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CAPITULO XV A NOCAO DE ESTRUTURA EM ETNOLOGIA (1) # preciso néo tomar ag investigagées que se podem fazer sobre éste tema por Yerdades histéricas, mas simente por ciocinios hipotétices e condicionais, im: préprios para eselarecer a naturesa di colsas que para mostrar sua verdadeira i ‘semelhantes, aos que fazem to- hnossos fisicos sbbre a forma- ‘eho do mando, J. Rousseau Discurso eétre a origom da deeigualdads entre os homens. ‘A nogéo de estrutura social evoca. problemas demasiado vvastos © vagos para que se possam traté-los nos limites de um ‘artigo. O programa déste simpésio admite isto implicitamente: temas vizinhos ao nosso forem consignados a outros participan- tes, Assim, estudos tais como os cotisagrados a0 estilo as cate- gorias wniversais da cultura e a lingitistica estrutural relacionam- se de muito perto a nosso assunto, ¢ o leitor do presente tra- balho deverd também referir-se a éles. (1) Traduzide © adaptado segundo a comanicagio original ‘em inglés: Social Struoture, Wenner-Gren Foundation Internatio ‘nal Symposium on Anthropology, Nova Torque, 1962, ulterior mente publiceda em: A. L. Krocbor ed. Anthropology To-Day, Univ. of Chicago. Press, 1968, pp. 524-555. 313 ‘Além disso, quando se fala de estrutura social, di-se aten- ‘0, sobretudo, aos aspectos formais dos fendmenos sociais; sai-se, pois, do dominio da descticéo para considerar nocées € ‘categorias que ndo pertencem propriamente & etnologia, mas que ela gostaria de utilizar, @ semelhanga de outras disciplinas cientificas que, desde muito tempo, tratam alguns de seus pro- blemas como desejariamos fazer com os nossos. Sem divida, stes problemas diferem quatito ao contetido, mas temos, com ou sem razio, 0 sentimento de que nossos préprios problemas poderiam thes ser aproximados, com a condigéo de adotar 0 ‘mesmo tipo de formalizagéo. O interésse das pesquisas estru- turais estd, precisamente, em que nos dio a esperanga de que ciéncias mais avangadas que as nossas, sob éste aspecto, possam nos fornecer modelos de métodos e de solugdes. ‘Que se deve, pois, entender por estrutura social? Em que os estudos que he dizem respeito diferem de tédas as descri- es, anilises e teorias visando as relagées sociais, compreen- didas no sentido amplo, e que se confundem com 0 proprio objeto da antropologia? ‘Os autores nao estdo muito de acdrdo sbbre 0 contetido desta nogio ; alguns mesmo, entre 0s que con- tribuiram para introduzi-la, parecem hoje se arrepender. Assim Kroeber, na segunda edicio da sua Anthropology: “A nogio de “estrutura” no ¢ provavelmente senfo uma concessio & moda: um térmo de sentido bem definido exerce de repente um singular atrativo durante uma dezena de anos — assim a palavra “‘aerodindmico” — comesa-se a empregi-lo a torto ¢ a direito, porque soa agradavelmente aos couvidos. Sem diivida, uma personalidade tipica pode ser con- siderada do ponto de vista de sua estrutura, Mas a mesma coisa & verdadeira para uma disposigao fisiolégica, um orga- nnismo, uma sociedade qualquer ot uma cultura, um cristal ow tuma méquina, Qualquer coisa — com a condicéo de nao ser completamente amorfa — possui uma estrutura. Assim, parece que o térmo “estrutura” nao acrescenta absolutamente nada a0 que temos no espirito quando o empregamos, senio que nos deixa agradivelmente intrigados” (Kroeber, 1948, pig. 325) (2). (2) Comparar-se-& com esta outra férmula do mesmo au- tor: “.-. © termo “estrutare social”, que tende a substituir o de 8th fiste texto visa diretamente a pretensa “estrutura da per- sonalidade bésica”; mas implica numa critica mais radical, que oe em causa © proprio uso da nogio de estrutura'em antro- pologia. ‘Uma definigio nfo € sdmente indispensivel em razio das incertezas atuais, De um ponto de vista estruturalista, que é preciso adotar aqui, quando mais no fésse para que 0 pro- blema exista, a nogéo de estrutura nio depeade de uma defi- nigéo indutiva, fundada na comparagio € na abstragio dos elementos communs a tédas as acepeéea do tirmo tal como & geralmente empregado, Ou o térmo estrututs social nic. tem Sentido, ou éste mesmo sentido tem jé uma estrutura, & esta estrutura da nolo que precisamos, antes de tudo, apreender, se ‘Blo quisermos nos deixar submergir por um fastidioso inven- trio de todos os livros e artigos dedicados as relagées sociais sSmente sua lista excederia o8 limites déste capitulo, Uma se- igunda etapa permitira comparar nossa definigio provisria‘com que outros attores parecem admitit, de modo explicito ou implicit, Procederemos a éste exame na sexio consagrada 20 parentesco, pisto que 0 principal contexte no qual a nogio Ge estrutura aparece, Em verdade, os etndlogos ocuparam-se Gquase exclisivamente de estrutura 2 propésito dos problemas de parentesco, I — DEFINIGAO E PROBLEMAS DE METODO © principio fundamental & que a nogio de estrutura social io se refere a realidade empirica, mas aos modelos construidos ‘em conformidade com esta. Assim aparece a diferenga entre ‘duas nodes, to vizinhas que foram confundidas muitas vézes: “organizacdo social”, sem nada acrescentar, parece, quanto a0 con- teddo ou & significegio.” (1945, p. 105). ‘Ao longo do presente capitulo, muito carregado do referéa- cigs bibliogréfices, dispenssmo-noa ‘de Teprodusir em nota os th fialos completos das obras citadas, que © leiter encontraré_ ficil Imente, conforme o nome do autor © = data da publicacio, ns ‘ibliografi geral no fim do volume. 315 a de estrutura social ¢ a de relagdes sociais, As relocées sociais so a matéria-prima empregada para a construgio dos modelos que tornam manifesta a propria estrutura social, Em nenhum caso esta poderia, pois, ser reduzida ao conjunto das relagdes, sociais, observaveis numa sociedade dada, As pesquisas de es- ‘rutura no reivindicam um dominio proprio, entre os fatos de sociedade; constituem antes um método suscetivel de ser apli- cado a diversos problemas etnolégicas, e tém parentesco com formas de andlise estrutural usadas em diferentes dominios, Tratarse, entio, de saber em que consistem éstes modelos que sio o objeto proprio das andlises estruturais, O problema Bio depende da etnologia, mas de epistemologia, pois as defi- nigées seguintes néo retiram nada da matéria-prima de noss0s trabalhos. Pensamos, com efeito, que, para merecer 9 nome de estrutura, os modelos deve, exclusivamente, satisfazer a quar tro condigdes. Em primeiro lugar, uma estrutura oferece um cariter de sistema, Ela consiste em elementos tais que uma modificaggo qualquer de um déles acatreta uma modificagio de todos 0s outros. Em segundo lugar, todo modélo pertence a um grupo de transformagées, cada uma das quais.corresponide a um modélo da mesmna familia, de modo que o conjunto destas transforma- es constitui um grupo de modelos Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permi- tem prever de que modo reagiré 0 modéle, em caso de modifi- casio de um de seus elementos Enfim, © modélo deve ser construido de tal modo que seu funeionamento possa explicar todos os fatos observados (3). (2) Gomparar Von NevMANN: “Modelos (tais como 08 jo- 0s) sto construgSes tafricas que supdem uma dafinigio ‘precisa, ‘xaustiva e nfo demasiado complicada: devem ger também. pare idos com realidade sob todas as rolagéea que importam a pes- qulsa em curso. Para recapitular: a definigao deve ser precios ¢ exaustiva, para possbilitar um tratamento matemdtico. A cons frugie deve er intiimenta complends, i toto. que tra famento matemético possa ser estendido além do’ eatdgio da for- malizagio © dar resultados numéricos completos. A semelhancs com a'realidade 6 requerida para que 0 funcionamenta. do mo a) Observacio ¢ experimentacio Bistes dois niveis serdo sempre distinguidos. A dos fatos © a elaboragio dos métodos que permitem utilizé-tos para construir modelos nio se confundem nunca com a experi- ‘mentagdo por meio dos préprios modelos, Por “experimentagio rnos modelos”, entendo 0 conjunto dos prosessos. que per item saber como um modélo dado reage as modificagdes; ou comparar entre si modelos do mesmno tipo ou de tipos diferentes. Esta distingZo € indispensivel para dissipar certos mal-entendi- dos. Nao hé contradigio entre a observagio etnogrifica, sem- pre concreta ¢ individualizada, ¢ as pesquisas estruturais a que se atribui muitas vézes um catéter abstrato ¢ formal para con- testar que se possa passar da primeira as segundas? A contra- digio desaparece desde que se compreende que éstes caracteres antitéticos dependem de dois niveis diferentes, ou, mais exata- mente, correspondem a duas etapas da pesquisa, No nivel da ‘observacio, a regra principal — poder-se-ia mesmo dizer a tinica — € que todos os fatos devem ser exatamente observados fe descritos, sem permitir que 03 preconceitos tedricos alterem sua natureza e sua importéncia, Esta regra implica em outra, por via de conseqiéncia: os fatos devem ser estudados: em si ‘mesmos (que processos concretos trouxeram-nes & existéncia?) ¢ também em relagio com o conjunto (quer dizer que tdda mu- danga observada num ponto seré relacionada is circunstancias globais de sua aparigéo). Esta regra e seus corolarios foram claramente formulados por K, Goldstein (1951, pp. 18-25) em térmos de pesquisas psico-fisioldgicas; sio também aplicéveis a outras formas de anilise estrutural. Do ponto de vista que & 0 nosso, permitem compreender que nio ha contradigS0, mas intima correlacio, entre © cuidado do detalhe conereto proprio & descrigio etno- gtafica ¢ a validade e a generalidade que reivindicamos para © modélo constriido a partit dela, Podem-se, com efeito, con- ceber muitos modelos diferentes, mas cémodos, sob diversos as- Bio. seja significative, Mas esta semelhanca pide ser habita mente restrita @ alguns aspostos julgados easeneais pro. tempore “i"ysndo. as condigics acta. enumeradas tomar-seiam incompe- Fivela” (NEUMANN Moncmuorsnn, 1944). a7 pectos, para descrever e explicar um grupo de fendmenos.. To- davia, o melhor seré sempre 0 modélo verdadeiro, quer dizer, aquéle que, sendo o mais simples, responder 3 dupla condigio de rio utilizar outros fatos além dos considerados ¢ explicar todos. A primeira tarefa é, pois, saber quais sfo éstes fatos. Db) Consciéncia ¢ inconsciente Os modelos podem ser conscientes ou inconscientes, se- gundo o nivel onde funcionam, Boas, a quem cabe o mérito desta. distingio, mostrou que um grupo de fenémenos se presta tanto mais 4 andlise estrutural quanto a sociedade nio dispde de um modélo consciente para interpreti-lo ou justificé-lo (1911, p. 67). Talvez se fique surpreendido em me ver citar Boas como tum dos mestres do pensamento estruturalista; alguns Ihe atribuiriam antes um papel oposto. Tentei mostrar num outro trabalho (4) que o malégro de Boas, do ponto de vista estru- turalista, nfo se explica pela incompreenséo on pela hostilidade, Na historia do estruturalisino, Boas foi sobretudo um precursor. ‘Mas pretendeu impor as pesquisas estruturais condigoes dema- siado rigorosas. Algumas puderam ser assimiladas por seus su- ‘cessores, mas outras eram tao severas e dificeis de satisfazer que teriam esterilizado 0 progresso cientifico em qualquer que fosse © dominio, ‘Um modélo qualquer pode ser consciente ou inconsciente, esta condigéo ndo afeta sua natureza, Sémente é possivel dizer que uma estrutura superficialmente dissimulada no inconsciente torna mais provavel a existéncia de um modélo que a mascara, ‘como uma tela, para a consciéncia coletiva. Com efeito, os mo- delos conscientes — que se chamam comumente “normas — incluem-se entre os mais pobres que existem, em razéo de sua fungio, que é de perpetuar as erengas ¢ 0s usos, mais do que de cexpor-ihes as causas. Assim, a andlise estrutural se choca com uma situagéo paradoxal, bem conhecida pelo lingiista: quanto mais nitida € a estrutura aparente, mais dificil torna-se apreen- der a estrutura profunda, por causa dos modelos conscientes ce deformados que se interpaem como obstéctlos entre o obser- vador € seu objeto. (4) Histéria ¢ Btwologia, eap. 1 do presente volume, 318 © etndlogo deverd sempre distinguir entre as duas situa- ges em que corre 0 risco de se achar colocads, Pode ter que construir um modélo que corresponda a fendmenos cujo cardter de sistema nio foi perecbido pela sociedade que éle estuda. 2 f situagio mais simples, sobre a qual Boas sublinhou que oferecia também © terreno mais favordvel 4 pesquisa etnoldgica. Em outros casos, entretanto, o etndlogo tem dante de si nao sémente materiais brutos, mas também modelos j& construidos pela cultura considerada, sob forma de interpretagGes. Notei jé que tais modelos podem ser muito imperfeitos, mas nao € sem- pre o caso, Muitas culturas ditas primitives elaboraram mode- los — de suas regras de casamento, por exemplo — melhores que 0s dos etndlogos profissionais (5). Hé, pois, duas razdes, para respeitar éstes modelos “feitos em casa”. Antes de tudo, podem ser bons, ou, pelo menos, oferecer uma via de acesso a estrutura; cada cultura tem seus tebricos, cuja obra merece tanta atengio como a que 0 etndlogo concede & dos colegas. Em seguida, mesmo se os modelos. sfo tendenciosos ou inexatos, a tendéncia e 0 género de erros que éles contém fazem parte inte- grante dos fatos a estudar; e contam-se talves entre os mais significativos. Mas, quando éle dé tdda sua atengao a éstes modelos, produtos da cultura indigena, o etnilogo esta bem Jonge de esquecer que normas culturais néo s&0, automitica- mente, estruturas, So antes documentos para ajudar a desco- bri-las; ora documentos brutos, ora contribuigdes tedricas, com- parivels as trazidas pelo proprio etnélogo, Durkheim e Mauss compreenderam exatamente que as representagdes conscientes dos indigenas merecem sempre mais, atengio que as teorias procedentes — como représentagies conscientes, igualmente — da sociedade do observador. Mesmo inadequadas, as primeiras oferecem uma melhor via de acesso ais categorias (inconscientes) do pensamento indigena, na me- dida em que Ihe estio estruturalmente ligadas, Sem subestimar a importancia ¢ o cardter inovador déste passo, deve-se no en- tanto teconhecer que Durkheim e Mauss nao o levaram adiante, ‘a0 longe como desejariamos. Pois as representagées conscientes (5) Para exemplos ¢ uma discussio detathads, ef. Lévt- Sreavse (1049 4, pp. BBB se 319 dos indigenas, apesar de serem interessantes pela razio que acaba de ser indicada, podem ficar objetivamente tio distantes dda realidade inconsciente como as outras (6) c) Estrutura ¢ medida Diz-se as’ vézes que a nogdo de estrutura permite intto- duzit a medida em etnologia. Esta idéia pode resultar do em- prégo de formulas matematicas — ou de aparéncia matematica — em obtas etnolégicas recentes, & sem diivida exato que, em alguns casos, tenha-se conseguido estabelecer valores numéri- cos para algumas constantes, como nas pesquisas de Krocher sobre a evolugfo de moda feminina, que marcam uma date na hhistéria dos estudos estruturalistas (Richardson e Kroeber, 1940) ; e algumas outras, de*que falaremos mais adiante ‘No entanto, no existe nenhuma conexio necessiria entre a nogéo de medida e a de estruturs, As pesquisas estruturais apareceram nas ciéneias sociais como uma conseqiéncia indi- reta de certos desenvolvimentos das matematicas modernas, que deram uma importancia crescente 20 ponto de vista qualitativo, separando-se, assim, da. perspectiva quantitativa das mateméti- cas tradicionais .Em diversos dominios (logica matemitica, teoria dos conjuntos, teoria dos grupos e topologia) notou-se que problemas que-néo comportavam solugéo métrica podiam, apesar disso, ser submetidos a um tratamento rigoroso. Re- cordemos aqui os titulos das obras mais importantes para as Giéncias sociais: Theory of Games and Economic Behavior, de J. von Neumann e O. Morgenstern (1944) ; Cybernetics, etc, ‘de N. Wiener (1948) ; The Mathematical Theory of Communic cation, de C, Shannon’ e W. Weaver (1950). d) Modelos mecinicos © modelos estatisticos ‘Uma tiltima distingio se relaciona 4 escala do modélo, ‘comparada dos fendmenos, Um modelo cujos elementos cons- titutivos estio na escala dos fendmenos ser& chamado “modélo mecinico”, e “‘modélo estatistico” aquéle cujos elementos estio numa escala diferente, ‘Tomemos como exemplo as leis do ca- (6) Cf. abbre éste assuntos os eaps. VII © VIII déste volume. 320 samento, Nas sociedades primitivas, estas leis podem ser re- presentadas sob forma de modelos onde figuram os individuos, efetivamente distribuidos em classes de parentesco ou em clis; fais modelos so mecnicos. Em nossa socicdade, é impossivel recorrer a éste género de modélo, pois os diversos tipos de ca- samento dependem, nela, de fatdres mais gerais: tamauho dos grupos primérios © secundarios de que cependem os conjuntos Possiveis, fluidez social, quantidade de informagao, etc. Para conseguir determinar as constantes de nosso sistema matrimo- nial (0 que ainda nao foi tentado), dever-se-ia, pois, definir médiay ¢ limiares: 0 modélo apropriado seria de naturezs. es- tatistica. Entre as duas formas existem, sem diivida, intermediarias. Assim, certas sociedades (entre as quais a nossa) utilizam um modélo mecénico para definir o9 graus proibidos, e se voltam para um modélo estatistico no que concerne aos. casamentos possiveis. Além disso, os mesmos fenémenos podem depender dos dois tipos de modelos, segundo a maneira pela qital sao agrupados entre si ou com outros fendmienos. Um sistema que favorece 0 casamento de primog cruzados, mas onde esta {r- mula ideal cortesponde simente a uma ceria proporcio das unides recenseadas, requer, para ser explicade de modo satisfa- térlo, ao mesmo tempo um modélo mecdnico ¢ um modélo es- tatistico. As pesquisas estruturais no ofereceriam interéste algum se as estruturas nao féssem traduziveis em modelos cujas pro- riedades formais so comparaveis, independentemente dos ele- ‘mentos que os compdem. O estruturalista tem por tarefa iden- tificar © isolar os niveis de realidade que tém um valor estra- tégico do ponto de vista em que éle se coloca, ox, em outras palavras, que podem ser represeutados sob forma de modelos, qualquer que seja a natureza déstes iltimos. As vézes, também, podem-se encarar simultineamente 03 mesmos dados colocando-se em pontos de vista diferentes que tem todos um valor estratégico, ainda que o: modelos corres- pondentes a cada um sejam ora mecinicns, ora estatisticos. AS ciéucias exatas e naturais conhecem situagées déste tipo; assim, a teoria dos corpos cm movimento depende da mecinica, se 0$ corpos fisicos cotisiderados so poucos numerasos. Mas quando éste niimero atménta além de uma certa ordem de grandeza, € preciso recor er & termodindmica, quer dizer, substituir por tum modélo est tistico 0 modélo mecannico anterior ; ¢ isto ainda ue a natureza dos fendmenos tenha permanecido a mesma em ambos. 0s caso. SituagSes Jo mesmo género apresentam-se muitas vézes nas ciéncias humanas ¢ sociais, Seja, por exemplo, 0 suicidio: po- de-se encaré-lo de duas perspectivas diferentes. A anilise de ‘casos individuais permite construir o que poder-se-A chamar de modelos mecanicos de suicidio, cujos elementos sio fornecidos pelo tipo de personalidade da vitima, sua historia individual, as ropriedades dos grupos primario e secundario de que ela foi membro, e assim por diante; mas podem-se, também, construir modelos. estatisticos, fundados na freqiencia de suicidios durante um periodo dado, numa ou varias sociedades, ou ainda fem grupos primarios ¢ secundarios de tipos diferentes, etc. ‘Qualquer que seja a perspectiva escolhida, ter-se-do isolado ni- Yeis onde © estudo estrutuiral do suicidio € significative, em outras palavras, onde autoriza a construgio de modelos cuja ‘comparagio seja possivel: 1.° para varias formas de suicidios; 22 pata sociedades diferentes; e 3.° para diversos tipos de fe- ‘némenos sociais. O progresso cientifico miéo oonsiste, pois, sb- mente na descoberta de constantes caracteristicas para cada nivel, mas também no isolamento de niveis ainda nd demar- ccados, em que 0 estudo de fenémenos dados conserva um valor estratégico. Eo que se produziu com o advento da psicanalise, que descobriu o meio de estabelecer modelos correspondentes a lum novo campo de investigaséo: @ vida psiquica do paciente tomada em sua totalidade, Estas consideragies ajudaréo a compreender melhor 2 dualidade (somos tentados a dizer: a contradigéo) que carac~ teriza og estudos estruturais. Propusemo-nos de inicio isolar ni- vveis significativos, © que implica no recorte dos fenémenos. Déste ponto de vista, cada tipo de estudos estruturais tem pre- fenso 4 autonomia, a independéncia com relagdo a todos os outros e também com relagéo & investigagéo dos mesmos fatos, mas fundado sébre outros métodes. No entanto, nossas pes- 4quisas nio tém sendo um interésse, que € 0 de construir mo- delos cujas propriedades formais sejam, do ponto de vista da $22 compatagio € da explicagio, redutivtis as piopriedades de ati- tros modelos, que dependem, por sta vez, de niveis estratégicos diferentes. Assim, podemos esperar derrubar as barreiras entre as disciplinas vizinhas promover entre eles uma verdadeira colaboraséo. ‘Um exemplo ilustraré éste ponto. © problema das rela~ (gées entre a historia ¢ a etnologia foi, recentemente, objeto de numerosas discussdes. A despeito das criticas que me foram dirigidas (7), mantenho que a nogéo de tempo nio esti no centro do debate. Mas se néo é uma perspectiva temporal pré- ria & histéria qua distingue as duas disciplinss, em que con- iste sua, diferenga? Para responder, € preciso se reportar as observagées apresentadas no pardgrafo precedente e recolocar a historia ¢ 2 etnologia no interior das outras ciéncias sociais. ‘A etnografia e a histéria diferem antes de tudo da etno- logia e da sociologia, visto que as duas primeiras esto funda- das na coleta e na organizacio de documentos, enquanto as duas outras estudam antes os modelos construidos a partir © por meio déstes documentos. ‘Em segundo lugar, a etnografia ¢ a elnologia correspon dem respectivamente a uas etapas de uma mesma pesquisa, que termina, enfim, em modelos mecnicos, enquanto a historia (¢ as outras diseiplinas geralmente classificadas como suas “auxi- liares”) termina, em modelos estatisticos. As relagées entre rnossas quatro disciplinas podem, pois, ser reduzidas a duas ‘oposigées, uma entre observagio empirica e construgio de mo- delos (como caracterizando o passo inicial), a outra entre 0 ca- rater estatistico ou mecinico dos modelos, encarados no ponto de chegada. Seja, atribuindo arbitrariamente o sinal mais a0 (7) Sdbro estas discussées, o-6 a C. Livi-Smauas, Histéria ¢ Etwoloyia (Cop. T do presente volume) ; Race et His. toire, Paris, 1962; éster trabalhos suscitaram eriticas ou comen- thrice de parte de: C. Lavoer, change et la lutte des hommes, les Tempe modernee, fevereiro 1961; Sociétés sans histoire et his: Lori “Cahiers "iniernationoar, de. Sooialgis vo. 1B, TS ane, 1952; dean Pounton, POcurre de Claude Lévi-Strauss, lee Tempe moderate, julbo de 19656; Roger BastiDE, LévrStrauss’ ou Vethno- raphe "A la recherche du temps perdu”, Présence ofrioaine, abril- fialo 1956; 0, BALANDIm, Grandeur et sorvitde de Vethnologue, Cahiers du Sud, 48° ano, n.® 337, 1956. 328 primeiro térmo, ¢ 0 sinal menos ao segundo térmo de cada oposicao pl ete eal bag Pole : a) eld 4 z = eg ae eel odeervagio empiciea/ feostrupio de modelos | 4 | — | 4 | _ modelos mectinicos/ ‘ modelos estatisticos ee alate ate Red , que de- 1 famente uma perspective temporal, distinguem-se pelo emprégo de duas categorias de tempo. A etnologia apela para um tempo “‘mecinico”, quer dizer, teversivel ¢ nao-cumulativo: modélo de um sistema de pa- entesco patrilinear néo contém nada que indique se éle foi sempre patrilinear, out se foi precedido por um sistema matri- finear, ou ainda por téda uma séric de oscilagées entre as duas formas. Em compensagio, o tempo da histéria € “‘estatistico” nao é reversivel e comporta uma orientagio determinada, Uma evolugio que reconduzisse a sociedade italiana contempordnea a Repiblica romana seria to inconebivel quanto a reversbi- Processos que dependem da segunda lei da termo- dindmica. ee = A discussio que precede precisa a distingio, proposta por Firth, entre a nogio de estrutura social, onde o tempo nio de- sempenha nenhum papel, « a de organizasio social onde éle & solicitado a intervir (1951, p. 40). Do mesmo modo para 0 debate prolongado entre os defensores do anti-evolucionismo boasiano ¢ Leslie White (1949), Boas e sua escola ocuparam- se sobretudo de modelos mecinicos, em que a nogio de evo- lucgio nao tem valor heutistico. Esta nogio adquire um sen- tido pleno no terreno da historia e da sociologia, mas com a condigio de que 05 elementos aos quais ela se relaciona nio 825 N, jist iene cei ite que utilize exclusivaisente modelos meednicas. preciso, 0 contrario, aprender éstes elementos num nivel bastante pro- furido para. estar seguro de que éles permanecerio idénticos, qualquer que seja 0 contexto cultural onde intervenham (como os genes, que sio elementos idénticos suscetiveis de aparecer fem combinagdes diferentes, das quais resultar os tipos raciais, quer dizer, modelos estatisticos). & necessirio, enfim, que se possam erigit longas séries estatisticas. Boas ¢ sua escola tém, pois, razio de recusar a nogdo de evolusdo: ela-ndo é signi- ficante no nivel dos modelos mecanicos que éles ulilizam ex- clusivamente, e Leslie White faz mal em pretender reintegrar a nogio de evolugio, pésto que persiste em wrilizar modelos do mesmo tipo que seus adversirios. Os evolvcionistas restabe- Teceriam mais facilmente sua posigdo se consentissem em subs- tituir 0 modelos mecdnicos por modelos estatisticas, isto é, ccujos elementos sejam independentes de sua combinagio e per ‘manecem idénticos através de um periodo de tempo stficiente- mente longo (8). ‘A distinggo entre modélo mecinico © modélo estatistico oferece um outro interésse: permite esclarecer 0 papel do mé- todo comparativo nas pesquisas estruturais, Radcliffe Brown © ‘Lowie tenderam, um e outro, a superestimar éste papel. Assim, © primeito escreve (1952, p. 14): “Tem-se geralmente a sociologia tebrica como uma cién- cia indutiva. A indugio & com efeito, o processo légico que permite inferir proposigées gerais da consideragao de exem- plos especiais. © professor Evans-Pritchard parece as vézes pensar que 0 método légico da indugéo, empregando a com- paracio, a classificagio e a generalizacio, nao pode ser aplicado aos fenémenos humanos ¢ vide social... Quanto a mim, sustento que 4 etnologia se funda no estudo comparative e sistematico de um grande nimero de sociecades”. ‘Num estudo anterior, Rajclffe-Brown disia a propésito da religito (1945, p. 1): (9) bem anim, sllés, desenvoine 0 evolueionismo Mialgfte smtamperaned, nos! tfabainon do. . & Haldane, C. GSimpeon ete 825 “O método experimental aplicado sociologia religiosa... censina que devemos por nostas hipéteses & prova com um ni- mero suficiente de religides diferentes ow cultos religiosos. par ticulares, confrontados cada um com sociedade particular onde se manifestam. Um tal empreendimento ultrapassa a capacidade de um tinico investigador; supte a colaboragio de varios.” No mesmo espirito, Lowie comeca por sublinhar (148 a, p. 38) que “a literatura etnoldgica esti repleta de pretensas ‘correlagées que nfo tém nenhuma base experimental”; @ in- siste sbbre a necessidade “de ampliar a base indutiva’” de nos- sas generalizagdes (1948 a, p. 68). Assim, éstes dois autores concordam em dar um fundamento indutivo & etnologia, no que se separam nio somente de Durkheim —“Quando uma lei foi provada por uma experiéncia bem feita, esta prova é vilida taniversalmente” (1912, p. 593)— mas também de Goldstein. Como ji se notou, éste formulou da maneira mais ticida 0 que se poderiam denominar “as regras do método estruturalista”, co- Jocando-se num. ponto de vista bastante geral para torné-las vvalidas além do dominio timitado para o qual as tinha ini- ialmente concebido, Goldstein observa que 2 necessidade de proceder a um estudo detalhado de cada caso conduz, como conseqiiéncia, & restrigéo do mimero de casos que se poderiam considerar da mesma maneira, Nao se corre o isco, entio, de ficar préso a casos demasiado especiais para que se possam for- miular, sdbre base tio restrita, conclusées vilidas para todos 0s outros? Bile responde (1951, p. 25): “Esta objecio desco- nnhece completamente a situago real: em primeiro lugar, 2 acumulagio de fatos —mesmo muito numerosos— de nada setve se foram estabelecidos de maneira imperfeita, ela conduz munca ao conhecimento das coisas tais como se passam realmente... & preciso escolher casos tais que petmitam for- ular jaizos devisives. E entio o que ee tiver estabelecido num ‘caso valerd também para os outros.” Poucos etnélogos aceitariam endossar esta conclusio. No entanto, a pesquisa estruturalista seria va se no se estivesse plenamente consciente do dilema de Goldstein: seja estudar ca- sos numerosos, de um modo sempre superficial e sem grande resultado, seja’limitar-se resolutamente 4 andlise-aprofundada, de um pequeno nimero de casos, ¢ provar assim que, afinal $26 de contas, uma experiéncia bem feita vale por uma demons- tragio. Como explicar éste apégo de tantos etnélogos ao mé- todo comparativo? Nao é, ainda aqui, que ales confundem as técnicas préprias para construir e para estudar os modelos mecdinicos ¢ estatisticos? A posigio de Durkheim e Goldstein & inexpugnavel no que concerne 20s primeiras: em compensa- fo, € evidente que no se pode fabricar un modélo estatis- tico sem estatisticas, em outras palavras, sem acumular fatos, muito numerosos. Mas, mesmo neste caso, 0 método nao pode ser chamado comparativo: os fatos reunidos nao terao valor se no provierem todos de tm mesmo tipo, Retorna-se sempre & mesma opgio, que consiste em estudar a fundo 1m caso, € & ‘inica diferenga se prende ao modo de recorte do “caso”, cujos elementos constitutivos estario (segundo 0 pairio adotado) ma scala do modélo projetado, ou numa escala diferente, Tentamos até éste momento elucidar.algumas questoes de principio, que concernem a propria natureza da nogdo de 5° trutura social. Torna-se assim mais facil proceder a um in- ventério dos principais tipos de pesquisa, e dscutir alguns re- sultados. Il — MORFOLOGIA SOCIAL OU ESTRUTURAS DE GRUPO Nesta segunda segio, o térmo “grupo” nio designa o grupo fal, mas, de modo mais geral, a maneira pela qual os fe- némenos se agrupam entre si. Por outro lado, resulta da pr meira segio déste trabalho que as pesquisas estruturais tém por objeto 0 estudo das relagées sociais com a ajuda de modelos. Ora, € impossivel conceber as relagées sociais fora de um meio comum que Ihes sirva de sistema de referéncia, O espaso € 0 tempo sio os dois sistemas de referéncia que permitem pen- sar as relagées sociais, conjunta ou isoladamente. Estas menses de espaco © tempo ndo s¢ confundem com as que uti- lizam as outras ciéncias. Consistem num espagp “social” © num tempo “social”, 0 que significa que no tém outras proprie- se7 dades sénio aquelas dos fendmenos sociais que as_povoam. Segundo sua estrutura particular, as sociedades humaias con- ceberam estas dimensdes de modos muito diferentes. O etnélogo rio deve, pois, inquietar-se com a obrigagio, em que se pode encontrar, de utilizar tipos que nio he séo habituais, ou de inventi-los para as necessidades do momento, ‘Observou-se j& que o continuum temporal aparece rever- ears wee AG hae Gea eae estratégico, em que devemos nos colocar do ponto de vista da pesquisa em curso. Outras eventualidades podem também se apresentar: tempo independente do tempo do observador, ¢ ilimitado; tempo funséo do tempo préprio (biolégico) do ob- servador, € limitado; tempo analisavel ow nao em partes, que so clas mesmas homélogas entre si ou especificas, etc. Evans- Pritchard mostrou que se pode reduzir 2 propriedades for- mais déste tipo a heterogeneidade qualitativa, superficialmente pereebida pelo observador, entre seu tempo préprio e tempos que dependem de outras categorias: histéria, lenda ow mito (1939, 1940). Esta analise, inspirada pelo estudo de uma_sociedade africana, pode ser estendida & nossa propria sociedade (Bernot e Blancard, 1953). No que concerne ao espago, Durkheim ¢ Mauss foram os primeiros a descrever as propriedades varidveis que se the de- vyem atribuir, para poder interpretar a estrutura de um grande niimero de sociedades ditas primitivas (1901-1902), Mas é em Cushing —que se finge hoje desdenhar— que éles se inspira- ram de infcio. A obra de Frank Hamilton Cushing manifesta, com efcito, uma penetragio ¢ uma imaginagao sociolégica que deveriam valer a seu autor um lugar a direita de Morgan, centre os grandes precursores das pesquisas estruturais. As la- unas, as. inexatidées assinaladas em suas descrigdes, a pré- ria censura que the puderam fazer de ter “‘sobre-interpreta- do” suas observagées, tudo isto & reduzido a proporgées mais justas quando se compreende que Cushing procuraya no tanto descrever concretamente a sociedade Zuni, quanto elaborar um modélo (a célebre divisio em sete partes) que permitisse ex- plicar sua esttrutura e o mecanismo de seu funcionamento, © tempo e 0 espago social devem também ser distingui- dos segundo a escala. O etnélogo utiliza um “macro-tempo” 928 € um “mfcro-tempo”, um “macro-espago” um “micro-cspac 0”. De modo perfeitamente legitimo, os estudos estruturais to- mam emprestado suas categorics tanto a pré-histéria, & ar- queologia ¢ & teoria difusionista como & topologia psicoldgica fundada por Lewin, ou i sociometria de Moreno. Pois estrutt- ras do mesmo tipo podem ser recorrentes em niveis muito di- ferentes do tempo € do espago, ¢ nada exclui que um modélo estatistico (por exemplo, um déstes elaborados em sociome- tria) se revele mais itil para construir um modélo andlogo, aplicdvel & histéria geral das civilizagics, que um outro dire- tamente inspirado em fatos tirados somente déste dominio, Longe de nés, por conseguinte, a idéia de que as consi- deragies histéricas © geogrificas nio tenham valor para os €- tudos estruturais, como créem ainda os que se dizem “fun- cionalistas”. Um funcionalista pode ser inteiramente 0 contré- rio de um estruturalista ; 0 exemplo de Malinowski esta ai para ‘nos convencer disto, Inversamente, a obra de G, Dumézil (9) € 0 exemplo pessoal de A. L. Kroeber (de espirito tio estru- turalista, ainda que se tenha consagrado por muito tempo a estudos de distribuigao espacial) provam que 0 método hil rico no € de modo algum incompativel com uma atitude es- trutural, Os fendmenos sincrdnicos oferecem, no entanto, uma ho- mogeneidade relativa que os tortia mais faceis de estudar que os fendmenos diacrénicos, Nao é, pois, surpreendente que as pesquisas mais acessivels, relativamente & morfologia, sejam aquelas que dizem respeito as propriedades qualitativas, nao mensurdveis, do espago social, isto €, a maneira pela qual os fendmenos ‘ociais se distribuem no mapa tas constantes que ressaltam desta distribuico. Sob éste aspecto, a escola dita “de Chicago” © seus Uabalbos de ecologia urkana tinham sus- citado grandes esperancas, muito ripidamente fraudadas. Os problemas de ecologia so discutidos num outro capitulo déste simpésio; (10) contentar-me-ei, pois, em precisar, de passagem, as relagées que existem entre as nodes de ecologia e de estru- (8), Resumido por éste autor em Dumtzn, (1949). (10) Trata-se do capitulo Human Ecolory, por Marston Bares in: Anthropology To-Day, loc. oit., pp. 100-718. 929 tura social. Em ambos os casos, ocupamo-nos da distribuigéo dos fendmenos sociais no espago, mas as pesquisas estrutura- listas tém por objeto exclusivamente os quadros espaciais cujos caracteres so sociologicos, quer dizer, nao dependem de faté- res naturais tais como os da geologia, da climatologia, da fisio- grafia, etc. As pesquisas ditas de ecologia urbana oferecem, pois, lum interésse excepcional para o etndlogo: 0 espago urhano & suficientemente restrito, e bastante homogéneo (sob todos os aspectos, que nfo o social) para que suas propriedades quali- tativas possam ser atribuidas diretamente a fat6res internos, de origem ao mesmo tempo formal ¢ social Em lugar de abordar comunidades complexas em que é dificil determinar a parte que cabe, respectivamente, a3 in- fluéncias de fora e de dentro, talvez tivesse sido mais sensato limitar-se —como tinha feito Marcel Mauss (1924-1925) — a ‘estas comunidades pequenas e relativamente isoladas que sio as mais freqiientes na experiéncia do etndlogo. Conhecem-se_al- gums estudos déste género, mas raramente ultrapassam 0 nivel descritivo, ou, quando o fazem, é com uma timidez singular. Ninguém pesquisou sériamente as correlagdes que podem existir centre a configuracio espacial dos grupos e as propriedades for- mais que dependem dos outros aspectos de sua vida social. No entanto, numero;os documentos atestamn a realidade ¢ a importincia de tais correlagées, principalmente no que cor ceme, de um lado, & estrutura social, e de outro, & contiguragio espacial das construgées humanas: aldcias ou acampamentos. Limitando-me aqui & América, recordarei que a forma dos acampamentos dos indios das planicies varia com a organizagio social de cada tribo. Ocorre 0 mesmo com 2 distribuiglo cir~ ccular das chogas nas aldeais Jé do Brasil central e oriental. Em ambos os casos, trata-se de regides bastante homogéneas do ponto de vista lingtistico e cultural, e das quais se dispoe de uma boa série de variagGes concomitantes, Outros problemas se péem, quando se comparam regides e tipos de construgées rentes, que vo a par com estruturas sociais diferentes; as- sim, a configuragao circular das aldeias Jé, de um lado, e a em ruas paralelas das cidades pueblo, No iiltimo caso, pode-se mes- mo proceder a um estudo diacronico, gragas aos documentos ar- queolégicos, que atestam interessantes variagées, Existe uma 330 relagio entre a passagem, de umn lado, das esiruturas semici culares antigas as estruturas paralelas atuais, e, de outro, a transferéncia das aldeias do fundo dos vales 20s planaltos? E como se produziu a mudanca na repartigio das habitagoe tre 08 diferentes clis, que os mitos descrevem como muito sis- temitica, a0 passo que ela parece hoje ser obra do acaso? ‘Nao pretendo que a configuracio espacial das aldeias re- flete sempre a organizacio social como um espelho, nem que a reflete inteiramente, Seria uma afirmagio gratuita para um grande mimero de sociedades, Mas no ha alguma coisa de co- ‘mum a tédas aquelas —aliés tao diferentes— em que se cons- tata uma relagéo (mesmo obscura) entre a configuracéo espa- cial e a estrutura social? E, mais ainda, entre aquelas em que fa configuracéo espacial “representa” a estrutara_ social, como fo faria um diagrama tracado no quadro negro? Na realidade, as coisas raramente so tio simples como parecem. Tentei mos- ‘rar alhures (11) que o plano da aldeia Borory no exprime a verdadeira estrutura social, mas um modélo presente a cons- iéncia indigena, ainda que éle seja de natureza ilusoria ¢ con- tradiga os fatos. Possui-se, assim, o meio de estudar os fendmenos sociais ‘¢ mentais a partir de suas _manifestagoes objetivas, sob uma forma exteriorizada e —poder-se-ia dizer— cristalizada. Ora, (© ocasio nao € oferecida sémente por configuracées espaciais ‘estiveis, como 0s planos de aldeia, Configuragées instaveis, mas recorrentes, podem ser analisadas ¢ criticadas da mesma ma- neira, Assim, as que se observam na danca e no ritual (12), etc. ‘Aproximamo-nos da expresso matemética abordando as propriedades numéricas dos grupos, que formar © dominio tra- dicional da demografia. Desde alguns anos, 30 entanto, pes- quisadores vindos de horizontes diferentes —demdgrafos, s0- cidlogos, etndlogos— tendem a associar-se, para lancar as ba- (11) Aa Batruturas sociaia no Brasit central e oriental; Briatem as organizagées dualistae? Reapectivamente, caps. VII ¢ VIII desta obra. deers ries He eet (2) Ver, por exemplo, os “figuras” de um ritual nas di- ‘versas etapas de seu desenvolvimento, como foram eartografades Gm: A. C. Fimrcien, The Hako: a Pawneo Ceremony, 22nd. Srnuat Report, Bure. of American Ethnology, Ul, 1904, 934 ses de uma demografia nova, que se podria chamar quali- tativa: menos preocupada com variagées continuas no seio de grupos humanos, arbitrariamente isolados por razées empiri- cas, do que com descontinuidades significativas entre grupos con- siderados como todos, ¢ delimitados em razio destas descon- ‘inuidades, Esta “sociodemografia”, como diz De Lestrange (18), std ji no mesmo nivel da antropologia social, Poderia ser que um dia ela se tornasse o ponto de partida obrigatério de todas hhossas pesquisas. Os etndlogos devem, pois, interessar-se, mais do que tém feito até 0 presente, pelas pesquisas demogriticas de inspira- gio estruturalista: as de Livi sobre as propriedades formais do isolado (14) minimo eapaz de se perpetuar (15); ou aque- las, vizinhas, de Dahlberg. O efetivo das populagées com as 4quais trabalhamos pode ser muito préximo do minimo de Livi, © as vézes mesmo inferior. Demais, existe uma relagio certa entfe © modo de funcionamento e a durabilidade de uma es- trutura social € o efetivo da populacio. Nao haveria proprie- dades formais dos grupos que seriam funcao direta e imediata, da cifra absoluta da populagio, independentemente de tida ou- tra consideragio? Em caso afitmativo, seria preciso comegar por determinar estas propriedades e Ihes dar um lugar, antes de procurar outias interpretagées, Encarar-se-o em seguida as propriedades numéricas que rio pertencem ao grupo considerado como um todo, mas aos sub-conjuntos do grupo ¢ a stias relagées, na medida em que ‘uns © outros manifestam descontinuidades significativas. Sob éste aspecto, duas linhas de pesquisas oférecem um grande i terésse para o etnélogo. I— As que se ligam & famosa lei de sociologia urbana dita ronk-sige, que permitem, para tm conjunto determinado, es tabelecer uma correlagio entre o tamanbo absoluto das cidades (caleulado segundo a cifra da populigio) © a posisfo de cada (13) 1961. (14) _Tsoindo: Aglomerado humano, de caréter geogréfico, s0- lal ow religioso, no interior do qual se operam tédas as unides consensuais (N, do T.). (16) 194001941 © 1949, 382 tutta num conjunto ordetiado, ¢ mésmo, parece, deduzir um dos elementos 2 partir do outro (18). IL — Os trabalhos de certos demégrafos franceses, fun- dados na demonstragio de Dahlberg, de que as dimensées, absolutas de um isolado podem ser calculadss segundo a fre- aiiéncia dos casamentos consatgilineos (Dahlberg, 1948). Sutter € Tabah (1951) conseguiram, ainda, calcular 0 tamanho médio dos isolados para todos os nossos departameatos, tornando a0 ‘mesmo tempo acessivel ao etndlogo o sistema matrimonial com- plexo de uma sociedade moderna, O “‘tamanho médio” do iso lado francés variaria de menos de 1,000 a um pouco mais de 2800 pessoas, Percebe-se assim que a réde cle individuos de- finida pelas relagdes de inter-casamento € —mesmo numa so- ciedade moderna— de tamanho muito inferior ao que se teria podido supor: apenas dez vézes maior que a das menores s0- Ciedades ditas primitivas, ou seja, da mesma ordem de grandeza. & preciso concluir dai que as rédes de inter-casamento so mais, ‘ou menos constantes, em tamanho absoluto, em tédas as so ciedades-framanas? Em caso afirmativo, a natureza complexa de uma sociedade resultaria menos de uma dilatagio do isolado primitivo que da integragio de isolados relativamente estiveis em conjuntos eada vez mais vastos, mas caracterizados por ou- tros tipos de lagos sociais (econémicos, politicos, intelectuais). (18) Um especialista om teatro contou-me recentemente que Louis Jouvet costumava se admirar que cada sula recebesse, cada noite, aproximadamente todo 0 plblico que podis conter: que ums sela ‘de 600 espectadores tivesse céroa de 600 clientes, e uma de 2.000, éato nimero, nem que munca so recusaste muita gente na ‘menor e sem que e maior ficasse, as vézes, tris quartos vasia. Esta harmonia pré-estabelecida seria, com efsito, inexplicével se, fom cada aula, tsdos oa lugares {80cem oquivalentes, Mas como, ot ‘menos bons tornam-so rapidamente detestivels, produz-ae um efei. to rogulador, preferindo 0s upreciadores retornarem outro dis, ow dirigiremse pare outra eala, so s6 restam meus lugares. Seria Interessante pesqulsar se 0 féndmeno nio 6 do mesmo tipo que o da rank-size law. De modo geral, 0 eatudo do fenémeno tastral, fenearado de um ponto de vista quantitative — relugiio do ni mero das salas ¢ de suas dimensées respectivas com o tamanho das cidades e de suas curvas de receita, elz. — ofercceria um ‘meio eGmodo, @ ath 0 presente negligenciado, de elucidar, quase como em laboratério, diserénica ¢ sinerdnicamente, certos proble- ‘mas fundamentais da morfologia. social. 938 Sutter e Tabah mostraram tambéin que os tenores iso- lados no se encontram exclusivamente nas regides afastadas, tais como as zonas montanhosas, mas também (e mesmo mais) nos grandes centros utbanos ow em sua vizinhanga: os depar~ tamentos do Rédano (com Lito), da Gironda (com Bordéus) ¢ do Sena (com Paris) figuram no final da lista com isolados de 740, 910 € 930 pessoas, respectivamente, No departamento do Sena, que se coniunde priticamente com a aglomeragéo pe- risiense, a proporgio dos casamentos consangiiineos é mais ele- vada que em qualquer um dos 15 departamentos rurais que o cercam, ‘Tudo isto é essencial, porque 0 etndlogo pode esperar, gra- sas a éstes trabalhos, reencontrar numa sociedade moderna e complexa unidades menores, de mesma natureza que as estu- dadas por éle, mais freqiientemente. Todavia, 0 método demo- grafico deve ser completado com um ponto de vista etnolégico. © tamanho absoluto des isolados ndo esgota o problema; dé ver-se-i também determinar 0 comprimento dos ciclos. mat moniais. Guardadas as devidas proporgdes, um pequeno isolado pode consistir numa réde de ciclos extensos (da mesma ordem dde grandeza que 0 préprio isolado) ; ¢ um grande isolado pode estar feito (um pouco & maneira de uma cota de malhas) de ciclos curtos. (17) Mas entio torna-se necessitio levantar ge- nealogias, isto é, 0 demégrafo, mesmo estruturalista, niio pode- tia dispensar o etndlogo, Esta colaboragéo pode ajudar a clarificar um outro pro- Dlema, éste tedrico. Trata-se do alcance e da validade da nogéo de cultura, que dew margem a vivas discussdes entre etndlogos ingléses © americanos no curso déstes iiltimos anos. Aplican- do-se sobretudo ao estudo da cultura, ndo teriam os etnélo- g0s de além-Atlantico —como esereveu Radcliffe Brown— se- io “reificado uma abstragio?” Para o mestre inglés, “a idéia de cultura européia € uma abstragio, com a mesma Fazio que (17) Estas duas situsedes correspondem respectivamente Gagamenton de tipo matrilateral (clcionlongos) ou, patrilateral (iclos curtos). Gf. sdbre tate assunto lee Structures’ élémentai- r00 de Ia parenté, cap. XXVIL. Vé-s0 bem, por tate exemplo, que consideracses puramente quantitativas mio bastam. i preciso serescentarhes 0 estudo das eatruturss, que aio qualtativamente a de cultura prépria a tal ou qual tribo africana”, N&o existe nada sendo séres humanos, ligados uns aos outros por uma série ilimitada de relagdes sociais (Radcliffe Brown, 1940 5), “Falsa querela”, responde Lowie (1942, pp. £20-521). Nao téo false, entretanto, pésto que o debate retiasce periddicamente. Déste ponto de vista, ter-se-ia todo o inlerésse em colocar @ nogdo de cultura no mesmo plano que a nogio genética € demografica de isolado. Dentominamos cultura todo conjunto etnografico que, do ponto de vista da investigasso, apresenta, ‘com relagio a outros, afastamentos significativos. Se se procura mie > imi > filho(a) > neto(a); 3.° um tempo ondulatétio, ciclico, “reversivel, na tinhagem de Ego (masculino), definida por uma alternancia continua entre dois térmos: “itm” e “filho(a) e irma”, respectivamente. Estas trés dimensées sio retilineas. Conjuntamente opéem- se @ estrutura cricular da linhagem de Ego (feminino) entre os Zuni, em que trés térmos —mie da mie (ou filha da filha), mie e filha— encontram-se dispostos num anel fechado. A éste “Zechamento” do sistema corresponde, em Zuni, para as outras Tinhagens, uma grande pobreza de terminologia, tanto no que concerne ao circulo de familia com ad distingGes operadas em seu interior. Como 0 estudo dos aspectos do tempo depende também da Tingiistica, a questéo da relagio entre suas formas Tinglistica e genealégica fica imediatamente colocada. (22) A antropologia estaria mais adiantada se seus defensores ti- vvessem conseguido por-se de acérdo sdbre 0’ sentido da nogo de estrutura, o uso que dela se pode fazer ¢ o método em que cla implica, No & o caso, infelizmente, mas pode-se achar um consélo ¢ um encorajamento para o futuro em constatar que € ao menos possivel compreender as divergéncias e precisar seu (21) Isto 6, que procura determinar a lei dss variagdes con- ‘comitantes om lugar de so dedicar, & mancira aristotélica, a sim- ples correlagies indutivas. (22) Ct. nesta compilasfio o6 eapitulos III e IV, em que dete problems 6 mais amplamente tratado. ue alcance. Tentemos, pois, esbogar ripidamente as concepgbes mais: difundidas, comparando-as & que foi proposta no comégo déste capitulo. térmo “estrutura social” evoca imediatamente o nome de A. R. Raddliffe Brown. (28) Sua obra néo se limita, certa- ‘mente, ao estudo dos sistemas de parentesco; mas éle escolheu éste terreno para formular stias concepgées metodolégicas em ‘térmos que todo etnélogo pudesse subscrever. Quando estuda- mos 0s sistemas de parentesco, nota Radeliffe-Brown, fixamo- nos os seguintes objetives: 1.° levantar uma classificagio.sis- temitica; 2° compreender 03 tragos préprics de cada siste- mea, a) seja ligando cada trago a um conjunto organizado, ') seja reconhecendo néle um exemplo particular de uma clas- se de fenémenos jé identificada; 3° enfim, conseguir genera- lizagies validas sobre a natureza das sociedades humanas. E ‘eis sua conclusio: “A andlise procura redusir a diversidade {de 2 ou 300 sistemas de parentesco] a uma ordem, qualquer que seja. Atrés da diversidade, podem-se, com efcito, dis- cernir principios gerais, em niimero limitado, que sio aplica- dos ¢ combinados de maneiras diversas” (1941, p. 17). Nao ha nada a acrescentar a éste licido programa, a no ser sublinhar que. Radclifie-Brown aplicou-o exatamente em seu estudo dos sistemas australianos: reunindo wma massa pro- digiosa de informagées, introduzindo uma ordem onde no ha- via sendo o ca0s, definindo nogdes essenciais, tais como as de ciclo, par e casal. Sua descoberta do sistema Kariera, na re- giio exata ¢ com tédas as caracteristicas postuladas por éle antes mesmo de ir 4 Australia, ficaré, na historia do pensa- ‘mento estruturalista, como um memoravel éxito dedutivo (1930- 1931). A Introducéo de Radcliffe-Brown ao African Systems of Kinship and Marriage tem outros métitos: éste verdadeiro “tratado do parenteseo” em ponto menor empreende integrar os sistemas ocidentais (considerados em suas formas mais anti- gas )numa teoria geral, Outras idéias de Radeliffe-Brown (no- ‘tadamente as relativas 4 homologia da terminologia ¢ das ati- tudes) serdo evocadas mais adiante. ; ‘Apés ter recordado os titulos de gloria de Radcliffe- Brown, devo sublinhar que éle tem das estruturas sociais uma (28) Palecido em 1966. concepséo diferente da enunciada no presente trabalho. A nosio de estrutura aparece-lhe como um conceito intermediario entre os da antropologia social ¢ da biologia: “Existe uma analogia verdadeira significativa entre estrutura orginica e estrutura social” (1940 b, p. 6). Longe de elevar 0 nivel dos estudos de arentesco até 4 teoria da comunicaggo, como me propus fazer, Raddliffe-Brown o reduz ao da morfologia e da fisiologia des- critivas (1940 6, p, 10). Permanece, assim, fiel & inspiragio naturalista da escola inglésa. No momento em que Krocber Lowie ja sublinhavam o caréter artificial das regras de paren- tesco ¢ de casamento, Radeliffe-Brown persistia na convicgéo (que éle partilhou com Malinowski) de que os laos biolSgicos sho, 20 mesmo tempo, a origem e 0 modélo de todos os tipos de lacos familiais. Desta atitude de principio decorrem duas conseqiiéncias. A posiséo empirista de Radcliffe-Brown explica sua repugnin- cia em distinguir claramente estrutura social e relagées sociais. De fato, tda sua obra reduz a estrutura social 20 conjunto de relagées sociais existentes numa sociedade dada, Sem divida, ale esbogou is vézes uma distingio entre estrutura ¢ forma es- trutural, Mas 0 papel que concede a esta éltima nogio é pura- mente discrénico, No pensamento teérico de Radcliffe-Brown, imento € dos mais deficientes (1940 b, p. 4). A pré- ingio foi objeto de uma critica de Fortes, que muito contribuiu pata introduzir em nossas pesquisas uma outra opo- siglo, estranha a0 pensamento de Radcliffe-Brown, e & qual se vviu que eu mesmo atribufa grande importincia: a oposigao cue tre modélo ¢ realidade: “A estrutura nio pode ser diretamente apreendida tia “‘realidade conereta”... Quando nos aplicamos em definir uma estrutura, situamo-nos, poder-se-ia dizer, no ni- vel da gramdtica ¢ da sintaxe, e néo no dai lingua falada"” (Fortes, 1949, p. 56). Em segundo lugar, a assimilacio, proposta por Raddiffe- Brown, da estrutura social as relacées sociais, incita-nos a dis- sociar a primeira em elementos calcados na forma mais. sim- ples de relacio que se pode conceber. a relacio entre duias pes- soas: “A estrutura de parentesco de uma sociedade qualquer consiste num nimero indeterminado de relagées diidicas... [Numa tribo australiane, téda a estrutura social se reduz a uma 344 réde de relages déste tipo, cada uma das quaid une uma pes- soa a outra.,.” (1940, 8, p. 3). Estas relagies difdicas cons- tituem verdadeiramente a matéria prima da estrutura social? Nao sio elas antes 0 residuo —-obtido por anilise ideal— de itura preexistente, cuyja natureza & mais complexa? Sobre éste problema metodolégico, a lingiifstica. estrutural poderia nos ensinar muito, Bateson ¢ Mead trabalharam na i= elo indicada por Radcliffe-Brown. Jé em Naven (1936), no entanto, Bateson superava o nivel das relagées didédicas puras, posto que se aplicava em classificd-1as em categorias, admitindo assim que hi outra coisa na estrutura social, e mais que as pré- prias relagées: 0 que, pois, sendo a estrutura, posta anterior- mente as relagdes? Enfim, as relagdes. diddicas, tais como as concebe Rad- diffe-Brown, formam uma cadeia que pode ser estendida inde- finidamente pela adjungdo de novas relagées. De onde a repug- néncia de nosso autor em tratar a estrutura social como um sistema, Neste ponto importante, separa-se, pois, de Malino- wwski. Sua filosofia se funda na nogio do’ continuo; a idéia de descontinuidade sempre Ihe permaneceu estranha. Com- preende-se melhor, assim, sua hostilidade para com a nocgo de cultura, ja notada, ¢ sua indiferenga aos ensinamentos da lin- giistica. Observador, analista € classificador incompardvel, Rad- liffe-Brown decepciona muitas vézes quando quer ser tebrico. Contenta-se com férmulas pouco rigorosas, mal encobrindo pe- tigdes de principio. Explicaram-se verdadeiramente as proibi- ‘$8es do casamento, mostrando que elas ajudam os sistemas de arentesco correspondentes a se perpetuarem sem alteracio (Radeliff-Brown, 1949 5)? Os tracos peculiares dos sistemas i podem ser inteiramente interpretados em fungo da nogdo de Hinhagem (id., 1941) ? Terei ocasiio de ex- primir outras dtividas, Mas estas interrogagies j& explicam por que a obra de Radciffe-Brown, a despeito de sua importancia intrinseca, pide ser tio asperamente ctiticada. Para Murdock, as interpretagies de Radcliffe-Brown se reduziriam a “abstracdes verbais, erigidas em causas primei- ras” (1949, p. 121). Lawie exprime-se-mais ou menos da mes- ‘ma maneira (1937, pp. 224-225). A controvérsia recente entre 345 Raddliffe-Brown (1951), de um lado, Lawrence e Murdock, de outro (1949), ndo oferece mais que um interésse historico, mas cesclarece ainda as posigées metodologicas déstes autores. Por volta de 1949, dispunharse de uma boa descrigéo, por Lloyd ‘Warner (1930-1931, 1937 a) do sistema de parentesco austra- liano ainda chamado Mumngin (24) ; algumas incertezas subsis fiam, entretanto, sobretudo no que concerne ao ‘‘fechamento” do sistema, postulado pela hipétese (0 sistema sendo descrito cotno intransitive), mas praticamente impossivel de verificar. B surpreendente constatar que, para Radcliffe-Brown, o problema nao existe, Se téda organizagio social se reduz a um conglomerado de relagdes de pessoa a pessoa, o sistema é inde- finidamente extensivel: para todo individuo’ masculino ha, ao ‘menos tebricamente, uma mulher que estar com éle na relagio de filha do irmlo da mie (tipo de cdnjuge prescrito na socie- dade em questio). E, no entanto, o problema surge noutro plano: pois os individuos escolheram exprimir as relag6es in- ter-pessoais por meio de um sistema de classes, ¢ a descrigio de ‘Warner (como éle préprio reconheceu) no permite compreen- der come, ao menos em certos casos, um individuo dado pode satisfazer, ao mesmo tempo, as exigéncias do sistema das clas- ses e as do sistema das relagées. Em outras palavras, se éle apresenta o grau de parentesco requerido, nio cairé na classe correspondente, ¢ inversamente. Para transpor esta dificuldade, Lawrence e Murdock in- ventaram um sistema que coincidia ‘ao mesmo tempo com a re- gra preferencial de casamento e —gracas a certas transforma ‘s6es— com 0 sistema de classes descrito por Warner. Mas tra- tase de um j6go gratuito, do qual depressa se constata que levanta mais dificuldades novas do que resolve as antigas. Ja © sistema reconstituido por Warner chocava-se mum grande obsticulo: implicava em que os indigenas percebessem clara- mente relagies de parentesco tio afasiadas que a propria hi- pétese delas tornava-s psicoldgicamente inverossimil. A solugio de Lawrence e Murdock exigiria bem mais, Nestas condigdes, (2A) Para a Gitima situagio do problema, posterior A pri meira publieagdo déste artigo, ef. HM. BEmNor, “Murngin” (Wolamba) “Social Organization, American Anthropologist, vol. BT, nO, pe 1, 1956, 346 pode-se perguntar se o sistema escontlido ou desconhecido, pré= prio para explicar 0 modélo consciente, mas desajeitado, que 0s Mumgin tomaram emprestado recentemente a vizinhos do- tados de regras muito diferentes das suas, néo deve set mais simples que éste iltimo, ¢ no mais complicado, (25) A atitude sistematica e formalista de Murdock se opée & atitude empirista ¢ naturalista de RadeliffeBrown, No en- tanto, Murdock permanece, quuase tanto quanto seu adversério, imbuido de um espirito psicolégico e mesino biclogico, que 0 impele ma diregio de disciplinas periféricas, com a psicanilise a psicologia do comportamento, Conegue tle assim liberar- se do empirismo, que pesa tio fortemente ras interpretagbes de Raddifie-Brown? Pode-se duvidar disto, posto que éste re- curso exterior o obrign a deixar inacabadan sus prbpias i teses, ou perfazé-las por meio de empréstimos que Ihes do um Perdido, e As vezes mesmo contradizem o objetivo inical formulado em térmos etnolégicos. Ao invés de considerar os sistemas de parentesco como mcios sociais destinados a de- sempenhar uina fungio social, Murdock acata finalmente por tratd-los como conseqiiéncias sociais de premissas expressas em térmos de biologia ¢ de psicologia, it qiise ection ae halee ome endae'y Rasess Commune o Menoock subatBatraticne por Um ae ee ree te aioe sie de Jnhages 932 chan a mean ee see enemies aerate te See eer Beta Cesare nat ences earn eae eo a a a ee matecen ag Seater Slee eat eee asc ne cen erg ened Of Matrilateral Cross-Cousin Marriage, Journal of the Royal amet omer Maen ora ssn Bee rene ae ee ae ites 2 Beieed MUD ta lfaOarn Bf oe ee anc aaa Scr e ee cen igs es aE gaat tise Sa ar Se a ae Lae cto ae ee ore ; eet aera eae ig nieces see, Sarees Poe estle eenaetieah santero Set 367 A contribuigio de Murdock aos estudos estruturais pode ser encarada sob dois aspectos, Em primeiro lugar, éle quis re- juvenescer 0 método estatistico. Tylor jé o tinha empregado para verificar corretacGes supostas e descobrir novas, O empré- 40 de técnicas modernas permitiu a Murdock realizar progres- 305 seguros nesta directo, Sublinharam-se mutitas vézes os obstéculos em que se cho- cao método estatistico em etnologia (Lowie, 1948 a, cap. 111). Como Murdock esté tio prevenido disto como qualquer um, ccontentar-me-ei em recordar © perigo do circule vicioso: a va- fidade de uma correlagio, mesmo fundada numa freqiiéncia estatistica impressionante, depende, afinal de contas, da valida- de da divisio a que se recorreu para definir os fenémenos postos fem correlago, Em compensagao, o método permanece sempre cficaz para denunciar as correlagées feitas sem razfo. Déste ponto de vista negativo e critico, certas conclusées de Murdock podem ser consideradas como definitivas. ‘Murdock empenhou-se igualmente em reconstituir a evolu- so histérica dos sistemas de parentesco ou, pelo menos, em definit certas linhas de evolugéo possiveis ou provaveis, i ex clusio de algumas outras. Conclui assim com um surpreendente resultado: mais freqiientemente do que se pensa (desde que Lowie (1920, cap. II) se opis a hipétese similar de Lewis Morgan), o sistema de parentesco de tipo “‘havaiano” repre- sentaria ttma forma primitiva, Cuidemos, no entanto, que Mur- dock néo raciocina sabre sociedades reais, observadas em seu contexto hist6rico © geogrifico, e consideradas como conjuntos organizados, mas sobre abstragdes e mesmo —se é licito dizer— abstragdes em segundo grau: comega por isolar a organizagio social dos outros aspectos da cultura ¢, 4s vézes, o sistema de parentesca da organizacio social, apis 0 que divide arbitriris- mente a organizago social (oa o sistema de parentesco) em pedacos e fatias, segundo principios inspirados pelas categorias tradicionais da teoria etnolégica, maid do que por uma andlise real de cada grupo, Nestas condicdes, sua reconstrugéo histé- Tica permanece ideolégica: consiste em abstrair os elementos comuns a cada estagio para definir o estigio imediatamente an- terior, e assim por diante. # claro que tal método no pode ter- minar senfio num resultado: as formas menos diferenciadas apa- 38 recerfo com as mais antigas, ¢ 4s formas complexas serio de- signadas posigées cada vez mais recentes, na proporsio de sua complexidade, um pouco como se fizéssemos remontar o cavalo moderno a ordem dos.vertebrados, antés do que & espécie Hip- ‘AS reservas que precedem néo procuram diminiir os mé- ritos de Murdock; éle reuniu documentos abundantes ¢ muitas vvézes negligenciados ; éle colocou problemas. Mas, precisamente, sua téenica parece mais propria para descobrir 2 identificar pro- blemas que para resolvé-los, Seu método pernianece ainda im- buido de um espirito aristotélico; talvez téda ciéncia deva pas- sar por isto. Ao menos procede como bom discipulo de Aristé- teles ao afirmar que “as formas culturais manifestam, no plano da organizagio social, um grau de regularidade ¢ de conformi- dade as exigéncias do pensamento cientifico que néo difere de modo signifieativa daquele a que nos acostumaram as ditas naturais” (1949, p. 259). © Ieitor, reportando-se as distingdes propostas no comégo déste artigo, dignar-se-i a observar que Radcliffe-Brown tende a confundir observagdo e experimentardo, enquanto Murdock nao distingue suficientemente entre modélos estatisticas © mo- delos mecdnicos: procura construir modelos mecnicos com: o auxilio de um método estatistico, tarefa impossivel, a0 menos da maneira direta que € a sua, ‘Simétricamente, poder-se-ia caracterizar a obra de Lo~ wie (28) como um esférgo obstinado para responder a uma Jinica questio: quais so os fatos? Dissemos que, mesmo para 0 estruturalista, esta questo € a primeira a que é preciso res- ponder, ¢ que cla comanda tédas as outras. As pesquisas de campo e a reflexéo teérica de Lowie comegam numa época em que a ctnologia esti como que entulhada de preconceitos filosé- ficos, aureolada de misticismo sociolégico. Censuraram-no, as vvézes, por ter reagido a esta situagao de modo paramente ne- gativo (Kroeber, 1920): era necessério, Naquele momento, a primeira tarefa ‘consistia em demonstrar o que 08 fatos ndo cram. Lowie, pois, corajosamente, tomou a cargo desintegrar os sistemas arbitrdrios eas pretensas correlagdes. Liberou, as- (26) Falecido em 1967. 349 sim — se & permitido dizer— uma energia intelectual da qual ‘do acabamos ainda de nos valer. Talvez seja menos ffeil des lindar suas contribuigées positivas, em razio da extrema discri- so que tem em formular seu pensamento, ¢ de sua repugnan- cia para com as construgdes tedrieas, Nao define éle a si mes- mo, em algum lugar, como um “cético ativo"? # éle, no entanto, que, desde 1915, justificava da maneira mais moderna os es. tudos de parentesco: “A prépria substincia da vida social pode 4s vézes ser analisada de modo rigoroso em fungio do modo fe classificacio dos parentes e afins” (1915, 1929 ¢). No mesmo artigo, derrubava a perspectiva estreitamente histérica que res- ‘tringia 0 horizonte etnolégico, sem permitir perceber os fat6- res estruturais universalmente em acio; definia ja a exogamia fm térmos genéticos, como um esquema institucional engen- drando os mesmos efeitos em todo lugar em que esta presente, sem que seja necessirio invocar consideragées histérico-geogra ficas para compreender as analogias entre sociedades afastadas. Alguns anos mais tarde, Lowie pulveriza 0 “‘complexo ma- trinear” (1919) utilizando um método que devia conduzi-lo a dois resultados essenciais para o estruturalista, Negando que to- do trago de aparéncia matrilinear devesse ser interpretado como tuma sobrevivéncia ou um vestigio do “complexo”, permitia sua ‘decomposigao em variveis, Em segundo lugar, os elementos as- ‘sim liberados tornavam-se disponiveis para levantar tébuas de permutagées entre os caracteres diferenciais dos sistemas de Parentesco (Lowie, 1929 a). De duas manciras igualmente ori- gimais, @le abria assim a porta aos estudos estruturais: quanto ‘a0 sistema terminolégico, € quanto a relagio entre éste e 0 sistema das atitudes, Esta ltima orientaséo devia ser seguida por outros (Radclffe-Brown, 1924, Lévi-Strauss, 1945) (27). Sonos ainda devedores de Lowie por outras descobertas, Foi o primeiro, sem diivida, a estabelecer o caréter bilinear de varios sistemas pretensamente unilineares (1920, 1929 b): de- monstrou a influéncia exercida pelo modo de residéncia sébre otioo de filiagio (1920) ; dissociou as condutas familiais de Feserva ou de respeito e a proibigéo do incesto (1920, pp. 104- (21) Cf. cap. IT da presente compilagio, 850 105). Sempre preocupado em encarar as organizagées sociais de um duplo ponto de vista — regras institucionais de um lado, mas também expressées médias de reagées psicolégicas indi- viduais (num sentido que contradiz as vézes a3 regras, © que a8 modifica sempre)— & éste mesmo Lowie, tio criticado por sua famosissima definigio de cultura, feita “de pedagos e fatias” que nos deu monografias que se contam entre as mais enetrantes ¢ equilibradas de toda a literatura etnologica (1935, 1948 a, caps, XV, XVI, XVII). Enfim, conhece-se 0 Papel desempenhado por Lowie no desenvolvimento dos estu- dos sul-americanos. Direta ou indiretamente, yor seus conselhos ‘ow encorajamentos, contribuiu para abrir para a ctnologia um dominio dificil e por demais negligenciado, IV — DINAMICA SOCIAL: ESTRUTURAS. DE SUBORDINACAO 2) Ordem dos elementos (individwos ¢ grupos) a Nossa posicdo pessoal sobre os problemas que precedem no precisa ser exposta aqui, Malgrado nossos eslorgos no senti da objetividade, cla transparece suficientemente no curso déste capitulo, Para o autor destas linhas, 08 sistemas de parentesco € as regras de casamento e de filiagio formam um conjunto coordenado cuja fungéo € assegurar a permanéncia do grupo social, entrecruzando, 4 maneira de um tecido, as relagées con- sangiiineas e as fundadas na alianca, Assim, esperamos ter con- tribwido para elucidar o funcionamento da méquina soc traindo perpetuamente as mulheres de suas familias consangii reas pafa Tedistribui-las em outros tantos grupos domésticas, 03 quais transformam-se por sua vez em familias consangiii- nneas, ¢ assim por diante (28). et 3 ‘Na auséneia de influéncias externas, esta miquina funcio- ‘naria indefinidamente, e a estrutura social conservaria um ca- Ct, s8bre dato ponte ©, Lém-Smavss, The Pomily, i: H. 1. Shapiv ol Man, Galiare and Booty, Oxted Uuveaty reat, 1968, cap XIN’ (nfo reproduedc na, premnte comllagao}, 951 titer estitica, Nio & éste 0 caso, entretito. Develn-st, pois, introduzir no modélo tedrico elementos novos, cuja interven- ‘40 possa explicar as transformagées diacronicas da estrutura € a0 mesmo tempo as razées pelas quais. uma estrutura social do se reduz nunca a um sistema de parentesco. Ha trés ma- nciras diferentes de responder'a esta dupla questio, Como é de praxe, perguntar-se-a antes de tudo quais sio ‘3 fatos. Passaram-se anos deste que Lowie deplorou a ca- réncia de trabalhos antropolégicos em matéria de organizacio politica, Sob éste aspecto, registrar-se-4o alguns progressos pe- Jos quais somos devedores do proprio Lowie, em seus traba- thos mais recentes, 20 mets to que concerue @ América do Norte (1927, 1948 o, caps. VI, VIL, XII-XIV, 1948 6) ¢ da grande obra sobre a Africa, ditigida por Fortes e Evans-Prit- chard (1940). Lowie precisou ttilmente algumas categorais fun- damentais: classes sociais, associagées, Estado, © segundo método consistiria em correlacionar os. fend- menos que dependem do nivel j@ isolado, isto é, 03 fendmenos de parentesco, ¢ os do nivel imediatamente superior, na medida em que se pode ligi-los entre si. Dois problemas se poem entdo; 12 as estruturas fundadas no parentesco podem, por si ‘mesmas, manifestar propriedades dinamicas? 2° de que maneira a5 estrutwras de comunicasao ¢ as estruturas de subordinag eagem umas as_outras? O primeiro problema ¢ 0 da edu- ‘agio: num momento determinado, cada geragio se encontra, com efeito, numa relagio de subordinagéo ou de dominagio com aguela que a precede ou com a que a segue, Foi assim que Margaret Mead e outros colocaram o problema, Existe também uma maneira mais teérica de proceder, que iste em pesquisar as correlagGes entre certas posides’ (es- cas) na estrutura de parentesco (reduzida 4 sua terminolo~ gia) © as condutas (dinimicas) correspondentes, tais como se exprimem nos direitos, deveres ¢ obrigagées, de um lado, e, do ‘outro, nos privilégios, proibigées, ete. Para Radelife-Brown, uma correspondéncia térmo a térmo € verificavel entre 0 que se poderia chamar o sistema das ati- tudes ¢ 0 sistema terminolégico. Cada térmo de parentesco cor- responderia a uma conduta prescrita, postiva ou negativa, ¢ cada 352 conduta diferencial seria conotada por uni tirmo, Outros stis- ‘entaram que uma tal correspondéncia era inverificayel na pra tia, ou que nunca ultrapassava o nivel de uma aproximagio bastante grosseira. Eu mesmo propus uma interpretagio diferente, fundada numa relasio dialética entre atitudes © terminologia, As condutas diferenciais entre parentes tendem a_ se organizar no mesmo modélo que a terminologia, mas constituem também uum meio de resolver as dificuldades ¢ de transpor as contradi- es inerentes @ esta mesma terminologia. Assim, as regras de conduta entre parentes, numa sociedade qualquer, traduziriam ‘uma tentativa para resolver as contradigées provenientes do sis- tema terminolégico ¢ das regras de alianga, Na medida cm que as primeiras tendem a se constituir em sistema, aparecem novas contradig6es que provocam uma reorganizagio da terminologia, que repercute sdbre as atitudes © assim por diante, salvo cur ante raros periodos de equilibrio, logo ameajados. (29) Num pequeno livro coasagrado & refutagio das Siruc limentairte dela parentd, Homans 'e Schneider entam redusir a5 regres do casamento preferenial to sistema” das at fades. Insurgenae contra 0. prineipla, eolocado nus. Structures, e que iio hi conesio necisadria entre © custentoreatlatral fu Patrlateral, de um Indo, e 0 modo do filgao —patrilinear (ou mmatilnear ~~ de outro. lm apoio a sta prépra tee, segunds qual cassmento matriatoral sora, funglo da filagio Fats. Tinea, fnvocam covrelugSex.eetatiticas que’ aio. provain grande coisa. Com felt an aocledaden de flac patlincar aio muito tals numerosas qua as do fillagéo matrilinear; aldo disso, 0 Prt rio casamenlo maiflatral 6'mais.freqtonte que © casamento Patrlaere, Sey pol, a Gstibuigag ao Tizesse au acaso poets Sern, J espertr gue o-nimero de soiedades earacterveded pela Asociagie da fllagdo’patrlinear com 0 cheanento matriateral Hes mals clevado que cuttogg a. corrglnia invecala not Tanne eriucos seria. varia de ighifcayig,Relerando ¢ eras desta correlacdo suponta por me de uina amostre main impor, tanta, (G64 socledades), Munooex conc “A istibulgo mons dial deatas correlagdes & tio fraca quo inita a por em ‘duvide Interpretagao tesrienproposia (C.F. Mumboce, World Ethno: ran Si deer ry oo en Lp. ersisto em pensar, segundo’ on’proprioa tirmos que empre: tuoi ineiaiments, gua Nao existe conexio necesirin Gite ee. famento com a prime creshda unilateral oo modo. Go Siegso, tos ma das combinagien oneshiveisimplice em cos? traaigho. Todavie, 6 possivel, mesmo Provivel que ne Dione 353 ‘Um outro problema se pée quando s¢ consideram sicieda: des em que o sistema de parentesco néo regula aliangas matri- moniais entre iguais, Que se passa, com efeito, se 05 parceiros das trocas matrimonials sio grupos hierarquizados, de fato ou de direito, do ponto de vista politico ou econdmico? Por esta vvia, somos conduzidos a examinar diversas instituigdes: de ini- cio a poligamia, que mostrei repousar, as vézes, na inte- gragio de duas formas de garantias: uma coletiva ¢ politica, 4 outra individual e econdmica (30); em seguida a hipergamia (ou hipogamia). Bste dltimo problema, até o presente extremna- mente negligenciade, mereceria um estudo atento, do qual de- pende uma teoria cocrente do sistema das castas, e — indireta- mente — de tédas as cstruturas sociais fundadas em. distin- gies de status. © terceiro e iltimo método tem um cardter mais formal que os precedentes, Consisiria num estudo a priori de todos os da experidncia, os dois tipos de casamento se, encontrem_ mais freqientemente’associados com um ou outro modo de ‘iliagko. Se fisae 0 aso, cata ovrreloqdo cotetiatica (no confundir com lime conesdo lépica) exigiria. oxplicagto. Eu estaria, propenso a procardla do lado da instabilidade propria. as sociededes. matri Tinceres (tema. J¢ desenvolvido nas Structures), que Thes dif ciliaris mais & adopto de longes cilos do reciprocidade, enquanto {8 cilos extremamente curton do ‘casamento.patrilateral, acom0- Gar-seiam melhor com os conflltos de que sio palco, sempre, 2 soricdades mstrilinenren. A interpretagso. teoriea de Homans Schneider mo parece totalmente inaceitavel: explicam a preferén- Gin do soredades pariinearen polo cacamento,matrlateral, por ‘consideragdes psicologices, tain como a transferéncia das inelina- (fet sentimentaie de um adelescento para e linhagem do tio ma- ferno, So fase 0 nto, 0 casamento matrilatoral seria, com efelt2, mals freqente; maa'nfo. teria neccssidado de ver prescrit. A Dropésito devin essp particviar, Homans Schneider retornam, rae slmplesmente, & teoria psicldgica, enunciada por Wester ek para explicar'a_proibigao do incasto. Gostariamos de nere- Gitar 2 einologia definitivamente liberada déstes.velhos_proces- ton, (Ct. G. C. HoMANS © D. M. SCHNEIDER, Marriage, Authority ‘ond Pinal Consea. A’ Study of Unilateral Crove-Cousin Marriage, Glencoe, Tinos, 1966). (G0). G. LérSreauss, Tristes Tropigues, cap, XXIK, relo- mando os temas da tm eetudo anterior: The Social and Paycho- logical Aspecta of Chieftainship in a Primitive Tribe, Traneactions of the New York Academy of Sciences, series II, vol. VII, n° 1, 355 tipos de estruturas concebiveis, resultantes de relagées de de- pendéncia e de dominagéo aparecidas ao acaso. O tratamento ‘matemitico, por Rapoport (1949), dos fendmenos cfclicos de do- minagéo entre as galinhas abre, Sob éste aspecto, interessantes perspectivas. Sem diivida estas cadeia citicas e intransitivas pa- Fecem oferecer pouca relagio com as estruturas sociais a que se seria tentado a compari-las, Estas altimas (assim, o “it~ culo do kava” na Polinésia) sio sempre transitivas e néo-ci- licas: aquéle que tem assento no lugar mais baixo esté, por definigio, excluido do lugar mais alto. (31) . Em compensagio, 0 estudo dos sistemas de parentesco mostra que, em certas condigdes, a transformagéo de uma ordem transitiva ¢ nio ciclica em outra, intransitiva e ciclica, néo é inconcebivel, Pode-se observar isto numa sociedade hiperg’- mica com o casamento preferencial de um Eomem com a filha do irmio da mée, Um tal sistema consiste mma cadeia, termi- nada numa extremidade por uma moga da nais alta posicio, ¢ incapaz, pois, de encontrar um marido que nfo Ihe seja inf ior, e noutra por um rapaz privado para sempre de espésa (pésto que tédas as mocas do grupo, a excesio de sua irma, tém uma posigéo superior & sua). Por conseguinte, ou a s0- ciedade em questio sucumbe por suas contracigdes, ou entio seu (G1) Esta reserva parecome hoje (1967) supérflua. Existem socisdades om que #e observam ciclos hierarquicos ¢ intransitivos, ‘ramente comparaveis so pecking-order. Assim as ilhas Fidji, cuje populagio estava organizada até o eomé¢> do século XX em ‘senhorios, unidos entre si por relagées de vassalagem tais que, fem cartos casos, um senhorio A ere vassalo de um outro B, B de ©, C de D,¢ D de A. Hocart deccreven o explicon esta estrutura, 4 ‘primeira vista incompreensfvel, obsorvando quo existe em Fidii duas formas de vassalagem: a vassalagem por costume € 9 vas- faslagemn por conquista. (0 sanhoria A pode, pals, ser tradicional. ments vasealo de B, B de C, e C de D, enquanto o senhorio D alu reventeniente, ein seguida a uma guerra infeliz, sob a vassa- Ingem de A. Néo'shmente a estrutura assim realizada € a mesma do pecking-ordor, mas — som que se tonha spereebido disto — fa teoria einolégica antecipou-se om vérios ance & interpretacéo Tatemética, posto que esta se funda na distinfo de duas ‘varlévela operando com um corto deslocamento, o que corresponde fexatamente & deserigso (péstama) de Hocart (ef, A. M, Hocasr, The Northern States of Fidji, Occasional Publ. n° Ii, Royal An- thropological Inetitute, Londres, 1962). 355 sistema transitive € nio-ciclico deve-se transformar em sistema intransitivo e ciclico, temporaria ou localmente (32) Assim introduzem-se em nossos estudos mogées como as de transitividade, de ordem ¢ de ciclo, que se prestam a um tratamento formal e permitem a andlise de tipos generalizados de cstruturas sociais em que os niveis de comunicagio ¢ de subordinagdo podem ser integrados, Ir-se-d mais longe ainda, até a integrasao das ordens, atuais ¢ virtuais? Na maior parte das sociedades humanas, 0 que se denomina “‘ordem social” prende a um tipo transitive ¢ ndo-ciclico: se A é superior a B, ¢ B superior a C, A deve ser superior a C, e C no pode ser superior a A. No entanto, as préprias sociedades que obedecem Priticamente a estas regras concebem outros tipos de ordens que se poderiam denominar “virtuais” ou ‘‘ideais", quer seja 10 plano da politica, do mito ou da religiao, ¢ estas ordens sio as vézes intransitivas e ciclicas, como 03 contos de reis despo- sando pastoras, ou a critica da democracia americana por Sten- hal, como um sistema em que um cavalheiro esta as ordens ? seu merceeiro, ) Ordem das ordens Para o etndlogo, a sociedade envolve um conjunto de es- truturas que correspondem a diversos tipos de ordens. O sistema de parentesco oferece um meio de ordenar os individuos segundo certas regras; a organizagio social fornece outro; as es- tratificagées sociais ou econémicas, um terceiro, Todas estas es- truturas de ordem podem ser, elas mesmas, ordenadas, com a condigio de revelar que relagées as unem, e de que maneira elas reagem umas sdbre as outras dp ponto de vista sincronico. Assim, ‘Meyer Fortes (1949) tentou, nio sem sucesso, construir mo- delos gerais que integram as propriedades de diversos mo- delos especiais (parentesco, organizagio social, relagées eco nomicas, etc.). Estas tentativas de formular um modélo total ciedade dada confrontam 0 etnélogo com uma (32) Para um exemplo notével da transformagio local de um tipo om outro, ef. K Govcy, Female Initiation Rites on the Malabas, Coast, Journ. of the Roy. Anthropol Inst, vol. 85, 1956, pp. 67-48, 856 ‘encarada no comégo déste capitulo: até que ponto o modo de ‘uma sociedade conceber suas diversas estruturas de ordem ¢ as relagées que as wnem corresponde 4 realidade? J4 indiquei que ‘varias respostas eram possiveis, em fungio dos documentos con- siderados. Mas até 0 presente, no levamos em conta senio a8 ordens “vividas”, ou seja, ordens que slo fungio, elas mesmas, de ima realidade objetiva, e que se podem abordar do exterior, independentemente da representagio que os homens delas s¢ fazem, Observar-sea agora que tais ordens “vividas” supéem sempre outras, que é indispensdvel ter em conta para compreen- der nfo sbmente as precedentes, mas a mane'ta pela qual cada sociedade tenta integrar a tédas numa totalidade ordenada. Es- ‘tas estruturas de ordem “concebidas”, e nfo mais “vividas”, no correspondem diretamente a nenhuma realidade objetiva; diferentemente das primeiras, nfo sio suscetiveis de um contréle ‘experimental, pésto que chegam até a invocar uma exper especifica com a qual, aliés, as vézes se corfundem, O tinico contréle a que podemos submetélas, para analisé-las, & pois, © das ordens do primeiro tipo, ou otdens “‘vividas”. As ordens “concebidas” correspondem ao dominio do mito ¢ da religio. Pode-se perguntar se a ideologia politica das sociedades con- ‘tempordneas no se prende também a esta categoria (38). Seguindo Durkheim, Radcliffe-Brown mostrou bem que os fatos religiosos deviam ser estudados como parte integrante da estrutura social, Para éle, 0 papel do etndlogo é estabelecer cor relagdes entre diversos tipos de religides e diversos tipos de ‘onganizagées sociais ,(1945). Se sua sociologia da religido, fi- rnalmente, tem por saldo um malégro, é patzce,” por duas ra- z6es, Em primeiro lugar, éle Tigo diretamente as crenqas ¢ © ritual a estados afetivos. Em segundo lugar, quis atingir de ($3) 0 loitor francés dignar-se-4 a obsecvar que asto pa rigrafo, procura formula, numa. linguagem ais familiar aos antropSlogos anglo-saxtes, a distingso marxisia entre frutura e apra-estraturs, o que mortra — diga-se de passagem — ©. poueo fundamento das cerfticas que Gurvitch me enderors (Ca litre internationsuz de Sociologie, vol. 18, n. & 2° ano, 1968) quando mo acwsa, a propésito desta, passage, do querer” reinte- rar ha sociologia uma. caneepeio autoritaria da ordem_ social. Ver, sSbre fate asvunto, minha resposta, a Gurvitch, cap. RVI da presente compilagao. 357 inicio uma expressio geral da relagio entre a sociedade © a religiao, quando temos, sobretudo, necessidide de estudos con cretos, que permitam construir séries regulares de variagoes, concomitantes. Resultou disto uma espécie de decrédito que pe- sa fortemente sébre a etnologia religiosa, No entanto, os. mi- tos, 0 ritual e as crengas religiosas formam um dominio cheio de promessas para os estudos estruturais ¢, por raras que sé jam, as pesquisas recentes parecem particularmente fecundas. Varios autores empreenderam, recentemente, 0 estudo dos sistemas religiosos como conjuntos estruturados. Trabalhos mo- nograficos como The Road of Life and Death, de P. Radin (1945), ¢ Kunapipi, de R. M. Bemdt (1951), inspiraram-se nesta concepgio. O caminho esté assim aberto a5 pesquisas sis temiticas, de que Navaho Religion, de G, Reichard (1950) ofe- rece um bom exemplo, Mas nio se negligenciario, do mesmo modo, as andlises de detalhe, tendo por objeto os elementos permanentes ¢ nio-permanentes das representacées religiosas de uma populagio dada, durante um lapso de tempo relativamente curto, assim como Lowie as concebeu. Talvez consigamos entio construir, em etnologia da reli gio, éstes “modelos em pequena escala, destinados & anélise ‘comparativa. .. de variagées concomitantes. .. tais como se im- péem em toda pesquisa visando 2 explicagio de fatos sociais” (Nadel, 1952). fiste método nfo permitira progredir senio len- tamente, mas fornecera conclusées que s¢ contatao entre as me- melhor ¢stabelecidas e as mais convincentes das que poidemos es- perar em matéria de organizagao social, Nadel j& demonstrou 4que existe uma correlagio entre a instituigéo do. xamanismo certas atitudes psicolégicas caracteristicas das sociedades cor- respondentes (1946). Comparando documentos indo-europeus provenientes da Islandia, da Irlanda ¢ do Céuicaso, Dumézil con- seguia nterpretar um personagem mitolégico até entio enig- mitico, correlacionar seu papel ¢ suas manifestacées com certos tragos ‘especificos da organizacio social das populagies estu: dadas (1948) ; Witifogel e Goldirank isolaram variagoes signi ficativas de certos temas mitoldgicos entre os indios Pueblo, Tigando-os infra-estrutura sécio-econémica de cada grupo (1943). Monica Hunter provou que as crencas magicas eram funcio, diretamente, da estrutura do grupo social (Hunter- 358 Wilson, 1951). Todos éstes resultados —acrescentados 2 ou~ tros que no podem ser comentados aqui, por falta de lugar— dio esperangas de que estejamos, um dia, habilitados a com- preender, senfio a fungio das crencas religiosas na vida s0- Gal (coisa feita desde Luetécio), os mecanismos que thes permi- tem preencher esta fungio. Algumas palavras, & guisa de concluséo. Nosso estudo co- ‘megou por uma andlise da nogio de modelo, ¢ & ainda ela que reaparece no fim. A antropologia social é uma ciéncia jovem; € natural que ela procure construir seus mdelos imitando os mais simples entre os que the apresentam cigncias mais avan- sadas, Assim se explica o atrativo da meciaica cléssica, Mas io fomos, sob éste aspecto, vitimas de uma ilusio? Como 0 observou von Neumann (von Neumann e Morgenstern, 1944, p. 14): “ infinitamente mais simples elabo-ar a teoria quase exata de um gis contendo cérca de 10% particulas livres que a do sistema solar que compreende simente 9 grandes corpos”. Ora, 0 antropdlogo em busca de modelos se encontra diante de tum caso intermedidrio: os objetos de cue nos ocupamos —paptis sociais e individuos integrados muma sociedade de- terminada— sio muito mais numerosos que os da mecanica newtoniana, apesar de nfo o serem bastante para depender da estatistica ¢ do célculo das probabilidades. Estamos, pois, si- tuados num terreno hibrido ¢ equivoco; noss0s fatos so muito complicados para serem abordados de uma maneira, € nao 0 bastante para que se possa abordiidos de outra, ‘As novas perspectivas abertas pela tecria da comunica- céo resultam, precisamente, dos métodos originais que foi pre iso elaborar para tratar dos objetos —os signos— que se po- dem doravante submeter a uma anélise tigoross, ainda que seu niimero seja muito elevado para a mecinica clissica, mas ainda demasiado limitado para que os principios da termodi- rnimica thes sejam aplicéveis, A lingua feita de morfemas —da ordem de alguns milhares— e cilculos limitados bastam para extrair regularidades significativas da freqiiéncia dos fo- nemas, Num tal terreno, 0 limiar de aplicagéo das leis estatis- ticas se abaixa, ao mesmo tempo em que se eleva aquéle 2 partir do qual torna-se possivel utilizar modelos mecénicos. E, 359 simultineamente, a ordem de grandeza dos fendmenos se apro- xima daquela a que o antropologo esta acostuinado, estado presente das pesquisas estruturais em antropo- logia & pois, 0 seguinte. Teve-se éxito em isolar fendmenos que sia do mesmo tipo dos que as teorias da estratégia e da comunicagéo ja permitem estudar rigorosamente. Os fatos an- tropolégicos esto numa escala suficienteniente vizinha da déstes outros fendmenos para oferecer a esperanga de um tra- tamento anilogo, Nao é surpreendente que, no momento mesmo fem que a antropologia se sente mais proxima do que munca de igncia verdadeira, o terreno falta ai onde se 0 ido? Os proprios fatos se esquivam: muito pouco umerosos, ou reunidos em condigdes que no permitem com pari-los com seguranca suficiente, Sem que seja por nossa culpa, descobrimios que temos nos comportado como botdni- cos amadores, colhendo ao acaso amostras heterdclitas, mal- tratando-as ¢ mutilando-as para conservi-las em nossos her- birios. E cis-nos, de repente, chamados a ordenar séries com- pletas, a definir os matizes originais, a medir partes minis feulas que reencontramos deterioradas, se nfo foram mesmo destruidas. Quando o antropélogo evoca as tarelag que o esperam ¢ tudo 0 que deveria estar em condigées de realizar, o desenco- ajamento se apodera déle: como realiza-las com os documen- tos de que dispe? & um pouco como se a fisica cés- mica fésse convocada a se construir por meio das observagdes dos astrénomos babilinios. E, no entanto, os corpos celestes ainda estio ai, enquanto as culturas indigenas que nos forne- cem nossos documentos desaparecem num ritmo répido, o@ se transformam em objetos de um névo género, em que no po- demos esperar encontrar informagées do mesmo tipo. Ajustar as técnicas de informacao a um quadro teérico que esta muito adiante delas, eis uma situagio paradoxal que a histéria das cigncias raramente ilustra. Incumbe & antropologia moderna accitar éste desafio. 360 CAPITULO XVI POSFACIO AO CAPITULO XV (?) Gurvitch, que confesso compreender cada ver _menos, ssempre que me dcorre lé-lo (2), atém-se minha andlise da nogio de estrutura social (8), mas seus argumentos se redu- zei o mais das vézes a pontos de exclamagio acrescentados a algumas pardfrases tendenciosas de meu texto, Tentemos, no entanto, atingir 0 fundo do debate. Gurvitch oferece a novidadle do que éle cré ser uma desco- Derta: “Ha... entre 0 gestaltismo em psicolgia ¢ 0 estrutw- zalismo em sociologia uma afinidade notivel que, até o prev sente, que nds saibamos, nfo foi ainda sublinhada” (loc. cit., p. 11). Gurvitch se engana. Todos os eindlegos, socidlogos ¢ lingiiistas que invocam 0 estruturalismo estan conscientes dos lagos que os unem psicologia gestaltista. Desde 1934, Ruth Benedict fazia a aproximasio, citando Kahler e Koffka (4). (1) Inédito (1956). , 2) No ontanto, tentei, outrora, © no sem simpatie. Of, ©. LéviSmavss, French Sociology, in: Twentith Contury So ciology, ed. by G. GueviTen and W. EL Moons, Nova Torque, 1946, cap. RVIL. Trad. franc.: La Socilogie a XX¢. wacle, 2 Vols ris, 1947, i (8). G. Gunviren, le Concept de Structure sociale, Cahiers ‘nternationsns do Seisage, vo. 12, mvs 2° sno, 168: — Gar. ‘Yteh republice, parece, este estudo com algumas modificacoes na 28 edigeo da Vocation cotuella de ie Sociologit. 0 presente a- ‘tule, escrito em 1966, funde-se sdbre o texto inicial (@). Ruth Bemoicr, Potteras of Culture, Cambridge, Mass., 1994, pp. 61-52 0 279. ‘bem recentaments, Gurvitch fér oatra “deseoberta”, que éle se diz “impaciente em comunicar op leltores dos Cahiers, B $64