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Suma

teológica

Tomas de Aquino
Prima pars

PRIMEIRA PARTE
Questão 64: Da pena dos demônios.

Conseqüentemente devemos tratar da pena dos demônios. E sobre este ponto quatro artigos se
discutem:

Art. 1 Se o intelecto dos demônios ficou entenebrecido pela privação do conhecimento de toda
verdade.

O primeiro discute-se assim. Parece que o intelecto dos demônios ficou entenebrecido pela
privação do conhecimento de toda verdade.

1. Pois, se conhecesse alguma verdade, conheceriam sobretudo a si mesmos, o que seria


conhecerem substâncias separadas. Ora, isto não lhes conviria à miséria, pois, é própria de uma
grande beatitude; a ponto que alguns ensinaram ser a felicidade última do homem o
conhecimento das substâncias separadas. Logo, os demônios estão privados de todo
conhecimento da verdade.

2. Demais. O que por natureza é manifesto, em máximo grau, parece ser, em máximo grau,
manifesto aos anjos, bons ou maus. E se não nos é a nós, nesse mesmo grau, isso provém da
debilidade do nosso intelecto que recebe os dados dos fantasmas; assim como, por debilidade dos
olhos a coruja não pode ver a luz do sol. Ora, os demônios não podem conhecer a Deus,
manifestíssimo em si mesmo, pois é a suma das verdades, porque não têm o coração puro, que só
pode ver a Deus. Logo, também não podem ter conhecimento dos outros objetos.
3. Demais. O conhecimento angélico das coisas é duplo, segundo Agostinho: o matutino e o
vespertino. Ora, aquele não compete aos demônios, porque não vêm as coisas no Verbo. Nem
também o vespertino, que refere as coisas conhecidas ao louvor do Criador; donde o vir a ser
tarde depois da manhã, como diz a Escritura. Logo, os demônios não podem ter conhecimento
das coisas.

4. Demais. Os anjos, no seu conhecimento, conheceram o mistério do reino de Deus, como diz
Agostinho. Ora, os demônios estão privados desse conhecimento, pois, se eles o conhecessem
nunca sacrificariam o Senhor da glória, como diz a Escritura. Logo, pela mesma razão, estão
privados de qualquer outro conhecimento da verdade.

5. Demais. Quem conhece qualquer verdade, ou a conhece naturalmente, como conhecemos os


primeiros princípios; ou pela receber de outrem, como o que sabemos aprendendo; ou pela
experiência de um longo tempo, como o que sabemos pelo ter descoberto. Ora, os demônios não
podem, pela própria natureza, conhecer a verdade, porque deles estão separados os bons anjos,
como a luz das trevas, segundo diz Agostinho; e toda manifestação se faz pela luz, na expressão da
Escritura. Semelhantemente, nem pela revelação; nem por aprender dos bons anjos, pois, não há
comércio entre a luz e as trevas, como diz a Escritura. Nem pela experiência de longo tempo,
porque esta nasce dos sentidos. Logo, os demônios não têm nenhum conhecimento da verdade.

Mas, em contrário, diz Dionísio que, dados aos demônios os dons angélicos, nós de nenhum modo
os consideramos mudados, permanecendo íntegros e esplendíssimos. Ora, entre esses dons
naturais está o conhecimento da verdade. Logo, eles têm algum conhecimento desta.

SOLUÇÃO. Há um duplo conhecimento da verdade: o obtido pela natureza e o pela graça.


Sendo este último, também duplo: um é somente especulativo, quando, p. ex., são revelados a
algumas pessoas certos segredos divinos; outro, porém, é afetivo, produz o amor de Deus e
pertence propriamente ao dom da sabedoria. Ora, destas três formas de conhecimento, a
primeira nem foi suprimida nem diminuída nos demônios. Pois, resulta da própria natureza
angélica, que é naturalmente inteligência ou mente. Por isso, por causa da simplicidade da
substância, essa natureza de nada pode ser privada, de maneira a ser punida pela privação dos
dons naturais, como o homem o é pela privação da mão, do pé ou de outro qualquer membro. Por
onde diz Dionísio (loc. cit) que os dons naturais permanecem íntegros, nos demônios e, por isso o
conhecimento natural não se lhes diminuiu. Porém, a segunda forma de conhecimento, a que
se obtém pela graça e consiste na especulação, não lhes tendo sido tirada, foi-lhes contudo
diminuída. Porque, dos segredos divinos é-lhes revelado somente o necessário, ou mediante os
anjos, ou por alguns efeitos temporais da divina virtude, como diz Agostinho. Não, porém, como o
é aos próprios santos anjos, aos quais mais claramente mais coisas são reveladas no Verbo mesmo.
Mas, da terceira forma de conhecimento eles são totalmente privados, bem como da caridade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. A felicidade consiste na aplicação ao que nos


é superior. Ora, as substâncias separadas são-nos superiores, na ordem da natureza; por isso, pode
haver uma certa razão de felicidade para o homem em as conhecer, embora a felicidade perfeita
dele esteja em conhecer a substância primeira, Deus. Mas às substâncias separadas é-lhes
conatural mutuamente se conhecerem, assim como é a nós conhecer as naturezas sensíveis. Por
onde, assim como a felicidade do homem não consiste em conhecer estas naturezas, assim a dos
anjos não consiste em mutuamente se conhecerem.

RESPOSTA À SEGUNDA. O que é manifestíssimo, por natureza, é-nos oculto como excedente
à capacidade do nosso intelecto e não só porque este receba os dados, dos fantasmas. Ora, a
substância divina excede não só a capacidade do intelecto humano, mas também a do angélico.
Por onde, nem o próprio anjo, pela sua natureza, pode conhecer a substância de Deus. Contudo
pode, pela sua natureza, ter de Deus um conhecimento mais elevado que o homem, por causa da
perfeição do seu intelecto. E um tal conhecimento de Deus permanece também nos demônios;
pois, embora não tenham a pureza, que vem da graça, têm, todavia, a pureza natural, suficiente
para o conhecimento natural que têm de Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. A criatura é treva, comparada com a excelência da luz divina. E por
isso, o conhecimento próprio à criatura, na sua natureza própria, se chama vespertino, porque a
tarde vai de mistura com as trevas, se bem tenha alguma luz; quando, porém, esta faltar
totalmente, faz-se a noite. Assim, pois, também o conhecimento das coisas, em a natureza própria
delas, quando for referido ao louvor do Criador, como se dá com os bons anjos, tem algo da luz
divina e pode chamar-se vespertino; se, porém, não se referir a Deus, como se dá com os
demônios, não se chama vespertino, mas noturno. Por isso, se lê na Escritura que Deus chamou
noite às trevas, que separou da luz.

RESPOSTA À QUARTA. O mistério do reino de Deus, realizado por Cristo, certamente todos
os anjos o conheceram, desde o princípio, de algum modo; sobretudo desde que foram
beatificados pela visão do Verbo, que os demônios nunca tiveram. Mas, todos os anjos não o
conheceram, nem perfeita nem igualmente. Por onde, muito menos os demônios conheceram
perfeitamente o mistério da Incarnação, durante a existência de Cristo, no mundo. Pois, como diz
Agostinho, não lhes foi dado a conhecer, como aos santos anjos, que fruem da eternidade
participada do Verbo; mas lhes foi, por certos efeitos temporais, como para os aterrar. Porque, se
perfeitamente e com certeza tivessem sabido ser Cristo o Filho de Deus e tivessem conhecido o
efeito da sua Paixão, nunca teriam tentado crucificar o Senhor da glória.

RESPOSTA À QUINTA. De três modos os demônios conhecem qualquer verdade.


Primeiro, pela sutileza de sua natureza; pois, embora entenebrecidos pela privação da luz da graça,
são todavia lúcidos pela luz da natureza intelectual. Segundo, pela revelação aos santos anjos,
com os quais, embora não convenham pela conformidade da vontade, convém, contudo, pela
semelhança da natureza intelectual, podendo, por essa natureza, receber o que por outros for
manifestado. Terceiro, conhecem pela experiência de um longo tempo, embora não a
adquiram pelos sentidos, mas como pelas coisas singulares se completa a semelhança da espécie
inteligível que lhes é naturalmente infusa, conhecem certas coisas presentes, que não conheciam
enquanto ainda eram futuras, como já se disse antes, ao tratar do conhecimento dos anjos.

Art. 2 Se a vontade dos demônios está obstinada no mal.

O segundo discute-se assim. Parece que a vontade dos demônios não está obstinada no mal.

1. Pois a liberdade do arbítrio pertence à natureza do ser intelectual, que permanece nos
demônios, como já se disse. Ora, essa liberdade, por si e primariamente, se ordena ao bem e não
ao mal. Logo, a vontade do demônio não está obstinada no mal, de modo que não possa voltar ao
bem.
2. Demais. Maior é a misericórdia infinita de Deus que a malícia finita do demônio. Ora, da
malícia da culpa à bondade da justiça ninguém volta senão pela misericórdia de Deus. Logo,
também os demônios podem voltar ao estado da malícia para o da justiça.

3. Demais. Se os demônios têm a vontade obstinada no mal, a teriam obstinada sobretudo no


pecado pelo qual pecaram. Mas esse pecado, a soberba, não mais permanece neles por não
permanecer o motivo dela, a excelência. Logo, o demônio não está obstinado na malícia.

4. Demais. Gregório diz que o homem pôde ser resgatado por outrem, porque por outrem caiu.
Ora, os demônios inferiores caíram pelo primeiro deles, como se disse antes. Logo, a queda deles
podia ser resgatada por outrem. Logo, não está obstinados na malícia.

5. Demais. Quem está obstinado na malícia nunca pratica boas obras. Ora, o demônio faz
algumas boas obras; assim, confessa a verdade, dizendo a Cristo: Sei quem és, o Santo de
Deus; também os demônios crêem e estremecem, como diz a Escritura; e Dionísio também diz que
eles desejam o bom e o ótimo: existir, viver e inteligir. Logo, não estão obstinados na malícia.

Mas, em contrário, diz a Escritura: A soberba daqueles que te aborrecem, sobe continuamente; o
que se entende dito dos demônios. Logo, perseveram sempre obstinados na malícia.

SOLUÇÃO. Era opinião de Orígines, que toda vontade da criatura pode inclinar-se para o bem
e para o mal, por causa da liberdade do arbítrio; exceto a alma de Cristo, por efeito da união do
Verbo. Mas esta opinião destrói a verdade da beatitude em relação aos santos anjos e aos
homens; porque a estabilidade sempiterna é da essência da verdadeira beatitude, sendo, por isso,
que esta se chama vida eterna. Também repugna à autoridade da Sagrada Escritura, declarando
que os demônios e os homens maus serão enviados para o suplício eterno; mas os bons serão
transferidos para a vida eterna. Por onde, essa opinião deve ser reputada por errônea e se deve ter
firmemente, segundo a fé católica, que a vontade dos bons anjos está confirmada no bem e a dos
demônios obstinada no mal.

Porém, a causa desta obstinação deve ser buscada, não na gravidade da culpa, mas na condição da
natureza ou do estado. Pois, como diz Damasceno, a morte é para os homens o que é a queda para
os anjos. Ora, é manifesto, todos os pecados mortais, grandes ou pequenos, dos homens são
remissíveis, antes da morte; porém, depois dela, são irremissíveis e perpetuamente permanecem.

Logo, para se inquirir da causa dessa obstinação, é mister considerar que a virtude apetitiva, em
todos os seres, é proporcionada à apreensiva, da qual é movida, assim como é o móvel
proporcionado ao motor. Ora, o apetite sensitivo busca o bem particular, ao passo que a vontade
atinge o universal, como já antes se disse; do mesmo modo que a apreensão sensível atinge o
singular, ao passo que o intelecto, o universal.

Mas, a apreensão do anjo difere da do homem por apreender imovelmente, pelo intelecto, assim
como nós apreendemos os primeiro princípios, objeto do intelecto; ao passo que o homem
apreende movelmente, pela razão, discorrendo de uma verdade para outra, podendo tender para
qualquer de dois opostos. Por onde, a vontade do homem adere a um objeto, movelmente, quase
podendo abandoná-lo para aderir ao contrário; a do anjo, porém, adere fixa e imovelmente. E
portanto, considerada antes da adesão, pode a vontade angélica aderir livremente a um termo ou
ao seu oposto, isso nas coisas que ela não quer necessariamente; mas, depois de já ter aderido,
adere imovelmente.

E, por isso, se costuma dizer que o livre arbítrio do homem é flexível e capaz de termos
opostos, tanto antes como depois da eleição; porém, o do anjos é flexível quanto aos opostos, antes
da eleição, não, porém, depois. Assim, pois, os bons anjos, uma vez tendo aderido à justiça, nela
foram confirmados; mas os maus, pecando, obstinaram-se no pecado. Quanto à obstinação dos
homens condenados, a seguir se dirá (Supplem.Q. 98, a. 1, 2).
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. Tanto os bons como os maus anjos têm o
livre arbítrio; mas segundo o modo e a condição da sua natureza, como foi dito.

RESPOSTA À SEGUNDA. A misericórdia de Deus libera do pecado os penitentes. Porém, os


incapazes de penitência, por aderirem imovelmente ao mal, esses não são liberados pela divina
misericórdia.

RESPOSTA À TERCEIRA. Ao diabo ainda lhe permanece o pecado pelo qual pecou, quanto ao
apetite, embora não quanto ao que crê poder alcançar. Como quem pensasse poder cometer um
homicídio, e o quisesse sendo, em seguida, privado do poder de o perpetrar; contudo poderia
permanecer-lhe a vontade do homicídio, de modo a querer tê-lo cometido ou a cometê-lo, se
pudesse.

RESPOSTA À QUARTA. Não é a causa total de ser o pecado do homem remissível, o ter
pecado por sugestão de outrem. Logo, a objeção não colhe.

RESPOSTA À QUINTA. O ato do demônio é duplo. Um procede da vontade deliberada e esse


pode ser propriamente chamado ato do demônio. E tal ato sempre é mau, porque, embora
algumas vezes faça algo de bom, todavia não o faz bem; assim, dizendo a verdade para enganar, e
não a acreditando e confessando voluntariamente, mas coagido pela evidência das coisas. Porém,
outro ato do demônio sendo natural, pode ser bom e lhe atesta a bondade da natureza. E todavia
abusa também desse ato, para o mal.

Art. 3 Se há dor nos demônios.

O terceiro discute-se assim. Parece que não há dor nos demônios.

1. Pois, a dor e a alegria, mutuamente se opondo, não podem simultaneamente existir no


mesmo ser. Ora, nos demônios há alegria; porquanto Agostinho diz: O diabo tem poder sobre
aqueles que desprezam os preceitos de Deus, e se alegram com esse tão infeliz poder. Logo, neles não
há dor.

2. Demais. A dor é a causa do temor; pois, tememos o futuro daquilo que sofremos, quando é
presente. Ora, nos demônios não há temor, conforme a Escritura: Foi feito para que não temesse a
nada. Logo, neles não há dor.

3. Demais. Doer-se do mal é bom. Ora, os demônios não podem fazer o bem. Logo, não podem
ter dor, ao menos pelo mal da culpa, o relativo ao verme da consciência.

Mas, em contrário, o pecado do demônio é mais grave que o do homem. Ora, este é punido pela
dor, por causa do deleite no pecado, segundo a Escritura: Quanto ela se tem glorificado e vivido em
deleites, tanto lhe daí de tormento e pranto. Logo, com maioria de razão, o diabo, que se glorificou
maximamente, é punido pelo pranto da dor.

SOLUÇÃO. O temor, a dor, a alegria e outras paixões, como tais, não podem existir nos
demônios; pois, como tais, pertencem propriamente ao apetite sensitivo, virtude que se exerce
pelo órgão corpóreo. Mas, enquanto designam atos simples da vontade, podem neles existir;
sendo necessário então dizer que neles há dor. Pois esta, significando ato simples da vontade, não
é senão o recalcitrar desta quanto ao que é ou ao que não é. Ora, é claro, os demônios querem não
fossem muitas coisas que são, e fossem muitas que não são; assim, invejosos, querem fossem
danados os que se salvam. Por onde, é forçoso admitir que neles há dor; e, precipuamente, porque
é da natureza da pena repugnar à vontade. Ora, eles estão privados da beatitude, que naturalmente
desejam; e, em muitos deles, é reprimida a vontade iníqua.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. A dor e a alegria, relativamente ao mesmo


objeto, são opostos; não são porém, relativamente a objetos diversos. Por onde, nada impede que
alguém simultaneamente se doa de uma coisa e goze com outra; e sobretudo enquanto a dor e a
alegria supõem atos simples da vontade, pois não só em relação a coisas diversas,mas também em
relação a uma mesma coisa, pode haver algo que queremos e algo que não.

RESPOSTA À SEGUNDA. Assim como, nos demônios, há a dor do presente, assim há o temor
do futuro. E a expressão Foi feito para que não temesse a nada se entende do temor de Deus,
que coíbe o pecado. Pois, alhures está escrito, que os demônios crêem e estremecem.

RESPOSTA À TERCEIRA. O doer-se do mal da culpa, em si mesma, atesta a bondade da


vontade, à qual esse mal se opõe. Doer-se porém do mal da pena, ou do mal da culpa, por causa da
pena, atesta a bondade da natureza, à qual o mal da pena se opõe. Por isso Agostinho diz, que a
dor do bem perdido, no suplício, é testemunho da natureza boa. Logo, o demônio, de vontade
perversa e obstinada, não se dói do mal da culpa.

Art. 4 Se o nosso ar é o lugar da pena dos demônios.

O quarto discute-se assim. Parece que o nosso ar não é o lugar da pena dos demônios.

1. Pois, o demônio é de natureza espiritual. Ora, a natureza espiritual não é afetada pelo lugar.
Logo, não há nenhum lugar de pena para os demônios.

2. Demais. O pecado do homem não é mais grave que o do demônio. Ora, o lugar da pena do
homem é o inferno. Logo, muito mais, o do demônio. Logo, não o é o ar caliginoso.

3. Demais. Os demônios são punidos pela pena do fogo. Ora, no ar caliginoso não há fogo.
Logo, esse ar não é o lugar a pena dos demônios.
Mas, em contrário, diz Agostinho, que o ar caliginoso é um quase cárcere para os demônios, até o
tempo do juízo.

SOLUÇÃO. Os anjos, por natureza, são medianeiros entre Deus e os homens. Ora, está na
ordem da divina providência, que o bem dos seres inferiores seja obtido pelos superiores. O bem
do homem, porém, pode ser obtido duplamente pela divina providência. De um modo,
diretamente; induzindo ao bem e retraindo do mal, o que convenientemente se faz pelos anjos
bons. De outro modo, indiretamente: p. ex., quando alguém se exerce atacado pela impugnação de
um contrário. E era conveniente que esta obtenção do bem humano se realizasse pelos maus
anjos, afim de que não fossem eliminados totalmente, depois do pecado, da utilidade da ordem
natural. Assim, pois, duplo lugar de pena é devido aos demônios. Um, em razão da culpa, e esse é
o inferno. Outro, porém, em razão da exercitação humana e, esse é o ar caliginoso. Mas, como a
busca da salvação humana se prolongará até o dia do juízo, até então durará o ministério dos
anjos e a exercitação causada pelos demônios. Por isso, até então, também os bons anjos nos serão
para cá mandados, e os demônios hão-de exercitar-nos neste ar caliginoso; embora alguns destes
estejam também agora no inferno, para atormentar os que induziram ao mal, assim como alguns
bons anjos estão com as almas santas no céu. Mas depois do dia do juízo, todos os maus, homens
e anjos, estarão no inferno; os bons, porém, no céu.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. Um lugar não é de pena, para o anjo, nem
para a alma, porque lhes afete a natureza, alterando-a; mas porque lhes afeta a vontade,
contristando-a, enquanto o anjo ou a alma compreende estar num lugar, que não lhe convém à
vontade.

RESPOSTA À SEGUNDA. Uma alma, na ordem da natureza, não é superior a outra, como os
demônios, na ordem da natureza, são superiores aos homens. Por isso a razão não é a mesma.

RESPOSTA À TERCEIRA. Alguns disseram que a pena sensível dos demônios e das almas,
bem como a beatitude dos santos, serão diferidas até o dia do juízo; o que é errôneo e repugna à
sentença do Apóstolo: Se a nossa casa terrestre desta morada for desfeita, temos um edifício no
céu. Outros, porém, embora não sejam da mesma opinião, quanto às almas, são-no quanto aos
demônios. Mas é melhor sentir que se deve fazer o mesmo juízo das almas más e dos maus anjos,
de um lado, e das almas boas e dos bons anjos, de outro. Donde, assim como o lugar celeste
pertence à glória dos anjos e, contudo, esta não diminui por virem eles a nós, porque consideram
esse lugar como seu, do mesmo modo pelo qual dizemos que a honra do bispo não diminui
quando não se assenta atualmente na cátedra; semelhantemente, embora os demônios não
estejam atualmente ligados ao fogo da Geena, quando estão em o ar caliginoso, contudo, por isso
mesmo que sabem que essa prisão lhes é devida, a pena não se lhes diminui. Por isso diz uma certa
Glossa, que eles levam consigo o fogo da Geena para onde quer que vão. Nem vai contra o dito da
Escritura, que pediram ao Senhor que não os mandasse ir para o abismo; porque assim o pediram
reputando por pena se fossem excluídos do lugar em que podem prejudicar aos homens. Por
onde, em outra passagem se diz, que pediam-lhe instantemente que os não lançasse fora do país.