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GP 35 JORNALISMO-TV

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Logo que liguei o computador, hoje cedo, lembrei que estava completando 35
anos de jornalismo e de televisão. Foi em 1º de abril de 1975, na TV Cultura,
que a aventura começou.

Anotei a efeméride no primeiro tuíte do dia, acendendo velinhas para mim


mesmo. Disse do meu apreço pelas mídias que me criaram, e da minha
posição de sempre criticá-las, para vê-las avançar. Agradeci pelo que elas me
deram, etc e clic.

Com 120 caracteres, detonei uma corrente poderosa de afeto.

Dezenas de amigos, muitos dos quais não conheço pessoalmente, me


felicitaram pelo marco alcançado e disseram de mim um infinito de bondades.

Atravessei o dia à flor da pele, emocionado, imerso em recordações e


balanços. Imensamente grato pela onda de carinho que me lavou a alma.

Hoje foi dia de recordar que o jornalismo nasceu para mim dentro da
televisão. Que através deles construí algum nome. E que a eles dediquei uma
vida inteira de esperança e luta.

Eu queria deixar desse dia uma mensagem. Como sabia que a emoção além da
conta não me permitiria escrever direito, lembrei de um texto enviado a
Caros Amigos, em 1998. Selecionei alguns trechos, que vão abaixo.

O sentimento que eles contém permanece em mim e é a minha oferenda, em


gratidão ao tanto bem que tantos me fizeram.


Minha filha chegou em casa outro dia animadíssima. Caloura de jornalismo na
PUC de São Paulo, ela estava fazendo a primeira matéria de sua vida, um
frila que arranjou por aí. A pauta era a mudança no perfil dos artistas
circenses, antes exclusivamente mambembes, hoje garotos de classe média, e
a Julia entusiasmava-se com o tema, com os entrevistados, com a idéia em si
de parir o primeiro texto.

Fiquei matutando como seria bom se me voltasse aquela velha vibração de


foca, que transformava na oitava maravilha do mundo a mais chata e banal
das matérias. Que tesão eu tinha em pegar aquelas pautas da Agência
Universitária da Notícias, na USP, e mergulhar no mundo das formigas, das
usinas movidas a marés, da pesquisa oceanográfica, das novas tendências
literárias!
Um universo infinito de temas, que eu vasculhava com a fome dos ignorantes
e convertia em textos capengas, para depois a Cremilda Medina, o Paulo
Roberto Leandro e o Sinval Medina, meus mestres, demolirem cada um deles
devidamente, linha por linha... Como eu me esforçava para saber de tudo,
falar de tudo, ler de tudo e, sobretudo, para me comportar com um
jornalista, aquele super-homem que eu imaginava, íntegro, ponderado,
poderoso...

Com o tempo, conheci um montão de coisas, entrevistei um mundo de gente


e fui tomando porradas da realidade. Descobri os podres da imprensa pátria,
aprendi a distância entre o que a gente quer e o que a gente pode no
jornalismo.

Fiz o percurso clássico do jornalista, que começa no otimismo, passa por um


certo messianismo, depois descobre o ceticismo e acaba no mais puro
cinismo. Nessa profissão, a gente aprende muito mais a desacreditar - nos
homens, nas instituições, nas palavras - do que em acreditar. Eu sei que é
triste, mas, em geral, é assim. (...)

Escrevo estas mal traçadas, enfim, porque fiquei emocionado. Ver minha
filha descobrindo o jornalismo, ver os amigos dela e outros tantos garotos
sentindo a mesma vibração, me recarregou as pilhas.(...) Reavivou em mim o
prazer e a importância de ser jornalista.

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