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MICHEL DE CERTEAU A Escrita CPM eteurel A Escrita da Histéria Fazer historia estabelecer uma relag#o com o tempo, Esta relagao nio ‘nem a primeira nem a tinica possivel Ha quatro séculos a historiografia ‘ocidental se define como 0 corte que separa o pasado do presente: ela hhonra 0s mortos mas encerra-os num ‘eimulo. © gesto que afasta a tradigio vivida para toma-la objeto de um saber indissociavel do destino da escrita Escrever historia & gerar um passado, ‘circunscrevé-lo, organizar 0 material heterogéneo dos fatos para construir no presente uma razio; é, para uma sociedade, substituir a experiéncia ‘opaca do corpo social pelo progresso ‘controlado de um querer fazer. Assim, desde Maquiavel, a historia situa-se do ado de um poder politico que faz a historia Esta coletinea de estudos traca, a0 mesmo tempo, o itinerario de um historiador eo percurso de uma interrogagao. A partir de uma expe- rigncia da historia religiosa moderna, Michel de Certeau se dedica 2 caracterizar aqui as operagdes que regulam a escrita da historia: a fabricagio de um objeto, a organizagao de espaco de tempo, a encenagio de um relato. Mas a histéria se define também pelo que ela exclui, Solidaria com a eserita, exorciza a oralidade para fazer desta 0 espago daquela, quer se trate da voz do selvagem, nos primeiros relatos etnograficos, ou da palavra da possess, na Franca do século XVII ‘Tendo se tomado cientifica, ela recusa a ficgéo: assim sendo, um ensaio para relet a historiografia freudiana ~ e 0 “romance”de Freud sobre Moisés — Procura articular teoria e ficgaio. Trata- se de apresentar um outro modelo de inteligibilidade que questiona até ‘mesmo o trabalho do historiador. Nascido em 17 de maio de 1925, em Chambéry, Franga, e falecido em 9 de janeiro de 1986, Michel de Certeau ra licenciado em Letras © Teologia, diplomado pela Ecole des Hautes Etudes e doutor em Ciéncia das Religides. Renomado historiador, era ‘membro da Escola Freudiana de Paris, ‘bem como lecionava na Universidade de Paris VII. ‘Aléin de pesquisas eruditas de histéria e de antropologia religiosa, Publicou, entre outros titulos: La Prise de Parole (1968), La Possession de Loudun (1970), L ‘Absent de Histoire (1973), La Culture aw Pluriel (1974), Une Politique de la Langue (1975) ¢ La Fable Mystique (1982). | iH ll Se pa aaa iS: eli eigen -207 Tai de: ere de se Comrie 1925, Bins Galina Faas Pte anp al ep de ame teria nac nse spa ‘Spero e820, ne err ine aration ete Preficio & 24edigso Escritas e Historias Primeira Parte [AS PRODUGOES DO LUGAR FAZER HISTORIA i 1. Um indicio: O tratamento da ideologi 2. Priticas histories e praxis social « 3. A historia, discurso e realidade . . 4. A historia como mito A OPERAGAO HHISTORIOGRAFICA 1. Um lugar social O ndo-dito A instituigdo historiea Os historiadores na sociedade © que permite ¢ 0 que profbe:o lugar - 2. Uma pritica Aarticulagao natarcra-cultira- ‘Oestabelecimento das fontes ov a redistribuigdo do espago Paver surgi diferengas: do modelo a0 desvio O trabalho sobre o limite A cronologia, Aconstrugto desdobrada .. .. (lugar do morto e lugar do leitor Segunda Parte ‘A PRODUGAO DO ‘TEMPO: UMA ARQUEOLOGIA RELIGIOSA INTRODUGAO: QUESTOES DE METODO UL Vv. A INVERSAO DO PENSAVEL. A HISTORIA RELIGIOSA DO SECULO XVI 1 Ateligivo durante a idade clssica 2. A interpretagso historica ‘A FORMALIDADE DAS PRATICAS. DO SISTEMA. RELIGIOSO A ETICA DAS LUZES (XVIF-XVIID) . 1. Da divisao das Igrejas a "Razdo de Estado” (séeulo XVII) 2, Un nove cade te pfs: A pole don ‘comportamentos ne 3. Alldgiea do “peaticante” 4. A éticafilosofica: “Iogalidade” e “utilidade” no séeulo XVIIL 5. As leis proprias do grupo religioso Teroeira Parte 0S SISTEMAS DE SENTIDO: 0 ESCRITO E 0 ORAL ETNO.GRAFIA’ ‘A ORALIDADE OU 0 ESPAGO DO OUTRO: LERY ‘A “ligdo de escrita” em Jean de Léry (1578) {A reprodugio escriturdria Una hermengutics do outso A palavra erotizada Visto efou eseutado - 123 BI 1B2 13 152 155 160 165 In 183 . at 214 216 219 226 230 VL vill. A LINGUAGEM ALTERADA. APALAVRA DA POSSUIDA 1, Transgressio e interdiezo Documentos alterados . .. “Eu 6 um outro”: a perversio da linguagem . . Construgfo e demoligao de um lugar 0 quadro dos nomes préprios: uma eri “mexida” A mentira da interpretagdo b |. UMA VARIANTE: A EDIFICACAO HAGIO-GRAFICA 1, Historia e sociologia 2. Aestrutura do discurso 3. Uma geografia do sagrado . Quarta Parte AS ESCRITAS FREUDIANAS. 0 QUE FREUD FEZ DA HISTORIA “UMA NEUROSE DEMONIACA NO SECULO XVII .. © historico, produego da AufKlirung freudiana Para uma histéria do século XVI. Do passado legivel 1o presente oculto . Gcultsr, trabalho da histéria As substituigoes do pai Oatoe ale AFICCAO DA HISTORIA AESCRITA DE "MOISES E 0 MONOTEISMO” 0 discurso de fragmentos ou 0 corpo do texto Escrever na lingua do outto, ou a fiegso AA tradigdo da morte, ou a “escrita” 0 quiproquo, ou a comédia do "proprio" O romance da historia 243 247 250 253 256 259 262 266 : 267 mm. 276 281 282 286 EraET 20 202 295 - 301 302 308, : 314 320 333 “a PREFACIO A 28 EDICAO ‘América Vespicio, 0 Descobridor, vem do mar. De pé, vestido, en- ‘ouracado, cruzado, trazendo as armas européias do sentido e tendo por detris dele os navios que trardo para o Ocidente os tesouros de um parai- $0, Diante dele a América India, mulher estendida, nua, presenga nfo omead da diferenca, corpo que desperta num espaco de vegetayées © tnimais exéticos'. Cena inaugural. Apés um momento de espanto neste limiar maresdo por uma colunata de frvores, oconquistador iri escrever 0 corpo do outro ¢ nele tragar a sua prbpra historia, Faré dele o corpo his- toriado ~ o brasio — de seus trabalhos ¢ de seus fantasmas, Isto serd a ‘América “Latina”. Esta imagem erdtica e guerrera tem valor quase mftico, Ela repre- Senta 0 infcio de um funcionamento novo da escrta ocidental® Certa- mente, a encenagio de Jan Van der Atractesboca a surpresa diante desta terra, que Américo Vespicio foi o primeiro a perceber claramente como Juma nuova terra ainda inexistente nos mapas? — corpo desconhecido destinado a trazer o nome de sew inventor (Amerigo). Mas © que assim se Aisfarga € uma colonizaedo do corpo pelo discurso do poder. E a eserita ‘conquistadora. Uiilizari. 0 Novo Mundo como uma pigina em branco 1 N. da T. — M. de Coreau explora a0 longo de toda a obra 0 duplo sentido (que apresenta, co fanets, a pales rine — excita « eseitua (eventulmente scritura, referindose ao texto a revelagdo judsico~rist (Gelvagem) para nela eserevero querer ocidental. Transforma o expago do ‘outro num campo de expansfo para um sistema de produgio. A parts de lum corte entre um sujeito e um objeto de operagto, entre um querer ‘server e um corpo escrito (ow a escrever) fabric a historia ocidental. A ‘scrita da historia & 0 estudo da esrita como prticahistica. Se, hi quatro sSeulos, todo empreendimento eientifico tem como caracteristcas a produgdo de artefatos lingbisticos autOnomos (inguas @ discursos “proprios”) e sua capacidade de transformar as coisas © 0s orpos dos quais se distinguiram (uma reforma ou revolupfo do mundo envolvente segundo a lei do texto) a eserita da historia remete 2 uma historia “modema” da escrta, Na verdade, este livo foi inicialmente oncebido como uma séiie de estudos destinados « marcar etapa crono- logicas dessa pritica: no século XVI, a organizapdo “etnogrifica” da es ctita na sua relagdo com 2 oraldade “selvagem”, “primitive”, “tradicio- nal", ou “popular” que ela constitui como seu outro (terceira parte deste liv); nos séculos XVI e XVIIL, a transformagdo das Excite crists, legiilidade de um cosmos religioso, em “representagOes” puras ou em “Superstigdes” margializadas por um sistema étco ¢ ténico das prticas capazes de construir uma histria humana (segunda parte); no limiar do século XX, o retorno da alteridade reprimida gracas & pitica escrturdria de Freud (quarta part); finalmente, o sistema atual da “indGstia” histo Fiogréfica?, que artcula um lugar sécio-econdmico de produglo, as regras cientiieas de um dominio, ea construgdo de um relato ou texto (primei- fa parte) A estes estudos se acrescenta aquele que conceme, em fins do século XVIM, a luta de uma racionalidade escrituréria ~ “esclarecida”, revolucionéria ¢ jacobina — contra as flutuagGes idiomiticas dss orali- dadesregionalzantes*. Mais do que proceder a esta reconstitugio cronoligica, por demais cit 4 fiegto de uma lnearidade do tempo", pareceu preferivel tornar wisivel o lugar presente onde esta interogagdo tomou forma, a particula- ridade do campo, do material ¢ dos process (da historiografia “modema Gque permitiram analser a operagdo escriturdra os desvis metodoligicos Gemi-sticos, psicanalfticos, ete.) que introduziram outras possibilidades tedricas e prticas no funcionamento ocidental da eserita. Donde este dis curso fragmentado, feito de investigagbes téticas obedientes, cada uma, a repras prOprias: abordagem sécio-epstemologica (primeira parte), hist tach (Segunda parte), semiGtica(terceira parte), psicanalitica e freudiana (quarta parte). Reeusr fice de uma metainguagem que uifica o todo E deixar aparece a rela entre os procedimentos cientiicas fimitados ¢ 10 quilo que thes fata do “teal” ao qual se eferem. E evitar a ilusdo, neces- sariamente dogmatizante, propria do discurso que pretende fazer erer que €“adequado” ao real, iusto filos6fica oculta nos preimbulos do trabalho historiogritico e da qual Schelling reconheceu maravihosamente a ambi- ‘fo tenaz: “0 relato dos fatos reais € doutrinal para n6s”. Este relato en- {gana porque acredita fazer a lei em nome do real. ‘A historiografia (quer dizer “histdria” e “escsita”) trax. inscrito no proprio nome o paradoxo — e quase 0 oximoron — do relacionamento de dois termos antinmicos: 0 real e o discurso. Ela tem a tarefa de arti- ‘eultos e, onde este lago nao é pensive, fazer como se 0s articulasse, Da telaglo que o discurso mantém com 0 real, do qual trata, nasceu este li- ‘10°. Que alianca é esta entre a escritae a historia? Elajé era fundamental ina concepeSo judaico-crste das Eserituras. Dai © papel representado por 5s arqueologia religiose na elaboracdo modema da historiografia, que fransformou os termos ¢ mesmo o tipo desta relagso passada, para The dar aspecto de fabricagdo e no mais de letura ou de interpretacao. Des- fe ponto de vista, o reexame da operatividade historiogrtica desemboca, [por um lado, num problema politico (os procedimentos préprias a0 “fa- ‘et historia”) e, por outro lado, na questo do sujeito (do corpo ¢ da palavra enunciadora), questo reprimida a0 nivel da fiegdo ou do silencio Pela lei de uma escrta “eiemtifica”, NOTAS * a veprodugdo da pigina de frente 2 CE W.E, Washburn, “The meaning of dicovery in the 15th and 16th com tury" in American Historical Review, 1962, p. 1 ss; Urs Bite, Die Widen” und dle Zhilsierten’ Grundsige einer Geiser und Kultureschichte der europisch Aberseischen Begegnung. Mlnchen, CH. Beck, 1976, p. 1880, A expresso & de Mart: “A india 0 lgo ral ehistrico entre a nature ‘m0 homem” e é“o fundamento da ciéncia humana”. Sobre a “indistia” histor fica cf, M. de Ceteau, “Eeritre et histoire”, in Politique aufourd'hu, décembre 1975, p. 65-7 “ Michel de Certeau, Dominique Julia e Jacques Reve, Une politique de lo fae. La evolutinfroote kt peo Calima, Both des Histo infra, cape § 3. + A este respeito, ef, M. de Certeau © Régine Robin, “Le disours historique tert”, in Dialetiques, 1°14, 6 1976, p. 41-62. Ch inf, Quarta Parte, © M. do Certeau, La fable du suet. Langage myst ques du XVIE sist, 0 plo, ESCRITAS E HISTORIAS iia beta triccoka ws ie oa Beis ec aon tad aerodrome ew withoes ce aie 2* 0 centho = "e Soc ae Spc’ dace sito ds contre: "Bu te ep. par més da... ia.. viajante corajoso". Caminhar ejou escrever, é 0 trabalho sem ‘trégua, pela forga do desejo, sob as esporas de uma curiosidade ardente que nada poderia deter.” Michelet multiplica as visitas, com “indulgéncia"’ Be Ptenor ite pre com os moron que so ot benefice de um "ar SE eer eon cenheoncoasn oss temcas'om sence oe cor vd chances No son: alte pins niio existe sendo o “vazio'”. A “intimidade com o outro mundo*" é, pois, tem perio: “ese seunge me tomo ene mats benerolente ars com Spice nts cara mc cna Cada ds oe os tae fren no rato com ete mundo mor, defiitvamete otra pbs trem prc, pee pce,» ta a range 6 sa fre “Yetomarre menos ter as soa sim" O ders ead tive pare. Fos dels ones perio, leas hon comrum ua ve thes fazia falta. Ele as “chora”, cumprindo um dever de piedade filial que A tanbin uma eng de wn vonho de Freud, eo numa cide de trata de fro "Padese fect os obs" A “emu de Meet va +N da T— seperds, 13 de uns aos outros para os introduzir no tempo, “este todo-poderoso deco- rador de ruinas: O Time beautifying things!*” Os caros desaparecidos entrum no texto porque ndo podem mals fazer mal nem falar. Estes espec- tos sdo acolhidos na escrita sob a condigto de se calarem para sempre. Um outro tuto, mais grave, se acrescenta ao primero. O Povo tam- ‘bém € apartado. “Nasei povo, tina o povo no corapdo... Mas sua lingua, sua lingua me era inacessivel Nao pude fazéla falar*”” Silencioso também ara ser objeto do poema que fala de si. Certamente, ele “autoriza” a es- ‘rita do historiador, mas por isso mesmo esté ausente dela. Esta Vox no ‘fala, infans. Nao existe sendo fora dela mesma no discurso de Michelet, ‘mas the permite ser um escritor “popular” de “langar fora” o orgulho e, tormando-se “grosseiro e barbaro”, “perder aquilo que me restava de suti- lea literdria””: 0 outro ¢ o fantarma da historiografia. O objeto que ela busca, que ela honra e que ela sepulta, Um trabatho de separagdo se efetua com res- ppeito a esta inquietente e fascinante proximidade. Michelet se estabeleceu ‘na fronteira onde, de Virgilio a: Dante, construiramse ficgSes que no cram ainda historia. Este lugar indica a questdo posteriormente articulada ppelas préticas cientificas e da qual uma disciplina se encarregou ~ “A ‘nica pesquisa historica do “sentido” permanece, com efeito, a do Outro" porém, este projeto contraditério pretende “‘compreender” e esconder ‘com 0 “sentido” a alteridade deste estranho ou, 0 que Yem a sera mesma ‘coisa, acalmar os mortos que ainda freqientam o presente © oferecerthes timulos excrituririos, 0 diseurso da separagao: a escrita. A historia moderna ocidental comepa efetivamente com a diferen: lagho entre 0 presente ¢ 0 passado, Desta maneira se distingue também da tradicio (réligiosa) da qual, entretanto, no conseguiré jamais separar-se totalmente, mantendo com esta arqueologia uma relagdo de divida e de rejeiodo, Finalmente, « tercetra forma deste corte, que organiza também o ‘onteiido nas relacoes do trabalho com a natureza, supe em toda parte tuma clivagem entre o discurso e 0 corpo (social). Ele faz falar o corpo que se aula, Supde uma decalagem entre « opacidade silencioss da “reatidade” ‘que ela pretende dizer, 0 lugar onde produs seu discurso, protesida por tum distanclamento do seu objeto (Gegen-stand). A violéncia do corpo ndo ‘aleanca a pina escrita send através da auséncie, pela intermediagdo dos documentos que 0 historiidor pode ver na praia de onde se retirow a pre- 4 erga que li os havia detxado, e pelo murmrio que debxa perceber, losin quamente, a imensidio desconhecida que seduz e ameaca 0 saber. Uma estrarura propria da cultura ocidental modema esti, evidente- ‘mente, indicada nesta historiografia: a inteigibilidade se instaura numa Trelagio com 0 outro; se desioca {ou “progride") modificando aquilo de que faz seu “outro” — 0 selvagem, 0 passado, 0 powo, 0 lowco, a crianca, 0 terceiro mundo. Através dessas variantes, heterinomas entre si — etmo- ogia, histori, psiquiaria, pedagogia, etc, — se desdobra wma problemé ea articulando um saber-dizer a respeito daquilo que 0 outro eala, ¢ ga- rantindo o trabalho interpretative de uma eléncia (“humana”), através da fronteira que 0 distingue de uma regido que 0 espera para ser conhe- ‘eda. A medicina moderna é uma imagem decisiva deste processo, a partir do momento em que 0 corpo se toma um quadro legivel e, portanto, Madutivel naquilo que se pode eserever num espaco dle linguagem, Gracas 109 desdobramento do corpo, diante do oltar, 0 que dele & visto € 0 que ele € sabido pode se superpor ou se intercambiar (se traduzi)). O corpo ‘¢ um cbdigo a espera de ser decifrado. Do século XVI ao XVII, 0 que tor- ‘na possivel a convertibitidade do corpo visto em corpo sibide, ou da orga- Inlzagio espacial do corpo em organtzapao semintica de wm vocabulério — @ inversamente -, é a transformagdo do corpo em extensdo, em interior ade aberta como um livro, em eadiver mudo exposto ao olkar®, Uma ‘Mutacdo andlogs se produz quando a tradicdo, corpo vivido, se desdobra iante da curiosidade erudita em um corpus de textos. Uma medicina e lima historiografia modernas nascem quase simultaneamente da clivagem ‘tire um sujeito supostamente letrado, e um objeto supostamente escrito ‘ima linguagem que ndo se conhece, mas que deve ser decodificada. Estas ‘uas “heterologias” (diseursos sobre 0 outro} se construiram em fungdo a separacio entre 0 saber que contém o discurso e 0 compo mudd que o sustenta. Inicialmente a historiografia separa seu presente de um passado. Po- ‘rim, repete sempre o gesto de dividir. Assim sendo, sua cronologia se con Boe de “periodos" (por exemplo dade Média, Histéria Moderna, Histéria Gontemporinea) entre os quai se indica sempre a decisio de ser outro ou de nto ser mais o que havia sido até entdo (o Renascimento, a Revolugéo). For sua vez, cada tempo “novo” deu lugar a um discurso que considera ‘morto” aquilo que o precedeu, recebendo um “passado” ji marcado pelas upturas anteriores. Logo, o corte & o postulado da interpretagio (que se eonstréi a partir de um presente) e seu objeto (as divisaes onganizam as representagdes a serem reinterpretadas}, O trabalho determinado por este Is Iinteligivel ~ aquilo que ¢ propriamente “fazer historia", Indissociavel, ‘até agora, do destino da escrita no Ocidente moderno ¢ contempordneo, 1 historiografia tem, eniretanto, esta particularidade de aprender a in- vengio escrituriria na sua relacdo com os elementos que ela recebe, de ‘operar onde © dado deve ser transformado em construido, de construir as representagdes com os materiais passados, de se situar, enfim, nesta fronteira do presente onde simultaneamente & preciso fazer da tradigio tum passado (exclut-la) sem perder nada dea (exploné-la por intermédio de ‘métodos novos), Historia e politica: um lugar. ‘Supondo-se um distanciamento da tradigao e lo corpo social, a his toriografia se apdia, em iltima insténcia, num poder que se distingue efe- ‘tkamente do passado e do todo da sociedade, O “fazer historia” xe apéia ‘num poder politico que criow um lugar limpo (cidade, nagdo, etc.) onde ‘um querer pode e deve escrever (construir) um sistema (uma razdo que articula priticas) Consttuindo-se espacialmente ¢ distinguindo-se sob a forma de wn querer auténomo, 0 poder politico, nos séculos XVI € XVII, também dé lugar a exigéncias do pensamento. Duas tarefas se tmpoem, particularmente importantes, do ponto de vista da historiografi, a qual vio transformar atraves de jurstas ¢ de “poitistas”. De wm lado 0 poder deve se legitimar, simulando acrescentar é forga que 0 efetiva uma autor dade que 0 toma crivel. De outro lado, a relapao entre wm “querer fazer historia” (um sujeito da operacdo politica) e 0 “meio ambiente” sob 0 qual se recorta wm poder de decisio e de agao pede uma anétise das vorié- veis colocadas em jogo por tode intervene que modifica esta relafo de Sorcas, wma arte de manipular a complexidade em funedo de objetives e, portanto, um eilculo das relacdes possivets entre um querer (aguele do principe) e wm quadro (os dados de uma situapéo). Nisto é possivelreco- rnhecer dois tacos da “ciéncia” que constroem, do sécuto XVI ao XVIII, 08 “historidgrafos”, freqientemente juristas e magistrados, junto ao — € 4 servigo do ~ principe, a partir de um “lugar” prvileiado onde, para a “tlidade” do Estado e do “them piilico” devem fazer concordar a vera cidade da tetra ea eficécia do poder ~ “a primeira dignidade da literatura” € @ capacidade de wm “homem de soverno”"*. De um lado, este discurso autoriza a forca que exerce 0 poder; ele a prové de uma genealogia fami liar, politica ow moral; dé crédito @wtildade presente do principe quando «transforma em “valores” que organizam a representagdo do passado. Por 18 ‘outro lado, 0 quadro constituide por este passado, e que é 0 equivalente dos “cenirios” atuais da prospectiva, formula modelos praxeolégleos e, fatnovés de wna série de situagées, wma tipologia das relagdes possives ‘entre tan querer conereto e as yariantes conjunturais; analisando as der Yotas ¢ as vitbrias, ele esbora wma ciéncia das priticas do poder, Em virtw de disto, ndo se contenta em justificar historicamente o principe ofere ‘eendo-the um brazao genealigico. I wma “tigao” dada por wm técnico da administracao politica Desde 0 século XVI — ou, para usar referéncias bem precisas, apés Maguiavel ¢ Guichardin'® ~, a historiografia deixa de ser a representasao dde wm tempo providencial, quer dizer, de wma historia decidida por um ujeito inacessivel e compreensivel apenas através dos signos que dé de ua vontade. Ela toma a posigto do sujeito da acto ~ a do principe, a ‘que tem como objetivo “fazer hist6ria". Confere& inteligenea a fungto de ‘modalizar os jogos possiveis entre um querer e as realdades das quai se istingue, Sua propria definigdo the é fornecide por wna razéo de Estado: ‘construir um discurso coerente que particularize os “golpes” de que wm Doider & capaz em funcao de dados de fato,gracas a uma arte de “ratar” 108 elementos impostos por um “meio ambiente”. Esta ciéncia ¢ estraté- lon por seu objeto, a hstéria politica; ela o 6 igualmente nowtro terreno. Por seu método de manejo dos dados, arquivos ou documentos, Entretanto, é por wna espécie de fiega0 que 0 historiador se deste lugar. Com efeito, ele néo ¢ 0 sujetto da operagio da qual é 0 téenico. Nao faz a historia, pode apenas fazer historia: essa formulagdo indica que fle assume parte de wma posigdo que nio é a sua e sem a qual um novo lipo de anélise historiogrifica néo the teria sido possivel Esti apenas junto” do. poder. Recebe, também, dele, sob formas mais ou menos ex: Pita, os diretizes que, em todos os paises modernas,conferem a his ria desde as teses até os manuais ~ a tara de educare de mobilizar. Seu discurso seri: magisterial sem ser de meste, da mesma forma que daré ligdes. de como governar sem conhecer as responsabilidades nem os riscos de governar. Pensa 0 poder que ndo possuk Su anise se desdobra “ao lado” do presente, numa encenagéo do passado andloga é que o projetsta produz em termos de futuro, defasnda também com relagto ao presente Por se encontrar tio proximo dos problemas politicos, porém, sem star no lugar onde se exerce 0 poder politica, a historiografia goza de um festatuto ambivalente que se mostra, mais vsivelmente, na sea arqueologia ‘moderna. Bstranha sitwacio, ao mesrao tempo critica e ficticia, Fla esté Indicada com particular nitidez nos Disoorsi e nas Istorie fiorentine de 19 Maquiavel Quando 0 historiador busca estabelecer, no lugar do poder, as regras da conduta politica e as methores instituigdes politica, representa © principe que ndo é; analisa 0 que deveria fazer 0 principe, Esta & a fice fo que abre ao seu diseurso o expago onde se insereve. Ficeto efetiva que Por ser ao mesmo tempo o discurso do senhor e do servidor — de ser per ‘mitida pelo poder ¢ defasada com relagio a ele, numa posipio onde 0 ‘éenico, resguardado, como mestre de pensamento pode tornar a represen: ‘ar problemas de principe’. Ele depende do “principe de fato” e produ 0 “principe possivel"™*. Deve, pois, fazer como se 0 poder efetivo fosse déeit @ sua lio, ao mesmo tempo que contra toda evidéncia, esta licto espera do principe que este se introduca numa organizacio democritica. De modo que esta ficedo questiona ~ ¢ torna quimérica ~ a possbilidade, ‘Para a anilise politica, de encontrar seu prolongamento na pritica efetiva do poder. Nunca 0 “principe possivel”; construido pelo discurso, seri 0 “principe de fato". Nunca serd ultrapassado o fosso que separa a realidade do discurso e que devota este iltimo @ futildade'’, pelo préprio fato de ser rigoroso, Frustragdo origindria que tornari fascinante para 0 historiador a ‘fetividade da vide politica (da mesma maneira, inversamente; 0 homem politico ser lerado a tomar a posiedo de historiador ea representar aquilo que fez para 0 “pensar” e autorizar), esta “ffeeao" se traduz também 0 {fato de que o historiador analiza situagées lé onde, para um poder, se ‘ratava de objetivos a realizar. Um recebe como jt feito aquilo que o poli- theo deve fazer. Aqui o passado é a conseqiiéncia de uma falta de articw. lagdo com 0 “fazer a historia". O irreal se insinua nesta ciéncia da ago, usando a flcpdo que consste em fazer de conta que se é o sujeito da ope- racio, ou na atividade que refaz a politica em laboratério © substitui pelo sujeito de wma operacio historiogréfica 0 sujeito de uma operagto historica. Os Arquivos compiem 0 “mundo deste jogo téenico, um mundo onde se reencontra a complexidade, porém, triada e miniaturizada e, por: tanto, formalizivel. Expaco preciso em todos os sentidos do termo; de ‘minha parte veria at 0 equivalente profisionalizado e escrituririo daquilo que representam os jogos na experiéncia comum de todos 05 potos, quer dizer, das priticas através das quais cada soviedade explicita, miniaturiza, formatiza suas estratégias mais fundamentais, e representa-se assim, ela ‘mesma, sem os riscos nem as responsabilidades de uma historia @ fazer. No caso da historiografta, a fiegdo se reencontra, ao final, no produe 10 da manipulacio e da andlise. O relato pretende uma encenapio lo pas sado, € nao 0 campo circunscrito onde se efetua uma operacéo defasada 20 “com relapdo 20 poder. Este fi & 0 caso dos Discorsi: Maquiavel os apresen “ta como wm comentirio de Tito-Livio. De fato se trate de um “fade: fonta""®. O autor sabe que os princfpios em nome dos quaiserige as ins Iituigdes romanas como modelo “despedacam’” a tradicao e que seu em ‘preendimento é "sem precedente'*”. A historia romana, referéncia co- mum € assunto agradével nas discusses florentines, Ihe forneceu wm ter ‘eno publico onde tratar de politica no lugar do principe, O passado é 0 lugar de interesse ¢ de prazer que situa, fora dos problemas do principe, 4 lado da “opinido” e da “ewriosidade” do pidblico, a cena onde o histo. ‘lador representa seu papel de téenico-substituto do principe. O afaste ‘mento com relacao ao presente mostra 0 lugar onde se produ: a historio raf, a0 lado do principe e préximo ao piiblica,representando 0 que um fiz ¢ 0 que agrada a0 outro, porém, sem ser identificivel nem com um em com 0 outro, O passado ¢, também, ficeao do presente. O mesmo ‘ocorre em todo verdadetro trabalho historiogrifieo. A explicaedo do pas Jado néo deixa de marcar a distingio entre o aparetho explicativo, que ‘std presente, ¢ 0 material explicado, documentos relativos a curiosidades ‘que concernem aos mortos. Un racionalizagao des priticas eo prazer de ‘ontar as lendas de antigamente (“o encanto da historia, dizia Marbeau'® ) = as téenices que permitem gerir a complexidade do presente, ea tema furiosidade que cerca os mortos da “famtla” ~ se combinam no mesmo fexto para dele fazer simultancamente a “reduséo” cientifica ¢ a metafo- eagdo narratva das estratégias de poder préprias de uma atualidade, 0 real que se inscreve no discurso historiogréfico provém das deter ‘minagées de um lugar. Dependéncia com relagdo a um poder estabelecido fem outra parte, dominio das téenicas concernentes ds extratégias socias, Jogo com os simbotos e as referéncias que legtimam a auioridade diante do piblico sao as relagbes efetvas que parecem caracterizar este lugar da ‘crite. Colocada do lado do poder, apoiada nele, mas a wna distincia critica; tendo em mao, imitados pela prépra escrita, os inserumentos ra cionais des operagdes modificadoras dos equilibrios de forga a titulo de uma vontade conquistadora; reunindo as mass de longe (por detrés da separaeio politica e social que as “distingue"), reinterpretando as referén cas tradicionais que existem elas; a historiografia francesa moderna é, ‘em sua quase toralidade, burguesa ¢ ~ como estranhi:lo? — raconalista™®. sta situagdo de fato esté eserita no texto. A dedicatéria mais ou + NaF “emblant 2 ‘menos discreta (& necessirio manter @ ficgo do passado para que tenha “ugar 0 jogo sdbio da historia), concede ao discurso seu estatuto de estar ‘endividado com releca ao poder que, ontem era 0 do principe e, hoje, por delegasdo, ¢ 0 da insttuiedo cientifiea do Estado ou do seu epinimo, © patrdo, Exte “remerimento™ designa 0 lugar autorizador. o referente cde wma forca onganizada, no interior e em fungdo da qual, a endlive tem lugar. Porém, 0 proprio telato, corpo da fiegdo, assinala também, através dos métodos empregados ¢ do contetdo tratado, de um lado, uma dis- ‘incia com relagdo a esta divida, & por outro lado, os dois pontos de ‘apoio que permitem esta distincia: um trabalho técnico € wm interesse Piblico, 0 historiador recebendo da atualidade os meios deste trabalho determinacdo de seu interesse. Por possuir esta estruturaedo triangular, « historiografia ndo pode, ‘entdo, ser pensada nos termos de uma oposici ou de wma adequaca entre um sujeito © um objeto: isto ndo & sendo 0 jogo da fice que cons- tr6L Tampouco se podteria supor, como ela ds vezes leva a ever, que um “comero", anterior no tempo, explicara o presente: ads, cada historlador situa 0 corte inaugurador li onde pra sua investigaed0, quer dizer, nas Gronteiras fixadas pela sux especiatidade na disciplina a que pertence. Na verdade, parte de determinagdes presentes. A atualidade é 0 seu comeo real Jé 0 dizia Lucien Febvre no seu estilo muito préprio: “o Passad ceserenia ele, “8 wna reconstitugdo das sociedades e dos seres humanos de ‘ourrora por homens © para homens engajados na trama das sociedades ‘humanas de hoje". Que este lugar tmpera ao historiador a pretensdo de falar em nome do Homem, Febyre no o teria admitido, porque ele acredé- ‘tava estar a obra histOrica isenta da lei que a submete d logica de wn lugar de producdo, e ndio apenas é “mentalidade" de uma época num “progres 50” de tempo™. Mas sabia, como todo historiador, que eserever & encon- ‘rar a morte que habita este lugar, manifesti-la por uma representagio das relagdes do presente com seu outro, ¢ combatéla através do trabalho de dominar intelectualmente a articulagdo de um querer particular com forcas atuais. Por todos estes aspectos, a historiografia envolve as condi des de possibilidade de uma produgdo, ¢ 60 préprio astunto sobre o qual do cessa de discorrer. A produgdo efou a arqueologia, ‘Na verdade « produto é seu prinefpio de explicagdo quase universal, Fi que a pesquisa historiadora se apossa de todo documento como sintoma daquilo que 0 produciu. A bem dizer, no tio ici! “apreender do proprio produto a ser decifrado ¢ ler 0 encadeamento dos atos produtores® ‘Num primeiro nivel de analise, pode-se dizer que a produedo nomeia wma questo surgida no Ocidente com a pritica mitica da escrita. Até entdo @ Historia se desenvolve introduzindo sempre uma clivagem entre a matéria (os fatos, a simplex historia) ¢ 0 omamentum (a apresentagio, a encena- (0, 0 comentirio/*, Fla pretende reencontrar urna veracidade dos fatos sob « proliferagio das “lendas”, e, assim, instaurar um discurso de acordo com a “ondem natural” des cotss, ali onde protiferayam as misturas da ftusdo ¢ do verdadeiro®. O problema ndo mats se coloea da mesma mane- fw partir tio momento em que 0 "fato” detxa de furcionar como 0 “sg- tno’ de wma'verdade, quando a “verdade” muda de estatuto, deixa pouco 18 poco de ser aquilo que se manifesta para tomuar-se aquilo que se produ, acquire deste modo uma forma “escrtuniria”. A idéia de "producio’ Inunspoe a concepedo antiga de uma “eausatidade” e distingue dois tipos de problemas: por um lado, o remetimento do “fato” aquilo que o tomou [ossivel: por outro lado, uma coeréneia ou wm "‘encadeamento” entre os Jendimenos constatados. A primeira questdo se traduc em termos de géne- 46 privlegia indefinidamente aiuilo que esté “antes”; a segunda se expr ‘me sob forma de séres, cuja consttuigdo provoce, no historiador, 0 sof: Imonto quase obsessino de preevicher as lacunas e substitu, mais ow menos Imectaforicamente, a estrutura. Os dois elementos, freqiventemente rediz- dos « nio serem sendo uma filiagdo ¢ uma ordem, se conjugam no “quase ‘pnceito” de temporalidade. £ verdade que, sob este aspecto, “é apenas Ino momento ema que se dispusesse de um conceito especifico ¢ plenamen- 1 elaborado de temporalidace que se poderiaabordar o problema da his- Horia*". Enquanto iso. a temporalidade serve para designar a necessiria ‘onjugecdo dos dois problemas, e para expor ou representar, um mesmo femipo, as maneiras peas quais ¢ historador sausfaz a dupla demanda de dizer 0 que existe antes e colocar fatos onde estao lacunas. Ela fornece a ‘moldura vazia de uma sucessdo linear que responde formaimente inter rogigdo sobre o inicio e d exigencia de uma ordem. Ela é, entdo, menos 0 Fesultado da pesquisa do que a sua condigio: a trama colocada a priori pelos dois fos através dos quais 0 tecido histarieo eresce pela simples ago de taper os buracos. Impossbilitado de transformar em objeto de estudo aquily que & 0 seu postulado, 0 historiador “substitu ao contecimento do tempo o saber do que esti no tempo™” este ponto de vista «historiografia seria apenas um diseurso fils fico que se desconhece a si mesmo; ocultaria as temvels interrogates que 23 raz em si, substituindo-as pelo trabalho indefinido de fazer “como se” as respondesse. Na. verdade, este recaleado ndo deixa de retomar no seu trabalho, € podemos reconhectlo entre outros sinais, naquilo que ai inserever a referéncia « uma “produedo” ejow 0 questionamento cotoea do sob 0 signo de wma “arqueologia’ A Sim de que, atrarés da produeio, nao se contente apenas em no- ‘mear uma relaydo necessiria, porém desconlecid, entre os termos conke- cidos, quer dizer, de designar aquilo que suporta 0 diseurso historic, mas ‘do constitu o objeto da anilise, é necessirio reintroduzr o que Marx lent ‘brava nas “Teses sobre Feuerbach”, a saber que “o objeto, a relidade, 0 ‘muon senstvet” devem ser apropriados “enquanto atvidade humana con ereta”, “enquanto.privica®". Retomo ao fundamental: “Para viver & necesdirio, antes de tudo, beber, comer, morar, vestirse e ainda algumas outras coisas. 0 primeiro fato historico (die erste Geschichiliche Tat) é, ‘pois, @ produedo (die Erzeugung) dos meios que permiteetsatsfazer estas rnecessdades, # producao (ie Produktion) da propria vide material, ¢ isto mesmo é um fato historico (Geschichtliche Tat), uma condigao funda ‘mental (Grundbedingung) de toda a historia, que se deve, hoje como hi imilhares de anos, preeneher dia apés dia..." A partir desta bas, a prod to se diversfice segundo estas necessidades sejam ou ndo satisfeitas faci mente, 6 de acordo com as condigSes nas quais seam satisfeitas. Sempre existe produgdo, mas "a produgso em geral & uma abstragto": “Quando, pois, falamos de producao, trata-se sempre da producio num estado deter- ‘minado da evolucio social — da producto de individuos vivendo emt socie- dade... Por exemplo, nenhuma producdo 6 possivel sem wm instrumento de prodtcdo..; nenkuma, semi trabalho passado, acumulado... A produgdo € sempre wm ramo particular da producto”. Enfim, “é sempre um corpo social determinado, um sujcito social, que exerce sua atividade num con: Junto mais ow menos grande, mais ou menos rico de esferas da produ edo" "" Assim, a anilise retoma ds necessdaes, ds organizagdes técnicas, aos lugares ¢ dx instituides sociais onde, como diz Marx a propésito do Jabricamte de pianos, "0 & produto 0 trabalho que produ capital” " Ew me detenko nesses textos clisscos, ¢ 05 repito, porque tornain precisa a interrogacio que encontrei, partinto da historia dita das "idéias” ou das “mentaidades”: a relacdo que pode estabelecerse entre Ingares determinados e discursas que neles se produzem. Parecewme possive! sranspor aqui 0 que Mare chuma de “0 trabalho produtivo no sentido ‘9 trabalho mio & produtive a menos que prod eapital™, Sem divida o discurso 6 wna forma econdmico do terme seu contri”, quer 4 “eaptal”investido nos simbolo, transmissivel,susceptvel de ser des- ,acrescido ou perdido, & claro que este perspectiva também vale 0 trabalho do hstoriador que a uri como instrumento e que @ rufa, neste sentido, ainda depende daquilo que deve tratar: a elapdo entre urn gat, wm trabalho e este “aumento de capital” que pode er 0 discursa. 0 fato de que em Marx o discurs exteja na categoria daqui- “fp que erao “trabalho improdutivo” no impede encarar a possibildade de _Irtar neste termos a questdespropostas éhistoriografae por el, Ito jf &, talver, dar um contetido particular a esta “arqueologia”, “que Michel Foucault envolveu com renovado prestigio. De wn lado, nas. “tio historiador, na historia religiow, determinado pelo dialeto daquela “pecilidade, eu me interrogara sobre o papel que poderiam ter tido, na formnizapéo da sociedade "escrituiria” moderna, as producdes e as ins tudes religioss das quis romou o luge, transformando-as. A arqueolo- “it foi pora mim o modo através do qual tentel paticularizar retorno de lum “reprimido”, um sistema de Esertas do qual a modemidade fez um iusente, sem poder, entretanto, eliminilo, Esta “andise” permitia, ao “mesmo tempo, reconhecer no trabalho presente um “trabalho passado, \oumulado” e ainda determinante. Sob essa forma, que fazia aparecer, wo ‘stema das pitica, continuidades e distorpdes, eu procedia também & Ininha pripria andle. Esta ndo tem interes autobiogifico, porém, ‘estaurando sob outra forma a relacdo de produgao que wm bugor mantém om um produto, evourme a um exame da prépria hstoriografia Bnerada do sueito no seu texto: néo com a maravdhosa lbeniade que permite @ Martin Duverman fazerse, no seu discurso, de interlocutor dos seus per Sonagens ausentes e de contarse, contando-os™, mas @ manera de wma Arcuna intransponivel que, no texto, mraz & luz wma falta e faz andar 1 ‘crever, sempre, ecada vez mais, Esta lacuna, que assinala 0 lugar no texto e questions o lugar pelo texto, remete, fnalmente, dquilo que a orqueotogia designa sem o poder dizer: retigdo do logos com uma asché, “principio” ou “comego” que é feu outro. Este outro, sobre o qual se apbia e que a toma postive, a hsto- riografia sempre pode coloailo “antes”, levclo cada vez mais para tis, ‘01 ainda, designéslo através daquilo que, do real, autoriza arepresentapto, ‘mas ndo ihe éidéntico, A arché ndo € nada daquilo que pode ter dito. la 46 se insimua no texto pelo trabalho da divisdo ow com a evocagdo da mor te 0 historiador também 56 pode escrever coniugando, nesta pritica, © “ouiro” que 0 faz caminhar €0 real que ele ndo representa endo por 25 {feedes, Ele é historidgrafo. Endividado pela experiéncia que tenho disto, ‘gostaria de homenagear esta escrta da historia. NOTAS “Jules Michelet, "L'Héroiame de Fesprit" (1869, projet indo de Prete io Histoire de Frence), in L’Are, n° 52,1973, 0.7, Se & 71 Michelet, Prfece d PMstore de France, ed. Moraté, A. Coin, 1962, pits. ©. Mitelet, “L. + Chinf, p. 299. J. Michelet, “L?Héroisme de Pespit”, op tsp. 8. * Gitado por Roland Barthes, “Aujourd’ hul Michelet”, in L'Arc, op. cit. p26. 7 J. Michelet, “L'éroisme de Vest”, op its p. 12-13 * Ajphonse Dupront, “Langage et histoire", in XI® Conerésintemational des selenceshitorques, Moseou, 1970. Ch paticularmente Michel Foucault, Naigsnce do ly clinique, P. U. F 1963, p. VoXV. Louis Dumont, La Citation indienne et mous, A. Colin, Cahiers des Annales, 1964, p. 31-S4:"Le problime de histoie "Cf Abin Deliv, Interpréation dune tradition orale. Histoire des rots imerine, Pus, tese da Sorbonne, mimeogafado, 1967, prncipalmente a 2 parte, 143-227: "Structuse dela ponsieancienne et sens de histoire”. 1 acerca dest itimo pomto, ef. Stanislas Adotev, Néritude ex négrolopues, coll 10/18, 1972, p 1484153, + Cf, paranfo citar senfo wm eato, Dieter Gembick, “Jacob-Nicolas Moreau ot son Mémolre sur les fonctions d'un historiographe de France” (17781719) ia ‘Dix hutidme sécte, n° 4, 1972, p. 191-215. A rela entre uma literatura eum “se vigo do Estado” permanecers central da histriogata do soul XIX e da primeira mmetade do seule XX. “De fato, énoeesirio i mais longe, a Commynes (1447-1511), aos cronstas Aorentinos,enfim 3 leata wansformaedo da historia que produzicam, em fins da I ‘de Média, a emancipagdo das cidade, suetos de poder, ¢ a autonomia dos juss, ‘enloos, pensadorese servidores deste pour. "Ch Claude Lefort, Le Travail de Poeuwre Machisvel, Gallinaed, 1972, 447-049, Ct Ibid, p. 486 ime de esprit, op. ct, . 8 26 ta futiidade adguie sentido, em ditima insinci, na lage do histo soto com a Fortuna: nimero infinito das relagdes eds interdependéncias lita a0 homem a hipétese de controlar ou mesmo de inuenciar ot aconte 3% CE. Felix Gilbert, Machiavelli and Guleelardind, Princeton, Princeton Uni- y Pres, 1973, p.236-270:" Between History and Politi” Cf. Claude Lert, op. et, p. 453-466. " Bugéne Marbeau, Le Otarme de Phistove, Picard, 1902. © Ch. pi ex. as observagies de JearYves Cuiomas, L'dotope nationele, libre, 1974, p17 € 45-65, © Lucien Febvre, Pretcio a Charks Moraxé, Trois essais sur Mistoie et Cut. A. Colin, Cahiers des Annales, 1948, p vi, * Ch infra, p. 67-68. 4 Joan T. Desnt, Ler Idéalités mathémariques, Soul, 1968, p 8. % Ch. p. ex. Félix Thislemann, Der Nétoriche Dighurt bei Gregor von Topol und Wirlichketr, Prancort/M, Peter Lang, 1974, p. 36-72, No século XV, Rod. Agricola esreveu: “Historte, caus prime aus est sf, narralistantum ordo convenit, nes fgments ists suri gratia capt, purdat" (De inventione diletia tri tres cur scholis Ioannis Matthaet Pheer, Pais, spud Simonem Colinaeur, 1529, I, VI, . 387), Ogxifo meu. Notese também © fundimento deste sistema hstoriogéfco: 0 texto spe fa verdade & crit que, por eonseguinte,apresenaro verdadeio,& fazer acted froduzs uma fides no lito. % Jean Desant, Ler Idéaités mathematiqus, op it. 9.29, © Girard Maine, Le Discours et Vhistorique. Essel sur le représentation “Witorerne du temps, Marne, 1978, p. 168 % Karl Macy, Theses sur Feverbech, Ths I et, tar a esse respeit, a8 "Gloss marginals au Programme ou Pari ouvir allemand” (61), in Ke Matn ¢ V, Engels, Critique des programmer de Gotha et dErfurt, Ed. Socials, 1972, p22. ™ K, ManeP. Engels, LYddologie allemende, £4. Sociales, 1968, p. $7, € K. Marx, Die Frutscrifen, eS. Landshus, Stuart, A. Kroner, TAS3, p. 354 % 1K. Marx, "Introduction générale i la efitique de économie politique” (1857), in Oeuires, Economie, Galland, Pade, 1965, p. 287. Af existe (9. 237- 254) 1 exposigéo mais desenvolvida de Mara sobre » produgio, juntamente com quel que consagra ao assunto em Le Capita, 1,38 section (iid 1, p. 710-732) nos Matériaux pur Economie iid, 1, p. 399-401), » K. Marx, “Principes dune critique de Economic oiitique”, in Oeuores, Pie, op. et, tp. 242 > ia > CE Martin Daberman, Black Mountain, Aw exploration in community, New York, Button, 1973. n Primeira Parte AS PRODUCOES DO LUGAR Capitulo 1 FAZER HISTORIA Problemas de método e problemas de sentido A historia religiosa ¢ 0 campo de umn confronto entre a historiografia larqueologia da qual parcialmente tomou o lugar. Secundariamente, per- analisar a relapGo que entrelaga a historia com a ideologia da qual de- ‘dar conta em termos de produezo. As duas questées se entreeruzam e Set consideradas em conjunto no setor estreitamente circunscrito “tratamento” da teologia por métodos proprios 4 historia, De imediato, hlstoriador considera a teologia como uma ideologiareligiosa que funcio. ‘hum conjunto mais vasto e supostamente explicativo. Pode ele reduzi-la ‘resultado desta operagdo? Sem duvida que nfo. Porém, como objeto de trabalho, a teologia se the apresenta sob duas formalidadesigualmente tas na historiografia; é um fato religioso; é um fato de doutrina, Exa- Ihinar, através deste caso particular, a maneira pela qual os historiadores ‘stam hoje destes dois tipos de fatos e particularizar quais 08 problemas ‘pistemolbgicos que se abrem assim € 0 propésito deste breve estudo. | A historia, uma pritica e um discurso. | _Bst anilise seri, evidentemente, determinada pela prética bastante Jocalizada da qual pude langar mo, quer dizer, pela localizagio do meu {rabalho ~ 0 mesmo tempo um periodo (a historia dita “moderna”, um ‘objeto (a historia relgiosa) e um lugar (a situagdo francesa). Este limite & apital. A evidenciagdo da particularidade deste lugar de onde filo, efetiva: jente prende-se ao assunto de que se vai tratar © a0 ponto de vista através 31 do qual me proponho examiné-lo. Trés “postulados” individualizam ou pelo menos & fungao particular que 6 a teologi; finalmente € outro. Eles devem ser francamente colocades como tais (mesmo que tar afloresta virgem da Histria, regio de “beumas” onde prolife: regam resultar com evidéncia da prtica historia atual)jé que ndo se Ideologias e se corre 0 rtco de jamais reencontrarse. Pode sr tam- objeto de uma demonstragso. Qe, atendo-se 20 discurso ea sua fabricagdo, se apreenda melhor a 1) Sublinhar a singulardade de cada aniliseé questiona a possi tas relagdes que ele mantém com o seu outro, 0 real. A lingua dade de uma sistematizagao totalizante, e considerar como essencial a ‘nfo tem ela como regra implicar, embora colocandea como outra problema a necessidade de uma discussio proporcionada a uma plurati jo ela mesma, a realidade da qual fala? de procedimentos cientificos, de fung¥es socaise de convicgoes fun Partindo asim, de prévcase discursoshistoriogtficos eu me propo: ‘mentals. Por af se encontra,jé esbogada, a fungso dos discursos que poder leonsiderar sucessivamente as questdes seguintes: esclarecer a questo, e que se inscrevem, eles prOprios em seguimento a ot 1) 0 tratamento dado pela historiografia contemporénea a ideologia 40 lado de muitos outros: enquantofalam de hisra, eso sempre ita: |, Obriga a0 reeonhecimento da ideologia jf investda na propa his los ra hist ; 2) Estes dscurtos nfo sfo corpot flutuantes em um englobante que __ 2) Existe uma historicidade da histria. Ela implica no movimento se chamaria a historia (0 “contexto”!). Sao histéricos porque ligados a’ liga uma prétice interpretativa a uma pratica social. ‘operagoese definidos por funcionamentos. Também nso se pode compre: 3) A historia oscila,entfo, entre dois pOlos. Por um lado remete @ ender 0 que dizem independentemente da prétca de que resultam, De max Pitica, logo, a uma realidade, por outro é um discurso fechado, 0 neras diferentes af existe uma boa definigto de historiografiacontempord- que organiza ¢ encerra um modo de inteligiblidade nea (mas também da teologia — inclusive e particularmente a mais tradicio- 4) Sem davida a historia é © nosso mito. Ela combina o “pensive!” nal"), De qualquer maneira uma © outta terfo apreendidas nesta articuls forigem, de acordo com o modo através do qual uma sociedade se com- ‘fo entre um “conteddo” e uma operagto. Além do que esta perspectiva nde. cantteriza, hoje, 08 procedimentos cientificos, por exemplo, aquele que, ‘em fungio de “modelos”, ou em termos de “regularidades”, explica os fe- némencs ou documentos, tomando manifesta iegras de produgto © pos 1. UMINDICIO: 0 TRATAMENTO DA siblidades de transformasdo®. Porém, mais simplesment, é leva a sério IDEOLOGIA RELIGIOSA EM HISTORIA cexpressdes carregadas de sentido ~ “Tazer histria”, “fazer teologla” ~ «quando se é mais propriamentelevado a suprimiro verbo (0 ato produtor) A telagfo entre historia e teok a, inicialmente, € um problema in- Ss dahistoria. Qual éo significado histrico de uma doutrina no para privlegar © complemento (objeto produzido) conjun- fy Pil Cetus yedeceiereeel Le orl Ca plica (had PA 10 de um tempo? Sepundo quascrtéios eompreendé la? Como expliéla na”), 0 seu resultado (0 discurso) ou @ relaggo de ambos sob a forma de fm fungo dos terms propostos pelo perfodo estudado? Questdes parti- ‘uma “produggo”®. Certamente, em seu uso corrente, o termo histéria co: @blarmente difteeis e controvertidas, quando ndo nos contentamos com nota, sucessvamente, a cic e seu objeto ~ a explicagdo que se diz ©a lima pura anise litera dos conteddos ou da sua organizagdo* e quando, or outro lado, recusamos a facilidade de considerar a ideologia apenas fomo um epifendmeno social, suprimindo-se a especificidade da afirmagao outringria® realidade daquilo que se pusiou ou se passa. Outros dominios no apresen tam a mesma ambighidade:o franeés nfo confunde numa mesma paavra a ica e a natureza. O prOprio termo “historia” jésugete uma particular prexinidade ene operagfo lenin ea relldade que ela nai, Mas Por exemplo, que relagso estabelever entre a espiritualidade ou a © primeiro destes aspectos seri nossa entrada no assunto, por diversas ra teologia jansenista ¢ as estruturas sécio-culturais ou 2 dinamica social da ‘2Bes: porque a espessura ¢ a extensifo do “real” ndo se designam, nem se época. Existe todo um leque de respostas. Assim, para Orcibal, o que se Ihes confere sentido senfo em um discurso; porque esta rstego no em ‘deve procurar 6 uma experincia radical em seu estado primeiro, no texto prego da palavra “histéria” indica seu correspondente (a ciéncia historia) mais primitivo. Porém, mesmo ai, ela se aliena nas imposig6es de uma lin- 2 33 uigem contemporinea; a historia de sua difusto sera, pois, a histria de uma degradagio progresiva. Mesmo remontando incessantemente 3s fon- tes mais primitivas, perscrutando nos sistemas hist6rios e lingisticos a experiéncia que escondem a0 se desenvolverem, o historiador nunca al concn a sua oFigem, mas apenas 0s estigis sueessivos da sua perda. Contra riamente, Goldmann Ié na doutrina jensenista 0 resultado e 0 signo da si- tuagfo econdmica na qual se encontra uma categoria social: perdendo seu poder, os magistrados se voltam para o céu da predestinagto e do Deus escondido,¢ fevelam, assim, a nova conjuntura politica que thes fecha 0 futuro; aqui a espirtualidade, sintoma daquilo, que nfo diz, remete 3 and- tise de uma mutagso econdmica e a uma Sociologia do fracasso®. Os trabalhos sobre Lutero apresentam a mesma diversidade de posi- 8es: ore referema doutrina &experiéncia de juventude que sera seu segre do inefavel e organizadoe (Strohl, Febvee, por exemplo); ora se inscrevem 10 continuum de uma tradigo intelectual (Grisar, Seeberg, etc.) ora véem nla 0 efeito de uma modifieagSo nas estruturas econdmicas (Engels, Stein mertz, Stern) ou a tomada de consciéncia de uma mutagf0 sécio-cultural (Carin, Moeller, ete), ou 0 resultado de um conflito entre o adolescente e 4 sociedade dos adultos (Erikson). Finalmente, farse do Luteranismo a emergéncia da inquietagao religiosa propria de um tempo (ef. Lotz, Delu- reau), © acabamento de uma promogdo dos “Ieigos” contra os ltigos (N. Z. Davis), um episdio insrito no prosseguimento das reformas evangelis- tas que balizam a historia da Igreja, ow a vaga criada no Ocidente pela fnrupefo de um acontecimento nico (Holl, Banton, Barth)? Pode-se en- contrar todas estas interpretagdes e muitas outta’. Esti claro que elas so tlativas&resposta que cada autor dé a ques- tues andlogas no presente. Ainda que isto seja uma redundancia & neces rio lembrar que uma leitura do passado, por mais controlada que se pela anilise dos documentos, & sempre drigida por uma letura do presente. Com efeito, tanto uma quanto a outra se organizam em fungzo de proble rmiticas impostas por uma situagfo. Blas fo conformadas por premissas, quer dizer, por “modelos” de interpetagdoligados a uma situagio presen te do cristanismo. 0 modelo “mistico” € 0 modelo “Folklorico”: uma esséncia escondida Globalmente, desde ha trés séculos, no que coneeme a Franga,ahisto- ria religiosa parece marcada por duas tendéncias: uma, origindria das cor- rentes espitituais, fixa o estudo na andlise das doutrinas; a outra, marcada 34 plas “Luzes”, coloca a religifo sob 0 signo das superstgnes. Em dima Andis, terfamos, I, verdades emergindo dos textos, e, aqui, “eros” ou un folklore abandonado na rota do progresso. Sem ir muito longe, pode-se dizer que durante 8 primeira metade do Séoulo XX, a relgifo ndo aproveitou nada das novas correntes que mobil daram os hstoriadores medievaistas ou “modernists”, por exemplo a ané- lise sScio-ceondmica de Emest Labrouste (1933-1941), Ela era muito mais 6 objeto que disputavam exegetasehistoradores das origens erst. Quan- do intervinha na Historia das Mentalidades de Lucien Febvre (1932-1942), fra como um indice de coeréncia prOprio de uma sociedade passads (e, fobretudo, superado graces ao progresso), numa perspectiva muito mar. ada pela etnologia das sociedades“primitivas” Paradoxaimente, dois nomes poderiam simbolizar o lugar mais ou me- ‘os explcitamente dado & anilise das erengas durante 0 entre Lucen Febre, Au coeur teligiewe du XVI siete, Sevpen, 1957, p. 146. ™ Em Becurais et fe Beauvais de 1600 1730, Seypen, 1960. > Bm Anclen Régime, t-1,A. Colin, 1969. % SM. Foucault, Les mot et les choses, Gallimard, 1966, chap. I-VI, % L. Comet, La Spirtualité modeme, Auber, 1966, ¢ 8 rsenha de Venard, a Rés d's. de Vl de France, $4, 1968, p. 101-103. % Cf, as notas de D. Jun, P. Levilain, D, Norman e A. Vauchez “Rétixt ‘ont sur Uhistoriogaphie frnqaise contemporaine”, em Recherches et Débats, 47, 1964 p. 7994, [A respeto do interest enolic ou folklrico do que a reli se tora 0 ‘objeto, e que expica ao mesmo fempo a natureza de uma nova “cuiosidade” ea re- rudescénca dos estudos sobre as ideologs (de agora em dante thas como inacred- ‘vis, mas simbélicas do um sontdo a decfrar), ef. M. de Cereau, La Culture ao pe ‘ie, call 10/18, 1974, p-11-34:"Les Révolutions du cropabl’ Aqui problema & 0 de saber que acontecimento ou que mutagfo sSco-po- ica toma posse, visto da hstoriografin do séeulo XX, uma ands, andiogs ‘ue R. Mousnier consagzou seus Sitios anos, dos historladores do séeulo XVII. Mas, sem divida,é necessirio inverter os termos da questo: um novo ofharcientific &, *! Cf, parieuarmente, i nova sie dos Annales ES.C (a partir de 1969), 08 The Journal of Incediscipinay History, 1970, MILT. Press (USA) Karl Marx, Das Kapital, Berlin, 1947, t1,p. 7 (primsto pretéclo) ef. OBu- res, Pidade, 1965, 1,p, $49. © Fol isto que Michel Foucault sublinbou fortemente, em particule ma Ar. chéotogie du savor, 1969, p.16-17. “+ Emmanuel Le Roy Ladure, Les Paysons de Languedoc, Sevpen, 1966, 1. 1. 71, 6, princpalmente, Pere Vilx, Le Catalogne dans Espagne modeme, Sevpen, 1962, 1, p. 11-38 + Mare Soriano, Les Contes de Perault. Culture sevante et traditions popula. res, Gatimard, 1968. “+ In Rene de Synthese, 09 3739, p. 329. Cf. também, estudos partcular- ‘mente importantes: “Lourdes: perspectives dune sociologie du sace™, em La Table Ronde, 125, maio, 1958, p. 7496; “Problames et méthodes une histoire de a psy- chologi collective", em Annales E.S.C, 16, 1961, p. 3-11; “Formes dela culture {des maser: de bs dolancepoltiqe au pelerinage panique (XVIIEXX sce)" em ‘Niveau de culture et groupes socleux, Mouton, 1968, p, 149-167, P. Vilar, La Catalogne... op. cit t.1,Prefico,p. 36:37. 0 contronto entre expresso cultural eestruturts econdmicas & particularmente rico (pelo préprio obje- to estudado) em "Le Tems du Quichote™ (Europe, jan. 1986, p. 3-16); "Les peimitifs apagnols de a pensée économique” (Mélenges M.Batailon, 1962, . 261-284); ou, ‘de um ponto de vista mais metodolgico, em "Marxisme et histoire, dans le dérelop [pment des sciences humaines” (Studi stove! 1,9, 1960, p. 1008-1083), M. Foucault, Fol er déraison. Histoire dela folie é Vige lasique, Pon, 1961 (nova edgio, Gallimard, 1972). 6 © Cf, a este respelto, as obsergGes aguas de Tncques Dexia, eritre et te aifference, Seu, 1967, p. 51-97 (Cogito et histoire de fo % M. Foucault, L'Archéolote du sovotr, op. ct, p. 29-101; “Les régurités Aicurive”. © Mid sp. 12617. © Roland Barthes, “Le Dscours de isto”, om Social Scence information, VI, 4 1967, p. 65.75... A compurar com, do mesmo autor, “L'effet de iI", em Communications 11, 1968, p. 4-90, ¢ “L'Ecrture de Pévinement”, em Communt- ‘lon, 12,1968, p. 108-113 R. Barthes, “Le dicouts de Phisoize”, op et. p65. % Bia.,p. 73:74 ‘Mid. p. 75. Na “aso referencia!” do ret, no “Yealismo",R. Barthes reve 1a um novo verostimil (0 efeito do real”, op. cit... 88). Este “eal” 6a conotagdo eum pensive 4 A 3. Greimas, Du sens. Esai smioriques, Suil, 1970, p. 111. todo ee te capitulo, “Histoee et structure”, p. 103-116, © Problema que nfo dela deter analogia com aqua de que teatavam a pi ‘metas filbsofiasdalinguagem, em fins da Idade Média, CF J-Chude Piguet, “La qve- tell des univerau ot le robléme contemporain du langage” na Revue de Taéologte 1 de Philosophie, 19,1969, 392-411 [Em “Lilisto et Iuité des sciences de Momime” (in Annales E..C, 23, 1 2, 1968, p. 233-240), Charles Morazé encara sob este aspect o papel centr ds hist; € porque a reagdo enue cincias Numanas se tidus eocoree ma hitra ue a "sincrtista”e que hoje parece fragmentada, através de mi adeso «dsciplinas cada vez mals divergent, Ap6s ter dito “o regime precedente” false, partir de novembre de 1789, do “andgo regime”. CF. Albert Soboul, La Cilicton et le Résoution Frangite, “Arthaud 1, 1970, p. 37, a8 reflexdes de Pierre Boubert, L Ancien Régime, A.Co- fin, 1-1, 1968, chap. © Barthes, “Le dicouts de isos”, op tt. . TL. to fil, deinando de lado exame,esbogadoalhures, dos problemas aber- tos pea intervene da pscandlise no campo da histéria. CF. “Aquilo que Fiead fer 4 stein”, nf Capitulo HL A OPERACAO HISTORIOGRAFICA* © que fabrica 0 historiador quando “faz histéria”? Para quem tra: balha? Que produz? Interrompendo sua deambulagHo erudita pelas salas dos arquivos, por um instante ele se desprende do estudo monumental que o classificard entre seus pares, c, saindo para a cua, ele se pergunta: O ‘que 6 esta profissdo? Eu me interrogo sobre a enigmética relagio que ‘mantenho com a sociedade presente e com a morte, através da mediagfo de atividades t6onicas. Certamente nfo existem consideragbes, por mais gerals que sejam, nem leituras, tanto quanto se possa estendé-las, capazes de suprimir a particularidade do lugar de onde falo ¢ do dominio em que realizo uma investigagio. Esta marca é indelével. No diseurso onde enceno a8 ques toes globais, ela terd a forma do idioriomo: meu patos representa minha relagZo com um lugar ‘Mas o gesto que liga as “idéias” aos lugares 6, precisamente, um ges- to de historiador, Compreender, para ele, € analisar em termos de produ: {980s localizaveis o material que cada método instaurow inicialmente segun- do seus métodos de pertinéncia’. Quando a historia? se toma, para 0 pritico, o proprio objeto de sua reflexso, pode ele inverter 0 processo de Uma pare dest estud foi publicado em I. Le Goff « P. Nora, Rate de P histoire, Galiard, 1974, 1p. 341, sob o titulo “L‘opération historique”. Ek fo, aqui, revista e cog, 65 compreensfo que refere um produto a um lugar? Ele seria neste caso, um fujfo; cederia a um alibi ideolbgico se, para estabelecer o estatuto do seu trabalho, recomesse a um altures filos6fico, 2 uma verdade formada ¢ recebida fora dos caminhos pelos quais, em histria, todo sistema de per: samento esti referido a “lugares” sociis, eeonémivos, culturas, ete. Se relhante dicotomia entre o que faze 0 que diria do que fs, serviria, ais, 4 ideologia reinante, protegendo-a da préticaefetiva. Ela também destina. ‘ia as expetiéncias do historiador a um sonambulismo te6rico. Mais que isto, em histéria como em qualquer outra coisa, uma prétia Sem teoria desemboca necessariamente, mais dia menos dia, no dogmatismo de “va- lores etemos” ou na apologia de um “intemporal”. A suspeita nao poder, pols, estendersea toda andlise tebrica Neste setor, Serge Moscoviei, Michel Foucault, Paul Veyne, ¢ ainda ‘outros, atestam um despertar epistemoldyico®, Este manifesta na Franga ‘uma urgéncia nova. Mas receptivel é apenas a teoria que articula uma pritica, a saber, a teoria que por um lado abce as prticas para 0 espago ‘de uma sociedad e, que, por outro lado, organiza os procedimentos pr6- prios de uma disciplina. Encarar a histria como uma operagio sera tentar, de mancira necesariamente limitada, compreendé-la como a relagio entre uum fagar (um reerutamento, um meio, uma profisso, etc), procedinentos de andliso (uma diseipina) ¢ « consteugZo de wm texto (un literatura). EB admitir que ela faz parte da “ealidade” da qual trata, ¢ qu esssa reali dade pode ser apropriada “enquanto atividade humana”, “enguanto pri- ticat™. Nesta perspectiva, gostaia de mostrar que a operagio histrica se refere & combinagéa de um hugor socal, de priticas “cientificas®” © de tama escrita, Esta anélise das premisas, das quais 0 diseurso nfo fal, permiticd dar contomos precisos as eis slenciosas que organizam 0 espago produzido como texto. A escrta historic se constzbi em fungdo de uma instituigdo cuja organizagso parece inverter: com efeito, obedece a regras proprias que exigem ser examinadas por elas mesmas 1, UM LUGAR SOCIAL Toda pesquisa historiogrfica se articula com um lugar de produgio sécioecondmico, politico e cultural. Implica um meio de elaboragio que 10 por detertminagGes prSprias: uma profilo liberal, um posto de observagdo ou de ensino, uina categoria de lettados, ete. Els esti pois, submetida a imposigdss, ligada a prvilgios, enraizada em uma particula: 66 ridade, B em funglo deste lugar que se instauram os métodos, que se elineia uma topografia de interesses, que os documentos e as questoes, {que thes sero propostas, se organizam, 1. Ondo-dito. 4 quarenta anos, uma primeira erftiea do “eientificismo” desven- dow na histéria “objetiva” a sua relago com um lugar, © do sujet. Ana- lisando uma *issolugdo do objeto” (R. Aron), tirou da historia © privi- légio do qual se vangloriava, quando pretendia reconstituir a “verdade” aquilo que havia acontecido, A historia “objetiva”, aliis, perpetuava ‘com ess idéia de uma ‘verdade"” um modelo tirado da filosofia de ontem ‘ou da teologia de ante-ontem; contentava-se com traduzi-la em terms de “fatos™ hist6ricos... Os bons tempos desse positivismo estio definitiva- mente acabacos. Desde entio velo o tempo da desconfianga. Mostrou-se que toda in- terpretagio histérica depende de um sistema de referéncia; que este sis- tema permanece uma “filosofia” implicita particular; que infiltrandose ro trabalho de andliso, organizando-o a sua revel, remete A “subjetividade”” do autor. Vulgarizando os temas do “historicismo” alemo, Raymond ‘Aron ensinou a loda uma geragio a arte de apontar as “decisées filoso- ficas” em fungio das quais se organizam os recortes de um material, os céiligos do seu deciftamento e 2 ordem da exposigdo®. Essa “critica” representava um esforgo te6rico. Marcava uma etapa importante com relagdo 4 uma situagfo francesa, onde prevaleciam 2s pesquisas positivas f teinava o ceticismo acerca das “tipologias” alemds. Exumava a premissa © 6 inconfessivel flos6ficos da historiografia do séeulo XIX. Ja remetia 44 uma circulagio de conceitos, quer dizer, 20s deslocamentos que no corer deste século tinham transportado as categoria filoséficas para 0 Ssubsolo da histéria, como também para o da exegese ou da sociologia. ‘Agora, sabemos & ligfo na ponta da Lingua. Os “fatos hist6ricos” fi slo constituidos pela introdugTo de-um sentido na “objetividade”. les enunciam, ns linguagem da anilise, “escolhas que thes so anteriores, {que nfo resulta, pois, da observagdo — © que ndo sio nem mesmo “verifi- ciyeis”, mas apenas “fas * gragas a um exame critico?. A “rela tividade histrica” comps uum quadro onde, sobre o fundo de uma lotalidade da histétia, se destaca’ uma multiplicidade de fllosofias indivi ‘duais, as dos pensadores que se vestem de historiadores, 67 0 retomo as “decisbes” pessoais se efetuava baseado em dois post: lados, Por um lado, isolando um elemento filosofico do texto historio srifico supunha-se uma autonomia para a ideologia: era a condigo de sua textragdo, Uma ordem das idélas era posta a parte da pritica historica. Por cutto lado (mas as duas operagoes caminham juntas), sublinhando as di- vergéncias entre os “fil6sofos”, descobertos sob suas vestes de historia- dores, referindo-se ao insondivel de suas ricas intuighes, faziase destes pensadores um grupo tolivel de sua sociedade, « pretexto de sua relagio diteta com 0 pensamento, O recurso as opges pessoals provocava curto- cireuito no papel exercido, sobre as idéias, pelas localizagOes.sociais © plural dostas subjetividades filos6ficas tinha, desde entdo, como efeito disereto, conservar uma posigo singular para os intelectuais, Sendo as {questOes de sentido tratadas entre eles, a explicitasio de suas diferengas de pensamento equivalia a gratifcar o grupo inteiro com uma relagdo pri- vilegiada com as idéias. Nada dos rufdos de uma fabricagdo, de técnicas, de imposigbes socials, de posigdes profissionais ou politicas perturbava a paz desta relagdo: um silencio era o postulado desta epistemologia. R. Aron estabeleceu um estatuto reseriado tanto para o reinado das idéias quanto para © reino dos intelectuais. A “ielatividade” nao funcio- ava sendo no interior de um campo fechado. Longe de coloci-lo em ques ‘Wo, de fato, ela 0 defendia. Apoiadas na distingZo entre o sibio eo politico, tum dos elos mais discutivels da teoria de Weber*, estas teses demoliam uuma pretensfo do saber, mas reforgavam o poder “isento” dos sibios. Um lugar foi posto fora de alcance no momento em que se mostrou a frag: dade daquilo que se produzia nele. O privilégio negado as obras control vis foi transferido para um grupo incontrolivel Os trabalhos mais notaveis parecem, ainda hoje, deslizarse difici ‘mente da posigao vigorosa que R. Aron tomou, substituindo o priviléxio silencioso de um lugar por aquele outro, triunfante e discutivel, de um produto. Ainda que Miche! Foucault negue toda referencia & subjetividade fou ao “pensamento” de um autor, supunha ainda, nos seus primeiros li vros"®, a autonomia do hugar tebrico onde se desenvolvem, no seu “rela 10” as leis segundo as quais discursos cientificos se formam e se combinsm fem sistemas globais. A Arqueologia do Saber (1969), sob este ponto de vista, marca uma ruptura, intioduzindo a0 mesmo tempo as téenicas de uma disciplina ¢ os confitos sociais no exame de uma estrutura epistemo- logica, a da histéria (e isto no é por acaso). Ds mesma forma, quando Paul Veyne termina de destruir na historia 0 que a passagem de R. Aron 68 sinda the havia deixado de “ciéncia causal”, quando, nele a fragmentagao ds sistemas interpretativos em uma poeira de percepgbes e de decisdes pessoais nfo deixa mais subsistir, como fato de coeréncia, senfo as regras {de um género literati, € como fato de referéncia, senfo 0 prazer do his- toriador!, bem parece permanecer intacto © pressuposto que, desde as teses de 1938, negava implicitamente toda pertinéncia epistemol6giea 10 cexime da fungao social exereida pela historia, pelo grupo dos historiado- res (e mais genericamente, pelos intelectuas), pelas prticas © pelas leis «este grupo, por sua intervengdo no jogo das forgas pablica, etc. 2.A instituiedo historiea. Este lugar dsinado em branco ou escondido pela andise que exor bitou a relagso de um sueito individual com seu objeto, 6 uma institigdo do saber. la marea a origem das “eiéncias” modemas, como demonstram no século XVIL as “assembiéias” de eruditos (em Saint-Germain dés Pris, por exemplo), as redes de correspondéncia e de viagem formadss, entio, por um meio d "ol mais claramente, no século XVIII, 0s Circulos sibios e as Academias com as quais Leibniz tanto se preocupa- va", Os nascimentos de “disciplines” esto ligados a criagdo de grupos. esta relagdo entre uma insttuigio social ea definigdo de um saber, ‘© contorno aparece, desde Bacon ou Descartes, com aquilo que se chamou de “despolitizagao" dos sabios. E necessrio nao entender isto como um enilio fora da sociedade"*, mas como a fundagio de “corps”, 0 dos “en- senheitos”, dos intelectuais pobres. aposentados, etc. no momento em (que as universidades se esclerosavam 40 se fecharem. Instituigoes-"poli- ticas", eruditas e “eclesisticas” se especiaizaam reciprocamente. Nao se trata, pois, de uma auséncia, mas de um lugar particular numa redistsibui- 40 do espago social. A maneira de uma retirada relativa dos “assuntos piblicos” e dos “assuntos religiosos” (que se organizam também em cor- os particulares), constituise um lugar “ciemtifico”. A ruptura que torn possivel a unidade socal, chamada a se transformar na “eiéncia”, indica luma reclasifieagfo global, em curs. Este corte mostra, pois, através da sua faee externa um lugar artculado sobre outros num conjunto novo, & através da sua face intema,a instauragdo de um saber indissocidve de uma instivuigto social ‘A partir dai, este moxielo origindrio se encontra por toda parte. Ele demultiplea sob a forma de subgrupos ou escolas. Daf a per tambi 6 sistencia do gesto que circunsereve uma “doutrina” gragas a um “asento institucional'*”. A instituigdo social (uma sociedade de estudos de.) per Imanece a condigdo de uma linguagem cientifica (a revista ou.© Boletim, ontinuagdo © equivalente das eortespondéncias de antigamente). Desde 05 “Observateurs de homme” do século XVII, até a ctiagio da VIE section de Ecole pratique des hautes études, pola Ecole des Annales (1947), passando pelas faculdades do'séeulo XIX, cada “discipina” man- tém sua ambivalencia de ser a lei de um grupo € a lei de uma pesquisa sientifica, A insttuigdo ndo di apenas uma estabilidade social a uma ““doutri- ns". Ela a tora possivel e, sub-repticiamente, a determina. Nao que uma seit a causa da outra, Nao seria suficiente contentarse com a inversso dos termos (a infra-estritura tomando-se a “eausa” das idéias), sypondo en €las 0 tipo de relagio que estabeleceu © pensamento liberal quando encar- regou as doutrinas de conduzirem a historia pola mao E, antes, ncessirio recusar 0 isolamento destestermose, portanto, a posibilidade de transfor ‘mar uma correlago numa relagio de causa e efito E um mesino movimento que organiza a sociedade eas “idéias” que nela circulam, Ele se distribui em regimes de manifestagdes (econdmica, social, cientfica, ete.) que constituem, entre eles, fungSes imbricadss, porém, diferenciadas, das quais nenhuma ¢ realidade ou a causa das ‘outras. Desta maneira 0s sistemas s6cioecondmicos e of sistemas de sim bolizagio se_combinam sem se identficar nem se hierarquizar. Uma rmudanga social é, deste ponto de vista, comparivel a uma modifieaglo biolégica do corpo humano: constitu, como ela, uma linguagem, mas ade ‘quada a outros tipos de linguagem (verbal, por exemplo). 0 isolamen to “médica” do compo resulta de um corte interpretativo que nao da conta das passagens da somatizagio a simbolizagio. Inversamente, wm discus0 ileolésico se ajusta a uma ordem social, da mesma forma como cada fenunciado individual se produz em tungio das silenciosas organizagbes do corpo. Que o discurso como tal, obedega a regras propras, isto nfo 0 im pede de atticularse com aquilo que no diz ~ cam eoxpo, que fala a sua maneira!®, Em historia, 6 abstrata toda “doutrina” que recalea sua a sociedade. Ela nega aquilo em fungdo de que se elabora. Sole, entdo, 0s efeitos de distorglo devidos a eliminagao daquilo que a situa de fato, sem que ela 0 diga ou 0 suiba: 0 poder que tem sua légica;o lugar que sus- tenia e “mantém” uma diseiplina no seu desdobramento em obras suces: sivas, ete, O discurso “ientifico” que ngo fale de sua elagto com 0 corpo 0 social 6, precsamente, 0 objeto da historia. NEo se podera tratar dla sem questionar proprio diseurso historiogtfico. Em seu “Rapport général” de 1965 sobre a historiografia francesa J. Glénisson evocou algumas das articulagbes discretas entre um szber ¢ um igor: 0 enguadramento das pesquisas por alguns doutores que alean- ‘garam os postos superiores do professorado e que “decidem carteias ‘universtiias!?"; a imposigdo exereida pelo tabu social da tese monw- ‘mental; 0 lago entre a frig influéncia da teoria marxistae 0 recruta ‘mento social do “pessoal erudito, possuidor de edtedras e de presidén cias!?"; 08 efeitos de uma insituigfo fortemente hierarquizada¢ central zada sobre a evolugdo cintifica da historia, que & de uma notavel “tran- lilidade” hi trés quartos de século™. £ também necessrio sublinhar 0s inteesses, exclusivamente nacionais, de uma historiogeafia voltada para as ‘querelas intexnas(Iutase contra Seignobos ou a favor de Febvre),circuns crita pelo chauvinismo lingbistico da cultura francese, privilegiando as expedigdes as regides mais proximas da referéncia latina (0 mundo medic terrinico, a Espanha, a Ila ou a América Latina), limitada, além disso, ‘nos seus melas financeitos, ete Entre muitos outros, estes tragos remetem 0 “estatuto de uma cigae cia” a uma situagso social que & 0 seu ndordito. E, pois, impossivel analisr 6 discutso histérica independentemente da insttuigdo em fungao do qual cle se organiza silenciosamente; ou sonhar com uma renovagto da dist pina, astegurada pela unica © exclusiva modificaseo de seus conceit, sem que interven uma transformagio das situagBes assentadas. Sob este aspecto, como indicam as pesquisas de Jirgen Habermas, uma “repolit ‘agi das eiéncias humanas se impée: nfo se poderia dar conta dela ou permitirthe progresso sem uma “teora eritica” de sua situagao atual na sociedade™ ‘A.questfo que a sociologia critica de Habermas aponta jf esté, alii, Uelineada no discurso historic. Sem esperar as dentineias do te6rieo @ toxto astume, cle proprio, sua relagio com a insttuigSo. Por exemplo, © nds do autor remete a uma comvengao (dirse-ia em semiética, que ele remete a una “Yerossmil enunciativo"). No texto ele &a encenagao de um contrato social “entre nds”. & um sujpto plural que "sustenta” 0 dscurso, Um ‘n6s" se apropria da linguagem pelo fato de ali ser posto como locu tor, Por aise vrifca a prioridade do discuso historico® em cada obra historiografiea particular. A mediagio deste “n6s elimina a altemativa {que atribuisia a histéria ow a um individuo (o autor, sua filesofia pessoal, ce.) 04 a um sujelto global (0 tempo, a sociedade, ete). Substitui a estas 1 pretenses subjetivas ou a estas generaidades edificantes a postvidade de um lugar onde o discurso se articula sem, entetanto, eduitse a el. ‘Ao “ns” do autor cortesponde aquele des verdadsirs leitores. 0 piiblico nfo é 0 verdadeito destinatirio do livro de historia, mesmo que seja 0 seu suporte finaneciro e mora. Como o aluno de outrorafalava a classe tendo por deteis dele seu mesic, uma obra é menos cotade por seus compradores do que por seus “pares” ¢ seus “colegas”, que a apre- clam segundo critéios eientificos diferentes daqueles do pablico e decis os para o autor, desde que cle pretenda fazer uma obra historiogtica Enistem as leis do meio, Els circunserevem possbilidades ewio conteduo varia, mas cujas imposigdes permanecem as mesma. Flas organizam wma “policia” do trabalho. Nao “recebido” pelo grupo, olivo carina ctepo- sa de “wlgarizagio” que, consderada com maior ou menor simpatia, no poderia definir um estudo como “historiogritico”. SerIhesinecesstio 0 ser “acreditado” para aeeder & enuneiagio historiogrifica. "0 estatuto dos individuos que tem ~ e somente eles ~ 0 direito regulamentar ou tadicio nal, juridicamente definido ou espontaneamente aceito, de proferi um dis curso semethante™” depende de uma “agregigdo” que classifica 0 “eu” do eseritor no “nds” de um trabalho eoletiva, ou que habilta um locutor 3 falar 0 discuso historiogtfico, Este discurso — ¢ 0 grupo que o produz ~ {faz 0 historiador, mesmo que 2 ideologia atomista de uma profsséo “liberal” mantenha a fiegZ0 do suet autor e dexe acreditar que a pes ‘quis individual const6iahistéra Mais genericemente um texto hstérico (quer dizer, uma nova inter pretagio, oexercicio de métodos novos, a elaboragio de outras petinén las, um deslocamento da definigfo e do uso do documento, um modo de “organizagio caracteristic, ete.) enuneia uma operagio que se situa num conjunto de priticas. Este aspecto é 0 primeizo.F 0 essencil numa pesqui +3 cientifca. Um estudo particular sera definido pela relagZo que mantéin com @utras, contemporineas, com um “estado da questo", com as pro blemiticasexploradas pelo grupo e os pontosestratégeos que constituem com os postos avangados e 0s vazios determinados como tais ou tomados pertinentes com relagdo ¢ ume pesquisa em andzmento. Cada resultado in dividual se insoeve muma rede eujos elementos dependem estritamente ‘uns dos outros, ¢cuja combinagSo dindmica forms a histéria num momen wodado. Finalmente, o que & uma “obra de valor" em hist6ra? Aguela que € reconhecida como tal pelos pares. Aquela que pode ser situada num conjunto operasGrio. Aquela que representa um progresso com selagéo a0 n estatuto atual dos “objetos" & dos métodos histricos e, que, igada 30 meio no qual se elabora, toma possiveis, por sua vez, novas pesquisas. O Livro ou @ artigo de historia €, 20 mesmo tempo, umn resultado © um sine {oma do grupo que funciona como um laboratério. Como o vefeulo sailo de uma Fabrica, 0 estudohistricoesté muito mais lgado a0 comple- x0 de uma fabricagdo espectfica e coletiva do que a0 estatuto de efeito de uma flosofia pessoal ou & ressurgéncia de uma “ealidade” pasteda. E o produto den hugar. 3. Of historiadores na sociedade, Segundo ums concepedo bastante tradicional na intelligentsia fran- cesa, desde 0 eltsmo do séeulo XVII, convencionowse que nfo se intro- dluité na teoria © que se faz na pritica, Assim, falarse-d de “métodos” ras sem 0 impudor de evoear seu valor de iniciagao au grupo (6 pre- cso aprender on praticar os “bons” métodos para ser introduzide no grupo), ou sua relafo com uma fore social (os métodos sfo meiosgragas 105 quas se protege, se diferencia ese manifesta © poder de um eorpo de resizes ¢ de letrados). Estes “métodos” esbogam um comportamento institucional e as leis de um meio. Nem por isso diam de ser cientifios. Supor uma antinomia entre uma andlise social da cignci ¢ sua interpreta. «Ho em termos de histria dss idéias, 6 2 falsidade daqueles que aereditam Que a cigncia € “autdnoma” e que, a titulo desta dicotomia, consideram ‘como no pertinente a anélise de determinages socias, e como estranhas Cu acessbras as imposigdes qu ela desvend. Estas imposig6es no so acidentas. Blas fazem parte da pesquisn Longe de representar a ineonfessvelintromisao de um estranho no Santo dos santos da vida intelectual, constituem s textura dos procedimentos cientificos, Cada Yez mais o trabalho se articula com base em equipes, lide- res, meios finaneciros e, portanto, tamibém pela mediagto de eréditos, fundamentados nos privlégios que proximidades socais ou politica prov porcionam a tal ou qual estudo. E, jgualmente, organizado por uma profissdo que (em suas prOprias hierarquias, sus normas centeaizadoras, seu tipo de recrutamento psicossocial™. Apesar das tentativas feitas para romper a fronteias,estéinsalado no citculo da excita: nesta historia aque se escreve abrigapriortariamente aqueles que escrevezam, de mane: 18 al que a obra de histériaroforgase uma tautologi séclo-cutural entre seus autores (Ietrades), seus objetos (livros, manusertos, etc. )e seu pb co (cultivado), Este trabalho esti li ado a um ensino, logo, is Nutuagées 2B de uma clientela; 3s pressbes que esta exerce a0 se expandir; aos reflexos de defesa, de autoridade ou de recuo que a evolugso ¢ 08 movimentos dos extudantes provocam entre os mestes; a introdusio da cultura de massa numa universidade massiicada que deixa de set um pequeno lugar de tro- ‘as entre pesquisa e pedagogia. O professor € empurrado para a vulgariza- ‘fo, destinada 20 “grande piblico” (estudante ou go), enquanto que 0 especialista so exila dos cizcuitos de consumo. A. produgéo historica se encontra partiliada entre a obra Hterdria de quem “constitu autoridade” © oesoterismo cientifico de quem “faz pesquisa ‘nna situagdo social muda ao mesmo tempo o modo de trabalhar ¢ © tipo de discurso. Isto € um “bem” ou um “mal”? Antes de mais nada & umm fato, que se detecta por tods parte, mesmo onde ¢silenciado. Corres pondénciss ocultas se reconhecem em coisas que comecam a 3¢ mexer ou se imobilizar juntas, em setores inicialmente tidos como estranhos. E or acaso que s2 passa da “histria social” a “hist6ria econdmica” duran- te 0 enireguerras™, por volta da grande crise econdmica de 1929, ov que a histria cultural leva vantagem no momento em que se impée por toda Parte, com 0s lazeres © 08 mass media, a importincia social, econdmica ¢ Politica da “cultura”? F um acaso que 0 “atomisme histrica" de Langlois Seignobos, associado explicitamente & sociologia baseada na figura do ‘inieindor” (Tarde) ¢ a uma “ciéncia dos ftos psiquicos” (decompondo o psiquismo em “motivos", “impulsses” ¢ “representagges”)"”, tenha se combinado com o liberaismo da burguesia reinante em fins do século XIX? E um acaso que os espagos mortos da erudigdo — aqueles que néo So nem os objetos, nem os lugares da pesquisa — venham a ser do Lozére 20 Zambese regides subdesenvolvidas, de maneira que 0 enriquecimento econdmico cria hoje tragens historiogrificas som que a origem destas seja confessada, nem a sua pertnéncia assegurada? a reunido dos documentos a redacio do lvro, a priticahistica ¢ inteiramente relativa a estrutura da sociedade, Na Franga de ontem, a existgncia de pequenas unidades sock, solidamente consttuidas,definiy divesos niveis da pesquisa: arquivos circunsertos aos acontecimentos do stupo e ainda proximes dos documentos de familia; uma categoria de mecenas ou de autoridades que se prope a “protegio" de um pati de dlentes ou de idéas; um recrutamento de eruditosletrados devotados 4 uma causa ¢ adotando com relagdo a sua grande ob pequena pitria a divs dos Monumenta Germaniae: Sanctus amor patriae dat animum; ‘obras “consagradas” a assuntos de interesse local, fomecendo uma lingua. sem propria para leitoreslimitados, porém fis, ete. ™ 0s estudos feitos a respeito de assuntos mais vastos tampoucoesca- pam a esta repra, mas a unidade social da qual dependem nfo é mais do ‘mesmo tipo: nfo ¢ mals uma localidade, mas a intelligentsia académica, depois universtiria, que se “distingue” a0 mesmo tempo da “pequena historia, do provincianismo ¢ da arraia mitida, antes que, tendo aumenta: do seu poder com a cresente expansfo centalizadora da Universidade, iimponha as normas ¢ os c6digos do evangelismo lego, liberal epatriotico, «laborado no século XIX pelos “burgueses conquistadores”. Tanto mais que, quando Lucien Febvte, durante o entreguerras,de- clara queter retiar da histéria do século XVI “o habito” das querelas de antanho e liberia, por exemplo, das categorias impostas pelas guerras entre catdlicos e protestantes™, ele demonstra iniialmenteo esmaecimen- to das luas ideoldgica e soca que, durante 0 séoulo XIX, reaprovetam a bandeiras dos “partidos” religiosos a servgo de campanhas homdlogs. Na verdade, as disputas religiosas prossegiram durante muito tempo, ainda que ein tertenos nfo-eligosos: entre republicanosetradicionalists, ow entre a escola piblica e «escola “live. Mas quando esas lutas perdem sua importancia sécio-politica apés a guerra de 1914, quando as forgas «que elas opuriham se fragmentam em compartimentos diversos, quando se formam “reuniges” ou “frentes” comuns ¢ ¢ economia organiza a lingua- gem da vid francesa, tomers postive consderar Rabelais como cristo — «quer dizer, testemunha de um tompo passado —, bertar-se de divisdes que ‘fo mais te inscrevem no vivido de uma sociedade e, portanto, de nfo mais privlegiar os Reformados, ou os Demoeratas ists na historiogafla univetsitiia. politica ou religicsa. O que isto indica nfo sto eoncepgses relhores ou mais objetivas. Uma mudanga da sociedade permite a histo- riador um. afastamento com relagto aguilo que se toma, globalmente, sum passad, Deste ponto de vista L. Febvre proosde da mesma maneisa que os seus predccessoes. Estes adotavam como postulados de sua compreensfo 4 estrutua © as “evidéneias™socias de seu grupo, com o risco de fazélos softetem um desvio ertieo. 0 fundador dos Annales nfo faz ele a mesma coisa quando promove uma Busca e uma Reconquista” histrica do “Ho- mem”, imagem “soberana” no centro do universo de seu meio burgués” «quando chama de “historia global” 0 panorama que se abe aos olhos de uma magistraturauniversitéia; quando, com a “mentaldade” a “psicolo- +N. da, — Reconquista, no orignal ia ooletiva”e todo o instrumental do Zusammenhang el situa uma extra ‘ura ainda “idealista®", que funciona como antidoto da andlise marxista, «© esconde sob a homogeneidade “cultural” 0s conilitos de clase nos quai tele mesmo se encontra impicado™? Nem por ser tho genial © nova sua Iist6ria esté menos mareada, sovilmente, do que aquelas que reeita, mas se ele pode superé-las & porque elas contespondem a situagdes paszds,e porque um ovtro “hébito” The fol imposto, de confeegdo, pelo lugar que ‘cupa nos confitos do seu presente. ‘Com ou sem 0 fogo que crepta nas obras de L. Febvie, a mesma coisa ocorre por toda parte hoje (mesmo deixando de lado o papel das cli vagens socaise politcas até nas publicapses ¢ nominacoes, onde funcio- ‘am o$ interditos tétos). Sem divida ndo se trata mais de ums guerra entre of partidos, ou entre o$ grandes corpos de antigamente (0 Exéreito, 4 Universidade, 4 Ipreja, etc.) € que a hemorragia de suas forgas provoca 2 folklorizagao de seus programes" e as verdadeiras batalhas no se resol vem mais af, A *neutaldaée” remete & metamorfose das convicgSes em ‘deologias, numa sociedade, teenoctitiea e produtivist, andnima que nao sabe mais designar suas escolhas nem indicar seus poderes (para 08 car ou confessar). Assim, na Universidade colonizada, corpo privado de autonomia.na medida em que se tornou enorine, entregue agora 3s instru- Bes € is presses vindas de outeas partes, o expansionismo cientificista (ou as “cruzadas" humanistas de ontem so substituidas por retiradas. No aque conceme &s opgdes,o silencio substitu a afrmago, O discurso assume uuma cor de parede: “neutra". Transforma-se mesmo numa maneira de defender lugares ao invés de sero enunciado de causes” capazes de at cular um desejo. Ele nfo pode mais falar daquilo que 0 determina: um Inbirinto de posigdes a respeitare de inluéncias a solictar. Aqui 0 ndo- dito & a0 mesmo tempo 0 inconfessado de textos que se tornaram pretex tos, a exterioridade daqullo que se faz com relagdo aquilo que se diz, € 4 eliminagio de um lugar ou de uma forga que se articula numa linguagem, io seria iso, als, 0 que “trai” a rfeténcia de uma hstoriografia “con servadora” a um dotado de uma estabilidade transformado om fetiche pela necessidade que se tem, “apesar de tudo”, de afirmar um poder proprio do qual j se “sabe bem” que desapareceu®? 4, O que permite e.0 que probe: 0 lugar. Antes de saber 0 que a historia diz de uma sociedade, € necessario saber como funciona dentro dela. Esta instituigao se insereve num comple: 16 x0 que Ihe permite apenas um tipo de produedo ¢ Ihe profBe outros. Tal & 1 dup fungso do lugar. Ele roma possiveis certs pesquisas em funso de ‘conjunturas e problemsiticas comuns. Mas toma outrasimpossiveis;exchut do discurso aquilo que é sua condigo num momento dado; representa 0 papel de uma censura com relaglo aos postulados presents (sciis,eco- nmicot, politicos) na anise. Sem duvida, esta combinagfo entre permis- so ¢ interdigdo & 0 ponto cego da pesquisa histrica a razdo pela qual ‘la nfo 6 compativel com qualquer eois. E igualmente sobre esta combi- nago que age 0 trabalho destinado a modified, De toda mancira, a pesquisa esté circunscrita pelo ugar que define tuma conexio do. possivele do impossivel. Encarendoa apenas como wm “dizer”, acabarseia por reintrodurit na histéra a lenda, quer dizer, a substitu. de um nfosugar ou de um lugar imaginério pela articulagao do discurso com um lugar socal, Pelo contritio, a historia se define inel- 1m por tims relago da linguagem com o corpo (social) e, portanto, tam- bbém pela sua relaglo com os limites que o corpo impbe, ss 8 mancira do lugar particular de onde se fala, sea & maneira do objeto outro (pass- éo, morto) do qual se fala. De parte a parte, a histéria permancce configurada pelo sistema no qual se elabora. Hoje como ontem, é determinada por uma fabricagfo Jocalizada em tal ou qual poito deste sistema. Também a consideragéo deste lugar, no qual se produz, é 8 Gnica que permite a0 saber historiogr- fico escapar da inconsciéncia do uma classe que se desconheceria a si pré- ‘ria, como classe, nas relagdes de produgfo e, que, por isso, desconheceria 8 sociedade onde esti inserida. A aticulagdo da hist6ria com um lugar € 4 condigfo de uma endlise da sosiedade. Sabese, alls, que tanto no marxismo quanto no freudianismo nfo existe andlise que nfo seja. inte gralmente dependents da situagéo crada por uma elagfo, socal ou ana- Iitiea, Levar a sério o seu lugar nfo 6 ainda explicar a histria, Mas & a condigfo para que alguma coisa poss sor dita sem ser nem legendia (ou “edifcante”), nem atépica (sem pertinénca). Sendo a denegaedo da patti- cilaridade do lugar © proprio principio do dscurso ideolbgico, ela exclu toda teoria, Bem mais do que isto instalando o discuso em um ngo-luga, proibe 4 histéria de falar da sociodade © da morte, quer dizer, profbe-a de ser ahistria n IL. UMA PRATICA “Fazer historia” ¢ uma prética. Sob este éngulo podemos passar para ‘uma perspectiva mais pragmstica, eonsiderando os caminhos que se abrem sem se prender mais & situago epistemologica que, a aqui, foi desvenda- da pela sociologia ds historiografia, Na medida em que a Universidade permanece estranha a prtica e tecnicidade™, nela se classifica como “ciéneia auxiliar™ tudo que coloca 4 hist6ria em relagdo com técnicas: ontem a epigrafia, a papirologia, a paleografia, 2 diplomética, a codicologia, etc:; hoje @ musicologia, © “folklorismo”, a informética, etc. A histotia nfo comegaria send com a “nobre palavra” da interpretagéo. Ela seri, finalmente, uma arte de discor- rer que apagaria, pudicamente, vestigios de um trabalho. Na verdade ex te af uma opedo decisiva. O lugar que se dé a téenica coloca a histbria do lado da literatura ou da cigneia. Se 6 verdade que a organizagdo da histéria é relatva s um lugar e a tum tempo, isto ocore, inicialmente, por causa de suas técnicas de produ- Ho. Falando em geral, cada sociedade se pensa “historicamente” com os instrumentos que lhe sto proprio. Mas 0 termo instrumento ¢ equivoco. 'Néo se trate apenas de meios. Como Serge Moscovici demonstrou magis- tralmente®, ainda que numa perspectiva diferente, a historia & mediati- zada pela técnica, Desta mancira se relativiea 0 privikgio que a histéria Social teve durante todo 0 século XIX ~ c, freqbentemente, ainda em nossos dias, Com a relagdo de uma sociedade consigo mesma, com 0 “tomarse outro” do grupo segundo uma dialética humana, se combina, central na atvidade cientifica presente, 0 futuro da natureza que é “simul taneamente um dado uma obra”. £ nesta fronteira mutével, entre o dado e 0 eriado, ¢ finalmente entre a natureza ¢ a eultura, que oeorre a pesquisa. A biologia descobre na “vida” uma linguagem falada antes que apareea um locutor. A psicandlise revela no discurso a articulagfo de um desejo constitufdo diferentemente do que o diz a consciéncia. Num campo distinto, a ciéncia do meio am- biente no mais permite isolar das estruturas natuais, que transforma, a extensfo indefinida das construgées socizis. Este imenso canteiro de obras opera uma “renovagdo [da natureza], provocada pela nossa intervengto”™. Ele “liga diferentemente a humani- dade e a matéria”™”. De tal maneira que a ordem social se inscreve como, forma da ordem natural, ¢ nfo como entidade oposta a ela", Existe af ‘com que modifica profundamente uma histéria que teve como “setor cen- 78 a histéria social, quer dizer, a histria dos grupos soci ede suas relagdes®™, Esta esté ae voltando pouco a poveo para 0 econémico, depois para as “mentalidades", oscilando asim entre os dois termos da relagio que a pesquisa privilega cada ver mais, Os sinait se multipticam. Uma orentagio que esbocava, no entregueras,o interese pla geografa © por uma “histéria dos homens em suas relagdes estreitas com a terra‘!” se acentua com of estuds sobre a constrgdo¢ as combinagbes dos espa Got urbanos, sobre a teansumdncia de plantas e seus efeitos sbcio-econd micos®, sobre a histéria das técnicas“*, sobre as mutagdes da sexualidade, sobre a doenga, # medicina e a historia do corpo", ete. Mas estes campos abertos& histria nfo podem ser apenas objetos novos fomecidos a uma instituigéo imutivel, A propria historia entra nesta relagG0 do discuso com a8 éenicas que 0 produzem. € precio en- caar como cla trata of elementos “naturis™ para os transformar em um ambiente cultural, como faz aceder& simbolizaio Ierria as transforma- ‘bes que se efetuam na rlagfo de uma sociedade com # sua naturera. De Tesiduos, de paps, de legumes, até mesmo das glera e das “neve ter nas“, © historiador faz outra coisa: faz deles a histora. Artificializa a ratureza, Participa do trabalho que transforma a natureza em ambiente e, assim modifica» natareza do homem. Sus tnieaso situam, preisimen te, nit atiulagfo, Colocandoe a0 nivel desta prtica, nfo mais se en contra a diotomia que op6e 0 natural a0 socal, masa conexto entre ume Socializagio da natureza e uma “nataralragéo” (ou materiaizagio) das rolagbes soca 1A articulagdo natureza-cultura Sem davida, é demasiado afirmar que 0 historiador tem “o tempo” como “material de andlise” ou como “objeto especifico”. Trabalha, de avordo com os seus métodos, 0s objetos fisicos (papéis, pedras, imagens, tons, ee.) que distinguem, no continuum do percebido, a organizagao de uuma sociedade e o sistema de pertinéncias proprias de uma “ciéne! Trabalha sobre um material para transformido em historia, Empreende uma manipulagdo que, como as outras, obedeve as regras. Manipulagto stmelhante é aquela feita com o mineral jd refinado. Transformando ink cialmente matérias-primas (uma informagio primiria) em produtos stan dard (informagses secundiias), ele os transporta de uma regigo da cultura (as “curiosidades”, 08 arquivos, as coleges, etc.) para outra (a histéria). Umma obra “hist6rica” participa do movimento através do qual uma socie ” dade modificow sua relaglo com a natuteza, transformando 0 natural em utilititio, (por exemplo, a floresta em exploragéo), ou em estético (por exemplo, a montanha em paisagem), ou fazendo. uma instituigao social ppassar de um estatuto para outro (por exemplo, a igreja convertida em smuseu). ‘Mas 0 historiador no se contenta em traduzit de uma linguagem cultural para outra, quer dizer, produgSes sociais em objetos de historia. Ele pode transformar em cultura os elementos que extai de campos natu. ‘as, Desde a sua documentagdo (onde ele introduz pedras, sons, etc.) até © seu livro (onde planta, micr6bios,geleias, adqurem o estatuto de obje- tos simbélicos), ele procede « um deslocamento da artieulagto natureza/ cultura. Modifica o espago, da mesma forma que o urbanista, quando in- ‘gra o campo no sistema de comunicacfo da cidade, o arquiteto quando transforma o Iago em barragem, Pierre Henry quando transforma rangido dle uma porta em tema musical, 0 poeta que altera ss relagdes entre “ruido” “mensagem”... Modifica o meio ambiente através de uma série de transformagées que deslocam as fronteitas ¢ a topografia interna da cultura, Ele “civila” a natureza ~ 0 que sempre signficou que a ‘colo- niza” alter, Constata-se hoje, & verdad, que um volume erescente de livos his {orioos se toma romanesco ou legendirio, e nfo mais produz estas trans formagoes nos campos da cultura. Enquanio que, pelo contritio, a “lte- ‘atuca visa um trabalho sobre a linguagem, eo texto pe em cena “um ‘movimento de reorgantzagdo, uma circulago mortudtia que produz, des- truindo*™. Isto quer dizer que, assim, a histdria deixa de ser “cientifica”, enquanto que a literatura se toma tal. Quando o historiador supe que tum passado jf dado se desvenda no seu texto, ele se alinha com o com- Portamento do consumidor. Recebe, passivamente, os objetos distibui- dos pelos produtors Em historia, como alhures, ¢ cientifioa a operagfo que transforma © “meio” ~ ow que faz de uma organizagto (socal literiria, etc.) condi- so € 0 lugar de uma transformagio, Dentzo de uma sociedade ela se move, pois, mum dos seus pontos estratéuicos, a articulagfo da cultura com a ratureza. Em histori, ela instaura um “governo da natureza”, de uma forma que concetne a relagdo do presente eom 0 passado ~ no sendo este uum “ado, mas um produto. Deste trago comum a toda pesquisa cientifica,precissmente onde ela 6 uma téenica, € possvelrealgar as marcas. Ndo pretendo retomnar 40s mé todos da histria, Através de algumas sondagens tratase apenas de evocar 80 © tipo de problema teérico que suscita, em hist6ria, o exame de seu “apa: relho" e de seus procedimentos técnicos. 2 Oestabelecimento das fontes ou a redistribuigao do esparo. Em histéria, tudo comega com © gesto de separar, de reunir, de transformar em “documentos” eertos objetos dstribufdos de outra manei- 13, Esta nova distribuigdo cultural é 0 primeito trabalho. Na realidade, ela ‘onsste em produsir tas documentos, pelo simples fato de recopia,trans- crever ou fotografar estes objetos mudando ao mesmo tempo o seu lugar e © seu estatuto, Este gesto consiste em “isolas”, um corpo, como se faz em fisica, e-em desfigurar” as coisas para constfui-as como pecas que pre- encham lacunas de um conjunto, proposto @ priori. Ele forma a “calegdo”. ‘Constitui as coisas em um “sistema marginal”, como diz Jean Baudrillard; cle as exila da prética para as estabelecer como objetos “abstratos” de um saber. Longe de aceitar 08 “dados”, ele os constitu. O material é criado Por aptes combinadas, que o recortam no universo do uso, que vo procu- ‘lo também forw das fronteras do uso, e que o destinam a um reempre- #0 coerente. E 0 vestigio dos atos que modificam uma ordem recebida © uma vislo social, Instauradora de signos, expostos a tratamentos especi- ficos, esta ruptura nfo ¢, pois, nem apenas nem primordialmente, 0 efeto de um “olhar”. E necessério af uma operagdo técnica As origens de nossos Arquivos modems jé implicam, com efeito, na combinagdo de um grupo (08 “eruditos"), de lugares (as “bibliotecas”) ¢ de riticas (de eépia, de impressfo, de comunicagio, de clasificagdo, ete). E, em pontilhados, « indicago de um complexo técnico, inaugurado no Ock dente com as “colegdes”, reunidas na Itliae, depois, na Franca, a partit do século XVI, financiades pelos grandes Mecenas para se apropriaem da historia (os Médicis, 0s duques de Milo, Carlos de Orleas e Luis XII, ete) NNelas se conjugam a criagdo de um novo trabalho (“colecionar”), satis: fagdo de novas necesidades (a jusificagio de grupos familiares e politicos recentes, gragas a instauraggo de tradigées, de cartas e de “direitos de ropriedade” especificos), © a produgdo de novos objetos (os documentos {ue se isolam, conservam e recopiam) cujo sentido, de agora em diante,é definido pela sua relago com o todo (a colegfo). Uma ciéncia que nasce (a erudigfo” do século XVII) reesbe com estes “estabelecimentos de Fontes” — instituigdes técnicas — sua base e suas regras. Inicialmente ligado com a atividade juridica dos homens da pena e a toga, advogados, funciondrios, conservadores de arquivos®, o empreen 81 dimento se faz expansionstae conquistador, depois de pasar pes mos dos specialists. E progutor ereprodutor. Obedece ei da multipicagso A partir de 1470, ele se alia a imprensa™: a “colegio” se toa “bibliote- ca. Colecionar, durante muito tempo, & fabricar objetos:copiar ou im- imi, eunir, classifica... E com os produtos que mulipia,o colec raorse toma um ator na cadeia de uma historia por fazer (ou or elazer) de acordo com novaspertnéncias intlectuais¢sociais, Desta manera colegio, produzindo uma transformagao dos instrumentos de trabalho, redistribui as coisas, redefine unidades de saber, instaura um lugar de reco: nego, construnda” uma “miquina gigantea” (ere Chauma) qual tomard possivel una outa hist ‘Overudito quer totlizar as inumerdvels “raridades" que as trajet vias indefnidas de sua curisidade the trazem e, portant invents lingua- gens que assegurem a compreensto dela. A julgé-lo pela evolucio de seu trabalho (passando por Pores eKiteher, até Leiba), o eri se aie desde 0 final do séeulo XVI, para imenozo metédica de novos sistemas de signs, gragas« procedimentos analiticns (eeomposigi, recomposi- gio). Ele est4 possuido pelo sonho de uma taxonomia totalizante ¢ pela vontade de criarinstrumentos univerais adequador & esta paixio pelo exaustivo, Por intermédio da cifma, central nesta “arte do decifra- mento”, existem homolopasentee a erudigio eas matemiticas. Na verda de & cfr, cécigo desinado construe uma “ordem", se op6e, entdo, 0 Smbolo: ese ligado a um texto recebito, que remete a um sentido culo na imagem (alors, brazto, emblem, et), implica a necessidade de um Comentério aitoizado da parte de quem € suficientemente “sibio” ou ‘profundo para reconhecer este sentido®?. Mas, do ponto de vista da cifra, deade as séries de “rridades” até as linguagensartfcas ou univers ~ digamos de Petese a Leibniz es lmiarse 0s devis so numerosos, insereverrse,entretanto, na lina do desenvolvimento que instaura acon trugio de wna lnguagem e, portato, a produgio de ténicae de objetos oripios © estabelesimento das fonts solicits, também, hoje, umn gest fun dagor, epresentado, como ontem, pela combinagso de um gar, de um aparelio e de tGcnicas. Primeiro indicio deste dslocamento: no hi tra tallo que nfo fenha que uilzar de outra manera os recursos conhecidos ¢. por exemplo, mudar 0 funsionamento de arquivs definidos até agora, por um wo religioso ou “familar”. Da mesma forma, a titulo de noves Pertingncias, consti como documentos utensios,composiges cul Tas, cantos, gens populares, uina dypongdo dos terreno, wm Lopoprs 82 fia urbana, ete. Néo se trata apenas de fazer falar estes “imensos setores audormecidos da documentagio"*” e dar vor a um silencio, ou efetividade ‘um possvel, Significa transformar alguma coisa, que tinha sua posigso e seu papel, em alguma ou’ra coisa que funciona diferentemente. Da mesma forma nao se pode chamar “pesquisa” ao estudo que adota pura e simples: mente as classficagbes do ontem que, por exemplo, “se atém” aos limites propostos pela séie H dos Arquivos e que, portanto, no deline um campo objetivo proprio. Um trabalho ¢ “sientifico” quando opera uma redisr- ‘buiggo do espaco © consiste, primordialmente, em se dar um lugar, plo “estabelecimento das fontes” ~ quer dizer, por uma aggo instauradora e por téenieas transformadoras. Os procedimentos desta instituigdo suseitam hoje problemas mais fandamentais do que os apontados por estes primeiros indicis, Pos, eada pritica historica®® nfo estabelece seu lugar sendo gragas a0 aparelho que 4 20 mesmo tempo a condigf0, o meio eo resultado de um deslocamento, Semelhantes as fibricas do paleolitico, os Arquivos nacionais ou munict fais constituem um segmento do “aparelho” que, ontem, determinava as ‘operagdes adequadas a um sistoma de pesquisa. Mas no se pode tentar mudar a utilizagdo dos Arquivos sem que sua forma mude. A mesma ins: Litwigfo téenice impede que sejam fomecidas respostas nowas a questdes diferentes. Na verdade, a situagdo € inversa: outros “aparelhos” permitem agora, & pesquisa, questOes e respostas novas, Certamente uma ideologia do “fato” histérico “real” ou “Yverdadeiro” paira sinda na atmosfera da época: prolifera mesmo numa literatura sobre a historia. Mas é a folklori zagio de priticas antiges: esta palavra congelada sobrevive a batalhas fin- das; ela apenas mostra 0 stras0 das “idéias” recebidas com relagho as priticas que cedo ou tarde véo modifcitas. {A transformagdo do “arquivistio” & 0 ponto de partida ea condigdo de uma hist6ria nova. Esté destinada a representar 0 mesmo papel que a smdquina” erudita dos séculos XVII e XVIIL. Eu ndo usaria seno um ‘exemplo: a intervengdo do computador. Francois Foret demonsteow alguns dos efeitos produzides pela “constituigto de novos arquivos, conservados fitas perfuradas": no hi significante seno em fungfo de uma série, e néo com relagio a uma “reaidade”ndo € objeto de pesquisa seno aquilo aque € formalmente consiruido, antes da programagio, ete. Isto nao é ainda Sendo um element particular ¢ quase um sintoma de uma institu ‘io cientifica mais ampla. A andlise contemporinea atera os procedimen- {os ligados & “anilise simbslica que prevaleceu a partir do romantismo ¢ ‘que buseou reconhecer um sentido dado e acuta ela eencontra a eon ana abstragdo que € hoje um conjunto formal de relagées ou “estrutt- Sie", Sua pritica consiste em consirur “modelos” propostos decisoriae inentc, em “substituir 0 estudo do fendmeno concreto pelo estudo de um Gbjeto constituido por sua definigfo", em julgar 0 valor cientifico des te objeto segundo o “campo de questOes” a que permite responder ¢ se faundo at cespostes que fomnece,finalmente, em “fixar os limites da signi- fhoabilidade deste modelo"”". Este Gltimo ponto & capital em historia, Pois, se é verdade que de ‘um modo geral a andlise cientfica contemporiinea pretende reconstruir 0 cbjeto a partir de “simulacros” ou de “censios”, quer dizer, adquirir, com ‘6s modelos selacionais ¢ as linguagons (ou metalinguagens) que ela produ, ‘0 meio de multiplicar ou de transformar sistemas constituides (fisicos, literérios ou biol6gicos), « historia tende a evideneiar os “limites da signi+ ficabilidade” destes modelos ow destas linguagens: reencontra, sob esta forma de limite relativo a modelos, aquilo que ontem aparecia como um. ‘pmisalo selativo a uma epistemologia da origem ou do fim. Sob este fspecto ela parece fiel ao seu propéxito fundamental, que sem dvida con- tinva por defini, mas do qual se pode dizer desde ji, que liga simultanea ‘mente a0 teal ed morte, A especificagdo de seu papel nfo é determinada pelo proprio ape- retho (o computador, por exemplo) que coloea a historia no conjunto das mposigSes ¢ das possibilidades nascides da instituigdo cientifica presente ‘A elucidagko do que € proprio da hist6ria esté descentrada, com relago ‘reste aparelho: ela reflui para o tempo prepararorio de programagio, que toma necessiria a passagem pelo aparelho, ¢ é langada para a outraextre- rmidade, para o tempo de exploragdo que os resultados obtides exper. Ela se elabora em fun¢do dos interditos que a méquina fixa, por objetos de pesquisa a consteuir e, em func daquilo que permite esta miquita por um modo de tratar os produtos standard da inforinitica. Mas, estas fluas operagées se articulam necessariamente na instituicao técnica que inscreve cada pesquiss num “sistema generalizado As bibliotecas de ontem exerciam, também, a fungEo de “colocar” a cerudigdo dentro de um sistema de pesquisa, Mas tratava-se de um sistema regional, Tambsm os. “momentos” epistemolégicos (conceituagfo, doc entagfo, tratamento ou interpretacfo), hoje distintos no interior de um sistema generalizado, podiam estar extremamente misturados no sistema regional da erudigfo antiga. O estabelecimento das Fontes (pela mediagto ide seu apacelho atual) nde pravoca apenas uma nova repartigdo. dss rele 4 {008 razojreal ou cultura/natureza; ele € o principio de uma redistribui- Ho epistemologica dos momentos da pesquisa cienfica. ‘No século XVII, a biblioteca Colbertina — ou suas homélogas — ceram 0 ponto de encontro onde se elaboravam, em comum, a regras pré- ‘prias da erudigdo. Uma cigncia se desenvolvia em tomo deste aparelho, que ‘petmanece o lugar onde circulam, 20 qual remetem e se submetem os pes- quisadores. “Ir 20s Arquivos” & o enunciado de uma le tiita da histéria Neste lugar central uma outra insituieo esta sendo substituida. Ela tam- ‘bém impée uma lei a prética, mas uma lei diferente. Devemos, igualmente, ‘considerar primeizo a instituigéo técnica que, como um momento, organi ‘20 lugar onde circula de agora em diante 9 pesquisa cientfica, antes de analisar mais de perto as trajetérias operacionais que a hist6ria esboga neste espapo novo, 4. Fazer surgir diferencas: do modelo ao desvio, ‘A utilizagao das téenicas atuais de informagso leva o historiador a separat aquilo que, em seu trabalho, até hoje esteve ligada: 1 constne (fo. de objetos de pesquisa e, portanto, das unidades de compreenséo;, 4 acumulagao dos “dados" (Informagdo secundéria, ou material refinado) sua arrumagio em lugares onde possam ser clasificados e deslocados® phi atrb inches ope dae ate ele tial 6 susceptivel Nesta linha o trabalho tebrico se desempenha, propriamente fala do, na relago entre os pélos extremos da operagdo inteira: por um lado, 1 construgdo dos modelos; por outro lado, a atribuigdo de uma significabi lidade aos resultados obtidos ao final das combinag6es informéticas. A forma mais visivel desta relagdo consiste, inalmente, em tomar pertinen tes diferencas adequadas ds unidades formais precedentemente construi das; em descobrir 0 heterogéneo que seja tecnicamente utilizivel. A interpretagdo” antiga se fomna, em fungIo do material produzido pela constituigdo de séries e de suas combinagies, a evidenciagso dos desvios relativos quanto aos modelos ‘Sem diivida este esquema permaneve abstrato. Muitos estudos atuais, tornam mais passiveis de apreensio 0 seu movimento ¢ o sou sentido. Por cexemplo, a andlise histérica no tem como resultado essencial uma relagzo quantitativa da altura e da alfabetizagdo entre os recrutas de 1819 4 1826, nem mesmo a demonstragio de uma sobrevivéncia do Antigo Regime na Franga posrevolucioniria, mas as coincidéncias imprevistas, as incoerén: 85 ‘las ow as ignortincias que esta investigardo fez aparecer*". O importante ‘nfo 6 a combinagdo de séries, obtida gragas a um isolamento prévio de tra: {G08 significantes, de acordo com modelos pré-concebidos, mas, por um lado, a rolago entre estes modelos e os limites que seu emprego sistemsti- co faz aparecer e, por outro lado, a capacidade de transformar estes limites ‘em problemas tecnicamente trataveis. Estes dois aspectos sao, aliés, coor- denados, pois se a diferenga é manifestada gracas a extensgo rigorosa dos modelos construtdos, ela € significante gracas a relagZo que mantém com cles a titulo de desvio — ¢ é assim que leva # um tetomo aos modelos para ‘cortgi-los. Poder-seia dizer que a formalizagio da pesquisa tem, precisa: ‘mente, por objetivo produzir “eros” — insuficiénctas, falhas ~ cientifi ccamente utilizaves Este procedimento parece inverter a historia tal como se praticava no passado, Partiase de vestigios (manuscritos, pegas raras, etc.) em ni ‘mero limitado ¢ tratavase de apagar toda a sua diversidade, de unifici-la ‘em uma compreensfo coerente**. Porém, o valor desta totalizagao indutiva dependia, entfo, da quantidade de informagoes acumuladas. Vacilava ‘quando sua base documental era comprometida pelas colheites relatadas [por novas investigagdes. A pesquisa — e seu protdtipo, a tese ~ tendiam a prolongar indefinidamente o tempo da informagao, como fim de retardar ‘0 momento fatal, quando elementos desconhecidos viriam minar suas bar ses, Freqlentemente monstruoso, o desenvolvimento quantitativo da caga ‘308 documentos terminou por introduzir no proprio trabalho, tornado {ntermindvel, a Jei que o destinava a caducidade assim que terminado. Um Timiar fot ultrapasado, além do qual esta situagdo se inverte, passase ‘mudangas incessantes de modelos. ‘Com efeito, 0 estudo se estabelece hoje de imediato sobre unidades definidas por ele mesmo, na medida em que se toma e deve tomarse ccapaz de fixar a priori objetos, niveis e taxonomias de andlise. A coeréncia € inieial, A quantidade de informagto trativel em fungZo destas normas tomou-se, com o computador, indefinida, A pesquisa muda de from ‘Apoiando-se nas totaidades formas, propostas decisoriamente, cla se volta para os desvias que as combinagdes logicas das séries revelam. Joga com os limites. Para retomar um vocabulirio antigo, que néo mais corresponde 2 sua nova trajetéria, poderse-ia dizer que ela ndo mais parte de “rarida- des” (restos do passado) para chegar a uma sintese (compreensio presen- te), mas que parte de uma formalizagso (um sistema presente) para dar lugar aos “restos” (indicios de limites e, portanto, de um passado que & produto do trabalho). 86 Este movimento 6, sem divida, precipitado pelo emprego dos com- putadores. Ele 0 precedeu ~ da mesma forma que uma organizagao técni- cca precedeu o computador, que é um sintoma a mais desta. Com efeito, ¢ preciso constatar um fenémeno estranho na historiografia contemporanea. © historiador nfo & mais o homem capaz de constituir um império. NEO visa mais 0 paraiso de uma historia global. Circula em fomo das racionali- zagdes adquiridas. Trabalha nas margens. Deste ponto de vista se transfor- ‘ma num vagabundo, Numa sociedade devotada & generalizagto, dotada de ‘poderosos meios centralizadores, ele se dirige para as Marcas das grandes resides exploradas, “Faz um desvio” para a feitisaria®, a loucua®, a 4 literatura popular", o mundo esquecido dos camponeses*”, a ‘etc, todas elas zonassilenciosas. Estes novos objetos de estudo atestam um movimento que se esboea, | hé virios anos, nas estratégias da historia. Assim, Fernand Braudel mos- ‘rou como 0s estudos das “ireas culturais” t&m como vantagem situar-se, de agora em diante, nos lugares de trdnsito, onde sio detectaveis os fend menos de “fronteira™, de “"empréstimo” ou de “recusa®”, O interesse clentifico destes trabalhos se prende a relaga0 que eles mantém com as totalidades propostas ou supostas — “uma coeréncia no espago”, “uma ppermanéncia no tempo”, ~ e com as corregdes que permitem thes aduzt. Sem divida ¢ necessirio encarar desta perspective muitas das pesquisas fatuais. A propria biografla assume o papel de uma distincia e de uma margem proporcionadas as construc6es globais. A pesquisa se di objetos {que tém a forma de sua pritica: eles lhe fornecem © meio de fazer apa recer diferengas relativas 4s continuldades ou ds unidades das quais parte a andlise, 4. O trabalho sobre o mite. Esta estratégia da pritica historica preparasa para uma teorizagdo ‘mais de acordo com as possbilidades oferecidas pelas ciéncias da infor- rmagio. Parece que ela especifica, cada vex mais, ndo apenas os métodos, mas a fungdo da historia ao conjunto das ciéncias atuais. Com efeito, seus métodos nfo mais consistem em buscar objetos “autemticos” para 0 ‘conhecimento; seu papel social ngo é mais (exceto na literatura especular, dita de vulgarizagio) o de prover a sociedade de representagaes globais de sua génese, A histéria ndo mais ocupa, como no século XIX, este lugar central, oganizado por uma epistemologia que, perdendo a realidade como substincia ontol6gica, buscou reencontréla como forga histériea, Zeit- 87 seis, ¢ escondendo-se na interioridade do corpo social. Ela nfo tem mais 4 fungao totalizante que consistia em substituir a filosofia no seu papel de expresaro sentido Tntervém & maneira de uma experimentagfo critica dos modelos sociolépicos, cconémicos, psicolégieos ou eulturas. Dizse que utiliza ‘um “instrumental emprestado” (P. Vilar). verdade. Mais precisamente, testa esse instrumental através de sua transferéncia para tertenos diferen- tes, da mesma forma que se testa um caro esporte,fazendo-o funcionat ‘em pistas de corrida, em velocidades e condigdes que excedam suas nor- ‘mas. A histéria se toma um lugar de “controle” onde se exerce uma ungGo de falsifieagio"". Nela podem ser evidenciados os limites de signifcabilidade relativos aos “modelos” que s40 “experimentados”, um de cada vez, pela hist6ria, em campos estranhos a0 de sua elaboraggo, ‘A titulo. de exemplo, este funcionamento pode ser asinslado em dois dos seus momentos essencias: um visa a relagfo com o real através do fato histrien; 0 outro, 0 uso dos “modelos” recebidos e, portanto, a relagdo da histdria com uma ra280 contemporinea. Dizem respelto,além disto, um & organizagdo intema dos procedimentos historicos; 0 outro a sua articulagio com campos ientificos diferentes. 1. 0s fatos encontraram seu eampedo, Paul Veyne, maravithoso dees pitador de abstragses. Como 6 normal, ele carrega a bandeira de um movie mento que 0 precedev. Nao apenas porque eada verdadeiro historiador permanece um poeta do detalhe e brinca sem eessar, como o esteta, com mil harmonies que uma pega rara desperta numa rede de conhecimentos, ‘mas sobretudo porque of formalisms do, hoje, uma pertinéncia nova a0 detathe excepeional. Dito de outta maneira, este retoro 40s fatos no pode ser arrolado numa campanha contra © monstro do "estruturalismo”, tiem pode ser posto servia de uma regrssto is ideolopias ow s priticas anteriores. Pelo contrério, el se inscreve na linha de andliseestrutural, mas como um desenvolvimento, Pols, 0 fato de que se trata, de agora em diane te, no é aquele que oferece 20 saber observador a emergéncia de uma realdade, Combinado com ur modelo consteuido ele tem a forma de uma aiferenga. 0 hstoriador nao esti pois, colocado diante da altemativa de a bolsa ou a vida — a lef ou 0 fat (do's conceitos quo, ais, desaparecem da epistemologia contemporinea™), De seus proprios modelos ele obtém a ceapacidade de fazer aparecer os desvos. Se, durante algum tempo ele es perou uma “totalizagdo™", e areditou poder reconeliar diversos sistemas Ge interpretagio, de modo a cobrir toda a sua informagio, agora ee se in teressa prioritariamente pelas manifestagBes complexss desta diferenas 88 baste pont de vst, o lugar ond le 8 etabclce pode sind, por analo fi, tua vnervel ome de "Tat": ofalo¢ a derenca De mesma fomma,a flap com 0 ral tora una relsdo entre ot temos de uma opeagio; Femand Braudel cava ua sgificago bem funcional ands dos fendmenos de frontis, Os objeter que propunha 1 pois erm doterminados em fang de una operato «empreender (e no de uma realidade a obter) ¢ com relago a modelos existentes™. Hesultado deste empreendmento, oo” édeignagto de uma relia O acontccimento também pode reenconra, dese modo, sua definigdo deter um gore. Na verdade, ele nfo corta mls a.eapeura de una alt dade uj slo er visto strands de uma raspartrcia da linguagem 00 chegar por fagmentos 4 supertile do nosso saber. ntekamente relat tana comblnmra e ses rclonalmeoteisoada, pas a peso, cos ‘cruzamentos, condighes e limites de validade serve para marcar™. 2, Imo implica numa muni “itera” de reempregAr ob mode tos tiadas outs inci ede situ, com relagdoa el, uma fun da hint. Um etodo de Pere Var permit expla exe prinepi. A propdto os tebalos de J. Mareewakie de J.-C. Tout, ele nostro revs as qual conduc a “aplleato” emia de nowosconceios + de newer modcot econBmios eontemportnes a0 Antigo Regie, Po- ‘én, o problema era mas amplo, Para Marezewai, o economists cara ‘teriza pela “construgo de um sistema de referéncias”, € o historiador é Aquele que “se serv a teoda economic. Isto €coloar uma problems tis qe faz de uma cifocao instrument de outa e que pode se inverter contnamente: anal, quem “uta quem? . Vir desu tal con- cepelo, Do seu ponto de vst, 2 hist tina como tarefn anal as "Candies" nas quis estes modelo sfo ids e, por exempo, tomar prosho on “lies exatos das posibildades” de una “econometiar- Trorpectina”, Manfesta um feterogéneo relaho aot conjuntos homo oor comsitufdos por cada displ. Ela também poder elaconar uns om Gr outros en Unies propos de cada sistema ou nivel” de andne (econdmica, social, etc.)”*. Assim, a histéria se toma uma “auxiliar”, se~ ‘sda ums pala Je Pevie Chane Nao que esteja"a ergo" deco ei me eaglo qos ela mantém com diversas ci Ihe permite here com referencia cata uma des, uma funglo cia neces ihe sug também o popalo de arclar em conpinto os limites evden clos deta runt mesma complementardede so encontra em outtos stores, Emu anism a ita pode “Yas, ata da deren, apeende aespec! 89 ficidade do espago que temos 0 direito de exigir dos administradores atuais"; permitir “uma ertica radical dos conceitos operat6rios do urbanis- ‘mo; e, inversamente, com relapfo aos modelos de uma nova organizagio espacial, dar conta de resisténcas socials pela andlise de “estruturas pro- fundas de evolugfo lenta™”. Uma titica do desvio especificara a interven- ‘lo da historia, Por sua vez, a episiemologia das ciéncias parte de uma teo- Tia presente (na biologia, por exemplo)e reencontra a histria sob forma daquilo que ndo era esclurecido, ou pensado, ou articulado outrora®. O ppassado surpiu ali, inicalmente, como o “ausente™. O entendimento da historia estéligado a capacidade de organizar as diferencas ou as auséncias ‘pertnentes e hierarquiziveis porque relativas as formalizagOes cienificas ats Uma observagio de Georges Canguithem sobre a historia das cién- cias™ pode ser generalizada e dar a esta posigio de “auxiliar™ todo 0 seu aleance. Efetivamente, a histéria parece ter um objeto Mutuante cuja determinaso se prende menos a uma deciséo aut6noma do que a0 seu ft teresvee & sua importincia para as outras eines. Um interesse clentifico “exterior” & historia define os objetos que ela se di e os objetos para londé se desloca sucessivamente, segundo os campos mais decisivos (socio- gico, econtmico, demogrifico, cultural, psicanaltico, et.) ¢ eonforme a8 probleméticas que os organizam. Mas 0 historiador assume este nieres se, como wna tarefa prOpria no conjunto mais amplo da Pesquist. Criow, assim, laboratérios de experimentagio epistemologica™®. Na verdade, no pode ‘dar uma forma objetiva a estes exames, a ndo ser combinando 0s modelos com outros setores da sua documentagéo sobre uma sociedad, Daf o seu paridoxo: ele aciona as formalizagées cientifieas que adota para cexperimentélas, com os objetos nfo-cientificos com os quais pratica esta A historia nfo deixou de manter a fungso que exerceu duran- te séculos por “razdes” bem diferentes ¢ que convém a cada uma das cién- cis constituidas: a de ser uma etic. 5 Critica e historia, Este trabalho sobre o limite poderia ser observado alhures, e nido apenas onde recorre aos “fatos” hist6ricos ou tratamento de “modelos” tebricos. Desde j4, entretanto, aceitas, estas poucas indicagdes nos orien: tam para uma definigdo da pesquisa intera. A estratégia da pritica histo rica implica um estatuto da hist6ria. Ninguém se espantari com o fato de ‘que a natureza de uma ciéncia seja © postulado a exumar dos seus proce: 90