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Sem Limites: o anseio pela perfeição
Allen Porto1
allenporto@gmail.com
SEM limites. Direção: Neil Burger.Produção: Leslie Dixon; Ryan
Kavanaugh e Scott Kroopf. Intérpretes: Abbie Cornish; Bradley Cooper;
Robert DeNiro e outros. Roteiro: Leslie Dixon. Música: Paul LeonardMorgan. Los Angeles: Relativity Media, 2011. 105 mins., color.

Nessa semana estou sofrendo de amigdalite. São dias de dores e agonia, que
testam a minha paciência. Em dias de doença o meu ritmo de trabalho cai
assustadoramente — meu poder de concentração diminui, minha criatividade também, e a
capacidade de fazer esforço mental é reduzida consideravelmente. Nesses dias eu penso
sobre minhas limitações físicas, e sobre como seria bom vencê-las: “e se eu tivesse uma
garganta que não dá tanto problema?”. “E se eu tivesse um ritmo de trabalho que não
dependesse das minhas condições físicas?”. “E se eu fosse mais forte para não adoecer
dessa maneira?”.
O exemplo simples mencionado acima é ecoado em muitas outras histórias dessa
natureza. Alguns querem vencer suas limitações físicas; outros, suas barreiras
intelectuais; há quem gostaria de ser melhor resolvido emocionalmente, e para todos os
casos existem perguntas semelhantes àquelas registradas há pouco. Por trás de tais
questionamentos existe um desejo profundo de ser mais e melhor do que se é. Isso se
traduz, em outras palavras, em uma sede pela perfeição.

A narrativa
O filme “sem limites” traz, no nome, a sua proposta. Trata-se da estória do escritor
Edward (Eddie) Morra — interpretado por Bradley Cooper — um homem desorganizado e
fracassado em muitos aspectos, como sua vida profissional, seu casamento (é divorciado)
e seu atual relacionamento (o filme inicia com a sua namorada encerrando a relação).
Sua aparência e o estado de seu apartamento revelam o caos interior em que vive o
protagonista — tudo é uma bagunça. Para piorar, está no meio de um “bloqueio criativo”,
incapaz de dar prosseguimento a um livro cujo contrato com a editora lhe garantiu um
adiantamento financeiro, já desperdiçado na vida irregular do escritor. Sem dinheiro, sem

1 O autor é pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana do Renascença, em São Luís — Maranhão, e
trabalha na plantação da Igreja Presbiteriana da Cohama. É mestre em teologia pelo Centro
Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ).

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namorada, sem sucesso, sem alegria: essa é a imagem inicial, o cartão de visitas de
Eddie Morra.
Um reencontro inesperado com o irmão de sua ex-mulher, Vernon Grant, é a ponte
para a resolução de seus problemas — a redenção. Grant fala de uma nova droga, NZT,
capaz de dar ao cérebro o pleno funcionamento de suas potencialidades. Morra, reticente
no início, experimenta o comprimido e tem algumas horas de transformação completa:
limpeza do apartamento e criatividade na escrita fluem de sua nova disposição,
demonstrando tudo o que ele poderia ser, se não tivesse as limitações da vida. Morra
experimenta algumas horas de perfeição. E sente o seu gosto viciante.
Ao retornar para obter mais comprimidos, Morra se vê em uma trama que envolve o
assassinato de seu ex-cunhado. Descobre um pacote de comprimidos, e passa a tomálos sistematicamente, enquanto aprende a lidar com os efeitos colaterais do produto.
Resolve o problema com a editora, e percebe que, com sua capacidade de aprendizado
ilimitada pode enriquecer mais rapidamente. O antes tímido Eddie ganha notáveis
habilidades sociais, e assim se aproxima das pessoas certas para investir no mercado de
ações. Sua projeção ascendente o leva a conhecer o poderoso empresário Carl Van Loon
(Robert DeNiro). As dificuldades — barreiras para a redenção — se apresentam na face
de diferentes personagens: Gennady (Andrew Howard), o mafioso que emprestou
dinheiro a Eddie para seus investimentos iniciais na bolsa, descobriu o poder do
comprimido e agora quer roubá-lo; o homem de casaco marrom (Tomas Arana), que
busca o NZT para preservar a vida de seu chefe; Melissa (Anna Friel), ex-mulher de
Eddie, que apresenta para ele os efeitos colaterais da droga, apontando, inclusive, a
morte; e Carl Van Loon (DeNiro), um empresário poderoso que pode fazer mal a quem
falhar com ele, e que deseja manter Eddie sob seu domínio.
Após todas essas complicações, Morra passa a sintetizar a droga em laboratórios
próprios, e aprende a lidar com o NZT. O filme encerra com sua candidatura ao Senado
americano, um ano depois, livre de tudo e todos. É o que parece. Mas retorna à cena a
figura de Carl Van Loon, afirmando que sabe sobre a droga, e que deseja uma “parceria"
no mandato de Eddie como senador. O protagonista, que consertou todos os aspectos de
sua vida, e agora está bem com Lindy (Abbie Cornish — aquela que terminou o namoro
no início do filme), afirma a Van Loon que não vai se submeter a tal manipulação, pois
não depende mais da droga. Aprendeu a reduzir o consumo progressivamente, enquanto
preservava os efeitos de aperfeiçoamento de seu cérebro. Morra termina a narrativa
redimido — ele alcançou a perfeição.

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Aspectos técnicos
Embora me faltem as categorias necessárias para uma análise adequada desses
critérios, é interessante notar como o filme conta a estória. O padrão de cores serve à
narrativa, indicando duas realidades distintas: Eddie sem NZT, e o protagonista com a
droga.
A “plástica” do filme, nas ocasiões em que Eddie está sem a substância é a de uma
coloração fria, entre o verde e o azul, com algum aspecto de penumbra, e a impressão de
letargia e confusão. Por outro lado, o uso da droga e os seus efeitos é representado pelo
acréscimo de luz à imagem, bem como pela mudança da tonalidade para cores quentes,
prevalescendo o amarelo — a sensação agora é de vida, atividade e clareza.
Outro recurso notável para expressar o alcance das plenas possibilidades do
cérebro é a utilização de imagems em 360º — simbolizando que nada escapa ao
beneficiário do NZT.

Insights da narrativa
A estória de Eddie Morra é a de alguém que anseia pelo fim de suas limitações,
assim como o rapaz da amigdalite, a moça tímida, ou o jovem gago. A realidade da
“Queda” na trama é o caos de uma vida limitada — financeiramente, intelectualmente,
profissionalmente, emocionalmente e socialmente. O desejo que Morra tem de se livrar de
suas imperfeições fica mais evidente quando ele tem uma breve experiência da vida “sem
limites”. A redenção, portanto, é a vitória final sobre tais limitações, experimentada
plenamente no fim do filme.
Conforme mencionado acima, o ser humano, de maneira geral, possui esse desejo
de ser perfeito. Possivelmente porque há algo na estrutura humana que clama por
perfeição. Eclesiastes 3.11 afirma que Deus pôs no coração do homem o “anseio pela
eternidade” (NVI), e essa é uma dica importante de nossa incessante perseguição daquilo
que é irretocável.
Os autores do filme reconhecem, curiosamente, uma relação entre a experiência de
perfeição e a salvação religiosa. Isso fica evidente na primeira cena em que Eddie sofre
os efeitos do NZT. Enquanto o mundo fica mais colorido e ele passa a perceber toda a
realidade, a expressão que ele verbaliza é “eu estava cego, mas agora vejo” (I was blind,
but now I see), que é retirada do clássico hino composto por John Newton, Amazing
Grace. A perfeição experimentada está conectada à redenção.

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A narrativa, então, fala de uma busca comum. O NZT é um símbolo dos
instrumentos que utilizamos para tentar a perfeição. Mas que instrumentos são esses?
Maggie Jackson, autora do livro Distracted: the erosion of attention and the coming
dark age2 (Distraídos: a erosão da atenção e a era das trevas que se aproxima, em
tradução livre), sugere que o fenômeno contemporâneo do multitasking é uma dessas
formas3 . O profissional que se dedica a fazer quatro ou cinco atividades simultaneamente,
não apenas mina a sua capacidade de concentração, mas está em uma busca por vencer
os seus limites. Inconformando-se com sua humanidade, conscientemente ou não, busca
a experiência de não ter limites ao desafiar a barreira do tempo, e até do espaço quando
participa de uma reunião online, enquanto envia e-mails para uma empresa de outro país,
e passa tarefas para a sua secretária na cadeira ao lado. Eventualmente o multitasking
cobra o seu preço.
A emulação de perfeição também pode ser vista no fenômeno contemporâneo das
redes sociais. Isso fica evidente na transformação das imagens. A maioria das redes
sociais gira em torno de imagens. Até algumas, que originalmente tinham um propósito
mais “textual”, como o twitter, foram redesenhadas para que as imagens tivessem seu
lugar. Nesses espaços virtuais nós publicamos nossas imagens editadas. Seja através da
escolha dos ângulos que escondem nossas limitações (ou falhas), seja explícitamente
com o uso de photoshop, criamos uma versão “melhorada” de nós mesmos, exatamente
como o Vernon Grant fala para Edward Morra sobre o “Eddie melhorado” (enhanced
Eddie, no original — curiosamente o photoshop possui o recurso enhance). O propósito
de tais imagens é fornecer uma narrativa sobre nós que esconda nossas limitações, e nos
apresente como seres “sem limites”. Nas palavras do pastor e pesquisador Mike Cosper,
“a tecnologia se torna um veículo para mais do que apenas comunicação; ela trata da
expressão de identidade. É uma maneira pela qual convidamos outros para a nossa vida
e estória”4. Ele segue adiante, comparando nossa participação nas redes sociais com os
reality shows:

2

JACKSON, Maggie. Distracted: the erosion of attention and the coming dark age. Amherst, New
York: Prometheus books, 2008.
3

Cf. a entrevista que Maggie Jackson forneceu a Ken Myers, do Mars Hill Audio Journal.
Disponível em: < https://marshillaudio.org/catalog/volume-94>. Acesso em: 16, jan., 2016.
4

COSPER, Mike. The stories we tell: how tv and movies long for and echo the truth. Wheaton,
Illinois: Crossway, 2014. Loc. 2775. Kindle edition. Minha tradução: Technology becomes a vehicle
for more than just communication; it’s about expression of identity. It’s a way we invite others into
our lives and our stories.

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Nossa presença nas mídias sociais é uma estória que estamos contando
sobre quem nós somos, e, como na produção de um reality show da TV,
tudo depende da edição. O que compartilhamos e não compartilhamos nas
mídias sociais é moldado pela maneira como desejamos que o mundo nos
veja.5

A ilusão que criamos para os outros, por vezes, passa a ser uma estória que nos
convence. Vivemos no engano que criamos.
Um último exemplo de NZT da vida real é a busca pelo corpo perfeito, plasmada na
proliferação de academias, dietas, anabolizantes e métodos para a perda de peso,
tonificação dos músculos e etc.
O que era um movimento em prol da saúde se transformou na busca pela perfeição
estética — em alguns casos, de maneira bastante prejudicial à saúde. Homens e
mulheres passaram a gastar horas em academias, a fim de aumentar os bíceps ou
glúteos, destruir as celulites, engrossar as pernas, e se tornar um “monstro”, como diria
Léo Stronda6 . A vitória sobre os limites físicos é celebrada em cada quilo perdido, ou
centímetro ganho no diâmetro do braço.
A questão que segue é: como Eddie Morra, teremos uma experiência com nossos
NZTs que nos permita vencer os limites sem sofrer danos? A rresposta simples para isso
é: não. Sonhamos com a possibilidade de atingir a perfeição, de vencer os limites;
ansiamos pela capacidade de sermos Eddie, mas a realidade é que o ser humano é
melhor representado por outra personagem da história: Melissa.
A ex-mulher de Morra almejava a perfeição, e fez uso do NZT. Ela, descrita como
alguém inteligente na narrativa, sofreu os danos da droga: perdeu sua beleza, sua
capacidade de concentração e raciocínio, e, como consequência, sua vida profissional e
social. Tudo lhe foi tomado.
Ao homem que não aceita e reconhece os seus limites, o destino é a destruição.
Como a perfeição não pode ser alcançada deste lado da eternidade, sempre teremos a
sede por mais, e empregaremos mais esforços para alcançar o inalcançável, até que
nossas energias tenham sido esgotadas completamente. A busca pela perfeição, com o
apelo das NZTs da vida real, como diria o autor de Eclesiastes, é vaidade.
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Ibid. Minha tradução: Our presence on social media is a story we’re telling about who we are, and
like the production of a reality TV show, it’s all about the editing. What we share and don’t share on
social media is shaped by how we want the world to see us.
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Leonardo Schulz, ou “Léo Stronda” é um músico carioca, cantor do “Bonde do Stronda”, que
celebra a formação de “monstros" — homens dedicados ao bodybuilding que têm alto crescimento
muscular. Para conferir a própria transformação física dele, cf. o post de blog “Léo Stronda e a
evolução de um monstro”. Disponível em: < http://www.naosalvo.com.br/leo-stronda-e-a-evolucaode-um-monstro/>. Acesso em: 16, jan., 2016.

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Isso não significa que devemos deixar de desejar a perfeição, visto que esse anseio
está plantado em nosso coração. De fato, o desejo por uma vida “sem limites”, nesse
sentido, é um desejo pelo retorno do Shalom, o retorno do paraíso um dia perdido. Tratase de um anseio pela experiência da vida sem os efeitos do pecado, como o clamor de
Paulo em Romanos 7: “quem me livrará do corpo dessa morte?”.
Esse desejo foi plantado em nós, para que os nossos olhos estejam voltados para o
Eterno. A Bíblia afirma que em Cristo estamos sendo aperfeiçoados, até o dia em que
seremos apresentados ao Pai sem as limitações que o pecado impôs a nós (Cf. Ef.5.27).
A morte de Jesus na cruz foi o instrumento decisivo para a vitória de Deus sobre os
efeitos do pecados no homem. Assim, repousa a promessa, para todos os que crêem em
Jesus, que o seu desejo pela perfeição será satisfeito, porque está vinculado à vida que
dEle recebemos.