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| Erich Fromm ' Grandezae _ Limitacoes _ do Pensamento | de Freud ZAHAR EDITORES GRANDEZA_ E_ LIMITACOES DO PENSAMENTO DE FREUD Uma profunda e rigorosa anélise das mais importantes descobertas de SicMUND Freup, na qual Erich FRoMM procura mos- trar, por um lado, onde e de que forma o pensamento burgués, téo caracteristico do inventor da Psicandlise, limitou e, por vezes, até obscureceu as suas descobertas, e, por outro lado, toda a grandeza da descoberta fundamental de FREUD: a de ter criado um método para se chegar a verdade que esté além do que o préprio individuo acredita ser a verdade. Como resultado, emerge a figura de um FReup paradoxal, ao mesmo tempo vitoriano e revoluciondrio, burgués e radical, genio na realizagdo de construcdes, que mos- trou uma afinidade com duas fontes com as quais, na verdade, nao estava familiarizado: o Talmude e a filosofia de HEGEL. Situando Marx na tradigao daqueles que vém na verdade a condicdo para a salvacio, observa o autor que mais do que descrever um quadro de como seria a “boa sociedad toda a obra do pensador socialista consistiu numa critica implacdvel das ilusdes que im- pediam o homem de edificar essa boa socie- dade, Foi Marx quem disse ser preciso des- truir as ilusGes a fim de mudar as cir- cunstineias que exigem ilusdes; na opinido de FROMM, essa mesma frase poderia ter sido formulada por FREUD como divisa adequada para uma terapia baseada na teoria psicana- Hilea, Ele ampliou de uma forma dramatica © eonceito de verdade, que deixou de se feleriy apenas ao que acredito ou penso eonselentemente, para se referir também ao que feprimo por que nao desejo pensar nis- ©) 8 efeitos da repressio e, corresponden- jemente, as racionalizagdes. FREUD demons- i empiticamente que o modo de curar mentinas € 0 verdadeiro insight sobre a pré- pea eeirutura mental e, por conseguinte, na eerepremiio”. Besa aplicagéo do principio fe qe & verdade liberta e cura, é a grande (continua na 2.4 aba) Erich Fromm Grandeza e Limitacdes do Pensamento de Freud Tradugdo: Alvaro Cabral ZAHAR EDITORES RIO DE JANEIRO Titulo original: Greatness and Limitations of Freud’s Thought Tradugdo autorizada por Ruth Liepman Literary Agency, da verso original em lingua inglesa (fevereiro 1979). Copyright © 1979 by Erich Fromm All rights reserved Direitos reservados. Proibida a reprodugdo (Lei n9 5.988) Capa: Erico Composigdo: Zahar Editores S.A. 1980 Direitos para a Lingua Portuguesa adquiridos por ZAHAR EDITORES S.A. Caixa Postal 207 (ZC-00) RJ que se reservam a propriedade desta versio Impresso no Brasil mm INDICE Introdugéo 7 a Limitagdes do Conhecimento Cientifico 9 . A razfo pela qual toda nova teoria é necessariamente defeituosa 9 2. As raizes dos erros de Freud 11 3. O problema da “verdade” cientifica 16 4. O método cientifico de Freud 20 Grandeza e Limitagées das Descobertas de Freud 25 1. A descoberta do inconsciente 25 2. O complexo de Edipo 28 3. Transferéncia 37 4. Narcisismo 41 5. Cardter 49 6. O significado da infancia 56 A Teoria Freudiana da Interpretagao de Sonhos 61 1. Grandeza e limitagdes da descoberta de Freud da interpretagdo de sonhos 61 2. O papel das associagSes para a interpretagdo de sonhos 63 3. As limitagGes da interpretagao de Freud de seus proprios sonhos 68 4. A linguagem simbélica dos sonhos 75 5. A relagdo da fungdo do sono com a atividade onirica 80 A Teoria Freudiana dos Instintos e sua Critica 85 1. O desenvolvimento da teoria dos instintos 85 2. Anilise das pressuposigées instintivistas 87 3. Critica da teoria freudiana dos instintos 101 Por que foi a Psicandlise Transformada de uma Teoria Radical em uma Teoria de Adaptagio? 109 Bibliografia 113 INTRODUGAO A fim de se apreciar inteiramente 0 extraordindrio significado das desco- bertas psicanaliticas de Freud, deve-se comecar por entender o principio em que elas se baseiam; e ndo se pode expressar esse principio mais ade- quadamente do que na sentenga dos Evangelhos: “E a verdade te libertard” (Jo, 8:32). Com efeito, a idéia de que a verdade salva e cura é uma velha intuigdo proclamada pelos grandes Mestres da Vida, nenhum, talvez, com tanto radicalismo e clareza quanto o Buda; entretanto, é um pensamento comum ao Judaismo e ao Cristianismo, a Sécrates, Spinoza, Hegel e Marx. Para o pensamento budista, a ilusdo (ignorancia) 6, com 0 ddio e a co- biga, um dos males de que o homem deve livrar-se se ndo quiser permane- cer num estado de desejo insacidvel que necessariamente causa sofrimento. O Budismo nao combate a alegria ou mesmo o prazer no mundo, desde que nao seja o resultado de intensos apetites e de cobica. O homem cobi- oso no pode ser um homem livre nem pode ser um homem feliz. E um escravo de coisas que o dominam e 0 governam. O processo de despertar de ilusdes é a condigdo de liberdade e de libertacio do sofrimento que a cobiga necessariamente produz. A desilusto (Ent-Téuschung) é uma condi- ¢do para levar uma vida que se avizinha muito do pleno desenvolvimento do homem ou, para usar as palavras de Spinoza, do modelo de natureza hu- mana. Menos central e radical, porque contaminado pela idéia de um Deus- idolo, é 0 conceito de verdade — e a necessidade de desencantamento na tradigdo judaico-crist. Mas quando essas religides transigiram com o po- der, ndo puderam deixar de trair a verdade. Nas seitas revoluciondrias, a verdade pode voltar a ter um lugar proeminente porque todo o seu impeto era no sentido de desvendar a contradigo entre o pensamento cristo e a pratica crista. Os ensinamentos de Spinoza assemelham-se, em muitos aspectos, aos de Buda. O ser humano que ¢ arrebatado por impulsos irracionais (afetos passivos) € necessariamente aquele que tem idéias inadequadas sobre si proprio e 0 mundo, quer dizer, aquele que vive com ilusdes. Os que so guiados pela razao sdo os que deixaram de ser seduzidos por seus sentidos e obedecem aos “afetos ativos”: razZo e coragem. Marx situa-se na tradigd0 grandeza e limitages do pensamento de Freud daqueles que véem na verdade a condigdo para a salvago. Mais do que des- crever um quadro de como seria a boa sociedade, toda a sua obra consistiu, primordialmente, numa critica implacdvel das ilusdes que impediam o ho- mem de edificar a boa sociedade. Como disse Marx, é preciso destruir as ilusOes a fim de mudar as circunstdncias que exigem ilusdes. Freud poderia ter formulado a mesma frase como divisa adequada para uma terapia baseada numa teoria psicanalitica. Ele ampliou de uma forma tremenda 0 conceito de verdade. Para Freud, a verdade deixou de se referir apenas ao que acredito ou penso conscientemente, para se referir também ao que reprimo porque nao desejo pensar nisso. Ai estd a grandeza da descoberta de Freud — ter criado um método para se chegar a verdade que estd além do que o individuo acredita ser a verdade; € pdde fazé-lo ao descobrir os efeitos da repressao e, correspon- dentemente, as racionalizagGes. Freud demonstrou empiricamente que 0 modo de curar mentiras é 0 verdadeiro insight sobre a propria estrutura mental e, por conseguinte, na “‘des-repressdo”. Essa aplicagdo do principio de que a verdade liberta e cura, é a grande — talvez a maior — realizagaio de Freud, muito embora a sua aplicacdo desse principio sofresse muitas dis- torgées e, com freqiiéncia, produzisse novas ilusdes. Neste livro, quero apresentar as mais importantes descobertas de Freud em forma detalhada. Ao mesmo tempo, tentarei mostrar onde e de que forma o pensamento burgués, to caracteristico de Freud, limitou e, por vezes, até obscureceu as suas descobertas. Uma vez que a minha critica de Freud tem sua propria continuidade, é-me impossivel deixar de me re- ferir a afirmagoes anteriores sobre o assunto. CAPITULOT AS LIMITAGOES DO CONHECIMENTO CIENTIFICO SS 1. A razao pela qual toda nova teoria 6 necessariamente defeituosa A tentativa de compreender o sistema tedrico de Freud, assim como 0 de qualquer outro pensador sistematico criativo, s6 pode ser bem-sucedida se reconhecermos que — ¢ os motivos por que — todo e qualquer sistema, tal como é desenvolvido e apresentado por seu autor, é necessariamente erréneo. Nao o é por falta de sagacidade, criatividade ou autocritica por parte do autor, mas por causa de uma contradi¢ao fundamental e inevita- vel; por um lado, o autor tem algo de novo a dizer, algo que ndo foi pensado ou dito antes. Mas, ao falarmos de “novidade”, apenas estamos colocan- do-a numa categoria descritiva que ndo faz jus ao que € essencial no pensa- mento criativo. Este é sempre um pensamento critico porque elimina certa ilusdo e fica mais proximo de uma percepedo consciente da realidade. Am- plia o dominio da consciéncia do homem e robustece 0 poder de sua razdo. ‘O pensamento critico e, portanto, criativo tem sempre uma fungdo liberta- dora por sua negacdo do pensamento ilusério. Por outro lado, o pensador tem que expressar 0 seu novo pensamento de acordo com o espirito do seu tempo. Diferentes sociedades tém diferen- tes espécies de “senso comum”, diferentes categorias de pensamento, dife- rentes sistemas ldgicos; toda sociedade possui seu proprio “filtro social”, através do qual somente podem passar certas idéias, conceitos e experién- cias, que ndo permanecem necessariamente inconscientes e podem tornar- se conscientes quando, por mudangas fundamentais na estrutura social, o “filtro social”: muda em conseqiiéncia. Os pensamentos que ndo podem passar pelo filtro social de uma certa sociedade, numa determinada época, sdo “inconcebiveis” e, é claro, também “inexprimiveis”. Para a pessoa comum, os padrdes de pensamento de sua sociedade parecem ser simplesmente légicos. Os padrées de pensamento de socieda- des fundamentalmente diferentes s4o considerados cos ou francamente absurdos. Contudo, ndo s6 a “légica” é determinada pelo “filtro social” e, em tltima instancia, pela pritica da vida de qualquer sociedade; certos con- tetidos de pensamento também o sao. Vejamos, por exemplo, a noco 10 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud convencional de que a exploragdo entre seres humanos é um fendmeno normal”, natural e inevitdvel. Para um membro da sociedade neolitica, em que cada homem e mulher vivia de seu trabalho, individualmente ou em grupos, tal proposicdo teria sido inconcebivel. Considerando toda a sua organizagao social, a exploragdo de seres humanos por outros teria sido uma idéia “louca”, pois ndo existia ainda um excedente para tornar judi- cioso empregar outros. (Se uma pessoa tivesse forgado outra a trabalhar para ela, isso teria significado unicamente que o “empregador” estava con- denado & ociosidade ¢ ao tédio.) Um outro exemplo: as intimeras socieda- des que ndo conheceram a propriedade privada, na acep¢do moderna, mas apenas a “propriedade funcional”, como ferramentas, as quais “perten- ciam” a uma s6 pessoa, na medida em que as usasse, mas eram prontamen- te repartidas com outras quando necessério. O que é inconcebivel também é inexprimtvel ¢ a linguagem nao tem palavra para isso. Numerosas linguas ndo possuem uma palavra para o verbo “ter” e devem expressar 0 conceito de posse em outras palavras, por exem- plo, mediante a construcdo “isso é para mim”, a qual exprime o conceito de propriedade funcional, mas ndo de propriedade privada (‘‘privada” na acepedo do latim privare, despojar, desapossar, quer dizer, propriedade de cujo uso todos sao esbulhados exceto o dono). Muitas linguas comecaram sem uma palavra correspondente a “ter” mas, em seu desenvolvimento e, é licito supor, com o surgimento da propriedade privada, elas adquiriram uma palavra correspondente a “ter” (ver E. Benveniste, 1966). Ainda um outro exemplo: na Europa dos séculos X ou XI, 0 conceito do mundo sem referéncia a Deus era inconcebivel e, portanto, uma palavra como “ateismo” nao podia existir. A propria Iingua é influenciada pela repressdo social de certas experiéncias que ndo se ajustam a estrutura de uma dada sociedade; as linguas diferem na medida em que diferentes expe- riéncias so reprimidas e, por conseguinte, inexprimiveis.! Segue-se que 0 pensador criativo deve pensar nos termos da légica, dos padroes de pensa- mento e dos conceitos exprimiveis de sua cultura. Isso significa que ainda ndo possui as palavras apropriadas para expressar a idéia nova, criativa e libertadora. E forgado a resolver um problema insoliivel, a expressar 0 no- vo pensamento em conceitos e palavras que ainda no existem em sua Iin- gua. (Poderdo perfeitamente existir numa época subseqiiente, quando os seus pensamentos criativos tiverem sido geralmente aceitos.) A conseqiién- cia 6 que 0 novo pensamento, tal como foi por ele formulado, é uma mis- tura do que é verdadeiramente novo e do pensamento convencional que aquele transcende. O pensador, entretanto, ndo esta consciente de sua con- Deixo aqui de lado um problema muito diferente, o da possibilidade de expressar experiéneias sentimentais complexas ¢ sutis na linguagem, o que s6 pode ser tentado na poesia. as limitagdes do conhecimento cientifico 1 tradiggo. Os pensamentos convencionais de sua cultura so indiscutivel- mente verdadeiros para ele e, por conseguinte, ele proprio tem escassa consciéncia da diferenga entre 0 que é criativo em seu pensamento e o que é puramente convencional. $6 no processo histérico, quando as mudangas sociais se refletem nas mudangas de padres de pensamento, é que se torna evidente 0 que no pensamento de um pensador criativo era verdadeiramen- te novo e em que medida o seu sistema é apenas um reflexo do pensamen- to convencional. Cabe aos seus seguidores, vivendd num diferente plano de idéias, interpretarem o “mestre”, distinguirem seus pensamentos “ori- ginais” dos convencionais e analisarem as contradig6es entre o novo e o velho, em vez de tentarem harmonizar as contradigdes imanentes de seu sistema por toda espécie de subterfigio. © processo de revisiio de um autor, o qual distingue o essencial e o no- vo dos elementos contingentes, condicionados pelo tempo, também é em si mesmo o produto de um certo perfodo hist6rico que influencia a inter- pretagdo. Nessa interpretacao criativa, elementos validos e criativos estéo misturados também aos acidentais, vinculados a um determinado tempo. A tevisio ndo é simplesmente verdadeira, assim como o original nao era sim- plesmente falso. Alguns elementos da revisdo permanecem verdadeiros, em particular quando ela liberta a teoria das algemas de um anterior pensa- mento convencional. No processo da eliminagdo critica de teorias anterio- res, encontramos uma aproximagdo da verdade, mas nao a verdade; e ndo podemos encontrar a verdade enquanto as contradigdes sociais e a forga exigirem a falsificagdo ideolégica, enquanto a razdo do homem for preju- dicada por paixGes irracionais que tém suas raizes na desarmonia e irracio- nalidade da vida social. Somente numa sociedade em que nao haja explora- ¢40, logo, uma sociedade que no necessita de pressupostos irracionais para camuflar ou justificar a exploragdo; numa sociedade em que as contradi- des basicas foram solucionadas e em que a realidade social pode ser reco- nhecida sem distorgdes, o homem poder fazer pleno uso de sua razo e, nesse ponto, poderd reconhecer a realidade numa forma ndo-distorcida, ou seja, a verdade. Por outras palavras, a verdade é historicamente condi- cionada; depende do grau de racionalidade e da auséncia de contradigées dentro da sociedade. © homem s6 pode apreender a verdade quando pode regular sua vida social de um modo humano, digno ¢ racional, sem medo e, portanto, sem cobiga; para falar com uma expressao politico-religiosa: s6 no Tempo Mes- sianico pode a verdade ser reconhecida, na medida em que é reconhectvel. 2. As raizes dos erros de Freud A aplicagdo desse principio a0 pensamento de Freud requer que, para compreendermos Freud, devemos procurar reconhecer quais de suas desco- 12 grandeza e limitacdes do pensamento de Freud bertas foram verdadeiramente novas e criativas, em que medida ele teve que expressé-las de uma forma distorcida, e como, ao libertar suas idéias dessas algemas, as suas descobertas se tornaram muito mais fecundas. Com referéncia ao que, de um modo geral, se tem dito acerca do pen- samento de Freud, uma pergunta se impde: O que é que, para Freud, era verdadeiramente inconcebivel e, por conseguinte, constitufa uma barreira para além da qual ele ndo podia ir? Se tentarmos responder 4 questdo sobre o que era realmente inconce- bivel, para Freud, s6 posso discernir dois complexos: 1) A teoria do materialismo burgués, tal como foi desenvolvida, es- pecialmente na Alemanha, por homens como Vogt, Moleschott e Biichner. Em Kraft und Stoff (Forga e Matéria) (1855), Buchner afirmou ter desco- berto que nfo existe forga sem matéria, nem matéria sem forga; esse dog- ma era largamente aceito na época de Freud, O dogma do materialismo burgués era o de seus mestres, especialmente o seu mais importante profes- sor, von Briicke. Freud permaneceu sob a forte influéncia do pensamento de von Briicke e do materialismo burgués em geral; ¢, sob tal influéncia, foi incapaz de conceber a existéncia de fortes poderes fisicos dos quais ndo se pudesse demonstrar que tinham raizes fisiolégicas especificas. O verdadeiro objetivo de Freud era entender as paixdes humanas; até entdo, somente os filésofos, dramaturgos e romancistas se preocupavam com as paix6es, no os psicdlogos ou neurologistas. Como foi que Freud resolveu 0 problema? Numa época em que relativamente pouco se sabia a tespeito das influéncias hormonais sobre a psique, havia realmente um fe- némeno em que a conexdo do fisiolégico e do psquico era bem conhecida: a sexualidade. Se fosse possivel considerar a sexualidade a raiz de todas as pulsdes, entdo a exigéncia tedrica estaria satisfeita: tinha sido descoberta a raiz fisiologica das forgas psiquicas. Foi Jung que, mais tarde, se desvenci- thou dessa conex4o ¢ ai reside, em meu entender, um aditamento verdadei- ramente valioso a0 pensamento de Freud. 2) O segundo complexo de pensamentos inconcebiveis relaciona-se com a atitude burguesa e autoritdria (patriarcal) de Freud. Uma sociedade em que as mulheres fossem iguais aos homens, em que estes no mandassem por causa de sua alegada superioridade fisiolégica e fisica, era simplesmen- te inconcebivel para Freud. Quando John Stuart Mill, a quem Freud muito admirava, expressou suas idéias acerca da igualdade das mulheres, Freud escreveu numa carta: “Nesse ponto, Mill est4 simplesmente doido.” A pala- vra “doido” é muito caracteristica para qualificar aquilo que é inconcebi- vel. A maioria das pessoas chama “loucas” a certas idéias porque s6 sio sensatas, ajuizadas, aquelas que cabem no quadro de referéncia do pensa- mento convencional. Aquilo que o transcender é “loucura”, na concepgo da pessoa comum. (Isso, contudo, é diferente quando o autor, ou artista, se torna bem-sucedido. O éxito nao é um atestado de sanidade mental?) O as limitagdes do conhecimento cientifico 13 proprio fato de que a idéia de igualdade das mulheres era inconcebivel para Freud levou-o a sua psicologia da mulher. Acredito que o seu conceito de que metade da humanidade era bioldgica, anatémica e psiquicamente infe- rior 4 outra metade é quase a tinica idéia, em todo o pensamento de Freud, que parece estar desprovida de qualquer caracteristica que a justifique, por mais ténue que seja, salvo como um retrato de uma atitude masculino- chauvinista. Mas o cardter burgués do pensamento de Freud nfo se encontra ape- nas, de maneira alguma, nessa forma extrema de patriarcalismo. Na verda- de, existem poucos pensadores que sejam “radicais”, no sentido de trans- cenderem 0 pensamento de sua classe. Freud néo foi um deles. As bases classistas de seu pensamento mostram-se através, virtualmente, de todos os seus enunciados tedricos e de sua maneira de pensar. Nao sendo ele um pensador radical, como poderiam as coisas ser de outra maneira? De fato, nada terfamos de que nos queixar, ndo fosse pelo fato de que seus seguido- res ortodoxos (e ndo-ortodoxos) se viram encorajados em sua atitude com- placente em face da sociedade. Essa atitude de Freud também explica que a sua criagdo, que foi uma teoria critica, mais especificamente, a critica da consciéncia humana, ndo tenha produzido mais do que um punhado de pensadores politicos radicais. Seria necessério escrever um livro inteiro se quiséssemos analisar os conceitos e as teorias mais importantes de Freud, sob o prisma da origem classista dos mesmos. Isso ndo pode certamente ser feito no ambito traga- do para este livro. Apenas alguns exemplos podem servir como ilustrago.? 1) A finalidade terapéutica de Freud era o controle das pulsées ins- tintivas através do fortalecimento do ego; elas tém que ser dominadas pelo ego e superego. Quanto a este tiltimo aspecto, Freud esta proximo do pen- samento teolégico medieval, embora com a importante diferenga de que, no seu sistema, no hé lugar para a graca nem para o amor materno, salvo no que concerne a alimentagao do bebé. A palavra-chave é controle. O conceito psicolégico corresponde 4 realidade social. Assim como, socialmente, a maioria é controlada pela minoria dominante, pressup6e-se também que a psique é controlada pela autoridade do ego e superego. O perigo da penetracdo no inconsciente comporta o perigo de uma revolugo social. A repressio é um método autoritdrio para proteger o status quo in- terior e exterior. Nao constitui, de forma alguma, 0 tnico método para enfrentar os problemas de uma transformagdo social. Mas a ameaca da for- a para conter 0 que é “perigoso” sé se faz necesséria num sistema autori- tario onde a preservagdo do status quo é a meta suprema. Outros modelos 2 E claro, nem todos os elementos de classe no pensamento de Freud sfo necessaria ¢ exclusivamente de origem “burguesa”. Alguns sdo comuns a todas as sociedades pa- triarcais que gravitam em torno da propriedade privada. “ grandeza e limitacdes do pensamento de Freud de estruturas individuais e sociais podem ser construidos e experimenta- dos, Em iltima andlise, a questao formula-se nestes termos: Quanta rentin- cla 4 felicidade a minoria dominante numa sociedade necessita impor 4 maioria? A resposta a isso reside no desenvolvimento de forgas produtivas numa sociedade e, por conseguinte, no grau em que o individuo é necessa- riamente frustrado. Todo esquema “Superego, ego ¢ id” ¢ uma estrutura hierdrquica, a qual exclui a possibilidade de que a associacdo de seres hu- manos livres, isto é, ndo-explorados, possa viver harmoniosamente e sem necessidade do controle de forcas sinistras. 2) Seria desnecessdrio dizer que a descri¢do grotesca das mulheres por Freud (cf. Conferéncia XXXII, em S. Freud, Novas Conferéncias In- trodutorias sobre Psicandlise, 1933a) como essencialmente narcisistas, incapazes de amar e sexualmente frias, € mera propaganda masculina. A mulher de classe média era, de modo geral, sexualmente fria. O cardter de propriedade do casamento burgués condicionou a mulher para ser fria. Portanto, elas eram uma propriedade e tinham que ser “inertes” no ca- samento. Somente as mulheres da classe alta e as cortesds se permitia se- rem sexualmente ativas (ou, pelo menos, fingirem que o eram). Ndo admira que os homens experimentassem apetite sensual, concupiscéncia, no pro- cesso de conquista; a supervalorizago do “objeto sexual” que, segundo Freud, s6 existia nos homens (uma outra deficiéncia feminina!), constitui essencialmente, até onde me é dado vislumbrar, o prazer da caga e da con- quista final. Uma vez assegurada a conquista pelo primeiro intercurso se- xual, a mulher era relegada a tarefa de produzir filhos e de ser uma eficien- te dona-de-casa:3 ela transformava-se de objeto de caga em ndo-pessoa. Se Freud tivesse tido muitas pacientes das classes aristocraticas francesa e in- glesa, a sua descricdo rigida da mulher fria teria que ser modificada. 3) Talvez o mais importante exemplo das qualidades burguesas dos conceitos aparentemente universais de Freud é o amor. De fato, Freud fala de amor muito mais do que seus seguidores ortodoxos estdo acostumados a fazer. Mas 0 que entende ele por amor? E sumamente importante assinalar que Freud e seus discipulos falam usualmente de “amor ao objeto” (em contraste com “amor narcisista”) e de um “objeto'de amor” (significando a pessoa a quem se ama). Existird realmente esse “objeto de amor”? Nao deixard a pessoa amada de ser um objeto, isto é, algo exterior e oposto a mim (a mesma raiz que em “obje- tar”)? Nao ser o amor, precisamente, a atividade interior que une duas * Tudo isso foi claramente demonstrado no casamento do proprio Freud. Cartas excitadas de amor romantico, a imagem predominante narcisista do grande amante, tifo tipica das cartas de amor do século XIX, até ao casamento; depois, uma auséncia acontuada de interesse erdtico, intelectual e afetivo pela esposa. as limitagdes do conhecimento cientifico 16 pessoas, de modo que deixam de ser objetos (isto é, possesses mituas)? Falar de objetos de amor é falar de “ter”, com excluso de qualquer forma de “ser” (cf. E. Fromm, Ter ou Ser?, 1976a); nao é diferente de um co- merciante falando de investimento de capital. Neste Ultimo caso, o que é investido € capital; no primeiro caso, é libido. E l6gico que, com freqiién- cia, na literatura psicanalitica, se fale de amor como “investimento” libidi- noso num objeto. Ela adota a banalidade de uma cultura mercantil para re- duzir o amor de Deus, de homens e mulheres, da humanidade, a um inves- timento; ou aceita o entusiasmo de um Rumi, Eckhart, Shakespeare ou Schweitzer, para mostrar a pequenez da imaginago de pessoas cuja classe considera o investimento e o lucro o proprio significado da vida. Partindo de suas premissas tedricas, Freud é forgado a falar de “obje- tos” de amor, uma vez que “a libido continua sendo libido, quer seja diri- gida para objetos ou para o proprio ego do individuo” (S. Freud, Confe- réncias Introdutérias sobre Psicandlise, Vol. 16, 1916-17). O amor é energia sexual vinculada a um objeto; nada mais ¢ do que um instinto fisiologica- mente enraizado e dirigido para um objeto. E, por assim dizer, um produto residual da necessidade bioldgica para a sobrevivéncia da raga. O “amor”, nos homens, é sobretudo do tipo “fixagdo”, isto é, a fixagdo a pessoas que se tornaram preciosas através da satisfa¢do de outras necessidades vitais (comer e beber). Quer dizer, o amor do adulto ainda nao é diferente do da crianga; ambos amam aqueles que os alimentam. Com efeito, isso é indubi- tavelmente verdadeiro para muitos; esse amor é uma espécie de gratidao afetuosa por ser alimentado. Muito bem, mas dizer que isso é a esséncia do amor é dolorosamente banal. (As mulheres, como ele diz, nio podem chegar a essa alta realizagdo porque amam “narcisisticamente”, amam-se a si mesmas no outro; cf. S. Freud, Novas Conferéncias Introdutérias sobre Psicandlise, 1933a). Freud postula: “Amar em si mesmo, na medida em que é anelo e pri- vacdo, reduz 0 respeito proprio, ao passo que ser amado, ter o seu amor retribuido e possuir 0 objeto amado, aumenta-o ainda mais”. (S. Freud, “Sobre o Narcisismo: Uma Introdugdo”, 1914¢; 0 grifo é nosso.) Esse pos- tulado constitui uma chave para a compreensao do conceito de amor em Freud. Amar, subentendendo 0 anelo e a privagdo, reduz o respeito da pes- soa por si propria. Aos que proclamaram a exaltacdo e a forga que amar propicia ao amante, Freud disse: “Todos vocés esto errados! Amar torna- os fracos; 0 que os faz felizes é serem amados.” E 0 que é ser amado? E possuir 0 objeto amado! Isso constitui uma definig&o cldssica do amor bur- gués: possuir e controlar favorece a felicidade, quer se trate de propriedade material, quer se trate de uma mulher que, sendo possuida, possui o amor do proprietdrio. O amor comega como resultado de a crianga ser alimentada pela mae. Termina na propriedade da fémea pelo macho, porquanto ela é quem ainda tem que o alimentar com afeigdo, prazer sexual e comida. Tal- 16 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud vez esteja aqui a chave para o conceito do complexo de Edipo. Ao estabe- lecer o espantalho do incesto, Freud esconde o que considera ser a esséncia do amor masculino: a fixagdo eterna a uma mée que alimenta e, a0 mesmo tempo, é controlada pelo macho. Com efeito, o que Freud diz nas entre- linhas é provavelmente apropriado para as sociedades patriarcais: 0 macho continua sendo uma criatura dependente, mas nega-o vangloriando-se de sua forga e provando-o ao tornar a fémea sua propriedade. Resumindo: os principais fatores na atitude patriarcal masculina so a dependéncia da mulher e a negagdo dessa dependéncia mediante 0 con- trole dela. Freud, como tao freqiientemente ocorreu, transformou um fe- ndmeno especifico, o do amor patriarcal, num fenédmeno humano universal. 3. O problema da “verdade” cientifica Tornou-se hoje de bom tom dizer — e os psicdlogos de varios ramos da Psicologia académica so particularmente propensos a sublinhar esse ponto — que a teoria de Freud “nao € cientifica”. Essa afirmagdo depende intei- ramente, é claro, do que se entenda por método cientifico. Muitos psicdlo- gos e socidlogos tém um conceito algo ingénuo do método cientifico. Em poucas palavras, consistiria este na expectativa de que, em primeiro lugar, se retinam fatos, depois se submetam esses fatos a algum processo de medi- ¢do quantitativa (os computadores tornaram isso extremamente facil) e, finalmente, em resultado desses esforcos, se chegue a uma teoria ou, pelo menos, a uma hip6tese. O pressuposto adicional, portanto, é que, como num experimento da drea das Ciéncias Naturais, a verdade da teoria depen- derd da possibilidade de que o experimento possa ser repetido por outros e apresente sempre os mesmos resultados. Parte-se do principio de que os problemas que ndo se prestam a esse tipo de quantificagdo e abordagem es- tatistica se revestem de carater ndo-cientifico e, por conseguinte, estao fora do campo da Psicologia cientifica. Neste esquema, um, dois ou trés casos que permitam ao observador chegar a certas conclusdes definitivas sdo declarados mais ou menos sem valor, desde que no possam ser sancio- nados por um considerdvel namero de casos que se ajustam ao procedimen- to estatistico. Essencial para esse conceito de método cientifico € o pres- suposto tacito de que os préprios fatos produzem a teoria, bastando para isso que seja empregado o método apropriado e que o papel do pensamen- to criativo do observador € muito pequeno. O que se requer dele é a ar- gicia suficiente para organizar um experimento aparentemente satisfatorio sem comegar por uma teoria propria que 0 experimento prove ou reprove. Esse conceito de ciéncia como simples seqiiéncia de fatos selecionados, experimentagdo e certeza dos resultados, é obsoleto; e é significativo que, hoje, os cientistas verdadeiros, como fisicos, bidlogos, quimicos, astréno- as limitagGes do conhecimento cientifico 7 mos etc., tenham abandonado ha muito esse género de conceito primitivo do que seja o método cientifico. O que atualmente distingue os cientistas criativos dos pseudocientis- tas nas Ciéncias Sociais é a crenca no poderio da razdo, a crenga em que a razdo e a imaginacdo humanas podem penetrar a superficie ilusdria dos fenédmenos e chegar a hipéteses que tratam das forgas subjacentes, no da superficie. O essencial é que a ultima coisa por eles esperada a certeza. Eles sabem que toda hipétese ser substitufda por uma outra que no estd ne- cessariamente negando a primeira, mas apenas modificando-a e ampliando-a. O cientista pode suportar essa incerteza precisamente por causa de sua fé na razdo humana. O que the importa nao é chegar a um resultado final, mas reduzir o grau de ilusdes, penetrar fundo até as -2izes. O cientista nem sequer teme estar errado; sabe que a histéria da ciéncia é uma crénica de enunciados e afirmagées erréneos, mas produtivos e fecundos, dos quais nascem novos vislumbres que superam 0 relativo erro do enunciado ante- rior e conduzem a novos insights. Se os cientistas estivessem obsidiados pelo desejo de nao errar, nunca teriam conseguido chegar a insights que es- tdo relativamente corretos. E claro, se o cientista social possui apenas inda- gagOes triviais e ndo volta suas atengOes para problemas fundamentais, o seu “método cientifico” obtém resultados e presta-se a que escreva uma quantidade infindavel de ensaios e monografias que precisam ser escritos a fim de promoverem a sua carreira académica. Esse ndo foi sempre, em absoluto, o método adotado pelas Ciéncias Sociais. Bastaria pensarmos em homens como Marx, Durkheim, Mayo, Max Weber e Alfred Weber, Tonnies etc. Eles dedicaram-se aos problemas m: fundamentais e suas respostas ndo se basearam no método ingénuo e positi- vista de confiar em resultados estatisticos como criadores de teoria. Para eles, 0 poder da raz4o e a crenga nesse poder eram tao fortes e significati- vos quanto no caso das mais destacadas das Ciéncias Naturais. Mas nas Ci- éncias Sociais as coisas mudaram. Com o poder crescente das grandes in- dastrias, muitos cientistas sociais submetem-se e passam a tratar principal- mente de problemas que podem ser solucionados sem perturbar o sistema. Qual é 0 procedimento que constitui o método cientifico tanto nas Ciéncias Naturais como na ciéncia social legitima? 1) O cientista ndo parte da estaca zero, mas o seu pensamento é de- terminado por seus conhecimentos anteriores e pelo desafio de dreas inex- ploradas. 2) Aexploragdo sumamente minuciosa e detalhada de fendmenos é a condigao de uma objetividade 6tima. E caracteristico de um cientista que tenha 0 maximo respeito pelos fenomenos observados; muitas e grandes descobertas foram feitas porque um cientista prestou atencdo a um peque- no evento que era visto, mas ignorado, por todas as outras pessoas. 18 grandeza e limitacdes do pensamento de Freud 3) Com base nas teorias conhecidas e no conhecimento mais favord- vel e detalhado, o cientista formula uma hipétese. A fungo de uma hip6- tese deve ser a de incutir alguma ordem aos fenomenos observados e orga- nizd-los, a titulo de ensaio, de tal forma que eles paregam fazer sentido. Também € essencial que o pesquisador seja capaz, a todo momento, de observar novos dados que possam contradizer suas hipéteses, levar 4 sua revisdo e assim por diante. 4) Esse método cientifico requer, é claro, que o cientista esteja, pelo menos, relativamente livre de racionalizagdo de seus proprios desejos ¢ de pensamentos narcisistas; quer dizer, que possa observar os fatos objetiva- mente, sem os distorcer nem lhes conferir um peso inadequado porque esta ansioso por provar que a sua hip6tese é correta. A combinagao de altos voos da imaginacdo e de objetividade raramente é conseguida, sendo essa provavelmente a razo por que sdo raros os grandes cientistas que pode- riam satisfazer ambas as condig6es. A elevada inteligéncia é condigao ne- cessdria, mas no suficiente, para vir a ser um cientista criativo. De fato, a condigo de completa objetividade dificilmente pode ser cumprida de forma total. Em primeiro lugar, o cientista, como acima dissemos, é sem- pre influenciado pelo senso comum de seu tempo e, além disso, somente pessoas extraordindrias e de grande talento so imunes ao narcisismo. En- tretanto, de um modo geral, a disciplina do pensamento cientifico produ- ziu um grau de objetividade e do que poderfamos chamar consciéncia cien- tifica que dificilmente encontra paralelo em outras dreas da vida cultural. Na verdade, o fato de que grandes cientistas, mais do que qualquer outra pessoa, viram © perigo que ameaga hoje a humanidade e nos advertiram sobre isso é a expresso da capacidade deles para serem objetivos e ndo se deixarem abalar pelo clamor de uma opinido publica mal orientada. Esses principios do método cientffico — objetividade, observacao, formacdo de uma hipétese e revisdo pelo estudo mais detalhado dos fatos — embora vilidos para todo esforgo cientifico, nao podem ser aplicados da mesma maneira a todos os objetos do pensamento cientifico. Embora eu nao seja competente para falar sobre Fisica, existe indubitavelmente uma diferenga acentuada entre a observa¢do de uma pessoa como um todo vivo e a observagdo de certos aspectos da personalidade que foram separados da personalidade total e sdo estudados sem referéncia a esse todo. Isso néo pode ser feito com o sistema sem distorcer os aspectos isolados que o in- vestigador tenta estudar, porquanto eles estdo em constante interagdo com cada uma das outras partes do sistema e ndo podem ser entendidos fora do todo. Se tentarmos estudar um aspecto da personalidade 4 margem do seu todo, temos que dissecar a pessoa, isto é, destruir a sua totalidade. Assim, podemos examinar este ou aquele aspecto isolado, mas todos os resultados a que chegarmos serao necessariamente falsos, pois obtidos de material morto, o homem dissecado. as limitagdes do conhecimento cientifico 19 ‘A pessoa viva s6 pode ser entendida como um todo e em sua vivacida- de, quer dizer, no proceso constante de mudanga. Como cada indivfduo é diferente de todos os outros, até mesmo a possibilidade de generalizagoes e de formulagao de leis é limitada, embora o observador cientifico tente sempre apurar alguns principios gerais e algumas leis na multiplicidade dos individuos. Existe uma outra dificuldade na abordagem cientifica para a compre- enséo do homem. Os dados que obtemos de uma pessoa diferem dos que obtemos em outros empreendimentos cientificos. Cumpre entender 0 ho- mem em sua total subjetividade se realmente quisermos entendé-lo. Uma palavra ndo é “uma” palavra porque uma palavra é aquilo que ela significa para uma certa pessoa que a usa. O significado lexical da palavra é apenas uma abstracdo, quando comparado com o significado real que essa palavra tem para a pessoa que a pronuncia. Isso, evidentemente, é irrelevante no que se refere a palavras para objetos fisicos, embora nao inteiramente, mas € muito importante a respeito de palavras que designam experiéncias emo- cionais ou intelectuais. Uma carta de amor escrita no comego do século Soa-nos sentimental, artificial e um tanto boba. Uma carta de amor do nos- So tempo que quisesse transmitir os mesmos sentimentos teria parecido fria € insensivel a pessoas que viveram hd cinqiienta anos. As palavras “amor”, “18”, “coragem”, “édio”, possuem um significado inteiramente subjetivo para cada individuo ¢ no é exagero dizer que nunca significam a mesma coisa para duas pessoas, pois ndo existem duas pessoas que sejam idénticas. Pode até ndo ter o mesmo significado que tinha dez anos atras para uma sé pessoa, em virtude das mudangas que esta sofreu no transcurso desse perio- do de tempo. O mesmo é valido para os sonhos, claro. Dois sonhos que so idénticos em seu contetido tém significados muito diferentes para duas pessoas diferentes. O artista conhece usualmente muito mais acerca de sub- jetividade na experiéncia musical ou outras experiéncias artisticas do que a pessoa comum conhece a respeito da subjetividade das palavras que usa. Um dos pontos importantes na abordagem cientifica de Freud foi, precisamente, © conhecimento da subjetividade das expresses verbais hu- manas, nele baseando a sua tentativa ndo de aceitar como verfdica uma dada palavra que uma pessoa proferiu, mas de indagar o que, nesse, parti- cular momento e nesse particular contexto, essa palavra significou para essa pessoa. De fato, essa subjetividade contribuiu para aumentar conside- ravelmente a objetividade do método de Freud. Qualquer psicélogo que seja suficientemente ingénuo para pensar que “uma palavra é uma palavra uma palavra” somente se comunicaré com uma outra pessoa a um nivel altamente abstrato e ficticio. Uma palavra é um sinal para uma experiéncia Unica e, em certo sentido, nem sequer repetivel, o que, de maneira nenhu- ma, € idéntico ao seu significado lexical. 20 grandeza e limitagées do pensamento de Freud 4. O método cientifico de Freud Se entendermos por método cientifico um método baseado na crenga no poder da razdo otimamente livre de preconceitos subjetivos, observa¢do pormenorizada de fatos, formagdo de hipéteses, revisdo das hipoteses pela descoberta de novos fatos e assim por diante, Freud nao era certamente um cientista. Ele adaptou o seu método cientifico 4 necessidade de estudar 0 irracional, em vez de, como faz a maioria dos cientistas sociais, estudar somente aquilo que pode ser estudado de acordo com um conceito positi- vista de ciéncia. Um outro aspecto importante do pensamento de Freud consiste no fato de que ele vé o seu objeto em fun¢do de um sistema ou es- trutura e de que nos oferece um dos primeiros exemplos de uma Teoria de Sistemas. Em sua concepgdo, nenhum elemento de uma personalidade pode ser entendido sem se compreender 0 todo, e nenhum elemento pode ser alterado sem que ocorram mudangas, ainda que em grau infimo, em outros elementos do sistema. Ao invés do que se verifica numa espécie po- sitivista e dissecadora de Psicologia, e de um modo muito parecido ao dos mais antigos sistemas psicolégicos, como o de Spinoza, por exemplo, o in- dividuo foi visto por Freud como um todo e mais do que uma simples so- ma das partes. Até aqui, falamos sobre o método cientifico e seu significado positivo. Seria desnecessdrio sublinhar que, ao aludir-se ao método cientifico de um pensador, no se pretende dizer que ele estava certo em seus resultados. Com efeito, a historia do pensamento cientifico é uma historia de erros fecundos. Eis apenas um exemplo da abordagem cientifica de Freud a que me refiro: a sua descrigdéo do caso de Dora (S. Freud, “Fragmentos de uma Andlise de um Caso de Histeria”, 1905e). Freud tratou essa paciente de histeria e, apés trés meses, a andlise chegou ao fim. Sem entrar nos deta- Ihes da apresentagdo do caso por Freud, quero mostrar a atitude objetiva de Freud transcrevendo os seguintes trechos da descrigao do caso. “A paciente iniciou a terceira sessdo com estas palavras: — O senhor sabe que estou aqui hoje pela tiltima vez? — Como posso saber se vocé nfo me contou nada a esse respeito? — Sim, decidi agiientar até ao Ano Novo. [Era 0 dia 31 de dezem- bro.] Mas ndo esperarei mais do que isso para ser curada. — Vocé sabe que tem liberdade de parar o tratamento a qualquer momento. Mas, por hoje, continuaremos com o nosso trabalho. Quando foi que chegou a essa decisao? — Ha umas duas semanas, penso eu. — Isso faz lembrar uma camareira ou governanta. .. um aviso prévio ~ de quinze dias. as limitagdes do conhecimento cientifico 21 — Havia uma governanta que fez esse aviso em casa dos K., quando eu os estava visitando nessa época em L., a beira do lago. — Ah, sim? Vocé nunca me tinha falado a respeito dela. Conte-me.” (S. Freud, 190Se, p. 105.) Freud passou 0 resto da sesso analisando 0 que essa passagem ao ato (acting out) do papel de uma governanta realmente significava. Nao impor- ta aqui a que resultados Freud chegou; 0 que importa é a pureza de sua abordagem cientifica. Ele no se enfureceu, ndo pediu paciente que re- considerasse sua decisdo, nem a encorajou dizendo que, se ela continuasse trabalhando com ele, teria considerdveis melhoras, Freud afirmou apenas que, como Dora estava ali com ele, mesmo que fosse a tiltima sesso, po- deriam perfeitamente usar o tempo para entender o que a decisdo dela si; nificava. Mas, apesar de toda a admiracdo pela fé de Freud na raz4o,e no méto- do cientifico, nao se pode negar que Freud nos dé freqiientemente a imagem de um racionalista obsessivo que constréi teorias na base de praticamente nada e violenta, de fato, a razdo. Fez amitide construg6es usando pequenos fragmentos de provas que levaram a conclus6es absurdas. Refiro-me ao caso descrito em A Historia de uma Neurose Infantil.* Como o préprio Freud comentou, quando escreveu a histdria desse caso, ele ainda estava sob a re- cente impressdo que lhe causara o que designou por “interpretagdo retor- cida” da psicandlise por C.G. Jung e Alfred Adler. A fim de poder explicar © que quero dizer quando me refiro ao pensamento obsessivo de Freud, devo analisar em certo detalhe esse relato. Quais sdo os fatos e problemas essenciais nesse caso? Em 1910, um jovem russo extremamente saudavel recorreu a Freud em busca de ajuda. O tratamento durou desde essa época até julho de 1914, quando Freud considerou o caso concluido e escreveu a historia. Freud re- lata “que o paciente tinha vivido uma vida aproximadamente normal du- rante os 10 anos de sua meninice que precederam a data de sua doenga, ¢ completou seus estudos secundarios sem grandes dificuldades. Mas os anos de infancia foram dominados por um severo distirbio neurético que se ini- ciou imediatamente antes de seu quarto aniversério como uma histeria de ansiedade (na forma de uma fobia de animal), depois convertida em neuro- se obsessiva com um contetido religioso, e que durou, com todas as suas re- percuss6es, até aos 10 anos”. O paciente tinha sido classificado por grandes S. Freud, 19185, Freud terminou a histéria do Homem dos Lobos, como é popu- larmente reconhecida, em novtmbro de 1914, mas protelou a sua pblicagdo durante quatro anos. (Comparar também a compila¢do sumamente interessante, organizada por Muriel Gardiner, The Wolf-Man by the Wolf-Man, em que ela compila uma auto- biografia do Homem dos Lobos, 0 caso descrito por Freud, num suplemento por Ruth Mack Brunswick.) 22 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud autoridades psiquidtricas como portador de loucura manfaco-depressiva, mas Freud viu claramente que nao era esse 0 caso. (Uma das maiores auto- ridades, 0 Professor Bumke, nessa época em Munique, baseou o seu diag- ndstico no fato de que o paciente se mostrava ora euférico ora profunda- mente deprimido quando 0 consultou. Como nio se deu ao trabalho de apurar se haveria alguma coisa na realidade que pudesse ser responsavel por essas mudangas de estado de animo, Bumke nao péde descobrir que o pa- ciente estivera apaixonado por uma enfermeira na casa de repouso onde es- tivera e que, toda vez que ela correspondia ao seu amor, ele exultava; € sempre que ela se recusava, ele ficava deprimido.) Freud percebeu clara- mente que néo havia uma psicose maniaco-depressiva, nada, de fato, a nfo ser a imagem de um jovem muito rico, ocioso e entediado. Mas desco- briu algo mais; Freud apurou que o paciente tinha sofrido uma neurose in- fantil. Contou o paciente que, antes dos quatro ou cinco anos de idade, de- senvolvera um medo de lobos, o qual foi despertado em grande parte pela sua irma, que lhe mostrava repetidamente um livro ilustrado em que um lobo era representado. Sempre que ele via essa ilustracdo, comegava a gri- tar e com medo de que o lobo viesse ¢ o devorasse. Considerando que ele vivia numa grande propriedade rural na Russia, era natural que 0 menino tivesse contraido medo dos lobos, o qual era instigado pelas ameagas da ir- ma. Por outro lado, ele comprazia-se em bater em cavalos. Também mani- festou nesse periodo sinais de uma neurose obsessiva como, por exemplo, pela obsessdo em pensar “Porco de Deus” e “Esterco de Deus”. Como da- do adicional, mencione-se que 0 paciente se lembrou subitamente de que, quando ainda era muito pequeno, antes dos cinco anos, a irma, dois anos mais velha, que mais tarde se suicidaria, o induziu a alguma espécie de jogo sexual. De alguns eventos como esses, concluiu Freud que a vida se- xual do menino, “a qual estava comegando a ficar sob a influéncia da zona genital, recuou diante de um obstdculo externo e foi devolvida por isso a uma fase anterior de organizagdo pré-genital” (S. Freud, 19188, p. 25). Mas todos esses dados s4o relativamente irrelevantes em comparagdo com a principal interpretagdo de Freud, a do sonho do Homem dos Lobos. Ele relatou a Freud o seguinte sonho: “Sonhei que era de noite e estava deitado em minha cama. (Os pés da cama estavam na diregdo da janela; defronte da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho e que era de noite.) De subito, a janela abriu-se sozinha e eu fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira defronte da janela. Havia uns seis ou sete deles. Eram muito brancos e pareciam mais raposas ou cdes-pastores, pois tinham longas caudas como as raposas € orelhas espetadas como os cdes quando prestam atengdo a alguma coisa. Com grande terror, evidentemente com medo de ser devorado pelos lobos, gritei e acordei.” (S. Freud, 1918, pp. 28 e segs.) as limitagdes do conhecimento cientifico 23 Qual é a interpretagdo de Freud desse sonho? O sonho mostra que o menino tinha estado dormindo em seu bergo com a idade de um ano e meio; despertou certa tarde, possivelmente as 5 horas e “‘presenciou 0 coitus a tergo [por trds] trés vezes seguidas. Pode ver os Orgios genitais da mie, assim como 0 érgao do pai, e compreendeu o processo e seu significado. Por ultimo, interrompeu o intercurso parental de um modo que ser discutido mais adiante” (ibid., p. 38). Nesse ponto, Freud comentou: “Cheguei agora ao ponto em que devo abandonar 0 apoio que tenho tido até aqui do curso da andlise. Receio que seja também o ponto em que © crédito do leitor me abandonard” (ibid., p. 36). Assim foi — e mais do que isso. Formar uma hip6tese sobre o que realmente aconteceu ao meni- no de um ano e meio de idade, partindo de um sonho que nada diz a no ser que a crianga viu alguns lobos, parece ser um exemplo de pensamento obsessive com desprezo completo pela realidade. Por certo, Freud usa essa associagdo e integra-a numa tessitura total, mas essa tessitura ndo se justi- fica com qualquer pretensdo de realidade. Essa interpretagao do sonho do Homem dos Lobos, um dos exemplos classicos da arte freudiana de inter- pretacdo de sonhos, ¢, na realidade, um testemunho da capacidade e da inclinagao de Freud para construir a realidade a partir de uma centena de incidentes, quer conjeturados, quer obtidos por interpretacdo, retirados do contexto e usados a servigo de certas conclusdes que se ajustam a idéia pre- concebida de Freud. Muitas de suas interpretac6es tém to escassa realida- de como base quanto a interpretagdo desse famoso sonho do Homem dos Lobos; mas, por raz6es de espaco, ndo transcreverei outras. Isso pode ser afirmado, entretanto, mesmo que Freud chegue ao que parece ser a interpretaco absurda de um sonho: € admiravel a sua capaci- dade para observar e levar em consideragdo até os minimos detalhes, tanto nos sonhos como nas associagGes do paciente. Nada, por menor que seja, parece escapar a sua atengdo; tudo é relatado com a maior precisdo. Infelizmente, isso ndo aconteceu com muitos de seus discipulos. Ca- recendo do extraordindrio poder de pensamento penetrante e de atengdo aos detalhes que Freud possuta, eles escolheram um caminho mais facil e chegaram a interpretagdes que também sao absurdas, mas resultam de algu- ma vaga especulacao que simplifica tremendamente as coisas. De fato, Freud nunca simplificou; pelo contrdrio, complicou e supercomplicou ao ponto de quase nos sentirmos num labirinto, uma vez mergulhados em plena in- terpretagdo de Freud. O método de pensamento de Freud leva-nos a desco- brir que um fenomeno significa o que parece significar, mas que também pode expressar a sua negagdo. Assim, ele reconheceu que toda énfase sobre 0 amor podia esconder ddio suprimido, que a insegurana podia ser acober- tada pela arrogancia, o medo pela agressividade etc. Isso foi uma importan- te descoberta; contudo, foi também perigosa. Se formos menos cuidadosos, 24 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud como foram tantos de seus discipulos, chegaremos facilmente a hipdteses que siio deletérias para o pensamento cientifico. A fim de nfo parecerem vulgares e mostrarem que possuem conhecimentos especiais, no poucos psicanalistas supuseram, de modo rotineiro, que seus pacientes eram moti- vados pelo oposto daquilo por que pensavam ser motivados. A “homossexualidade inconsciente” é um dos melhores exemplos. E uma parte da teoria freudiana pela qual muitas pessoas tém sido prejudica- das. O analista, para mostrar que aprofunda as coisas bem abaixo da super- ficie, pode sugerir que o paciente sofre de homossexualidade inconsciente. Supondo-se que o paciente tem uma vida heterosexual muito intensa, ser4 argumentado que essa mesma intensidade prova que isso ajuda a reprimir uma homossexualidade inconsciente. Ou, supondo-se que o paciente nado tem interesse sexual nenhum por pessoas do seu proprio sexo, o argumen- to seré que a sua completa auséncia de interesse homossexual é uma prova de represso da homossexualidade; que se um homem elogia a cor da gra- vata de um outro homem isso é prova prima facie de sua homossexualidade inconsciente. O problema, é claro, estd em que, com esse método, a ausén cia de homossexualidade nunca poderd ser provada e no raramente a and- lise prosseguiu por anos a fio em busca da homossexualidade inconsciente para a qual nao existia prova nenhuma, exceto na base do método de que qualquer coisa podera significar 0 oposto de seu significado manifesto. Esse habito teve resultados desastrosos porque permitiu um grau de arbitrarie- dade na interpretagdo que freqiientemente redundou em conclusdes com- pletamente erréneas. (Existe um paralelo nitido entre esse freudismo e 0 marxismo vulgar que é cultivado no pensamento te6rico soviético. Marx, como Freud, mostrou que uma coisa pode significar 0 seu oposto, mas, é claro, para Marx, isso também era algo que tinha de ser provado. Entretan- to, no pensamento marxista vulgar, isso levou a conclusao de que se pode sempre sustentar que, se algo ndo ¢ 0 que diz, é 0 seu oposto e, assim, tor- na-se facil manipular 0 pensamento de acordo com os propésitos dogmati- cos de cada um.) CAPITULO II GRANDEZA E LIMITACGES DAS DESCOBERTAS DE FREUD A finalidade das consideragdes que se seguem é mostrar: 1) em que consistiram as principais descobertas de Freud; 2) como as suas premissas filos6ficas e pessoais o forgaram a restrin- gir e distorcer suas descobertas; 3) como o seu significado é imensamente engrandecido se libertarmos as formulagGes de Freud dessas distorgdes; 4) que uma outra forma de dizer o mesmo é distinguir 0 que é essen- cial e duradouro do que é condicionado pelo tempo e socialmente contin- gente na teoria de Freud. Esse propésito nao constitui uma “revisdo” de Freud ou “neofreudis- mo”. E, outrossim, um desenvolvimento da esséncia do pensamento de Freud mediante uma interpretagdo critica de sua base filos6fica, substituin- do o materialismo burgués pelo materialismo histérico. 1. A descoberta do inconsciente Freud nao foi o primeiro, por certo, a descobrir o fendmeno de que al- bergamos pensamentos e conflitos de que nao estamos conscientes, ou seja, que sao inconscientes e tém uma vida escondida em nossa psique. Mas Freud foi o primeiro a fazer dessa descoberta o centro de seu sistema psicol6gico ¢ a investigar os fendmenos inconscientes no maior detalhe e com surpreen- dentes resultados. Basicamente, Freud lidou com uma discrepancia entre pensar e ser. Pensamos uma coisa, por exemplo, que 0 nosso comporta- mento é motivado por amor, devocdo, sentimento de dever etc., endo esta- mos conscientes do fato de que, pelo contrario, é motivado pelo desejo de poder, masoquismo, dependéncia. A descoberta de Freud foi que o que pen- samos nao € necessariamente idéntico ao que somos; que aquilo que uma pessoa pensa de si mesmo pode ser e, de fato, usualmente é muito diferen- te ou até pode estar em completa contradi¢do com o que realmente é; que a maioria das pessoas vive num mundo de auto-sugestdo, em que aceita- MOS OS Nossos pensamentos como se representassem a realidade. De fato, a importancia histérica do conceito freudiano de inconsciente é que, numa 26 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud longa tradigdo, se supunha que pensar e ser eram idénticos e, nas formas mais estritas do idealismo filos6fico, que somente o pensamento (a idéia, a palavra) era real, ao passo que o mundo fenomenal nao tinha realidade propria.’ Freud, ao reduzir boa parte do pensamento consciente ao papel de uma racionalizagdo de impulsos, tendia a destruir o fundamento do ra- cionalismo de que ele proprio era um to notével expoente. Com a sua des coberta da discrepancia entre pensar e ser, Freud nao s6 abalou a tradiggo ocidental do idealismo em suas formas filos6fica e popular, mas fez uma descoberta de extraordindrio alcance no campo da ética. Até Freud, a sin- ceridade pOde ser definida como dizer aquilo em que se acredita. Depois de Freud, isso deixou de ser uma defini¢do suficiente de sinceridade. A dife- renga entre 0 que eu digo e aquilo em que acredito assume uma nova di- mensdo, a saber, a da minha crenga inconsciente ou do meu conflito in- consciente. Se um homem esté convencido de que castiga o filho pequeno Porque isso ajuda o desenvolvimento da crianga, ele teria sido inteiramente sincero na época pré-freudiana, desde que acreditasse realmente nisso. De- pois de Freud, a questao critica é saber se a crenga desse homem néo serd sim- plesmente uma racionalizagdo de seus desejos sddicos, quer dizer, que sente prazer em espancar a crianga e usa apenas como pretexto a idéia de que isso € em beneficio dela. Antes de Freud, ele teria sido um homem sincero; depois de Freud, nesse caso particular, seria um hipécrita e, de fato, pode- riamos preferir eticamente aquele que, pelo menos, é bastante honesto para admitir o seu verdadeiro motivo, Seria ndo so mais honesto, mas me- nos perigoso. Nao existem limites para todas as espécies de crueldade e per- versidade que ndo tenham sido racionalizadas, individualmente ou na hist6- ria, como motivadas por boas intengdes. A partir de Freud, a frase “Fiz isso por bem” perdeu a sua fungdo como desculpa. Fazer algo por bem é uma das melhores racionalizagdes para agir mal, ¢ nada € mais facil do que a pessoa persuadir-se da validade dessa racionalizacao. Ha um terceiro resultado da descoberta de Freud. Numa cultura como a nossa, em que as palavras desempenham um tremendo papel, esse peso das palavras serve amitde para negligenciar, quando nao distorcer, a expe- riéncia. Se alguém diz: “Eu te amo”, ou “Eu amo Deus”, ou “Eu amo o meu pais”, profere palavras que, ndo obstante o fato de acreditar plena- mente na verdade delas, podem ser profundamente insinceras e nado passar Quero dizer, de passagem, que parece haver numerosas provas de que a crenga na superioridade da idéia e do pensamento sobre a realidade material foi um resultado da vitoria do sistema patriarcal sobre 0 matriarcal, Uma vez que os homens nao podem criar naturalmente, quer dizer, “dar a luz” de um modo natural como as mulheres podem, insistiram em que também sdo capazes de “dar 4 luz” ndo por scus ventres, ‘mas por seus cérebros, Cf. a minha interpretagdo do mito da criagdo em A Linguagem #squecida (E., Fromm, 19512), grandeza e limitacdes das descobertas de Freud 27 de uma racionalizacao do desejo de poder, éxito, fama, dinheiro, dessa pes- soa ou uma expresso de sua propria dependéncia do seu grupo. E possivel que ndo haja —e usualmente nao hd qualquer elemento de amor envolvido no que realmente se passa. A descoberta de Freud ainda nao tem 0 efeito, até aqui, de se tornar to geralmente aceita que as pessoas se mostrem ins- tintivamente criticas em relagdo as declaragdes de boas intengdes ou hist6- rias de comportamento exemplar; contudo, o fato é que a sua teoria é uma teoria critica, como foi a de Marx. Ele ndo aceitou afirmagées por seu valor aparente; considerou-as ceticamente, mesmo quando no duvidou da sin- ceridade consciente da pessoa. Mas a sinceridade consciente significa relati- vamente pouco, dentro da estrutura total da personalidade de alguém. ‘A grande descoberta de Freud e suas conseqiiéncias filos6ficas e cultu- rais fundamentais est@o refletidas no conflito entre pensar e ser. Mas ele restringiu a importancia de sua descoberta pelo pressuposto de que, essen- cialmente, 0 que é reprimido € a consciéncia de impulsos sexuais infantis e de que o conflito entre pensar e ser consiste, basicamente, num conflito entre 0 pensamento e a sexualidade infantil. Essa restrigdo nao é surpreen- dente. Conforme eu disse antes, estando sob a influéncia do materialismo de seu tempo, Freud pensou ter descoberto o contetido do reprimido nos impulsos que eram nao s6 psiquicos ¢ fisiol6gicos ao mesmo tempo mas também, 0 que era Obvio, sofriam repressdo na sociedade em que Freud vi- via, mais especificamente, na classe média com sua moralidade vitoriana, donde eram oriundos Freud e a maioria de seus pacientes. Ele encontrou provas de que fendmenos patoldgicos como, por exemplo, a histeria, eram as vezes expressdes de impulsos e conflitos sexuais reprimidos. O que ele fez foi identificar a estrutura social de sua classe e respectivos problemas com 0 homem como tal e os problemas que tém suas raizes na existéncia humana. Esse foi, na verdade, um dos pontos cegos de Freud. Para ele, so- ciedade burguesa e sociedade civilizada eram sindnimos; ¢, embora reco- nhecesse a existéncia de culturas peculiares que eram diferentes da socieda- de burguesa, elas n@o passavam, em seu entender, de culturas primitivas, subdesenvolvidas. A filosofia materialista, em conjunto com a repressdo generalizada da consciéncia de desejos sexuais, constituiu a base a partir da qual Freud construiu 0 contetido do inconsciente. Além disso, ignorou o fato de que, com muita freqiiéncia, os impulsos sexuais ndo devem sua presenga ou in- tensidade ao substrato fisiolagico da sexualidade, mas, pelo contrario, sio muitas vezes 0 produto de impulsos inteiramente diferentes, os quais, em si mesmos, nao sdo sexuais. Assim, uma fonte de desejo sexual pode ser 0 narcisismo de um individuo, ou o seu sadismo, ou a sua tendéncia para a submissdo, ou pura e simplesmente o tédio; e € bem sabido que o poder e a riqueza so importantes elementos no despertar de desejos sexuais. 28 grandeza e limitagées do pensamento de Freud Hoje, apenas duas ou trés geragdes depois de Freud, tornou-se dbvio que, na cultura das cidades, a sexualidade ndo é 0 principal objeto de re- pressdo. Pelo contrdrio, uma vez que o homem-massa se dedica a converter- se num homo consumens, 0 sexo tornou-se um dos principais artigos de consumo (e, de fato, um dos mais baratos), 0 que cria a ilusdo de felicidade € satisfacao. Os conflitos a serem observados no homem, entre impulsos conscien- tes e inconscientes, sdo muito diferentes. Eis uma lista de alguns dos mais freqiientes desses conflitos: — Consciéncia de liberdade — auséncia inconsciente de liberdade. — Boa consciéncia — sentimento inconsciente de culpa. — Sentimento consciente de felicidade — depressdo inconsciente. — Honestidade consciente — frauduléncia inconsciente. — Consciéncia individualista — sugestionabilidade inconsciente. — Consciéncia de poder — sentimento inconsciente de impoténcia. — Consciéncia de fé —cinismo inconsciente e completa auséncia de fé. — Consciéncia de amor — indiferenga inconsciente ou édio. — Consciéncia de ser ativo — passividade psiquica inconsciente e in- doléncia. — Consciéncia de ser realista — falta inconsciente de realismo. Estas so as verdadeiras contradig6es hodiernas que sdo reprimidas racionalizadas. Elas jd existiam na época de Freud, mas algumas delas ndo de uma forma tdo drastica quanto hoje. O mais importante, porém, é que Freud nao lhes prestou qualquer atengao por estar fascinado pelo sexo e sua repressdo. No desenvolvimento da psicandlise freudiana ortodoxa, a sexualidade infantil ainda continua sendo a pedra angular do sistema. Assim, a anélise serviu como resisténcia contra a abordagem dos conflitos reais e mais decisivos, dentro do homem e entre homens. 2. Ocomplexo de Edipo Outra das grandes descobertas de Freud foi o chamado complexo de Edipo; postulou ele que 0 complexo de Edipo ndo-resolvido esté na base de toda neurose. O que Freud quis indicar com o complexo de Edipo é simples: 0 meni- no, em virtude do despertar de suas pulsdes sexuais por volta dos 4 ou 5 anos de idade, desenvolve intensa fixagdo e desejo sexual em relagdo a mae. Ele a quer, e o pai torna-se por isso o seu rival. Desenvolve hostilidade con- tra o pai, quer substiturlo e, em iltima instancia, livrar-se dele. Sentindo que © pai € o seu rival, 0 menino receia ser castrado pelo pai-rival. Freud deu a essa constelagdo 0 nome de complexo de Edipo porque no mito gre- go é Edipo quem se apaixona pela mae sem saber que a mulher amada é, na verdade, sua propria mae. Quando o incesto é descoberto, Edipo cega-se, grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 29 um simbolo de sua propria castragdo, e abandona seu lar e familia, acom- panhado apenas pelas duas filhas. A grande descoberta de Freud, a esse respeito, foi o fato da intensida- de da fixagdo do menino na mae ou numa figura materna. O grau dessa fi- xagdo, do desejo de ser amado e cuidado pela mae, de ndo perder a prote- ¢do dela e — em tantos homens — nao renunciar 4 mae, mas, pelo contrario, vé-la em outras mulheres que, embora da idade do homem, tém para ele 0 significado de uma mie, ndo pode ser superestimado. Essa fixagdo também existe nas meninas, mas parece ter um desfecho algo diferente que ndo foi muito bem esclarecido por Freud e que, de fato, é muito dificil de compre- ender. A fixagdo do homem na mie nao é dificil de entender. Mesmo na vida intra-uterina, ela é o seu mundo. Ele é completamente parte dela, alimenta- do por ela, envolto por ela, protegido por ela e, mesmo depois do nasci- cimento, essa situagéo nado muda fundamentalmente. Sem a ajuda da mae, ele morreria; sem a ternura dela, ele ficaria mentalmente doente. Ela é quem dé vida e de quem a vida dele depende. Ela também pode arrebatar- lhe a vida pela recusa em cumprir suas fungdes maternas. (O simbolo das fungdes contraditérias da mae é a deusa indiana Kali, criadora da vida e sua destruidora.) O papel do pai nos primeiros anos de vida do menino é quase tao insignificante quanto a sua fungdo incidental de gerar um filho. Embora seja uma verdade cientifica que 0 esperma masculino deve unir-se com o évulo feminino, é uma verdade exponencial que o homem nao tem praticamente qualquer papel na procriagdo de uma crianga e nos cuidados indispensaveis em seus primeiros anos de vida. Falando psicologicamente, a sua presenga é desnecessdria e pode ser substitufda com igual eficiéncia pela inseminagdo artificial. Pode voltar a desempenhar um papel quando a crianga atinge os quatro ou cinco anos de idade, como aquele que ensina © filho, que lhe serve de exemplo, que é responsdvel pela sua formagdo in- telectual e moral. Lamentavelmente, 0 pai é muitas vezes um exemplo de exploraco, irracionalidade e imoralidade. Ele quer usualmente moldar 0 filho 4 sua propria imagem, para que se torne itil e o ajude em seu traba- Iho, seja o herdeiro de seus bens e também para 0 compensar de seus pré- prios fracassos, realizando o filho aquilo que o pai ndo conseguiu realizar. A fixagdo e dependéncia da figura materna é mais do que a dedicagao a uma pessoa. E uma Ansia por uma situag%o em que a crianga se sente pro- tegida e amada, e ainda nfo tem que arcar com qualquer responsabilidade. Mas ndo € apenas a crianca que sente esse anseio. Se dizemos que a crianga é impotente e, por conseguinte, necessita da mae, ndo devemos esquecer que todo ser humano é impotente em relagdo ao mundo como um todo. E certo que ele pode defender-se e cuidar de si até um certo grau, mas, consi- derando os perigos, incertezas e riscos com que se defronta, considerando, por outro lado, de quao pouco poder dispde para fazer frente a doenga fi- 30 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud sica, pobreza e injustiga, é Ifcito indagar se o adulto nao ser4 tanto ou mais. impotente que a crianga. Mas a crianga tem uma mie que, pelo seu amor, afasta todos os perigos. O adulto nao tem ninguém. Na verdade, pode ter amigos, uma esposa, uma certa soma de seguranca social; no entanto, mes- mo assim, a sua possibilidade de se defender e de adquirir o que necessita é muito frdgil. Seré surpreendente que ele albergue em seu intimo o sonho de reencontrar uma mae ou um mundo em que possa voltar a ser crianga? Com efeito, a contradicdo entre a benignidade da existéncia infantil para- disfaca e as necessidades que decorrem de sua existéncia adulta pode ser corretamente considerada o nucleo de todo desenvolvimento neurético. Onde Freud errou — ¢ tinha de errar por causa de suas premissas — foi que entendeu a fixacdo na mae como sendo essencialmente de natureza sexual, Empregando a sua teoria da sexualidade infantil, era logico, para ele, pressupor que o que vincula um menino a mae é ser esta a primeira mulher em sua vida, a que esté mais perto dele e proporciona aos seus dese- jos sexuais um objeto natural pelo qual ele ansiava. Também isso é, em consi- derdvel medida, verdadeiro. Existem amplas provas de que a mie é para filho pequeno nao s6 um objeto de afeicdo, mas também um objeto de de- sejo sexual; entretanto — ¢ aqui estd o grande erro de Freud — nfo é 0 dese- jo sexual que tora t4o intenso e vital o relacionamento com a mie. Essa intensidade baseia-se nas necessidades do estado paradisiaco de que falei A pouco, e nao € esse desejo sexual que torna a figura da mie tao impor- tante, ndo s6 na infancia, mas, talvez, durante a vida inteira de uma pessoa. Freud desprezou o fato notério de que os desejos sexuais per se ndo se caracterizam por grande estabilidade. Mesmo o relacionamento sexual mais intenso, se ndo for combinado com afeicao e fortes vinculos emocio- nais, © mais importante dos quais é o amor, é bastante efémero e, se lhe atribuirmos uma duragao de seis meses, estaremos provavelmente do lado liberal. A sexualidade como tal é volivel e ainda mais, talvez, nos homens, que sdo aventureiros e inconstantes, do que nas mulheres, em quem a res- ponsabilidade por uma crianga confere ao sexo um significado mais sério. ‘Supor que os homens devem estar ligados 4 mae por causa da intensidade de um vinculo sexual que teve sua origem 20, 30 ou SO anos atrds é um re- matado absurdo, se considerarmos que muitos no se sentem ligados a es- posa depois de nem mesmo trés anos de casamento sexualmente satisfa- torio, Com efeito, para os meninos pequenos, a mae pode ser um objeto de desejo porque € uma das primeiras mulheres chegadas a ele; mas tam- bém é verdade —e Freud assinalou esse fato ao relatar alguns dos casos por ele proprio tratados — que os meninos pequenos so igualmente propensos a apaixonarem-se por meninas da mesma idade deles e a alimentarem casos de amor arrebatado por elas, ficando a mae relativamente esquecida. Nao se entende a vida amorosa de um homem se ndo se observar como ele oscila entre o desejo de reencontrar a mae numa outra mulher e, a0 grandeza e limitagGes das descobertas de Freud 31 mesmo tempo, o desejo de se distanciar da mde e encontrar uma mulher que seja o mais possivel diferente da figura materna. Esse conflito é uma das causas basicas de divércio. Acontece facilmente que a mulher nao era uma figura materna no inicio do casamento, mas, na vida conjugal, em que ela cuida da casa, a esposa torna-se freqiientemente uma espécie de disci- plinadora que afasta o homem do seu desejo infantil para novas aventuras: por esse proprio fato, assume a fungdo da mie e como tal é desejada pelo homem e, a0 mesmo tempo, receia-a e € repelido por ela. Com freqiiéncia, um homem mais velho apaixona-se por uma jovem, entre outras coisas por- que ela esta livre de todas as caracteristicas maternas e, enquanto estiver enamorada dele, o homem tem a ilusfo de haver escapado a sua dependén- cia da figura materna. Freud, em sua descoberta do vinculo edipiano com a mae, descobriu um dos fendmenos mais significativos, a saber, a devocdo do homem a mie e o medo de perdé-la; mas distorceu essa grande descoberta ao expli- cé-la como um fendmeno sexual e, assim, obscureceu a importancia fun- damental de sua descoberta — a de que o anelo pela mae é um dos mais profundos desejos emocionais enraizados na propria existéncia do homem. A outra parte do complexo de Edipo, a rivalidade e a hostilidade con- tra o pai, culminando no desejo parricida, é uma observacdo igualmente vé- lida que, entretanto, nada tem necessariamente a ver com a devogao a mfe. Freud atribui um significado universal a uma caracteristica exclusiva da sociedade patriarcal. Numa sociedade patriarcal, o filho esta submetido a vontade do pai; é propriedade do pai, que determina o seu destino. Para ser o herdeiro do pai, quer dizer, em termos gerais, para ser bem-sucedido na vida, 0 filho deve ndo s6 agradar ao pai como submeter-se a ele, obedecer- lhe e substituir a sua propria vontade pela paterna. Como sempre, a opres- sdo conduz ao 6dio, ao desejo de se libertar do opressor e, em Ultima ins- tancia, de o eliminar. Vemos essa situacdo claramente em exemplos tais como o velho camponés que manda como um ditador no seu filho, na mulher, até ao dia em que morre. Se esse dia estd longe, se o filho chega aos 30,40 ou 50 anos de idade e ainda tem que aceitar a dominagdo paterna, entao, em muitos casos, ele odiard realmente o pai como um opressor. No moderno mundo dos negécios tudo isso estd grandemente mitigado; a parte as excegdes, o pai ndo é dono de nada em que o filho seja 0 sucessor, © progresso e a ascensdo das pessoas mais jovens baseia-se, em grande parte, em suas proprias capacidades, e s6 raramente, como em empresas perten- centes a uma familia, a longevidade do pai mantém o filho numa posigéo inferior. Entretanto, esses desenvolvimentos séo muito recentes e € licito afirmar que, durante muitos milhares de anos de sociedade patriarcal, hou- ve um conflito inerente as relagdes entre pai e filho, baseado no controle paterno sobre o filho e no desejo deste de se rebelar contra tal controle. Freud viu esse conflito entre pai ¢ filho, mas ndo o reconheceu pelo que é, eae aaa 32 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud uma caracteristica da sociedade patriarcal, preferindo interpreté-lo como sendo essencialmente a rivalidade sexual entre pai e filho. Ambas as observagdes, 0 desejo ndo-sexual de protegdo e seguranca, a bem-aventuranga paradisfaca, e 0 conflito entre pai e filho como subprodu- to necessdrio da sociedade patriarcal, foram combinadas por Freud numa unidade em que a fixagdo na mie era sexual e, por conseguinte, o pai se tornava um rival, um nome a ser temido e odiado. O 6dio contra o pai por causa da rivalidade sexual em torno da mie foi freqiientemente pro- vado por ditos de meninos como este, que nao é raro ouvir-se: “Quando papai morrer, eu caso com yocé, mamae”. Isso foi usado como prova dos impulsos assassinos e da extensdo da rivalidade do menino contra o pai. Nao acredito que prove nada disso. Naturalmente, o menino tem impulsos em que quer ser grande como o pai e substitui-lo como favorito da mae. Consideramos natural, no estado intermédio em que vivem todas as crian- gas acima dos quatro anos, quando ndo sao realmente criangas nem podem ser tomadas como adultos, que aspirem a ser grandes como 0 pai e os outros adultos; mas 4 frase “Quando papai morrer caso com vocé” é atri- buido um peso exagerado por todos quantos admitem que esse menino quer realmente que o pai morra. Ora, a crianga nessa idade nao tem idéia nenhuma do que seja a morte, e tudo o que ela estd dizendo é “Desejo que papai v4 embora, para que eu possa receber toda a atencdo da mamae”. Ex- trair dai a conclusdo de um 6dio profundo do filho pelo pai, inclusive esse desejo de morte, presta muito pouca atengdo ao mundo de imaginacdo in- fantil e diferenga entre a crianga e 0 adulto. Atentemos para o mito de Edipo em que Freud viu a confirmagdo de sua interpretagdo da natureza trégica dos desejos incestuosos do menino e de sua rivalidade com o pai (cf. também, para o que se segue, E. Fromm, A Linguagem Esquecida, 1951a, Capitulo 7). Freud ocupou-se téo-s6 da primeira tragédia da trilogia de Séfocles, O Rei Edipo, na qual se nos con- ta que um ordculo dissera a Laio, o rei de Tebas, e a sua esposa, Jocasta, que se tivessem um filho, esse filho mataria o pai e casaria com a propria mae. Quando lhes nasceu um filho, Edipo, Jocasta decidiu escapar ao des- tino predito pelo ordculo, mandando matar o bebé. Ela entregou Edipo a um pastor, que deveria abandonar a ‘crianga na floresta com os pés atados, para que ela morresse. Mas o pastor, condoendo-se do bebé, entregou-o a um homem que estava a servigo do rei de Corintoe que, por sua vez, 0 levou a seu amo. O rei adotou o menino e 0 jovem principe cresceu em Corinto sem saber que ndo era o verdadeiro filho do rei de Corinto. O ordculo vaticina-lhe entdo em Delfos que o seu destino é matar o pai e casar com a mie. Decide evitar esse augdrio nunca mais vendo seus pais supostos. Em seu caminho de regresso a Tebas, trava uma discussdo violenta com um an- cio que vinha numa carruagem, enfurece-se, e mata o homem e o servo grandeza e limitagées das descobertas de Freud 33 que o acompanhava, sem saber que tinha matado o proprio pai, o rei de Tebas. Suas peregrinagdes conduzem-no a Tebas. Af, a Esfinge esté devo- rando os jovens da cidade e s6 deixard de o fazer se alguém encontrar a res- posta certa para um enigma que ela propde. O enigma é este; “O que é que no comego anda de quatro, depois de dois finalmente de trés?”” A cidade de Tebas prometera a quem decifrasse a adivinhagdo e libertasse a cidade da Esfinge, que seria feito rei e receberia a vidva do tltimo rei como espo- sa. Edipo aceita o repto. Encontra a resposta para o enigma — que é 0 homem, caminhando de quatro em crianga, com as duas pernas quando adulto, e de trés na velhice (apoiado numa bengala). A Esfinge precipitou- se no mar, a cidade foi salva da calamidade e Edipo torna-se rei e casa com Jocasta, sua mae. Depois que Edipo reinou feliz por algum tempo, a cidade foi assolada por uma peste que matou muitos de seus cidaddos, Tirésias, 0 vidente, re- vela que a peste é a puni¢ao pelo duplo crime que Edipo cometera, 0 parri- cidio e 0 incesto. Edipo, depois de tentar desesperadamente nao ver essa verdade, cega-se quando é compelido a vé-la e Jocasta suicida-se. A tragé- dia termina no ponto em que Edipo sofreu punico por um crime que cometera sem premeditacao e apesar de seu esforgo consciente para evi- tar perpetra-lo. Estava Freud justificado em concluir que esse mito confirma o seu ponto de vista de que impulsos incestuosos inconscientes e 0 dio resul- tante contra 0 pai-rival se encontram em qualquer crianga do sexo mascu- lino? Com efeito, € como se 0 mito confirmasse, aparentemente, a teoria de Freud, de forma a justificar que 0 complexo de Edipo ostente o seu nome. Entretanto, se examinarmos 0 mito mais de perto, surgem questdes que langam algumas duvidas sobre a corregdo dessa concepgdo freudiana. A questéo mais pertinente é esta: Se a interpretacdo de Freud esté certa, seria de esperar que o mito nos contasse ter Edipo conhecido Jocasta sem saber que ela era sua mie, se apaixonado por ela e depois assassinado o pai, também impremeditadamente. Mas nao existe indicagdo alguma no mito de que Edipo fosse atraido ou se apaixonasse por Jocasta. A tnica razdo que nos € dada para o casamento de Edipo com Jocasta é que esta, por assim dizer, acompanha o trono. Deveremos acreditar que um mito cujo tema central constitui uma relagdo incestuosa entre mae e filho omite inteiramente o elemento de atracdo entre ambos? Esta interrogacdo é tanto mais ponderdvel se atentarmos para o fato de que, nas versdes mais antigas do ordculo, a predigdo do casamento com a mae é mencionada somente uma vez na versdo de Nicolau de Damasco, a qual, segundo Carl Robert, remonta a uma fonte relativamente nova (cf. C. Robert, 1915). 34 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud Examinando essa questo, poderfamos formular uma hipétese, a sa- ber, que o mito pode ser entendido como um simbolo de rebelido do fi- lho contra a autoridade do pai na familia patriarcal, e nao de amor inces- tuoso entre mae e filho; que o casamento de Edipo e Jocasta é apenas um elemento secundario, apenas um dos simbolos da vitéria do filho, que to- ma 0 lugar do pai e com ele todos os seus privilégios. Se nos limitarmos a pensar em O Rei Edipo, essa hipétese permanece, no melhor dos casos, como hip6tese, mas a sua validade pode ser decidida pelo exame de todo o mito de Edipo, sobretudo na forma apresentada por Séfocles nas duas outras tragédias da trilogia: Edipo em Colona e Antigo- na.6 Esse exame leva a uma nova e diferente compreensdo do material, no centro do qual esté a luta entre as culturas patriarcais e matriarcais. Em Edipo em Colona encontramos Edipo exilado por Creonte e acom- panhado por suas filhas Antfgona e Ismene, enquanto que os filhos, Etéo- cles e Polinices, se recusam a ajudar o pai cego. Os dois lutam pela posse do trono do pai exilado; Etéocles venceu, mas Polinices, recusando-se a obedecer-lhe, procurou conquistar a cidade com ajuda estrangeira e arreba- tar 0 poder ao irmao. . Até aqui, vimos que um tépico da trilogia é o 6dio entre pai e filho numa sociedade patriarcal, mas, se considerarmos a trilogia como um todo descobriremos que S6focles esté falando do conflito entre 0 mundo pa- triarcal e o anterior mundo matriarcal. No mundo patriarcal os filhos lu- tam contra o paie entre si; 0 vencedor € Creonte, o protétipo de um gover- nante fascista. Edipo, entretanto, ndo é acompanhado pelos filhos, mas pelas filhas. E nelas que ele confia, enquanto que a sua rela¢do com os filhos é de 6dio mituo. Historicamente, 0 mito original de Edipo, nas diversas versdes que existiam na Grécia e com base nas quais S6focles cons- truiu a sua tragédia, fornece-nos uma importante indicagao. Nas varias for- mulagées do mito, a figura de Edipo est4 sempre ligada ao culto da deusa- terra, a representante da religido matriarcal. Em quase todas as versdes do mito de Edipo, desde as partes que tratam de seu abandono como bebé até as que gravitam em torno de sua morte, podemos encontrar vestigios dessa ligacdo. (Cf. Schneidewin, 1852, p. 142.) Assim, por exemplo, Ete- ono, a tinica cidade bedcia que tinha um santudrio de culto a Edipo e onde, provavelmente, se originou todo o mito, também tinha um santudrio consagrado a Deméter, a deusa da terra e da agricultura. (Cf. C. Roberts, 1915, pp. 1 e segs.) Em Colona (perto de Atenas), onde Edipo encontrou © Embora seja verdade que a trilogia nao foi escrita nessa ordem e, se bem que alguns estudiosos possam estar certos em sua suposi¢do de que S6focles ndo planejou fas trés tragédias como a trilogia, os trés trabalhos devem, no entanto, ser interpreta- dos como um todo, Faz pouco sentido supor que Séfocles descreveu 0 destino de Edipo e seus filhos em trés tragédias sem ter em mente uma coesdo interna do todo. grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 35 seu Ultimo lugar de repouso, havia um antigo santudrio de Deméter e das Erinias que, provavelmente, ja existia antes do mito de Edipo. (/bid. , p. 2.) Como veremos mais adiante, S6focles sublinhou essa ligagdo entre Edipo e as divindades eténicas em Edipo em Colona. O regresso de Edipo ao bosque das deusas, embora a mais importante, ndo é a unica pista para se compreender a sua posi¢do como representante da ordem matriarcal. S6focles faz uma outra e clara alusio a matriarquia quando coloca na boca de Edipo uma referéncia 4 sociedade matriarcal egipcia,7 ao falar das filhas. Eis a forma como as elogia: verdadeira imagem das maneiras e costumes do Egito, que revelam em seu espirito € em sua vida! Pois af os homens ficam tecendo em casa, mas as esposas saem para ga- nhar 0 pao de cada dia. E, no vosso caso, minhas filhas, aqueles a quem cabiam estas labutas ficam em casa como mogas, ao passo que vés, no lugar deles, suportam o far- do de vosso desvalido pai. (S6focles) A mesma ordem de idéias é continuada por Edipo quando compara as filhas com os filhos. Sobre Antigona e Ismene diz ele: Agora, estas mogas me preservam, estas sdo minhas amas, que no fiel servico sdo ho- ‘mens, ndo mulheres; mas trata-se de estranhos e ndo de filhos meus, (Sofocles) Na Antigona, 0 conflito entre os principios patriarcais e matriarcais encontra a sua expressdo mais radical. Creonte, autoritdrio e implacdvel, tornou-se 0 tirano de Tebas; os dois filhos de Edipo foram mortos, um ata- cando a cidade para ganhar o poder, o outro defendendo-a. Creonte orde- Nou que o rei legitimo fosse sepultado e o corpo do desafiante permaneces- se insepulto, a maior humilhagao e desonra que pode ser infligida a um ho- mem, de acordo com os costumes gregos. O principio que Creonte repre- senta € o da supremacia da lei do Estado sobre os vinculos de sangue, da obediéncia a autoridade sobre o respeito a lei natural da humanidade. An- (igona recusa-se a violar as leis do sangue e da solidariedade de todos os se- es humanos, por mera obediéncia a um principio hierdrquico e autoritd- ‘io. Antigona simboliza a liberdade e a felicidade do ser humano, em opo- sigdo a arbitrariedade do governo masculino. Por isso 0 coro pode dizer: “Muitas sao as maravilhas e nenhuma é mais portentosa do que o homem!” ''m contraste com a irma Ismene, a qual sente que as mulheres deviam pitular ante o poder dos homens, Antigona desafia o principio da patriar- \jula. Ela obedece a lei da natureza, da igualdade e do amor maternal que tudo envolve, e diz: “Nao é de minha natureza aliar-me no 6dio, mas no amor”. Creonte, atacado em sua concepgdo de governo masculino, comen- ( “Ora, em boa verdade, nao sou homem, ela é o homem se a vitéria lhe vouber € n@o advierem penalidades”; e, voltando-se para o filho, que se S6focles refere-se provavelmente aqui a uma passagem de Herédoto, 11, 35 36 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud enamorou de Antigona, diz: “Sim, meu filho, esta deveria ser a lei cons- tante de teu corac¢do: Obedecer em todas as coisas 4 vontade de teu pai’. E prossegue: “Mas a desobediéncia é o pior dos males; ela é a ruina das ci- dades, a desolagao dos lares; por ela se desfazem as fileiras dos aliados em ignominiosa debandada; mas, das vidas cujo curso é agraddvel, a maior par- te deve sua seguranga a obediéncia. Portanto, devemos apoiar a causa da ordem e de maneira nenhuma sofrer que uma mulher nos sobrepuje e ven- ¢a, E melhor cair do poder, se isso for inevitavel, pela mao de um homem, do que ouvir: — Sois mais fraco do que uma mulher”. (S6focles) O conflito entre Creonte, o patriarca, e Hémon, 0 rebelde contra a pa- triarquia e o defensor da igualdade das mulheres, atinge o climax quando a 4 resposta de Hémon 4 pergunta do pai: “Terei que governar a terra por ou- tra cabega que ndo a minha?” é: “Nao existe cidade que pertenga a um s6 homem. Tu serias um bom monarca num deserto”. Ao que Creonte res- ponde: “Este rapaz, ao que me parece, é 0 paladino da mulher”, e Hémon aponta para o poder das divindades matriarcais: “E para ti, e para mim, para os deuses cd em baixo”. (Os deuses cd em baixo sao as divindades maternas.) O conflito chega a seu término. Creonte manda enterrar Anti- i gona viva numa caverna — também uma expressdo simbolica da ligagdo | dela com as deusas da terra. Tomado de panico, Creonte tenta salvar Anti- gona, mas em vdo. Hémon tenta matar o pai e, quando fracassa, poe fim & propria vida. A esposa de Creonte, Eridice, ao saber da morte do filho, sui- cida-se, amaldicoando o marido como assassino dos filhos dela. Creonte venceu fisicamente. Matou o filho, a mulher a quem o filho amava, e a esposa, mas estd moralmente em completa ruina e admite-o: “Ah, desgra- gado de mim, esta culpa e este remorso nunca poderdo recair sobre qual- quer outra espécie mortal, para minha absolvicdo! Eu, eu proprio, fui o " teu carrasco, para minha desventura. . . Sou o dono da verdade. Levem: me para longe, 6 meus servos, levem-me daqui rapidamente, a este cuja vida nao se distingue da morte!... Levem-me, vos imploro. .. um homem néscio e imprudente que os matou, ah, meu filho, involuntariamente, e a ti, minha esposa. . . que desgragado sou! Nao sei para que lado dirigir meu olhar ou onde buscar apoio, pois tudo o que est4 em minhas mdos se perde e se destréi. . . eis que um destino aniquilador me espreita ai para tombar sobre minha cabega.” (S6focles) Se atentarmos agora para toda a trilogia, devemos chegar a conclusdo. de que o incesto nao é o tépico principal, nem mesmo o essencial, da vi- so que Sofocles expressou na sua trilogia. Talvez assim pareca se lermos apenas o Rei Edipo (e quantas pessoas que falam desenvoltamente do! complexo de Edipo leram toda a trilogia?), mas se considerarmos 0 conjun- to das trés tragédias veremos que elas tratam do conflito entre o principio matriarcal de igualdade e democracia, representado por Edipo, e o princf. pio da ditadura patriarcal, “lei e ordem”, representado por Creonte. Embo grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 37 ra a patriarquia triunfe, em termos de poder, os seus princfpios sfo moral- mente derrotados na derrocada de Creonte, que reconhece nada mais ter realizado a nao ser a morte.8 3. Transferéncia Um dos conceitos cruciais no sistema de Freud ¢ o de transferéncia. Esse conceito foi o resultado da observacdo clinica. Freud descobriu que os analisandos desenvolviam um vinculo muito forte com a pessoa do ana- lista durante o tratamento, vinculo esse que é, em si mesmo, de natureza complexa. E um misto de amor, admiragdo e dedicagdo; no que se chama transferéncia negativa, é um misto de 6dio, oposicdo e agressao. Se o ana- lista e © analisando sdo de sexos diferentes, a esséncia da transferéncia pode ser facilmente descrita como um caso em que o analisando se enamo- ra do analista (no caso de analisandos homossexuais, 0 mesmo aconteceria se © analista fosse do mesmo sexo). O analista converte-se no objeto de amor, admiragdo, dependéncia e intenso citime, na medida em que qual- quer outra pessoa é considerada um possivel rival. Por outras palavras, 0 analisando comporta-se exatamente como uma pessoa que se apaixonou pelo analista. O que torna essa transferéncia particularmente interessante € que ela resulta da situagéo e ndo das qualidades do analista. Nenhum analista pode ser tao estapido ou carente de atrativos que ndo produza esse efeito numa pessoa inteligente que nem se daria ao trabalho de olhar para ele se ndo fosse o seu analista. Embora essa transferéncia possa ser encontrada em relagdo a muitos médicos, Freud foi o primeiro a dedicar toda a atengdo a esse peculiar fendmeno e a analisar a sua natureza. Ele chegou a conclusfo de que o analisando, no processo analftico, desenvolveu muitos sentimentos que, em crianga, alimentara em relacdo aos pais. Freud explicou o fendmeno da ligagZo amorosa (ou hostil) a figura do analista como uma repetigdo da anterior dedicago do analisando ao pai ou a mie. Por outras palavras, os sentimentos para com o analista foram “transferidos” do objeto ori- ginal para a pessoa do analista. Uma andlise da transferéncia possibilitou assim pensava Freud — o reconhecimento, ou reconstituigdo, da atitu- de que a crianga teve em relagdo aos pais. Era a crianga no analisando quem experimentava seus sentimentos transferidos tao intensamente que cra-lhe muitas vezes dificil reconhecer que no amava (ou odiava) a pessoa real do analista, mas os pais, a quem o analista representava. ® No que se refere a Séfocles, ele protesta contra o repiidio da mais antiga tradi¢o roligiosa, que atingiu o seu climax nos ensinamentos dos sofistas. Em seus argumentos contra os sofistas, Séfocles deu nova expresso as antigas tradigGes religiosas (matriar- ais), com énfase no amor, na igualdade e na justica. 38 grandeza e limitagées do pensamento de Freud Essa descoberta foi uma das grandes realizagdes originais de Freud. Antes dele, ninguém cuidara de investigar a atitude afetiva de um pacien- te para com o médico. Usualmente, 0s médicos aceitavam com satisfago © fato de o paciente os “adorar” e, se isso ndo acontecia, era freqiiente antipatizarem com ele por ndo ser um “bom paciente”. De fato, a trans- feréncia é um fator propicio 4 doenga profissional dos analistas, a saber, a confirmago de seu proprio narcisismo ao receberem a admiragdo afe- tuosa de seus analisandos, independentemente do grau em que a mere- cem. Coube ao génio de Freud observar esse fendmeno peculiar e ndo 0 interpretar como uma expresso de merecida admiracdo, mas como a admi- ragdo de uma crianca pelos pais. O desenvolvimento da transferéncia na situacdo analitica foi favoreci- do pelo arranjo peculiar que Freud escolheu para o seu trabalho. O anali- sando deita-se no diva e o analista senta-se atrds dele, invisivel, escutando a maior parte do tempo e dando uma interpretagdo uma vez por outra. Freud expressou certa vez o seu verdadeiro motivo para esse arranjo espa- cial; € que no suportava ser encarado por outras pessoas durante horas a fio por dia. Como razdo adicional, os psicanalistas mencionam que o analista deve ser uma folha de papel em branco para o analisando, de modo que todas as reagdes ao analista possam ser consideradas expres- s6es de transferéncia e ndo uma expressdo dos sentimentos do analisando para com a pessoa real do analista. Este tltimo argumento é, evidentemen- te, uma ilusdo. Olhar simplesmente para uma pessoa, sentir a qualidade do seu aperto de mao, ouvir a sua voz, observar toda a sua atitude quando fala, fornecem abundante material para se conhecer muita coisa a respeito do analista, ¢ a idéia de que o analista permanece desconhecido pelo fato de estar invisivel é muito ingénua. Cabe fazer aqui uma breve critica a esse arranjo técnico, Toda a cons- telagdo do silencioso e supostamente desconhecido analista que nado tem sequer a obrigagdo de responder a uma pergunta, e a sua posi¢do sentado atras do analisando (¢ praticamente tabu para o analisando voltar-se para olhar de frente o analista)? leva realmente a este resultado: o analisando, 9 Alguns de meus professores no Instituto de Berlim tiravam breves cochilos duran- tea andlise e falavam sobre isso sem tentar escondé-lo. Outros afirmavam que, durante essa soneca, tinham sonhos a respeito do analisando que Ihes proporcionavam maior insight do que se estivessem ouvindo. E claro que a tendéncia para ressonar era um obstéculo a essa pratica e impedia que muitos se entregassem ao sono durante a sesso. Esses cochilos eram perfeitamente naturais. Sei por minha experiéncia pessoal nos anos em que analisei de acordo com a tecnica freudiana, quio irresistivelmente cansado ficava na posigao de sentado atrés do analisando, sem contato algum com ele e escutando a intermindvel lengalenga que me era vedado interromper. De fato, foi esse tédio que tornou a situagao a tal ponto insuportével que comecei a modificar a técnica grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 39 durante a sua hora, sente-se como uma crianga. Onde mais uma pessoa crescida se vé em tal posigéo de completa passividade, em que todas as prerrogativas sio do analista e o analisando é obrigado a expressar seus pensamentos e sentimentos mais intimos para um fantasma? E isso, no em termos de um ato voluntério, mas de uma obrigagdo moral que ele aceita, uma vez que concordou em ser um paciente analitico? Do ponto de vista de Freud, essa infantilizacao do analisando é excelente, uma vez que, sendo a principal intengdo descobrir ou reconstituir sua infancia, essa constelacdo infantil s6 pode ser vantajosa para se realizar tal objetivo. Uma importante critica a essa infantilizagao é que, se o analisando é transformado numa crianga durante a sess4o, a pessoa adulta é, por assim dizer, retirada de cena e o analisando expressa todas as suas idéias e senti- mentos que tinha como crianga, mas ndo se preocupa com a pessoa adulta nele, a qual possui a capacidade de se relacionar com a pessoa-crianca des- de 0 ponto de vista do adulto. Por outras palavras, o analisando sente pou- co do conflito entre o seu eu infantil e o seu eu adulto, mas é justamente esse conflito que propicia o progresso ou a mudanga. Se apenas a voz da crian- ga € ouvida, quem esta af para contradizé-la, para refred-la, a ndo ser a voz do adulto que o analisando também tem a sua disposicao? Entretanto, 0 meu principal objetivo ao discutir a transferéncia nao é uma critica ima- nente, de um ponto de vista terapéutico (que realmente pertence a uma discussdo da técnica psicanalitica), mas é mostrar como Freud restringiu a sua experiéncia clinica da transferéncia mediante a explicagdo de que os sentimentos e atitudes caracteristicos daquela s4o transferidos da vida in- fantil para a situagdo analitica. Se descartarmos esta explicagdo, vemos que Freud deparou com um fenémeno cujo significado é muito maior do que ele proprio pensava. O fe- ndmeno de transferéncia, a saber, a dependéncia voluntdria em que uma pessoa se coloca de outras pessoas investidas de autoridade, uma situagdo em que um individuo se sente impotente, em necessidade de um lider mais forte e autoritario, e disposto a submeter-se a essa autoridade, é um dos fenémenos mais freqiientes e importantes na vida social, superando em muito a familia individual e a situagdo analitica. Quem estiver disposto a ver pode descobrir o tremendo papel que a transferéncia desempenha so- cialmenie, politicamente e na vida religiosa. Basta examinar as faces numa multiddo que aplaude um lider carismético como Hitler ou De Gaulle, para ver a mesma expressdo de reveréncia cega, adoracao, afei¢ao, algo que, de fato, transforma as fisionomias de sua trivial expresso cotidiana numa de fervoroso e apaixonado crente. Nao precisa sequer ser a voz ou a estatura de um De Gaulle ou ter a intensidade de um Hitler. Se observarmos os ros- tos de pessoas que olham para candidatos presidenciais, por exemplo, nos Estados Unidos, ou, ainda melhor, para o proprio Presidente, descortina- remos a mesma expressdo facial, uma expressdo a que quase poderfamos 40 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud dar 0 nome de religiosa. Tal como na transferéncia psicanalitica, isso qua- se nada tem a ver com as qualidades humanas reais da pessoa admirada. O proprio cargo ou até, simplesmente, um uniforme fazem dela uma pessoa “jdolatravel”. Todo o nosso sistema social assenta nesse extraordindrio efeito de pes- soas que, em maior ou menor grau, se revestem de atrativos. A transferén- cia na situacdo analitica e a idolatria de lideres na vida adulta no sio diferentes; originam-se no sentimento de impoténcia da crianga que leva a sua dependéncia dos pais ou, na situag4o de transferéncia, do analista como substituto dos pais. Na verdade, poderiamos negar que o bebé seria incapaz de viver um dia sequer sem que alguém cuide dele, o ali- mente, seja protegido pela mae ou sua substituta? Sejam quais forem as ilu- ses narcisistas que a crianca possa ter, subsiste o fato de que, no tocante a sua situagao total no mundo, ela ¢ impotente e, por conseguinte, anseia por alguém que a ajude. O que freqiientemente se despreza, entretanto, € 0 fato de 0 adulto também ser impotente. Em muitas situagdes que a crianca ndo pode dominar, 0 adulto sabe o que fazer, mas o adulto, em ultima andlise, também ¢ extremamente impotente. Defronta-se com forgas natu- rais € sociais que, em muitos casos, so de tal modo irresistiveis que ele esta tdo impotente diante delas quanto um bebé em seu mundo. E bem verdade que o adulto aprendeu a defender-se de muitas maneiras, Po- de estabelecer lagos com outros, de modo a ficar melhor equipado para enfrentar ataques e perigos, mas nada disso altera o fato de que continua impotente em sua luta contra perigos naturais, contra classes sociais ¢ nagdes melhor armadas e mais poderosas, contra a doenga e, finalmente, contra a morte. Ele tem melhores meios para se defender, mas também estd muito mais consciente dos perigos do que a crianca. Segue-se que o alegado contraste entre a crianga impotente e 0 adulto poderoso é, em grande parte, ficticio. O adulto também é impotente e, a semelhanga da crianga, estd ansian- do por alguém que o faca sentir-se seguro, protegido, e é por essa razdo que estd disposto e propenso a idolatrar figuras que sao ou facilmente se pres- tam a ser consideradas salvadoras, mesmo que na realidade possam ser meio loucas. A transferéncia social nascida do mesmo sentimento de im- poténcia da transferéncia psicanalitica é um dos mais importantes fen menos sociais. Freud, ao descobrir a transferéncia na situagao psicanaliti- ca, realizou uma outra descoberta universalmente valida, mas, na base de Suas premissas, ndo péde avaliar completamente a grande importéncia so- cial e todo o alcance do que tinha descoberto. Estas consideragdes em torno da transferéncia requerem um comenté- rio adicional. Embora o homem seja impotente nao sé como crianga, mas também como adulto, essa impoténcia adulta pode ser superada. Numa so- ciedade que estd racionalmente organizada, que nao precisa confundir a grandeza e limitacdes das descobertas de Freud 4 mente do homem para 0 iludir acerca da situacdo real; numa sociedade que encoraja mais do que desencoraja a independéncia e a racionalidade do homem, o sentimento de impoténcia desaparece e, com ele, a necessidade de transferéncia social. Uma sociedade cujos membros so impotentes ne- cessita de idolos. Tal necessidade s6 pode ser superada na medida em que o homem esta plenamente consciente da realidade e de suas préprias for- gas. A compreensao intuitiva de que deveré um dia morrer nfo tem por que torné-lo impotente, pois esse conhecimento também representa uma realidade que ele pode enfrentar. Aplicando o mesmo principio a situagdo analitica, sugiro que, quanto mais real o analista for para o analisando e quanto mais perder o seu cardter fantasmagérico, mais facil é para o anali- sando abandonar a postura de impoténcia e enfrentar a realidade. Mas ndo serd desejavel e até necessdrio que o paciente na situagdo analitica regrida aum estado de infancia, para que possa expressar os desejos e ansiedades que aprendeu a reprimir como condigdo sine qua non para ser aceito como adulto? Isso € verdade, mas com uma importante restrigao. Se o analisando, durante a hora analitica, se tornou inteiramente uma crianca, também é licito supor que isso ocorra nos sonhos. O analisando careceria do discerni- mento e independéncia de que necessita a fim de poder entender o signi: ficado do que esté dizendo. Durante a sessdo analitica, 0 analisando osci- la constantemente entre a existéncia infantil e adulta; nesse processo re- pousa a eficdcia do procedimento analitico. 4. Narcisismo Com o conceito de narcisismo, Freud deu uma contribuigdo de supre- ma importancia para o entendimento do homem. Basicamente, Freud pos- tulou que o homem pode orientar-se segundo dois modos contraditérios: © seu principal interesse, amor, preocupago ou, nos termos de Freud, a sua libido (energia sexual) podem dirigir-se para si mesmo ou para 0 mun- do exterior a ele — pessoas, idéias, natureza, coisas feitas pelo homem. Numa reunido da Sociedade Psicanalitica de Viena, em 1909, Freud declarou que o narcisismo era um estagio intermédio necessdrio entre auto- erotismo e o “amor objetal”. A primeira discussdo integral do narcisismo encontra-se em Sobre o Narcisismo: Uma Introdugao (S. Freud, 1914c).!° Freud jé nao encarava primordialmente 0 narcisismo como uma perver- slo sexual, 0 amor sexual pelo proprio corpo, como fizera Nacke, que foi quem criou o termo (1899), mas como um complemento do instinto de conservagao. '° Cf. os comentarios do organizador sobre a histéria do conceito freudiano de nar- cisismo (em S. Freud, 1914¢, p. 69). grandeza e limitagdes do pensamento de Freud A mais importante prova da existéncia de narcisismo proveio da ané- lise da esquizofrenia. Os pacientes esquizofrénicos caracterizavam-se pela megalomania ¢ pelo desvio de seus interesses do mundo externo — das pessoas e coisas. O interesse que retiraram dos outros foi dirigido para a sua propria pessoa, assim se desenvolvendo a megalomania; a imagem de seu proprio eu é onisciente e onipotente. Este conceito de psicose como um estado de narcisismo extremo foi “ uma das bases da idéia de narcisismo. A outra foi o desenvolvimento nor- mal da crianga. Freud admitiu que a crianga existe num estado completa- mente narcisista no momento em que nasce, tal como existia em seu estado intra-uterino. Lentamente, a crianga aprende a interessar-se por pessoas e coisas, Esse estado original de “catexia libidinal do ego” persiste funda- mentalmente e relaciona-se com a catexia do objeto “tanto quanto o corpo de uma ameba esté relacionado com os pseud6podes que dele excrescem”.!! Qual foi a importancia da descoberta de Freud do narcisismo? Nao sO explicou anatureza da psicose, mas também mostrou que o mesmo narcisis- mo existe ndo s6 na crianga, mas também no adulto comum; por outras pa- lavras, que a “pessoa normal” participa em menor ou maior grau naquela | atitude que, quando quantitativamente mais forte, constitui a psicose. Wl De que maneira Freud restringiu os seus conceitos? Uma vez mais, ' como ocorreu com tantos outros conceitos seus, forgando-os a encaixarem- se na teoria da libido. Libido colocada no ego — enviada ocasionalmente para entrar em contato com outros objetos — regressando ao ego sob deter- minadas condigdes, como a dor fisica ou a perda de um “objeto libidinal- mente catexado”. O narcisismo era, essencialmente, uma mudanga de dire- ao dentro da “casa da libido”. Nao fosse Freud prisioneiro do conceito de “aparelho” psiquico, uma verso supostamente cientifica da estrutura humana, ele teria ampliado em muitas diregGes o significado da sua descoberta. Em primeiro lugar, ele poderia ter enfatizado, mais fortemente do que fez, o papel do narcisismo para a sobrevivéncia. Se bem que, de um ponto de vista de valores, seja desejada uma reduco maxima do narcisismo, do ponto de vista da sobrevivéncia biolégica, porém, o narcisismo é um fend- meno normal e€ desejavel. Se o homem ndo colocar suas metas e necessida- des antes das de outros, como poderd sobreviver? Faltar-lhe-iam as qualida- des energéticas do egoismo para cuidar de sua propria vida. Dito de maneira diferente: O interesse biolégico da sobrevivéncia da raga requer uma certa soma de narcisismo entre os seus membros; a meta 6tico-religiosa do indi- viduo, pelo contrério, é a redugdo méxima do narcisismo até atingir ponto zero. "" S, Freud, 1914¢, p. 75 (Freud reviu mais tarde alguns dos pontos de vista aqui apresentados). grandeza e limitagées das descobertas de Freud 43 Mas o mais importante é nao ter Freud logrado definir o narcisismo em termos de ser o pdlo oposto do amor. Freud nao podia té-lo feito, como mostramos antes, porque 0 amor para ele s6 existia como a ligagdo do varao 4 mulher nutriente. Para Freud, ser amado (o varao pela mulher conquistada) proporciona vigor, amar ativamente debilita. Esse fato é muito evidente na falta de compreensao de Freud do Ost- Westlicher Diwan, de Goethe. Escreveu Freud (1916-17, pp. 418 e seg.): “Acharao reconfortante, creio eu, se, depois do que é essencialmente a linguagem drida da ciéncia, lhes apresentar uma representag4o poética do contraste econdmico entre narcisismo e estar enamorado. Eis uma trancri- do de Ost-Westlicher Diwan, de Goethe: ZULEIKA O servo, 0 senhor vitorioso, a multidao, Se indagados, confessardo por certo: A felicidade suprema de um fitho da Terra Reside no sentimento de ser pessoal. A vida é para se viver, ndo se a recusa Se 0 nosso verdadeiro eu realizamos; Nada existe que ndo possamos perder Se continuarmos sendo 0 homem que somos. HATEM Assim se diz, assim poderd bem ser; Mas por outra senda vo meus passos; De todas as béngdos que a Terra me reserva 56 em Zuleika encontrei a esséncia plena. Se ela em mim seu ser consome, Meu eu se enriquece e ganha em valor; Mas se ela se me recusa, entdo, num dpice, Me sinto perdido em meu proprio eu. Nesse dia, com Hatem, tudo findara E, no entanto, néo mudaria meu estado: Obsequiasse ela algum feliz amante e, veloz, Eu nele, de bom grado, me incorporaria. A descrig¢ao de Goethe de quem continua sendo “o homem que é” foi erroneamente interpretada por Freud como se retratasse a pessoa narci- sista, a0 passo que para Goethe, é claro, ele é o homem maduro, indepen- dente e integro. Freud supés que a segunda estancia representava a pessoa que esté apaixonada, enquanto que Goethe se refere & pessoa dependente, que carece de um eu forte e se dissolve na pessoa a quem ama. Ao passo que, segundo Freud, 0 amor do homem é “anaclitico”, isto 6, tem como seu objeto a pessoa que o alimenta, considerou ele que o amor 44 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud da mulher é narcisista, na medida em que ela s6 é capaz de se amar a si mesma e ndo pode participar nesse grande “feito” dos homens que é ama- rem a mao que os alimenta. Freud ndo se apercebeu de que as mulheres de sua classe costumavam ser frias precisamente porque seus homens as que- riam frias, isto é, que se comportassem como uma propriedade e nem mes- mo lhes era permitido “papéis separados, mas iguais” na cama. O homem burgués recebia a mulher como ele a imaginava, e racionalizava a sua supe- tioridade acreditando que essa fémea deformada (deformada por ele) so- mente estava preocupada em ter alguém que a alimentasse e cuidasse dela. Isso, € claro, nao passa de tipica propaganda machista na guerra entre os sexos, tal como a idéia de que as mulheres sao menos realistas e menos co- rajosas do que os homens. Na verdade, este mundo louco que parece nao parar em sua corrida para a catdstrofe, é governado por homens. Quanto 4 coragem, todos nés sabemos que, em casos de doenga, as mulheres esto muito mais aptas a enfrentar dificuldades do que os homens, que querem a mie para assisti-los. Quanto ao narcisismo, as mulheres sdo forgadas a apresentar-se atraentemente, porque s4o objetos expostos no mercado de escravas; mas, quando amam, elas amam mais profunda e fielmente do que os homens, que so voliiveis e tentam satisfazer seu narcisismo, investido no pénis de que tanto se orgulham. Quando Freud apresentou sua imagem distorcida das mulheres, ndo pdde deixar de ponderar se estaria sendo inteiramente objetivo. Mas repe- liu tais duvidas de uma forma elegante: “Talvez nfo seja deslocado, neste ponto, assegurar que esta descrigo da forma feminina de vida erotica ndo se deve a qualquer desejo tendencioso de minha parte de depreciar as mu- Iheres. A parte o fato de o tendenciosismo ser inteiramente estranho a minha indole, sei que essas diferentes linhas de desenvolvimento corres- pondem a diferenciagdo de fungdes num todo biolégico altamente compli- cado; além disso, estou pronto a admitir que existe um considerdvel nime- ro de mulheres que amam de acordo com o tipo masculino e também de- senvolvem uma supervalorizagfo sexual que é propria desse tipo.” (S. Freud, 1914c, p. 89.) Isto é, sem duvida, uma safda elegante, mas nada psicanalitica. Que capacidade de auto-sugest4o, quando um homem pode assegurar-nos de que “‘o tendenciosismo é inteiramente estranho 4 sua indole”, mesmo nu- ma questdo que esta tdo obviamente carregada de dinamite emocional.!? Esse conceito fisiologico de catexia libidinal do ego, em contraste com a dos objetos, tornou algo dificil para os que ndo estdo entre os iniciados !2 Essa afirmacdo aponta as limitagdes de Freud; o insight sobre si mesmo é limitado por virias declaragSes dogméticas acerca dos seus tragos de personalidade, que ele “obviamente” ndo pode possuir. itagdes das descobertas de Freud 45 grandeza e li entenderem a natureza do narcisismo, na base de sua propria experiéncia. Por essa razdo, quero descrevé-lo de maneira mais facilmente acessivel. Para a pessoa narcisista, 0 nico setor que parece inteiramente real para ele é a sua propria pessoa. Seus sentimentos, pensamentos, ambi¢Ses, desejos, corpo, familia, tudo 0 que ele ou ela é, ou que Ihe pertence. O que pensa € verdadeiro porque o pensa e até suas mas qualidades sao belas por- que so suas. Tudo o que se relaciona com ele ou ela tem cor e plena rea- lidade. Tudo o mais, coisas e pessoas, é pardacento, feio, sem cor e quase inexistente. Eis um exemplo: Um homem veio procurar-me a fim de marcar uma hora. Respondi-lhe que ndo tinha tempo livre nessa semana, mas poderia vé-lo na semana seguinte. Disse-me que vivia muito perto do meu consul- torio e, portanto, ndo precisava de muito tempo para ali chegar. Quando Ihe respondi que isso era realmente cOmodo para ele, mas no alterava 0 fato de que eu no dispunha de hora livre, no se mostrou impressionado e continuou com o mesmo argumento. Isso é um exemplo de um caso bas- tante sério de narcisismo, pois era totalmente incapaz de distinguir entre as minhas necessidades e as suas. E 6bvio que faz uma grande diferenca o grau em que uma pessoa muito narcisista é inteligente, artisticamente talentosa e culta. Muitos artis- tas e escritores muito criativos, diretores de orquestra, bailarinos e politi- cos, so extremamente narcisistas; 0 narcisismo deles nao interfere em sua arte; pelo contrario, ajuda com freqiiéncia. Tém que expressar o que sen- tem subjetivamente e, quanto mais importante for a sua subjetividade para © seu desempenho, melhor eles se saem em suas atividades profissionais. ‘A pessoa narcisista é, com freqiiéncia, particularmente atraente para 0 seu préprio narcisismo. Pensemos, por exemplo, num ator narcisista. Estd cheio de si mesmo; exibe seu corpo e sua finura de espirito com o orgulho de quem possui uma jéia rara. Nao tem davidas a seu proprio respeito, como uma pessoa menos narcisista necessariamente tera. O que ele diz, faz, o modo como anda e gesticula é desfrutado por ele proprio como um de- sempenho inexcedivel ¢ ele esta entre os seus maiores admiradores. Suponho que a raz4o para 0 atrativo da pessoa narcisista reside no fato de retratar ela uma imagem do que a pessoa comum gostaria de ser: é segu- ra de si mesma, nao alimenta duvidas, sente-se sempre senhora da situacdo. A pessoa comum, em contrapartida, ndo possui essa certeza, esta freqiien- temente assediada de dividas e é propensa a admirar os outros como supe- riores a ela. A pessoa narcisista é, por assim dizer, o que a pessoa comum quer ser. Poder-se-4 perguntar por que é que o narcisismo extremo nao re- pele as pessoas. Por que é que ndo se ressentem da falta de verdadeiro amor? Esta questo é facil de responder; 0 amor real é to raro hoje em dia que estd quase fora do campo de visdo da maioria das pessoas. Na pessoa narcisista vemos alguém que, pelo menos, ama uma pessoa: ela propria. 46 grandeza e limitacdes do pensamento de Freud O narcisista completamente desprovido de talento, por outro lado, pode ser apenas ridiculo. Se a pessoa narcisista é extremamente talentosa, © seu éxito esta virtualmente garantido. Podemos encontrar amitide pes- soas narcisistas entre politicos vitoriosos. Mesmo que sejam talentosos, no impressionariam tanto sem o narcisismo que, por assim dizer, irradia deles. Em vez de sentirem “Como se atrevem a ser to arrogantes?” muitas pes- soas so de tal modo atraidas pela auto-imagem narcisista projetada que nada mais véem nela do que uma adequada auto-avaliagdo de um individuo muito talentoso. E importante compreender que o narcisismo, que pode ser chamado de “autofascinagdo”, estd em contraste com o amor, se entendermos por amor 0 ato de esquecer 0 préprio eu e ter mais aprego pelos outros do que por si mesmo. De igual importancia é a contradi¢do entre narcisismo e raz4o. Tendo falado hd bem pouco de politicos como exemplos de personalidades narci- sistas, a afirmagdo de um conflito entre narcisismo e razdo parece absurda. Mas acontece que no estou falando de inteligéncia e sim de razdo. A inte- ligéncia manipulativa é a capacidade de usar 0 pensamento a fim de mani- pular o mundo exterior para os fins do homem. A razdo € a faculdade de teconhecer as coisas como sdo, independentemente de seu valor ou perigo para nds. A razdo visa ao reconhecimento das coisas e pessoas tal como sdo, sem que © nosso interesse subjetivo nelas as desvirtue. A “esperteza” é uma forma de inteligéncia manipulativa, mas a sabedoria é um fruto da razdo. A pessoa narcisista pode ser extremamente esperta se a sua inteligén- cia manipulativa for elevada. Mas é passivel de cometer sérios erros ou equivocos porque o seu narcisismo a leva a superestimar o valor de seus proprios desejos e pensamentos, e a supor que o resultado jé foi alcangado simplesmente porque isso é seu desejo ou seu pensamento. O narcisismo é freqiientemente confundido com egoismo. Freud pen- Sou que o narcisismo era 0 aspecto libidinoso do egofsmo, quer dizer, que 4 natureza apaixonada do egoismo reside em seu cardter libidinoso. Mas essa distingdo nfo é inteiramente satisfatéria. Uma pessoa egoista pode ndo ter uma visdo distorcida do mundo. Pode nao atribuir a seus pensa- mentos e sentimentos um valor maior do que eles tém no mundo exterior. E capaz de ver 0 mundo, inclusive o seu papel nele, muito objetivamente. O egoismo é basicamente uma forma de insacidvel avidez; o egoista quer tudo para si, ndo gosta de repartir, percebe os outros como ameacas e no como possiveis amigos. Aquilo a que Freud chamou em seus primeiros escritos “interesse pessoal” prepondera neles de um modo mais ou menos completo; mas o predominio do interesse pessoal no distorce necessaria- mente a imagem que o egoista faz de si mesmo e do mundo que o cerca, como acontece com a pessoa narcisista. grandeza e limitagées das descobertas de Freud 47 Entre todas as orientages de cardter, o narcisismo é, de longe, a que uma pessoa tem maior dificuldade para reconhecer em si mesma. Na medi- da em que uma pessoa é narcisista, ela glorifica-se e ¢ incapaz de enxergar seus defeitos e limitagdes. Esta convencida de que a imagem de uma pessoa maravilhosa que tem de si mesma é correta e, como é a sua imagem, ndo vé razao para duvidar dela. Um outro motivo por que o narcisismo é tao di- ficil de ser identificado pela propria pessoa é que muitos narcisistas tentam demonstrar que sio tudo menos isso. Um dos exemplos mais freqientes dessa atitude é a tentativa das pessoas narcisistas de esconderem seu narci- sismo atras de um comportamento que se caracteriza pela preocupagdo e ajuda a outros. Consomem muita energia e tempo ajudando outras pessoas, fazendo até sacrificios, sendo prestimosas, amaveis etc., tudo com a inten- do (usualmente inconsciente) de negarem esse narcisismo. O mesmo ocor- re, como todos sabemos, no caso de pessoas que se mostram particular- mente modestas ou humildes. Nao sé essas pessoas tentam com freqiiéncia esconder seu narcisismo como, ao mesmo tempo, o satisfazem ao orgulha- rem-se, de um modo narcisista, de sua cordura ou modéstia. Um belo exemplo disso é a anedota a respeito de um homem que estava morrendo e ouviu os amigos, a beira de seu leito, tecendo-lhe elogios: como era culto, inteligente, amdvel, solicito. O moribundo escutava e quando eles termina- ram os louvores, gritou-lhes furioso: — E voeés esqueceram-se de mencionar a minha humildade! O narcisismo enverga muitas méscaras: santidade, obediéncia ao dever, amabilidade e amor, humildade e orgulho; vai da atitude de uma pessoa so- berba e arrogante 4 de uma discreta e modesta. Cada pessoa tem numero- sos ardis para disfarcar seu narcisismo e dificilmente se apercebe deles ede sua fungGo. Se a pessoa narcisista for bem-sucedida em persuadir outras a que a admirem, serd feliz e funcionard bem. Mas quando ndo tem éxito em convencer outras pessoas, se 0 seu narcisismo for espicacado, por assim dizer, poder4 desmoronar como um bal4o vazio; ou ficar intensamente fu- riosa, cheia de uma espécie de raiva implacdvel. Ferir o narcisismo de uma pessoa produz uma depressfo ou um 6dio inexordvel. ; De especial interesse é 0 narcisismo de grupo, um fendmeno do maior significado politico. No fim de contas, a pessoa comum vive em circunstan- cias sociais que restringem o desenvolvimento de um intenso narcisismo. O que alimentaria o narcisismo de um pobre homem, que tem pouco ou ne- nhum prestigio social e cujos filhos tendem até a olhd-lo com desdém? Ele nada é — mas se puder identificar-se com a sua nagdo, ou puder transferir cu narcisismo pessoal para a nagdo, entao ele é tudo. Se tal pessoa diz: Zu sou o homem mais maravilhoso do mundo; sou o mais asseado, o mais habil, o mais eficiente e o mais educado de todas as pessoas; sou superior 4 toda a gente no mundo”, quem ouvir isto sentir-se-4 enojado e pensaré que a pessoa nfo regula bem da cabeca. Mas quando as pessoas descrevem 48 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud seu pais em termos como esses, ninguém faz objegdes. Pelo contrario, se uma pessoa diz: “A minha nagdo é a mais forte, a mais culta, a mais paci- fica e a mais talentosa de todas as nagdes”, ndo a consideram louca, mas um cidadao muito patriota. O mesmo acontece com o narcisismo religioso. Que milhdes de adeptos de uma religido possam afirmar serem os dinicos detentores da verdade, e que a religido deles é o Gnico caminho para a sal- vagGo eterna, € considerado perfeitamente normal. Outros exemplos de narcisismo de grupo sao os grupos politicos e os cientificos. O individuo satisfaz seu proprio narcisismo ao pertencer ao grupo e identificar-se com este. Nao que ele, um zé-ninguém, seja grande, mas porque é membro do grupo mais maravilhoso do mundo. Poder-se-4 objetar: Mas como podemos estar certos de que a sua avalia- ¢4o do seu grupo nao é realisticamente correta? Em primeiro lugar, dificil- mente um grupo pode ser tdo perfeito quanto seus membros o descrevem; mas a razdo mais importante é que a pessoa reage com intensa raiva as cri- ticas que se fagam ao seu grupo, o que é a reagdo caracteristica daquele cujo narcisismo individual foi ferido. No cardter narcisista da reagfa de grupo nacional, politico e religioso, esta a raiz de todo fanatismo. Quando © grupo se torna a consubstanciagdo do narcisismo de um individuo, qual- quer critica ao grupo é sentida como um ataque pessoal. Nos casos de guerra fria ou quente, o narcisismo adota uma forma ainda mais dréstica. A minha nago é perfeita, amante da paz, culta etc.; a do inimigo é exatamente o contrdrio: abomindvel, traigoeira, cruel etc. Na realidade, a maioria das nacGes sdo iguais no balango geral de tragos bons e maus; entretanto, virtudes e vicios sdo especificos para cada nacdo. O que © nacionalismo narcisista faz € ver somente as virtudes da nagdo a que se pertence e os vicios das outras. Essa observagdo é tao impressionante por- que é correta; s6 é falsa porque deixa de fora os vicios da nag&o a que se pertence e as virtudes da nagdo inimiga. A mobilizacdo do narcisismo de grupo é uma das condigdes importantes na preparacdo para a guerra; deve comegar muito antes de eclodir a guerra, mas vai sendo reforgada 4 medida que as nagGes se aproximam cada vez mais do estado de guerra declarada. Os sentimentos no inicio da Primeira Guerra Mundial so um bom exem- plo do fato de que a raz4o emudece quando o narcisismo impera. A propa- ganda briténica de guerra acusava os soldados alemaes de trucidarem bebés 4 baioneta na Bélgica (uma completa mentira, mas em que muitos acredita- ram no Ocidente); os alemaes chamavam aos britdnicos uma nagdo de co- merciantes gananciosos e traigoeiros, ao passo que eles eram herdis lutando pela liberdade e a justica. Pode esse narcisismo de grupo desaparecer alguma vez e, com ele, uma condi¢do para a guerra? Com efeito, ndo existem motivos para se supor que nao possa. As condicSes para o seu desaparecimento sio miltiplas. Uma delas é que a vida dos individuos deve ser to rica e interessante que grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 49 eles possam relacionar-se entre si com interesse e amor. Isso, por sua vez, pressupde uma estrutura social que incentive ser e repartir, e desencoraje ter e possuir (cf. E. Fromm, Ter ou Ser?, 1976). Com o desenvolvimento do interesse e amor pelos outros, o narcisismo tende a ser cada vez mais re- duzido. Contudo, o mais importante e dificil problema é que o narcisismo de grupo pode ser produzido pela estrutura basica da sociedade. E como pode isso acontecer? Tentarei esbocar uma resposta analisando a relacdo entre a estrutura da sociedade industrial, cibernética, e o desenvolvimento narcisista do individuo. A primeira condigdo para o crescente desenvolvimento do narcisismo na sociedade industrial € 0 divércio e o antagonismo dos individuos em relagfo uns aos outros. Esse antagonismo é uma conseqiiéncia necessaria de um sistema econémico construido sobre alicerces de egoismo desumano ¢ implacdvel, segundo o principio da obten¢do de vantagens as custas de outros. Quando a participagdo e a reciprocidade esto ausentes, o narcisis- mo prospera. Mas a mais importante condigdo para o desenvolvimento do narcisismo, e aquela que recebeu sua medida total somente nas tiltimas dé- cadas, € 0 culto da produgdo industrial. O homem fez de si mesmo um Deus. Criou um novo mundo, o mundo das coisas feitas pelo homem, usan- do a antiga criagdo apenas como matéria-prima. O homem moderno des- vendou os segredos do microcosmo e do macrocosmo; descobriu os segredos do dtomo e os segredos do cosmo, relegando o nosso planeta para uma en- tidade infinitamente pequena entre as galaxias. O cientista, ao fazer essas descobertas, tinha que perceber as coisas como sao, objetivamente e, por- tanto, com pouco narcisismo. Mas 0 consumidor, assim como os técnicos © os profissionais da ciéncia aplicada, ndo tinham a mentalidade de um cientista. A grande maioria da raga humana ndo teve que inventar a nova \écnica; pode construila de acordo com as novas concepgées tedricas admird-la, Aconteceu assim que 0 homem moderno desenvolveu um extraordindrio orgulho em sua criagdo; considerou-se um deus, sentiu sua grandeza na contemplagdo da grandeza da nova Terra feita pelo homem. E, admirando a sua segunda criagdo, admirava-se nela. O mundo que ele fabricou, dominando a energia do carvéo, do petréleo e agora do atomo, ¢ sobretudo a capacidade aparentemente ilimitada de seu cérebro, tornou-se © espelho em que ele podia olhar-se. O homem olha esse espelho que re- flete ndo a sua beleza, mas o seu engenho e poder. Estara condenado a afo- jurse nesse espelho, tal como Narciso se afogou ao contemplar a imagem de seu belo corpo refletida na superficie do lago? 5. Carater O conceito freudiano de cardter ndo é menos importante que os de \nconsciente, repressdo e resisténcia. Nesse caso, Freud ocupa-se do ser 50 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud humano como um todo e no com “complexos” isolados e mecanismos tais como o “complexo de Edipo”, 0 medo de castragdo ou a inveja do pénis. E claro, 0 conceito de cardter nfo era novo; mas o que era novo em Psicologia era 0 conceito de cardter no sentido dinamico em que Freud © usou. O que se entende por dinémico € 0 conceito de cardter como estru- tura relativamente permanente de paixdes. Os logos no tempo de Freud, tal como hoje, referiam-se ao cardter num sentido puramente des- critivo; uma pessoa podia ser descrita como ordeira, ambiciosa, honesta, in- | dustriosa etc., mas tal referéncia era feita a tragos singulares encontrados numa pessoa, ndo ao sistema organizado de paix6es. Somente grandes dra- maturgos como Shakespeare, e grandes romancistas como Dostoievski e Balzac, descreveram o cardter no sentido dinamico, o Ultimo com a inten- go de analisar o cardter das varias classes da sociedade francesa de sua época. Freud foi o primeiro psicélogo a analisar o caréter cientificamente, em vez de artisticamente, como tinham feito seus predecessores romancistas. Os resultados, enriquecidos por alguns dos discipulos de Freud, especial- ' mente Karl Abraham, foram maravilhosos. Freud e sua escola construiram quatro tipos de estrutura de cardter: o cardter oral-receptivo, 0 oral-sadis- tico, o anal e o genital. Segundo Freud, cada pessoa que se desenvolve de um modo normal passa por todos esses estégios da estrutura de cardter; | mas algumas detém-se em qualquer um desses pontos da evolugdo e retém, i como adultos, as caracteristicas desses estdgios pré-adultos. Por carater oral-receptivo, Freud refere-se 4 pessoa que espera ser ali- | mentada material, emocional e intelectualmente. E a pessoa de “boca aber- ta”, basicamente passiva e dependente, que espera que Ihe seja dado tudo (© que necessita; ou porque o merece porque é boa, ou obediente, ou por 1; causa de um narcisismo altamente desenvolvido que faz uma pessoa sentir- i se tio maravilhosa que pode exigir que os outros cuidem dela. Esse tipo de pessoa espera que todas as satisfagGes lhe sejam oferecidas sem qualquer reciprocidade. A pessoa oral-sadistica também acredita que tudo aquilo de que neces- sita vem de fora e ndo em resultado de seu proprio trabalho. Mas, ao invés do carter oral-receptivo, ndo espera que alguém lhe dé voluntariamente 0 que ela precisa e, portanto, é pela forca que ela tenta apoderar-se do que necessita; o seu cardter ¢ explorador e predatério. O terceiro tipo de carater é 0 anal-sadistico. Trata-se da estrutura de cardter das pessoas que acham que nada de novo é jamais criado; que a tni- ca maneira de possuir algo é poupando aquilo que se tem. Consideram-se uma espécie de fortaleza, da qual nada pode sair. A sua seguranga reside no isolamento. Freud encontrou nelas as trés categorias seguintes: so pes- soas ordenadas, metédicas, parcimoniosas e obstinadas. grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 51 O cardter plenamente desenvolvido e, por assim dizer, maduro, é 0 genital. Enquanto que as trés orientagdes de cardter “neurdético” podem ser claramente reconhecidas, o cardter genital € muito vago. Freud descre- ve-o como sendo a base da capacidade de amar e trabalhar. Depois do que vimos acerca do conceito freudiano de amor, ele s6 pode referir-se a forma degradada de amor numa sociedade de fazedores de lucro. O que Freud en- tende por cardter genital é simplesmente 0 homem burgués, ou seja, 0 ho- mem cuja capacidade para amar é muito restringida e cujo “trabalho” é o esforgo de organizar e usar o trabalho de outros — ser o gerente e nao © operdrio. As trés orientagées de cardter “neurdtico” ou, como Freud as desig- nou, “pré-genitais”, sf0 a chave para a compreensdo do cardter humano, exatamente porque ndo se referem a um frago isolado, mas ao sistema caracterolégico como um todo. De um modo geral, é facil reconhecer a que tipo de cardter uma pessoa pertence, mesmo que se disponha apenas de meia dizia de pistas. O homem de labios apertados, retraido, ensimes- mado, cuja preocupagdo primordial e que tudo esteja ordenado e nos seus lugares certos, carente de espontaneidade, cuja pele tende para ser desco- tada, € facilmente reconhecivel como um cardter anal; se soubermos que 4 sua tendéncia é para ser avarento, frio e distante, receebemos confirma- (fo. O mesmo ocorre com 0s tipos caracterolégicos explorador e receptivo. F certo que as pessoas tentam esconder suas verdadeiras faces, desde que se apercebam do fato de que a fisionomia denuncia tendéncias que elas prefe- tiriam ndo divulgar. Dai que as expressGes faciais no sdo sequer as mais importantes indicagdes da estrutura de cardter. Mais importantes sao as expressGes que s4o muito menos controldveis; os movimentos, a voz, a pos- (ura, 0 modo de andar, os gestos e tudo o que de uma pessoa entra em Nnosso campo de visfo quando olhamos para ela ou a vemos caminhando. As pessoas que compreenderam o significado dos trés tragos de cariter pré-genital podem sem dificuldade entender-se mutuamente quando falam (esta ou daquela pessoa como um cardter anal, ou quando aludem a uma combinagdo de tragos anais/orais, ou a tragos especialmente oral-sadisticos. Coube ao génio de Freud ter apreendido nessas orientagdes caracteroldgicas {odos 08 modos possiveis em que o homem pode relacionar-se com o mundo lio “processo de assimilagao”, quer dizer, no processo de obter da natureza ou de outros seres humanos o que é necessdrio 4 sobrevivéncia. O problema flo € que todos necessitamos de obter algo do exterior; nem mesmo o san- \o poderia sobreviver sem qualquer espécie de alimento. O verdadeiro pro- tema € em que consiste o nosso método de obté-lo; se € um método de toceber o que é dado, ou de roubar, ou de amealhar, ou de produzir. Desde que Freud e alguns de seus seguidores apresentaram essa carac- \eologia, a nossa compreensdo do homem e das culturas foi grandemente 52 grandeza e limitacdes do pensamento de Freud enriquecida. Digo de culturas porque as sociedades também podem ser caracterizadas em fungo dessas estruturas de cardter, por causa de seus respectivos caracteres sociais; quer dizer, 0 nucleo do cardter comum 4 maioria dos membros de uma sociedade também serd de um ou outro tipo. Apenas para dar um exemplo: o cardter da classe média francesa do século XIX era o de uma estrutura anal, e o carater do empresdrio do mesmo peri- odo o de uma estrutura exploradora. ‘As bases da caracterologia que Freud langou levaram 4 descoberta de outras formas de orientagGes de carter. Podemos falar de um cardter auto- 4 ritario versus igualitério, de um cardter destrutivo versus amoroso e, desse modo, referir-nos a um trago dominante que determina 0 resto da estrutu- ra de cardter. O estudo do cardter mal foi iniciado ¢ as conseqiiéncias da descoberta de Freud esto longe de esgotadas. Mas toda esta admiracao pela teoria, freudiana do cardter no nos deve impedir de ver que ele restringiu o signi- ficado da teoria quando a vinculou a sexualidade. J4 nos Trés Ensaios so- bre a Teoria da Sexualidade ele expressava com muita clareza: “Aquilo que chamamos 0 cardter da pessoa € construido, em grande parte, a partir do material das excitagdes sexuais; compde-se de impulsos fixados desde infancia e ganhos através da sublimagao, e de estruturas destinadas a supri- mir eficazmente aqueles sentimentos perversos que so reconhecidos como initeis.” (S. Freud, 1905d, pp. 238 e seg.) A sua denominag4o das orient: Ges de cardter tora isso muito claro. As duas primeiras obtém sua energial da libido oral, a terceira da libido anal e a quarta da chamada libido geni- tal, quer dizer, a sexualidade do homem ou mulher adultos. A mais impor tante contribuigo de Freud para a sua caracterologia foi o seu artigo inti tulado Cardter e Erotismo Anal (S. Freud, 1908b). Os trés tragos d carater anal — método, parciménia e obstinagado — foram considerados e: ptessdes diretas, formagées de reacdo ou sublimagdo da libido anal. O mes mo ocorre com as outras estruturas de caréter, em fungdo da libido oral genital. | Freud subordinou as varias espécies de libido muitas das grandes pal | xdes humanas, como o amor, 0 édio, a ambigfo, a sede de poder, a ava za, a crueldade, assim como a paixdo pela independéncia ¢ a liberdad Na parte mais nova das teorias de Freud sobre os instintos de morte e d vida, foi proposta uma origem essencialmente biolégica para o amor 6dio. No tocante 2 interpretago da teoria dos instintos de vida e de morte os analistas ortodoxos pressupdem que a agressdo é um impulso inerent natureza humana, t4o original quanto o amor. O desejo de poder foi tr tado em ligac¥o com o caréter anal-sadistico, embora deva ser admiti¢ que a sede de poder, talvez.o impulso mais importante que se possa enco trar no homem moderno, ndo tem tido uma considerag4o adequada grandeza e limitacSes das descobertas de Freud 53 teratura psicanalitica. A dependéncia foi estudada, em termos de submis- sfio, como relacionada de varias formas ao complexo de Edipo. Essa redu- do das grandes paix6es a varias espécies de libido foi uma necessidade ted- rica para Freud, uma vez que, parte a sua luta pela sobrevivéncia,'® todas ° as energias do homem eram — ao que se supunha — de natureza sexual. Se ndo estivermos sob a compulsao de explicar todas as paixOes humanas como tendo suas raizes na sexualidade, ndo somos forgados, evidentemen- te, a aceitar a explicagdo de Freud; chegamos a uma andlise mais simples ¢, creio eu, mais acurada das paixdes humanas. Podemos distinguir entre paixGes biologicamente dadas, a fome e 0 sexo, as quais servem a sobrevi- vencia do individuo e da raga, e paix6es que sao social ¢ historicamente condicionadas. Se as pessoas amam ou odeiam predominantemente, se submetem ou lutam pela liberdade, sfo mesquinhos ou magninimos, cruéis ou ternos, depende da estrutura social que é responsdvel pela for- magdo de todas as paixes exceto as bioldgicas. (Cf. E. Fromm, 1968h.) Existem culturas em que, no cardter social, a paixdo pela cooperacdo ¢ harmonia domina, como no caso de tribos como os indios Zufli da Amé- rica do Norte, e outras em que predominam a possessividade ¢ destrutivida- de extremas, como entre os Dobu. (Cf. 0 detalhado exame de sociedades com atitudes agressivas e atitudes cooperativas, em E. Fromm, Andlise da Destrutividade Humana, 1973a, Capitulo 8.) ‘A andlise pormenorizada do cardter social tipico de qualquer socieda- de é imprescindivel para se entender de que modo as condigdes econdmi- cas, geograficas, hist6ricas e genéticas levaram a formacdo de varios tipos de cardter social, Para dar um exemplo simples: uma tribo que dispde de pouquissimo solo fértil, e carece até de suprimentos de peixe e carne, é suscetivel de desenvolver um cardter agressivo e beligerante porque a sua (nica forma de sobrevivéncia é assaltando e roubando de outras tribos mais favorecidas. Por outro lado, uma tribo que ndo produz um grande exce- dente, mas o bastante para todos viverem, ser propensa a desenvolver um espirito pacifico ¢ cooperativo. Estes exemplos sao, € claro, muito simpli- ficados; 0 problema das condigGes para o desenvolvimento de certos tipos de carater social é dificil e requer uma andlise completa de todos os fatores importantes e até dos aparentemente irrelevantes. Esse é o campo da andli- se social ou andlise historica, a qual, acredito eu, tem um grande futuro, ombora até hoje apenas tenham sido langados os alicerces desse ramo da Psicologia Social analitica. \V fmm sua teoria ulterior do instinto de vida e instinto de morte, Freud substituiu \ anterior teoria de orientagdo essencialmente fisiologica por uma teoria bioldgica ‘iw polaridade entre forcas integradoras-instinto de vida, e forgas destrutivas-instin- lo de morte. (Cf, 0 exame da Teoria dos Instintos de Freud, no Capitulo 4.) grandeza e limitagdes do pensamento de Freud As paixdes historicamente condicionadas sao de tal intensidade que podem ser maiores, inclusive, do que as paixes biologicamente condicio- nadas da sobrevivéncia, fome, sede e sexo. Pode nio ser esse 0 caso da pes- soa comum cujas paixdes foram largamente reduzidas a satisfagao de suas necessidades fisiolégicas. Mas é 0 caso de um considerdvel namero de pes- soas em qualquer periodo histérico que arriscam a vida por sua honra, amor, dignidade — ou ddio. A Biblia expressou isso em palavras simples “Nem s6 de po vive o homem.” Imaginemos que Shakespeare tivesse es- crito seus dramas sobre a frustragdo sexual de um her6i ou 0 desejo de co- mida de uma heroina; teria sido tao banal quanto algumas das pegas con- temporaneas que s4o produzidas na Broadway. O elemento dramitico na vida humana tem suas raizes em paixGes ndo-biolégicas, ndo na fome e no sexo. Dificilmente qualquer pessoa comete suicidio por causa da frus- tragdo de seus desejos sexuais, mas s4o muitas as que se dispdem a renun- ciar a vida porque suas ambigdes ou seu édio foram frustrados.!4 Freud nunca viu o individuo como um ser isolado, mas sempre em seu telacionamento com outros; como disse ele: “A Psicologia Individual, por certo, esta interessada no ser humano individual e examina 0 modo como ele procura satisfazer suas pulsdes instintivas. Mas s6 raramente e sob ci cunstancias excepcionais e especificas ela estd em posigdo de abstrair das relagdes dessa pessoa com outros individuos. Na vida psiquica do indivi- duo, outras pessoas devem ser comumente consideradas como modelos, objetos, colaboradores ou adversdrios. Assim, desde 0 come¢o, a Psicologia Individual é simultaneamente Psicologia Social — nesta acep¢fo ampla mas legitima” (S. Freud, 1921c, p. 65). Ndo obstante, esse niicleo de uma Psi- cologia Social ndo se desenvolveu mais porque Freud supunha que a enti dade fundamental, a vida da famflia, era decisiva para o desenvolvimento da crianga. Freud ndo viu que o ser humano, desde a mais tenra idade, vi em numerosos circulos; 0 mais limitado de todos é a familia, o seguinte é sua classe, 0 terceiro é a sociedade onde vive, o quarto as condigées biolé gicas do ser humano em que ele participa e, finalmente, faz parte de circulo mais vasto de que ele quase nada sabe, mas que compreende, pelo menos, 0 nosso sistema solar. Somente 0 circulo mais estreito, o da famé- lia, se reveste de importancia para Freud e, por isso, subestimou conside! velmente todos os outros circulos de que o homem faz parte. Mais especifi. camente, ele ndo reconheceu que a propria familia era determinada pe classe e a estrutura social, e constituia uma “agéncia da sociedade” cuj fungao é transmitir 0 cardter da sociedade ao bebé, mesmo antes de ele tet qualquer contato com a sociedade. Isso € realizado pela criagdo inicial ‘* B um fato interessante que a taxa de suicidio subiu, em geral, na mesma propo do da taxa de industrializagdo. (Cf. E. Fromm, Psicandlise da Sociedade Contem rénea, 195Sa, Capitulo 1.) grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 55 pela educagdo, assim como pelo cardter dos pais, o qual é, em si mesmo, um produto social (cf. E. Fromm, 1932a). Freud considerou a familia burguesa o protétipo de todas as familias e ignorou as formas muito diferentes de estrutura familiar ou até a com- pleta auséncia da “familia” em outras culturas. Um exemplo disso € a im- portancia que Freud atribui a chamada “‘cena primordial”, em que a crian- ¢a presenciou © intercurso sexual dos pais, uma experiéncia a que Freud confere grande significado. E Sbvio que o significado dessa esperiéncia é ampliado pelo fato de, na familia burguesa, filhos e pais viverem em quar- tos diferentes. Tivesse Freud pensado na vida familiar entre as classes mais pobres de seu tempo, em que as criancas vivem no mesmo quarto com os pais e testemunham o intercurso sexual destes como coisa banal, essa expe- riéncia nao teria o significado tao preponderante que Freud the atribuiu. Ele também nao levou em consideragdo as muitas sociedades chamadas pri- mitivas, em que ndo existia tabu sobre a sexualidade e onde pais e filhos nao tinham que esconder seus atos e jogos sociais. Pelas premissas que Freud sustentou, a respeito de todas as paixdes serem de natureza sexual e de a familia burguesa ser 0 prototipo de todas as familias, ele nao pode ver que o fendmeno primario nao é a familia, mas a estrutura da sociedade que cria aquele tipo de cardter de que ela ne- cessita para seu adequado funcionamento e sobrevivéncia. Ele néo chegou ao conceito de “‘cardter social” por causa da estreita base de sexo ndo ter permitido que tal conceito fosse desenvolvido. Como mostrei (em E. Fromm, O Medo a Liberdade, 19414, apéndice), 0 carter social é aquela estrutura de caréter comum a maioria dos membros de uma determinada sociedade, dependendo o seu contetido das necessidades dessa sociedade que moldam o cardter do individuo de tal maneira que as pessoas querem fazer o que tém a fazer, a fim de garantirem o funcionamento adequado da sociedade. O que elas querem fazer depende das paixdes dominantes no cardter delas, 0 qual foi formado pelas necessidades e exigéncias de um sistema social especifico. As diferenas apresentadas por diferentes conste- Jagdes familiares so secunt em comparacdo com a diferenciacdo gera- da por diferentes estruturas de sociedade e nas respectivas classes. Um membro da classe feudal, por exemplo, tinha que desenvolver um cardter que 0 capacitasse a dominar os outros, a endurecer seu coragdo diante da miséria dos vassalos. A classe burguesa do século XIX tinha que desenvol- ver um carater anal que era determinado pelo desejo de poupar e amea- \har e de no gastar. No século XX, a mesma classe desenvolveu um cardter que fez da poupanga apenas uma virtude secundaria, se no um vicio, em comparagao com um trago do cardter moderno: gastar e consumir. Esse de- senvolvimento esté condicionado pelas necessidades econdmicas funda- mentais; no perfodo de acumulagao priméria do capital, em vez de poupar, gastar € da maior importancia econémica. Se o cardter do homem do sé- 56 grandeza e limitacdes do pensamento de Freud culo XX revertesse subitamente ao do homem do século XIX, a nossa eco- nomia defrontar-se-ia com uma séria crise, se ndo um colapso.!> Descrevi até aqui o problema das relagdes entre a Psicologia Individual e a Social em termos esquematicos. Uma andlise mais completa desse pro- blema, que ultrapassaria os limites deste livro, teria que distinguir entre necessidades ou paixdes enraizadas na propria existéncia dos seres huma- nos e aquelas que nao sao primordialmente condicionadas pela sociedade, mas pela propria natureza do homem, pelo que a auséncia das mesmas deve ser considerada 0 resultado da represso ou de grave patologia social. Tais esforgos so os da luta pela liberdade, a solidariedade, o amor. Se o sistema de Freud estivesse livre do efeito limitador da sua teoria da libido, o conceito de cardter teria uma importancia ainda maior do que a que Freud lhe conferiu. Isso requer a transformagao da Psicologia Indivi- dual em Social e reduz a primeira somente ao conhecimento de pequenas variagdes produzidas pelas circunstancias individuais e idiossincrdticas que influenciam a estrutura bdsica de cardter socialmente determinada. Apesar desta critica ao conceito freudiano de cardter, cumpre enfatizar, uma vez mais, que a descoberta de Freud do conceito dinamico de cardter oferece a chave para a compreensdo da motivacao do comportamento individual e social e, em certa medida, para a sua previsao. 6. O significado da infancia Entre as grandes descobertas de Freud cumpre mencionar a do signifi- cado dos primeiros anos da infancia. Essa descoberta possui numerosos as- pectos. O bebé ja possui pulsdes sexuais (ibidinais), embora ndo ainda em termos de sexualidade genital, mas do que Freud designou por sexualidade pré-genital, a qual se concentra, respectivamente, nas ““zonas erdgenas” da boca, anus ¢ pele. Em contraste com a imagem burguesa da crianga “ino- cente”, Freud reconheceu que tal imagem era ficticia e demonstrou que a crianga pequena, desde o nascimento, esta dotada de muitas pulsGes libi- dinais de natureza pré-genital. Na época de Freud, 0 mito da crianga inocente"® que nada sabe de sexo ainda dominava e, além disso, nao se tinha consciéncia da importancia 1S’ Qs meus préprios estudos do cardter social dio continuidade 4 linha de pesquisa que foi iniciada por Sombart, Max Weber, Brentano, Tawney, Kraus ¢ outros cientistas sociais na primeira parte deste século, e eu me beneficici imensamente de suas teoria 16 Cumpre assinalar que todo 0 conceito de uma crianga detentora de um status es- pecial em contraste com 0 do adulto € relativamente moderno. Até ao século XVIII, essa diviso era praticamente inexistente; a crianga era simplesmente um adulto em miniatura, que no era romantizado, e realizava suas tarefas de acordo com suas apti- des. Sou grato a Ivan Illich por algumas sugestées fecundas nesse sentido. grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 57 que as experiéncias da crianga, sobretudo da crianga muito pequena, ti- nham para o desenvolvimento do seu cardter e, por conseguinte, para todo © seu destino. Com Freud, tudo isso mudou. Ele pode provar, através de numerosos exemplos clinicos, como os eventos dos primeiros tempos de vida, especialmente os de natureza traumatica, formaram o cardter da crianga em tal grau que ele admitiu estar 0 cardter de uma pessoa fixado muito antes da puberdade ¢ nfo sofrer novas mudangas, com raras exce- goes. Freud demonstrou quanto uma crianga sabia, até onde era sensivel, como os acontecimentos que podem parecer triviais a um adulto exerciam profunda influéncia sobre o desenvolvimento da crianga ¢ na formagao ul- terior de sintomas neurdticos. Pela primeira vez, comegou-se a levar a sé- rio a crianga e 0 que lhe acontecia, tao a sério, de fato, que se acreditou ter sido descoberta a chave para todo o desenvolvimento subseqiiente nos eventos do comego da infancia. Consideravel soma de dados clinicos mostrou a corre¢do ¢ a sabedoria das observag6es de Freud, mas acredito que também revela certas limita- ges em seus pressupostos tedricos. Em primeiro lugar, Freud subestimou 6 significado de fatores genéticos constitucionais na formagdo do carater infantil. Nao o fez em teoria, quando afirmou que os fatores constitucio- ais e a experiéncia eram responsaveis pelo desenvolvimento da pessoa; mas, para todos 0s fins praticos, ele ¢ a maioria dos psicanalistas negligen- ciaram a disposicdo genética de uma pessoa; no freudismo nue cru, so ex- clusivamente a familia e a experiéncia da crianga nela que se responsabili- zam pelo desenvolvimento da crianga. Isso chegou ao ponto de tanto os psicanalistas como os pais acreditarem que uma crianga neurdtica, ou mé, ou infeliz, deve ter tido pais que produziram esse estado negativo, ao passo que, pelo contrario, a crianga feliz e saudavel teve, correspondentemente, um ambiente feliz e saudavel. De fato, os pais chamaram a si toda a culpa pelo desenvolvimento mérbido de uma crianga, mas igualmente os enco- mios pelo feliz desfecho da infancia. Todos os dados mostram ndo ser as- sim, na realidade, que as coisas se passam. Eis um bom exemplo. Um psi- canalista pode ver uma pessoa neurdtica, distorcida, como tendo tido uma infancia terrivel, e diz: “E obvio que as experiéncias infantis produziram esse infeliz resultado”. Entretanto, se ele se perguntasse apenas quantas pessoas viu, do mesmo tipo de constelagdo familiar, que resultaram ser extraordinariamente felizes e sauddveis, ele comegaria a ter duvidas acerca da simples ligagdo entre experiéncias infantis e a sadde mental ou doenca mental de uma pessoa. O primeiro fator que pode explicar esse desaponta- mento tedrico deve residir na ignorancia do analista das diferengas nas dis- posig6es genéticas. Para dar um exemplo simples: € possivel ver até em be- bés recém-nascidos uma diferenca no grau de agressividade ou timidez. Se a crianga agressiva tem uma mde agressiva, esta pouco mal lhe fard ou talvez Ihe faga até muito bem. A crianga aprenderd a brigar com elae nao 58 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud ficard assustada com a agressividade materna. Se uma crianga timida se defronta com a mesma mie, serd por esta intimidada em virtude de sua agressividade; sua tendéncia é para ficar assustada, submissa e, mais tarde, tornar-se talvez uma pessoa neurotica. Estamos abordando aqui, na verdade, um problema antigo e muito dis- cutido: o da “natureza versus criagdo”, ou da disposicdo genética versus ambiente. A discussdo desse problema ainda nao levou a resultados con- cludentes. Pela minha propria experiéncia, cheguei A conclusio de que as disposig6es genéticas desempenham um papel muito maior na formagao de um carater especifico do que a maioria dos analistas acredita. Acho que uma das finalidades do analista deve ser reconstituir uma imagem do caré- ter da crianga quando nasceu, a fim de averiguar quais os tragos descober- tos no analisando que sao parte da natureza original e quais sio adquiridos através das circunstancias influentes no ambiente; além disso, que qualida- des adquiridas conflitam com as genéticas, e quais tendem a reforgé-las. O que encontramos muito freqiientemente € que, pelo desejo dos pais (pes soalmente e como representantes da sociedade), a crianga é forgada a repri- mir ou a enfraquecer as suas disposigdes originais e a substitus-las por aqueles tragos que a sociedade quer que ela desenvolva. Nesse ponto, encontramos as raizes dos desenvolvimentos neurdticos; a pessoa desenvolve um sentido de falsa identidade. Enquanto que a identidade genufna assenta na consci- éncia da semelhanga de uma pessoa em termos daquela sociedade em que ela nasceu, a pseudo-identidade repousa na personalidade que a sociedade nos impés. Por conseguinte, uma pessoa estd em necessidade constante de aprovacdo, a fim de manter 0 seu equilibrio. A identidade genuina nao ne- cessita de tal aprovagdo, porque a imagem da pessoa de si mesma é idéntica a sua estrutura auténtica de personalidade. ‘A descoberta do significado dos eventos do inicio da infancia para 0 desenvolvimento de uma pessoa leva facilmente a que se subestime a im- portancia dos eventos subseqiientes. De acordo com a teoria de Freud, 0 cardter de uma pessoa ficou mais ou menos formado, de um modo defini- tivo, por volta dos 7 ou 8 anos de idade; por conseguinte, supunha-se que mudangas fundamentais em anos ulteriores eram virtualmente impossivei: Os dados empiricos, entretanto, parecem mostrar que essa suposi¢do exa- gera o papel da infancia. Por certo, se as condigdes que ajudaram a formar © cardter de uma pessoa na infancia continuam, é provavel que a estrutura de cardter permanega inalterada. Deve ser ainda admitido que isso, de fato, € valido para a maioria das pessoas que, em sua vida subseqiiente, conti- nuam vivendo sob condigdes semelhantes Aquelas que existiam na sua in- fancia. Mas 0 pressuposto de Freud desviou a atengdo daqueles casos em — que ocorreram mudangas radicais nas pessoas, através de experiéncias radi- calmente novas que elas tiveram. Vejamos, por exemplo, uma pessoa que, ao longo de sua infancia, se convenceu de que ninguém jamais se importou grandeza e limitagdes das descobertas de Freud 59 com ela, a menos que quisessem algo dela, de que nio existia amor ou sim- patia que no fosse em pagamento por servigos ou como suborno para exe- cuté-los. Uma pessoa pode atravessar a vida sem ter jamais experimentado que alguém pudesse estar preocupado ou interessado por ela sem nada que- rer em resposta. Mas, quando acontece a uma tal pessoa experimentar que uma outra alimenta um interesse real sem nada querer em troca, esse even- to poderd mudar drasticamente tragos de cardter tais como a desconfianga, ‘© medo, o sentimento de desestima etc. E claro, do ponto de vista burgués de Freud e de sua descrenga no amor, que nao se pode esperar esse tipo de experiéncia. Em casos muito drésticos de mudanga de cardter, poder-se-4 até falar de auténticas convers6es, 0 que significa uma completa mudanga nos valores, expectativas e atitudes porque algo inteiramente novo ocorreu na vida da pessoa convertida. E, no entanto, tais conversdes no eram pos- siveis a menos que a pessoa jé tivesse em si a potencialidade que se tornow manifesta em sua conversio. Admito que as provas superficiais ndo de- poem a favor de tal suposi¢do porque as pessoas, usualmente, ndo mudam, mas tem que se considerar que a maioria das pessoas ndo experimenta nada que seja verdadeiramente novo. Elas encontram usualmente 0 que esperam encontrar e, por conseguinte, é-lhes vedada a possibilidade de que uma expe- riéncia fundamentalmente nova provoque mudangas substanciais de cardter. ‘A dificuldade em descobrir qual era a face de uma pessoa no momento em que nasceu e nos primeiros meses do primeiro ano reside no fato de que alguém nunca se lembra como se sentia com seis meses ou um ano de idade, As primeiras recordag6es no vo mais além dos primeiros dois ou trés anos de vida e ai esté uma das dificuldades cruciais do pressuposto de Freud sobre o significado do inicio da infancia. Ele tentou enfrentar essa dificuldade mediante o estudo da transferéncia. Isso é, por vezes, bem- sucedido, mas se estudarmos os casos historiados pela escola freudiana somos forgados a reconhecer que muito do que se supunha serem experién- cias do comeo da infancia s4o reconstituigdes. Tais reconstituigdes, entre- tanto, so muito pouco id6neas. Baseiam-se nos postulados da teoria de Freud, e a convicgao de autenticidade ¢ freqiientemente o produto de uma espécie sutil de lavagem cerebral. Enquanto se supde que o analista se man- tém em nivel empirico, o que na realidade acontece é que, de um modo sutil, ele sugere ao paciente 0 que acha que este deve ter experimentado; e, pos uma longa anilise e na base da dependéncia em relagdo ao analista, 0 paciente proclamaré com freqiéncia — ou “admitiré””, como se Ié as vezes nos relatos de casos analiticos — que pode sentir ee a corregdo do que a construgdo tedrica espera que ele sinta. E certo que 0 analista de- veria deixar o paciente livre de toda e qualquer persuasdo. O paciente sen- sivel, ou mesmo o ndo muito sensivel, capta pouco depois 0 que é que © analista espera ouvir dele e consente numa interpretacdo quando, de fato, apenas cedeu a reconstitui¢do pelo analista do que se supde ter acontecido. 60 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud Além disso, deve-se considerar que as expectativas do analista se baseiam ndo sé nas exigéncias da teoria, mas também nas do quadro burgués do que é uma pessoa “normal” Supondo-se, por exemplo, que numa pessoa 0 de- sejo de liberdade e o protesto contra ser determinada por imposigdes hete- ronomas esto desenvolvidos de maneira particularmente forte, partir-se-ia do principio de que a propria rebeldia tem uma qualidade irracional e so serd explicada pelo ddio edipiano do filho contra o pai, cuja raiz é a rivali- dade sexual em torno da mae-esposa. O fato de que as criangas so contro- ladas e manipuladas na infancia e mais tarde, ao longo da vida adulta, con- sidera-se normal e a rebeldia, portanto, é uma expresso de irracionalidade. Desejo acrescentar um outro fator complicativo, ao qual se tem pres- tado pouca atengao. A relagdo entre pais e filhos é usualmente vista como unilateral, ou seja, 0 efeito exercido pelos pais sobre as criangas. Mas o que freqiientemente se ignora é que tal influéncia no é unilateral, em absolu- to, como se supde muitas vezes. Os pais podem ter uma desafeigdo natural pela crianga, ou até pelo bebé recém-nascido, ndo s6 pela razdo que é fre- qiientemente discutida, por exemplo, que era um filho ndo-desejado ou que os pais sdo destrutivos, sddicos etc., mas também porque a crianga e os pais sdo simplesmente incompativeis por suas proprias naturezas e porque, nesse aspecto, o relacionamento nao é diferente do que se verifica entre pessoas crescidas. Os pais podem ndo gostar do tipo de filho que geraram e a crianga pode manifestar seu desagrado desde 0 comego. Por outro lado, crianga pode desagradar a espécie de pais que tem e, sendo a mais fraca, serd punida por sua aversdo através de toda sorte de sangdes mais ou menos sutis. A crianga — e igualmente a mae — é forcada a uma situagdo em que a mae tem que cuidar do filho e este tem que aceitar a mée, apesar do fato de sentirem uma profunda aversdo mitua. A crianga ndo pode expressar claramente isso; a mae sentir-se-ia culpada se admitisse para si mesma que nao gostava da crianga a que ela propria deu vida e, assim, ambas as partes se comportam sob um tipo especial de pressdo e de punigdo reciproca por se verem forgadas a uma intimidade indesejavel. A mae finge amar a crian- ga e sutilmente a pune por ser forgada a isso; do mesmo modo, a crianga simula, de uma forma ou de outra, amar a mde porque sua vida depende totalmente dela. Em tal situagdo, desenvolve-se consideravel desonestida- de, que as criangas freqiientemente expressam a sua maneira indireta de rebelido e que as mes usualmente negam porque acham nada poder haver de mais ignominioso do que nao gostar de seus proprios filhos. CAPITULO III A TEORIA FREUDIANA DA INTERPRETACAO DE SONHOS — 1. Grandeza e limitagdes da descoberta de Freud da interpretagdo de sonhos Se Freud nao tivesse criado uma teoria da neurose e um método de tratamento, mesmo assim ainda seria uma das mais notaveis figuras na cién- cia do homem por causa da descoberta da arte de interpretagao de sonhos. F certo que em quase todas as épocas as pessoas tentaram interpretar So- nhos. Como poderia ser de outra forma, quando as pessoas despertam pela manha e se recordam de experiéncias peculiares que tiveram durante 0 sono? Existiram numerosos métodos de interpretar sonhos, muitos dos quais baseados em superstigdes e idéias irracionais; mas também houve muitos que representaram uma profunda compreensdo do significado do sonho. Essa compreensdo em parte alguma foi mais claramente expressa do que na afirmagao talmidica: “Um sonho que nao foi interpretado é como uma carta que nao foi aberta”. Esta sentenga expressa 0 reconhecimento de que um sonho € uma mensagem que enviamos ands mesmos e que te- mos de compreender a fim de nos compreendermos. Entretanto, apesar da longa historia de interpretagdo de sonhos, Freud foi o primeiro a confe- rir-lhe uma base sistemdtica e cientifica. Ele forneceu-nos as ferramentas para a compreensdo dos sonhos que todos podemos usar, desde que apren- damos como manejar as ferramentas. Dificilmente se poderd exagerar 0 significado da interpretagdo de so- nhos. Em primeiro lugar, torna-nos conscientes de sentimentos e pensa- mentos que existem dentro de nds e dos quais, entretanto, no temos cons- ciéncia enquanto despertos. O sonho, como Freud afirmou certa vez, é a estrada real para a compreensio do inconsciente. Em segundo lugar, © sonho é um ato criador em que a pessoa comum mostra a presenga de poderes criativos de cuja existéncia ndo tem idéia quando desperta. Freud descobriu, além disso, que 0s nossos sonhos nao sao a simples expressio de puls6es inconscientes, mas sao usualmente distorcidos pela influéncia de uma sutil censura que est4 presente mesmo quando dormimos e nos forga a distorcer 0 verdadeiro significado de nossos pensamentos onfricos (0 “so- 62 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud nho latente”); assim, 0 censor ludibriado, por assim dizer, e permite que 08 pensamentos escondidos cruzem a fronteira para a consciéncia se estive- rem suficientemente disfargados. Este conceito levou Freud a formular o pressuposto de que todo sonho (com excegdo dos sonhos infantis) é distor- cido e tem que ser restabelecido em seu significado original pela interpreta- ¢G0 do sonho. Freud desenvolveu uma teoria geral dos sonhos. Partiu da premissa de que o homem, durante a noite, tem muitos im- pulsos e desejos, especialmente de natureza sexual, que interromperiam o sono se ndo fosse pelo fato de experimentar esses desejos como satisfeitos no sonho e, por conseguinte, ndo tem que despertar a fim de procurar uma satisfagao realista dos mesmos. Para Freud, os sonhos eram a expressdo disfargada da realizagdo de de- sejos sexuais. O sonho como realizacao de desejo foi o insight fundamental que Freud trouxe para o campo da interpretacdo de sonhos. Uma objecao 6bvia a essa teoria foi que temos muitos pesadelos dificilmente explicdveis como realizagdo de um desejo, uma vez que chegam a ser to penosos que, amitide, interrompem 0 sono. Mas Freud encarregou-se de anular esse argu- mento de um modo engenhoso. Sublinhou que existen desejos sddicos e masoquistas que produzem grande ansiedade, mas nem por isso deixam de ser desejos que 0 sonho satisfaz, muito embora uma outra parte de nés proprios fique assustada por tais desejos. A coeréncia da interpretagdo de sonhos por Freud e de todo o seu sistema é tao impressionante que os seus conceitos sdo deveras convincentes como hipétese operacional. Se, por ou- tro lado, nao compartilhamos do pressuposto basico de Freud a respeito do sexo, algumas outras consideragbes se impoem. Assim, em vez de se supor que 0 sonho é a apresentacdo distorcida de um desejo, pode-se for- mular a hipétese de que o sonho representa qualquer sentimento, desejo, medo ou pensamento que seja suficientemente importante para se apresen- tar durante 0 nosso sono, ¢ que 0 seu aparecimento em sonhos é um sinal de sua importancia. Na minha observacdo de sonhos, verifiquei que muitos deles ndo contém qualquer desejo, mas s40 um insight sobre a situagao da propria pessoa ou sobre a personalidade de outras. A fim de apreciar essa fungdo, devemos considerar a particularidade do estado de sono. Durante o sono, somos liberados da tarefa de sustentar a nossa existéncia pelo traba- Tho ou pela defesa de nds prdprios contra possiveis perigos. (Somente os sinais de uma emergéncia nos despertam de nosso sono.) Nao estamos sob a influéncia do “rufdo” social, quer dizer, da opinido de outros, da insensa- tez comum e da patologia comum. Talvez se possa dizer que 0 sono é a tinica situagdo em que somos realmente livres. Isso tem certas conseqiién- cias: Vemos o mundo subjetivamente e ndo do ponto de vista que nos guia objetivamente em nossa vida desperta, ou seja, como devemos vé-lo a fim de © manipular. Num sonho, por exemplo, o elemento de fogo pode expressar amor ou destrutividade, mas é um fogo diferente daquele em que se pode a teoria freudiana da interpretagdo de sonhos 63 cozer um bolo. O sonho ¢ poético e fala a linguagem universal do simbolis- mo, © qual é basicamente comum a todos os tempos e todas as culturas. Em conjunto com a poesia e a arte, é uma linguagem universal desenvolvi- da pela humanidade. No sonho, ndo vemos 0 mundo tal como temos que 0 ver quando queremos manipuld-lo, mas vemo-lo poeticamente em seu sig- nificado para nés. Entretanto, esse insight sobre a natureza do sonho foi muito restrin- gido pela peculiaridade da personalidade de Freud. Ele era um racionalista, carente de inclinagGes artfsticas ou poéticas e, por conseguinte, ndo tinha quase sensibilidade alguma para a linguagem poética, fosse ela expressa em sonhos ou em poesia. Essa caréncia forgou-o a aceitar um conceito limita- dissimo dos simbolos. Para ele, um simbolo ou era sexual (e a gama de possibilidades a esse respeito é bastante grande, uma vez que uma linha e um circulo séo formas extraordinariamente generalizadas de simbolismo) ou s6 entendia os simbolos através de associagdes com qualquer outra coi- se a que estivessem ligados E uma contradigao deveras peculiar que Freud, o especialista do irra- cional e do simbélico, fosse t40 pouco capaz de compreender simbolos. Isso torna-se particularmente flagrante quando comparamos um dos maio- res intérpretes de simbolos, Johann Jakob Bachofen, o descobridor da so- ciedade matriarcal, com Freud. Para Bachofen, um simbolo tinha uma riqueza e profundidade, em to- das as suas ramificages, que excede amplamente a palavra “‘simbolo”. Ele pOde escrever paginas e paginas sobre um tinico simbolo, como, por exem- plo, 0 ovo, quando Freud interpretaria esse simbolo, como, expressio “Obvia” de um aspecto da vida sexual. Para Freud, um sonho requeria uma seqiéncia quase intermindvel de associagdes com as varias partes do sonho e, muito freqiientemente, ficamos sem saber muito mais a respeito do sig- nificado do sonho, depois de termos percorrrido todo esse processo de in- terpretagdo, do que sabfamos antes. 2. O papel das associagées para a interpretagdo de sonhos Para darmos um exemplo do método freudiano de associagdo, trans- crevo um sonho in extenso e a sua interpretagdo. Foi um sonho que teve © proprio Freud e, por conseguinte, faz parte da sua auto-andlise (S. Freud, 1900q, pp. 170-74): Sonho da monografia de botanica Eu escrevera uma monografia sobre certa planta. O livro estava diante de mim e, no momento, eu folheava uma prancha colorida e dobrada. Preso a cada exemplar havia um espécime dessecado da planta, como se tivesse sido retirado de um herbario. 64 grandeza e limitagdes do pensamento de Freud Andlise Naquela manha, eu vira um novo livro na vitrina de uma livraria ostentando 0 se- guinte titulo: The Genus Cyclamen, evidentemente uma monografia sobre essa planta, Os ciclames, refleti eu, eram as flores favoritas de minha esposa e eu me censurei por to raramente me lembrar de levar-lhe as flores de que gostava. A questfo de var flores” recordou-me uma pequena histéria que contara recentemente numa roda de amigos e que usara como prova em abono da minha teoria de que o esquecimento & muitas vezes determinado por uma finalidade inconsciente ¢ que sempre permite que a gente deduza as intengdes secretas da pessoa que ‘esquece.!7 Uma jovem estava habituada a receber um buqué de flores do marido em seu aniversério. Num determi- nado ano, essa prova de sua afei¢do deixou de ocorrer e ela debulhou-se em prantos. © marido acudiu e no fazia a minima idéia por que ela estava chorando, até que a esposa Ihe disse ser esse o dia de seu aniversério. Ele levou as mos & cabeca ¢ excla- mou: “Lamento muito, mas havia completamente esquecido. Vou sair imediatamente para trazer suas flores”. Mas ndo havia forma de a consolar, pois ela reconheceu que 0 esquecimento do marido era uma prova de que ela jé nfo ocupava o mesmo lugar em seus pensamentos como antes. Essa senhora, Frau L., encontrara minha esposa dois dias antes de eu ter o sonho, dissera-the que estava sentindo-se muito bem ¢ pergunta- 1a por mim, Alguns anos antes, tinha-me procurado para tratamento. ‘Adotei entZo um outro ponto de partida. Certa vez, recordei-me, havia realmen- te escrito algo no género de uma monografia sobre uma planta, a saber, uma disserta- go a respeito da planta da coca (1884), que atraira a atengfo de Karl Koller para as propriedades anestésicas da cocafna. Eu mesmo indicara essa aplicagio do alcaléide em meu trabalho publicado, mas ndo o suficiente para prosseguir com o assunto. Isso meefez recordar que, na manhi do dia seguinte ao sonho — nfo tivera tempo de inter- pretéclo sendo 4 noite — estivera pensando sobre a cocaina numa espécie da divagagdo. Se alguma vez contrafsse glaucoma, pensara eu, iria a Berlim ¢ me faria operar, inodg- nito, na casa de meu amigo [Fliess], por um cirurgido recomendado por ele. O cirur- gio que me operasse, sem idéia nenhuma da minha identidade, iria jactanciar-se uma ‘vez mais da facilidade com que essas operagdes poderiam ser realizadas desde a intro- dugdo da cocaina, e eu ndo deveria fazer a menor insinuagdo de que eu proprio tivera participagdo na descoberta. Essa fantasia levara-me a reflexdes de como é estranho para um médico, quando tudo jé foi dito ¢ feito, solicitar tratamento para si mesmo a um colega de profiss4o. O oftalmologista de Berlim ndo me conheceria e eu poderia pagar seus honordrios como qualquer outro paciente. S6 depois de me lembrar desse devaneio é que compreendi que, por trés dele, estava a recordagfo de um aconteci- mento especifico. Pouco depois da descoberta de Koller, meu pai tinha sido, de fato, atacado de glaucoma; meu amigo, o Dr. Konigstein, cirurgido oftalmologista, o opera- ra enquanto o Dr. Koller se encarregava da anestesia por cocafna, comentando real- mente que esse caso reunira todos os trés homens que tinham participado na introdu- fo da cocaina. Os meus pensamentos prosseguiram ento até 0 momento em que me fora lem- brado, pela tiltima vez, esse caso da concaina. Fora alguns dias antes, quando exami- nava um exemplar de um Festschrift em que alunos reconhecidos tinham celebrado 0 17 A teoria foi publicada alguns meses depois da data do sonho, em S. Freyd (1898), ‘© em seguida incorporada em A Psicopatologia da Vida Cotidiana (S. Freud, 19016). a teoria freudiana da interpretacdo de sonhos 65 Jubileu de seu professor ¢ diretor de laboratério. Entre as reivindicagdes do laboraté- tio distingdo, enumeradas nesse livro, eu vira uma mengdo do fato de Koller ter af realizado a sua descoberta das propriedades anestésicas da cocaina. Percebi entfo, de siibito, que o meu sonho estava ligado a um fato da noite anterior. Eu caminhara a pé até 4 minha casa na companhia do Dr. Konigstein e conversara com ele sobre um as- sunto que nunca deixa de excitar os meus sentimentos, sempre que é suscitado. En- quanto falévamos no hall de entrada, 0 Professor Gartner [jardineiro] e a esposa reu- niram-se a nds ¢ cu no pude deixar de felicitar ambos por sua aparéncia vigosa. Mas 0 Professor Gartner era um dos autores do Festschrift que mencionei ha pouco ¢ pode muito bem ter-me feito recordar a obra. Além disso, Frau L., cuja decepgfo em seu aniversério descrevi anteriormente, foi mencionada — ainda que em outra relagdo, va- Iha a verdade — em minha conversa com o Dr. KGnigstein. Farei uma tentativa de interpretar também os outros determinantes do contetido do sonho. Havia um espécime dessecado da planta incluido na monografia, como se tivesse estado num herbério. Isso me levou a uma recordagdo dos meus tempos de es- cola secundaria. O nosso diretor reuniu certa vez os meninos das classes mais adianta- das © confiou-lhes 0 herbério da escola para que o examinassem e limpassem. Alguns pequenos vermes — traas — tinham penetrado nele. Parece que o diretor nfo confia- va muito em minha ajuda, pois entregou-me apenas algumas folhas. Estas, como ainda bem recordo, compreendiam algumas cruciferas. Nunca tive um contato particular- mente intimo com a Boténica. Em meu exame preliminar de Botanica também rece- bera uma crucifera para identificar. . .e fracassei nessa tarefa. Minhas perspectivas nfo teriam sido muito brilhantes se ndo tivesse contado com os meus conhecimentos_ a teéricos. Passei das crucfferas para as compostas. Ocorreu-me que as alcachofras sfo ~ plantas compostas e, na realidade, poderia ter-thes chamado, de maneira razofvel, as minhas flores favoritas, Sendo mais generosa do que eu, minha esposa trazia-me fre- qiientemente do mercado essas flores favoritas. Vi diante de mim a monografia que eu escrevera. Isso me levou de novo a algo. Recebera no dia anterior uma carta do meu amigo [Fliess] de Berlim, na qual demons- trava seu poder de visualizaggo: “Estou muito ocupado com o seu livro de sonhos. Vejo-o concluido a minha frente e vejo-me virando-lhe as pdginas”.'® Como Ihe inve- jei esse dom de vidente! Se ex, pelo menos, pudesse té-lo visto conclufdo diante de mim! A prancha colorida e dobrada. Quando eu era estudante de Medicina, fui vitima constante de um impulso para somente aprender as coisas em monografias. Apesar de ‘meus recursos limitados, conseguia ser dono de um certo niimero de volumes das atas, de sociedades médicas e ficava deslumbrado por suas pranchas coloridas. Orgulhava- me do meu anseio de perfeigd0. Quando comecei a publicar meus prdprios trabalhos, fora obrigado a fazer os meus préprios desenhos a fim de os ilustrar, ¢ lembrei-me de que um deles saira tZo ruim que um colega trocara de mim por causa disso. Seguiu-se (endo pude bem compreender como) uma reminiscéncia dos primeiros anos de minha juventude. Certa vez, meu pai divertiu-se entregando um livro com ilustragdes a cores '8 A resposta de Freud a essa carta de Fliess data de 10 de marco de 1898 (S. Freud, 1950a, Carta 84); de modo que o sonho nao deve ter ocorrido mais de um dia ou dois antes.