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MICHWEL ANG: HAYKIN® REDESCOBRINDO OS PALY DACICRE IA Quem eles eram e¢ como moldaram a igreja CAPITULO 1 A AKU REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Uma Necessidade Vital para os Evangélicos Todo escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de familia que tira do seu depésito coisas novas e coisas velhas. MATEUS 13.52 joucos anos depois de ter concluido meus estudos de doutorado em exe- P= € pneumatologia do século IV e ter comegado a ensinar no Central Baptist Seminary, em Toronto, cheguei 4 compreensao de que teria de desenvolver outa érea de especializacio, visto que bem pouicas das igrejas batis- tas com as quais tive contato estavam interessadas em homens como Atandsio (c. 299-373) ¢ Basilio de Cesareia (c. 330-379). Mais tarde, quando ja tinha desenvolvido um forte interesse em batistas britanicos e dissidentes do “longo” século XVIII, tornei-me consciente de que, enquanto uma dieta desta segunda area de estudo era aceitivel para audiéncias evangélicas, uma nuvem de suspeita pairava sobre todo o campo de estudo do mundo antigo. 12 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Averdade da questao ¢ que muitos evangélicos contemporancos des- conhecem ou se sentem incomodados com os pais da igreja. Sem dtivida, anos de menosprezo da tradigao e de luta contra 0 catolicismo romano ea ortodo- xia ocidental, com seus “santos” da igreja antiga, tm contribuido, em parte, para este cenario de ignorancia e incémodo, Além disso, certas tendéncias de fundamentalismo anti-intelectual tém desencorajado o interesse nesse “mun- do distante” da histéria da igreja. E a esquisitice de muito daquela época da igreja antiga se tornou uma barreira para alguns evangélicos em sua leitura so- bre os primeiros séculos da igreja. Finalmente, um desejo intenso de ser uma “pessoa do Livro” - um desejo eminentemente digno — tem levado, também, uma falta de interesse em outros estudantes das Escrituras que viveram na- quele primeito periodo da histéria da igreja depois da eta apostélica. Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) — que certamente nao poderia ser acusado de elevar a tradicao ao nivel, ou acima, das Escrituras - disse muito bem: “Parece estranho que certos homens que falam tanto sobre o que o Espirito Santo lhes revela pensem tio pouco no que ele revelou a outros’! INTERESSE PASSADO NOS PAIS DA IGREJA Felizmente, isto esta comegando a mudar> Nés, que somos evangtlicos, estamos comegando a compreender novamente que o evangelicalismo é, como disse acertadamente Timothy George, “um movimento de renovacio dentro do cristianismo histérico ortodoxo’’ Comegamos a redescobrir aquilo que muitos de 1 Commenting ard Comntentaries (London: Passmore & Alabaster, 1876), 1. Cf.as observagdes semelhan. tes de]. I. Packer: “Tradicao... 60 frato da atividade de ensino do Espirito, no passado, quando o povo de Deus procurot o entendimento das Escrituras. Nao é infalivel, mas nao ¢ desprezivel, ¢ empobrecemos a ‘nds mesmos quando a desprezamos’” “Upholding the Unity of Scripture Today’, em Journal ofthe Fvangeli cal Theological Society 25 (1982): 414 2. Sem concordar necessariamente com tudo que é dito nas seguintes obras, ver, por exemplo, James S. Ctsinger, ed., Reclaiming the Great Tradition: Evangelical, Catholics and Orthodox in Dialogue (Downers Grove, IL: InterVarsit, 1997); D. H. Williams, Retrieving the Tradition and Renewing Evangelicalism: A Printer for Suspicious Protestants (Grand Rapids: Berdmans, 1999); Stephen Holmes, Listening fo the Past: the Place of Tradition in Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 2002); D. H. Williams, Evangelicals and Tradition: The Pormative Influence ofthe Early Church (Grand Rapids: Baker, 2008); Paul A. Hartog, ed, The Contemporary (Church and the Early Church: Case Studies in Resourcement (Eugene, OR: Pickwick Papers, 2010), 3 Apoio em Williams, Evangelicals and Tradition, 1 Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos nossos antepassados evangélicos ¢ reformados sabiam e valorizavam — as pérolas do mundo antigo. O reformador francés Joao Calvino (1509-1564), por exemplo, era um estudante avido dos pais da igreja. Ele nem sempre concordava com eles, nem mesmo com seus favoritos, como Agostinho de Hipona (354-430). Todavia, ele tinha profunda consciéncia do valor de conhecer o pensamento deles ¢ de usar as riquezas dos escritos deles para elucidar a fé crista em seus proprios dias.* No século seguinte, o tedlogo puritano John Owen (1616-1683), cha- mado corretamente, por muitos, de o “Calvino da Inglaterra’,’ nao demorou a usar a experiéncia de alguém que ele chamou de “santo Austin’, quer dizer, Agostinho, para Ihe servir como um tipo da conversio’ Também, o batista calvinista John Gill (1697-1771) cumpriu um papel importante em preservar © trinitarianismo entre seus colegas batistas num tempo em que outros gru- pos protestantes — por exemplo, os presbiterianos ingleses, os batistas gerais e grandes areas do anglicanismo — eram incapazes de reter uma compreensio firme sobre esta doutrina vital, totalmente biblica e patristica. O tratado The Doctrine of the Trinity Stated and Vindicated (A Doutrina da Trindade Afir- mada e Vindicada),’ de John Gill, era uma defesa eficiente do fato de que ha “somente um Deus; ha uma pluralidade na Di na Trindade; o Pai é Deus, 0 Filho é Deus, e 0 Espirito Santo ¢ Deus; essas trés indade; ha trés pessoas divinas 4 Ver Antony N. S. Lane, John Calvin: Student of the Church Fathers (Grand Rapids: Baker, 1999). Por exemplo, quanto & opinigo de Calvino sobre Basilio de Cesareia, ver D. F, Wright, “Basil the Great in the Protestant Reformers’, em Studia Paivistca, ed. Elizabeth A. Livingstone (Oxford: Pergamon, 1982), 17/3:1149-S0. Quanto a uma apreciagao mais geral dos Pais por parte dos reformadores, ver Geoffrey W. Bromiley, “The Promise of Patristic Studies em David F. Wells e Clark H. Pinnock, eds, Toward a Theology forthe Future (Carol Stream, IL: Creation House, 1971), 125-27. 0 mesmo assunto foi abordado por Ligon ‘Duncan, “Did the Fathers Know the Gospel’, Together for the Gospel Conference, Louisville, Kentucky, April 15, 2010, acessado em 19 de julho de 2010, http://vimeo.com/109S9890. Enquanto escrevo isto, minha atencao € atraida a uma resposta catélico-romana, apresentada por Bryan Cross, a palestra de Duncan, “Ligon Duncan's ‘Did the Fathers Know the Gospel?” Called fo Communion: Reformation Mects Rome, publicada no blog em 17 de julho de 2010, Das numerosas respostasa esta resposta de Bryan Cross, torna-se evidente que oestudo dospais da igreja & uma drea de grande interesse hoje e um empreendimento necessiio para os evangélicos, Sou grato ao Dr, Roger Duke por airair minha atengio a esta resposta, § Allen C. Guelzo, “John Owen, Puritan Pacesetter’, Christianity Today, May 21, 1976, 14 6 Ver Pnewnatologia: A Discourse Concerning the Holy Spirit, vol. 3 de The Works af Jokm Owen, ed. William H. Goold (repr. Edinburgh: Banner of Truth, 1965), 337-66. 7 The Doctrine of the Trinity Stated and Vindicated, 2nd. ed. (London: G. Keith and J. Robinson, 1752). A esséncia deste tratado foi incorporado a obra A Body of Divinity (London, 1769), de John Gill, que se tor- ‘nou o principal livro de teologia para muitos pastores batistas tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra 13. REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA pessoas sao distintas em personalidade, idénticas em substancia, iguais em po- der e gléria’’ Todavia, um exame casual deste tratado revela, imediatamente, que Gill era devedor ao pensamento e a exegese patristica, porque ele citou autores como Justino Martir (morreu cerca de 165), Tertuliano (influente em 190-220) e Teofilo de Antioquia (influente em 170-180). Um exemplo final da apreciacao dos pais por evangélicos do passado deve ser suficiente. John Sutcliff (1752-1814), um batista inglés da segun- da metade do século XVIII, foi tio impressionado pela Epistola a Diogneto, a qual ele supunha erroneamente ter sido escrita por Justino Martir, que a traduziu para a revista The Biblical Magazine, uma publicagéo calvinista de pequena circulacao. Ele a enviou para o editor deste periddico com o elogio de que esta obra do século II era “uma das mais valiosas pegas de antiguida- de eclesiastica’? QUEM SAO OS PAIS DA IGREJA? Em um verbete sobre “patristica’, no Diciondrio da Igreja Crist de Oxoford, uma obra de referéncia padrio sobre o cristianismo, os pais da igreja sao descritos como aqueles autores que “escreveram entre o final do século I... © 0 final do século VII’; ¢ isso abrange o que é chamado de “Era Patristica’ Estes autores, prossegue a verbete, defenderam o evangelho de heresias e enganos; eles apresentaram comentarios abrangentes sobre a Biblia, explicativos, doutrinarios e pré- ticos, e publicaram imtimeros sermées, principalmente sobre 0 mesmo assunto; exibiram o significado e as implicagdes dos credos; registraram, acontecimentos passados e presentes na histéria da igreja; e relaciona- ram a fé crista com o melhor pensamento de sua propria época."” 8 Gill, Doctrine of Trinity, 166-67. 9 The Biblical Magazine, 2 (1802), 42-48. A citagio é da pigina 41. Quanto a esta epistola, ver capitulo 3. 10 “Patristics", em L. F, Cross e E. A. Livingstone, eds, ‘The Oxford Dictionary of the Christian Church, 31d ed, (Oxford: Oxford University Press, 1997), 1233. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos Outra importante obra de referéncia que trata da histéria ¢ da teolo- gia do cristianismo, Christianity: The Complete Guide (Cristianismo: O Guia Completo) diz que, embora nao haja uma lista oficial dos pais, ha pelo menos quatro caracteristicas que denotam aqueles que merecem o titulo de pai da igreja: sua ortodoxia de doutrina, serem aceitos pela igreja como elos impor- tantes de transmissao da fé crista, sua santidade de vida e terem vivido entre 0 final da era apostdlica (c. 100) e as mortes de Joao de Damasco (c. 655/675-c. 749), no Oriente, e Isidoro de Sevilha (c. $60-636), no Ocidente."” Estudo recente dos pais, o artigo prossegue dizendo, tende a ampliar a categoria de pai da igreja para incluir algumas figuras da igreja antiga vistas com suspeita — ou seja, pessoas como Tertuliano e Origenes (c. 185-254). Este artigo também comenta que, devido ao surgimento da historiografia feminista, a eru- digao desta época esta agora disposta a falar sobre maes da igreja (“matristica’). Nao ha divida de que preocupagées feministas tém ressaltado a maneira como a historia da igreja tem sido ensinada com base numa perspectiva exclusivamen- te masculina. Mas o problema desta categoria de “mattistica” & que ha poucas mulheres da igreja antiga que podem ser estudadas com profundidade seme- Ihante ao estudo dos pais, visto que deixaram poucos remanescentes textuais.” No capitulo seguinte, comento brevemente o papel desempenhado por Vibia Perpétua (morta em 202) e Macrina (c. 327-c. 379). Todavia, embora eu gosta- ria de ter mais detalhes sobre estas mulheres fascinantes, qualquer andlise delas é restringido por limitagdes textuais significativas. LENDO OS PAIS DA IGREJA POR LIBERDADE E SABEDORIA” Por que os cristaos evangélicos deveriam procurar conhecer o pensa- mento ¢ a experiéncia destas testemunhas cristds antigas? Primeiramente, 0 11 "Church fathers em John Bowden, ed, Christan): Tae Complete Guide (Toronto: Novalis, 2005),243-44, 12 Ibid,, 244. Ver Patricia Cox Miller, Women in Early Christianity: Translations from Greek Texts (Washing- ton DG: The Catholic University of America Press, 2005). 13, Uma versio mais antiga dos poucos parigrafos seguintes aparecen antes como "Why Study the Fathers?’ Eusebeias ‘The Bulletin of the Andrew Puller Center for Baptist Studies 8 (Fall 2007): 3-7. Usado com permissio, 16 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA estudo dos pais, como qualquer estudo histérico, nos liberta do presente."* Cada época tem sua prépria perspectiva, pressuposigdes que permanecem nao questionadas até pelos oponentes. O exame de outra época de pensamen- to nos forga a confrontar nossos preconceitos naturais, que, de outro modo, ficariam despercebidos. Como observou acertadamente Carl Trueman, um tedlogo histérico contemporaneo: A propria natureza estranha do mundo em que os Pais viveram nos forca a pensar mais criticamente sobre nés mesmos em nosso con- texto. Por exemplo, nio podemos simpatizar muito com o ascetismo monastico; mas, quando entendemos como uma resposta do sécu- lo IV 4 velha pergunta de como devia ser um cristo comprometido numa época em que ser cristao comegava a ser facil e respeitivel, podemos, pelo menos, usé-lo como uma bigorna na qual podemos forjar nossa resposta contemporanea a essa mesma pergunta.'* Por exemplo, Gustaf Aulén, em seu estudo classico sobre a expiagio, Christus Victor, argumenta que um estudo objetivo de Patristica revela um tema que tem recebido pouca atencio no cristianismo posterior 4 Reforma: a ideia da expiagio como um conflito e vitéria divino em que Cristo luta e vence os poderes malignos, aos quais o mundo esté em servidio. De acordo com Aulén, 0 que é comumente aceito como a doutrina de expiagdo do Novo Testamento, a teoria forense de satisfacao divina, pode ser, na verdade, um conceito bastante estranho ao Novo Testamento. Se este argumento est certo ou nao — acho que cle esti bem errado — isso pode ser determinado somente por um novo exame das fontes, tanto o Novo Testamento como a Patristica. Em segundo, os pais podem nos prover um mapa para a vida crista. B realmente estimulante ficar na costa leste dos Estados Unidos, contemplar a 14 C.S. Lewis, “De descriptione temporum’ em Lewis, Selected Literary Essays, ed. Walter Hooper (Cam- bridge: Cambridge University Press, 1969), 12. 15 “The Fathers’, blog Reformation 21, 30 de abril de 2007, cessado em 23 de julho de 2010, http://www. reformation2.L org/blog/2007/04/the-fathers.php. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos arrebentagao do Atlantico, ouvir o barulho das ondas e, estando bastante per- to, sentir o borrifo salgado. Todavia, esta experiéncia ser de pouco proveito ao se navegar para Irlanda ou para as Ilhas Britinicas. Pois, neste caso, um mapa € necessirio — um mapa baseado na experiéncia acumulada de milhares de nave- gadores. Semelhantemente, precisamos desse tipo de mapa para a vida crista. Experiéncias sao proveitosas e boas, mas elas nao servem como um fundamento apropriado pata nossa vida em Cristo, Sendo exato, temos as Escrituras divinas, um fundamento imprescindivel e suficiente para todas as nossas necessidades como cristios (2Tm 3.16-17). Contudo, o pensamento dos pais pode nos aju- dar enormemente em edificarmos sobre este fundamento. Um 6timo exemplo se acha na pneumatologia de Atanasio, em suas cartas a Serapiio, bispo de Thmuis. Os dias atuais tém visto um ressurgimento do interesse na pessoa do Espirito Santo. Isto ¢ admiravel, mas também carre- gado de perigo, se o Espirito Santo ¢ entendido a parte de Cristo. Entretanto, 0 discernimento perspicaz de Atanasio era que “Através de nosso conhecimento do Filho podemos ter um verdadeiro conhecimento do Espirito”2* O Espirito nio pode ser divorciado do Filho. O Filho envia e da o Espirito, mas 0 Espi- rito € o principio da vida de Cristo em nés. Muitos tém caido em entusiasmo fandtico porque nio compreendem esta verdade basica: 0 Espirito nao pode ser separado do Filho. Ou considere a baliza colocada no panorama da historia da igreja pelo Credo Niceno-Constantinopolitano, chamado comumente de Credo Niceno.”” Este documento, embora nao seja infalivel, de modo algum, ¢ um guia seguro para a doutrina biblica de Deus. Ele nunca deve ser rejeitado como algo que nao tem valor, Fazer isso mostra uma evidente falta de sabedoria e discernimen- to, Lembro distintamente uma conversa que tive no inicio dos anos 1990 com um administrador de uma instituigdo académica com a qual eu estava associado, Durante a conversa, surgiu o assunto do Credo Niceno, ¢ este homem observou, com educacao, que nao havia meios de ele se prender a um documento feito por 16 Letter to Serapion 35. 17 Quanto a mais detalhes deste documento, ver capitulo 6. 17 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA homens, como este credo, Falando com sinceridade, fiquei horrorizado com sua atitude de rejeicao e considerei, e ainda considero, tal afirmacdo como o cimulo da tolice e 0 caminho certo para o desastre teolgico. LENDO OS PAIS DA IGREJA PARA ENTENDERO NOVO TESTAMENTO Em terceito, os pais podem, também, em alguns casos, ajudar-nos a entender 0 Novo Testamento. Temos mantido uma opiniao tio depreciativa da exegese patristica, que chegamos a considerar a exposigao biblica dos pais como um fracasso em entender o Novo Testamento."* Por exemple, Cirilo de Jerusalém (c. 315-387), em sua interpretagdo de 1 Corintios 7.5, que se refere Aabstinéncia temporaria de relagdes sexuais entre os conjuges em favor da ora- cdo, admite, sem questionar, que a oragio € liturgica e comunal.”” Cirilo talvez seja culpado de anacronismo, pois ele era um lider “na santificagao do tempo’, ou seja, a observancia dos tempos santos. No entanto, hi boa evidéncia de que esses tempos comunais de oragao eram, de uma forma ou de outra, bem antigos, A vida littrgica da igreja de Jerusalém no século IV nao era a mesma daigreja de Corinto no século I, mas, apesar disso, havia ligagdes. Talvez sejam os comentadores protestantes que sao culpados de anacronismo quando ad- mitem que Paulo se referia & oragao particular. Esse individualismo religioso é mais concebivel no protestantismo ocidental do que na Corinto do século I. Outra vez, na discussao recente da doutrina de salvagao exposta por Pau- lo, os proponentes da Nova Perspectiva tém afirmado que a opiniao reformada clissica sobre a justificacéo tem pouco fundamento em Paulo ou no resto do Novo Testamento. Dizem que ela é mais um produto do pensamento de Mar- tinho Lutero (1483-1546) e de Joao Calvino. Todavia, na Epistola a Diogneto, no século II, a qual ja nos referimos, achamos 0 seguinte argumento, que parece extraido diretamente das paginas de Lutero. O autor estava argumentando que 18 Quanto a um estudo da exegese patristica em Origenes, ver capitul 4. 19 Catechesis 4.25. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vit ara os evangélicos Deus nao revelava seu plano de salvacao a ninguém, exceto ao seu “Filho ama- do” até que os seres humanos compreendessem sua total e plena incapacidade de ganhar 0 céu por seu préprio esforgo. Depois, quando os homens ficavam conscientes de seu pecado e do juizo iminente, Deus enviava seu Filho, que ti- nha um carater totalmente puro, para morrer no lugar da humanidade, que é habitada por depravagao radical.” O que ¢ expresso nestas palavras estd de pleno acordo com a opinido reformada clissica sobre o significado da morte de Cristo em favor de nossa salvagio, Como B.S. Torrance observou em sentido geral [Ha uma] coeréncia fundamental entre a fé do Novo Testamento e a fé da igreja primitiva... A falha em discernir esta coeréncia em alguns segmentos tem evidentemente suas raizes no estranho abismo, im- posto por métodos analiticos, entre a fé da igreja primitiva e 0 Jesus histérico. Fm qualquer caso, tenho sempre achado dificil crer que nés, eruditos modernos, entendemos 0 grego do Novo Testamento melhor do que os Pais gregos primitivos!” LENDO OS PAIS DA IGREJA POR CAUSA DA MA PUBLICIDADE SOBRE ELES Também precisamos ler e conhecer os pais porque eles sao, as vezes, submetidos a ma historia ou a mé publicidade. Por exemplo, no best-seller 0 Cédigo Da Vinci, escrito por Dan Brown, o herdi, Robert Langdon, “descobre” que as expressdes contemporaneas do cristianismo, especialmente as da Igreja Catélica Romana, nao tém uma base histérica correta.* De acordo com olivro de Brown, foi somente no inicio do século IV, sob o reinado do imperador Constantino (c. 272-337), que a Biblia, em particular 0 Novo Testamento, foi reunida, Foi Constantino quem determinou a compilagao do Novo Testa- 20 Quanto a uma discussdo mais detalhada, ver eapftulo 3. 21 Space, Time and Resurrection (Grand Rapids: Berdmans, 1976), xi 22 Gene Edward Veith, “The Da Vinci Phenomenon’ World, May 20, 2006, 20-21. edigto do livrocitada aqui e nas notas posteriores ¢ The Da Vinci Code (New York: Anchor Books, 2006). 19 20 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA mento, como o conhecemos, para suprimir uma visio alternativa sobre Jesus apenas como um profeta humano. O livro expressaa opiniao de que no Con- cilio de Niceia, no século IV (em 325), que foi manipulado astutamente por Constantino, avido por poder, para atingir seus préprios objetivos, Jesus Cris- to foi “transformado... em uma divindade” e se tornou, pela primeira vez, um objeto de adoragao. O status divino de Jesus foi ratificado por uma “votacao relativamente apertada’ neste concilio.* Ambos os eventos aconteceram para ocultar o fato de Jesus era realmente casado com Maria Madalena,” teve um filho com ela’ ¢ pretendia que ela fosse a fundadora da igreja.” Os principais ensinos cristdos so, portanto, o resultado de um movimento de poder por Constantino e outros homens para esmagar uma mulher. Como Brown fez um de seus personagens dizer: “Tudo foi uma questdo de poder’* Brown tenciona, evidentemente, que essas afirmagées sejam mais do que aspectos-chave do contexto de conspiracao do seu livro. Como Greg Clark, diretor do Centre for Apologetic Scholarship na New College, da University of New South Wales, observa acertadamente, o livro de Dan Brown tem “inteng6es evan- gelisticas” e “o propdsito de mudar nossas vidas”” R. Albert Mohler, presidente do Southern Baptist Theological Seminary, vé o livro como um ataque nio muito sutil as verdades centrais do cristianismo biblico.” Visto que Brown faz refe- réncias claras & era patristica para apoiar sua teoria, é necessatio que qualquer resposta envolva o conhecimento exato do que realmente aconteceu em Niceia e do que a igreja dos séculos Ile III acreditava sobre Jesus. Nao somente Brown esta profundamente enganado sobre 0 Concilio de Niceia, no qual a decisao de aceitar 0 Credo Niceno foi terrivelmente a 23 Da Vinci Code, 231-32 24 Ibid, 233-35, 2S Ibid, 244-47, 26 Ibid, 255-36. 27 Ibid, 248-49, 28 Ibid, 233, 29 [sit Worth Believing? The Spiritual Challenge ofthe Da Vinci Code (Kingsford, New South Wales: Matthias Media, 2008), 25 30 “Historical Propaganda’, Tabletalk, May 2006, 12. Este exemplar de Tabletak ¢intitulado “The Da Vinci Hoax” e contém cinco artigos dedicados a examinar olivro de Brown. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos favor dele, mas também a igreja nos séculos II ¢ III tinha uma cristologia bas- tante elevada, na qual Jesus era adorado como Deus. Um bom exemplo é Melito de Sardes (morreu cerca de 190), pregador no século II. Os contem- pordneos achavam que Melito tinha uma vida notével por sua espiritualidade, embora as informagées sobre sua carreira sejam escassas. De seus 16 escritos cujos titulos sao conhecidos, existe somente um escrito completo, o sermio The Homily of Passion (A Homilia da Paixao). Do restante, existem apenas frag- mentos.”” Neste sermao, Melito, falando sobre a falha de Israel em reconhecer quem Cristo era, diz: ‘Vos nao viste a Deus. Nio percebeste, 6 Israel, o Senhor. Nao reconheceste o primogénito de Deus. Gerado antes da estrela da manha, Que adornouw a luz, Que iluminou o dia, Que dividiu as trevas, Que fixou 0 primeiro limite, Que pendurou a terra, Que subjugou o abismo, Que estendeu o firmamento, Que encheu o mundo, Que dispés as estrelas nos céus, Que acendeu os grandes luminares, Que fez os anjos no céu, Que ali estabeleceu tronos, Que formou a humanidade na terra. 31 Quanto & cristologia de Inicio de Antioquia e a Epistola a Diogncto, ver capitulos 2 3. Ito também & argumentado por Duncan, “Did the Fathers Know the Gospel?” 32 Quanto a estes escritos, ver Melito de Sardis: On Pascha and Fragmens, trad, Stuart G. Hall (Oxford: Clarendon, 1979), 63-79. 33 Homily on the Passion 82, em Melito of Sardis: On Pascha, trad, Alistair Stewart-Sykes (Crestwood, NY: St Vladimir's Seminary Press, 2001), 60. 21 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA ‘Vemos aqui um eco da soberania de Cristo sobre a criagao, 0 que, por implicagio, é uma celebragio de sua divindade. Pouco depois, no sermio, Melito explora o paradoxo da cruz e termina com uma confissio franca da deidade de Cristo: Aquele que pendurou a terra foi pendurado. Aquele que fixou os céus no lugar foi fixado no lugar. Aquele que deitou as bases do universo foi deitado numa drvore. O Senhor foi profanado. Deus foi assassinado.* Como Bart Ehrman, ele mesmo amigo do cristianismo ortodoxo, diz em resposta a Dan Brown: “Eruditos que estudam a histéria do cristianismo, acharao bizarro ouvir alguém [Brown] afirmar que, antes do Concilio de Ni- ceia, 0s cristaos nao consideravam Jesus como sendo divino”* Assim, quando a afirmacao do credo formulada em Niceia declarava sua crenga na divindade de Jesus, ela apenas afirmava aquilo que j4 era a conviccao central da igreja entre a era dos apdstolos ¢ o tempo do proprio concilio. LENDO OS PAIS DA IGREJA COMO UMA AJUDA NA DEFESA DA FE Os primeiros séculos da igreja viram o cristianismo ameagado por diversas heresias teolégicas: gnosticismo, arianismo e pelagianismo, citando apenas trés. Enquanto a historia nunca se repete com exatidio, a esséncia de muitas das heresias tem se repetido de tempos em tempos na longa historia do cristianismo. Por exemplo, o interesse da pés-modernidade em espiritua- lidade, embora seja contra o cristianismo, tem inmeras semelhangas com a 34 Homily othe Passion 96, in Stewark-Sykes, Melto of Sardis, 64. Quanto a1uma discussio da cristologia de Melito, ver p.28-29 dessa obra, 3§ Bart. Ehrman, Truth and Fiction in The Da Vinci Code: A Historian Reveals What We Really Know about Jesus, Mary Magdalene, and Constantine (Oxfords Oxford University Press, 2004), 15. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos extensa batalha contra o gnosticismo que ocupou a igreja durante os séculos II e III. O conhecimento da maneira como os cristaos defenderam, no passado, a fé contra o gnosticismo proveria hoje maneiras proveitosas de respondermos a espiritualidade pos-moderna.* Ou, o que poderiamos dizer sobre o desafio, um dos maiores de nos- sos dias, apresentados pelo ataque do islamismo a Trindade e a deidade do Senhor Jesus Cristo?” Falando de modo geral, os evangélicos estao horrivel- mente despreparados em sua habilidade de responder a esse ataque, pois eles raramente ouvem sermées sobre a Trindade e a encarnagio. Neste assunto, os Pais podem nos ajudar enormemente, pois, em resposta ao arianos ¢, poste- riormente, aos muculmanos, eles formularam os detalhes biblicos destas duas doutrinas cruciais. Considere a maneira como 0 tedlogo Joao de Damasco, também conhecido como Jodo Damasceno ou Yanah ibn Masur, um cristao instruido nas Escrituras, respondeu ao islamismo durante o primeiro periodo da expansao islamica.** Em um pequeno livro defendendo a fé e a cosmovisio do islamismo, Rana Kabanni identifica Joao Damasceno como “o progenitor deuma longa tradigao de zombaria crist de Maomé e do Alcorio”.” Joao usou realmente uma linguagem forte a respeito do islamismo, mas ¢ claro que ele tomou tempo para entender 0 pensamento ¢ as ideias islimicas ¢, até, leu 0 Alcorao em arabe.” 36. Um bom exemplo disto é uma tese de doutorado em Ministério escrita por Rev. Todd Wilson, de Munford (Tennessee), que eu mesmo estou supervisionando, “Back to the Puture: Irenaeus as a Pastoral: -Preaching Model for Answering Encroaching Neo-Paganism in the Contemporary Evangelical Church’ (tese de DMin, Knox Theological Seminary, a ser publicada). 37 Quanto a este ponto, devo-o a uma conversa que tive com um amigo proximo e meu ex-aluuno, Scott Dyer, de Burlington (Ontario), julho de 2010. 38 Quanto a vidae pensamento de Joao de Damasco, ver o estudo categérico escrito por Andrew Louth, St John. Damascene: Tradition and Originality in Byzantine Theology (Oxford: Oxford University Press, 2002). Quanto a descrigses breves, ver também Thomas FritzGerald, “John of Damascus’, em The Encyclopedia of Christianity, ed. Erwin Eablbusch, tans. Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: Berdmans; Leiden: E. J. Brill, 2003), 3:70-71; Bonifatius Kotter, “Johannes von Damaskus’, em Theolagische Realenzyklopiidic, ed. Gchard Miller (Berlin: Walter de Gruyter, 1988), 17:127-32. Uma versio em inglés de seus escritos esta disponivel em Frederic H. Chase Jr, Saint John of Damascus: Writings, The Pathers of the Church 37 (New York: Fathers of the Church, 1989). 39) Letter to Christendom (London: Virago, 1989), 4. 40 Ver Daniel J. Sahas, John of Damascus on Islam: The “Heresy of the Ishmaclites” (Leiden: E. J. Brill, 1972), passim; Louth, St. john Damascene, 76-83. 23, 24 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Como j4 notamos antes, Joio Damasceno é frequentemente descrito como o iiltimo dos pais no Oriente, cuja obra A Fonte do Conhecimento é a pri- meira grande teologia sistematica a aparecer na historia da igreja crista. Ele pode até ter sido um arabe, por etnicidade, visto que o nome de sua familia era Masur, um nome comum entre os cristdos siros de descendéncia arabe."' Seu avé, Ma- sur ibn Sargun, desempenhou um papel importante na rendicao de Damasco ao exército muculmano de Khalid ibn al-Walid (morreu cerca de 641). Os primei- ros governantes da Siria foram tolerantes a presenga de cristdos, e 0 av do Joio se tornou um administrador importante no governo muculmano da regido. O pai de Joao, Ibn Masur, era conhecido como um cristao dedicado, mas também como um dos mais confidveis oficiais no regime islamico. Jodo sucedeu seu pai como um conselheiro importante para o governante muculmano, califa Abd al- -Malik (reinou entre 685-705). Depois de uma vida longa de servico na esfera publica, Jodo deixou sua posicao publica, na primeira parte do século VIII, para adotar um estilo de vida monastico em um monastério perto de Jerusalém. Joao foi um escritor prolifico, e, entre suas obras, hé dois textos que se reportam ao is- lamismo: Sobre Heresias 101, uma segio extensa de uma obra que cataloga varias heresias que afligiam a igreja,* e Um Didlogo entre um Sarraceno e um Cristo. Vejamos brevemente a primeira destas obras, Sobre Heresias 101. O texto comega definindo o islamismo como a “superstigao dos isma- elitas ainda prevalecente que engana as pessoas” e o “precursor do Anticristo” Por descrever o islamismo como “ainda prevalecente’, Joio Damasceno indica © poder politico do isla em sua regiéo do mundo. Todavia, ele critica o isla como um erro enganador ¢ o identifica com 0 Anticristo, uma identificagio que ha muito tem prevalecido entre autores cristaos. Em seguida, Joao situa Maomé historicamente e identifica alguns de seus principais ensinos teoldgicos. Nas palavras de Joao, Maomé disse que 41 Sahas, ohn of Damascus on Islam, 7 42. Quanto a tradugdes para o inglés, ver Chase, Saint john of Damascus, 183-60; Sahas, John of Damascus on Islam, 133-41; ¢ Kevin P. Edgecomb, “St.John of Damascus on Islam’, Biblicalia, acessado em 7 de setembro de 2007, http://www.bombaxo.com /blog/?p=210. 43 Quanto a tradugoes para o inglés, ver by John of Damascus’ The Moslen World 2 Ian W: Voorhis, “The Discussion of a Christian and a Saracen, (1935): 266-73; Sahas, John of Damascus on Islam, 143-55. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos Hi um tinico Deus, 0 Criador de todas as coisas, que nunca foi ge- rado e nunca gerou. Ele diz que Cristo é a Palavra de Deus e seu Espirito, somente uma criagao e servo; e que ele foi nascido sem se- mente de Maria, a irmi de Moisés e Ario. Pois ele diz que a Palavra de Deus ¢ 0 Espirito vieram a Matia, e ela deu a luz Jesus, que era um profeta e servo de Deus; e que os judeus, agindo contra a lei, quise- ram crucificé-lo e, havendo detido (a ele), crucificaram a sua sombra. Pois Cristo mesmo, ele diz, nao foi crucificado, nem morreu, visto que Deus mesmo o tomou para o céu, porque o amava.* Aqui Joio relatou com exatidio 0 ensino do islamismo, de que Cristo nao foi crucificado, mas que “Deus 0 levou para si mesmo”; isso €, realmente, uma afirmagao herdada do gnosticismo!* E evidente que esta afirmagao se choca com o Amago do cristianismo biblico, no qual a morte de Cristo em favor de pecadores € totalmente central. Se Cristo nio mor- reu por nossos pecados, o pecado humano permanece sem expia¢ao, nao ha salvagio, e, obviamente, Cristo nao ressuscitou dos mortos, nem havera ressurreigao de todos os que creem nele. O ensino islimico resumido por Joao também se opoe a realidade histérica, pois nenhum historiador sério duvida da realidade da crucificagao, nao importando o que ele pense sobre a fé crista.* Depois, Jodo prossegue para abordar a critica mulcumana da Trin- dade. Edles nos chamam de Associadores, porque, dizem eles, ntroducimos um associado a Deus, por dizermos que Cristo é0 Filho de Deus e Deus. Para eles dizemos que isto é o que as Escrituras ¢ os Profetas transmitiram. E 44 Edgecomb, “St. John of Damascus on Islam’. 45. Alcorio 4.157-S8. Hi, porém, dois outros textos ~ Alcorio 3.54-55 ¢ 19.2934 — que dio a entender que Cristo morrea. 46 F.P.Cotterell, “The Christology of Islam’, em Christ the Lord, ed. Harold H. Rowdon (Leicester: Inter ‘Varsity, 1982), 290-95, passim; Geoffrey Parrinder, Jesus in the Qurian (New York: Bames e Noble, 1965), 116. 25, 26 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA vocé, como voce insiste, aceita os Profetas. Se, portanto, estamos errados em dizer que Cristo € 0 Filho de Deus, aqueles que nos ensinaram e trans- mitiram isso também estado errados Aqui, Joio combate outra questao-chave que o islamismo tem com 0 cristianismo, ou seja, 0 seu trinitarianismo. Em algumas regides que sio cristis, 0 islamismo tem um apelo agradavel, ou seja, sua simplicidade como uma fé monoteista - Deus ¢ um, e nao ha outro que seja Deus - oposta ao cristianismo que tem sua teologia complexa em referéncia 4 Trindade e a en- catnagio Mas, como Joao Damasceno mostra cortetamente, a afirmacio crista da divindade de Cristo — ¢, por extensio, da divindade do Espirito Santo ~ esta nas Escrituras. Os cristaos sio trinitarianos porque o Novo Testamento é trinitariano. Portanto, eles devem se esforgar para ter algum entendimento destas verdades, embora, em tiltima andlise, elas estejam além da capacidade humana de compreendé-as totalmente. Joao esta respondendo com clareza a declaracao do Alcorao que diz: Pessoas do Livro, nao ide ao excesso em vossa religiao e nada digais a respeito de Deus, exceto a verdade: o Messias, Jesus, filho de Maria, era nada mais do que um mensageiro de Deus, sta Palavra, confiado a Ma- ria, um espirito dele. Portanto, crede em Deus e em seus mensageiros e nao faleis de uma “Trindade” — abstende-vos [disto], que é melhor para vos — Deus é um tinico Deus; ele esta muito além de ter um filho.” 47 Edgecomb, “St. John of Damascus on Islam 48.A simplicidade do islamismo oposta 3 complexidade do cristianismo é bem vista na diferenca arquitet nica entre igrejas desta era eas mesquitas, Por exemplo, a grande igreja cle Sio Apolinario que foi construica ‘nos anos 530, perto de Ravena, no Norte da Itilia,¢ ricamente decorada com mosaicos altamente adorna- ddos para impressionar o observador ¢ convencé-lo de que o cristianismo é uma fé marcada por “splendor real Por contraste, a Grande Mesquita de Cordoba, construida apés a conguista da Espanha visigstica, nas primeiras duas décadas do século VIIL, ndo tem qualquer imagem, sendo extremamente simples em seu desenho e omamentacio. Esta simplicidade no desenho arquiteténico se harmonizava com a simplicidade da teologiaislamica e se tornou um atrativo para muitos. Ver Yoram Tsafrir, “Ancient Churches in the Holy Land’, Biblical Archeology Review 19, no. § (October, 1993): 30; Robert Milburn, Early Christian Art anid Architecture (Aldershot: Scholar Press, 1988), 173. 49 Alcordo 4.171, Ver também Alcorio $.72-73 e §.116-17, que inclui Maria na Trindade. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos Vemos aqui algo do monoteismo ardente do islamismo. A resposta de Jodo tem de ser, em tiltima an ise, a nossa resposta, Mas, o que o Novo Testamento afirma e 0 que o nosso proprio Senhor disse a respeito de si mesmo? Embora a doutrina da Trindade seja dificil de compreender, ela éa verdade biblica, e precisamos saber como proclamé-la. Em outro texto em que Joao de Damasco explica 0 amago da fé crista, A Fé Ortodoxa, ele diz o seguinte sobre a redencao que Cristo trouxe, ¢, embora nio mencione explicitamente o islamismo, ele faz um contraste claro entre as duas religiées: Desde a vinda do Senhor Jesus Cristo, Altares e templos de {dolos foram destruidos, O conhecimento de Deus foi implantado. A Trindade consubstancial, a Divindade nao ctiada é adorada, tinico Deus verdadeiro, Criador e Senhor de tudo. ‘A virtude é praticada. A esperanga da ressurreigao foi garantida mediante a ressurreigio de Cristo. Os deménios temem perante 0 homem que antes estava no poder deles. Sim, e 6 mais maravilhoso de tudo 6 que todas estas coisas foram realizadas com sucesso por meio de uma cruz, sofrimento e morte. O evangelho do conheci- mento de Deus tem sido pregado a todo 0 mundo e colocado os adversarios em fuga nao por meio de guerras, armas ¢ acampamen- tos. Antes, isso aconteceu por meio de poucos homens desarmados, pobres, iletrados, perseguidos, afligidos e mortos, que, por pregarem ‘Aquele que foi crucificado na carne, prevaleceram sobre os sibios e poderosos, porque o poder supremo do Crucificado estava com eles. O fato de que a morte era antes algo tio terrivel foi vencido e Aquele que antes era rejeitado e odiado é agora preferido a vida. Estes sao 08 sucessos consequentes a vinda do Cristo; estes sio os sinais do seu poder. © Cristo, 6 sabedoria e poder, a Palavra de Deus e Deus todo-pode- roso! O que podemos nés, pessoas sem recursos, dar-te em retorno por todas as coisas? Pois todas as coisas sio tuas, e tu nada pedes de 27 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA 28 nds, exceto que sejamos salvos. [E] até isto nos das, e, por tua bonda- de inefavel, és gracioso para com aqueles que o aceitam.” LENDO OS PAIS DA IGREJA PARA OBTER ALIMENTO ESPIRITUAL Os cristdos, como todos os seres humanos, sao seres histérico. Sua vida esta intimamente ligada ao passado, ao seu proprio passado imediato ou ao passado de outros seres humanos. Como Gilbert Beers, um antigo editor de Christianity Today, comentou: “Devemos muito a muitas pessoas que nun- caconhecemos” Em tempos idos, quando havia uma reveréncia pelo passado, esta realidade era reconhecida com gratidao. Mas, como Beers comentou em seguida; “Vivemos em uma sociedade descartavel; descartamos coisas que consideramos um fardo, Minha preocupagio é que nao acrescentemos nos- sos predecessores a colegio de coisas descartadas, rejeitando negligentemente aqueles que nos tornaram 0 que somos’.*' O estudo dos pais da igreja, como o estudo da historia da igreja em geral, informa os cristaos sobre os seus pre- decessores na fé, aqueles que ajudaram a moldar suas comunidades cristas e, assim, as tornaram 0 que elas sio, Esse tipo de estudo tece humildade e mo- déstia na urdidura ¢ na trama da vida cristé e, como tal, pode exercer uma profunda influéncia santificadora. Em Hebreus 13.7, 0 autor desta parte das Escrituras Sagradas exortou seus leitores a “lembrar” seus Iideres passados, aqueles que pregaram a Pala- vra de Deus para eles. Deviam examinar atentamente (anathedrountes) 0 “fim” ~“totalidade” ou “tealizacao” (ekbasin) - do comportamento diario deles, ma- nifestado em toda a vida.” Aqui temos uma razao importante para estudarmos a historia da igreja e, em especial, os pais da igreja. Nos confessores ¢ martires da era anterior a Constantino, por exemplo, temos muitos modelos do que 50 An Exact Exposition ofthe Ortodox Faith 44, em Chase, Saint fon of Damascus, 338-39, alterado. 51 Christianity Today, November 26, 1982, 12. 52. Philip Edgcumbe Hughes, A Commentary on the Epistle to the Hebrews (Grand Rapids: Eerdmans, 197), $69; William L, Lane, Hebrews 9-13, World Biblical Commentary 47b (Dallas: Word, 1991), $22. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos significa ser um cristéo em uma sociedade hostil, uma situacdo com a qual se deparam muitos crentes ao redor do mundo hoje e, crescentemente, no Oci- dente.* Naquela época, durante aqueles dias no século IV, quando a doutrina da divindade de Cristo e de seu Espirito estava sob ataque, temos modelos do que significa ser comprometido com fidelidade doutrinaria. Quanto a isto, vale a pena comentar que John Wesley (1703-1791), um dos pais do meto- dismo, a0 enviar uma carta de encorajamento ao jovem abolicionista William Wilberforce (1759-1833), pode citar 0 exemplo da obstinagio de Atanasio em defender a divindade de Jesus. Escrevendo uma semana antes de sua mor- te, o idoso evangelista cristo disse a Wilberforce a respeito de sua luta contra 0 comércio de escravos: ‘A menos que o poder de Deus o tenha levantado para que seja um Atanasio contra mundum, nao vejo como yocé pode prosseguir em seu glorioso empreendimento, em opor-se a vileza abominavel que € 0 escindalo do cristianismo, da Inglaterra e da natureza humana. A menos que Deus 0 tenha levantado para isto mesmo, vocé ser derro- tado pela oposigo de homens e deménios; mas, se Deus é com vocé, quem pode ser contra vocé. Todos os homens juntos sao mais fortes do que Deus? Oh! Nio se canse de fazer o bem. Prossiga em nome de Deus e na forca do seu poder, até que a escravidao americana, a pior que o sol jé viu, seja aniquilada pelo poder de Deus. Wesley comegou esta carta fascinante com uma referéncia A defesa de Atandsio quanto a divindade de Cristo durante mais de 30 anos, apesar de exilioe perseguigio. Atandsio s6 foi capaz de manter esta luta, subentende ‘Wesley, porque Deus 0 capacitou a perseverar. De modo semelhante, a menos que Deus capacitasse Wilberforce na luta para abolir a instituigao da escrava- tura, cle cairia diante daqueles que apoiavam a “vileza abominavel”. 53 Trueman, “The Fathers’ $4 Frank Whaling, ed, Jolin and Charles Wesley: Selected Prayers, Hymns, Journal Notes, Sermons, Letters and ‘Treatises (New York: Paulist, 1981), 170-71 29 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Nao ha divida de que gerac6es de crentes tém achado nos escritos de homens como Basilio e Agostinho alimento para a alma, do qual os evangéli- cos do passado eram bem cientes. Wesley, por exemplo, publicou uma colegio de 0 volumes de classicos espirituais, The Christian Library (1750), para os seus pregadores leigos, O que vale a pena salientar € que ele inclui certo ntme- ro de classicos espirituais patristicos: alguns dos escritos dos pais apostdlicos, os atos dos primeiros mirtires cristios e os sermées espiritualmente ricos de Macatius Simeon (influente no século IV). Os crentes evangélicos precisam recapturar a sabedoria neste aspecto de nossos antepassados espirituais. ESTE LIVRO SOBRE OS PAIS DA IGREJA Estas raz6es sio apenas um comego em direcdo a dar uma resposta satisfatoria 4 pergunta “Por que estudar os pais da igreja?”* Ha, certamente, outras raz6es para se estudar esses autores antigos que podem ser mais dbvias ou mais importantes. Mas as razdes que jé apresentamos indicam suficien- temente a necessidade de estudo das pais na vida da igteja: ajudar em sua libertagio do espirito do século XXI; prover um guia em seu andar com Cris- to; ajudé-a a entender o testemunho bisico de sua fé, 0 Novo Testamento; refutar as mas histérias sobre a igreja antiga; ser um instrumento de nutrigio espiritual. Neste livro, procuro recomendar a leitura e o estudo diligente dos pais da igreja por considerar varios deles. Os pais da igreja especificos que foram escolhidos - Inacio de Antioquia (influente em 80-107), 0 autor da Episto- la a Diogneto, Origenes (c. 185-254), Cipriano (c. 200-258), Ambrésio (c. 339-397), Basilio de Cesareia e Patricio (c. 389-461) - sio homens que te- nho ouvido e com os quais tenho andado por mais de trés décadas.* Outros poderiam ter servido também como uma introducio aos pais - homens como Irineu de Lion (c. 130-200), Atandsio, os outros dois capadécios além de Ba- 58 Ver,suplementarmente, Paul A. Hartog, “The Complexity and Variety of Contemporary Church ~ Barly Church Engagements’, em Hartog, Contemporary Church and the Early Church, 1-26. 56 Quanto a uma teflexio sobre este andar com os pais, ver capitulo 8. Redescobrindo os Pais da Igreja: uma necessidade vital para os ewangélicos silio, Gregério de Nazianzo (c. 329-389/390) e Gregorio de Nissa (c. 335-c. 394). O que foi critico nao foi a escola deles, e, sim, as questdes que eles enfrentaram em sua vida como crentes, pois estas questdes sao centrais 4 era patristica: martirio, monasticismo e discipulado; testemunho para um mun- do incrédulo e missao; 0 canon ea interpretagao das Escrituras; e a suprema questao desta era — a doutrina da Trindade e adoragao. Una palavra final sobre os pais antes de penetrarmos em seu mundo antigo. Os Pais nao sio as Escrituras. $40 companheiros experientes de con- versa sobre as Escrituras e seu significado, Nés os ouvimos com respeito, mas nao tememos discordar quando eles erram. Como os reformadores argumen- taram corretamente, os escritos dos pais tém de ser subjugado as Escrituras. John Jewel (1522-1571), 0 apologista anglicano, expressou isso muito bem quando disse: © que dizemos sobre os pais, Agostinho, Ambrosio, Jeronimo, Ci- priano, etc.? O que devemos pensar sobre eles ou que descri¢io podemos fazer sobre eles? Eles so intérpretes da Palavra de Deus. Sio homens eruditos e pais eruditos, instrumentos da misericérdia de Deus e vasos de plena graga. Nio os rejeitamos, nés os lemos, os respeitamos e damos gracas a Deus por eles. Eles foram testemunhas da verdade, foram os pilares ¢ ornamentos valiosos na igreja de Deus, Contudo, eles nao podem ser comparados com a Palavra de Deus. ‘Nao podemos edificar sobre eles; nao podemos tornd-los o funda- mento ¢ 0 padrio de nossa consciéncia, Nao podemos colocar neles a nossa confianga. Nossa confianca esti em o nome do Senhor.” $7 Citado em Barrington R. White, “Why Bother with History?", Baptist History and Heritage 4 (July 31 CAPITULO 2 MORRENDO POR CRISTO O Pensamento de Inacio de Antioquia As coisas que me aconteceram tém, antes, contribuido para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais. FILIPENSES 1.12-13 as sete cartas de Inacio de Antioquia, possuimos uma das mais ricas fontes para entender o cristianismo na era imediatamente posterior 20s apéstolos.' Embora sejam um pouco desconexas em estilo e cheias de embelezamentos retéricos, estas cartas manifestam, citando as pa- lavras do erudito biblico Bruce Metzger, “uma fé tio vigorosa e um amor tio intenso por Cristo, que as tornam uma das mais excelentes expressdes literd- rias do cristianismo durante o século II’? 1 Grande parte deste capitulo apareceu na forma de um artigo intitulado "Come to the Father: Ignatius of ‘Antioch and His Calling to Be a Martyr’, Themcios 32, no. 3 (May 2007): 26-39. Usado com permis. ‘Themelos & agora um jornal digital operado por The Gospel Coalition. Ver http://thegospelcoalition.org/ publications/? /themelios. Rowan Williams, Christan Spirituality (Atlanta: John Knox, 1980), 14 2 The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance (Oxford: Clarendon, 1987), 44 34 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA E evidente que trés preocupagées eram predominantes na mente de Inacio quando ele escreveu suas cartas.* Antes de tudo, ele anelava ver unidade em cada nivel na vida das igrejas locais para as quais escrevia. Em suas proprias palavras, ee era um homem “dedicado a causa da unidade”* £ importante no- tar que seu compromisso com a unidade crista nao sobrepujou a paixao pela verdade. Unidade era unidade no evangelho e na fé crista. Portanto, a segun- da grande preocupagio de Inicio era um desejo ardente de que seus colegas crentes permanecessem firmes na fé comum, para guardarem-se das heresias. Enquanto nao ha um consenso erudito quanto ao ntimero de heresias em vista nas cartas de Inacio,’ é claro que uma das heresias era uma forma de docetis- mo, a qual afirmava que a encarnacao de Cristo e, por consequéncia, sua morte e ressurrei¢io nao aconteceram realmente. Por tiltimo, Inacio foi zeloso em recrutar a ajuda de seus correspondentes para completarem com éxito a sua propria vocagio, que nao foi nada mais do que uma chamada ao martirio.° Todas estas trés areas das cartas de Inacio tém ocasionado tanto im- portante elaboracio erudita como critica severa. Das trés, 0 desejo de Inacio por martirio tem causado 0 maior criticismo, visto que imimeros eruditos tém sugerido que os comentirios de Incio sobre a sua morte revelam um homem mentalmente desequilibrado. W. H. C. Frend, em seu estudo monumental 3. John E. Lawyer Jr, “Bucharistit and Martyrdom in the Letters of Ignatius of Antioch’, Anglican ‘Theological Review 73 (1991): 281. Tem havido debates sobre a autenticidade das cartas. Foi o arcebispo calvinista irlandés James Ussher (1581-1656) quem abriu o caminho para a perspectiva moderna sobre © que constitui as cartas autnticas de Inicio. Ver sua obra Polycarpi et Ignatii epistolae (Oxford, 1644), Quanto a transmissio do texto destas cartas, ver também um breve resumo feito por Andrew Louth, “Ignatius of Antioch’, em Early Christian Writings: The Apostolic Fathers, trad. Maxwell Staniforth (1968, repr. Harmondsworth, UK: Penguin, 1987), 55-56. Daqui para frente, esta tradugao sera citada como Staniforth, Early Christian Writings. Quanto a autenticidade, ver também Christine Trevett, A Study of Ignatius of Antioch in Syria and Asia (Lewiston: Edwin Mellen, 1992), 9-15. 4 Indcio, Filadelfos 8.1, em Staniforth, Early Christian Writings, 95. Ver também Inicio, Policarpo 1.2; Filadelfos, 7.2. § Por exemplo, Charles Thomas Brown, The Gospel and Ignatius of Antigch (New York: Peter Lang, 2000), 176-179, cré que ha dois grupos heréticos em vista, judaizantes gentios e gnésticos. Se isto é verdade, © primeiro grupo ¢ abordado em Magnésiose Flavelfos, enquanto os gndsticos sio respondidos em Tralianos ¢ Esmimeanos. Quando a outras contribuigSes proveitosas para esta discussio, ver L. W. Barnard, “The Background of St. Ignatius of Antioch’, Vigiliae Christianae 17 (1963): 193-206; Trevett, Study of Ignatius of Antioch, 194-99; Jerry L. Sumney, “Those Who ‘Ignorantly Deny Him: The Opponents of Ignatius of Antioch’, Journal of Early Christian Studies (1993): 345-65. 6 Valea pena dizer que Inicio nunca usou o termo midrtir como um termo técnico, Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia Martyrdom and Persecution in the Early Church (Martirio ¢ Perseguicao na Igreja Primitiva), descreve as cartas de Inacio como que mostrando “um es- tado de exaltacdo que beira a obsessio”’ G. E. M. de Ste. Croix afirma com franqueza que Inacio tinha um “anseio patologico” pela morte, que é 0 sinal seguro de uma “anomalia mental’.* Um estudo cuidadoso do pensamento de Inacio sobre a sua propria morte revela um homem que sabia corretamente que o crer ctistéo exige um envolvimento fervoroso de toda a pessoa, até a ponto de morte fisica. Emprestando algumas palavras do tedlogo contempo- rineo Kevin Vanhoozer, o martitio para Inacio era “uma poderosa forma de ado que manifestava a verdade’, ou seja, a verdade sobre Cristo ¢ sobre o pré- prio Indcio como cristao? Em um estudo das diferengas entre as cartas de Inacio, Mikael Isac- son observou corretamente que as cartas de Inacio aos romanos e a Policarpo (69/70-155/160) sao, em esséncia, diferentes das outras cinco. A carta escrita para Policarpo é a tinica dirigida a um individuo e contém, em sua maior parte, exortacdes de um bispo para outro. A carta escrita para os romanos ¢ dirigida a.uma igreja com a qual Inacio nao tinha ligagéo pessoal, diferentemente das outras cinco igreja para as quais ele enviou cartas. Com relagio ao contetdo da carta dirigida aos romanos, ela € bastante focalizada: é sobre o seu martirio iminente."" A carta de Inacio centrada no martirio dirigida aos romanos sera, portanto, o foco da seco central deste capitulo." ‘Também devemos observar que a carta aos romanos nao tem sauda- 40 a um bispo em Roma. Em todas as outras cartas, Inacio fala do bispo da congregacao 4 qual ele escreve, mas ele nao faz isso na carta enviada a Roma. 7 Martyrdom and Persecution in the Early Church (Oxford: Basil Blackwell, 1965), 197. 8 “Why Were the Early Christians Persecuted? Past and Present 26 (November 1963): 23-24, Ble sugere também que Inicio éo precursor de um tipo de martiriacristao criticado fortemente pelos lideres daigreja, © martirio voluntitio (ibid.). Nao hi qualquer evidéncia que apoie esta sugestio. 9) First Theology: God, Scripture and Hermeneutics (Downers Grove, IL: InterVarsity: Leicester, England: Apollos, 2002), 364-65, 10 To Each Their Own Letter: Structure, Thentes, and Rhetorical Strategies inthe Letters of Ignatius of Antioch (Stockholm: Almgyvist & Wiksell, 2004), 20, 11 Quanto & expressao cenfrada no martirio, sou devedor a Lucy Grig, Making Martyrs in Late Antiquity (London: Duckworth, 2004), 16. 3S. 36 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Nao importando qual seja a razao para a omissao, fica evidente que, na ecle- siologia de Indcio, o bispo ¢ vital para a unidade da igreja local.’? Assim, por exemplo, a tinica celebragio vilida da Ceia do Senhor é aquela que o bispo preside." E somente 0 casamento que se realiza com 0 consentimento do bis- po pode ser descrito como um casamento cristao (kata kyrion).'' Ao lermos estas afirmagoes sobre 0 episcopado, ¢ importante lembrarmos 0 contexto em que elas sio emitidas. As comunidades para as quais Inicio escreve lutam com a presenca de heresia, e Inacio esta convencido de que um lider ortodoxo na congregacio, 0 bispo, pode assegurar a ortodoxia da congregacio. Nao ocorre, pelo menos para este leitor das cartas de Inacio, que o bispo de Antioquia é “exageradamente encantado com a ideia do monoepiscopado per se”. Devido a preocupagio de Inacio em refutar heresias, nio é surpreen- dente ach-lo ligando os temas de martirio e cristologia ortodoxa. Esta ligagio é feita primariamente na carta aos esmirneanos ¢ seré examinada perto do fi- nal deste capitulo. Primeiramente, veremos como a perseguicao de cristaos como Inicio suscitou a necessidade de ser descrita, e, depois, em segundo, 0 que pode ser conhecido sobre a viagem de Inacio para Roma e 0 contexto histdrico imediato de suas cartas precisam ser apresentados. O MARTIR CRISTAO Nossa palavra martir ¢ derivada do grego mértus, que era, original- mente, um termo juridico usado sobre uma testemunha em um tribunal. Essa pessoa “tem o conhecimento ou a experiencia de certas pessoas, eventos ou circunstancias e, por isso, est4 numa posicao de falar abertamente e faz isso’."® 12 Ver por exemplo, Magnésios 13.1-2; Esmimacanos 8-9; Filadeljos 7.1-2; Policarpo 6.1. 13 Esmirneanos 8.1 14 Policarpo $2. 15 Kenneth A. Strand, “The Rise of the Monarchical Bpiscopate’, Andrews University Seminary Studies 4 (1966): 77. Quanto a uma discussio esclarecedora do ponto de vista de Indcio sobre a lideranca da igreja local, ver Allen Brent, “The Ignatian Epistles and the Threefold Ecclesiastical Order’, The Journal of Religious History 17, no. 1 (June 1992): 18-32 16 Allison A. Trites, The New Testament Concept of Witness (Cambridge: Cambridge University Press, 197), 9. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia No Novo Testamento, a palavra e seus cognatos sao aplicados frequentemente aos cristaos, que dao testemunho de Cristo, muitas vezes perante as cortes da lei, quando suas afirmagées sao contestadas, e sua fidelidade ¢ testada pela perseguicio. A transigdo desta palavra nas primeiras comunidades cristas de “tes- temunha” para o que vocdbulo “martir” envolve é um excelente indicador do que estava acontecendo aos cristaos quando eles davam testemunho de Cristo no século I. Em Atos 1.8, Jesus diz aos apéstolos que eles seriam suas “teste- munhas” (mdrtires) em Jerusalém, Judeia, Samaria e até aos confins da terra. Nesta altura, a palavra nao tinha uma associagao com a morte, embora em Atos 22.20 lemos sobre o derramamento do “sangue de Estévao’, a “testemunha” do Senhor. Contudo, foi somente no final dos escritos do Novo Testamento que a palavra mdrtir adquiriu uma associacao com a morte.” No final da era apostélica, o Cristo ressurreto, em Apocalipse 2, elogia seu servo Antipas, sua testemunha “fiel’, que fora morto por causa da fé crista em Pérgame, “onde Satanas habita” (Ap 2.13). Pérgamo, devemos ressaltar, era um centro importante da adoracao do imperador na Asia Menor, a pri- meira cidade da provincia a construir um templo para um imperador romano, a saber, César Augusto. Pode ter sido a recusa de Antipas em confessar Cé- sar como Senhor e em adora-lo que causou o seu martirio."* A palavra martir parece ter adquirido seu significado futuro, primeiramente, nas comunidades cristis da Asia Menor, onde o encontro entre a igreja e o império foi especial- mente violento.!” Neste respeito, nao era casual que a Asia Menor “gostava de modo incomum” do violento entretenimento dos shows de gladiadores. De fato, havia uma escola de treinamento para gladiadores em Pérgamo. Junta- 17 CE.G.W.Bowersock, Martyrdom and Rome (Cambridge: Cambridge University Press, 1995), 1-21 18 Paul Keresztes, "The Imperial Roman Government and the Christian Church, I. From Nero tothe Sever!’ ieg und Niedergang der romischen Welt, 2.23.1, ed. Wolfgang Haase (Berlin: Walter de Gruyter, 1979), 272; G.K. Beale, The Book of Revelation (Grand Rapids: Berdmans, 1999), 246, Em contraste com 0 que argumentei sobre este ser 0 caso do uso téenico posterior de martir, Bowersock (Martyrdom and Rome, 14-15) sustenta que Antipas nao fo tum matir“porque ele foi mort e sim uma testemnunha que foi morta’ 19 Theofried Ranmeister, “Martyrdom and Persecution in Early Christianity’ trad. Robert Nowell, em ‘Martyrdom Today, ed. Johannes-Baptist Metz and Edward Schillebeeckx (Edinburgh: T&T Clark; New York: Seabury, 1983), 4, 37 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA mente com esta fascinagao por tal violéncia, teria havido uma demanda por vitimas acima dos gladiadores requisitados, Assim, tinha-se o recurso dematar cristios, entre outros.” Por isso, a palavra murtir se tornou restrita, em seu uso, a um tinico significado: dar testemunho da pessoa e da obra de Cristo até a ponto de morte. PERSEGUICAO ROMANA EJUDAICA CONTRAA IGREJA Inicialmente, a violencia contra a igteja nao veio do estado romano, e sim do préprio povo de Jesus, os judeus. Este fato é bem ilustrado pelo incidente registrado em Atos 18.12-16, quando alguns dos lidetes judeus procuraram arregimentar a ajuda do estado romano para expulsar 0 apéstolo Paulo de Corinto, Expuseram seu caso ao procénsul da Acaia, Lucius Junius Gallio (morreu em 65), o irmao mais velho de Séneca (morreu em 65), men- tore conselheiro do imperador Nero (37-68). Acusaram o apéstolo de ensinar as pessoas a adorarem a Deus de maneiras que violavam a lei romana. Toda- via, em contrario a sua expectativa, Galio considerou claramente a contenda entre os judeus ¢ 0 apéstolo Paulo como algo interno do judaismo ¢ de nenhu- ma preocupagio para o governo romano. Nesta passagem, o ataque a igreja procedeu daqueles judeus que recusavam aceitar a mensagem de que Jesus erucificado e ressuscitado era 0 Messias esperado. De fato, durante aqueles primeiros dias do cristianismo, conforme registrados no livro de Atos, foram os judeus que atacaram a igreja. Foram eles que prenderam os apéstolos Pedro e Jodo e os ameagaram com punicio, se pregassem em nome de Jesus (At 4.1-22). Pouco tempo depois, eles pren- deram os apéstolos, acoitaram-nos e hes ordenaram que nao pregassem de novo em nome de Jesus (At 5.17-41). Foram eles que mataram Estévao, 0 primeiro martir (At 7). Um dos principais perseguidores judeus era Saulo/ Paulo, que, em sua viagem a Damasco, para atacar a igreja, com esperanca 20 Bowersock, Martyrdom and Rome, 17-18; Keresttes, “The Imperial Roman Government and the Christian Church’ 272. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia de destrui-la, foi impedido no meio da viagem ¢ transformado numa pessoa que amava a Jesus, a quem antes ele odiava (At 9.1-19). Quando este ex- -perseguidor transformado em pregador cristo comegou a proclamar Jesus como 0 Mesias, os lideres judeus, tanto em Damasco como em Jerusalém, procuraram mata-lo (At 9.22-25, 29). Foi Herodes Agripa, o meio-judeu, que matou o apéstolo Tiago e prendeu Pedro com a intengao de fazer o mes- mo com ele (At 12.1-19). Depois, medida que Lucas descreve o ministério do apéstolo Paulo em cidades e lugares gentios, mostra que foram os lide- res de sinagogas judaicas que, vez apés vez, comprovaram ser os oponentes mais ferozes do evangelho." Por volta dos anos 60, durante o reinado do imperador romano Nero, © cenério era completamente diferente. Em meados de julho de 64, um in- céndio comecou no coracao da cidade de Roma e se tornou incontrolavel por quase uma semana, devastando a maior parte da cidade. Depois que o incén- dio foi debelado, espalhou-se 0 boato de que o préprio o Nero 0 comegara, pois todos sabiam que ele queria demolir a capital do império para reconstruir a cidade em um estilo que se harmonizava com sua concepgio de sua propria grandeza. Ciente de que tinha de atenuar as suspeitas de que ele era respon- savel pelo incéndio, Nero lancou a culpa sobre os cristéos.2* Muitos cristaos, incluindo 0 apéstolo Pedro, conforme uma tradigao que parece ser genuina,” foram presos e executados. O seu crime foi incéndio criminoso. O historiador romano Ticito (c. $6-.c. 120) parecia duvidar da realidade disto, embora acte- ditasse que os cristios eram corretamente “detestados por seus erros’. O texto de Tacito menciona somente um erro explicito: “édio da raga humana’. Por 21 Ver, por exemplo, Atos 1344-50} 14.1-6, 19-20; 17.1-9, 13-14; 18.12-16; 19.8-9; 20.19; 21510-14, 27- 36; 22.22-23; 23.12-22. 22 A mais completa descri¢io que temos desta violéncia contra a igreja ¢ do historiador romano Tacito, Ver seus Anais 15-4.3-8. Quanto a uma discussio sobre este relato importante feito por Ticito, ver Paul Winter, “Tacitus and Pliny on Christianity’, Klio $2 (1970): 497-502; Keresztes, “Imperial Roman Government and the Christian Church’, 247-57; Stephen Benko, “Pagan Cristicismo fo Christianity During the First Two Centuries A.D", em Aufitieg und Niedergang der rimischen Welt, 2.23.2, ed. Woligang Haase (Berlin: Walter de Gruyter, 1980), 1062-68; Ivor |.Davidson, The Birth of the Church: From Jesus to Constantine, A.D. 30-312, The Baker History of the Church 1 (Grand Rapids Raker, 2004), 191-93. 23 Ver Tertuliano, Scorpiace 1S. 39 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA que os cristaos, que pregavam uma mensagem de amor divino e foram orde- nados a amar até os inimigos, eram acusados desse erro? Bem, se vemos com 08 olhos do paganismo romano, a légica parece irrefutivel. Afinal de contas, eram os deuses romanos que mantinham o império seguro. Mas os cristios se recusavam a adorar esses deuses — assim, a acusacao de “ateismo” era, As vezes, lancada sobre eles. Portanto, muitos de seus vizinhos pagaos raciocinavam: eles no amam o imperador e os habitantes do império. Por isso, os cristaos eram vistos como fundamentalmente antirromanos e, sendo assim, eram um perigo positivo para o império:* Um dos cristios mais proeminentes que fo- ram mortos pelo Império Romano como um inimigo do estado foi Inacio, bispo da igreja em Antioquia da Siria. AVIAGEM DE INACIO ATE ROMA Inicio foi preso na cidade de Antioquia por volta de 107 ¢ 110. Foi enviado a Roma para ser julgado:* Nao hé detalhes da perseguicao em que ele foi preso, embora Inacio mencione outros que foram talvez presos durante a mesma persegui¢ao e o precederam na ida para Roma.” Ele foi levado através das grandes estradas do Sul da Asia Menor sob a custddia de dez soldados romanos, os quais ele comparou a “leopardos selvagens”” Ele esperava que 0 fim da viagem a Roma tivesse um resultado certo: a morte. 24 Ver, por exemplo, Justin Mérti, Segunda Apologia 3; Atendgoras, Peticda em Favor dos Criss 3.1; 10.55 13.1. 2. Os cristios eram também acusados de incesto, aparentemente uma compreensio erronea da afirmacio crista sobre amar os irmios e as irmas em Cristo, ¢ de canibalismo, uma compreensio errénea da Ceia do Senhor. Em relagio a esta ultima, ver, por exemplo, Justino Martt, Segunda Apologia 12. Plinio, Cartas 10.96, também viu as cristios como sendo culpados de “fanatismo” (amen) e de desobediéncia audaciosa e persistente (confumacia) 20s magistrados romanos que lhes ordenavam a adoragio dos deuses romanos, Ver a acusagio semelhante por Marcos Aurélio, Meditagées 11.3. Quanto a um estudo excelente das acusagdes pagis contra o cristanismo, ver, especialmente, Jakob Engberg, Impulsore Chresto: Opposition to Christianity inthe Roman Empire c, 50-250 AD, trad. Greogory Cacter, Early Christianity in the Context of Antiquity 2 (Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH, 2007), 26 Quanto & data, ver Trevett, Study of latins of Antioch, 3-9. 27 Inicio, Romanos 10.2. Policarpo, em sua tinica carta existente, menciona os nomes de dois destes prisioneiros, Zézimo e Rufo. Aos Filipenses 9.1. 28 Indcio, Romanos §.1, Estaé a ocorréncia mais antiga da palavra que se refere a leopardio no grego. Ver D. B, Saddington, “St. Ignatius, Leopards, and the Roman Army’, Journal of Theological Studies 38 (1987): 411. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia No entanto, hé certas dificuldades no que concerne aos detalhes de sua prisdo. Visto que Inécio estava a caminho de Roma para execucao, isso poderia sugerir que ele era um cidadio romano, porque o direito de um ci- dado romano de ser julgado pelo imperador era, nesta altura da histéria romana, um direito estabelecido firmemente.” Todavia, alguns eruditos modernos tém perguntado por que, se ele era um cidadao, disse que espe- rava encontrar “fogo, ctuz e feras’,®” quando chegasse a Roma, visto que se acredita que essas formas de punigio nao eram usadas na execugio de ci- dadios naquele tempo." Em geral, a punigéo romana era mensurada para harmonizar-se com o status social do criminoso, ¢ nio com a natureza do crime. Nas palavras de Ramsey MacMullen, “tudo dependia do status’? Portanto, ser decapitado ou a oportunidade de cometer suicidio eram as principais formas de execugio para os cidadaos de classe alta do império que tinham cometido uma ofensa capital. Entretanto, outros que nao eram cidadaos e pertenciam as classes inferiores, seriam expostos a uma grande vatiedade de violéncia horrivel, incluindo morrer queimado, ser forcado a beber chumbo derretido, ser crucificado, ser espancado até a morte ou ser maltratado por cies ou animais ferozes até 4 morte.» Mas, como Peter Garnsey e MacMullen ressaltaram, cidadaos das classes inferiores podiam também ser expostos a essas formas de punigao, especialmente 4 medida que o século II se passava.”" Isso daria a entender que, embora Inacio fosse um cidadao romano, ele podia ter vindo de classes inferiores. 29 FE Bruce, The Book of Acts, rev. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), 453-54, 454 n. 11, Compare com Plinio, Cartas 10.96.3-4, que também menciona enviar cristios presos a Roma para serem julgados. 30 Inicio, Romanos §.3, em Staninforth, Early Christian Writings, 87. 31 Trevett, Study of Ignatius of Antioch, S 32. Ramsey MacMullen, “Judicial Savagery in the Roman Empire’ Chiron 16 (1986): 147. 33 Quanto a variedade de punigSes, ver ibid, 147-66, A respeito das punigies as quais os cristios eram submetidos, ver Blaine H. Pagels, “Gnostic and Orthodox Views of Christ's Passion: Paradigms for the Christian's Response to Persecution?’ em The Rediscovery of Gnosticism, vol. 1, The Schoo! of Valentinus, ed Bentley Layton (Leiden: BJ Brill, 1980), 266-70. 34 Peter Garnsey, “Legal Privilege in the Roman Empire’, Past and Present 41 (December 1968): 3-245 ‘MacMullen, “Judicial Savagery in the Roman Empire’, 149-53. Ver também o estudo mais amplo escrito por Peter Garnsey, Sacial Status and Legal Privilege in the Roman Empire (Oxford: Clarendon, 1970); ¢ Elizabeth A. Castelli, Martyrdom and Memory: Early Christian Culture Making (New York: Columbia University Press, 2004), 39-41. 41 42 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA A estrada pela qual Inacio viajou, a principal estrada que atravessava o sul da Asia Menor, seguia em diregao a oeste e passava por Efeso, onde os viajantes, neste caso, os prisioneiros, tomariam um navio a fim de irem direta- mente para a Itélia ou, subindo a costa, para Tréade. Perto de Laodiceia, seus guardas viraram para o norte e para o oeste, seguindo para Filadélfia e, depois, Esmirna, onde parece que Inacio ficou por algum tempo. Policarpo, designado recentemente bispo de Esmirna, procurou atender as necessidades de Inicio em sua chegada iquela cidade. Quando chegou a Esmirna, havia também re- presentantes de trés outras igrejas que tinham vindo encontrar-se com ele. Damas, 0 bispo da igreja em Magnésia, junto ao rio Meandro, tinha vindo com dois presbiteros de sua igreja, Basso e Apol6nio, e um didcono, Zécion.** De Trales veio o bispo Polibio,** e de Efeso, varios lideres: Onésimo, o bispo, um diécono chamado Birrus, Crocus, Euplus e Fronto.*” Foi em Esmirna que Inacio escreveu a carta a igreja de Roma.® Esta carta contém o amago de suas reflexes sobre o martirio, Esta é a unica carta de Inicio que é datada. Ble a escreveu, como disse aos crentes romanos, no nono dia antes das calendas de setembro, ou seja, 24 de agosto.” Obviamente, uma data foi incluida porque ele queria dar a igreja em Roma alguma ideia acerca de quando espera-lo.*° Nao muito depois de escrever esta carta a igreja em Roma, o bispo de Antioquia deixou Esmirna e seguiu para Tréade. Esta etapa da viagem de Inacio nio é clara; os soldados o levaram a Trade ou por estrada ou por um navio, que teria navegado préximo 4 costa. Estamos incer- tos a respeito de quanto tempo eles permaneceram em Tréade.*t No entanto, Indcio pode escrever dali, mais trés cartas: as cartas as igrejas de Filadélfia e 35 Inicio, Magnésios 2. 36 Indio, Tralianos 11 37 Inicio, Bfésios 1.3-2.1. Tem sido argumentado que Onésimo nao 6 outro s mencionado na carta de Paulo a Filemon. © nome, porém, era um nome commun; é improvivel que seja a mesma pessoa. Ver William R. Schoedel, Ignatius of Antioch: A Commentary on the Letters of Ignatius of Antioch ed. Helmut Koester (Philadelphia: Fortress, 1988), 43-44. 38 Indcio, Romanos 10.1, 39 Inicio, Romanos 103. 40 Virginia Corwin, St Ignatius and Christianity in Antioch (New Haven, CT: Yale University Press, 1960), 14-17. 41 Ibid, 17. ndo 0 escravo Onésimo Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia Esmirna e, por ultimo, uma carta dirigida a Policarpo, o homem que o assistiu em Esmirna.* Os soldados romanos e seu prisioneiro cristio parecem ter deixado Tréade com um pouco de pressa e seguiram viagem para Nedpolis, na Mace- dénia.** Dali, eles teriam passado por Filipos e Dirraquio, naquilo que hoje é a costa do mar Adriatico.** De Dirraquio, eles devem ter tomado outro navio para Brundisium, na Itilia, e, depois, por terra, seguiram para Roma. Nesta altura, uma cortina se lanca sobre os acontecimentos histéricos, e nada mais sabemos com certezaa respeito da carreira terrena de Inacio, exceto a noticia de Policarpo Aigreja em Filipos informando que ele fora martirizado, talvez em Roma.** AVIAGEM ESPIRITUAL Quando lemos os comentarios de Inacio sobre o martirio, em suas car- tas, devemos ter em mente um fato acima de todos. Nas palavras de William C. Weinrich, “Inacio reflete [nas cartas] sobre o seu préprio martirio vindouro” Isso explica a natureza fervorosa de algumas de suas afirmagdes. Também sig- nifica que nao devemos entender estas cartas como uma teologia sistematica sobre o martirio."’ Inacio fala para si mesmo e a respeito de si mesmo, Outra vez, Weinrich comenta: “O que ele diz, ele o diz sobre si mesmo como alguém que est indo para a morte porque é um cristio”® Parecia que Inacio estava ciente de que certos individuos na comuni- dade cristé de Roma, que procediam de circulos sociais elevados em Roma, 42. Inicio, Filadelfs 11.2; Esmirneanos 12.1; Policarpo 8.1. 43 Inicio, Polcarpo 8.1 44 Quanto a mengao de Inicio passando por Filipos, ver Policarpo, Aos Filipenses 1.1 48 Corwin, St. Ignatius and Christianity in Antioch, 18. Quanto & noticia sobre a morte de Inicio, ver Policarpo, Avs Filipenses9.1 46 William C. Weinrich, Spirit and Martyrdom: A Study of the Work of the Holy Spirit in Contexts of Persecution and Martyrdom int the New Testament aud Early Christian Literature (Washington, DC: University Press of America, 1981), 115. Este é um excelente estudo sobre o pensamento dos primeiros crist3os quanto & pneumatologia do martiri. Sou profundamente devedor a muitos dos discernimentos, de Weinrich. 47 Williams, Christian Spirituality, 14 48 Weinrich, Spirit and Martyrdom, 115-16. 43, REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA tinham “conexdes” ¢ influéncia politica que poderiam exercer para livré-lo.” Se Inacio nao disse nada a esses crentes para dissuadi-los de usar sua influ- éncia, ele temia que pudessem tentar livra-lo e fossem bem sucedidos neste empreendimento. Visto que Inacio nio queria isso (pelas razdes detalhadas em seguida), ele decidiu falar. “O que me enche de temor”, Inacio disse a esses crentes que tinham influéncia politica em Roma, “é o proprio sentimento bon- doso de vocés para comigo” Poderia ser facil eles intervirem para que Inicio fosse liberto, mas isto somente tornaria mais dificil para ele “chegar a Deus”. Por isso, ele exortou os cristios romanos: “Mantenham os labios fechados’” Se eles fizessem isso, entao capacitariam Indcio a se tornar “uma mensagem de Deus” Em outras palavras, o siléncio dos crentes de Roma significaria que Indcio, por seu martirio, poderia proclamar ao mundo a sinceridade de sua fé. Aafirmacao de Inacio de ser um cristao seria, entao, vista como mais do que meras palavras. Seria comprovada por obras — neste caso, o ato de martirio.”' A comprovacao da fé de Inacio seria revelada por seu morrer bem. Em descrever como desejava que os crentes romanos agissem, Inacio revelou a convicgao de que via seu martirio ndo como um acontecimento iso- lado, e sim como um acontecimento que envolvia toda a igreja de Roma. Os crentes romanos nao eram apenas espectadores que esperavam permitir algo acontecer. Tanto Inacio como os crentes romanos tinham de escolher viver as implicacdes do amor a Cristo ou desejar o mundo. Assim, ele lhes disse: A esperanga do principe deste mundo é apoderar-se de mim e des- truir minha resolugao, fixada em Deus. Que nenhum de voces lhe preste qualquer ajuda, mas, em vez disso, que se posicione ao meu lado, pois este é o lado de Deus. Nao tenham Jesus em seus labios eo mundo em seu coragao. Nao permitam que a inveja tenha lugar 49 Corwin, St. Ignatius and Christianity in Antioch, 18; Peter Lamp. From Paul to Valentinus: Christians at Rome inthe First Tivo Centuries, trad. Michael Steinhauser, ed. Marshall D. Johnson (Minneapolis: Fortress, $0 Inicio, Romanos 1.2-2.1, em Staniforth, Early Christian Writings, 85. $1 Inicio, Romanos 2. Ver também Schoedel, Ignatius of Antioch, 171 52 Weinrich, Spirit and Martyrdom, 134-35. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia entre vocés. Ainda que eu v4 e implore em pessoa, nao cedam ao meu apelo. Em vez disso, mantenham sua submissio a este apelo escrito. Para os crentes romanos, capacitar Inacio a atingir sua chamada ao martirio significava, em um sentido bem real, compartilhar daquele sofrimen- to com ele.* No entanto, havia outro pedido. Inacio sabia que ele nao era um super-homem. Fle era um homem com uma imaginacao vivida que podia imaginar 0 tipo de morte que o esperava em Roma. Como ele disse antes em sua carta: Permitam-me ser uma refei¢ao para as feras, pois sao elas que podem me proporcionar um caminho para Deus, Eu sow o trigo de Deus, bem moido pelos dentes dos ledes para tornar-me pio mais purc Fogo, cruz, luta com feras, cortes ¢ esquartejamento, fragmentacao, de ossos e mutilagio de membros, até a trituragao de todo o meu corpo — permitam que todo tormento horrivel e diabélico venha so- bre mim, contanto que eu ganhe meu caminho para Jesus Cristo! Inacio tinha receio de que, pelo menos, sua coragem falhasse e de que cle pediria aos crentes romanos que o livrassem. Por isso, ele Ihes disse, “nao me ougam s¢ isso acontecer: Ainda que eu va ¢ implore em pessoa, néo cedam ao meu apelo. Em vez disso, mantenham sua submissao a este apelo escrito” Por causa de seus temores, é compreensivel que ele tenha pedido aos crentes romanos que orassem em seu favor. “A tinica coisa que lhes pego em meu fa- vor’, ele rogou, “é que forca interior ¢ forca exterior suficientes me sejam dadas para eu ser tao resoluto em vontade como em palavras”. Outra vez, perto do final da carta, Inacio lhes suplicou: “Intercedam por mim, para que meu desejo 53 Indcio, Romanos 7.1-2, em Staniforth, Barly Christian Writings, 87. $4 Inicio, Romanos 6; Weinrich, Spirit and Martyrdom, 135-36. $$ Inicio, Romanos 4.1; 5.3, em Staniforth, Early Christian Writings, 86, 87. $6 Indcio, Romanos 7.2, em Staniforth, Barly Christian Writings, 87. 45 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA se cumpra’.” O pedido de Indcio por oragao em favor de perseveranca eviden- cia a compreensio de que a verdadeira {6 se mostra genuina somente onde ha persisténcia.** MARTIRIO COMO IMITACAO E RENUNCIA Por que ele estava disposto a morrer? Primeiramente, Inacio estava certo de que seu martirio agradaria a Deus. Ele declarou com confianga sobre 0 seu desejo de morrer por Cristo: “Nio estou escrevendo como um meto homem, mas estou ecoando a mente de Deus”? O uso dos genitivos em sua descrigdo de si mesmo como “trigo de Deus” e “pio mais puro para Cristo” revela a sua consciéncia de que “Deus é 0 autor do martitio” Consequentemente, ele tem de se agradar com aqueles que morrem por causa de sua fé em Cristo." Por que exatamente 0 martirio de Inacio agradaria a Deus? Antes de tudo, ele o concebia como uma imitagao da morte de Cristo. “Permitam-me imitar a paixdo de meu Deus’, ele disse em um momento Se Deus, o Pai, se agtadou com a morte de seu Filho por pecadores, a morte de Inacio porta fé em Cristo seria também agradavel a Deus. Assim como a morte de Cristo foi uma morte em que lhe fizeram violéncia, mas ele nao revidou,® assim também seria amorte de Inacio, o imitador da paixao. Weinrich observa acertadamente que ha o menor indicio de que morte de Inécio tena qualquer valor salvifico para outros, como o tem a morte de Cristo.“ $7 Inicio, Romanos 3.2; 8.3, em Staniforth, Early Christian Writings, 86, 88 $8 Ver Vanhooze, First Theology, 368. 59 Inicio, Romanos 8.3, em Staniforth, Early Christian Writings, 88. Ver também Romanos 2.1, onde Inicio exorta a igreja de Roma a deixar que seu martirio acontesa: "Nao é a homens que quero agradar, e sim a Deus’. Em Staniforth, Early Christian Writings, 8S. 60 Indcio, Romanos 4.1, em Staniforth, Early Christian Writings, 86 (61 Wointich, Spirit and Martyrdont, 11S, 62 Indcio, Romanos 6.3, em Staniforth, Barly Christian Writings, 87. 63 Ver, por exemplo, 1 Pedro 2.21-23. 64 Weinrich, Spirit and Martyrdav, 112-13, Weinrich comenta: “E... bastante duvidoso que Inicio tenha concebido seu martirio como sacrificial evicdrio em favor de seus irmaos em Cristo” (113). Compare isto com Frend, Martyrdora and Persecution inthe Barly Church, 199. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia Vale a pena ressaltar a cristologia elevada de Inacio no texto que acaba- mos de citar. Ao referir-se a Cristo como “Deus’, Inacio esperava que os cristaos em Roma fossem familiarizados com uma cristologia elevada e se sentissem 4 vontade com ela. Além disso, este texto da testemunho deuma maneira comum pela qual os primeiros tedlogos cristaos falavam sobre Cristo: Inacio atribuiu a uma tinica e mesma pessoa, Jesus Cristo, caracteristicas divinas e humanas. Por exemplo, Jesus ¢ descrito como Deus, mas também se diz que ele sofreu. Esta mudanga de atributos divinos e humanos era possivel somente porque eles eram predicados a um tinico sujeito.* Por isso, Inicio podia dizer sobre Cristo: Hié apenas um tinico Médico ~ Prépria carne, mas espirito também; Nao criado ¢, apesar disso, nascido; Deus e Homem unidos em Um s6; De fato, a propria Vida na Morte, Ofruto de Deus eo filho de Maria; Ao mesmo tempo, impassivel ¢ ferido Por dor esofrimento neste mund. Jesus Cristo, que conhecemos como nosso Senhor. O martirio era também, para Inicio, a expresso e a culminacao da rentincia do mundo. Como ele disse: “Todos os confins da terra, todos os rei- nos do mundo nao tém qualquer proveito para mim; no que diz respeito a mim, morrer em Jesus Cristo ¢ melhor do que ser um monarca das mais am- plas fronteiras da terra’ O martirio destacava vividamente um tema que fazia 65 Ver, também, os seguintes textos em que Inicio descreveu Cristo como Deus: Romanos, Saudagio, 6.3; Efisios,Saudagio, 1.1, onde ele se refere ao “sangue de Deus’ 18.25 Bsmirneanos | 66 Aloys Grillmeier, Christin Christian Tradition, vol. 1, From the Apostolic Age fo Chalcedon (451), trad. John Bowden, 2nd ed. (Atlanta: John Knox, 1975), 89; Thomas Weinandy, “Ignatius of Antioch’, em The ‘New Lion Handbook: The History of Christianity (Oxford: Lion Hudson, 2007), 51 67 Indcio, Efésios 7.2, em Staniforth, Early Christian Writings, 63. 68 Inicio, Ronsanos 6.1, em Staniforth, Early Chistian Writings 87, Frend v8 nesta afirmacio um eco daafirmagio de Patilo em Filipenses 1.21: “Para mim, 0 viver é Cristo, e.0 morrer éIucro" (Martyrdom and Persecution in the Early Church, 198). Sobre este tema de martirio erentincia ver David A. Loper, Separatist Christianity: Spirit and ‘Matter in the Barly Church Fathers (Baltimore: John Hopkins University Press 2004), 74-78, 47 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA parte da convicgao ¢ do ensino cristao naqueles primeiros séculos: 0 mundo, neste caso o mundo do Império Romano, nao era um amigo nem da igreja nem de Deus.® Todavia, é curioso, como Fend ressalta, 0 fato de que, a parte da referéncia aos soldados que o guardavam como “leopardos selvagens” Ind- cio nao fala nada, diretamente, sobre 0 império.” ‘Uma das mais poderosas evocagées de Inacio quanto ao tema de rentin- cia esta na seguinte declaragio da carta a igreja de Roma: “Os desejos terrenos [ho emos éros] foram crucificados e em mim nao resta qualquer chama de dese- jo por coisas mundanas, mas apenas um murmitrio pela 4gua viva que sussurra dentro de mim: Vem ao Pai” A referéncia 4 “agua viva’, neste trecho, é quase definitivamente uma alusao as palavras de Jesus registradas em Joao 7.37-39, que comparam o Espirito Santo a ‘rios de 4gua viva’ Era o Espirito que falava den- tro de Inacio: “Vem ao Pai”. O Espirito falava num contexto de crucificagio: a morte dos “desejos terrenos” de Inicio, de acordo com 0 texto que acabamos de citar.”’ A expressao “desejos terrenos” significa, literalmente, “meu amor’* Um século depois de Inicio, o grande exegeta alexandrino Origenes iniciou uma lon- ga tradicao de interpretagio deste texto de Inacio, quando comentou que “um dos santos, chamado Inacio, disse sobre Cristo: ‘Meu amor foi crucificado”.”> Origenes prosseguiu e disse que achava estranho Inacio usar 0 vocibulo éros para falar de Cristo, mas afirmou que nao estava disposto a censura-lo por isso. 69 Quanto a maior discussio deste tema, ver Lopez, Separatist Christianity. 70 Frend, Martyrdom and Persecution in the Early Church, 200. Quanto a referéncia aos soldados, ver Inicio, Romanos 5.1. 71 Inicio, Romanos 7.8, em Staniforth, Early Christian Writings, 87. 72. Ves, também, a ligagao do Espirito com a agua em Apocalipse 22.1-2, 17. Ver os comentirios de Schoedel, Ignatius af Antioch, 185; Hening Paulsen, Dic Brief des Ignatius von Antiachia und der Bri des Polykarp von Smyrna (Tibingen: Mor Siebeck, 1985), 77 73 Similarmente, Schoedel, Ignatius of Antioch, 181: “Meus desejos’ 74 Por exemplo, J. H. Srawley, The Epistles of St Ignatius Bishop of Antioch, 3rd ed. (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 1919), 78; Paulsen, Die Briefdes Ignatius von Antiochia, 76: "Meine Liebe’, 78. Commentary on the Song of Songs, prolog 2, em Origen: The Song of Songs Commentary and Homilies, trad. R, P, Lawson, Ancient Christian Writers 26 (Westminster, MD: Newman, 1957), 35. Quanto a outro exemplo de época posterior, ver Samuel Pearce, “Lines writen on the works of Ignatius, “My Love is Crucified”, em Andrew Puller, Memoirs of the Rev. Samuel Pearce, A. M., ed. W. H. Pearce (London: G. ‘Wightman, 1831), 223-25. Pearce (1766-1799), um pastor batista calvinista inglés, entendeu claramente as palavras de Inicio como uma referénciaa Cristo, Quanto a Origenes, er capitulo 4 Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia No entanto, além do fato de que 0 vocdbulo éros nao é usado, de modo algum, no Novo Testamento, o que eu penso nao ser relevante, o contexto da afirmacio de Indcio parece exigir que ela seja entendida como “desejos terrenos” O uso da conjungio “e” coloca a expressio “desejos terrenos” no mesmo nivel da cliusula “em mim nao resta qualquer chama de desejo por coisas mundanas’.” Em ou- tras palavras, a “agua viva’, o Espirito, havia apagado o fogo da “paixao terrena’” e exortava Inacio ai “ao Pai’”” Assim, o Espirito estava levando Inicio ao Pai por meio do martirio, e este levar envolvia o morrer para todos os desejos terrenos. Esta passagem reflete tanto o entendimento perspicaz da oposi¢io do Espirito aos “desejos terrenos”’® como a consciéncia de que o martirio era, num sentido, um dom do Espirito. O MARTIRIO COMO UM DOM DO ESPiRITO Embora a igreja desaprovasse que as pessoas se voluntariassem para 0 martirio,” ha varios textos cristaos do século II que mostram a consciéncia de que o martirio era uma chamada, um dom (charisma), do Espirito, que o usaria para edificar 0 corpo de Cristo. A carta de Inacio aos romanos é, certa- mente, a passagem-chave neste respeito. Outra passagem ¢ uma afirmagao de um editor, de fala latina, do didrio de prisao da martir Vibia Perpétua, do ini- cio do século III. Presa em Cartago e martirizada subsequentemente naquela cidade, com diversos outros cristios, na primavera de 203, Perpétua manteve um diario enquanto esteve na prisao. Um editor posterior — alguns tém suge- rido 0 norte-afticano Tertuliano — 0 publicou, juntamente com outro diario das maos de outro martiz, Saturus, contendo uma introducao editorial e uma conclusio, Na introducdo, lemos as seguintes palavras: 76 Quanta a este ponto, sou devedor ao meu bom amigo Dr. Renjamin Hegeman, que agora reside em Houghton, no estado de Nova lorque. 77 P.Th, Camelot, trad. Ignace dAntioche, Polycarpe de Smyrne: Lettres, Martyr de Polycarpe, 3dr ed. (Pass: Les Editions du Cerf, 1958), 134-35 n. 1; Brown, Gospel and Igratas of Antioch, 109. 78 De modo semelhante, J.B. Lightfoot traduz esta frase por “minhas paixses terrenas foram crucificadas’, em The Apostolic Fathers: Clement, Ignatius, and Polycarp, 2nd ed. (repr. Grand Rapids: Baker, 1981), 2/2:222. Ver também os comentarios de Castelli, Martyrdom and Memory, 81, 83. 79 The Martyrdom of Polycarp 4. 49 50 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Os feitos relatados sobre a fé nos tempos antigos foram uma prova do favor de Deus e, também, produziram o fortalecimento espiritual de homens; e eles foram colocados na forma escri- ta precisamente para que honra seja dada a Deus e conforte os homens pela lembranca do passado, por meio da palavra escrita Nio deveriam ser estabelecidos exemplos mais recentes que con- tribufssem igualmente para ambos os propésitos? Pois, de fato, estes também se tornario, um dia, antigos e necessérios para as eras vindouras, embora em nossos préprios dias desfrutem de menos prestigio por causa da reivindicagio de antiguidade dos feitos anteriores. Considerem isto aqueles que restringem 0 poder do Espirito a tem- pos e situagdes: os eventos mais recentes devem ser considerados os maiores, sendo mais préximos do que os do passado, ¢ isto é uma consequéncia das gracas extraordinarias prometidas para o ultimo periodo do tempo. Pois, “nos tiltimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espirito sobre toda a carne; e seus filhos e suas filhas profeti- zario, e sobre os meus servos ¢ sobre as minhas servas derramarei o meu Espirito, e os jovens terao visdes, e os velhos terao sonhos’. Por isso, também honramos e reconhecemos nao somente as novas profecias, mas também as novas visdes, de acordo com a promessa. E consideramos todas as outras funcées do Espirito Santo como in- tencionadas para o bem da igreja; pois o mesmo Espirito foi enviado para distribuir todos os seus dons a todos, como Senhor reparte a cada um. Alguns tém argumentado que este texto procede de circulos influen- ciados pelo montanismo, um movimento do final do século II que defendia novas revelagées da parte de Deus, especialmente em relacao a questées mo- 80 The Martyrdom: of Saints Perpetua and Felicitas 1.1-S, em The Acts of the Christian Martyrs, trad. Herbert Mususillo (Oxford: Clarendon, 1972), 107. Quanto a uma discussio sobre est relato, ver, especialmente, Brent D. Shaw, “The Passion of Perpetua’, Past and Present 139 (May 1993): 3-48. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia ais.” Seja como for, esta citagao inclui claramente o martirio cristao entre as “fungoes do Espirito Santo... intencionadas para o bem da igreja’. Se alguém perguntar que referéncias biblicas ensinam este entendi- mento do martirio, uma passagem como 1 Corintios 13.1-3 logo nos vem a mente. Nesta passagem, o apdstolo Paulo argumenta que os dons do Espirito - como os dons de linguas e de profecia - que sao usados sem 0 poderoso motivo de amor, nao tém valor. Entre os dons que ele menciona, esta o dar espontaneamente a vida por meio de fogo; isso significa claramente que, na mente de Paulo, 0 martirio deve ser categorizado entre os charismata, os dons do Espirito Santo. O MARTIRIO E O SER UM DISCIPULO Em um estudo importante sobre Indcio como martir e discipulo cristao, Daniel N. McNamara comenta que, nas cartas de Indcio, 0 bispo de Antioquia fala sobre o “ser discipulo” em duas maneiras diferentes. Primei- ramente, ele expressa a esperanga de que sera “achado um discfpulo” em sua confrontacio com a morte, como um martir. McNamara entende que Inacio, ao dizer isso, estava afirmando que “esperava que sua confronta¢io final com a morte seria achada coerente com sua confissio de fé em Cristo” Em um segundo entendimento do que significa ser um discipulo cristo, a énfase € colocada sobre a devogio do cristio ao Senhor Jesus.” Para Indcio, o martirio era claramente uma maneira de expressar sua devogao pessoal a Cristo e sua rejeigao ao mundo. Mas ele estava conscio de que havia outros caminhos a serem seguidos como discipulo. Por exemplo, sua exortagdo para que os crentes de Roma expressassem sua devogao a Cristo por permitir que ele morresse como martir indica claramente uma consciéncia de 81 Sobre omontanismo, ver especialmente Ronald E, Heine, The Montanist Oracles and Testimonia, Patristic Monograph Series 14 (Macon, GA: Mercer University Press, 1989); e William Tabbernee, Prophets and Gravestones: An Imaginative History of Montanists and Other Early Christians (Peabody, MA: Hendrickson, 2009). 82 Daniel N. McNamara, “Ignatius of Antioch on His Death: Discipleship, Sacrifice, Imitation’ (PAD diss, McMaster University, 197), 247. ‘SL. 52 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA que o seu caminho de discipulado ¢ o deles nao eram idénticos, Embora Ind- cio tenha visto o martirio como o caminho mais estreito pelo qual ele devia andar, nao negava o fato de que ha outros caminhos que outros discipulos tém de seguir.‘ Neste respeito, ¢ importante observar que ele nao exortou ne- nhum dos crentes em Roma, nem, quanto a este assunto, qualquer de seus correspondentes a unir-se a ele como mirtir. Obviamente, Inacio nao via 0 martirio como sendo essencial ao discipulado.* O MARTIRIO E A DEFESA DA FE Umaspecto final do pensamento de Inacio sobre seu martirio é a ma- neira como ele acreditava que o martirio formava um baluarte contra uma espécie de ensino falso que ameagava a unidade de, pelo menos, duas das igrejas para as quais ele estava escrevendo, ou seja, as igrejas em Esmirna e em Trales. Presentes até durante os dias dos apéstolos,** os proponentes desta perspectiva, conhecida como docetismo, negavam a morte de Cristo e afir mavam que os sofrimentos de Cristo “nio foram genuinos”* Inicio usou 0 que estava se tornando uma palavra técnica para descrever estes oponentes teolégicos do ensino cristio fundamental: eles haviam abragado “heresia” (hairesis) 8” Além disso, de acordo com Inacio, aqueles que haviam abragado este ensino falso nao viviam de maneira piedosa, pois tinham rompido com a igreja, recusando-se a participar da Ceia do Senhor ow a orar junto com a igreja.’ Embora o docetismo nao fosse uma parte ou parcela de cada variagio de heresia do século II, ele podia ser achado numa diversidade consideravel de documentos heréticos daquele periodo. Por exemplo, no texto do século II da 83 Corwin, St Ignatius and Christianity in Antioch, 254-55, 84 Frend, Martyrdom and Persecution in the Barly Church, 198, Ver também, neste respeito, a exortagio dde Indcio a Policarpo, em Policarpo 2. 85 Ver, por exemplo, no Novo Testamento: I Jodo 4.1-3; 2 Joao 7-11. 86 Indcio, Tralianas 9-11, 87 Ver Inicio, Tralianos 6.1. Ele também usou a expressio “ensino de falsidade” (heterodoxountas) em referénciaa esta perspectiva (Inicio, Aos Esmitneanos 6.2), B interessante que ele foi o tinico autor cristio do século Ha usar esta expressao. Ver Brown, The Gospel and Ignatius of Antioch, 174-78, 88 Inicio, Esmimeanos 6-7. Morrendo por Cristo: 0 pensamento de Indcio de Antioquia Epistola de Pedro a Filipe, afirma-se que “Jesus é um estranho ao... sofrimento” Em outro texto semelhante, no Primeiro Apocalipse de Tiago, atribui-se uma afirmacao a Cristo que diz: “Eu nunca sofri de modo nenhum”* Ora, na carta a igreja em Esmirna, Inacio fez uma poderosa co- nexio entre sua propria morte e a de Cristo, Ele escreveu que Cristo foi “verdadeiramente perfurado pelos cravos em sua carne humana’ e “sofreu ver- dadeiramente”, Era, portanto, necessario confessar, em oposicao aos hereges, que “a paixto de Cristo nao foi uma ilusio irreal’” Tampouco a ressurreigio fisica de Cristo foi uma ilusao. “De minha parte’, declarou Inacio, “sei e creio que ele esteve em verdadeira carne humana, mesmo depois de sua ressurrei- ao” Inacio achou provas para esta declaracao nos relatos da ressurreicdo em Lucas 24, onde Cristo apareceu aos seus discipulos, confrontou sua increduli- dade e instou a que comessem e bebessem com ele." Se os docetistas estavam certos, e toda a vida de Jesus foi apenas uma ilusio, entao, Inacio declarou com sarcasmo mordaz: “Estas minhas cadeias também sio ilusérias!”” Do ponto de vista do docetismo, se Cristo nao so- freu realmente, seguir aquele caminho de sofrimento nao tinha sentido para qualquer de seus discipulos. O martirio nao era, portanto, uma caracteristica distintiva das comunidades docetistas.” Mas o softimento de Cristo foi real ¢ isto validava o sofrimento fisico de seu povo. Inacio continuou: Com que propésito eu me rendi ao perigo, por fogo, ou espada, ou feras selvagens? Apenas porque, quando estou perto da espada, estou perto de Deus; e, quando estou cercado por ledes, estou cercado por 89 Ambos os textos sio citados por Guy G. Stroumsa, “Christ’s Laughter: Docetic Origins Reconsidered’, Journal of Early Christian Studies 12 (2004): 272. 90 Indcio, Bsmieanos 1.2-2, em Staniforth, Barly Christian Writings, 101. 91. Inacio, Esmimeanos 3.1-2, em Staniforth, Early Christian Writings, 101. Quanto aos docetistas em Esmima, ver também Sumney, “The Opponents of Ignatius of Antioch’, 349-3; Isacson, To Each Their Own Letter, 158-59. 92. Esmirneanos 3.1-2, em Staniforth, Early Christian Writings, 102. Ver também Tralianos 9-10. 93. Ver as referencias em Pagels, “Gnostic and Orthodox Views of Chirst’s Passion’, 265-71, Precisamos observar que houve poucos gnésticos que parecem ter afirmado os softimentas fisicos de Cristo e, por conseguinte, o valor do martirio; veribid, passim; Heikki Raisinem, “Marcion’, mA Companion to Second- ‘Century Christian “Heretics”, ed, Antii Marjanen and Peter Luomanen (Leiden: E. J. Brill, 2005), 100-124. $3 54 REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA Deus. Mas é somente no nome de Jesus Cristo e por causa de com- partilhar seus sofrimentos que eu posso enfrentar tudo isso; pois ele, o Homem perfeito, me da forgas para fazer isso." O martirio de Inacio foi uma poderosa defesa da realidade salvifica da encarnacao e da crucificagio. Em sofrer uma morte violenta, Inacio esta- va confessando que seu Senhor tinha sofrido realmente uma morte violenta ¢, por meio dela, trazido salvagdo 4 humanidade perdida. A confissdo era tio importante, tao central 4 ortodoxia crista, que era digna de alguém morrer por ela. E, em nossos dias, quando os cristios estio sendo martirizados ao tedor do mundo, a confissio de Inacio nio deve ser esquecida 94 Eomirteanos 42, em Staniforth, Barly Christian Writings, 102.