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ATOS DOS APÓSTOLOS E CARTAS

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ATOS DOS APÓSTOLOS E CARTAS
são um fascinante documento humano de enorme importância para a cultura e a história do mundo moderno, um registro que muito tem a dizer a todos nós, seres humanos, acerca da nossa própria humanidade.
ATOS DOS APÓSTOLOS E CARTAS
são um fascinante documento humano de enorme importância para a cultura e a história do mundo moderno, um registro que muito tem a dizer a todos nós, seres humanos, acerca da nossa própria humanidade.

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ATOS DOS APÓSTOLOS E CARTAS Texto para leitura, estudo e reflexão

Luiz Edgar de Carvalho * Primeira parte

Atos dos Apóstolos
No Novo Testamento canônico, os quatro evangelhos são seguidos por um livro tradicionalmente denominado “Atos dos Apóstolos” (ou simplesmente “Atos”). Esse livro é a segunda parte de uma obra em dois volumes escritos por Lucas. A primeira metade é o seu evangelho. Atos vem agora separado pelo evangelho de João. A posição canônica dos quatro evangelhos tem alguma lógica: somente depois de a sua história ser contada em todas as versões seria temporalmente apropriado, tratar dos eventos que se seguiram à Crucifixão e à Ressurreição. Seguiram-se a elas, é verdade, muitos eventos; mas o que fez toda a diferença foi o estabelecimento de uma instituição chamada igreja para levar a efeito a missão do líder agora ausente. Como isso aconteceu? Com que provas esse grupo embrionário deparou? Quais foram os seus primeiros êxitos? Quem o liderou? Essas e outras questões são tratadas nos Atos pela mesma pessoa que escreveu o evangelho de Lucas.

O gênero, o propósito e a autoridade dos Atos
Os quatro evangelhos são o seu próprio gênero; com exceção de imitações apócrifas posteriores deles, não se assemelham a nenhuma outra obra literária que conheçamos. Os Atos, por outro lado, parecem muito um livro de história. Embora registrem milagres e outros eventos sobrenaturais, são dedicados principalmente às ações de seres humanos comuns; seguem um rigorosa ordem cronológica, com indicações específicas de tempo e de lugar; registram viagens, reuniões e pronunciamentos; levam-nos a importantes centros cosmopolitas do mundo pagão, como Antioquia, Éfeso, Atenas e Roma; colocam muitas figuras históricas conhecidas no seu cenário; e parecem muito mais preocupados em dar informações do que em pregar doutrinas. Os leitores podem ser perdoados por pensar que agora, finalmente, emergiram à luz do dia e podem esperar em confiança um registro factual – pelo menos factual nos termos da capacidade do autor de conhecer os fatos. Isso parece um jogo com regras familiares. Mas, as aparências enganam: os Atos não são mais hitóricos do que os evangelhos. Não se trata de um registro imparcial dos eventos, como esperamos hoje que os livros históricos sejam, mas de uma narrativa deliberadamente construída, destinada, nos mínimos detalhes, a fazer certas afirmações didáticas. Com esse objetivo, Lucas escolheu o que registrar e o que ignorar, organizou a seqüência, criou ambientes, pôs as suas personagens em relações dramáticas, compôs suas falas e conversas, e, de modo geral, tudo fez para que todas as coisas do seu livro contribuíssem para o seu propósito geral. Há por trás do livro dos Atos os materiais da história, mas o leitor sempre vê a concepção que Lucas tem deles, e nunca os materiais em si. Em tudo isso, Lucas apenas fazia o que os historiadores antigos sempre faziam. Para eles, a necessidade de instruir e de edificar tinha ao menos tanta importância quanto a de informar. E os meros fatos não tinham virtude particular. Se não reconhecerem essa diferença fundamental entre a escritura histórica antiga e a moderna, e não se adaptarem a ela, iremos inevitavelmente entender mal uma obra como a de Lucas. Os 28 capítulos dos Atos cobrem eventos do período de mais ou menos 30 a 60 d.C., isto é, da Ascensão de Cristo à jornada final de Paulo a Roma. Se os Atos foram escritos perto de 90 d.C., segundo as melhores hipóteses, há quase uma geração inteira entre a sua redação e os últimos eventos que registram. Lucas não afirma ter sido testemunha ocular dessa história. Muitas coisas que ele inclui (por exemplo, conversas particulares) não podiam, possivelmente, ter chegado ao seu conhecimento em primeira mão. As únicas indicações que permitem pensar no conhecimento pessoal do autor são as seções-gancho, que começam em 16,11, em especial o relato esplendidamente vívido da última viagem e do naufrágio de Paulo. Mas nada há aí que não pudesse ter chegado aos seus ouvidos a partir de fontes documentárias ou orais, ou, com efeito, que não pudesse ter sido criado pela imaginação do habilidoso artista literário que Lucas, como sabemos, foi.

Além de não dizer que presenciou os eventos, ele também nunca diz quem é. Tanto os Atos como o evangelho de Lucas são anônimos. A tradição segundo a qual o seu autor se chamava Lucas só surgiria em escritos da Igreja de um século depois. O fato de um dos colaboradores de Paulo ter se chamado Lucas é indicado pelas referências existentes nas cartas (Colossensses 4,14; 2 Timóteo 4,11; Filemon 24), mas, mesmo que as três referências remetam ao mesmo Lucas, nada há que prove ter sido ele o autor dos Atos. O que importa não é a identidade de um homem (que por certo existiu, seja qual for o seu nome), mas a autoridade de um livro, visto que mais da metade dos Atos registra as atividades missionárias de Paulo. Sobre que base Lucas – como continuaremos a chamá-lo – formou um quadro dessas atividades? Se foi um companheiro de viagem de Paulo, como ainda confiantemente nuitos dicionários da Bíblia, poderemos confiar no que ele diz sobre o trabalho missionário de Paulo. Infelizmente para essa teoria, Paulo dá em suas cartas, no tocante a vários pontos importantes, uma versão muito diferente. Não podemos deixar de lado essas disparidades. Lucas pode ou não ter sabido o que Paulo estava fazendo, mas não podemos acreditar que o próprio Paulo não o soubesse. Por conseguinte, em todos os pontos em que os Atos e as cartas genuínas de Paulo entram em conflito, o estudioso do Novo Testamento deve estar preparado para acreditar nas cartas. Não há outra alternativa racional. Supõe-se em geral que Lucas tenha escrito sem conhecimento das cartas de Paulo, ou, ao menos, sem ter acesso a elas. Ele teria seguido adiante e retratado a missão de Paulo da maneira como queria que ela fosse conhecida, sem prever que, por um acidente histórico, as próprias evidências necessárias à sua contestação viriam a surgir nos escritos canônicos da sua própria Igreja. Assim, se reconhecermos que existem disparidades, poderemos explicá-las como erros inocentes. Mas talvez não devêssemos nos apressar tanto em supor a ignorância das cartas de Paulo por parte de Lucas; estas dificilmente poderiam ser segredos bem guardados, ao menos não mais que a reputação de Paulo. Pode ser que Lucas tenha decidido simplesmente ignorar as disparidades, confiando que a sua própria obra, na qualidade de composição formal e mais ou menos “oficial”, se imporia a uma coisa casual e efêmera como cartas dispersas. É bom lembrar que um cânon dos escritos do Novo Testamento só surgiria muitas décadas depois. Também é possível que a obra de Lucas se destinasse deliberadamente a se contrapôr à influência de Paulo, que Lucas conhecia bem e não aprovava por inteiro. Ao dizer isso, não estamos tentando menosprezar os Atos nem negar a sua autoridade, mas apenas determinar com a maior precisão possível a que a sua autoridade se aplica. É certo que o Novo Testamento seria uma coletânea bem mais pobre sem ele. O artesanto calculado de Lucas, embora frustre a nossa busca do que “realmente aconteceu”, constitui por si só um fascinante objeto de estudo. E, por mais que fiquem aquém do atendimento da nossa necessidade de uma história da Igreja primitiva, os Atos são o único documento existente que tenta fazer isso.

Segunda parte

Conceitos-chave dos Atos
Para a adequada compreensão dos Atos, é útil contar de antemão com certo entendimento dos conceitos que os governam e enformam. Assim, saberemos o que procurar e poderemos melhor apreciar as intenções do autor. Estes conceitos estão resumidos e reunidos nos seis pontos seguintes: 1. A preeminência do Espírito Santo Coerente com o que apresentou no seu evangelho, Lucas acredita que o Espírito Santo é a força motriz do desenvolvimento da Igrena nascente. Somente inspirados e dirigidos por ele os seres humanos tomam iniciativa. Mesmo o grupo original de apóstolos é estranhamente ignorante do plano divino: reunidos em Jerusalém depois da ascensão de Jesus, seus membros dão a impressão de nada aprender com o período de instrução de quarenta dias registrado em Atos 1,3 (tal como ocorre com as incumbências apostólicas presentes em Lucas 9-10 e com a explicação específica em Lucas 24,46-49). Eles têm de ser levados, passo a passo, à percepção de que Deus desde sempre pretendeu oferecer o “arrependimento doador de vida” (Atos 11,18) tanto aos gentios como aos judeus. Mesmo depois da experiência de Pentecostes, eles não parecem ter percepção especial de suas táticas ou de seus alvos. 2. Movimento de afastamento com relação ao judaísmo De acordo com Lucas, a Igreja cresceu ao lançar-se no mundo, acrescentando categorias de convertidos em estágios definidos, sendo cada estágio um maior afastamento de suas origens judaicas. Os primeiros convertidos são, todos, judeus de Jerusalém, convencidos pelos sermões de Pedro (Atos 2-3). No estágio seguinte (Atos 8), são acrescentados os samaritanos, vizinhos do norte da Judéia cuja judaicidade não é considerada autêntica, mas que, por certo, não são gentios. Então, num movimento estreitamente guiado pelo Espírito Santo, é oferecida a conversão a um etíope, cujo apego ao judaísmo compensa o ser estrangeiro. O último caso é o mais difícil, o do centurião romano Cornélio (Atos 10). Também ele, por simpatia e por ações, está do lado judaico; mas o fato de ser gentio e membro do exército de ocupação cria um problema de tal magnitude que só pode ser resolvido pela intervenção celeste (a visão da toalha cheia de animais). Com o batismo dele e dos seus, remove-se o último obstáculo teórico à aceitação de gentios de todos os tipos. Significativamente, a resistência que tem de ser vencida com tanto cuidado não é a do mundo exterior, mas a dos próprios apóstolos. Nesse sentido, a história de Lucas é um documentário do preconceito judaico contra os gentios, preconceito de que Lucas não compartilha. Na visão de Lucas, foi ordenado que a salvação fosse oferecida primeiro aos judeus e só depois aos gentios. É sem dúvida verdade que todos os primeiros cristãos eram judeus; é verdade também que mais tarde foram incluídos mais e mais gentios e que, por fim, o judeucristianismo virtualmente desapareceu, deixando uma Igreja gentia. Lucas não nos mostra o pleno alcance desse processo, que estava longe de completo em sua época, mas cuja direção, que Lucas aprovava, já estava clara. Os judeus tinham recusado sua oportunidade de salvação, a que, como filhos da Aliança, tinham mais direito do que qualquer outro povo, e por isso só podiam culpar a si mesmos. O amargo fim de Atos 28 deixa isso muito claro; a Igreja vai ser universal. 3. Autoridade da Igreja A autoridade da Igreja tem para Lucas fundamental importância. Ela vem diretamente de Cristo, que converteu pessoalmente o núcleo de fiéis discípulos, os apóstolos, antes de subir ao céu. O lugar da conversão, o Monte das Oliveiras, em Jerusalém, ratifica a continuidade entre a fé tradicional do Antigo Testamento e a da nova aliança. Esses fiéis discipulos são apresentados como um corpo “unido em coração e alma” (Atos 4,32). Quando surge uma fonte potencial de dissensão, como a existente entre fiéis falantes de aramaico e fiéis falantes de grego (Atos 6), a decisão é tomada firmemente pelos apóstolos originais, agindo em uníssono (o fato de haver agora doze, em vez de onze, decorre do seu primeiro ato oficial, a eleição de Matias, em Atos 1). A seriedade da desobediência às regras da Igreja mostrada pelo destino de Ananias e Safira (Atos 5). Quando surge a mais polêmica e perturbadora dúvida – provocada pela

exigência de alguns cristãos judeus zelosos de que os conversos gentios fossem circuncidados e obrigados a seguir a Lei mosaica –, os apóstolos e anciãos fazem um conferência solene (Atos 15) para debatê-la. A discussão determina que é a vontade de Deus a aceitação de gentios na Igreja, mas, como esta nunca dera diretrizes específicas para lidar com essa situação, era preciso criar regras. Aqui, Tiago, o irmão de Jesus, afirma a sua autoridade. Tudo está em ordem; não há fios soltos. Embora Lucas consiga criar a impressão de que a organização da Igreja era informal e de que as decisões eram tomadas pelo consenso comum dos seus membros depois de um debate livre e aberto, está claro que ele mesmo acredita que a sua estrutura é autoritária. Na sua visão, o poder passou de cima para baixo, e não o contrário. 4. Os cristãos como bons cidadãos È muito importante para Lucas mostrar que os cristãos não são fanáticos, criadores de problemas nem exclusivistas presunçosos. Eles obedecem a todas as leis, civis e religiosas. São decentes, pacíficos, alegres, autoconfiantes. Quando tentam fazer proselitismo, apelam para a razão e são movidos por um genuíno desejo de ajudar os outros. Fora do âmbito da religião, são um exemplo a ser seguido por todos. Por isso, ao menos de início, são bem considerados pelo público em geral (Atos 4,33; 5,13). A hostilidade judaica que começa a surgir contra eles é apresentada como totalmente descabida, e forma um vívido contraste (um contraste que Lucas desejava acentuar) com as atitudes e com o comportamento dos próprios cristãos. 5. O avanço inevitável da Igreja O crescimento do movimento cristão tal como apresentado por Lucas é uma série quase ininterrupta de sucessos. A Igreja encontra oposição e ocasionais fracassos, mas nunca retrocessos reais. Mesmo períodos de perseguição (como em Atos 8,2) podem ser a ocasião de aumento da influência da Igreja. Esse ponto de vista explica, ao menos em parte, o final dos Atos, que, como hoje diríamos, é decididamente otimista, apesar do fato de Paulo encontrar a morte nas mãos dos romanos (como Lucas sabia muito bem), tendo interrompida tragicamente uma carreira, na qual tinha muito por fazer. Mas dizer isso teria dado à história um final glorioso, em vez de sereno e confiante; também teria prejudicado a descrição dos romanos como pessoas leais e razoáveis. Seus vilões são os judeus; não por acaso, em Atos 28,25-28, Lucas volta a introduzir o oráculo profético de Isaías, que os cristãos interpretavam como aplicado aos judeus da sua época. 6. Paulo como servo da Igreja A figura proeminente dos Atos é, sem dúvida, Paulo. A partir do capítulo 13, o livro é, essencialmente, a sua história. Mas o Paulo que vemos nos Atos é a concepção que Lucas tem dele; e o ponto até o qual esta corresponde ao Paulo real, histórico, é uma questão que requer ponderada consideração. Há notórios problemas no tocante às versões divergentes dos eventos da carreira de Paulo dadas por Lucas e pelo próprio Paulo. Por exemplo, para Lucas, Paulo visita Jerusalém pouco depois de sua conversão e procura juntar-se aos outros apóstolos (Atos 9,26); mas Paulo afirma claramente que, uma vez convertido, foi para a Arábia (provavelmente para o reino nabateu), retornando mais tarde a Damasco e só indo a Jerusalém três anos depois, onde, de cristãos, só viu Cefas e Tiago (Gálatas 1,16-20). Quando o problema da circuncisão se torna agudo, Paulo e Barnabé recebem da Igreja a incumbência de liderar uma delegação a Jerusalém para ter a questão assentada (Atos 15,2). (Pela cronologia de Lucas, essa seria a terceira visita de Paulo a Jerusalém; pela de Paulo, a segunda.) O conselho apostólico descrito em Atos 15 deve ser o evento descrito por Paulo em Gálatas 2, tendo em vista que também o relato deste tem como centro o problema de circuncisão, mas não há nenhuma outra correspondência entre as duas versões – destaca-se em especial a divergência entre a firme asserçao de Paulo de sua independência ante o apostolado de Jerusalém e a suave integração de Paulo à máquina da Igreja, na visão de Lucas. Toda a gama de divergências entre a concepção que Lucas tem da missão e do ensinamento de Paulo e o modo como o próprio Paulo as vê é demasiado complicada para se fazer uma análise aqui. Mas podemos dizer que o Paulo de Lucas, como se pode chamá-lo, é uma coisa que o Paulo de Paulo não era: um leal servo da Igreja de Jerusalém. O Paulo que conhecemos pelas cartas poderia ter se submetido ao ritual de purificação e assumido no Templo uma atitude que exibisse publicamente a sua ortodoxia (Atos 21,23-26), mas é difícil crer que

ele o tivesse feito para aplacar a facção pró-circuncisão da Igreja de Jerusalém ou que tivesse aceito ordens dessa Igreja. Os escritos de Paulo mostram de modo constante sua crença de que, como apóstolo, é tão bom quanto os outros, já que também vira o Cristo ressuscitado e recebera dele uma atribuição direta de disseminar a fé (Gálatas 1,15-16; 2,7-8, e 1 Coríntios 9,1, por exemplo). Que tenta Lucas, portanto, em seu retrato de Paulo? Domesticá-lo, cooptá-lo firmemente para a órbita da Igreja, suavizar sua teologia radical, conter a sua liberdade. Para Lucas, a liberdade do tipo que Paulo representava era perigosa, tendo permitido, entre outras coisas, que o Apóstolo dos Gentios repudiasse a Lei mosaica. Não é que Lucas tivese algum grande apego pessoal às coisas judaicas; mas o seu sentido de ordem e a sua leitura da vontade de Deus revelada na história humana o levaram a acentuar a continuidade e a autoridade, não podendo ele imaginar uma fé cristã separada das suas raízes vererotestamentárias, mesmo que, para ele, a antiga aliança tivesse sido efetivamente substituída por uma nova. Nesse ponto, com efeito, Lucas é, em alto grau, o protótipo do moderno clérigo ortodoxo, enquanto Paulo é o protótipo do não-conformista brilhante – uma força criadora na tradição, mas sempre uma ameaça à estabilidade. As fontes a que Lucas recorre em seu retrato de Paulo não são conhecidas (como, na verdade, as suas fontes da história da Igreja primitiva, embora ele deva ter tido muitas). Uma abordagem crítica da leitura desse retrato não exige que descartemos todos os seus traços, mas a descoberta de que certos elementos-chave do retrato são contraditos pelo próprio Paulo põe sob suspeita alguns outros detalhes que costumam ser aceitos sem muitos problemas, incluindo-se aqui: a afirmação de que Paulo tinha um nome judeu, Saulo; que ele veio de Tarso; que era cidadão romano; que Gamaliel foi o seu mestre; que testemunhou o martírio de Estêvão; que a sua “prática usual” (Atos 17,2) era falar em sinagogas; que pregava o messianismo; que só depois de não conseguir converter os judeus ele decidiu voltar-se para os gentios; que ele circuncidou Timóteo; e que a sua conversão ocorreu na estrada de Damasco da forma descrita nos Atos. Alguns, ou todos, desses detalhes podem ser verdadeiros, mas Lucas é a nossa única autoridade quanto a eles. Muitas das disparidades entre os relatos de Lucas e de Paulo não ultrapassam certo nível esperado de divegência entre autores que escrevem em épocas distintas (no caso de Lucas, bem depois dos eventos), para diferentes propósitos e para públicos dessemelhantes. Nem causa surpresa o fato de os dois homens terem visto esses primeiros eventos da história da Igreja por sua própria ótica individual, nem que não tenham hesitado em registrá-los por escrito. Tudo isso é normal e não causa problemas para leitores da Bíblia como literatura. Já vimos isso acontecer nos relatos do ministério de Jesus dos quatro evangelhos. No caso em tela, o que pode ter-se perdido pela falta de acordo básico entre as duas versões é mais do que compensado pela oportunidade de observar esse encontro fortuito de dois homens sobremodo inteligentes, totalmente sinceros e convencidos de que têm a transmitir a mais importante mensagem do mundo.

Terceira parte

Cartas
O cânon das Cartas Os escritos do cânon do Novo Testamento, depois dos Atos, consistem em 21 pretensas cartas e no livro do Apocalipse. Deixando de lado o Apocalipse (motivo de outro estudo) e Hebreus (que não é uma carta, mas um ensaio teológico anônimo), essas obras podem ser classificadas como: (1) as cartas genuínas de Paulo, (2) cartas supostamente escritas por Paulo, mas cuja autenticidade é objeto de disputa, (3) as cartas “pastorais” e (4) as cartas ditas “católicas” ou “gerais”, As cartas genuínas: Romanos; 1Coríntios; 2Coríntios (provavelmente um composto de mais de uma carta); Gálatas; Filipenses (provavelmente um composto formado por três cartas); 1Tessalonicenses; Filêmon. As cartas de autoria disputada: 2Tessalonicenses (amplamente aceita como genuína, mas, para muitos, escrita por um imitador de Paulo); Colossenses (provavelmente não escrita por Paulo); Efésios (quase certamente não escrita por Paulo). As cartas pastorais: 1Timóteo; 2Timóteo; Tito. As cartas “gerais” ou “católicas”: Tiago; 1Pedro; 2Pedro; 1João; 2João; 3João; Judas. As três cartas de autoria disputada costumam ser combinadas com as três pastorais e rotuladas “deuteropaulinas”, designando que as seis foram escritas depois da morte de Paulo (durante o final do século I e o começo do século II d.C.) por seguidores de Paulo que tomaram o seu nome para atribuir autoridade ao que escreveram, seguindo a prática comum da época. As cartas partorais têm esse nome porque assumem a perspectiva de alguém que aconselha os líderes das congregações cristãs sobre o que pregar e sobre que regras implantar. Como está claro que Paulo não as escreveu, não as comentaremos aqui, apesar de elas terem certo valor e exibirem certo interesse. As cartas “gerais” são um grupo heterogêneo. O termo “católicas” ou “gerais” significa que se dirigem à Igreja como um todo, e não, como as cartas de Paulo, a congregações específicas. No âmbito desse grupo, os três livrinhos de João são excepcionais porque anônimos e porque, em 1João, nem sequer aparece a pretensão de mostrar o texto como uma carta (trata-se de um misto de instrução teológica e de exortação). O nome de João foi agregado a essas obras por causa das características teológicas e lingüísticas que demonstram com o seu evangelho. A carta de Tiago é integralmente uma exortação de moral e de conduta, e contém tão pouco de doutrina cristã que se suspeita ter sido um tratado de sabedoria judaica maquiado por um autor cristão ulterior. A sua ênfase nas obras (atos), e não na fé, não a tornou popular junto aos teólogos protestantes (Lutero disse ser ela “uma carta de palha”). Ela é particularmente notável devido à maneira como inverte a interpretação paulina de Gênesis 15,16 — a afirmação de fé fundamental de Abraão —, para provar a superioridade das obras. 1Pedro exorta à conduta cristã própria, à jubilosa aceitação do martírio e à preparação para o iminente final dos tempos. A curta carta de Judas é uma denúncia dos que se infiltraram na Igreja, trazendo consigo a falsa doutrina. Seu autor demonstra conhecer a apocalíptica judaica, especialmente 1Henoc, da qual cita passagens. 2Pedro toma a forma de uma mensagem final de Simão Pedro histórico aos fiéis cristãos, embora não seja escrita por esse apóstolo nem pelo autor de 1Pedro. Ela se reveste de interesse incomum porque o autor conhece o relato evangélico da Transfiguração, usa amplamente o livrinho de Judas e faz menções específicas às cartas de Paulo — evidência da formação de um cânon do Novo Testamento. Por razões como essas, acredita-se que 2Pedro tenha sido escrita perto de 150 d.C., sendo assim o último livro da Bíblia. Paulo E agora, tendo deixado o melhor para o fim, que dizer sobre Paulo? Ele era, com certeza, um homem de mente poderosa e de personalidade carismática, um homem de visão e de convicção apaixonada, altruísta em sua dedicação à causa que abraçou e incansável em sua busca, uma pessoa sem a qual é impossível imaginar a religião cristã hoje. Devemos nos

lembrar de que na época da experiência de conversão de Paulo, uns três anos depois da Crucifixão, ainda faltavam trinta e cinco anos para que o primeiro evangelho cristão fosse escrito. Ainda não havia uma escritura cristã formal, nem uma teologia desenvolvida. Os missionários já estavam em ação, mas era necessário fazer mais do que convencer. Tinha de haver um sentido claro e efetivo do que significava juntar-se à comunidade cristã de fé, de quem poderia juntar-se a ela e sob que condições, e de qual tinha de ser a relação entre o cristianismo e o judaísmo, a religião-mãe. É de Paulo, só dele, o mérito de ter visto que o cristianismo não poderia sobreviver se permanecesse vinculado à Lei Judaica (os 613 mandamentos distintos da Torá, com todas as suas ramificações na vida cotidiana dos fiéis) e de, portanto, insistir numa radical separação entre a nova e a antiga religião. Ele percebeu não apenas as dificuldades práticas da exigência de submeter os gentios convertidos à circuncisão e de fazê-los obedecer a outros elementos da Lei Judaica, como também a confusão teórica que isso institucionalizaria, ameaçando a própria definição de cristianismo. Dessa maneira, ele lançou um desafio direto aos chamados judaizantes, indo ao âmago da questão. E, o que é mais importante, ofereceu alguma coisa para substituir a Lei, com a sua doutrina da justificação pela fé, que ele encontrou, não nas palavras de Jesus, mas no próprio Antigo Testamento! Como ele o fez, logo veremos. Antes, porém, precisamos ter muita cautela! Temos de cuidar para não atribuir a Paulo o crédito indevido pelo declínio e eventual desaparecimento do judeu-cristianismo, que muito provavelmente teria ocorrido de qualquer maneira. Muito mais do que o que Paulo escreveu ou fez, o que levou o cristisnismo judaico à derrocada foi o desastre que atingiu Jerusalém em 70 d.C., destruindo-lhe a base de poder. Mesmo sem isso, o contínuo influxo de gentios convertidos (Paulo não foi o primeiro nem o único a converter gentios) teria diluído o poder da facção judaica e levado essa instável união da antiga e da nova revelação a alguma espécie de ponto crítico. O papel de Paulo parece ressaltado porque os seus escritos, preservados e tornados canônicos, estão aí, à vista de todos. Além disso, não devemos subestimar a contribuição das circunstâncias na plasmação dos pontos de vista de Paulo. Boa parte do que ele escreveu era pro forma, uma reação a várias crises da Igreja, não havendo dúvida de que a oposição às suas crenças o forçara a examiná-las com mais cuidado, auxiliando-o a aperfeiçoar a sua teologia distintiva. As primeiras congregações cristãs Todas as congregações a que Paulo escreveu estavam em cidades. Cosmopolitas e falantes do grego, estavam a mundos de distância dos humildes camponeses e comerciantes falantes do aramaico que ouviram a mensagem do próprio Jesus. Desde o começo, o cristianismo organizado foi um movimento urbano. As congregações cristãs se reuniram na privacidade dos lares (cf. Filêmon 2 e Romanos 16,5) — sem dúvida, nas casas dos seus membros mais afluentes, onde havia espaço bastante para esses encontros. As reuniões eram tanto sociais como cerimoniais, sem uma ordem fixa de procedimentos. Havia, contudo, elementos-padrão: a ceia eucarística (ou Ceia do Senhor), a oração, o cântico de hinos, a pregação por membros da congregação ou por evangelistas visitantes (tal como a sinagoga judaíca, a congregação cristã era dirigida por leigos), o testemunho pessoal, talvez a cura ou o exorcismo, e a profecia extática por meio da glossolalia (falar línguas). A reunião seria à noite, não se sabe se de sábado ou de domingo, mas, de qualquer maneira, não no shabbath.
De acordo com a interpretação judaica, o shabbath terminava ao pôr-do-sol do sábado; segundo o sistema romano (ainda usado por nós), o domingo dura até a meia-noite depois da meia-noite do sábado. É provável que os cristãos-judeus continuassem a observar o shabbath, mas com cerimônias adicionais destinadas a comemorar a Ressurreição no dia seguinte (nas primeiras horas da manhã de domingo). A única razão para que os cristãos gentios observassem o shabbath será a consideração pelos judeus convertidos. O domingo só viria a tornar-se dia do descanso no século IV, tendo sido promulgado como tal por um edito do imperador Constantino. A confusão entre o domingo e o shabbath é dos tempos modernos.

O cristianismo começou no Império Romano, em larga medida, como uma religião do povo, que não tinha vínculos notáveis com o status quo. Num extremo, muitos dos seus membros eram forasteiros e marginais; no outro, eram ao menos pessoas com posições sociais ambíguas — talvez um liberto que acumulara muito dinheiro na atividade comercial, mas era

discriminado e mantido em posição inferior por causa de sua origem, talvez um dos “tementes a Deus” (simpatizantes gentios do judaísmo) que teria mudado de lado não fosse pela circuncisão, talvez um imigrante não-leal ao culto local ou à religião oficial do Estado, talvez uma mulher talentosa e ambicosa que não encontrava saídas satisfatórias nas instituições sociais existentes. Tratava-se de pessoas que buscavam compromissos mais recompensadores, receptivas a novos pontos de vista e a novas posições sociais. Em muitos aspectos, essa população cristã era uma boa amostra da sociedade, que só não tinha membros da classe mais alta e da mais baixa. Assim, as disparidades de condição econômica eram levadas para a Igreja, onde causavam alguns problemas, sobretudo quando da refeição eucarística, que era uma verdadeira refeição e envolvia a partilha de comida levada ao local da reunião (cf. 1Coríntios 11). O fato mesmo de Paulo reclamar desses abusos mostra que se esperava que a assembléia cristã fosse um lugar em que a fraternidade sobrepujasse as diferenças hierárquicas. O que teria parecido estranho ao observador pagão não era a Ceia do Senhor como tal — porque uma refeição sagrada realizada em épocas determinadas e partilhada pelos iniciados era uma característica comum aos cultos e associações do período greco-romano —, mas o grupo heterogêneo que se reunia para dela participar. A fraternidade à mesa era uma questão sensível (cf. Gálatas 2,12). Sentar-se e comer em harmonia com uma pessoa de classe, raça ou formação religiosa diferentes significava contestar deliberadamente as próprias estruturas que determinavam o sentido da vida.
A composição social do cristianismo primitivo explica por que Paulo escreveu em grego à congregaçao de Roma. Embora vivessem lá, os membros desta não eram romanos, mas desgarrados que foram para Roma vindos dos limites remotos do mundo mediterrâneo e que mantiveram a sua cultura helênica bem depois da conquista política pelo Império Romano.

Esse observador pagão, caso prosseguisse em sua investigação, também se surpreenderia com a intensidade do vínculo religioso a unir os membros e com a maneira pela qual essa nova associação dominava a sua vida. O mundo antigo estava cheio de clubes, guildas(1) e sociedades disso e daquilo, mas muito poucos eram realmente democráticos e abrangentes, e nenhum deles tinha alguma coisa parecida com o fervor emocional compartilhado da runião cristã.
(1) Guildas – Associações de auxílio mútuo entre as corporações de operários, artesãos, negociantes e artistas. Também reunião ou banquete de natureza simbólica e religiosa.

A carta
Para entender adequadamente as cartas de Paulo, precisamos conhecer um pouco a prática epistolar do mundo antigo — o contexto a partir do qual elas chegam a nós. É certo que escrever cartas era uma atividade comum naqueles dias: uma contínua corrente de correspondência percorria por mar e terra todos os centros de população. Boa parte dela era governamental, levada por portadores oficiais, mas uma parcela considerável era comercial e pessoal, trocada entre cidadãos particulares: mercadores pedindo bens, enviando instruções, tratando de remessas, pagando contas; filhos escrevendo aos pais; soldados saudosos escrevendo às esposas; pessoas comuns perguntando pela saúde dos amigos, prometendo visitas, pedindo favores. Quem não lia nem escrevia podia contratar escribas. Como não havia serviço postal para levar a correspondência privada, as cartas eram entregues a amigos que viajavam ao local desejado ou a estranhos em quem se pudesse confiar, que recebiam pelo contratempo e recebiam instruções específicas sobre onde entregar a carta, já que não havia endereços. Nessas circunstâncias, a comunicação bem-sucedida requeria sorte e certa dose de persistência. As cartas eram escritas em quase todos os materiais possíveis (por exemplo, pedaços de cerâmica quebrada); mas o material-padrão era o papiro, que era escrito de um lado, dobrado para formar um pacote oblongo, amarrado e preso com um selo de argila. Como o papiro sobrevive indefinidadamente num clima muito seco como o do Egito, muitas dessas cartas antigas, no todo ou em parte, ainda existem. Elas oferecem aos pesquisadores modernos valiosos dados sobre a maneira como a vida cotidiana era conduzida no mundo helênico e são de grande ajuda na compreensão do Novo Testamento.

Cartas como as de Paulo, que são incomumente longas, teriam precisado de várias folhas de papiro coladas na extremidade para formar um pequeno rolo. A encantadora carta a Filêmon é a única entre as de Paulo a se assemelhar, em extensão e conteúdo, à carta em papiro usual do século I.

A tradição epistolar helenística exigia certas fórmulas estereotipadas. Havia uma saudação (“De A para B, saudações”) e votos de saúde para o destinatário; no corpo da carta havia muitas expressões convencionais que hoje nos parecem afetadas; e, no final, havia uma fórmula de despedida (raramente uma assinatura). O primor literário costumava estar ausente dessas cartas, mas escritores ambiciosos que tinham estudado a arte epistolar na escola podiam recorrer a um considerável corpo de retórica como adjutório. As cartas de Paulo são parte dessa tradição. Elas são cartas genuínas, e não “epístolas” (uma epístola é uma carta artificial ou falsa, escrita antes para publicação do que para correspondência propriamente dita). Elas são escritas no grego koiné padrão. Mas são mais elaboradas do que a maioria das outras cartas e revelam algumas modificações características dos estereótipos. Paulo escolheu a sua própria forma de saudação, abandonando o chairein (“saudações”), e substituindo-o por charis hymin kai eiréné (“graça e paz a vós”) — uma mudança deliberada, de tons teológicos, porque combina a idéia cristã da graça com a saudação hebraica shalon (“paz”). Além disso, na maioria das cartas, Paulo usou no início uma fórmula que autenticava seu papel de apóstolo de Cristo. A maioria delas também tem uma fórmula de ação de graças — não pela boa saúde dos destinatários, mas pelo dom salvífico da fé em Cristo que eles possuem. Em alguns casos, o final inclui saudações de Paulo e de outros a várias pessoas específicas que se sabia fazer parte do grupo a quem a carta se dirigia (são nomeadas 26 na carta aos Romanos), e todas as cartas terminam com uma bênção. Não há erro em dizer que Paulo deu a esse veículo comum de comunicação no mundo helênico um novo uso e, podemos dizer também, levou-o a uma nova dimensão. O corpo da carta paulina dá muitas vezes a impressão de uma composição apressada e pouco ponderada, como se Paulo estivesse caminhando e ditando na rapidez com que o seu secretário podia registrar as palavras, mal conseguindo conter a torrente dos seus pensamentos. Há sem dúvida muitos dados espontâneos nas cartas, mas a análise detalhada da sua estrutura traz a lume muitos elementos que sugerem premeditação e, ao menos, certo cuidado de expressão. A verdadeira carta enviada teria passado pelas mãos de um secretário, mas pode muito bem ser que o próprio Paulo trabalhasse um rascunho, ou rascunhos, antes de ditar. Seja como for, sabemos que não foram escritas para publicação em livro, onde hoje estão. Paulo com certeza ficaria atônito se pudesse voltar para ver o que aconteceu com essas cartas, escritas para ocasiões imediatas e usos específicos, sem a intenção de criar escritura para as eras vindouras. Seu uso na época é bem claro: destinavam-se a ser lidas em voz alta na congregação reunida a que Paulo se dirigia. Faziam o que ele faria se estivesse presente; elas substituem a pessoa de Paulo, sendo por conseguinte, um subproduto da sua atividade missionária. É seguro que as congregações que recebiam cartas de Paulo não somente as liam em voz alta nas reuniões como também as conservavam e lhes davam muito valor. Não há provas que sugiram a circulação das cartas fora do circuito dos destinatários até que alguém, depois da morte de Paulo, pensasse em reuni-las e publicá-las como coletânea. Era inevitável que, nesse momento, algumas delas tivessem sido perdidas e não estivessem à disposição (não podemos acreditar que, em toda a sua carreira, Paulo só tenha escrito esse punhado de cartas). Era tão grande o seu prestígio que os imitadores cedo o seguiram, usando a forma da carta paulina e, por vezes, o seu nome. Assim, Paulo foi responsável — sem nenhuma intenção — pela introdução de um gênero bíblico, a carta, assim como Marcos teve a oportunidade de introduzir o gênero freqüentemente imitado do evangelho. O cânon do Novo Testamento não distingue entre as cartas genuínas e as cartas de autoria paulina disputada, como o fazemos aqui. Em vez disso, apenas reúne as cartas atribuídas a ele em dois grupos — cartas para igrejas e cartas para pessoas, organizando-as no interior de cada grupo por ordem de extensão. Uma ordem cronológica adequada das cartas teria muito mais utilidade, mas a datação das cartas, em termos absolutos ou umas em relação às outras, é um árduo problema. Como elas não têm datas, todas as evidências têm de ser inferidas do seu

conteúdo. Há boas razões para considerar Filêmon a última carta de Paulo, e 1Tessalonicenses pode ter sido a primeira. Romanos viria perto do fim, provavelmente antes de Filêmon. Todas parecem ter sido escritas na década dos anos 50 — embora também isso seja um tanto disputado. Seja como for, somos lembrados, uma vez mais, de quão cedo a atividade missionária seguiu a Crucifixão e por quantos anos precedeu a redação dos evangelhos.

Quarta parte

Elementos-chave do pensamento de Paulo
É impossível fazer justiça a cada uma das cartas de Paulo em espaço tão reduzido de que dispomos; por outro lado, juntá-las para algum tipo de tratamento sumário seria bem desleal com elas, na qualidade de documentos com cartacterísticas individuais distintivas. A textura da escritura paulina, o caráter imediato e o drama do seu tratamento das questões devem de qualquer maneira ser apreciados por meio da leitura direta do seu texto, não podendo ser substituidos pela análise pura e simples de um comentador. Podemos, no entanto, chamar a atenção para certos elementos essenciais do pensamento e das crenças de Paulo tal como se manifestam em seus textos como um todo. Os seguintes conceitos nos ajudarão a nos orientar no universo paulino, como podemos chamá-lo, e a chegar a um entendimento adequado da sua realização. 1. Ansiosa expectativa Nenhuma crença é mais característica de Paulo, ou mais fundamental para tudo o que ele escreveu e fez, do que a de que o mundo breve chegaria ao fim. Isso constitui o fundamento absoluto do seu pensar. Alguém que não o perceba pouco pode entender de Paulo. Pelo que se pode dizer, a escatologia — para usar o termo técnico conveniente — de Paulo não deriva de alguma profecia ou dito de Jesus específicos, mas da própria leitura paulina da significação da Encarnação do Filho de Deus em Jesus de Nazaré: à humanidade fora oferecida uma breve e suficiente oportunidade de reconciliar-se com Deus antes do juízo final e do fim da história humana. (Essa leitura também dependia da tradição apocalíptica judaica herdada por Paulo, com a qual ele estava totalmente familiarizado..) Nunca ocorreu a Paulo que a parousía, ou Segundo Advento [“o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1,6)], pudesse ser adiada para além da sua própria época, para o distante, mal imaginável futuro —como a Igreja viria a ser forçada a reconhecer. Ele foi morto antes de essa questão surgir. Um aspecto do adiamento, no entanto, manifestou-se e exigiu a sua atenção: o fato de os fiéis cristãos estarem começando a morrer e a serem enterrados como pessoas comuns. Qual o significado do fato de que alguns dos fiéis estariam vivos ao soar da última trombeta e outros não? Paulo trata dessas questões em 1Coríntios 15 e 1Tessalonicenses 4. O sentido paulino do fim próximo, que ele e os seus contemporâneos cristãos esperavam ansiosamente, não conferiu urgência especial aos seus escritos e esforços missionários. Por tudo o que ele sabia, a qualquer momento essa obra podia ser abruptamente interrompida pelo retorno triunfante de Cristo. Essa escatologia também constituiu um potente apoio ao seu ensinamento ético; Paulo nunca concebeu a conduta humana em termos abstratos, divorciada da situação histórica presente. A interrogação candente, dado que ele estava no estágio da história perto do fim do ato final, era: como devem os cristãos se comportar? Que é apropriado agora? Questões que, em outras circunstâncias, seriam importantes — tais como a decisão de casar ou de conseguir um novo emprego — tornam-se insignificantes. 2. Cristologia Os quatro evangelhos têm muito a dizer sobre o ministério de Jesus, mas nada sobre o cristianismo. Eles são apenas narrativas; apresentam a história, mas não fazem uma pausa para refletir sobre ela. Parecem supor que os títulos atribuídos a Jesus e os argumentos apresentados em seu favor são auto-explicativos, visto que, em nenhum ponto, esse material espalhado é reunido e tem explorado o seu sentido. Alguns detalhes da história são sem dúvida mais importantes do que outros, mas quais são eles e por que são mais importantes? Os evangelhos não o dizem. Além disso, quando chegam ao fim do período que cobrem, os evangelhos param e não vão além daí. (Os aparecimentos pós-ressurreição de Jesus em três dos evangelhos são antes epílogos da história contada do que prólogos do futuro.) Tudo isso explica a frustração comum dos leitores ao terminar a leitura dos evangelhos e procurar alguma maneira de vincular a história com a sua própria vida. Eles ficam de fora, só olhando; não há esperança de que uma máquina do tempo os leve ao século 1 d.C. Se essa história deve aplicar-se a pessoas que vivem agora, como fazê-lo exatamente?

O que falta aos evangelhos é uma “cristologia” — uma teoria organizada, racional e abrangente sobre o sentido da história de Jesus para seres humanos de todos os tempos e de toda parte. Essa necessidade foi prevista por Paulo, em sua ação missionária, anos antes de os evangelhos serem escritos; ele descobriu, por certo na dura experiência, que, para se converter à crença em Cristo, as pessoas precisam que lhes seja dito especificamente em que devem crer e por que o devem. Os escritos de Paulo, por seu turno, carecem claramente daquilo que os evangelhos têm em abundância: interesse pela vida e pelo ensinamento de Jesus. Nas cartas há meras referências aos ensinamentos de Jesus (Romanos 14,14; 1Coríntios 7,10; 9,14; e 11,23-26), e o único episódio da vida de Jesus a que Paulo dá atenção é a Crucifixão — na verdade, para Paulo, que lembra Marcos quanto a isso, esse é o único evento que importa. É claro que Paulo não conheceu Jesus; como ele diz, o seu contato foi com o Cristo ressuscitado. Mas não podemos saber com certeza o ponto até o qual a negligência paulina da vida e dos ensinamentos de Jesus se deveu à circunstância — isto é, à sua ignorância desses elementos — e quanto decorreu de escolha deliberada. É difícil acreditar que Paulo estivesse tão fora de contato com as tradições da Igreja que quase nenhum material mais tarde incorporado aos evangelhos tivesse sido percebido por ele.. É mais provável que ele tenha omitido do seu ensinamento aquilo que não precisava, concentrando-se no que era necessário e essencial. O ensinamento de Paulo é “cristocêntrico” no mais alto grau. Nos seus escritos, “Cristo” é antes um nome próprio do que um título. Ao mesmo tempo, Paulo lhe dá um tratamento que faz dele quase uma abstração metafísica. Os fiéis “em” Cristo (uma expressão favorita), Cristo está “neles”, eles são “um” com Cristo e até “possuem a mente de Cristo” (1Coríntios 2,16). O título que Paulo decidiu acrescentar ao nome “Cristo” foi “Senhor” (em grego: kyrios). É verdade que ele não inventou a palavra kyrios, que já era usada havia muito tempo em referência a mestres humanos, reis em especial, e que também fora usada pelos tradutores da Septuaginta para traduzir o termo hebraico yahweh. Mas o uso que Paulo faz de kyrios é bem específico e distinto; não visa sugerir de maneira alguma que Cristo se assemelha a um rei terreno, exceto ao exigir uma lealdade completa e inquestionável, nem, por outro lado, que Cristo seja Deus. O título só assimila Cristo a uma categoria formada só por ele. Ele é tão carregado de sentidos que a frase simples “Jesus é Senhor” (Romanos 10,9; 1Coríntios 12,3), se propriamente entendida, veicula a essência da fé cristã. Paulo também tem muito a dizer sobre o “Espírito” (em grego: pneuma), o agente mediante o qual Deus atua sobre os seres humanos. O Espírito transcende o tempo, o espaço e todas as fronteiras que separam os seres humanos do divino e uns dos outros; ele se comunica diretamente ao centro mais íntimo do nosso ser; e opera através de nós pelos seus próprios propósitos. Paulo usa o conceito de Espírito de maneira fluida e informal, sem se dar ao trabalho de diferenciar entre Espírito Santo e Deus, nem de especificar a relação do Espírito com Jesus Cristo; por isso, é sábio de nossa parte não exigir dele respostas definidas sobre esses pontos. 3. Justificação pela fé A doutrina cardeal de Paulo é a justificação pela fé. É o seu modo de, simultaneamente, (a) adequar a revelação cristã ao quadro de mundo que herdou do seu próprio judaísmo, e (b) resistir ao esforço desse judaísmo de absorver e negar o que é próprio do cristianismo. Paulo tinha de chegar a algum acordo com a Lei de Moisés. (A Septuaginta traduziu regularmente a palavra hebraica torah por nomos — palavra grega para “lei” —, enfatizando assim o seu caráter legalista, que costuma ser, ao ver de Paulo, o preponderante.) Na qualidade de judeu zeloso e bem-educado, Paulo tinha intimidade com a Lei. Como cristão, contudo, estava convencido de que a Lei já não se aplicava. Ele não podia repudiar as escrituras judaicas, acreditando, como acreditava, que eram de fato o registro verdadeiro da relação de Deus com o homem. Mas Moisés, o autor da Lei, com a imensa autoridade que o seu nome adquirira na época de Paulo, parecia interpor-se no caminho da nova aliança. O que Paulo fez, pois, foi pular Moisés e voltar a Abraão. Abraão recebera uma aliança de Deus antes de Moisés existir. Abraão não era circuncidado quando Deus o escolheu. Por consegunte, raciocina Paulo, esse requisito essencial da Lei ritual (que era por certo essencial nos dias de Paulo) fora forçosamente uma medida temporária sem validade necessária para todos os tempos. Para Paulo, assim como a circuncisão simboliza toda a Lei, Abraão simboliza toda a humanidade. Mesmo os gentios, que

não descendem biologicamente de Abraão, são “filhos” de Abraão nesse sentido especial (cf. Romanos 4,11 e Gálatas 3,6, citando Gênesis 15,6). Foi Abraão um homem totalmente reto, sem culpa de transgressão? A pergunta não pode ser respondida neste momento, diz Paulo, nem poderia ter sido respondida na época de Abraão, porque, na ausência da Lei, ainda não havia como identificar pecados. Não existia critério. Mas isso não importava, porque a fé de Abraão supria tudo o que era necessário para torná-lo inteiramente digno de receber a aliança. Sua fé o credenciava. Ele estava justificado (tornado ou pronunciado justo) pela sua fé. A justificação pela fé, argumenta Paulo, opera fora da Lei para Abraão, e vai fazer o mesmo por quantos acreditarem em Jesus Cristo. A ruptura com o judaísmo não é absoluta. Neste, o pecador identifica os seus pecados segundo o código prescritivo, se arrepende e realiza o ritual especificado para produzir a sua reconciliação com Deus, sua sintonia. Esse processo é, além de complicado, interminável: não há como purificar o impuro e mantê-lo limpo. No cristianismo paulino, por outro lado, a oportunidade de um rompimento absoluto com a natureza pecaminosa de cada um é oferecida pela graça gratuita de Deus. A ação humana simplesmente não figura no processo. A iniciativa era de Deus, que, seguindo o plano que tinha em mente desde o início (mas que só naquele momento nos era evelado), enviou o seu filho para prover os meios de reconciliação. Tínhamos apenas de aceitar, aproveitar a oportunidade oferecida. Dada essa interpretação da história de Cristo, Paulo tinha muita razão para crer que não havia meio de combinar a lei mosaica e a revelação cristã. A graça não é graça se tiver de ser obtida; não há motivo para trabalhar por alguma coisa que nos é oferecida sem encargos. Não sabemos até que ponto Paulo pensou tudo isso antes de aplicá-lo ao seu trabalho missionário, mas sabemos que ele o usou em suas batalhas contra os judaizantes. É provável que esses oponentes do âmbito da Igreja, ao forçar a questão, tenham levado Paulo a definir e a agudizar a sua própria posição de uma maneira que ele não o teria feito se fossem outras as circunstâncias. (Lembremo-nos de que os oponentes de Paulo, até onde indicam as cartas, eram todos cristãos. Foram os cristãos, e não os judeus nem os gentios, que obstruíram o seu trabalho e despertaram o seu ressentimento.) 4. Conduta cristã Paulo pregava que a pessoa que acredita na morte sacrifical de Cristo pela humanidade na cruz se salva, é liberta da servidão do pecado, tem garantido um lugar no reino celestial que seguirá o retorno de Cristo e o Juízo Final. E o que acontece nos entrementes? Os cristãos ainda têm de viver no mundo, misturar-se com os outros, cumprir as responsabilidades do dia-a-dia — ou seja, encontrar as mesmas tentações e oportunidades de pecado que enfrentavam antes. A sua salvação significa que não podem pecar mais? Significa que tudo o que fazem agora está certo? É o perdão de Deus como uma conta bancária infinita de que se podem fazer saques todos os dias sem preocupação com o seu encerramento? Trata-se de questões ponderáveis e, em Romanos e 1Coríntios, Paulo labutou com elas. Ao que parece, alguns convertidos cristãos conhecidos seus interpretavam a fé como licença para agir ao bel-prazer, e muitos cristãos, como era de esperar, se comportavam depois da conversão mais ou menos como antes dela. A resposta de Paulo era condenar essa conduta, mas, com efeito, já não podia fazê-lo apelando para a Lei mosaica. O que ele fazia, de fato, era denunciar essa conduta como anticristã; cristãos simplesmente não fazem essas coisas, sendo indigno e impróprio agir assim. Paulo tem por certo que a fornicação, a idolatria, a calúnia, a embriaguez, a fraude, a corrupção e coisas dessa espécie são erradas em si — e não faz esforço para explicar por que, nem dá nenhuma resposta clara à questão de saber se os cristãos podem perder a salvação devido à má conduta. Dando um forte colorido a todo o pensamento de Paulo está, como vimos, a sua convicção de que o mundo logo vai chegar ao fim, o que dá especial urgência à sua denúncia dessas práticas. É como se as pessoas do seu tempo fossem passageiros de um navio a pique lutando entre si pela divisão de rações de comida e maquinando artifícios rasteiros para determinar a direção da viagem, enquanto as ondas vão-se aproximando cada vez mais da amurada e é certo que a morte se prepara para engolir todos eles. Paulo foi acusado de antinomista, pessoa que se opõe à lei moral ou a rejeita, e, ao que parece, essa crítica já era corrente na sua época. Evidentemente, isso não é verdade — o seu desgosto com todo tipo de mau comportamento é exibido com eloqüência em seus escritos e ele

passa grande parte do seu tempo aconselhando o seu público em matéria de comportamento. O problema não é se opor ou não ao mau comportamento, mas o fundamento da oposição, e é aqui que Paulo tem muitos problemas. As sementes do antinomismo estão presentes no seu pensamento, embora não desenvolvidas. É significativo que a Igreja cristã tivesse de se contrapor a essa tendência instituindo uma série de exigências cúlticas, os sacramentos, e trabalhando com um sistema de recompensar e punições baseado em avaliações específicas do comportamento humano. Esse esforço já se manifesta em alguns escritos pós-paulinos, particularmente no evangelho de Mateus, que enfatiza o caráter de Cristo como legislador, o segundo Moisés. A liberdade paulina permaneceu adormecida até ser revivida por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero, mil e quinhentos anos mais tarde. 5. Judaicidade de Paulo Apesar de sua radical ruptura com o judaísmo e dos seus contínuos problemas com os judaizantes, Paulo permaneceu judeu e nunca escapou à influência do seu legado judaico. Ele tinha orgulho dessa herança e do seu lugar nela (cf. Filipenses 3,5-7). Esse apego ao judaísmo era pessoal e sentimental, mas também era uma questão de convicção intelectual, porque Paulo acreditava que o Antigo Testamento era escritura inspirada e que Deus escolhera de fato os judeus como o seu povo. No momento adequado, seguindo o plano de Deus para eles, os judeus tinham recebido a Lei de Moisés. Até a época de Cristo, essa lei era auto-suficiente; obedecer a ela era uma exigência da Aliança. Mas, e aqui Paulo se desviou bastante da tradição judaica, a Lei mosaica se destinara desde o início a ser um arranjo provisório até que a fase seguinte do plano de Deus se iniciasse com a vinda de Jesus Cristo. Para quem acredita em Cristo, a Lei é completamente inválida. Paulo não cosiderava a sua posição diante da Lei um repúdio ao passado judaico. A seu ver, a história judaica continuara durante a vida de Jesus como um todo íntegro, dirigida sempre por Deus. Mais do que isso, os estágios iniciais dessa história tinham sentido profético para os últimos, a ponto de alguns eventos do passado parecerem ter sido deliberadamente criados para fornecer lições ao presente. É esse o sentido da interpretação de Paulo da história do Êxodo em 1Coríntios 10, interpretação que muito contribui para minar a realidade dos eventos e para reduzir os seus atores a peças de um enigma. Mas, embora tivesse consciência dessa tendência em sua visão da história judaica, Paulo não o demonstra. Se era tão judeu, por que Paulo abandonou o seu povo para tornar-se um missionário junto aos gentios? A resposta de Lucas, que já tivemos ocasião de questionar, é que ele tentou primeiro os judeus, mas fracassou. Contudo, não há provas dessa experiência nos escritos de Paulo e, nos famosos capítulos de abertura de Gálatas, ele se apresenta como quem desde o início pretendia pregar aos gentios. Isso está em contradição com a afirmação paulina de 1Coríntios 9 de que ele se esforçou tanto para converter judeus que até se acomodou, em seu benefício, às exigências da Lei. Parece ter havido cristãos judeus em todas as congregações a que Paulo escreveu (exceto, talvez, os Tessalonicenses), e os argumentos das suas cartas se apóiam constante e amplamente nas escrituras judaicas, de uma maneira que demonstra haver tanto da parte dele como da do seu público a aceitação da autoridade dessas escrituras. Temos aqui um enigma histórico para o qual não há resposta clara. Seja como for, é importante que nos recordemos, ao avaliar Paulo, de que na sua época não havia algo parecido com um judaísmo rabínico ortodoxo. O judaísmo continha muitas facções, escolas de pensamento e variedades de observância. Antes de se converter, Paulo era fariseu, o que significa que tinha excepcional devoção à observação de todos os aspectos da Lei, mas também que interpretava a Lei com liberdade e era simpático a doutrinas novas como a da ressurreição corporal. Além disso, ele não era um judeu palestino falante do aramaico, mas um judeu da Diáspora falante de grego — nascido e criado fora da Palestina e profundamente influenciado pela cultura helênica — para quem a Septuaginta tinha validade inquestionável como o texto das escrituras sagradas. Seu uso dessas escrituras arrepia os cabelos dos modernos estudiosos, que o vêem tirando passagens de contexto ou combinando trechos de fontes díspares, dando especial importância a palavras arbitrariamente escolhidas, ignorando a intenção original do autor e, sobretudo, dando explicações alegóricas ou tipológicas quando isso serve ao seu propósito. Mas essa prática é talvez o aspecto mais judaico, mais tradicional de Paulo! Para ter sido um verdadeiro revolucionário, ele teria de ter feito o impossível: insistir em

interpretar o texto escriturístico segundo as intenções aparentes dos autores nos contextos históricos de sua redação. Ninguém na época dele era capaz de imaginar a necessidade de fazêlo. Paulo simplesmente não se enquadra nas categorias de fé religiosa desenvolvidas do seu tempo para cá. Ele era tanto um radical como um tradicionalista; um homem de estreiteza surpreendente e de horizontes surpreendentemente amplos; um judeu rematado e, ao mesmo tempo, um cosmopolita que se sentia à vontade na estrutura social do Império Romano helenizado; um homem que teve contatos extáticos com o mundo do espírito e falava em línguas, embora valorizasse em especial o decoro e a fala direta; uma pessoa que subordinou a vida inteira à disciplina de uma vocação religiosa, mas a quem ninguém podia dar ordens; um colega e amigo de muitas mulheres excepcionais, mas que, mesmo assim, endossava a permanência das mulheres em papéis tradicionais estritamente definidos no casamento e na Igreja; um homem que trabalhava para viver, pagava suas contas e cumpria seus compromissos, enquanto ansiava pelo fim iminente do mundo e o esperava com antecipação. Se é difícil imaginar o que teria sido o cristianismo sem Paulo, não é difícil conceber o que seria o Novo Testamento sem a sua contribuição; ele não teria existido, ao menos numa forma que reconhecêssemos. Em termos de qualidade, os escritos paulinos se situam entre os melhores do Antigo e do Novo Testamento — ao lado de alguns salmos, de Jó, de Eclesiastes, de Rute, da história do reino de Davi, da história de José, dos oráculos de Isaías e Jeremias, e de outras obras que tornam o estudo literário da Bíblia tão gratificante. Mas eles não se parecem com nenhum destes; são profunda e radicalmente originais. E Paulo não é uma figura anônima e desconhecida, cujo perfil devamos formar a partir de pistas diversas no seu texto, nem um Pedro, identificável e real, mas tão incrustado na lenda que o homem propriamente dito nunca vai ser conhecido. Se por vezes parece maior do que a vida, é porque, acreditemos ou duvidemos dele, admiremo-lo ou o odiemos, Paulo era um gênio, o tipo de pessoa que queiramos ou não, nos atrai para a sua esfera de poder e que exibe aos nossos olhos a prova viva daquilo que o espírito humano pode realizar.
Sugestões de leitura: Este texto foi preparado por mim com base em leituras de diversas fontes. Procurei seguir, um tanto, John B. Gabel e Charles B. Wheeler, em A Bíblia como literatura, da coleção bíblica Loyola. Alguns outros livros também foram fundamentais para esta elaboração. Entretanto, é completamente impossível percorrer toda a vastíssima bibliografia sobre Paulo. Alguns textos, porém, servem como aprofundamento sobre esse Paulo diferente que eu tentei apresentar. Todavia, através desse sucinto material, é possível chegar a penetrar o pensamento paulino, aproximando-nos dele com uma enorme verossimilhança. Aqui ficam algumas sugestões de leitura. Infelizmente, muitos desses textos já se encontram esgotados. 1. Ivo Storniolo, Como ler os Atos dos Apóstolos – O caminho do evangelho – Paulus, 1993. 2. Ivone Gebara, Cristologias, texto fundamental para entender sobre este assunto. Este texto está publicado em meus sítios no Scribd e no 4shared e pode ser acessado clicando nos linques: http://www.scribd.com/people/view/666237-lumensana http://www.4shared.com/account/dir/6479441/3f16937b/sharing.html?rnd=25 3. Vários autores, Paulo de Tarso Militante da Fé, Ribla – Revista de Interpretação Bíblica LatinoAmericana, Nº 20, Vozes / Sinodal. 1995. Toda ela dedicada à pessoa de Paulo, o “apóstolo dos gentios”, personagem discutível e discutido em muitos círculos teológicos. Principalmente, o ensaio de Sebastião Armando Gameleira Soares, Reler Paulo – desafio à igreja. 4. Pe. Guilherme Bellinato, Paulo: Cartas e Mensagens. Loyola, 1979. (Um de meus professores de estudos bíblicos). 5. Carlos Mesters, Paulo, Um Trabalhador que anuncia o evangelho. Edições Paulinas, 1991. (Já utilizado por nós anteriormente em nossos estudos bíblicos) 6. Eliseu Lopes, Paulo e suas cartas, Roteiros para reflexão X.CEBI / Paulus, 2000. 7. C.H.Dodd, A mensagem de Paulo para o homem de hoje. Edições Paulinas, 1980 8. José Maria González-Ruiz, O Evangelho de Paulo. Edições Paulinas, 1980 9. Pablo Richard, O movimento de Jesus depois da ressurreição. Uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. Paulinas, 1999. Este livro (fundamental!) resgata e reconstrói o movimento de Jesus depois da ressurreição e antes da institucionalização da Igreja. Fiz um resumo desse livro que posso enviar a quem o desejar. *. Luiz Edgar de Carvalho, simplesmente um escriba.

Revisado e reeditado em abril, 2008.

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