Você está na página 1de 3

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Escola de História Centro de Ciências Humanas Curso: História Tópicos especiais em História Moderna A

Resenha: CUNHA, Mafalda Soares da. A Casa de Bragança 1560-1640. Práticas senhoriais e redes clientelares, p.1-44.

A autora começa o texto esclarecendo seus objetivos de forma clara, trata-se do estudo

da Casa de Bragança como um lugar institucional de promoção ou consolidação do poder. Sendo inerente a este estudo a existência de estratégias conscientes de preservação do status,

como as estratégias matrimoniais, as concessões de nobreza, as relações de poder e redes sociais, dentre outras que são analisadas pela autora ao longo da introdução. Cunha, incialmente, delimita a trajetória histórica dos Bragança entre os séculos XV e XVII, apontando como sua prática no período quatrocentista à acumulação de recursos e poder em um meio que possibilitasse a geração dos mesmos. Enquanto que no período posterior visava à consolidação e a manutenção das posições já adquiridas. Um exemplo citado pela autora reflete a intenção de D. Teodósio II, que afirmava que coubera a seus antepassados o papel de juntar e acrescentar à grandeza de sua casa, e à sua esposa, por agora, deveria trabalhar com o propósito de manter o que em honra e fortuna eles tinham ganhado.

A questão referente à política de proteção e acrescentamento de direitos e privilégios

ao longo da trajetória histórica da Casa de Bragança merece mais atenção devido a sua forma peculiar. Ao longo do século XVI, a Casa possuiu terras que não tinham nem importância econômica, militar ou demográfica significativa, fora os concelhos cedidos. Entretanto, possuíam uma série ampla de privilégios, novos ou a confirmação dos cedidos anteriormente,

que garantiam condições excepcionais na administração do senhorio. Cunha deixa em destaque que a Casa preferiu a manutenção e o reforço dos diversos instrumentos de

intervenção senhorial e dos signos de distinção social em detrimento do acrescentamento da base territorial do senhorio.

A distinção dos Bragança com as demais casas senhoriais era nítida. De acordo com

Cunha, do ponto de vista da história comparada e no mesmo período cronológico, é difícil

encontrar outra casa senhorial com tamanha concentração de privilégios e direitos excepcionais, além da coexistência, pacífica e negociada, que manteve ao longo dos séculos XVI e XVII com a Coroa. As estratégias matrimoniais dos duques de Bragança se modificavam de acordo com

os

objetivos da casa. Na centúria de quatrocentos, por exemplo, quase todos os descendentes

da

Casa foram casados. Nos séculos seguintes, somente um terço dos sucessores se casaram.

O

motivo da mudança no investimento matrimonial corresponde à substituição da lógica

linhagística, de acumulação de recursos jurisdicionais e diversificação de alianças, pela lógica de distinção social, como o casamento com membros da família real e o evitamento de formação de alianças com a nobreza portuguesa. A autora também destaca a excepcional prerrogativa brigantina de poder conferir nobreza e da equivalência entre os foros, as moradias e os cargos palatinos da Casa de Bragança e os da Casa Real. A Casa de Bragança construiu uma identidade magnificente, quase real, tirando dela vantagens evidentes, como impor critérios de consideração social sobre o prestígio associado ao seu serviço aproximados do serviço na Casa Real. Para Cunha, o jogo de similitudes com a Casa Real aumentava a notoriedade social dos Bragança. As comendas da Ordem de Cristo constituíram um elemento fundamental na hierarquia de prestígio social da época. Possibilitavam o alargamento do poder e a institucionalização de recursos distribuíveis. A aquisição de tal direito, em relação à Casa de Bragança, tinha o consentimento quase tácito. Esses privilégios de apresentação foram, dentre outras razões, catalizadores que opuseram os duques de Bragança aos de Avieiro e a D. António, Prior do Crato, e os seus irmãos e parentes a outros tantos senhores do reino. Os conflitos afetavam não só o topo da hierarquia nobiliárquica, e sim de forma generalizada, a todos que tinham, ou pensavam ter, direitos e deveres de representação. O árbitro final das disputas era a Coroa com o auxílio da justiça, tarefa difícil por falta de legislação clara sobre a matéria. É interessante como a autora retrata os costumes particulares da Casa e Bragança. O clima era de competição entre os aristocratas, que disputavam pelos signos de distinção, como o duque D. Teodósio II que tratava os demais duques e fidalgos abaixo das expectativas de consideração. Assim, o duque demarcava o seu espaço social, revelando a importância do status em detrimento das inimizades que cultivava. O que também é visto com a residência permanente dos duques de Bragança em Vila Viçosa, fora dos constrangimentos espaciais do castelo e da corte régia. A escolha pela distância física do poder, por não partilhar as mesmas estratégias cortesãs e sociabilidades da restante nobreza, constituía mais um elemento de

afirmação da alteridade da Casa de Bragança. Apesar da distância, os duques mantiveram certo nível de intervenção política no centro e uma incontestável capacidade de consolidar e reproduzir preeminência da sua posição social. Os Bragança detinham privilégios sobre o comércio das especiarias orientais através de transferência de direitos de representação ou sob a forma de venda desses mesmos direitos a mercadores estabelecidos no Oriente. Segundo o autor citado por Cunha, Boyajian, os agentes do duque de Bragança em Goa e em Cochim teriam despachado, entre 1584 e 1602, 6009 quintais de canela avaliados em mais de 500 000 cruzados. O importante neste tópico não seria os valores alcançados pela Casa, mas o fato de terem essa conexão e conseguirem mantê-la. E por fim, Cunha especifica como foi feita a contextualização da Casa de Bragança e o sistema de interdependências, de imbricação de interesses cruzados que enfrentou para sua estruturação e reprodução da organização do poder e das relações sociais. Logo, o objeto de análise do trabalho “não é a Casa de Bragança, mas sim a relação entre as estratégias da Casa e dos duques com a sua administração formal e as oportunidades e as perspectivas sociais que elas próprias criam” (p. 44).