos e doentes abandonados, etc. E excelente que 0 faga quem tiver inclinagdo © recursos financeiros ou de tempo para fazé-lo. Nao € a maioria, O que todos nés podemos fa- zer, e assim Deus nos pede indubitavelmente, & que sejamos humanos no trato com os nossos amigos ¢ Co- idos: que no nos vejam frios ¢ distantes, mas atentos, disponiveis, com sensibilidade para ouvir um desabafo ou despertar uma confidéncia. E isto ndo exi- ge uma especial dedicagio de tempo. ‘Aqui a virtude da ordem assume um outro viés: a ordem nos sentimentos. Situa-se no plano da caridade, da abertura aos outros. 36 vimos acima que a “nossa” ‘ordem, bem quadriculada em fungao do que sabemos ter de fazer, deve ser suficientemente flexivel para ce- der o lugar & “desordem” provocada por um dever im- perioso de caridade. E a pardbola evangélica ja citada do bom samaritano, um homem de negécios tanto ou ‘mais ocupado que os que passaram antes dele pelo ho- mem ferido na estrada de Jeric6, mas que se detém € socorre esse infeliz. ‘Mas, se nesse caso, se pode falar de uma “nova” ‘ordem que mexeu com a distribuigao do nosso tempo, normalmente nio hé necessidade de “programar” 0 exercicio dos deveres de caridade, Sendo vejamos: = Que tempo a mais me leva ser acolhedor, bem- -humorado, prestativo no relacionamento habitual com ‘os meus colegas de escritério? = Que me custa aconselhar a um amigo desorienta- 32 do ou aflito um bom livro que responder mil vezes melhor que as minhas palavras a0 problema de que me falou? — Seri que me exige horas extras mostrar firmeza de conviegdes, baseada em conhecimentos séolidos, numa roda de amigos em que se tocam levianamente — quanto mais se desconhece, mais se pontifica, infeliz~ mente — problemas que dizem respeito 4 conduta do homem: 0 reto uso do sexo, a moral profissional, 0 equilibrio entre autoridade ¢ liberdade na educagao dos filhos, etc.? Ou que fazem pensar sem preconcei- tos nas verdades da f: a existéncia de Deus, a imorta- lidade da alma, o verdadeiro rosto da Tereja, a plena ‘compatibilidade da sua doutrina com o avango da ciéneit Ser tempo a mais, durante um almogo de negé- cios, depois de se ter tratado dos assuntos profissio- nais, abordar algum tema menos pragmético, que sus- cite inquietagdes acerca da alma ¢ abra horizontes ¢s- pirituais? Jé alguém disse que os homens as vezes precisam ser sacudidos como 0s tapetes, para fazé-los sair da modorra e ascender a um nivel superior. Alias, encon- traremos casos em que as pessoas estiio convencidas da necessidade de uma mudanga radical, mas simples- ‘mente “deixam para a segunda-feira”. Essas conversas ‘a s6s, que surgem em ocasides por vezes inesperadas, ‘bem conduzidas, do que pensar ao nosso interlocu- tor. E acaba por agradecer que nos interessemos pelo seu futuro iiltimo, porque “é ld que as pessoas vio passat o resto de sas vidae nessa ‘eternidade com 33 A ordem impede que os compromissos que assumimos se tornem um peso superior as nossas forcas. “GUARDA A ORDEM, EA ORDEM TE GUARDARA” ‘Todos os dedos da mio sto igualmente neces- sirios. Que 0 diga quem se cortou num deles. Quantos ‘movimentos automiticos fazemos sem nos darmos ‘conta de que todos esses dedos participam ativamente! © equilibrio de uma vida resulta da conjugagio de to- dos os elementos que nas paginas anteriores, em ima- 34 gem, fomos pendurando de cada um deles. Como se consegue? ) “Guarda a ordem, e a ordem te guardard”, ou, co- mo se diz em latim: Serva ordinem, et ordo servabit te, Parece dificil de acreditar, mas é assim mesmo. Pessoas polarizadas, obsessionadas, ou, no outro ex- tremo, andrquicas, avessas a qualquer assomo de dis- ciplina, so pessoas fadadas ao fracasso, se nZo global, com certeza parcial; pelo menos, ficam aquém da me- dida do que poderiam render em beneficio deles pré- prios e, com repercussio mais grave, da sua missio como chefes ou membros de uma familia, como célu- las vivas da sociedade pelo seu trabalho profissional, pelo espirito exemplar no cumprimento dos seus deve- res particulares e civicos. Nio conhecemos pessoas que admiramos porque fazem bem mil coisas nas mesmas vinte e quatro ho- ras que para nés se escoam pelos ralos da indoléncia do capricho? Inteligéncia lida, rapidez de reflexos, capacidade de lideranga, flexibilidade para adaptar-se ‘sur la marche aos imprevistos, tudo isso influi na dife- renga, sem diivida, mas sobretudo influi o habito da ‘ordem nos juizos, na hierarquizagao dos valores e das tarefas, iluminada pelos dados da f6. Mas j vemos que o segredo ndo esté apenas em ter um lugar criteriosamente escolhido para cada coisa, Est na pronta execugio, Se no hé a vontade de colo- car tenazmente cada coisa no devido lugar ¢ tempo, pouco se consegue: “Sdo precisos novos regulamentos, izes... — Achas mesmo que 0 corpo humano melhora- ria com outro sistema nervoso ow arterial?” E insiste (23) Josemaria Eservé, Suleo,m. 400 35 ‘0 mesmo autor: “Nunca confies s6 na organizagio”*. ( mais importante, depois de arrumarmos diariamente a cabega, ¢ 0 sentido do compromisso conosco pré- prios, que leva a fazer passar por esses canais ja aber- tos a torrente dos nossos afazeres. (24) Josemaria Eservd, Suleo, n. 403. 56 UMA VIDA EM HARMONIA © VALOR DO TEMPO Haveria muito que dizer a propésito desse espirito de compromisso no exercicio da virtude da ordem. Mas observemos brevemente apenas um aspecto: 0 sentido agudo do valor do tempo. ‘Temos consciéncia de que a vida é breve, e para isso mio & necessirio chegar a uma idade em que, como dizia alguém, jé s6 resta reconhecer: “O meu fu turo agora esti atris de mim”, A vida vai-se, eo tem- po que passa é irrecuperdvel. Quem pode armazenar um sopro de brisa numa tarde abafada de verdio? Pas- sou. Nao volta. Esta realidade em idade nenhuma é deprimente, so- ‘bretudo para quem assume a fé como um valor vital. £ antes um estimulo: precisamente por ser irrepetivel, convida a viver 0 momento presente em plenitude, Porque, bem vistas as coisas, o instante que passa é ‘um pedago de eternidade que se antecipa, para bem ou para mal, conforme exergamos a liberdade correta ou indevidamente. ‘Ha os que fazem da liberdade um_ para se ocu- 37 parem em tudo menos naquilo que devem naquele mo- mento. Entretém-se com pretextos de todo 0 género, esquecidos de que o valor de um homem se mede pelo valor do seu hoje ¢ agora. Uma das mais claras mani festagées de imaturidade ¢ trocar aquilo que se deve fazer por aquilo que custa menos ou agrada mais ~ 0 adiamento indefinido. Com muita mordacidade e pou- ca justiga na generalizagio, dizia 0 escritor Paulo Men- des Campos: “Ha em nosso povo duas constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil € 0 tinico pais brasileiro do mundo, Brasileiro até demais. Colu- nas da brasilidade, as duas colunas so: a capaci- dade de dar um jeito; a capacidade de adiar [...). (0 brasileiro adia; logo existe”*. Em contrapartida, 0 eristo percebe que, como via~ mos atris, 0 que esté em jogo € algo muito sério — nada menos que a correspondéncia a graga: “Sempre pensei diz 0 autor de Sulco ~ que muitos chamam kamanha», «depoisn, & resisténcia 4 graga”™. Porque 0 tempo da graga é agora. E no instante que passa que Deus nos espera com as suas luzes © com 0 seu auxi- lio, em reforgo da nossa vontade débil. ‘Houve quem qualificasse de “sacramento” o dever do momento presente. E assim é, de algum modo: 0 {que agora me cabe fazer, se realmente 0 fago, como {que cristaliza, materializa a graca divina. A pontuali- (25) Palo Mendes Campos, O Colunista do Morro, 1965, ct. Ro- berto Pompeu de Toledo, Veja, 8.09.04 (26) Josemaria Escrvi, Sieo,n. 155. 58 dade é veiculo da ago de Deus, ponto de apli ps yiaa onto de apicagio da E por isso ¢ fonte de alegria. Nao pode deixar de ser alegre 0 encontro da vontade atual do homem com a vontade eterna de Deus. E como se naquele momen- to comungissemos: 0 agora no cumprimento do dever € uma comunhao espiritual. Nessa fidelidade ao dever do momento, ndo ha, pois, motivo para resmungos, caras feias, mé-vontade, ‘cansago ou tédio. E se por vezes essa’ pontualidade ‘custa uma ldgrima, a ldgrima torna-se sorriso. Aparece © rosto de Deus, infinitamente amével e consolador. ‘A HARMONIA DE UMA VIDA EM ORDEM. “A ordem dard harmonia tua vida proporcionari paz a0 teu coragio ¢ gravidade a tua ‘compostura”?, Um homem, nfo “ordeiro”, mas ordenado ~ em quem a ordem no é um modo de ser ou uma mania, mas virtude ~, desenvolve-se harmonicamente. Nao hi nele estridéncias nem histerismos, incompatibilidades € conflitos habituais na execuco das diversas respon- Sabilidades. Esse homem nfo se escusa de um dever ‘com outro dever; as pegas de que se compe a sua vida nfo se atritam, mas se encaixam umas nas outras como 4 perfeita engrenagem de uma maquina complexa. E dai a “gravidade da compostura”, mesmo em momentos criticos, como recorda Sulco: “Passas por 22) Josematia Escrivs, Fora, n. 806, 39 A ordem nos garante uma navegagao trangiiila pelos mares tempestuosos desta vida. critica: um certo temor vago; dificuldade em cee plano de vida; um trabalho sufocante, por- {que nfo te chegam as vinte ¢ quatro horas do dia para ccumprires todas as tuas obrigagSes...~ Experimentaste ‘seguir 0 conselho do Apéstolo: Faga-se tudo com de- coro ¢ ordem (1 Cor 14, 40), quer dizer, na presenga de Deus, com Ele, por Ele e s6 para Ele?” ‘Um homem desorganizado nio é um homem sério. ‘Acabaré em algum momento por ter para com 0s ou- tros atitudes comportamentos “indecorosos”, faltos (28) Josemaria Eserva, Sulco,n. $12. 60 de dignidade e até de justiga © de simples decéncia. Seré efetivamente um homem ndo confidvel. J4 um homem cujos passos a ordem disciplinow tem sempre paz no seu coragio. “Eu ndo me preocu- po; ocupo-me”, dizia So Josemaria Escriva. Esse ho- ‘mem tem uma paz interior que the permite transfor- ‘mar imediatamente as preocupagdes em ocupacées; sai da agitagio do “problema” para entrar na paz da “solugdo”. E 0 azeite derramado em toro da pequena embarcagdo fustigada pelas vagas da agitacio dria; ‘ou © vento suave que toma a empurrar a barquinha imobilizada na calmaria do dolce far niente. Assim deveria transcorrer a vida de todo 0 homem ¢, com mais razio, a de um homem de fé. Ai, sim, ha a construgio de um edificio tijolo a tijolo, segundo um plano, em seqincia dgil de atos que se interligam, su- bordinados a uma idéia vocacional nos diversos as- Pectos que vimos atris, nunca realizados aos empur- Ses. Nio hé esse deixar a vida correr nem essa des- culpa esfarrapada de quem se justifica: “Enquanto no fizer isto, nio quero saber de mais nada”, ou “depois ue isto se resolver, enti...” Sentimos desgosto em cenganar-nos assim a nds mesmos. Tudo isto é possivel. Basta — nao é pouco; € tudo — atentar para a parte final da reflexdo acima citada: voc® j experimentou fazer tudo com “decoro © or- dem, quer dizer, na presenca de Deus, com Ele, por Ele e s6 por Ele?” Quem se deixa guiar pela vontade proxima ¢ con- ereta de Deus nas horas do seu dia, nas etapas da sua vida, em livre e delicada atengo 20 querer de Deus, experimenta a conciliagdo dos opostos e obtém uma provisio de esperanga: a sua vida nio terd sido estéril nem para os homens, nem fundamentalmente para 61 Deus, que € afinal © que importa, Poderi, ao término {dos seus dias, olhar para trés © ver que a eteridade entrou aos pouicos no seu tempo. Em cada momento — ¢ isto nao é uma utopia, a imagem que irradia coin- ceide com a imagem que Deus, desde antes que hou- vvesse tempo, fez dele para esse momento; essa pessoa nao é uma alma atrasada e muito menos abortada. ‘Terd chegado para cla 0 momento de descansar, como ‘um fruto maduro, UMA PERSPECTIVA VALIOSA. ‘A modo de resumo das consideragées feta ats deria ser itil repassi-las sob a perspectiva de um Thcido, de um homem que envelheceu de forma ade- quada e que, por conseguinte, nio se considera perto do fim, mas do eterno, de Deus, que em breve 0 aco- herd. Que nos tem a dizer uma pessoa assim, com base nas suas condicdes atuais ¢ nas experiéncias do da sua vida? gs 8 coms ponto de visia da sua sabedoria de vida, dir -nos-&: — que hé coisas que valem a pena e coisas que ndo valem; mae — que o critério para distinguir umas das outras é 0 dever ¢ ndo 0 apetecer; ~ que 0 dever & sempre entrega, niio posse: realiza ‘a pessoa na medida em que contribui ao mesmo tempo para realizar 0 préximo, humana e sobretudo espiri- tualmentes ~ que, por definigio, em algum momento ou em al- ‘gum aspecto, supde sacrificio; a = que, assim entendido, s6 pode ter como funda- ‘mento tltimo a fé: a relagio viva com Deus, que nos pede a vida instante a instante, com a autoridade de quem nos deu a sua em Cristo; = que, por conseguinte, a oracdo & 0 verdadeiro meio de ordenar e ter forgas para enfrentar as respon- sabilidades da vida; ~ que, nesse estilo de viver, se dio mesmo valor as feitos herdicos e aos deveres vulgares de cada dia; ha pontualidade e esmero em todos eles; sio todos tributos alegres de amor a Deus, que nos ama como a filhos. = que esse critério leva a estar sempre aprendendo ‘© modo de superar-se ¢ crescer. Para Deus, que nio teve comego nem teri fim, a vida é “continuidade” ¢, portanto, inteira “atualidade”; por isso, os que esto unidos a Ele ndo param de descobrir novos atalhos para melhorar a ordem no cumprimento dos seus de- veres ¢ até na disposicdo das coisas materiais; — que essa vida pautada pela busca da Vontade de Deus € 0 que afinal importa como realizago de uma existéncia, porque Deus ¢ a tinica garantia de pereni- dade dos nossos atos; 0 resto vira fumaca. ‘Mas 0 anciéio, da experiéncia acumulada, tira ou- tros ensinamentos bem “prosaicos”, porém muito titeis ‘em todas as idades. © ancitio sabe: = que nio tem capacidade nem forgas senfio para pensar ¢ fazer uma coisa de cada vez; isto até fisica- mente. © yelho ndo pode ter a pretensio de subir uma escada carregando nas mios cinco coisas 20 mesmo tempo; alguma cair§; 68 = que nada se consegue com arrancadas sibitas, ‘mas com método e perseveranca; ~ que o planejamento e a perfeita exccugio exigem paz de espirito. E impressionante observar que, por lei a natureza, 08 ancidios sfo lentos ¢ pausados, a0 pas 0 que 0s jovens e os de meia-idade so impacientes. E deveria ser ao contrario, porque os primeiros jé ndjo dispdem de muito tempo, a0 passo que os segundos ‘tem toda a vida pela frente; ‘— que a pressa € ma conselheira, porque com fre- iéncia obriga a retificar atos mal pensados ou exec tados com precipitagao. Os ancidos caminham mais devagar, mas muitas vezes chegam antes, porque ndo tiveram que refazer 0 andado; “Ti que o sacrificio de pensar num lugar para cada coisa € depois colocd-la ou recolocé-la nesse lugar poupa muitas perdas de tempo. O ancido sabe que essa &a sua defesa contra os esquecimentos € a perda da memiria; “que fazer uma coisa bem feita, sem deixar cabos por atar, & 0 segredo do aproveitamento do tempo. O fanciio pode assegurar-nos que muitas vezes perdeu ‘ais tempo pasando para outra coisa sem ter acabado ‘2 anterior, do que se tivesse concluido perfeitamente ssa que deixou a meio; além de que é muito inedmo- do enfrentar novamente uma tarefa que se deixou in- conclusa. = enfim, que o tempo da graca ¢ agora, tanto mais que um anciio cada vez sabe menos se poderi dispor de um “amanha” ou sequer de um “mais tarde”. Res pondia um homem ja de certa idade a quem Ihe per- untava pela sade: “Nesta iltima meia-hora, tudo 6ti- mo”... Importa programar e executar as obras de cada dia como se fosse 0 ultimo. 4 Conta Romano Guardini® que, quando alguém per- peering ips formas estabelecidas pelo Concilio de Trento, 0 que faria se soubesse que iria morrer dentro de uma hora, 0 Santo respondeu: “Faria especialmente bem o que ¢s- Se janta Teresa de Avila, pouco antes de morrer, apé: uma existéncia de realizagbes assombrosas, no'meio dos mais duros embates, contrariedades e imprevistos, murmurava: “Seiior y Esposo mio, ya es legada la hora tan deseada de verte, tiempo es que nos veamos, Amado mio. Vamos a muy en hora buena”™. i _Isso jé vinha de muito antes, da consciéncia da missio que Deus Ihe confiara e daquilo que Ele, para tanto, Ihe pedia momento a momento. Conta-se que, tendo chegado a Salamanca, terra de estudantes uni- versitirios, na noite de dois de novembro, passou-a ae as suas relgionas na casa varia de méveis jue ia ser a sede de mais uma das suas fundagé toda a Espanta. Era dia de finados e 0s sinos dabra- vam pelas almas. Ao irem deitar-se, nuns molhos de pala na sala de estar vazi, a frei, assustada, disse & “— Madre, estou pensando que, se eu agora morresse aqui, que farieis vés sozinha? “Pareceu-me que, se aquilo viesse a suceder, seria coisa bem dura, e fez-me pensar um pouco gq, ©) Romano Garin, As Kader de vide, Qua, 199, pi (2 Sitio de Sata Teen, Obra completes de Sota Tere ‘ed. crit, t. Il, pag. 242. giana i 65 ¢ até ter medo, porque os corpos mortos sempre me enfraquecem 0 coracdo, mesmo que nao este- ja 86. “E como o dobrar dos sinos ajudava, poi como disse, era noite das almas, bom cami levava o deménio para nos assustar com ninha- rias. “— Irma — disse-Ihe -, se isso acontecer, pen- sarei no que fazer, agora, deixai-me dormir. “Como tinhamos pasado duas noites mal dormidas, nfo tardou que 0 sono nos tirasse os medos”™. Assim discorre uma vida natural ¢ sobrenatural- mente em ordem, estruturada segundo o querer de Deus. Essa virtude, implantada serena mas firmemen- te, dia apds dia, com as lutas ¢ os corretivos neces sirios, representa o heroismo que se esconde no caris- ma do homem que vé na sua ordem 0 grande instru- mento da ago de Deus. Talvez possa refletir a idéia central destas conside- rages a oragio pessoal de um desconhecido, que a vazou ao correr da pena num papel de rascunho en- ccontrado por acaso: 66 “Senhor, Tu choras & vista de Jerusalém, por- ‘que a cidade no conheceu o tempo da sua visita- ‘gio (cfr. Le 19, 41-44). Senhor, todos os pecados serio perdoados, mesmo contra ti, mas no con- tra 0 teu Espirito, porque é rejeitar a graga da bondade divina, € levantar um dique a ago de (G1) Santa Teresa de Jesus, As fndages, 19, 5. Deus. Foste concebido e encamaste por obra do Espirito Santo para seres meu Salvador, para me visitares trazendo-me o teu Espirito, com o abra- 90 do Pai. Seria uma «farsa blasfema» Costas, sofismar com a minha consci © tempo passar confundindo o im importante, entregando-me ao supérfluo, 20 que pode esperar, a0 passo que Tu no podes, Nio osso cometer a grosseria de obrigar-Te a fazer sala, “Chegou o momento da tua visita: ¢ a plenitu- de dios tempos; cada segundo da minha vida ¢ 0 teu tempo, tempo de plenitude, que no pode ser vivido a meias ou entdo recusado Aquele que me amou e chorou sobre mim como chorou sobre Je- rusalém. Senhor, Tu me visitaste e eu fui a minha vida, deixando-te s6 em minha casa, a ti que me vinhas trazer sentido para os meus dias, alegria de viver. Nao vieste como super-homem, para me ensinar faganhas que me assustassem, Mas vieste Deus encamado — Deus etemo no tempo dos homens ~, para fazeres divinos, no su- per-humanos, todos 0s meus momentos huma- nos. Vieste tomar eterno © momento que passa, fugaz, vieste transfigurar o banal em louvor an- gélico: Santo, santo, santo é 0 Senhor Deus do universo.. “Senhor, que eu te corresponda dizendo faga- se, que me visites encamnando-te nas minhas obras, todas, as de agora, nfo as de ontem nem as de amanhi, que so pesadetos ou fantasmas. Que © meu hoje seja o few HOJE: Eu te gerei hoje como te diz o Pai. Geragdo eterna hoje, num hoje que se prolonga e em ti se etemiza através das 6 ‘minhas obras, insignificantes, mas obras certas, feitas, com a tua graga, no lugar certo, na hora certa, com a intengio certa, do modo certo. Que eu reconhega cada instante da minha vida como tempo da tua visita. Amém”. INDICE