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02-HistoriaComtemporaneaI

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A chamada “onda revolucionária de 1830” iniciou-se na França. E isso não deve nos sur-
preender. Primeiro porque as cinzas dos anos revolucionários ainda estavam frescas e os elemen-
tos construídos ali ainda viviam. A queda de Napoleão não significou, nem de longe, o sepulta-
mento do liberalismo – embora, entre 1815 e 1830 muito dele tenha sido suprimido, a exemplo
de símbolos como a bandeira tricolor, instituída em 1789, que foi substituída por uma bandeira
branca. Por outro lado, a Restauração contrastava de forma marcante com aqueles anos em que
o lema “liberté, egalité, fraternité ou la mort” animavam o cenário político. Desde 1824 Carlos
X comandava um regime que representava o mais profundo recrudescimento do absolutismo de
direito divino. Assim, a França era um campo aberto para a construção da primeira grande brecha
no sistema de Metternich.

O regime da Restauração Bourbon jamais alcançou popularidade em território francês. Foi
a princípio aceito por um povo politicamente cansado das lutas que o afligiram durante o gover-
no de Napoleão, mas o cansaço logo passaria. Contudo, o clima de insatisfação manteve-se em
suspenso durante o reinado de Luís XVIII (1814-1824), que, prudente, submeteu-se ao constitu-
cionalismo burguês “outorgado” na Carta Constitucional de 4 de junho de 1814. Esta garantia as
liberdades individuais e as públicas, a igualdade perante a lei, a manutenção do sistema tripartite
de poder, o regime eleitoral censitário (que restringia o eleitorado a uma cifra em torno de 90.000
homens entre 30 e 40 anos) e a inviolabilidade do patrimônio público nacional. Mas Carlos X
preferiu mudar o andamento que seu irmão deu à política. Desde que assumiu o poder após a
morte de Luís XVIII, levou adiante uma política ultra-realista, que contrastava com o desenvolvi-
mento do liberalismo no país, desenvolvimento este que seria reforçado a partir de 1827, durante
os anos de crise econômica que dificultaram em muito a vida da maioria dos franceses.

A Carta foi sumariamente violada pelas Ordenações de Julho de 1830, um conjunto de
medidas impositivas, com as quais Carlos X buscava fortalecer o Poder Executivo, o que punha
a descoberto as intenções absolutistas do monarca, que não deixariam de ser combatidas pelos
liberais/independentes (coligação que reunia liberais/republicanos e bonapartistas em torno da
preservação do legado revolucionário), liderados por La Fayette, e os constitucionalistas (que
defendiam a aplicação estrita da Carta Constitucional), sob a liderança de Guizot.

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Apoiado pelos ultra-realistas (interessados em restaurar os privilégios nobiliárquicos abo-
lidos durante o processo revolucionário – a maioria era composta de ex-refugiados) dissolveu
a Câmara recém-eleita – cuja maioria era liberal/independente –, modificou os critérios para a
fixação do censo eleitoral (beneficiando os aristocratas) e instalou um regime de restrição das
liberdades individuais revivendo a censura.

Em resposta, o povo foi à luta, montando barricadas contra as tropas reais durante três dias
– 27, 28 e 29 de julho – que ficaram conhecidos como as Jornadas de Julho, ou as Três Glorio-
sas. Derrotado Carlos X, Luís Felipe, o “Rei Burguês”, foi conduzido ao trono francês, com o
apoio da alta burguesia e, segundo ele, dos “próprios vencidos” que o “julgaram necessário à sua
salvação”.

Ou seja, a monarquia constitucional de Luís Felipe, duque de Orleans, foi a solução encon-
trada pelos poderosos para impedir que o poder popular, amplamente demonstrado nas Jornadas,
se acercasse do Estado, instaurando uma ordem radicalmente distinta na França. Nas palavras de
Luís Felipe, em carta ao rei Francisco II, da Áustria, seu reinado se fazia necessário “para que os
vencedores não deixassem degenerar a vitória” (In CARVALHO, Delgado de. Op. cit., p. 192).

Assim, paradoxalmente, na França a Revolução de 1830 teve por resultado imediato a ins-
tauração de um regime moderado sob a direção de uma monarquia constitucional liberal que
garantia o primado da alta burguesia e a sobrevivência da nobreza, não importando em mudan-
ças profundas no âmbito das relações sociais. Mas, no que tange ao campo político externo suas
influências foram profundas.

Na Bélgica o processo revolucionário assumiu o tom nacionalista, objetivando o fim do
domínio holandês instituído no Congresso de Viena. Os belgas estavam submetidos à Holanda
como parte do Reino dos Países Baixos.

Debaixo de um regime monárquico absolutista que privilegiava os holandeses, os belgas
tinham ainda outras razões para reivindicar o reconhecimento de sua nacionalidade e a formação
de um Estado próprio e autônomo. Em termos culturais, diferentemente dos holandeses, os bel-
gas eram católicos em sua maioria, falavam um idioma próximo do francês (o valão), enquanto
o holandês é um idioma mais próximo do alemão. No campo econômico, outras diferenças os
separavam: os belgas primavam pela indústria, os holandeses pelo comércio, os belgas queriam
medidas protecionistas, os holandeses preferiam o comércio livre.

Enfim, contando com o apoio inglês os belgas subtraíram-se ao domínio holandês e orga-
nizaram uma monarquia constitucional e liberal. Aos 29 de novembro do mesmo ano, sob a ins-
piração do movimento francês – e contando com a simpatia e encorajamento de revolucionários
franceses, como La Fayette, e de liberais americanos –, eclodiu, no Reino da Polônia, um movi-
mento nacionalista contra a dominação russa. O movimento começou com um levante de oficiais
menores do exército polonês, que objetivavam um golpe de Estado, e ganhou corpo, exprimindo
os anseios populares de libertação nacional.

A questão está em que, desde 1815, os poloneses tinham uma independência virtual, ba-
seada em uma carta constitucional, leis próprias, burocracia estatal, instituições educacionais e
exército, que entretanto estava submetida ao governo do imperador russo na condição de “Im-
perador e Autocrata de todos os russos” e rei da Polônia. Fragilizado por contradições internas,
o movimento foi suprimido em outubro de 1831 pelo exército imperial russo. Entretanto, sua ex-
periência – que contou com a solidariedade de franceses, que coletaram cerca de 36.000 francos
em seu favor, e de americanos que coletaram donativos em Paris e nos Estados Unidos (ver box)

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“Resolvemos – Que Nós simpatizamos com a nação polonesa em seus
sofrimentos, e que nós admiramos sua heróica coragem, e a constância com
a qual eles mantêm seus direitos sagrados e naturais contra o vasto poder de
seus inimigos.

Resolvemos – Que uma subscrição deverá ser feita entre os americanos
agora em Paris, em prol deste povo valoroso. Resolvemos – Que o secretário
[James Fenimoore Cooper] respeitosamente deverá convidar o General La
Fayette para ser o agente de remessa do dinheiro coletado em Paris e na
América em conseqüência de seu encontro com as próprias autoridades
polonesas.

(...)”

(Contributions for the Poles (publicado no New York American em 6 de se-
tembro de 1832), Apud SPILLER, Robert E.. “Fenimoore Cooper and Laffayete: friends
of polish freedom, 1830-1832”. American Literature, vol. 7, n° 1 (mar. 1935), pp. 8-9)

– fortaleceu o nacionalismo polonês, que em outros momentos voltaria a se manifestar.

Um encontro de cidadãos americanos foi realizado no dia 29 de julho de 1831, na rua
Richelieu, em Paris. O assunto da reunião era a postura americana diante da questão polonesa.
Vejamos algumas resoluções:

As ondas de choque emanadas do movimento francês atingiriam também a Hungria, onde
um movimento nacionalista tentou obter a separação dos húngaros do império austríaco, ao que
as forças austríacas impuseram uma severa repressão. As mesmas forças austríacas tiveram de
sufocar, nos Estados itálicos, os movimentos nacionalistas ocorridos na Lombardia e em Veneto.
Nos Estados germânicos, tiveram que abafar movimentos como o de Hanover, contando com
a colaboração das forças da monarquia prussiana, que reprimiram os movimentos nos Estados
da Saxônia, Schleswig-Holstein e Silésia. No Reino das Duas Sicílias outro movimento foi re-
primido, desta vez pela monarquia dos Bourbons napolitanos. Vale mencionar que na península
itálica difundiu-se, a partir de 1831, o movimento Jovem Itália, fundado por Giuseppe Mazzini,
em Marselha. Veja abaixo alguns trechos do Manifesto de Marselha, documento fundamental do
movimento.

“A Jovem Itália é a confraternidade dos italianos que acreditam numa lei de
Progresso e de Dever, convencidos de estar a Itália chamada a ser uma Nação, que se
pode fazer com suas próprias forças.

(...)

A Jovem Itália é republicana e unitária. Republicana porque teoricamen-
te todos os homens de uma Nação são chamados pela lei de Deus e da Hu-
manidade a serem livres, iguais e irmãos e que a forma republicana é a
única que garante este destino... Republicana, porque, praticamente a
Itália não possui os elementos de uma monarquia, nem uma aristocracia
acatada, poderosa, em condições de se impor entre o trono e a Nação;
nem uma dinastia de príncipes italianos que, pelos seus longos serviços,
importantes e gloriosos em vista do desenvolvimento da Nação, mereça

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a afeição e a simpatia de todos os Estados que a formam; porque a tradição
italiana é toda republicana.

(...)

A Jovem Itália é unitária porque sem unidade não há realmente Nação – por-
que sem unidade não há força e a Itália rodeada de nações unitárias, poderosas e
invejosas, necessita antes de tudo ser forte, pois o Federalismo a condenando à
fraqueza da Suíça, a colocaria forçosamente sob a influência de uma ou outra das
nações vizinhas – porque o Federalismo revivendo as rivalidades locais já extintas,
levaria a Itália de volta à Idade Média.

(...)

Os meios de que entende se servir a Jovem Itália para alcançar seu
objetivo são a Educação e a Insurreição. Estes dois meios devem ser empre-
gados em concordância e se harmonizar.

(...)”

(MAZZINI, Giuseppe. Manifesto de Marselha, In CARVALHO, Delgado
de. Op. cit., pp. 194-195)

Stendhal, o vermelho e o negro.

Sugestão de Leitura
Sugestão de Leitura

A título de conclusão, podemos afirmar que a importância da onda revolucionária de 1830
está menos em seus resultados práticos que nas oportunidades de emersão de novas forças po-
líticas, dentre estas o nacionalismo, que daí em diante estaria constantemente na pauta das ques-
tões políticas em suspenso ao longo do continente. A “primavera dos povos” não tardaria a
despontar.

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