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RAOUL GIRARDET MITOS E MITOLOGIAS POLITICAS Tradugao: MARIA LUCIA MACHADO COMPANHIA * LETRAS Dados de Catniogacho na Publicecdo (CIP) Internacional (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) fotaha woul Givardet 5 Maria Lucia Machado. --'Sio Paulo + Com jetras, 1587, sibitogratia. SBN 85-85095-42-3 juropa ~ Politica © governo ~ Século 20 = Politica e governo 3. Politica ~ Filoso- (c00-320.01 57-1659 Copyright © Editions du Seuil, 1986 Titulo original: Mythes et mythologies politiques Capa: Ettore Bottini Quadro: Eclipse de George Grosz Indice onomastico: Paulo Cézar de Mello Revisio: Marizilda Lourengo Paulo Cézar de Mello Liicio Flavio Mesquita 1987 Editora Schwarez Ltda. Rua Barra Funda, 296 01352 — Sao Paulo — SP Fones: (Olt) 825-5286 67-9161 Ad memoriam PHILIPPI ARIES Hunc librum mitto De quo inter nos contentionem fecimus Non interruptam ne morte quidem. ' Alguns dos temas abordados neste ensaio foram objeto, hé alguns anos, de varios semindrios sucessivos no quadro do terceiro ciclo do Instituto de Estudos Politicos de Paris. Que- remos agradecer pela presenga e pela contribuigéo a todos aqueles, estudantes ou ndo-estudantes (e especialmente a Georges Liebert, Jean Plumyéne e Alain-Gérard Slama), que deles aceitaram participar. INDICE Para uma introdugo ao imaginario politico ........... 9 Aconspiragdo ............ toes ater teat EEE 5) Osalvador 2.00.02... eeeeeeceeseceeeeeeeses 63 A idade deouro ............., eee ee eeeeetnee 97 Aunidade..... act tefatd ta debe tee sele tes got Na diregdo de um ensaio de interpretagao .. Notas....... 0.0.0 eee e eee ee rete teen eee cence ens 193 Indice onomistico ........ lala ica PARA UMA INTRODUCAO AO IMAGINARIO POLITICO O estudo do que se designa habitualmente pelo termo ambiguo de historia das idéias politicas nao cessou de suscitar, e ha varias geracées, obras belas e fortes. Para além de sua di- versidade, para além dos sistemas de valores, de referéncias e de interpretagdes aos quais se ligam, estas apresentam, no en- tanto, uma estranha constante: uma desconfianca obstinada em relag4o ao imaginario. Com algumas exce¢Ges, € essas ex- cegdes sio recentes, todas tendem a restringir sua exploracao ao dominio exclusivo do pensamento organizado, racional- mente construido, logicamente conduzido. Heranga, sem dii- vida, dessa primazis. conferida ao racional, ha quase trés sé- culos, pela civilizagio do Ocidente: é no quadro exclusivo da defrontacio das doutrinas, do entrecruzamento ou do choque dos “sistemas de pensamento” que sao percebidos e apreen- didos os grandes debates onde se viram historicamente con- frontadas as visdes opostas do destino das Cidades. A densi- dade social, a dimensio coletiva nio séo negadas, e com elas tudo aquilo que os debates ideolégicos implicam de contetido passional, tudo aquilo que os carrega desse peso por vezes tao denso de esperangas, de recordacdes, de fidelidades ou de re- cusas. Mas no final das contas a andlise se acha sempre, ou quase sempre, reduzida ao exame de certo nimero de obras tedricas, obras classificadas em fungao do que a tradigao lhes atribui em valor de intemporalidade e que se trata essencial- mente de situar unas em relac4o as outras, de explicar, de 9 comentar e de interpretar. Tudo 0 que escapa as formulagdes demonstrativas, tudo o que brota das profundezas secretas das poténcias oniricas permanece, de fato, relegado a uma zona de sombra, na qual bem raros sio aqueles que ousam penetrar. O sonho sé é levado um pouco em consideragaio quando se exprime na forma tradicional do que se convencio- nou chamar de utopia, ou seja, de um género literario bem ig determinado, com finalidades didaticas claramente afirma- das, submetido a uma rigorosa ordenagio do discurso e facil- mente acessivel 4 exclusiva inteligéncia légica. Nido se trata de modo algum, neste ensaio, de contestar a legitimidade desse procedimento, paralelo, alias, ao que se- guiram, e ainda continuam a seguir bem amplamente, a his- toria da literatura, a da arte ou a das ciéncias: é sobre esse mesmo principio que repousam, no essencial, o conhecimento preensio do conjunto de nossa heranga : cultural. . Tam- t se ose trata dei ignorar ou de negar a importancia muitas vezes decisiva do impacto histérico de certo numero de gran- des obras politicas: se Locke, Rousseau, Montesquieu ou Marx no houvessem escrito, se suas obras nao tivessem in- fluen ‘iado, seduzido as inteligéncias e Provocado sua-adesao, sentassem ao nosso olhar aim: m que ue tém atualmente. As paginas que se seguem nao testemunham de modo algum qualquer vontade de questionamento. Elas sé dependem na verdade, em seu objetivo essencial, de um simples esforco de alargamento do dominio por assim dizer profissional que, ha longo tempo, foi atribuido ao seu autor. Responsayvel pelo en- sino da historia das idéias politicas no Instituto de Estudos Politicos de Paris, como, tendo muito naturalmente passado do estudo dos “sistemas de pensamento” para o das mentali- dades, nao haveria ele de ser levado a abordar essa vertente desconhecida, ignorada, negligenciada do proprio m mundo que que tinha por tarefa evocar e da qual tantos fatos, tantos textos nao cessavam, entretanto, de vir brar-lhe a obsedante pre- senga? Situando-se deliberadamente fora do « campo tradicio- nalmente atribuido as curiosidades e As pesquisas da ‘“‘hist6ria 10 das idéias”, foi ento como uma tentativa de exploragio de dei uma certa forma do imaginario — no caso, o imaginario polf- tico™ — que esta obra foi concebida e deve ser compreendida. O fato da moda ter-se apoderado, bem recentemente, de certa terminologia, de certo tipo de vocabulario expe ao risco, talvez, de tornar um pouco suspeita a importancia atribuida aos problemas abordados. Tantos relatos, no entanto, tantos apelos, tantos antincios proféticos que escapam a toda racio- nalidade aparente, mas dos quais nossa cultura ‘politica car- Tega ainda tio profundamente a marca... Parece claro, e com irredutivel evidéncia, que é de uma 2 notavel efervescéncia mito- légica que nao cessaram de ser er acompanhadas as perturba- goes politicas dos dois Ultimos séculos da historia européia. Deniincia de uma conspiragaio maléfica fendendo a submeter 0s povos 4 dominagao de forcas obscuras e perversas. Imagens de uma Idade de Ouro da qual convém redescobrir a felici- dade ou de uma Revolucdo redentora que permite 4 humani- dade entrar na fase final de sua histéria e assegura para sem- pre o reino da justiga. Apelo ao chefe salvador, restaurador da ordem ou conquistador de uma nova grandeza coletiva. A lista recapitulativa esta longe de encerrar-se. Alguns. desses temas encontram-se, mais ou menos dis- cretamente presentes umas das des construgdes doutrinais do 1 do filtimo” século, compreendidas at. aquelas que invocam com o maximo de forga © seu rigor demonstrativo € 0 cardter es essencialmente “ “cientifico” "de seus postulados. E ai se encontram, sem divida, para muitas delas, a origem e a explicagdo de seu poder de atrac4o: qual teria sido o destino de um marxismo destitufdo de todo apelo profé- tico e de toda visio messianica, reduzido exclusivamente aos dados de um sistema conceitual e de um método de anilise?... Mas milenarismos revoluciondrios, nostalgias passadistas, culto do chefe carismAtico, obsessdes maléficas podem igual- mente se apresentar sob uma forma mais imediata ou mais abrupta. Entdo, é em toda sua autonomia que se impde_o mito, constituindo ele proprio w: um sistema de crenga coerente e © completo. Ele j ja nao invoca, | nessas essas condicdes, nenhuma dl outra legitimidade que nao a de sua simples afirmacio, ne- nhuma outra légica que no. a “de seu livre desenvolvimento. Esem divida, qualquer que seja 0 caso, a experiéncia mostra que cada uma dessas “constelacdes” mitolégicas pode surgir dos pontos mais opostos do horizonte politico, pode ser classi- ficada a “direita”’ ea “esquerda”, segundo a oportunidade do momento. (Que se pense apenas na constante ubigitidade, com relagio a isso, do tema da Conspiracdo judia ou do legen- dario do Homem providencial.) Nao é menos verdade que, bem para além das clivagens que nos habituamos a tomar como decisivas, encontramo- nos na presenga de conjuntos es- truturais det uma real homogeneidade © de uma constante es- pecificidade. Os papéis que lhes foram atribuidos puderam variar, no tempo e no espaco, em func&o das vicissitudes do debate ideolégico ou do combate partid4rio. No quadro de cada um deles, os fatores de permanéncia e de identidade con- tinuam, contudo, facilmente desvendaveis, tanto no nivel da linguagem quanto no das imagens, no nivel dos simbolos assim como no das ressonancias afetivas. Privilegiando 0 caso francés e nos limites cronolégicos dos dois tiltimos séculos, sio quatro desses “grandes conjun- tos” mitolégicos — a Conspiracao, a Idade de Ouro, o Sal- vador, a Unidade — que este ensaio se propde mais precisa- mente como temas de exame. Caminhada arriscada, no entanto, pontilhada por multi- plos ardis, repleta de singulares obstAculos... O primeiro deles, o mais evidente mas n4o 0 menos temi- vel, € da ordem do vocabulfrio. ' Considerando-se a plurali- dade de interpretactes « que the atribui a linguagem comum, um persistente equivoco continua, com efeito, a cercar o pré- prio termo mito. Para os antropélogos e os historiadores do sagrado, 0 mito deve ser concebido como uma narrativa: nar- rativa que se refere ao passado (“Naquele tempo...”, “Era uma vez...””), mas que conserva no presente uin valor eminen- temente explicativo, na medida em que esclarece e justifica 12 certas peripécias do destino do homem ou certas formas de organizagio social. ‘‘O mito”, escreve Mircea Eliade,? “conta uma hist6ria sagrada; relata um acontecimento que teve lugar no tempo imemorial, o tempo fabuloso dos comecos. Em ou- tras palavras, o mito conta como uma realidade chegou A exis- téncia, quer seja a realidade total, 0 cosmos, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comporta- mento humano, uma instituigdo...” Para outros,? em com- ) pensa¢4o, a nogao de mito permanece confundida com a de mistificagao: ilusio, fantasma ou camuflagem, o mito altera os dados da observacdo experimental e contradiz as regras do raciocinio légico; interpde- ‘se como uma tela entre a verdade dos fatos e as exigéncias do conhecimento. Para outros, enfim,4) y leitores de Georges Sorel e das Réflexions sur la violence, o mito é essencialmente apreendido em sua funcio de animacao criadora: “‘conjunto ligado de imagens motrizes”; segundo a propria férmula de Sorel, ele é apelo ao movimento, incitacio 4 aco e aparece em definitivo como um estimulador de ener- gias de excepcional poténcia. Cada uma dessas formulacées parece efetivamente cor- responder a alguns dos principais aspectos do mito politico, tal como este se inscreve na histéria de nosso tempo. Contudo, nenhuma parece suscetivel de esgotd-lo, nem mesmo de abar- car seu contetido. O mito politico é é fabulacao, deformac3o ou inte erpretagio ot ivamente recusavel do real. Mas, narrativa legendaria, é verdade je que ele exerce também uma fungao ex- plicativa, fornecendo certo namero de chaves para a com- preensio do presente, ‘constituindo uma criptografia “através da qual pode parecer ordenar-se 0 caos desconcertante dos fatos e dos acontecimentos. E verdade ainda que esse papel de explicacdo se desdobra em um papel de mobilizagio: por tudo . a, o que veicula de dinamismo p profético, o mito ocupa um lugar | wy aly muito importante nas origens das cruzadas e também das re-” e volugées. De fato, é em cada um desses planos que se desen-' vite b volve toda mitologia politica, é em fungdo dessas trés dimen-,) a). s6es que ela se estrutura e se afirma... Daf a necessidade de se ..’ situar em uma perspectiva global que, sem ignorar cada uma 13 wn ‘, {' Rye ve Ze e | dessas dimensdes, permite reencontré-las todas em sua con- jungao ¢ e em sua unidade. Dai, sobretudo, a necessidade « de levar em consideragao a a singularidade de uma realidade psi- colégica de uma especificidade muito evidente. Pois é ai, sem divida, bem mais ainda que nas as discussées terminolégicas, que a anilise corre o risco de perder-se nas incertezas e nos meandros de um mundo mal explorado. Ao olhar de todos aqueles que tentaram seu estudo e para além da copiosa diver- sidade de sua tematica, as manifestagdes de do imaginario mito- légico apresentam, com 1 efeito, certo nimero de tragos co co- muns, Elas pertencem, em outros termos, a v aum sistema arti- cular de discurso ou, se se prefere, a modos c originais de ex- pressio tao afastados, sem davida, da c construgao retorica quanto pode estar a linguagem musical das estruturas da “da for- mulacao verbal. Nao levar isso em conta, por mais dificil que seja por vezes a sua compreensio, seria impedir toda possibi- lidade de aproximagao. No que se refere a isso, sio as relagdes de de analogia que parecem poder ser legitimamente e: estabelecidas entre o proce- dimento mitico e 0 do proprio sonho ) que « convém lembrar em primeiro lugar. Como 0 sonho, 0 mito se organiza em uma sucesso, seria melhor dizer e em uma inamica de imagens &, nio mais que para o sonho, nao poderi ia ser a ser questo d de disso- ciar as fragdes dessa dinamica : estas se encadelam, nascem uma da outra, chamam uma a ouira, respondem-se e confun- dem-se; por um jogo complexo de associaces visuais, o mes- mo movimento que as faz aparecer leva-as para uma diregio muito outra. Como 0 sonho ainda, © mito nao pode ser abar- cado, definido, ¢ encerrado em contornos precisos sendo em conseqiiéncia de uma operagio conceitualizante, obrigatoria- mente redutora, que sempre se arrisca a trai-lo ou a dele dar apenas uma versio empobrecida, mu mutilada, destituida de sua riqueza e de sua complexidade. Claude Lévi-Strauss nao deixa de nos lembrar disso:‘ seria ignorar totalmente a natureza da | realidade mitica tentar aplicar ao seu estudo os principios da anilise cartesiana, isto é, os da decomposicao em partes dis- , tintas, da divisdo sucessiva e da numeragio. ‘Nao existe li- 14 mite, escreve ele, para a andlise mitica, unidade secreta que se | possa apreender ao cabo do trabalho de decomposicao. Os 1 temas desdobram-se ao infinito; quando se cré té-los desema- ranhado uns dos outros, mantendo-os separados, é apenas para constatar que se ressoldam em fungdo de afinidades im- previstas...”” Os mitos politicos de nossas sociedades contemporaneas no se diferenciam muito, sob esse aspecto, dos grandes mitos| sagrados das sociedades tradicionais. A mesma e a) fluidez os caracteriza, ao mesmo tempo que a imprecisio de. seus respectivos contornos. Imbricam-se, interpenetram-se, } perdem-se por vezes um no outro. Uma rede ao mesmo tempo} sutil e poderosa de liames de complementaridade nao cessa de’ manter entre eles passagens, transicdes e interferéncias. A nostalgia das idades de ouro findas desemboca geralmente na espera e na pregacio| profética de sua ressurreicao. E bem raro, inversamente, que os messianismos revolucionarios nao alimentem sua visio do futuro com imagens ou referéncias tiradas do passado. O passo é rapidamente dado, por outro lado, da denincia dos complés maléficos ao apelo ao Salva- dor, ao chefe redentor; é a este que se acha reservada a tarefa de livrar a Cidade das forcas perniciosas que pretendem esten- der sobre ela sua dominacio. Do mesmo modo que 0 mito religioso, © mito politico aparece como fundamentalmente polimorfo: é preciso entender com isso que uma mesma série de imagens oniricas pode encontrar-se yeiculada por mitos aparentemente os mais diversos; é preciso igualmente enten- son’ncias € nao t menos numerosas significacées. Significacdes néo apenas complementares, mas também freqiientemente opostas. Nenhum dos exploradores do i imagi- nario deixa de insistir nessa sa dialética dos contrarios, que pa- rece constituir ‘uma outra” de suas especificidades maiores: polimorfo, ° mito é é igualmente ambivalente. E preciso ler, por exemplo, a admiravel série de obras que Gaston Bachelard consagrou As representagdes psicolégicas dos grandes elemen- tos naturais,° e mais particularmente, talvez, La terre et les 15 réveries du repos, pata ver 0 jogo do fendmeno em toda a amplidao e em toda a diversidade de sua temAtica. Sonho de refigio, de abrigo, de seguranga, a casa pode tornar-se a ima- gem do calabougo, o simbolo da opressio carceraria, do amor- talhamento, na verdade, da sepultura. O tema da gruta pode carregar-se de pavor assim como de deslumbramento. A ser- pente é ao mesmo tempo objeto de aversao, promessa de fe- cundidade e instrumento dé sedugao. A raiz que aspira dirigir ao céu 0 sumo da terra, mas que cresce no reino subterraneo dos mortos, é percebida simultaneamente como forca de vida e forca tenebrosa... As possibilidades de inversao do mito nao fazem senaio corresponder A constante reversibilidade das ima- gens, dos simbolos das metforas. “~ O mito politico nao escapa a essa regra. O tema da pré- pria conspirac&o n&o é necessariamente acompanhado de ex- clusivas conotacdes negativas: a imagem do compl6 demo- niaco tem como contrapartida a da santa conjuracio. Se existe uma sombra ameacadora, existe também uma sombra tutelar, e os Filhos da Luz escolhem freqiientemente a noite para tra- var seu combate. S60 complé parece poder frustrar o complé. O segredo, a mscara, o juramento iniciatico, a comunidade de cimplices, a maquinacio oculta, em suma, tudo o que é 'denunciado e temido no outro reveste-se de tepente, voltado lcontra este, de um sombrio e todo-poderoso atrativo... O du- ‘plo legenddrio que .o imaginario secreta quase obrigatoria- mente em torno da presenga ou da memoria do Heréi histérico testemunha um fendmeno semelhante. Lenda dourada ou lenda sombria, a veneracdo ou a execracao alimentam-se dos mesmos fatos, desenvolvem-se a partir da mesma trama. Entre as duas versdes, entre Napoledo, o Grande, e 0 Ogro da Cér- sega, nao ha muito mais que uma oposicdo de ponto de vista: aureolado de gléria ou cercado de nuvens sinistras, no final das contas é o mesmo perfil que se descobre. A estranheza das origens, a rapidez da ascensdo, a vontade dominadora, a natu- reza dos triunfos, a amplidao dos desastres é tudo o que, em um caso, contribui para modelar a imagem da grandeza que, no outro caso, constitui a marca da infamia. As referéncias 16 temAticas sio as mesmas, mas suas tonalidades afetivas e mo- rais acham-se subitamente invertidas. Para além de sua ambivaléncia, para além de sua fluidez, existe, no entanto, o que se tem 0 direito de chamar de uma logica — uma certa forma de légica — do discurso mitico. Este nio depende nem do imprevisto nem do arbitrario. Do ¢ Mesmo modo que as imagens que nossos sonhos secretam nao cessam de girar em um circulo bastante estreito e se encon- _ ‘tam submetidos a certas leis — bem facilmente definiveis, _ alias — de repeticao e de associacao, assim também os meca- nismos combinatérios da imaginacfo coletiva parecem nio ter a sua disposicZo sendo um namero relativamente limitado, de formulas. O poder de renovacio da criatividade mitica é, de fato, muito mais restrito do que as aparéncias poderiam fazer crer. Se 9 mito é polimorfo, se constitui uma realidade ambi- a cami- nhada. Esta pode ser representada e apresenta-se efetivamente como uma sucesso ou uma combinacdo de imagens. Mas Tem essa sucesso nem essa combinag4o escapam a uma certa forma de ordenacao organica. Elas se inserem em um sistema, inscrevem-se em uma “sintaxe”, para retomar a expressio de. Claude Lévi-Strauss: em outros termos, é agrupados em séries idénticas,. estruturados em associagdes permanentes que se apresentam os elementos construtivos da narrativa que elas compéem. Assim, o tema do Salvador, do chefe providencial, aparecerd sempre associado a simbolos de purificacao: o heréi redentor é aquele que liberta, corta os grilhdes, aniquila os monstros, faz recuar as forgas m4s. Sempre associado tam- bém a imagens de luz — 0 ouro, o sol ascendente, o brilho do olhar — e a imagens de verticalidade — o gladio, o cetro, a Arvore centendria, a montanha sagrada. Do mesmo modo, © tema da conspiraco maléfica sempre se encontrar colo- cado em referéncia a uma certa simbélica da macula: o ho- mem do complé desabrocha na fetidez obscura; confundido com os animais imundos, rasteja e se insinua; viscoso ou ten- tacular, espalha c veneno e a infecgSo... 17 Ultimo trago especifico, portanto, da narrativa ‘mitica: éem um m codigo « que se tem 0 direito de cons siderar como imu- tvel em seu conjunto « que ela transcreve e » transm: nsmi ite sua men- Sagem. Ao olhar do analista, o fato nao pode | deixar de § ganhar particular import&ncia, ja que fica claro no mesmo lance que é também em fungZo de uma mesma chave que essa mensa- gem sera suscetivel de ser decifrada. Sem davida, convém le- var em conta o carater mui ingular dessa “‘sintaxe’’ associa- # tiva, como convém levar em conta a originalidade do com- plexo psiquico no qual ela se insere. No entanto, do mesmo modo que Freud fundamenta sua interpretagao do sonho nas “engrenagens particulares” que descobre em seu desenrolar, as “‘relacdes intimas’” que consegue estabelecer entre os ele- mentos aparentemente incoerentes de que ele se compée, as- sim também a existéncia reconhecida de uma légica do imagi- nario representa a ‘a oportunidade de um pr primeiro ponto de apoio oferecido a a inteligénci ia critica, de uma primeira possi- ee de leitura proposta a Vontade de compreensio obje- tiva. Nesse desconcertante labirinto que constitui a realidade mitica, para aquele que teve a audacia de nele penetrar, ela fornece pelo menos a promessa de um fio condutor. Toda a [auestao esta evidentemente em saber como servir-se dele, em saber mesmo como agarra-lo. “E um dificil problema que exige ser tratadoem si mesmo, ‘.por si mesmo e segundo um método que lhe seja especial.” { Notavel talvez por sua prudéncia, mas de qualquer modo um * pouco vago em seu contetido positivo, o conselho é de Dur- kheim ¢ refere-se exatamente ao estudo do imagindrio mito- :légico. Ele ganha certamente um valor muito particular, e na verdade bem pouco encorajador, quando aquele que tenta sua aventura é um historiador, formado exclusivamente nos méto- dos de sua disciplina de origem, mal preparado, portanto, para as exploracées incertas conduzidas fora de seu territério habitual. Sem dtivida, ao menos no que concerne ao autor deste ensaio, duas obras maiores, permanecidas quase intac- 18 tas em sua forga original, erguem-se diante dele, capazes de desempenhar ao mesmo tempo os papéis de modelo e de guia: i aquelas — j& citadas — de Gaston Bachelard e de Claude Lévi-Strauss. A evocacdo dessas obras, sua aproximacio nas primeiras p4ginas deste volume nao sio, no caso, de modo algum fortuitas. Ainda que lidas em datas diferentes, e que podem parecer j4 singularmente distantes, situam-se ambas na origem deste livro. Delas vieram o impulso inicial, a aber- tura para novas curiosidades, a incitacio a um novo tipo de pesquisa. Conciliar, combinar e talvez também corrigir um pelo outro a maleabilidade poética de Bachelard eo rigor ana- litico de Lévi-Strauss, a restituig&o melédica e a reconstrugao légica, a ambic&o caminhou por longo tempo antes de encon- trar sua formulacdo definitiva. Ela pode ser considerada ex- cessiva, mas nfo 6, afinal, inconfessdvel... S6 vale, no en- tanto, como declaracao de intengZo. Nem Gaston Bachelard, ) ; nem Claude Lévi-Strauss situaram-se, no interior do tempo, histérico, no quadro de um espaco cronolégico medido e da-)} tado. Nem um nem outro, alids, aproximou-se dessa dimen-} s&o do imagin4rio, a dimensao politica, que constitui 0 especi-/ fico de nosso assunto. Instigadores exemplares, de fato ficam) por definir as modalidades de adaptacao de seu ensinamento: auma realidade que ambos negligenciaram. Os elementos de resposta a esse problema, com efeito, “dificil”, reconheceremos de boa vontade té-los emprestado do livro mais recente, tao estimulante quanto ainda muito t pouco consultado, de Gilbert Durand, Structures anthropolo- ' giques de l’imaginaire.’ (Alias, é preciso fazer notar que, mesmo orientado por uma perspectiva bem diferente da nossa, e ainda de carater ahistérico, o estudo de Gilbert Durand si- tua-se praticamente sob os mesmos apadrinhamentos, no cru- zamento das mesmas influéncias?...) O procedimento Pro-| posto apresenta-se como um método comparativo e de ordem essencialmente pragmatica. No que se refere ao nosso assunto, ele nos conduzira a definir, em primeiro lugar, os contornos do que Gilbert Durand chama de “const telacdes mitolégicas”, ou seja, conjuntos de de construgde: S miticas s sob ¢ 0 dominio de um 19 mesmo tema, reunidas em torno de um nicleo central. (Eem fungto de quatro dessas “‘constelacdes” que se acha organi- zada a presente obra.) No interior desses conjuntos, sera con- veniente, em um segundo momento, destacar a rede de cor- relagées exi: tentes; em 0 em outras palavras, mon montar o quadro da: Gas -linhas de convergéncia, estabelecer o inventrio dos pontos ‘de encontro e dos fatores de similitude. Para além das variantes, das diversidades } possiveis de formulac4o e até mesmo das con- tradigdes aparentes, surgirao assim, construidas a partir dos 4 mesmos esquemas condutores, em torno dos mesmos arqué- tipos, das mesmas imagens e dos mesmos simbolos, 0 que ser4 possivel considerar como as estruturas fundamentais da reali- dade mitica. Ultimo passo: serao colocados, entdo, os proble- mas de interpretacao... E é aqui, parece, que a hist6ria - historia dos fatos sociais e histéria das mentalidades coletivas — deve ser chamada a retomar a plenitude de seus direitos. Chamada também, pelo menos assim o cremos, a fornecer um elemento novo de compreensio, a proporcionar um modo de ver ver original, - por longo tempo e muito freqiientemente nc negli- genciado. Entretanto, nZo se poderia ignorar que essa intervengio corre 0 risco, e em seu proprio principio, de provocar certas inquietagdes, de suscitar pelo menos certas interrogacées. Ine- xoravelmente sujeito as leis da andlise mitolégica, levado por isso mesmo a privilegiar os fatores de convergéncia e de per- manéncia, nao sera o historiador conduzido, por sua vez, a . ocultar ou a apagar as disparidades de época, de lugar e de situacdo, isto 6, levado no final das contas a trair 0 que apa- rece como o essencial de sua vocagio? Nao é preciso conside- rar como anti-histérico por defini¢do um tipo de procedimento | que tende, explicita ou implicitamente, a reduzir 4 intempo- ralidade os fatos que se prope estudar? O que dizer de uma ciéncia do passado que n&o se obrigasse mais a situar priori- tariamente seus dados na perspectiva da duragdo, ou seja, da evolucdo e da mudanga, que nao se obrigasse mais, por outro lado, a apreendé-los em sua especificidade, isto é, datados e localizados, recolocados em seu contexto cronoldégico e em seu 20 contorno geografico e social? Assimilar, por exemplo, como 0 faz o historiador americano Norman Cohn nas ultimas pagi- nas de seu Os fandticos do Apocalipse, 0 advento do regime nazi aos grandes impetos messianicos do final da Idade Média pode, sem divida, contribuir para esclarecer sob uma luz su- gestiva um e outro desses fendmenos.’ Mas niio é também cor- rer o risco, para cada um deles, de passar ao largo daquilo que | o torna historicamente tinico, de ignorar ou de falsear sua ori- ginalidade e talvez sua verdade essencial? Interrogacdes ou precaugdes, essas observacées tém, em todo caso, o mérito de evocar o respeito a uma prudéncia eas. | tante elementar. No que se refere a este ensaio — e conscien- tes, alias, dos limites de nossa competéncia —, cremos té-la levado em conta muito suficientemente, reduzindo 0 campo de nossas observa¢ées aos dois tltimos séculos de nossa hist6- tia ideolégica: estes podem, de fato, legitimamente aparecer, ao olhar do historiador das mentalidades e da sensibilidade politicas, como constituindo uma espécie de limiar ou de pata- mar cultural, formando, em outros termos, um conjunto cro- nolégico com fronteiras muito bem definidas e do qual se tem o direito de afirmar a coeréncia e a continuidade. Quanto ao resto, e no plano mais geral, parece permitido sustentar, ao contrario, que o recurso 4 histéria aparece como tanto mais legitimo quanto 0 estudo do imaginario mitolégico encontrou- se, com efeito, muito freqtientemente encerrado na formula- gio de uma tematica abstrata, isenta de toda consideragdo de circunstancia e ae deh lugar. Faz parte day vocacao do historiador recolocar na evolucaio geral de uma sociedade ou de uma civi- lizagdo esses grandes impetos de efetvescéncia onirica que, ao longo dos dois Ultimos séculos, téo freqiientemente marca- ram as mentalidades politicas. Cabe-lhe coloca-los em relagao com tal ou qual fendmeno de ruptura ou de mutagio, tal crise ou tal situagao de ordem politica, econdmica ou social. Cabe- ihe igualmente pesquisar quais grupos ou quais meios foram seus focos privilegiados. Cabe-lhe ainda acompanhé-los em seu desenvolvimento ou em seu declinio, reconstitui-los na compiexidade concretamente vivida de seu poder de fascinio. at ’ O estudo de seus sonhos constitui, para o conhecimento de uma sociedade, um instrumento de andlise de cuja eficacia nao se poderia negligenciar, e nfo se percebe bem, na ver- dade, em nome de quais postulados tedricos o historiador se veria proibido de utilizar tal método de pesquisas ou tal forma de investigacao, Por pouco que estes contribuam para sua compreensao do passado. Situar-se na junc&o de duas discipli- nas, tentar enriquecer uma e outra por sua mitua confronta- ¢4o: nao se trata ai, na verdade, de um ato de audacia muito excepcional. Uma outra ameaga — ou uma outra tentacdo — shbsiste, contudo, mais temivel talvez, em todo caso mais insidiosa. As mesmas estruturas miticas, acabamos de escrever, sfo susce- tiveis de ser reencontradas no segundo plano de sistemas ideo- [Bgicos politicamente 0s mais diversos, ha verdade, os mais contraditérios. Aquele que se pretende, antes de tudo, sensi- vel ao vocabulario das imagens, A sucessio das Trepresentagdes oniricas, nao corre realmente o risco de apagar essas diferencas ou essas contradi¢ées, de esquecé-las ou de negligencid-las? Tentaremos mostrar como, por exemplo; ao longo do ultimo século, a dentncia da conspiraco judia e a do complé jesui- tico alimentam-se dos mesmos temas, dos mesmos fantasmas, das mesmas obsessdes. Essa identidade estrutural, por mais importante que seja, deve conduzir a negligenciar o lugar fun- damentalmente diferente que ocupam as duas construcdes mitolégicas no conjunto do sistema ideolégico francés, de seus debates e de suas confrontacdes? Do mesmo modo, uma certa imagem da antiga Franga, sustentada pela escola tradiciona- lista, pode ser aproximada com toda razio — por sua oposi- ¢4o aos valores da modernidade conquistadora, por sua evoca- go nostalgica de um “tempo de antes” mais nobre, mais feliz e mais fraterno — tanto de algumas das aspiracdes ecolégicas mais contemporaneas quanto do modelo da Cidade antiga tio freqiientemente evocado pela filiagdo rousseauista. Entre- tanto, é evidente que, nesse caso, no plano da especulagao doutrinal assim como no do projeto institucional, um mesmo sistema de organizac4o mitica nao conduz obrigatoriamente a 22 uma visdo idéntica do sistema Politico a ser estabelecido ou da ordem social a ser instaurada. Em suma, reconhecer ao imagi- nario seu lugar nio significa de modo algum abandonar-Ihe a totalidade do campo da anlise. A focalizacio da atengao so- bre os fendmenos de ordem mitica apresenta, e no seu proprio movimento, uma virtualidade de arrebatamento redutor que seria condendvel nao assinalar. A constatacdo tem valor de adverténcia... Adverténcia essa, contudo, que o autor destas paginas no esta seguro de ter, ele proprio, suficientemente observado! De resto, nesse paradoxal empreendimento que consiste em transcrever o irracional na linguagem do inteligivel, nao dissimulamos o quanto se arriscam ‘a parecer incertos, par- ciais e incompletos os resultados de semelhante investigacao. A tealidade mitica é tal que escapara sempre, por alguns de seus aspectos, 4 mais sutil como 4 mais rigorosa das anflises. ! E uma esperanca sem divida bem iluséria Pretender definit; vamente transcender a oposicio do racional ‘e do imaginario, Encontramo-nos em um dominio onde o Unico verdadeiro co- nhecimento seria da ordem do exis tencial: apenas aqueles que vivem o mito na adesio de sua fé, no impulso de seu coragdo e no empenho de sua sensibilidade se encontrariam em condi- gao de exprimir sua tealidade profunda. Visto do exterior, examinado com o exclusiyo olhar da observacdo objetiva, o mito corre 0 risco de nao mais oferecer senio uma imagem fossilizada, seca, prancha de anatomia despojada de todos os mistérios da vida, cinzas esfriadas de uma fogueira incan- descente, Entre os dados da experiéncia interiormente vivida e os do distanciamento critico, o hiato subsiste; talvez seja pos- Sivel reduzi-lo, mas é yao sonhar em aboli-lo totalmente. O mito s6 pode ser compreendido se é intimamente viyido, vaas! vivé-lo impede dar-se conta dele objetivamente. Objeto de es- tudo, ele tende, inversamente, a imobilizar-se em uma He so de dados estaticos; tende igualmente a se esvaziar de seu } contetido emocional, ou seja, do essencial de si mesmo. Constata¢ao, no caso, decepcionante, capaz, no entanto, de proporcionar ao historiador — € no momento mesmo em 23 que este se cré autorizado a fazer valer a insubstituivel legiti- midade de sua fungao — uma muito oportuna ligdo de modés- tia. Em sua vontade de conhecer e de compreender o desen- rolar da aventura humana através do tempo, n4o é afinal ini- til que ele se lembre de que ha portas que nao podera jamais forgar, de que ha limites que nao poderd jamais transpor... 24 “ A CONSPIRACAO TRES NARRATIVAS Estamos em Praga, por volta da metade do século XIX, entre as sepulturas amontoadas do yelho cemitério judeu. A meia-noite logo vai soar, o siléncio se torna mais pesado sobre a cidade, a escuridao se faz mais espessa. As portas do cemité- tio foram entreabertas; sombras deslizam furtivamente, en- voltas em longos mantos, depois se reagrupam em volta de uma pedra tumular. Trata-se dos representantes das doze tri- bos de Israei que, segundo um costume milenar, devem todos os séculos pér-se de acordo secretamente sobre os meios acio- nados para assegurar a maior gléria do Povo Eleito. Um deles, 0 mais idoso, o mais veneravel, toma a palavra: Nossos irmios legaram aos eleitos de Israel o dever de se reunir uma vez a cada século ao redor da sepultura do Grande Mestre Caleb, santo rabino Siméon-Ben-Jhuda, cuja ciéncia entrega aos eleitos de cada geragdo o poder sobre toda a terra e a auto- tidade sobre todos os descendentes de Israel. Eis que j4 ha dezoito séculos dura a guerra de Israel com esse poderio que fora prometido a Abraao, mas que lhe foi arrebatado pela Cruz. Piscteado, humilhado por seus inimi- gos, incessantemente sob a ameaca de morte, de Perseguicao, de raptos e de violagdes de toda espécic, 0 povo de Israel su- cumbiu; e, seestd disperso por toda a Terra, 6 que toda a Terra deve pertencer-lhe... 25 ..-A origem dessa narrativa deve ser buscada em um dos capitulos de um romance mediocre, publicado em Berlim em 1868 com o titulo de Biarritz e assinado com 0 pseud6nimo de Sir John Retcliffe. (Tratava-se, na verdade, de um funcionario demitido do servico dos Correios prussianos, chamado Goed- sche.) Apés ter sido objeto de diversas publicagdes na Europa oriental, o episddio, isolado de seu contexto romanesco, atin- gira o publico francés nos anos 1880. Um niimero do Contem- porain do més de julho de 1881 apresenta a cena do cemitério judeu de Praga como um fato veridico, conhecido gragas ao testemunho de um muito honrado e muito auténtico diplo- mata britanico, de nome ligeiramente deformado — Sir John Readclif. Enquanto, por outro lado, na verso primitiva, cada um dos representantes das doze tribos de Israel tomava suces- sivamente a palavra, suas falas aparecem, de agora em diante, fundidas em um tnico discurso. E sob essa forma que “‘o dis- curso do rabino” é reencontrado na Franga na obra de Fran- cois Bournaud, Les juifs nos contemporains, publicada em 1896, ao mesmo tempo que conhece, e até depois da Primeira Guerra Mundial, uma difus&o internacional incessantemente ampliada. E preciso esperar 1933, a primeira edicdo sueca ea introdugo que a precede para ver afinal anunciada a morte de Sir John, como era de se prever, misteriosamente assas- sinado.' A amplitude do interese despertado por esse texto é pro- porcional, alias, As revelagdes que traz. De fato, trata-se de nada menos que 0 aniincio de um plano metédico, rigorosa- mente articulado, de conquista e de sujeic&o do globo. ‘‘De- zoito séculos pertenceram a nossos inimigos, proclama o ra- bino na noite do cemitério de Praga; 0 século atual e os séculos futuros devem pertencer a nés, povo de Israel, e certamente nos pertencerao.” A luta se desenrolar4 no plano econémico, politico, social, religioso. Todas as estratégias ser&o utiliza- das, tanto as da especulacdo financeira como as do agambar- camento do poder governamental ou da apropria¢do dos meios de educacao e de informagdo. A propria evolugao do conjunto das instituigdes e dos costumes, o movimento de concentragao 26 capitalista assim como o desenvolvimento da imprensa ou o progresso das ciéncias médicas contribuirdo para o triunfo dessa imensa esperanga. “Ditaremos ao mundo aquilo em que deve ter-fé, aquilo que deve honrar e o que deve maldizer Ld. Que tudo seja compreendido, anotado e que cada filho de Is- rael se compenetre destes verdadeiros principios. Entao nosso poderio ‘crescer4 como uma 4rvore gigantesca cujos galhos produzirao os frutos que se chamam riqueza, gozo, poder, como compensacao dessa condigao hedionda que, por longos séculos, foi o unico quinh3o do povo de Israel.” E com essas promessas que se encerra a profecia do velho rabino diante de seus companheiros prosternados. -+, Outra narrativa, outro cendrio. Uma rua solitaria de Paris em 1831, na monotonia de uma manhi de outubro. Uma fachada banal ‘‘varada por duas janelas guarnecidas de cerra- das barras de ferro”, um patio estreito e escuro para o qual se abre um vasto cémodo de piso ladrilhado. Um mobilidrio po- bre e triste, algumas cadeiras, uma mesa, prateleiras de ma- deira escurecida, mas no meio das quais ergue-se um impo- nente planisfério “‘de cerca de quatro pés de diametro, colo- cado sobre um pedestal de carvalho macigo”: ‘“‘Notava-se so- bre esse globo uma multidao de cruzinhas vermelhas espalha- das por todas as partes do mundo; do norte ao sul, do levante ao poente, desde as regides mais barbaras, as ilhas mais dis- tantes, até as nagdes mais civilizadas, até a Franca, nao havia um territério que nao exibisse varios lugares marcados com aquelas pequenas cruzes, servindo evidentemente de pontos de referéncia...”. E nesse cendrio austero que, desde os pri- meiros capitulos de Le juif errant (O judeu errante), Eugéne Sue pde em cena dois dos principais personagens de um ro- mance publicado em folhetim as vésperas da Revolucao de 1848 e cujas inumer4veis reviravoltas ocuparam durante lon- gos meses as colunas do Journal des Débats. O primeiro des- ses personagens, curvado diante da mesa de trabalho, é um velho de ‘‘mascara livida’’, vestido com uma yelha sobrecasaca 27 cinza e puida, de gola engordurada. Humildemente, apresenta a seu interlocutor, homem jovem, elegante, de olhar agudo e dominador, um espesso maco de mensagens vindas de todos os cantos do mundo. Ditadas com voz seca, as respostas sao imediatamente transcritas em linguagem cifrada: — Don Ram6n Olivares acusa de Cadiz recebimento da carta numero 19, obedecer4 a ela e negara qualquer participacio no rapto. — Bem, a classificar... — O senhor Spindler envia de Namur o relatério secreto pedido sobre o senhor Ardouin. — Aanalisar... — Osenhor Ardouin envia da mesma cidade o relatério secreto pedido sobre o senhor Spindler. — Aanalisar... — O doutor Van Ostadt, da mesma cidade, envia uma nota confidencial sobre os senhores Spindler e Ardouin. — Acomparar. Prossiga. — Oconde Malifierri, de Turim, anuncia que a doagdo de trezentos mil francos esta assinada. — Avisar Duplessis... Em frente. O didlogo prossegue, tornando-se cada vez mais pesado de mistério e ameaca: — Onegociante anuncia que o.empregado est prestes a man- dar o banqueiro prestar contas a quem de direito... Depois de ter acentuado essas palayras de maneira parti- cular, Rodin diz aseu mestre: | | — Osenhor compreende?... — Perfeitamente — diz 0 outro, estremecendo. expressées combinadas. Em seguida? — Mas oempregado —~ retoma o secretario — ést4 preso'a um ltimoescriipulo. © Depois de um momento de'siléncio, durante o qual seus tragos se contrairam penosamente, o mestfe de Rodin retoma: — Continuar a agir sobre a imaginagdo do empregado pelo siléncio e pela solidao, depois fazé-lo reler a lista dos casos em que o regicidio é autorizado e absolvido... Continue [...]. Sto as 28 — Ha trés anos, duas criadas de Ambrosius, que foram colocadas naquela pequena paréquia das montanhas do Va- lais, desapareceram sem que se saiba o que foi feito delas. Uma terceira acaba de ter a mesma sorte. Os protestantes da regido se comovem, falam de assassinato, de circunstancias pavorosas. — Até prova evidente, completa do fato, que se defenda Ambrosius contra essas infames cahinias de um partido que nao recuara jamais diante das invencdes mais monstruosas... Continue [...]. — Haussmann anuncia que a dangarina francesa Alber- tine Ducornet é a amante do principe reinante; tem sobre ele a mais completa influéncia; ent&o se poderia através dela chegar seguramente ao objetivo que se prepara; mas essa Albertine é dominada por seu amante, condenado na Franca como fals4- rio, e nao faz nada sem o consultar... — Ordenar a Haussmann-que faca acordo com esse ho- mem; se suas pretensdes forem razo4veis, aceder a elas; infor- mar-se se essa mulher nao tem parentes em Paris... O leitor de Eugéne Sue nao demora a ser informado da origem do formidavel poderio desses dois homens que, no si- léncio de uma obscura morada parisiense, dispdem assim da vida e-dos bens de seus contempor4neos, precipitam a decisio dos governos € a sucess&o dos tronos, estendem sua vigilancia do Pacifico 4 velha Europa: o poder de que dispdem é o da Sociedade de Jesus; as intiimeras cruzinhas vermelhas que co- brem com uma imensa rede 0 planisfério que orna seu refigio correspondem a todos os pontos do universo onde a Compa- nhia estabeleceu seus centros clandestinos de espionagem e de subversdo. E n&o é a-toa que, parando um momento de ditar suas instrucées, fixando longamente o olhar sobre o globo, “o mestre do sr. Rodin” se deixe levar por um intenso movi- mento de orgulho: Sonhando sem divida com a invisivel agio de seu poder, que parecia estender-se sobre o mundo inteiro, os tragos daquele homem animaram-se, suas largas pupilas cinzentas brilharam, suas narinas inflaram, seu rosto mésculo ganhou uma incrivel 29 ‘expressao de energia, de audacia e de soberba. A fronte altiva, 0 labio desdenhoso, aproximou-se da esfera e apoiou sua vigo- rosa m4o no pélo. Por esse poderoso abraco, por esse movi- mento imperioso, possessivo, diriamos que aquele homem se acreditava seguro de dominar esse globo que contemplava com toda a arrogancia de sua grande altura e sobre o qual pousava sua m&o com ar tao orgulhoso, tao audacioso. Enta&o ele néo sorria... ... Edo mais ilustre dos rivais de Eugéne Sue, do proprio Alexandre Dumas, que é preciso extrair uma terceira narra- tiva. As primeiras paginas de Joseph Balsamo transportam- nos para muito longe da monotonia cotidiana e dos ségredos abafados da Paris de Luis Felipe. Na Alemanha, no més de maio de 1770, a luz tragica de um creptsculo de primavera, no corag4o dos mais sombrios macigos florestais que ladeiam a margem esquerda do Reno, um misterioso viajante é intro- duzido na vasta sala subterranea de um castelo abandonado. Dezenas de homens mascarados ai se encontram reunidos, e diante deles 0 desconhecido aceita submeter-se a desconcer- tantes provas, pronunciar estranhos juramentos. “Bebo, diz ele, 4 morte de todo homem que trair os segredos da associa- cao santa.” Mas de repente, elevando a voz, o estrangeiro in- terrompe o interrogatério a que se acha entregue. Nao ha nada, anuncia ele, além Daquele que esperamos, Aquele a quem a Providéncia confiou a tarefa grandiosa de desencadear “o incéndio salutar” que deve “iluminar 0 mundo”. E na Franga, explica ele, que a chama deve ser carregada em pri- meiro lugar: Um rei velho, timorato, corrompido, menos desesperado ainda que a monarquia que representa, toma assento no trono da Franca. Restam-lhe apenas poucos anos de vida. E preciso que o futuro seja convenientemente disposto por nés para o dia de sua morte. A Franga é 0 fecho de abébada do edificio; que os seis milhdes de maos que se levantam a um sinal do circulo supremo arranquem essa pedra ¢ o edificio monérquico desa- bara, e no dia em que se souber que nao ha mais rei na Franca, 30 os soberanos da Europa, os mais insolentemente sentados em seus tronos, sentirdio a vertigem lhes subir 4 cabega, e por si mesmos se atirarao no abismo que esse grande desmorona- mento do trono de Sao Luis tera cavado. Dai para a frente a cena ganha toda sua significacio. Os homens mascarados reunidos sob as abébadas subterraneas do velho burg vieram de todas as regides do mundo ocidental; todos os Estados, todos os reinos acham-se representados. O objetivo que os retine é simples mas grandioso: precipitar a destruig&ao da velha ordem monérquica e cristé, preparar 0 advento do reino universal da Liberdade e da Igualdade. O que Ihes prope aquele que agora reconheceram como mestre nao é nada senao um plano ordenado e sistematico de subver- s4o. Vinte anos sero necessarios para sua tealizacao: Eu lhes digo, filésofos, economistas, idedlogos, quero que em vinte anos esses principios que murmuram em voz baixa no seio da familia, que escrevem com olhar inquieto 4 sombra de suas velhas torres, que confiam uns aos outros, o punhal na mio, para apunhalar o traidor ou o imprudente que repetisse suas palavras mais alto do que as dizem; quero — esses prin- eipios — que os proclamem bem alto na rua, que os imprimam em pleno dia, que os facam propagar-se por toda a Europa por emissarios pacificos, ou na ponta das baionetas de quinhentos mil soldados que se levantarao, combatentes da liberdade com esses principios inscritos em seus estandartes. [...] Pois bem, tudo isso sé pode ser feito apés a morte, ndo do monarca, mas da monarquia, apés o desprezo dos poderes teligiosos, apéds o esquecimento completo de toda inferioridade social, apés a ex- tingao, enfim, das castas aristocraticas e a divisto dos bens se- nhoriais. Peco vinte anos, isto é, vinte segundos da eternidade. Os fios da Conjurag&o esto atados. Cada um dos cim- plices conhece agora o papel que lhe é atribuido.e a trama geral na qual esse papel se acha inscrito. Até a obstinacao da futura rainha Maria Antonieta, até a fraqueza do futuro Luis XVI, todos os fatores do drama imenso que se prepara estao previstos, combinados, ordenados em vista de sua meté- 31 dica expioragaio. O encadeamento dos fatos que vai conduzir 4 Revolucao Francesa, depois dirigi-la até seu resultado final, j4 esta inscrito no destino. A légica da manipulagdo se vé subs- tituindo a imprevisibilidade dos acidentes da histéria. No se- gredo do complé, um realizador desconhecido vai dispor dos acontecimentos em fungdo de um plano preestabelecido- de que apenas ele conhece o inexorAvel desfecho. ALUTA PELA DOMINACAO DO MUNDO Trés narrativas, trés organizacdes ocultas, trés complés: o complé judeu, o complé jesuitico e 0 complé mac6nico. Sabe-se como, e com que forga, 0 espectro de cada um desses complés nao cessou de obsedar o imaginario politico de nosso século e daquele que o precedeu. Conhece-se também a imen- sa literatura, de todos os géneros ¢ de todos os niveis, que sua denincia suscitou, o longo rastro de violéncia, de paix4o e de édio deixado atras dela. A aproximacio entre os trés textos anteriormente citados encontra toda sua legitimidade no fato de que cada um deles aparece, sob esse aspecto, historicamente carregado | de um valor ilustrativo © particularmente suges sugestivo, “O discurso do ra- bino” constitui uma das fontes essenciais, quase seria preciso dizer a primeira das versdes de um documento primordial na histéria ideolégica contemporanea, no caso, Les protocoles des sages de Sion (Os protocolos dos sAbios de Sido): sabe-se que essa falsificacio, fabricada nos Ultimos anos do século XIX por diversos servicos da policia czarista, conheceu, antes da Primeira Guerra Mundial e sobretudo entre as duas guer- ras, uma prodigiosa difusio, alcangando em certos momentos tiragens que parecem ter igualado as da prépria Biblia. Le juif errant (O judeu errante), de Eugéne Sue, nao se inscreve tao- somente, por seu lado, na linha de certa polémica anticlerical insepardvel da histéria da Franca da Restaurac&o e da mo- narquia de Julho; ele retoma, ilustra e desenvolve alguns dos temas apresentados, cerca de cinco anos antes de sua publi- cacao, por Michelet e Quinet em seu livro sobre os Jésuites.? Quanto ao prélogo de Joseph Balsamo, no faz mais que transpor para o plano do romanesco popular as teses desen- volvidas desde 1797 pelo abade Barruel nos cinco tomos de suas Mémoires pour servir a l'histoire du jacobinisme? Para Barruel, a génese e a conduta da Revolucio Francesa eram essencialmente atribuiveis 4s maquinagées da franco-maco- naria, herdeira de uma longa tradicAo de édio para com a Monarquia ¢ a Igreja — encontrando-se, aliés, a propria franco-magonaria dirigida, nesse caso, por uma seita particu- lar, a dos Iluminados da Baviera, que se havia apoderado de seu controle. ‘Nessa revolug&o francesa, escrevia Barruel, tudo, até os seus crimes mais pavorosos, tudo foi previsto, meditado, combinado, decidido, deliberado: tudo foi efeito da mais profunda perversidade, j4 que tudo foi preparado, con- duzido por homens que eram os tinicos a ter 0 fio das conspi- rages longamente urdidas em sociedades secretas, e que sou- beram escolher e acelerar os movimentos propicios aos com- plés.” Pertencendo a um mesmo género literario — o romance- folhetim tal como foi concebido e praticado ao longo do século passado —, dirigindo-se a um mesmo pitblico apaixonado pela aventura e pelo sensacional, as trés narrativas em questo constituem sobretudo unvrepertério privilegiado de temas, de imagens e de referéncias. Igualmente presentes em textos de outra natureza ou de outro género, mas sob uma forma sem divida menos evidente, mais discreta ou mais diluida, esses temas, essas imagens e essas referéncias, simplificados, ampli- ficados, impdem-se aqui com uma nitidez sem equivoco. Mui- to além da diversidade ou das contradicées da inspirago ideo- légica de que derivam mais ou menos diretamente, sua apro- ximacao faz aparecer, em todo caso, uma espantosa identi- dade de estrutura. Um mesmo conjunto mitolégico se destaca, coerente em sua arquitetura, imutavel no tracado essencial de suas linhas de forca. Uma chave de leitura pode ser assim construida, e aplicada, alias, a tudo 0 que diz respeito ao le- gendario do compl}. Os sombrios designios do Dr. No, des- 33 mascarados por James Bond na mais célebre série do romance contempor4neo de espionagem, integram-se nesse esquema da mesma maneira que um nimero considerAvel de relatos de aventuras ou de filmes de espionagem. As variantes narrativas sao imimeras, suscetiveis de situar-se tanto no espaco como no tempo, Contudo, sio muito secundarias em relacto a perma- néncia de uma mesma construgao morfoldégica. Grande Sinédrio do Judaismo universal, Companhia de Jesus ou Lojas macénicas, no centro da mitologia do Complé impde-se em primeiro lugar a imagem, temivel e temida, da Organizacio. O segredo constitui a primeira de suag caracte- risticas. Todos aqueles que, de uma forma ou de outra, pre- tendem relatar suas atividades ou denunciar seus maleficios insistem nas dificuldades que encontraram, muitas yezes tam- bém nos perigos que correram para desvendar seus mistérios. Os cimplices estio ligados entre si pelo juramento do siléncio, e um castigo inexordvel n&o poderia deixar de atingir aquele que ousasse trai-lo. Ceriménias iniciaticas, um ritual compli- cado e obscuro marcam quase sempre a entronizac4o na seita. Os lugares escolhidos para reunides e conselhos devem garan- tir-Ihes, seja por sua desconcertante banalidade, seja por suas dificuldades de aproximacio, uma total clandestinidade. Adestrados, segundo o abade Barruel, por uma verdadeira Pedagogia do segredo, os homens do Complé serio antes de tudo “‘instruidos para esconder-se’”’. A pratica das senhas, 0 uso dos sinais convencionados de reconhecimento, o manejo dos cédigos cifrados periodicamente renovados consagram sua iniciagéo. “Todas as instrucdes”, esclarece ainda Barruel a Propésito dos Iluminados da Baviera, “transmitiam-se ou em uma ‘linguagem inicidtica, ou por um cédigo especial ou por vias secretas. Temendo que um falso irmao ou mesmo que um magom estranho A inspegao do Grande-Oriente se misturasse aos verdadeiros adeptos sem ser conhecido, havia uma palavra de ordem especial, mudada todos os semestres e regularmente enviada pelo Grande-Oriente a toda loja de sua inspecio...” Protegida dos olhares externos pela lei do segredo, a Or- ganiza¢io impée-se, por outro lado, pelo rigor de sua compar- 34 woo — aac timentagao interna e de sua estrutura hierarquica, A forma pela qual se apresenta, no mais das vezes, 6 a de uma pira- mide com escaldes sucessivos e estritamente compartimenta- dos: a cada escalao recentemente galgado corresponde, para 0) homem do compl6, um grau suplementar de conhecimento, de autoridade e de responsabilidade. No topo, para onde con- fluem os fios de todas as intrigas e de onde partem todas as palavras de ordem, assenta-se uma autoridade soberana, defi- nida ao mesmo tempo como implacdvel e invisivel. “Os altos graus, escreve o abade Barruel, devem sempre ser desconhe- cidos dos graus inferiores. Recebem-se com mais boa vontade as ordens de um desconhecido que as dos homens nos quais se Teconhece pouco a pouco toda espécie de defeitos. Com esse Tecurso pode-se observar melhor seus inferiores. Estes pres- tam mais aten¢ao em sua conduta, quando se acreditam cer- cados por pessoas que os observam...”” E Possivel até que, por tras da fachada de um primeiro poder nominal, oficialmente estabelecido, um outro se dissimule, mais secreto ainda, mais inacessivel e mais absoluto: como suas “Jojas de fundo”, cuja presenca, para além das estruturas ainda demasiado aparen- tes da organizacao, é denunciada por uma larga fracio da literatura antimagénica do Ultimo século; igualmente como esses ‘“‘principes de Israel” ou esses “altos chefes judeus” que, segundo certos intérpretes do anti-semitismo francés da Belle Epoque, apoderaram-se até do controle da maconaria e agora dominam o conjunto de suas redes. Ignorante desses misté- tios, versada nos exclusivos princfpios da obediéncia passiva, mantida pelo carAter irremediavel dos juramentos pronuncia- dos, a massa dos ciimplices j4 n&o aparece sendo como um imenso mecanismo, com engrenagens estritamente disp onde a personalidade se dissolve, o individuo se perde. Que poder temos nés [exclama, num espantoso arroubo de exaltag4o, um dos mestres jesuitas posto em cena por Eugéne Sue]. Realmente, sempre sou tomado por um movimento de admiracdo quase amedrontada ao pensar que, antes de nos pertencer, o homem pensa, vé, cré, age segundo sua vontade... 35 = € quando é nosso, ao final de alguns meses, do homem nao hay mais que 0 envoltério: inteligéncia, espirito, razio, conscién- | cia, livre-arbitrio, tudo nele est4 paralisado, seco, atrofiado pelo habito de uma obediéncia muda terrivel, pela pratica de| misteriosos exercicios que abatem e matam tudo o que ha de! livre e de espontaneo no pensamento humano. Ent&o, nesses corpos privados de alma, mudos, sombrios, frios, insuflamos 0 espirito de nossa ordem; imediatamente os cad4veres andam, véem, agem, executam maquinaimente a vontade, da qual ig- noram os designios, assim como'a mAo executa os mais dificeis trabalhos sem conhecer, sem compreender 0 pensamento que a dirige... O homem que assim fala é aquele mesmo que, nos pri- meiros capitulos do romance, estendera suas mos 4vidas por cima de um planisfério constelado de cruzes vermelhas. Para além da diversidade dos principios que lhe sio atribuidos, da f€ que se supe anima-la, a Organizactio persegue, com efeito, um mesmo e prodigioso designio: a dominacao do mundo, a ascendéncia sobre os principes e sobre os povos, o estabele- cimento, em seu proveito, de um poder de dimensio mundial. Quaisquer que sejam a natureza e a aparente motivagao da conspiracao — complé jesuitico ou compld mag6nico, compl6 de negociantes de canhées ou complé de sAbios iluminados —, trata-se sempre, para aqueles que controlam seus fios, de cor- responder a uma inextingtiive! vontade de poder e de retomar 9 sonho eterno da edificacao de um Império em escala uniyer- sal, da unificagao do globo sob uma tnica e total autoridade. “Ele faz voto de obediéncia para reinar, escreve Mi let so- bre o fanatico da Companhia de Jesus, Para ser papa com o papa, para ter sua parte do grande reino dos jesuitas espa- Ihado por todos os reinos.” Mas 0 pseudo grande rabino de Praga é mais explicito ainda ao exigir o poder sobre toda a Terra, “‘como isso fora prometido a nosso pai Abraao’’. “Seo Povo de Israel, afirma ele, dispersou-se por toda a Terra, é que a Terra deve pertencer-lhe.” Profecia que os SAbios de Sido tetomam e precisam em seu Terceiro Protocolo, saudando o préximo advento do “rei déspota do sangue de Sido que pre- 36 - paramos para o mundo”. “Hoje posso anunciar-lhes que ja estamos perto do alvo. Ainda um pouco de caminho, e 0 cir- culo da Serpente simbélica, que representa nosso povo, sera fechado. Quando esse circulo se fechar, todos os Estados da Europa nele sero encerrados como em um torniquete...” A servigo desse objetivo imenso todos os meios s&o evi- dentemente declarados legitimos. E todos s4o, de fato, utili- zados, sendo os primeiros os da espionagem e da delacio. E ainda um dos personagens de Eugéne Sue, jesuita de alta po- sig&o, que nao hesita em afirmar seu orgulho, ‘‘o espléndido gozo" que experimenta, de pertencer a “essa milicia negra e muda” que a um sinal se dispersa.na superficie do globo: “In- sinuamo-nos suayemente no lar pela confissio da mulher e pela educacao dos filhos, nos interesses das familias pelas con- fidéncias dos agonizantes, no trono pela consciéncia inquieta - de um rei demasiado crédulo...”’. Mas “‘o espirito de policia e de delagio” é também, segundo Michelet, 0 principio essen- cial sobre o qual repousa o temivel poder da Companhia: “A traigdo no lar, a mulher espia do marido, a crianga, da mie... Nenhum ruido, mas um triste murmirio, um sussurro de pes- soas que confessam os pecados de outrem, que atormentam umas as outras e se corroem muito suavemente... Policia e contrapolicia. O confessor mesmo espionado por sua peni- tente por lhe fazer perguntas insidiosas...”. Do mesmo modo, o grande rabino de Praga recomenda a seus correligionarios que se facam advogados ou médicos, a fim de melhor poder captar “‘os mais intimos segredos” das familias. Do mesmo modo ainda, segundo os testemunhos que pretende ter reco- lhido de transfugas arrependidos, o abade Barruel denuncia no aprendizado da espionagem um dos aspectos iniciais da educagao mac6nica: Entre os Iluminados, 0 objeto dos primeiros graus é ao mesmo tempo formar seus jovens e instruir-se 4 forga da espionagem de tudo o que se passa. Os superiores procuram obter de seus inferiores atas diplomaticas, documentos, titulos originais. Eles os véem sempre com prazer entregarem-se a toda espécie 37 de trai¢Zo, em parte para aproveitar-se dos segredos traidos, em parte para manter em seguida os proprios traidores num temor continuo, ameacando revelar sua traigio. “Eles fazem todos os esforgos Possiveis, esclarece ainda Barruel, para que todas as agéncias dos Correios, em todos os paises, sejam confiadas apenas a seus adeptos. Orgulham-se também de abrir as cartas e de fech4-las novamente, sem que se perceba...” Assim, uma gigantesca rede de controle e de informacao estende-se sobre 0 conjunto do corpo social. Pri- meiro objetivo visado, 0 poder politico Permanece, evidehte- mente, o terreno privilegiado daquilo que nao pode deixar de aparecer como um empreendimento sistematico de investida € de manipulacao. Ha muito tempo ja, e bem antes de Michelet e Engéne Sue, os jesuitas eram reputados por sua habilidade em insinuar-se na confianga dos Pprincipes e dos poderosos deste mundo, escolhendo suas amantes, fornecendo seus con- fessores, povoando com suas criaturas suas cortes e seus con- selhos. Do mesmo modo, desde o final do século XVIII Bar- tuel € seus primeiros émulos denunciam na franco-maconaria. uma agdo metédica de conquista e de colonizagao de todas as engrenagens do Estado. “Quando entre nossos adeptos, Bar- tuel faz dizer a Weishaupt, Chefe dos Iluminados da Baviera, encontra-se um homem de mérito, mas pouco conhecido e mesmo inteiramente ignorado do publico, nao poupemos nada para eleva-lo, para dar-lhe celebridade. Que nossos Irmaos desconhecidos sejam alertados Para que toquem por toda Parte a seu favor as trombetas do renome..."” Mas a medida em que se amplifica, ao longo do tltimo século, a imagem da conspirag4o, em que um discurso cada vez mais repetitivo, em que uma literatura cada vez mais numerosa a impéem a cons- ciéncia das massas, 0 campo atribuido 4 manipulagao aparen- temente nao cessa de se desenvolver. A estratégia da manipu- lagdo se faz, em outras palavras, multidimensionai. O apare- tho politico e administrativo n4o constitui mais sua unica aposta. Esta se expande para todos os dominios da vida cole- tiva, quer se trate dos costumes, da organizacao familiar, 38 como também do sistema educacional ou dos mecanismos econdmicos, Particularmente significativas em relag&io a isso, nesse verdadeiro tratado da guerra na multidao que constitui, afi- nal, 0 discurso do rabino de Praga completado pelo dos Pro- tocoles, a importancia atribuida aos meios de informagiio e a insisténcia colocada na necessidade de garantir seu controle. “A literatura e o jornalismo sio as duas forgas educadoras mais importantes”, coloca como principio o Décimo Segundo Protocolo. Portanto, sera conveniente que, gragas a seu poder financeiro, os homens da seita se apoderem progressivamente do conjunto dos érgaos de imprensa. Em seguida, sera conve- niente que, pela espionagem e pela chantagem, pela ambicao ou pelo temor, disponham da total docilidade das salas de re- dacao. Aparentemente nada sera mudado na diversidade das manchetes e na pluralidade das tendéncias. Por nao ser apa- tente, o condicionamento dos espiritos sera ainda mais eficaz: “Todos os jornais editados por nés, precisa 0 texto dos Proto- coles, na aparéncia serao de tendéncias e de opinides opostas, © que atrairé nossos adversdrios para eles sem desconfianga... Terao, como o deus hindu Vishnu, cem maos que conduzirao a opiniao na direcio que convier a nosso objetivo...”. “Os imbecis, conclui o texto, que acreditario repetir a opiniao do jornal de seu partido, repetirao nossa opiniao ou aquela que nos agradar. Imaginarao que seguem o 6rgao de seu partido e seguirao, na realidade, a bandeira que hastearemos para eles...” Em suma, 0 velho sonho de sujeigdo total das inteli- géncias e das almas é hoje acessivel. Os meios Para sua reali- zagdo acham-se reunidos, seu modo de emprego est4 dado. Igualmente significativas as praticas Preconizadas nos mesmos textos, que nao tém outro objetivo senao o de um total acambarcamento da riqueza publica. Nao se trata, no caso, de um traco particular da conspiracao judia: aos jesuitas, em especial, sempre se atribuiu a arte de captar herangas, de des- viar em seu proveito, Por intermédio de confessores, os testa- mentos dos moribundos. Mas, no discurso do rabino como nos Protocoles, os meios descritos tém uma outra amplitude. 39 Em primeiro lugar, convém manter um controle rigoroso so- bre o conjunto do sistema bancério, assim como sobre a totali- dade dos mecanismos de investimento do Ocidente europeu, tendo como objetivo que, “por toda parte, sem os filhos de Israel, sem sua influéncia imediata, nenhuma operacdo finan- ceira, nenhum trabalho importante possa ser executado”. Em segundo lugar, convém tornar-se comprador de todos os mer- cados e sobretudo de todos os empréstimos de Estado, esses empréstimos que “todos os imperadores, reis e principes rei- nantes’, onerados de dividas cada vez mais pesadas, véem-se obrigados a multiplicar, ‘a fim de sustentar seus tronos vaci- lantes’’. A possessao Progressiva da propriedade territorial e da riqueza imobilidria deve vir, enfim, completar o disposi- tivo: “A agricultura permanecer4 sempre a grande riqueza de cada pafs... Segue-se dai que nossos esforcos devem orientar- se também para que nossos irmaos em Israel facam impor- tantes aquisicdes territoriais. Devemos, portanto, na medida do possivel, estimular o fracionamento dessas grandes pro- priedades, a fim de que sua aquisigao se torne para nés mais rapida e mais facil...”. O rabino de Praga pode anuncid-lo com toda certeza: entdo vira o dia em que, tendo-nos ‘“‘tor- nado os tnicos possuidores de todo 0 ouro da Terra, o verda- deiro poder passara por nossas m4os”’, cI No entanto, resta pér em pratica uma iltima estratégia, de miultiplas combinacées e que todos os homens do Compl6 aprenderam a manejar: a da corrupgo, do ayiltamento dos costumes, da desagregacao sistematica das tradicdes sociais e dos valores morais. A crianga, sobretudo quando pertence as categorias dominantes do corpo social, constitui com toda evi- déncia seu objetivo privilegiado. N&o se tentar4 apenas agir sobre sua inteligéncia, suas leituras, seus habitos de pensar e de sentir. Para melhor assegurar sua fidelidade ou sua docili- dade, n&o se recuara, em certos casos, diante de uma empresa deliberada de dissolucdo moral. Os “agentes’’ colocados junto dela, empregados domésticos, governantes, Ppreceptores, a in- citar%o pouco a pouco a repudiar as concepgées habituais de bem e mal; cultivarao seus vicios, the inculcargo outros, a esti- 40 mularao a essa “libertinagem precoce”, tal como o reco- menda, para os filhos de ndo-judeus, o Primeiro Protocolo. (No interior do grande debate escolar do Ultimo século, nao se poderia negligenciar, alias, o papel desempenhado na opiniao ptiblica francesa pelo tema, incansavelmente retomado, da Perverso da Infancia. Nos dois campos opostos, a instituigdo tival — colégio religioso ou liceu napoleénico — é igualmente denunciada como um “foco de pestiléncia’”’, uma escola de vicio e de corrupgao...) Quanto aos costumes da sociedade adulta, € com “‘a Mulher” que se vai contar essencialmente, - Parece, para rematar sua deslocagdo. Habilmente colocada a setvigo da Organizac4o, nao menos habilmente levada para os bracos dos poderosos deste mundo, éa ela que caber4 a tarefa de destruir os lares, de dilacerar as familias. Também dela é 0 trabalho de conduzi-los a ruina por seus caprichos, suas fan- tasias e suas exigéncias. O retorno da cabeca da Serpente a Sido listo é, 0 triunfo defi- nitivo de Israel], afirma o Vigésimo Quarto Protocolo, sé po- deré ter lugar [...] quando a desmoralizagao espiritual e a cor- rup¢ao moral {...] reinarem por toda parte com a ajuda das judias camufladas de francesas, italianas, etc. Estas tltimas sdo os melhores instrumentos da depravacao dos homens que dirigem as diversas nacdes. As mulheres a servico de Sido ser- vem de isca para aqueles que, por culpa delas, tém constante necessidade de dinheiro e que, por isso mesmo, estdo sempre Prontos a colocar 4 venda suas consciéncias. Na realidade, os judeus nao fazem sendo adiantar esse dinheiro, que recuperam rapidamente gracas a essas mulheres; mas, por esse fato, os homens assim corrompidos tornam-se escravos de Sido. Assim, todos os fios da manipulacfo se encontram ata- dos. A corrupgao pelo ouro corresponde a corrupcio pelo san- gue. Diante da vontade cong dora e disciplinada da Orga- nizagio n&o se erguera mais que uma massa aviltada, dividida e desvairada, desapossada tanto de seus bens como de sua dignidade, atingida nas fontes mais profundas da vida. 41 sw O IMPERIO DAS TREVAS “Eis-nos aqui caidos bem baixo, bem fundo na morte... Formam-se grandes trevas.”” As palavras sio de Michelet e aplicam-se aos jesuitas, a seus designios e a suas manobras. Entretanto, ndo ha complé cuja descoberta nao se apresente como uma descida progressiva para longe da luz, ali onde as trevas se fazem mais e mais densas. E quase sempre a noite que os conjurados escolhem para se reunir, dispersando-se com 6 nascer do dia, E envoltos em vestimentas sombrias que 0s 1 representa ‘geralshente o abundante conjunto de imagens que Ihes é consagrado. “Os homens negros’’, a expressdo de- signa uma vez mais os jesuitas para toda a opinido liberal do comego do século passado. “Homens negros, de onde sais- tes?”, pergunta uma das mais célebres cangdes de Béranger. A resposta vem imediatamente: “Saimos de debaixo da terra”. O subterraneo ou seu equivalente — cripta, jazigo, quarto fe- chado — desempenha, de fato, no legendirio simbélico da conspirag4o, um papel sempre essencial. E em uma sala sub- terranea, cujas saidas, cuidadosamente dissimuladas, seabrem ao rés do cho, que Alexandre Dumas reine, nas primeiras paginas de Joseph Balsamo, os conjurados que se propdem derrubar a velha ordem mondarquica. A polémica anticlerical da Restauracgio acusara os jesuitas de abrirem galerias sub- terraneas no subsolo parisiense e de ali acumular armas e explosivos. Trés quartos de século mais tarde, uma certa im- prensa anti-semita denunciara, na escavacdo do metré pari- siense, um empreendimento do compl6 judeu visando fazer pairar sobre a capital inteira uma ameaca permanente de des- truigio. No segundo plano emotivo de cada uma dessas narra- tivas, jamais deixa de ser sentida a presenca de uma certa angustia, a dos alcapdes ite abertos, dos labirintos sem esperanca, dos corre itamente longos e de suas duras paradas, impenetraveis ¢ lisas. ~~~E com a sombra, por outro lado, que come¢a o dominio do nao-conhecivel, do nao-identificavel, aquele onde as pala- vras f eS perderam todo © poder para designar uma rea- 42 lidade que se furta a sua captura. Homens da sombra, os ho- mens do Complé escapam por definicao as regras mais ele- mentares da normalidade social. Constituem, no interior de toda comunidade consciente de sua coeréncia, um corpo exé- geno obscuramente submetido as suas préprias leis, obede- cendo apenas a seus préprios imperativos ou a seus préprios apetites. Surgidos de outra parte ou de parte alguma, os fand- ticos da conspiragio encarnam o Estrangeiro no sentido ple- no do termo. “Quem sao yocés, boa gente? e de onde vém, interpela Michelet denunciando a conspiracao jesuitica, Por onde passaram? A sentinela da Franca nao vigiava bem esta noite na fronteira, pois nao os viu... Homens que viajam 4 noite, eu os vi de dia; lembro-me muito bem daqueles que os trouxeram: foi em 1815; seu nome... é 0 estrangeiro.” Vol- tando a Franca em 1815 com as bagagens dos exércitos ini- migos, os jesuitas foram, segundo Michelet, os primeiros be- neficiarios da traicao, da derrota e da invasao. Estreitamente submetidos, por outro lado, a uma autoridade exterior a toda soberania nacional, agentes de um poderio de cardter supra- estatal e de dimensao universal, constituem um perigo perma- nente para a seguranca e a independéncia da patria. “Ou o jesuitismo, escreve ele, deve abolir o espirito da Franca, ou a Franga deve abolir 0 jesuitismo...”” Mas os mesmos temas se- rao reencontrados, desmesuradamente amplificados, algumas dezenas de anos mais tarde, no final do século XIX, na imensa literatura de dentincia do “complé judeu-macénico”. Judeus e franco-magons vao Tepresentar, por sua vez, o “partido do estrangeiro”, a propria encarnacado do que se vai tomar o ha- bito de designar pelo termo “Anti-Franga’”’. A formula deve ser compreendida, no caso, como carregada de todo um peso, e singularmente Ppenoso, de pavores ancestrais. Jesuitas, ju- deuse franco-magons nao si0 vistos apenas como os agentes de execucdo privilegiados dos designios hostis de certos Estados rivais. A ameaca que Tepresentam é aquela que jamais dei- xou de obsedar os sonhos das cidades Pacificas: a do vaga- bundo, do némade que ronda as casas felizes (‘Uma invasio de pessoas, diz Michelet, que passaram uma auma’”). A do 43 viajante sem nome que traz com ele a doenca ou a epidemia, cuja chegada faz apodrecer a colheita e perecer 0 gado. A do intruso que se introduz nos lares prosperos para levar-lhes a perturbacao e a ruina. A inseguranca e 0 medo comecam com a passagem dos de hecidos que vagueiam na noi- te. Mas é na sombra também que se refugiam os animais imundos, “da sombra & que surgem. Imutavel, permanente através da enorme massa de suas representagdes iconograficas e de suas expressées literarias, existe um bestidrio do compl6. Retine tudo o que rasteja, se infiltra, se esconde. Retne igual- mente tudo c 0 que é o1 idulante e € viscoso, , tudo 9 que é tido como portador da sujeira e rae da infec fecgao: a serpente, o rato, a sanguessuga, 0 polyo... No centro desse pulular repulsivo, gil, negro, voraz e peludo, a aranha constitui aparentemente a imagem simbélica privilegiada entre todas: estende suas ar- madilhas com paciéncia infinita, envolve sua vitima em seus fios, devora-a com lentido. “Belo espetaculo, nao é mesmo, escarnece um dos mais assustadores herdis jesuiticos posto em cena por Eugéne Sue... Um feio bichinho escuro, armando fio por fio, reatando estes, reforgando aqueles, alongando outros, vocés dio de ombros? que seja. Mas voltem duas horas de- pois; 0 que encontram? O bichinho bem saciado, bem satis- feito, e em sua teia uma dizia de loucas moscas t4o enlagadas, to garroteadas que o animalzinho sé precisa escolher A von- tade a hora e o momento de seu repasto.” Pode-se falar, no caso, desse fendmeno muito freqiientemente descrito pelos et- ndlogos e que é 0 da assimilaco ou da reducao a animalidade. O personagem: acaba por se ver total e realmente identificado com a mascara com figura de animal que lhe foi simbolica- mente atribuida.* TE de ur uma mesma constante obsessio que parece depen- der, alias, esse terrificante imulo de re di referéncias ar animais: a de uma ma boca monstruosa, sempre avida, se sempre devoradora. Uma boca mandibula que tritura, traspassa e dilacera, ma mas # também uma boca ventosa que suga e aspira. Uma boca se- denta de sangue, que se lanca com sofreguidao as fontes da 44 vida, bebe delas 4 saciedade e as esgota. Assim, como em um pesadelo, Octave Mirabeau vé transformar-se diante dele a mo do barao Gustave de Rothschild que ele percebe, esten- dida na borda de um camarote, no decorrer de uma noite na Opera — “mio de presa, cujos dedos agitavam-se, semelhan- tes a tentaculos de polvo’’. ‘‘Aquela mio, escreve ele, era ter- rivel. Ao olhé-la parecia que se alongava, que se avolumava desmesuradamente... Imaginei que a Franga estava 14, no palco, deitada entre ruinas, bela, palida e sofredora. E vi aquela mao aproximar-se, pousar sobre ela e, lentamente, en- lagando-a com seus mil sugadouros e suas mil ventosas, as- pirar o sangue quente de suas veias que se esgotavam com ruidos de garrafa que se esvazia.” Obsessao da devoragao bucal, de que as narrativas consa- gradas a descric4o dos “assassinios rituais” atribuidos aos mais poderosos ou aos mais fiéis entre os judeus (e essas nar- rativas s4o em ntimero nao desprezivel na Franca do final do século XIX) constituem, sem divida, o testemunho mais sig- nificativo. Segundo o abade Desportes, por exemplo, autor de uma obra publicada em 1889 e intitulada Le mystére du sang chez les juifs de tous les temps,> as veias das vitimas dessas cerimGnias periddicas de imolag%o sao abertas por miltiplas incisées, a fim de que “‘o sangue jorre como de uma esponja que se aperta”’. Recolhido em uma urna, esse sangue é entio partilhado entre os presentes e bebido em meio a cantos de alegria. Uma parte do precioso liquido é por vezes utilizada para a fabricag4o do pao azimo; por vezes, ainda, uma outra parte é reservada a cada um dos sacrificadores para servir a hediondas libacdes familiares. Em seu desenrolar tradicio- nal e até em seus menores detalhes, de fato é para um autén- tico festim de vampiros que o abade Desportes parece convi- dar seu leitor. A absorco periédica de sangue humano nio aparece como fruto do capricho ou do acidente individual. Constitui um imperativo quase biolégico, a que 0 povo hebreu n&o poderia subtrair-se sem comprometer as préprias condi- g6es de sua sobrevivéncia. “E a qualquer prego, esclarece 0 abade Desportes, que os judeus precisam conseguir sangue 45 cristao.” ‘‘Os judeus tém necessidade absoluta de sangue cris- tdo”, insiste ele algumas linhas mais adiante. Por outro lado, n&o é sem significac4o suplementar que, a demincia das praticas criminais dos homens do Complé, vem freqiientemente acrescentar-se a das sevicias sexuais infli- gidas as suas vitimas. Uma longa tradic&o faz dos jesuit jesuitas es- pecialistas experimentados em flagelacaio, sempre prontos a satisfazer seus pendores e a exercer seus talentos sobre os mais encantadores dos adolescentes confiados 4 sua competéncia educativa.® Pela voz de Béranger, os “homens negros” o con- fessam sem pudor: “Somos nés que surramos e surmamos no- vamente os meninos bonitos”. O tom afasta-se de qualquer brincadeira quando certos autores do final do século XIX, es- pecialistas no combate antimacdnico, evocam “a hedionda lubricidade” das multiddes revoluciondrias, enquadradas e dirigidas, como se deve, pelos agentes da seita. Mas é com a narrativa dos assassinios rituais judeus que se vé atingido o fundo do horror na perversidade. Suas vitimas prediletas sao, com efeito, rapazes muito jovens ou, na falta deles, mogas cujo rapto foi meticulosamente preparado com antecipacao. “A vitima escolhida, comenta o abade Desportes,-deve ser sem macula e sem pecado”, 0 sangue derramado “puro de toda mistura e de todo contato mau”; assim, prossegue ele, “‘qual- quer que seja a idade das criancas sacrificadas, tombam sem- pre sob o cutelo rabinico antes que a tempestade das paixdes tenha abalado seu coracio e feito estremecer seus misculos”’. Antes de ser esvaziada de seu sangue, a vitima sera, no en- tanto, flagelada (o abade mostra os lanhos do chicote dei- xando suas marcas nas carnes “tenras e rosadas”), e, se se trata de um garoto, odiosamente emasculada. “Uma outra ofensa, ensina sempre o abade, que se encontra freqtiente- mente nos assassinatos talmudicos é aquela que consiste em macular, em dilacerar e em devastar as partes viris da vitima. Quando se encontra um cadaver de crianca com esse estigma, pode-se quase sempre concluir que 0 cutelo da sinagoga lan- cou seu furor sobre esses restos sanguinolentos...”, Aquele que fez das trevas seu reino, aquele que se apo- 46 dera das criangas na noite, que carrega consigo o veneno e a corrup¢ao, aquele cujo rosto desconhecido pode tomar a forma de um animal... Chegando a esse grau de intensidade no hor- ror, essa longa litania acusadora nao faz mais que retomar, no essencial, os termos, bem mais antigos e bem mais profundos, de uma outra denincia: ado Maligno, do Espirito Perverso, de Sata invisivel e onipresente. . Ao m mesmo tempo que si senvolve © processo de demonizacao do! homem do Con p16, ° anatema de que ele & objeto aparece cada vez mais como uma na réplica ou como um eco dos velhos processos de fe itica- ria. ria. Mesmo dossié e mesmo requisitério, mesmas fixacdes ob- sessivas, mesmo clima neurético de medo e de fascinio mes- clados. Com seus rituais clandestinos, seu cerimonial inicid- tico, suas hierarquias submetidas 4 mais rigorosa das disci- plinas, a seita conspiradora aparece bem como aquela Contra- Igreja, consagrada ao exclusivo servico do Mal, que os antigos tratados de demonologia denunciam. Da mesma maneira que, nos momentos mais intensos das grandes cacadas aos bruxos dos séculos XVI e XVII, era As conjuracdes dos servidores de Sata que se atribuiam a irrupco da doenga, as devastacdes da tempestade ou a ruina das colheitas, so as manobras, as ma- quinacées dos manipuladores da sombra que se colocam na origem dos piores flagelos do tempo presente — as guerras, as crises, as discérdias sociais. Nem mesmo a habitual imagem do feiticeiro ou da feiticeira, tal como abundantemente a re- produziu a iconografia medieval ou pés-medieval — objeto de repugnancia, de pavor, mas também de derrisio —, deixa de ser reencontrada em certos textos acusadores, datados dos tl- timos anos do século XIX. Assim, em uma outra obra do mesmo abade Desportes,’ um romance, no caso, e destinado ao puiblico popular, o heréi maléfico (que apresenta a temivel particularidade de ser ao mesmo tempo judeu e franco-ma- ¢om) vive “solitario e intratavel”, na extremidade obscura da aldeia, em ‘“‘uma casa de misera aparéncia”’, “‘cujas venezia- nas cinzentas s6 se abrem em raros intervalos, como se esti- vessem destinadas a esconder um segredo ou um mistério”. Seu oJhar é “obliquo”, seu “andar tortuoso”. Um circulo de 47 desconfianga o cerca, mal rompido por ‘‘dois ou trés indivi- duos de ma cara”, “desprezados por todo mundo”. Enfim, sinal tradicional de identificagao, e que nao engana: A visao do Santo Sacramento, na passagem de uma procissio, e mes- mo de “‘duas castas criancas” dirigindo-se 4 igreja, uma forga aparentemente irresistivel dele se apodera, seu rosto se contrai, seu punho se crispa, sua barba se erica, “ele espuma como um animal feroz”’. Novos testemunhos, no final das contas, dessa espantosa permanéncia da presenca diabdlica no mais profundo das mentalidades coletivas no tiltimo século, e nos anos mesmos em que se costuma situar o apogeu oficialmente triunfante do Pensamento racionalista e da Idéia cientificista. Dotado de seus atributos tradicionais, acompanhado das legides sulfuro- sas de seus servidores infernais, o Principe das Trevas perma- nece, em pessoa, o her@i privilegiado de uma vasta literatura.® Continua a inspirar pavor, fascinio, no mihimo uma duvidosa curiosidade. A multidao de seus fiéis é ainda suficientemente numerosa para permitir a escroques diversos prosseguir com { lucrativas ou divertidas mistificagdes.:. Entretanto, 6 para além dessas fabulagdes demasiado grosseiras, nesse dominio incerto e movedico do sonho, por onde passam, retinem-se e pactuam os homens do Complé, que se situa seu verdadeiro Reino. Nao é a-toa, com efeito, que o romance do abade Des- portes termina como deve normalmente acabar todo processo de feiticaria: pelo fogo. O incéndio devasta o covil do miser4- vel e permite a aldeia, liberta de sua presenca, reencontrar sua harmonia perdida. Como € pelo fogo que perece, em Le Juif errant (O judeu errante), de Eugéne Sue, o sinuoso abade Rodin, agente de execucdo das manobras mais atrozes da Or- ganizac4o jesuitica. Vitima de suas préprias maquinacdes, atingido pelo veneno que reservara a outros, um braseiro in- terior o dilacera: “‘O fogo, exclama ele, sim, 0 fogo. Mas é 0 fogo que devora minhas entranhas. Oh, sofro, que fornalha!”’. A simbélica do fogo, do fogo purificador e redentor que apaga as maculas, que dissipa as angustias da noite e faz recuar os poderes das trevas, acaba de dar toda sua coeréncia A cons- 48 telacao mitica da Conspiragdo. Os filhos da Luz contra os po- ¢ deres das Trevas, “‘o espirito de vida contra o espirito de morte’, dira Michelet a propésito dos jesuitas, as forcas do Bem contra as forcas do Mal, 0 Cristo e o Anticristo, a Franca ea Anti-Franga, a Liberdade e 0 Despotismo, 0 eterno com- bate no qual o mundo é a aposta prossegue A nossa volta. Pro- jeco, encarnagao de todas as forgas maléficas contra o que é aceito e vivido como verdadeiro, justo ou santo, a imagem sempre renascente do Complé nao pode ser compreendida se- nao como uma das ilustracdes, a mais poderosa talvez, mas nao a tinica, dessa concep¢do antitética da ordem universal. u “O judeu ergue-se em nossa histéria como nosso adversario metafisico”, dira muito mais tarde Rosenberg... UMA SOCIOLOGIA DA ANGUSTIA “Nao temos raz4o de nos preocupar com a oposigao. Quando nao tivermos nada de bom, sempre nos restam os je- suitas. Eu os chamo como a um criado: atendem sempre.” O comentario é atribuido a Benjamin Constant e ilustra muito bem certa atitude da oposiciio liberal em face do regime da Monarquia restaurada. Auténtico ou nao, tem pelo menos 0 mérito de reconduzir a an4lise para um terreno mais seguro, em todo caso melhor explorado, e que é 0 da exclusiva histé- 4 tia dos fatos politicos e sociais. Mito mobilizador no sentido mais preciso da terminologia soreliana, como nao reconhecer, com efeito, o ‘papel freqiientemente primordial ocupado pela tematica do Complé na crénica de algumas das principais confrontagdes vividas ha dois séculos pelas sociedades do Oci- dente contem; oraneo? Ec como no negligenciar, por « por outro lado, a fungiio essencialmente tatica que Ihe foi no mais das vezes atribuida? Todo mundo sabe: do terror jacobino ao terror sta- linista, a acusagéo de compl no cessou de ser utilizada pelo poder estabelecido para livrar-se de seus suspeitos ou de seus opositores, para legitimar os expurgos e as exclusdes, bem como para camuflar suas préprias falhas e seus préprios fra- 49 cassos. Mas de maneira muito mais Precisa, ea Propésito de cada um dos testemunhos acima citados, fica igualmente facil denunciar e¢ demonstrar as breocupagdes manipuladoras as quais estes nao deixam de Corresponder. Assimilando os Enci- clopedistas a ac¢do subterranea da franco-maconaria, ea pré- pria franco-maconaria ao jacobinismo, 0 abade Barruel tende, com toda evidéncia, a desacreditar os representantes do pen- samento filoséfico, associando-os aos mais sangrentos episé- dios da ditadura montanhesa* e fazendo-os carregar a respon- que nao pode Ser negligenciado, Seria, contudo, e com toda evidéncia, singularmente arriscado concluir dai que é a Partir desse segundo Plano que © discurso inteiro ‘deve ser apreen- dido, analisado € compreendido, Em primeiro lugar porque, Se, entre alguns(y vontade deliberada de maquinacao pode ser claramente estabelecida, tais casos Permanecem, no final a & 2 5 s Pa 5 & s z 8 g 8 8 . g & 3 3 2 & 2 &. = 9 gs 2 =a & taticas, inseparayeis de todo engajamento militante, nao tes- temunham de modo algum, da Parte daqueles que as empre- gam, qualquer falta de conviccao em TelagSo 4 causa que en- tendem sustentar: screvendo sobre os jesuitas, Michelet tra- uma dupla e muito precisa segunda intencao: combater a poli- tica de modernizacao econdmica, iniciada entio sob a égide do ministro Witte, e armar a0 mesmo tempo um fogo contra- tio as aspiracdes liberais, que tendiam a expandir-se em certos meios dirigentes, Quanto a Conspiracao Jesuitica, provavel- mente nao é 4-toa que se pode constatar que as fases mais vio- Seguida, e sobretud pulador pode esperar atingir seus objetivos ali onde nao. existe, lentas de sua dentncia se situam nos anos 1820, sob a Res- tauragdo, isto é, no momento em que a Posi¢ao liberal inicia um combate Particularmente spero contra o ministério Vil- Tele, e nos anos 1840, sob a monarquia de Julho, ou seja, no momento em que se trava em torno do Problema universitario uma confrontaeao excepcionalmente apaixonada, Observacées necessdrias, sem diivida, e as quais 0 histo- tiador no pode Tecusar sua atencao. Observacées as quais convém, no entanto, nao atribuir sendo um valor interpreta- tivo muito estritamente limitado. Que no segundo plano dos infinitos desenvolvimentos do discurso do Complé — discurso multiforme, Sem cessar renascente, sempre presente — seja Possivel discernir certas especulacées maquinadoras é um fato (*) Relativa a Montanha, ou Seja, os bancos mais elevados da Convengao Na- cional, onde tomavam lugar os deputados de esquerda, Danton. (N. T.) 50 conduzidos por Robespierre ¢ H | i Teceptividade, O que significa, entre outras coisas, que em sua)\\ estrutura, em sua forma como €m seu contetido, a mensagem |} a ser transmitida deve, para ter alguma Possibilidade de efica- cia, corresponder a um certo cédigo ja inscrito nas normas do! } imagindrio, Aqueles mesmos que quisessem jogar com Qima- / / gindrio se veriam obrigados, assim, a submeter-se as suas exi- géncias. O mito existe independentemente de seus usudrios eventuais; impée- is i mp6e-se a eles bem mais do que eles contribuem bara sua elaboracio, Eatretanto, menos ainda Se poderia escapar do dificil en- contro com um segundo € muito temivel Problema: o da nar- Tativa mitol6gica £ de seus Nenhum dos mi Possiveis fundamentos objetivos. tos politicos se desenvolve, sem diivida, no ex- um universo de Pura gratuidade, de transparente abstracao, livre de todo contato com a ‘Presenga das realidades da hist6ria. Mas, No que diz respeito a mi logia do Compls, aceita-se de boa vontade que a carga de den- SI sidade histérica se revela, com toda evidéncia, particular- mente pesada: com efeito, nado ha nenhuma, ou quase ne- nhuma, de suas manifestacdes ou de suas expressdes que nao possa ser relacionada mais ou menos diretamente com dados factuais relativamente precisos, facilmente verificdveis em todo caso, € coneretamente apreensiveis. Se nao é convincente atribuir aos “negociantes de canhdes” a responsabilidade pe- los grandes conflitos guerreiros do presente século, 0 trAfico de armas constitui uma realidade que nao pode ser negada, Do mesmo modo, nao é preciso dizer que a franco-maconaria nao é, no final do século XVIII, uma invencao do abade Bar- tuel e de seus émulos, assim como ninguém ignora o papel consideravel que desempenhou depois, especialmente na his- téria da III Reptiblica, enquanto grupo de pressao politica e instrumento de controle ideolégico. De sua‘parte, o tema da Conspiragio jesuitica pode invocar como garantia a fundacgio ao longo do periodo do Primeiro Império, por alguns eclesis- ticos ligados a fidalgos piedosos, de diversas associacdes clan- destinas ou semiclandestinas consagradas 4 causa da contra- revolucdo e da reconquista catélica, como, especialmente, a sociedade dos Cavaleiros da Fé, criada em 1810 por Ferdinand de Bertier, e a famosa Congregacio, freqitentemente denun- ciada, fundada em 1801, dissolvida em 1809 e reconstituida em 1814. Quanto ao complé judeu, se nado se pode mencio- nar, para assegurar sua credibilidade, nenhuma referéncia objetiva, é preciso reconhecer a realidade das reacées provo- cadas ao longo do ultimo século, em certas parcelas da opi- nido, pela recente e brusca emancipacao das comunidades is- raelitas e a irrupciio inesperada de muitos de seus represen- tantes em importantes setores da vida econdmica, intelectual ou mundana. Contudo, o que nao pode deixar de surpreender éaam- plitude do hiato existente entre a constatagao desses fatos, tal tal como podem se: ser objetivamente estabelecidos, © a visio que de lesé é dada pela narrativa mitolégica. Com efeito, nao se trata, em relacio a Arealidade, de um simples fendmeno de amplifica- ao, de distor¢ao sob o efeito de um aumento polémico. Trata- 52 tos, es quecida; te substrato trina nao restam mais que al- guns fragmentos ¢ de lembr: lembrangas vividas, diluidas e > transcendi- das pelo sonho. A assimilagao feita por Barruel, por Tr exemplo, entrea maconaria ea ditadura jacobina vé-se contestada pela observacao mais elementar: “nao podendo nenhum mistério, nenhuma assembléia secreta ser tolerada em uma Rept- blica”, as lojas passaram por duras provagdes sob o Ter- ror; muitos de seus membros nelas deixaram sua vida, muitos, por outro lado, encontraram refiigio nas fileiras da emigra¢4o.° O papel real desempenhado pelas sociedades se- cretas catélicas depois da queda do regime napoleénico n4o tem, na opinido geral dos historiadores do periodo, nenhuma relacio com a onipoténcia atribuida aos fanaticos da Compa- nhia. Quanto ao complé judeu, nao apenas todas as an4lises tendem a mostrar que a difusdo do anti-semitismo nao se acha, de todo algum, ligada a realidade estatisticamente mensurayvel de qualquer presenca judia, mas também o Pos- tulado principal em torno do qual se organiza sua tematica, isto é, o de uma unidade institucional de uma comunidade jsraelita de cardter internacional, parece nunca ter sido tao falacioso: tanto do ponto de vista religioso quanto politico, ideoldgico, social ou nacional, é no momento mesmo em que se supde que o “Grande Sinédrio das Tribos de Israel” estende sua autoridade sobre um povo inteiro que, no interior dos meios israelitas, os fatores de divisao e de tensdo se multipli- cam, se cotejam e se exasperam. Em suma, 0 problema essen- cial permanece colocado — o da passagem “da veracidade de do fato 3 A sua interpretacao mitica, do invencivel movimento dg transgressdo que parte do acontecimento historicamente defi- nivel para conduzir Asua leitura i imaginaria. Em compensacao, como nao constatar objetivamente — e ai esta sem divida o essencial — que, quaisquer que sejam, alias, a denominacio, a natureza ou as motivagSes ideolégicas da conspirag’o denunciada, essa dentincia jamais deixa de inscrever-se em um clima psicolégico e social de incerteza, de 53 temor ou de angistia? A intensidade desse clima pode reve- lar-se mais ou menos pesada, mais ou menos opressora. Os meios interessados podem demonstrar uma importancia nu- mérica varidvel, apresentar em seus componentes sociolégicos a mais ampla diversidade. Entre todos, no entanto(e por mais insignificantes que fossem os esforcos tentados para determi- nar seu lugar nas relacdes de producio), é possivel observar, mais ou menos ostensivos ou mais ou menos discretos, os si- nais clinicos, agora bem conhecidos, que sio os dos grandes medos coletivos. Ainda nessa perspectiva, nao é vi a aproxi- macao com os com os grandes processos de feitigaria dos comecos da Idade Moderna. Estes, sabe-se, aparecem como historica- mente insepardveis das crises maiores de uma época marcada ao mesmo tempo pela amplitude das discérdias espirituais, pela violéncia dos confrontos politicos e pela rapidez das mu- tagdes econdmicas. Quanto a as grandes construgdes da mitolo- gia do Complé elaboradas adas ao longo dos dois i ltimos séculos, ° segundo plano trdgico ni nao se impoe, certamente, com tanta forca e com tanta evidéncia; a violéncia dramatica, na maior parte das vezes, tende a atenuar-se ou a fazer-se menos visivel. Contudo, nao ha nenhuma dessas construcdes que no possa ser interpretada como uma resposta a uma am eaca, ou pelo menos como uma a Teagtio quase instintiva ao sentimento de Tealidade dessa ameaga... Na Franca dos ultimos vinte anos do século XIX, as am- plas e indiscutiveis ressonancias que ali encontraram os gran- des temas do Complé “‘judeu-: -ma¢6nico” constituem, em rela- ¢4o a isso, um exemplo particularmente esclarecedor. Vindo as primeiras medidas governamentais do anticlericalismo re- publicano sublinhar e amplificar um movimento geral de lai- cizagao da sociedade, a velha Franca crist& sente-se atingida no mais profundo de sua fé e de suas fidelidades, no essencial mesmo de sua heranca espiritual e moral. Simultaneamente, 0 desenvolvimento urbano, os progressos da concentracio ca- Pitalista, o aparecimento de novas formas de trabalho e de Produg&o vém abalar ou subverter, mais ou menos fortemente, 54 j4 constatava Durkheim, ela sente necessidade de encontrar, alguém a quem possa imputar seu mal, sobre quem possa vin: gar-se de suas decepcdes.” Portanto, no é a-toa que a socio- logia do anti-semitismo, especialmente, faz aparecer um amal- gama muito curioso, onde se encontram reunidos os represen- tantes do clero popular e do pequeno comércio, de uma no- breza rural em declinio e do velho artesanato dos subirbios. " (“Curioso jornal, dizia-se de La Libre Parole de Drumont, lido pelos curas do campo e pelos antigos partiddrios da Co- muna.”’) As inquietagées, os desnorteamentos, as incertezas e os ressentimentos vém cristalizar-se em torno da imagem mal- dita do judeu (ou do franco-magom, ou, melhor ainda, do ju- deu-franco-magom) onipresente, espoliador e coriquistador. O mecanismo psicolégico e social aparenta-se com o do exor- cismo. O Mal que se sofre, e mais ainda, talvez, aquele que se teme, acha-se doravante muito concretamente encarnado. Ganhou uma forma, um rosto, um nome. Expulso do misté- | rio, exposto em plena luz e ao olhar de todos, pode ser enfim denunciado, afrontado e desafiado. Paradoxalmente, o mito do Comp! 16 tende, assim, a preen- cher uma fungao social de. importancia nio negligenci , avel, € que é da ordem da explic: ico. Explicagao 1 tanto mais convin- cente quanto se se pretende total e de exemplar clareza: todos os fatos, qualquer que seja a ordem a que pertencam, acham-se reduzidos, por uma ‘Togica aparentemente inflexivel, a uma mesma e€ tnica causalidade, a uma sd vez elementar e¢ todo- poderosa. ‘Em outras palavras, “tudo se passa como se uma chave i interpretativa se encontrasse_ estabelecida en ena qual s se visse inserido < ° conjunto dos acontecimentos do tempo pre- sente, ai “ai compreendidos, com certeza, os mais ‘desconcertan- tes « € os mais angustiantes. 1] Por isso isso mesmo o desconhecido infinitamente temivel das questdes sem resposta cede diante de um sistema organizado de evidéncias novas. O destino volta a a ficar inteligivel; uma certa forma de racionalidade, o ou pelo menos de coeréncia, tende a restabelecer-se no curso descon- certante das coisas... certos modos de vida tradicionais. “Quando a sociedade sofre, ‘ 55 Assim, e para retomar o exemplo precedente, 6 bem uma verdadeira leitura histérica dos fendémenos de modernidade que se acha implicitamente incluida em toda uma literatura anti-semita do final do Ultimo século. Enfatizando o duplo perigo da concentragdo capitalista e da revolugdo proletaria, os Protocoles apresentam uma nomenclatura relativamente precisa de alguns dos fatos dominantes da evolucdo recente das sociedades ocidentais: desenvolvimento dos mecanismos de crédito, progresso da escolarizac4o, importAncia crescente da imprensa, mutacées das estruturas familiares. Mas 6 em certas paginas de Edouard Drumont (e mais particularmente em La fin du monde) que a dentincia do Poder judeu acha-se talvez mais estreitamente associada a uma tentativa de andlise quase clinica do que é descrito como um inexordvel processo de decomposigao. De fato, se o tom continua a ser 0 do apo- calipse, os tragos evocados nao so nada mais que aqueles, perfeitamente caracteristicos, e no caso muito bem percebi- dos, do advento do que se pode chamar de “a Franga bur- guesa”’, da emergéncia, em outras palavras, de estruturas so- ciais novas, ligadas ao desenvolvimento do capitalismo indus- trial e comercial. Quer se trate, no entanto, da dominacao do Dinheiro, dos males da especulacao bolsista, do poder inces- santemente acrescido dos trustes e dos monopdlios, da ruina previsivel do artesanato e da pequena empresa, do surgimento dos grandes magazines, da difusio da publicidade (‘‘o re- clame”’), da derrocada das velhas solidariedades comunitarias ou dos golpes sofridos pela fé religiosa, cada um dos fendme- nos denunciados é apresentado como dependente de uma mesma vontade, subordinada a acaio de uma mesma poténcia, subterranea e terrivelmente eticaz: a manipulacdo judia. A chave proposta é suscetivel de adaptar-se a todas as interro- gagdes. A personificac¢io do Mal, a reducdo a unidade pou- pam, pelo menos aos que so suas vitimas, a menos suportavel das ansiedades, a do incompreensivel. E necessario esclarecer, ainda uma vez, que © mito é ca- paz de exercer essa funcao explicativa a partir eem proveito dos grupos sociais mais diversos € por vezes mais oOpostos? Oo 56 “que permanece constante, 9 que constitui o carter essencial de permanéncia e de repetitividade é 0 estado de inquietacao, as situagao de crise na qual se encontram esses grupos ou esses meios. E é Yambém, nado se > poderia esquecer, todo o material onirico “contido na mensagem mitolégica, todo esse fluxo in- cessante de it imagens, de fantasmas e de representagdes simb6- licas que ela carrega consigo. A cada i imagem, a cada signo, a cada expressao Zo simbélica j jamais is deixa de corresponder, se seguimos Bachelard, o que ele chama de de uma ‘‘derivacdo-psi- quica”, 1 , Tessonancia harménica que que de ‘algum modo se faz ou- vir no mais profundo e no © no mais intimo do. eu ‘individual. Em relagio a1 a tematica do Compl, serio evocados assim, sem grande risco de erro, os velhos terrores infantis e sua persis- téncia tenaz através dos pesadelos da idade adulta: medo dos pordes ‘tenebrosos, S, das paredes sem saida que se e se fecham, das fossas escuras de onde nao se sobe de novo; medo de ser en- tregue a maos desconhecidas, de ser roubado, vendido qu abandonado; medo, enfim, do ogro, dos dentes carniceiros dos animais de presa, de tudo 0 que tritura, despedaca e de- yora. Do mesmo modo, diante de certas inflexdes cujo carater neurdtico dificilmente pode ser contestado, impde-se a_apro- ximacdo com algumas das formas mais caracteristicas dos de de- lirios de perseguicao: doravante, mais nenhum espago é dei- xado para 0 acaso ou para o acidente; colocada no centro ae uma imensa rede de malevoléncia | organizada, a vitima vé cada um de seus atos vigiado e espionado por mil olhares clan- i destinos; uma mesma mio invisivel encarregou-se de seu des- tino eo conduz irrevogavelmente para a desgraga... A coeréncia e a légica do delirio parandico vao ao encon- tro aqui da coeréncf eda Togica do discurso mitolégi ico. A andlise sociolégica ea observacdio psiquiatrica tendem a con- fundir-se. E pouco importa, no caso, a qual desses dois modos de interpretagao conviria mais particularmente apegar-se. Em nhar o papel de de um 1 revelador. & talvez pelo exame me desses SO- } nhos que uma | sociedade revela com mais seguranca algumas. de suas desordens e alguns de seus sofrimentos. 57 EM BUSCA DE UMA IGREJA Entretanto, é preciso ir mais longe. A propria literatura do Complé nos convida a isso; e em primeiro lugar, para nao sair do mesmo quadro documental, um texto singular, ex- traido de Le juif errant (O judeu errante), de Eugéne Sue, e do qual convém citar integralmente amplas passagens. Talvez se saiba que, para além do fervilhar de intrigas e de personagens, o folhetim de Eugéne Sue tem como trama essencial um tene- broso caso de captagdo de heranga. Trata-se, de fato, de uma fortuna fabulosa, legada no final do século XVII por um certo sr. Rennepont, e da qual a Companhia de Jesus tenta apode- rar-se, eliminando os beneficidrios através de abominaveis procedimentos. Ora, antes de morrer, o sr. Rennepont, tio previdente quanto justo, advertira seus futuros herdeiros das maquinacdes de que eles certamente seriam objeto. (Nao era eleproprio o depositario de um terrivel segredo? oO da scien jesuitica do assassinato de Henrique IV.) Adverténcia que ele completava exprimindo 0 voto de que, 4 Associag4o perversa que tentaria atingi-los, seus herdeiros opusessem uma outra, boa e santa esta, e consagrada 4 defesa exclusiva das causas nobres, Se uma associacao perversa [ diz o texto do testamento do sr. Rennepont} fundada sobre a degradaco humana, sobre o des- potismo e perseguida pela maldi¢io dos povos atravessou os séculos e dominou o mundo pelo terror, © que seria de uma associac&o que, procedente da fraternidade, do amor evangé- lico, teria por objetivo libertar o homem ea mulher de bites degradante escravidio; convidar 4 felicidade neste mun lo aqueles que da vida sé conheceram as dores e a miséria; ae ficar e enriquecer o trabalho que alimenta, esclarecer aqueles ignorancia deprava [...]. se Que maravithoso foco de pensamentos fecundos, genero- sos! Que explosées salutares e vivificantes Jorrariam en temente desse centro de caridade, de emancipagao e de amor! Quantas coisas grandes a tentar, quantos magnificos exemplos a dar ao mundo pela pratica! Enfim, que irresistivel impeto 58 poderia inspirar 4 humanidade inteira uma familia assim agru- pada, dispondo de tais meios de acao. E ent&o essa associagio Para o bem seria capaz de combater a funesta associagdo de que sou vitima, e que talvez em um século e meio nao tera Perdido nada de seu temivel poder. Entao, a essa obra de tre- vas, de coacdo e de despotismo que pesa sobre o mundo cris- tdo, os meus poderiam opor uma obra de luz, de expansiio e de liberdade. O génio do bem e o génio do mal ficariam face a face. A luta comecaria, e Deus Protegeria os justos... E bastante provavel que essa “santa associac4o” de que o sr. Rennepont tem a inteng&o de preparar o advento, “obra de luz, de expansio e de liberdade”’, nao seja nada mais que a Maconaria. O importante, contudo, continua sendo o meca- nismo quase irrevogavel pelo qual o modelo de uma organi- zagao maléfica encontra-se substituido pela imagem de uma outra organizacao, réplica da primeira, mas consagrada ao servico do Bem. O postulado inicial é simples: 0 tinico meio de combater Mal é voltar contra ele as proprias armas de que se serve. O inimigo opera subterraneamente, clandestinamente: versatil, inapreensivel, capaz de infiltrar-se em todos os meios, sua habilidade suprema é a da manipulacdo; suas tropas, in- visiveis mas presentes em toda Parte, sio submetidas a uma obediéncia sem protestos. Apenas uma organizacao que cor- Tesponda as mesmas caracteristicas, secreta, disciplinada, hierarquizada, treinada para manobrar na sombra, é capaz, Portanto, de lhe ser vitoriosamente oposta. Assim, em total oposig¢ao as aspiracdes “filoséficas” do sr. Rennepont, mas correspordendo ao mesmo tipo de exigéncia, a Sociedade dos Cavaleiros da Fé, fundada por Ferdinand de Bertier sob o Pri- meiro Império, parece visivelmente calcada no exemplo mac6- nico: condenada a clandestinidade, ela tem seus siniais de re- conhecimento, seu ritual iniciatico, seus graus, sua titulacio esotérica e seu grande mestre. Assim ainda, Les protocoles des sages de Sion (Os protocolos dos sbios de Sido) fazem 4 Com- panhia. de Jesus este curioso elogio, no final das contas quase fraterno: ‘“‘Apenas os jesuitas poderiam igualar-nos sob esse aspecto [0 da manipulacio Politica], mas pudemos desacre- 59 , dit4-los aos olhos da multiddo estipida porque formavam uma organizacSo visivel, enquanto nds mesmos permanecemos na sombra com nossa organizacio secreta...”..No limite, nesse « jogo desconcertante e praticamente infinito de espelhos inver- tidos, todo Complé, todo empreendimento de manipulac&o clandestina tende a assegurar sua legitimidade apresentando- se como um contracomplé, um contra-empreendimento de manipulacio clandestina. Debate exemplar, nesse sentido Ee ainda que n&o desprovido de certa comicidade retrospectiva — foi aquele da Camara dos Deputados a 17 de junho de 1904, em que, diante dos ataques furiosos da direita denun- ciando a influéncia oculta da Maconaria, os acusados respon- dem mais ou menos nos mesmos termos, evocando a necessi- dade de combater com armas iguais as manobras subterra- neas, as praticas de delacio e de espionagem das congrega- des e das sociedades pias.” Resta constatar esse espantoso movimento de fascinio , que faz do século XIX europeu e de seus prolongamentos ime- diatos 0 que se pode considerar como a Idade de Ouro da Conjuracio. Por exemplo, nao é 4-toa que, apenas nos limites , geograficos e cronolégicos da Fran¢a da monarquia constitu- cional, a multiplicag4o das organizagées clandestinas — cor- poracdes operarias, carbonarismo, “‘sociedades” republicanas incessantemente renascentes — acaba por constituir uma rede tio densa e tao poderosa que o historiador dos fatos politicos, assim como o dos fatos sociais, tropeca constantemente em sua presenca. Por outro lado, nao é a-toa que, paralelamente, »a imaginagdo romanesca se poe a atribuir tao grande impor- tancia a esses pequenos grupos de homens resolutos, ligados pelo juramento e pelo segredo, que escolheram a sombra para agir e que, para sua gloria, seu proveito ou o triunfo de uma grande causa, sonham submeter 4 sua vontade a ordem exis- tente das coisas. “Foram encontrados, no Império e em Paris, treze homens, igualmente atingidos pelo mesmo sentimento, todos dotados de uma energia suficientemente grande para ser figis ao mesmo pensamento, bastante honrados para nao se trair de modo algum, profundamente politicos para dissimu- 60. lar os lacos sagrados que os uniam, bastante fortes para se colocar acima de todas as leis...”, assim comeca, exemplar- mente, a Histoire des treize, de Balzac. O poder oculto “exor- bitante” que os treze conjurados pretendem e “contra o qual a ordem social ficaria sem defesa’”’ no visa nada senio, escla- rece Balzac, “dar a cada um 0 poder de todos”, satisfazer, em outras palavras, seus apetites pessoais de prazer ou de domi- nacido. Mas a medida que se estender no tempo, a posteridade dos “‘Treze” se fara mais numerosa e mais diversa. Os “De- ménios” de Dostoiévski descendem, entre muitos outros, de sua linhagem, como deles descendem também, as vésperas da Segunda Guerra Mundial, os cinco jovens herédis de La Cons- piration, de Paul Nizan, cuja vontade de pureza revolucion4- ria parece logicamente conduzir para o ativismo clandestino. No volume 6 do imenso afresco que constitui Les hommes de bonne volonté, de Jules Romains — e onde precisamente o tema do complé volta com uma insisténcia particular —, um dos personagens, Clanricard, evoca ‘‘a solidao estranha do homem na sociedade moderna”’, ‘“‘a necessidade desesperada de agarrar-se a um grupo, a uma coletividade estreitamente unida e conduzida por um ideal, sim, a uma Igreja”. Entre essa necessidade, essa “busca de uma Igreja” que constitui, com efeito, um dos fatos maiores da histéria intelectual e mo- ral do ultimo século (que se pense em Saint-Simon, em Au- guste Comte), e a presenca obsedante do tema do complé, a aproximacao nao é fortuita nem gratuita. Posto de lado o principio do segredo, nos dois casos esta presente a imagem de uma Organizacao hierarquizada, ritualizada, que submete a uma mesma disciplina todos aqueles que retine, unindo-os na busca de um mesmo designio, permitindo-lhes reconhecerem- se em torno dos mesmos simbolos e em uma mesma liturgia. Nos dois casos também, em oposicio a uma sociedade frag- mentada, desarticulada, onde o individuo, entregue a si mes- mo, n&o pode sen4o constatar sua impoténcia e seu isolamento (“somos t&o sés”, suspira Clanricard), ergue-se 0 modelo de uma comunidade poderosamente integradora, de coeréncia solidamente assegurada, e onde sero reencontrados o calor e 61 a forga das velhas solidariedades desaparecidas. O politico.e o sagrado vém, assim, unir-se e, em certa medida, confundir-se. No segundo plano da mitologia do Complé revela-se sempre, no final das contas, a visio de uma Ordem no sentido religioso do termo, unitaria, conquistadora, instrumento necessario ao éxito de um grande empreendimento, que compromete e trans- cende o destino de cada um. Essas observagdes, por pouco que sejam aceitas, no co- locam de forma alguma em causa a andlise do mito enquanto expressdo de uma inquietacao social, manifestacZo de medo ou de desnorteamento coletivo. Mas definida e desenvolvida a partir de um obscuro sentimento de ameaga, testemunho de incerteza ou de panico, a mitologia da Conspiragdo tende a aparecer, a0 mesmo tempo, como a projegdo negativa de aspi- tacées tacitas, a expresso invertida de desejos mais ou menos conscientes, mas sempre insaciados. A ordem que o Outro é acusado de querer instaurar nao pode ser considerada como 0 equivalente antitético daquela que se deseja por si préprio estabelecer? O poder que se atribui ao inimigo nao éda mesma natureza daquele que se sonha possuir? Essa capacidade sem- pre mais expandida de controle social, esse dominio dos acon- tecimentos e dos espfritos que ele supostamente exerce, nio correspondem a essa forma de poderio reivindicada para o servico de sua propria causa? Esse papel que se lhe atribui de ator determinante da histéria que se faz e daquela que se pre- para nao é aquele mesmo de que se sente tragicamente a frus- trag4o? Essa unidade organica da qual se lhe concede o privi- légio, essa vontade suprema onde vém perder-se todas as vontades particulares, essa autoridade absoluta mas previ- dente e finalmente tutelar estendida a todos aqueles que estado unidos pelos mesmos juramentos e pelos mesmos comprome- timentos, nado correspondem elas, afinal, a um certo tipo de ideal comunitario tenazmente mantido no mais profundo das consciéncias?... O Mal apreendido como simples e exata in- versao do Bem, o tema no se limita, para dizer a verdade, a exploracao do exclusivo dominio do imagin4rio politico. 62 O SALVADOR DA LENDA DO SR. PINAY AO MITO DE TETE D'OR A data de 6 de marco de 1951 nao corre muito 0 risco de deixar rastros durdveis na meméria coletiva dos franceses. Nesses anos incertos da histéria da IV Republica ela traz, no entanto, a marca de um duplo acontecimento: no plano da crénica politica, a investidura pela Assembléia Nacional do sr. Antoine Pinay na presidéncia do Conselho; no plano da histéria do imagin4rio, a irrupg4o simultanea de um novo per- sonagem no legend4rio nacional. Alguns dias mais tarde, Frangois Mauriac, que em sua crénica do Figaro se permitira algumas observacées irénicas sobre o novo chefe do governo, devia bater precipitadamente em retirada: “Continuo atur- dido, confessava ele, sob uma saraivada de cartas entristeci- das, ofendidas, algumas vezes furiosas. Eis-me aqui acusado de torpedear a experiéncia Pinay, de bombardear o meu pré- prio jornal, de jogar os franceses uns contra os outros como um horrivel escritor nocivo que sou...”. O sr. Pinay nao tem razio de ser tao modesto, constatava paralelamente um outro cronista: “Ele no se pertence mais, pertence a nds. Tornou- se algo mais que um homem, uma espécie de simbolo em que inumeraveis franceses reconheceram o que desejavam para a Franca...” Um mimero especial de Paris-Match, particular- mente rico em observagdes sugestivas, uma obra biografica precipitadamente redigida, é suficiente para que em algumas 63 semanas 0 personagem do sr. Pinay escape A banalidade do jogo politico.1 Mais uma vez, o velho mito do Salvador res- surge em nossa histéria, mito destinado, nesse caso, a um fu- turo bastante curto, mas, por um momento, suficientemente poderoso, suficientemente coerente, suficientemente atrativo também para fixar a atencio, reter a reflexdo. De fato, encontramo-nos, aqui, muito longe de qualquer manifestagAo de efervescéncia lirica. Nao é 4-toa que um cola- borador do Paris-Match compara o sr. Pinay aquele heroi de um filme americano, sr. Smith, cidadao perfeitamente banal que, acidentalmente promovido A vida politica, derruba seus adversdrios mais espertos por sua candurae seu bom-senso. O sr. Pinay aparece como um sr. Smith francés, “um homem qualquer”, “‘sr. Dupont, escreve Paris-Match, chamado a re- solver a grave crise do franco e da Franga”. Paradoxalmente, € sobre a auséncia dé elementos habitualmente considerados “legendarios que mais insistem aqueles mesmos que contri- buem para difundir sua lenda. A énfase é colocada naquilo que é, inversamente, o cardter “médio” do personagem e de seu destino... Médio, em primeiro lugar, e seus bidgrafos n&o deixam de assinala-lo, o sr. Pinay o é pela localizacao de suas origens geograficas, tendo nascido em 1891 no Massif Cen- tral: “Ele é, comenta Paris-Match, de uma provincia que faci- lita a unanimidade: nem muito ao norte, nem muito ao sul, nem do leste, nem do oeste”. Médio, ele o é também pelo meio social a que pertence — um pai pequeno industrial, uma mae de préxima ascendéncia camponesa. Médio, ele 0 é ainda no proprio desenrolar de sua vida privada e de sua carreira poli- tica: titular da medatha militar, o sr. Pinay 6 um antigo com- batente da Primeira Guerra Mundial, na qual foi gravemente ferido; sua entrada na vida publica é relativamente tardia e comega, como se deve, pelo exercicio dos cargos mais modes- tos: conselheiro municipal aos 37 anos, prefeito aos 39, con- selheiro geral aos 43, deputado aos 45. Tudo, em suma, nesse | relato biografico, é feito para trangiiilizar, para banalizar 0 grande homem, para permitir que cada um de seus concida- daos se reconhega nele. Até a aparente insignificdncia de seus 64 sucessos escolares, que seu bidgrafo, Deréme, nao deixa de lembrar em termos de uma discreta elegancia: ‘‘Quando es- tava em aula, escreve ele, o sr. Pinay interessava-se sobretudo pelos conhecimentos positivos, parecendo mais preocupado em ter, como escreve Montaigne, uma cabeca bem-feita do que uma cabega cheia’”’. E que nao se espera do novo presidente do Conselho nem | 0 brilho dos grandes projetos, nem a fulgurancia das vastas ambigées. A politica, segundo o sr. Pinay, nao é aquela dos politicos profissionais: “Eu sei, seu bidgrafo o faz dizer, que a politica nao é meu forte. Pareco-me nisso com muitos dos franceses. A politica é boa apenas para alimentar a conversa no trem ou no café’. Mas a politica, segundo o sr. Pinay, também n&o é aquela dos “idedlogos”, dos ‘“‘planejadores”, dos burocratas, dos ‘‘controladores de toda espécie”. No con) texto histérico em que toma o poder, seu objetivo é simples: “a baixa e o franco recuperado”, o ponto final na alta dos precos e na depreciacio monetaria, o restabeleciménto do equilibrio orcamentario, 0 apelo 4 confiancga, 4 economia e a poupanga. E é também “recolocar ordem na casa”, isto é, reduzir as atribuicdes e os encargos do Estado, garanti | diante de seus representantes, a margem de independéncia do cidadao. “Tinha-se visto, assegura Deréme, a burocracia es- palhar-se em todos os sentidos, requisitar 4 porfia, os efetivos de funcion4rios j4 passavelmente inchados acrescerem-se de algumas centenas de milhares de intteis.” A chegada do sr. Pinay deve marcar o fim dessa outra forma de inflagao. Deve marcar igualmente o abandono de uma certa concepg¢Ao tec- nocratica de Estado, um retorno as normas tradicionais da economia de mercado... O vasto movimento de esperanca que, durante alguns meses, levou tantos franceses a se reco- nhecer no personagem simbolo do sr. Pinay nao é, na verdade, dificil de interpretar: nZo corresponde sendo, depois de ms de dez anos de incertezas e de provagdes, a uma profunda aspiracao a estabilidade redescoberta, ao mesmo tempo que a uma fidelidade tenaz a certas formas de vida social cada vez mais gravemente ameacadas.” 65 . Por mais artificial que, sob muitos pontos de vista, essa distingdo possa parecer — e sera conveniente voltar a ques- tao —, deve ser bem entendido que no se trata, aqui, do Personagem do sr. Pinay e de sua passagem A frente do go- :verno tal como estes podem ser retrospectivamente apreendi- dos em todo o rigor de sua realidade histérica. Trata-se essen- cialmente de sua imagem, da representacio que dela foi feita e que parece ter-se imposto muito amplamente 4 opinigo, Em outras palavras, 6 de uma narrativa que se trafa e que é pre- ciso ler e interpretar um pouco — guardadas todas as propor- ges — como 0 leitor da Chanson de Roland pode len e inter- pretar a narrativa das proezas do heréi de Roncevaux, sem ter de obrigatoriamente interrogar-se sobre a natureza exata do acontecimento histérico que Ihe serviu de ponto de partida e de suporte. Nessa perspectiva, no parece, portanto, de modo algum proibido, desde que ambas dependam, de perto ou de longe, da mesma constelacio mitolégica, aproximar essa nar- rativa de uma outra narratiya, ainda que esta seja de ordem puramente literdria, e destituida, em conseqiiéncia, de qual- quer referéncia fatual. No longo poema dramatico Téte d’Or, escrito em 1890, portanto sessenta anos antes da chegada do sr. Pinay ao teatro da historia, Paul Claudel pode em cena a brusca irrup¢%o de um Salvador a frente do poder, de um Her6i que capta em torno dele todos os fervores da esperanca coletiva. Comparar a figura mitica de Téte d’Or ao retrato lendario do sr. Pinay — 0 paralelo talvez corra 0 risco de sur- preender. Admitindo que se trata, aqui, tio-somente de dois sistemas de representag4o, de duas visdes opostas relativas a uma mesma tematica, a confronta¢do conserva, no entanto, todo seu valor demonstrativo. ~~ De fato, a narrativa claudeliana organiza-se em trés tem- pos, em trés periodos: apelo, o poder ea gloria, o martirio. No inicio, um adolescente vagabundo de nome Simon Agnel, errante, inseguro, descobre bruscamente que lhe esta reser- vado um grande destino. Sente subir até ele a espera de todo um povo cansado da inércia, da mediocridade e da banalidade cotidiana: “Uma gloria me foi dada, Aspera, inimiga das l4- 66 grimas, das mulheres e dos Pirralhos, ela nao é fraca...”. Essa imensa esperanga, ele vai realizd-la quando, general vitorioso, tornado Téte d’Or, mata o velho imperador, solene, benevo- lente e fraco, simbolo da legitimidade e da ordem estabele- cida, “Vai, exclama ele ainda. Eu comandarei porque isso é justo.” “Voraz, obstinado, insacidvel”, conquistador impossi- vel de satisfazer, comega entio a intermindvel aventura que, de combate em combate, vai conduzir seus exércitos até as so- liddes desérticas do meio do mundo (“Eis que encontramos o espaco”’). E14, entretanto, que Téte d’Or vai conhecer, enfim, a derrota e a morte, agonizando supliciado, crucificado no meio de um punhado dos ultimos fiéis. Ao menos levou-lhes a aventura, a superacio de si mesmos, 0 acesso ao tragico: “Por mim, eu os fiz levantarem-se de sua preguica. E convoquei-os da sombra em que estavam sentados... Que coisas ‘fize- mos”. Ao menos sua vontade, sua audacia, seu apetite de grandeza abriram um novo capitulo da historia dos homens: “As leis do uso rompidas, a fraqueza humana superada, 0 obstaculo das coisas dissipado...””. E bem evidente que entre o personagem de Téte d’Or eo do sr. Pinay — pelo menos tal como o apresenta sua lenda — a aproximacao s6-tem sentido na medida em que revela © per- feito contraste das duas imagens, e é preciso quase chegar a dizer, das duas figuras simbélicas? bersonagem do sr. Pinay inscreve-se, sem o menor equivoco, em uma linhagem, um estado civil, um meio. Possui bens, exerce uma atividade pro- fissional, conhece 0 peso das responsabilidades familiares. Notavel saido de um lento Processo de ascensio social, fiel a seus vinculos provincianos, sua carreira Politica seguiu com uma regularidade exemplar todas as etapas do cursus hono- rum do Estado republicano. Sua ascensio ao poder foi feita sem pressa, sem manifestagao de ambicao intempestiva e no mais estrito respeito as instituigdes estabelecidas. Nao é a-toa, Por outro lado, que os biégrafos do presidente insistem tanto em lembrar a simplicidade, a familiaridade de seus gostos e de seus h4bitos: o sr. Pinay fuma cachimbo, gosta de pescar com vara, prefere seu apartamento do bulevar Suchet, mobiliado 67 em estilo Império, aos faustos dos palacios nacionais; ‘‘o novo presidente, esclarece Paris-Match, veste-se com tecido inglés sdbrio, cinza ou azul comp Bp Fiscas brancas, usa um classico cha- péu preto debruado. uanto a Téte d’Or, escapa a toda normalidade social. Nao tem rafzes, nem teto, nem heranga; mesmo seu lugar de nascimento é desconhecido. E com uma. espécie de avidez feroz que se lanca 4 aventura, a gléria, ao poder: “Oo que tentarei? Sobre o que me atirarei em primeiro lugar?...”. O poder supremo, ele o conquista pela forga e pelo assassinio, matando o imperador, simbolo da ordem antiga, e domando brutalmente a multidao, “essa vil canalha”: “O enorme carga de homens ignorantes, eu me levanto apesar de vos! Vés vos curvareis diante de mim, ou morrerei e n&o su- portarei mais por muito tempo as leis de vosso embruteci- mento...”. Quanto a essa expedicAo insensata até os confins do mundo onde vai terminar sua vida, nao tem, com toda evidéncia, nenhuma relag&o com a sabedoria muito pragma- tica que o sr. Pinay esforga-se por fazer prevalecer no topo do Estado. Mais profundamente, subjacentes as duas narrativas bio- graficas, de fato so dois sistemas de valores que se encontram em oposigidX ()O personagem em do sr. . Pinay nao € 0 de um dou- trinador. No entanto, permanece admiravelmente representa- tivo de um certo estado de espirito, de uma certa concepcao da Franga, da vida social, da moral coletiva. A Franca do sr. Pinay é a dos Diarios mantidos pelo chefe de familia, das con- tas escrupulosamente geridas, das virtudes do trabalho, da previdéncia e da poupanca. O Estado deve ser administrado segundo os mesmos principios e as mesmas regras de um em- preendimento privado, constituindo o respeito aos contratos e 0 cuidado com 0 equilibrio das contas os critérios fundamen- tais de sua boa gestAo. A ponderag&o, o sentido da “‘justa me- dida”’, a desconfianga com relac&o aos excessos dos idedlogos e dos ayentureiros, é por essas qualidades que se reconhece, a frente dos negécios puiblicos, a linhagem dos “altos funcio- narios’’ caros aos nossos antigos manuais escolares, a tradigdo dos Sully, dos Colbert ou dos Poincaré. Dai, no legendario do 68 sr. Pinay, o interesse decisivo dirigido 4 cesta da mae de fami- lia: contrastando com “sua desconfianca dos dossiés”, Paris- Match atribui ao novo presidente do Conselho “uma memoria de dona-de-casa no que se refere ao custo por quilo ou por libra do linguado, da manteiga, dos espinafres”. Dai igual- mente a importAncia atribuida aos riscos monetarios: a pri- meira tarefa destinada ao sr. Pinay é a da “recuperacao do franco”, e talvez nado seja simbolicamente sem significagao que o empréstimo posto em circulac4o por seu governo tivesse 0 ouro como garantia. Pensa-se no lugar ocupado na conscién- cia francesa do ultimo século pelo principio da estabilidade monetaria, a imagem por longo tempo intangivel do ‘‘franco- germinal”, as agonias das primeiras desvalorizacdes. Pensa- se também nos valores éticos atribuidos por toda uma menta- lidade camponesa e burguesa ao proprio capital, ou, antes, ao mecanismo de sua lenta acumulac4o, fruto da paciéncia, do esforco perseverante, do rigor, do sacrificio cotidiano imposto asimesmo. A férmula de Zola sobre o ‘‘papel civilizador do} Dinheiro” permanece caracteristica de toda uma concepgio, } mais que amplamente dominante, da moral individual e do! ptogresso social. OA antitese nao é facticia: é muito precisamente na e pela recusa — recusa brutal, veemente, exasperada — desse con- junto de valores que se define o personagem claudeliano de Téte d’Or. Na vida de uma cidade aparentemente calma, sua irrupc4o é ao mesmo tempo a do lirismo e a da tragédia. Ele proprio possuido pelo sonho de impelir até os limites mais extremos a exaltagao de sua vontade, as forcas para as quais apela sdo as da ruptura, da aventura e do movimento. E aos rebeldes, aos marginais que se dirige, Aqueles que n&o se satis- fazem nem na paz, nem na ordem, nem no curso regular dos trabalhos e dos dias. A esses, esses que est&o “‘cansados dessa vida de alfaiate’, revoltados contra “essa vil e mondétona * tarde, resto da digestio e véspera do cochilo”’, ele nao promete nada além de um destino mais denso e mais forte: “Que o yento do ar livre e o sol vermelho fustiguem nossos rostos! O mundo yer e ficara abalado de desorientacao...”. Os valores 69 i i ' 3 domésticos, os simbolos da economia burguesa — 0 pao, a casa, a profissio — sdo mais uma vez evocados —, mas para ser imediatamente ridicularizados e escarnecidos: Eu nao vim com o humilde deus da béia Benevolente, piscando os olhos no vapor da carne e do repolho. Solta um grito 4spero, minha alma, langa-te para a frente! Eu vos proponho lavar-vos de vossa vergonha e erguer-vos de vossa baixeza. E vingar-vos de uma sorte dura e desprezivel {...] Um vive e chicaneia por sua comida, e seu sono e seu lazer, € sua parcela de infelicidade, e os labios melosos da donze- las ¢ os trabalhos da paternidade. Mas 0 outro, como um deus, tera sua parcela de comando... De um lado, Portanto, o pequeno industrial de Saint- Chamond e seu chapéu preto de aba virada, controlador meti- culoso da cotacao das frutas e dos legumes. Do outro, o aven- tureiro fulgurante que morrer4 supliciado no creptisculo de uma degringolada. Nao é menos verdade que, na histéria do imaginario politico francés, ambos pertencem ao dominio, no final das contas, de um mesmo legendario: o do Homem pro- videncial, do Chefe, do Guia, do Salvador. Personagens sim- bolos, através de um e de outro exprime-se uma vis&o coerente € completa do destino coletivo. Em torno deles cristalizam-se poderosos impulsos de emocdo, de espera, de esperanca e de adesto. Ambos heréis, em suma, no sentido que o velho mito. greco-latino atribuia a esse termo... Mas herdis colocados sob signos diferentes, dotados de atributos contraditérios, cha- mados a preencher fungées opostas. Um, heréi da normali- dade. O outro, heréi da excecdo. QUATRO MODELOS Heréi da normalidade, heréi da excegao... Encontramo- nos situados, no caso, nos Pontos mais extremos de um mesmo espaco mitoldgico, e é isso precisamente que confere interesse 70 aos dois exemplos escolhidos. Entre esses dois marcos limi- nares, ndo se poderia esquecer, no entanto, a mu jade des casos apresentados sé pelo nosso legendario n: al. Ha quase dois séculos, com efeito, o apelo ao Salvador nao cessa de repercutir em nossa histéria. De Napoledo Bonaparte a Phi- lippe Pétain e a Charles de Gaulle, passando por Boulanger, Poincaré ou Doumergue, em torno de um Personagem privi- legiado tende a formar-se uma mesma constelagio de ima- gens. Constelacdo movente, sem divida, mais Ou menos am- pla, de colorag%o cambiante, de contorn s por yezes mal defi- nidos, mas cuja permanéncia ei identidade nao podem escapar a observacio, Resta apenas definir suas estruturas. Resta também interrogar-se sobre as modalidades de sua coeréncia e as condigdes de sua génese. Problemas aparentemente faceis de formular, mas cujo exame choca-se imediatamente com certo mimero de obsta- culos de temivel complexidade. Uma primeira constatagao vem, de inicio, complicar a abordagem®s impossibilidade, Presente na maioria dos casos (e qualquer que seja o valor metodolégico da distingao anteriormente feita), de tragar uma linha de demarcaco telativamente precisa entre 2 fabulacao legendaria ¢ 0 relato de ordem histérica. Philippe Pétain foi © vencedor, oficialmente reconhecido, da batalha de Ver- dun. Charles de Gaulle langou de Londres, a 18 de junho de 1940, um apelo aos franceses convidando-o8 a continuar a luta. Montenotte, Lodi, Rivoli nao sdo feitos de guerra ima- gindrios, realizados por um heréi qualquer de Ariosto, mas nomes de vit6rias auténticas obtidas em datas muito precisas por um jovem general-em-chefe de que é dificil contestar a existéncia. Toda a questo est4, evidentemente, em saber como se opera a passagem do histérico ao mitico, como opera, em outras palavras, esse misterioso processo de heroificagao, que resulta na transmutacao do teal e em sua absorgéo no imaginario... Tornando-se a interrogacao, alias, mais deli- cada ainda, pela Presenca, mais ou menos importante mas sempre detectavel nesse tipo de construgao mitica, de certa Parceia de manipulacio voluntaria. Sem chegar ao ponto de 71 evocar as formas contempor4neas, mais sistematicas e mais macicas, da propaganda politica, a prépria lenda napole6nica Permanece, em relacao a isso, suficientemente exemplar. Os Boletins do Grande Exército, as encomendas da iconografia oficial, a utilizag4o do teatro e da miisica, por fim o Testa- mento de Santa Helena testemunham, sem equivoco, um de- signio organizado de fabricacfo. Os etnélogos nos ensinam: ndo existe xamanismo sem uma certa encenacao, nem feiti- ceiro que ndo seja também ator. Necessidade, portanto, de distinguir 4 parcela do real-e a do imaginério, a parcela da espontaneidade criadora e a da construgdo intencional. Mas necessidade também de levar em conta o fato de que, estendendo-se no mais das vezes por uma dimensio cronoldgica bastante ampla, o proceso de heroifi- cacao pode apresentar-se organizado em varios periodos su- cessivos, sensivelmente diferentes uns dos outros por sua tona- lidade afetiva. H& 9 tempo da espera e do apelo: aquele em que se forma e se difunde a imagem de um Salvador desejado, cristalizando-se em torno dela a expressio coletiva de um con- junto, na maior parte das vezes confuso, de esperancas, de nostalgias e de sonhos. (E é possivel que essa imagem jamais Se encarne em um personagem existente, que a espera perma- nega va, o apelo jamais ouvido...) Ha o tempo da presenca, do Salvador enfim surgido, aquele, sem divida, em que oO curso da histéria est4 prestes a se realizar, mas aquele tam- bém em que a parte de manipulacto voluntaria recai com maior peso no processo da elaboracio mitica. E ha ainda o tempo da lembranga: aquele em que a figura do Salvador, lan- gada de novo no passado, vai modificar-se ao capricho dos jogos ambiguos da meméria, de seus mecanismos seletivos, de seus rechacos e de suas amplificacdes. A imagem mitica do general de Gaulle em sua fase guerreira, chefe da Franga com- batente, nao se confunde nem com a do primeiro presidente de uma Republica nova, nem com a do Sabio desaparecido cuja morte ndo dissipou a sombra tutelar, Mas sobretudo nao se poderia esquecer que, a partir do momento em que todo mito desse tipo ganha uma certa ampli- 72 ou de representacées, a con: tituir-se, em outras palavras, como uma espécie de encruzilhada do imagindrio onde vém cruzar-se £ embaralhar-se as aspiragdes e as exigéncias mais diversas, por vezes mais contraditérias. Mais uma vez a lenda napolednica constitui, aqui, a mais significativa das referén- : cias.’ Conforme os momentos e conforme os meios, Napoleao Bonaparte encarnou ao mesmo tempo a ordem e a aventura, © messianismo revolucionaério em marcha e o principio de autoridade restaurado. Foi exaltado por alguns como o sim- bolo da epopéia guerreira e por outros como a garantia de um futuro pacificamente assegurado. Nietzsche admirou-o como um heréi da ac&o tragica; Béranger cantou nele o soberano familiar, amigo dos humildes e dos pequenos, homem entre os homens, e no ignorando nada das fraquezas de sua condigao: “O povo ainda o reverencia, sim, o reverencia. Fale-nos dele, av6, fale-nos dele...”. © semideus dos combates aqui nao é mais que um infeliz, traido pelo destino, que se alimenta de um pedago de pio preto e adormece junto do fogo. De fato, para além dessa riqueza de projecdes oniricas, dessa multipli- cidade de imagens cristalizadas em torno de um mesmo perso- nagem, sio — simplificando um pouco — quatro modelos essenciais que parece possivel destacar. Quatro modelos que, em nhumerosos Casos, os mais ricos em contetido mitico, vém efetivamente se superpor ou se imbricar. Mas quatro modelos que é igualmente possivel isolar, apreender e definir na especi- ficidade « de suas referéncias, de seus simboios e de sua lin- guagem, O primeiro modelo é 0 de Cincinnatus e é especialmente, no curso recente de nossa histéria, Doumergue em 1934, Pé- tain em 1940, em grande medida de Gaulle em 1958. A ima- gem legendaria é, de qualquer modo, a de um velho homem, que se tornou ilustre em outros tempos nos trabalhos da paz ou da guerra. Exerceu com honra altos cargos, grandes co- mandos, depois escolheu um retiro modesto, longe dos tumul- tos da vida publica. Interrompendo uma velhice tranqiila e respeitada (“‘o sAbio de Tournefeuille’”, assim se refere a im- tude coletiva, ele tende a combinar varios sistemas de imagens 73 i i prensa, pelo nome da localidade camponesa para onde se re- tirou, ao antigo presidente da Republica Gaston Doumergue), a angustia de todo um Povo bruscamente confrontado com a desgraca o chama ou 0 traz de volta a frente do Estado. Tendo “feito doacio de sua pessoa” a patria, provisoriamente inves- tido de um poder supremo de esséncia monérquica, sua tarefa é apaziguar, proteger, restaurar. As virtudes que lhe so atri- buidas, e das quais se espera a salvagio da Cidade ameacada, correspondem muito exatamente ao termo global utilizado pelos latinos para designar uma certa forma de exercicio da autoridade politica — gravitas: a firmeza na provacfo, a ex- periéncia, a prudéncia, o sangue-frio, 0 comedimento, a mo- deracao. “Eu s6 aspirava ao Tepouso”’, assegura em marco de 1934 0 presidente Doumergue, chamado novamente ao poder de- Pois dos distirbios de 6 de fevereiro. “Minha idade me per- mitia aspirar ao repouso que eu talvez tivesse merecido”, de- clara, por seu lado, o marechal Pétain em 1945 diante da Co- missio de Instrugio do Supremo Tribunal. De fato, a refe- réncia a histéria, o peso da lembranca desempenham, aqui, um papel essencial: nao é nada mais que o passado — um Ppassado de ordem ou de gléria — que se vé chamado a socor- Ter 0 presente — um presente de confusao ou de derrota. Dai, no discurso do legendario desse tipo, o lugar essencial ocu- pado pelos principios de continuidade e de estabilidade, pelos valores de permanéncia e de conservagio. E a terra que se evoca, essa terra ‘‘que nao morre”, imutavel, nutriente, ma- ternal, fonte de toda vida renascente, (“Enraizar 0 homem francés na terra da Franca", Philippe Pétain, 25 de agosto de 1940.) E € também a casa — a casa que convém salvaguar- dar, restaurar, reconstruir (“reedificar a casa Franca”, “‘resta- belecer a ordem na casa”, organizar “um vasto, sdlido e du- ravel edificio”, essas formulas sao ainda de Pétain e datam dos anos 1940 e 1941). O lar, a chama tranqiiilizadora em torno da qual nos agrupamos, 0 teto, as muralhas, essas ima- gens sio insepardveis de toda uma tematica — nesse caso, decisiva — do abrigo, do tefdgio e da proteciio.‘ 74 0 A gravitas, 4 sabedoria circunspecta de um ilustre apo- sentado, convém opor, extraido ainda do vocabulario latino, um outro substantivo, aquele pelo qual se acham evocados ° impeto, a audacia conquistadora dos jovens capitdes avidos de Precipitar-se na gloria: a celeritas. oO arquétipo de Cincinna- tus estabelece simetria com 0 de Alexandre. Este nao traz nem juga. A legitimidade de Seu poder nao provém do passado, nao depende do fervor da lembranga; inscreve-se no britho da aco imediata. O esto de seu braco nao é simbolo de prote- S40, | mas convite a partida, sinal de aventura. Ele atravessa a historia como um raio fulgurante. Heréi da juventude e do movimento, sua impetuosidade chega a ponto de domar a na- tureza; transpée as montanhas, atravessa os desertos, salta Por cima dos rios... Esse é bem o lugar que ocupa, nesse imenso complexo mitolégico que a lenda napoleénica repre- senta} a imagem do jovem Bonaparte, a do vencedor das duas campanhas da Itdlia, de 1795 ¢ de 1800. E assim que David 0 pinta: transpondo o desfiladeiro do monte Saint-Bernard, do- minando um cavalo que empina, envolto pelo vento, apon- tando com o dedo as planicies e as cidades prometidas 4 sua cobica. E assim igualmente, depois de Stendhal, que o vé Barrés, “pensativo, feroz, com a tez azulada dos jovens herdis que sonham com o Império”. “Quando os Suores da agonia foram enxugados de seu Tosto”, Prossegue Barrés evocando o cadaver de santa Helena, “viram-se reaparecer a violéncia de sua Juventude, a curva decidida dos labios, a aresta viva das macas do rosto e do nariz. Era essa expressdo herdica e vigo- rosa que ele devia deixar Para a posteridade como essencial € explicativa. O jovem chefe de cla da tegi&o corsa, 0 general da Italia e do Egito, 0 primeiro cénsul, eis ai de fato 0 Napo- ledo que nao’morre, aquele que sustentou o imperador em todas as suas Tealidades e que Suporta sua lenda em todas as etapas de sua imortalidade.”’5 Cadéncias pesadas de nostalgia épica que, no entanto, nao s&o senao um €co do prodigioso relato que, em Le méde- 75 cin de campagne, Balzac atribui a Goguelat, o antigo soldado, quando este, no fundo de um celeiro, em pé sobre um monte de feno, “conta o imperador”. Ah, bem, sim, como chefe sem demora [conta Goguelat, de- pois de ter recordado o estranho e fabuloso nascimento do he- réi)], na Cérsega, que é uma ilha francesa, aquecida pelo sol da ItAlia, onde tudo arde como numa fornalha [...]. Ele nao pa- recia ter mais que vinte e trés anos, e era ja velho general, desde a tomada de Toulon, onde come¢ou por fazer ver aos outros que nao entendiam nada da manobra dos canhées. Vai dai, nos cai todo magricela como general-em-chefe do exército da Italia, que nao tinha pao, muni¢do, sapatos, roupas, um pobre exército nu como um verme. “Meus amigos, que ele disse, estamos aqui juntos. Ent&o, metam na cachola que da- qui a quinze dias ser&o vencedores, vestidos de novo, que todos ter&o capotes, boas polainas, os famosos sapatos; mas, meus filhos, é preciso andar para ir busc4-los em Milao, onde ha bastante.” E andamos. O francés, esmagado, achatado como um percevejo, se endireita. Eramos trinta mil maltrapilhos contra oitenta mil alemies fanfarrdes, todos belos homens, bem munidos, que ainda vejo. Napoledo, ent&o, que ainda sé era Bonaparte, nos sopra nfo sei o qué na cabeca. E a gente marcha de noite, e marcha de dia, e se Ihes d4 uma esfrega em Montenotte, corre-se a espancé-los em Rivoli, Lodi, Arcole, Millesimo, e a gente nao larga mais eles. O soldado toma gosto em ser vencedor. Entao Napoledo faz um pacote daqueles ge- nerais alem&es que no sabiam onde se enfiar para estar 4 vontade, embrutha-os muito bem, surripia-lhes as vezes dez mil homens num s6 golpe, cercando-os com cento e cingiienta franceses que fazia avolumar a sua maneira. Enfim, toma seus canhées, viveres, dinheiro, municdes, tudo que tinham de bom Para pegar, atira-os na 4gua, derrota-os nas montanhas, mor- de-os no ar, devora-os em terra, chicoteia-os em toda parte. [...] Um homem teria podido fazer isso? Nao, Deus 0 ajudava, é claro. Ele se multiplicava como os cinco Paes do Evangelho, comandava a batalha de dia, preparava-a A noite, que os senti- nelas o viam sempre indo e vindo, ¢ nfo dormia nem comia... 76 Herdi inspirado, portanto, a quem Deus deu 0 direito “de escrever seu nome em vermelho sobre a terra”, destinado, como é preciso, a uma queda grandiosa, abandonado por aqueles cuja fortuna garante, capturado por traigdo, e que seus inimigos “‘vao pregar em uma ilha deserta, sobre um ro- chedo elevado a dez mil pés acima do mundo”, de onde um dia talvez o destino o chame de novo. Esse Napole&o da nar- rativa balzaquiana, que deixa a ordem humana para entrar na do sagrado, nao se confunde, no entanto, na meméria legen- daria, com uma outra imagem do imperador: a do legislador, do fundador de uma ordem institucional nova. A iconografia do Consulado e do Império privilegia talvez o general vence- dor, 0 conquistador de olhar ardente. Mas nem por isso es- quece de mostra-lo participando das deliberagdes do Conselho de Estado, reeolocado em um cendrio despojado de todo paté- tico guerreiro, o gesto sdbrio, o rosto atento, concentrado na meditac¢o e na demonstracio. “Ele langa através de suas leis, comentara Thiers, as bases da sociedade moderna.” Nao é mais, entao, aquele meteoro da histéria, cujo destino se ins- creve em uma aventura fulgurante mas efémera. E na pers- pectiva da durag4o que seu personagem encontra a realizac4o. Assentando e definindo as regras que amanha serao as da vida coletiva, constréi o edificio que as geracdes futuras terao por tarefa conservar. “‘E preciso ser-lhe grato, acrescenta Thiers, Por nos ter dado, com a ordem, nosso estado civil e nossa organizagao administrativa.” A imagem do Homem providencial apresenta-se, assim, sob a forma de um terceiro modelo. O arquétipo de Sdlon, o legislador, vem substituir o de Alexandre, 0 conquistador. Arquétipo que é reencontrado em 1940 eem 1941, nos primei- tos tempos da Revoluc&o nacional, através de uma certa ima- gem do marechal Pétain, fundador de uma “‘ordem nova”. Que é encontrado também, mais fortemente pronunciado, na imagem do de Gaulle de 1958, estabelecendo os principios e as regras de uma Repdblica nova. Cuja expresstio mais geral, contudo, deve ser procurada nessa referéncia — tao constante no discurso politico e mais especialmente no discurso politico 77 francés — 4 meméria dos “Pais fundadores”. J4 nos tltimos tempos do Antigo Regime, havia o habito de comparar ou de opor as formas presentes do exercicio do poder real a uma certa imagem do “Bom Rei”, confundindo-se esta com 0 res- Peito do que era afirmado como constituindo os principios pri- meiros e fundamentais da Monarquia francesa. Mas quase nao ha, hoje, grupo politico que nao ache sempre necessério, quando se trata de afirmar sua legitimidade ou de garantir sua continuidade, apelar para o exemplo e para as ligdes de certo nimero de “grandes ancestrais” sacralizados pela lenda. Eem nome da fidelidade as mensagens que eles ditarkm, da conformidade aos principios que estabeleceram ou as institui- ¢6es que fundaram que se pretende corresponder as interpe- lagdes e aos desafios do presente. Uniformizadas em um mesmo tipo de Tepresentacéo, a cabeca erguida e grave, a fronte serena, o olhar Seguro, as m4os pousadas sobre os tex- tos que garantem a Perenidade de sua gloria, suas imagens entulham todas as encruzilhadas de nossa histéria, Ultimo modelo, enfim: Moisés ou o arquétipo do profeta. Anunciador dos tempos por vir, ele 1é na histéria aquilo que os outros ainda nao véem. Ele proprio conduzido por uma espé- cie de impulso Sagrado, guia seu Povo pelos caminhos do fu- turo. E um olhar inspirado que atravessa a opacidade do pre- sente; uma voz, que vem de mais alto ou de mais longe, que tevela 0 que deve ser visto e reconhecido como verdadeiro. E mais uma vez Napoledo, aquele do legendario de Santa He- lena quem, da sombra em que ja est4 semimergulhado, anun- cia a liberag4o dos povos e o advento das nacionalidades. E é também, mais préximo de nés, 0 general de Gaulle, pelo me- nos tal como depois de sua morte o vé André Malraux,® cuja misteriosa grandeza nao vem, nos diz ele, nem de ter sido um grande capitao, nem de ter sido um grande Politico, mas do fato essencial “de que carregou a Franca nele, um pouco o profeta”... “Ele restabeleceu a Franga a partir de uma Fé”, esclarece Malraux, que muito naturalmente o define como um “chefe de ordem Teligiosa”, vendo nele o sucessor e 0 conti- nuador de um sao Bernardo, dos “pregadores de Cruzadas, 78 dos fundadores de ordem”. O destino do General identifica-se com o da Franga. Carrega com ele o Passado de todo um Povo; confunde-se mesmo, na solidao dos Ultimos meses de sua vida, com a paisagem que o cerca. “A tal Ponto ele 6 0 passado da Franga, um rosto sem idade, como, atras dele, a floresta co- berta de neve a qual agora moldou-se...”” Processo de identificagio de um destino individual e de um destino coletivo, de um Povo inteiro e do intérprete profé- tico de sua histéria, que com toda evidéncia encontra sua Tea- lizagdo exemplar na coorte bastante alucinante desses grandes “chefes” ditatoriais de que nosso século viu multiplicarem-se as imagens. Oradores de carater quase sagrado, é em primeiro lugar pelo Verbo que agem, é pela palavra que pretendem decidir 0 curso da histéria. “O que fez Jesus Cristo? — co- menta Goebells. — Escreveu livros ou pregou? E Maomé? Olhem nossa época. Mussolini era um escritor ou um grande orador? Quando Lenin foi de Zurique a Sao Petersburgo, cor- reu da estaco para o seu escritério para escrever um livro ou falou para a multidao? Apenas os grandes criadores de Pala- vras fizeram 0 bolchevismo e o fascismo.” E pelo poder espe- cifico do Verbo que se opera, com efeito, essa estranha comu- nhdo que faz com que, dirigindo-se o chefe Politico 4 multi- dao, seja igualmente a multidao que se exprima nele, com ele. Hitler se compara de bom gradoa um tambor, a uma caixa de Tessonancia: sua voz nao é nada mais que a de todos os ho- mens e de todas as mulheres da Alemanha, amplificada, me- diatizada. “Eu nao sou nada sem vocés, declara ele, mas tudo O'que so, vocés 0 sdo por mim.” Situacao de absor¢4o reci- Proca do povo e de seu guia que esta outra formula traduz bastante bem: “O Fithrer fala e age nao apenas Para 0 povoe em seu lugar, mas enquanto povo. Nele o Povo encontra seu Tosto”’,” O Vidente, o Chefe profético nao aparece mais, entio, como 0 simples representante, o simples executante da yon- tade geral. Ele éa sua encarna¢ao no sentido mais profunda- mente religioso do termo: encarna-a na totalidade de suas di- mens6es sociais; encarna-a também na totalidade de seu des- i 79 tino histérico, em seu passado, em seu presente e em seu fu- turo. Perder-se nele é, sem divida, renunciar a identidade in- dividual; mas é reencontrar, ao mesmo tempo, a integralidade da identidade coletiva, a fusao intima e indissolivel com a co- munidade mae. “N&o aceitem como regras de seu ser nem principios nem idéias. O Fiihrer em si mesmo, e apenas ele, é, no presente como no futuro, a realidade alem4 e sua lei.” A afirmagao é do préprio Heidegger em um momento bastante desconcertante de sua vida. Estes versos de Baldur von Schi- rach a repetirao de um outro modo — sem divida mais ade- quado para captar as forcgas da imaginacdo e do coracio —, fazendo o Guia dizer em seus primeiros combates...* Sois varios milhares atras de mim E vés sois eu e eu sou vos. Nao tive pensamentos que nado tenham nascido em vossos coragées. No momento em que falo nao posso sen&o exprimir © que se encontra ja em vossa vontade Pois sou yés e vés sois eu e todos nés cremos, Alemanha, em Ti. A MARCA DA HISTORIA Seja qual for 0 modelo a que se refira, quer se trate de Cincinnatus, de Alexandre, de Sélon ou de Moisés, e mesmo que exprima um poder de ordem institucional ou sacerdotal, o homem providencial aparece sempre como um lutador, um combatente. Sempre ameacado, sempre resi beir ' precipicio, recusa submeter-se ao destino. Quer restaure a or dem | estabelecida ova subveria, quer organize ou anuncie aquela que est esté por vir, € sempre, por outro lado, “sobre uma linha de Tuptura dos tempos que se situa § seu personagem. n. EB ina manifestacao do presente imediato — presente de deca- déncia, de confusdo ou de trevas — que ele se afirma e se \define; com ele, gracas a ele, o “depois” nao y sera mais como 0 80 “antes”. Associados 4 expresso de sua lenda, so sempre, alias, as mesmas imagens, os mesmos simbolos que encontra- mos. Pode ser a Arvore que se ergue e que protege. (E é Mal- raux quem evoca, depois da morte de Charles de Gaulle, 0 verso famoso de Hugo sobre “‘os carvalhos que sao abatidos’’; e é também o mais alto dos carvalhos da floresta de Trongais que foi, em seu tempo, consagrado a Philippe Pétain.) Mas pode ser ainda a tocha que arde e que ilumina, o farol, a co- luna, o sol ascendente ou aquele “‘braseiro de sarga ardente”’ ao qual Claudel compara Téte d’Or... E possivel, no entanto, reduzir a andlise 4 permanéncia dessa Gnica simbélica? E possivel imobiliz4-la na exclusiva descric¢&o de uma estrutura imutdvel e de carater intemporal? _ 7 ° mito politico j jamais deixa, nés o sabemos, de enraizar-se ~~ em ‘uma certa forma ¢ de realidade histérica. Masa constatacao ganha, nesse caso caso particular, um valor quase determinante. Certamente, a lenda est4 muito longe de sempre corresponder f ‘ A realidade objetiva tal como esta pode aparecer ao olhar dol historiador. Certamente, a narrativa legendaria constitui, em si mesma, por si mesma, 0 objeto especifico de nossa tentativa de -andlise, Tratando-se, todavia, de pessoas humanas, muito concretamente e muito precisamente inseridas em um certo “ espaco geografico e em uma certa fase do tempo, nao é muito concebivel que a “narrativa em questio escape totalmente A marca “da historia, nao testemunhe, de uma maneira ou de outra, a presenca da ‘historia. Aos grandes herdis imaginarios, protétipos eternos p: propostos ao sonho e 4 meditagiio de suces- sivas geracées, Edipo, Fausto, Don Juan, a literatura como a pintura podem atribuir rostos os mais diversos. Eles nao de- pendem de nenhuma cronologia, de nenhum contexto fatual. Podem ser e foram incessantemente reinventados, reinterpre- tados; cada um de nés tem a liberdade de reconstruir 4 von-1_/ tade seus personagens. Com toda evidéncia, tal nao pode ser 0 ¢ caso de um ser de carne e osso, historicamente definfvel, e cujo processo de heroificagao n4o poderia fazer esquecer os tracos particulares que sdo os de uma personalidade e de um destino.’ A lenda do sr. Pinay, tal como se encontra expressa / } fi él em 1951-1952 através dos textos de seus bidgrafos, pertence bem ao dominio de uma certa forma do imaginario mitolé- gico. Mas essa lenda permanece igualmente insepardvel da prépria pessoa do homem de Estado, isto é, de um rosto, de uma silhueta, de um passado, de maneiras particulares de ser, de pensar, de falar e de agir. (Simbolo, no limite, e se se faz questao, de respeitabilidade burguesa, de seguranca e de es- tabilidade, 0 célebre chapéu de “‘aba virada” usado pelo pre- sidente nao deixa de ser — todas as fotografias da época o tes- temunham — um chapéu muito concreto e bem yerdadeiro, chamado a exercer todas as funcdes habituais desse tipo de complemento do vestuario.) Quanto mais o mito ganha ampli- tude, mais se estende por um largo espago cronolégico e se prolonga na meméria coletiva, mais se deve esperar, alias, ver os detalhes biograficos, as caracteristicas fisicas ganhar im- portancia. A altura do general de Gaulle, o tom zombeteiro de sua voz, suas férmulas, suas tiradas e suas insoléncias — sua lenda seria hoje a mesma se nao tivesse conservado a meméria desses tracos? Outra observagao de carAter mais geral e de significagio sem divida mais importante para o historiador das mentali- dades: sé o mito nao pode deixar de conservar a. marca do Personagem em torno de qual ele se constréi, se, engrande- cendo-os, tende a assegurar através do tempo a perenidade dos tragos especificos que so os de sua fisionomia, nao pode deixar, por outro lado, de depender ele proprio, em sua forma como em seu contetido, das circunstancias, historicamente delimitadas, nas quais é elaborado. Todo processo de heroifi- ‘ cacao implica, em outras palavras, uma certa adequagdo entre a personalidade do salvador virtual e as necessidades de uma sociedade em um dado momento de sua histéria. Q mito tende, assim, a definir-se em relacdo 4 fung&o maior que se acha episodicamente atribuida ao herdi, como uma resposta a uma certa forma de expectativa, aum certo tipo de exigéncia. A imagem do Salvador varia conforme ele é chamado a en- frentar um perigo externo, a conjurar uma crise econémica ou a prevenir os riscos de uma guerra civil. O legendario de Cle- &2 menceau é inseparavel da tragédia de 1917, 0 de Raymond Poincaré testemunha o grande temor financeiro do ano de 1925; 0 de Gaston Doumergue se impde como Tesposta, no caso muito proviséria, aos acontecimentos sangrentos de feve- reiro de 1934. E possivel até que 0 patético de certas situacdes implique um duplo fendmeno de efervescéncia mitica, 0 apelo nao a um mas a dois salvadores, com fungdes contraditérias e no entanto complementares. Como, por exemplo, no caso da Franga durante o periodo da ocupacao, o papel desempe- nhado pelo par Pétain-de Gaulle — Par antagonista em seus principios, mas que, durante certo tempo pelo menos, parece ter permanecido bem estreitamente associado nas esperancas € nos sonhos de muitos franceses: um supostamente encar- nando o Escudo e 0 outro, 0 Gladio, o primeiro correspon- dendo a uma necessidade de seguranga e de protecdo, o se- gundo a uma reacio simultanea de orgulho ferido, a um apelo para a aventura e para a aco. Marcado, condicionado pelo contexto fatual em que se desenvolve, oO mito pode assim aparecer, e& de maneira mais sugestiva ainda, como uma espécie de revelador ideolégico, 0 reflexo de um sistema de valores ou de um tipo de mentali- dade. Basta acompanhar 0 destino péstumo da lenda napole6é- nica para perceber no Napoledo dos romanticos, no dos ho- mens de 1848 e no da juventude iiteraria do final do século uma das imagens privilegiadas em torno da qual vém crista- lizar-se, em sua diversidade e também em suas contradicées, as ambigGes, os impulsos, os fantasmas e as certezas de cada geragao, Os valores encarnados pelo personagem do sr. Pinay, em exata continuidade com o legendario de um Raymond Poincaré e de um Gaston Doumergue — valores, como’ se sabe, de trabalho, de poupanga, de previdéncia e de indepen- déncia individual —, so os que j& Ppregava, depois de muitos outros desde a metade do século XVIII, esse livro de titulo tao caracteristico, Le bon sens d’un homme bien ou Traité de politique 4 l’usage des simples, publicado em 1829 e obra de um amigo de Béranger, Joseph Bernard, futuro prefeito de Luis Felipe. Sao os valores que uma imensa literatura pedagdé- 83 gica vai difundir ao longo da III Republica e que, associados aos postulados da idéia republicana, vao fornecer ao conjunto da sociedade francesa os principios essenciais de sua moral coletiva... Inversamente, e referindo-se a um meio bem mais restrito, ndo é muito dificil de distinguir, através do culto do J heréi pregado pelos jovens intelectuais do comeco de nosso id século, com as influéncias convergentes do nietzscheismo e do bergsonismo, todo um modo especifico de pensamento e de sensibilidade: a exaltagao das forcas de vida, o senso redesco- berto do tragico, o convite 4 ag&o. ‘‘Estimulador de energia”’, segundo Barrés, 0 heréi é para D’Annunzio aquele em torno do qual “todas as almas ganham seu maior brilho, iluminam com vastos clardes o céu do espirito”. Na sepultura que ergue A meméria do jovem heroificado a quem d4 o nome de Ma- ximin, o poeta alemao Stephan George satida neste ‘‘seu poder de metamorfose’”’." E gracas a esse poder que todos aqueles que se aproximaram de Maximin poderao “agora desabro- char, mais largos e mais belos’’. “‘Déem-nos grandes homens e grandes agdes para que reencontremos o sentido das grandes coisas, fara dizer no mesmo sentido Drieu La Rochelle a um dos personagens de seus romances. Cada herdi alimenta dez grandes artistas; Goethe e Hugo embeberam-se no sangue derramado por Napoledo...’""! Em um plano um pouco diferente, é igualmente permi- tido pensar que, para toda sociedade, um estudo um pouco atento da imagem de seus herdis salvadores e de seu legenda- rio histérico faria aparecer com evidente nitidez os “modelos de autoridade” inerentes a essa Y sociedade e e caracteristicos del: . No caso da Franca contemporanea especialmente, con- viria lembrar o peso particular de responsabilidade — e de respeitabilidade — sociais de que se viram investidos esses dois personagens essenciais do civismo republicano que foram du- rante longo tempo o professor primério e 0 oficial, o mestre- escola e o chefe militar. O ideal de regeneragdo moral dos comegos da III Reptiblica associara-os em um mesmo obje- tivo: ao professor o cuidado de instruir os futuros soldados, ao oficial a tarefa de prosseguir e de completar sua educacio 84 } de cidadaos, constituindo, um e outro, os eixos em torno dos quais se pretendia reconstruir a consciéncia nacional. Ora, é bastante significativo constatar que é precisamente esse du- plo prestigio do comando militar e do magistério moral que a pessoa do marechal Pétain parece encarnar nos meses imedia- tamente seguintes 4 derrota de 1940 e que explica bem ampla- mente o indiscutivel fervor da adesaio de que esta parece ter sido entao beneficiada!? ‘“‘O mestre-escola, o professor, 0 ofi- cial, participando da mesma tarefa, devem inspirar-se nas mesmas tradicdes e nas mesmas virtudes”’, declara o Mare- chal em 1934, em uma formula que Jules Ferry nao teria desa- provado. Paradoxalmente, é no préprio desenvolvimento do culto organizado em torno de um Chefe, soldado ilustre mas cuja autoridade se exprime, antes de tudo, sob a forma de preceitos, de ligdes de moral social, que Vichy testemunha mais autenticamente sua fidelidade a um certo tipo de sistema conceitual herdado da III Republica. Através de um estilo de autoridade, 6 uma longa formac4o social das atitudes e dos comportamentos, dos reflexos de respeito e de ades4o que se revela com toda a forca de sua marca. Mas nfo é também significativo 0 cuidado do general de Gaulle, falando sob a V.Reptblica na qualidade de chefe de Estado — e de chefe de Estado correspondendo aos critérios mais evidentes da constitucionalidade —, em revestir o uni- forme toda vez que se tratava de dirigir-se 4 opiniao publica com certa solenidade? Nao é preciso dizer que Charles de Gaulle, presidente da Repiblica, nio representa de modo al- gum 0 exército enquanio ordem ou enquanto corpo; com ele, nao é absolutamente a instituic¢4o militar que detém ou mono- poliza o poder; as funcdes que exerceu outrora em suas fileiras podem mesmo parecer modestas em relagao 4 dignidade su- prema de que se encontra entio muito democraticamente in- vestido. Como para o velho marechal alguns anos antes, tudo se passa no entanto como se, para ele e, sem diivida, para a maioria de seus compatriotas, o fato de ostentar as insignias do comando militar correspondente 4 sua graduac&o confe- risse a seu discurso um acréscimo de credibilidade, de presti- 85