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textos e fotos de ana prado ©

prece

sou esta árvore e, como ela, ergo os braços. à luz.


do futuro

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Bailo com as ondas além e,
do horizonte, avisto, na praia,
a silhueta de mim.

Um dia, não voltarei


para vestir a forma
de quem sou.

Ficarei no azul.

A marulhar.
(ul)traje

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erivam palavras nas ruas do tempo,
spensos gritos de silêncio
ue buscam abrigo.

mpunho o silêncio como grito


derivo no tempo,
uscando a Palavra.)
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ao meu poeta, a luz do Sul


Luz branca que entardece nas malhas oceânicas de
um Atlântico inteiro. Olhas a vastidão imensa e
ensaias o sonho. Não consegues. Não sabes mais
como se faz. Nem o ensaio, quanto mais o sonho.

Luz branca que entardece nas malhas titânicas do


marasmo que, por inteiro, embala a torpe
dormência em que duras. Oh tu que sou, olha o dia
que passa...
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pensar-te

Onde estás que não te sei?


Onde, senão na mudez calada mar adentro?

senão na intemporal e difusa lembrança de ti ?


(que ainda me encontra...)
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papoilas do tempo
Gosto do vermelho das papoilas ao fim da tarde
luminosa.

A estrada é longa e há papoilas nas bermas do


tempo a aproximar a noite escura de todos os
segredos.
consulta
Ah… deixo-te, deixo-te com
esse sorriso seguro de quem
tudo sabe e vou só comigo e
com a minha solidão.
Não entendes nada. Não vês
que fico feliz a olhar este
casario deitado no rio?
Deixo-te, senhor. Quero ser a
sós.

Se ninguém me sentir e ao que


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sinto, ninguém é quem quero


por companhia de mim.
A carne entardece,
amor.

Desencontra-se o
toque
e o beijo desfalece,
encarquilhado,
no volteio nocturno
do porto que
amanhece.

No horizonte,
os futuros de outrora,
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são o ontem das


carícias
que trocámos.

Entardecemos.

Mas a tua mão na


minha,
à beira-sul

N u m l u g a r à b e i r a -s u l,
p á s s a r o s c a e m do a z u l
n o l i t o r a l b r a n c o d a t a r d e.
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L i m p o o r o s t o c o m o s a l,
v o l t e i o n o a r e a l,
e s t e c o r p o: l i b e r d a d e.
amizade
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paisagens agitadas saltam da lembrança…

… cheira a flores…
(às dos caminhos e às da imaginação)

soltam-se gargalhadas do tempo


e sei o longe e a saudade…

… de ti, que és festa, riso e manhã clara.


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embalo
Luzes apressadas riscam a noite,
reconheço-me na tua voz de silêncio…
e dou-me a essa comunhão sem palavras.

De tudo, resta apenas, inalterado,


o intemporal abraço à beira de uma despedida.
Lembro-o ainda, agora que a memória purificou os espaços.
Tanto após o vazio,
O melhor para quem, em ti, me deixou saudade.
fingimento
Sou a deriva e o
futuro
ansiado,
por nascer.
Depois inquieto,
onde duro
e me ausento do
viver.
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Sou o verso nunca


dito,
a rima inacabada.
Equívoco. Ruído.
Grito.
Silêncio. Mentira.
Nada.
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in memoriam
esço pela azinhaga da memória e encontro-te.
ão é tempo do rosmaninho em flor, mas imagino-a e ao perfu
assim a paisagem canta os teus versos.

uando virás sentar-te, poeta, de novo ao entardecer?


luto adiado

Lanço na lonjura o que,


de nós, na paisagem
invocar, ainda, o rasto disforme
das ermas sombras
dos nossos corpos.

Visto-me por nós, de negro,


e atiro ao tempo
os gumes afiados
das palavras que trocámos.

Visto de negro o que fomos,


E avento-o à noite imensa
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do esquecimento.
21 de Março ou a unidade na
dispersão

No enleio absurdo dos dias, sou


quando Te canto,

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o Instante Perfeito
que me falha na vida.
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eterno retorno
Num algures distante, num tempo que não este, uma
criança grava, pensando, a sua mão na laje azul,
depois vai embora, para o mundo.
Fará a descoberta e nesse então voltará, porque a sua
eternidade está na mão que, pensando, grava na laje
azul da terra que é sua.
Há uma paisagem no
tempo
onde árvores descansam
nas águas paradas do
estio.

E há caminhos em volta.

Passados adormecidos,
desterrados,
memória onde já nem os deuses
moram.

Sou esse sonho deserto,


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essas árvores de água,


sou esse caminho
incerto,
d’além Tejo.
Poema

Partida caminho viagem


Busca incessante, coragem
Música canto e vontade.

Terra chuva e paisagem


violenta ternura. Imagem
da certeza: Eternidade.

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tempo
Além Tejo, os beirais são azuis. Sob a luz tórrida,
entardecem ao canto da rua, esperando os
pardais, que, ao crepúsculo, sublimam o amor.
São amarelas as flores da infância. Não
da minha, que me desconheço nestas
linhas, mas desse alguém que nasce na
palavra; esse alguém que não sou eu,
sendo-o, talvez, mas ignorando-o ou
recusando sê-lo.
A estrada branca percorre os montes,
tapetes amarelos de flores, dessas
bravias e minúsculas flores da infância
de alguém, alongam-se paisagem fora
até aos muros azulados da distância da
serra.

Estou só.
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(e não sei quem está só: se eu que o


escrevo, ou eu que nasço na palavra que
escrevi)

Olho à volta e é tudo em tudo igual a


esse tempo de memória, mas … onde
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alegoria

da sombra à luz um pequeno adamastor me separa


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a sós nos sítios

E à tua indiferença, continuar-te-ei a contemplar


(...é aparente, grito-te. Mas não me ouves. Já não me ouves
Voz de terra doce,
de água morna de ternura…

voz de delícia,
de preguiça que se alonga tarde fora,
no canto de todos os pássaros…

verde folha,
bethânia

voz floresta,
voz imensa donde a manhã transborda.

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voz que cheira a aguaceiro
e sabe a temporal.
Voz densa,
suja da limpidez inicial.

Voz branca,
onde os versos se deitam.
Voz poema, poesia
a tua voz,
Maria Baiana…
oração

obstinado querer que existas,


nesta difusa imensidão
que, adormecido o dia,
vagarosa, desce sobre os pinhais.

olho o alto, e o teu filho,


na minha infância, por cima
do quadro negro, silencioso,
ouve a ladainha entoada de cor.

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escureceu.
Pai, acende, na noite, a Tua casa,
antes de eu adormecer.
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errância
Há um sino como este a ecoar na memória dos espaços da errância.
Na meninice dos afectos interrompidos diariamente há muitos anos.
(liberta-me, Tu, que te escondes)
exercício redondamente falhado para fernando pessoa e el-rei
sebastião

Hoje é o futuro da profecia


e, do difuso nevoeiro,
nasce, em esplendor, claro, o dia.

Canto hoje os versos do amanhã


e a margem redonda do mundo.
Gentio de solidão, ergo
a voz do império fecundo.
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Arremesso-me, mortal, ao infinito,


dispo a cinza futura do que é ser.
Luz imaterial, cântico, grito,
sou rumo de horizontes por fazer.

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