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Parte I – Migalhas de História dos Missionários da Boa Nova

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

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Parte I – Migalhas de História dos Missionários da Boa Nova

A ARM
nos 75 anos da SMBN

Memória – Testemunho – Futuro

No ano das bodas de diamante da Sociedade Missionária da Boa Nova 21 de Maio de 2005 Cucujães

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Ficha Técnica Título: A ARM nos 75 anos da SMBN – Memória - Testemunho - Futuro Autores: João Rodrigues Gamboa Prefácio: Pe. Doutor António Couto (Superior-Geral da S M B N) Capa: Sara Bandarra Composição computorizada: Maria de Fátima Vieira Gamboa Paginação e Impressão: Escola Tipográfica das Missões – Cucujães Edição: Autor Data da Edição: 21 de Maio de 2005 Tiragem: 750 exemplares Depósito Legal: N.º 226276/05 ISBN: 972-98989-1-X Pedidos para: Editorial Missões Apartado 40 3721-908 VILA DE CUCUJÃES Tel. 256 899 170 – Fax 256 899 179

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Parte I – Migalhas de História dos Missionários da Boa Nova

FLORES QUE AINDA DARÃO FRUTO

Nos 75 anos da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN) e nos 60 anos da Associação Regina Mundi (ARM), quis esta oferecer àquela um rico florilégio de documentos fundadores, páginas significativas e belos testemunhos, que manifestam a gratidão e o afecto que os antigos alunos nutrem pela Instituição que carinhosamente os acolheu e sabiamente lhes transmitiu pautas de valores pelas quais aprenderam a orientar a sua vida. A hora é de gratidão. O livro é de gratidão. Mas é também a hora de a SMBN manifestar à ARM a sua gratidão pelo amor, pela grandeza de alma e pela generosidade que tantos dos seus membros têm manifestado com a sua presença amiga e assídua nas nossas Casas e no apoio inequívoco e incansável às iniciativas empeendidas no terreno pelos nossos missionários. Florilégio e memória. Memória em tensão para o futuro. Florilégio de flores que ainda darão fruto, pois a hora presente lembra cada vez mais o papel decisivo que cabe aos fiéis leigos desempenhar no trabalho do Evangelho. Contamos sempre convosco, amigos. P. António José da Rocha Couto Superior Geral

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DA DIRECÇÃO DA ARM

“A ARM nos 75 anos da SMBN – Memória-Testemunho-Futuro” é publicado pela Direcção da ARM-Associação Regina Mundi dos Antigos Alunos da SMBN, sendo a recolha e elaboração dos textos da responsabilidade de Jerónimo Nunes (Parte I) e João Gamboa (Partes II, III, IV e Futuro). Com a publicação deste livro, pretende-se expressar à Sociedade Missionária a gratidão e o afecto de todos aqueles que, tendo passado pelos seus seminários, ao longo dos anos, aí assimilaram valores básicos e fundamentais, de ordem humana, cultural e espiritual, que lhes permitiram sucesso na vida. Possam todos eles continuar a pôr esses valores de matriz humanista e cristã ao serviço do bem e do progresso espiritual e humano – seu e dos outros. Cucujães, 2 de Maio de 2005 (Dia do 13.º aniversário da morte do Pe. Alfredo Alves, da SMBN) A Direcção da ARM

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Aos pioneiros e fundadores da SM e aos missionários que, no terreno, se dedicaram e dedicam com amor à promoção e crescimento humano e espiritual dos mais pobres, construindo, assim, o Reino de Deus.

Aos fundadores da ARM e aos armistas que generosamente a serviram para que atingisse os seus objectivos.

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AGRADECIMENTO

Tal como foi concebido, a edição deste livro só foi possível graças à preciosa colaboração de variadas pessoas: dos armistas que corresponderam ao apelo para testemunharem o seu apreço à SM; daqueles que disponibilizaram fotografias importantes: os armistas Manuel Cândido Basso (a do grupo “fundador” da ARM - “os 15 magníficos”), António da Costa Salvado e António da Silva Tomás, e ainda o formando da SM Eduardo Souza (as dos seminários da Sociedade, no fim do livro); sobretudo do Pe. Jerónimo Nunes, nosso assistente nacional, que elaborou a Parte I, e da “armista” Maria de Fátima Vieira Gamboa, que abnegadamente compôs o texto em computador. A todos, o mais sincero agradecimento. O Autor

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INTRODUÇÃO

Os Antigos Alunos dos Seminários da SMBN não podiam ficar indiferentes à celebração dos “75 anos em missão com Ele” que a SM leva a cabo durante o ano de 2005. Por isso a ARM-Associação Regina Mundi, sentindo que a SM é, indubitavelmente, a sua MATRIX e assumindo-se fiel depositária dessa relação original, pretende, com a publicação deste livro, atingir os seguintes

Objectivos 1.º – Repartindo algumas migalhas de história dos missionários da Boa Nova, prestar à SM singela e jubilosa homenagem – pelo que foi e pelo que é para todos os que nela beberam o leite formativo da adolescência e juventude; 2.º – Fazendo breve memória dos seus próprios 60 anos de vida, apontar e lembrar aos armistas seus membros que a força e urgência do ideal que está dentro da ARM só pode frutificar com a dedicação e entusiasmo de todos e cada um, como nos mostra o exemplo dos que nos antecederam; 3.º – Antologiando os textos que sabiamente e com beleza alguns foram escrevendo e o Boletim publicou ao longo de 60 anos, estimular, na fidelidade aos valores desse passado armista, a construção de um futuro vivo e actuante; 4.º – Dando a palavra a todos os que a quiseram tomar para, nela e por ela, testemunharem o seu apreço e gratidão à SMBN, dizer que todos somos necessários e insubstituíveis para fazer a comunhão dentro desta família missionária constituída pela SM e a ARM; 5.º – Gravando em livro a memória, o testemunho e o projecto de futuro que a ARM e os armistas transportamos, proclamar as potencialidades da nossa Associação e assumir o compromisso de generosamente abrirmos o coração a esse projecto e arregaçarmos ainda mais as mangas para o trabalho.

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PARTE I

VIVER NAS FRONTEIRAS
Migalhas de História dos Missionários da Boa Nova

por

Jerónimo Nunes

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INTRODUÇÃO
A Sociedade Missionária da Boa Nova é um pequeno instituto missionário com 130 membros a testemunhar Cristo em quatro continentes. Nasceu em Portugal, mas os seus membros provêm também de Angola, Brasil e Moçambique. Além desses países, tem ainda pequenos grupos com significativa presença em dioceses da Zâmbia e do Japão. Junto à SMBN trabalham as Missionárias da Boa Nova, testemunho feminino tão necessário à formação de verdadeiras comunidades cristãs, e os Leigos Boa Nova que formam e acompanham jovens voluntários para a Missão. Inseridos nas equipas SMBN, há presbíteros diocesanos Associados, testemunhando a natureza missionária da Igreja particular dinamizada pelo Espírito que suscita a diversidade dos dons para a edificação do Reino. Ao longo da história recebeu vários nomes desde Sociedade Portuguesa para as Missões Católicas nas Constituições dadas por Pio XI em 1930, até Sociedade Missionária Portuguesa e Sociedade Missionária da Boa Nova1 ou simplesmente Missionários da Boa Nova. O carisma e a identidade missionária querem permanecer idênticos, na fidelidade ao Senhor que chama e envia, e na paixão pela salvação do mundo. Pediram-me uma história da Sociedade. Juntei algumas anotações minhas e de outros colegas que sabem fazer da vida testemunho que merece memória. A outros caberá a tarefa de analisar, e escrever uma história crítica e organizada. Dei a primazia a alguns aspectos do trabalho no terreno. Outros conseguirão aprofundar o seu significado. 1. AS GRANDES FIGURAS DO ALICERCE Por trás da fundação de um instituto Missionário está sempre o Espírito Santo que leva a Igreja a abrir-se às dimensões do mundo para comunicar o tesouro do Evangelho a povos e culturas que ainda o desconhecem. Mas o Espírito serve-se de homens que sintonizam com Ele e abrem caminhos organizativos e espirituais para uma realização concreta do espírito missionário. Para a história do nascimento da SMBN merecem destaque três bispos e um grande papa: D.

António Barroso, D. João Evangelista, D. Teotónio de Castro e Pio XI. 1.1. D. António Barroso (05.11.1854 – 31.08.1918) Nascido em Remelhe, foi o aluno mais ilustre do Real Colégio das Missões Ultramarinas, de Cernache do Bonjardim2, no século XIX. Restaurou a Missão do Congo, foi prelado de Moçambique, Bispo de Meliapor e do Porto. Como padre secular formado em Cernache, conhecia o valor e as deficiências dos seus colegas. Desde o primeiro relatório sobre as Missões do Congo até à morte como Bispo do Porto, trabalhou incansavelmente pela superação das fraquezas do missionário isolado e pela criação duma Sociedade Missionária. Palavras suas: “O missionário africano actual deve levar ao indígena, em uma das mãos a Cruz, símbolo augusto da paz e da fraternidade dos povos, e na outra a enxada, símbolo do trabalho abençoado por Deus. Deve ser padre e artista, pai e mestre, doutor e homem da terra; deve tão depressa pôr a estola para confortar com a esperança o padecente, como empunhar a picareta para arrotear uma courela de terreno; deve tão depressa fazer uma homilia, como pensar a mão escangalhada... Impossível nos é exigir tantos serviços de um só homem. O remédio é estabelecer centros principais de missões. O remédio é a congregação em que os membros sejam ligados por laços morais que sustentem a coesão e a continuidade dos serviços. Organizemos esse instituto. Dotemo-lo de meios suficientes, interessemos nesta grande obra a caridade do país”3. Estava exilado em Cernache quando o Colégio foi encerrado, em Abril de 1911. Lutou até ao fim pela sua reabertura mas não viu a realização deste sonho. A experiência missionária dos padres seculares, com os seus êxitos e fracassos, é a matriz geradora da Sociedade Missionária. As suas raízes aprofundam-se na história de Portugal presente nos quatro cantos do mundo e na missão específica assumida pelos reis de Portugal na Evangelização do mundo, por meio do Padroado.

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1.2. D. João Evangelista de Lima Vidal (02.04.1874 – 05.01.1958) D. João nasceu em Aveiro, então diocese de Coimbra. Estudou em Roma e foi professor na Universidade de Coimbra. Em 1909 foi nomeado Bispo de Angola e Congo. Sentindo o drama da falta de uma casa para formar missionários, em 1914 veio para Portugal. Entregou a diocese ao Vigário Geral e veio lutar pela “reorganização e abertura do Colégio das Missões como solução do problema do pessoal e pela protecção dos serviços missionários portugueses, enquanto eles sirvam os interesses da pátria e da humanidade.” Mas, em Lisboa, encontrou pouco apoio da Igreja e menos ainda do Estado. Dizia ele: “Mas então este desconchavo não tem remédio? Estarão os homens de Lisboa tão cegos e apaixonados para não descobrir o perigo que daí nos ameaça? Mas Deus é omnipotente e basta ele querer para ressuscitar o lagarto morto e mal cheirante! Se não conseguir ter uma casa para formar Missionários nada terei a fazer como Bispo em Angola! Se a ruína tiver de consumar-se, não seja, nem um átomo, culpa do meu silêncio!” Como não chegavam as mudanças políticas e religiosas que desejava, aceitou ser Vigário Geral de Lisboa, com o título de Arcebispo de Mitilene. Destacou-se na organização da obra das vocações, da catequese, da liturgia e da ajuda aos pobres. Mas nunca esqueceu o objectivo primeiro da sua vinda para Portugal. Depois de muito trabalho diplomático, os antigos missionários de Cernache aliaram-se aos espiritanos e conseguiram o revolucionário decreto n.° 6 322, de 2 de Janeiro de 1920, que permitia a reorganização das casas de formação missionária. Os missionários seculares escolheram como seu procurador a D. João Evangelista de Lima Vidal para se proceder quanto antes ao recrutamento e formação de pessoal missionário. D. João aceitou a proposta e escolheu como Vice-Procurador Monsenhor Amadeu Ruas, homem de grande experiência diplomática para tratar com o governo. O objectivo era claro: reorganizar a formação de padres seculares para as missões e formar uma Sociedade. Em 1921, o Convento de Cristo

começou a funcionar como Colégio das Missões. D. João foi o seu primeiro Reitor, mas trabalhou junto do Episcopado e da Santa Sé para a nomeação de D. Teotónio Vieira de Castro, Bispo de Meliapor. Mons. Ruas foi um precioso ecónomo dos Colégios das Missões e da futura Sociedade Missionária. D. João continuou em Lisboa até ser nomeado Bispo de Vila Real, onde a Santa Sé o irá buscar, em 1930, para ser o primeiro Superior Geral da Sociedade. D. João Evangelista foi um pioneiro 4. De Coimbra a Luanda, Lisboa, Vila Real, Cucujães e Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal dedicou-se sempre à criação de seminários e formação do clero5, escreveu livros6, lançou em Portugal as reformas da liturgia e catequese, criou obras para assistência aos pobres7. Percorreu Portugal inteiro a despertar o povo para a cooperação missionária. Escreveu o seu biógrafo, Mons. João Gonçalves Gaspar: Com bondade translúcida, acarinhava os humildes; com caridade paternal, ouvia as necessidades alheias; com compreensão delicada, aconselhava jovens e adultos. Grande e modesto, dedicava-se sem nada perder, dava-se sem se diminuir, fazia-se maior tornando-se mais pequeno. A sua cultura consagrou-o; os seus livros contêm páginas de antologia; os seus escritos guardam-se como pérolas; a sua virtude enriqueceu Aveiro; a sua vida deixou um rasto luminoso de refulgências de amor. Ele dissera ter sido plasmado de Aveiro; mas era sobretudo plasmado do céu, com os beiços a saber a estrelas, a pingar gotas do Evangelho por todo o corpo, por toda a alma...8. O primeiro Superior Geral foi um digno modelo para os missionários. 1.3. D. Teotónio Vieira de Castro ( 27.07.1859 – 16.05.1940) Nasceu no Porto, doutorou-se em Teologia e Direito Canónico em Roma, foi professor e ViceReitor do Seminário do Porto. Nomeado Bispo de S. Tomé de Meliapor, para substituir D. António Barroso que o sagrou no Porto a 15 de Agosto de 1899, entrou na diocese a 23 de Dezembro do mesmo ano. Na viagem para a Índia, ao passar em Roma, deu continuidade aos trabalhos de D.

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António Barroso para a fundação do colégio Português, para sempre marcado pela sua devoção ao Coração de Jesus. Para criar as bases para a Sociedade Missionária, autorizou o P. Vicente do Sacramento a comprar o convento de Cucujães, conseguiu de novo o edifício de Cernache e construiu a maior parte do que é hoje Cucujães. Foi ele que criou as condições físicas e humanas para a formação de missionários seculares e o ambiente para a organização da futura Sociedade Missionária. Além da administração dos três colégios durante dez anos, fez as construções necessárias e tomou outras iniciativas importantes: – No Concílio Plenário Português, 1926, foi presidente da comissão que propôs a criação de uma nova e forte organização do Clero Secular Português, para a acção eficiente, apostólica e mais económica da evangelização dos domínios portugueses. – Deu início à imprensa missionária, criando O Missionário Católico (1924), o Almanaque das Missões (1926) e a Escola Tipográfica das Missões. – Foi a Paris e Milão para conhecer as Sociedades Missionárias ali existentes e pedir missionários competentes que o viessem ajudar na fundação. Quando Pio XI decidiu fundar a Sociedade, já os padres de Milão estavam prometidos. – Entre a sua nomeação como Patriarca e a sua partida para a Índia, deu todas as orientações para que, no ano de 1930, os colégios já funcionassem dentro do novo espírito querido pelo Papa. Trinta seminaristas desse tempo chegaram a ser Missionários da Sociedade. Obra tão grande feita em 10 anos, só foi possível graças à fibra de D. Teotónio: trabalho incansável, capacidade para juntar colaboradores e uma absoluta confiança em Deus. Ficou para a história a sua carta ao Reitor de Cucujães que, sem dinheiro, temia não conseguir fazer uma construção com as dimensões que D. Teotónio exigia: “Não tenha V. Revª medo que lhe falte dinheiro. Tratamos com um banqueiro que nunca fez bancarrota e que aborrece muito que se desconfie d’Ele, como se se tratasse de qualquer criatura. Às vezes o dinheiro necessário poderá não estar em Cucujães ou Tomar, mas está no Banco da Divina Providência e isso nos basta.” Começou as obras em Maio de 1925. Pediu a bancos e empresas, desdobrou-se em

conferências, encomendou as obras a S. Filomena, lançou a Medalha Missionária e a Pia Associação de N. S. das Missões. A nova construção foi inaugurada em 1929. É proverbial o amor de D. Teotónio pelos pobres. Os planos dos seus ecónomos iam por água a baixo. Na sua casa em Meliapor e em Goa, muitas vezes faltava o necessário porque o seu coração era incapaz de negar ajudas a quem lhe pedia. Homem de oração: conta-se que, ao enfrentar problemas, ia para a capela rezar até ter a certeza da solução. 1.4. PIO XI, o Papa das Missões (1857 – 1939) Nasceu em Desio e foi eleito Papa em 1922 e ficou conhecido como Papa das Missões. Cuidou da formação do clero indígena e interessou-se pela reforma de todas as Sociedades Missionárias, dando-lhes orientações bem concretas. Quando D. Teotónio preparava a fundação da Sociedade Missionária e pediu sugestões para a sua organização, a Santa Sé mostrou-lhe as constituições já prontas. Pio XI decidira intervir pessoalmente para criar a Sociedade. Transferiu D. Teotónio para Goa, como Patriarca das Índias Orientais e nomeou D. João Evangelista como 1.º Superior Geral da Sociedade no dia 3 de Outubro de 1930. No dia anterior nomeara dois missionários do PIME: o P. Mário Parodi como primeiro Assistente Geral e o P. José Carabelli como Director espiritual. O dia 3 de Outubro de 1930 é a data da fundação da Sociedade. Dispensando todo o caminho que outros institutos têm de percorrer, a Sociedade já nasceu “de direito pontifício”. A Secretaria de Estado manteve contacto permanente com a nova Direcção, recebia constantes relatórios, dava orientações concretas e ajudava a resolver problemas. Em 24 de Outubro de 1932, às vésperas de os primeiros membros da Sociedade emitirem o seu Juramento (26.10.1932), Pio XI escreveu a carta Suavi Sane que é considerada a carta de erecção canónica da Sociedade: Porquanto Nos é gratíssimo reconhecer neste número, embora reduzido, de jovens que são os primeiros a inscrever-se na Sociedade por Nós tão desejada e promovida, as primícias da magnânima legião de clérigos e de leigos que, não tendo

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outra coisa em vista senão a dilatação do Reino de Deus no meio dos infiéis, se consagrarão para sempre, com zelo e entusiasmo de verdadeiros apóstolos, às sagradas Missões. *** A Sociedade nasceu “do ardor missionário” dos Bispos portugueses. Destacámos os três mais directamente envolvidos. Como Bispos em Moçambique, Angola, na Índia e em Portugal, estavam unidos por uma forte espiritualidade missionária e não duvidaram deixar para segundo plano a diocese que lhes fora confiada para se dedicarem a uma obra de interesse universal da Igreja: formação de missionários e de uma sociedade que garantisse a sua eficiência. Todo esse trabalho foi sempre feito em profunda ligação com a Santa Sé que fazia as nomeações oficiais. Tão desejada e preparada pelo clero secular formado em Cernache e pelo episcopado português, a Sociedade foi criada oficialmente por Pio XI. A criação de um instituto pelo Papa é um facto extraordinário na história da Igreja. Merecem mais estudo as motivações de tal estratégia eclesial, a que não serão alheias as políticas do Estado português.

2. MOÇAMBIQUE – SEMEAR A FUTURA IGREJA No dia 17 de Março de 1937, partiram para Moçambique os jovens padres Garcês e Viegas, com dois irmãos leigos. Foi a 1.ª expedição missionária da Sociedade. S. Paulo de Messano foi o primeiro destino. Um ano depois estavam em Unango onde criaram a primeira escola de catequistas e o primeiro seminário do norte moçambicano. No ano seguinte abriram a Missão do Mutuáli. Essas duas missões foram o campo de experiência da Sociedade. Ali se cultivava uma profunda espiritualidade, intensa dedicação ao trabalho (tanto de evangelização como de construção de igrejas e capelas, escolas, serviços de saúde e promoção da agricultura para sustentar a Missão) e um grande amor aos nativos que eram atendidos e promovidos a catequistas e professores. A partir de lá foi evangelizado todo o oeste da Diocese de Nampula (criada em 1940). Em 1941 foi criada a Missão de Meconta que abrangia todo o leste de Nampula, até ao mar. Construída em terrenos comprados pela Sociedade, a arquitectura da igreja foi idealizada para ex-

1.ª Expedição Missionária da Sociedade. (Em Lisboa, na sacristia da Igreja dos Mártires - 1937). Ao centro, D. João Evangelista de Lima Vidal. À sua direita, P. Adriano Garcês; à sua esquerda, P. João Craveiro Viegas. À direita do P. Garcês: Irmãos Anselmo Gomes, António Rodrigues Costa e Francisco Xavier Macedo.

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pressar o espírito da Sociedade. Também Meconta evangelizou e criou novas escolas que deram origem a novas missões. Podemos dizer que o trabalho da Sociedade (a que mais tarde se juntaram os combonianos) evangelizou a maior tribo moçambicana: os macuas. Depois de o P. João Craveiro Viegas ter elaborado o primeiro catecismo na língua do povo, a cultura macua foi estudada a sério, e a vários níveis, pelos padres Porfírio Moreira, António Pires Prata e Alexandre Valente de Matos que elaboraram dicionários e gramáticas, publicaram diversos estudos e a literatura oral onde os macuas exprimem a sua filosofia e colaboraram para a elaboração dos actuais livros litúrgicos. De acordo com a teologia Missionária mais actualizada da época, a preocupação maior foi lançar as bases para criar uma Igreja local por meio da formação de leigos e do clero indígena. Em 1957, a nova diocese de Porto Amélia, hoje Pemba, foi confiada a D. José dos Santos Garcia, SMBN. Com um trabalho metodicamente planeado, criou todas as estruturas necessárias a uma diocese: cúria, seminários menor e maior, escola de professores catequistas, colégio, uma congregação religiosa feminina e uma dezena de missões que abrangiam quase toda a área macua (Maríri, Maria Auxiliadora, Chiúre, Metoro, Ocúa, Mieze) e parte da maconde (Macomia e Mocímboa da Praia). 2.1. Diocese de Nampula A Missão de Santa Teresinha do Mutuáli havia sido criada, em 5/9/38, por D. Teodósio Clemente de Gouveia, Prelado de Moçambique, e foram seus primeiros missionários P. João Craveiro Viegas, P. Celso Pinto de França e os Irmãos Francisco Xavier Macedo e Anselmo Martins Gomes, os quais só chegaram em 31/12/38. Esta foi a primeira Missão, de raiz, da Sociedade Missionária, na actual Arquidiocese de Nampula.9 Quatro meses antes, o Sr. P. Adriano da Silva Garcês, primeiro membro da Sociedade Missionária, o Sr. P. José Lourenço Baptista e os Irmãos João Augusto Barata Júnior e Manuel Lourenço Farinha haviam sido colocados na Missão de Santo António de Unango, a pouca distância de Vila

Cabral (Lichinga). Convém saber que, já depois de D. Teófilo de Andrade, primeiro Bispo de Nampula, ter entrado na Diocese, a Missão de Santo António de Unango foi escolhida para ali se dar início ao Seminário Diocesano e, concomitantemente, à Escola de Professores. Com o rodar dos anos, dos primeiros alunos do Seminário haviam de sair, a modo de primícias de bênção do Senhor, dois Sacerdotes de cor, Mons. Miqueias e P. Leandro, felizmente ainda vivos. Também a título de informação, refiro que o Sr. P. Garcês e Sr. P. Viegas, assim como os Irmãos Anselmo Gomes, António Rodrigues e Francisco Xavier, ao chegarem pela primeira vez a Lourenço Marques em 1937, vindos de Portugal, foram enviados por D. Teodósio de Gouveia para a antiga Missão de S. Paulo de Messano, na actual Diocese do Xai-Xai. Mas só lá ficaram pouco mais de um ano. De facto, quando o Senhor D. Teodósio de Gouveia empreendeu uma viagem de reconhecimento religioso à Província do Niassa, ao passar por Malema, foi recebido por um grupo de cristãos e catecúmenos, os quais lhe pediram instantemente lhes enviasse Padres Missionários. Os poucos cristãos presentes tinham sido baptizados na vizinha Niassalândia (Maláui) ou na Rodésia do Sul (Zimbábuè) e já haviam levantado, por sua conta e risco, uma igreja católica de pau-a-pique, na povoação de Mucarrua, área do Mutuáli. O chefe e catequista dessa comunidade, Bassiano Mulessina, preparava o grupo dos catecúmenos para o Baptismo. O encontro com o Senhor D. Teodósio fora, pois, providencial, porquanto o Senhor Bispo, tendo observado, ao passar no Mutuáli, que a residência do Posto Administrativo e respectiva Secretaria se encontravam vagas, apresentou o caso, de regresso a Lourenço Marques, ao Senhor Governador Geral, o qual, de imediato, cedeu o Posto e todas as suas dependências à futura Missão Cató1ica. A futura Missão Católica viria a ser criada, dentro de pouco tempo, sob a designação de Missão de Santa Teresa do Menino Jesus, do Mutuáli, sendo ocupada, em primeira mão, pelo Sr. P. Viegas, Sr. P. Celso e pelos Irmãos Francisco Xavier e Anselmo Martins.

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Em 1957, foi criada a nova Diocese de Porto Amélia10, tendo sido eleito seu primeiro Bispo D. José dos Santos Garcia, até então Superior da Missão de Santa Teresinha do Mutuáli, e acumulando a tarefa de Superior Regional de Nampula. Depois da sagração episcopal de D. José na Catedral de Nampula, acompanharam-no para Porto Amélia P. Moisés dos Santos Morais, P. Luís Filipe Pereira Tavares e outros, começando assim a funcionar a terceira região Missionária em Moçambique. Quando, pois, se celebrou a independência de Moçambique, a Sociedade Missionária contava com três Regiões: Nampula, Sul e Pemba, ultrapassando, na altura, os seus membros mais de uma centena11. Só na Região de Nampula a Sociedade Missionária tinha, entre Padres e Irmãos, 64 membros. Mas as ocorrências políticas de então e a guerra civil que se seguiu determinaram muitos dos nossos missionários a trocar o campo de apostolado de Moçambique pelo Brasil e por Angola. Apesar disso, um grupo razoável de missionários nossos optaram por continuar a trabalhar nas mesmas Dioceses moçambicanas de antes. P. Alexandre Valente de Matos 2.2. Em Cabo Delgado A Sociedade Missionária foi para Cabo Delgado com a criação da Diocese de Porto Amélia, hoje Pemba, a 5 de Abril de 1957, ao ser nomeado seu bispo, a 10 do mesmo mês, um membro da Sociedade, D. José dos Santos Garcia, missionário na Diocese de Nampula desde 1945. Sagrado na Catedral de Nampula, a 16 de Junho, entrou na Diocese no dia seguinte e permaneceu até 28 de Janeiro de 1975.12. Deu grande incremento à evangelização, à difusão e organização do ensino e à construção. No mesmo ano da nomeação, instituiu o Seminário Menor, para o qual tinha do Superior Geral a promessa de padres desde o dia em que recebeu a nomeação, e no mesmo dia decidiu criá-lo; igualmente a Escola de Professores Catequistas – para um e outra aproveitando a escola primária central, a escola de artes e ofícios e os princípios de formação

de seminaristas e professores catequistas (disfarçadamente) que os Monfortinos tinham no Maríri, uma pequena missão que servia de suporte legal a esse trabalho13. Criou a congregação de direito diocesano das Filhas do Coração Imaculado de Maria, cuja formação foi confiada às Irmãs da Consolata, e começou em 1959, no Maríri. Fundou o Colégio liceal de S. Paulo, em Pemba, sobre início de boas vontades, a 11 de Agosto de 1958, o Seminário Maior em 10 de Setembro de 195914, e, em 1970, o Colégio-lar do Maríri, especialmente destinado aos filhos dos colonos da área próxima. Nos últimos tempos, o ensino primário, confiado às missões da Diocese, compreendia cerca de 500 professores, número que ele não só promoveu, mas teve que defender. Fora do campo de guerra, estava a cobertura feita. Criou as missões de Mutamba, Macomia, Chitolo, Namioca, Metoro, Ocua, Mieze, e as paróquias de Mocímboa da Praia, Mueda, Montepuez, Maria Auxiliadora de Pemba e Mecúfi. Tendo os Monfortinos a construção organizada e muito desenvolvida, subsidiava-lhes a construção. Na parte nova de desenvolvimento, confiada especialmente à Sociedade Missionária, organizoua directamente: casas para as aspirantes da futura congregação e para as irmãs da Consolata no Maríri, instalações provisórias do seminário, o grande edifício do seminário, escola primária, ampliação e adaptação da antiga escola dos Monfortinos para pré-seminário, salão e capela do noviciado da congregação religiosa, colégio-lar (inacabado), oficinas; residência, igreja, internatos, armazém, carpintaria e moinho, escola doméstica e posto de saúde em Macomia, sob a direcção do P. Aníbal; o grande complexo da escola de professores do Chiúre; a igreja e a residência da paróquia de Montepuez (para os Monfortinos); o paço episcopal, a igreja de Maria Auxiliadora, a ampliação de três residências, o colégio de S. Paulo e o seminário maior de S. José, em Pemba; residências em Mocímboa da Praia, Palma e Mecúfi, por meio das administrações locais; 2 residências e 2 escolas (uma com capela e outra inacabada) no Metoro; 2 residências e escola com capela em Ocua; capela-escola e residência no Mieze; oficina da Diocese com duas residências, e dois prédios para rendimento na cida-

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de de Pemba (o segundo, o maior da cidade); igreja de Mueda com residência inclusa, e igual no Chai, inacabada, com a colaboração da engenharia militar. Em Setembro de 1959 foi criada a missão de Macomia, com a área de cerca de 19 000 Km2, para ser o campo missionário da Sociedade. Para lá foram, em Outubro do mesmo ano, os PP. Aníbal e Paulo e o Ir. Messias. Encontraram uma residência, que depois foi das irmãs salesianas, e foram 10 anos de construção. Está lá a escola primária do 2.º grau (EP2) de Macomia. No mesmo ano de 1960, a Missão de Chiúre foi, então, confiada à Sociedade Missionária, com o P. Sequeira por superior, e para lá foi transferida a escola de professores, para animar a vida da sede da missão, tendo depois sido construída a 1 quilómetro de distância. Em 1961, o seminário maior foi transferido para Pemba, provisoriamente na paróquia de Maria Auxiliadora.15 Em 5 de Setembro de 1965, passou para o grande edifício próprio, em construção por muitos anos, e com largos espaços sem projecto definitivo, empreendidos na hipótese de ser necessário alojar lá provisoriamente os missionários refugiados da guerra16. Até aos fins da década de 60, a comunidade cristã centrava-se na escola, sob a direcção do professor-catequista. As comunidades cresceram e a situação modificou-se, tudo pedia a autonomia da comunidade cristã. Em 1969 e 1970 houve em todas as dioceses semanas de pastoral, animadas a partir dos estudos pastorais do secretariado de pastoral da Beira, e lançou-se o movimento da formação da comunidade cristã, com aparecimento de vários ministérios. Os nossos lançaram-se com entusiasmo, principalmente os de Ocua, Chiúre e Maríri. Quando a revolução nos tirou os professores e os lançou contra nós e a religião, e nos impediu de visitar as comunidades, já muitas delas estavam em condições de sobreviver e de crescer.17 Em 1970 atingimos o número mais elevado: 32 membros da Sociedade Missionária presentes na Diocese. Em 1973 começámos a diminuir: não veio ninguém e no fim do ano éramos 29.18 No ano de 1975, em plena crise política, entregámos a direcção do seminário maior aos Monfortinos, o colégio de S. Paulo ao P. Carminho, goês

diocesano, e o Maríri e a missão do Mieze aos Padres diocesanos. A paróquia do Mecúfi, do secretário da diocese, ficou sem assistência. Em Novembro do mesmo ano, foram todos expulsos do Maríri, que foi transformado em escola secundária do partido Frelimo, e a missão anexa à da Meza. A 8 de Dezembro, foram todos expulsos da residência da escola de professores (Chiúre), que foi ocupada pela Frelimo, assim como o colégio de S. Paulo e depois o seminário maior (Pemba). Já em Julho tinha sido nacionalizado o ensino e a saúde, e se estavam a meter nas residências. Foi tudo inventariado e os carros confiscados. Os missionários foram admitidos (obrigatoriamente?) a ensinar nas escolas nacionalizadas ou do Estado e a servir na saúde. Só o P. Paulo recusou ensinar. Os irmãos não foram solicitados. Desde então, as reuniões intermináveis e destruidoras seguiam-se umas atrás das outras. Aumentaram cada vez mais as restrições, as difamações, os boatos e ameaças, que culminaram na expulsão total dos que estávamos fora da cidade de Pemba, em Dezembro de 1978, e com todas as restrições e opressões que se lhe seguiram, até à difamação e suspensão de todos os professores religiosos. Difamados, perseguidos, oprimidos, ameaçados, presos e expulsos, já em 1975 descemos de 30 para 19. E iam cantando vitórias. Em 1976, ficando a paróquia de Mocímboa da Praia sem padre, foi para lá o P. Gonçalves. (O último pároco capelão militar foi o P. Pino, que saiu em fins de 1974). Ensinou na escola primária até ao fim de 1977. As visitas que fazia eram vigiadas, contrariadas, limitadas, até à expulsão. Nesse ano baixámos para 18. Em 1977, para 16. Em 1978, amontoados em Pemba. Sair ou ficar? O testemunho de agora é a permanência. O P. Pereira, expulso. O Ir. António, para o Maputo. Somos 13. O P. Casimiro opta pelo Brasil. No fim de 1979 éramos 11. Em 1980 o Presidente da República propõe à Igreja relações de colaboração. Mas, em Cabo Delgado, em 1981, limpam-se de missionários as escolas primárias. Há o partido integrista e o partido conciliador. No fim de 1980 estávamos 10. A 17 de Outubro de 1981, reabre a igreja da

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cidade de Montepuez, confiada aos Monfortinos e às irmãs da Consolata. Em 24, a de Mocímboa, com muita resistência local. Volta o P. Gonçalves, proibido de tudo, menos rezar na igreja. Depois anunciou-se a reabertura de Macomia e do Chiúre. O P. Paulo foi para Macomia em 29 de Dezembro e ficou engaiolado numa casa emprestada, sem poder fazer uma celebração pública. O contra-golpe da direita proibiu a permanência naqueles dois lugares enquanto não construíssem novas igrejas e residências. E o P. Paulo recebeu ordem para regressar a Pemba, no dia 27 de Janeiro de 1982. No meio daquele ano, vencendo muitas oposições, o P. J. Alexandre conseguiu iniciar a construção no Chiúre e, a 11 de Setembro de 1983, foi inaugurada a igreja, ficando o P. José Marques a viver na sacristia, onde chegaram a juntar-se três. No fim de 1982 estávamos 8. No fim de 1983 voltámos a ser 9, com o regresso do Ir. João. Em 1985 ficámos 8. Em 1987, 7. Nessa altura, começa a abertura efectiva, ainda com oposições graves. As comunidades cristãs saem da clandestinidade, organizam-se, reúnem-se, constroem capelas, recebem visitas – não há mãos a medir. Ao sair de Mocímboa, em 1987, deixei 60, e aumentaram. Depois endureceu a guerra. A 6 de Janeiro de 1989 chegou o P. António da Rocha, de 29 anos. Um alvoroço ao fim de 14 anos. Voltámos a ser 8 por 12 dias. Na viagem para o Chiúre, foi morto numa emboscada, logo a seguir à aldeia de Salaue (Silva Macua), um quilómetro e meio à frente do cruzamento da estrada centro-nordeste, a 17 do mesmo mês. Está sepultado no Chiúre. Em Abril de 1994 voltámos a ser 8, com o regresso do P. Norte. Com a vinda das missionárias da Boa Nova para Ocua, em Outubro de 1994, o P. J. Marques começou a residir lá, habitualmente, continuando a pertencer à comunidade do Chiúre. A 16 de Outubro de 1996, veio o P. Albino Manuel Valente dos Anjos, de 26 anos. Ficou na paróquia de Maria Auxiliadora e dá aulas no seminário propedêutico e no colégio liceal D. José dos Santos Garcia, da associação Lumen Gentium, dos antigos seminaristas e alunas das casas religiosas. Aumentámos para 9.

Em Janeiro de 1997, veio do Mutuáli para o Chiúre o P. António Augusto Mondoni, de 45 anos, em troca com o P. Libério. O P. José Marques foi escolhido para a formação dos nossos seminaristas, no Lar da Matola, para onde seguiu no passado dia 9 de Janeiro. Ficámos novamente 8: 5 em Pemba (PP. Albino, Gonçalves e Paulo e Irs. Godinho e Messias. Além da Paróquia de Maria Auxiliadora e da de Macomia, de que é pároco o P. Paulo, damos também colaboração aos serviços diocesanos e ao seminário, como se diz de cada um) e 3 no Chiúre (PP. Mondoni e Norte e Ir. João, com Chiúre, Metoro, e Ocua). Pemba, 9 de Abril de 1997 A. Gonçalves 2.3. Evangelização do Sul do Save Com a criação das primeiras Dioceses, em 1940, o Arcebispo de Lourenço Marques, D. Teodósio, ficou sem os nossos, que automaticamente ficavam sob a jurisdição do primeiro Bispo de Nampula, o Sr. D. Teófilo. Foi deste facto que resultou ser a Diocese de Nampula o campo que absorveu todo o Pessoal Missionário das primeiras doze expedições missionárias. Em 16 de Julho de 1950, passou por Cucujães o Sr. Cardeal-Arcebispo de Lourenço Marques, que ia para Roma, e aproveitou para cumprimentar o novo Superior Geral, Padre Viegas, e apresentar os seus problemas... Passado um ano, na 13.ª Expedição Missionária, o P. Celso foi destinado a Lourenço Marques, aonde esperaria os seus companheiros P. João Avelino e Ir. Mota, a trabalhar na Diocese de Nampula. Foi o recomeçar da nossa presença no Sul, em resposta aos apelos do Cardeal Gouveia. Reunidas as forças em Lourenço Marques e depois de despachados os caixotes por Caminho de Ferro em direcção ao Xinavane, aí vão os três aventureiros a caminho de Chissano, aonde chegaram, após muitas peripécias no caminho, aos 19 de Novembro do ano de 1951. Iam ao estilo de uma verdadeira aventura, enviados a trabalhar, mas com o encargo de escolher a sede da Missão que iria começar a partir do nada. Apoiados embora pela dedicação de famílias amigas de portugueses ali

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radicados no comércio e na agricultura, muito tiveram de sofrer, instalados sem as mínimas condições em dois minúsculos quartos de uma velha escola, em Licilo. Durante um ano aguentaram aquela situação enquanto o Ir. Mota suava as estopinhas percorrendo diariamente, de bicicleta, os 10 quilómetros que os separavam do local escolhido para Sede da Missão, percorrendo matas à procura de paus para a construção da futura Residência, com seis divisões, e da Capela ampla, onde já celebraram o Natal de 1952! E ali permaneceram aqueles valentes sem qualquer reforço a não ser do Sr. Padre João Martins Pinheiro que, devido a fortes ataques de paludismo, teve de ser internado no Hospital, tendo, após a alta, fixado residência no Asilo de Santo António, em Lourenço Marques, como Capelão das Irmãs Vitorianas. Na expedição de 1955 vai o segundo grupo para o Sul: P. Antunes, P. Aquiles e Ir. Tavares. Após a chegada destes é criada, ou melhor, restaurada a Paróquia do Chibuto (22.11.55), sendo designados para ela os PP. João Avelino e Aquiles, assim como o Ir. Mota. No Chissano ficava o P. Celso com o P. Antunes e o Ir. Tavares. Logo a seguir o Sr. Cardeal cria, com data de 15.12.55, a Missão do Santo Condestável de Fumane, ficando o P. Avelino a assistir à mesma até virem novos missionários. Não há nada. A Eucaristia é celebrada onde calha, nas varandas das residências ou do Hotel. Mas, graças ao dinamismo do P. João, ao fim de um ano havia umas dependências com quartos, sala de jantar, cozinha e casa de banho, assim como uma razoável capela feita em material local, e uma espaçosa EscolaCapela em alvenaria começava a erguer-se com ajudas do Governo, na pessoa do Sr. Administrador José Videira, grande entusiasta do desenvolvimento da paróquia. Na expedição de 1956 mais três Missionários levam destino ao Sul: PP. Julião e Álvaro, com o Ir. Fernando. Os três pedem para ir directamente fazer a sua experiência missionária em equipa na nova Missão do Santo Condestável. Foram começos duros. Começou-se mesmo do nada. O local escollhido era mato fechado. A residência de paua-pique e caniço, com 3 quartos, uma salinha de jantar e casa de banho, deixou-nos saudades. Em 1960, o P. Alves vem para Lourenço Mar-

ques e P. Benjamim para Fumane iniciar a sua vida missionária com o P. Julião. Profundas alterações se operam nesta altura.19 O primeiro Capítulo da SM retém em Portugal P. Alves. Era 1964. P. Valente é enviado para tomar conta da Casa de Maputo. O Superior Geral nomeia novo Regional na pessoa do P. Álvaro e envia um reforço de mais dois: Padres Evangelista Catarino e Farinha Costa. O primeiro vai para Chissano e o segundo para o Alto Changane substituir o P. Serafim que cumpria o serviço militar como Capelão, no Norte. P. Celso regressa em 1966, e substitui no Chibuto o P. Avelino, que foi para o seu novo campo da animação missionária em Portugal. O P. Tomás Borges é enviado em 1967 e vai abrir a nossa primeira Paróquia na periferia de Lourenço Marques, a Paróquia de S. João Baptista, do Bairro do Fomento (Matola). Em 1 de Janeiro tinham sido criadas as Missões de Mahuntsane e de Maniquenique, confiadas respectivamente aos Padres Antunes e Benjamim. P. Orlando é enviado, logo a seguir ao Capítulo de 68, e vai treinar no Chibuto com o P. Celso. Mas, ainda antes de completar um ano já estava na Capelania Militar no Norte de Moçambique. Entretanto, o P. Ernesto vai estudar para “Lumen Vitae” e chega o P. Figueiredo Marques, em 69, indo iniciar a sua experiência missionária no Chissano. Em 1971 chegam, para fazer uma nova experiência em Maputo, os PP. Ambrósio, Manuel GonçaIves e Rui Martins. Com a vinda da independência, todos os planos ruíram. De recordar aqui outra experiência fracassada que foi a da Ordenação do Afonso Muchanga, primeiro padre africano da Sociedade, que, depois de ordenado, veio fazer uma experiência missionária, primeiro em Chissano e depois em Maniquenique, acabando por pedir a redução ao estado laical. Após a Assembleia Geral de 1964, ao realizar a Assembleia Regional, a Região dividiu-se em duas Pró-Regiões (Maputo e Xai-Xai), ficando a de Maputo20 confiada ao P. Borges e a de Xai-Xai confiada ao P. Valente21. Aqui virou uma página trágica a nossa vida no Sul. No meio de muitas dificuldades, registamos a coragem manifestada pelos jovens Virgílio e Si-

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mões, que se ordenaram de Presbíteros, o primeiro em 05.12.76 e o segundo em 28.11.77. E a Revolução joeirou-nos muito bem! P. Antunes, preso, julgado e expulso. P. Farinha Costa, igualmente preso, julgado e expulso. P. José Valente, preso, algo julgado e não expulso. P. Álvaro, prisão domiciliária, julgado à moda de tribunal popular e salvo, “in extremis”, da expulsão. P. Evangelista Catarino, preso, julgado e expulso. Finalmente, como corolário de tudo isto, a morte violenta do P. Cristóvão, ocorrida em 21 de Janeiro de 91. Merecem referência especial também as vezes que o P. Firmino, sem prisão nem expulsão, foi solenemente julgado e mandado “aguardar”... Registo ainda a experiência de um ano do P. Anselmo e o envio do P. João Almendra, que foi trabalhar na Região do Aeroporto onde acabou por ficar, em 1990, como Superior Regional. Em 1992 ordenaram-se em Moçambique os jovens Pinho e Anastácio Jorge. P. Álvaro Patrício 2.4. Resistência e martírio Nos 37 anos anteriores à independência, a SMBN fez nascer em Moçambique 41 missões com razoável infra-estrutura, alguns grandes colégios (em Nampula, Maríri, Pemba e Angoche), hospitais importantes como o de Malatane e os seminários de Nampula, Maríri e Pemba. A independência trouxe grandes transformações e o marxismo do novo governo trouxe muito sofrimento. Dos mais de cem missionários que a Sociedade tinha em Moçambique, muitos foram presos, alguns expulsos, outros não aguentaram o ambiente reinante. Cinco anos depois permaneciam quarenta. A Igreja, porém, não morreu. A transição tinha sido preparada pelas missões e Centros Catequéticos como o do Anchilo, em Nampula, e pelas Escolas de Professores-Catequistas donde tinham saído homens formados para criar comunidades. Nem todos resistiram aos embates políticos. Mas alguns foram mártires. Outros, no meio de muita luta e alguma esperteza, conseguiram manter as comunidades, mesmo quando o padre não podia visitá-las. Muito ajudou a lucidez dos Bispos que em 1977 promoveram uma grande Assembleia do Povo de

Deus donde saíram orientações para o funcionamento da chamada Igreja Ministerial: cada comunidade deve ser dotada dos serviços essenciais ao seu funcionamento e cada cristão deve assumir um ministério. Na hora da verdade muitos leigos foram verdadeiros heróis para manter a comunidade em funcionamento e desdobraram-se para atender as vítimas da guerra fratricida. Os poucos presbíteros existentes encontraram novas formas de colaborar com eles e alguns deram a vida, fecundando com o seu sangue a nova Igreja moçambicana. Entre eles, três mártires da Sociedade Missionária da Boa Nova: P. Alírio Baptista – 20.11.1983, P. António da Rocha – 17.01.1989, P. Manuel Cristóvão – 21.0119.91. O pequeno número de Missionários da Boa Nova resistiu nos seus postos de trabalho, dispersos pelas enormes áreas onde antes havia três vezes mais trabalhadores da Messe. Permaneciam quatro regiões ou pró-regiões da antiga estrutura organizativa da Sociedade. A Direcção Geral sentiu que era melhor juntar todos os membros de Moçambique numa só Região que fomente o intercâmbio, a troca de experiências e uma representação a nível nacional. Não foi fácil juntar os pequenos grupos dispersos desde Pemba e Nampula até Xai-Xai e Maputo numa reflexão comum com uma direcção única para enfrentar os problemas a nível nacional. Como Superior Regional foi eleito o P. João Almendra e os assistentes eram escolhidos como representantes das antigas regiões ou pró-regiões que agora se designam por “grupos” de Maputo – Xai-Xai, Nampula e Pemba.22 A paz assinada em 1992 veio modificar radicalmente a situação. A Igreja comprometeu-se profundamente na reconciliação entre pessoas e grupos políticos e na reconstrução das estruturas essenciais da vida social. Foram devolvidos alguns dos antigos espaços nacionalizados e a Igreja teve de os recuperar para lhes dar nova utilidade (igrejas, casas paroquiais, escolas, serviços de saúde). O testemunho dado nos tempos difíceis frutificou num número imenso de pessoas a entrar para a Igreja e na volta de alguns que a tinham abandonado. O número de catecúmenos aumentou muitíssimo. Foi preciso formar catequistas e reorganizar a formação. As casas de formação para missionários e missionárias foram permitidas de novo e muitos

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I Assembleia Geral da SM (1964). 1.ª fila: PP. João Valente, Ambrósio, Luís Filipe Pereira Tavares, João Craveiro Viegas, D. José dos Santos Garcia, PP. José Patricio, Marques Vaz, Álvaro Patrício e Manuel Fernandes. 2.ª fila: PP. Celso Pinto de França, António Luís de Carvalho, Alfredo Alves, Albano Mendes Pedro e José Valente.

eram os candidatos. Depois de colaborar com a formação do clero diocesano e de algumas congregações religiosas também a Sociedade criou o seu esquema de formação. No início os nossos candidatos foram recebidos no Seminário Interdiocesano de Nampula onde faziam o Propedêutico23 e iniciámos a construção de um “Lar Boa Nova” na Matola, junto ao Seminário de Filosofia. Mas as dioceses encheram o seminário de Nampula. E durante alguns anos todos os nossos candidatos, de todos os níveis, se juntaram no Lar da Matola. Por isso a Direcção Regional decidiu enviar para o Brasil os alunos de teologia24.

3. EM BUSCA DA UNIVERSALIDADE – INCARNAÇÃO NOUTRAS CULTURAS Ninguém poderá duvidar de que o ano de 1970 marcou uma data decisiva na história e nos rumos da Sociedade, já que foi nesse ano que a Sociedade se abriu a novos campos, depois de mais de 30 anos só em Moçambique. Não é fantasia pretensiosa pensar que a história da Sociedade não seria a mesma sem a abertura ao Brasil e a Angola, em 1970. P. Manuel Augusto Trindade Em 1968 os apelos do Concílio à missão universal e os previsíveis problemas futuros de Moçambique obrigaram a Sociedade a desconcentrar as forças missionárias. A III Assembleia

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Geral optou por Angola e pelo Brasil.25 Em 1970 partiu um grupo de 3 padres para cada país, e entraram nas dioceses de Luanda e Teófilo Otóni. 3.1. Brasil – Evangelização e formação de comunidades No dia 19 de Janeiro de 1970 chegaram ao Brasil os três jovens padres Manuel de Matos Bastos, João Francisco da Silva Mendes e Manuel Jerónimo Nunes. Foram acolhidos por D. Quirino Schmitz na Diocese de Teófilo Otóni, com 500 000 habitantes, 30 000 km2 e 45 padres. Encarregou-os de coordenar a pastoral (P. Bastos), evangelizar os jovens (P. João) e formar comunidades rurais (P. Jerónimo). Não lhes deu paróquia, deu-lhes serviços, com o título de vigários cooperadores de todas as paróquias. Foram os acontecimentos políticos de Moçambique que possibilitaram a passagem da missão do Brasil de 3 para 33 padres num curto período de 5 anos, entre 75 e 80. Presente na periferia de algumas cidades importantes onde ajudou a criar uma pastoral urbana (Teófilo Otóni, Belo Horizonte, Chapadinha, Dourados), a SMBN dedicou-se também a áreas rurais. Tanto defendeu os direitos dos favelados como não se alheou da injusta situação dos lavradores, defendendo os seus direitos por meio da pastoral da terra e outros movimentos. Em 35 anos colaborou com 7 dioceses em 4 estados. Em Minas Gerais: Teófilo Otóni, Araçuaí e Belo Horizonte; no Maranhão: Brejo e Coroatá; no Paraná: Umuarama; no Mato Grosso do Sul: Dourados. Minas Gerais – construir uma jovem Igreja Durante os 17 anos em que trabalhámos na diocese de Teófilo Otóni, a SMBN foi fiel à inspiração inicial de se dedicar aos serviços diocesanos,26 ao mesmo tempo que colaborou directamente nas paróquias27 de Pavão (1973-1975), Poté (19711986), Fátima (1974-1987), Malacacheta (19771987). Numa sociedade dividida entre um pequeno grupo de ricos e muitos empobrecidos, a opção da Igreja pelos pobres não deixou de criar problemas. Dedicar-se mais à evangelização de lavradores,

favelados e índios, e defender os direitos humanos é evangélico, mas não deixa de ter riscos. Muitas vezes a Igreja foi a voz dos pobres. Por exemplo, quando um senhor quis expulsar 300 famílias da Favela do Boiadeiro, a Paróquia de Fátima e a Comissão de Justiça e Paz apoiaram a sua resistência. Por causa desse conflito, o P. Mamede sofreu um atentado a tiro em Setembro de 82. O clima pastoral após a ordenação de padres locais e a chegada de um novo Bispo criaram dificuldades à pastoral de conjunto. A SMBN viu-se questionada e abandonou a Diocese a 19 de Janeiro de 1987. Vizinha de Teófilo Otóni fica a Diocese de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do Brasil. Aí, os portugueses extraíram ouro nos séculos XVII e XVIII e as multinacionais continuam a extrair vários metais preciosos. As várias fases do “desenvolvimento” levaram para lá o eucalipto e o café. Mas a maioria da população não foi beneficiada com esse progresso e completa a sobrevivência migrando, aos milhares, para o corte da cana e a colheita do algodão noutros estados, durante os meses da safra. Evangelizada por franciscanos holandeses desde o século XIX, aos poucos criando clero local, nitidamente insuficiente.Na década de 70, a diocese apelou a muitas dioceses e congregações a pedir ajuda. Responderam várias congregações, a Diocese de Brescia, da Itália, e a Sociedade Missionária. Em 1976, o Padre Bastos estava na Paróquia de Novo Cruzeiro28, preparando o caminho para missionários saídos de Moçambique29. Na área do eucalipto e do barbeiro (bicho que provoca uma doença incurável no coração), a Sociedade Missionária tomou conta de Virgem da Lapa30 e Berilo. A Virgem da Lapa é a padroeira da Diocese. É para lá que todo o ano, no mês de Janeiro, se dirige a Romaria dos Migrantes que congrega os que estão de férias e as suas famílias que buscam na fé a união necessária para lutar pela sobrevivência. A carência de padres obrigou-nos a assumir ainda as paróquias de Padre Paraíso31 e Caraí32. Um provisório que se prolongou no tempo. No dia 20 de Janeiro de 1987 a Sociedade tomou posse duma casa no Bairro D. Cabral, de belo Horizonte, destinada à formação dos nossos candi-

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datos, que até essa data frequentavam o Seminário de Teófilo Otóni. Foram viver com eles os padres Joaquim Patrício e Jerónimo Nunes (este mais destinado aos serviços da pastoral da terra em Minas Gerais)33. Por iniciativa do P. António Mamede Fernandes, em 1992, a Sociedade adquiriu uma chácara no Bairro Bom Jesus (Contagem) para onde foi transferida a Comunidade Boa Nova34. Em 2003, a Arquidiocese criou a paróquia da Senhora da Boa Nova com os bairros que cercam a nossa casa e nomeou como primeiro pároco o formador P. Mamede. Todo o trabalho de formação das comunidades e construção de espaços de culto e casa paroquial foi feito nos últimos dez anos, sob a coordenação do primeiro pároco que teve como sucessor o P. Raimundo Ambrósio Inteta, um moçambicano que estudou teologia nesta comunidade Boa Nova35. É a paróquia onde os candidatos da SMBN vão experimentando e aprendendo a Missão. Paraná e Mato Grosso do Sul Em Janeiro de 1975, o Padre António Pereira deixou Lisboa com destino a Umuarama, onde se encontrou com o Bispo Diocesano, D. José Maria Maimone e assumiu a paróquia de Alto Piquiri. A Direcção Geral aprovou essa iniciativa e escolheu Umuarama como novo campo de trabalho missionário. Lá foram criadas de raiz as paróquias de Cafezal (1976, P.Eugénio Ribeiro e depois P. Aníbal dos Anjos João), S. Jorge do Patrocínio (1977-1988, P. Ernesto Pereira), Esperança Nova (1980-2001, P. António Antunes dos Santos) e foram confiadas à SMBN as paróquias de Brasilândia (1976-2001, P. Aníbal dos Anjos João), Pérola (1983-2001, PP. Francisco Mayor Sequeira, António Martins e Joaquim Pinho) e Xambrê (1984-1988, P. Benjamim Trancoso). Na Diocese de Umuarama, em que a prioridade era e ainda é as Comunidades Eclesiais de Base, e em que se estabeleceu em bases sólidas a pastoral do dízimo, os missionários assumiram essas pastorais, sem descurar outras, como a Vocacional. É consolador verificar que de todas as nossas paróquias saíram padres diocesanos ou religiosos e várias Irmãs religiosas. Em 20 de Fevereiro de 1994, foi ordenado, no Cafezal, o primeiro padre brasileiro e estrangeiro da Sociedade Missionária, P.

Anisberto Bonfim. Em 1978, a Sociedade passou para a outra margem do Rio Paraná e, na Diocese de Dourados, foram criadas as paróquias de Iguatemí, Sete Quedas, S. João Baptista de Dourados, Paranhos e foinos confiada Tacuru. A população das paróquias do Paraná era constituída, na sua grande maioria, por pequenos agricultores, alguns proprietários dos seus terrenos, outros arrendatários. A cultura predominante era o café e o algodão. Mas essas produções têm sofrido grande queda nos últimos anos, principalmente o café. A população colaborou muito bem com a pastoral diocesana e paroquial. Foi fácil encontrar pessoas para os serviços paroquiais ou diocesanos. A situação mudou com a queda do café que obrigou o povo a migrar para áreas industriais, para as grandes cidades e já não é fácil encontrar os agentes de pastoral necessários. No Mato Grosso, a situação era e é ainda diferente, não só por causa das grandes distâncias, mas também por muitas famílias viverem em grandes fazendas e, por conseguinte, terem menos mobilidade e autonomia. “Vou tentar recordar o que se realizou de obras nas nossas paróquias. Obras que significam muita dedicação das populações e dos missionários: residência paroquial e salas de catequese, no Alto Piquiri; três igrejas, salão paroquial, Casa do Andarilho e Creche Criança Feliz e pré-escola, na Brasilândia; residência, salão e centro pastoral, em Cafezal; centro de catequese, torre, três capelas, casas de banho públicas, residência das Irmãs, reforma do salão de festas, em Pérola; igreja, residência e salão, na Boa Esperança; igreja, creche e salão, duas capelas, em S. Jorge do Patrocínio; duas igrejas, centro de catequese, residência das Irmãs, ampliação da casa paroquial e novo salão, em Iguatemí; residências dos padres e irmãs, salão e colégio, em Sete Quedas; igreja, residência e Lar vocacional em Dourados; Centro de catequese, em Paranhos. Mas a atenção dos missionários voltou-se especialmente para a formação do povo e particularmente de lideranças cristãs. As CEBs foram promovidas e incentivadas para levar a um melhor conhecimento do Evangelho e a

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vivenciá-lo na realidade familiar, política e social. A par das comunidades eclesiais de base surgem outros movimentos que, de algum modo, vão vivificá-las com os seus carismas próprios. Neste sentido, gostaria de sublinhar alguns que mais influência tiveram na nossa pastoral de conjunto. Os Encontros de Casais com Cristo, grande apoio para a pastoral familiar, que têm como objectivo principal levar os esposos a encontrar-se consigo e com Cristo e a caminhar com Ele pela vida fora. Para quantos casais não foram estes Encontros a âncora e a tábua de salvação! Os Encontros de Jovens com Cristo: para os jovens, uma parada na caminhada e um olhar e um encontro mais consciente e mais pessoal com Cristo. Foram inúmeros os jovens que depois deste encontro consigo mesmos e com Cristo, o eterno sedutor e modelo, ficaram cativados por Ele. A sua vida ganhou sentido e dedicaram uma parte do seu tempo à Pastoral da Juventude e ao trabalho de evangelização de jovens e adultos em suas comunidades. Além destes movimentos, temos os Cursos de Preparação para o Matrimónio, os Cursilhos de Cristandade (em algumas paróquias), a Renovação Carismática Católica, a Legião de Maria e o Apostolado da Oração. Todos estes movimentos estão voltados para a formação dos seus membros e a construção da comunidade. São movimentos de evangelizados para evangelizar.” P. Francisco Mayor Sequeira Maranhão – nos porões da humanidade A implantação da Sociedade no Brasil não estaria completa enquanto não colocássemos um grupo na Amazónia, diz o Relatório do Superior Geral para a IV Assembleia Geral, em 1980. Iniciou em 1978 e atingiu seu auge em 87, quando deixámos Teófilo Otóni. O pioneiro foi o P. Manuel Bastos, membro itinerante da Direcção Geral. Fez o reconhecimento do terreno e viu no Brejo uma diocese sem o mínimo de condições para atender o povo, católico de nome. Eram 8 padres numa superfície de 23 340 Km2 e 415 000 habitantes. Começou o trabalho, junto com o P. Manuel Neves, que chegou em Outubro de 1978 para ser

Pároco em Chapadinha. P. Américo Henriques e P. Casimiro chegaram no mês de Agosto seguinte. Atendiam também a Paróquia de Santa Quitéria, onde, mais tarde, o P. Américo foi morar. Em Outubro de 1983, o P. Mamede assumiu as Paróquias de Vargem Grande, Nina Rodrigues e Presidente Vargas, na vizinha Diocese de Coroatá36. Mantivemos uma equipa de 3 até à morte do P. Trindade e, depois de quase 20 anos de eficiente trabalho, entregámo-las à diocese. Começaram pelo começo: visitar o povo para ir formando comunidades. As distâncias são enormes e as estradas muito ruins. Andavam a pé, de bicicleta, de carro, de moto. A moto foi a grande heroína que ultrapassava areia, pedras e rios. Onde o povo começava a reunir-se, os padres começavam a ir todo o mês para ir esclarecendo as pessoas, formar uma equipa que organizasse uma celebração dominical. Começou a formação bíblica e catequética. Começaram os cursos para dirigentes. Com essa clareza de prioridades, lançou-se um trabalho de raiz que, pouco a pouco, foi formando cristãos missionários. Todo esse trabalho pastoral atraiu um povo muitíssimo pobre, dominado pela prepotência política de alguns “coronéis” que controlavam todas as formas de poder. A própria formação de comunidades já constituía uma valorização imensa para o povo habituado a ser só massa de manobra dos poderosos. Ser tratado como gente, Filho de Deus, capaz de ser protagonista do Evangelho, era uma promoção enorme. Junto com esse trabalho de formação do Povo de Deus era necessário construir as estruturas necessárias para o culto, a catequese, os encontros de líderes. Foram reformadas as Igrejas de Chapadinha, Vargem Grande, Mata Roma, Presidente Vargas e construídas novas em Santa Quitéria e Nina Rodrigues, além de muitas capelas nas comunidades. Foi adquirido o centro catequético e o centro de formação de Chapadinha, foram construídos os de Nina Rodrigues, Vargem Grande (este, enorme, para acolher os peregrinos da festa de S. Raimundo) e Mata Roma. Embora os Bispos pedissem trabalho paroquial, o Maranhão era terra de missão e assim foi tratado: evangelização, organização das comunidades e dos serviços eclesiais. Desde o início começaram a aparecer proble-

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mas graves de direitos humanos. Na política maranhense era bem tradicional a vingança. A polícia estava ao serviço do político que ganhava as eleições, para maltratar e até prender os que perdiam. Eram injustiças flagrantes. Os padres começaram a visitar e libertar os injustamente presos, qualquer que fosse o partido deles. Era coisa muito normal em qualquer parte do mundo, mas no Maranhão era uma revolução. Os fazendeiros de Chapadinha foram reclamar ao sr. Bispo que muitas vezes concordou com eles e algumas vezes foi celebrar nas capelas deles, guardado por polícia, com medo do povo. As comunidades organizaram-se para falar com o sr. Bispo. Mas ele não soube entender. A Igreja Católica Brasileira também foi chamada pelos fazendeiros para fazer festas e baptismos em multidão. Foi preciso muita persistência dos padres e das comunidades para resistir a esses ataques e manter uma proposta pastoral de futuro. Outro conflito que atingiu muitas comunidades foi a expulsão de lavradores. No Maranhão as terras eram quase todas do Estado. Os chefes políticos assenhoreavam-se delas e deixavam as famílias morarem “de favor”, com algumas exigências: fazer uma cerca à volta da terra plantada (para o gado do fazendeiro andar à vontade no resto da terra); vender o coco babaçu (nativo) para o fazendeiro; votar no “patrão”. Trata-se de exigências ilegais que muitas vezes os pobres não podiam cumprir. Por exemplo, não podiam ficar com todo o prejuízo quando o gado resolvia quebrar uma cerca. Quando o conflito estourava e a comunidade se unia para se defender, os padres apoiavam os seus direitos e iam tirar os presos da cadeia, sem olhar a que partido pertenciam. Vale a pena citar o caso de Cantinho, na Paróquia de Vargem Grande, onde era pároco o P. Trindade. Num dia em que os líderes de comunidade estavam reunidos num curso de formação, uma comunidade foi totalmente destruída, a mando ilegal do Juiz que cumpria ordens do Prefeito. A solidariedade da Igreja foi total. Mas este é um caso entre muitos. D. Afonso, Bispo do Brejo, nunca entendeu o trabalho dos padres e muito menos o compromisso social da Igreja. Apesar de ter só 8 padres para toda a Diocese, em Outubro de 1983 impôs a retirada

dos padres da Paróquia de Chapadinha, sob pena de suspensão. O apoio de outros Bispos e da Direcção Geral concretizou-se no recurso directo à Santa Sé que fez suspender a injustificada e injuriosa decisão. Em 1986 a Santa Sé nomeou o Arcebispo de S. Luís, D. Paulo Ponte, como Administrador Apostólico do Brejo. Confiando totalmente nos nossos padres, pediu-lhes para assumirem as paróquias de Anapurus e Mata Roma (1986) e Urbano Santos (1988). D. Valter Carrijo tomou conta da Diocese em 1989. Continuou o bom relacionamento com a Diocese. Mas, infelizmente, o número dos nossos padres estava a diminuir37. Uma novidade do trabalho do Maranhão foi a “quase geminação” da Diocese de Aveiro com a de Brejo, por meio da SMBN. Leigos e padres de Aveiro têm passado bons períodos a colaborar com Chapadinha. Destacamos o nome do Prof. Jorge Carvalhais que lá viveu dois anos e meio e vai voltar; e do P. Pedro Correia que, depois de três anos, renovou o seu compromisso por mais dois e meio. Missionárias da Boa Nova Todo este trabalho pastoral teve a colaboração de várias congregações religiosas. Vamos destacar o testemunho e o serviço das Missionárias da Boa Nova, que chegaram ao Brasil em 1977. A primeira equipa de três ficou em Ladainha e as duas que foram no ano seguinte formaram outra equipa na Vila Pedrosa, bairro de Teófilo Otóni. Em 1987 saíram também dessa diocese e formaram uma única comunidade em Mata Roma e Anapurus que depois foi desmembrada, e nova casa foi aberta no Bairro do Areal, em Chapadinha. As missionárias não substituem o padre, elas são de facto as mães da comunidade. Escutam o povo com o carinho que só uma mulher tem. Intuem facilmente as suas necessidades, congregam crianças, jovens e adultos. Animam os líderes sem os substituir. Formam-nos para desempenharem bem o seu serviço. Além dessa presença que, por si só, cria Igreja, elas têm feito, com rara competência, serviços importantes: jardim infantil, educação das mulheres em clubes de mães, grupos de jovens, formação de

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catequistas e animadores de comunidade, apoio à criação de associações, movimentos populares, sindicatos, pastoral da criança, pastoral da terra. Gostaria de destacar estas duas últimas. A Pastoral da Criança está em quase todos os municípios do Brasil. O seu objectivo inicial era estancar a mortalidade infantil, através de acções concretas e simples: soro caseiro para curar a diarreia, vacinas, alimentação mais sadia e barata, educação das mães. De facto, ela tem sido uma grande formadora de mulheres líderes. Em cada rua duas mães cuidam das crianças mais pobres, reúnem com gestantes, controlam mensalmente cada criança, ensinam a cuidar das doentes. A Pastoral da Terra anima os lavradores, reúneos, ajuda a pensar os seus problemas e a organizarse para os resolver. A grande Romaria da Terra do Estado do Maranhão, neste ano de 1995, realizouse em Anapurus. Certamente por causa dos muitos conflitos de terra que existem na diocese do Brejo mas também porque tinham o apoio das Missionárias que, junto com os lavradores, tudo prepararam. 3.2. Angola – Testemunho na guerra A Direcção Geral escolheu dois homens já maduros para serem o alicerce da Missão de Angola: os Padres Albano Mendes Pedro e Manuel Fernandes. O primeiro, além de missionário em Moçambique durante alguns anos, tinha sido consultor eclesiástico do então Ministério do Ultramar. Esse cargo dera-lhe uma grande visão da acção evangelizadora nas colónias portuguesas e mesmo noutros países africanos. O segundo, além de missionário em vários lugares de Moçambique, havia sido Superior Geral e até o grande entusiasta pela vinda para Angola durante o seu mandato como Superior da Sociedade. O P. Albano chegou a Luanda a 21 de Setembro de 1970. Pediram-lhe o serviço de secretário da conferência episcopal e D. Manuel entregou-lhe, pouco tempo depois, a Paróquia de Viana, a grande zona industrial de Luanda.38 Também em Agosto de 71 chegou a Viana o P. António Tavares Martins. Além de vigário cooperador foi também professor no seminário maior de Luanda. Este não era, porém, o campo destinado à Soci-

edade. O Arcebispo tinha como grande preocupação pastoral o Kuanza Sul. Para liderar este projecto a Direcção da Sociedade vai buscar a Moçambique o P. Manuel Fernandes que pouco tempo antes para aí havia sido reenviado. O P. Francisco Fernando Martins das Eiras passou quase três meses com o Revmo Cónego Moura, antigo aluno do Seminário de Cernache do Bonjardim, e agora de saúde muito abalada. O P. Fernando é aí iniciado nas lides missionárias e recebe do Cónego Moura a Missão do Dúmbi39 no mês de Março desse ano. Entretanto vindo de Moçambique, o P. Manuel Fernandes chega a Luanda, onde se encontra com o Cónego Moura, seu antigo condiscípulo em Cernache. Recebidas as primeiras instruções do Arcebispo de Luanda sobre a condução da Missão do Dúmbi, aí chega a 25 de Março. Esta equipa só fica completa a 13 de Outubro com a chegada do P. Augusto Farias, recém-ordenado em Portugal. Era uma equipa bastante diversificada em idades e mentalidades, mas que sempre funcionou bem e lançou as restantes equipas do Kuanza Sul. Estas foram as duas primeiras equipas da Sociedade Missionária em Angola, com três membros no Dúmbi e dois em Viana. Nessa altura a Direcção da Sociedade apostou seriamente nos jovens. Por isso, no ano seguinte, em Outubro de 1972, chegaram ao Kuanza Sul mais dois jovens: os Padres Laurindo Neto e Aníbal Fernandes Martins Morgado, ambos acabados de ordenar em Portugal. Com este reforço reorganizam-se as equipas. O Arcebispo de Luanda confia aos cuidados pastorais a vizinha Paróquia de Vila Nova do Seles.40 É-lhes dada posse em Novembro. A equipa fica completa em Março de 1973 com a vinda de outro padre jovem, o P. Armindo Alberto Henriques que, além da pastoral, dedica parte do seu tempo ao ensino na Escola Comercial e no Colégio das Irmãs do Amor de Deus. Esta era uma experiência nova para a Sociedade. Dominavam os jovens. Os dois primeiros anos foram para ver, até porque não tiveram qualquer iniciação missionária. Nesses dois anos visitaram todas as aldeias das duas Missões. Desse encontro com a realidade começam a emergir algumas prioridades pastorais. Destaca-se a formação de catequistas locais e gerais para os quais se organizam encontros e cursos, quer a nível local quer a

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nível da Vigararia do Kuanza Sul. Dá-se prioridade à evangelização sobre a sacramentalização devido à fraca formação dos cristãos. Presta-se muita atenção à promoção humana, quer na área do ensino, quer da saúde, quer da formação feminina. Na Missão do Dúmbi, em quatro anos, quintuplicouse a população escolar e os seus agentes, nos quais se investiu muito na sua formação a todos os níveis. Na formação feminina ajudaram muito no Dúmbi as Irmãs Reparadoras do Sagrado Coração que já aí encontrámos, e no Seles as Irmãs do Amor de Deus que, para além do Colégio, se começaram a dedicar à pastoral directa. A outra opção pastoral, de certo modo inovadora em toda a nossa acção em Angola, foi a dinamização das comunidades a partir da estrutura tradicional do “ondjango”. Neste capítulo foi determinante e providencial a chegada à Arquidiocese do novo Bispo Auxiliar de Luanda, D. Zacarias Kamuenho, sagrado em Novembro de 1974. A sua primeira visita pastoral como Bispo foi à Missão do Dúmbi, quinze dias após a sua sagração. Além de orientações muito concretas nessa matéria, estimulou-nos a lançarmos os pequenos conselhos das aldeias como órgãos dinamizadores e coresponsáveis pela vida cristã. Era uma experiência incipiente mas que, a partir daí, começou a dar os primeiros passos. É nessa altura que se dá a Revolução do 25 de Abril em Portugal. Num primeiro momento isso nada afectou a nossa dinâmica pastoral. A entrada dos movimentos de libertação trouxe alguma agitação. Houve gente atrelada à Igreja que começou a distanciar-se. É um tempo de purificação. Há também quem tome já as suas opções políticas e comece a questionar o seu passado e até a posição da Igreja. Foi nesse contexto de polémica que o P. António Tavares Martins achou oportuno deixar Angola. Essa ausência é preenchida nos últimos dias de Dezembro com a chegada do P. Adelino Fernandes Simões, que fica em Viana como vigário cooperador. Esta foi a fase de lançamento da Sociedade em Angola. Quer em Viana quer no Kuanza Sul as comunidades começam a crescer e a assumir as suas responsabilidades. Todo o trabalho de formação, a constituição de conselhos paroquiais e de aldeia vão ser testados nos tempos que se avizinham. Os gru-

pos encontram-se periodicamente e põem em comum as inquietações pastorais que os animam. Em Março de 1975 realiza-se a Assembleia Regional no Dúmbi com a presença dum Assistente Geral, o P. Manuel Bastos, que nos coloca perante toda a dinâmica da Assembleia Geral realizada em Portugal no Verão anterior. Estiveram presentes todos os membros da Sociedade em Angola. Decide-se que o P. Farias vá estudar e que após o seu regresso haja sempre um membro do grupo em reciclagem, de modo a manter o grupo continuamente em atitude de renovação teológica e pastoral. Por isso, em Julho desse ano o P. Farias vai para férias e frequenta o Instituto de Pastoral em Madrid. Tempo da provação Os primeiros anos de Missão em Angola foram tempos de juventude, de sonho, de projectos. Havia muitas ambições pastorais em todos os domínios da nossa acção. Foi com alegria que os membros da Sociedade se associaram às esperanças do povo angolano nos tempos que precederam a independência. Com o início dos conflitos armados entre os três movimentos de libertação começa o tempo da provação. Logo em Julho de l975 há buscas à Missão do Dúmbi e são torturados alguns leigos que aí residem. Pouco tempo depois é cortada a ligação com o Seles e os dois grupos ficam sem comunicação durante seis meses. Foi durante estes conflitos que se deu o grande êxodo dos europeus dessa zona. O P. Armindo Henriques, que estava a ter problemas no Seles com um dos movimentos, enquadrou-se numa dessas colunas e foi para o Lobito. Daí saiu para Luanda numa traineira para apanhar a ponte aérea para Portugal. As comunidades do Dúmbi e Seles ficam reduzidas a dois membros cada uma. Também do Dúmbi as Irmãs foram levadas para o Huambo e daí saíram para Portugal. Apesar de todos os riscos, os Padres Fernandes e Aníbal decidem ficar quando todos os europeus haviam saído e mesmo as pessoas das aldeias se refugiaram nas montanhas e nas lavras. Esta atitude de risco e de coragem foi muito apreciada pelos cristãos que não sabiam qual o paradeiro dos seus missionários. Quando se inteiraram da sua opção vieram de algumas comunidades com o seus géneros para que

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nada lhes faltasse. Este gesto foi a confirmação de quatro anos de vida e por isso de grande credibilidade evangélica. Agora eram mesmo os “nossos missionários”. A 10 de Agosto é criada a Diocese de Novo Redondo, desmembrada da Arquidiocese de Luanda. No dia 31 desse mês, D. Zacarias Kamuenho, Bispo eleito da nova Diocese, toma posse na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, elevada agora à categoria de catedral. Os companheiros do Dúmbi sabem do acontecimento pela rádio nacional e acompanham a tomada de posse através do Rádio Club do Kuanza Sul. O próprio Bispo não sabe se estão vivos ou mortos. O mesmo acontece com a Direcção Geral do Instituto. Foram meses de muita tensão e sofrimento para eles e para toda a Sociedade. Só em Janeiro de 1976 é possível o primeiro contacto entre as duas equipas do Kuanza Sul. O P. Fernando e algumas Irmãs do Amor de Deus do Seles e a Ir. Irene, da Congregação Jesus Maria e José, do Sumbe vão ao Dúmbi para estarem uns dias com os Padres Fernandes e Aníbal e para lhes fazerem companhia depois de seis meses de bloqueio total. Com o avanço dos cubanos contra a UNITA, que controlava toda essa zona, os visitantes ficaram também eles isolados e sem possibilidade de regresso ao Seles. Aí fazem a vida possível. Foi, porém, a partir dessas circunstâncias difíceis que se criaram grandes laços de amizade entre estes grupos missionários. Há, porém, um acontecimento que deve constar para a história da nossa presença em Angola. Quando, no dia 4 de Fevereiro de 1976, os cubanos passaram pela Missão, uma parte da residência foi atingida por um obus. Prestados todos os esclarecimentos e ultrapassados todos os equívocos, essa força militar avançou. Antes de partir, porém, como já se tinha esgotado ao P. Fernandes todo o tabaco, o comandante ofereceu-lhe um pacote. A situação mais dramática aconteceu com a chegada de nova brigada que apanhou os padres e alguns leigos quando se dirigiam pela avenida da Missão para enterrar o militar que havia sido morto. Interceptados pelos cubanos foram obrigados a deitarem-se no chão. Quando tudo se preparava para serem fuzilados, aí mesmo foram salvos milagrosamente graças a um maço de tabaco cubano que a brigada an-

terior lhes tinha oferecido e que o P. Fernandes lhes mostrou. Foi um incidente que marcou para sempre as suas vidas. Apesar de todos estes riscos, optaram por ficar. Ainda mais aumentou a consideração do povo pelos seus missionários que estavam aí para dar a vida por ele. Passado este incidente, de Março a Setembro de 1976, fizeram um trabalho normal. Chegaram a visitar toda a área da Missão. Em Setembro, porém, começaram a sentir a guerrilha na área de Cassongue e lentamente a aproximar-se da Missão. Em Dezembro chegou a visita do P. Castro, Superior Geral. Com ele e com o Senhor Bispo, foi decidido sair da Missão e residir no Seles, o que veio a acontecer em Janeiro de 1977. Nunca mais se pôde ir à Missão. Ainda se conseguiu ir ao Capolo e aí fazer o último conselho paroquial. Foi um momento doloroso quando tiveram que deixar o povo que amavam e os sonhos que acalentaram. Mesmo a partir do Seles o P. Aníbal sempre fazia umas incursões missionárias a uma grande parte da Missão. Agora passa a Superior da Missão no exílio porque o P. Fernandes vem de férias a Portugal. Nessa altura o Bispo diocesano pede ao P. Fernandes que lhe vá fazer companhia e assuma o cargo de Secretário Geral da Diocese, onde era preciso organizar tudo. Durante esse ano há várias mudanças de pessoal. Depois de várias tentativas, os Padres António Valente Pereira e José da Silva Mendes conseguem visto de entrada em Angola. Foi concedido a 13 de Maio desse ano de 1977. Foram os primeiros vistos a serem concedidos a missionários estrangeiros depois da independência, graças à intervenção e influência do Bispo diocesano. Pouco tempo depois seguem para a Missão da Hanha, na diocese de Benguela, para um tempo de iniciação missionária e aprendizagem da língua Umbundo. Nessa altura o P. Fernando Eiras deixa Angola e regressa a Portugal. Fica o P. Laurindo Neto à frente da Paróquia na companhia do P. Aníbal. Também em Luanda há alterações. Em Viana fica o P. Adelino como Pároco e ao P. Albano é confiada a Paróquia de Santa Ana,41 acumulando também o cargo de Vigário Geral da Arquidiocese. No regresso do curso de iniciação pastoral o P. Valente Pereira começa a fazer parte da equipa do Seles. O P. Mendes, após pouco tempo no Seles, vem para Luanda, onde faz equipa com P. Albano.

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Em Novembro regressa o P. Farias a quem é confiada a estruturação e lançamento do Secretariado diocesano de pastoral. Fica no Sumbe, onde faz equipa com o P. Fernandes e com o Bispo diocesano. Devido ao abandono da Paróquia de Porto Amboim,42 ia para dois anos, o Sr. Bispo confialhe também esta Paróquia em Janeiro de 1978, que assiste a partir do Sumbe. Este ano o grupo de Angola é reforçado com mais dois membros, os Padres Cândido Coelho da Silva Ribas e Delfim Pires, este associado da Diocese da Guarda. É a primeira vez na história da Sociedade que um padre associado é integrado numa das suas equipas. São destinados à paróquia do Wako Kungo43 e tomam posse em Agosto deste ano. Estamos em pleno marxismo. Há uma forte pressão ideológica. As comunidades são muito provadas e alguns cristãos são perseguidos por causa da sua fé. Há, porém, relativo espaço de manobra e possibilidade de acção pastoral, exceptuando o Dúmbi, que está praticamente ocupado pela UNITA. O P. Aníbal já só consegue ir a algumas aldeias de Amboíva e, por vezes, com grande risco. De 1978 a 1982 há um certo relançamento pastoral. À pressão ideológica corresponde uma certa resistência e até militância cristã. É o tempo em que se formam bons grupos de jovens que se comprometem na acção pastoral. Nos fins de 1981 chega a Angola um novo reforço. É o P. Manuel Armindo de Lima e o Irmão João Lopes Balau, ambos colocados na Paróquia de Viana, onde fazem equipa com o P. Adelino. Na segunda quinzena de Dezembro visitam as nossas Paróquias/Missões do Kuanza Sul. Assim tomam contacto com a Missão de Angola. É exactamente neste período que se dão as primeiras emboscadas a caminho do Wako Kungo e se intensifica a guerrilha em todo o Kuanza Sul. A experiência do martírio Aproxima-se entretanto o momento da prova para o grupo da Sociedade. No dia 3 de Fevereiro de 1982, quando o P. Manuel Armindo de Lima se dirigia para uma das comunidades da Paróquia de Viana, foi emboscado e morto juntamente com uma noviça Mercedária da Caridade, um jovem e uma senhora casada grávida. Outra noviça e um jovem

foram também atingidos, mas vieram a recuperar. Só saiu ilesa uma senhora que viajava precisamente ao lado do P. Lima. Esse comando esperava o Padre, como eles mesmos comentaram quando o carro passou pelo lugar onde eles estavam. Todas as semanas, naquele dia e naquela hora, a equipa de evangelização passava por aquele local. Ainda houve hesitação porque não conheciam aquele padre que por ali passava pelas primeiras vezes. Exceptuando o P. Mendes que ficara em Luanda e o P. Lima em Viana, todos os outros membros da Sociedade em Angola estavam em retiro no Seles. Só na manhã do dia 4 de Fevereiro foi aqui recebida a brutal notícia. Foi uma emboscada premeditada e preparada para apanhar o Padre. Na euforia marxista, a voz profética do Padre era incómoda. Só que erraram no alvo. E acabou por ser o recémchegado a vítima das balas assassinas. Este acontecimento abalou profundamente o grupo. Juntámo-nos todos em Viana para o funeral do P. Lima e seus companheiros. Ao reflectirmos juntos, sentimos que essa provação era um estímulo para nos darmos ainda mais e melhor. A sua falta teria que ser preenchida por mais doação do grupo. A presença amiga de vários bispos angolanos e de quase todo o clero e religiosas de Luanda foi o sinal visível da comunhão eclesial e da amizade pela Sociedade. Através deste trágico acontecimento sentimo-nos ainda mais vinculados a esta terra de adopção. O caminho do calvário estava ainda no princípio. A 27 de Abril desse ano, nova emboscada no caminho do Lobito apanha o P. Laurindo Neto e a Ir. Celeste, do Amor de Deus, quando se deslocavam àquela cidade em busca de meios de sobrevivência para o povo do Seles. A Irmã foi morta e o P. Neto levado para a mata pela UNITA com alguns ferimentos. Foram tempos de angústia porque não se sabia o seu paradeiro, nem se estava vivo ou morto. Só passados vários meses nos chegaram as primeiras informações de que estava a caminho da Jamba. Foi um longo cativeiro de 5 meses após uma marcha de cerca de 1 500 km a pé. Durante essa marcha várias vezes esteve em perigo de vida quer pelas doenças de que foi vítima quer pelos bombardeamentos do governo para perseguir a UNITA. Só em Setembro de 1982 chegou a Portugal no limite das suas forças.

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Após o rapto do P. Neto, fica no Seles apenas o P. Aníbal, porque o P. Valente Pereira havia sido transferido para o Wako Kungo quando o Cândido Ribas abandonou o ministério sacerdotal. Ficam nesta Paróquia o P. Delfim como pároco, e o P. Valente Pereira como vigário cooperador. Entretanto, é nomeado para Angola o Ir. Artur Augusto Paredes. Até à sua chegada ao Seles a 13 de Junho de 1982, o P. Manuel Fernandes volta de novo ao Seles para fazer companhia ao P. Aníbal. Devido ao seu precário estado de saúde, deixou o Seles em Dezembro desse ano e foi para Portugal para tratamento. Após os acontecimentos de Abril desse ano o caminho do Seles, pelo morro do Dinguir, é fechado por causa da guerrilha, que começa a cercar o Seles. A única via de acesso é pela Conda e só em coluna militar. Nova estratégia pastoral O espaço de movimentação é cada vez mais reduzido. Em muitos lugares só é possível o contacto epistolar. Nota-se, porém, uma grande adesão à Igreja. Começa o desencanto do paraíso marxista. As igrejas enchem-se. Domina a camada jovem, até agora dominada pela estrutura da JMPLA. Surgem os grupos de jovens organizados que se empenham na vida pastoral, até agora muito entregue aos adultos, os mais velhos. É uma mudança substancial na vida desta Igreja. A par desta pastoral, e como resultado dela, surge a pastoral vocacional. Esta foi uma das apostas em todas as nossas missões. Os Padres e Irmãs que estão a ser agora ordenados e a fazer profissão religiosa são o fruto desse movimento vocacional. Quase todas as Paróquias/Missões entregues aos cuidados da Sociedade Missionária tinham uma equipa de animação vocacional e um dia por semana para reflexão, oração e acompanhamento dos vocacionados. Como era difícil e arriscada a saída para as aldeias, optou-se por um movimento inverso. Vinham os catequistas e outros agentes de pastoral às sedes das Missões para receberem a formação. Organizaramse cursos para animadores do culto dominical na ausência do sacerdote, cursos para ministros extraordinários da comunhão, lançamento do catecumenado, preparação de jovens para a catequese diversificada nas suas aldeias... Foi um novo tipo de pastoral para a

qual as circunstâncias nos impeliram, mas que terá sido providencial em ordem ao futuro que se avizinhava. Nessa fase deu um grande contributo à dinamização pastoral das zonas do litoral a chegada dos refugiados da guerra. Esta gente, com maior tradição cristã, veio dar novo impulso às paróquias ribeirinhas, de cristianismo mais morno e pouco comprometido. Nova etapa pastoral Após os primeiros entusiasmos revolucionários, o marxismo começa a ceder e até a cair no descrédito. A guerra com a UNITA intensifica-se e o partido não quer criar outras frentes de combate. Daí as imensas possibilidades que surgem para a Igreja, embora parte da diocese de Novo Redondo tenha ficado bloqueada. Com a chegada dos Padres Dominicanos a Angola, o Senhor Bispo pede-nos para lhes entregarmos a Paróquia do Wako Kungo, onde reside desde há muitos anos uma comunidade de Irmãs Dominicanas do Rosário. Foi uma saída dolorosa para os Padres Valente Pereira e Delfim porque tinham começado um trabalho muito sério e profundo e que estava apenas no seu início. Felizmente os Padres Dominicanos assumiram essa linha pastoral com muito entusiasmo e saber e deram um grande incremento pastoral àquelas comunidades desejosas de crescer na fé. A equipa do Wako vem tomar conta da Paróquia da Gabela,44 no Amboim, onde foi empossada pelo Bispo diocesano a 26 de Dezembro de 1982. Aí começa um grande trabalho pastoral. O P. Delfim entra na escola como professor e aí tem grande influência entre a juventude. Dá grande incremento à pastoral juvenil e à pastoral vocacional. O grupo de Angola é reforçado a partir de Agosto de 1983 com a vinda do P. Viriato Augusto de Matos e do Dr. Francisco Camello, leigo associado. Em Angola já havia a experiência com clero secular associado, na pessoa do P. Delfim. Agora é a vez do primeiro leigo associado. Foi uma experiência muito válida em ambos os casos. É pena que não tenha sido continuada. Com este reforço remodelam-se as equipas. Assim, o P. Viriato fica em Santa Ana e o P. Albano regressa a Viana para fazer equipa com o P. Adelino.

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Parte I – Migalhas de História dos Missionários da Boa Nova

Daí havia saído pouco tempo antes o Ir. Balau que fora viver com o P. Farias em Porto Amboim. Depois da ida do P. Fernandes para Portugal , o P. Farias, embora continue como director do Secretariado Diocesano de Pastoral, fixa-se mais em Porto Amboim. O Dr. Francisco é integrado na equipa da Gabela onde trabalha no Hospital local. No final do ano chegam a Angola os Padres António Ramos Martins, vindo do Zimbábwe, com destino a Porto Amboim, e o P. Agostinho Alberto Rodrigues para fazer equipa em Santa Ana, Luanda. Como o grupo do Seles era o mais isolado e desfalcado, para aí segue o P. Mendes em Novembro desse ano. A partir desta remodelação, as equipas ficam assim constituídas: Viana: Padres Adelino e Albano Santa Ana: Padres Viriato e Agostinho Rodrigues Porto Amboim: Padres Farias, Ramos e Martins e Ir. Balau Seles: Padres Aníbal, José Mendes e Ir. Artur Gabela: Padres Delfim e Valente Pereira e Dr. Francisco Pela primeira vez o grupo de Angola passa a ser constitucionalmente Região Missionária. O grupo de Luanda tem grande influência no conjunto da arquidiocese: P. Albano é Vigário Geral, P. Adelino investe grande parte das suas energias na produção catequética. Os seus catecismos têm muita divulgação a nível nacional e ele começa a fazer parte do Secretariado diocesano e nacional de catequese. O P. Viriato, além de professor na Academia Musical de Luanda, é também professor no Seminário Maior e responsável diocesano da juventude, cargo antes exercido pelo P. Mendes. Igualmente o P. Agostinho assume aulas no Seminário Maior e no ICRA, além de membro do Secretariado de Pastoral de Luanda. Também no Sumbe, o P. Farias continua à frente do Secretariado diocesano de pastoral e membro do Secretariado nacional de pastoral, além de responsável pela escola diocesana de catequistas. O P. Delfim é o responsável pelo Ecumenismo na diocese; P. Valente Pereira, responsável pela Comissão de Liturgia; e o P. Aníbal, pela Comissão do apostolado dos leigos.

Nova experiência pascal É nesta fase que a UNITA começa a fazer o cerco às grandes cidades. A zona mais afectada é o Seles. As entradas estão praticamente bloqueadas. Já não se consegue sair para fora da vila. Devido a essa situação decide-se que o P. Aníbal vá de férias em Junho de 1984 e faça um tempo de reciclagem em Madrid. Igualmente vai de férias o Ir Artur. Fica apenas o P. Mendes com as Irmãs do Amor de Deus. De acordo com o Senhor Bispo, a Direcção Regional decide deixar periodicamente o Seles porque havia grande perigo de ataque e de rapto. Por isso, pouco tempo após a saída do P. Aníbal, também o P. Mendes deixa o Seles juntamente com as Irmãs do Amor de Deus e vêm para a Gabela. P. Mendes passa também a viver na Gabela donde assiste o Seles, particularmente a Conda. Com o abrandar da tensão militar vai de novo ao Seles com duas Irmãs do Amor de Deus para fazer uma série de casamentos que havia preparado. Foi no decorrer dessa visita, a 9 de Agosto de 1984, que a UNITA atacou a vila do Seles e ele foi raptado com a Ir. Gabriela e Ir. Carmen e algumas aspirantes, além de muito povo. É mais uma nova provação para estes dois grupos missionários. Após uma viagem de meses a pé pela mata, percorrem a última etapa em camiões até chegarem à Jamba, Quartel General da UNITA. Depois de meses de recuperação, a UNITA decide repatriá-los. Os três missionários, com a Ir. Maria, missionária alemã da Congregação do SS. Salvador, também raptada e colega de cativeiro, vendo as imensas necessidades de trabalho pastoral nessa zona controlada pela UNITA, decidem fazer uma exposição comum ao Presidente do Movimento, pedindo a sua permanência nessa área e a autorização para exercerem o seu múnus pastoral. Esse pedido é aceite a 22.10.1984 por carta do Dr. Jonas Savimbi: “Meus Irmãos em Cristo. Com júbilo respondo à vossa carta feita em forma de memorandum. Os caminhos do Senhor não são descortinados pelo Homem. A comunidade cristã das zonas libertadas da UNITA acolheria como uma bênção do céu a vossa vocação de quererem ficar connosco. O Partido só pode prometer ajuda em tudo den-

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tro das limitadas possibilidades materiais. A nossa vontade de melhor servir, esta não conhece limites. Abraços fraternos do irmão Savimbi”. Esta foi mais uma das experiências únicas na história da Sociedade. Com os outros padres aí prisioneiros elaboram um grande plano pastoral (cf. Boa Nova, n.º 726, de Março de 1987, págs. 30 e 31). Fundam a Paróquia de Santa Maria Mãe de Deus. Acompanham este povo abandonado religiosamente, ou melhor, apenas com possibilidade de realizar o culto protestante, já que aos católicos não havia sido dada possibilidade de expressão religiosa. A comunidade missionária realiza uma tarefa muito importante que é acompanhada com grande interesse pela Conferência Episcopal de Angola e pela Santa Sé. O Delegado Apostólico em Luanda pede ao Superior Regional para que peça à Direcção Geral do Instituto para não dar outro cargo ao Padre Mendes, já que a sua presença era insubstituível nestas circunstâncias. As próprias autoridades da UNITA reconhecem o valor desta presença eclesial, como se pode ver na carta do Presidente Savimbi na despedida para férias da equipa missionária (cf. Boa Nova, Março de 1987, pág. 33). Esse testemunho de presença e de doação tornou-se ainda mais credível quando, passados vários meses de férias, regressam de novo à Jamba, assumindo todos os riscos de bombardeamentos projectados pelo tropas governamentais. Ninguém acreditava que eles regressassem. O amor ao povo que aí encontraram estava acima de tudo e por isso voltam de novo. Uma vez na Jamba, a Direcção do Movimento permite que o P. Mendes siga para uma posição mais avançada onde vai reestruturar as comunidades que até esse momento não tinham qualquer tipo de assistência religiosa. O rapto do P.Mendes e seus companheiros foi um momento doloroso para o grupo de Angola. Tornou-se, graças ao seu dinamismo e espírito de doação, uma das experiências mais ricas do grupo de Angola ao longo destes 25 anos de presença missionária. Esta acção terminou nos primeiros meses de 1990 quando o P. Mendes foi chamado pela Direcção Geral para os serviços de formação em Portugal. Durante estes seis anos de actividade

missionária na Jamba muitas coisas aconteceram na vida do grupo que vivia nas áreas controladas pelo governo. Nova experiência do martírio Após o regresso de férias, o P. Aníbal e o Ir. Artur, ambos a residir na Gabela, continuam a assistir a Paróquia do Seles. Devido ao grande risco de ir à sede da Paróquia, assistem particularmente a Conda, onde iam com certa regularidade, depois de obtida a informação favorável dos catequistas. Porque havia relativa segurança decidem ambos ir aí celebrar a festa da Epifania do Senhor, em Janeiro de 1984. Foi no decorrer dessa visita, quando nada o fazia prever, que a UNITA ataca a Conda na noite de 6 de Janeiro. O P. Aníbal refugiou-se no vão da escada. O Ir. Artur fugiu para se esconder com o povo. Foi nessa fuga que, interceptado pela UNITA, foi barbaramente assassinado. Encontrado o corpo, o P. Aníbal foi obrigado a fazer o seu funeral acompanhado por um pequeno grupo de cristãos que se juntaram e deram roupa para vestir o Ir. Artur. Morreu como viveu: sempre pobre. Está sepultado no Cemitério da Conda, onde os cristãos ergueram um pequeno monumento. Foi um momento doloroso para todos, mas particularmente para o P. Aníbal que, para além das situações difíceis por que passou, perdeu já três companheiros: o P. Laurindo Neto e P. José Mendes que foram raptados, e agora o Irmão Artur, que é morto. A actividade no Kuanza Sul começa a ficar cada vez mais reduzida. O Seles e Conda ficam praticamente fechados. Também na Gabela, sobretudo no Município da Kilenda, é perigosa qualquer visita. O mesmo acontece em Porto Amboim, sobretudo nas zonas limítrofes com a Gabela. Empenho pela Missão Sem aventureirismos inúteis, a maioria dos missionários da Sociedade jogou a vida por este povo. Para além das situações de martírio e de cativeiro já descritas, muitas outras houve de grande risco de vida. Não constam de relatórios nem nunca ninguém as conhecerá. Nem isso interessa. O impor-

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tante é o que significam de doação e de entrega, e também de identificação com o povo que servimos. Esse foi o grande testemunho e, até certo ponto, o sinal de credibilidade da nossa acção. O povo cristão notou isso. Houve muita mobilidade de pessoas e de lugares de evangelização. No Kuanza Sul passámos por todas as Paróquias/Missões a poente do Rio Queve, além das Paróquias do Wako Kungo, Ebo e Gabela, da parte nascente. Apesar da orientação pastoral e do novo dinamismo pastoral dado pelas equipas que nos sucederam, sempre que algum dos nossos padres passa por essas missões é recebido e acolhido como o “nosso missionário”. Também a hierarquia, o clero e as religiosas nos têm mostrado o seu apreço pelo trabalho que realizámos, apesar dos muitos limites e erros da nossa acção. É significativo que D. Zacarias tenha pedido ao Santo Padre em 1982, no cinquentenário da Sociedade Missionária, a comenda Pro Ecclesia et Pontifice para o P. Manuel Fernandes. E, como frisou na entrega da medalha pontifícia durante a celebração do cinquentenário, em que distinguiu todos os padres da Sociedade a trabalhar na diocese com uma estola que mandou fazer para o acontecimento, é o reconhecimento da Igreja, na pessoa do P. Fernandes, pela dedicação de todos os membros da Sociedade. Também o P. Aníbal foi distinguido com igual dignidade em Outubro de 1985, por ocasião do X Aniversário da Diocese, pelas grandes situações de risco a que várias vezes expôs a sua vida. O P. Aníbal esteve três vezes debaixo de fogo na contingência de ser morto. E sempre assumiu esta situação como algo de normal na vida dum missionário. Em Luanda foi o Senhor Cardeal que pediu ao Papa igual comenda para o P. Albano por ocasião das suas bodas de ouro sacerdotais. Durante a doença de D. Muaca, esteve dois anos, ainda que de maneira intermitente, à frente da arquidiocese. Evidentemente que nunca passou pela cabeça de nenhum de nós trabalhar para receber honras e dignidades humanas. Seria a negação do Reino em que empenhamos as nossas vidas. Mas foi significativo que as Igrejas locais tivessem notado e distinguido essa dedicação. Por outro lado, também não podemos deixar de estar gratos aos Bispos com quem trabalhámos pela confiança e amizade que

sempre em nós depositaram. Tudo isso é motivo de acção de graças e de estímulo para novo empenhamento apostólico. Se a Sociedade Missionária da Boa Nova já se tornou angolana por ter aceite nas suas fileiras alguns dos filhos desta terra, ela já o era antes pelo “pacto de sangue” contraído pelo sangue dos seus mártires. Isso mesmo o declarou D. Zacarias Kamuenho, no Cemitério de Viana, na tarde de 5 de Fevereiro de 1982, diante do corpo do P. Lima e seus companheiros, quando estavam para ser enterrados. P. Augusto Farias Lar Boa Nova em Viana O relato anterior fala dos primeiros 25 anos da SMBN em Angola. Merecem uma palavra duas iniciativas mais recentes: a formação de missionários e a paróquia da Senhora da Boa Nova onde ela fica situada. A Assembleia Regional realizada em Porto Amboim a 13.10.1987, decidiu fazer avançar a aceitação de vocações de jovens angolanos para a Sociedade Missionária da Boa Nova. Vários jovens, nas missões onde trabalhávamos, de modo particular na Diocese do Sumbe, mostravam desejo de ser missionários da Boa Nova. A 22.11.1987 foi admitido o primeiro aspirante, Eduardo Daniel, da paróquia de Wako Kungo. Entrou no 1.º ano de Teologia, no Seminário Maior de Luanda. No ano seguinte veio o Kaquinda Dias, da paróquia do Seles. Ambos ficaram a residir na Paróquia de Santa Ana. Para instalação mais permanente comprámos a quinta “Katequero”, pertencente a Carlos Teixeira, de parceria com as Irmãs Teresianas. Deram à casa de Formação o nome de Lar Boa Nova.45 Foi necessário reconstruir e construir novos espaços para atender todos os que nos procuram para a formação.46 Paróquia da Boa Nova – Viana Foi criada a um de Outubro de 1995, em território da Paróquia de Viana. O P. António Valente Pereira é responsável único, com muita colaboração dos seminaristas e seus formadores e de várias congregações religiosas. É um mundo de cerca de

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200 000 habitantes, parte deles deslocados de todas as províncias de Angola. Para além da catequese normal têm sido muito dinamizadas e difundidas as comunidades de fé espalhadas por toda a área da Paróquia, cada qual com os seus líderes. Este é o quadro onde a nível local se vivencia a fé quer na oração e leitura da bíblia quer mesmo na organização de base. Há vários movimentos laicais. Vale a pena destacar a PROMAICA (Promoção da mulher angolana na Igreja católica) que tem liderado muitas campanhas e está presente em muitos sectores da vida social e eclesial. Outro grupo importante tem sido a Comissão paroquial justiça e paz que tem actuado muito sobretudo na cadeia de Viana que fica na área da Paróquia e é o maior centro prisional de Angola. Na área social há a destacar o centro de nutrição a crianças deslocadas, o posto de saúde e o centro de atendimento de medicina alternativa onde diariamente são atendidas dezenas de doentes. A nova Igreja paroquial, ainda inacabada, já funciona. Em 2004, a área do Km 9 transformouse em paróquia Nossa Senhora do Rosário, atendida pelos padres deonianos. 3.3. Zâmbia – fora do espaço de língua portuguesa 1. Foi em finais de Julho de 1980 que o P. José Guedes chegou à diocese de Ndola, na Zâmbia. O Bispo Dennis de Jong pensou em mandá-lo para Mishikishi, uma missão rural a 50 km de Ndola, entregue aos Padres Missionários Obreros de Salamanca, mas depois aceitou que fosse viver com o P. Ramón, então Superior Regional dos Missionários do IEME, em Kitwe, na Paróquia de Kwacha - Bulangililo. Os primeiros seis meses foram dedicados exclusivamente à aprendizagem da língua local, o Bemba. Passados seis meses, deixou Kitwe e foi viver para Chingola, também com os Padres do IEME, na Paróquia de Chiwempala, ficando encarregado da Paróquia de Lulamba, que estava sem pároco. A 1 de Agosto de 1981 foi para Chililabombwe, tendo tomado imediatamente conta de Kamenza. A 4 de Outubro, dia de S. Francisco de Assis, com a presença do Bispo, tomou conta das paróquias de

Konkola e de Lubengele. Dias depois, a 12 de Outubro de 1981, chegou o P. Manuel Castro Afonso. Os seus primeiros seis meses foram para iniciação ao Bemba, nas três paróquias com o P. Guedes, tendo tomado conta de Kamenza oficialmente na Páscoa de 1982.47 Em 1985, em Kawama, uma aldeia a 6 km de Chililabombwe, um soldado bêbado atirou sobre o P. Norte. As marcas ficaram no carro, mas felizmente o P. Norte não foi atingido. No fim de 1985, voltou a Portugal, onde ficou a trabalhar na animação missionária. O P. Horácio tomou conta de Konkola. Entretanto, em 1986, o P. Carlos tomou conta da Paróquia de Mindolo, em Kitwe. Primeiro, viveu com os Padres Irlandeses do SMA. A seguir, viveu em casa das minas, arrendada. A casa estava isolada, e uma noite, juntamente com o Horácio que o tinha ido visitar, tiveram de lutar com os ladrões. Por isso, deixou a casa e foi viver com os Jesuítas. Quando o P. Castro foi escolhido Superior Geral em 1990, o P. Carlos deixou Mindolo e veio para Chililabombwe, tomando conta de Kamenza. O Horácio continuou com Konkola, e o Guedes com Lubengele. Os cinco anos do P. Carlos em Kitwe foram uma experiência muito rica. O nosso sonho, apadrinhado pelo Bispo, continua a ser constituir uma comunidade nessa enorme cidade mineira, coração do Copperbelt. O apostolado neste Copperbelt é urbano entre operários mineiros. É uma parte muito característica do continente africano. 2. Quem iniciou a evangelização na Província do Copperbelt (a cintura do cobre) foram os leigos – grupos de cristãos vindos para as minas, que começaram a reunir-se, a organizar-se e a dar testemunho do Evangelho. Depois vieram os Franciscanos Conventuais em 1931. A Chililabombwe começaram a vir de maneira regular na década de 50. Vinham a partir de Chingola. O sr. Camilo Lukalanga foi o precursor. O primeiro lugar para a assembleia dominical foi junto do poço n.º 3 das minas. Os primeiros livros de baptismos, que são de Lubengele, começam em 1956. Depois passaram a ter missa no salão das minas. Entretanto, em Kamenza, construía-se a residência dos padres que

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se tornou no primeiro lugar para a assembleia dominical. Depois foi construído o salão paroquial, também em Kamenza, que, por muito tempo, serviu de igreja. Em Lubengele, a igreja foi construída em 1967 pelo P. Mizzi, conhecido por todos pela alcunha de Katyetye um pequeno passarinho sempre a saltitar (como o pardal). Foi ele também que construiu o salão de Kamenza. Mais tarde foram construídas as igrejas de Konkola e de Kamenza. Os Franciscanos fizeram um bom trabalho, não só construindo todas as estruturas necessárias à pastoral, mas principalmente evangelizando e construindo a comunidade cristã. 3.1. Chililabombwe (que em lamba significa “a rã que canta”), uma das cidades mineiras da diocese de Ndola, tem sido o nosso campo de trabalho. Chililabombwe está a 20 km da fronteira e a 25 km de Chingola, na estrada internacional que vem de Cape Town para o Zaire. É uma cidade que existe por causa das minas e que vive das minas. Sem elas desaparecerá. Mas a área de Chililabombwe tem os maiores depósitos de cobre na Zâmbia. Por isso, Chililabombwe é considerada a cidade mineira do futuro. Há planos para novos desenvolvimentos, mas falta o capital e as minas de Chililabombwe são as minas com mais água no mundo, o que torna a extracção do cobre bastante cara. Há planos para desviar o leito do rio Kafue. 3.2. Toda a região do Copperbelt se encontra em terra da tribo Lamba. Quando as minas começaram, a maioria dos lambas mostraram-se renitentes e ainda agora se mostram em aceitarem trabalho lá. Foram eles que perderam. A zona foi invadida por gente de todos os lados à procura de trabalho, vindos da Tanzânia, do Malawi, até de Moçambique e de Angola, mas principalmente do norte da Zâmbia da tribo Bemba e das tribos afins. E Bemba tornou-se a língua do Copperbelt, ensinada mesmo na escola primária. Os Lambas sentem-se colonizados. A sua presença nas cidades é mínima, e até as zonas rurais estão a ser invadidas por gente das mais variadas tribos.48 4. Durante estes 12 anos, a Zâmbia passou por várias mudanças sociais e políticas. Em 1980, houve greve, com as minas paralisadas, tendo o governo imposto então o recolher obrigatório. Houve a seguir a descoberta duma tentati-

va de golpe de estado; os golpistas foram presos, julgados e condenados à morte (embora nunca fossem executados). Mais tarde, houve motins em Lusaka e no Copperbelt, devido ao aumento do preço da farinha. A tropa foi mandada para as cidades e estabeleceu controlos em todas as estradas. Várias pessoas foram mortas – em Chililabombwe 2. Mas Kaunda foi obrigado a cancelar o aumento dos preços e o povo tornou-se consciente do seu poder. A partir daí, os controlos tornaram-se permanentes. Para Chililabombwe não era possível passar com nenhuma mercadoria sem previamente ter recebido autorização do quartel. Até parecia que não fazíamos parte da Zâmbia. A economia parece ir de mal a pior. O tratamento do FMI não parecia dar muito resultado. O governo não sabia o que fazer e tinha medo das reacções violentas do povo a medidas económicas drásticas. Os produtos essenciais – farinha, açúcar, sal, óleo – eram escassos e a candonga tornou-se a maneira normal de obter tais produtos, até porque o contrabando dos mesmos produtos para o Zaire tomou proporções alarmantes. Em aldeias como Mibyashi e Lubansa houve gente que abandonou o trabalho agrícola para se tornar contrabandista. Ao princípio os soldados eram duros e rigorosos. Chegaram a matar várias pessoas, mas em breve também eles faziam parte do sistema. Desde que recebessem a sua parte, eles mesmos acompanhavam os contrabandistas, dando-lhes protecção. E tudo passava, desde o saco à cabeça ou a bicicleta com 4 ou 5 sacos até ao camião com toneladas de farinha. Em Chililabombwe, a maioria dos desempregados ganhava a vida no contrabando ou na candonga, sem necessidade de roubar para ter dinheiro. Kaunda e o seu governo tornaram-se cada vez mais impopulares. Em 1990, o capitão Luchembe tentou um golpe de estado, tomando conta da rádio e da televisão e proclamando o fim da era de Kaunda. A população veio para a rua cantar e dançar. Até grupos de soldados se juntaram à festa, mas os generais tiveram medo e mantiveram-se fiéis a Kaunda. Luchembe foi preso, mas a roda da sorte tinha começado a girar de novo e Kaunda foi cedendo às exigências duma oposição cada vez mais forte. Primeiro aceitou o referendo, a seguir aceitou pura e simplesmente o multipartidarismo (sem recorrer ao referendo). Quando ele queria impor

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ao país uma constituição talhada à sua maneira, totalmente rejeitada pela oposição, os responsáveis das Igrejas – da Conferência Episcopal, do Conselho Cristão e da Confraternidade Evangélica (das Igrejas Pentecostais) – intervieram, levando as duas partes ao diálogo e à preparação duma constituição aceite por todos. Realizadas as eleições no fim de Outubro de 1991, Kaunda e o seu partido sofreram uma derrota quase total, tendo sido eleitos Chiluba e o seu partido MMD. Com muita ordem e muito civismo, passou-se do partido único ao multipartidarismo e agora está a passar-se duma economia planificada e socialista a uma economia de mercado. Os preços são livres e tudo se tornou mais caro, mesmo a tão essencial farinha de milho. Os pobres estão a tornar-se mais pobres. O povo ainda tem esperança, mas a lua de mel com o MMD já passou. E novos partidos tentam a sua chance. As minas são o esteio económico do país. São elas e quase só elas que ganham divisas estrangeiras. A agricultura nunca teve grande importância na política económica do país. Para facilitar o controlo total do governo, na década de 1970, as minas foram nacionalizadas e juntas numa única companhia, a ZCCM. O seu presidente e administrador geral foi feito membro do Comité Central do Partido. Muito do dinheiro ganho pelas minas, em vez de ser usado para a renovação do equipamento ou para novos investimentos, ia para o partido e para o governo. Devido à crise económica, tentaram reorganizar a companhia, despedindo muitos trabalhadores. Passado pouco tempo, aceitaram nova gente, principalmente jovens, diminuindo assim as hostes dos rapazes desempregados que vagabundeavam pelas ruas. Com o novo governo e a nova política económica, as minas estão a readquirir a sua autonomia e fala-se mesmo em privatização. Sendo Chililabombwe uma cidade mineira, tudo isto tem impacto na vida pastoral das nossas paróquias. Assim, a maioria da gente nas missas do domingo é jovem. São poucos os que têm mais de quarenta anos. Com mais de 50 são poucos, pois é idade para receber a pensão e voltar para a aldeia. 5. A Zâmbia é um país de colonização inglesa onde a influência protestante é grande. Os católicos são mais ou menos tantos como os protestantes

juntos. Há, por assim dizer, 3 conferências episcopais, 2 protestantes e uma católica. Na Zâmbia sempre houve completa liberdade religiosa. Por isso, pode encontrar-se em qualquer parte a maior variedade de igrejas e de seitas, desde as mais antigas até às mais recentes. As Igrejas Protestantes juntam-se no Conselho Cristão. As Igrejas e seitas pentecostais juntam-se na Confraternidade Evangélica. E há grupos que não se juntam a ninguém, como as Testemunhas de Jeová. Com os membros do Conselho Cristão é relativamente fácil cooperar, mas muitas das seitas são anticatólicas e é impossível qualquer cooperação. A presença e a influência protestante levam-nos a pôr mais ênfase em uns aspectos do que em outros. A Igreja é muito menos ritualista e dá menos importância aos santos e às devoções. A Bíblia (a Palavra de Deus) ocupa um lugar fundamental, principalmente nas reuniões das comunidades cristãs. Por outro lado, é evidente – e as pessoas por vezes dizem-no – que o catolicismo dá mais importância à componente comunitária e às implicações sociais e políticas da fé. 6. Quanto à nossa acção pastoral, ela procura estar em consonância com as linhas pastorais diocesanas. a) As Comunidades cristãs já tinham sido iniciadas, quando nós chegámos. Temos procurado desenvolvê-las e fortalecê-las, fazendo delas o principal objectivo da nossa acção pastoral e relegando as associações (ou irmandades) e movimentos para um plano muito secundário, mesmo a clássica Acção Católica ou Legião de Maria. b) Com as Comunidades, a participação e a partilha de responsabilidades são crescentes. Não há decisão importante que possa ser tomada sem prévia discussão no Conselho Paroquial ou até nas Comunidades. E esforçamo-nos por alargar essa responsabilidade e essa participação. c) Para que isso seja possível, é necessária a formação permanente de todos aqueles que estão envolvidos na pastoral. Desde o início, essa tem sido uma das nossas grandes preocupações, com um dia semanal de formação para os líderes das Comunidades e com a organização de seminários sobre temas específicos e para grupos especiais. Este trabalho é muitas vezes feito em conjunto e

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em coordenação com as outras paróquias a nível de arciprestado. d) As Comunidades reúnem-se à volta da Palavra de Deus, para a ouvir e a partilhar. Já lá vai o tempo em que os católicos se sentiam envergonhados e eram acusados pelos protestantes de não conhecerem a Bíblia. Agora a Bíblia está sempre presente. Eles sabem encontrar passagens para todas as ocasiões e para todos os problemas. Há por vezes o perigo dum literalismo exagerado e dum fundamentalismo que só aceita o que está escrito na Bíblia. Mas um esforço constante é feito para, ao lermos a Bíblia, conhecermos a vontade de Deus no momento em que vivemos. e) Um outro aspecto da nossa pastoral é levar a uma fé atenta à vida, à realidade social; uma fé que exige compromisso, uma fé que seja uma manifestação e um testemunho do amor de Deus vivido no concreto da nossa existência. Não é suficiente ouvir a Palavra de Deus, é preciso deixar que ela questione e desafie as nossas vidas e a realidade social em que vivemos. O nosso Deus não está nas nuvens; Ele é um Deus-connosco. f) A Catequese ocupou sempre um lugar importante na nossa pastoral. Os catequistas são homens e mulheres empenhados, que sentem a necessidade de aprender. Uma boa parte dos encontros de formação das nossas paróquias são organizados pelos catequistas. Mesmo assim, precisamos de mais e melhores catequistas. Os catecismos usados na Diocese também deixam muito a desejar. g) A juventude é uma das áreas importantes mas difíceis. Procuramos que a catequese para a confirmação seja dirigida de maneira especial à juventude. A maioria das comunidades têm o seu grupo de juventude. Há, além disso, outros grupos de juventude. As actividades da juventude são coordenadas a nível de Arciprestado. Organizam-se seminários, retiros e encontros, mas precisamos de encontrar actividades mais atraentes para a juventude. Reunir-se só para rezar e ouvir a Palavra de Deus é pouco atractivo. h) O casamento e a família são também um desafio permanente. A instabilidade familiar e os divórcios estão a aumentar. É preciso preparar a juventude para um casamento que seja um compromisso de amor, vivido no diálogo e no respeito mútuo. E é preciso encorajar as famílias a renovarem

o seu compromisso de amor e a vivê-lo de maneira mais harmoniosa e feliz. Por isso, a preparação para o casamento é feita muito a sério, orientada por casais previamente preparados e com uma experiência de diálogo num amor fiel e comprometido. i) Um outro esforço constante também em linha com a pastoral diocesana é a de as paróquias serem economicamente auto-suficientes. Temos procurado viver com o dinheiro que recebemos. É suficiente para as despesas normais: comida, água, luz, imposto predial, telefone, manutenção dos carros. Mas não é suficiente para despesas extraordinárias. j) Durante estes 12 anos, não têm faltado os pequenos conflitos com grupos ou com líderes nas paróquias. Isso é normal. Umas vezes, porque não deixamos correr e nos tornamos exigentes. Outras vezes, por uma questão de afirmação de autoridade (alguns gostariam que o padre fosse simplesmente o seu empregado); ou então, por não deixarmos certos indivíduos dar espectáculo e desorganizar tudo, impondo a sua ideia, sem o mínimo de consideração pela comunidade ou pelo consenso obtido. Acontece também que por vezes os conflitos sociais se manifestam a nível de Igreja, tendo o padre como alvo visível a atacar, como aconteceu aos PP. Guedes, Castro e Carlos na Paróquia de Kamenza. É que a Igreja é o único espaço aberto à manifestação de tais conflitos. Mas depois da tempestade vem a bonança. 7. As Pequenas Comunidades Cristãs são uma experiência já com alguns anos. Na Diocese de Ndola, é uma experiência principalmente em zonas urbanas, em espaços relativamente pequenos. São comunidades de vizinhos. Isso poderia facilitar o relacionamento pessoal e uma acção mais comprometida com a realidade social em que as pessoas vivem. De certa maneira, a Comunidade substitui o clã; é como se fosse uma família, que dá apoio e protecção. Por outro lado, a relação de vizinhança está cheia de bisbilhotice e de pequenas quesílias. E isso reflecte-se na comunidade, tornando difícil ou impossível a participação de todos. As Comunidades funcionam também como uma estrutura da Paróquia. É que tudo passa por lá: a contribuição para o sustento da paróquia, assim como a inscrição das crianças para o baptismo. A catequese – ao menos para a 1ª comunhão – é dada

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na Comunidade. De certa maneira, como estruturas, as Comunidades têm que funcionar. E depois há os funerais. As Comunidades preparam, ajudam, prestam assistência, organizam a oração dão o sentido de família, dão protecção e apoio. E isso em tempo de sofrimento é essencial: o saber que não estou só, o ter alguém que partilhe a minha dor e o meu sofrimento, o experimentar a solidariedade dos irmãos. De certa maneira, são os funerais que mantêm as comunidades vivas entre estas tribos bantos. As pessoas já mostram um certo cansaço; são poucos por vezes os que participam nas reuniões das Comunidades, e a maioria são mulheres. Esta não é uma apreciação negativa das comunidades, pois elas trouxeram dinamismo, participação, compromisso e co-responsabilidade. Com elas, a Palavra de Deus tornou-se presente e actuante na vida do povo. E a Igreja deixou de ser qualquer coisa estranha e longínqua – coisa de domingo, quando se vai à missa –, para se tornar uma comunidade de fé, a nossa comunidade. Mas vê-las como a única alternativa ou como a única realidade, já é mais duvidoso. Desde o início das Comunidades, sempre houve tensões entre elas e as associações (irmandades e movimentos); e essas tensões continuam. O melhor talvez seja integrar as duas coisas, mas não é fácil e a tensão permanece. 8. Um desafio que se tem tornado mais forte nos últimos tempos é o dos Pentecostais ou “Born again” (nascidos de novo). São grupos que nascem como cogumelos e que são profundamente anticatólicos, atacando a confissão, Maria, os Santos, o baptismo que não seja por imersão... E oferecem uma experiência nova, cheia de emoção e de certezas: baptizados no Espírito e vivendo do Espírito, eles estão salvos e já não pertencem a este mundo. Eles clamam a cura de doentes e a realização de milagres – têm Deus ao seu dispor. Não são diferentes dos outros Pentecostais que andam na Europa e nas Américas. Não lhes falta dinheiro, não venham eles da América. E sabem fazer espectáculo, atraindo com a música, mesmo ao ritmo de dança, com a promessa de milagres e com uma presença emotiva que dá consolo e certeza de salvação. Muitos jovens sentem-se atraídos por eles. Atraídos pelo seu radicalismo e fundamentalismo: para eles não há meias tintas e não há dúvi-

das. Aí encontram segurança e uma forma de identidade. São nascidos de novo, pertencem ao grupo dos puros e dos salvos, já escaparam ao inferno; são iluminados pelo Espírito, são possuídos da verdade. Para eles, o importante é o relacionamento com Cristo e a certeza de estar salvos. Quanto a situações sociais de pecado em que vivemos, a fé não leva ao compromisso, é um assunto individual. Que resposta a dar a este desafio? Ao menos já nos tornámos conscientes deles e já o discutimos a nível de Arciprestado e de Diocese. O nosso trabalho com a juventude tem de ser revitalizado, usando muito mais a música, a canção, o teatro, a dança, e organizando encontros de juventude onde se facilita o encontro pessoal com Cristo e se experimenta a força e a vida do Espírito. Mas nós não podemos seguir todos os seus métodos. Não podemos anunciar uma fé individualista, descomprometida, parcial. 9. Há ainda outros desafios que se fazem sentir na hora presente. 9.1. A inculturação da fé é um desafio constante – principalmente em áreas como a adolescência, o casamento, a morte, a celebração litúrgica. Embora não sejamos peritos nesses assuntos, não os podemos ignorar e eles exigem a nossa atenção constante. 9.2. A mentalidade mágica com a crença no feitiço constitui outro grande desafio. Quando alguém morre, é preciso encontrar um culpado, muitas vezes um vizinho ou um familiar. E quando alguém tem sorte na vida, isso é devido ao uso de feitiço. Todos deviam ser iguais, com uma igualdade em que ninguém tem nada. Nisto as 73 tribos da Zâmbia, embora bastante escolarizadas, são semelhantes a todos os povos bantos.49 9.3. A Sida lança também um grande desafio à Igreja. Torna-se indispensável uma mudança de comportamento, abandonando a imoralidade que torna tão fáceis a fornicação, o adultério e a prostituição. Temos de perguntar-nos: Que impacto é que a nossa fé tem nos comportamentos das gentes? A Sida lança também um desafio à nossa capacidade de amor e de compaixão, partilhando o sofrimento dos doentes e ajudando-os na sua dor, cuidando deles e estando com eles. Temos estado atentos a estes dois aspectos a nível diocesano e

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paroquial e vamos iniciar grupos para o tratamento dos doentes em casa. 9.4. Um outro problema – a pobreza e a seca. Elas vão juntas. Quem sofre mais com a seca são as zonas rurais e os pobres. O governo procurou diminuir o impacto das suas medidas económicas concedendo a cada distrito uns milhares de Kwachas para ajudar os pobres. Em Chililabombwe, o P. Carlos faz parte da comissão que administra esse dinheiro. Em cada paróquia esforçamo-nos por conscientizar as comunidades para estarem atentas ao sofrimento dos pobres e para mostrarem solidariedade com eles. O P. Horácio mata-se para promover o desenvolvimento da periferia rural.50 10. Que importância e que impacto tem a nossa experiência na Sociedade? Somos um grupo tão pequeno e tão fora dos campos tradicionais de trabalho da Sociedade que pouca diferença faz (essa é a minha impressão). Até à última Assembleia Geral nem sequer tínhamos direito de participar. Metiam-nos na Região de Portugal. Era como se não existíssemos. Mas pensamos que a nossa experiência é uma janela aberta a um outro mundo, fora da portugalidade que, desde a criação da Sociedade, tinha servido sempre de marco de referência para a nossa experiência missionária. Por isso é que o traumatismo das independências foi tão grande. Por isso é que ainda hoje estamos com tanto medo da universalidade e do que é diferente, das outras culturas ou línguas. Em Moçambique, em Angola e no Brasil, há outras culturas, mas muitas vezes elas não eram mais do que uma sombra e a cultura que nos iluminava era a portuguesa. Daí o medo que muitos têm de aprender uma nova língua. A experiência da Zâmbia vem-nos mostrar que não é difícil nem é fácil; é simplesmente normal para gente normal. Todos nós aprendemos inglês e todos nós falamos bemba. E como nós, muitos outros. Uma língua é uma cultura – uma maneira de pensar e de sentir; é um povo – é o Outro, esse outro que tem a face de Jesus Cristo. Para nós tudo isto se tornou normal, a vida do dia a dia, a nossa missão. P. Manuel Castro Afonso

3.4. Japão – voltando ao Oriente João Paulo II proclamou que a Missão está a recomeçar e apelou aos institutos missionários que se voltem para o Oriente das grandes religiões. Ao ordenar o P. Adelino Ascenso, um especialista em diálogo religioso, a SMBN assumiu esse desafio. Escolheu Osaka, diocese onde nos acolheram os missionários do IEME. Dois anos depois seguiu outro jovem – P. Nuno Henriques de Lima. Seguimos os passos de S. Francisco Xavier nosso padroeiro. O exemplo deles despertou a vocação missionária do P. Domingos Areais, pároco de Arrifana, diocese do Porto. Depois de anos de discernimento e oração parte para Osaka na Páscoa de 2005. A saída para o Japão é um êxodo ainda mais forte do que a partida para a Zâmbia. As diferenças culturais e religiosas são muito mais profundas. Depois de 2 anos de aprendizagem da língua japonesa numa escola, o padre assume responsabilidades numa equipa pastoral que atende um bloco de pequenas paróquias onde os leigos assumem grandes responsabilidades. O desafio é encontrar um caminho para que chegue ao coração do japonês o Evangelho que Xavier levou até Kagoshima há 450 anos mas ainda é considerado estrangeiro. O diálogo inter-religioso é o caminho a seguir nesta hora. 4. A SOCIEDADE E A ANIMAÇÃO MISSIONÁRIA EM PORTUGAL O fermento missionário passa sobretudo pelo testemunho dos que o encarnam na sua vida. Os promotores da Sociedade, a começar pelos Bispos que a dirigiram nos primeiros anos, percorreram Portugal de norte a sul para abrir as Igrejas Locais para a missão. E foram pioneiros da informação e da formação. Em 1924, D. Teotónio criou O Missionário Católico que depois mudou o título para Boa Nova, revista de informação missionária. O Almanque das Missões (hoje Almanaque Boa Nova) foi criado em 1926. E a Cruzada Missionária (hoje Voz da Missão) apareceu em 1933. A propaganda não basta, é preciso formação. Nos anos 40, a Sociedade iniciou nos seminários diocesanos a criação de Círculos Missionários. Dos seus encontros anuais nasceram as Semanas

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Missionárias, um dos grandes instrumentos para encarnar o Concílio em Portugal. Para alimentar essas iniciativas com estudos sérios surgiu, em1949, a revista Volumus – hoje Igreja e Missão. A Editorial Missões tem sido há mais de 80 anos um serviço à formação da consciência missionária do país.

os que querem dar parte da sua vida aos mais carentes. Neste momento retoma o antigo trabalho de promover a formação missionária dos padres diocesanos e acolhê-los como Associados. A Igreja é por natureza missionária. Deve manifestá-la no seu dinamismo evangelizador e na sua paixão pelos pobres do mundo.

NOTAS
1 Na celebração dos 25 anos da presença em Angola, o Arcebispo de Luanda, D. André Muaca, comentou essa variedade de nomes oficiais e populares ao afirmar: Padre Albano Pedro foi um dos primeiros membros do seu Instituto que, desde a infância, eu conheci com diferentes nomes: Padres de Cucujães, Padres da Sociedade Missionária Portuguesa, Padres da Sociedade Ultramarina, etc. Folheavam o Dicionário do Evangelho de Cristo para encontrar um nome que os definisse. Encontraram-no, cinquenta anos depois: Sociedade dos Missionários da Boa Nova: acertaram em cheio. Sem minimizar os nomes dos outros Institutos de cariz tipicamente missionário, o nome de Instituto da Boa Nova é o mais antigo, o mais teológico e bíblico. Tem raízes em Isaías e em S. Lucas. (...) Toda a palavra de alívio, toda a mensagem que salva, tudo o que alimenta a esperança, é uma Boa Nova. Cristo foi o primeiro missionário da Boa Nova. (...) Que o P. Albano Pedro nos obtenha de Deus a graça da expansão da Boa Nova trazida por Cristo e da Boa Nova por que Angola aspira há trinta e quatro anos, que é a Paz. D. Eduardo André Muaca, Homilia na Celebração Jubilar, em Luanda

Rosto do 1º n.º de”O Missionário Católico” (15.8.1924)

O serviço de Promoção Missionária e Vocacional da SMBN lançou, em cada época, iniciativas para fazer os leigos participarem na Missão: Associação Nossa Senhora das Missões (1928) e Auxiliares das Missões. Desde o Concílio a Sociedade quis lançar o povo cristão para a frente da Missão. Em 1968 desafiou as Missionárias da Boa Nova (criadas para serem simples colaboradoras da missão) a tornarem-se missionárias em sentido pleno e por direito próprio. Em 1995 criou os Leigos Boa Nova como um movimento aberto a todos

2 Criado por D. João VI, a 10 de Março de 1791, o Real Colégio pertencia ao Priorado do Crato. Em 1801, a rainha D. Mariana de Áustria dotou-o com uma renda para formar Padres para a China. Fechado em 1834 por causa da extinção das ordens religiosas, foi reaberto a 8 de Dezembro de 1855 com o nome de Real Colégio das Missões Ultramarinas. Dependia do Ministério das Colónias e os reitores tinham a sua acção muito coarctada. No entanto, entre 1855 e 1911, formaram-se lá mais de 300 padres que estenderam a sua acção a imensos territórios: Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, Índia, China e Timor. “O Real Colégio criou um nome e cobriu-se de glória, e os seus missionários, mesmo sem qualquer vínculo associativo a uni-los, souberam criar entre si um real e por vezes sobranceiro espírito de grupo, que sempre os caracterizou, mas que nem sempre viria a redundar em verdadeiro benefício, quer para os próprios, quer para a causa da missionação” (P. Manuel Trindade).

O Congo, seu passado, seu presente e seu futuro, que apresentou à Sociedade de Geografia de Lisboa, em Março de 1889, publicado no Boletim da mesma Sociedade, de 1888-1889. Foi o primeiro Bispo de Vila Real e de Aveiro (restauração da Diocese), primeiro Superior Geral da Sociedade, abriu o caminho para a instalação dos institutos missionários religiosos em Portugal, trabalhando para a instalação em Portugal dos Missionários da Consolata (o primeiro instituto a entrar depois do Acordo Missionário).
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Paróquias fundadas de raiz Paróquias assistidas Colégios fundados de raiz Seminários fundados de raiz Seminário assistido Escolas de Professores Lar (de S. José) 8 5 4 2 1 2 1

5 Reorganizou o Seminário de Luanda (1909), instituiu a Obra das Vocações e dos Seminários de Lisboa (1916), criou o Seminário das Missões no convento de Cristo, em Tomar (1921), pôs a funcionar o Seminário Menor de Vila Real, em Poiares (1926), construiu e pôs a funcionar o Seminário de Vila Real (1930), pôs a funcionar o Seminário de Santa Joana Princesa, em Aveiro (1939), preparou a restauração do Colégio de Calvão para ser seminário (1960), construiu o novo seminário de Santa Joana Princesa.

Entre os principais anotamos: O Symbolo dos Apóstolos, Coimbra, 1901 (295 p), Synopse de Teologia Moral, 2 vol. Coimbra (1902-1903), Esplendores do Sacerdócio, Coimbra, 1905 (303 p), Theologia para Todos I, Coimbra, 1908 (415 p), Lições da Natureza e dos Homens, Coimbra, 1914 (XI + 362 p), Por Terras de Angola, Coimbra, 1916 (487 p), D. Teresa de Saldanha e as suas Dominicanas, Cucujães, 1938 (519 p), O meu Diário de Viagem, ed. póstuma, Aveiro, 1967 (254 p).
7 As mais emblemáticas são talvez a Sopa dos Pobres (Lisboa, Vila Real, Cucujães, Aveiro) e a que se dedica às crianças abandonadas ou vítimas de abuso sexual e que chamou Florinhas da Rua, Lisboa, 1918; Florinhas da Neve, Vila Real, 1927; Florinhas do Vouga (Aveiro, 1939).

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8 Lima Vidal no seu Tempo, III Vol., p. 334, ed. da Junta Distrital de Aveiro, 1974.

9 Na Arquidiocese de Nampula, a Sociedade Missionária fundou, de raiz, 12 Missões: Mutuáli, em 1938; Meconta, em 1941; Murrupula, em 1947; Iapala, em 1954; Micane, em 1954; Corrane, em 1964; Iulúti, em 1965; Malema, em 1965; Lalaua, em 1967; Nataleia, em 1969; Momola, em 1969; e Chalaua, em 1969. Fundou a Paróquia de Malema, em 1971. Prestou assistência a quatro paróquias: Paróquia da Catedral, em 1942; Paróquia da Ilha de Moçambique, em 1946; Paróquia de Angoche, em 1946; Paróquia de Nacala-Porto, em 1978. Assistiu também às 7 Missões seguintes: Malatane, em 1946; Mecutamala, em 1950; Namaponda, em 1965; Caramaja, m 1969; Namaíta, em 1969; Marrere, em 1969; Luázi, em 1973. Fundou, de raiz, 3 Colégios: Colégio Vasco da Gama, de 1952 a 1963, em Nampula; Colégio de S. João de Brito, em Angoche, de 1966 até à independência; Colégio de Santa Maria, de Malema, de 1971 a 1975. Foi-lhe confiado o Seminário Diocesano, desde 1959 até 1975. Foi-lhe confiada, igualmente, a Escola de Professores, Marrere, desde 1969 a 1974, inclusive. Fundou o Lar de S. José, em Momola, em 1969.

12 O primeiro que seguiu D. José foi o P. Luís Filipe Pereira Tavares, dois dias mais velho que ele, também anteriormente missionário na diocese de Nampula, de 1946 a 1954. Deixou a direcção do probandato, em Cucujães, antes do fim do ano, para vir para esta diocese, no meio de 1957, da qual foi governador na ausência do Bispo, de Agosto a Novembro do mesmo ano; superior pró-regional desde Outubro e depois regional, primeiro reitor do Seminário Menor do Maríri e superior da missão. Em 1964 foi a férias e ao primeiro Capítulo Geral. Ficou em Portugal. No mesmo ano de 1957 vieram os Padres Joaquim Antunes Lopes Valente, António Tavares da Silva e Aníbal dos Anjos João e o Ir. Messias Gama. O P. Valente, de 31 anos, licenciado em Direito Canónico (o primeiro da Sociedade Missionária), foi secretário da diocese, várias vezes governador, vigário-geral e o director do colégio de S. Paulo, hoje escola secundária e pré-universitária de Pemba. Foi delegado à Assembleia Geral de 1974. Regressou a Portugal a 24 de Março de 1975. O P. Aníbal começou pelo Seminário do Maríri. De 1959 a 1969 foi superior e o construtor da missão de Macomia. De 1969 a 1974, foi reitor do seminário maior de S. José de Pemba. A seguir for superior da missão de Metoro, donde regressou a Portugal em 1975. O P. Tavares da Silva também começou pelo Maríri e foi o director da escola de professores-catequistas. Regressou a Portugal em Novembro de 1975, com a saúde abalada. O Ir. Messias, de 41 anos, trabalhou nos serviços domésticos e agrícolas do seminário do Maríri e da missão de Macomia desde a primeira hora. Em Macomia começou os apontamentos de línguas regionais, a que tem dado todo o tempo disponível desde 1979. Em 1968-69, trabalhou no seminário maior de Pemba e depois voltou para Macomia. Desde o fim de 1972 esteve no Metoro e depois em Ocua até 15 de Dezembro de 1978. Esteve na paróquia de Maria Auxiliadora de Pemba, desde então até 1987, várias vezes como substituto, e desde Maio de 1994. De 1987 a 1994 esteve no Chiúre.

10 Na Diocese de Porto Amélia, a Sociedade Missionária, através do seu Bispo, D. José dos Santos Garcia, fundou, de raiz: 2 Seminários diocesanos; 1 Colégio Diocesano e 1 Escola de Professores (no Chiúre). Fundou, também de raiz, a Paróquia de Maria Auxiliadora, na cidade, em 1962 e 6 Missões: Macomia, em 1959; Metoro, em 1963; Ocua, em 1967; Metuje, em 1967; Mieze, em 1969; e Mocímboa da Praia, em 1981. Foram-lhe confiadas as Missões: Maríri, em 1957; e Chiúre, em 1960.

11 Em síntese, o trabalho de estruturacão missionária realizado pela Sociedade Missionária para a irradiação do Evangelho entre 21.04.37 (com a chegada dos nossos missionários a S. Paulo de Messano) e a independência de Mocambique – num período de 38 anos – apresenta os seguintes resultados: Missões fundadas de raiz 25 Missões assistidas 12

13 Em 1958 vieram os Padres António Tavares Martins, Francisco Mayor Sequeira e Manuel Paulo Lopes, e o Ir. José Lopes. O P. Tavares Martins trabalhou no Maríri, onde foi construtor e reitor, até 1964, em que saiu doente. De 1965 a 1970 foi professor no seminário maior e professor e subdirector do colégio de S. Paulo. Ficou em Portugal nas férias de 1970. O P. Sequeira trabalhou no Maríri (onde depois foi reitor interino), foi superior da missão do Chiúre desde 1960, onde construiu a escola doméstica. Delegado à segunda Assembleia Geral, foi, a seguir, superior regional até à terceira Assembleia. Em 1973 e 1974 foi pároco dos colonatos da área de Montepuez-Balama. Em 1974 ficou na Direcção Geral. O P. Paulo trabalhou no Maríri. Tinha 28 anos. Desde 1959, esteve na missão de Macomia, superior (pároco) desde 1969. Homem do povo, “é dono da língua” maconde. Foi secretário da diocese alguns meses, em 1964-65. Animou, de Pemba, a paróquia de Macomia de 1978 a 1992. Foi pároco de Maria Auxiliadora de 1985 a 1988, e várias vezes substituto. O Ir. José Lopes, de 37 anos, já tinha trabalhado na diocese de Nampula de 1949 a 1958. Trabalhou no paço episcopal até 1966, ano em que foi de férias e ficou em Portugal.

14 Em 1959 veio o P. Ambrósio Nunes Ferreira, licenciado em História da Igreja. Foi reitor do seminário maior, que principiou no Maríri, por desenvolvimento do seminário menor, e em 1961 foi

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transferido para Pemba. Em 1964 foi delegado ao primeiro Capítulo Geral e, depois, superior regional até ao segundo Capítulo, em 1968. Após este, ficou em Portugal. Em 1960 vieram os Padres António Rodrigues Pereira e Martinho Joaquim de Castro e Silva e o Ir. Domingos Augusto Marques. O P. Rodrigues Pereira começou pelo seminário do Maríri; em 1964 foi para Macomia e depois para a escola de professores do Chiúre; em 1965, para o seminário maior de Pemba; foi encarregado pastoral da área do Metuge, Murrébue e Mecúfi, criando-se, em 8 de Dezembro de 1967, a paróquia-missão do Metuge, depois substituída pela missão do Mieze, onde ele começou a construção da capela-escola e derrubou mata para agricultura. Em 1972 foi para a missão do Chiúre, onde gastou parte do seu património na construção de capelas; em 1975, para o Metoro, onde se dedicou a visitar as comunidades cristãs e as cooperativas agrícolas. Preso em Macomia no fim de Setembro de 1978, e depois no Metoro, foi mandado para o Maputo e expulso de Moçambique em Dezembro desse mesmo ano. O P. Martinho foi secretário da Diocese, prefeito e professor no seminário maior de Pemba, até 1964, professor no seminário do Maríri, professor na escola de professores em 196667, professor no seminário maior em 1967, donde saiu para Portugal com problemas de saúde, tendo depois sido nomeado para a região de Nampula. O Ir. Domingos, missionário na diocese de Nampula de 1944 a 1956, foi o construtor do Maríri depois do P. Tavares Martins, da escola de Professores-catequistas do Chiúre (com a colaboração de mestres assalariados), das residências do Metoro, Ocua e Mieze e das escolas com capelas do Metoro e Ocua, e director das oficinas do Maríri. No mesmo ano de 1961, veio o P. António do Carmo Ribeiro. Trabalhou no Maríri, no Chiúre, algum tempo no seminário maior e novamente no Maríri como director espiritual e professor, até 1969. Bom caçador de leopardos e não só. De 1970 a 1972 esteve na missão de Ocua, donde saiu para o Brasil com a saúde muito abalada. Em 1962 vieram os Padres José Lourenço Baptista, Domingos Carvalho e Manuel Norte. O P. Baptista, missionário na diocese de Nampula de 1938 a 1947, foi secretário da diocese, professor no seminário do Maríri, e no de Pemba de 1969 a 1974; depois, na escola de professores do Chiúre, e na escola secundária de Pemba, de 1977 a 1980. Foi encarregado da paróquia de Maria Auxiliadora em 1977-78. Regressou a Portugal a 22 de Fevereiro de 1987. O P. Domingos foi o pároco de Maria Auxiliadora, criada a 8 de Dezembro de 1962, e director espiritual e professor no seminário maior, até 1975, em que foi a férias e ficou em Portugal. O P. Norte trabalhou no seminário do Maríri e, desde 1964, no Chiúre. Foi o primeiro superior residente da missão do Metoro, desde 1969. Em 1974 foi a férias e ficou em Portugal. Voltou em Abril de 1994 e ficou na comunidade do Chiúre, pároco do Metoro e depois das três paróquias do Chiúre, Metoro e Ocua. Em 1963 veio o P. Manuel Ramos dos Santos. Trabalhou no seminário do Maríri, com alguns meses em Macomia, e novamente no Maríri. De 1971 a 1975 foi superior da missão do Mieze, que organizou e melhorou, dedicando-se também à agricultura. Preso, duas vezes pela Frelimo pouco depois da proclamação da independência, foi expulso em Novembro. Em 1964 vieram os PP. António Ramos Antunes Martins, Moisés dos Santos Morais, António Gonçalves e José Marques Gonçalves. O P. António Ramos, missionário na diocese de Nampula de 1956 a 1963, foi reitor do seminário do Maríri em 1964-65, depois capelão militar até 1969. De Portugal foi enviado para a diocese de Nampula. O P. Moisés, missionário na diocese de Nampula de 1956 a 1963, foi professor no seminário maior, escola comercial e colégio de S. Paulo; secretário da diocese desde Fevereiro de 1965; director espiritual e professor de 1971 a 1975; 1.º Assistente regional
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desde 1968, substituiu o Superior regional; 2.º Assistente desde 1975; vigário geral da diocese, depois de ser secretário, desde 1975; pároco de Maria Auxiliadora desde Abril de 1977. Faleceu no Maputo, depois de uma intervenção cirúrgica, a 12 de Dezembro de1977. O P. Gonçalves trabalhou no seminário maior, na secretaria da diocese em 1970 e de 1971 a 1975, em Mocímboa da Praia de 1976 a 1978 e de 1981 a 1987, colaborando nas paróquias de Mueda, Nangololo e Macomia sem padres residentes. Além dos quase 3 anos em que não foi permitido a nenhum padre, irmão ou irmã estar fora de Pemba, durante cerca de 2 anos foi o único a deslocar-se ao norte desta cidade, com as irmãs da Consolata, e 8 meses sozinho, sempre ligado à comunidade de Pemba. Esteve no Chiúre de Junho de 1987 ao Natal de 1993, e desde então na paróquia de Maria Auxiliadora, com colaboração à Diocese e ao seminário maior. P. J. Marques foi prefeito e professor no seminário do Maríri, reitor de 1965 a 1968. Esteve no Chiúre e, desde 1969, em Ocua, primeiro padre residente. Em 1973 foi pároco dos colonatos do lado de Montepuez e depois superior da missão do Maríri e professor no seminário. Voltou para Ocua, até à expulsão geral de 1978. De 1979 a 1983 foi professor das escolas secundária e comercial de Pemba. Primeiro Assistente regional desde 1980, substituiu o Superior regional de 1985 a 1987. Em 1982-83 foi director do secretariado diocesano de pastoral. Em 1983 voltou ao Chiúre, vivendo na sacristia da nova igreja, com as paróquias de Ocua, Chiúre e Metoro. Com a vinda das missionárias da Boa Nova para Ocua, em Outubro de 1984, passou a residir lá habitualmente. A 19 de Janeiro de 1997 foi para a formação no Lar-seminário da Matola.
16 Em 1965, veio o P. Américo de Oliveira Henriques, de 31 anos. Foi prefeito e professor no seminário do Maríri e, de 1969 a 1971, no de Pemba. De lá foi para o Metoro e, em 1974, para Ocua. Desde Abril de 1975, foi pároco de Maria Auxiliadora de Pemba e professor na escola comercial. Em Abril de 1977 foi expulso de Moçambique, por demasiada simpatia com os jovens. Em 1966 vieram os Padres Casimiro dos Anjos Galhardo João e o Ir. José Maria Godinho. O P. Casimiro, de 27 anos, trabalhou na escola de professores até 1973, ano em que foi superior da missão de Ocua. Em 1979 foi para o Brasil. O Ir. Godinho, de 30 anos, trabalhou no paço episcopal. De 1969 a 1972 trabalhou no seminário de S. José. Voltou para a secretaria da diocese. Em 1976 trabalhou no Metoro. Em 1978, na paróquia de Maria Auxiliadora, até agora, onde é administrador da casa e procurador do Chiúre-Ocua, administrador da Cáritas diocesana desde 1973, ecónomo da Diocese desde 1995, tesoureiro da igreja desde 1996. Em 1967 vieram os Padres Policarpo dos Santos Afonso Lopes e Manuel dos Santos Neves e o Ir. António Lopes. O P. Policarpo, a completar 27 anos, trabalhou no seminário do Maríri, onde foi reitor de 1969 a 1973. Foi a férias e fazer um curso universitário, escolhido pela região, à qual não voltou. O P. Neves começou pela missão do Chiúre. Em 1969 foi encarregado do secretariado diocesano de pastoral e de organizar as comissões diocesanas. Trabalhou muito na investigação, sobretudo da vida africana regional. Em 1971 foi para Ocua, onde continuou a mergulhar nos costumes do povo e defendeu os despojados. Em 1973 foi a férias, em 1974 foi delegado à Assembleia Geral, após a qual ficou em Portugal. Começou no tempo dele o Boletim Informativo da Diocese, por decisão da Conferência Episcopal, que se manteve, aumentado e regular, até à saída de D. José. Depois, irregularmente, até agora. O Ir. António trabalhou em Macomia. De 1969 a 1975, no paço episcopal, voltando para Macomia, onde procurou ajudar o povo na agricultura. Expulso com os outros, em 2 de Dezembro de1978, foi

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tou para Portugal. O P. José António, de 35 anos, trabalhou no Maríri, onde foi ecónomo desde 1973. De 1975 a 1980 foi o primeiro Assistente regional e, em 1980, Superior regional. Desde 1975 ensinou na escola industrial e comercial de Pemba. Desde Março de 1978 a Outubro de 1980, e de 1982 a 1985, foi pároco de Maria Auxiliadora. Em 1980 foi delegado à Assembleia geral. Foi nomeado director espiritual da Diocese. Saiu de Pemba em 1985 e, depois da Assembleia Geral em 1986, ficou em Portugal. Em 1974 vieram os Padres Amadeu Pinto de Oliveira e Libério de Sousa Pereira. Foram os primeiros a fazer o curso de inserção no centro catequético-pastoral do Anchilo-Nampula. O P. Amadeu, de 30 anos, foi professor no seminário maior e no colégio de S. Paulo. Depois do curso no Anchilo, em princípios de 1975, foi para o Chiúre, onde foi superior da missão. De Dezembro de 1978 a 1982 esteve em Pemba, com os outros. Foi a férias e ficou em Portugal. O P. Libério, de 31 anos, ensinou na escola de professores do Chiúre. Depois do curso do Anchilo, esteve em Macomia, desde Junho de 1975. Em Fevereiro de 1977 foi ajudar o P. Gilberto, diocesano, na missão de Meza, onde acabou por ficar só, com as irmãs da Consolata. De Dezembro de 1978 a Novembro de 1980, esteve em Pemba, donde foi para a diocese de Nampula (1980-93), à procura de ambiente mais favorável à oração. Voltou ao Chiúre em Novembro de 1993, onde foi pároco, e em Janeiro de 1997 voltou para o Mutuáli. Desde 1975, viveu connosco, na paróquia de Maria Auxiliadora, Francisco Baptista de Brito Apolónia, de 34 anos, antigo seminarista dos Olivais. A 16 de Abril de 1978 fez o juramento, mas não foi a sério. A 2 de Julho foi para Portugal e não se integrou na Sociedade. O P. Álvaro volta para Fumane, onde fica com P. Benjamim. P. Julião vai para Chissano substituir P. Celso, que é chamado a Portugal. P. Alves em Maputo é nomeado Pró-Regional. P. Aquiles, vítima de doença grave, regressa a Portugal, sendo substituído pelo P. Cristóvão, que começa a sua experiência missionária no Chibuto. Aprende a língua em pouco tempo devido a uma tenacidade que ficou célebre. P. Antunes substitui P. Aquiles no Chibuto. Chega P. Ernesto Pereira que vai para Fumane, saltando P. Benjamim para Chissano ajudar P. Julião. Em 1963 chega o P. Serafim. P. Cristóvão vai tomar conta da Missão do Alto Changane, já criada em 1960, e confiada aos Padres de Fumane, e leva consigo o recém-chegado P. Serafim. Na Arquidiocese de Maputo, a Sociedade Missionária fundou, de raiz, as seguintes 6 Paróquias: Bairro do Fomento, em 1968; Malanga, em 1971; Nossa Senhora da Esperança (Aeroporto), em 1972; Mavalane, em 1973; Moamba, em 1984; e Sabié, em 1984.
21 Na diocese de Xai Xai, a Sociedade Missionária fundou, de raiz, 7 Missões: Chissano, em 1951; Fumane, em 1955; Alto Changane, em 1960; Mahuntsane, em 1966; Maniquenique, em 1966; Bilene, em 1970; Macia, em 1970. Foram-lhe confiadas três Missões de fundação antiga: S. Paulo de Messano, criada em 1901 e ocupada em 1937; Sagrado Coração de Jesus do Chibuto, criada em 1902 e restaurada em 1955; Sta. Rita de Viterbo da Malehíce, criada em 1909 e ocupada pelos nossos, sem data. 20 19 18

a férias e, de regresso, ficou no Maputo, como procurador da região de Pemba. Em 1968 vieram os Padres José Alexandre da Conceição Nunes, António Augusto Rodrigues Amado e Joaquim Lourenço Farinha e o Ir. Manuel da Conceição Lopes. O P. José Alexandre, de 25 anos, foi director espiritual, prefeito e professor no Maríri; em 1972 foi prefeito e assistente na escola de professores; de 1973 a 1974 foi para a missão de Macomia e voltou para a escola de professores. De 1978 a 1981 foi professor nas escolas secundária e comercial de Pemba. Segundo Assistente regional em 1980, substituiu o Superior regional em 1975. Secretário da Diocese de 1981 a 1983. No Chiúre de 1984 a 1987: pároco do Metoro, professor, encarregado das obras e da economia. Foi a férias em 1987, estudou um ano em Madrid e ficou em Portugal. Em Novembro de 1991 voltou para a diocese de Nampula. O P. Amado, de 28 anos, foi prefeito e professor no Maríri, reitor em 1973-75. Ensinou na escola secundária de Pemba em 197576. Em Dezembro de 1976 voltou para Portugal. O P. Farinha, de 26 anos, foi professor do seminário maior. Desde Agosto de 1969 foi professor no seminário do Maríri, ecónomo desde 1971. Faleceu a 19 de Junho de 1973, por explosão acidental de uma granada. Está sepultado no Maríri. O Ir. Manuel Lopes, de 25 anos, trabalhou na missão do Chiúre. Desde Março de 1974, praticou mecânica na oficina da Diocese. Regressou a Portugal a 11 de Dezembro. Em 1969 vieram os Padres Cândido da Silva Coelho Ribas e João Baltar da Silva. O P. Ribas, de 27 anos, trabalhou na missão do Chiúre, onde foi superior. Foi a férias em Julho de 1975 e não foi autorizado a regressar. O P. Baltar, de 25 anos, foi professor e director espiritual no Maríri. De 1971 a 1974 foi capelão militar na Guiné, voltando a Moçambique em Novembro de 1974. Superior da missão do Metoro, superior regional de 1975 a 1980; pároco de Maria Auxiliadora, ensinando na escola primária e depois na secundária e na comercial. Em 1982 foi a férias e ficou em Portugal. Voltou em Janeiro de 1987, ficando novamente na paróquia de Maria Auxiliadora, de que foi pároco desde o Natal de 1988 a Outubro de 1993. Tomou muitas iniciativas, abriu centros comunitários nos bairros, começou a construção do centro do Alto Jingone e assistiu os refugiados da Mucharra, na área da paróquia do Mieze. Em Outubro de 1993 foi a férias e quedou-se pelo Sul. Em 1970 vieram o Padre Luís Marques Ribeiro e os Irmãos João Gonçalves e António Marques Janela. O P. Luís Marques, de 27 anos, veio substituir o P. Tavares Martins no colégio de S. Paulo, onde foi professor e subdirector. Voltou a Portugal a 25 de Março de 1975. O Ir. João, de 41 anos, trabalhou no Metoro até Julho de 1972, no Mieze até aos fins de 1975, e em Macomia em 1976-77. Foi a férias, doente, e ficou em Portugal. Voltou em Novembro de 1983. Ficou em Pemba, em situação pouco definida. Em Dezembro de 1984 foi para o Chiúre e, em Setembro de 1985, voltou para Pemba. Depois de meio ano na Namaacha, voltou para o Chiúre em Outubro de 1987. O seu trabalho é a agricultura doméstica, que em alguns anos alargou substancialmente. Dá grande contributo à sustentação dos companheiros e é objecto de interrogação do trabalho. O Ir. Janela, de 28 anos, trabalhou no Maríri, em 1975 no Metoro, em 1976 na casa diocesana, em 1977 fora, com residência em Maria Auxiliadora. Em 1978 foi para Nampula, onde deixou a Sociedade. Em 1972 vieram os PP. Joaquim Faria Simões e José António da Silva Carvalho. O P. Faria, de 28 anos, trabalhou na escola de professores e depois no colégio de S. Paulo. Em Abril de 1975 vol17

O P. João Almendra fez dois mandatos, governando até à Assembleia Geral de 1998. Foi eleito Vigário Geral da Sociedade, mas a doença impediu-o de assumir. Foi substituído pelo P. António da Rocha Couto no cargo de Vigário Geral. Em Moçambique foi eleito Superior Regional para os anos de 1998-2004 o P. Valdemar Dias, de Nampula. E o P. Albino Valente dos Anjos, de Pemba, foi eleito em 2004.

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23 A Igreja de Moçambique determinou que os candidatos a padre devem fazer no seminário um curso propedêutico de três anos que pode iniciar com o décimo ano.

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24 O primeiro aluno de teologia foi o jovem Ambrósio da Fonseca Inteta, de Malema, diocese de Nampula. Ele estudou no Interdiocesano de Nampula, no Seminário de Filosofia da Matola, fez o Ano de Formação na Matola e o Estágio Intermédio de Formação Missionária em Caraí, em Minas Gerais, e estudou a Teologia em Belo Horizonte. Ordenado presbítero em Malema, voltou ao Brasil onde é Pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Nova, arquidiocese de Belo Horizonte.

32 Última paróquia a ser deixada pelos franciscanos holandeses, ficou à responsabilidade do P. Alfredo Moreira desde 1994, coadjuvado, mais tarde, pelo P. Carlos Correia. Tem sido um campo de estágio dos seminaristas da SMBN. 33 Formadores sucessivos nessa casa: Padres Fernando Eiras e Mamede Fernandes. Nessa casa estudaram teologia os padres Anisberto Bonfim da Silva (da SMBN, ordenado em 1994 ) e Francisco Fernandes de Oliveira (da Diocese de Belo Horizonte), ambos naturais do Cafezal, Umuarama, Paraná e o P. António Augusto Mondoni (de Santa Bárbara do Oeste, S. Paulo, ordenado em 1995).

Como Instituto somos um sinal da vocação missionária e universal da Igreja. O alargamento da nossa acção a outros campos fora do Ultramar tornará mais visível o carácter específico da nossa vocação: ir aos outros, aos de longe, aos que estão fora. A Sociedade aparecerá como um Instituto mais aberto, mais disponível, mais universal e, portanto, mais ‘missionário’. A maior variedade de campos de acção significa também um acréscimo de experiência que muito valorizará o Instituto. Propõe-se que num futuro muito breve sejam enviados alguns missionários para o Brasil (Actas da II Assembleia, pg. 13 e 14).
26 Coordenação de Pastoral: P. Manuel de Matos Bastos (1970 a 1974 e 1980 a 1987), P. Manuel Trindade (1975 a 1980); Pastoral da Juventude: P. João Francisco da Silva Mendes (1970 a 1973); Comunidades Rurais: P. M. Jerónimo Nunes (1970 a 1987); Pastoral Familiar: P. António Mamede Fernandes.

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34 Além dos citados na nota anterior que ali fizeram o último ano de teologia, estudaram nesta casa os padres João de Deus Cavalcanti, José Adauto dos Santos Silva (ambos de Chapadinha, Maranhão), P. Luís Carlos Gomes da Silva (de Paranhos, Mato Grosso do Sul), Bernardo (natural de Santa Quitéria e incardinado em Sete Lagoas), Sebastião Luís Gonçalo (de três Corações, diocese de Campanha, onde está incardinado), Raimundo Ambrósio Inteta (de Malema, Nampula, Moçambique) e o Diácono Isidro Albino José (de Benguela, Angola)

35 Colaboraram normalmente os padres que se dedicaram à formação na Comunidade Boa Nova: padres Júlio Gamboa, Justino Maio Vicente, Kaquinda Dias, Alberto da Fonseca Prata, Pedro Correia, António Martins, Anisberto Bonfim, António Antunes e Manuel Ramos

27 Além dos citados na nota anterior, viveram em Teófilo Otóni os padres: António Mamede Fernandes, Joaquim Patrício da Silva Mendes, António Julião Valente, Manuel Silva e António Tavares da Silva.

36 Na equipa de Vargem Grande trabalharam os PP. Mamede, Joaquim Patrício, Laurindo Neto, Fernando Eiras, Tavares da Silva, Manuel Bastos, Manuel Trindade que, sendo Superior Regional de Minas-Maranhão, Pároco de Vargem Grande e Vigário Geral da Diocese, faleceu a 23 de Julho de 1995 em Belo Horizonte, quando participava no V Encontro Latino-Americano de Missões (COMLA V). Estas paróquias foram entregues à diocese pelos PP. Fernando Eiras e Laurindo Neto, em 2001.

Trabalharam em Novo Cruzeiro (1976-...): P. Alfredo Moreira, Irmão António Cipriano, e os padres A. Rodrigues Pereira, Manuel Silva, Joaquim Patrício, Justino Maio Vicente, Alberto Fonseca Prata, Ir. Macário de Oliveira Guedes e o P. Fernando Eiras.
29 Além da evangelização e da formação de comunidades, a paróquia apoiou muito a organização dos lavradores e apoio aos migrantes do corte de cana de açúcar. Em 1988, oitenta famílias de sem-terra ocuparam a fazenda Aruega, há muito abandonada, e começaram a plantar. O dono declarou-a área ecológica para preservar bichos do mato. Mas o povo que estava com fome garantiu a prioridade à vida das famílias humanas. Só 30 puderam ficar, mas as restantes conseguiram, das autoridades e pessoas amigas, um pedaço de terra no município vizinho de Itaipé.

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P. Neves, eleito para a Direcção Geral em 1990, não foi substituído. Em 1995, o P. Neves voltou, mas para substituir o P. Casimiro que assumiu a Animação Missionária em Portugal. Mas as obrigações pastorais continuaram as mesmas (excepto em Urbano Santos onde está um padre diocesano). Missionaram nesta Paróquia, além do P. Albano, os PP. Adelino Fernandes Simões, António Tavares Martins, Manuel Armindo de Lima, Orlando Martins e Delfim Pires e Irmão João Balau,. Destes passaram já para a vida eterna o P. Albano e o P. Lima. O primeiro veio a falecer no Hospital Américo Boavida; o segundo foi morto violentamente quando, com um grupo de catequistas, se dirigia a anunciar a Palavra de Deus à área do Bita. Era o dia 03.02.1982. Tinha só dois meses de vida missionária em Angola. Jaz no cemitério de Viana. O primeiro missionário da Sociedade que entrou nesta Missão foi o P. Francisco Fernando Martins das Eiras, que nasceu em Malanje, Angola, filho de transmontanos. Chegou ao Dúmbi nos primeiros dias de Janeiro de 1971. No seu curto tempo de permanência no Dúmbi, o povo chamava-lhe o Kameme, o Cordeiro, pelo seu temperamento pacífico e acolhedor. Em breve viria a ser o primeiro Pároco que a Sociedade teve no Seles. Hoje trabalha no Brasil. A equipa missionária que empenhou a Sociedade no Dúmbi foram os Padres Manuel Fernandes, ex-Superior Geral e propositadamente transferido de Moçambique (chega ao Dúmbi aos 25 de Março do mesmo ano de 1971). A 13 de Outubro o jovem P. Augusto
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30 Em 1976, a primeira equipa foi constituída pelos padres José Nuno de Castro e Silva e José Alves. Depois vieram sucessivamente os padres Júlio Gamboa, Fernando Eiras e Manuel Silva (por doença, deixou a paróquia em 2002). O P. Nuno continua até hoje em Berilo onde realizou já notável obra evangelizadora na formação de comunidades e líderes, defesa dos direitos dos pobres, luta contra o barbeiro e a favor dos doentes chagásicos, construiu escolas, serviço de água em comunidades rurais, restaurou a Igreja do século XVII, construiu uma nova e um centro catequético.

31 Lá têm trabalhado, desde 1989, os Padres Fernando Eiras, Alfredo Moreira, A. Rodrigues Pereira, Júlio Gamboa.

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45 Padres angolanos na SMBN, origem e data de ordenação: Eduardo Daniel, Wako Kungo, Sumbe, 21.05.1994; Kaquinda Dias, Seles, Sumbe, 13.05.95; António Sebastião Kusseta, Seles, Sumbe, 21.04.2001; Diácono Isidro Albino José, Benguela, 10.10.2004. 46 Os formadores: P. José António Carvalho, Reitor desde o início, e os formadores: Aníbal Morgado, António Valente, João de Deus Lopes Cavalcanti, Manuel Fernandes, Eduardo Daniel.

Farias, ordenado nesse ano, completou a equipa. No ano seguinte o P. Fernando foi transferido para o Seles e a equipa em Outubro recebeu outro jovem recém-ordenado, o P. Aníbal Fernandes Martins Morgado, que já fez 30 anos em Angola. 40 Trabalharam aqui P. Fernando Eiras, P. Laurindo Neto, P. Armindo Alberto Henriques, Padres Manuel Fernandes e Aníbal (inicialmente ligados ao Dúmbi); P. António Valente Pereira, Irmão Artur Augusto Paredes e P. José da Silva Mendes. O primeiro sacerdote que a Sociedade apresentou como Pároco foi o Senhor P. Albano. Ali trabalharam sucessivamente: o P. José Mendes deu um apoio especial à juventude, então muito controlada para receber formação marxista, e veio a ser o responsável pela pastoral juvenil a nível arquidiocesano; o P. Viriato Augusto de Matos dedicou-se às estruturas materiais, tais como as da futura Paróquia do Golfe e a Capela do Palanca; o P. Agostinho Alberto Rodrigues deixou óptimas recordações nesta comunidade; P. Orlando Augusto Martins, actual Pároco, substituiu o P. Viriato e empenhouse na formação integral e escolar, e é o Vigário Episcopal para o ensino católico. Tem como colaborador o P. António Frazão. Foi esta Paróquia a casa de acolhimento de todos os membros da Região. Foi como que a nossa casa-mãe nestes anos de guerra. Por aqui também passaram o P. Couto e alguns finalistas do Seminário de Valadares. E nesta Paróquia foram então acolhidos os dois primeiros aspirantes angolanos da Sociedade, vindos do Quanza Sul, hoje Padres Eduardo Daniel e Kaquinda Dias. O formador era o mesmo P. Albano. Veio a falecer no dia 31.01.1989. Era Vigário Geral da Arquidiocese. Multidão de gente quis acompanhar o seu funeral até ao cemitério de Santa Ana, onde jaz. As Irmãs que aqui se dedicam à pastoral são as da Companhia de Santa Teresa, cujo apoio e estreita união com os missionários muito tem ajudado, desde a primeira hora, nos diferentes campos da pastoral, nomeadamente catequético, juvenil, sanitário e escolar. 42 P. Farias tomou pois como prioridade levar os leigos a um apostolado empenhativo. Em 1983 veio o Irmão João Balau e o P. António Ramos, vindo do Zimbábwe. Em 1986 o P. Farias foi eleito para a Direcção Geral. O P. Delfim foi solicitado para substituir o P. Farias, ficando também como Director do Secretariado Diocesano de Pastoral. Entretanto o P. Artur de Matos veio por dois anos.
43 Em 1975, as Paróquias de Seles e Cassongue ficaram sem missionários. Pelo ano de 1980 regressaram as Missionárias Dominicanas do Rosário. Foi então que a Sociedade Missionária colocou lá o P. Cândido da Silva Coelho Ribas e o primeiro Membro Associado, o P. Delfim Pires, do clero diocesano da Guarda. Cerca de um ano depois, P. Ribas abandonava o ministério sacerdotal. Foi nomeado Pároco o P. Delfim e foi transferido do Seles o P. Aníbal, simultaneamente o Superior da Missão do Dúmbi, cujos cristãos se haviam espalhado também muito pela área do Waco Kungo. O P. Delfim, num autêntico diálogo que sempre soube manter com os catequistas, deu início ao que se chamou “Catecismo da Mamã”, também conhecido como “Catecismo para todos” e que muito se divulgou em toda a Diocese. Cerca de meio ano depois, o P. Aníbal regressou ao Seles. Foi para o Waco o P. António Valente Pereira. 41

47 Em 1983, chegou o P. Manuel Norte que, depois do curso de 4 meses de Bemba e de adaptação pastoral em Ilondola (uma das missões dos Padres Brancos, no norte do país), tomou conta da Paróquia de Konkola. Mais tarde, no mesmo ano, chegou o P. Carlos Manuel Farinha Gabriel. Depois do curso em Ilondola, substituiu o P. Guedes e, depois, o P. Castro, durante as férias. Finalmente, em 1985, chegou o P. Horácio José Botelho Pereira, que também fez o curso de Ilondola.

48 O Lamba é parecido com o Bemba e a maioria dos Lambas falam uma mistura de Lamba e de Bemba. Os primeiros evangelizadores dos Lambas foram os Baptistas. Foram eles que traduziram a Bíblia em Lamba. Embora haja 5 missões rurais em terra lamba na diocese de Ndola, a Igreja Católica não tem prestado muita atenção à cultura lamba, fazendo toda a sua pastoral em Bemba. Chililabombwe, na sua zona urbana, é constituída por uma mistura de tribos e de gentes, embora a maioria seja das tribos afins aos Bembas. A zona rural é constituída principalmente pelos Lambas.

49 Ainda há pouco andou por cá um caçador de bruxas, com autorização da polícia, obrigando todas as casas a contribuir para ele passar pelos bairros e descobrir os bruxos, aqueles que vivem bem e que supostamente tornam a vida dos outros impossível. Os que não queriam pagar eram ameaçados. E os que ele acusava tinham de lhe pagar uma avultada quantia em dinheiro para os livrar do poder mágico que tinham em si sem saber. Aquilo era um pandemónio por onde ele passava, e lá ia enriquecendo à custa do medo e da ignorância das gentes. Tivemos que pregar nas igrejas, que explicar e que conscientizar as comunidades para se protegerem e lutarem contra a violência e a injustiça do caçador de bruxas, chamado Muçapi (significa lavador, purificador). Este foi um caso extremo, mas esta mentalidade manifesta-se continuamente em várias circunstâncias, principalmente em caso de doença e de morte. Em tais casos, as comunidades podem ter uma acção importante, dando coragem e fortaleza, fazendo crescer na fé em Jesus Cristo.

Em 1994, o P. Horácio foi eleito membro da Direcção Geral e, tempos depois, saiu também o P. Carlos. Foram substituídos pelos PP. Castro Afonso e Eduardo Daniel. Quando este foi estudar para Roma, veio o angolano P. António Sebastião Kusseta.

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Os Missionários nesta Paróquia foram: P. Delfim Pires, P. António Valente Pereira, Dr. Francisco Castelo Branco Camello (leigo associado), P. Manuel Fernandes, P. Aníbal Fernandes, Irmão Artur Paredes, P. António Ramos, P. António Frazão, os diocesanos P. Matias Idela e P. Horácio Augusto Laurindo, o P. Augusto Farias, P. Paulo Jorge e vários estagiários da Sociedade que aqui passaram um ano, sendo o último Joaquim Lima.

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2.6. Quadro-resumo dos Estatutos

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* O mandato passou a bienal por decisão da AG de 8 de Dezembro de 1967, realizada em Valadares (cf Bol 19, Fev 1968, p. 4, A nossa reunião geral). ANEXO 1 – Cópia dos primeiros Estatutos (de 1960)

ANEXO 2 – Cópia dos Estatutos actualmente em vigor (de 1994)

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tologia de textos publicados no Boletim da ARM), agora só interessa dizer que, desde o primeiro número, houve um “artigo de fundo”, um texto de carácter doutrinário; mas só com o n.º 50 (2.ª Série), em Set/Out 1993, começou a classificar-se esse texto, e não sempre, de Editorial. Tal veio a tornar-se constante a partir de Março de 2001, com o n.º 71. Quase sempre publicado na primeira página, às vezes na terceira. Esse texto tinha (e continua a ter) como objectivo fundamental a formação dos armistas, inculcando valores e apontando princípios, ideias e atitudes, com vista a atingirem-se os fins da Associação. Mas há outros tipos de textos: uns são informativos, outros fazem memória, outros, ainda, interpelam e dão resposta, outros, finalmente, são cartas dos leitores armistas. Todos procuram criar e fazer circular o espírito armista e aprofundar a

comunhão entre todos os antigos alunos da SM. Outros aspectos há ainda que interessa dar a conhecer e vão ser apresentados em extenso quadro que abrangerá todos os números do Boletim. São eles os seguintes, além do número e data de cada edição: quem era o presidente da Direcção ou o director do Boletim; onde foi este composto e impresso; o seu formato; o número de páginas; se contém ilustrações (ou gravuras) e quantas; o nome dos colaboradores, mesmo usando pseudónimos, abreviaturas ou siglas (excepto quando as suas cartas só são parcialmente publicadas); a tiragem; se apresenta publicidade e quantos anúncios. Assim se ficará a saber a evolução havida desde a primeira edição, em Março de 1961, e o n.º 85, em Dezembro de 2004, com a interrupção conhecida de 18 anos, entre 1975 e 1993.

Quadro-síntese do Bolotim da ARM, do n.º 1 ao n.º 85.

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6. O MISSIONÁRIO CATÓLICO E A BOA NOVA COMO ÓRGÃO INFORMATIVO DA ARM Em Maio de 1963, noticiava o Boletim n.º 5 que havia sido pedida “a atenção da direcção do Missionário Católico, como órgão oficial da ARM, para o reduzido noticiário que a seu respeito inseria” 52.
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Bol 5, Mai 1963, p. 5.

Justificava-se este reparo e o consequente pedido? Se tivermos em conta que o MC era, estatutariamente, o “órgão oficial da ARM” e se observarmos as notícias nele publicadas sobre as actividades da Associação, não há dúvida de que tal atitude era legítima. Com efeito, até esse momento (Maio de 1963), o MC havia publicado apenas uma fotografia de um grupo de armistas, em 1961, e, em 1962, apresentara duas fotografias em Janeiro e outra em Junho. Nos anos seguintes o rit-

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PARTE II

ARM 60 ANOS DE VIDA

por

João Rodrigues Gamboa

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INTRODUÇÃO
Não é pretensão deste trabalho fazer a história da ARM, mas tão simplesmente escrever algumas notas sobre a sua vida e trajectória de sessenta anos. Uma existência feita de momentos de ársis e momentos de thésis, de dinamismos e fragilidades, até de paralisações, sem dúvida, mas globalmente rica, acumulando um património simultaneamente afectivo, social e cultural vivido e erguido com generosidade, sentido de partilha e solidariedade, persistência e espírito missionário, por gerações sucessivas de antigos alunos dos seminários da Sociedade Missionária. Desde as longínquas origens situadas no mês de Maio de 1944 até meados de 2004; desde o encontro d’“os 15 magníficos”, na Quinta da Penha Longa, em Sintra, até ao Encontro Nacional da ARM de 2004, em Cernache do Bonjardim, nos dias 15 e 16 do mesmo simbólico e sagrado mês de Maio.1 As fontes consultadas foram o Boletim da ARM, que começou a publicar-se em Março de 1961: inicialmente como suplemento do Missionário Católico, depois, a partir de Maio de 1968, com o n.º 20, já independente e autónomo2 embora aquela revista e a Boa Nova sua sucessora continuassem a publicar informações e textos referentes à Associação dos Antigos Alunos da SMBN. Com algumas lacunas, pois os números 6, 7, 11, 12, 15, 16 e 18 nunca se encontraram e não pôde ser colhida a informação histórica de interesse que neles está depositada.3 Foram também compulsadas as revistas Missionário Católico e Boa Nova e as Actas da Assembleia Geral 4. Depois das origens, aborda-se a ARM pela perspectiva dos estatutos (de 1960, 1964, 1981 e 1994),
Foi tendo em conta, muito provavelmente, este Maio de 1944 que, na reunião geral de 30 de Abril de 1978, em Cernache do Bonjardim, a ARM decidiu que o Encontro anual nacional passasse a realizar-se sempre em Maio, e no terceiro domingo. 2 “Independente e autónomo” apenas por deixar de ser designado como suplemento do Missionário Católico, embora esta indicação se tenha ainda mantido, diluída em caracteres reduzidos e fora do enquadramento do título, nos n.os 21 e 22. 3 Tendo escrito a cerca de vinte armistas dos mais activos nos primeiros anos da ARM, ou às suas famílias, no caso dos já falecidos, apenas uma resposta foi obtida dizendo que não possuía nenhum daqueles números do Boletim. 4 Somente a partir de 1980; as anteriores, se existem, não as encontrei.
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ao mesmo tempo que se olha a crise de 1974/1975 com as subsequentes cessação de actividades até 1978 e suspensão da publicação do Boletim até 1993, assim como a celebração do cinquentenário em 1994. A seguir tratam-se aspectos como: os órgãos sociais da ARM, com relevo para alguns nomes; as Assembleias Gerais anuais e os encontros regionais; o Boletim; as revistas Missionário Católico e Boa Nova como órgão informativo da ARM; as delegações; a assistência social aos associados e a solidariedade com os missionários; a publicidade no Boletim; e, finalmente, a bandeira e o hino da ARM. 1. AS ORIGENS (1944-1960) A Associação Regina Mundi (ARM) nasceu formalmente em 2 de Outubro de 1960, no Seminário de Cucujães. Os antigos alunos dos seminários da Sociedade Missionária aí presentes – em “mais uma reunião” e, “desta vez”, no referido seminário5 –, aprovaram por aclamação o projecto de Estatutos e os nomes propostos para a Direcção. Mas a ideia já vinha de longe e as reuniões sucediam-se, ora num seminário, ora noutro, entre Tomar, Cernache do Bonjardim, Cucujães e mesmo outros locais. Umas espontâneas e esporádicas, outras mais combinadas. A primeira dessas reuniões – considerada mais tarde a reunião fundadora da ARM – realizou-se em Maio de 1944, na Quinta da Penha Longa, em Sintra, e juntou um punhado de antigos alunos e professores da Sociedade Missionária – “os 15 magníficos”, como lhes chamou José Nereu Santos6 . Sonhavam com uma associação que congregasse à volta da Sociedade Missionária os seus antigos alunos. O citado José Nereu Santos e o Dr. António Delgado da Fonseca é que tomaram a iniciativa7 .

José Maria Alves, Confraternizando, Suplemento n.º 1 do Missionário Católico para os membros da Associação Regina Mundi, Mar 1961, pp. 3-4. Suplemento que sempre será designado como Boletim (Bol 1), embora só com o n.º 20 tenha tomado formalmente este nome e título (já utilizado anteriormente, por exemplo no n.º 14, p. 3). 6 José Nereu Santos, O meu Postal, Bol 52 (2.ª Série), Jan/Fev 1994, p. 3. 7 Boa Nova, Jun/Jul 1991, p. 33, Feliz por ter sido um dos fundadores da ARM (entrevista conduzida pelo Pe. João Avelino).

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“Os 15 magnificos” (aqui só 14, o 15º foi o fotógrafo): Adriano Mateus de Oliveira, P.e José Oreiro Soares Pacheco, Francisco Ribeiro da Costa Terezo, Joaquim Alves Mateus, Dr. Artur Cotrim da Silva Garcez, Dr. António Delgado da Fonseca, P.e Jaime Afonso Boavida, P.e Cesário Pereira da Silva, P.e Luís do Nascimento Silveira, Manuel Cândido Basso, Dr. José Nereu Santos, P.e Wenceslau Gonçalo de Almeida Gil, Henrique Lopes Ramos, Dr. José Custódio dos Santos e Arq. António Nunes e Silva Campino. (À fotografia publicada na BN de Jun/Jul 1991, p. 33, preferiu-se esta (cedida por Manuel Cândido Basso) por apresentar melhor qualidade.)

Mais uma reunião documentada realizou-se no Seminário de Cucujães, em 8 de Outubro de 1950. Aí confraternizaram antigos alunos dos seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Cucujães8 .
Antigos alunos reunidos em Cucujães (1950).

2. A ARM SEGUNDO OS ESTATUTOS Os Estatutos da ARM foram elaborados e aprovados pelos armistas mais atentos e activos em relação aos objectivos da Associação. Traduzem, portanto, o seu pensar e o agir que para ela desejavam com vista aos fins pretendidos. Com as nuances de cada época, com o aperfeiçoamento resultante da experiência e da caminhada feitas, e sempre com o afecto de quem define uma causa e a abraça para a levar à prática. Após a análise sumária de cada reformulação dos Estatutos, na qual se procura ver as diferenças introduzidas, apresenta-se um quadro-resumo de alguns aspectos considerados mais operacionais, tornando-se assim mais clara, por comparação, a evolução e a visão de conjunto. 2.1. Os Estatutos de 1960 Aprovados em 2 de Outubro de 1960, os Estatutos definiam como objectivos da ARM: a) Congregar em redor da Sociedade Missionária todos os seus antigos alunos, fomentando e estreitando os laços de amizade, com o fim de se ajudarem espiritual, moral e socialmente. b) Proporcionar aos antigos alunos todos os benefícios espirituais resultantes da sua união com a Sociedade Missionária, pela partici-

Outros encontros se foram realizando, como já se disse, e no espírito dos antigos alunos iam amadurecendo, paulatinamente, a ideia da associação, sua natureza e seus fins. Em 1 de Outubro de 1958, em mais uma reunião realizada no Seminário de Tomar, foi fundada e iniciada com 1 000$00 a “Bolsa da Vocação Missionária”, que em Abril de 1962 já atingia a importância de 9 416$509 e 14 412$00 em Maio de 196310.

Lapin du Pré, ARM – Associação Rainha do Mundo, Boletim da ARM, Edição Especial, s/d (Maio de 1986 ?), p. 4. 9 Bol 4, Ago 1962, p. 4. 10 Bol 5, Mai 1963, p. 6.

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

pação nas orações, missas, sufrágios, trabalhos e boas obras da Sociedade. c) Fomentar o espírito missionário e despertar a consciência da união dos associados entre si e com a Sociedade Missionária.11 O único órgão dirigente da Associação era a Direcção, constituída por um presidente, um secretário e um tesoureiro, “escolhidos anualmente entre os associados no pleno gozo dos seus direitos”, isto é, inscritos e com as quotas em dia. A quota mínima era de 5$00 mensais (60$00 por ano), paga semestral ou anualmente. Constituíam a Associação todos os antigos alunos dos Seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Cucujães, mesmo que a frequência se tivesse verificado antes da fundação da Sociedade Missionária, em Outubro de 1930. Era definida uma reunião geral anual, na qual eram fixados o local e a data da seguinte. Também eram previstas reuniões de carácter regional, assim como a momeação de Delegados Regionais. Nestas reuniões, era celebrada “a santa Missa por intenção dos associados, e em sufrágio dos superiores e condiscípulos falecidos”. Na reunião anual, a Direcção apresentaria um breve relatório das actividades do ano. Metade do valor das quotas era destinada a Bolsas de estudo; os outros 50% constituíam um “fundo de assistência aos sócios”. O Superior-Geral da Sociedade Missionária é o Presidente de honra da Associação e haverá um sacerdote Assistente da ARM designado por aquele. O órgão da Associação é a revista Missionário Católico, antecessor da actual Boa Nova, “distribuído a todos os associados no pleno gozo dos seus direitos”. Mas a Direcção promoverá a publicação de um suplemento do Missionário Católico para os associados. Eram protectores da ARM os padroeiros da Sociedade Missionária: Nossa Senhora da Conceição, S. Francisco Xavier e o Beato Nuno de Santa Maria. 2.2. Os Estatutos de 1964 Na Assembleia Geral de 1964, realizada em 4 de Outubro, em Cernache do Bonjardim, foram
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aprovados novos Estatutos, com assinaláveis diferenças. Há sócios ordinários, que são todos os antigos alunos dos Seminários da Sociedade e não têm direitos nem deveres; e sócios efectivos, todos os que estejam inscritos na ARM de acordo com os Estatutos e são senhores de direitos e deveres que lhes permitem participar activamente na vida da Associação. Os órgãos sociais são agora, além da Direcção, a Assembleia Geral e as Delegações. A Mesa da Assembleia Geral é composta de um presidente e dois secretários, que são simultaneamente os vogais da Direcção, todos eleitos anualmente. A Direcção compõe-se de cinco membros: presidente, secretário com funções de vice-presidente, tesoureiro e dois vogais, que são também, como se disse, secretários da Mesa da Assembleia Geral, todos eleitos anualmente. As Delegações serão criadas pela Direcção “nos distritos do Continente e Ultramar” e a sua instituição será publicada no Boletim da ARM, sendo os Delegados designados pela Direcção. Compete às Delegações: a) Auxiliar a Direcção a realizar os fins da Associação; b) Promover e dirigir as reuniões da respectiva região; c) Actuar junto dos associados da sua região, contribuindo para a sua maior aproximação e interesse pelos objectivos da Associação12 . Ser-lhes-ão facultados (pela Direcção?) os meios financeiros necessários à prossecução dos seus fins. A sede da Associação Regina Mundi é na CasaMãe da Sociedade Missionária (nesta altura na Rua Bernardo Lima, 33, em Lisboa). O órgão de informação dentro da ARM continua a ser designado como “suplemento do Missionário Católico”. A duração do mandato dos órgãos sociais continuou a ser de um ano, mas, na Assembleia Geral de 1966, o Presidente cessante propôs que a eleição se fizesse “por dois anos”, o que obrigaria a
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Estatutos de 1960, Art.º 3.º.

Estatutos de 1964, Art.º 21.º.

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alterar os novos Estatutos13 . Essa alteração veio a ser decidida, muito provavelmente, pela AG de 8 de Dezembro de 1967, realizada em Valadares14 . 2.3. A crise de 1974-1975 e a paralisação até 1978 Com a revolução do 25 de Abril, chegou a crise ao seio da ARM. Eleitos em Outubro de 1973, na Assembleia Geral de Cucujães, para o biénio de 1974-1975, estavam à frente da Direcção armistas das gerações mais jovens. E do choque de ideias e mentalidades com membros da geração mais velha, alguns deles membros fundadores e muito activos desde a primeira hora, resultaram dificuldades que não foram ultrapassadas. Os n.os 51 e 52 do Boletim, mais tarde considerados ilegítimos juntamente com o n.º 5015 , são disso espelho. Títulos de textos como os seguintes: O essencial e o acessório, Pátria Futura, Primeiro a Justiça, As escolas comunitárias e a aprendizagem da Democracia (do n.º 51) e Hora decisiva – ARM em causa, Ser ou não apenas da cor..., Cristãos e marxistas face à revolução – Diálogo e cooperação são possíveis, A propósito do último número – Apoliticismo, apartidarismo, anticomunismo... (do n.º 52), dão bem a imagem do tipo de confronto ideológico vivido na ARM. Com a Direcção demissionária, a Assembleia Geral convocada para 16 de Março de 1975, no Seminário de Cernache do Bonjardim, nada resolveu16 . As actividades cessaram quase totalmente e o Boletim deixou de se publicar.

2.4. Os Estatutos de 1981 Paralisada desde 1974-1975, a ARM renasceu em 1978, em reunião geral que teve lugar em Cernache do Bomjardim, em 30 de Abril, tendo sido constítuida uma Comissão Directiva provisória. Em 20 de Maio do ano seguinte, no mesmo Seminário de Cernache, realizou-se novo encontro de carácter nacional e a Comissão Administrativa então designada teve por missão gerir os destinos da As17 sociação até à eleição de novos corpos gerentes . Para isso, e sob a orientação do Dr. José Maria Ribeiro Novo, iniciou-se a revisão dos Estatutos (de 1964), os quais, apresentados na AG de 18 de Maio de 1980, no Seminário de Valadares, foram discutidos e aprovados. Em 24 de Maio de 1981, na Assembleia Geral realizada no Seminário de Tomar, depois de definida a redacção final e por expresso desejo da Comissão Administrativa, eles foram finalmente ratificados por aclamação e foram eleitos os novos corpos sociais, repondo-se a normalidade na vida da Associação18 . Segundo os novos Estatutos, o objectivo geral da ARM, agora chamada Associação Rainha do Mundo, continuou a ser o mesmo: unir em redor da Sociedade Missionária os Associados, aumentando e estreitando os laços de amizade entre eles, com o fim de mutuamente se auxiliarem no campo social, missionário e cultural 19. Há, porém, maior clareza e objectividade quando são definidos “objectivos de ordem social e missionária” e “objectivos de ordem cultural”, sendo estes uma novidade. São objectivos de ordem social e missionária os seguintes: a) Auxiliar materialmente os seminários da Sociedade Missionária com subsídios permanentes ou eventuais, designadamente Bolsas de Estudo; b) Criar e desenvolver formas de assistência e previdência entre os associados com preferência para os que exerçam funções sacerdotais e missionárias;
17 Ver à frente a constituição destas duas Comissões (3. Os Órgãos Sociais, anos 1978-1979 e 1979-1980). 18 A Associação “Rainha do Mundo” (ARM) dos antigos alunos da Sociedade Missionária está viva e esperançosa!, Boa Nova, Julho 1981, p. 9. 19 Estatutos de 1981, Art.º 3.º.

Relatório da Direcção (1966), 7.º – Nova Direcção, Bol 14, 4.º Trim 1996, p. 4. 14 Bol 19, Fev 1968, p. 4, A nossa reunião geral. 15 Com efeito, quando, em 1993, foi retomada a publicação do Boletim da ARM, as edições com os n.os 50, 51 e 52 foram consideradas inexistentes e estes números voltaram a ser atribuídos (ver à frente, em 5. O Boletim da ARM). Para distinguir estas três edições do Boletim, serão designados como da 1.ª série os n.os de 1974 e 1975 e como da 2.ª série os n.os de 1993 e 1994. 16 Da Ordem do dia constavam assuntos candentes como: Discussão de propostas e sugestões a apresentar pelos sócios acerca da organização e papel da ARM no contexto sócio-político actual (ponto 2.º); Manutenção e orientação do Boletim (ponto 4.º); Eleição de novos elementos para ocuparem vagas ocasionadas pela demissão dos membros da direcção (ponto 5.º), in Bol 52 (1.ª Série), Jan/Fev 1975, p. 1.

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

c) Prestar todo o apoio possível, de natureza moral, económica e profissional aos associados carecidos; d) Organizar concentrações a nível nacional ou regional, com vista a aumentar a amizade e convivência entre todos os associados e suas famílias; e) Promover sufrágios anuais pelos sócios falecidos20 . Os de ordem cultural são estes: a) Organizar, a nível nacional ou local, conferências, palestras, seminários, mesas redondas, sobre temas de interesse sócio-cultural em todos os campos da vida actual; b) Colaborar na publicação e expansão de jornais e revistas de feição doutrinária e cultural, nomeadamente os que forem editados pela Sociedade Missionária; c) Desenvolver outras actividades de carácter sócio-cultural no campo artístico e recreativo em conjunto com a Sociedade Missionária21. Os sócios são efectivos: “todos os antigos alunos, sacerdotes ou não, que frequentaram qualquer seminário da Sociedade Missionária Portuguesa”; e honorários: as pessoas singulares ou colectivas que, por motivo de amizade ou serviços relevantes prestados à ARM, “venham a merecer essa distinção”. A Sociedade Missionária é o primeiro sócio honorário. Os órgãos dirigentes são a Assembleia Geral, que reúne ordinariamente uma vez por ano, compondo-se a sua mesa de um presidente, um vicepresidente e dois secretários, eleitos trienalmente, e a Direcção, formada por um presidente e um vicepresidente, também eleitos por três anos, os quais escolhem um secretário, um tesoureiro e dois vogais. Não há conselho fiscal. Poderão constituir-se Delegações “em qualquer parte, desde que o substrato social o justifique”. No período de Março de 1974/Janeiro de 1975 a Setembro de 1993 não houve publicação do Bo20 21

letim e os Estatutos não lhe fazem referência; por isso os sócios deviam “assinar a revista Boa Nova aproveitada como veículo noticioso da Associação”22 . De facto, no período de 1978 a 1993, em que já havia um órgão directivo mas não se publicava o Boletim, a Boa Nova desempenhou a função importante de fazer a relação entre a Direcção e os associados.23 A ARM continuou a ter a sua sede na Casa Central da Sociedade Missionária (então na Rua Bernardo Lima, 33, em Lisboa), e o Superior-Geral continuou a nomear um Assistente Missionário que, junto da Direcção, assegurará a ligação entre a ARM e a Sociedade e “deverá ser ouvido em todas as iniciativas de carácter eclesial”24. 2.5. Os Estatutos de 1994 e a constituição legal da ARM; a celebração dos 50 anos e outras iniciativas Eleita em Fátima, em 16 de Maio de 1993, a Direcção presidida por Santos Ponciano levou a cabo um conjunto de iniciativas muito importantes. A primeira e mais decisiva foi a retoma da publicação do Boletim da ARM, logo em Setembro de 1993 (interrompida, como sabemos, desde Março de 1974 / Janeiro de 1975), tentando que a sua edição fosse bimestral (objectivo conseguido durante alguns meses) e tivesse uma tiragem de 500 exemplares. E apelando à colaboração de todos, com textos e nos custos25. A reconstituição26 das delegações de Bragança, Castelo Branco e Coimbra foi um esforço que se prolongou por vários e longos meses. Assim, em 18 de Abril de 1994, foi fundada a delegação de Castelo Branco27; em 1 de Maio do mesmo ano, em Pinelo, a de Bragança28; e em 28 de Setembro de 1996, a de Coimbra29.
Idem, Art.º 7.º, alínea e). Ver 6. O Missionário Católico e a Boa Nova como órgão informativo da ARM, nesta Parte II. 24 Estatutos de 1981, Art.º 20.º, § 2. 25 Hibernou, Santos Ponciano, Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 5. 26 Reconstituição porque, como veremos à frente (7. As Delegações), já em 1963 havia sido criada a delegação de Coimbra e, em 1965, a de Castelo Branco. 27 Castelo Branco já é Delegação, Bol 53, Mar/Abr 1994, pp. 8 e 2. 28 Bragança, a 3.ª Delegação a seguir a Porto e Castelo Branco, Bol 54, Mai/Ago 1994, pp. 8 e 5. 29 Coimbra já é Delegação, Bol 61, Jul/Set 1996, p. 3.
23 22

Idem, Art.º 3.º, § 1. Idem, Art.º 3.º, § 2.

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A iniciativa mais profunda consistiu, porém, indubitavelmente, num conjunto de acções intimamente ligadas: a legalização formal da Associação, a revisão e aprovação de novos Estatutos e a celebração dos 50 anos da fundação da ARM. O Estatutos (de 1994) foram aprovados na Assembleia Geral de 15 de Maio, realizada no Seminário de Cernache do Bonjardim. Embora houvesse necessidade de serem revistos por motivo de alteração do Código Civil e das Sociedades, eles nada apresentam de novo, antes consolidam a doutrina e a prática anteriores30. Reconhecem que a ARM “existe de facto desde mil novecentos e quarenta e quatro”31 e registam que ela “é uma associação sem fins lucrativos, legalmente constituída em catorze de Maio de mil novecentos e noventa e quatro”32. A escritura da sua constituição foi publicada no Diário da República n.º 139, de 18/06/94, III Série, p. 10280-(4). A ARM tem a sua sede social na Casa Central da Sociedade Missionária Portuguesa, na Rua da Bempostinha, 30, 1150-066 Lisboa, e é ti-

tular do NIPC n.º 503 268 372. Este processo foi conduzido pelo Dr. Ramiro Farinha Martins e iniciou-se em 20 de Setembro de 1993, no Registo Nacional de Pessoas Colectivas, com a apresentação do pedido de certificado de admissibilidade da ARM – Associação Rainha do Mundo dos Antigos Alunos da Sociedade Missionária Portuguesa, tendo terminado na referida data (14 de Maio de 1994), com a assinatura de escritura pública de constituição da ARM, na Casa Central da Sociedade Missionária (Rua da Bempostinha, 30, em Lisboa), perante o notário do 6.º Cartório Notarial de Lisboa. Foram outorgantes os seguintes armistas: António Moutinha Rodrigues, Domingos João Raposo de Quina, João Francisco de Jesus, José Domingues dos Santos Ponciano, José Francisco Rodrigues, José Nereu Santos, Ramiro Farinha Martins, Viriato Augusto Fernandes de Matos e Vítor Manuel Silva Borges. Quanto ao cinquentenário da fundação da ARM, ele desempenhou um papel relevante na motivação, mobilização e dinamização das hostes armistas. A Direcção aproveitou exemplarmente essa circunstância e esse evento e preparou com entusiasmo a sua celebração, provocando reflexão e discussão sobre o futuro da ARM, nos encontros regionais de Valadares, Lisboa, Castelo Branco e Bragança e na Assembleia Geral de 15 de Maio de 1994, em Cernache do Bonjardim. As celebrações tiveram lugar nessa Assembleia Geral de Cernache do Bonjardim; continuaram nos dias 15 e 16 de Outubro do mesmo ano, no Seminário de Valadares, em encontro a que se chamou “Primeiras Jornadas Nacionais da ARM” 33; e foram encerradas na Assembleia Geral de 21 de Maio de 1995, em Cucujães. Para assinalar a efeméride, foi cunhada em bronze uma medalha comemorativa, da qual foram feitos 500 exemplares 34.
Do programa constava o tratamento dos seguintes temas: ARM – Da sua fundação até 1974, pelo Dr. José Francisco Rodrigues; ARM – De 1974 ao presente, por Moutinha Rodrigues; A Sociedade Missionária e a ARM, pelo Pe. Viriato Matos; e Desafio da Igreja ao Leigo, pelo Pe. António Couto. Houve ainda uma exposição de fotografias e projecção de filmes vídeo de imagens de encontros da ARM. 34 Em 25 de Novembro de 1994, no encontro regional de Lisboa, foram agraciados com esta medalha comemorativa do cinquentenário da ARM “todos os presidentes da Direcção desde a sua fundação em 1944” (Bol 55, Out 1994 / Mar 1995, p. 3).
33

Ver, em 2.6., o quadro-resumo comparativo das várias formulações dos Estatutos. 31 Estatutos de 1994, Art.º 1.º. 32 Ibidem.

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

Grupo dos participantes nas “Primeiras Jornadas Nacionais da ARM”, em Valadares, em Outubro de 1994.

Em Maio de 1995, aproveitando o dinamismo prevalecente e como que coroando este esforço assinalável de renovação, a mesma Direcção publicou a brochura NIHIMO35 , dividida em duas partes: a primeira contém uma relação, organizada por anos de entrada, de todos os alunos que fre-

quentaram os seminários da Sociedade Missionária, desde 1922 a 1994; na segunda indicam-se os nomes, endereços, números de telefone e profissão dos armistas constantes, nessa altura, da base de dados da Direcção.

35 Nihimo, como se explica na própria brochura, é palavra da língua Macua (Moçambique) e significa família alargada; grupo de indivíduos que têm a mesma origem.

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2.6. Quadro-resumo dos Estatutos

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* O mandato passou a bienal por decisão da AG de 8 de Dezembro de 1967, realizada em Valadares (cf Bol 19, Fev 1968, p. 4, A nossa reunião geral). ANEXO 1 – Cópia dos primeiros Estatutos (de 1960)

ANEXO 2 – Cópia dos Estatutos actualmente em vigor (de 1994)

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ção abertas em 1974/1975, a retoma da publicação do boletim, em 1993. Estamos, portanto, a fazer memória e a homenagear. E há nomes que, por se repetirem muitas vezes e pela qualidade da sua acção, merecem ser assinalados pois muito serviram. Por exemplo: Dr. António José Paisana (1921-1982), Dr. José Francisco Rodrigues (1915-2003), Dr. José Nereu Santos (1917-2003), António Moutinha Rodrigues (1938), José Domingues Santos Ponciano (1957), em Lisboa; no Porto: Dr. Albino Santos (1910-1995), José Soares Pacheco ( ? -1993), Mário Coelho Veiga (o célebre Lapin du Pré) (1927), Joaquim Alves Pereira (1936).

Dr. António José Paisana

Dr. José Francisco Rodrigues

3. OS ÓRGÃOS SOCIAIS Os órgãos directivos de uma associação são a seiva que dá vida a esse agrupamento de pessoas, são a alma dessa associação. Sem órgãos sociais, nomeadamente sem direcção, não pode haver vida nem dinamismos e não se atingem os objectivos para que nasceu a associação. Dizer os nomes das pessoas que estiveram à frente desses órgãos é quase mostrar os seus rostos; inscrevê-los numa relação organizada por anos de mandato é, acima de tudo, prestar tributo a esses armistas que sustentaram, animaram e orientaram a vida da ARM, sobretudo nos momentos mais críticos, como foi o arranque inicial, em 1960, o enfrentar e suplantar, em 1978, a crise e a paralisa-

Dr. José Nereu Santos

Dr. Albino Santos

José Soares Pacheco

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A. Moutinha Rodrigues

Santos Ponciano

Mário Veiga

Joaquim Alves Pereira

Indirectamente, entremostra-se também a concepção prevalecente em cada época acerca da importância, necessidade e inter-relação dos diversos órgãos sociais e a evolução e aperfeiçoamento havidos ao longo de mais de trinta anos (de 1960 a 1994). Assim, em 1960 bastava haver direcção, mas em 1964 acrescentou-se-lhe a assembleia geral e as delegações. Estas deixaram, muito justamente, de ser órgão social a partir de 1981; e o conselho fiscal só apareceu em 1994. Fica também a saber-se a duração dos mandatos: um ano de 1960 a 1967, dois anos de 1968 a 1981, três anos a partir de 1981. Registam-se ainda os nomes do Superior-Geral da SM e do assistente da ARM por ele nomeado. Quando não se indicam nomes, ou outros dados, é porque se desconhecem. Isso deve-se ao facto de, como já está dito, não se terem encontrado alguns exemplares do Boletim correspondentes a esses períodos – alguns meses dos anos de 1963, 1964, 1965, 1966 e 196736 .

1962 – Eleição em 1 de Outubro de 1961, em Cernache do Bonjardim. (Bol 3, Fev 1962, p. 2) Direcção: Presidente – Dr. José Francisco Rodrigues Secretário – Dr. José Maria Alves Tesoureiro – José Nereu Santos Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes Assistente – Pe. Manuel Trindade 1963 – Eleição em 30 de Setembro de 1962, em Tomar (Bol 5, Mai 1963, p. 4). Direcção: Presidente – Dr. António José Paisana Secretário – Dr. Manuel José Guerra Tesoureiro – António da Costa Salvado Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes Assistente – Pe. Luís Gonçalves Monteiro 1964 ? 1965 – Eleição em 4 de Outubro de 1964, em Cernache do Bonjardim.
(Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, p. 6)

Órgãos Sociais 1961 – Eleição em 2 de Outubro de 1960, em Cucujães (Bol 1, Mar 1961). Direcção: Presidente – Dr. José Francisco Rodrigues Secretário – Dr. José Maria Alves Tesoureiro – Manuel Farinha Nogueira Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes Assistente – Pe. Manuel Trindade
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Veja-se o quadro de 5. O Boletim da ARM, nesta Parte II.

Mesa da AG: Presidente – Dr. José Francisco Rodrigues Secretários – António Moutinho Rodrigues José Carlos Pires dos Santos Direcção: Presidente – Dr. José Roque Abrantes Prata Sec./Vice-Pres. – Miguel Pires Patrício Tesoureiro – António Ribeiro Coelho Vogais – António Moutinho Rodrigues José Carlos Pires dos Santos Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes Assistente – Pe. Luís Gonçalves Monteiro (?)

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1966 – Eleição em ? Mesa da AG: Presidente – ? Secretários – ? Direcção: Presidente – Dr. José Roque Abrantes Prata Sec./Vice-Pres. – ? Tesoureiro – António Ribeiro Coelho Vogais – ? Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes Assistente – Pe. Albano Mendes Pedro (Bol 13, p. 4) 1967-1968 – Eleição em 25 de Setembro de 1966, em Cucujães, com prorrogação por mais um ano, em virtude de alteração dos Estatutos em AG de 8 Dez 1967. (Bol 14, 4.º Trim 1966, p. 2) Mesa da AG: Presidente – Dr. Albino Santos Secretários – ? Direcção: Presidente – José Soares Pacheco Sec./V.-Pres. – José Nunes Chamusca Tesoureiro – Lucas Borges da Cunha Vogais – Sebastião Dias Lobo Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes Assistente – Pe. João Avelino (Bol 23, Fev 1969, p. 2) 1968-1969 – Eleição em ?
(Bol 19, Fev 1968, p. 2)

1970-1971 – Eleição em 8 de Junho de 1969, em Cernache do Bonjardim.
(Bol 26, Ago 1969, p. 1)

Mesa da AG: Presidente – Dr. António José Paisana Secretários – Dr. Joaquim Marques Pereira Abel Francisco Martins Direcção: Presidente – Francisco Costa Afonso Sec./V.-Pres. – Francisco Luís Caldeira Tesoureiro – Francisco António da Silva Vogais – António Ascenção Bastos Oliveira Victor Manuel Pereira Simões Superior-Geral – Pe. Alfredo Alves Assistente – Pe. Manuel Trindade (?) 1972-1973 – Eleição em 30 de Maio de 1971, em Lisboa, no Colégio dos Maristas.
(Bol 36, Jun/Jul 1971, p. 2)

Mesa da AG: Presidente – Dr. Albino Santos Secretários – José Nereu Santos José Nunes Chamusca Direcção: Presidente – Joaquim Alves Pereira V.-Pres. – Silvério Augusto Mota Secretário – Francisco Costa Afonso Tesoureiro – Abílio Sousa Baldaia Vogais – Jorge Manuel Teixeira Fernandes Abel Pinho da Silva (assumiu o cargo de
tesoureiro após a morte do seu titular, ocorrida em 15 Fev 1968 – Bol 20, p. 4).

Mesa da AG: Presidente – Dr. José Roque Abrantes Prata Secretários – Dr. Manuel José Guerra José Augusto Malhão Direcção: Presidente – José Nereu Santos V.-Pres. – Dr. José Albano de Melo Secretário – Manuel Francisco da Silva Tesoureiro – António Moutinho Rodrigues Vogal – Alfredo Dias de Carvalho Superior-Geral – Pe. Alfredo Alves Assistente – Pe. Domingos Marques Vaz 1974-1975 – Eleição em 14 de Outubro de 1973, em Cucujães.
(Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 2)

Superior-Geral – Pe. Manuel Fernandes / Pe. Alfredo Alves Assistente – Pe. João Avelino / Pe. Manuel Trindade (Bol 23, Fev. 69, p. 2)

Mesa da AG: Presidente – José Nereu Santos Secretários – António da Silva Tomás Dr. João Rodrigues Gamboa Direcção: Presidente – José Soares de Almeida V.-Pres. – Manuel Rodrigues Gamboa Secretário – José Lança Schwalbach Tesoureiro – Hernâni Ferreira Cavilhas Vogais – Vítor Manuel da Silva Borges António Ascensão Bastos Oliveira Superior-Geral – Pe. Alfredo Alves Assistente – ?

65

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

1974/1975 a 1978 Com a interrupção da vida associativa formal da ARM, não houve órgãos sociais no período de 1975 a 1978. 1978-1979 – Constituição, em 30 de Abril de 1978, em reunião geral havida em Cernache do Bonjardim, de uma Comissão Administrativa provisória.
(BN, Jul 1978, p. 9)

De Lisboa: José Nereu Santos António Moutinho Rodrigues Do Porto: Silvério Augusto Mota Mário Coelho Veiga Superior-Geral – Pe. Manuel Castro Afonso Assistente - ? 1979-1980 – Designação, em 20 de Maio de 1979, em reunião anual realizada no Seminário de Cernache do Bonjardim, de uma Comissão Administrativa constituída como segue.
(BN, Jul 1979, pp. 28-29, e Abr 1980, pp. 8-9)

1.º Secr. – Dr. Manuel Nunes Ferreira 2.º Secr. – Mário Coelho Veiga Direcção: Presidente – Dr. José Maria Ribeiro Novo V.-Pres. – António Moutinho Rodrigues Secretário – Abílio Antunes Tesoureiro – António Duarte Gil 1.º Vogal – Joaquim Alves Pereira 2.º Vogal – António Bastos Oliveira Superior-Geral – Pe. Manuel Trindade Assistente – ? 1984-1987 – Eleição em 20 de Maio de 1984, na AG realizada no Seminário de Valadares (Acta da AG). Mesa da AG: Presidente – Mário Coelho Veiga V.-Pres. –Francisco Costa Afonso Secretário – Carlos Rocha Vogal – Antero Duarte Direcção: Presidente – Dr. José Maria Ribeiro Novo V.-Pres. – Dr. Vítor Borges Secretário – Dr. António Sérgio Tesoureiro – António Gil Vogais – Abílio Antunes Joaquim Alves Pereira Superior-Geral – Pe. Manuel Trindade Assistente – ? 1987-1990 – Eleição na AG de 17 de Maio de 1987, realizada no seminário de Cucujães.
(BN, Jun/Jul 1990, p. 34, e Acta da AG).

De Lisboa: Dr. António José Paisana Dr. Luís Silva Cardoso António Moutinho Rodrigues José Nereu Santos Dr. José Francisco Rodrigues Do Porto: Silvério Augusto Mota Mário Coelho Veiga Simão Godinho Joaquim Alves Pereira Francisco Manuel Costa Afonso Superior-Geral – Pe. Manuel Castro Afonso Assistente - ? 1980-1981 – Confirmada por mais um ano a Comissão Administrativa anterior, em reunião geral realizada em 18 de Maio de 1980, no Seminário de Valadares (BN, Jul 1980, p.17). 1981-1984 – Eleição em 24 de Maio de 1981, em Tomar.
(BN, Jul1981, p. 9 e Acta da AG).

Mesa da AG: Presidente – Dr. José Francisco Rodrigues V.-Pres. – Dr. António José Paisana

Mesa da AG: Presidente – Mário Coelho Veiga V.-Pres. –Francisco Costa Afonso Secretário – Carlos Rocha Vogal – Antero Duarte Direcção: Presidente – Dr. António Sérgio V.-Pres. – Dr. Domingos Valente Secr. – Dr. Manuel Joaquim Faria Gomes Tesoureiro – Pinto da Silva Vogais – Dr. José Francisco Rodrigues António Moutinha Rodrigues Superior-Geral – Pe. Manuel Trindade Assist. – Pe. José Tomás Borges (Acta da AG de 1988)

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

66

1990-1993 – Eleição em 20 de Maio de 1990, realizada no Seminário de Cernache do Bonjardim.
(BN, Jun/Jul 1990, pp. 34-35, e Acta da AG).

Mesa da AG: Presidente – Mário Coelho Veiga V.-Pres. –Francisco Costa Afonso Secretário – Carlos Rocha Vogal – Antero Duarte Direcção: Presidente – António Moutinha Rodrigues V.-Pres. – Dr. Ramiro Farinha Martins Sec./Tes. – Dr. Manuel Faria Gomes Vogais – Dr. José Nereu Santos Dr. Domingos Valente José dos Santos Ponciano Superior-Geral – Pe. Manuel Trindade / Pe. Manuel Castro Afonso Assistente – ? 1993-1994 – Eleição em 16 de Maio de 1993, na Assembleia Geral de Fátima.
(Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 3, e Acta da AG)

Secretário– Adriano Oliveira Vogal – Joaquim Alves Mateus Direcção: Presidente – José Santos Ponciano V.-Pres. – Dr. Ramiro Farinha Martins Secretário – Dr. João Francisco Jesus Tesoureiro – João Laia Sequeira Vogal – José Manuel Rainha Conselho Fiscal: Presidente – Dr. Vítor Borges V.-Pres. – Dr. Domingos Quina Vogal – Dr. José Manuel Teixeira Superior-Geral – Pe. Jerónimo Nunes Assistente – Pe. Viriato Matos 1996-1999 – Eleição em 19 de Maio de 1996, em Valadares (Bol 60, Mai/Jun 1996, p. 3). Mesa da AG: Presidente – Joaquim Alves Pereira 1.º Secr. – Mário Coelho Veiga 2.º Secr. – Luís Amândio Carreiro Direcção: Presidente – José Santos Ponciano Secretário – José Quina Tesoureiro – Armindo Henriques 1.º Vogal – José Alves Sebastião 2.º Vogal – Jorge Manuel Prata Ribeiro Conselho Fiscal: Presidente – Dr. Vítor Borges V.-Pres. – Dr. Domingos Quina Vogal – Dr. José Manuel Teixeira Superior-Geral – Pe. Jerónimo Nunes Assistente – Pe. Viriato Matos 1999-2002 – Eleição em 16 de Maio de 1999, na AG de Cucujães.
(Bol 68, Out/Dez 1999, pp. 3-5)

Mesa da AG: Presidente – Dr. José Nereu Santos V.-Pres. – Dr. José Francisco Rodrigues Secretário – Joaquim Alves Mateus Vogal – Adriano Oliveira Direcção: Presidente – José Santos Ponciano V.-Pres. – Dr. Ramiro Farinha Martins Secretário – Dr. João Francisco Jesus Tesoureiro – João Laia Sequeira Vogal – José Manuel Rainha Superior-Geral – Pe. Manuel Castro Afonso / Pe. Jerónimo Nunes Assistente – Pe. Viriato Matos 1994-1996 – Recondução por mais dois anos, em 15 de Maio de 1994, em Cernache do Bonjardim, por força dos novos Estatutos (de 1994) aprovados nesta Assembleia Geral.
(Bol 54, Mai/Ago 1994, p. 4)

Mesa da AG: Presidente – Dr. José Nereu Santos V.-Pres. – Dr. José Francisco Rodrigues

Mesa da AG: Presidente – Dr. Miguel Ramalho 1.º Secr. – Dr. Ramiro Farinha Martins 2.º Secr. – Dr. Armindo Henriques Direcção: Presidente – Dr. Serafim Fidalgo Reis Secretário – David Silva Ribas Tesoureiro – Óscar Manuel Sá Rodrigues 1.º Vogal – Luís Rocha 2.º Vogal – Fernando Sousa

67

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

Conselho Fiscal: Presidente – Francisco Costa Andrade V.-Pres. – Antero Duarte Secretário – Manuel Rios Santos Superior-Geral – Pe. Jerónimo Nunes Assistente – Pe. Viriato Matos 2002-2005 – Eleição em 19 de Maio de 2002, no Seminário da Boa Nova, em Valadares (Bol 75, Jul 2002, p. 5). Mesa da AG: Presidente – Angelino Matos Martins 1.º Secr. – José Gomes Campinho 2.º Secr. – Joaquim Martins da Costa Direcção: Presidente – João Rodrigues Gamboa Secretário – João Pedro Martins Tesoureiro – Simão da Costa Godinho 1.º Vogal – Joaquim Alves Pereira 2.º Vogal – José da Silva Gomes Conselho Fiscal: Presidente – José Maria Costa Moreira V.-Pres. – Cândido Silva Coelho Ribas Secretário – Manuel Rios Santos Superior-Geral – Pe. Jerónimo Nunes / Pe. António Couto Assistente – Pe. Manuel Bastos / Pe. Jerónimo Nunes

jantante, que de ano a ano se vai encontrando...”38 . De facto, e de acordo com os Estatutos, a ARM realizou sempre, ao longo da sua história, uma reunião anual de algumas (cerca de cinco) horas em que o tempo escasseava para tudo. Mas essa foi (e continua a ser) uma das suas mais meritórias e válidas actividades. A par da publicação do Boletim, da fundação de Bolsas de Estudo e da oferta de outras dádivas para projectos missionários, as reuniões gerais anuais, e também as regionais, constituem o grande património da ARM. A título de exemplo, transcreve-se o programa da reunião geral de 8 de Junho de 1969, realizada em Cernache do Bonjardim: 10,00 horas – Concentração 11,00 horas – Missa na Igreja do Seminário 12,00 horas – Assembleia Geral 14,00 horas – Almoço de confraternização e etc., etc., etc. Por sua vez, a Assembleia Geral tinha a seguinte ordem de trabalhos: 1 – Apresentação e discussão do relatório e contas da Direcção; 2 – Eleição de novos corpos directivos para o biénio de 1970/71; 3 – Outros assuntos de interesse39 . Em 1995 – ainda um segundo exemplo –, o encontro anual nacional realizou-se em Cucujães, em 21 de Maio. O programa e a duração foram semelhantes aos de 1969 (e aos de sempre): 10,30 horas – Assembleia Geral 12,30 horas – Missa 13,30 horas – Almoço e convívio. A Assembleia Geral teve esta ordem de trabalhos: 1 – Aprovação do Regulamento Interno da ARM;
38 Toque de alvorada, Pe. Manuel Trindade, Bol 34, Jan/Fev/ Mar 1971, pp. 1-2. Este texto pode ser lido integralmente na Parte III – Antologia..., com o n.º (12). 39 Bol 24, Abr 1969, p. 4.

4. REUNIÕES ANUAIS DE CARÁCTER NACIONAL E ENCONTROS REGIONAIS Em carta de 2.10.64 – levava a ARM cinco anos de vida –, dizia José Nunes Chamusca, referindo-se às reuniões anuais, que a ARM “tem vivido quase apenas nos dias das reuniões” e, mesmo nesse dia, se limitava a “uma actividade incipiente” que não conduzia a nada, pois o tempo “é muito pouco”37. Em 1971, o Pe. Manuel Trindade, então assistente da ARM, escrevia que a amizade dos armistas devia ser mais que um fim e dela deveriam surgir iniciativas que lançassem a ARM na acção concretizadora do ideal que a inspirava. E acrescentava: “Não podemos ser apenas um grupo37

Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, p. 8.

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

68

2 – Relatório de contas relativo a 1994; 3 – Encerramento do Cinquentenário da ARM 40. Durante dezenas e dezenas de anos, o encontro anual nacional da ARM realizou-se no tempo escasso de algumas horas e só em 1994, e excepcionalmente, ele ocupou dois dias. Foi em 15 e 16 de Outubro, no Seminário de Valadares, chamou-selhe Primeiras Jornadas Nacionais da ARM e integrou-se nas celebrações do cinquentenário da fundação da Associação. Em 2002, o encontro nacional estendeu-se novamente por dois dias (melhor dizendo: uma tarde, um serão e uma manhã). Foi o Congresso da ARM, que decorreu no Seminário de Valadares, nos dias 18 e 19 de Maio. Procurou atingir três objectivos: “aprofundar a nossa dimensão cristã e missionária; reflectir sobre as nossas raízes e relações com a Sociedade Missionária; definir linhas de rumo para fortalecimento e desenvolvimento da nossa Associação41. A Direcção então eleita tem mantido os dois dias, parece que com bons resultados42. Ao encontro anual nacional acrescem os encontros regionais, dependentes da existência de delegações. Cedo ganharam raízes e tradição o encontro do Norte, em Valadares, e o do Sul, em Lisboa, ambos com datas cativas desde há alguns anos: último sábado de Outubro, o de Lisboa; domingo mais próximo de 11 de Novembro, o do Norte. Na década de 90 (1994 e 1996), a Direcção de Santos Ponciano (re)criou as delegações de Bragança, Castelo Branco e Coimbra e realizaram-se aí, durante breves anos, alguns encontros. Em 2002 e 2003, foi retomado esse esforço e o mosaico das delegações alargou até às nove, ficando assim esboçado: Barcelos, Bragança-Miranda, Castelo Branco-Guarda, Cernache do Bonjardim, Coimbra, Cu-cujães, Lisboa, Tomar e Valadares43. É o levantamento de todos estes encontros, nacionais e regionais, realizados ao longo dos sessenta anos de vida da ARM, que a seguir se apresenta. Embora com as limitações apontadas, e ouBol 56, Abr/Mai 95, pp. 3 e 1, respectivamente. O Congresso da ARM – Presente e Futuro, A Direcção cessante (presidida pelo Dr. Serafim Fidalgo), Bol 75, Jul 2002, p. 3. 42 Como se verá à frente, já em 9 e 10 de Junho de 1965 e nas mesmas datas de 1968 o encontro nacional se realizou em dois dias. 43 Sobre esta matéria, ver 7. As Delegações.
41 40

tras, e a par da publicação do Boletim, da fundação de Bolsas de Estudo e da oferta de outras dádivas para acorrer a projectos missionários, eles constituem, como já se disse, a grande riqueza patrimonial activa da ARM. Antes, porém, da apresentação dessa extensa lista de encontros, um breve apontamento sobre o modo como se transportavam os armistas até ao local da realização dos encontros nacionais. Não era de automóvel, nesses anos ainda um luxo e com certeza excessivamente caro; era de autocarro, o que permitia criar, já durante a viagem, um forte espírito de grupo, importante para o desenrolar do encontro. Dois exemplos. Para a Assembleia Geral que se realizou em Tomar, no dia 9 de Junho de 1968 (e continuou em Fátima no dia seguinte), partiram do Porto, às 6h55 da manhã, dois autocarros num total de 86 lugares. Preço por pessoa, ida e volta: 120$0044. Em 1996, o encontro nacional anual realizou-se em Valadares, no dia 19 de Maio. De Lisboa partiu um autocarro, às 7 h 00, e o preço foi 2500$00 por pessoa, ida e volta45. Foi esta a última vez que se organizou um transporte colectivo. Vejamos então a relação de todos os encontros realizados ao longo dos sessenta anos de vida da ARM e que estão documentados. 1944 Maio – Reunião de um punhado de antigos alunos e professores da Sociedade Missionária (“os 15 magníficos”), na Quinta da Penha Longa, em Sintra. É a reunião fundadora da ARM-Associação Regina Mundi dos Antigos Alunos da Sociedade Missionária.
(Bol 52, (2.ª Série), Jan/Fev 1994, p. 3, e BN, Jun/Jul 1991, p. 33)

1950 8 de Outubro – Reunião, no Seminário de Cucujães, de antigos alunos dos Seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Cucujães.
(Bol, Ed. Especial, Mai 1986(?), p. 4)

44 45

Bol 20, Mai 1968, p. 4. Bol 59, Jan/Abr 1996, p. 3.

69

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

1958 1 de Dezembro – Reunião em Tomar. Foi fundada e iniciada com mil escudos a “Bolsa da Vocação Missionária”.
(Bol 4, Ago 1962, p. 4)

1959 Outubro – Reunião no Seminário de Tomar. Foram acrescentados mais 2 260$00 à “Bolsa da Vocação Missionária”.
(Bol 4, Ago 1962, p. 4, Bolsa das Vocações Missionárias)

No Claustro da Capela do Seminário de Tomar, antigos alunos participantes, muito provavelmente, no encontro de Outubro de 1959.

1960 2 de Outubro – Reunião dos antigos alunos dos Seminários da Sociedade Missionária, no Seminário de Cucujães, com aprovação dos Estatutos e eleição da primeira Direcção.
(Bol 1, Mar 1961, p. 3)

Cernache do Bonjardim, com eleição de nova Direcção.
(Bol 2, Set 1961, pp. 2-3, e Bol 3, Fev 1962, p. 2)

1961 9 de Abril – Reunião regional em Lisboa, no Colégio dos Irmãos Maristas, com cerca de 40 membros da ARM.
(Bol 2, Set 1961, p. 3, e Bol 4, Ago 1962, pp. 1-2)

(21?) 22 de Outubro – Reunião regional do Norte, no “Novo Seminário” (com projecto de construção) de Valadares46, sendo delegado José Dias de Pinho.
(Bol 3, Fev 1962, p. 3, e MC 24, Jan 1962, p. 21)

1 de Outubro – Reunião geral, no Seminário de

O Seminário da Boa Nova, em Valadares, foi construído nos anos 60. Quando, em 5 de Maio de 1968, se procedeu à bênção da primeira pedra da sua igreja, já alguns blocos estavam terminados.

46

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

70

1962 1 de Abril – Reunião regional do Sul, no Colégio dos Irmãos Maristas, com a presença de mais de 60 membros da ARM.
(Bol 4, Ago 1962, pp. 1-2)

23 de Maio – Reunião regional de Castelo Branco – a primeira –, no Seminário dos Redentoristas, com missa celebada pelo Pe. Trindade, reitor em Cernache, e almoço.
(Bol 10, 3.º Trim 1965, p. 5)

30 de Setembro – Reunião geral, no Seminário de Tomar, com eleição de nova Direcção.
(Bol 5, Mai 1963, p. 4)

1963 10 de Junho – Reunião geral, no Seminério de Cucujães, com eleição de nova Direcção.
(Bol 5, Mai 1963, p. 5)

1964 5 de Julho – Assembleia regional do Norte, na Quinta do (futuro) Seminário de Vilar do Paraíso, com organização do Dr. Albino dos Santos.
(Bol 8, Set 1964, pp. 2-3)

4 de Outubro – Reunião geral em Cernache do Bonjardim, com aprovação de novos Estatutos e eleição de novos órgãos sociais (Mesa da Assembleia Geral e Direcção). Foi deliberado criar delegações no Ultramar.
(Bol 8, Set 1964, p. 2 e Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, p. 3)

10 de Junho – Reunião geral da ARM, em Fátima, participando, assim, na grande peregrinação da SM àquele Santuário, realizada em 9 e 10, com os seguintes fins: a) Comemorar o 25.º aniversário da consagração da SM ao Imaculado Coração de Maria, em 30.VII.1940, agora solenemente renovada; b) Homenagear o Santo Padre (...), pelo muito que Portugal e a SM lhe devem; c) Comemorar o 25.º aniversário da celebração da Concordata e do Acordo Missionário...; d) Celebrar (...) o facto de, na SM, pela primeira vez se ordenarem, e na Basílica de Fátima, dez sacerdotes no mesmo ano.
(Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, pp. 3-4, e Bol 10, 3.º Trim 1965, pp. 3-4)

? – Assembleia Geral em Tomar, na qual foram escolhidos quatro delegados para o Ultramar47.
(Bol 13, 2.º e 3.º Trim 1966, p. 2)

1965 25 de Abril – Reunião regional de Lisboa, no Colégio dos Maristas, com a presença do Superior-Geral, Pe. Manuel Fernandes.
(Bol 10, 3.º Trim 1965, p. 4)

1966 1 de Maio – Reunião regional de Moçambique, em Lourenço Marques, na “nossa casa do Infulene”.
(Bol 13, 2.º e 3.º Trim 1966, pp. 2-3)

8 de Maio – Reunião regional do Sul, em Lisboa, no Colégio dos Irmãos Maristas, com perto de 100 antigos alunos, a que se somaram, pela primeira vez, os familiares do sexo feminino. O almoço foi volante, permitindo mais fácil convívio e confraternização. (Ver crónica à frente, em Parte III - Antologia, com o n.º (9)).
(Bol 13, 2.º e 3.º Trim 1966, pp. 1-2)

Desta AG não há notícia, pois falta o Bol 12. Há apenas uma ligeira alusão no Bol 13, p. 2, onde se publica uma carta do delegado de Lourenço Marques, Dr. António Maria de Matos. Esta assembleia justificava-se, pois em 10 de Junho, em Fátima, não houve conReunião Regional da ARM em Lisboa, em 25 de Abril de 1965 (Colégio dos Maristas). dições para a sua efectivação.

47

71

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

Encontro Regional de Lisboa (8 de Maio de 1966, no Colégio dos Maristas), no qual participaram, pela primeira vez, familiares do sexo feminino.

10 de Junho – Reunião regional do Norte, na Quinta do futuro Seminário de Valadares, excedendo os antigos alunos e familiares o número de 120. Almoço de “mesa comum” facilitando o convívio.
(Bol 13, 2.º e 3.º Trim 1966, p. 5)

1968, p. 4),

provavelmente a passagem do mandato dos corpos sociais de um para dois anos.

25 de Setembro – Assembleia Geral no Seminário de Cucujães, com eleição dos corpos sociais.
(Bol 14, 4.º Trim 1966, pp. 1-2)

1967 10 de Junho – Reunião regional do Norte, com missa, na quinta do Futuro Seminário de Valadares, cuja maquete e local foram visitados, sendo aberta campanha para pagar um quarto. Presentes cerca de 150 com familiares.
(Bol 17, Ago 1967, pp. 2 e 4)

1968 9 e 10 de Junho – Reunião anual em Tomar e Fátima, com mais de 120 presenças, incluindo familiares, e com representações de Lisboa, Porto, Angola e Moçambique. Em Tomar, Assembleia Geral no dia 9, seguida de missa e almoço; partida para Fátima às 19 h 30, saudação à Virgem, jantar, procissão de velas com reza do terço e visita ao Santíssimo; no dia seguinte: Via-Sacra no Calvário Húngaro e missa na capela das Aparições.
(Bol 21, Ago 1968, pp. 1 e 4 e MC 7, Jul/Ago 1968, p. 4)

21 de Junho – “Monumental sardinhame” em Valadares.
(Bol 21, Ago 1968, p. 2)

18 de Junho – Reunião regional em Lisboa, no Externato Marista, com a presença do Superior-Geral. Presentes: quatro dezenas, com familiares.
(Bol 17, Ago 1967, p. 2)

24 de Novembro – Reunião regional do Norte, em Valadares, com magusto.
(Bol 23, Fev 1969, p. 4)

8 de Dezembro – Reunião geral, no Seminário da Boa Nova (em construção), em Valadares, com aprovação de “alteração dos Estatutos” (Bol 19, Fev

1969 4 de Maio – Festa dos mealheiros, em Valadares, com caldo verde e “sardinhame assado” – mealheiro

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

72

onde havia 4600$00.
(Bol 23, Fev 1969, p. 2, e Bol 26, Ago 1969, p. 4)

8 de Junho – Assembleia Geral em Cernache do Bonjardim, com eleição de novos corpos sociais para o biénio de 1970/71.
(Bol 24, Abr 1969, p. 4)

16 de Novembro – Missa e magusto em Valadares, com animação do conjunto “Boa Nova”, do seminário.
(Bol 27, Out/Nov 1969, p. 2, e Bol 29, Dez 1969 / Jan 1970, p. 2)

1971 30 de Maio – Assembleia Geral, em Lisboa, no Colégio dos Maristas (R. Artilharia Um, 77), com eleição dos corpos directivos para o biénio 19721973. Registou 217 presenças, com representantes de Cabo Verde, Angola e Moçambique. (Ler crónica em Antologia, com o n.º (15)).
(Bol 35, Abr/Mai 1971, pp. 1 e 4, e Bol 36, Jun/Jul 1971, pp. 2-3)

4 de Dezembro – “Descontente com a situação de gelo nesta Zona Sul”, o armista Moutinho Rodrigues promoveu em Lisboa, no restaurante Arameiro, um jantar com a presença de treze antigos alunos.
(Bol 29, Fev/Mar 1970, p. 3)

14 de Novembro – Encontro do Norte, em Valadares, com missa pelos armistas falecidos e magusto. Esteve presente o Superior-Geral, Pe. Alfredo Alves.
(Bol 37, Ago/Set/Out 1971, p. 2, e Bol 38, Nov/Dez 1971, p. 4)

1970 26 de Abril – Reunião em Lisboa, no Instituto Adolfo Coelho, com missa e almoço.
(Bol 30, Abr/Mai 1970, p. 3)

31 de Maio – Assembleia Geral no Seminário da Boa Nova, em Valadares, com 150 presenças inclundo familiares.
(Bol 30, Abr/Mai 1970, p. 3, e Bol 31, Jun/Jul 1970, p. 2)

1972 14 de Maio – Encontro regional do Sul, no Colégio dos Maristas, com muitas presenças. Esteve presente o Senhor D. Manuel Maria Ferreira da Silva, Arcebispo de Cízico e antigo Superior-Geral da SM. Presidiu à celebração da eucaristia o então Superior-Geral, Pe Alfredo Alves.
(Bol 40, Mar/Mai 1972, p. 2, e Bol 41, Jun/Jul 1971, pp. 3-4)

15 de Novembro – Reunião do Norte com magusto, em Valadares, registando a surpresa de uma deputação de Lisboa.
(Bol 32, Ago/Set 1970, p. 3, e Bol 33, Out/Nov/Dez 1970, p. 3)

10 de Junho – Encontro regional do Norte, em Valadares, com missa e almoço. Cerca de 80 presenças.
(Bol 40, Mar/Mai 1972, p. 2, e Bol 41, Jun/Jul 1971, p. 4)

15 de Outubro – Assembleia Geral em Cernache do Bonjardim, com discussão controversa e que deu

O Arcebispo de Cízico, tendo à sua direita o Superior-Geral, Pe. Alfredo Alves, participou no encontro armista de Lisboa, em 14 de Maio de 1972 (Colégio dos Maristas).

73

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

brado e teve eco nas edições 43 e 44 do Boletim (ler a crónica de A. Malhão, “Muita parra e pouca uva”, na Parte III deste livro, com o n.º (16)). O Superior-Geral, Pe. Alfredo Alves, celebrou com nove sacerdotes.
(Bol 42, Ago/Set 1972, p. 1, e Bol 43, Out/Nov 1972, pp. 2-3)

1975 16 de Março – Assembleia Geral, no Seminário das Missões de Cernache do Bonjardim (convocada no Bol 52 (1.ª Série), Jan/Fev 1975, p. 1). Nada resolveu e consumou-se a paralisação. De 1975 a 1978, sem órgãos sociais, as actividades armistas oficiais pararam. Moutinha Rodrigues, porém, no seu texto manuscrito “Apontamentos da vida da “ARM” de 1974 – 1994, no ano do seu cinquentenário”, que leu em 15 de Outubro de 1994, em Valadares, nas “Primeiras Jornadas Nacionais da ARM”, integradas na celebração dos 50 anos da ARM (ver nota 33), escreveu que “logo em Maio de 1975” organizou um “encontro nacional” em Cucujães. E “o mesmo veio a acontecer em 76 e 77, não faltando mesmo a reunião de Novembro de sufrágio pelos colegas e familiares falecidos”. De nenhuma destas iniciativas encontrei notícia na Boa Nova, o que não significa que não se tenham realizado. Deve entretanto acrescentar-se, para bem da verdade histórica, que, no citado texto, há várias dúvidas e incorrecções: 1. Em Maio de 1974, não houve reunião geral em Cernache, mas terá havido a regional em Lisboa, no dia 19, no Colégio dos Maristas; em 1975, sim, houve reunião geral em Cernache, mas em 16 de Março, e nesta é que se consumou a ruptura. 2. O Dr. José Maria Ribeiro Novo só foi eleito presidente da Direcção em 24 de Maio de 1981, em Tomar, exercendo até 1987. Em 1979 e 1980 dirigiu a revisão dos Estatutos de 1964, tendo a nova versão sido aprovada em 1980 e ratificada em 1981, em 24 de Maio, em Tomar, onde, então, foi eleito presidente da Direcção. 3. O Dr. António Sérgio foi eleito presidente da Direcção em 17 de Maio de 1987, em Cucujães, e não em 1984. 1978 30 de Abril – Reunião geral da ARM, em Cernache do Bonjardim, para tentar vencer a “crise” provocada pela suspensão das actividades no quadro da situação sócio-política a seguir ao 25 de Abril. Esta reunião foi programada e planeada por um grupo de Lisboa liderado por António Moutinho

5 de Novembro – “Missa regulamentar” em sufrágio dos mortos da ARM, no Seminário de Valadares, com a participaçãao “desusada” de mais de 150 armistas e seus familiares.
(Bol 43, Out/Nov 1972, p. 4)

22 de Novembro – “Missa regulamentar”, em Lisboa, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, tendo presidido o assistente, Pe. Domingos Marques Vaz.
(Bol 43, Out/Nov de 1972, p. 4)

1973 3 de Junho – Reunião regional do Norte, no Seminário de Cucujães.
(Bol 45, Mar/Abr 1973, p. 5, e Bol 46, Mai/Jul 1973, p. 4)

17 de Junho – Reunião regional do Sul, em Lisboa, no Colégio dos Maristas, tendo presidido à eucaristia concelebrada o venerando Arcebispo de Cízico.
(Bol 46, Mai/Jul 1973, p. 4)

14 de Outubro – Assembleia Geral, no Seminário de Cucujães, com eleição dos corpos gerentes para o biénio 1974-1975. Missa presidida pelo Superior-Geral, Pe. Alfredo Alves, e concelebrada por dez sacerdotes da SM. Presente o Dr. Pinho Rocha, antigo médico e professor do seminário. Foi criada a Bolsa de Estudos “Cinquentenário da Sociedade”.
(Bol 46, Mai/Jul 1973, p. 1, e Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 2)

17 de Novembro – “ Missa regulamentar” em sufrágio dos armistas falecidos, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, celebrada pelo Pe. Domingos Marques Vaz, assistente da ARM.
(Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 3)

24 de Novembro – “ Missa regulamentar”, no Porto, na Igreja da Trindade, celebrada pelo Pe. Manuel Trindade, com razoável participação.
(Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 3)

1974 19 de Maio – Reunião regional do Sul, no Colégio dos Maristas, em Lisboa (anunciada no Bol 50 (1.ª Série), Mar/Abr 1974, p. 2).

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

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Rodrigues que reuniu com o Superior-Geral, Pe. Castro Afonso, em 8 de Março de 1978. O encontro em Cernache integrou-se na celebração dos 50 anos da reabertura deste Seminário no ano lectivo de 1927/1928, após a sua entrega pelo Estado. Compareceram cerca de 250 pessoas, com familiares, e o programa constou de Missa dominical, almoço, assembleia geral e convívio. Nesta reunião decidiu-se que o encontro anual se passasse a realizar no terceiro domingo de Maio e marcou-se já o do ano seguinte para 20 de Maio, também em Cernache. Foi constituída uma Comissão Directiva provisória para presidir à ARM até haver estatutos: dois elementos de Lisboa, José Nereu Santos e António Moutinho Rodrigues, e dois do Norte, Silvério Augusto da Mota e Mário Fernando Coelho Veiga.
(BN, Jul 1978, p. 9)

1979 20 de Maio – Reunião anual, no Seminário de Cernache do Bonjardim, a reatar as actividades oficiais da ARM. O atraso dos autocarros vindos de Lisboa e do Porto provocou alteração do programa que se desenrolou assim: Eucaristia na Igreja do Seminário, presidida pelo Superior-Geral, Pe. Castro Afonso, e animada pelos alunos do seminário; almoço no ginásio, oferecido pelo seminário, com tantas presenças para além das previstas que foi preciso revesar os pratos de vez em quando; passeio pela quinta; festa de família, no salão de festas, animada pelo “Conjunto Boa Nova” do Seminário de Valadares; Assembleia Geral que nomeou uma Comissão Administrativa para rever os Estatutos. Os presentes eram “algumas centenas”, o que fez deste encontro um dos “maiores de sempre”.
(BN, Jul 1979, pp. 28-29)

1980 18 de Maio – Reunião geral, no Seminário da Boa Nova, em Valadares, com a presença de cerca de duas centenas de antigos alunos e familiares. Programa: sessão de convívio, missa dominical sob a presidência do Superior-Geral, Pe. Castro Afonso, almoço oferecido pelo seminário. A Assembleia Geral aprovou os Estatutos, deu um voto de confiança à Comissão Administrativa para ultimar a redacção daqueles e confirmou-a por mais um ano (até 1981), devendo desempenhar todas as funções conferidas pelos Estatutos à Mesa da AG e à Direcção.
(BN, Abr 1980, p. 8, e BN, Jul 1980, p. 17)

1981 17 de Maio – Reunião geral, no Seminário de Cernache do Bonjardim. 24 de Maio – Assembleia Geral, no Seminário de Tomar, para ratificação dos novos Estatutos e eleição dos corpos sociais. 4 de Outubro – Reunião regional do Norte, no Seminário de Valadares. ( Ver à frente, para 1981, em 6. O MC e BN como órgão informativo da ARM). 1982 23 de Maio – Reunião nacional, no Seminário de Cernache do Bonjardim.
(Acta da A G).

Entre os muitos participantes, o grande missionário Pe. José Patrício e o armista Silva Tomás.

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

1983 22 de Maio – Encontro nacional, no Seminário de Cucujães.
(Acta da AG)

1989 21 de Maio – Reunião anual, no Seminário de Tomar, com eucaristia presidida pelo Superior-Geral, Pe. Manuel Trindade, e almoço.
(BN, Ago/Set 1989, p. 17)

1984 20 de Maio – Assembleia Geral anual, no Seminário de Valadares, com eleição dos corpos sociais.
(BN, Mai 1984, p. 29, e Acta da AG)

1985 19 de Maio – Assembleia Geral, no Seminário de Tomar.
(Acta da AG)

1986 18 de Maio – Reunião geral anual, no Seminário de Cernache do Bonjardim.
(Acta da AG)

1990 20 de Maio – Reunião geral anual, no Seminário de Cernache do Bonjardim, com a presença do Superior-Geral, Pe. Manuel Trindade. Houve eleição dos corpos sociais, eucaristia concelebrada com boa participação litúrgica, orientando o canto o armista Joaquim Alves Mateus, almoço na quinta, com grande convívio, romagem à gruta. Presentes: cerca de uma centena com familiares, trinta dos quais eram jovens que estiveram pela primeira vez.
(BN, Jun/Jul 1990, pp. 34-35)

1987 17 de Maio – Reunião anual, no Seminário de Cucujães, com eleição dos corpos sociais para o triénio de 1987-1990.
(Acta da AG)

13 de Novembro – Reunião regional de Lisboa.
(Acta da AG de 1988)

1988 15 de Maio – Assembleia Geral anual, no Seminário da Boa Nova, em Valadares.
(Acta da AG)

1991 19 de Maio – Encontro nacional anual, no Seminário de Cucujães, marcado inicialmente para 12 de Maio (BN, Março 1991, p. 4), mas adiado para 19 por motivo da visita de João Paulo II a Fátima. Estiveram presentes cerca de 150 pessoas. O Superior-Geral, Pe. Castro Afonso, presidiu à eucaristia concelebrada por alguns missionários. Houve duas assembleias, uma de manhã, outra de tarde. Um dos assuntos tratados foi o “Projecto Transportes para Missionários”, já anunciado na Boa Nova.
(BN, Jun/Jul 1991, pp. 32-33)

1992 ? 1993 16 de Maio – Assembleia Geral em Fátima, no Seminário de São Francisco Xavier, com eleição dos corpos sociais para o triénio 19931996. A nova Direcção propôs-se empenhar os antigos alunos em projectos e acções de colaboração com os missionários da frente e celebrar, em 1994, os 50 anos de vida da ARM.
Assembleia Geral, em Fátima, no Seminário de S. Francico Xavier, em 16 de Maio de 1993.
(BN, Jul 1993, p. 35, Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 3, e Acta da AG)

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

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7 de Novembro – Encontro regional do Norte, em Valadares, com missa e “grande magustada”. Estiveram presentes o presidente da AG, Dr. Nereu Santos, e o presidente da Direcção, Santos Ponciano. Assuntos tratados: a comemoração condigna do cinquentenário da ARM, em 1994, e a fundação de novas delegações em Bragança, Coimbra e Castelo Branco. Foi ainda “aprovada” a bandeira da ARM que o Dr. Nereu Santos mandara executar.
(Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 2 e Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 7)

de Cernache do Bonjardim, com aprovação de novos Estatutos e consequente recondução por mais dois anos dos órgãos sociais. Foi o início das comemorações do cinquentenário da ARM.
(Bol 54, Mai/Ago 1994, p. 4)

15 e 16 de Outubro – “Primeiras Jornadas da ARM”, em Valadares, integradas na celebração dos cinquenta anos da Associação. Com programa específico e exposição de fotografias.
(BN, Dez 1994, pp. 31-32)

12 de Novembro – Missa estatutária pelos falecidos, na Igreja de S. José da Anunciada, em Lisboa, seguida de jantar. Foi apresentada a ideia de um congresso para reflexão sobre os novos rumos da ARM.
(Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 3)

13 de Novembro – Encontro regional da delegação do Porto, no Seminário de Valadares, com assembleia, missa, almoço, romagem à gruta e magusto “à moda do norte”.
(Bol 55, Out 1994/Mar 1995, p. 3)

1 de Dezembro – Magusto da região de Lisboa, em Arranhó – Bucelas, em Quinta da SM.
(Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 3)

1994 18 de Abril – Fundação da delegação de Castelo Branco, com almoço, definição de objectivos e eleição do delegado e sub-delegado. Com familiares, 32 presenças.
(Bol 53, Mar/Abr 1994, pp. 8 e 2)

25 de Novembro – Encontro da delegação de Lisboa, com missa em sufrágio de todos os armistas falecidos, jantar, eleição do delegado e adjunto (Drs. Armindo Henriques e José Quina, respectivamente). Foram agraciados com a medalha do cinquentenário todos os presidentes da Direcção desde a fundação da ARM em 1944. Compareceu grande número de armistas.
(Bol 55, Out 1994/Mar 1995, p. 3)

1 de Dezembro – Magusto da delegação de Lisboa, em Sesimbra, com a presença de 30 armistas.
(Bol 55, Out 1994/Mar 1995, p. 3)

1 de Maio – Reunião em Pinelo para fundação da delegação de Bragança, com definição de objectivos e eleição do delegado e sub-delegado.
(Bol 54, Mai/Ago 1994, pp. 8 e 5)

15 de Maio – Assembleia Geral, no Seminário

1995 23 de Fevereiro – Encontro, em Pinelo, de armistas (poucos) da delegação de Bragança, com análise e discussão dos problemas sentidos. Marcou-se novo encontro para 1 de Maio, em Macedo de Cavaleiros.
(Bol 55, Out 1994/Mar 1995, p. 7)

Maio – Encontro da delegação de Lisboa, nos Pinheirinhos – Sesimbra, com a presença do Superior-Geral, Pe. Jerónimo Nunes, e cerca de duas dezenas de armistas.
(Bol 56, Abr/Mai 1995, p. 7)

1 de Maio – Encontro da delegação de Bragança, no Santuário de Balsamão, com a presença de 14 pessoas.
(Bol 56, Abr/Mai 1995, p. 6)

21 de Maio – Assembleia Geral, no Seminário de Cucujães. O Pe. Jerónimo Nunes, Sessão comemorativa dos 50 anos da ARM, em Cernache do Bomjardim, Superior-Geral, deu uma perspectiva da SM dizendo que são precisos leigos para a Misem 15 de Maio de 1994. Santos Ponciano no uso da palavra.

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

são. Nesse sentido, apresentou a ideia de “férias missionárias”, a promover no ano seguinte (1996).
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 8)

constatou-se haver três casais interessados. A eucaristia foi presidida pelo assistente, Pe. Viriato Matos, seguindo-se o almoço.
(Bol 60, Mai/Jun 1996, p. 3)

28 de Maio – Almoço de confraternização da delegação de Castelo Branco, para “celebrar um ano” da sua criação, com a presença de uns 14 armistas e familiares. O presidente Santos Ponciano apresentou a brochura “Nihimo” e os novos Estatutos.
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 6)

22 (23?) de Junho – Sardinhada “para a malta da zona de Lisboa”, na Quinta das Açucenas (Caneças) do Dr. José Quina. Compareceram 40 pessoas.
(Bol 59, Jan/Abr 1996, p. 6, e Bol 61, Jul/Set 1996, p. 4)

24 de Junho – Sardinhada da delegação de Lisboa, nos Pinheirinhos – Sesimbra, com cerca de trinta armistas.
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 6)

30 de Junho – Em Vimioso, reuniram alguns armistas (uns nove, como mostra a fotografia aqui não reproduzida) da delegação de Bragança.
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 4)

7 de Setembro – Aproveitando a presença em Portugal do armista Dr. Manuel Inglês, a trabalhar na CGD em Paris, Domingos Quina juntou uma dúzia e meia à mesa, no restaurante “A Roda”.
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 6)

Setembro (?) – Encontro com almoço, na Lousã, em casa do armista Domingos Laia Sequeira. Presentes cerca de 35 armistas.
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 4)

19 de Novembro – Magusto da delegação do Porto, no Seminário da Boa Nova, em Valadares, com missa, almoço, jogo de futebol entre alunos do seminário e armistas. Muitas presenças devido ao serviço prestado pelo “Nihimo”. Prestou-se sentida homenagem ao Dr. Albino Santos, falecido semanas antes, homem de “fé inquebrantável” e armista dos mais dedicados. A viúva esteve presente e abriu uma Bolsa de Estudo com o seu nome. A cooperação dos leigos no campo missionário também foi tema abordado. Costa Andrade, o delegado, Santos Ponciano, o presidente da Direcção nacional, e o Pe Viriato, o assistente, presidiram e orientaram os trabalhos.
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 7, e Bol 58, Out/Dez 1995, p. 6)

7 de Setembro – Em Lisboa, cerca de 40 pessoas da ARM encontraram-se no restaurante “A Fogueira” para cumprimentar dois armistas a viver em terras distantes e de férias em Portugal: o Sebastião João, no Brasil, e o Santos Ramos, em Macau. Estiveram também os PP. Viriato, José Marques e Casimiro.
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 4)

28 de Setembro – Fundação da delegação de Coimbra, em reunião com a presença de duas dezenas de armistas, alguns vindos de Lisboa, tendo sido eleitos o Dr. Gil Inácio como delegado e o Dr. Marinho Borges como adjunto. Celebrou-se a eucaristia e houve almoço.
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 3)

1996 23 de Março – “Almoço-convívio da Primavera em Pinheirinhos”, delegação de Lisboa, com 14 armistas e alguns familiares.
(Bol 59, Jan/Abr 1996, p. 6)

25 de Outubro – Reunião da delegação de Lisboa, com missa de sufrágio pelos armistas falecidos, na Igreja de S. Luís dos Franceses, seguida de jantar. Foram eleitos novos delegados.
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 7, e Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 4)

14 de Abril (?) – Castelo Branco juntou 16 armistas no Santuário da Senhora de Mércules para a celebração da missa e a seguir almoçou.
(Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 4)

10 de Novembro – A delegação do Porto fez o encontro com uma pequena assembleia, missa dominical e magusto, no Seminário da Boa Nova, em Valadares, com 80 presenças.
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 7, e Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 4)

19 de Maio – Assembleia Geral, no Seminário de Valadares, com eleição dos órgãos sociais para o triénio 1996-1999, (e votação e aprovação de contas, é claro). Foi aprovado um voto de louvor ao presidente da Direcção, Santos Ponciano, novamente eleito. Em relação às “férias missionárias”,

8 de Dezembro – Castanhada com mais de 30 de Lisboa, nos Pinheirinhos – Sesimbra.
(Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 4)

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

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1997 18 de Maio – Assembleia Geral, anunciada para se realizar no Seminário de Cernache do Bonjardim.
(Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 1)

29 de Outubro – Missa pelos armistas falecidos, na Igreja de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, presidida pelo Pe. Viriato, seguida de jantar-convívio.
(Bol 68, Out/Dez 1999, p. 8, e Bol 69, Jan/Mar 2000, p. 8)

21 de Junho – Sardinhada anual da região de Lisboa, na Quinta das Açucenas – Caneças.
(Bol 63, Mai/Ago 1997, p. 4)

13 de Setembro – Encontro armista de Coimbra, em casa do delegado, Dr. Gil Inácio: eucaristia presidida pelo Pe. Jerónimo Nunes, Superior-Geral da SM, almoço, partilha de novidades-notícias.
(Bol 63, Mai/Ago 1997, p. 4)

14 de Novembro – Magusto-convívio da Zona Norte, no Seminário de Valadares, segundo o programa habitual, com o testemunho missionário dos PP. Manuel Fernandes e Augusto Farias.
(Bol 68, Out/Dez 1999, p. 8, e Bol 69, Jan/Mar 2000, p. 8)

20 de Novembro – Convívio-magusto, em Pinheirinhos – Sesimbra, para os armistas de Lisboa, com a presença de elementos da Direcção (do Norte) e do assistente Pe. Viriato.
(Bol 68, Out/Dez 1999, p. 8, e Bol 69, Jan/Mar 2000, p. 8)

1998 31 de Maio – Assembleia Geral, no Convento de Cristo, em Tomar. Cerca de 180 presenças incluindo familiares. O presidente apresentou resumo das actividades do ano anterior; falou-se de “férias missionárias”; decidiu-se apoiar, com parte da receita daquele dia, a construção da casa paroquial da Gabela; o SuperiorGeral, Pe. Jerónimo Nunes, informou da actualidade da SM. Houve celebração da eucaristia. O almoço veio de Cernache e foi tomado no antigo e enorme refeitório. De tarde fez-se uma visita de saudade a todo o Convento, antigo seminário: as “cortes”, as celas dos frades, as salas de aulas, o claustro da Micha, outrora enorme, onde se corria e jogava, o claustro dos Corvos, a cozinha, o recreio das árvores...
(Bol 65, Mai / Jul 1998, pp. 3- 4)

2000 21 de Maio – Encontro Nacional com Assembleia Geral, no Seminário de Cernache do Bonjardim, incluindo o programa, além da eucaristia, a romagem à gruta e uma visita guiada pelo irmão Moreira à adega, à procura do “Terras D. Nuno”.
(Bol 69, Jan/Mar 2000, p. 4, e Bol 70, Out 2000, pp. 4-5)

27 de Outubro – Em Lisboa, missa pelos armistas falecidos, na Igreja de S. Luís dos Franceses, seguida de jantar.
(Bol 70, Out 2000, p. 8)

12 de Novembro – O Norte teve o seu magusto em Valadares, com o programa tradicional.
(Bol 70, Out 2000, p. 8 e Bol 71, Mar 2001, p. 6)

25 de Julho – Almoço-convívio, em casa do armista Domingos Sequeira, na Lousã.
(Bol 66, Ago/Set 1998, p. 6)

6 de Novembro – Missa em sufrágio dos armistas falecidos, na Igreja de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, e jantar.
(Bol 66, Ago/Set 1998, p. 5, e Bol 67, Set 1998 / Abr 1999, p. 7)

25 de Novembro – O tradicional magusto de Lisboa, nos Pinheirinhos, “em casa do Armindo e da São”, com a presença do Superior-Geral, Pe. Jerónimo.
(Bol 70, Out 2000, p. 8 e Bol 71, Mar 2001, p. 7)

15 de Novembro – Magusto-convívio da Zona Norte, em Valadares, com o programa do costume.
(Bol 66, Ago/Set 1998, p. 7)

2001 20 de Maio – Encontro Nacional com Assembleia Geral, no Seminário da Boa Nova, em Valadares.
(Bol 71, Mar 2001, p. 4, e Bol 72, Out 2001, pp. 4-6)

21 de Novembro – Magusto nos Pinheirinhos – Sesimbra.
(Bol 66, Ago/Set 1998, p. 5, e Bol 67, Set 1998 / Abr 1999, p. 7)

27 de Outubro – Encontro de Lisboa, na sede da SM, à Rua da Bempostinha, 30. Programa: eucaristia pelos armistas falecidos, almoço e magusto.
(Bol 72, Out 2001, p. 8, e Bol 73, Dez 2001, p. 4)

1999 16 de Maio – Assembleia Geral, no Seminário de Cucujães, com eleição dos órgãos sociais para o triénio de 1999/2002.
(Bol 67, Set 1998 / Abr 1999, p. 3 e Bol 68, Out/Dez 1999, p. 3)

11 de Novembro – Em Valadares, o tradicional magusto do Norte (que “começa no rio Minho e vai até onde começa o Sul…”), com o tradicional programa. Compareceram “quase sete dezenas de

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

armistas e sua famílias”, houve “concurso de aperitivos, digestivos e sobremesas” e grande animação musical.
(Bol 72, Out 2001, p. 8, e Bol 73, Dez 2001, p. 6)

véspera do regresso deste missionário a Moçambique.
(Bol 77, Dez 2002, p. 6)

2002 18 e 19 de Maio – “Congresso da ARM”, no Seminário de Valadares, com Assembleia Geral para eleição dos corpos sociais para o triénio 2002-2005. Com a presença de cerca de sessenta pessoas, o programa foi o seguinte: no sábado: recepção e entrega de documentos, abertura pelo Superior-Geral, exposição “A ARM e os missionários”, palestra de Moutinha Rodrigues sobre a colaboração dos antigos alunos com a SM, tendo enunciado onze maneiras possíveis de a concretizar (cf Bol 75, Jul 2002, p. 3), e momento de diálogo sobre essas sugestões, serão cultural com o Coro de Milheirós de Poiares a cantar música litúrgica de João Gamboa alternando com leitura de poemas de Eugénio Beirão; no domingo: palestra do Pe. António Couto, sobre o cap. 16 da Carta de S. Paulo aos Romanos (os primeiros passos das comunidades cristãs da Igreja nascente), AG com eleição dos novos corpos sociais, eucaristia e almoço de encerramento.
(Bol 75, Jul 2002, p. 3)

Armistas de Lisboa acolhem e confraternizam com o P. José Marques, na véspera do regresso deste às Missões de Moçambique.

26 de Outubro – Encontro regional da delegação de Bragança, no Santuário de Balsamão, com a presença do presidente da Direcção. Programa: troca de impressões sobre o plano de acção e projectos da Direcção, seguindo-se um magusto. Presentes 12 pessoas.
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 77, Dez 2002, pp. 4-5)

26 de Outubro – Encontro de armistas de Lisboa, com “caras já bem conhecidas” e “caras novas”, num almoço de ameno convívio, dado o pequeno número dos presentes.
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 77, Dez 2002, pp. 6-7)

Congressistas aguardam concerto coral (Valadares, 18 de Maio de 2002).

9 de Novembro – Oito armistas (em vinte possíveis), incluindo o Pe. Zacarias e o presidente, encontraram-se em Coimbra, primeiro acolhendo-se em frente à Igreja de Santa Cruz, logo a seguir no indispensável almoço-convívio.
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 77, Dez 2002, pp. 7)

26 de Setembro – Armistas de Lisboa juntaramse em jantar-convívio com o Pe. José Marques, na

10 de Novembro – A delegação de Castelo Branco

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

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teve encontro e programa marcados para este dia, mas não chegou a realizar-se.
(Bol 76, Out 2002, p. 8)

10 de Novembro – Mas realizou-se o encontro da delegação de Cernache do Bonjardim, no qual compareceram 13 armistas e estiveram 40 pessoas, incluindo familiares e membros da SM. Depois da missa, foi o convívio com almoço, visita à gruta e magusto.
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 3)

10 de Novembro – Também nesta data, juntinho ao dia 11 da festa de São Martinho, e com a presença dos novos Superior-Geral e Reitor, PP. António Couto e Manuel Bastos, realizou-se o tradicional encontro de Valadares, com assembleia, eucaristia, almoço com concurso de sobremesas e, mais tarde, o incontornável magusto.
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 3)

lema “Caminhar em missão”. Presenças, incluindo esposas: 65 permanentes, 80 no domingo. Programa de sábado: acolhimento e preparação de cânticos para a eucaristia; sessão de abertura presidida pelo Superior-Geral, com apresentação das delegações; painel “Que missão para os leigos, hoje?”, com testemunhos de elementos dos “Leigos Boa Nova”; painéis simultâneos: para senhoras: “Que missão para nós, mulheres?”, para homens: “Os novos desafios da ARM”; serão-convívio, com saudação da Direcção a todas as delegações, canções, leitura de poemas, jogos, etc. No domingo: AG para avaliação do ano, apresentação de plano para o ano seguinte e discussão e aprovação de contas; eucaristia festiva, com proclamação das conclusões e rito de envio dos armistas; almoço de encerramento.
(Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 6, Bol 79, Jul 2003, pp. 3-7, e Bol 80, Out 2003, pp. 4-5)

17 de Novembro – Com sessão de abertura, eucaristia, almoço, visita, guiada pelo Pe. Adelino, ao Seminário em obras e ao Lar de Santa Teresinha e magusto, reuniram em Cucujães cerca de 90 pessoas, sendo 35 armistas. Destes, uns 25 compareceram pela primeira vez. Estiveram presentes o presidente da Direcção e o assistente, Pe. Jerónimo Nunes. Foi escolhida a direcção da delegação local.
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 78, Mar/Abril 2003, p. 4)

25 de Outubro – Encontro regional de Lisboa, nos Pinheirinhos (Sesimbra), com oração no Santuário de Nossa Senhora do Cabo de Espichel. Devido ao mau tempo, presentes apenas 13 pessoas, incluindo o Pe. Pino e o Irmão Pequito.
(Bol 81, Dez 2003, p. 4)

2003 17 e 18 de Maio – Encontro nacional no Seminário de S. Francisco Xavier, em Fátima, sob o

1 de Novembro – Encontro regional de Barcelos, pela primeira vez, com jantar-convívio em restaurante. Presentes uma dezena de antigos alunos, incluindo o presidente da Direcção.
(Bol 81, Dez 2003, p. 4)

Participantes no Encontro Nacional da ARM 2003, no Seminário de S. Francisco Xavier.

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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

8 de Novembro – Alguns armistas da delegação de Tomar, acrescidos do assistente Pe. Jerónimo e do presidente da Direcção, fizeram encontro na cidade do Nabão, com almoço e rico convívio.
(Bol 81, Dez 2003, p. 5)

vida da SM. A missa teve lugar na Capela do Seminário, presidida pelo assistente Pe. Jerónimo. Após o almoço foi tempo de convívio, foi-se à Gruta onde se fez breve oração e encerrou-se com as castanhas.
(Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 5)

8 de Novembro – Bragança-Miranda fez o encontro no Santuário de Balsamão, com 11 presenças. O Pe. Mamede Fernandes, na altura a servir na Paróquia do Santo Condestável de Bragança, presidiu à celebração da eucaristia.
(Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 4)

9 de Novembro – O Seminário da Boa Nova foi novamente o palco para o encontro de armistas da delegação de Valadares. Dezasseis presenças na pequena assembleia inicial, cerca de 50 na eucaristia e no almoço. Devido à chuva, o magusto foi no refeitório.
(Bol 82, Mar/Abr 2004, pp. 4-5)

16 de Novembro – Cinquenta e seis armistas e familiares reuniram-se no Seminário de Cucujães para o encontro regional. Após breves palavras de boas vindas, cantou-se o hino da ARM, a direcção local informou os presentes das actividades desse ano e o assistente deu conta de alguns aspectos da

2004 20 de Março – Reunião do presidente da Direcção, no Seminário de S. Francisco Xavier, em Fátima, com os delegados regionais do Centro e Lisboa, tendo estado presentes os de Cernache do Bonjardim, Lisboa e Tomar. 27 de Março – Reunião do presidente da Direcção, no Seminário de Valadares, com os delegados regionais do Norte, tendo estado presentes os de Barcelos, Cucujães e Valadares. 15 e 16 de Maio – Encontro nacional com AG, no Seminário de Cernache do Bonjardim, sob o lema “Viver em missão”. Programa de sábado: acolhimento e ensaio de cânticos; sessão de abertura seguida de testemunho pessoal do casal armista Isménia e António Regal sobre o citado lema; AG, com avaliação das actividades do ano, plano para o seguinte, aprovação das contas e aprovação do Re-

Foto de família dos armistas participantes no Encontro Nacional 2004, em Cernache do Bonjardim.

A ARM nos 75 anos da S M B N / Memória

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gulamento das Delegações Regionais; jantar e serão-convívio. No domingo: ensaio de cânticos na igreja; eucaristia concelebrada (propondo os cânticos o Grupo Coral de Proença-a-Nova, acompanhado pelo organista Nuno Alexandrino); concerto de música sacra – coro, órgão e flauta (Eduardo Lucena); romagem à Gruta e almoço de encerramento. O Superior-Geral não pôde estar presente, mas presidiu o assistente Pe. Jerónimo. Os delegados presentes (Barcelos, BragançaMiranda, Cernache, Cucujães, Lisboa, Tomar e Valadares) ofereceram ao Seminário, no cortejo dos dons, produtos das suas regiões. Mas houve armistas das nove delegações. Puseram-se em prática normas da vida comunitária de outrora: toque da sineta e leitura durante parte da refeição, por exemplo. Presenças: 70 no sábado, mais de 90 no domingo.
(Bol 82, Mar/Abr 2004, pp. 6 e 8, e Bol 83, Jul 2004, pp. 1, 3-6 e 7)

proporcionou a evocação de grandes recordações. 30 de Outubro – Em Alvelos, encontraram-se em franco convívio 20 armistas da região de Barcelos. Alguns não se viam há 30 anos! E acertaram o último sábado de Novembro para o encontro anual. Estiveram presentes, também, os PP. Adelino Simões e Jerónimo Nunes, assistente da ARM.
(Relato de José Campinho)

6 de Novembro – Com a presença de mais de 30 pessoas, incluindo o presidente da Direcção, realizou-se o encontro da delegação de Lisboa que abriu com a celebração da eucaristia, cantada pelos armistas, no Colégio Pio XII. O almoço proporcionou grande convívio. Estiveram presentes o Pe. Alfredo Alves Moreira, que havia celebrado semanas antes as bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal, e o Pe. Viriato Matos.
(Bol 85, Dez 2004, pp. 4-5)

17 de Outubro – Cerca de meia centena, com familiares, foram as presenças neste encontro da delegação de Cucujães. Para celebrar os 75 anos do Seminário, que ocorria nesse mês, o armista historiador Joaquim Candeias da Silva apresentou uma comunicação sobre “São Martinho de Cucujães – Oito séculos de um Mosteiro”. Celebrou-se a eucaristia na Capela do Seminário, a que presidiu o assistente da ARM; cantaram os armistas. Depois foi o almoço, no claustro renovado, onde foi construído um singelo monumento de homenagem aos pioneiros da SM. Houve sorteio de livros e o presidente da Direcção participou em todo o encontro.
(Bol 85, Dez 2004, p. 4)

7 de Novembro – Em terras de D. Nuno Álvares Pereira, o velho seminário que, ao longo da sua história, acolheu tantos adolescentes, recebeu desta vez 14 armistas para o seu encontro regional. Programa: eucaristia, visita à Gruta com oração, almoço e magusto. O Reitor Pe. Carlos acompanhou sempre os antigos alunos da SM. Também esteve o presidente da Direcção, com a esposa.
(Relato do delegado António Bernardo Correia)

14 de Novembro – Em Valadares cumpriu-se a tradição com a presença de cerca de 20 armistas, incluindo o presidente da Direcção, que fizeram o programa habitual: pequena assembleia, eucaristia, almoço, convívio e magusto.
(Relato do delegado F. Costa Andrade)

23 de Outubro – Cerca de 15 armistas transmontanos, aos quais se juntou o presidente da Direcção, encontraram-se em Vimioso. Oito estiveram pela primeira vez. Falou-se da vida da ARM, ensaiou-se e cantou-se o hino. Em Vale de Algoso, houve celebração da eucaristia e tomou-se o almoço. Presentes também os PP. Amado e Mamede.
(Bol 85, Dez 2004, p. 6)

20 de Novembro – A delegação de Tomar realizou o seu encontro em Tancos e estiveram presentes 12 pessoas, sendo sete os antigos alunos da SM, incluindo o presidente da Direcção. Rostos novos: o Carlos Santos e o Celestino Neves. O almoço proporcionou grande partilha de notícias e recordações. Houve visita ao castelo de Almourol.
(Bol 85, Dez 2004, p. 5)

30 de Outubro – Foi em Alpedrinha que se reuniram sete armistas da delegação de Castelo Branco-Guarda, incluindo o presidente da Direcção. Depois do primeiro contacto e conhecimento mútuo, o José Manuel Fernandes mostrou e explicou os monumentos da vila, seguindo-se o almoço que

27 de Novembro – Coimbra marcou pontos com a presença de 15 armistas. O início do encontro teve lugar frente à Igreja de Santa Cruz e continuou durante o almoço, num restaurante da rua da Sofia. Vários rostos velhos tornados novos aos olhos dos presentes no encontro anterior.
(Relato do armista Gabriel Silva)

83 5. O BOLETIM DA ARM

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

O órgão de comunicação da ARM foi, desde o princípio, a revista Missionário Católico, “que será distribuído a todos os associados no pleno gozo dos seus direitos” 48; no entanto, competia à Direcção “promover a publicação de um suplemento do Missionário Católico, especialmente destinado aos associados” 49. Este suplemento teve a primeira edição (o n.º 1) em Março de 1961, com o título de A.R.M. e o subtítulo de “Suplemento do Missionário Católico para os membros da Associação Regina Mundi”.

lo de Boletim da ARM, mas ainda como “Suplemento do Missionário Católico”. Em Maio de 1968, o n.º 20 apresentou-se, pela primeira vez, com o conhecido, belo e feliz logotipo da ARM, que nunca mais foi abandonado50. A indicação de “Suplemento do Missionário Católico” surgia agora diluída, usando caracteres mais reduzidos e já não como subtítulo, até desaparecer definitivamente, quase um ano depois, na edição n.º 23, em Fevereiro de 1969.

A apresentação gráfica do Boletim da ARM foi continuando a alterar-se e a melhorar, como pode ver-se na reprodução dos números 52 (1.ª Série), de Jan/Fev 1975, 52 (2.ª Série), de Jan/Fev 1994, 68, de Out/Dez 1999, e 77, de Dez 2002.

Em Agosto de 1967, o n.º 17 surgiu com o títu-

48 49

Estatutos de 1960, Art.º 8.º. Estatutos de 1960, Art.º 5.º, d).

Com a sua força expressiva, o logotipo tornou-se, de facto, no símbolo de marca da ARM e veio a ser inscrito na bandeira da Associação, adoptada em Novembro de 1993. Tratadas as rugas acumuladas ao longo dos anos, surgiu com a cara lavada na edição n.º 77, em Dezembro de 2002: linhas mais nítidas e claras, sombreado liso e aveludado.

50

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Merece referência de relevo uma edição especial e desgarrada – de “pirata” a classificaram os que a deram à luz –, saída no Norte (Porto), seguramente em 18 de Maio de 1986, sob a direcção de

Santos Dupré51, e com a clara intenção de assinalar, enquadrar e apoiar o Encontro Nacional anual que nesse dia se realizava no Seminário de Cernache do Bonjardim, a “Casa-Mãe” a que regressavam os armistas. Com o n.º 50 (2.ª Série), de Set/Out 1993, apareceu, na segunda página, uma ficha técnica, em coluna, que se tem mantido até hoje. Aí são indicados, entre outros dados importantes, o número de exemplares publicados e os nomes dos colaboradores. Foi também a partir desta edição que surgiu, na primeira página, em mancha, o destaque de alguns títulos de textos. Esporádica durante alguns anos, esta melhoria informativa tornou-se definitiva com o número 70, em Outubro de 2000.

Em Julho de 2002, com o n.º 75, começou a ser impressa, na última página, em mancha, uma inscrição com a identificação do Boletim. No que diz respeito aos textos publicados no Boletim, eles foram sendo progressivamente mais variados, nos temas tratados, nos objectivos a atingir, nos autores e, obviamente, no estilo. Como este assunto vai ser tratado na Parte III deste livro (AnLembra-se que a publicação do Boletim não se fazia desde Fev 1975 e só viria a ser retomada em Set 1993.
51

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tologia de textos publicados no Boletim da ARM), agora só interessa dizer que, desde o primeiro número, houve um “artigo de fundo”, um texto de carácter doutrinário; mas só com o n.º 50 (2.ª Série), em Set/Out 1993, começou a classificar-se esse texto, e não sempre, de Editorial. Tal veio a tornarse constante a partir de Março de 2001, com o n.º 71. Quase sempre publicado na primeira página, às vezes na terceira. Esse texto tinha (e continua a ter) como objectivo fundamental a formação dos armistas, inculcando valores e apontando princípios, ideias e atitudes, com vista a atingirem-se os fins da Associação. Mas há outros tipos de textos: uns são informativos, outros fazem memória, outros, ainda, interpelam e dão resposta, outros, finalmente, são cartas dos leitores armistas. Todos procuram criar e fazer circular o espírito armista e aprofundar a co-

munhão entre todos os antigos alunos da SM. Outros aspectos há ainda que interessa dar a conhecer e vão ser apresentados em extenso quadro que abrangerá todos os números do Boletim. São eles os seguintes, além do número e data de cada edição: quem era o presidente da Direcção ou o director do Boletim; onde foi este composto e impresso; o seu formato; o número de páginas; se contém ilustrações (ou gravuras) e quantas; o nome dos colaboradores, mesmo usando pseudónimos, abreviaturas ou siglas (excepto quando as suas cartas só são parcialmente publicadas); a tiragem; se apresenta publicidade e quantos anúncios. Assim se ficará a saber a evolução havida desde a primeira edição, em Março de 1961, e o n.º 85, em Dezembro de 2004, com a interrupção conhecida de 18 anos, entre 1975 e 1993.

Quadro-síntese do Bolotim da ARM, do n.º 1 ao n.º 85.

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6. O MISSIONÁRIO CATÓLICO E A BOA NOVA COMO ÓRGÃO INFORMATIVO DA ARM Em Maio de 1963, noticiava o Boletim n.º 5 que havia sido pedida “a atenção da direcção do Missionário Católico, como órgão oficial da ARM, para o reduzido noticiário que a seu respeito inseria” 52.
52

Bol 5, Mai 1963, p. 5.

Justificava-se este reparo e o consequente pedido? Se tivermos em conta que o MC era, estatutariamente, o “órgão oficial da ARM” e se observarmos as notícias nele publicadas sobre as actividades da Associação, não há dúvida de que tal atitude era legítima. Com efeito, até esse momento (Maio de 1963), o MC havia publicado apenas uma fotografia de um grupo de armistas, em 1961, e, em 1962, apresentara duas fotografias em Janeiro e outra em Junho. Nos anos seguintes o rit-

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mo informativo foi ainda mais baixo, ficando alguns totalmente em branco. Porém, havia o Boletim que, embora “suplemento do MC”, ia veiculando a informação para os associados. Importante é saber como se comportou a Boa Nova, sucessora do MC a partir de Janeiro de 1970, sobretudo no período de 1978 a 1993, em que já havia um órgão directivo da ARM mas não se publicava o Boletim. E nessa altura, quando já não era órgão informativo oficial da ARM, a BN forneceu aos armistas noticiário suficiente da vida da sua Associação, nomeadamente anunciando, primeiro, a realização anual do encontro nacional e, depois, fazendo o seu relato. Caberia aqui interrogarmo-nos, sobretudo interrogar os responsáveis da altura, se estavam atentos e eram suficientemente cuidadosos a fornecer à redacção da revista os dados informativos necessários para publicação... Mas disso nada sabemos. Para se ter uma visão objectiva e completa deste problema, apresenta-se a seguir o levantamento de todo o noticiário – textos e fotografias – publicado pelas duas revistas, desde 1961 até 2004. 1961 Missionário Católico [Ano XXXVII – Série III] (n.º 16) de Abril (p. 21): Fotografia de armistas, junto à Charola do Convento de Cristo, em Tomar.

MC (n.º 29) de Junho (p. 7): Fotografia da reunião regional da ARM realizada em Lisboa, no dia 1 de Abril de 1962.

1963 MC (n.os 42-43) de Agosto-Setembro (p. 18): Três fotografias da reunião geral de 10 de Junho de 1963, realizada em Cucujães.

À volta da imagem da Senhora do Mundo, no velho claustro beneditino.

1964 __ 1965 MC (n.o 63) de Maio (p. 21): Fotografia (também publicada no Bol 10, p. 4) da reunião regional de Lisboa, realizada em 25 de Abril de 1965. (Reproduzida atrás, p. 70). 1962 MC (n.º 24) de Janeiro (p. 21): Duas fotografias: uma do Encontro geral de Cernache do Bonjardim, em 1 de Outubro de 1961; outra do Encontro regional de Valadares, em 21 (22?) de Outubro de 1961. 1966 __ 1967 __

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1968 MC (n.o 7) de Julho-Agosto (p. 4): Fotografia: armistas em Via-Sacra no Calvário Húngaro, em Fátima, em 10 de Junho de 1968. (No dia 9 houve AG em Tomar). 1969 MC (n.o 2) de Fevereiro (p. 5): Fotografia solta (não contextualizada) de membros da ARM. 1970 __ 1971 Boa Nova de Julho (p. 8) 53: Fotografia do encontro anual realizado em Lisboa, em 30 de Maio de 1971. 1972 B N de Julho (p. 37): Fotografia do Encontro regional, realizado em Lisboa, no dia 14 de Maio de 1972. B N de Dezembro (p. 31): Duas fotografias do Encontro nacional realizado em Cernache, em 15 de Outubro. 1973 __ 1974 B N de Julho-Agosto (p. 73): Fotografia da reunião regional do Sul, em Lis-

boa, em 19 de Maio de 1974. 1975 __ 1976 __ 1977 __ 1978 B N de Julho (p. 9): Três fotografias e notícia importante: Encontro nacional em Cernache (cf., atrás, 4. REUNIÕES…). 1979 B N de Maio (p. 27): Anúncio da reunião anual a realizar em Cernache do Bonjardim, em 20 de Maio de 1979. B N de Julho (pp. 28-29): Longa crónica e muitas fotografias (13!) do Encontro nacional de 20 de Maio de 1979, realizado

O “velho” Pacheco competindo em entusiasmo pela ARM com o “jovem” Simão e mulher.

O Dr. Regal trocando impressões com o Jorge.

em Cernache do Bonjardim. 1980 B N de Março (p. 33): Anúncio da reunião geral a realizar em 18 de Maio de 1980, no Seminário de Valadares. B N de Abril (pp. 8-9): Anúncio renovado e convite da SM e da Comissão Administrativa da ARM para a reunião anual a efectuar no Seminário da Boa Nova, em Valadares,

53 O Missionário Católico deu lugar à Boa Nova, como já se disse, em Janeiro de 1970.

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94

em 18 de Maio de 1980, juntando o projecto de revisão dos Estatutos. B N de Julho (p. 17): Crónica da reunião anual de 18 de Maio de 1980, realizada em Valadares. 1981 B N de Abril (p. 33): Anúncio da reunião geral, a realizar em Cernache do Bonjardim, no dia 17 de Maio de 1981. B N de Maio (p. 4): Convocatória da AG, a realizar no Seminário de Tomar, em 24 de Maio de 1981, para ratificação dos Estatutos. B N de Julho (p. 9): Crónica extensa da AG, realizada no Seminário de Tomar, em 24 de Maio de 1981. B N de Dezembro (p. 28): Longa e bem humorada crónica da reunião regional do Norte, realizada em 4 de Outubro de 1981, no Seminário de Valadares. “Nada mete medo aos do Norte!” é o seu título e escreveu-a DUPRÉ 54. 1982 B N de Maio (p. 31): Anúncio da reunião nacional a efectuar em 23 de Maio de 1982, no Seminário de Cernache do Bonjardim 55. 1983 B N de Maio (p. 5): Anúncio do Encontro nacional, a realizar no Seminário de Cucujães, no dia 22 de Maio de 1983. 1984 B N de Maio (p. 29): Anúncio e convocatória da AG anual, a realizar no dia 20 de Maio, no Seminário de Valadares, com eleição dos corpos sociais para o triénio de 1984-1987. Texto com alguma reflexão. 1985 __

1986 B N de Maio (p. 35): Anúncio (simples) da reunião geral a realizar no Seminário de Cernache do Bonjardim, em 18 de Maio de 1986. 1987 __ 1988 B N de Abril (p. 10): Anúncio (simples) da AG de 1988, a realizar em 15 de Maio, no Seminário da Boa Nova, em Valadares. 1989 B N de Maio (p. 5): Anúncio simples da reunião anual, a realizar em 21 de Maio, no Seminário de Tomar. B N de Agosto-Setembro (p. 17): Relato da reunião de Tomar, realizada em 21 de Maio, com três fotografias. Autor do texto: Faria Gomes. 1990 B N de Maio (p. 5): Anúncio simples da realização da reunião geral da ARM, a ter lugar em 20 de Maio, em Cernache do Bonjardim. B N de Junho-Julho (pp. 34-35): Crónica da AG de Cernache do Bonjardim, realizada em 20 de Maio. Seis fotografias. E o teste-

Este texto pode ser lido na Parte III deste livro (Antologia de Textos publicados no Boletim da ARM), com o n.º (19). 55 Não encontrei relato deste Encontro nacional nas edições posteriores da Boa Nova.

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Um grupo de jovens que participou pela primera vez.

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munho de Faria Gomes. 1991 B N de Março (p. 4): Anúncio do Encontro nacional anual, a realizar no dia 12 de Maio, no Seminário de Cucujães. B N de Março (p. 21): Anúncio e apelo da ARM aos “cristãos e empresas de Portugal” para participação na ajuda ao “Projecto Transportes para Missionários”, que pretendia adquirir jipes para Chibuto, Nampula e Chiúre, em Moçambique, Gabela e Sumbe, em Angola, Chililabombwe, na Zâmbia, e Chapadinha, no Brasil. B N de Maio (p. 38): Novamente o “Projecto Transportes para Missionários”, indicando os contactos: Zona de Lisboa, Dr. Nereu Santos; Zona do Porto, Costa Andrade; Zona de Santa Maria da Feira, Óscar Rodrigues. Anúncio do Encontro nacional, a realizar em 19 de Maio, no Seminário de Cucujães. (Na BN de Março, fora indicado o dia 12, mas foi adiado devido à visita do Papa João Paulo II a Fátima). Destacável para preenchimento pelos antigos alunos com os dados pessoais, no sentido de refazer o ficheiro de armistas. B N de Junho-Julho (pp. 32-33): Relato, assinado pelo Pe. João Avelino, do Encontro nacional que teve lugar em Cucujães, em 19 de Maio. Três fotografias. Mais: entrevista, com fotografia, ao Dr. José Nereu Santos, co-fundador da ARM, em 1944; fotografia dos 15 participantes nessa primeira reunião fundadora da ARM, com indicação dos seus nomes. B N de Agosto-Setembro (p. 9): Texto de Santos Ponciano (“Um projecto: sete jipes”), a propósito da AG de 19 de Maio, em Cucujães. Também uma fotografia desse encontro. B N de Dezembro (p. 41): Nova informação e apelo à colaboração no projecto de aquisição de viaturas todo-o-terreno para Chibuto, Chapadinha, Gabela, Nampula e Zâmbia, com indicação dos núcleos armistas responsáveis (Santa Maria da Feira, Lisboa, Porto, Cucujães/ Aveiro e Esmoriz) e do número das respectivas contas bancárias.

1992 __ 1993 B N de Abril (p. 18): Lembra que o Encontro com AG deste ano se realizará em 16 de Maio, no Seminário de S. Francisco Xavier, em Fátima. B N de Julho (p. 35): Relato do Encontro anual realizado em Fátima, no Seminário de S. Francisco Xavier, em 16 de Maio, com a eleição dos corpos sociais. Uma fotografia da Assembleia da ARM. 1994 B N de Junho (p. 10): Crónica, assinada por Armando Soares, do Encontro realizado em Cernache do Bonjardim, em 15 de Maio, com a celebração dos 50 anos da fundação da ARM, a qual tomara personalidade jurídica apenas na véspera, em Lisboa. Por essa razão, a AG confirmou por unanimidade, e por mais dois anos, os membros da Mesa da AG e da Direcção e procedeu à eleição, pela primeira vez, do Conselho Fiscal. Foi também aprovada nova quota, não se indicando o quantitativo. Antes do almoço, foi a missa concelebrada na Igreja do Seminário, tendo presidido o Pe. Augusto Farias. Animou os cânticos o Coro da ULTI (Universidade de Lisboa para a Terceira Idade), dirigido pelo armista Joaquim Alves Mateus. A romagem à Gruta encerrou o dia, tendo-se associado gente de Cernache. Reza a crónica que terão estado, com familiares, perto de 350 pessoas! B N de Dezembro (pp. 31-32): Crónica da autoria de Mário Veiga sobre as “Primeiras Jornadas Nacionais da ARM, realizadas em Valadares, nos dias 15 e 16 de Outubro, e integradas nas comemorações do cinquentenário da ARM. Três fotografias. 1995 __ 1996 __

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1997 B N de Julho (p. 31): Crónica da AG realizada em 18 de Maio, no Seminário de Cernache do Bonjardim, acompanhada de fotografia. Autor: José Quina. 1998 __ 1999 __ 2000 __ 2001 __ 2002 __ 2003 BN de Julho (pp. 8-9): Notícia sumária do Encontro Nacional 2003, realizado no Seminário de S. Francisco Xavier, em Fátima, em 17 e 18 de Maio, com fotografia de “família”. E também as conclusões do Encontro. 2004 BN de Agosto/Setembro (p. 18): Notícia longa do Encontro Nacional 2004, realizado no Seminário de Cernache do Bonjardim, em 15 e 16 de Maio, com fotografia de todos os participantes.

22 de Outubro de 1961, no “Novo Seminário” de Valadares, em construção 57. E em 1963 foi nomeado delegado da ARM em Coimbra o Dr. Joaquim Marques Pereira 58. Os Estatutos de 1964 definiam as Delegações como órgão social da ARM, a par da Assembleia Geral e da Direcção, e diziam que haveria Delegações “nos distritos do Continente e Ultramar”, sendo as suas competências definidas no Art.º 21.59. Na década de 60, aproveitando a presença de bastantes antigos alunos na administração, na vida sócio-económica e nas Forças Armadas, houve um esforço assinalável para a criação de Delegações no Ultramar 60. Foi o caso da Delegação de Lourenço Marques, em Moçambique, com a nomeação, em 1966, do Dr. António Maria de Matos para seu responsável.

Vale a pena transcrever excertos de uma carta sua, datada de 21 de Abril de 1966, dirigida ao presidente da Direcção da ARM, Dr. José Roque Abrantes Prata: “Foi com grande surpresa e enorme satisfação que recebi uma carta datada de 17 de Março último [...] noticiando-me de que em Assembleia Geral havia sido escolhido para Delegado da Associação em MoçamBol 2, Set 1961, p. 3. Bol 5, Mai 1963, p. 5. 59 Ver atrás 2.2. Os Estatutos de 1964, onde essas competências estão transcritas. 60 Foi a AG de 1964, realizada no Seminário de Cernache do Bonjardim, em 4 de Outubro, que deliberou criar delegações no Ultramar (cf. Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, p. 3). Em 1965, o Dr. José Francisco Rodrigues, então presidente da Mesa da AG, ter-se-á deslocado a África e ele próprio terá tratado de as lançar em Angola e Moçambique (Idem, ibidem).
58 57

7. AS DELEGAÇÕES 7.1. Breve quadro panorâmico Desde o princípio, os Estatutos da ARM previram a realização de reuniões de carácter regional e a existência de delegados regionais 56. Em 1961 já havia a Delegação do Norte e José Dias de Pinho era o seu responsável, tendo tido papel de relevo na organização da reunião regional do Norte, em
56 Estatutos de 1960, Art.º 6.º § 2.º e Art.º 5.º e), respectivamente (Bol 1, Mar 1961, p. 2).

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bique, para o que tão amavelmente me convidava a aceitar o lugar. [...] ... a vossa carta veio, precisamente, ao encontro da actividade que, nesse sentido, eu próprio estava a desenvolver, em Lourenço Marques, com o precioso patrocínio de um dos nossos que “ficaram”, o grande amigo e incansável na prática do bem, Sr. P. Valente, pois através do Rádio-Clube de Moçambique foi já feito um convite a todos os nossos excolegas dispersos pela imensidão moçambicana com vista a estabelecerem-se os primeiros contactos. Deste modo, espero que se realize, no primeiro Domingo de Maio, a primeira reunião que terá lugar na “nossa casa do Infulene”, pois tenho a promessa de que estarão no meio de nós, além dos Srs. Pes. Pinheiro e Valente, o sempre jovem e incansável apóstolo que é o Sr. P. Álvaro” 61. Também em Angola, onde a Sociedade Missionária só começaria a trabalhar em 1970, se procurou criar uma rede de delegações que aglutinassem os antigos alunos. Para Luanda foi proposto o Dr. Matias Farinha; para Sá da Bandeira e Moçâmedes foram escolhidos e propostos delegados cujos nomes se desconhecem, devido ao não aparecimento do Boletim n.º 12, onde terão sido indicados 62. Da eventual acção destes armistas não houve ecos no Boletim. Em 1968, o Boletim n.º 19 publicou uma fotografia de um encontro de armistas, em Angola, com o Pe. Manuel Fernandes, que, na qualidade de Superior-Geral da SM, visitou aquele território para estudar a ida dos missionários da Sociedade. Publicou também parte de uma carta de Antunes Valente, o delegado da ARM em Luanda, que se transcreve:

“Dirijo-me à distinta direcção da A. R. M. como antigo aluno da Sociedade, agora investido nas funções de Delegado da Associação, após a visita que nos fez o querido Superior-Geral em Setembro deste ano. A nossa grande preocupação, neste momento, é “descobrir” antigos alunos residentes em Angola, tarefa que não tem sido muito fácil. [...] A implantação da ARM em Angola foi noticiada por toda a imprensa angolana, que nos distinguiu com amáveis referências. Qualquer dia, iremos apresentar cumprimentos ao “armista” D. Manuel Nunes Gabriel (Arcebispo de Luanda)63 e pedir-lhe que indique um assistente religioso, já que aqui não temos Padres da Sociedade.”64 O entusiasmo armista que então se vivia em Angola foi comprovado por mais uma carta vinda daquela província ultramarina, da pena do Dr. Leonardo Luís de Matos, datada de 9/8/69 e dada à luz no Boletim n.º 27 65. Entre outras coisas, defendia que cada armista contactasse pessoalmente outro antigo aluno para crescer o número dos integrados na ARM e que a SM começasse a trabalhar quanto antes em Angola 66. O “exagero” de as Delegações serem consideradas um órgão social foi corrigido em 1981 e os Estatutos desse ano, assim como os de 1994, actualmente em vigor, dizem que as Delegações podem constituir-se “em qualquer parte, desde que o substrato social o justifique”. Nos anos 90, a Direcção de Santos Ponciano recriou, como já vimos, as Delegações de Castelo Branco e Bragança, em 1994, e, em 1996, a de Coimbra. Pensava ele – e bem! – que descentralizar seria um bem para a dinamização da ARM, pois assim se conseguiria uma maior “união de todos” e mais facilmente se atingiriam os objectivos da ARM67. Para isso, porém, é indispensável que lo63

D. Manuel Nunes Gabriel foi antigo aluno dos seminários da

SM. Bol 13, 2.º e 3.º Trim 1966, pp. 2-3, Correspondência recebida. Quanto ao encontro, esse veio, de facto, a realizar-se em 1 de Maio de 1966. 62 Bol 14, 4.º Trim 1966, p. 3, Relatório da Direcção (1966), 3.º - Delegados.
61

Bol 19, Fev 1968, p. 1, Angola é Angola. Bol 27, Out/Nov 1969, pp. 1 e 4, a ARM em Angola e outros temas… 66 O primeiro missionário da SM, o Pe. Albano Mendes Pedro, chegaria a Luanda a 20 de Setembro de 1970. 67 Cf. Bol 55, Out 1994/Mar 1995, p. 7.
65

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calmente haja armistas que, em ligação com a Direcção nacional, assumam essa tarefa, aproximando e levando até quase à porta de cada um a vivência do espírito armista, consubstanciado no já consagrado Encontro Regional onde não falte o magusto com castanhas e água-pé, em Outubro/Novembro de cada ano. Na mesma linha, a Direcção eleita em 2002 retomou imediatamente o esforço de repor algumas delegacões que já haviam existido e constituir outras, tentando, desse modo, construir uma cobertura completa do território nacional. O mapa das delegações ficou assim desenhado: Barcelos, Bra-

gança-Miranda, Castelo Branco-Guarda, Cernache do Bonjardim, Coimbra, Cucujães, Lisboa, Tomar e Valadares. Para dar solidez a este edifício, a AG de 2004, realizada em Cernache do Bonjardim, aprovou o Regulamento das Delegações Regionais da ARM, que aponta algumas orientações e regras e define as funções das delegações 68. 7.2. As delegações de per si Vejamos agora cada uma das delegações de per si, indicando os dados possíveis, nomeadamente as datas da sua constituição/reconstituição, os nomes dos delegados e outras informações de interesse, sobretudo as relativas às delegações de África (Lourenço Marques e Luanda). Os encontros já estão referenciados atrás, em 4. Reuniões anuais de carácter nacional e encontros regionais. 7.2.1. Delegação de Barcelos Já no pensamento de Santos Ponciano nos anos 90 69, a Delegação de Barcelos veio a ser constituída em 2003, tendo realizado o encontro regional desse ano (1 de Novembro) e em 2004 (30 de Outubro). O Dr. José Campinho tem estado à frente desse esforço. Vivem nesta região mais de vinte armistas conhecidos.
(Bol 81, Dez 2003, p. 4, e Bol 84, Out 2004, p. 8)

7.2.2. Delegação de Bragança-Miranda A Delegação de Bragança foi fundada em 1 de Maio de 1994, em Pinelo, sendo eleito delegado o Pe. Norberto Pino e subdelegado o armista Nuno Trancoso (Bol 54, Mai/Ago 1994, pp. 8 e 5). Realizou encontros em 23 de Fevereiro de 1995, em Pinelo (Bol 55, Out 1994 / Mar 1995, p. 7), e em 1 de Maio do mesmo ano, no Santuário de Balsamão (Macedo de Cavaleiros), agora com mais presenças. (Bol 56, Abr/Mai 1995, p. 6). No encontro de 30 de Junho de 1996, em Vimioso, foi eleito delegado o armista Abílio Domingues Pires Barril (Bol 61, Jul/Set 1996, p. 4).
68 69

Ver o texto no Bol 83, Jul 2004, p. 8. Bol 55, Out 1994 / Mar 1995, p. 7.

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Em 2002, voltou a ser reconstituída, tendo à frente os Drs. Gabriel Carvalho e Serafim do Rosário, que promoveram um encontro em 28 de Outubro, no Santuário de Balsamão (Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 77, Dez 2002, pp. 4-5). Assumindo a circunstância de ser constituída pelos núcleos de Bragança, Macedo de Cavaleiros, Vimioso e Miranda do Douro, em 2003 tomou o nome de Delegação de Bragança-Miranda e, sob a coordenação de Duarte Nuno Pires, realizou o encontro de novo no Santuário de Balsamão, em 8 de Novembro (Bol 80, Out 2003, p. 8, e Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 4). Em 2004, o encontro teve lugar em Vimioso, em 23 de Outubro, levado a efeito pelo Dr. Serafim do Rosário (Bol 84, Out 2004, p. 8, e Bol 85, Dez 2004, p. 6). 7.2.3. Delegação de Castelo Branco-Guarda Inicialmente só Delegação de Castelo Branco, foi seu primeiro responsável, em 1965, o armista António da Costa Vaz, que organizou o primeiro encontro local, em 23 de Maio desse mesmo ano (Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, p. 3). Até 1972, António da Costa Vaz continuou à frente da delegação, mas não há notícia de mais encontros. Em 1994, foi refundada com um encontro que teve lugar em 18 de Abril e foram eleitos: delegado, o Dr. Albimo Evangelista; sub-delegado, o Dr. Joaquim Vicente (Bol 53, Mar/Abr 1994, pp. 8 e 2). Em 28 de Maio de 1995, houve um almoço de confraternização (Bol 57, Jun/Out 1995, p. 6) e paralisou novamente. Após esforços frustrados de reconstituição, tentados em 2002 e 2003, só em 2004 retomou a actividade, agora com o nome de Delegação de Castelo Branco-Guarda, para significar que integra os cerca de vinte armistas residentes no eixo Castelo Branco – Fundão – Covilhã – Guarda, passando Proença-a-Nova e Cernache a integrar a Delegação de Cernache do Bonjardim. O encontro de 2004 realizou-se em Alpedrinha, no dia 30 de Outubro, tendo tido a coordenação do Dr. José Manuel Neto Fernandes (Bol 84, Out 2004, p. 8). 7.2.4. Delegação de Cernache do Bonjardim Abrangendo os núcleos de Cernache e Proença-a-Nova, esta delegação foi fundada em 2002 e

realizou os encontros de 2002 (10 de Novembro) e 2004 (7 de Novembro), sob a coordenação de António Bernardo Correia, Eduardo Martins e Baltazar Mendes. São mais de vinte os armistas aqui residentes. (Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 3;
Bol 84, Out 2004, p. 8)

7.2.5. Delegação de Coimbra O Dr. Joaquim Marques Pereira foi nomeado delegado da ARM em Coimbra em 1963 (Bol 5, Mai 1963, p. 5) e até 1972 é sempre referenciado como tal. Mas não há notícia de que algum encontro regional se tenha realizado na cidade do Mondego. A delegação da ARM em Coimbra foi refundada, com um encontro local, em 28 de Setembro de 1996, sendo o Dr. Gil Inácio o delegado e o Dr. Marinho Borges o seu adjunto (Bol 61, Jul/Set 1996, p. 3). Em 1997, o encontro repetiu-se em 13 de Setembro (Bol 63, Mai/Ago 1997, p. 6), mas ficou-se por aí. Em 2002, porém, à semelhança de outras, a Delegação de Coimbra retomou a actividade com um encontro que teve lugar em 9 de Novembro, sob a coordenação do mesmo Dr. Gil Inácio (Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 77, Dez 2002, p. 7). Em 2004, com o mesmo armista à frente, o encontro realizou-se a 27 de Novembro. 7.2.6. Delegação de Cucujães Criada em 2002 por ser uma região onde vivem cerca de oitenta armistas conhecidos à volta de um dos seminários da SM com mais peso afectivo e sócio-religioso, a Delegação de Cucujães elegeu a sua direcção (Francisco Moreira Matos Mota, Joaquim Almeida Gonçalves, António Alberto Vieira Freitas, Carlos Manuel Silva Oliveira, Joaquim Oliveira Reis e Manuel Oliveira Reis) e organizou o encontro regional nos anos de 2002 (17 de Novembro), 2003 (16 de Novembro) e 2004 (17 de Outubro).
(Bol 76, Out 2002, p. 8, e Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 4; Bol 80, Out 2003, p. 8, e Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 5; Bol 84, Out 2004, p. 8, e Bol 85, Dez 2004, p. 4)

7.2.7. Delegação de Lisboa A primeira reunião regional em Lisboa realizou-se em 9 de Abril de 1961 e foi promovida pela

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Direcção nacional da ARM com sede na capital. Só em 1967, com a ida da Direcção nacional para o Norte, foi constituída, em Lisboa, pela primeira vez, a delegação regional da ARM. Em 1967 e 1968, foi delegado o Dr. Manuel Nunes Ferreira (Bol 17, Ago 1967, p. 3, e Bol 20, Mai 1968, p. 2). A partir de 1970, a delegação teve à frente uma equipa formada pelos seguintes armistas: Dr. Manuel José Guerra, António da Silva Tomás, Manuel da Silva e António Moutinho Rodrigues (Bol 31, Jun/
Jul 1970, p. 2).

Depois da retoma das actividades da ARM, na década de oitenta, houve eleição de delegados em 25 de Novembro de 1994, na reunião regional. Os escolhidos foram os armistas Drs. Armindo Henriques e José Quina (Bol 55, Out 1994 / Mar 1995, p. 2). Em 2003, a equipa da delegação de Lisboa ficou assim constituída: Armindo Henriques, José Domingues Carvalho, João Laia Sequeira, Moutinha Rodrigues e José Manuel Teixeira (Bol 81, Dez 2003, p. 4). Sempre que a Direcção nacional esteve sedeada em Lisboa, foi ela que dirigiu as actividades da delegação. 7.2.8. Delegação de Tomar Agrupando cerca de vinte armistas que vivem bastante dispersos por centros como Tomar, Leiria, Abrantes, Entroncamento, Torres Novas, Caldas da Rainha, Vila Nova da Barquinha e Ourém, a delegação de Tomar foi criada em 2003 e organizou nesse ano o encontro em Tomar (8 de Novembro) e em 2004 em Tancos (20 de Novembro). Manuel Tereso e sobretudo o Dr. António Silva Pereira têm estado à frente desta realização. (Bol 81, Dez 2003, p. 5;
Bol 84, Out 2004, p. 8, e Bol 85, Dez 2004, p. 5)

do Norte (ou do Porto), mais antiga que a de Lisboa pois desde 1961 teve um delegado à sua frente, o armista José Dias de Pinho. O primeiro encontro documentado aconteceu em 22 de Outubro de 1961. Mas o dele- José Dias de Pinho (foto de 2003). gado relatou-o como sendo o segundo71, desconhecendo-se, assim, a data do primeiro. Com a criação da Delegação de Cucujães em 2002 e a de Barcelos em 2003, além da de BragançaMiranda e a de Coimbra, também em 2002, os armistas residentes nestas regiões do país passaram a ter o encontro regional mais perto de si e a Delegação do Norte passou a Delegação de Valadares. Indiquemos agora os delegados ao longo de toda a sua história. 1961 – José Dias de Pinho 1964 – Dr. Albino Santos José Soares Pacheco José Dias de Pinho
(Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, p. 3)

1967 – Presidente – ? 1.º Secretário – ? 2.º Secretário – Sebastião Dias Lobo
(Bol 17, Ago 1967, p. 3)72

1971 – Dr. Albino Santos Silvério Mota Manuel Gonçalves F. Costa Afonso J. Vieira de Sousa
(Bol 40, Mar/Mai 1972, p. 4)

7.2.9. Delegação do Norte (Porto) / Delegação de Valadares Desde o início da vida da ARM e durante muitos anos, os armistas do Norte e Centro reuniramse apenas em Valadares, no Seminário da Boa Nova, mesmo antes da sua construção 70. Era a delegação
Lembra-se, mais uma vez, que o Seminário da Boa Nova, em Valadares, abriu em 1 de Outubro de 1961, sendo reitor o Pe. André Marcos. Quanto à sua construção, ver a nota 46.
70

1974 – Joaquim Alves Pereira
(Bol 50 (1.ª Série), Mar/Abr 1974, p. 3)

Após o interregno provocado pela crise do 25 de Abril, a Delegação do Porto foi formalmente recriada pela Direcção nacional, em 5 de Fevereiro
Bol 3, Fev 1962, p. 3. A falta dos Bols 15 e 16 parece explicar o desconhecimento dos nomes omissos.
72 71

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de 1982, e, em carta de 5 de Março do mesmo ano, o armista Francisco da Costa Andrade foi nomeado delegado, função que tem mantido até hoje. Nesses anos das décadas de 80 e 90, tiveram também papel importante de dinamização e colaboração com o delegado Costa Andrade os armistas Silvério Mota e Mário Veiga. 7.2.10. Delegações do Ultramar Delegação de Lourenço Marques Depois do que está dito atrás (em 7.1.), acrescentemos apenas que o Dr. António Maria de Matos ainda é referenciado como delegado da ARM em Lourenço Marques em 1970.
(Bol 30, Abr/Mai 1970, p. 3)

gria suscitada pela chegada dos primeiros missionários da SM a Angola.
(Bol 33, Out/Nov/Dez 1970, p. 4)

1971 – Em 21 de Março, encontro de armistas, em Viana/Luanda, com o Pe. Albano Mendes Pedro e Pe. Manuel Fernandes acabado de chegar de Moçambique para a missão do Dúmbi (que não pôde comparecer devido a acesso de paludismo). Programa: missa e jantar.
(Bol 36, Jun/Jul 1971, p. 3)

1972 – Carta do Pe. Albano Mendes Pedro dando conta de reunião armista a realizar em Viana, em 4 de Março. E também das dificuldades em juntar os armistas. – Carta do armista Carlos Amílcar Dias que, após o serviço militar, se vai fixar em Luanda, manifestando interesse pela vida da ARM em Angola.
(Bol 40, Mar/Mai 1972, p. 3)

De 5 de Agosto a 30 de Dezembro de 1972, o Pe. M. Castro Afonso visitou, na qualidade de membro da Direcção-Geral, os missionários da SM em Moçambique e Angola e dá conta de encontros com antigos alunos e armistas e sugestões ouvidas (Bol
45, Mar/Abr 1973, pp. 2-3).

Delegação de Luanda De 1967 até 1970, pelo menos, há referências claras, no Boletim, quanto à actividade do Dr. Domingos Antunes Valente como delegado da ARM em Luanda. 1968 – Excerto de circular enviada pelo delegado aos armistas de Angola solicitando ajuda para se oferecer um quarto (20 000 $ 00) no Seminário da Boa Nova, em construção em Valadares, que seria dedicado a Angola.
(Bol 20, Mai 1968, p. 4)

8. A ASSISTÊNCIA SOCIAL DA ARM AOS SEUS MEMBROS E A SOLIDARIEDADE COM OS MISSIONÁRIOS 8.1. A Assistência Social da ARM Ao “congregar, em redor da Sociedade Missionária, todos os seus antigos alunos”, a ARM tinha em vista fomentar e estreitar os laços de amizade entre eles, “com o fim de se entreajudarem espiritual, moral e socialmente” 73. Havia, portanto, a intenção de ajudar os associados em dificuldade e para esta ajuda social (“fundo de obras e iniciativas sociais”) eram destinados, em cada gerência, 50% do saldo líquido (os outros 50% destinavam-se a bolsas de estudo)74.

1969 – Carta de Luanda, com data de 13/1/1969, do delegado Dr. Antunes Valente para o SuperiorGeral, solicitando seja avisado, de futuro, da passagem de missionários por Luanda, para poderem os armistas locais proporcionar-lhes “momentos de convivência”.
(Bol 24, Abr 1969, p. 4)

1970 – Carta do delegado em Luanda, datada de 6 de Novembro, enviando 1 100$00 para as “obras da Casa-Mãe em Valadares” e dizendo a ale-

Estatutos de 1964, Art.º 3.º a). Estatutos de 1964, Art.º 23.º. Na gerência de 1960/1961, foram entregues ao Superior-Geral 798$75, metade do saldo positivo havido (Bol 3, Fev 1962, p. 4).
74

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Como terá sido cumprido este belo e altruísta objectivo, é o que vamos ver. Na Assembleia geral de 25 de Setembro de 1966, o Superior-Geral da Sociedade Missionária, Pe. Manuel Fernandes, chamou a atenção para a “necessidade imperiosa e vital que a ARM tem de enfrentar o problema da assistência social aos seus membros” 75. E nessa mesma assembleia, o presidente da Direcção, Dr. José Roque Abrantes Prata, afirmou que “só depois de resolvidos os problemas de cotização” se poderia “pensar em acção social a sério” 76. De facto, de 300 associados que receberam o Boletim e foram contactados através de circulares, pagaram as quotas: 59 em 1962, 75 em 1963, 58 em 1964, 59 em 1965, 58 em 1966 77, o que significa que só 20% estavam no “pleno gozo dos direitos de associados” 78. Só em 1972, a Direcção voltou à carga e anunciou que havia algumas condições para “concretizar um dos primordiais fins” da ARM – a acção social: vários armistas tinham-se oferecido para ajudar, até com as suas ofertas. E fazia-se apelo a donativos “em dinheiro ou em artigos de vária ordem” 79. Ainda nesse ano e até ao final de 1973, iniciou-se a publicação no Boletim, do n.º 42 ao 48, de setenta nomes de armistas (dez em cada edição) bem colocados na administração pública ou na vida privada e que poderiam proporcionar uma ajuda, “sempre que dos seus serviços algo precisemos, todos nós e os nossos familiares” 80. Não se sabe os resultados desta forma de acção social, aliás contestada por alguns 81. Sabe-se que às vezes, ao longo dos anos, afloram notícias-rumores
Bol 14, 4.º Trim 1966, pp. 1-2, Assembleia da ARM, António Moutinho Rodrigues. 76 Relatório da Direcção (1966), 9.º - Acção Social, Bol 14, 4.º Trim 1966, p. 4. 77 Bol 14, 4.º Trim 1966, p. 5. 78 Hoje nem a tanto se chega. Em 2004, a percentagem foi 18%. Nessa altura, a quota era 5$00 por mês (60$00 anuais); em 1995, fixou-se em 100$00 por mês (1200$00 anuais); desde 2002 é 10,00l (2004$00) por ano. 79 Bol 39, Jan/Fev 1972, p. 3. 80 Bol 42, Ago/Set 1972, pp. 1-2; Bol 43, Out/Nov 1972, p. 1; Bol 44, Dez 1972 / Fev 1973, p. 4; Bol 45, Mar/Abr 1973, p. 1; Bol 46, Mai/Jul 1973, p. 1; Bol 47, Ago/Out 1973, p. 4; Bol 48, Nov/ Dez 1973, p. 4. 81 Por exemplo, Augusto de Macedo em Primeiro a justiça, Bol 51 (1.ª Série), Mai/Out 1974, p. 2, texto publicado na Antologia, com o n.º (5).
75

de antigos alunos em dificuldade 82; sabe-se que, na Assembleia geral de 17 de Maio de 1987, no Seminário de Cucujães, Moutinha Rodrigues, que na Direcção estava encarregado desta tarefa, informou que no ano anterior ninguém comunicara qualquer carência mas que, apesar disso, “os casos que ele conheceu foram devidamente assistidos” 83. 8.2. A solidariedade com os missionários: bolsas de estudo e outros modos de cooperação As bolsas de estudo constituem a maneira mais singela e funcional que a ARM encontrou para colaborar na formação de missionários. Fundar uma bolsa é ajudar alguém a ser missionário e a ir em nosso lugar… Atribuindo-lhe o nome de alguém que se quer homenagear e que desperta motivação e interesse – entidade divina ou pessoa humana –, a importância pecuniária é encaminhada para apoiar as despesas que se quer ajudar a pagar. O entusiasmo com as bolsas de estudo foi tão grande que, em 1973, a edição 44 do Boletim publicou um suplemento com o título de “A Criação de Bolsas de Estudo”, onde o Dr. Luís de Sousa Cardoso faz a apologia e convida com veemência os armistas a colaborarem na fundação de bolsas de estudo. E propõe nomes: Bolsas de Estudo da Santíssima Trindade, do Santo Nome de Deus Pai, de Deus Filho ou de Nosso Senhor Jesus Cristo, do Divino Espírito Santo, de Nossa Senhora ou Santíssima Virgem, de D. Nuno Álvares Pereira… Esporadicamente e por período de tempo muito breve, foi usado um outro modo de angariar donativos, aquando da construção do Seminário da Boa Nova; foi o “Quadro de honra”, que procurava obter ofertas junto dos que mais podiam, empresas e pessoas individuais 84. Mas houve e continua a haver outras maneiras de solidariedade: a oferta avulsa de donativos, o apoio a pequenos projectos de missionários no terreno. Segue-se o levantamento, por ano, de todos estes tipos de ajuda levados a cabo pela ARM, ao longo de toda a sua vida, e documentados no Boletim.

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Bol 61, Jul/Set 1996, p. 8. Acta da referida AG. 84 Bol 21, Ago 1968, p. 3.

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1958 Bolsa da Vocação Missionária, fundada em Tomar, em 1 Dez 1958, com 1 000$00: em Jul 1962, somava 9 416$50 (Bol 4, Ago 1962, p. 4); em Mai 1963, totalizava 14 412$00 (Bol 5, Mai 1963, p. 6). 1964 19 de Outubro – Encontro “espiritual”, em Lisboa (na Igreja paroquial de S. Sebastião da Pedreira), de despedida de vários missionários, com oferta de: objectos de igreja, medicamentos, livros de formação religiosa, vestuário, utilidades para novas residências missionárias.
(Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, pp. 5-6)

1969, 9 654$40 (Bol 27, Out/Nov 1969, p. 2); em Mar 1970, 10 054$00 (Bol 29, Fev/Mar 1970, p. 4); em Fev 1972, 10 154$00 (Bol 39, Jan/Fev 1972, p. 2). 1970 Quarto/Bolsa Pe. José Oreiro Pacheco (no Seminário da Boa Nova): 350$00, em Mar 1970 (Bol 29, Fev/Mar 1970, p. 4); 750$00, em Mai 1970 (Bol 30, Abr/Mai 1970, p. 3); 1 000$00, em Jul 1970 (Bol 31, Jun/ Jul 1970, p. 1); 1 050$00, em Jul 1971 (Bol 36, Jun/Jul 1971, p. 4); 1 150$00, em Out 1971 (Bol 37, Ago/Set/Out 1971, p. 2); 1 100$00, em Jul 1972 (Bol 41, Jun/Jul 1972, p. 4); 1 800$00, em Nov 1972 (Bol 43, Out/Nov 1972, p. 4). Quarto de Angola (no Seminário da Boa Nova): 1 100$00, em Dez 1970 (Bol 33, Out/Nov/Dez 1970, p. 4). 1971 Bolsa de Estudo da Santíssima Trindade: 10 000$00, em Jul 1971 (Bol 36, Jun/Jul 1971, p. 4); 19 900$00, em Fev 1972 (Bol 39, Jan/Fev 1972, p. 2). 1973 Paramentos e alfaias para a Missão de Seles – Angola (Pe. Laurindo Neto): em Fev 1973, 400$00 (Bol 44, Dez 1972 / Fev 1973, p. 4); em Abr 1973, 1 300$00 (Bol 45, Mar/Abr 1973, p. 5); em Jul 1973, 2 450$00 (Bol 46, Mai/Jul 1973, p. 4); em Out 1973, 2 800$00 (Bol 47, Ago/Out 1973, p. 2); em Dez 1973, 3 260$00 (Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 3); em Fev 1974, 3 492$00 (Bol 49, Jan/Fev 1974, p. 3). Bolsa de Estudo de Deus Pai: 10 000$00, em Abr 1973 (Bol 45, Mar/Abr 1973, p. 3); 20 000$00, em Out 1973 (Bol 47, Ago/Out 1973, p. 3). Bolsa de Estudo de Nosso Senhor Jesus Cristo: 3 600$00, em Out 1973 (Bol 47, Ago/Out 1973, p. 3) ; 3 700$00, em Fev 1974 (Bol 49, Jan/Fev 1974, p. 3). Bolsa do Cinquentenário: 9 500$00, em Dez 1973 (Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 3). 1974 Bolsa do Divino Espírito Santo: 20 000$00, em Out 1974 (Bol 51 (1.ª Série), Mai/Out 1974, p. 3). 1988 Bolsas ARM 1, 2... 8: sete bolsas de estudo subscritas na “ reunião da ARM de Lisboa”, em 13 Nov 1997, e “mais uma subscrita pelo Dr. Nereu na reunião do Porto”, não se sabendo o montante.
(Acta da AG de 15 Mai 1988, realizada em Valadares)

1967 O nosso quarto no Seminário da Boa Nova (em construção em Valadares): em Jul 1967, as ofertas somavam 9 760$00 (Bol 17, Ago 1967, p. 4); em 8 Dez, foi entregue a importância (20 000$00) do primeiro quarto (Bol 19, Fev 1968, pp. 1-2 e 4). Bolsa dos Antigos Alunos: soma 3 179$20, em 31 Dez 1967 (Bol 19, Fev 1968, pp. 1-2); 5 550$00, em Mai 1968 (Bol 20, Mai 1968, p. 3); 17 100$00, em Ago 1968 (Bol 21, Ago 1968, p. 2); 17 550$00, em Fev 1969 (Bol 23, Fev 1969, p. 4); 17 850$00, em Abr 1969 (Bol 24, Abr 1969, p. 3); 17 900$00, em Fev 1972 (Bol 39, Jan/Fev 1972, p. 2). 1968 Paramentos para a Capela do Boa Nova: em Nov 1968, 1 020$00 (Bol 22, Nov 1968, p. 2); em Fev 1969, 1 120$00 (Bol 23, Fev 1969, p. 4). 1.º Quadro de Honra: 1 000$00 (Bol 21, Ago 1968, p. 3). 2.º Quadro de Honra: 20 000$00 (Bol 22, Nov 1968, p. 3). 1969 3.º Quadro de Honra: 20 000$00 (Bol 23, Fev 1969, p. 3). Bolsa de Estudo Vocação Missionária II: saldo anterior, 17 850$00; total em Ago 1969, 20 000$00 (Bol 26, Ago 1969, p. 3). Festa dos Mealheiros (em 4 de Maio): 4 600$00 (Bol 26, Ago 1969, p. 4). Bolsa de Estudo Rainha do Mundo: soma em Ago 1969, 4 954$40 (Bol 26, Ago 1969, p. 3); em Nov

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1993 Para a cobertura da Capela da Comunidade de Porteiras – Vargem Grande, Brasil (Pe. Manuel Trindade): 200 USD (Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 5). 1994 Jipe para o Chibuto: Núcleo de Lisboa, 350 000$00; Joaquim Alves Pereira, 200 000$00; Núcleo do Norte, 475 000$00; Núcleo de Vila da Feira, 801 392$00; Núcleo de Cucujães-Oliveira de Azeméis, 720 000$00.
(Bol 52 (2.ª Série), Jan/Fev 1994, p. 2)

2004, p. 8); mais 50,00l da ARM, em Jul 2004 (Bol 83, Jul 2004, p. 6); mais 100,00l (Moutinha Rodrigues), em

Jan 2005 (BN, Jan 2005, p. 46); mais 175,00l da ARM, em Mar 2005, ficando completa. 2004 Bolsa de Estudo Dr. José Francisco Rodrigues: 150,00l (Dr. Ribeiro Novo), em Mar 2004 (Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 8); mais 13,00l (armista anónimo) em Mai 2004 (BN, Mai 2004, p. 38); mais 50,00l da ARM, em Jul 2004 (Bol 83, Jul 2004, p. 6); mais 162,00l (Dr. Ribeiro Novo), em Fev 2005 (BN, Fev 2005, p. 38), ficando completa. Bolsa de Estudo Pe. Norberto Pino: 30,00 l (João Gamboa), em Dez 2004 (Bol 85, Dez 2004, p. 8); mais 345,00 l da ARM, em Mar 2005, ficando completa. 8.3. O trabalho na frente de missão Um terceiro modo de solidariedade com os missionários é ir trabalhar com eles no próprio terreno de missão (conceito hoje algo diluído, porque a missão exerce-se em todo o lado onde há pessoas carecidas de crescimento humano e sensíveis ao cristianismo). A obrigação de evangelizar radica no baptismo e recai sobre todos os crentes, de acordo com as capacidades de cada baptizado. Foi o Pe. Jerónimo Nunes que, em 1995, regressado do Brasil e então Superor-Geral da Sociedade Missionária, iniciou esta “catequese” no seio da ARM. Textos publicados no Boletim, de sua autoria e de outros, como Ondjango, Famílias Missionárias, Novo Figurino Missionário, Um Congresso… que pode fazer história, O Congresso da ARM, Leigos Boa Nova – Um caminho de missão, Missionário leigo na Chapadinha, Uma ARM virada para o futuro, Conclusões do Encontro Nacional 2003, estão nesta linha e inculcam o compromisso do trabalho missionário 85. Entretanto, em Setembro de 1995, nasceu o movimento dos Leigos Boa Nova; em Agosto de 1999, o armista António Moutinha Rodrigues visitou as missões da Sociedade Missionária em Moçambique 86; o Encontro Nacional da ARM
85

1999 Missão da Gabela – Angola, construção da casa paroquial (Pe. Augusto Farias): 151 000$00 (Bol 67,
Set 1998 / Abr 1999, p. 4).

2000 Oferta à Missão do Chibuto (Pe. José Valente): 100 000$00 (Bol 71, Mar 2001, p. 5). 2001 Oferta à Paróquia de Angoche – Nampula (Pe. Libério): 200 000$00 / 997,60 l (Bol 72, Out 2001, p. 2, e Bol 74, Abr 2002, pp. 2 e 7). Bolsa de Estudo Pe. Paulo: 66 000$00 (Bol 73,
Dez 2001, p. 1).

2002 Bolsa de Estudo Padre António Ramos: – 50,00l (J. Candeias da Silva), em Dez 2002 (Bol 77, Dez 2002, p. 2); mais 300,00, em Jul 2003, ficando completa (Bol 79, Jul 2003, p. 6, e Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 6). Projecto Construção da Igreja de N. Senhora da Boa Nova – Viana (Pe. António Valente Pereira): 300,00 l, em Dez 2002 (Bol 77, Dez 2002, p. 8); mais 3 000,00 l, em Mar 2003 (Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 6); mais 700,00 l, em Jul 2003 (Bol 79, Jul 2003, p. 6, e Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 6). 2003 Oferta para a Construção da Igreja do Bairro Chimundo – Chibuto (Pe. Firmino João): 1000,00l (Bol 79, Jul 2003, p. 6, e Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 6). Bolsa de Estudo Dr. José Nereu Santos: 25,00l (Moutinha Rodrigues), em Dez 2003 (Bol 81, Dez 2003, pp. 2 e 8); mais 25,00l, em Mar 2004 (Bol 82, Mar/Abr

Estes textos podem ser lidos à frente, na Parte III, nos grupos Ler o relato à frente, na Antologia, texto n.º (27).

2 e 3.
86

105

Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

2003, em Fátima, teve a presença e o testemunho de dois jovens missionários dos Leigos Boa Nova.

E para sublinhar este chamamento dos armistas ao compromisso missionário, os dois últimos encontros nacionais da ARM realizaram-se sob o influxo da missão e o próximo também. Em 2003, sob o lema “Caminhar em Missão”; em 2004, “Viver em Missão”; e em 2005, “Testemunhar em Missão”. Cabe perguntar, parafraseando o Pe. Augusto Farias: Quando se decidirá o primeiro armista a ir até às Missões 87? O desafio das férias missionárias (por um mês) ou do mergulho na missão (podendo ir além de um ano) já foi lançado em 1995 88. Tardam as respostas!

9. A PUBLICIDADE NO BOLETIM Quando surge a publicidade no Boletim da ARM e porquê – é o que vamos tentar saber. E também que âmbito e importância adquiriu e se resolveu algum problema. A primeira referência a publicidade está no Boletim n.º 17, em Agosto de 1967 89: “Porque faltaste com o teu anúncio não publicamos o tão apetecido Friso Publicitário. Envia-o quanto antes para o próximo número” 90. O Boletim n.º 19 publica um friso publicitário, que se reproduz por ser o primeiro em toda a história do Boletim, e as contas do ano de 1967, as quais apresentam na receita a importância de 1 000$00,
Bol 79, Jul 2003, p. 3, Três Gritos. Bol 58, Out/Dez 1995, p. 5. 89 Lembra-se que não temos em mão os Boletins n.os 6, 7, 11, 12, 15, 16 e 18, o que pode falsear a verdade. 90 Bol 17, Ago 1967, p. 2.
88 87

proveniente de publicidade91. Com a mesma origem, mais 2 650$00 estão indicados nas contas de 196892, certamente provenientes do anúncio publicado no Boletim n.º 22. Depois de dar à estampa novo friso publicitário no Boletim n.º 32, é na edição n.º 44 que a Direcção responde ao desejo de alguns de que a publicação fosse mensal, afirmando tal não ser possível por falta de verba, a menos que se arranjassem “duas páginas de anúncios pagos” ou surgisse algum mecenas…93 De facto, o problema, como já vimos em 8.1., é de verba; como só 18% a 20% pagam a cota, a disponibilidade financeira foi sempre insuficiente, ontem como hoje.94 Por ser assim, quando, em 1993, foi retomada a publicação do Boletim da ARM, a Direcção de então lançou mão da publicidade paga e escreveu, logo na primeira edição: “Esta publicação só é possível pela publicidade dos nossos “clientes”. Façam publicidade. Não deixem morrer o Jornal”.95 Desde então, nunca mais deixou de haver publicidade no Boletim. A princípio, mais abundante e com maior proveito; depois, menos assídua e com reduzido resultado para as contas. A Direcção de Santos Ponciano separou mesmo, até 1999, as contas do Boletim das da ARM. E mercê da campanha de angariação de publicidade e da resposta positiva de alguns ao esforço de colaboração solicitada aos armistas, os resultados foram os seguintes, nos três primeiros anos, sempre com cobertura das despesas: em 31 Mar 1995: 260 190$00 de publicidade e 106 000$00 de
Bol 19, Fev 1968, p. 4. Bol 23, Fev 1968, p. 4. 93 Bol 44, Dez 1972 / Fev 1973, p. 2, O nosso famoso. 94 Além de frequentes vezes, ao longo dos anos, a Direcção vincar, no Boletim, esta carestia de verbas, aponta-se mais um exemplo: em 1972, vê-se obrigada a solicitar aos armistas ultramarinos um reforço do seu contributo para lhes continuar a enviar o Boletim por avião (cf. Bol 40, Mar/Mai 1972, p. 3, Aos nossos Ultramarinos). 95 Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 3.
92 91

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donativos96; em 31 Mar 1996: 170 000$00 de publicidade e 100 000$00 de donativos97; em 31 Mar 1997: 50 000$00 de publicidade, somente98. Quanto à assiduidade e quantidade de anúncios publicitários, ver atrás, nesta Parte II (em 5. O Boletim da ARM), a tabela que apresenta, entre outros dados, o número de anúncios publicados em cada edição do Boletim: uma média de 9,5 até ao n.º 74 (de 1993 a 2002), 3,6 depois dessa edição (de 2002 a 2005).

10. BANDEIRA E HINO Qualquer associação gosta de ter a sua bandeira e o seu hino, para neles os seus membros exprimirem e dizerem, a si próprios e aos outros, o seu ideal, o que os norteia, aquilo que os caracteriza e o que são enquanto membros de uma associação. A ARM possui bandeira desde Novembro de 1993.99 Foi oferecida pelo armista Dr. José Nereu Santos e apresentada no Encontro Regional de Lisboa, em 12 do referido mês.100 Tem as seguintes características: 1,00 m x 0,70 m; cores: fundo azul, logotipo da ARM em amarelo e letras das palavras Associação Regina Mundi a preto.

A partir do Encontro Nacional da ARM de 2003, realizado no Seminário de S. Francisco Xavier, em Fátima, nos dias 17 e 18 de Maio, passou a dispor de haste metálica que permite transportá-la com facilidade e evidente visibilidade. A bandeira está presente nas assembleias gerais, incorpora-se no cortejo de entrada das eucaristias da ARM, surge na festa missionária em Cucujães, habitualmente no primeiro domingo de Junho, e noutras actividades da Sociedade Missionária. O hino, por seu lado, tem uma história mais longa e menos linear. Em Agosto de 1969, o Boletim n.º 26 publicou um poema de Zeferino Gaspar a que chamou “Hino da ARM”, esperando que “o Figueira” lhe “ajustasse” a música.101 E logo em Outubro/Novembro seguintes, no n.º 27, era feito apelo ao Dr. Delgado da Fonseca no sentido de compor a música para o referido texto.102 Mas tal não terá acontecido. O poema também não teria força para tanto nem para tal.103 Bastantes anos mais tarde, em 1993, o Coro da Universidade de Lisboa para a Terceira Idade (ULTI) apresentou, no Encontro Nacional da ARM, realizado em Fátima no mês de Maio, o “Hino da ARM”, da autoria do armista e maestro do referido

Bol 56, Abr/Mai 1995, p. 5. Bol 59, Jan/Abr 1996, p. 5. 98 Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 3. 99 Em 1969, porém, havia sido mandado executar um distintivo e com ele terão sido “condecorados” os armistas presentes na AG de 8 de Junho (de 1969), em Cernache do Bonjardim (cf. Bol 24, Abr 1969, p. 2). 100 Hino e Bandeira, Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 5.
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Ver Bol 26, Ago 1969, p. 2. Bol 27, Out/Nov 1969, p. 2. 103 Este texto pode ser lido na Parte III deste livro – Antologia de Textos Publicados no Boletim da ARM –, com o n.º (105).
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Parte II – ARM: 60 Anos de Vida

coro, Joaquim Alves Mateus, disponibilizado em cassete logo em Dezembro seguinte.104 O poema e a música nunca foram publicados no Boletim e o seu uso nos encontros armistas, nacionais e regionais, não consta que tenha sido experimentado. Uma terceira iniciativa para dotar formalmente a ARM de um hino oficial foi aberta e levada a cabo pela Direcção eleita em Maio de 2002. Nesse sentido, abriu concurso com regulamento em Outubro desse mesmo ano105. Primeiro, para o poema,

tendo o júri seleccionado um dos dois em certame: o que tinha por título “Armistas para o futuro”.106 Depois, para a música; e o júri aprovou a única apresentada a concurso.107 Este hino foi cantado pela primeira vez no Encontro Nacional de 2003, no Seminário de S. Francisco Xavier, em Fátima, e posteriormente tem sido retomado em encontros regionais e encontros de delegados, além do Encontro Nacional. É o hino da ARM!

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Hino e Bandeira, Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 5. Ver Bol 76, Out 2002, p. 3.

Ver Bol 77, Dez 2002, p. 8. O júri foi constituído pelos armistas Dr. Serafim Fidalgo, Óscar Rodrigues e Luís Rocha. 107 Ver Bol 78, Mar/Abr 2003, pp. 7 e 8. Formaram o júri os armistas Dr. Serafim Fidalgo, Fernando Sousa e Francisco Maia.

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Parte III – Antologia de textos publicados no Boletim da ARM

PARTE III

ANTOLOGIA DE TEXTOS PUBLICADOS NO BOLETIM DA ARM

Selecção, organização e introdução
de

João Rodrigues Gamboa

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Parte III – Antologia de textos publicados no Boletim da ARM

INTRODUÇÃO
Antologia significa selecção, colheita de entre o melhor, escolha daquilo que serve os objectivos em vista. Lembrando que este livro pretende fazer memória para homenagear, dar testemunho para agradecer e, na força destes gestos, aprofundar e alargar o afecto e a comunhão dos armistas uns com os outros e de todos com a SM, para projectar e construir um futuro de esperança vivo e actuante, os textos escolhidos no vasto manancial oferecido pelo Boletim têm características e qualidades que permitem servir esses fins. Assim, a antologia reparte-se por oito grupos, organizando-se os textos, dentro de cada um, por um critério cronológico. Eis os grupos: 1. As ideologias, primeiro; 2. Teoria e prática armistas; 3. Espiritualidade e compromisso; 4. Tu cá, tu lá, com entusiasmo; 5. Memórias com humor; 6. Cartas com assinatura; 7. Textos de procura e encontro; 8. Versos e poemas, a fechar. Esta antologia é intencionalmente vasta e oferece-nos uma visão ampla do que foi, ao longo dos anos, o esforço para formar, informar e “divertir” os armistas, com vista ao seu chamamento e mobilização para as tarefas da ARM.

Os autores são bastantes e alguns, como não podia deixar de ser, são sacerdotes da SMBN. Entre todos, é justo salientar alguns deles. Em primeiro lugar, o Dr. Albino Santos, com os seus temas de espiritualidade e doutrina cristã, num estilo sério e fluente. Também José Pacheco / Zé do Porto, exímio na interpelação tu cá, tu lá dos armistas, quase truculento – que exagero! –, de frase curta, estilo vivo e coloquial. E Mário Coelho Veiga, melhor, o afamado e saboroso Lapin du Pré, capaz de pegar em pequenos episódios, que testemunhou ou em que foi participante, e transformá-los em grandes histórias que fazem rir e chorar por mais, não lhe faltando, ainda, a capacidade de ver os acontecimentos e as coisas com olhos e sensibilidade de adolescente. De entre os membros da SM, saliento os padres Viriato Matos e Jerónimo Nunes: o primeiro, no seu jeito filosofante; o segundo, com o apelo constante à consciência da dignidade dos baptizados e ao compromisso eclesial e missionário dos leigos/armistas. Porque todos são nossos, todos somos nós, urgente é (re)ler o que escreveram – estes e todos os outros. Para novamente ouvirmos o apelo que está nas suas palavras, muitas ainda e sempre actuais; ou para sorrirmos, saboreando os episódios que já lá vão... Mas também para, deles fazendo memória, por eles manifestarmos respeito e júbilo. Finalmente, ainda, para descobrirmos com surpresa – sobretudo os mais jovens e aqueles que menos conhecem a ARM – a riqueza do património escrito que está no Boletim da nossa Associação e agora passa a oferecer-se-nos neste livro.

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Parte III – Antologia de textos publicados no Boletim da ARM

1. AS IDEOLOGIAS, PRIMEIRO

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(1). ESTAMOS CONVOSCO O nosso pensamento vai hoje para aqueles dos nossos antigos companheiros que, nestes dias de luta encarniçada, por Deus e pela Pátria, ocupam lugares de primeira linha na defesa da nossa querida Angola. Sacerdotes ou leigos; missionários, soldados ou simples civis; pregando o Evangelho da Redenção; lutando com a força das armas contra os selvagens requintados pela técnica e pela doutrina comunistas; dando um exemplo de trabalho construtivo e redentor ou, simplesmente, mantendo-se no seu posto com energia e decisão – todos estão lutando pelos altos ideais de Deus, da Pátria e da Família Portuguesa. Em nome de todos os que, nesta terra de Santa Maria, nesta capela-mor onde se ergue o “Altar do Mundo” que é Fátima, ainda gozam (apesar de tudo!...) duma relativa paz, quero dizer-vos, amigos, em perfeita sinceridade, que temos cansciência plena de quanto vos devemos: pelo exemplo viril que Angola tem dado a Portugal e Portugal ao Mundo, por terdes sido verdadeiramente dignos dos nossos maiores. Quero dizer-vos, mais, que todos os bons portugueses esperam e confiam em que o esforço comum e a ajuda de Deus nos hão-de trazer a vitória. Não faltará, para isso, o cantributo da vossa coragem e da vossa decisão (o comportamento passado é penhor do futuro!) nem há-de faltar a indispensável união e a determinação firme dos que ainda não sacrificaram o ideal da Pátria e a fé em Deus, nas aras do internacionalismo comunista ou do materialismo argentário. Nesta hora apocalíptica do Mundo; quando os amigos traidores se confundem com os inimigos declarados; quando as palavras mais respeitáveis – como a liberdade, a honra, a dignidade da pessoa humana – são esvaziadas por muitos do seu verdadeiro sentido; nesta BabeI contemporânea em que as forças do mal tentam não só confundir as línguas, mas fazer a lavagem dos cérebros – temos de nos agarrar, firmemente, às grandes certezas que canstruíram a glória imorredoura de Portugal: a Fé em Deus, o culto da Pátria, o amor da Família, o respeito pela honra e pela dignidade própria e alheia. Sem isso trairemos a nossa missão de Cristãos e de portugueses; não poderemos ser felizes nem

sequer sobreviver!... Nesta luta de vida ou de morte, que nós não provocámos nem desejamos, temos que ser iguais a nós próprios, dignos de continuar a gesta maravilhosa de Afonso Henriques e de Santo António; do Mestre de Avis e de Nun’Álvares Pereira; do Infante Navegador e do Infante Santo; de D. João de Castro e S. João de Brito; de Mouzinho e D. António Barroso; e de tantos outros guerreiros e missionários que, só citá-los, encheria mais espaço do que aquele de que dispomos. A espada e a cruz foram sempre para Portugal, através de oito séculos, as armas da vitória, as razões verdadeiras da sua sobrevivência: a espada de ferro dos combates e a espada de fogo da sua vontade indómita; a cruz da paixão dolorosa e a cruz da fé inabalável e da esperança firme – spes unica! Assim terá de ser, também hoje, se quisermos vencer. Venceremos, enquanto nos mantivermos fiéis às fontes da nossa energia, ao sentido histórico da nossa missão no Mundo. Por Deus e pela Pátria – venceremos!... Amigos de Angola! O nosso pensamento voa para vós. O nosso coração está convosco. As nossas orações acompanham-vos sempre. Não leveis a mal se não vos escrevemos individualmente, assiduamente, como seria nosso desejo. Mas a vida é tão breve, o tempo tão fugidio e os bons propósitos tão difíceis de realizar!... Mas ficai, amigos, com esta certeza inabalável: estamos convosco para tudo o que Deus quiser! Procuraremos, cada um no seu posto, cumprir o nosso dever, e ajudar, material e moralmente, a construir a vitória. Assim havemos de merecer a paz com dignidade e com honra. E quando ela vier, poderemos abraçar-nos ainda mais fraternalmente e mostrar a este mundo enlouquecido o verdadeiro sentido da História... que o Português criou. Que não nos abandone a Esperança! José Francisco Rodrigues
Presidente da A. R. M. (Bol 2, Set 1961, pp. 1-2)

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(2). DIA DE PORTUGAL 10 de Junho. Dia de Camões, dia da Raça, dia de Portugal. Camões estudou, viajou e sofreu, escreveu e lutou, sempre com os olhos postos na grandeza da Pátria que ele trazia no coração. Por isso, ele consubstancia em si todas as qualidades da Raça Lusa. É o mais perfeito tipo de lusismo. Pelo seu universal humanismo, pelo seu acrisolado amor patriótico, pelo seu espírito cristão e missionário e até pelo seu valor militar, ele é bem o paradigma do Português, o expoente máximo da Portugalidade. Por isso também o dia da sua morte foi escolhido para honrar todos aqueles que “por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”, como ele próprio canta numa das suas inspiradas estrofes, nessa Bíblia da Pátria que são “Os Lusíadas”. Nesta hora de desassossego que vai pelo mundo e em que Portugal se vê mais uma vez obrigado a defender a sua integridade territorial contra as ambições dos neocolonialismos internacionais, faz bem, para retemperar a alma, rememorar todos os nossos Maiores que, a golpes de montante e de audácia, à força de bravura e de sacrifícios, criaram, dilataram e consolidaram esta nossa Pátria. Guiados depois pelo génio do Infante, vão metódica e persistentemente desvendando oceanos, desbravando continentes e formam uma Nação pluricontinental, e multirracial que é ainda hoje o assombro do mundo inteiro. É esta a Pátria que eles nos legaram e que nós temos o dever de conservar e engrandecer, para a transmitirmos aos nossos vindouros, intacta e mais heróica e mais bela. Dia da Raça, dia de Portugal! Em cerimónias evocativas, realizadas através de todo o território nacional, desde o Minho a Timor e até no estrangeiro onde palpita o orgulho de ser português, se memoraram todos os caídos pela Pátria e se homenagearam todos os bravos que, em sangue, suor e lágrimas, se bateram e batem heroicamente pela honra de Portugal em defesa dos nossos direitos sagrados, nesses sertões da Guiné, Angola e Moçambique, que são também pedaços da Pátria-Mãe. E a Pátria agradecida – a retaguarda que não abdica nem trai – tem neles os olhos postos com orgulho. E porque mais perto de nós pelo coração, e pela

saudade, queremos recordar aqui, comovida e respeitosamente, todos os Armistas e filhos de Armistas que têm contribuído, com heroísmo até da própria vida, para continuar Portugal. Ainda no dia 31, festa da nossa Padroeira Regina Mundi, na Assembleia Geral da ARM, em Valadares, eles foram todos lembrados com emoção e saudade e por todos – vivos e mortos – elevámos ao Céu uma enternecida prece. A todos admiramos e acompanhamos de alma e coração. Para todos, o nosso mais comovido tributo de simpatia e de gratidão. Gratidão da retaguarda. Gratidão da Pátria-Mãe. Albino Santos
(Bol 31, Jun/Jul 1970, p. 1)

(3). O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO Não pretendemos analisar aqui o significado do 25 de Abril. Outros o fizeram e continuam a fazer em discursos empolgantes e exaltados que arrastam aplausos e apoios incondicionais. Aliás, quem pode negar que a Revolução Portuguesa representa um marco na História de Portugal e, com as suas repercussões na política externa, um marco na História do Mundo? Quem pode negar a coragem e o arrojo desses militares que conseguiram, sem sangue, acabar com 50 anos de ditadura, corrupção, nepotismo, opressão, apesar de as condições internas e externas não serem as mais propícias? O 25 de Abril criou a possibilidade de uma vida nova para os Portugueses. Mas para isso acontecer há que desenvolver um esforço de iniciativa, imaginação crítica e de reflexão, sem as quais todas essas possibilidades se gorarão. Há que distinguir muito bem o essencial do acessório. Para já não vivemos numa sociedade democrática. Vivemos numa sociedade que podemos chamar “pré-democrática”, com a possibilidade de se tornar uma democracia. Não se muda uma política ou uma sociedade, mudando somente as pessoas que detêm a cúpula do poder. Só uma mudança radical de mentalidade e de métodos de governar pode trazer alguma mudança.

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Parte III – Antologia de textos publicados no Boletim da ARM

Construir e viver numa democracia não é fácil, a não ser que vivamos numa sociedade democrática como se vivêssemos sob um regime fascista, isto é, alijando a responsabilidade, a liberdade, a criatividade e o sentido crítico. Não se pode permitir que seja feito por outros o que só aos Portugueses compete. E o futuro de Portugal é uma coisa que nos diz de tal modo respeito que não podemos dispensar-nos de nos pronunciarmos sobre ele, nem deixá-lo à mercê das cúpulas dos partidos políticos ou outras, quaisquer que elas sejam. Numa democracia ninguém é detentor da verdade. A verdade de cada um nunca pode pretender ser a verdade de todos. Existem direitos de que não podemos alienar-nos sob pretexto algum. Um deles é ter acesso à informação do que se passa realmente no País e não ser bombardeado constantemente por slogans inócuos e agressivos ao serviço não se sabe bem de quem. A informação não é o mesmo que propaganda. Os Portugueses gostam muito de discutir. Infelizmente, muitas vezes perdemo-nos em discussões estéreis, em bizantinices ridículas, preocupando-nos mais com o acessório do que com o essencial, com os meios antes de definirmos os fins. Eu creio que primeiro temos de definir os nossos objectivos e então, depois, escolher os meios. Numa situação como a portuguesa o primeiro objectivo tem de ser o desenvolvimento económico. Todas as economias capitalistas passam por uma crise que se assemelha à dos anos 30 e até as próprias economias socialistas sentem os seus efeitos, apesar de se afirmarem imunizadas contra semelhantes crises. Como dizia há pouco um leader político europeu, se o homem comum refIectisse na crise económica que o Mundo atravessa, tremeria de medo. Basta atentar na subida constante dos preços e na inflação galopante, que ninguém pode parar. Há já quem avente a hipótese de uma 3.ª Guerra Mundial inevitável, pois é assim que se costumam resolver as crises graves. Há que desenvolver um esforço tremendo de imaginação para a reconstrução de um Portugal onde caibam todos os Portugueses e de que todos se possam orgulhar. Numa democracia tudo pode e deve ser discutido antes de ser decidido, mesmo que isso possa parecer ineficaz. É uma garantia contra erros que se podem tornar fatais. Muitas

empresas estão tecnicamente falidas porque os seus dirigentes nunca deram ouvidos aos seus empregados ou comportaram-se como se estes não existissem. E muitos empresários estão a dar prova da sua incapacidade e da sua incompetência, obstinando-se em continuar com métodos obsoletos e recusando-se a discutir os seus pontos de vista seja com quem for. Acabou a época dos “orgulhosamente sós” e das incapacidades em torres de marfim. Precisamos de trabalhar todos arduamente e todos os dias do ano para a reconstrução de um país de todos e que deixou de ser somente de alguns. A imaginação tem de subir ao poder. Temos de inventar novos modelos de desenvolvimento e deixar de ser imitadores de supostos milagres tentados ou conseguidos noutros lugares. Portugal, apesar de tudo, está nas condições ideais de tentar algo de completamente novo, sem precisar de imitar ninguém. Agora que Portugal se encontrou de novo a si próprio e os Portugueses se orgulham novamente de ser Portugueses, não por vãs glórias do passado, mas por realizações históricas do presente e pelas perspectivas aliciantes do futuro, temos de passar por cima do que nos divide e encontrar o denominador comum que nos catapulte para o lugar que a História nos reservou. Infelizmente, um país não pode fazer tudo aquilo que quer, mas aquilo de que é capaz e as condições permitem. Mas nesse aspecto somos optimistas, se a cada português for dada a possibilidade real de o fazer. Não duvido de que o queira fazer. E tenho a certeza que saberá distinguir o que é Essencial daquilo que é Acessório. Vítor Borges
(Bol 51 (1.ª Série), Mai/Out 1974, pp. 1 e 3)

(4). PÁTRIA FUTURA Armistas! Sejamos dignos da hora que vivemos! Portugal ressuscitou da morte e da opressão. Somos um país livre! As Forças Armadas devolveram aos Portugueses o rosto humano que Portugal havia perdido na longa noite de tanta tortura, miséria e morte. Sim, morte! Reino cadaveroso era já este Portugal, e nós, Portugueses, indignos do passado! Os valores da Moral e do Direito eram sacrifica-

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dos e espezinhados na nossa terra em benefício de uma minoria que sobre a opressão e o crime construiu o seu império, um império hediondo e repelente. 11 000 mortos, 30 000 feridos e 20 000 mutilados na guerra colonial, 150 000 desertores e refractários, 4 milhões de emigrantes, 3 milhões de analfabetos, eis o drama de um País e o resultado da política salazarista-marcelista, retrógrada, obstinada, anacrónica. Eis a ruína de um Portugal e o suicídio sócio-económico de uma Nação. Armistas, somos portugueses. Amamos o solo pátrio. Temos de reconstruir Portugal. Todos, sem excepção. Reconstruamos uma Pátria em que cada português não mais possa ser vítima de outro português, em que todos, porque nascem iguais, tenham iguais oportunidades no acesso à cultura, ao trabalho, aos benefícios da civilização, em que não reine qualquer forma de obscurantismo, em que não haja fome, nem miséria, nem ódio, mas amor e justiça. Uma pátria edificada no respeito pelos valores supremos da pessoa humana com base num direito que seja vida. Esta a tarefa sublime a que, conscientes da nossa posição na sociedade, devemos meter ombros. Qualquer que seja a profissão de cada um de nós, armistas – médicos, engenheiros, advogados, estudantes, empregados da função pública ou privada, industriais ou comerciantes –, coloquemos ardor no que fazemos, participemos na vida colectiva, mas de coração limpo e sem reservas, e demos autenticidade a uma nova forma de vida social e política. Nesta obra de reconstrução apelamos também para a Igreja. Que ela tenha a coragem redentora de não mais silenciar, em cumplicidade, qualquer violação dos direitos essenciais da pessoa humana, pois foi para a defender e dignificar que Cristo a instituiu. Que não pregue só um Evangelho voltado para a outra vida, apontando o Reino dos Céus como prémio. Que pregue a mensagem autêntica de Cristo, que mais não é que um grito permanente de justiça já nesta terra. Não pode a Igreja alhearse da opressão, da violência, da tortura, do assassinato cometido pelos agentes do poder político, em qualquer parte do Mundo, na pessoa dos seus filhos – e todo o ser humano é seu filho. Não pode aliar-se nem conviver passivamente com esse poder político. Tal aliança ou convivência significam

traição aos fins próprios da sua própria razão de ser. Lembramos ainda aos Bispos que aceitaram, colaboraram ou não denunciaram as atrocidades do regime deposto que devem ouvir os apelos dos cristãos no sentido de resignarem, devolvendo ao povo de Deus o direito de escolher livremente os seus “pastores”. Só assim os cristãos e os não cristãos acreditarão na Igreja, descobrindo nela a nova face em que podem confiar. De contrário, a comunidade eclesial, em vez de crescer, poderá minguar e recolher de novo às catacumbas. É na formação de cristãos livres e politicamente conscientes e na defesa da dignidade da pessoa humana que a Igreja deverá colaborar na edificação da sociedade terrena. Mas é para vós, armistas companheiros, que mais vai esta mensagem e este apelo. Procuremos construir uma sociedade nova, baseada no respeito mútuo, na tolerância, no trabalho e na liberdade, devolvendo aos Portugueses o seu génio e a Portugal o lugar a que tem direito entre os povos. Meditemos, armistas, no devir histórico, irreversível; e ocupemos o nosso lugar na hora que na História vivemos. Marques Farinha
(Bol 51 (1.ª Série), Mai/Out 1974, pp. 1 e 4)

(5). PRIMEIRO A JUSTIÇA Mais cegos que os cegos são aqueles que, tendo olhos, não querem ver, nem tão-pouco admitem que alguém lhes tire as cataratas. Pois, queiram ou não queiram, também esses “cegos” são elementos constitutivos de uma sociedade e têm para com ela obrigações que não podem nem devem ignorar. A sociedade de hoje, como as sociedades de sempre, é uma complexa máquina de que todos somos peças indispensáveis e insubstituíveis. E como poderá essa máquina funcionar perfeitamente se as peças não desempenharem, uma por uma, a função que lhes compete? As peças enferrujadas, retorcidas, cegas, infalivelmente, emperram a máquina, impedindo-a de funcionar em pleno. É, pois, com o fim de tentar “lubrificar” uma ou outra “peça” mais necessitada que vou tentar derramar algumas gotas de “óleo”, que julgo salutar, neste elo de ligação entre as “peças” da nossa Associação.

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Não se ignora que a ARM não é uma associação com carácter político. Mas também se não ignora que todo o homem é político por natureza e que a ARM é uma associação de homens, que, em princípio, são “peças” importantes da grande “máquina” – que se pretende renovada – que é a sociedade portuguesa de hoje. E não pretendamos isolar a ARM da sociedade em que vivemos. Por isso, a ARM visará, antes de mais, o aperfeiçoamento dessa mesma sociedade. Com efeito, não me queiram convencer de que sermos ARM é apenas almoçarmos juntos uma vez por outra, mantermos um serviço social para ajudar os armistas mais necessitados ou quotizar-nos para mantermos mais ou menos interessante um Boletim a que chamarnos “nosso”. A ARM deverá ser muito mais do que isso. Os almoços e o Boletim deverão ser, sobretudo, escolas vivas em que se ensine a fraternidade, a igualdade e a justiça. Acabe-se, de uma vez para sempre, com o egoísmo, com os ataques pessoais, com as críticas destrutivas ou com os auto-elogios. Sejamos justos, defendamos a justiça, exijamos a justiça. A justiça dispensa a esmola, as situações de favor, as “cunhas”, a acção social, tal qual existe na ARM. Defender a justiça não é fazer política. Defender a justiça é pregar o Evangelho. É inegável, e não será novidade para ninguém, que o Movimento das Forças Armadas encontrou o País numa debilidade económica verdadeiramente alarmante, triste herança de injustas prepotências que nos oprimiam. A emigração em massa para o estrangeiro não só é disso testemunho insofismável, como talvez uma das suas causas próximas. Os milhões enterrados no ultramar para, teimosamente, orgulhosamente sós, se sustentar uma guerra reconhecidamente insustentável, para lá – só agora – se construir aquilo que se deveria ter construído em cinco séculos que temos de África, eis mais uma explicação do caos económico para que a passos largos íamos caminhando. A agricultura nacional é aquilo que todos conhecemos: terrenos incultos por toda a parte, eucaliptais substituindo vinhedos e olivais, culturas exploradas por estrangeiros, com a consequente saída de capitais para os seus países, importação

de produtos alimentares a mais elevados preços do que os praticados em relação aos poucos produtos nacionais... A nossa indústria navega nas mesmas águas turvas: escassez de matéria-prima, despedimentos colectivos, hotéis, fábricas, transportes colectivos, telefones, meio-Algarve, tudo na mão de estrangeiros exploradores da nossa baratíssima mão-deobra... Do comércio nem se fala: subida incontrolada de preços, supermercados monopolistas estrangulando pequenos comerciantes, pseudocomissões reguladoras de preços, açambarcamentos, especulações constantes por parte de “tubarões” endinheirados, pescarias manipuladas, a seu bel-prazer, por senhores armados em “donos disto”, preços irrisórios pagos ao lavrador, etc. O descontentamento era geral. A miséria grassava por toda a parte. Os bairros de lata assentaram arraiais em todo o lado, pois muita gente nem sequer ganha para a renda de casa. E, enquanto isto, os administradores e directores de empresa enchiam-se à grande e à francesa; os lucros da banca e de outros grandes blocos económicos eram cada vez mais elevados; os papéis de crédito eram negociados aos milhares de contos por oportunistas desavergonhados... Numa palavra: estava-se perante um “salve-se quem puder” que iria pela certa desaguar num mar de revoltas, de assaltos, de crimes, de ódios, talvez num mar de sangue. Mas eis que, como por milagre, na manhã de 25 de Abril despontou radioso o sol da liberdade que um grupo de jovens heróis quis desvendar ao povo português, a nós, armistas, que também somos povo. A nós também foi oferecida a liberdade, a possibilidade de contribuirmos para que a justiça se faça entre os Portugueses. Saibamos aproveitar esta oportunidade que nos foi oferecida de mão beijada. Mas cautela! As forças da reacção, latentes embora, continuam a ser forças. Há que estarmos prevenidos. A reviravolta – sabemo-lo bem – poderá acontecer. Está na mão de cada português, de cada um de nós, como armistas, como trabalhadores, evitar um retrocesso. As greves selvagens, desencadeadas por reaccionários, as reivindicações salariais exageradas,

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as “ofertas” chorudas do patronato – que até aqui “não podia dar mais” –, são armas venenosas e mortíferas apontadas ao peito de um País doente há quase meio século e que um grupo de bravos quer restituir à vida, à pujança, ao progresso. Colaboremos com esse punhado de jovens heróis. Ajudemos a construir um Portugal renovado. Demos a mão a quem nos quer redimir. Colaboremos, apoiemos o Movimento das Forças Armadas. Ajudemo-lo a cumprir o seu nobre programa. Portugal será amanhã aquilo que cada um de nós quiser que seja hoje. Lutemos por uma sociedade justa, lutando por uma ARM justa. Augusto de Macedo
(Bol 51 (1.ª Série), Mai/Out 1974, p. 2)

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2. TEORIA E PRÁTICAARMISTAS

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(6). ASSOCIEMO-NOS Por imperativo natural, sempre os homens tenderam a associar-se. Mas uma associação, qualquer que seja, é sempre movida por força que leva os homens à união e por uma finalidade ou objectivo que especificam essa mesma associação. Ora, no nosso caso, que impulso nos conduzirá a associarmo-nos? A resposta tem-na cada um de nós lá bem no fundo da alma, não é verdade? Deixámos a alma também “em pedaços repartida” por aqueles claustros tão belos de Tomar, pelos recantos frondosos de Cernache do Bonjardim, por aquela casa branca que se ergue no formoso outeiro de Cucujães. São lugares sagrados que sempre nos falarão de saudade, de sonhos juvenis, de Cristo. Recordá-los no silêncio do nosso mundo íntimo é como que ter encontrado um doce refúgio para o barulhento, fatigante, por vezes estúpido viver do nosso tempo. Há, portanto, um Passado, digamos, familiar que nos une. No entanto, uma razão apenas sentimental não justificará plenamente que nos associemos. Impõe-se um motivo mais forte que há-de ser de natureza espiritual. Não compreendo uma associação sem um ideal. Ora, a meu ver, o fim superior duma associação de antigos ou actuais candidatos à vida missionária há-de ser uma correspondência ao chamamento que, um dia, nos foi feito, sejamos ou não do número dos escolhidos. Fomos chamados! E somos chamados! A meu ver, se a nossa associação conseguir despertar em nós a consciência das nossas responsabilidades perante o chamamento que, um dia, por desígnios incógnitos de Deus, nos foi feito, isso justificaria plenamente a sua razão de ser. E depois, só há-de surgir, naturalmente, todo um grande programa de acção. Para já, impõe-se que os membros da grande família, dispersos por aqui e por além, se reúnam em alegre confraternização. São milhares? Mas por onde travam eles o duro combate da vida? Vamos ao seu encontro. Valeu? Coimbra, Julho de 1964 J. Marques Pereira
(Bol 8, Set 1964, pp. 1-2)

(7). VIDA DA ARM No momento em que este boletim chegar às mãos dos nossos associados já a ARM está entregue a uma nova direcção, constituída por elementos cheios de boa vontade, optimismo, juventude e dinamismo, dispostos a fazê-la dar um passo em frente na sua longa e feliz caminhada. É o mérito das renovações. Como presidente da Direcção cessante quero deixar aqui, neste número do boletim, algumas palavras que sejam um testemunho do que foi a vida da Associação nos últimos dois anos e traduzam, ao mesmo tempo, um acto de fé no seu futuro. Nós que acabamos de sair da Direcção temos a consciência, e humildemente o confessamos, de que não fizemos tudo quanto os nossos associados esperavam de nós. Ao assumirmos os nossos cargos também nós esperávamos poder desenvolver actividade mais profícua e persistente, mas a vida profissional de cada um e vicissitudes várias não nos permitiram fazer mais do que manter a ARM viva, ainda que com uma vida tão pouco espectacular que, por vezes, terá dado a muitos, aos mais exigentes pelo menos, a impressão de que estava adormecida. Apesar disso, por debaixo da cinza de uma aparente falta de vida, crepitava o fogo vivo das nossas preocupações por ela, traduzidas numa certa regularidade de reuniões de Direcção, na confecção do nosso boletim que, ainda que pobre, lá ia levando uma palavra e algumas notícias aos nossos sócios, e, principalmente, nas nossas reuniões gerais preparadas e realizadas sempre com muito interesse e carinho. Cremos ter ficado na memória de todos a grande e inolvidável jornada que foi a nossa reunião geral em Cucujães, em Junho de 1963. O número de presenças, a riqueza do programa e, principalmente, o entusiasmo e a boa camaradagern que ali se viveram, jamais esquecerão. Apesar de tudo, não estamos satisfeitos com o nosso trabalho, ainda que reconheçamos não nos ter sido possível realizar nem mais, nem melhor. Todavia, a ARM tem amplas possibilidades de vir a ser uma associação plena de interesse e dispõe de virtualidades que poderão, no futuro, desabrochar em consoladoras realidades. É esta a palavra de esperança que quero aqui deixar bem expressa. Para que a nossa Associação se torne gran-

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de, ganhe o coração de todos os antigos alunos e adquira um dinamismo sempre crescente são necessárias, pelo menos, duas coisas que reputo fundamentais, uma delas já em parte efectivada na actual direcção: refiro-me, por um lado, à vantagem de esta ser constituída por um maior número de elementos e, por outro, à necessidade de todos os associados participarem directa ou indirectamente nas actividades e tarefas que incumbem à mesma Direcção, nomeadamente na confecção do nosso boletim em que poderão colaborar com artigos e notícias, e no envio de sugestões e ideias que muito podem contribuir para o progresso da Associação. No momento em que uma nova Direcção assumiu os destinos desta, importa muito que um espírito novo comece a animá-la e este terá que traduzir-se numa maior participação de todos os associados nas actividades e, portanto, nos destinos da A.R.M.. Se esta exortação encontrar algum eco naqueles que a lerem, sentir-nos-emos já um pouco compensados pela amargura de não termos realizado aquilo que no princípio julgámos poder fazer. Que a nova Direcção consiga realizar melhor do que nós as suas boas e esperançosas intenções. Que Nossa Senhora Rainha do Mundo os ajude e faça frutificar as suas iniciativas. António José Paisana
(Bol 9, 1.º e 2.º Trim 1965, pp. 1-2)

nós. E vem a saudade, a nostalgia, o sofrimento, e parece-nos que o sol é menos brilhante, que o mundo é mais triste, que a vida é menos bela. Entrámos um dia no Seminário. Há talvez cinco, dez, vinte, quarenta anos... Nele passámos mais ou menos tempo e conhecemos muitas dezenas, talvez centenas de companheiros com quem vivemos durante alguns anos, intimamente unidos, em ambiente de família, comendo à mesma mesa, ouvindo as mesmas lições, rezando na mesma capela, compartilhando das mesmas alegrias, tristezas e preocupações. A formação que recebemos, o estilo de vida que adoptámos e o ambiente em que vivemos marcaram-nos, soldaram-nos uns aos outros, como que nos fundiram. E apesar de possíveis antagonismos de temperamentos, das divergências de ideias, e até de um ou outro choque, a verdade é que mais do que simples amigos nos sentíamos verdadeiros irmãos. A ausência dos nossos irmãos de sangue contribuía para cimentar em nós esses sentimentos de verdadeira e inconfundível fraternidade que nos unia, num autêntico instinto de defesa, levando-nos a procurar preencher no nosso coração o vácuo provocado por essa ausência, e de tal maneira nos irmanámos que a saudade se atenuava e nos sentíamos, até certo ponto, compensados do sacrifício feito. Mas os anos foram passando e novas separações se iam operando: uns terminavam o seu curso, ordenavam-se e seguiam o seu destino; outros, reconhecendo que não era aquele o seu caminho, deixavam o lar e iam em busca de novos rumos. Mas, ao partir, todos levavam e deixavam saudades. E as exigências da vida absorveram-nos a todos e dispersaram-nos por esse país fora, pelo Ultramar e até pelo estrangeiro. Mas aqueles anos de convívio marcaram-nos a todos e a lembrança daqueles de quem um dia nos separámos jamais se apagou em nós. Encontrarmonos novamente, vermo-nos outra vez, abraçarmonos, recordar a infância ou a juventude, sabermos como lhes tem corrido a vida, ajudarmo-nos, se possível, é um anseio de todos ou de quase todos. Se algum não sente isto – perdoem-me – é talvez porque não chegou nunca a irmanar-se com os seus companheiros.

(8). BONS AMIGOS Alguém definiu o homem como um animal social. Se é certo que a definição é incompleta, nem por isso deixa de ser verdadeira, sob um dos aspectos da nossa natureza. A solidão, o isolamento deprimem-nos, neurastenizam-nos, fazem-nos sofrer, porque deixam na nossa alma um vácuo que nos dá a sensação nítida de seres incompletos, de que nos falta alguma coisa para sermos felizes. Para o preencher existe a família, criam-se amizades, fundam-se agremiações. E quando nos morre um parente ou um amigo a quem muito queríamos, ou quando as exigências da vida nos levam a separar-nos daqueles a quem o coração se deixara prender, parece que alguma coisa estala dentro de

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E um dos fins da A R M não é precisamente mantermo-nos unidos, reviver tempos passados, soprar as cinzas que o tempo e a vida possam ter ido acumulando nos nossos corações? É por isso que devemos fazer tudo quanto em nós estiver para não faltarmos às reuniões gerais ou regionais, a não ser que nos seja absolutamente impossível comparecer. Às vezes, por ocasião das convocações, vemme à mente aquela parábola do Evangelho em que, para se desculparem de não comparecerem ao banquete, os convidados se vão escusando como podem: villam emi – uxorem duxi – juga boum emi quinque... E é pena. Dá-me a impressão de que a ausência, quando não verdadeiramente justificada – do que quero que só os próprios sejam juízes... – pode talvez significar que neles se extinguiram esses sentimentos de fraternidade de que falei acima, o que, como irmão, me magoa. Vem tudo isto a propósito das últimas reuniões da A R M em Lisboa e em Fátima. É certo que compareceram umas dezenas de rapazes. Mas que é isto comparado com as centenas de ausentes, muitos dos quais, com um pouquinho de boa vontade, poderiam ter comparecido? Aquando da penúltima reunião de Lisboa, à última hora foi preciso cancelar tudo apressadamente, porque, se fôssemos a contá-los pelos dedos, bastava-nos uma das mãos e ainda sobrava um dedo... As coisas agora correram melhor, graças a Deus, mas não podemos dar-nos por satisfeitos. É preciso mais, muito mais. É necessário que os que já têm vindo se façam arautos da ARM junto dos seus antigos companheiros, para que o bebé, ainda pequenino e, diga-se a verdade, enfesado, cresça, engorde e se faça um gigante, forte e sadio, para poder cumprir a missão que os seus progenitores lhe traçaram. A ARM não pode morrer. Mas também não pode contentar-se com vegetar. Tem de crescer, desenvolver-se, progredir, para que possa corresponder plenamente, e o mais depressa possível, aos altos ideais que presidiram à sua instituição. Pe. Luís G. Monteiro (Bol 10, 3.º Trim 1965, pp. 1-2)

(9). REUNIÃO REGIONAL DO SUL, EM LISBOA No dia 8 de Maio último realizou-se no Colégio dos Irmãos Maristas, à Rua Artilharia Um, n.º 77, em Lisboa, mais uma reunião da nossa Associação formada pelos antigos alunos dos Seminários das Missões. A caravana somou cerca de 100, que se dilataram nas respectivas famílias. Como foi bom revê-los: os mesmos, a maior parte dos quais ainda há pouco encontrados em Tomar, cabelos brancos, rugas na tez, anos, tantos anos de distância e tempo – tanto tempo hibernaram tão grandes amizades – e ei-los, ledos e crianças que riem e saltam e bulham e cantam à desgarrada como nos tempos idos e saudosos das Tílias da Avenida e da Fonte do Moisés em Cernache, das Sacras Ciências em Cucujães e que o tempo guardara, intactas, com soberba, para que eles as pudessem mastigar nas mesmas cores, no mesmo sal e na mesma música. Ei-los que chegam... e bailaram papoilas de sangue nos seus lábios, crianças que foram (crianças que eram), música nos olhos – um infinito danúbio tão azul. – Que maneira singular, a de juntar num só rosário tantos corações! CONFRATERNIZAÇÃO: não só nos Maristas... a terra e o céu... abraços amigos... exortações... orgia de lua em dia de sol... E vieram... Dr. José Francisco Rodrigues, Nereu Santos, Dr. Abrantes Prata, Celestino de Sousa Dias, Pacheco, Amândio Mendes da Silva, Salvado, Pires (o Piresão de Tomar), Mateus, Dr. Guerra (o Manel), P. Albano, P. Aires, Sebastião Lobo, Eng. Ribeiro Coelho, Tomaz, Dr. Gonçalves Narciso, Isaac Casimiro, Marques Farinha, Moutinho Rodrigues, Manuel Francisco da Silva, Dr. António Paisana, Louro (o Louro da Banda de Cernache), Maués, Belchior, Romão Carreiro, Patrício, Valente, Antero, outros e outros e todos eles, em comunidade, contagiaram... fundiram-se as mãos... os pensamentos... os novos ideais... Eles tinham guardado em si mesmos, lá bem no fundo, um imponderável TE DEUM, aos tempos idos e presentes afinal, em que “wagnerizavam” a música granítica dos claustros, cantando a Noa, Vésperas e Matinas ao compasso dos bronzes. Notou-se neles, sem excepção, a melodia feita

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toda ela de saudade... e parece mesmo que os anos foram vencidos... todos beberam uma vez mais nas taças níveas dos mesmos ideais. A separação foi-se por pólos opostos e na Capela, todos juntos... todos os olhos se cruzaram nos lenhos da cruz. O Rev. Superior Geral, P. Manuel Fernandes, celebrou a Santa Missa acolitado pelos Dr. José Francisco Rodrigues e José Nereu Santos. Nela foram lembrados os nossos irmãos falecidos, todos os presentes e ausentes, estes indistintamente dos que, na verdade, estiveram impossibilitados de comparecer, e daqueles que, por comodismo ou desinteresse, não quiseram associar-se. À homilia transportou-nos o celebrante ao pensamento da doutrina do Evangelho e da Epístola do dia, chamando a nossa atenção para a razão de ser de nós ali. Aconselhou-nos à prática do bem que aprendemos e bebemos, juntos, durante os poucos ou longos anos que passámos pelos Seminários. Exortou as famílias ali presentes a que vissem naquela reunião o desejo de cimentar mais e melhor a nossa amizade e velha camaradagem e o vivo exemplo de ligar a família de outrora à nossa de hoje. Terminado o acto religioso durante o qual, graças a Deus, se abeirou da Sagrada Comunhão um grande número dos presentes, a confraternização continuou com um excelente almoço volante de que beneficiou ainda – tamanha era a fartura – o Asilo da Mendicidade. Mais exortações, palmadas nas costas, abraços... e lá estava o Zé Pacheco com as saudosas récitas de outrora... O Magala, O Zé aperta o laço, Acho que achim stá bem, etc. e todos falavam, cantavam “Ó RAPAZIADA”, “REUNIU-SE A ZONA SUL” e mais que a inspiração poética dalguns bons artistas de momento haviam improvisado para aquele dia. (Noutro local daremos na íntegra aquelas duas canções). Que bem que todos cantaram e, entretanto, o nosso Presidente Dr. Prata ia filmando as melhores passagens deste memorável encontro. O entusiasmo, a euforia, a camaradagem, tudo se sentiu naquele ambiente puramente cristão, tudo fez viver tempos de outrora. Agora, sim, dizia um dos nossos, agora passou a haver verdadeira confraternização. Só com um almoço neste género – volante – e unidos às nossas famílias se poderá viver as nossas reuniões, se poderá confraternizar, festejar. E

foi, na verdade, assim que se sentiu bem o sabor deste nosso encontro. Excedeu toda a expectativa, diziam outros. Estamos todos de parabéns, acrescentavam ainda alguns. Como parêntese, aproveita-se o ensejo para aqui se frisar que foi esta a primeira experiência nesse género que se tentou e resultou, graças a Deus, pois, até agora, as nossas reuniões se limitavam exclusivamente aos antigos alunos – os familiares do sexo feminino ficavam em casa – e aqueles mesmos, sentados à mesa para um almoço, pouco mais que normal, só se confraternizavam com os parceiros do lado. E ali não: vieram com suas famílias, todos se confraternizaram com cada um e cada um com todos. Valeu? Esta foi, pelo menos, a opinião unânime de todos que, em face do sucesso da modalidade, votaram em uníssono pela continuação. Continuaremos, portanto, meus caros amigos. E assim desenrolou-se a tarde, e o sol, finalmente, adormeceu, doirado, para além do tecto da cidade onde descansa o crepúsculo dos tempos idos. Começou a debandada: Lisboa, a Outra Banda, Águeda, Porto, Santo Tirso, etc. Cada um, abalando, tomou seu rumo... mas a confraternização, essa há-de continuar para sempre. Junho de 1966 O Repórter
(Bol 13, 2.º e 3.º Trim 1966, pp. 1-2)

(10). O SEMINÁRIO DA BOA NOVA O Seminário da Boa Nova, em Valadares, que em boa hora foi inciado e já se encontra em adiantada fase de construção, é obra nacional e da Igreja. Todos nós, portugueses, temos em relação aos nossos irmãos do Ultramar urgentes responsabilidades de promoção e progresso, de civilização e apostolado. Foi sempre timbre da Nação Portuguesa civilizar e cristianizar os povos agrupados à sombra da sua bandeira. E hoje, mais do que nunca, urge trazer aos benefícios da nossa civilização e do nosso credo religioso os milhões de irmãos nossos que em África aguardam ainda que se lhes leve as luzes do progresso e se lhes fale de Deus e do Seu Cristo. E isto só os missionários o podem fazer. Mas não há missionários sem vocações e sem seminários.

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Ora o Seminário da Boa Nova há-de ser o alfobre onde se cultivam as vocações, a forja onde se temperam e formam os apóstolos da nossa África. Escola de instrução e de virtude. Sem bons seminários mal poderá haver bons sacerdotes. E a Sociedade Missionária precisa de sacerdotes óptimos que consagrem a vida inteira ao serviço do próximo nas missões do nosso Ultramar. As casas de formação que tem tido até hoje, adaptadas ou antiquadas, já não satisfazem as necessidades dos nossos tempos. Por isso se impõe a construção do novo seminário, em ambiente mais propício e mais próximo do recrutamento das vocações e em moldes actuais. E a sua importância é tal que o próprio Santo Padre Paulo VI, olhos postos na nossa Sociedade Missionária, assim o compreendeu, dando-nos o exemplo da sua generosidade por ocasião da sua peregrinação a Fátima. Mais do que uma dádiva generosa, foi um incentivo caloroso à nossa liberalidade a sua oferta de 1500 dólares. E nós? Nós que somos um povo de gloriosas tradições missionárias, nós que temos responsabilidades prementes no nosso Ultramar, nós ficaremos de braços cruzados? Sobretudo nós, os católicos? Seria um crime, porque seria uma traição. Traição às nossas responsabilidades históricas e ultramarinas, traição aos nossos deveres de cristãos. Não! O Seminário precisa do auxílio de todos os portugueses. A dádiva do Santo Padre apenas chegará para cobrir um terço das despesas. O resto é connosco. Temos de ser cristãos e portugueses conscientes, temos de seguir o estímulo do Papa, ajudando o Seminário da Boa Nova, na medida das posses de cada um. E sobretudo nós os que algum dia vivemos o mesmo ideal missionário e nos acolhemos à sombra do mesmo tecto, nós temos obrigação, mais do que ninguém, de contribuir para que o Seminário se erga e complete, sem atrasos nem dificuldades. É um dever de gratidão. No próximo dia 5 de Maio vai a Sociedade Missionária prestar a sua muito justa homenagem ao Santo Padre, com a presença de S. Ex.a Rev.ma o Senhor Núncio Apostólico e de outras autoridades religiosas e civis. Nessa ocasião também será lançada a primeira pedra da Igreja do Seminário.

Aproveitemos essa oportunidade para testemunharmos a nossa simpatia por esta obra, o nosso espírito missionário, com a nossa presença efectiva e com o nosso óbolo, pequeno ou grande, a depor no ofertório desse dia. Será esse o nosso testemunho de cristãos e de portugueses. E pelo ano em fora, nos nossos gastos e nos nossos sacrifícios, não esqueçamos o Seminário da Boa Nova. Não assinado
(Bol 20, Mai 1968, pp. 1-2)

(11). A NOSSA REUNIÃO ANUAL Para os que não puderam tomar parte nela aqui ficam estas descoloridas notas sobre o que se passou nos dias 9 e l0 de Junho em Tomar e Fátima. Mas a vibração, o calor, o entusiasmo e a alegria que lá se viveram, esses não se podem descrever. A alma não se descreve. E foi a alma da ARM que se manifestou em toda a sua pujança. Pelo número de participantes a passar de 120 com as respectivas famílias; pela amizade característica das nossas reuniões; pela vivência armista e missionária e ainda pelas sugestões apresentadas, esta foi, sem dúvida, a mais rica e mais quente de todas as nossas reuniões. A ARM é já, de facto, uma realidade consoladora, cheia de virtualidades, que tende a alargarse cada vez mais, a projectar-se mais além, a ser uma falange de leigos conscientes a secundar aqui e no Ultramar a acção evangélica e civilizadora da Sociedade Missionária. Assim o augurou e bem o P. Superior Geral. E a prova é que desta vez, além das principais representações de Lisboa e do Porto, também Angola e Moçamique estiveram presentes com todo o seu vigor juvenil e espírito de solidariedade. Lá como cá, a ARM vive perfeitamente a fraternidade cristã, o ideal missionário para que foi criada e que os seus fundadores lhe insuflaram ao nascer. Para comungar neste espírito, viver esta amizade e camaradagem, recordar tempos passados, valeu bem a pena ir a Tomar. Por isso, a ti que não foste só digo que não sabes o que perdeste!

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A Assembleia Geral foi simples, como simples era a ordem dos trabalhos. Mas esteve animadíssima pelas sugestões apresentadas, de carácter associativo e missionário. Seguiu-se depois a Santa Missa, celebrada pelo Superior Geral. No fim, o almoço, no antigo refeitório, a reviver velhos tempos. Só que desta vez não houve farinha de pau nem açorda... O Reitor primou em servir bem e foi gentilíssimo. E o repasto deu ocasião a vários brindes em que se manifestou mais uma vez o entusiasmo e a alegria de ali nos encontrarmos reunidos. Após breve visita ao Convento, em romagem de saudade, descemos à cidade por onde uns se espalharam a recordar o passado, preferindo outros alongar-se mais além a visitar o Castelo de Bode. Às 19,30 partimos para Fátima. Aí, após breve saudação à Virgem, procurámos os nossos lugares no Verbo Divino, para jantar. Depois foi a nossa procissão de velas, com a reza do Terço e visita ao Santíssimo na Basílica. No dia seguinte fez-se a Via-Sacra no Calvário Húngaro e, após o pequeno almoço, o P. Superior Geral celebrou missa para nós na Capelinha das Aparições. Aí confiámos à nossa Padroeira, Regina Mundi, as necessidades e anseios, o presente e o futuro da nossa Associação. E rogámos-Lhe pelos presentes e ausentes, pela Igreja e pelas Missões. Tempo livre até ao almoço. Aqui, aos brindes, o entusiasmo atingiu o rubro. Viveu-se mais intensa a camaradagem e a amizade. Foi por isso com saudade e olhos rasos de lágrimas que nos despedimos até à próxima. Albino Santos
(Bol 21, Ago 1968, pp. 1 e 4)

(12). TOQUE DE ALVORADA A ARM nasceu, há cerca de doze anos, da convergência de diversas iniciativas, ditadas todas pelo mesmo anseio: congregar na amizade, não apenas saudosa mas eficiente, aqueles que, nos Seminários da Sociedade Missionária, tinham convivido durante alguns anos, para muitos os mais lembrados da sua vida. A ARM cresceu, desenvolveu-se, tem-se afirmado como uma das iniciativas mais positivas das que por todo o lado foram surgindo, a favor dos

ex-alunos dos Seminários. Cresceu, desenvolveuse, e organizou-se, mercê da pertinácia entusiasta de alguns armistas, cujo labor infatigável tem constituído um dos aspectos mais agradáveis da nossa Associação. A Sociedade Missionária apoiou, desde a primeira hora, todas as iniciativas da ARM, quer directamente através dos estímulos do Superior-Geral (quem não recorda o entusiasmo com que o Pe. Manuel Fernandes nos acompanhou sempre?), quer pela nomeação, desde o longínquo começo de 1959, de um sacerdote para Delegado ou Assistente junto da ARM (cf. Art.º 15, § 2 dos Estatutos). A Sociedade acompanha por isso, com vivo interesse, aqueles que se propõem “congregar, em redor da Sociedade Missionária todos os seus antigos alunos, fomentando e estreitando os laços de amizade, com o fim de se entreajudarem espiritual, moral e socialmente” (cf. Art.º 3, a) dos Estatutos) – e põe ao serviço da ARM todos os serviços que puder prestar para que ela atinja cada vez mais ampla e perfeitamente os seus fins. E vê com imensa alegria congregarem-se em fraterna amizade um número cada vez maior dos seus antigos alunos. Mas a amizade tem de ser mais que um fim. Dela deverão surgir iniciativas que lancem a ARM lúcida e corajosamente na acção que concretize o ideal que a inspira. Não podemos ser apenas um grupo jantante, que de ano a ano se vai encontrando, sem imaginação renovadora e sem saber bem o que quer. A ARM contraiu obrigações a que não pode furtar-se sem trair as mais legítimas esperanças dos seus membros. Este Boletim, com todas as limitações que possam apontar-se-lhe, é uma das suas actividades mais válidas. Mas será pouco menos que inútil se, através da sua acção mentalizadora, não suscitar outras iniciativas – e não conseguir despertar tantos e tantos que continuam adormecidos. Membros activos da ARM são ainda escandalosamente poucos. Iremos deixar que os da primeira hora acabem por cruzar os braços, no desânimo duma generosidade que não se vê devidamente apreciada e correspondida, porque não continuada por outros que venham trazer um sangue novo e criador? O campo aberto é imenso, quer no campo apostólico, quer na acção cultural e social. O Boletim está a precisar de um fervilhar de vida que só os

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armistas lhe podem injectar. Onde estão as vozes (e as canetas!) dos armistas, a transmitir notícias, a dar sugestões, a apontar deficiências? Porque não comunicar aos outros os momentos grandes da vida de cada um, na alegria ou no sofrimento: o casamento, o nascimento do primeiro filho, a conclusão duma carreira universitária, uma promoção (que é sempre promoção de toda a ARM), o luto que atinge uma família, e tantas e tantas outras realidades que todos gostaremos de saber, para as partilhar fraternalmente? O Boletim tem de ser uma presença viva e exigente, ia a dizer provocante. Para arrancar à indiferença e à inércia os que ainda não deram sinal de vida – nem sequer para discordar! P.e Manuel Trindade Assistente da ARM
(Bol 34, Jan/Fev/Mar 1971, pp. 1-2)

pole decidiu criá-lo também entre nós, o tema readquire um interesse imediato, e um armista me escreveu já a sugerir que o boletim se encarregasse de elucidar os armistas sobre os problemas, formas, possibilidades, etc., do Diaconado, nomeadamente em Portugal. Lá iremos, se Deus quiser. Mas entretanto há a Assembleia Geral, e é a melhor oportunidade de fazer um balanço aos doze anos da ARM, discernindo corajosamente as suas deficiências, para melhor podermos continuar, e intensificar, o muito de bom que já se fez. Simplesmente, sem ovos não se fazem omeletas, e a ARM não pode existir sem armistas! Por isso, a primeira condição para que haja ARM é que tu estejas activamente presente na próxima Assembleia Geral, no dia 30 de Maio. Lá te esperamos! E lá te abraçaremos! Pe. Manuel Trindade
(Bol 35, Abr/Mai 1971, pp. 1 e 4)

(13). UMA VEZ NO ANO? (14). FRATERNIDADE Vai realizar-se a nossa Assembleia Geral, como noutro lugar se informa. E é a partir dessa circunstância que retomo o fio do pensamento do que escrevi no último número do nosso boletim. A ARM não é um vulgar e banal grupo recreativo, ou excursionista, e como tal a sua actividade não pode nem deve limitar-se a um passeio por ano e a um almoço de confraternização mais ou menos animado. Mas esse passeio efectua-se, e a confraternização realiza-se – e são indispensáveis. O que é preciso é que tudo isso seja a mola impulsionadora que, através da vivência de um dia de profunda amizade, dinamize todo um ano de vida, sugerindo iniciativas, planeando actividades, apontando deficiências, estimulando novos empreendimentos, alimentando uma contínua e fértil insatisfação. A ARM tem à sua frente uma tarefa imensa, na Metrópole e no Ultramar (como em qualquer outra parte do mundo), quer no campo social, quer no campo cultural e apostólico. De Moçambique vieram, em tempos, sugestões muito concretas, para uma cooperação missionária dos armistas em África. Outro grupo de armistas recebeu, há anos, com entusiasmo, a notícia da restauração do diaconado permanente, pelo Vaticano II. Agora que o Episcopado Português da MetróA fraternidade está na base de toda a humanidade. Sem distinção de cores ou de raças, somos todos irmãos. Como tais devemos amar-nos. Sem embargo, quando o homem esquece a sua comum filiação divina, torna-se não raro o lobo do homem. Homo homini lupus. Desrespeito pela dignidade da pessoa humana, egoísmos, falsidades, desprezos, explorações, roubos, ódios, raptos, assassínios, traições e guerras parecem ser a prática quotidiana. O progresso, tanto no campo da ciência e da técnica como no da psicologia, da sociologia e da economia, atingiu já proporções nunca antes suspeitadas. Encurtaram-se as distâncias, aproximaram-se os povos para melhor se conhecerem e amarem. E nunca se falou tanto de paz e de fraternidade. Paradoxalmente, porém, dois terços da humanidade continuam a morrer de fome, os ódios e as guerras são mais ferozes e cruéis. Porque muitos esquecem ou renegam Deus. Caminhando por fases de recuo e de avanço, parece que a humanidade hoje está retrocedendo moralmente. Apesar de tudo, Deus não nos abandona, mesmo quando nos dá a impressão de se esconder ou estar ausente. Por isso eu creio, com T. de Chardin, no

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progresso moral do homem, na sua permanente evolução em direcção ao ponto Ómega, à união última, para que finalmente sejamos todos um com Cristo. O homem é na terra uma dádiva e a imagem de Deus, tem um destino e uma dimensão eternos. E foi criado para ser feliz. A felicidade, porém, só se alcança pelo amor e devoção aos outros. Só recebemos na medida em que nos damos. Se cada um soubesse a felicidade que há no dom de si mesmo! Por isso a ARM nasceu para nos darmos uns aos outros, para amarmos e servirmos o próximo e sermos assim felizes e podemos afirmar que ela é verdadeiramente, no mundo egoísta em que vivemos, essa certeza consoladora de uma autêntica fraternidade. Se outras provas não houvesse, a última reunião em Lisboa era só por si suficiente. Nasceu fiel aos princípios que aprendemos naquelas casas que durante anos a todos nos abrigaram, fiel ao espírito do Evangelho e ao amor, para cultivarmos a amizade nascida nos nossos anos juvenis. E também para sermos pelo amor e devoção uma élite de apoio àqueles que, nossos companheiros de anos, labutam e sofrem hoje no Ultramar pelo alargamento do Reino de Deus. Creio poder-se dizer sem vaidade que somos já a melhor Associação no género. Basta ser-se armista para logo se encontrar nos outros um amigo, um irmão. E como irmãos fomos realmente tratados nós, os armistas nortenhos, que nos deslocámos à capital para a nossa última Assembleia Geral. Foi tal o calor e entusiasmo da recepção e do convívio que a Direcção cá do Norte exarou, na acta da sua reunião mensal subsequente, um voto de louvor e gratidão aos armistas de Lisboa. Não quero distinguir ninguém. Mas o Tomás... A todos eles o nosso muito grato Bem-hajam! Albino Santos
(Bol 36, Jun/Jul 1971, p. 1)

(15). REUNIÃO GERAL DA ARM A reunião deste ano teve lugar em Lisboa, no Colégio dos Irmãos Maristas, a 30 de Maio. Foi a mais numerosa até hoje realizada. Entre armistas e simpatizantes, com esposas e filhos, contaram-se 217 presenças.

Havia antigos da primeira e última hora, do Norte e das Beiras, como havia representantes de Cabo Verde, Angola e Moçambique. O Porto, esse apresentou-se em forma, em belo autocarro e todo vibrante de alegria e entusiasmo. Dois armistas dos mais fervorosos, que Deus tenha – o Ribeiro Coelho e o Abalada de Matos – estiveram presentes na pessoa das esposas e no coração de todos, aquelas envergando os emblemas e teimando em continuar a pagar as quotas e em receber o jornal sem encargos para a Associação. O ano de 1927 – aquele em que o colégio de Cernache reabriu as portas às missões religiosas – marcou presença com quinze dos seus e o nosso querido Padre Sequeira. O Nereu, esse, ajudado da sua bengala (cremos que temporariamente), sempre loquaz e altissonante, tinha representação do José Pacheco, do Sebastião Lobo, do Martins de Oliveira e do Abílio Lourenço, a quem a doença e outras razões graves de todo impediram a comparência já tradicional. O Dr. José Francisco Rodrigues arranjou acomodações para a maioria dos do Norte. Os restantes tiveram hospitalidade fidalga em casa de outros armistas de Lisboa, alguns dos quais deixaram suas camas e quartos para que os irmãos de longe se sentissem mais perto. E quase todos os casais arranjaram coisas para reforçar a mesa, não fosse correr-se o risco da monotonia e míngua. Celebrou missa o Pe. Vaz, que representava o Superior-Geral, aliás já bem presente por um expressivo telegrama mandado de Nampula, onde se encontra no momento. O Dr. Nunes Ferreira animou o canto. E o Irmão Dias Ferreira, agora chegado das Missões de Moçambique, ajudou e orientou na celebração. A missa foi aplicada pelas intenções da ARM e em sufrágio dos superiores e condiscípulos já falecidos. Todos eles foram especialmente recordados na Oração dos Fiéis e nos momentos da Oração Eucarística. Na altura própria, todos se deram a paz efusivamente, abraço que muitos selaram, instantes depois, unindo-se estreitamente ao Senhor na comunhão, para n’Ele serem mais irmãos. A Assembleia Geral foi no ginásio do Colégio. Presidiu o Dr. Paisana. E falaram muitos, dizendo

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do passado e apontando pistas novas e votos ardentes para o futuro da Associação. Feitas as eleições, o Dr. Silva Cardoso pediu a palavra e falou, com alma e jeito, da fundação de Bolsas de Estudo, em ordem a ajudar a formar novos missionários, que sejam como prolongamento das nossas vidas, bem efémeras. Estamos em crer que as suas palavras não vão ficar sem eco. Entretanto podemos acrescentar aqui que o orador, logo a seguir, foi-se a bem perto de mim, tirou da pasta um cheque de dez contos e correu a escondê-lo nas mãos do Ecónomo Geral, para início da primeira bolsa. À hora do almoço, comeu-se, bebeu-se, e, sobretudo, falou-se. Cada um arranjou-se como pôde, de pé ou sentado, em lugar certo ou onde lhe foi dado descobrir uma cara há muito nunca vista. Quantos se viram ali passados trinta e quarenta anos!… Que o diga quem estas linhas escreve!… O dia foi realmente cheio de gratas recordações, de velhos episódios revividos e de saudade bem viva – e isto na capela, no salão das festas, à hora da refeição e à sombra dos jardins. Que pena o dia não ser mais comprido!… Uns de 50 e 60 anos (os da primeira hora), outros de vinte ou trinta, casados e solteiros, todos iguais, todos animados do mesmo ideal. Houve quem chorasse, como houve estranhos que ficaram maravilhados daquela fraternidade para eles nunca vista. E a presença do Campino e do Craveiro, vindos de Luanda, tornou a nossa confraternização ainda mais aberta e calorosa. Nota curiosa para mim foi o acento que notei em tantas conversas: o nosso Superior-Geral, as nossas missões, os nossos seminários ou os nossos alunos, as dioceses em que trabalham os nossos. Os armistas são também da Sociedade Missionária… Não faltou um abanozito às carteiras, para cobrir despesas feitas ou para pôr quotas em dia. A resposta foi sobremaneira generosa, sem falar do Craveiro Morais (vindo de Luanda com a bolsa quente), que brindou a ARM com uma nota de mil. E não ficará por aqui! O Tomás entregou o saco a uma voluntária, e vai de contar. Quando apareceu a soma, o Tomás, que teimara (embora muito doente), ajudado pela esposa, em levar a reunião a feliz efeito quase certo de que tinha de arrancar do bolso umas boas centenas, não queria crer nos seus olhos. Ainda bem, tanto mais que, do Norte, por mor do jornal, nos

falam quase amiúde do quanto se deve (e não no que se tem, porque ele não no há). Entre os que já foram para a mansão do Pai, lembramos especialmente o Eng. Ribeiro Coelho, o Abalada de Matos e o Pe. Aparício. Como este estaria satisfeito no meio de nós, onde havia dezenas de condiscípulos! Recomendamo-lo, uma vez mais, aos que não puderam estar presentes. E para algum mais íntimo talvez possamos conseguir um exemplar da edição especial que os jovens do Coração de Jesus lhe consagraram com 16 páginas. Aos armistas do Norte, os nossos agradecimentos e parabéns pela sua presença grande em número e em entusiasmo. Juntamente vão os nossos melhores votos de boa saúde para o Pacheco, o Chamusca, o Sebastião Lobo e outros, armistas que nunca faltaram e que sempre timbraram pelo amor à nossa Associação. Que Deus os ajude e cure depressa. Um dos presentes
(Bol 36, Jun/Jul 1971, p. 2)

(16). MUITA PARRA E POUCA UVA (Crónica oficiosa da reunião de Cernache do Bonjardim, de 15 Out 1972) Pois é verdade. Na sequência de uma série de anos maus para a “ingrícola”, também este de 1972 veio agravar a desoladora situação dos que no seio da terra – que regam com sangue, suor e lágrimas – esgaravatam o pão de cada dia. Quero frisar especialmente aqueles para quem a vinha é a única seara. E não se julgue que pretendo puxar a brasa à minha sardinha, até porque sou um modestíssimo vitivinicultor e mal de mim se vivesse exclusivamente daquela “miséria”. (Já agora – e porque veio à conversa –, daqui ponho à disposição de cada um dos amigos armistas uma adega minúscula que tenho em Vila Verde dos Francos, no concelho de Alenquer). E porquê mais este ano assim tão fraco para a vinha? Muito simples a resposta: a falta de sol e a chuva extemporânea fizeram nas videiras muita parra e pouca uva. E essa pouca ainda apodreceu antes de madura. Mas a propósito de quê toda esta conversa? – perguntar-se-á.

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A propósito da nossa Assembleia Geral realizada em Cernache no dia 15 de Outubro passado – respondo eu. Mais à frente tentarei uma explicação. Chegada a Cernache Pediram-me para fazer uma pequena crónica da nossa romagem a Cernache do Bonjardim em 15 de Outubro findo. Como nunca escrevi coisíssima nenhuma para o Boletim, não tive coragem (nem moralidade) de me recusar. Aqui fica, pois, esta pequena reportagem, simples e despretensiosa como eu. O 15 de Outubro cá pelo Sul amanheceu encoberto e molhado. Todavia, às seis e meia da manhã (hora marcada), já a malta – inclusive algumas crianças – se aglomerava à porta do nosso incansável Nereu, local de partida da camioneta que nos levaria até Cernache. Já agora – e porque considero este apontamento de reportagem de muito interesse e susceptível de alertar os mais descuidados –, friso que esta “malta” de Lisboa era realmente constituída por algumas crianças, bastantes senhoras e, consequentemente, poucos armistas (visto que ao todo nem chegávamos a cinquenta), sinal de que o interesse por este passeio-romagem foi muito diminuto cá pela Capital. Permito-me perguntar: todos os que não foram (e são a maioria) teriam motivos realmente fortes? Ou será que têm a sua “religião” armista sem precisarem de ir à “igreja”? Cada um que responda aos seus botões. Como somos uma Associação e associar é comungar dos mesmos ideais, viver os mesmos problemas, tornar comuns venturas e tristezas, optouse por uma viagem de camioneta, a fim de mais facilmente se poder confraternizar. E covenhamos que os intentos dos organizadores não saíram frustrados. Tudo correu bem. A boa disposição foi a dominante de toda a jornada, para o que muito contribuíram os cânticos “fabricados” pelos nossos crónicos animadores de programas, Moutinho Rodrigues e Manuel da Silva, e a gaita de beiços virtuosamente tocada pelo nosso Tesoureiro. Algumas anedotas – umas imberbes e outras muito barbudas

(mas actuais também porque a barba está na moda) – e um divertido sorteio pró-ARM (parabéns ao amigo Tomás!) completaram o repertório da nossa viagem para Cernache, onde chegámos por volta das onze horas. À nossa espera já alguns do Norte e do Centro, mais madrugadores, que vieram nos seus “bólides”, e alguns padres do Seminário. Pouco depois, também de camioneta, chegaram os do Porto. O átrio do Seminário, nobre sala de visitas daquela ridente vila, foi palco de cenas enternecedoras. Só me faltou ver lágrimas (de alegria, claro) nos olhos de alguém. Foram as palmadas nas costas (não palmadinhas, que essas não se usam quando há muito os amigos se não vêem); foram os abraços de quebrar costelas e outras coisas (por exemplo os óculos que o Sampaio trazia no bolso interior do casaco). E, talvez por eu não ter tomado parte em todas as reuniões da ARM, encontrei nesta de Cernache muita malta que não via há mais de quinze anos. E… quantum mutati!… Uns surpreenderam-me com os seus farfalhudos bigodes (é moda!); outros com as suas longas cabeleiras (é moda!); outros, ao contrário, com as suas inocultáveis calvícies (é… falta de cabelo!). Mas nenhum me surpreendeu pela contagiante alegria que a todos inundava no momento do encontro. Os tais abraços de fazer ranger costelas, as francas gargalhadas, os sorrisos abertos foram inequívocos testemunhos da sincera amizade que nos une desde o primeiro dia em que nos conhecemos, para alguns já lá vai quase uma vida. Os repórteres fotográficos “de serviço”, Dr. Prata na filmagem e Tomás na fotografia, certamente nos darão as melhores imagens deste encontro inesquecível. A Missa comunitária Cerca do meio-dia, na bela igreja do Seminário, foi a concelebração da missa acompanhada a cânticos pelo coro de vozes argentinas dos miúdos seminaristas. Aí, como foi bom (para mim) recordar aqueles anos cinquenta em que se cantavam missas solenes a quatro vozes, com acordes sublimes de faze-

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rem pôr os cabelos em pé! Palavra que senti saudades daqueles tempos. E, Deus louvado, talvez me tenha até distraído um pouco a recordar. À missa, o Rev. Superior Geral, com as suas tradicionais facilidade de expressão e clareza de pensamento, fez breve homilia baseando-se nos textos litúrgicos do dia. E suponho que cada um de nós teve, naquela missa, motivo para mais uma tomada de consciência de que cada qual, no pequeno mundo que o rodeia, deverá dar testemunho de Cristo. A Assembleia Geral Depois da missa, nas “mini-reuniões” de grupos e, a seguir, na Assembleia Geral é que se fez a “vindima” das ideias dos presentes sobre a ARM. Em minha opinião, nessa “vindima” colheu-se – é pena! – muita parra e pouca uva. Na verdade, além de uma mais activa participação dos novos na discussão dos problemas da ARM – sinal de certo interesse –, uma só coisa ficou de positivo: o esboço de uma ideia que todos gostaríamos de ver concretizada – o estudo prévio dos assuntos a debater nas futuras Assembleias da nossa Associação. Em boa verdade, falou-se muito e disse-se pouco, como sempre acontece quando o tempo é escasso para tratar muitos assuntos ou quando se age de improviso e sem ordem de trabalhos pré-estabelecida. E pareceme que de ambos estes males enfermou a nossa Assembleia de 15 de Outubro passado. Com efeito, desde a controversa apresentação das Contas do exercício de 1972 (e as de 1971?) à desnecessária e repisada apresentação de alguns temas para discussão; desde a intervenção desordenada no debate, por parte da maioria, à sistemática confusão de ARM (Associação) com Boletim (órgão da ARM); desde a velha rivalidade (nem sempre sadia, em minha opinião) entre os do Norte e os do Sul à recente “rivalidade” (uso aspas nesta palavra porque a não compreendo sem elas) entre armistas antigos e modernos; tudo isto, pareceume, foi “vindimar” muita parra e pouca uva, pois o “sol” das ideias claras não conseguiu entrar naquela discussão e foram bastantes as “chuvadas” de palavras mais ou menos vãs, mais ou menos inúteis que “apodreceram” quaisquer “uvas” que daquela Assembleia se pudessem colher.

Esta apreciação que aqui deixo é minha, é pessoal, portanto. Poderá ser defeituosa, exageradamente pessimista. Todavia, para mim é essencialmente uma apreciação sincera. Por isso, gostaria que ela fosse tida por aquilo que na verdade pretende ser: crítica construtiva, chamada de atenção para escolhos no caminho que a ARM vai trilhando (e a ARM somos nós, armistas), quebrar de lanças que às vezes teimosamente mantemos afiadas uns contra os outros. Há que rectificar? – Sem dúvida. Há que renovar? – Absolutamente. Mas essa rectificação e essa renovação terão de ser efectivadas na união, na associação de esforços de nós todos: os do Norte, os do Centro e os do Sul, os antigos e os mais novos. Só assim seremos uma verdadeira ARM. O almoço Depois da Assembleia (e porque ao longo dela já tinham chegado insistentes “S. O. S.” dizendo que o arroz estava quase frio), fomos “vindimar” para o refeitório, onde nos esperava um “bem aviado” almoço, oferta do Seminário. Aí, sim! Todos encheram o “cesto”, pois as “uvas” eram apetitosas e parece-me que nem “parras” havia naquela “vinha”. Findo o almoço, deu-se um passeio pela velha quinta para recordar tempos antigos, para… esmoer e para “vindimar” mais uns marmelos, também gentil oferta do senhor padre ecónomo. Debandada final Por volta das cinco da tarde começou a debandada. E, se a viagem de ida foi alegre, gaiata, desportiva, a de regresso “atirou” mais para o sério. Rezou-se o terço, o Padre Agostinho Rodrigues deu uma “conferência de imprensa” sobre a Sociedade Missionária – realizações, projectos, expansão no mundo – e, quando nos precatámos, estávamos em Lisboa, depois de um dia cheio, dia que abriu em todos nós (suponho) um grande “apetite” de fazer mais e melhor pela nossa ARM. A. Malhão
(Bol 43, Out/Nov 1972, pp. 2-3)

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(17). A ARM E O FUTURO A ARM, como associação de pessoas, é um projecto colectivo que terá de evoluir através de um confronto dialético com a realidade e as circunstâncias. A estagnação é sinónimo de letargia e morte. E é do confronto das opiniões e das vivências das pessoas que a formam que surgirão e serão prosseguidos os seus objectivos. Ninguém está disposto a colaborar em fins com que não se identificou, a que não aderiu conscientemente ou que, de qualquer modo, não ajudou a formular. A ARM é uma associação de que é preciso tirar todas as potencialidades. Une-nos o passado e a educação comuns. Mas não podemos viver o presente na contemplação nostálgica desse passado. Apoiar-nos-emos nele, aproveitando todas as suas virtualidades, para trabalharmos o presente, construindo o futuro. Na ARM queremos encontrar e cimentar a amizade, a entreajuda, a solidariedade e a alegria de vivermos um projecto comum. Na formulação desse projecto, a este Boletim caberá uma parte importante, pelo confronto de opiniões e informações da vida da ARM e dos armistas. Ao Dr. Albino dos Santos, que o dirigiu durante tantos anos, queremos expressar o nosso reconhecimento pela lição de trabalho, dedicação, sacrifício e vontade de servir que nos deu. A sua colaboração e orientação vão continuar a ser-nos úteis. Pois deixa de dirigir o Boletim, não para alijar responsabilidades ou fugir ao trabalho, mas somente porque não quis cair na tentação do imobilismo nem de se julgar insubstituível. Queremos que o Boletim seja um verdadeiro órgão informativo da ARM. As suas páginas estarão abertas a todos e serão um ponto de encontro de todos os armistas ansiosos por construir algo de válido. Não podemos encontrar-nos e reunir-nos só para fazermos romagens ao passado, recordarmos velhos tempos e encontrarmos velhas e novas amizades. Temos de construir, de fazer algo. Individualmente, mas também em grupo, em associação. Precisamos de repensar a ARM. Pois é este o desafio que a ARM nos lança. Vítor Borges
(Bol 50 (1.ª Série), Mar/Abr 1974, p. 1)

(18). HORA DECISIVA – ARM EM CAUSA Há quem diga que “após o 25 de Abril” já não se justifica a existência da nossa Associação, que não tem razão de ser, que é anacrónica, que não tem qualquer utilidade, que já não tem qualquer papel a desempenhar, que isto, que aquilo, que aqueloutro... Outros, pelo contrário, uma vez que agora há liberdade de associação, defendem a sua continuação e dedicam-lhe mesmo, pelo menos, algum do seu tempo livre, tentando salvá-la, dinamizá-la, até, se possível… Razões, algumas fundamentadas, há-as de ambos os lados, embora aqui e ali, à mistura, se descortinem por vezes sentimentos um tanto ou quanto contraditórios. Egoísmo, comodismo, ineficácia do serviço social existente, jactância, complexos os mais variados, recordações, confraternização, idealismo, etc…, de tudo há um pouco... É evidente que uma associação pós-25 de Abril não pode continuar a reger-se pelos figurinos do tempo da “outra senhora”. Mas de quem depende a sua modificação? Crítica destrutiva não adianta seja o que for nem a quem quer que seja. É necessário apresentar sugestões concretas, práticas... A hora é de acção e não de palavreado oco... É necessário que todos se debrucem sobre este assunto, que todos tomem parte activa no debate, que todos colaborem... É tarefa de todos... Aproxima-se a assembleia geral. É boa altura para meditação e modificações de fundo, se necessário... J. Soares
(Bol 52 (1.ª Série), Jan/Fev 1975, p. 1)

(19). CRÓNICA DA ARM (NORTE) “Nada mete medo aos do Norte!” Quisera eu ter “um estilo grandíloquo”, para deixar à posteridade memória condigna daqueles que, contra ventos e chuvadas torrenciais, conseguiram chegar, naquele dia 4 de Outubro, ao seminário de Valadares. Era a Reunião Regional. Todo o santo dia choveu: ora em bátegas desabridas, ora em copiosas chuvadas. E, quem esperava, vivia intensamente a entrada dos heróicos armistas e seus familiares.

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– Olha quem ali vem todo encharcado! Entra para aqui, rapaz. – Mais uma cara nova?... – Sou de 1960 e trago comigo este de 1961. Foi por acaso que soubemos da Reunião e viemos pela primeira vez. Cumprimentos, abraços e apresentações aqueciam o ambiente, faziam esquecer a chuva. Lá estavam padres de veneráveis barbas brancas, de cabelo falheiro. Via-se rapaziada nova de todas as idades, desde os 15 aos 80 anos, de lindas carecas bem penteadas; grupos falando e gesticulando; escutavam-se recordações do passado – o teu nome andou na baila. Sentia-se bem viva a nossa juventude, contando-se como de ontem o que havia mais de quarenta anos contecera – até um certo tabefe doía... – Na realidade, antigamente notava-se mais rigor na disciplina, mas posso garantir que tratávamos os rapazes com amor, salientaria o P. Canas emocionado. Entretanto, aproximava-se a hora da missa e o Coro da ARM (referido no convite) dava os últimos retoques para a estreia. Foi um sucesso tremendo. Sob a segura regência do nosso maestro Pinho (José Dias) cantou-se com entusiasmo, a coração pleno. Exibição de brilhantismo inexcedível, durante a Concelebração Eucarística. Pena que os de S. João da Madeira e arredores não tivessem comparecido – poder-se-ia falar de orquestra. “A vossa missão no mundo” foi assunto para a homilia do nosso P. Castro Afonso. Com emoção referiu-se também à “sua”, isto é, a sua partida para a Zâmbia. É que, naquele dia e àquela hora, disse, estavam a ser entregues três paróquias à Sociedade Missionária nesse País. A seguir, a SARDINHADA! Ao ataque! – foi a palavra de ordem. Fogareiros acesos, sardinhas nas grades – vira daqui, vira de lá –, todos os elementos da Direcção da ARM na primeira linha. Casacos fora, mangas arregaçadas, caras enfarruscadas – eles aí estavam. E, seguindo as normas do Meu João ainda em vigor – “trata de ti, João” –, raptaram umas garrafas, uma cesta e boroa e... zás! vamos a isto: assando e comendo – assando e bebendo... era de ver! Enquanto isso... lá para dentro, no refeitório, “a arraia miúda”, padres, gentes da cozinha, damas e cavalheiros – tudo iniciara o “stridor dentium”,

que é como quem diz, o convívio. Travessas de sardinha, e cestas de boroa a correr pelas mesas, garrafas e copos em sinfonia, arroz de frango (que sabor!), malgas de caldo verde com a respectiva rodela de chouriço. Conversas, alegria, desorganização bem organizada, muita e muita amizade – uma família em festa. Honra às senhoras, que se desdobraram no serviço à mesa (e... no assalto à cozinha!), que nisso ninguém as ultrapassa. Numa parede, via-se a tão falada e muito discutida EXPO-ARM 81 – “para ver, rever, reviver” – que durante toda a semana provocara uma onda de saudade. Eram fotografias antigas – algumas préhistóricas –, eram recortes de revistas e jornais, era o cantinho do Boletim da ARM (extinto). Dísticos ajudavam a reconstituir os nossos “Bons Velhos Tempos”. Porém, muitas lacunas; notou-se muitos anos sem um apontamento. Tais falhas desencadearam logo ali no Bastos (António de Oliveira), elemento da Direcção da ARM, a ideia de iniciar um repositório de recordações – um Museu da ARM. – Deixem-me levar esta Exposição para Lisboa, que eu tenho lá muito material e faz-se uma coisa em condições. Apelo a todos quantos tenham fotografias (amareladas mesmo), cadernos de exercícios (quanto mais gatados melhor) com notas de todos os tamanhos, livros antigos, boinas doutrora – tantas coisas que nos fazem reviver... Há por aí quem tenha velharias... no sótão, numa gaveta, que nós bem o sabemos. Desencantai isso. Nem fazeis ideia do que se sente diante dessas relíquias! Lá para o meio da tarde, deixando às senhoras a nobre tarefa de arrumar a louça (é verdade: partiu-se algum prato ou copo de plástico?), os armistas reuniram-se com a Direcção, que queria dizer coisas. Queria dizer-nos da sua regularidade em reunir mensalmente, da sua vontade de contactar com o maior número das muitas centenas de antigos alunos e irmãos (os cinco que apareceram pela primeira vez apoiaram a referência), queria falar-nos do esforço de actualizar o ficheiro e renovar o material de secretaria, informar-nos do pequeno pecúleo financeiro da tesouraria – um a um, todos se confessaram ali – e pedir-nos opiniões. Sobre a data e forma de celebrar para o próximo ano a Reunião Geral da ARM, em consonância

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com o Cinquentenário da Sociedade, o P. Teixeira adiantou que se pensa organizar uma Peregrinação a Fátima, uma Visita aos Lugares Santos, mas ainda sem um esquema definido. A rapaziada do Norte mostrou a sua preferência pelo mês de Maio tradicional nestas Reuniões; seria interessante que coincidisse com alguma festa íntima da Sociedade, de forma que missionários, padres, alunos, irmãos e a ARM se juntassem num convívio familiar. Propôs ainda a Direcção se criasse uma Comissão Instaladora da Delegação da ARM no Norte, que, presidida pelos armistas Alves Pereira e Veiga, contasse com a colaboração dos três Franciscos – Costa Afonso, Costa Andrade e Soares Moreira. Pretendia que servisse não só o Porto, mas também os distritos mais chegados. Atenção Braga, Viana, Vila Real, Bragança, Viseu, Aveiro e Guarda! Marcai presença; o Porto está à escuta. Quem é o primeiro? O P. Castro Afonso despediu-se, para avançar para a Zâmbia; o P. Fernandes abraçou-nos efusivamente – seguia para o Brasil; também para lá ia o P. Julião Valente. Este, porém, dirigiu-nos palavras de incitamento, chegou mesmo a empolgar a rapaziada, quando proclamou, alto e bom som, que todos nós somos a Sociedade Missionária – eles na frente, nós na retaguarda – mas sem distâncias nem barreiras, sem aqueles conceitos tão deprimentes que separavam “os que saíam dos que ficavam”. Ideia esta que vai tomando forma e que nos deixa a convicção de que, dentro da Sociedade, somos uma força positiva e indispensável para congregar e conciliar gerações. Nós vimos e sentimos como os próprios padres aguardam ansiosamente e vivem com entusiasmo as nossas reuniões. No final, e já presentes as senhoras e outros familiares, foram-nos mostrados slides da última reunião de Tomar. Belas imagens! Cantámos com emoção e lágrimas a Salve Regina. Começavam as despedidas. O dia fora inesquecível; não apetecia ir embora. Havia no ar a impressão de que tudo fora bem organizado – perguntem ao Alves Pereira como conseguiu. DUPRÉ dixit
(BN, Dez 1981, p. 28)

(20). REFONTALIZAÇÃO Inspirados pelo Espírito Santo, que nos regenerou, voltamos à Casa-Mãe, guiados pelo nosso Supremo Pastor, que aqui levamos em efígie, no dia do seu aniversário, como lábaro de paz e fraternidade. É sempre reconfortante o regresso às origens. E nós, que fomos temporariamente chamados para dar Cristo ao mundo do nosso trabalho, vamos desta vez em boa companhia. O Espírito Santo – que hoje se celebra – e que nos acompanha; o Sumo Pontífice, que festeja os seus anos e que com o seu Totus Tuus nos estimula e aconselha a confiarmos em Maria, a Rainha do Mundo, a entregarmo-nos nos seus braços como Mãe nossa e nossa Padroeira, Ela que também é a Rainha das Missões. Duas datas queridas e três factos – que empolgam nossos corações e nos enchem de amor e devoção à Causa que esteve na origem desta nossa Casa e que suscitou grandes glórias da Igreja e da Pátria. E nós, humildes na nossa insignificância, mas sabendo que Deus precisa de nós para a realização dos seus desígnios, vamos à FONTE matar saudades, alimentar-nos com o leite materno, fortalecer as nossas almas ao calor do ideal que norteou os heróis de antanho que aqui nasceram para a auréola dos bravos e dos santos. Incitados pelo exemplo de tão insignes varões, como o Beato Nuno e D. António Barroso, e ajudados pela Virgem Santíssima, também nós queremos colaborar no projecto grandioso da Igreja, que é a obra das Missões, para apressamos a vinda do Reino de Cristo. Chamados temporariamente, somos missionários part-time. É este o propósito e significado da nossa vinda aqui, neste memorável dia. Queira a nossa Mãe e Rainha favorecer e santificar os nossos anelos para que Cristo desça em breve a todos os corações e reine no mundo inteiro e haja assim um só rebanho e um só Pastor. VENI, CREATOR ESPIRITUS! Albino Santos
(Bol Ed. Especial, Mai 1986, p. 1)

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(21). DESCOBRIMENTOS E CAMINHOS Estamos na década das celebrações do 5.º Centenário dos Descobrimentos de Portugal e Espanha pelos mares do ocidente e do oriente. É mérito dos portugueses terem contribuído decididamente para alargar os limites do mundo do século XV e abrir caminhos entre os cinco continentes. Cinco séculos mais tarde, é mérito de americanos e russos terem no século XX alargado os limites da Terra para o espaço e aberto os caminhos até à Lua. Há ainda muitas dimensões do mundo dos homens por descobrir, muitos caminhos a abrir e muitos limites a ultrapassar. Um desses limites é o do egocentrismo que gera o egoísmo donde nascem todos os ódios, desentendimentos e confIitos. Como ultrapassá-lo? Descobrindo e desenvolvendo laços de solidariedade que gerem comunhão e participação. A ARM é um grupo de pessoas que passaram anos da adolescência em comum e que nesses anos puderam familiarizar-se com o mundo visto na perspectiva de Deus e do bem que Deus quer para todos. Alguns dos seus colegas, hoje padres ou irmãos leigos, fizeram-se missionários e percorrem este mundo carecido de fraternidade com o projecto divino da salvação. Alimentar com companheiros da adolescência uma visão do mundo com valores divinos, lembrar os colegas que tentam dar corpo a esses valores em continentes longínquos, ou colaborar com eles nesses planos de Deus, pode contribuir para dilatar as dimensões deste mundo e abrir novos caminhos à humanidade tanto ou mais que a escola de Sagres ou a academia da NASA. A ARM faz agora 50 anos. É a maturidade, a idade das realizações. Os colegas que somos missionários estamos prontos a colaborar. Pe. Manuel Castro Afonso
(Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 1)

(22). AGERE SEQUITUR ESSE Espaço de recordações hão-de ser também as páginas do nosso jornal que em bons dias nasceu. E só assim se há-de manter e crescer no serviço a

todos nós para que foi criado. E assim nos manterá unidos e mais irmanados. O título acima escarrapachado quer lembrar-nos hoje a todos nós por um lado as muitas e variadas aulas de latim desde os ilustres professores que tivemos e/ou humildemente fomos aos exercícios mais dificeis ou facilitados por colegas mais felizardos que ajudaram a ultrapassar os “hic opus labor est” ou os “-bus illis”. Bons tempos aqueles em que – crianças ainda imberbes! – aguentávamos com aquelas tarefas que hoje solenes barbados que por aí se passeiam não se “astrevem” a enfrentar. Pois muito bem nos fizeram e fazem. São parte de nós: em parte, somos o que nos fizeram! O agir está de acordo com o ser. Três verbos. Ou melhor: um só – sequitur (depoente) = segue – a unir dois verbos substantivados, o “agir” (acção) e o “ser” (a pessoa, a essência)... Para aqueles que foram mais adiante, até às filosofias, o “agere sequitur esse” fala mesmo de filosofia, da filosofia da vida. Da vida que se desdobra em acções. Que deve manifestar-se. É uma consequência (vem de sequor!). AfinaI, mais simplesmente, temos, precisamos de manifestar o que somos, o que nos fizeram, o que queremos ser, o que professamos. Desta frase tão simples podemos tirar mil lições, muitas consequências. O ditado latino e filosófico não é assim tão incoerente. Tem mesmo filosofia para a vida. Mostrarmos o que somos nas variadas instâncias ou níveis, nos diversos sectores ou campos, nos devidos tempos ou momentos. Sem complexos, sem vergonhas falsas, conscientes do contributo que podemos e devemos e esperam que demos. Há muita, muita riqueza (agere) de muitos armistas (esse) que está a fazer falta “hic et nunc”. É questão de nos lembrarmos que há muitos à espera de muitos que somos muitos mais. Cada novo que volta renova-se e renova. 1994 é ano de celebrações e estas, como sempre, remexendo no passado, incendeiam o presente e alumiam o futuro. Que a luz que vimos e somos não é para meter debaixo da cama. Tem de se manifestar. Dizia o grande Claudel: vós, que vedes, que frzestes à luz? Alguns se lembrarão do que antigamente se cantava, num hino, em Cucujães: “Há

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caminhos não andados que esperam por alguém... Avante! Por Deus avante e pela nossa Sociedade!” Pe. Viriato Matos
(Bol 52 (2.ª Série), Jan/Fev 1994, p. 1)

(23). EDITORIAL Este primeiro ano de Superior Geral tem sido para “descobrir Portugal”, conhecer os membros da Sociedade, as missões e também os armistas. Aos poucos fui tomando pé na ARM. Na reunião de Outubro, passei correndo, porque coincidiu com a minha partida para Angola. Depois fui encontrando o Ponciano e outros aqui em casa, em reuniões, a elaborar o jornal, a fazer prestar serviços a esta casa. E, num Domingo, levaram-me até à casa rústica do Armindo Henriques onde um pequeno grupo se divertiu à vontade e comeu muito bem. Fui descobrir que Lisboa, além de um amontoado de casas e carros, é formada por redes de amigos. E a ARM está tecendo uma dessas redes. Apesar de não ter conta em banco, nestes dias recebi um telefonema dum Banco. Levei mais de um minuto a lembrar quem seria o Dr. Saloio. Vós não conheceis porque não é da ARM, é dos antigos alunos do Fundão e da Guarda. Foi lá que eu fiz quase todo o curso. Era o convite para o jantar deles. Apareceu muita gente que eu não via há 30 ou quase 40 anos. Lembram-se do Seminário mais do que eu. E lembraram uma data que eu nunca iria lembrar: dia 7 de Outubro faz 40 anos que entrei no Seminário, junto com mais 77. Poucos andam perdidos, porque alguém que não é direcção de nada mas cuidadoso em manter amizades velhas, das boas como o vinho, tem os telefones de quase todos e anda à procura dos restantes. Como metade vive em Lisboa ou arredores, vamos começar a encontrar-nos. Para comemorar a data? Para já o importante é reencontrar-se. Talvez lá para o fim do ano vamos ver o que sobrou dos castanheiros da Gardunha. Contei metade desta história ao Ponciano e ele pediu-me para o ajudar a estabelecer um contacto entre a ARM e os antigos alunos do Fundão. Um dia vou descobrir quem é a Direcção deles. Na reunião, a presidência era do Reitor do Seminário que veio a Lisboa para isso. Mas já percebi duas coi-

sas: a mais importante – a rede de amizade; a outra, menos importante, palavra do Reitor, é que metade das despesas do Seminário são pagas pelos antigos alunos. Não estou pedindo dinheiro. Sei que antigos alunos colaboram muito com os missionários que estão lá na frente; e, o mais importante, alguns promovem as redes de amizade e solidariedade, nos encontros regionais. Com Deus no meio, isso é Igreja. Esta conversa mole foi escrita no dia 21 de Abril (feriado no Brasil em honra do Tiradentes que “morreu” pela independência do Brasil) e no dia 25 (democracia em Portugal?) veio o Ponciano pedir-me um editorial para o próximo boletim. Vai essa conversa mole que eu escrevi para ir num canto do jornal e não na primeira página. Sei que entre os antigos alunos da Sociedade existe uma grande diversidade de pessoas e mentalidades. Penso que a ARM pode fazer muito mais do que criar redes de amizades. Essa é a base. O resto fica para outro editorial, até porque não cabe a mim estabelecer objectivos para a ARM. Lisboa, 25 de Abril de 1995 P. Jerónimo Nunes
(Bol 56, Abr/Mai 1995, p. 1)

(24). MAGUSTO, QUE MAGUSTO! Quem houvera de imaginar que o dia 19 de Novembro surgiria triunfal do meio das chuvadas tempestuosas da semana anterior! E, no entanto, foi o que realmente aconteceu, para gáudio dos rapazes do Porto e zonas circunvizinhas. Nunca, em tempo algum, se juntou tanta gente e tantos estreantes numa Reunião Regional da Delegação do Porto. E tudo talvez com a ajuda, com a feliz coincidência de ter sido distribuída dias antes a lista completa de todos os antigos alunos por todos os que nos era possível contactar, por termos em nosso poder a morada de mais de 500! É obra! Sim, senhor! E assim compareceram (apareceram), pela vez primeira, uma data deles, com o espanto de não imaginarem como foi possível dar com eles. Mas entraram na festa com a maior das alegrias, como se estivessem no primeiro dia em que, meninos, entraram no seminário.

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Logo se procedeu a uma pequena Assembleia Regional, presidida pelo Pe. Viriato, com a coadjuvação do Ponciano, presidente da Direcção, e do Costa Andrade, delegado do Porto. Nela se tratou de assuntos correntes a nível nacional, nomeadamente sobre a lista dos antigos alunos, que saiu com algumas deficiências, apesar de muito e extenuante esforço da Direcção, a nível delegacional – contas da Delegação, e a nível da Sociedade – cooperação dos leigos (de nós, os leigos), no campo missionário. Prestou-se uma sentida homenagem ao Dr. Albino Santos, falecido há algumas semanas, na presença da viúva, Dra. Rosa Pires, ela que sempre esteve presente com o marido nas actividades da ARM. E tão sentida foi que o orador, Dr. Nereu Santos, falou com a voz embargada daquele que foi um dos pioneiros e pai da nossa Associação, seu dinamizador de todas as horas e homem católico exemplar. Para marcar a data, a viúva abriu ali mesmo uma bolsa de estudos com o nome do homenageado. A seguir, na santa missa, sufragaram-se as almas dos armistas falecidos ultimamente a começar na do Dr. Albino até aos sacerdotes da SM. No final, o Reitor, Pe. Artur de Matos, convidou-nos para um repasto modesto (na sua opinião), que para nós foi um jantar em comum, à moda antiga, entre padres, seminaristas e armistas. Soubenos como um lauto banquete. Houve ainda um desafio de futebol entre duas equipas nacionais (os do seminário contra os da associação). E que bom futebol! E que grandes revelações! Entre todos sobressaíram os guarda-redes que defenderam tudo menos as bolas que lhes fugiram. O árbitro foi absolutamente “imparcial”, chegando ao ponto de marcar um penalty. Só assim se compreende o empate a 5-5, digno das melhores formações internacionais. Foi pena não podermos contar com os atletas de ambos os lados, que, por se desconhecer a morada, se encontram em parte incerta. Até que se chegou ao ponto culminante: a pruma, as castanhas, a fogueira e – é claro! – a pinga. Era um pandemónio! As mulheres meteram-se no barulho: assando, comendo, bebendo e “explorando” o bom coração dos convivas, sobretudo os da última hora. O coração fica protegido pela car-

teira... Cala-te boca! O tempo estava a desafiar, estava mesmo na conta, peso e medida. A mocidade (dos 20 aos 90) entretinha-se em amena confraternização. Ninguém queria arredar o pé. Há que perguntar ao chefe da malta do Porto como é que conseguiu um magusto tão animado e numeroso. Ao que percebemos a ARM está a entrar na sua época áurea. Qualquer dia não cabemos todos. Ver para crer! Mário Veiga
(Bol 58, Out/Dez 1995, p. 6)

(25). VOLTA À ÁFRICA Em fim de Novembro fui para Moçambique e Angola. Foram 4 meses de viagem a visitar missionários, conviver com o povo e com as Igrejas. Escrevi uma dezena de artigos que mandei para jornais das dioceses de Portugal a tentar sensibilizar os cristãos para a situação daqueles povos. A Boa Nova e a Cruzada estão a publicá-los. Que direi de novo neste pequeno artigo? O que se diz por aqui nos jomais e tv é só meia verdade. África está nos media quando há desastres, guerra, refugiados, fome, corrupção. Tudo é verdade, mas não é toda. Que sabemos das 112 etnias que vivem em Angola a tentar unir-se numa nação com cultura própria e um desenvolvimento que respeite a sua personalidade? Que houve uma guerra... Que sabemos de 50 % de moçambicanos, crianças e adolescentes em busca de um lugar na escola e de comida para a boca? Que l %, ou menos, são marginais e podem assaltar o incauto que passa na rua... Que sabemos dessas Igrejas que se fortaleceram em 20 anos de perseguição marxista e hoje têm que receber milhões de jovens catecúmenos à procura de Cristo e de um sentido para a vida? Que rezam dançando em liturgias coloridas... Esforcei-me por entender essas realidades. Além de ver, li, estudei, perguntei. Não entendi tudo. Entender o essencial da vida de um povo leva anos. Eles gostariam de falar. O que li sobre a TV África que está a ser montada para os PALOPS é que eles temem que seja uma TV portuguesa feita para eles, não deles. Que meios eles têm para se colocarem ao nível dos técnicos daqui? No entanto eles têm uma riqueza humana enorme: a solidarie-

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dade, a hospitalidade, a imaginação, a arte da fala, do canto, do corpo, do espiritual. Dizer que eles podem ser bons corredores e futebolistas é só uma parte da verdade. Há uma riqueza humana diferente que eles podem partilhar, apesar dos seus fracos meios técnicos. As jovens igrejas ainda precisam de missionários, padres, religiosas e leigos. Mas já têm muitas vocações para cada um desses ministérios. Precisam de formação, mas já têm muito a ensinar: dinamismo, ecumenismo, integrar oração e preocupação pelo outro. Precisamos terminar o nosso seminário do Maputo, aumentar o de Angola, renovar o do Brasil. Muitos querem ser missionários. As comunidades querem contribuir para a Missão noutros povos. Em 98 Portugal terá um ano missinário: Ano do Espírito Santo – Ano da Missão. Os institutos que por lá andam querem apresentar de forma mais sistemática a todos os portugueses as vantagens que teriam em abrir-se a outros povos, a riqueza que receberão se se derem mais. Celebrações, campanhas de solidariedade, mais informação nos media, a vinda de alguns representantes dessas Igrejas até aqui, convites a ir até lá. Portugal pode olhar mais para essas Igrejas que ajudou a criar. Vêm aí a Expo, os turistas, o exótico dos países descobertos, as glórias do império. Tudo bem. Vá para fora cá dentro. Descubra outros povos. Redescubra a história. Que a festa e os milhões gastos nos abram horizontes. Para sermos mais humanos. P. Jerónimo Nunes
(Bol 62, Out 1996 / Abr 1997, p. 1)

(26). AS GUERRAS E A PAZ Todos nós somos corresponsáveis pelo que está a acontecer em Timor. Foi um numeroso grupo de padres de Cernache que, no final do século passado, fez aquele povo ser cristão, falar português, escrever o tetum, ter uma cultura diferente do país envolvente e hoje dominante. Eram liderados por D. António Joaquim de Medeiros, Bispo Auxiliar de Macau, formado em Cernache, que viveu e morreu em Timor. D. Medeiros morreu há cem anos, mas a sua obra ficou. O cristianismo inculturou-se, tornou-se parte da maneira de ser timorense. Até

os que não são cristãos respeitam a memória de D. Medeiros, o homem que fez Timor. Talvez a cristandade de Timor seja o fruto maior de Cernache, no século passado. Além da sabedoria e da coragem pessoal de D. Ximenes Belo e do seu irmão de Baucau, é essa cultura de origem cernachense que dá à Igreja a autoridade para ser a voz dos sem voz, uma parte importante na mediação da paz. Mas a cruz do povo timorense está pesada de mais. Eles ainda não tiveram o seu 25 de Abril. E um timorense cristão ou de religião tradicional, ou sem religião nenhuma, não vale menos que um Kosovar muçulmano. As guerras hoje não são religiosas, embora pareçam. São económicas e de alta política. A lndonésia tem dificuldades em ceder porque tem interesses e milhares de ilhas com anseios semelhantes. Resolvendo este problema de acordo com os desejos dos timorenses, abre esperanças a outros semelhantes. Mas a essa ela não vai fugir. O mundo tem que caminhar muito para saber viver na convivência pacífica dos diferentes. E o caminho não vai a direito. Neste fim de século, parece que volta atrás. Viver globalizações universais, respeitando os direitos e as culturas locais... Quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra. Não imagino Habibe, Milosevic, Clinton ou Solana com esse direito. Mas a cultura de violência deles difunde-se perigosamente em muitos ramos da vida e das actividades sociais ou económicas. Mas eu queria também falar das guerras não mediáticas e que desapareceram dos écrans. Ontem recebemos de Angola a notícia de que o governo vai fazer valer a lei do serviço militar aos 21 anos. Até agora, o costume era “cangar” (levar à força) jovens às portas das escolas, às vezes com 13 ou 14 anos. Seguir uma lei, parece um progresso. O problema é que os jovens de 21 anos não vêem nenhum patriotismo em entrar nesta luta fratricida. Os seminários vão mandar para casa os jovens de 21 anos. Os Bispos não conseguiram a sua dispensa do serviço militar. Em Janeiro entrarão para o exército, por dois anos e meio ou mais, os que terminarem a teologia. Significa que não haverá padres nos próximos 3 anos. Mas, se há moralidade e comem todos, também não haverá novos médicos, novos professores, etc. E assim

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se destrói um povo e o seu futuro. Sem falar nos mutilados, refugiados, esquecendo as crianças e as mulheres que pagam o pato bem pago porque já estão habituadas a carregar o maior peso, a cantar e a gingar para serem o esteio da vida. Para quem acredita na ressurreição do crucificado, há a esperança de que Deus é capaz de escrever direito por linhas tortas. Angola, Timor, Kosovo, Sudão, Eritreia, os índios brasileiros (tiveram festa dia 21), os ciganos, as vítimas de Denver... (que mistura eu fiz... não adianta pensar que isto é só problema dos negros!) vão ressuscitar. Estão a completar a paixão de Cristo, para que este mundo de individualismos se salve. Para que nós nos salvemos. Mas bem merecem uma Verónica. Num mundo globalizado, não adianta meter a cabeça na areia. Todos somos corresponsáveis. Quem tiver algum poder de influência para que a vida vença neste mundo de tanta morte, que a exerça hoje. “Eu vim para que todos tenham vida” – Jo. 10, 10. P. Jerónimo Nunes
(Bol 67, Set 1998 / Abr 1999, pp. 1 e 8)

(27). POR TERRAS DE MOÇAMBIQUE Num destes dias tocou o telefone e era a voz do colega Armindo Henriques. Solicitava-me que desse um testemunho da minha visita missionária a Moçambique, que ocorreu todo o mês de Agosto do ano passado. Devo dizer, meus bons amigos, que é com muito agrado que vos dou notícias desta maravilhosa experiência, embora, e por motivos óbvios, tenha que o fazer muito resumidamente. A ideia andava há muito comigo e concretizou-se na altura certa. O amor à causa missionária e a minha vivência vicentina permitiram a preparação física, material e espiritual desta deslocação que afortunadamente foi coincidente com a do Superior Geral, Pe. Jerónimo. O acesso foi por Joanesburgo. Ali, Pe. Gabriel da S. M. esperava-me no aeroporto, conduzindome depois à sua missão de Benoni, paróquia e santuário de Na. Senhora de Fátima. Seus paroquianos são quase todos de origem madeirense. Com eles visitei as redondezas, incluindo um monumental centro comercial. No dia seguinte Pe. Gabriel, a quem devo o melhor acolhimento, levou-me ao

centro de Joanesburgo e aí apanhei o autocarro para Maputo. Até Ressano Garcia, na fronteira, são 400 kilómetros, feitos metade em planície fértil de planalto e a outra metade no prolongado vale do crocodilo, província do Transval. Mal entrei em Moçambique a diferença nas estruturas e qualidade de vida, para pior, era notória. Em Maputo esperava-me Pe. Jerónimo. O Seminário da Matola, cidade satélite de Maputo, foi a minha residência base. Orientado por Pe. Godinho e a colaboração de Pe. Anisberto, este simpático Seminário, concebido e terminado com Pe. João Almendra, prepara algumas jovens vocações, decorrendo aqui também o noviciado de quatro seminaristas de cor: três angolanos e um moçambicano. Com eles e aos 61 anos senti-me de novo seminarista. Participava nos vários actos comunitários procurando dar e receber. Foi maravilhoso ter tido a oportunidade única de assistir ao juramento destes rapazes numa linda cerimónia concelebrada por vários dos nossos missionários. Bem perto do seminário vivem também os Pes. Vicentinos da Congregação da Missão e ainda as Irmãs Filhas da Caridade que colaboraram comigo em duas reuniões alargadas com os Vicentinos da SSVP das oito conferências de Maputo. Oferecilhes a vida em poesia do nosso fundador, o Beato António Frederico Ozanam, da minha autoria. Concretizei ainda um donativo em dinheiro que tinha angariado em Lisboa para ajuda aos pobres visitados por estas conferências. Entretanto houve oportunidade de ver a cidade e conhecer as outras duas casas da SM: a casa regional, no centro, e confiada ao Irmão António Pequito, e a da paróquia de Mavalane, entregue ao Pe. Anastácio. Foi nesta paróquia que me foi dado participar numa eucaristia concelebrada em que seus cânticos, gestos e manifestações de júbilo comoveram-me e deramme a conhecer a alegria e religiosidade de um povo simples mas espiritualmente actuante. Com Pe. Jerónimo e Pe. Simões deslocámo-nos à província de Gaza visitando Xai-Xai e Chibuto. A Sociedade Missionária é a evangelizadora de Chibuto na pessoa dos novos missionários, Pes. José Valente, Firmino e Baltar. Podem imaginar a sensação de rever e estar no terreno da missionação

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com estes nossos velhos amigos! A sua igreja é grande e linda. Sua torre, lateral, orgulha-se da sua altura e do seu carrilhão com 12 sinos. Lá de cima prolonga-se a nossa vista pelo vale do rio Limpopo, que nesta altura se apresenta como um lago. Não pudemos deixar de visitar a campa do Pe. Joaquim Cristóvão, martirizado nesta terra. Dois dias depois voltámos a Maputo e preparámos a nossa deslocação ao Norte. Por ter trabalhado na TAP e dada a minha missão aqui, pedi à LAM facilidades de passagem aérea. Podem imaginar a alegria que senti quando vi confirmada a oferta de um bilhete de ida e volta a Nampula! Com Pe. Jerónimo realizámos esta deslocação tendo à nossa espera no aeroporto de Nampula Pe. Agostinho. Este conduziu-nos à sua missão, bem perto da catedral. Aqui foi-me dado conviver com os nossos Pes. Valdemar Dias, Vieira, Tavares Martins, Agostinho, José Maria e ainda com os Irmãos Edgar e Luís. Escusado será dizer o que foi aquele fim de dia em família, abordando os mais variados temas. No dia seguinte partimos de carro para Pemba, antiga Porto Amélia. Nestas andanças Pe. Valdemar foi o nosso motorista. O planalto de Nampula estende-se a grande distância com a particularidade de apresentar montes de bizarros monolíticos isolados evocando meteoritos caídos do céu. Paragens obrigatórias foram Meconta, Alua, Ocua, Xiúre e finalmente Pemba. Aqui receberam-nos Pe. Paulo e Irmão Godinho. Pe. Albino passava então férias em Portugal. A cidade mostra-se vaidosa com a sua baía, uma das mais lindas do mundo. Nesta missão nota-se entre a juventude uma boa envolvência. Experiência interessante foi a visita a uma paróquia periférica onde todas as casas são palhotas. Apenas a casa paroquial e a igreja são de alvenaria. Esta apresenta as paredes interiores com pinturas “naïf” da vida de Cristo que merecem toda a admiração de Pe. Jerónimo pela quantidade de fotografias tiradas. Dois dias depois deixámos Pemba passando de novo por Xiúre onde Pe. António Gonçalves e seu irmão nos receberam e nos proporcionaram almoço. Foi-nos dada aqui a oportunidade de ir rezar junto à campa do mártir Pe. Rocha. Prosseguimos o nosso caminho com destino à Ilha de Moçambique. Era noite quando batemos à porta da missão e nos recebeu o meu velho professor e figu-

ra carismática, o Pe. António Maria Lopes. Com ele encontravam-se dois sacerdotes a passar férias apostólicas e de cooperação. Nunca poderei esquecer o jantar que a seguir teve lugar num ambiente jubilar de família. Pe. António Maria é para toda a comunidade católica e maometana da ilha um verdadeiro pai espiritual, sendo por isso muito considerado e estimado. Vive numa grande simplicidade e desprendimento e sua casa, permanentemente aberta, acolhe toda a gente. Lembrámos juntos as suas aulas de História em Cernache do Bonjardim. Passámos a noite e a ilha acordou em toda a sua beleza de património da humanidade. Após a missa e o almoço partimos rumo a Angoche. Só que, poucos quilómetros andados, partiu-se a correia de transmissão do carro. Fomos rebocados para a missão comboniana próxima e aí tivemos que permanecer dois dias. Um ex-colega meu da TAP mandou-nos buscar e fomos em Angoche seus hóspedes especiais. Pe. Libério mostrounos esta bela missão onde apenas ficámos uma tarde e uma noite, o suficiente para me enamorar desta exótica cidade. Estávamos de volta a Nampula. Mal cheguei, Pe. Agostinho levou-me ao aeroporto para viajar de regresso a Maputo. Pelas várias casas onde estive fui oferecendo a ajuda que me fora confiada em Portugal para as missões. Lembro ainda os bons momentos com o Irmão António Pequito e Pe. Álvaro Patrício. Na pessoa do Pe. Jerónimo quero agradecer o acolhimento carinhoso que me foi dispensado e que me fez sentir uma pessoa da casa. Agora, amigos, é a vossa vez! Moutinha Rodrigues
(Bol 69, Jan/Mai 2000, pp. 6-7)

(28). DEUS ESCONDIDO Um dia, Deus cansou-se de ser esquecido pelos homens. Resolveu esconder-se para que os homens sentissem saudades e voltassem a procurá-lo. Mas onde esconder-se? Vou esconder-me no alto da montanha. Um dia alguém sobe lá, descobre-me e vai contar a Boa Nova aos outros. Os que estiverem com saudades de mim começarão a subir a montanha.

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Alguém lhe disse: É melhor ir para o fundo do mar. Poucos mergulhadores descem a cem metros de profundidade. Será difícil encontrar-te. Os homons chegarão realmente a sentir saudades tuas, mas um dia alguém te encontra e todos correrão para lá. Outro disse a Deus: Sei dum lugar onde ninguém consegue penetrar: o coração do homem. É lá que deves esconder-te. É aí que Deus continua escondido – disse o missionário que me contou esta lenda oriental. O missionário é alguém que descobriu Deus no seu coração e quer descobri-lo no coração dos outros. Como Deus gosta dos corações aflitos e as aflições são maiores no Sul e no Oriente, é para o sul e o oriente que os missionários gostam de ir. E o Deus escondido anda a fazer muitos milagres por lá: consola os aflitos pelas cheias e pela seca, organiza escolas para deslocados de guerra, planta “lavras” para eles terem o que comer, motiva e dá sentido aos jovens sem emprego, cria comunidades, reinventa uma Igreja viva. Colaborar com ele, é fácil. Há muitas maneiras acessíveis a qualquer um, crente ou não crente. Neste ano 2000, conseguimos aumentar o nosso Seminário de Angola construindo um pavilhão para filosofia. Falta terminar o pagamento ao empreiteiro e comprar os móveis. O nosso Seminário do Brasil ainda demorará a terminar, mas os seminaristas já moram lá dentro e o resto se fará ao ritmo das vocações que esperamos vão crescendo por lá. Temos quatro seminários maiores (Portugal, Angola, Brasil e Moçambique), mas neste ano não ordenaremos nenhum padre novo. Em Outubro e Novembro teremos três novos diáconos que serão padres no próximo ano: dois portugueses e um angolano. Em Portugal, conseguimos terminar o Lar Santa Teresinha, em Cucujães, para missionários e outros pessoas idosas. Escolhemos como padroeira a mais missionária das contemplativas porque é esse o trabalho que os idosos melhor podem fazer, contemplar e, no seu sofrimento, colocar-se nas mãos de Deus. Está em curso a reforma do pavilhão central de Valadares que se destina a cursos, encontros, retiros. Cucujães já tem algumas boas salas de reunião, alguns novos quartos e muito trabalho para ser feito para a reforma que precisas. Para

Cernache foi aprovado o projecto de turismo rural nas casas dos laicos. Amigos da Sociedade resolveram colaborar connosco dando as férias e os fins de semana para tratar da biblioteca. Queremos melhorar as nossas casas, fazer delas centros de espiritualidade missionária, para acolherem todos aqueles que quiserem dar profundidade e novas dimensões à sua vida. P. Jerónimo Nunes.
(Bol 70, Out 2000, p. 3)

(29). NOVO FIGURINO MISSIONÁRIO Todos nós que passámos pelos Seminários das Missões tínhamos uma imagem de missionário que respondia à mentalidade do tempo em que por lá passámos. Missionárias eram pessoas e instituições vocacionadas para tal. Até na apresentação havia algo que caracterizava o missionário: as barbas, a batina branca, o chapéu de coco, uma roda de pretinhos... Era o tempo. Com a nova consciência trazida pelo Concílio de que missionária é toda a Igreja e que todos os fiéis se devem comprometer, pela força da sua fé, no serviço da evangelização, surgiu uma outra forma de conceber o missionário. A par desta formulação doutrinal surgiram apelos concretos dos países de missão a exigirem novas formas de presença e outros tipos de actuação. A evangelização é uma acção plural que tem a ver com todos os aspectos da vida dos povos a quem a Igreja é enviada. A acção pastoral, a promoção humana e social em todos os domínios, a consciência dos direitos humanos, a luta comum pela justiça e pela paz entre os povos são novos desafios que pedem outros interventores. A missão clássica era muito clerical. Embora houvesse muitas obras e estruturas de promoção humana e social, tudo se realizava no âmbito eclesiástico. O mundo moderno tem outras exigências que pedem mais capacidade profissional e um testemunho de vida mais diversificado. Hoje surgem escolas para cursos médios e superiores, hospitais com mais exigências que os antigos postos de saúde, organizações de luta pelos direitos humanos, que exigem outro tipo de resposta. O compromisso missionário da Igreja extensivo a todos os cristãos foi

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uma intuição para dar resposta aos actuais desafios que os novos tempos e as novas situações sociais e políticas dos países de missão hoje nos colocam. Quando há anos tive de orientar algumas assembleias da ARM não me cansei de dizer que não foi por acaso que um dia passastes pelos seminários da Sociedade. Com a vossa saída do seminário não ficou encerrado o processo de compromisso com a Igreja missionária. Muitos de vós tendes uma relação afectiva e atitudes de apoio humano, espiritual e de partilha muito grande para com a Sociedade. Creio, porém, que era necessário que fossem surgindo atitudes mais corajosas e expressivas no vosso grupo. Os novos desafios da missão estão a pedir outro modelo de missionário. Para a Paróquia da Gabela em Angola precisava neste momento de três professores para o PUNIVE (curso pré-universitário). Perante o corpo de professores que temos quase me arrependo de ter iniciado, vai para quatro anos, a sua instalação na Gabela. Estes jovens vão ser os futuros quadros dirigentes deste país. Mas sem uma formação com bases sólidas a nível intelectual, humano e espiritual que dirigentes vamos ter? Precisava ainda, sem falar a nível de saúde, de um mestre de obras para orientar a construção dum centro de acolhimento de crianças e de apoio a idosos, reconstrução da Igreja Paroquial. E se calhar até temos gente já reformada e ainda com muita vitalidade que anda por aí a tirar a vez e oportunidade a jovens formados sem emprego, a inventar passatempos para que o resto da vida não seja tão estúpido, ou empurrar carrinhos de netos que deviam estar aos cuidados dos seus pais. Tudo isso é bom mas talvez houvesse outras formas de valorizar um tempo muito precioso que Deus vos reserva para o Outono da vida. Estou convencido que para a ARM ainda há muitas oportunidades. Se meia dúzia aceitasse o desafio duma experiência missionária de três ou quatro anos em missão, seria uma forma de enriquecer não só o grupo dos que partem mas também a associação na sua globalidade. Seria, estou convencido, uma forma de dar novo impulso e nova vitalidade à própria Sociedade Missionária. As reuniões e assembleias teriam outros objectivos e interesses. Em vez de estarmos toda a vida a contar historietas do passado, algumas até já com sabor a ranço, preocupar-nos-íamos com um presente que

nos interpela para construirmos um futuro diferente e mais feliz para todos. Sei que estais a preparar um congresso extraordinário para a próxima primavera. Se não houver outra matéria para debate podeis reflectir sobre estas questões, se bem que sejam demasiado perigosas porque comprometedoras. Mas às vezes há desafios que talvez valha a pena enfrentar. Pe. Augusto Farias
(Bol 73, Dez 2001, p. 3)

(30). O CONGRESSO DA ARM – PRESENTE E FUTURO O Congresso realizado no pretérito mês de Maio traduziu-se num grande momento de confraternização atingindo os objectivos que a Direcção cessante se tinha proposto: aprofundar a nossa dimensão cristã e missionária; reflectir sobre as nossas raízes e relações com a Sociedade Missionária; definir linhas de rumo para fortalecimento e desenvolvimento da nossa Associação. Esta temática foi magistralmente tratada pelos conferencistas Moutinha Rodrigues e P. António Couto. Fazendo-nos percorrer os primeiros passos das comunidades cristãs da Igreja nascente, o P. Couto manteve a assistência suspensa do seu comentário teológico, profundo e claro, do cap. 16 da carta de S. Paulo aos Romanos. O armista Moutinha Rodrigues, na tarde de sábado, enquadrou a nossa condição de cristãos e antigos alunos da Sociedade na perspectiva das exigências de uma fé adulta e esclarecida e traçou um plano de acção que emana dessa umbilicação intrínseca. Julgo muito proveitoso para os participantes e para todos os que não puderam estar presentes a transcrição desse plano. “A nossa colaboração e envolvência com a Sociedade Missionária em especial pode e deve concretizar-se ainda de muitas e variadas maneiras: 1. Assinar as publicações, especialmente a revista Boa Nova, e tentar angariar novos assinantes. 2. Participar nos sorteios missionários. 3. Exercer voluntariado nas casas de formação.

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4. Tomar parte na peregrinação anual missionária a Fátima ou outras. 5. Criar Bolsas de estudo até à sua conclusão. 6. Concretizar donativos em vida ou doar bens imóveis. 7. Promover, projectar e até gerir uma possível unidade hoteleira que se venha a tornar sustentáculo permanente para a sustentação das tarefas em terra de missão, ainda que para isso a Sociedade Missionária tenha de alienar algum do seu património. 8. Dar um mês, um ou dois anos, na frente da Missão. 9. Criar ambiente na família para o nascimento de uma vocação ou simples oferta pessoal de um filho ou neto dispostos a partirem após o curso de formação. 10. Utilizar e usufruir das condições de acolhimento das instalações da Sociedade Missionária. 11. Para casos de grande contribuição e entrega gratuita à causa missionária, os missionários da Boa Nova poderiam criar um estatuto de equiparação a verdadeiros membros da Instituição.” No painel “A palavra aos Armistas”, muitas destas propostas e sugesões foram dissecadas por muitas intervenções. À guisa de síntese poderíamos afirmar que se evidenciam duas correntes no seio da ARM: uma que defende uma acção direccionada para acompanhar, colaborar e sustentar os projectos pastorais da Sociedade, em recursos humanos e materiais; outra que entende que a ARM se deve limitar a ser um elo de ligação entre todos os membros da Sociedade Missionária num clima de convívio e confraternização. Estas diferentes visões da “vocação” da ARM eram comentadas nos diversos grupos que iam surgindo nos corredores do seminário. O Congresso sentiu como um imperativo a concretização dos seguintes pontos: 1. Ligação mais estreita à Sociedade com a nomeação de um assistente e direito de participação com o estatuto de Observador nas Assembleias da Sociedade Missionária. 2. Ampliar a base da ARM com contactos directos, dinamizar as delegações e repetir o esquema deste Encontro.

3. Participar activamente nos projectos missionários da Sociedade missionária. Junho de 2002 A Direcção cessante, presidida por Serafim Fidalgo
(Bol 75, Jul 2002, p. 3)

(31). LEIGOS BOA NOVA – Um caminho de missão Os Leigos Boa Nova são um movimento missionário que congrega, prepara e envia Leigos para os campos de missão, conscientes de que a evangelização é tarefa de toda a Igreja, e não apenas de alguns especialistas. São um movimento ligado aos Missionários da Boa Nova, quer no seu nascimento quer nas suas actividades. Nasceram em Setembro de 95, num encontro promovido pelo P. Jerónimo Nunes, em Valadares, que respondia assim a solicitações de várias pessoas que estavam dispostas a fazer um trabalho missionário, em colaboração com os nossos missionários nos seus campos de missão. Ao longo destes quase sete anos de vida, o movimento foi-se organizando e solidificando, podendo contar já com algumas acções no terreno. Três pessoas estiveram em Malema, diocese de Nampula. Duas ficaram um ano (Belmira e Isabel) e uma ficou um ano e meio (Emília Machado). A sua acção, coordenada pelo P. José Alexandre, estendia-se a Malema, Mutuáli e Nataleia, nos campos da saúde, educação e pastoral. Um jovem (Casimiro) ficou durante outro ano na cidade de Nampula, partilhando a vida e os trabalhos com a equipa da Catedral (PP. Valdemar, Vieira Mendes, Agostinho e Tavares Martins): catequese, pastoral litúrgica, pastoral juvenil, animação sócio-cultural e comunidades do interior. Um outro jovem, professor (Jorge Carvalhais), está há dois anos e meio no Maranhão, na paróquia de Chapadinha, coordenada pelos PP. Neves, António Tavares e Casimiro, assumindo a coordenação dos grupos de jovens (11 na cidade e 3 na zona rural), a promoção dos direitos humanos, a formação de professores de inglês e prestando valiosa colaboração nas celebrações dominicais. Uma senhora, Rosa Ribeiro, esteve durante seis

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meses no Maranhão, com as Missionárias da Boa Nova, partilhando com elas a vida e o trabalho. Durante um tempo mais curto, dois meses, cerca de uma dezena de outros leigos fizeram uma experiência de missão tanto em Moçambique como no nordeste do Brasil, cheia de proveito para ambas as partes. Em Portugal, procuram animar missionariamente as suas comunidades e comprometem-se com algumas acções em conjunto, como serviços de voluntariado e execução de alguns projectos, nomeadamente no respeitante a direitos humanos (áreas de migrantes e refugiados, idosos e crianças, produtores e povos indígenas) e combate à violência sobre crianças e adolescentes. Para fazer parte deste movimento, as pessoas devem ter uma certa vivência e profundidade de fé, associada a uma capacidade de integração em outros ambientes e culturas, bem como de trabalho em conjunto. É um serviço voluntário e gratuito à missão, desempenhado segundo as competências profissionais ou pastorais de cada um. Sempre que possível, preferimos o envio em equipa. Antes de partir em missão, as pessoas devem estar em contacto com o Movimento (e em formação) durante um ano. Os Leigos Boa Nova estão organizados, actualmente, em quatro grupos, com reuniões mensais, em Cucujães, Porto, Aveiro e Lisboa. De três em três meses, têm encontros nacionais em que todos participam. Nos dias 06 e 07 de Julho, realizou-se, em Fátima, o 28°. A Direcção do movimento está confiada a um membro da Sociedade Missionária e a dois leigos, sendo que cada grupo local tem o seu próprio coordenador. O espírito que anima este movimento é o sentido de missão – ai de mim se não evangelizar – e a corresponsabilidade que todos temos nesta tarefa. Os Armistas também podem e devem fazer missão: alguém quer ser professor de português, durante um ano, no Seminário de Xai-Xai, Moçambique, para os seminaristas do 10.° ano? P. Manuel Bastos
(Bol 75, Jul 2002, p. 8)

(32). JUNTOS NOS CAMINHOS DA MISSÃO São muitos os homens, muitas as mulheres, São muitos os caminhos, as palavras, Muitos são os passos e os povos, Muitos os cansaços. Mas Tu, Senhor, Tu falas E um caminho novo se abre a nossos pés, Uma luz nova em nossos olhos arde, Átrio de luminosidade, Pão De trigo e de liberdade, Claridade que se ateia ao coração. Lume novo, lareira acesa na cidade, És Tu, Senhor, o clarão da tarde, A notícia, a carícia, a ressurreição. Passa outra vez, Senhor, dá-nos a mão, Levanta-nos, Não nos deixes ociosos nas praças, Sentados à beira dos caminhos, Desavindos, A remendar bolsas e redes. Envia-nos, Senhor, e partiremos O pão Juntos nos caminhos da missão. 1. Saúdo muito efusivamente no Senhor todos e cada um dos meus companheiros da SMBN onde quer que se encontrem, de Portugal a Moçambique, Angola, Zâmbia, Brasil e Japão, ao serviço do Evangelho. Envolvo também no mesmo abraço todos os nossos colaboradores e amigos e todos quantos connosco estão unidos na oração. 2. Acabámos de sair da nossa IX Assembleia Geral com o lema “Juntos nos caminhos da missão”. É um lema, mas é também um projecto e bem pode ser um programa. Na minha maneira de ver, “juntos” apresenta-se, não tanto na activa, como obra a empreender, mas sobretudo na passiva, como obra a deixar fazer em nós. Nós como espaço dado a Deus para actuar. Como um passivo divino ou teológico. Verdadeiramente só assim, reunidos por Deus, nos encontraremos juntos, ajuntados, “reunidos” (êtroisménoi: particípio perfeito passivo) como “os onze e os outros que estavam com eles”

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(Lc 24, 33), como puderam constatar os dois de Emaús à sua chegada a Jerusalém. É só desta reunião de “reunidos” que pode brotar a alegria da palavra do Evangelho da Ressurreição e a recitação das coisas acontecidas no caminho e no partir do pão (Lc 24, 34-35). 3. É urgente (tem a urgência do Evangelho) que nos deixemos reunir, que nos encontremos reunidos. Todos. À volta do único Senhor que nos pode reunir, porque está “no meio” de nós. Entenda-se “no meio” de mim, da minha vida, e “no meio” de nós, “no nosso meio”. Se assim for, eu vejo diferente e nós vemos diferente: pela única óptica do amor novo (agápê), da alegria e da doação. Quando sou eu a ocupar o “meio” é por usurpação que o faço, e o meu egocentrismo míope produz em mim atitudes enviuzadas e desconfiadas, dissimuladas e distorcidas, carregadas de preconceitos, que transportam consigo mentira, violência e morte. (..........) 7. Convoco-te, meu irmão e companheiro, para esta imensa tarefa missionária: dar a todo o ser humano a dignidade de filho de Deus, e dar a todos os filhos de Deus a dignidade e a alegria de serem missionários. Anunciar o Evangelho é a nossa maneira de ser, e é a sua maneira de ser. Só assim andaremos verdadeiramente “Juntos nos caminhos da Missão”. 8. Convoco também toda a Família Boa Nova, e, neste contexto, particularmente os nossos companheiros da ARM, a entrarem no itinerário de reflexão e oração, recitação e renovação, que em breve será proposto, e que culminará na celebração dos 75 anos da fundação da Sociedade, que ocorrerá a 3 de Outubro de 2005. P. António Couto
(Bol 76, Out 2002, p. 1)

(33). VAMOS AJUDAR A CONSTRUIR A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA BOA NOVA, EM LUANDA? Aos meus Irmãos Armistas: A Paróquia da Boa Nova, nos arredores de Luanda, foi criada em Outubro de 1995, quando a Sociedade Missionária da Boa Nova completava 25 anos de presença em Angola. É uma paróquia-

missão com cerca de 150 000 habitantes, vindos de todo o território angolano fugidos à guerra, e tem como padroeira Nossa Senhora da Boa Nova, com celebração litúrgica em 31 de Maio. É seu pároco, desde a criação, o Pe. António Valente Pereira, da Sociedade Missionária. Não tem ainda igreja paroquial porque, há sete anos, as prioridades eram avassaladoras e eram outras. A primeira preocupação do pároco e conselho de pastoral paroquial foi organizar as pequenas “comunidades de fé”. São constituídas por vizinhos e reúnem em quintais, em pequenos espaços ou mesmo debaixo de uma árvore, onde se reza diariamente, se ouve e medita a palavra de Deus, se examina a vida da comunidade e seus membros, se procura ser missionário dos mais afastados e se atendem os mais necessitados. Hoje estas comunidades de fé são 60. As mais próximas unem-se em Zonas Pastorais, de modo a ajudarem-se nas questões mais importantes e a partilharem a vida cristã. Cada zona tem o seu conselho presidido por um “visitador”. Os seus responsáveis, coordenadores de movimentos paroquiais e superiores(as) das Casas Religiosas fazem parte do conselho de pastoral paroquial. As zonas pastorais são seis. Outra prioridade foi acudir à doença e à fome. Num Posto de Saúde, ainda não acabado, são atendidos, diariamente, cerca de 130 doentes, e semanalmente cerca de 60 tuberculosos. São todos os dias acolhidas cerca de 60 crianças desnutridas, com idades inferiores a 3 anos. Há também actividades de alfabetização e formação feminina em escolas levantadas para o efeito. E quem presta estes serviços inadiáveis? As Irmãs Teresianas, as Dominicanas de Santa Catarina, as Irmãs Dominicanas do Rosário e as Irmãs Salésias. E também asseguram a catequese, auxiliadas pelos seminaristas da Boa Nova, dos Verbitas e dos Franciscanos. Os sacerdotes são cinco: dois da Boa Nova, um Franciscano, um Salesiano e um do Verbo Divino. Esta imensa Paróquia de Nossa Senhora da Boa Nova, com sete anos de vida, quer, agora, construir a sua igreja matriz para nela celebrar dignamente a Eucaristia. Já foi benzida e lançada a primeira pedra, em 19 de Março de 2001, dia litúrgico de S. José, a cuja protecção o pároco confiou todas as

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obras paroquiais. E é um sonho ter a igreja pronta em 31 de Maio do próximo ano – dia da padroeira, Nossa Senhora da Boa Nova. A Paróquia de São Salvador de Matosinhos, em Portugal, com a qual é geminada, tem colaborado intensamente. Mas o Pe. António Valente Pereira, colega de curso de alguns de nós, conta também connosco e com a nossa generosidade. E a Direcção da ARM também. Envia o teu óbolo generoso e dado com amor para a Direcção, em nome da ARM, ou deposita-o na conta da ARM com o NIB: 003501210000130053098. Deixa lembrar-te que foi nestas terras, onde está implantada a Paróquia de Nossa Senhora da Boa Nova, que, em 3 de Fevereiro de 1982, foi martirizado o missionário Pe. Manuel Armindo de Lima, da Sociedade Missionária. Sejamos dignos do seu sangue. Um abraço do João Gamboa
(Bol 76, Out 2002, p. 6)

(34). UMA ARM VIRADA PARA O FUTURO Este é, no fundo, o lema da nova Direcção da ARM. Não por iniciativa sua, antes por “imposição” do Congresso (Maio 2002). Quem esteve atento foi isso que intuiu e percebeu nas entrelinhas: o Espírito soprou um vento novo e diferente e apontou caminhos com sentido para a frente, para o futuro. Do passado une-nos a circunstância basilar e importante de termos sido alunos dos seminários da Sociedade Missionária (e essa é uma graça que devemos agradecer). No presente une-nos a realidade de sermos membros e parte da sociedade e do mundo; e, como baptizados, sermos filhos de Deus e membros da Igreja. E somos Armistas. Ser Armista não é fundamentalmente uma atitude de saudade nem um ancorar no passado. Ser Armista é estar bem enraizado no presente e deve significar sobretudo um olhar para a frente, generoso e sem medo, um dar alguma coisa de nós, o darmo-nos nós próprios. Porque muito recebemos. Somos bancários e funcionários administrativos, advogados e administradores da justiça, professores, engenheiros, médicos e enfermeiros, empresários e muitas outras coisas... Temos compe-

tências e desempenhos relevantes na sociedade e na Igreja, uma soma de conhecimentos e experiências que são uma riqueza e não se pode perder. Não seremos capazes de apontar para outros campos de acção, comprometermo-nos noutras experiências de dádiva aos outros, aos que mais precisam porque mais frágeis, com menos conhecimentos e mais pobres? Ouvimos e lemos os nossos missionários a contarem as urgências dramáticas das suas comunidades: um mestre de obras para dirigir a construção de infra-estruturas essenciais; professores de Português e outras disciplinas para formarem e educarem seminaristas e outros estudantes que serão futuros dirigentes; técnicos de saúde para a educação e os cuidados sanitários básicos; educadores e animadores sociais e culturais para a educação familiar e dinamização de grupos... Armista que me lês, se estás incomodado é bom sinal. Se não, deixa que esta problemática te inquiete e apaixone. Já aposentado (e casado, que assim são dois), homem maduro ou ainda jovem, não te esqueças de que ninguém é feliz sozinho e é dando que se recebe. Procura conhecer as actividades dos Leigos Boa Nova: talvez encontres aí as pistas que procuras, o modo ou o projecto que encha algum vazio na tua vida. E não esqueças: o amor verdadeiro dá sempre frutos! Junho 2002 João Gamboa
(Bol 77, Dez 2002, p. 1)

(35). CONCLUSÕES (do Encontro Nacional 2003) Reunidos em Fátima, nos dias 17 e 18 de Maio, sob o lema “Caminhar em Missão”, queremos comunicar a todos os armistas a riqueza do convívio que aqui tivemos e as conclusões da nossa reflexão. 1 - Um dia um discípulo foi procurar um Rabi e disse-lhe: “Mestre, acabo de atravessar o Talmud três vezes”. O Rabi perguntou-lhe: “E quantas vezes o Talmud te atravessou?” É preciso deixarmo-nos atravessar pelo Evangelho. O Evangelho faz a diferença e pode levarnos a fazer a diferença no mundo de hoje.

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2 - Ouvindo o testemunho dos missionários, dos padres e leigos, dos idosos e jovens, dos homens e mulheres a trabalhar fora ou dentro de Portugal, sentimos a força do Evangelho actuante na vida dos evangelizadores, que mais aprendem do que ensinam, mais recebem do que dão. 3 - É preciso voltarmos ao Vaticano II quando fala do Povo de Deus: “Todos os que têm fé são chamados a dedicar-se de corpo e a tempo inteiro ao Evangelho. Mas é preciso evitar o perigo de reduzir o cristianismo a meras acções humanitárias. São os horizontes da filiação divina que devem ser revelados”. 4 - Não basta evangelizar os outros. É preciso constituí-los em evangelizadores. Não basta gritar a Boa Nova. É preciso parar para saborear e narrála de pais para filhos e de amigo para amigo. É preciso serenidade para recitar o que Deus faz. 5 - O grito dos pobres e dos missionários que com eles convivem são apelos de Deus. Além da partilha financeira está aberto para todos o caminho da experiência evangelizadora, curta ou longa. Ser armista, homem ou mulher, é ser presença amiga na sociedade com espírito missionário. Não assinado
(Bol 79, Jul 2003, p. 7)

o nosso mundo utilitarista precisa de contemplativos, crianças encantadas pelos mistérios de Cristo. E propõe um caminho acessível a todos, o Rosário, aquela oração repetitiva, que tanto nos faz dormir como nos acalma para concentrarmos o espírito e mergulharmos no invisível. Mas não é aconselhável sair do mundo como fez o monge. O santo que o nosso mundo precisa é o contemplativo na libertação: vê Cristo também nos rostos feios dos sofredores e vai ao seu encontro (Madre Teresa ensinou-nos a ver dois tipos de sofredores: os doentes ou excluídos do progresso e os carentes de uma gota de Evangelho). Quem se entendeu com J. C. anda sempre nas fronteiras, em busca da outra margem. Como farei deste mês um Outubro Missionário? 2. Ressonância para os 75 anos da SMBN: “Proponho e proclamo que façamos deste ano também, em todas as nossas Regiões e Centros Missionários, um ano marcadamente vocacional, de intensa oração, comunicação e partilha do lume que nos anima. Porque “És Tu, Senhor, o clarão da tarde, A notícia, a carícia, a ressurreição. Passa outra vez, Senhor, dá-nos a mão, Levanta-nos, Não nos deixes ociosos nas praças, Sentados à beira dos caminhos, Sonolentos, desavindos, A remendar bolsas e redes. Envia-nos, Senhor, e partiremos O pão Juntos nos caminhos da missão.”
(P. António Couto, Superior Geral da SMBN).

(36). ARM COM CASTANHAS Todos conhecem a história do monge que foi rezar para a floresta do mosteiro e cantava o salmo: “um dia em vossa casa vale por mais de mil”. E esta frase levou-o a tão alta contemplação que ficou absorvido em Deus. Quando acordou, encontrou a grande surpresa: já não conhecia a floresta nem o mosteiro e nenhum monge o reconhecia. Mas foi bem recebido na casa dos hóspedes e o bibliotecário curioso foi consultar a lista dos antigos monges e encontrou um nome esquisito igualzinho ao do seu hóspede: era um dos fundadores do mosteiro, mil anos antes. E o hóspede tornou-se mais um monge a aprender a esquisita vida do novo tempo e a fermentá-Ia com o ardor das origens. Esta história pode ter muitas ressonâncias: 1. Uma ressonância para Outubro: O Papa diz na mensagem para o Dia das Missões, 19, que

A ARM também pode entrar na onda do espírito apostólico e do ano vocacional? Como? 3. Ressonância para as castanhas: De vez em quando os curiosos bibliotecários da ARM folheiam as listas dos antigos moradores dos conventos de Tomar, Cucujães, Cernache e Valadares (convento?), à procura dos que desapareceram na floresta. E esperam a sua volta, para um magusto e

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uma oração pelos que já partiram. Se encontrares algum, acorda-o do êxtase, chama-o para a realidade transitória mas urgente da contemplação na libertação. A ARM é um caminho de encontro. Quem pode chamar mais um dos tantos dispersos? Jerónimo Nunes
(Bol 80, Out 2003, p. 1)

(37). ECOS DE TOMAR Por aqui, o peso da História e a riqueza do Património, reconhecidamente de categoria mundial, pressentem-se no horizonte. E estimulam. E atraem. Afirmar isto secamente e sem mais justificativos, pode parecer fantasia ou diletantismo, propaganda turística. Não, não nasci em Tomar, não vivo em Tomar. Mas gosto de Tomar, e penso que neste mesmo sentimento se irmanarão muitos armistas, talvez a esmagadora maioria de nós, que pelos 1011-12 anos ali ensaiámos os primeiros passos, no velhinho Convento de Cristo. Aquelas ambiências tinham qualquer coisa de magia... Terá sido, porventura, um pouco por tudo isto, e apesar de nunca termos antes falado do assunto, que à actual Direcção da ARM pareceu vantajosa a emergência por estas bandas de um agregado ou núcleo regional da Associação, uma Delegação. E por uma espécie de selecção natural, toda a lógica apontava para que fosse Tomar a encabeçá-la. Tudo bem até aqui. O pior era haver pessoas disponíveis. Ora, aceitando o repto, sem alardes nem ambições, parece que não foi difícil o aparecimento de um pequeno grupo de “carolas” dispostos a meter mãos à obra, apesar dos sacrifícios que estas carolices – já se sabe – sempre implicam. Parabéns, pois, Manuel Lopes Tereso e António Silva Pereira. O primeiro Encontro cá se fez, de acordo com o previsto e conforme oportunamente divulgado. Foi no passado dia 8 de Novembro: concentração junto à igreja de S. João, primeiras trocas de impressões, um breve peregrinar em ameno rosário de elucubrações desde a praça do Município até às traseiras da Corredoura, e... almoço-convívio ali junto ao Nabão, quase defronte da grande Roda dita mourisca. O repasto, de enguias e cabrito, bem re-

gado com um tinto da região, esteve à altura do acontecimento. E, é claro, “Hoc opus, hic labor est”; ou seja, em tradução espontânea, “o copo puxou o trabalho” (!). No final sentia-se no grupo a satisfação por ter acontecido “armismo”. Mas pairava também a dúvida se o dia teria sido a melhor escolha, porque apareceram poucos e o desejo da organização era reunir o máximo possível dos constantes da lista. Alguém lembrou então que tal fenómeno é hoje muito vulgar, que até é das Escrituras – “Multi sunt vocati, pauci vero...” – e que por isso lhe chamam Vulgata. (A “coltura” que ficou do seminário!...). Em todo o caso queremos sublinhar o grato prazer que foi podermos contar com a presença do nosso presidente, Dr. João Gamboa, de três padres, entre eles o nosso antigo Superior-Geral P. Jerónimo, e de diversos outros associados, figuras ilustres da região. Enfim, como também se costuma dizer, foram poucos, mas bons! E, assim, a Delegação da ARM da zona de Tomar cumpriu esta sua primeira tarefa, com espírito de “missão”. Sem dúvida que poderia ter sido melhor, com a presença de mais associados. Se todos quiserem, poderemos vir a ser uma forte Delegação. Basta “querer”, que o “poder” logo aparece. Por isso, armista desta região, para a próxima não falte, podendo desde já Tomar nota do nosso lema: ARMar em Tomar vale a pena!... J. Candeias da Silva (Abrantes)
(Bol 81, Dez 2003, p. 5)

(38). AQUELE ABRAÇO! Aquele abraço trocado entre o P. Manuel Fernandes e o presidente da Direcção da ARM, na visita à gruta de Nossa Senhora, no Seminário de Cernache do Bonjardim, no nosso Encontro Nacional, em 15 e 16 de Maio último, tem muito que se lhe diga! Tanto, tanto..., que ainda hoje me sinto perplexo diante do seu profundo simbolismo. Não foi um abraço de circunstância, um abraço qualquer, formalmente protocolar e exigido pelo momento. Foi um abraço de profunda amizade cristã, um abraço de clara exigência missionária. De um lado, o velho e dedicado missionário dias antes

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chegado de Angola, Superior-Geral da Sociedade Missionária nos anos 60, que nessa qualidade muito acarinhou a ARM nos seus primeiros anos de vida. Do outro, o actual presidente da Direcção da ARM, ali representando todos os armistas/antigos alunos. No seu abraço demorado e cheio de ternura, ele quis enlaçar todos os ex-alunos da Sociedade Missionária, nomeadamente os cerca de 570 que recebem o Boletim, e de modo especial os 90 ali presentes. Eu senti que ele quis dizer-nos: – Sede fiéis à vossa vocação cristã! Sede missionários à vossa maneira – na vossa vida diária e no seio da ARM. Aquele abraço longo e carregado de significado interpela-nos a todos e convida-nos à solidariedade e ao compromisso missionários. Sintamo-nos todos chamados pelo nosso próprio nome – José Campinho, Gabriel Carvalho, Duarte Nuno e Serafim Rosário, José Manuel Fernandes e Albino João, António Bernardo, Eduardo Martins e Baltazar Mendes, Gil Inácio, Francisco Mota, Armindo Henriques, António Silva Pereira e Manuel Tereso, Francisco da Costa Andrade, João Gamboa e João Pedro Martins... – e responda cada um com alegria e generosidade. Que fazer não falta. É o testemunho acerca da nossa passagem pelo seminário para o livro que está a ser preparado para os 75 anos da SMBN. É o pedido de solidariedade que, através desta edição do Boletim, nos chega da parte dos Leigos Boa Nova para aquisição do CD “Encontro”. É a participação nos encontros regionais de Outubro e Novembro. É a exposição de trabalhos dos armistas que queremos organizar em Cucujães, em Maio do próximo ano, aquando do Encontro Nacional. É a quotização anual e a oferta de dádivas para os projectos dos nossos missionários... É sobretudo o amor com que vivemos e nos abrimos a esta solidariedade. Aquele abraço afectuoso, que nenhuma câmara fotográfica registou para o nosso Boletim, não o deixemos em suspenso – acolhamo-lo no nosso abraço e guardemo-lo no coração, para que dê frutos de bem e solidariedade. Porque é preciso e queremos “viver em missão”. João Gamboa
(Bol 84, Out 2004, p. 1)

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3. ESPIRITUALIDADE E COMPROMISSO

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(39). “PENEIRAS” Todo o homem é por natureza vaidoso: gosta de dar nas vistas, de se impor, de mandar. E essa vaidade, quando bem entendida, pode ser uma afirmação de personalidade, um estímulo e condição de progresso. Mas quando falta uma verdadeira hierarquia de valores e se esquece a metafísica cristã, o homem torna-se egoísta, desdenhoso, petulante ou, como em gíria se diz, peneirento. Centrando todo o Universo em si ou à sua volta, nada respeita, tudo discute, tudo critica, tudo despreza, a não ser o próprio eu. Só ele sabe, só ele tem a solução de todos os problemas. Tanto em religião como em política, nas ciências como nas artes, na família como na sociedade. Não reconhece autoridade alguma, nem dos homens, nem de Deus. Ele é o senhor absoluto. Em família despreza os pais, que são velhos e antiquados. Na sociedade olha com sobranceria e desdém o próximo que não subiu tanto na escala social, ou com ódio e inveja aque1es que conseguiram uma posição superior. Em política é um desadaptado ou revoltado, porque os governantes não lhe dão ouvidos, não aproveitam os seus préstimos, a sua rara inteligência, e por isso a coisa pública vai tão mal, o bem público não se alcança. Se fosse ele quem mandasse… De arte, mesmo quando nada entende, fala abundantemente e, abrindo a boca de espanto, finge extasiar-se diante de qualquer obra por mais abstrusa que seja. E se for abstrusa e estrangeira, melhor. Porque para estes indivíduos, o que é estrangeiro tam mais valor. Quanto a ciências, não regateia a sua admiração perante as descobertas sobre o cosmos ou sobre os átomos, faz panegíricos aos astronautas, tece encómios ao mago transplantador do coração e é capaz de gritar triunfantemente que Deus já não é necessário e que, portanto, Deus não existe! Pobre peneirento! Mais ignorante que uma criancinha da catequese, não vê que para além da Lua, do próprio sistema solar e até da Via-Láctea, a milhares de anos-luz, há outras galáxias, miríades de mundos que o homem jamais poderá atingir. E do átomo ou da vida, que conhece o próprio sábio? Muito pouco ou mesmo nada. Que a Ciência, à medida que avança, mais problemas, mais mistéri-

os encontra para resolver. Peneiras! De religião o peneirento também sabe tudo. Perante a renovação da Igreja que procura actualizar-se, adaptar às novas estruturas sociais a sua maneira de estar no mundo, ou encolhe superiormente os ombros, sentenciando displicente que tudo isso é política, ou então declara peremptoriamente que o Concílio Vaticano II não completou as reformas que devia por causa dos conservadores ou dos progressistas ou ainda que as suas decisões estão a ser mal interpretadas e mal cumpridas, porque só ele é que sabe como a coisa devia ser feita. E a gente pasma diante de tanta petulância, diante de tantas peneiras. Pois que é o homem em re1ação ao Universo? – Um átomo. Em relação a Deus? – Um zero. Em relação mesmo a outro homem? – Um algarismo apenas, semelhante a outro algarismo cujo valor depende em regra do lugar em que se encontra. Porque se ele reflectisse um pouco e abrisse os olhos à Fé, facilmente verificaria que todo o ser humano é filho de Deus seja de cor ou raça que for. É portanto seu irmão e, sob muitos aspectos, seu igual. E nós, cristãos, somos todos ainda irmãos em Cristo. Porque não nos tratamos como tais ajudando-nos quanto possível? Deixemo-nos de peneiras! A A.R.M nasceu e oxalá que, também, para acabar com as peneiras entre nós, armistas, fazendo-nos uma autêntica irmandade em que concretamente todos se dêem as mãos em verdadeiro espírito cristão. Só assim ela tem razão de ser. Para continuarmos separados em compartimentos estanques, fechados, cada um no seu egoísmo, não valia a pena ela existir. Mas graças a Deus entre nós há fraternidade e amor. Haverá?… Albino Santos
(Bol 19, Fev 1968, p. 3)

(40). OS MEUS DOIS CRISTOS Tenho no meu escritório dois crucifixos. Um de marfim, muito perfeito e sereno, de braços abertos em jeito de querer abraçar o mundo. Outro de ferro tosco, de feições horrendas e mutiladas, contorcido num rictus de agonia. O primeiro todos o contemplam e admiram. Do segundo, se alguém repara, desvia logo o olhar. Todavia, não sei por quê, é este o da minha predilecção. Não sabia. Agora

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compreendo-o, depois de ouvir a charla do P. CUE “Mi Cristo roto”. De facto, quase todos nós preferimos um Cristo bonitinho, domingueiro, que nos desperte uma devoção mais ou menos piegas, conforme com os nossos gostos. E nem reparamos na cruz. Mas afastamos o olhar de um Cristo sofredor e horrendo que choca os nossos sentimentos estéticos. E assim é também na vida. Não nos custa ver a imagem de Cristo no nosso irmão que pensa como nós, ou naquela pessoa piedosa e boa que consideramos melhor que nós. Mas horroriza-nos como uma blasfémia, causa-nos uma repugnância invencível o considerar imagens de Cristo os pobres e os mutilados e os enfermos, o ladrão e o assassino, o criminoso e o devasso, o que nos apunhala pelas costas, o bêbedo e a prostituta. E contudo Ele está lá, em cada um desses infelizes. Na Sua via-dolorosa, caído e esmagado sob o peso da Cruz, Cristo carrega com todos os pecados do mundo, é a imagem, infinitamente ampliada, de todos os que sofrem, de todos os desventurados, de todos os pecadores. O Seu rosto maltratado, desfigurado, irreconhecível representa todos os rostos, todos aqueles que o pecado desfigurou. A Sua angústia prefigura todas as angústias, a Sua Cruz, todas as cruzes, a Sua agonia, todas as agonias, a Sua morte, todas as mortes. Cristo e a Sua Cruz!… Dois termos que se confundem. Nem se compreende um sem o outro. Cristo sem cruz é uma mentira. A cruz sem Cristo, uma maldição. Ó Cristo morto e desfigurado pelos pecados de todos os homens! Ensina-me a ver em cada um deles a Tua imagem bendita. Dá-me coragem para amar mesmo os maiores pecadores, os maiores e mais repelentes desgraçados. Não deixes que o meu orgulho me faça voltar a cara a nenhum desses infelizes, a nenhum dos meus semelhantes. Mas que eu os ame como Tu os amas, a ponto de dares a vida por eles. Que eu Te veja sempre presente em cada um dos meus irmãos – ricos ou pobres, sãos ou doentes, santos ou pecadores. Todos na vida temos a nossa cruz. Mais pesada ou mais leve, todos temos a nossa. Senhor! Faze que eu não olhe para Ti sem contemplar também a Tua Cruz. E que não repare na cruz sem atentar também em Ti. Porque só Conti-

go a cruz se torna uma bênção. Só meditando-Te na Cruz seremos capazes de amar todos os homens. Prende-nos à Cruz Contigo, Senhor! Albino Santos
(Bol 22, Nov 1968, p. 5)

(41). CRISTO - Criança Passou mais um aniversário, o octogésimo sétimo, o Hospital de Maria Pia, mais conhecido por Hospital das Crianças do Porto. Obra de amor, de solidariedade humana, é todo ele um Hino de Fraternidade cristã, de amor a Deus e ao próximo. A esta Casa devem a recuperação e vida muitos e muitos milhares de pessoas das quais muitas ocupam lugares de relevo social. Nela foram reabilitados para a Sociedade muitos dos seus melhores valores de hoje. Esta gigantesca obra vem sendo possível graças à compreensão e generosidade dos seus fundadores cujo pensamento e caridade têm sido perenizados por uma minguada plêiade de almas grandes substancialmente, ainda que insuficientemente, ajudadas por dotações orçamentais do Estado e pela benemérita Fundação Calouste Gulbenkian. Todavia o muito recebido e feito são o começo do muitíssimo que resta por fazer. Urge um novo pavilhão. Os nossos filhos, os nossos netos, poderão ter necessidade de, em breve, o encontrarem concluído. Num mundo dementado em que, com frequência, se inverte a ordem dos valores, não nos deixemos inverter. Estulta a Sociedade que doentiamente se preocupa com construções de cemitérios, hotéis e hospitais para cachorros de estimação ou vadios, afrontando com criminosa indiferença o Cristo-criança, calcorreando o Calvário dos nossos caminhos vergado ao peso de doenças e dores, à míngua de tudo, nos tugúrios de multiformes Barredos – do Minho ao Algarve dissiminados. Sejamos íntegros, normais, equilibrados. Dar às crianças os ossos que sobejam dos cães é pecar contra Deus e contra o próximo. É inverter a ordem natural e divina. No Porto, um senhor ofereceu uma propriedade no valor de sete mil contos onde outros preten-

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dem gastar muitos outros milhares na construção de hotéis para cachorros. Se conheces os doadores leva-os contigo ao Hospital Maria Pia e, enquanto é tempo, façamos reconsiderar. O Hospital precisa urgentemente de um novo pavilhão. Os filhos, os netos dos doadores e os nossos poderão ser os primeiros a carecer de internamento no desejado pavilhão. De resto, basta de loucuras; estimemos os animais mas não ultrajemos o nosso semelhante. Primeiro as crianças e só depois, o que lhes sobeje para os irracionais. Foi delas e não deles que o Senhor disse: “O que lhes fizerdes, a Mim o fareis”. José Pacheco
(Bol 24, Abr 1969, p. 1)

(42). DEITEMOS A PEDRA FORA A Fé tem, evidentemente, uma função crítica em relação ao mundo. E é um facto que o Evangelho julga o mundo pela simples razão de o penetrar com a sua luz. Portanto, serve de critério para discernir o bem do mal, a verdade do erro. E é por isso que aqueles cujas obras são perversas fogem dessa luz (do Evangelho) para não serem julgadas por ela (Jo. III, 20). Mas o cristão individual não pode julgar. É esta uma das verdades mais características da doutrina evangélica. “Não julgueis para não serdes julgados; porque, com o próprio juízo com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que medirdes sereis medidos” (Mat. VII, 1). O homem do direito e duma certa “moral” julga e até condena; o homem do Evangelho não o pode fazer. E não se trata apenas dum preceito de misericórdia ou duma atitude de compreensão. É um mandamento baseado numa realidade ontológica ou absolutamente fundamental. Só tem o direito de julgar quem conhece exaustivamente o passado, o presente e o futuro do “réu”. Ora, apenas Deus está nesse caso. Só Ele sonda o “coração e os rins”, o consciente, o inconsciente e todas as possibilidades de cada um. Há um passo do Evangelho que parece dar ao inocente um certo direito de julgar.Releia-se o episódio da mulher adúltera (Jo. VIII, 1-11). “Aquele

de vós que não tem pecado atire a primeira pedra”! A verdade é que ninguém até hoje foi capaz de se reconhecer inocente, fora Aquele que pôde perguntar: “Quem de vós me acusará de pecado?”. Ora os cristãos de hoje não nos limitamos a julgar, mas condenamos, e, munidos de sacos cheios de pedras – incómodos e anti-evangélicos! –, apedrejamo-nos mutuamente. Progressistas contra integristas e viceversa; partidários do latim e do gregoriano contra a música “pop” e vice-versa; partidários da secularização contra os partidários da sociedade sacral e viceversa; padres “actualizados” contra os “velhos” e viceversa; direita contra a esquerda e vice-versa. Etc. A série podia continuar. Somos uma corja de fariseus! No episódio evangélico referido, os fariseus queriam apedrejar a adúltera e não vice-versa. Hoje talvez fosse diferente. A adúltera tentaria também, e com igual direito, colocar a sua pedrada. Cristo, “que não veio para julgar” e muito menos para condenar, continua a não suportar este espectáculo ignominioso. Desvia, pacientemente, os olhos e faz que escreve no chão, na esperança de que os fariseus de hoje deixemos cair as pedras ou desapareçamos do tribunal. Mas, pelo que se vê, terá muito que esperar. A obsessão de julgar e de condenar os irmãos é um veneno para a Igreja em geral e para qualquer grupo de cristãos em particular, como é a Sociedade Missionária ou a ARM. O nosso ofício não é julgar nem condenar, mas ajudar e salvar. Em vez de andar a caçar hereges, bruxas e fascistas ou comunistas, quem obedece a Cristo procura primeiro o Reino de Deus e encontra, consequentemente, um amor forte e puro para ajudar todos os irmãos e para assim realizar uma obra de justiça sob o impulso da caridade Deitemos a pedra fora! Pe. Alfredo Alves
(Bol 32, Ago/Set 1970, pp. 1-2)

(43). QUEM SOMOS NÓS? Nesta época de desorientação que vai pelo mundo e até em certos sectores da Igreja, a pergunta parece-nos pertinente. Quem somos? Somos um grupo de pessoas que um dia ouviram o apelo do Senhor para entrarem

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nos seminários das Missões, mas depois Deus orientou para outros caminhos. Na casa do Pai há muitas moradas (Jo. 14, 2) e também lá temos a nossa. Deus escolheu-nos para sermos no mundo profano os pregoeiros da Sua palavra, testemunhas da Sua presença, exemplos da Sua verdadeira face. Escolheu-nos para sermos meIhores. Não pregadores de um Deus terrrível e vingador da ordem moral, nem tão-pouco de um Deus bonacheirão, um Deus avôzinho e bom rapaz, sempre pronto a acudir-nos nas nossas aflições e a desculpar-nos as nossas faltas. Não de um Deus defensor da ordem estabelecida, dos poderosos e dos ricos. São estas imagens falsas e caricaturais de Deus que não pouco têm contribuído para fazer alastrar o ateísmo à nossa volta. Somos cristãos adultos, conscientes, responsáveis, que queremos, na nossa pequenez, dar ao mundo autêntica imagem de Cristo, vivo, presente e actuante em nós e neste mundo que Ele criou e constantemente recria para nós, e onde quer que nós vivamos. Queremos dar com as nossas vidas testemunho de Deus verdadeiro, todo Amor e Misericórdia, que ama a todos infinitamente, mas tem especial predilecção pelos pobres e pelos pecadores. Também é a estes que nós mais queremos amar, procurando ajudar a uns e compreender e desculpar os outros, com a mesma ternura de Jesus, sem farisaicamente nos escandalizarmos com os que pecam e com os que não crêem. Que podemos nós avaliar do bom e do mau que há nos corações de cada um? Todo o homem tem em si algo de positivo que é já um valor cristão a contar para a eternidade. Somos uma família que se ama e entreajuda. Mas não somos um clã fechado. Queremos alargar o nosso coração à dimensão do mundo e amar todos os nossos irmãos, filhos de Deus como nós e como nós resgatados pelo mesmo sangue de Cristo Salvador. Mas não queremos ficar por aqui. Queremos trabalhar com os que se esforçam pela sua promoção social, ajudar os que precisam. Queremos levar a todos a verdadeira imagem do nosso Deus de amor, para ajudarmos a construir um mundo melhor e mais cristão. Queremos amar a Cristo nos nossos irmãos. E

quando tivermos feito tudo quanto em nós caiba por amor de Deus e dos homens, ainda seremos servos inúteis (Lc. 17, 10). Queremos estar em dia com a Igreja missionária e dos pobres e que a nossa sociabilidade seja oblativa, em disponibilidade e doação, principalmente aos fracos e humildes, a preparar o Advento do Senhor. Albino Santos
(Bol 33, Out/Nov/Dez 1970, p. 1)

(44). MARIA IMACULADA Colocado desde o berço pelo seu primeiro rei no regaço da Santíssima Virgem, Portugal logo se habituou, ainda tamanino, a honrá-La e venerá-La, com fervorosa devoção. Atestam-no as catedrais e igrejas, as ermidas e santuários que por toda a terra portuguesa se erigiram em Seu louvor. Os próprios reis davam o exemplo. Até que o racionalismo, infiltrando-se também entre nós, fez arrefecer esta tradição nacional de séculos, à qual o povo simples, contudo, guiado pelos seus dedicados e conscienciosos pastores, se tem mantido fiel. E com razão. A Virgem Maria tem-nos protegido sempre. Por isso se confundem e irmanam os inimigos de Nossa Senhora com os inimigos da Pátria. Predestinada para ser a Mãe do Verbo incarnado, Maria tinha de ser, em santidade pura, a mais perfeita criatura saída das mãos de Deus. Atrever-me-ia até a dizer que o Criador, ao exorná-la de predicados tão excepcionais, para A associar à obra redentora de Seu Divino Filho, quase esgotou a Sua Omnipotência. Por Ela Deus se fez carne. Pela Sua maternidade divina era, de facto, necessário que Ela fosse superior aos próprios anjos, perfeitíssima e imaculada na Sua conceição, na Sua virgindade, na Sua vida toda, em comunhão íntima com Deus. E a Igreja assim o tem entendido. Por tradição e definição ex-professo, Maria Santíssima é, pois, ao lado de Cristo, o centro da nossa fé, da nossa oração e da nossa esperança no ensino milenário da Igreja. É na devoção filial a Maria que se realiza o nosso encontro com Cristo. A nossa fidelidade à Virgem Santíssima preserva e aviva a nossa fé no mistério insondável da Incarnação e Redenção. Ela é o caminho mais fácil para chegarmos ao Filho. A Sua missão maternal

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continua no seio da Igreja, presente no Corpo Místico e o Seu nome anda associado com o de Cristo até na celebração eucarística. E como não há-de o Filho acompanhar-se da própria Mãe? Certo que há um só Mediador. Mas a intervenção de Maria, longe de diminuir o papel único de Cristo, ajuda-nos a compreendê-lo melhor e salvaguarda a nossa fé na virtude redentora do sacrifício que ao Pai oferece o Verbo de Deus feito carne – como ensina o Cardeal Garrone. Por isso a Igreja, ao arrepio de certas correntes erróneas e de certas pregações blasfemas, continua a recomendar o culto à Virgem e a devoção do terço, mesmo nestes tempos de indiferença e de comodismo. É que a procura de Cristo através de Maria corresponde radicalmente às exigências da nossa fé e às necessidades profundas das nossas almas de crentes. Nossa Mãe e Medianeira, Ela é para nós, depois de Cristo, a maior dádiva do Amor divino. Albino Santos
(Bol 38, Nov/Dez 1971, pp. 1 e 3)

(45). DEO GRATIAS Mão amiga passou-me o Boletim de Novembro-Dezembro de 1971; doutro modo não me chegaria às mãos. Tenho a impressão que andamos às escondidas: ou o carteiro não atina com o endereço que oportunamente enviei à Direcção, ou o jornal foge de mim como o Diabo da cruz. E é pena, porque considerámo-lo o mais fácil e talvez o único meio de nos encontrarmos todos e de respirarmos um pouquinho do ambiente sadio do nosso inesquecível seminário. Tenho notado, no entanto, que esse encontro e essa conversa se limitam quase exclusivamente aos habituais articulistas ou às informações dos Directores. Nos meus tempos, havia o “silêncio rigoroso”, durante o qual não era permitida qualquer palavra, nem sequer ao prefeito. Pois nós, os vulgares armistas de Lineu, há quanto tempo estamos em silêncio rigoroso! Toquem lá essa sineta e haja um prefeito que diga, alto e bom som, o célebre Deo gratias!, para desabafarmos tanta coisa que, em tão longos anos, temos armazenado.

Dos encontros fortuitos com armistas e mesmo com outros ex-seminaristas e das impressões trocadas, chego à conclusão que o primeiro assunto e o que mais seriamente nos preocupa é o descalabro dogmático e moral de certos elementos responsáveis dentro da Igreja. Não podemos passar sem comentarmos esse problema. Nós vemos e ouvimos cada disparate que nem parece de quem leu e estudou o Evangelho. Com estes ouvidos que a terra há-de comer, já eu próprio ouvi numa homilia uma frase que, pela imprudência e arrojo, vale uma heresia: “A Igreja antigamente dizia…, mas agora não é assim”. Outra afirmação feita no tribunal da penitência – Santo Deus! em tal lugar! – é do teor seguinte: “A natureza humana modificou-se muito… por isso devemos atender que essas atitudes não têm a gravidade…”. Chamem-lhe progressismo, falem em diálogo, façam contestação, que eu, por mim, só vejo um nome capaz de os classificar: materialismo. Querendo actualizar a Igreja, falam já em coexistência pacífica entre Deus e ateísmo; o complexo moral foi ultrapassado por essa nova doutrina. A Doutrina da Igreja tem que ser praticada agradavelmente. Não me admiraria nada que viessem qualquer dia com o Evangelho sem frases como aquela em que o Senhor diz a quem o quer servir: “Toma a tua cruz e segue-me”. E quantas asneiras e até já blasfémias nós ouvimos cada dia por este mundo de Cristo! É chegada a altura de nós, armistas, os ex-seminaristas todos, todos os que compreendem o perigo destas insinuantes doutrinas e erros, levantarmos uma barreira dura, um dique seguro. Não os deixemos resvalar mais, para que não vão cair no caos. Sim, porque eu sou ainda dos que acreditam que a saída do seminário foi providencial: exactamente para esta hora, talvez para substituirmos algum sal contaminado ou espevitarmos a luz que se escurece, nalguma candeia. Haverá mais alguém que queira apoiar os meus pontos de vista? Será no Sameiro a verdadeira tomada geral de consciência desta nossa responsabilidade? Sem dúvida que o desagravo à Imaculada Conceição já é um passo. Sr. Director, chame mais gente ao quadro, para

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que esta e outras ideias sejam avivadas e o nosso Boletim ganhe nova energia. Para já, se este meu arrazoado lhe servir, diga desde este momento: Deo Gratias! Mário Veiga
(Bol 39, Jan/Fev 1972, p. 3)

(46). CRISTÃOS RESPONSÁVEIS Há mais ou menos anos, todos nós Armistas tivemos de enfrentar o problema da vocação missionária e optámos por um caminho que, então, nos pareceu ser o nosso. Felizes de nós se acertámos na escolha! Infelizes, porém, se, ao optar por um caminho de não “consagrados”e por isso não destinados à primeira frente missionária, abdicámos também das nossas responsabilidades de cristãos no Mundo. Aliás, tem sido trágico que os “alfobres” de padres, que são os seminários, não tenham sequer, em tantos casos, sabido ou podido preparar bons cristãos. Queira Deus que, se alguma vez sentimos ou viermos a sentir a tentação daquela abdicação, lhe saibamos resistir. Porque a quem mais se dá, mais se exige. E nós, no Seminário, recebemos muito... Todos, neste mundo, temos uma pequena ou grande “constelação” de pessoas à nossa volta, na família, no trabalho, na roda dos amigos, dos vizinhos ou dos simple conhecidos. E em relação a todos temos alguma influência, maior ou menor. Projectamos luz ou sombra à nossa volta. Já ouvi comparar o Corpo Místico de Cristo a uma lente gigantesca, através da qual se projecta no mundo a luz da Graça de Deus. Cada um de nós, cada um dos membros do Corpo Místico de Cristo, pode assemelhar-se a uma pequeníssima partícula dessa lente. Se somos cristãos autênticos, se vivemos em graça, a luz de Deus passará através de nós e iluminará o mundo que nos rodeia. Se, pelo contrário, vivermos em pecado, não estaremos transparentes e então forma-se como que um cone de sombra para além de nós. E aqueles que estiverem sob a nossa influência poderão ficar privados de receber a graça.

Quanto mais numerosas forem as partículas opacas dessa “lente” mais sombrio nos aparecerá o mundo, menos luz será projectada. De igual modo quanto mais numerosos forem os cristãos “transparentes”, mais visível se tornará no mundo a realidade de Deus. Ora nós, que tivemos uma formação mais completa que a da maioria dos cristãos, havemos de sentir-nos responsáveis por que se realize no mundo o maravilhoso plano de Deus de fazer de todos os homens a comunidade dos Seus filhos. Todos somos chamados a colaborar na edificação de um ”mundo melhor”, não o mundo em abstracto ou longínquo, mas o “nosso mundo”, aquele onde vivemos, onde se situa aquela nossa zona de influência. Sabemos que a “Salvação” que Cristo trouxe ao mundo não é algo que se situe apenas para além da morte e que a religião não é um refúgio para as nossas limitações ou frustrações. O “reino de Deus” realiza-se desde já em nossas vidas terrenas, começa neste mundo, que faremos mais justo e mais fraterno, se dissermos “sim” ao Senhor e realizarmos a Sua Vontade, “assim na terra como no Céu”. Manuel Nunes Ferreira
(Bol 40, Mar/Mai 1972, p. 1)

(47). NA VANGUARDA Chegou-me às mãos uma estampa cujos dizeres transcrevemos integralmente: “O Diácono que desempenhar devidamente o seu cargo, alcançará para si um “munus” honroso e muita confiança na fé de Jesus Cristo” (S. Paulo, 1.a Tim. 3,13). Recordando a Ordenação de Diaconado de João dos Santos Magro (primeiro diácono casado, em Portugal) realizada na Igreja da Missão do I. L. E. – Zambézia, Moçambique –, em 27 de Junho de 1971 por D. Francisco Nunes Teixeira”. O Senhor Bispo de Quelimane figura neste facto histórico com o devido relevo. Foi o primeiro Bispo português que confiou nos leigos a ponto de não hesitar em conferir o Diaconado a um homem casado, pai de muitos filhos, cristão exemplar, e

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considerado digno do “munus” do diaconado, segundo os cristãos do Concílio Vaticano II. O João dos Santos Magro, um beirão de S. Miguel d’Acha, passou a ocupar um lugar de vanguarda no laicado português. É muito honroso para ele ter conseguido viver a vida cristã de um modo exemplar, a ponto de a Igreja e o Povo de Deus nele terem posto os olhos plenos de confiança e admiração, e o terem admitido a partilhar com o Episcopado e o presbitério o sacerdócio ministerial. Refiro-me ao novo diácono com muita simplicidade, sem qualificativos especiais. Trata-se de pessoa conhecida de muitos dos nossos caríssimos leitores, embora há muito tenha passado pelo nosso meio. Sim. Embora modestamente, temos muita satisfação em registar que o primeiro diácono casado de Portugal é um antigo aluno da Sociedade Missionária. Tendo deixado os nossos Seminários dirigiu-se a Moçambique. Entrou ali nos serviços de Administração Civil. Em 1946 estava em Nampula. Ali casou. Os párocos de Nampula tiveram nele um apóstolo leigo sempre disponível. Passados alguns anos, foi transferido para outras localidades. Finalmente fixou-se no I. L. E., onde presta serviço na Administração Civil. Foi com alguma surpresa e principalmente com muita alegria que recebi esta notícia. Penso que o mesmo acontecerá com os leitores. A seriedade da formação humana, intelectual e espiritual dos Seminários da Sociedade Missionária está na base de muitos valores que honram a vida portuguesa, nos mais variados sectores. Pe. Albano (Mendes Pedro)
(Bol 41, Jun/Jul 1972, p. 1)

(48). UNUM NECESSARIUM Perante as desordens de toda a espécie que alastram pelo Mundo e põem em grave risco a ordem social e a própria sobrevivência da humanidade, muitas vezes nos quedamos a meditar nesta palavra de Cristo... Afinal, uma só coisa é necessária ao homem e essa deveria, portanto, constituir o grande objectivo da sua vida, a razão maior de todos os seus esforços, a preocupação constante da sua curta existência. Esse “unum necessarium” pode exprimir-se de

vários modos, em diferentes termos, mas constitui uma realidade viva e presente na alma do crente que vive da fé: a salvação da alma “post mortem”; a vida da graça, a paz da consciência, de que depende a felicidade neste mundo; a realização da justiça entre os homens e a fé em Deus: “Quaerite primum regnum Dei et justitiam ejus et coetera adicientur vobis”. Buscar primeiro, antes de tudo e acima de tudo, o reino de Deus, “reino eterno e universal, reino de justiça, de amor e de paz”. Procurar sempre, em todas as circunstâncias, através de todas dificuldades, realizar entre os homens a justiça de Deus. E, depois disso, confiar; confiar plenamente em Deus – que é Pai, que é justo, que nunca se deixa vencer em generosidade, que está sempre atento às necessidades dos seus filhos e que nunca lhes faltará, no momento próprio, com o necessário. …”Coetera adicientur”: o resto, tudo o que for indispensável à sobrevivência e à realização dos fins superiores do Homem, será dado por acréscimo. Afinal, o “unum necessarium” é o reino de Cristo nas almas. Quando o Espírito d’Ele orientar as actividades dos homens haverá paz, haverá justiça, haverá amor; o homem não mais será o “lobo do homem”; os bens materiais e espirituais serão distribuídos com mais equidade; não morrerão uns de fome e outros de lautas ceias. Com inteira razão escreveu o último Sínodo dos bispos no seu documento “A justiça no Mundo”: “A situação actual do mundo, vista à luz da fé, faznos um apelo no sentido de um retorno ao núcleo central da mensagem cristã que cria em nós a consciência profunda do seu verdadeiro sentido e das suas urgentes exigências”. O verdadeiro sentido da mensagem cristã é o “unum necessarium”. As suas urgentes exigências traduzem-se, afinal, na necessidade de um empenhamento sério e profundo de todos os cristãos no sentido da sua realização. … “Et coetera adicientur”! José Francisco Rodrigues
(Bol 42, Ago/Set 1972, p. 1)

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(49). PERSEVERAR A perseverança é uma das mais raras virtudes, mas é a chave de todo o êxito. Sem ela todo o esforço se perde. Só quem persevera vence. Mas é difícil perseverar, permanecer na trincheira, exposto aos ataques de muitos. Muito mais fácil é abdicar, desistir. Mas abdicar é confessar-se vencido. A abdicação é uma derrota. Abdicam os comodistas, os velhos, os incompetentes, os incapazes e inúteis. Abdicam os ofendidos e despeitados, os que recusam a luta, os covardes. Dirigir é mais que tudo servir. E servir é ser útil aos outros. Quem tem responsabilidades de cargo deve assumi-las até ao fim, sem pretensões embora de a todos agradar. A validade dos nossos actos está na dedicação ao serviço dos nossos semelhantes. Avalia-se pelos resultados. Estes, porém, embora válidos, estão sempre sujeitos a críticas, pois são sempre apreciados segundo a escala de valores de cada um. Salva-nos, porém, a intenção de servir. E a certeza também de havermos sido úteis àqueles que se julgam capazes de fazer mais e melhor. É cómodo renunciar, desistir... Mas a vida é luta. E também deve ser sonho. É preciso construir, sonhando. Com os pés bem firmes na terra, atentos às realidades, trabalhemos todos unidos em busca de um ideal mais perfeito, sem sacrificar o bem geral ao particular ou de grupos, sem preferir até ao bom o óptimo, ao viável o utópico. Idealistas mas realistas. Comunitários, não parciais. Assim, logo que alguém mais capaz surgir, haja a humildade de se lhe ceder o lugar em prol do bem comum. Albino Santos
(Bol 43, Out/Nov 1972, p. 1)

(50). ONDJANGO É uma palavra umbundu que denomina a casa redonda onde os responsáveis da aldeia se encontram para resolver os problemas da comunidade. Também se chama ondjango o conselho que aí se

reúne. Ao contrário do que muitos imaginam, entre os bantos o poder do chefe é muito limitado pela obrigação de consultar e respeitar as tarefas diversas dos conselheiros. Vai fazer, em Setembro, 25 anos que o P. Albano partiu para Angola. Foi um dos missionários mais queridos em Luanda. Mas, logo depois, a Sociedade se espraiou pelo Quanza Sul, região difícil, onde, mais tarde foram raptados o Laurindo e o José Mendes e onde morreu o Irmão Artur, cujo túmulo os nossos não puderam visitar durante muitos anos por causa da guerra. Mas região bonita e de um povo bom, povo do poder repartido, do Ondjango. De lá vieram os primeiros dois padres angolanos da Sociedade: o Eduardo Daniel que vai nestes dias para a Zâmbia e o Kaquinda, ordenado no Seles, no passado 13 de Maio, e que se prepara para o Brasil. Temos muito a celebrar na festa dos 25 anos de missão em Angola. Vale a pena fazer festa porque os missionários descobriram o ondjango e a Igreja, pelo menos na base, também pode ser ondjango: 1.° Todo o cristão tem a responsabilidade de espalhar a fé. “O evangelizado evangeliza” é o lema do Bispo D. Zacarias, agora promovido a Arcebispo do Lubango. 2.º Alguns de cada aldeia são eleitos para coordenar os trabalhos: catequese, liturgia, ecumenismo, serviço aos velhos e crianças pobres, etc. 3.º Estes responsáveis formam o Conselho, o Ondjango, presidido por um deles. 4.º O padre faz parte do ondjango, de todos os muitos ondjangos da paróquia. Tem autoridade, sim, repartida. É o Ondjango que representa e coordena a Igreja, toda ela ministerial, com diversidade de serviços. Assim os cristãos da aldeia formam uma comunidade e a paróquia é uma comunidade de comunidades. Já pensou? E se a Igreja fosse assim em toda a parte, verdadeiramente colegial, como diz o Concílio? A Sociedade Missionária já formou muitos padres e irmãos. Mas há na Igreja muitas outras pessoas que podem ser missionárias: jovens, casais, religiosos, padres diocesanos. Além de formar padres e irmãos, pode formar esses outros, com serviço diferente, mas com a mesma vocação: anunciar a Boa Nova. Assim, a Sociedade também será mais ondjango: coordenação de ministérios diversos e complementares, ao serviço do Reino.

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No início do próximo ano lectivo, em fins de semana, começamos a formação de missionários diferentes que se comprometam a dar 3 anos de serviço. Precisamos de professores de português e inglês, médicos(as), enfermeiras(os), agentes de serviço social, de promoção da mulher, da juventude, dos agricultores... Vinde e vede. P. Jerónimo Nunes
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 1)

Vem aí a festa de Todos os Santos, o dia dos Fiéis Defuntos, daqueles para quem este Mistério/ revelação é vida já sem sombras, sem problemas, sem lágrimas. Seja à luz deste Deus-Mistério que nós resolvamos os nossos problemas. E... se pudermos, que ajudemos alguém a resolver algum dos seus problemas. Próprio do armista. Viriato Matos
(Bol 61, Jul/Set 1996, p. 1)

(52). A LIÇÃO DO MERGULHO (51). DEUS, Problema ou Mistério? No momento em que me pedem o editorial para o Boletim da ARM, tenho sobre a mesa, para breve rescensão, um dos últimos livros do teólogo espanhol José Maria González Ruiz. O livro, de 180 páginas apenas, é muito denso de conteúdo, e vale mesmo a pena dedicar-Ihe algumas horas. Um bom conselho. Para já fiquemos pelo primeiro capítulo, que é o que lhe dá o título. Por problema entendemos um objecto, um obstáculo (palavras do mesmo campo significativo ou semântico), uma dificuldade, com que deparamos, fora ou estranha a nós, que nos complica ou torna a vida dificil. Por mistério (os seus significados são muito diversos e mais indeterminados, menos precisos que os de problema) entendamos uma coisa escondida, secreta, uma verdade ou sabedoria escondida, divina, uma vontade ou plano de Deus, o reino de Deus, o próprio ser de Deus; em resumo, aquilo que há de mais profundo, ou alto, ou grandioso na vida do homem. Postas assim as coisas, ou as palavras, parece que não será dificil responder à disjuntiva da pergunta com que se dá título ao livro. Efectivamente, Deus não poderá constituir problema ao homem. Não é de Sua natureza opor-se ao homem. Dificultar-lhe a vida, criar-lhe dificuldades. Será sim o segredo, a explicação, o sentido último e a razão primeira e última da vida de cada um e de todos, a garantia da existência, o coração do homem, de todos os homens. A frase de Santa Teresa de ÁviIa vem dizer isto mesmo: “nada te perturbe, nada te espante: só Deus basta”. As férias terminaram para a maior parte. Muitos, neste tempo, por certo tiveram oportunidade de irem à praia. E não faltou quem tivesse dado um bom par de mergulhos. Se fosse para falar destes mergulhos, bem teria ficado este breve editorial no princípio das férias. Mas como não é destes movimentos aquáticos que quero falar, talvez não venha a despropósito reflectir, por metáfora, sobre o mergulho espiritual a que fomos convidados por alguns acontecimentos últimos. Quero referir-me à morte de Diana e de Teresa de Calcutá. Todo o mergulho implica um imergir e um emergir. Um entrar dentro das águas e um sair das águas. Eu diria, muito brevemente, sem intenções moralizadoras (e cada um que extraia daqui as conclusões que muito bem entender), que é imperioso, por um lado, que mergulhemos no mundo que nos rodeia e que, por outro, saiamos do mundo que nos intoxica; que saiamos de nós próprios e que lancemos os olhos para um mundo que está mais longe de nós, o mundo dos outros, que nos pode provocar gestos de generosidade terapêutica; que nos esforcemos por penetrar no sentido da vida que levamos e em outra vida que podemos levar; que apreciemos o alcance ou valor/inutilidade das acções que fazemos ou omitimos; que nos inteiremos, pela leitura, pelas viagens, pelos media, do que se passa perto ou longe de nós, e nos esforcemos por verificar até que ponto é que tudo isto/aquilo nos diz respeito ou nos deixa indiferentes. Diz-se, numa frase já meio gasta, que estamos ou vivemos em tempos de aldeia global. É preciso que sejamos capazes de deduzir se efectivamente somos cidadãos deste mundo em que vivemos ou vivemos alienados num mundo irreal, só nosso, fei-

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to de egoísmos, mergulhados, imersos dentro de nós mesmos, ou se somos capazes de emergir, para encher os pulmões com o ar que vem de outros contornos, doutras margens. Há gente que quando mergulha se afoga, por não saber nadar. Há gente que não mergulha por medo ou por falta de coragem. No rio da vida não podemos ficar parados. Contemplando as águas que correm, é inadmissível ficarmos sozinhos, alheios à torrente de vida que nos rodeia. Para vivermos e sermos cidadãos desta aldeia global é preciso emergir e imergir, ininterruptamente, corajosamente, alegremente. Viriato Matos
(Bol 63, Mai/Ago 1997, p.1)

(53). FAMÍLIAS MISSIONÁRIAS Nós católicos estamos habituados a ver o missionário como um aventureiro que parte sozinho para o desconhecido, deixando para trás o pai e a mãe, a chorar e a rezar. Bastaria ver alguns filmes americanos para descobrir outra imagem de missionário: o pastor com a sua família a trabalhar juntos na evangelização, a sua esposa a dirigir o coro da Igreja, os filhos na mesma escola de crianças de outra cultura, a crescer juntos e travar amizades que, por vezes, são mais evangelizadoras do que muitos sermões. Nós católicos precisamos descobrir que também às famílias é dirigido o apelo: deixa a tua terra e vai para onde Eu te enviar. Só para dizer que isso já acontece, lembro um casal católico da Áustria que andou 16 anos pelo Brasil. O João é agrónomo e fez de tudo naquelas comunidades rurais. A Criselda, nunca perguntei a profissão. Cuidava dos 4 filhos. Sei que, às vezes, dirigia celebrações dominicais.Vi-a fazer reuniões com senhoras. Junto com elas, escreveu livrinhos sobre saúde, alimentação, fabrico caseiro de produtos de higiene. Um dia, um filho apareceu com uma doença. Tiveram que deixar o seu campo de missão e foram para outra cidade, onde, depois de algum tempo, formaram uma escola comunitária para crianças com a mesma doença. Onde estivessem, eram todos missionários. Uma religiosa ou um padre são fundamentais para a Missão. Mas uma família missionária pode

apresentar outro testemunho também fundamental: ser o espelho onde as jovens famílias cristãs podem olhar a sua vida, ser uma casa aberta a outros casais e às crianças, água pura a irrigar o nascimento duma comunidade. Ouvi dizer que, anos atrás, um movimento familiar duma diocese portuguesa procurou padres para serem assistentes religiosos do movimento e não encontrou. Analisaram a questão e descobriram que a sua diocese precisava de padres. Começaram a rezar e a trabalhar para que surgissem vocações sacerdotais nas suas famílias. Quando me contaram a história, já vários filhos deles eram padres. Descobri, nestes dias, que essa grande diocese é, em Portugal, das que menos envia missionários para outros povos. Que aconteceria se esse movimento familiar descobrisse que existem ainda bilhões de pessoas que não conhecem o Evangelho ou não têm a Eucaristia dominical porque faltam “assistentes religiosos”? Logicamente começariam a rezar e a educar os seus filhos e filhas para serem missionários no meio de outros povos. Um dia chorariam de alegria ao enviar o seu filho ou a sua filha a outros pobres de Deus a que Ele diz: “como a mãe consola o seu filho, assim eu te consolarei”. O movimento se tornaria imagem do Deus consolador que socorre os mais necessitados. O Ano Missionário-Ano do Espírito também é para as famílias. Para que sejam mais sacramento, imagem do Deus que quer salvar toda a humanidade, sobretudo os que mais d’Ele precisam. P. Jerónimo Nunes
(Bol 65, Mai/Jul 1998, p. 8)

(54). A ANAGOGIA DA PEDRA Pois é assim mesmo. Não há engano. Anagogia é uma palavra muito pouco usada, hoje. Antigamente, no tempo dos Santos Padres, os Padres Antigos, era mais usada. Significa uma interpretação mística de uma coisa; uma interpretação com sentido espiritual elevado. Não se trata de uma simples comparação ou analogia. Vamos a uma aplicação concreta, que é disso que eu queria falar, a propósito da Páscoa. Nos Evangelhos (no cap. 28 de Mateus, no 16

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de Marcos, no 24 de Lucas e no 20 de João) fala-se na pedra que fechou o túmulo da sepultura de Jesus. Da pedra que seria preciso revolver para voltar a ver o corpo de Jesus e que uns Anjos removeram, simplificando e resolvendo assim as dificuldades às mulheres. Ao sublinhar algumas palavras estou já a apontar para o sentido elevado ou místico que a palavra PEDRA pode ter e que cada cristão poderá aplicar a si mesmo e à sua circunstância. Trata-se de uma breve meditação que todos podemos e devemos fazer. Sugiro apenas duas perguntas que abram caminho para a reflexão na Páscoa deste ano: Sou pedra ou obstáculo na vida de alguém? Em que medida sou ou posso ser um anjo que retira/remove pedras ou obstáculos do caminho dos que vivem comigo (pais, filhos, mulher, marido...)? Retirou-se a pedra e houve Páscoa. Cristo ressuscitou. A Pedra rejeitada tornou-se pedra angular, base, alicerce, dos que n’Ele crêem. Aleluia! Feliz Páscoa para todos. Lisboa, 19.03.01 P. Viriato Matos
(Bol 71, Mar 2001, p. 1)

Missionária”. Até andou por lá recentíssimo ex-aluno da Sociedade, com a máquina às costas, a cortar ervas e silvas (a reunião não era o ambiente dele... armista que rejeita o título). Há uma nova Direcção com pessoas históricas desta caminhada e gente nova com nova energia. Como pode ela levar o Congresso à massa dos 3000? Como implementar as intuições maiores ou as mais exequíveis? 1.° O princípio básico é este: o armista é um cristão baptizado, participa da vida de Deus e testemunha-a na sua vida familiar, profissional, eclesial e mundanal. Entre os valores que recebeu no seminário, há um que a Igreja do séc. XXI quer destacar: todo o baptizado enriquecido com a Boa Nova de Deus é (deve ser) missionário e pode (deve!) contribuir para que outros o sejam. 2.° princípio: A Missão que arranca do Baptismo realiza-se de muitos modos. Os leigos podem ser protagonistas da Missão ad gentes, universalista, para lá das fronteiras. 3.° Sendo uma Associação de Leigos, a ARM pode ser protagonista da Missão ad gentes (esqueçamos a linguagem antiga como “auxiliares”...). Quando cheguei a Portugal, há 8 anos, fui provocado pela ARM a apontar alguns caminhos para os armistas serem mais missionários. Fiz o que pude. Mas investi também noutros caminhos. A Sociedade criou outra associação de leigos missionários. Os Leigos Boa Nova existem e crescem, são uma ONG. O objectivo é fazer Missão aqui e lá fora. Têm projectos ambiciosos para realizar em Portugal e já realizaram vários na África e no Brasil. Se a ARM ou alguns armistas querem participar neste grandioso plano de Deus por um mundo melhor... o campo é grande e os trabalhadores são poucos. As duas associações poderiam conhecerse mais e colaborar em projectos concretos. A mística é a mesma: a Boa Nova. A origem é diferente e diferentes são alguns objectivos. Ambas podem ser uma concretização laical da mística Boa Nova. Espero que muitas vezes se encontrem nos caminhos do mundo. Lá vos espero. P. Jerónimo Nunes
(Bol 75, Jul 2002, p. 1)

(55). UM CONGRESSO… QUE PODE FAZER HISTÓRIA No momento em que as coisas acontecem é difícil prever a sua repercussão no futuro. Porque nós não somos máquinas que, uma vez afinadas, funcionam automaticamente. Mas o Congresso da ARM em Valadares foi uma experiência que pode influenciar o futuro. Foi uma convivência que ultrapassou a profundidade normal dos encontros ARM. Houve tempo para contar histórias do passado seminarístico e para falar do presente com os seus mil compromissos. Houve a arte imperdível da noite organizada por João Gamboa. Aconteceu uma profunda reflexão sobre as companheiras e companheiros de Paulo, apóstolos como ele. Fizeram-se exigências à Sociedade: Queremos participar mais directamente na Missão... Queremos participar na Assembleia Geral, ainda que seja sem direito a voto... “Ainda não perdi as esperanças de morrer na Sociedade

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(56). MISSIONÁRIO LEIGO NA CHAPADINHA Chapadinha, Estado do Maranhão, no Nordeste brasileiro, é uma paróquia de 62 mil almas, com 3400 Km2 de superfície e 120 comunidades cristãs, algumas a mais de 100 Km de distância, entregue aos cuidados dos Missionários da Boa Nova. Quatro famílias de fazendeiros, bem estribados nos políticos, autoridades e forças policiais, dominam a região e são os proprietários únicos da terra. O povo trabalhador dá-lhes o feijão como renda e fica com o arroz e a mandioca para sua alimentação. O gado é bem exclusivo dos fazendeiros, aos quais as populações têm de vender tudo o resto que cultivam e colhem pelo preço que aqueles quiserem. As famílias só podem ter algumas galinhas e um ou dois porcos. É neste mundo que trabalha como missionário leigo o jovem Jorge Carvalhais, 29 anos, professor de Inglês no Colégio de Calvão, diocese de Aveiro. Em entrevista ao semanário Correio do Vouga, publicada em Janeiro último, afirma o jovem missionário: “A minha missão é procurar ser sal, fermento e luz, pondo ao serviço do bem das populações as minhas aptidões pessoais e profissionais”. Na prática, é responsável por programas de rádio. Ligado à Amnistia Internacional, faz formação com base nos direitos humanos. Anima celebrações da Palavra e apoia os padres em trabalhos ligados à catequese e à formação de jovens. Considera a educação uma prioridade e dedica-se à formação de professores dando aulas de Inglês e também de Português, Literatura, História, Geografia e Sociologia. Com esse objectivo percorre as 32 escolas da cidade, mas não descura o seu grupo de teatro, com aulas de expressão dramática e apresentação de peças. À noite, tem outra actividade: “Pego num gerador eléctrico e num projector e lá vou para o interior passar filmes, com agrado geral das populações”. E é bem recebido por todos. “As pessoas estão de tal modo acostumadas a sofrer com os políticos, autoridades e fazendeiros, que confiam apenas nos missionários, que são para eles os únicos em que se pode confiar”. Para se dedicar a este trabalho que todos admiramos e lhe dá muita alegria, Jorge Carvalhais re-

nunciou a muita coisa. “Renunciei ao conforto do meu lar, aos meus divertimentos. Gosto muito de música e de ler, mas na Chapadinha não há nada disso”. Porém... “estou a ganhar muito mais a nível de experiências, enquanto sinto que o que estou a fazer é útil e muito urgente, quer a nível religioso e cultural, quer social, educacional e dos direitos humanos”. O jovem missionário confessa que o padre Laurindo Neto, missionário da Boa Nova, o marcou profundamente. “Penso que foi Jesus Cristo que me tocou por ele”, conclui. Julho 2002 João Gamboa
(Bol 76, Out 2002, p. 7)

(57). RESSUSCITOU, RESSUSCITAREMOS Um caçador mandou o seu cão perseguir o bicho que fazia balançar uns arbustos. Rapidamente se encontraram frente a frente o cão e a raposa. Com habilidade o cão levou a raposa para a mira do caçador. Mas a esperta arriscou o seu truque: “Irmão cão, ninguém te ensinou que as raposas são irmãs dos cães?” “Sim, mas isso são coisas de idealistas e estúpidos. Para os realistas, a fraternidade nasce dos interesses comuns”. Disse o cristão para o muçulmano: “Realmente poderíamos ser irmãos. Mas, nos dias de hoje, isso fica bem nos idealistas e nos estúpidos. Para os realistas, a fraternidade nasce das ideias comuns”. Neste mundo dividido por interesses e ideias, a maior parte das pessoas religiosas têm 710 razões para odiar, mas pouquíssimas para amar. É por isso que os cristãos e os pagãos precisamos de uma boa Quaresma e de olhar para aquele Galileu que passou a vida fazendo o bem e, exactamente por isso, foi crucificado. Esse drama tremendo O fez suar sangue, mas apostou até ao fim na doação. Os estúpidos e os realistas é que o empurraram para esse beco aparentemente sem saída. Ou realisticamente fugiram. Mas o Pai O ressuscitou e abriu o túnel para a libertação d’Ele e da humanidade. Como homens práticos e realistas, vale a pena apostar no Caminho que leva ao túnel. Esse é o verdadeiro culto lógico aceite por Deus. Fora d’Ele,

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as celebrações e festas tornam-se folclore, espectáculo, reviver das tradições de crianças. No seguimento do Caminho enche-se de sentido a Páscoa, reveste-se a humanidade de esperança. Feliz Páscoa. P. Jerónimo Nunes
(Bol 78, Mar/Abr 2003, p. 1)

(58). A PRIMEIRA EVANGELIZAÇÃO NA PARÓQUIA DA GABELA A paróquia da Gabela foi fundada há 60 anos pelo P. Maia, de Ovar, e, antes da sua erecção canónica, já era visitada pelo Cónego Magalhães, a partir de Novo Redondo. Por aqui passaram, antes da nossa chegada a 28 de Dezembro de 1982, doze padres seculares. O imenso trabalho realizado por alguns deles, cujos nomes continuam a ser evocados com muita admiração pelos cristãos, deu um considerável impulso ao crescimento desta Igreja, em todos os aspectos da organização pastoral: criação das zonas pastorais e seu aprovisionamento com ministérios locais, promoção da catequese e da liturgia, estruturação do catecumenado, promoção do laicado e lançamento de movimentos apostólicos, incremento da acção social, etc. Aparentemente parece que até dava para ficarmos tranquilos... Em 1999, ano do Espírito Santo e da Missão, através dos inquéritos que, no ano anterior, havíamos entregado aos nossos catequistas-visitadores, demo-nos conta de que, num universo de 340 aldeias, havia cerca de 70 sem um único católico. Isso mexeu muito com a equipa missionária. Depois de um curso para evangelizadores, constituímos algumas equipas que foram em missão para algumas dessas aldeias, ao serviço do primeiro anúncio. Num tempo de guerra e de rusgas para apanhar homens para a tropa, essa iniciativa ficou meio abortada, se bem que já haja frutos desse trabalho: vários catecúmenos e, em duas delas, até já os primeiros baptismos. Em Janeiro de 2002, foi assumido como grande objectivo da diocese empenhar todas as comunidades no serviço do primeiro anúncio, em todas as paróquias. A partir da primeira experiência, fizemos um trabalho de sensibilização, durante todo

o ano, junto das comunidades cristãs, em ordem a suscitar voluntários para esta tarefa de primeira evangelização. Num curso realizado nos finais de Novembro participaram 80 pessoas, 69 das quais fizeram o seu compromisso apostólico perante o Vigário Geral da diocese, no dia 29 de Dezembro, na comemoração dos nossos 20 anos de presença na Gabela. Nos finais de Janeiro foram esses evangelizadores enviados para 19 comunidades, em pequenos grupos, só na área da Kilenda. Foi emocionante, mas ao mesmo tempo comprometedora, a avaliação deste trabalho. Desde a Kilenda, onde o camião da paróquia os deixou, até ao lugar de destino, alguns grupos andaram mais de 50 Kms a pé. Passaram fome e sede, privações de alojamento e até de água para se banharem... Nalgumas comunidades foram bem recebidos, noutras, tolerados e em duas, mandados embora. Encontraram todas essas aldeias sem escola, sem posto de saúde, sem água; e as pessoas, a começar pelas crianças, têm apenas uma refeição de farinha de massambala por dia. Alguns dos evangelizadores ficaram abismados porque pensavam que já não existiam situações destas em Angola. Sentiram a sua impotência perante tantas urgências. Aparentemente nada mudou no final do trabalho deles. Porém, o seu testemunho de oração e solidariedade com aquele povo, a presença junto de doentes graves, alguns dos quais foram curados, deixou uma marca muito grande. Na hora da despedida, em quase todos os lugares pediram que voltassem quanto antes para que a sementinha deixada não murchasse. Nalguns sítios até já ficou um grupo de oração que está a reunir todos os dias, e em todos ficou uma grande cruz de madeira a testemunhar a passagem de Cristo Redentor por aquelas paragens. Apesar das privações e das doenças que de lá trouxeram, já partiram de novo para as mesmas aldeias, de 28 de Fevereiro a 4 de Março, para “regar” a semente aí deixada e “arrotear” novos terrenos. E para as outras 50 aldeias que ainda faltam? Mais uma vez constatamos que “a messe é grande e os operários são poucos...” (Lc.10, 2), ou, como diria João Paulo II, a Missão está ainda no seu começo (R. Mi. 40). Estes catequistas foram enviados à nossa frente a preparar o caminho (Lc.10, 1). É um trabalho novo que se abre diante de nós, em

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que tudo vai começar desde o princípio. Não estamos longe dos começos do anúncio do Evangelho pois as situações são exactamente idênticas. Foi esse o quadro de reflexão/avaliação com os nossos evangelizadores. Mais uma vez sentimos que o ardor missionário começa também a difundir-se por estas terras, quando está mortiço por outras paragens. Este desafio não fica confinado aos limites da nossa paróquia. Dentro de três meses é o P. Aníbal Morgado que vai, durante algumas semanas, para a área do Mussende/ Chiengue, Missão onde não há missionários desde 1976, para, juntamente com algumas Irmãs e Leigos, aí ajudar a organizar a vida cristã, orientada, ao longo destes anos, apenas por alguns catequistas. Tudo isto é fruto da paz que para nós é bênção e, ao mesmo tempo, desafio a que temos de dar resposta. P. Augusto Farias
(Bol 80, Out 2003, p.3)

da Vida e ele próprio se diz a Vida que vem trazernos em abundância. Jesus vive a sua vida fazendo o bem e pondo em prática aquilo que vai ensinando aos amigos, indicando assim aos homens o caminho a seguir. Jesus vence, pela sua paixão e morte na cruz, a Morte do pecado e ressurge, ressuscitado e glorioso, Homem Novo e liberto, vivendo a Vida de Deus e gozando a sua Luz infinita. Este é o caminho... Sejamos sinal e presença de Deus no transitório do pó que somos: com gestos de amor e paz que adocem a indiferença e o ódio; comportamentos de luz que desvaneçam a escuridão; atitudes de vida que respondam à morte; rosto e sorriso de alegria que ilumine a tristeza. Procuremos e facilitemos o encontro de Deus com o Homem, na pessoa de Cristo Menino. João Gamboa
(Bol 81, Dez 2003, p. 1)

(60). PAIXÃO DE CRISTO (59). NATAL PARA A VIDA O acto de nascer é sempre um acto para a vida, para o estar vivo. E estar vivo, viver – é o que o homem mais deseja, porque é o único sentido para que aponta e se dirige o seu nascimento. Nasce-se para se viver. O nascimento é, pois, uma passagem para a vida, ou para um estádio ou modo diferente de vida. Nascer é entrar na vida. Porém, nascer é também dar um passo para a morte, começar a caminhar para ela, ficar mais próximo dela. Nascer também é começar a morrer, a morte faz parte da vida. Nesta encruzilhada, na lâmina desta angústia, surge o acontecimento mais desejado e celebrado em toda a história – o Nascimento de Jesus. Desejado intensamente pelos que viveram antes na esperança dele; celebrado todos os anos pelos que já vieram e ainda virão depois, na convicção profunda de que o Natal de Jesus é o acontecimento mais revolucionário e libertador alguma vez acontecido. É o Eterno que irrompe no meio do Efémero, é Deus que vem viver com os homens. Jesus revela-nos esse Deus-Amor que nos ama e nos quer felizes vivendo como irmãos. Jesus apresenta-nos esse Deus como o Senhor Aos que me têm convidado para ver o filme tenho respondido que já vi! De facto não vi a paixão do Gibson, mas, nesta Quaresma, tive oportunidade de experiências mais radicais. Para visitar uma doente tive de entrar numa casa por um janelo perto do telhado, a uns quatro metros de altura. Desculpe, não fui eu que entrei, foi um garoto que meia hora antes conhecera numa escola. Que alegria nos seus olhos quando me viu ali! Entendeu logo tudo e foi buscar a escada que eu subi para o deitar a ele para dentro da casa e me abrir a porta da frente. Que alegria a da senhora, ao ver o padre ao seu lado (nem desconfiou dos meios usados para lá chegar)! Que alegria a minha ao ver como o seu sofrimento é vivido com sorrisos em solidariedade com a Paixão de JC, oferecido pela salvação do mundo, pelos missionários também. Ao sair, encontrei o garoto na cozinha a comer a merenda com o irmão mais novo. Fechei o gás que ainda saía por um bico já sem chama. E vislumbrei o motivo que levara o garoto a ajudar-me a entrar em casa: a fome é negra e ele estava preso do lado de fora! Comiam à pressa para fecharem logo a casa atrás de mim.

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Antes de entrar no carro ainda pude olhar para a beleza da beira-rio. Já lá andavam os dois garotos, contentes, de barriga cheia, um a cuidar meia dúzia de ovelhas, o outro a correr atrás de uma burra. E arranquei sem entender por que estava ali estacionado o Vectra do namorado da mãe dos garotos, guardiã da idosa acamada. Continuei a minha peregrinação pelos acamados, mas não consigo esquecer esses 40 minutos radicais em que contemplei a Paixão de Cristo. Quero voltar lá antes de ver o filme. Neste caso, o reality show vale mais do que a arte ensaiada, apesar de provocar menos lágrimas e ter menos propaganda. Aviso que esta cena foi gravada em Portugal, numa região onde há membros da ARM e muitos outros vão passar férias, talvez até a próxima Semana Santa. Mas o local interessa pouco. Depois disso já vivi outras semelhantes em cenários diferentes. O importante é ter olhos para ver. Uma feliz e santa Páscoa, vivida com paixão. Até às camaratas de Cernache, nos dias 15 e 16 de Maio. P. Jerónimo Nunes
(Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 1)

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4. TU CÁ, TU LÁ, COM ENTUSIASMO

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(61). POSTAL PARA TI (1) MAIS PENEIRAS... Caiu como uma bomba o artigo do nosso colaborador e estimado presidente da A. G. da ARM sob a epígrafe “Peneiras”. Recorte literário, ortodoxia, clareza, sinceridade, numa palavra, lição. Outra coisa não era de esperar do grande mestre e exemplar cristão. De vários recebemos aplausos e até de alguns, que, como nós, “generosamente” viram segundas intenções aliás inexistentes, recebemos comentários mais ou menos espirituosos que a camaradagem admite e que denunciam não ter morrido em nós aquele espírito de observação, crítica e bom humor que no declinar da vida tanto ajuda a manter a jovialidade de espírito. Apesar disso, confessemos, eu e tu pertencemos à seita dos fariseus que não vemos a tranca para vermos o argueiro. Eu, porque peguei numa dessas carapuças e reservei-a logo para o “Dr. do Tramagal”. Tu, então, desculpa-me, mas também sem “caridade” nenhuma clamas que ela assenta bem num “clérigo”, perdão, num colega (minhoto ou transmontano?) que teima em não ligar à “malta”. Um alfacinha classifica-a de “monumental lição a um notável de... de qualquer parte”. Outro fuzila o José Francisco da Silveira. Mas, a propósito, já lhe disseste que existimos? Pois vou dizerlho eu agora. E outro e outro ainda… Santo Deus, tanta carapuça e tanta careca ao léu. E isso, afinal, porque todos somos peneirentos, e só por isso “generosamente” “as” enfiamos aos outros sem repararmos que a nós é que elas ficavam a matar. Zé do Porto
(Bol 20, Mai 1968, p. 3)

(62). POSTAL PARA TI (2) ASSIM VAI O MUNDO Já lá vão cerca de 35 anos; eu descia a Calçada de Mompilher e vi, vi mesmo, entrei na cena. Era um burro – burro, cavalo ou mula, não sei já –, uma carroça sem carga e um homem que suava as estopinhas, ora chicoteando o animal ora, si-

multaneamente, metendo também ombros à traseira do carro ou forçando-lhe o rodado. Nada. Impassível, o animal, manhoso e estúpido (seria portanto burro!…) não se movia. Lá que sentia o chicote, via-se que sim, mas andar, não, não era com ele. Aparece quem, no desejo de ajudar o homem, empurre também a carroça. Mas quê? se o burro era burro e apanhava mas não andava. Éramos já bastantes os “mirones”. O homem desesperava. Às tantas, surge dos lados da Rua do Almada uma mulher, mamuda, expressivamente congestionada. Barafusta, insulta o pobre do homem e por fim tenta roubar-lhe o chicote e, sem mais aquelas, em tom solene de delicioso ridículo, declara: “Está preso, chamem um polícia, eu sou da “sociedade”, está preso, não se bate assim no animalzinho!, eu sou da “sociedade”, chamem um polícia”. Embora o animalzinho fosse um animalzão, percebi; ela era da “Sociedade”. Por isso berra, protesta, barafusta… Surgem comentários, “p’ro burro”, mas quase todos “p’ro homem”. Um dos assistentes: “Oh santinha, quer que ele leve o burro ao colo ou que lhe dê aqui de mamar?” A mulher rebenta de ira e, de língua apimentada, desfiou um longo rosário de termos expressivos… mas irreverentes. A harpia tinha razão. Já fazia falta um polícia. Um velho, que chega pergunta: – Quem é? Que quer? Ao que um garoto (teria treze anos) responde: – Não conhece? É a mãe dos gatos! Mora ali… (indicava a Rua do Almada). –? – Já foi presa por espancar um sobrinho! – ?!!! – Até o homem “come” quando está com um golito. * * * Relembrei esta cena quando, há dias, um jornal desta cidade “gastava” (?) três colunas para relatar a entrega de um prémio de mil escudos instituído por certa criatura, em testamento e para premiar actos de “filantropia” para com animais, deixara, ao jornal, 70 contos!… Para meditação de pessoas bem formadas vou

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transcrever as últimas linhas dessa notícia: “A título de curiosidade, saliente-se que a premiada D… tem sob o seu tecto nada menos que 12 gatos, 3 cadelas, 8 canários e 1 periquito”. Para além disto só a notícia de que também os jornais se fizeram eco: – Vai construir-se no Porto, numa esplêndida quinta, um hospital, hotel, albergue ou coisa que o valha para cães vadios. Será o melhor da Europa. Centenas, milhares de contos!… Pobres crianças, pobres pretinhos, quem se lembrará de vós?… Zé do Porto
(Bol 21, Ago 1968, pp. 3 e 2)

(63). POSTAL PARA TI (3) Quando do nosso penúltimo número, eu prometi, aqui, escrever ao José Francisco da Silveira, de Caria, a saber do rumo da sua vida, do seu pensar, da sua saúde, enfim de Si em relação aos seus e também em relação a nós. O Silveira leu, pois leu!, mas, esperto, não se manifestou e aguardou e aguarda lógica e prudentemente. Eu, porém, e de vários que não por ele, recebi notícias suas que muito me alegraram e então, cá por certas razões e com premeditados fins, resolvi “castigar” o silêncio do Silveira com uma visita familiar no final de Agosto. Mas... o homem põe (salvo seja!) e Deus dispõe. E não pus, perdão não pude, por culpa alheia, papar-lhe um caldo como desejava. Atrás de tempo, tempo vem... Darei notícias para a próxima. * * * Quanto ao Dr. do Tramagal a quem também então me referi, com esse encontrei-me há dias. Várias vezes nos temos encontrado. E, para satisfazer um pedido de dois curiosos, aí vai o seu nome na esperança de que para o identificarem não seja necessária a irreverência da publicação dos seus cognomes: João Milheiro de Carvalho Ordenou-se na sua diocese, creio, e depois doutorou-se em Espanha. Actualmente é o Capelãomor de Sta. Margarida.

Quando há meses lhe falei da ARM e do seu Boletim ele admitiu tê-lo recebido já mas que, por falta de tempo, nem sequer o lera; agora, graças a Deus já o lê e acha bom. Falou-me do Dr. Guerra, do Acácio, do Carreiro, do Nereu e de tantos outros. “Que prazer em reencontrá-los!”... disse. Pois, meu caro, é fácil se, mesmo que te seja difícil, te fizeres substituir na Paróquia no dia da próxima reunião. E, acredita, lá estaremos todos para te abraçar. A tempo: não esqueças um postal para o Boletim. * * * Durante o decorrer dos exames do 7.° ano (2.ª época), encontrei o Pardilhó. Não sei qual o alibi que usa mas, mal se lhe dá metade da idade que tem de ter. Hesitei. Reconheci-o como colega escolar. Mas de onde?… Colégio João de Deus? Aulas primárias? Depois de um apertado abraço – eu sabia que era condiscípulo –, disparei: – Então onde vives agora ? – Ora onde?!... Em Pardilhó! Tanto bastou e, então sim, que era ele mesmo, o Henrique Lopes Ramos. Direcção: (só) Pardilhó. Que formidável vai ser a próxima reunião!… * * * Em viagens, que quase pareceram de inspecção, visitei o Sebastião Almeida em Carregosa, o Caldeira em S. João da Madeira, o Dr. Marques Pereira em Coimbra, o Sebastião Lobo em Águeda, o Chamusca em Freamunde, etc., etc., e recebi várias das quais por razões pessoais perdoareis que mencione apenas a do Dr. Manuel José Guerra. Todos eles me entregaram um abraço para ti. Zé do Porto
(Bol 22, Nov 1968, p. 5)

(64). POSTAL PARA TI (4) Tens razão, meu velho. O meu último postal foi maior que a légua da Póvoa. Desculpa. * * * Neste interregno a coisa correu bem. Mesmo muito bem. Escreveram-me, acabaram por me escrever, a marcar brilhante presença entre nós o Silveira, o Lopes Ramos (Pardilhó) e muitos ou-

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tros com 5 dos quais, especialmente, estou de acordo: – O Boletim deve, tem de sair mais vezes por ano. Sim, tem e vai sair, certamente. É que os mortos estão a ressuscitar e até já escrevem; mais: muitos até já pagaram as cotas!!!... O Milheiro de Carvalho (Dr.) não escreveu. Procurou-me. Claro, sempre que o faz é para me criar complicações. Calcula tu que me confiou um enormíssimo abraço para eu repartir por todos. Como me é humanamente impossível andar de porta em porta, País além, cá guardo o teu quinhão para quando nos encontrarmos. É terrível este Milheiro. Fala, fala e de tal maneira me troca os olhos com a conversa que não pude cumprir as ordens do nosso Presidente: “Quando estiver com ele cace-lhe as cotas de 67, 68 e, de castigo, já também a de 69”. Mas vá que desta vez deu-me já o nome de um perdido cá na nossa terra, o Augusto Américo Afonso, e que afinal já foi localizado pelo Alves Pereira. Anota, vive na Av. Rodrigues Vieira 17 Leça do Balio. * * * Uns atrapalham-se por “defeito”, outros por “excesso”. O Manuel Francisco da Silva, do Bairro da Encarnação, Rua 22 – Lisboa, manda-me um vale de Correio de 273$00 e não diz nada. Como estávamos em vésperas de Natal, tive a tentação de lhe telegrafar a agradecer o peru. Pensei um pouco mais e... ná, isso não é para mim, certamente. Mas... para a ARM? Que raio de conta!… Bom, é charada. Vou tentar resolvê-la. Ordens ao Tesoureiro: registe 50$00 cota 68 + 50$00 cota 69 + 173$00 de telhas para o Seminário. Eu cá, mesmo que à custa alheia, sempre que posso, dou telhas até preferentemente a tijolos. É que, se dou telhas, fico com menos e, assim, podereis todos aturar-me melhor… Dias depois, que arrelia! O Tesoureiro refila, diz que não obedece e argumenta: “Esse está pago. Não pode ser”. – Ah! diz o Presidente regressado da Lua, eu recebi carta dele. Isso é um saldo da Delegação de Lisboa. Ora bolas. Fiquei com pena. Já agora estava a contar com telhas... e… sentia-me mais leve. * * * A minha terra, mesmo que o Padre Almeida, por pirraça, o negue, é a mais bonita do Mundo,

como sabes. Por isso orgulho-me todo de assinar Zé do Porto. Há porém uns tantos que – eu bem os entendo – me chamam Zé das Ideias. Bom, ele há muitas maneiras de insultar... Pois bem, o Zé das Ideias sugeriu há tempos ao Presidente que enviasse a uns 50 nomes bonitos um postal que redigiu e no qual se lembrava ingenuamente, claro, o pagamento das cotas em débito. A coisa resultou e por isso confidencialmente te digo que o Presidente quase pulando de contente dizia depois ao Tesoureiro: “Ó pá, assim sempre o Boletim poderá sair mais amiudadas vezes...” E o outro: “Pois, pois!...” * * * Eu não estranho já. Ele há sempre quem se ajeite a não perceber o que lê que até uns 20 dos 50 referidos continuam, com grande pesar nosso, a ser vivos mortos quando os preferíamos mortos vivos. Sim, que um morto vivo é mais útil que um vivo morto. Como remédio “in extremis” vamos reproduzir o referido postal só para esses e... para ti, se é que também o merecias (a experiência do postal foi a título reduzido). Mas, por favor, não desatem a enfiar carapuças à toa. O número é limitado, limitadíssimo. Ora pois: “Porto, 12 de Novembro de 1968 Caro Armista: Vimos por este meio pedir-te desculpa de não termos ainda promovido, pelo correio, como nos cabia, a cobrança das cotas da Associação dos Antigos Seminaristas de Tomar, Cernache ou Cucujães relativas ao ano corrente. Estes serviços, porém, ficam caros e por isso procuramos evitá-los pedindo a todos poupem à nossa Associação essa despesa e a nós a trabalheira de tal cobrança. De acordo? Para não esquecer, diz-nos alguma coisa ainda hoje, como quiseres, até em selos. Ano 1967 .................. Ano 1968 ................... 50$00 De, troco, antecipadamente, enviamos-te um formidável abraço da malta cá da terra.”

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Se estás nas condições, responde. Diz-nos alguma coisa que o teu dizer tem graça. Zé do Porto
(Bol 23, Fev 1969, pp. 2-3)

(65). POSTAL PARA TI (5) Em mim todos “batem”. É uma signa, uma “infelicidez”. E o pior é que, de tantas que levo, já nem dou por isso. Em Cernache ouvi, estupefacto, um dos nossos dizer que Fulano, (este teu criado) “fala, fala porque atrás “dele” estão uns padrinhos que lhe dão umas palmadas nas costas” (?!!!) Como nada tinha sentido, olhei discretamente para trás mas só vi senhoras e, pelo menos, aparentemente, vários leigos. Nunca fiando, que “eles” (muitos deles dos padres) já não respeitam os usos e costumes dos lugares, indaguei. Mas não, nenhum era padre. Assim, como não percebi nada, logo descoroçoado concluí com os meus botões “apre! sou ainda mais estúpido do que pensava”. Paciência!... Mas, já agora, também não quero entender... se isso não tira verticalidade nem impede que a caravana passe... * Eu por mim gostei; gostei da Festa. Gostei de ver o Paisana, o Nereu, o Dr. Nunes Ferreira, o Abel Martins, o Dr. Rodrigues, o P. Serafim, o Martins; o Prata (Dr.), o Costa Vaz, o Cardigos, e sobretudo... a ti. Sabes? achei-te bom. Já sei que nunca te queixaste do aspecto, como dizia o sr. D. Carlos Fragoso, mas enfim... pela aragem... Com tristeza vi que faltou o Piresão, o Amândio, o Zé Silveira, o “nosso” João da Barra, o Tereso, o Maués, o Henrique Ramos, o P. Silveira, o Carreiro, o Dr. Milheiro, o Machado, o MeIo, o Dr. Delgado, o Salvador, o Granjo, o Dr. Alves... mas enfim, assim mesmo, gostei. O Bom não “grama” o óptimo. Gostei e até porque nunca vi tanta gente “nossa” reunida. * O Paisana – O Paisana é uma lição. Lição, ele; lição, a esposa; lição, os filhos. Eu não quero ofender o Rodrigues, o Guerra, o Prata, o Nunes Ferreira, o Martins de Oliveira, o Ramos, o Rodrigues Pereira, o Marques Pereira, o

Zeferino, o Vigário, o Armando Alves, o Ochoa, o Chamusca e tantos, tantos outros que com “dê erres” ou sem “dê erres”, pela sua craveira moral e também intelectual e social muito honrariam o lugar da presidência da nossa assembleia geral; mas o Paisana... Bom, fiquemos por aqui, a menos que haja quem o não conheça ou me não entenda. Estamos de parabéns!... * A nossa Direcção. Bom, eu tenho que dizer o que sinto. Lá confiança em todos não tenho. Mas tenho-a na mor parte que, só por si, garante. Os outros não têm história, mas... vão fazê-la, ora pois! Eu não tenho confiança mas nunca perdi a esperança, entendamo-nos. Zé do Porto
(Bol 26, Ago 1969, p. 3)

(66). UM ABRAÇO PARA TI Conversa à minha moda Afazeres vários levaram-me de novo a Lisboa onde indesmentível amizade de armistas mai-la das suas caras metades me retiveram 15 dias. Muito teria para contar. Apenas porém vou referir um pormenor do regresso de uma estupenda passeata que o Carreiro me proporcionou à Nazaré. Na estrada, o indicativo Benedita. Abrandando de súbito, pergunta-me o meu simpático hospedeiro: – Lembras-te dos da Benedita, dos Carmos? – Não, respondi. – Eram três irmãos, o António, o Luís e o Joaquim; mas só dois eram do nosso tempo. E sem esperar raciocínio ou melhor resposta, lá guina ele à esquerda, estrada fora, por entre fartos pomares e sobre feio piso, até à Benedita. Caminho fora recordei o António e, por isso, chegados, perguntei onde morava e pronto me indicaram a casa. Entrei. Café, Restaurante, Mercearia. Recebeume um rapagão jeitoso adentro do balcão. – Que deseja? Fiz cara feia, armei em polícia e perguntei se o snr. António Carvalho estava. – Não está, agora. – Mas devia estar. Onde se encontra?

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Empertigando-se o rapaz returque: – Que quer o senhor? – Isso é comigo e com ele. Onde se encontra? A minha maior arrogância quebrou a dele, aliás compreensiva e correctíssima, que logo adianta assim a modos de prudentemente mais calmo que “não estaria longe”. Compreendi que seria filho mas não me desmanchei e secamente ordenei: – Vá buscálo enquanto esperamos ali no café. Mas, olhe, levelhe este cartão (o meu de visitas) e não se demore. Minutos volvidos aparece de uma porta ao fundo entre receoso e curioso o António Carmo. Reconhecendo-o, apesar dos 42 anos volvidos, passei o balcão, agarrei-lhe o braço e trouxe-o, meio a sério meio a brincar, para o salão restaurante. E ele veio; que quem não deve não teme. Os filhos, intrigados, acompanhavam-nos à distância. – Conhece-me? – Não, senhor. – E a estes senhores? (apontei o Carreiro e Esposa). – Não, senhor. – Pense… vá, pense. Não conhece… Depois de certa insistência, sempre mandão e enigmático mas mais amodinho, disse: – Torne quarenta anos atrás. Esse cartão não lhe diz nada? Confuso, relendo-o, balbucia “quarenta anos”… Porto… Pacheco… Não me diga que… Sernache... – Sim pá! dá cá um abraço. Os moços, de olhos arregalados, começaram de se tranquilizar. Depois o Carreiro, que ele acabou por relembrar também. Sentámo-nos. Conversámos. Quis saber de muitos. De ti. Vimos-lhe água nos olhos. Apresentou-nos à esposa, falou aos filhos. Bebemos e comemos e gastámos mais de duas horas. Não podíamos ficar e por isso se adiou, “sine die”, o jantarzinho tão cordialmente oferecido. Despedindo-se, deu-nos para ti o abraço que te enviamos e a certeza de que, na reunião primeira, lá te virá ver. Zé do Porto
(Bol 37, Ago/Set/Out 1971, p. 2)

(67). CONVERSAS À MINHA MODA O meu pecado Três dos nossos fizeram-me sentir que gostaram do meu reaparecimento nesta folha e, em palavras amigas, espevitam-me a vaidade e, deste modo, carregam-me a alma. Vanitas vanitatum… praeter amare Deum, assim começa a Imitação. E é que eu sou dado à vaidade. Sinto-a no arrecadar da muita correspondência que de vós recebo a saber de mim e até a saber dos outros, a solicitar coisas e informes, a transmitir ideias, a enviar dinheiro porque só, felizmente, ainda (e nisto vos estou grato) me não endossastes contas para que eu as pague. E já agora relembro que na nossa Associação não tenho galões sobre a farda de soldado raso e, claro, os generais “Directores” é que comandam. Também, feliz ou infelizmente, não sou padre como em carta recente me trata um dos nossos sacerdotes de Moçambique que não tenho a honra de conhecer pessoalmente. Guerra ao escudo Ora, porque gosto de alimentar esse tal meu pecado, no receber dos vossos recados e convosco dialogar é que eu tenho a VAID… perdão, o brio, o gosto, a devoção ou obrigação (com esta rotulagem “a” escondo) de vos não deixar sem resposta. Ora, como o tempo nem sempre é muito, a paciência é pouca (que a doença ma consome), os ESCUDOS menos, eu gasto apenas postais do correio. Perdoai. Assim gasto só coroas que me facilitam mais a vida. Agora que muitos “as” deitaram fora… valem só metade de um selo de escudo. Pois, claro Disse alguém que eu escrevia banalidades. Pois claro. Para escrever “sério” lá estão os doentes do fígado e, muito a sério, o nosso Director, os fundistas, um ou outro e o tal alguém que, até agora, nem a sério nem a brincar, mas que há-de começar um dia, com proveito duplo da “malta” que me aturará menos e o aproveitará como convém. Mas, por agora, ser continua a ser melhor que o nem ser.

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Lá vem o Natal Como vistes faço contas e procuro ser económico sem faltar ao que devo. Por isso é que vos envio, este ano, só deste modo mas a todos e com alguma antecedência por mor das aglomerações nos correios, os meus sinceríssimos votos de Bom Natal em Cristo renascido. Dezembro 1971 Zé do Porto
(Bol 38, Nov/Dez 1971, p. 2)

(68). O MEU POSTAL Um de Abril. Quaresma. Dia de enganos. Para mim não foi de engano, mas de desengano, esse dia. Longas semanas crucificado no meu leito, a quaresma começou este ano para mim muito mais cedo. Será talvez a minha única verdadeira quaresma de toda a vida, vivida em sofrimento, Fé e Esperança. Falaram-me em vir para aqui, para o Hospital de S. João. – E porque não? Vim à consulta e fiquei, entrei logo. – Que não havia quarto, que teria que ir, até ver, para uma enfermaria mas era melhor entrar e já. Por isso entrei e logo. A sala é pequena. Apenas 5 camas das quais 4 nem dono tinham. Fiquei eu só e um humilde trabalhador agrícola ali das Taipas que, bom sama-

ritano, logo me prometeu, ele que andava a pé, ajudar-me em tudo (e tanto tem sido) que pudesse. Depois veio um simpático pedreiro de Coimbrões e, ao terceiro dia, ficava completa a lotação. Louvado Deus. Fizemos família de forma que, talvez breve, ao levarem-me daqui para um quarto, irei contente que a família também tem seus direitos, mas já aqui, de certo modo, ficará um pouco de mim. Comigo irá muita gratidão. É que aprendi que entre os melhores, os mais humildes, numa enfermaria do Hospital de S. João do Porto, entre gemidos e dores se pode viver alegre. Assim me desenganei. * P. S. – Desculpai. Falei só de mim quando me havia prometido dedicar todo o Postal deste número à Missão de Nossa Senhora de Fátima – do “nosso” Pe. Neto, em Angola. Ajudai-o. Mandou-me um S. O. S. Na casa Nuno Álvares-Porto, estão já depositadas à sua ordem várias centenas de escudos. Lembro que para os que não optaram pelas obras pias, etc., estabelecidas para alternativa, as esmolas das “Bulas” não acabaram mas podem ser substituídas por donativos a favor das missões, desta Missão. Vosso, muito vosso Zé do Porto
(Bol 45, Mar/Abr 1973, p. 6)

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5. MEMÓRIAS COM HUMOR

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(69). FIGURAS DO PASSADO Um educador Aí por 1942, frequentava eu o seminário de Cernache; já lá vão, portanto, uns bons trinta anos. Mesmo assim, recordo ainda com muita saudade e bastante nitidez uma aula que me torna inconfundível um professor, que primava em ser o que hoje em dia já rarissimamente se encontra: educador, mas deveras original. Os alunos, em forma tradicional, entraram silenciosamente na sala; colocaram os livros sobre as cadeiras e, perfilados, aguardaram a chegada do professor. Momentos depois, pontualmente, assomou à porta a proeminente figura abdominal. A careca ampla era cuidadosamente coberta pelos raros cabelos da adjacente coroa circular. Bigode curto, às vezes cómico; e nariz afilado. Naquele dia não o acompanhava o fidelíssimo cão Tuca, mártir das alfinetadas dos alunos sob as carteiras, e que volta e meia exibia habilidades junto do dono; tão-pouco este trazia nenhum guiso para nos intrigar a atenção ou aliviar o ambiente. Nada disso. Ameaça de tempestade Pareceu-nos mesmo que a lição ia ser terríve1. É que, reparámos, jogou sobre a secretária, com semblante estranhamente carrancudo e impenetrável, os cadernos com o semanal exercício dos sábados. – In nomine Patris… (rezava-se tudo em latim; vocês lembram-se?) – Ave Maria, gratia plena... (nunca ninguém conseguiu identificar a algaraviada de palavras que se seguia até ao pomposo final)… tui Jesus. À voz do sacramental Asseyez-vous, toda a gente se sentou. Da secretária do professor desprendia-se uma atmosfera pesada. O breve silêncio que precedeu as primeiras palavras pôs-nos nervosos. – Eu pensava que vós todos já vos tínheis compenetrado de que o seminário é para formar homens de carácter. Mas enganei-me. Tantíssimas vezes tenho repisado neste assunto e vós não o

comprendestes ainda. O estudo é o vosso principal dever. Mas que sermão! Ninguém tugia, enquanto ele falava. Referiu-se aos sacrifícios de nosso pais, às preocupações dos superiores; numa palavra: esgotou todos os argumentos para nos convencer de que o exercício fora a maior de quantas calamidades nos tinham acontecido. Começávamos já a procurar refúgio na ideia de que talvez na entrega dos pontos houvesse abrandamento, como de costume. O perigo aumenta As i1usões esfumaram-se quando, para provar que ninguém escapara ao descalabro, chamou o primeiro aluno – e logo o melhor aluno! Ia entregar o exercício. Um sonoro cachaço ecoou pela aula. –Então é assim que você quer merecer o pão que come no seminário? – comentou com toda a severidade. Pobre rapaz! Tivera um ponto tão mau que não conseguira dar nenhum erro! O1hámos uns para os outros verdadeiramente alarmados e pela mente passou uma ideia sinistra: – Quem será o último? Começara a pancadaria e continuava com os exercícios de 1 erro, 2 e por aí fora até cinco. A coisa estava mesmo muito feia. “Apanhou” o Ducelino, o Moisés, o Domingos, o Lapin du Pré e poucos mais. O que seria das negativas? Calma intrigante Quando apareceu o primeiro de seis erros, houve uma pausa, um momento de aflição. O bigode à Hitler do professor deixou escapar um sorriso. – Ora até que enfim! Um aluno que faz excepção. Está a mostrar que estuda; mas ainda “só” deu seis erros. Eu espero que continue a melhorar. Os meus parabéns! E o aluno regressou ao lugar absolutamente intacto, mas plenamente convencido que alguma coisa estava errada e que devia esperar pela “pancada”. Mas os seguintes também tiveram sorte igual. Para pasmo de todos, acontecia uma coisa incrível: quantos mais erros, mais elogios, mais apertos de mão, palmadinhas, parabéns... O professor estava a esgotar o dicionário dos louvores. Era um entusi-

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asmo! E note-se que houve lá menino com lindas marcas: 10 erros, 12, 15 e mais! Aquilo era já um desaforo! Como é que ele, que para “a pancada era um catita”, tratava assim os maus alunos? Com certeza estava a reservar a fúria, para o último. Realmente só faltava um, que, em regra, superava todos em erros. Era bom rapaz; tinha jeito para a bola – excelente guarda-redes; no teatro fizera-se notado no papel de sapateiro, Mestre Nazário, donde lhe ficou o nome por que era conhecido até pelos estudantes de fora. Mas em estudos, coitado! não dava o suficiente. Naquele dia... Fez-se o silêncio dos grandes momentos. O professor levantou-se da secretária e chamou: – Maître Nazaire, ayez l’obligeance de vous lever et venir auprès de moi! – Mau! Mau! Lá vai cair agora o aguaceiro, pensou tudo em uníssono. Ai do desgraçado! A cabeça dele, um pouco avantajada, não tem culpa disso. Desanuviamento Timidamente, lá se levantou, avançando receoso dos acontecimentos, acompanhado dos olhares gerais. De pé, impassível, o professor lá o aguardava; para quê? – Ora como vai o meu prezadíssimo amigo? E todos os seus? Está mesmo bonzinho de saúde? Um amplo abraço, palmadinhas nas costas, cumprimentos efusivos. Ia condecorá-lo com certeza. Ironia final – Aqui está o aluno que é a minha coroa de glória! Ponham aqui os olhos os colegas. Portou-se galhardamente. Não deu 1 erro, nem 5, nem 10, nem 15, nem 18. Ultrapassou todos. Deu “apenas” 24 erros! Os melhores parabéns! Quem estuda sabe. O nosso terror, que se fora transformando em espanto, explodiu numa colossal gargalhada, que atroou os corredores e deve ter abalado os alicerces do seminário. O Sr. Craveiro tudo tinha planeado. Excederase nas suas excepcionais qualidades de actor consumado.

Nunca mais me esquecerá, até porque ele me arranjara o pomposo título de Lapin du Pré
(Bol 46, Mai/Jul 1973, p. 3)

(70). FOI NAS FÉRIAS GRANDES Nos últimos dias de Julho terminara o ano lectivo. Fomos passar a casa as Férias Grandes. “Grandes” era uma força de expressão muito exagerada, pois começavam ali por 27 de Julho e duravam até meados de Agosto! Ena! Tanto tempo!!! Pois era assim mesmo. E nós regressámos todos contentes, pelo menos pela minha parte. É que lá em casa faltava o convívio dos colegas e o horário do tempo bem repartido. Que tempo maçador! Então foi com entusiasmo que nos vimos outra vez juntos. Mas agora é que era um bico de obra: como ocupar o resto do tempo até ao início do novo ano lectivo, em Outubro? Simplesmente iríamos uns dias até Cernache, o seminário que era frequentado pelos “maiores” do 3.º, 4.º e 5.º anos, que sabiam línguas: além do latim (Ah! malfadada língua! que me deste o único “chumbo” e me obrigaste a repetir todo o 1.º ano!). Então nós cuidávamos que os alunos veteranos de Cernache eram uns “sabões”. Carregadinhos de curiosidade, de malas e sacas, enfiámo-nos na camioneta da carreira. Curvas e mais curvas, subidas e descidas, enjoos, paisagens montanhosas e esquisitas, voltas e reviravoltas. Parecia que nunca mais chegávamos. Até nos apareceu pela frente um rio que mal conhecíamos de nome: o Zêzere. (Um dia hei-de contar coisas dele! Deixem estar!) E, quando tal, a camioneta estacou bruscamente num largo ajardinado cheio de “padres”, de batina preta, que nos estenderam as mãos solícitas para nos ajudar a descarregar malas, enjoos e curiosidades. Era ali o seminário de Cernache do Bonjardim. Os alunos de lá queriam conhecer os “pequenotes” de Tomar, e nós ali estávamos. Nem queríamos acreditar: tantas batinas!!! Imediatamente nos conduziram às camaratas, para marcar camas e descarregar sacos e malas. Depois foram mostrar-nos tudo, tudo, até os porcos (com licença de V. Exas.). Demos os primeiros

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pontapés no recreio, descemos a Avenida das Tílias, sentámo-nos nos bancos de pedra da Fonte do Reboludo (aquele monumento nacional da quinta ainda existia – eu estive lá); provámos uns bagos dos enormes cachos de uvas. Apesar de meio maduros, souberam-nos bem. Nunca vi tamanhos. Quando tal, reparámos num magote de alunos, dos mais adiantados, lá no cimo da Avenida. Passava-se qualquer coisa. E nós queríamos ver tudo, com toda a nossa curiosidade. E para lá corremos alvoraçados. Estava um prefeito empoleirado num “bólide”, muito alto, talvez com mais de um metro de altura, com duas rodas de suma-pau. Amparava-se nos alunos mais possantes. Era o Sr. Gabriel, distinto construtor mecânico, terrível professor de matemática. (Agora todos o conhecem por D. José dos Santos Garcia, bispo resignatário de Porto Amélia). Tinha a batina arregaçada e metida nos bolsos das calças. (Oh! Que escândalo! Um padre a ver-se-lhe as calças!, pensámos nós, os miúdos). Empurraram a “mota”, que arrancou aos ziguezagues, aos solavancos (o “piso da pista” era impróprio para Fórmulas daquelas – e doutras, claro!). Ganhou velocidade com o peso do motorista e do material de madeira pesada, foi até ao fundo, fez uma graciosa curva à esquerda (eu diria graciosa pelo desequilíbrio), meteu pelo caminho da vacaria e finalmente, por falta de declive, estacou a breves metros. A rapaziada corria desenfreada e em alegre algazarra atrás do condutor e daquela máquina. Para nós foi um sucesso. Estávamos conquistados pelo Seminário, pelo convívio, pelo à-vontade que ali se respirava. Ai quem me dera voltar a viver momentos tão ingénuos e singulares! Em Agosto de 1938. Lapin du Pré
(Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, pp. 6-7)

(71). INCÊNDIO NO SEMINÁRIO Um dia destes tivemos a Reunião Regional no Seminário de Valadares, tendo por fundo um magusto à moda do Norte. Ali se juntaram uns quantos dos antigos, entre padres, irmãos, alunos actuais e nós, os doutros tempos. Com que prazer

voltámos à nossa casa, à casa onde passámos bons momentos da nossa adolescência! Lá abraçámos, além de outros, o padre Carvalho – cuidado com as palmadas dele nas costas, que elas são pesadas! (eu que as senti...) e o padre Manuel Fernandes, ambos com respeitabilíssimas barbas brancas dos setenta e sua eterna juventude. Ao vê-los, veio-me à memória o tempo em que eram prefeitos em Cernache – há mais de cinquenta anos – e das tropelias que os pequenotes de então faziam sob a suas incipientes barbinhas de moços. Se bem se lembram, tínhamos quatro repastos diários, que, na linguagem tradicional, se chamavam: o almoço, o jantar, a merenda (ocasião para um pão com maçãs nas mais das vezes) e a ceia. Nas grandes festas havia o “jantar em comum” em que estavam presentes superiores, alunos e irmãos; na véspera do Natal, a Consoada era “Ceia em comum”. O doce de arroz, a guloseima desses dias. E viva o velho! Ora, em Novembro, no dia, no feriado do Beato Nuno de Santa Maria, padroeiro da Sociedade Missionária, era um acontecimento à parte. Eu conto, para conhecimento de todos. Na semana anterior, as duas prefeituras encarregavamse de preparar o material. Uma, armada de serrote e machado, penetrava na floresta densa da quinta, à procura de uma árvore inútil ou seca, de ramos com feitio de ninho. Se fosse preciso, lá estavam os destemidos transmontanos para subir. Logo que se destinasse a árvore, era abatida e transportada em triunfo para o recreio, o tradicional campo de futebol. E lá se implantava orgulhosamente. A outra turma encarregava-se de recolher a pruma, quanta mais melhor, tanto para se ouvirem as castanhas estoirar, como para a sessão de fogo preso. Duma vez a coisa foi importante: é que alguém se lembrou de trazer também umas tigelas de resina (não havia pinheiro que não as tivesse). No dia 6 de Novembro, ao cair da noite, ouviuse o toque da sineta para indicar a hora exacta do começo da função. Fez-se uma grande roda de pruma para as castanhas, e a árvore encheu-se entre os ramos, qual ninho gigante, de material incandescente, com as tigelas no topo, para que os pingos das faíscas da resina pegassem o fogo à pruma lentamente. Primeiro passámos aos comeres e beberes. Que

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bem sabiam as castanhas! Ainda estou a presenciar a algazarra da rapaziada ao ouvir o estrondo das castanhas e a saltar a fogueira... Finalmente um dos nossos melhores ginastas trepou à árvore e pegou fogo à tigela cimeira. Tudo parecia correr como planeado. Mas o fogo é que não esteve pelos ajustes. Parece que o efeito foi muito superior ao do costume. As labaredas alastraram rapidamente a toda a pruma e, talvez por se terem contagiado simultaneamente todas as tigelas, as chamas ganharam alturas nunca vistas. Eram enormes e o nosso entusiasmo era sem medida. Nós não pensávamos em mais nada deste mundo. Só que os moradores da vila de Cernache deram de reparar em tão estranho e tamanho clarão e passou-lhes pela cabeça um mau pressentimento. Porque aquilo era demais. Tanto assim, que um grupo deles veio bater à portaria: – Irmão, que incêndio é este? O Seminário está a arder e vocês nem reparam? No dia seguinte, o Sr. Craveiro (professor de francês) deu-nos mais uma das suas lições moralistas: – Meus meninos, aquilo ontem foi demais; pouco faltou para o povo de Cernache tocar a rebate! Nós rimo-nos à sucapa. É que ele também tomara parte na brincadeira. Era sempre convidado. Lapin du Pré
(Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 6)

(72). FÉRIAS EXTRAORDINÁRIAS Estou ainda a terminar uns dias de constipação, que me apertou nestes dias de chuva miudinha. Se o leitor quiser ter cuidado para não ser contagiado, é melhor ler o boletim com binóculos, a boa distância. É por isso que esta crónica vai atrasada. Faz-me lembrar a epidemia de gripe que atacou o seminário de Cernache nos idos dos anos quarenta. Era Reitor o falecido Padre Luís Tavares, natural de Ovar, ou coisa que o valha. Ainda o estou a ouvir nas suas prelecções semanais em que o tema era “correspondência à santa vocação missionária”, sempre em termos severos. Pois sucedeu que umas semanas antes da Páscoa caíram de cama uns três ou quatro alunos, com

a gripe. Os outros faziam de enfermeiros. Mas a gripe (seria a asiática?) não era de brincadeiras e vai daí os enfermeiros foram fazer companhia aos doentes. O médico – tenho uma vaga ideia que era parecido com o pai de Santa Teresinha, até nas barbas – entendeu fazer uma inspecção a toda a malta. E zás! Quem tivesse mais de 37º, ia parar à camarata. Escaparam uns seis da minha prefeitura. Ora uma destas! Logo nas vésperas da Semana Santa! E tantos responsórios para ensaiar! E qu’é das aulas? O Sr. Padre Reitor, tão moralista e tão rigoroso, foi obrigado a fechar o período muito antes do tempo. Ena que bom! A única vez que tal sucedeu em séculos de existência do seminário. O cozinheiro é que se viu nelas: ter que fazer dois tipos de comida, uma para os doentes, outra para os resistentes (que bem comeram nestes dias!). Quem se viu à rasca foi o ensaiador da Semana Santa: o Padre João Avelino. Faltavam-lhe os tenores, os da segunda não tinham o chefe de naipe, os baixos andavam à deriva. Para remediar a enrascada, ele berrava, ele batia o compasso com os pés no soalho do salão, ele barafustava. Mas a coisa não dava certo. Teve de improvisar novos chefes de naipe. E, às tantas, voltou-se para este escriba e deu-lhe voz de substituir o do seu naipe. Entretanto, alguns doentes, meio cambaleantes da cura, foram aparecendo. Foi mesmo por um triz! Mas as chefias estavam mudadas e não se podiam fazer mais experiências. Chegou a Semana Santa, com as aulas paradas (até me lembro que foi nessa semana que eu li, pela primeira vez, a Paixão e Morte de Jesus segundo as visões de Catarina Emmerich). Pois os cânticos, os responsos, as cerimónias decorreram mais ou menos bem. Só que eu nunca mais deixei de arcar com a responsabilidade de naipe das “segundas”. Deixem-me tossir de vaidade! Logo a seguir à Páscoa, talvez na segunda-feira, era o passeio extraordinário – todo o dia fora de casa. E fomos para a ponte do rio Zêzere, no sítio onde passavam as camionetes para Tomar, a tal ponte de que já falei. E de que se haviam de lembrar? Levar as panelas, loiças, os arrozes, as cebolas e temperos numa carroça. À falta de melhor, eram os alunos mais possantes (os transmontanos sempre na liça). E lá partimos todos contentes.

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Tinha-se encarregado um pescador de nos apanhar o peixe. Realmente o rio era farto de bons e grandes peixes. Foi uma destas arrozadas de se lhe chegar com o dedo. Ficámos empanturrados. Dia bem passado! Ao fim da tarde, toca a carregar os pertences da carroça e arrancar para o seminário. Já cansados, com a carroça pesada que se fartava (sempre a subir para Cernache), os nossos passos pareciam mais pesados. Mas, às tantas, chega-se para a minha beira um tal Geraldes Chaves (esse moço veio algumas vezes às nossas reuniões – qu’é dele?) e diz-me assim: – Vamos cantar para animar a rapaziada? E vá de entoar os responsos da Semana Santa, que tanto nos custaram naquele ano. Foi um fartar: Velum templi scisum est... Omnes amici mei... O vos omnes qui transitis... De Perosi e do Cón. Barreiros. Quem se lembra? Lapin du Pré
(Bol 52 (2.ª Série), Jan/Fev 1994, p. 6)

(73). RESPONSO A SANTO ANTÓNIO No tempo em que o seminário de Cucujães era dos filósofos – isto é que era importante ser filósofo!, imaginavam os de Cernache –, às vezes, no intervalo do jantar (não me obriguem a repetir que se chamava jantar ao que hoje se chama almoço), logo a seguir ao jantar, dizia eu, dava-se uma volta pela quinta. Ou se partia pelos lados da Tipografia, seguindo pela Gruta de N. S. de Lourdes; ou se começava pela eira, lado nascente. Era como calhava: não havia regra certa. Ora, por esta banda, por baixo das salas de estudo, havia umas laranjeiras, um tanque de água, uma bica de água pura, já perto do antigo seminário dos beneditinos. Foi por aí que nós, os filósofos, vínhamos de uma vez, descuidados da vida, desanuviados das fainas escolares, quando, de repente, nos surgiu pela frente o Sr. Bispo de Gurza, então ainda SuperiorGeral, acompanhado dos falecidos padres Vernocchi e Alfredo Alves. Mais atrás vinha o Sr. Pe. José Maria, irmão do Sr. Bispo e seu motorista.

Ainda mal tínhamos começado a beijar o anel, já ele nos dizia: – Eh! Moços! Perdi agora mesmo o anel episcopal e não faço ideia do sítio onde seria mais fácil tê-lo deixado cair. Dou uma moeda de 10$00 (dez escudos) – era um dinheirão! – a quem mo encontrar. Eu andei por estas bandas das laranjeiras e do tanque. Vós ajudais-me? Vamos lá rezar o Responso a Santo António, que ele é bom para isso: “Se milagres desejais, recorrei...” E logo toda a minha gente se lançou à cata do anel; mexeu-se erva sobre erva, de cabeça inclinada, olhos em bico – era uma agulha num campo de farta erva. Mas, por impossível que pareça, foi num instante: logo se ouviu uma voz: – Aqui está ele, sr. Bispo. – Parabéns meu rapaz, foste fino como um rato! E vá de contar, em termos simples, populares, coisas achadas com o Responso, oração que muitos ainda não conheciam. Formou-e um círculo a escutar com atenção e interesse, que o Sr. Bispo tinha um jeito especial para concitar o agrado com as suas conversas, até para entreter “os filósofos”, está bem de ver. Por pouco não contou toda a sua vida desde pequeno. Palavra puxa palavra – salvo seja! – e relatounos a sua recente visita ao Seminário de Tomar para ver a gente nova, os caloiritos da Sociedade (era pelo seminário de Tomar que naquela época se entrava); o que quer dizer que estaríamos nos meses de Novembro/Dezembro. – Fui ver os pequenos de Tomar. Coitaditos! Alguns tão pequenos que até fiquei com pena. Mas eles é que não se importavam lá muito. Alegres como pardalitos. Olhavam para mim muito espantados, porque não imaginavam como era um bispo e como era que um bispo pudesse estar ali no meio deles. Falavam muito à vontade, com simplicidade e franqueza. Um deles até me disse assim: – Ó Senhor Bispo, este hoje mijou na cama (sic!). Olhámos uns para os outros, meio espantados com a frase que tínhamos ouvido. Mas não tivemos muito que pensar: é que se ouviu uma tremenda gargalhada, como um trovão: era o irmão do Sr. Bispo que tinha uma voz poderosa. E desatou tudo às gargalhadas. O Sr. Pe. Vernocchi arranhava-se todo para aguentar uma certa seriedade, mas não o

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conseguia. O Sr. Pe. Alves casquinava miudinho, era contagioso. E nós, pobres “filósofos”, ficámos sem concerto. Tantos anos a aprender palavras polidas e vai-nos sair uma destas do Superior-Geral! Era demais! Aquilo não se dizia! Mas disse e pronto! Fomos para a sala de estudos, onde ainda se ouvia alguém a fungar. Lapin du Pré
(Bol 53, Mar/Abr 1994, p. 6)

(74). AI MEU RICO LATIM! I – Comecei-te Estive em Cernache no dia 15 de Maio. Era a reunião Magna dos antigos alunos. Há cinquenta anos, pela primeira vez, um reduzido grupo deles juntara-se numa das Casas da Sociedade Missionária. Este ano, portanto, foi a Rennião Cinquentenária da ARM. Eu podia lá faltar! Entrei furiosamente com o meu “bólide” ali pela esquerda do antigo salão de teatro e fui estacionar à sombra das laranjeiras, perdão, ao abrigo da chuva. Eh! Pá! Aquilo é que era chover! Tive de utilizar a rapidez adquirida no jogo do caçador pelas minhas “gâmbias” para chegar à portaria. Vislumbrara ali uns “rapazes do meu tempo”, devidamente acompanhados das esposas e demais comitiva familiar. Devo declarar, entretanto, que, apesar das altas velocidades das “de Vila Diogo”, ainda pude ser brindado por umas pingas de autêntica chuva, daquela que molha, doa a quem doer. E, de relance, ainda consegui ver, pelo canto dos olhos, uma breve paisagem da quinta e, logo ali em baixo, as ruínas do que foi outrora um farto pátio de galinhas. Galinhas e mais animais: havia patos e perus, havia galinhas da Índia, e um lindo rebanho de cabras, e até pombas... Foram brevíssimos instantes, mas suficientes para me trazerem à memória, em catadupa (não era só a chuva), cenas inesquecíveis da vida de seminarista... Eu via-me “na forma”, enfiado na batina, rodeado de dezenas de batinas – não sei como se chamam agora as batinas, que têm as cores de arcoíris, com predomínio para jeans; se calhar foram

criadas pelo Vaticano III ou IV, mas não acertam com as do Santo Padre. Mas... vamos à frente. E então via-me a rezar em latim, tudo em latim, a rezar sempre e muito em latim. Não sei se o verbo rezar ainda é regular. Mas dá a impressão que, em certas comunidades, se aparenta com certos verbos latinos: ou é irregular, ou tem ataques de míldio e é defectivo, ou até terá falta de vozes e é depoente. Continuando, porém, na minha linha de lembranças, naqueles tempos era assim: mal entrávamos em Cernache, vestíamos logo batina, rezávamos, como disse, em latim, entretínhamos o tempo do recreio na quinta (as cerejeiras e figueiras pagavam a fava) e estudávamos por todos os poros, especialmente em latim. Isso é que ele era duro de roer! Mas deixa estar que a matemática e o francês também davam azo a umas pancadas de cana! II – Meei-te Pois, por causa do negregado latim e do bem fornecido pátio das galinhas (que eu vi cheio de ervas e com os telhados a desabar) é que apareceu, de repente, ressuscitado na minha memória, a figura muito típica e familiar: o guardador daqueles animais, o Ti Zé das Cabras (se não me engano…), bom homem, bom cavaqueador e muito respeitador, quer com os superiores, quer com os alunos ou irmãos. No meio da conversa, metia infalivelmente ou “com sua licença” ou o “adesculpe” a sublinhar qualquer palavra que entendia mais indelicada. Como à sua moradia, mesmo ali debaixo da capela, chegava o eco das nossas orações, ele acompanhava como podia ou, no caso do latim, como “as entendia”. Bem certo é que a nós, às vezes nos momentos de maior recolhimento, também subia o eco dos seus animais: os cães a discutir qual deles imprimira maior velocidade a um gato, o glu-glu dos perus, o desafio musical dos galos, o tilintar dos chocalhos das cabras. Isto não era mesmo romântico?! Ora, uma das orações que ele ouvia, que mais procurava entender (por lhe meter confusões), era a que rezávamos ao meio-dia. Devo confessar que só agora, passados tantos anos, é que eu reparei que era quase “ipsis verbis” a actual Oração dos Fiéis – apenas diferia na resposta. Nós dizemos:

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“Ouvi-nos , Senhor”; e, nesse tempo, dizia-se em latim – claro! –: “Domine, miserere”; isto é: Senhor, tende piedade. (Esperai aí um momento. Até vou ver no “Manual de Piedade da SMPCU” as palavras textuais. Ah! Cá está ele – ainda tem uns santinhos pelo meio!). O “leitor” rezava assim: “Pro Papa nostro Pio (referia-se a Pio XII), precamur Te”; e nós: “Domine, miserere”. Depois era: “Pro fratribus nostris absentibus”; e nós: “Domine, miserere”. Pedia-se também pelos maometanos, pelos hereges, pelos judeus, não se esqueciam os pais e os parentes; e nós: “Domine, miserere; Domine, miserere”. Este latinório dava que cismar ao homem, fugia ao “ora pro nobis”e ao “saeculorum, amen”. Ele tanto andava preocupado que... III – Acabei-te … um dia encheu-se de coragem e com muito respeito e audácia desembuchou: – Ó senhor padre, “adesculpe-me”, mas eu queria perguntar-Ihe, com sua licença, uma coisa: Que reza é aquela à beira do jantar? (Eu já expliquei, vezes sem conta, que o jantar era ao meio-dia e não à noite. Não volteis a interromper a minha conversa, que eu não volto a ensinar). É que eu, continuou ele, queria acompanhar, “adesculpe”, mas não entendo o que vocês rezam, sempre a dizer “Homem e Mulher”; uma data de vezes “Homem e Mulher”. Eu, à tarde, ainda sei dizer no terço “orapronobis”, mas não sei para que vem sempre o “homem e a mulher” para o jantar. Que ideia faria o pobre de Cristo daquela oração?! E se ele visse tantos homens e mulheres na reunião da ARM, à hora do “jantar”... Teria ele previsto tamanha invasão? Só não previa o arraial de pancada que eu levei deles, quando assomei à portaria, mesmo com uma valente molhadela no corpo. Lapin du Pré
(Bol 55, Out 1994 / Mar 1995, pp. 6-7)

(75). UM CÁLCULO APROXIMADO Quando ainda era da Sociedade, o Seminário de Tomar, ou, mais exactamente, quando nós entrávamos para a Sociedade em Tomar, já lá vão uns bons anos, a portaria era do lado em que havia umas escadarias com muitos degraus, que iam dar ao corredor dos superiores. Aquelas escadas tinham muita imponência para quem era da aldeia, tinha um tamanho pequeno e olhava para elas pela primeira vez. E então, quando nos aparecia lá em cima um padre com barbas, a coisa era de impressionar vivamente um caloirito. Vós estais a lembrar-vos do que vos aconteceu nesse dia ao pisardes pela primeira vez os degraus? Dantes, já se ia de fato preto, na cabeça um chapéu também preto. Carregava-se uma mala ou saca com o enxoval. E ali estava à porta um sério candidato a missionário. Mas as barbas é que faziam impressão. Quantos de nós ficámos a titubear, acanhados, sem saber se seguir em frente, se dar meia volta! Nesse momento singular, no meio de toda a nossa confusão, a voz quente e amiga do Sr. Reitor e de algum dos futuros colegas prendiam-nos ali. Éramos empurrados com calor para as nossas instalações. Contavam-nos peripécias e brincadeiras, desafiavam-nos para junto da malta ruidosa, que andava no recreio ou que vagueava pelos imensos corredores. E, às tantas, estávamos envolvidos no ambiente do seminário... Lá apareciam alunos da nossa Terra, cercavamnos com perguntas, queriam ouvir coisas; e nós íamos abrindo a nossa tacanhez, soltávamos a língua e já estava conquistado o entusiasmo. Enquanto isso nos acontecia, os nossos familiares (quando nos tinham acompanhado até ali) conversavam com os superiores, eram informados da vida que nos esperava. Que estivessem tranquilos que tudo correria pelo melhor. O Sr. Reitor gostava de nos recordar certos desabafos ouvidos nessas trocas de impressões. E contou-nos que certa vez, além dos pais, também foi uma irmã mais novita, a qual passou o tempo pasmada a olhar para aquilo tudo, nem falava. Virava a cabeça e os olhitos para um lado e para ou-

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tro; estava mesmo absorta com tudo o que via. E o Sr. Reitor deu de reparar na curiosidade dela. Daí a nada estavam os dois a conversar; a rapariguita perdia o acanhamento e soltava a língua. Aproveitando o à-vontade conquistado, levou-a a ela e aos pais numa volta pelos corredores, pelas salas de aulas, pelos claustros do convento. Até foram à Charola, onde havia um enorme tubo de órgão – o órgão colossal que os franceses levaram aquando das Invasões. Como era pesado demais, deixaramno como relíquia. – Eh! Que casa mais grande! – exclamava ela. É maior do que a igreja da nossa terra. É para aí duas vezes maior! – Olha lá, minha menina, interrompeu o reitor, tu que achas: Quanto custou esta casa? Muito ou pouco? – Ui tanto! Mais de “mil merréis”, calculou ela. Um sorriso de simpatia aflorou aos circunstantes – reitor e familiares. Naqueles tempos – quem se lembra? –, tudo se pagava em “mil réis”. Era o tempo da transição para os escudos. E tanta piada o senhor reitor achou à saída da miúda que muitas vezes se havia de referir a ela. Mas cautela! Agora não me venhais dizer que isto se passou com o vosso Lapin du Pré
(Bol 60, Mai/Jun 1996, p. 8)

(76). QUEIMAR PESTANAS… Para Quê? Este vosso colega tem cada azar! Na reunião de Cernache, apanhou uma valente carga de água; agora em Valadares, foi o que se viu – lá veio ela durante o jantar comum. Serviu para animar a Reunião GeraI de 1996. E não era precisa, desde já vos digo, porque, mesmo sem ela, aquilo foi um sucesso! Apareceu gente de todas as idades, de várias épocas e de muitas procedências: novos, novíssimos, antigos e, mais do que antigos, antiquíssimos. Imaginai que até lá foi dar o meu professor de matemática – de álgebra, para ser mais exacto. A exactidão é o âmago dessa disciplina, dizem os mestres. Creio que foi a vez primeira que o vi, depois dos tempos áureos de Cernache. Bela ocasião, que eu aproveitei para desabafar nas suas barbas –

veneráveis, brancas e extensas – um velho recalcamento: – Ora cá está o professor que nos marcava nas aulas com a cana! E ele, com aquela segurança e matreirice dos velhos tempos: – Olha lá! Alguma delas caiu no chão? Era mal empregada!!! Os circunstantes desataram na galhofa com a saída dele, com uma resposta daquelas, assim tão pronta e atempada. A cana? Que história é essa? – É uma longa história (que já vem de longe). Eu conto-vo-la em duas penadas; o que exijo é que não me interrompais, como tendes o costume, com dúvidas e tosses despropositadas, sempre que eu quero ser um narrador exacto (como na matemática) e imparcial. Desta vez até vos mostro os locais e os personagens, além de exibir os cadernos escolares, onde podereis examinar as boas notas que ele me dava, sem falsa modéstia nem cunhas. Como sabeis, as salas de aula situavam-se rente à estrada que vem de Tomar em direcção à Sertã, do lado da portaria. A primeira era de português e francês, seguia-se a de matemática. Depois da portaria, havia as de latim e história. Em francês e português, pontificava o Sr. Craveiro, professor leigo, antigo aluno do seminário. Todos estão lembrados dessa figura, que se distinguia à distância, pelo bigodinho à Hitler e a sua espaçosa careca bem penteada à Pavarotti. Nas suas aulas nunca sabíamos o que nos esperava, porque ele tinha acessos: umas vezes, de moralizador, outras, de pura e boa disposição, ou ainda de tremendas descomposturas, ou de outras reacções inesperadas. O professor de matemática era de compleição mais delgada; acumulava várias facetas: era engenheiro dos célebres bólides que desciam a avenida das tílias vertiginosamente, construtor da gruta, jardineiro de ar livre e de estufa; quanto a canto e música, deve ter sido das negações mais notórias. Mas nas aulas, eu vos conto... nós entrávamos sempre a tremer – se ele exigia, exigia, exigia tudo ao máximo. Vede lá que dava sempre pontos em todas as aulas, marcava temas sobre temas para as aulas de estudo e chamava habitualmente quatro alunos ao quadro, simultaneameute, com o quadro dividi-

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do em quatro nesgas. E cada aluno tinha que resolver “in loco” o seu sistema de equações, enquanto ele, professor, comandava com a ponta da cana, que ia apoiando em ritmo constante na tola do beneficiário, ao som de berros desalmados. Não doía lá muito, mas sempre era um suplício, sobretudo para os menos dados a voos exactos (algébricos, claro). Nesta altura da vida actual, nós poderíamos comentar: e para quê, Santo Deus, se os computadores vieram tornar obsoleto esse esforço?! Pobres pestanas queimadas ingloriamente! Ai! se nós adivinhássemos... Ia eu a dizer que era uma gritaria. E era mesmo. Tanta e com tal coragem que se ouvia na aula de francês, separada apenas por uma parede; o que impedia de nos concentrar “nas jogadas” dessa disciplina. E diga-se em abono da verdade: até o Sr. Craveiro se distraía das suas regras de gramática ou das tradicionais literatices. A coisa tornou-se tão feia que certo dia, num daqueles acessos inesperados, o Sr. Craveiro levantou também a sua voz (e que voz!) e vai de gritar no máximo registo: – Ó colega de matemática, então como é? Nesta casa já não se pode falar francês em paz? Mas ninguém ouviu, ninguém se deu por achado. – Ai ele é isso? Eu já lhe digo! Venha cá o Sr.Ducelino. “Pardon, levez-vous et venez auprès de moi”. E desatou a interrogar o aluno, aos berros, ainda mais altos que os do professor da sala ao lado. A malta entrou em delírio, estava no auge do gáudio e o aluno que se encontrava “auprès” do Sr. Craveiro suava as estopinhas, de tão atrapalhado. Nestas ocasiões em que o candidato tomava fôlego ou titubeava, o professor de francês começava a ajudar, dizendo as palavras da regra, e nós, em coro, entrávamos e recitávamos, como na catequese, até ao final. Era uma barulheira. E que pagode! Uma aula sem exemplo. Contudo, o de álgebra não esmoreceu. E lá se continuou a ouvir, horas inteiras e vários dias por semana, a sua voz fina e enérgica. Era demais. Certo dia, muitos dias depois, aconteceu o imprevisto: o professor – o tal barulhento e amigo da cana – fez-nos um inquérito, um referendo, a que cada um respondia da sua carteira.

– Porque é que tu achas que as notas de matemática são tão baixas? – Porque... eu sei lá... porque é uma disciplina muito difícil – responderam quase todos, por cópia do primeiro. Mas lá para trás, lá nas últimas carteiras, onde figuravam os mais altos em estatura e em más notas, alguém saiu com esta: – Porque o Sr. Professor bate... bate muito. – Ai tu achas isso? É por eu bater que tu não aprendes? É claro que a seguir a esta corajosa resposta todos os outros confirmaram e foi uma votação oral por unanimidade. Era por causa da cana. – Se é por causa disso, como vós dizeis, então, a partir de hoje, acabou-se a cana, acabaram-se os berros. Doravante, se não aprenderdes, as notas é que vão substituir a cana. Vós ficais responsáveis. E foi mesmo o fim da cana e aqui acaba a verdadeira bistória. Perguntam-me alguns daí: e como foi isso? Eu explico: o segredo daquela cena foi obra do novo Superior-Geral, D. Manuel, bispo de Gurza. Tivera uma reunião com superiores, prefeitos e professores e nela decidiu: “Nos rapazes ninguém bate! Entendido?” Chamar rapazes era bem o seu estilo... Lapin du Pré
(Bol 61, Jul/Set 1996, pp. 2 e 5)

(77). HISTÓRIA ATRIBULADA DUM SALPICÃO TRANSMONTANO A história que vou contar passou-se no já longíquo Verão de 1955, no dia do regresso das férias grandes. Quando se procedia à entrega generosa das sobras da merenda do regresso de férias, este mortal escriba não resistiu à tentação de ficar com o enorme e apetitoso Salpicão, que a mãe lhe metera na fardela, para comer na viagem. É que de Carção a Tomar, naquele tempo, eram muitas horas de caminho e, então como agora, apetite era coisa que não faltava a este pobre pecador. Ainda não estava recomposto daquela “mentira piedosa” de que tinha entregue tudo o que sobrara, e logo começaram as minhas atribulações,

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sendo a primeira onde e como guardar aquele precioso troféu. Na carteira, nem pensar; na camarata, ainda pior. Tudo seria bem mais fácil, não fora aquele cheirinho de arrebitar o nariz mais obtuso. O cheirinho é que era a grande questão. Mas, como a cabeça foi feita para pensar, para neutralizar um cheiro nada melhor que outro cheiro. Eureca!... Já tenho solução. Peguei no dito, embrulhei-o em papel, depois meti-o numa grossa meia de lã e, zás!, meti-o dentro duma bota. Custou um bocado a entrar mas, para meu sossego e seu desconforto, lá o encaixei como pude e depois foi só guardar a bota, lá no fundo da mala. Com a vinda do Inverno, voltaram os trabalhos. Chegada a altura de calçar as botas, ainda pensei em me confessar e entregar o malvado, mas o medo da reprimenda que o Pe. Garcês de certeza me iria aplicar e, sobretudo, aquele irresistível cheirinho a fumeiro transmontano, foram mais fortes do que eu e, então, resolvi mudá-lo para um sapato. Ainda me aconselhei com o João Landeiro, que era do Souto do Sabugal, rapaz já muito experiente e perito em histórias de guardas e contrabandistas – a propósito, ninguém sabe notícias dele? –, se não seria melhor comê-lo num passeio ou mesmo deitá-lo fora, do que ele me dissuadiu, dizendo que levá-lo para o passeio era muito perigoso e deitá-lo fora seria um enorme desperdício. Até que, finalmente, chegou o dia de ir de férias. Com que alegria eu meti o meu rico salpicão no meio daquela merenda horrorosa, de pão e queijo americano, que nos forneciam para a viagem! Só depois de Santa Cita me senti seguro para ir ao fundo da saca procurar o meu petisco. Duro como estava, nem a faca lhe entrava, pelo que não houve outra solução senão atacá-lo... a dente. Dentada atrás de dentada, lá o fui roendo como pude e soube. Aquilo já era carne seca tremendamente salgada, mas parece-me que nunca comi coisa que me soubesse tão bem, de forma que se tornou para mim como que uma referência de qualidade. Bem certo que nunca mais comerei salpicão como aquele; quereria apenas, com estas duas le-

tras, homenagear respeitosame aquelas mãos de sonho, que fabricavam aquelas incomparáveis maravilhas. C. Andrade
(Bol 64, Ago 1997 / Abr 1998, p. 7)

(78). 1954 – DE CARÇÃO A TOMAR (Parte IV) Finalmente Tomar. Desde aquela longínqua madrugada em que deixara para trás todo o meu mundo, passaram já mais de vinte e quatro horas, vividas num ritmo alucinante em comboios, carros e autocarros, numa sequência arrasadora de sentimentos, emoções e novidades a que não estava habituado. Chegado ao Convento, o velho Buik descarregou-nos na portaria, uma porta enorme, só comparável ao arco da ponte do rio Maçãs. Enquanto esperava que tirassem da bagageira a minha saca da merenda (o enxoval já fora despachado antes na enorme mala revestida a chapa aos quadrados verdes e pretos), quando, vencido pelo cansaço de duas noites quase sem dormir, tentei assentar bem os pés no chão, vi logo que aquele pó de calcário nada tinha a ver com a terra da minha terra, que eu nem fazia ideia para que lado ficava, e que o naco de céu avistado por cima daquele mastodonte enorme que era o Convento nada tinha a ver com o horizonte sem fim das eiras do S. Roque. Ouvem-se, então, as primeiras instruções, as primeiras proibições, a primeira tentativa de organizar a primeira “forma”, tudo o que eu não sabia que existia nem suspeitava que pudesse vir a existir. Com toneladas de peso nas pernas, os olhos a arder de sono e um turbilhão de ideias a baralhar completamente a cabeça, eis-me agora no meio de vinte ou trinta aventureiros, quais cordeiros desmamados à força, lançados sós nos mistérios esmagadores do desconhecido e que, procurando as mães para todos os lados, só viam crianças como eles, feitas homens à pressa e à pressa feitos viúvos de gravatas desajustadas, fatinhos a estrear e sapatinhos brilhantes mal feitos aos pés. Por mais que rebuscasse, não encontrei nada no meu imaginário que pudesse comparar à imen-

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sidão daqueles corredores sem fim, à maravilha das escadas de caracol, à grandiosidade dos claustros. Aturdido por tudo e sem saber como, vi-me diante duma mala que reconheci logo como “a minha” mala. Agarrei-me a ela como a uma âncora, algo que sim, que era meu, que me reidentificara comigo. Ilusão fugaz prestes desvanecida com a primeira ordem. – Os meninos agora vão fazer a sua cama. – Não. Esta agora é que não. Fazer a cama? Aquilo em Trás-os-Montes era só com as mulheres. Ouvi as explicações e, para não fazer feio, que remédio, lá fiz como os outros. Feitas as camas e arrumadas as malas, eis-nos de saca da merenda às costas rumo ao refeitório e aqui a segunda ordem, avisando que, a partir daquele momento, os meninos eram todos irmãos (não via como aquilo podia ser verdade se meu irmão era só o Manuel e esse tinha ficado em Carção), pelo que devíamos entregar todas as merendas para serem todas de toda a gente. Esta é que não entendi nem aceitei. Isto já era mesmo demais. Pelo sim pelo não, entreguei o polvo frito da tia Angélica, o pão, a chouriça e a marmelada, mas ciosamente guardei no sapato o famoso salpicão transmontano que já mereceu honras de crónica nestas páginas. Porto, 2001 C. Andrade
(Bol 71, Mar 2001, p. 8)

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6. CARTAS COM ASSINATURA

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(79). Carta de JOÃO FERNANDES CHENDO Lisboa, 8 Outubro 1968 Exmo. e Senhor Caro delegado da A. R. M. Sou um estudante universitário em Económicas e depois de vários anos decorridos desde que frequentei os Seminários da SPMCU acabo de receber alguns prospectos e ter conhecimento de que existe uma associação de antigos alunos – a A. R. M. – de queV.Ex.cia é delegado em Lisboa. Com a presente desde já me considere sócio e mais solicito a V. Ex.cia que ao abrigo da alínea c) artigo 18.º do Capítulo II dos estatutos da mesma, me considere dispensado temporariamente do pagamento das cotas por motivos a que certamente não é alheio: um estudante fora de casa – sou da Beira – e sem qualquer outro auxílio que não seja a mesada “dos pais”. Presentemente tento arranjar um emprego “part-time” e logo que a minha situação financeira se modifique o comunicarei. Sou João Fernandes Chendo
(Bol 23, Fev 1969, p. 6)

(80). Carta de ANTÓNIO ALVES MOREIRA E SILVA Rio de Janeiro, 23 de Junho de 1969 À Redacção da “ASSOCIAÇÃO REGINA MUNDI” Caro Sr. Director: Chegou-me às mãos o Boletim publicado sob número 25, e confesso, que no momento, ao manuseá-lo, fiz, sem me aperceber do que se tratava, nessa forma inconscientemente automática com que nos habituamos a passar uma vista de olhos sobre tudo o que de impresso nos vem às mãos, e que logo jogamos em cima da mesa, para uma próxima leitura mais detalhada, mas sem direito a prioridades em nossa agenda de leituras. Eis, no entanto, uma particularidade a chamar a minha atenção, quando já deixava que se perdes-

se, submerso num monte de impressos, o Boletim: ANTIGOS ALUNOS DA SOCIEDADE MISSIONÁRIA PORTUGUESA. Avidamente tomei o Boletim de novo em minhas mãos, a percorrê-lo de uma folha à outra, acho que não demorei segundos, mas o suficiente, para mergulhar profundamente num mundo delicioso de recordações. E, eu, que há muito, por uma questão de terapêutica em relação ao mal das saudades, havia cortado relações com o passado, vi-me numa prodigiosa regressão de memória a evocar tantos e tantos acontecimentos, vividos no Colégio das Missões Religiosas Ultramarinas de Tomar. A minha passagem por Tomar, foi meteórica. Lá cheguei para um primeiro ano do ano lectivo de 1931/1932, tendo como bagagem a frequência de um 3.º ano de liceu, que não me valeu de nada pelo pouco que sabia de latim. Mas quantas recordações!... Tudo já vai longe, mas ainda me parece ontem!... Era a figura austera do reitor, sr. P. João Lopes, homem vivido ao sol de alguns continentes na sua missão de pregar o amor entre os homens. Era a figura do boníssimo director espiritual sr. Padre Jaime Boavida. Eram os professores sr. P. Albano de Paiva Alferes, P. Arnaldo, P. Marinho e a figura divertida, apesar do homem sério que era, do professor de desenho geométrico e ginástica, major Luís Aparício, e tantos outros, entre os quais não posso esquecer o velho mordomo, a quem muito secretamente dava umas gratificações, para me deixar à noite debaixo do travesseiro, na camarata, umas guloseimas a mais, além daquelas que eram servidas parcimoniosamente no refeitório. E quantos episódios pitorescos eu poderia contar, dos muitos que aconteceram, nesses anos já tão distantes, mas que no entanto ainda me parecem tão próximos. Foi uma alegria ler o Boletim. Poderá ser que, por ele, venha a ter conhecimento de tantos condiscípulos, muitos que me distinguiram com sua amizade entre eles. Cordialmente António Alves Moreira e Silva
(Bol 26, Ago 1969, p. 2)

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(81). POSTAL DE NAMPULA Como vedes é já de Nampula que vos escrevo e principalmente o faço para desejar um óptimo e felicíssimo Natal à “Família armista” que tenho sempre bem presente no meu espírito. A minha viagem decorreu muito bem e encontro-me cheio de saúde e boa disposição, apesar deste tórrido e húmido clima. Tive maravilhosos contactos com os armistas – em Luanda com o Idalécio, o Sá e o Craveiro Morais, inexcedíveis todos em gentileza, atenções e a mais franca e fraternal amizade; no Lobito apareceu-nos o Manuel Dias Duarte, levou-nos no seu carro a ver Benguela, exteriorizando a sua muita alegria por contactar connosco. Em Lourenço Marques estive uns momentos agradáveis com o chefe da nossa Delegação, Dr. Matos, agora promovido a maior responsabilidade. Tive também contactos leves com outros armistas cujos nomes agora não recordo, sempre em ambiente de muita amizade. Bem-haja a ARM por tudo isto e que ela possa estreitar sempre mais os laços que nos unem. Por enquanto estou em Nampula em férias. Depois direi mais. Um abraço muito amigo para todos. Em íntima união de orações e sentimentos, sempre ao vosso dispor. Nampula 15/12/69 C. P. 54 Pe. Manuel Fernandes
(Bol 29, Fev/Mar 1970, p. 2)

(82). UMA CARTA QUE NÃO É AINDA O ARTIGO PROMETIDO Doutor: O seu postal do dia 11 chegou-me às mãos poucas horas antes da minha partida para Angola e Moçambique. Francamente; não imaginava que fosse tão catastrófica a situação literária do Boletim da ARM. O Pacheco, meu inesquecível condiscípulo, foi sempre um viveiro de ideias e iniciativas e é capaz de extrair prosa e verso do mais compacto dos armistas.

De si nem se fala! O Dr. Albino chegou àquela fase invejável e gloriosa do varão celebrado pela Sagrada Escritura pela fecunda habilidade com que tira do cofre, onde guarda os tesouros, raridades novas e velhas. Está visto e provado em letra redonda. A mim pede você, nestas dramáticas circunstâncias, umas palavrinhas. É um diminutivo familiar e carinhoso. Realmente, adivinhou ser má altura para um artigo grande e solene. Ando, desde manhã, a arrumar os trapos e os papéis na maleta de viagem, e parece-me estar já no ar – situação pouco jeitosa para organizar ideias. Se estivesse calmo, enchia-lhe duas ou três colunas a encarecer a necessidade e a beleza de promover a amizade prática entre os armistas, de lhes avivar o ideal que um dia o Senhor lhes fez luzir no espírito, de orarem uns pelos outros e pelos nossos missionários e aspirantes. A missão essencial do Boletim é precisamente esta de despertar e ligar almas e corações. Não temos na ARM leis duras que nos prendam pelo pescoço, mas pretendemos manter e reforçar laços que nos juntem pelo espírito, pondo-nos a todos, cada qual no seu lugar (o lugar onde a Providência nos colocou), ao serviço do Senhor e dos irmãos, ou melhor, ao serviço do Senhor nos irmãos. É que, desde a Incarnação, o amor de Deus passa pelo amor dos homens. Nem todos puderam consagrar-se à missão no sentido estrito. Mas ninguém está dispensado de ser fermento, sal e luz. Esta obrigação junta à amizade natural entre condiscípulos é o denominador comum dos membros da ARM. E o interesse pelo Boletim, traduzido concretamente em colaboração literária e no pagamento pronto e generoso de cotas, é sinal humilde mas convincente de que está atento e de que não há curto-circuito. Meu caro e bom amigo, isto não é um recado nem um artigo. É em ponto pequeno e em linguajar familiar o que eu diria se o tempo fosse mais e um pouco mais sossegado. Pode informar a ARM de que o interesse da direcção da Sociedade Missionária por ela não diminui. O Relatório enviado ao Governo e à Santa Sé dedica-lhe um parágrafo, como o ano passado. E diga-lhes sobretudo que rezamos por todos! Com muita amizade Padre Alfredo Alves, Superior-Geral
(Bol 30, Abr/Mai 1970, p. 3)

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(83). Carta de ZÉ MARIA OLIVEIRA CAROS AMIGOS: Recebi há dias o Boletim da ARM que a minha mãe me mandou para aqui. Brevemente receberão o dinheiro da assinatura pois já escrevi à minha mãe nesse sentido. Agradou-me receber o nosso Boletim e foi com saudade que o li. Soube através dele do paradeiro de alguns camaradas meus e também eu vou dar sinal de vida. Encontro-me no momento aqui em Moçambique a comandar um destacamento militar junto à fronteira com a Tanzânia. Talvez no próximo mês vá para a sede da minha companhia. Estou em Moçambique desde onze de Maio de 1970. Felizmente no meu pelotão ainda não tenho desastre nenhum. Também aqui em Moçambique se encontra o ANTERO LEITE DUARTE em SPM 1164 e o DANIEL DOS SANTOS PEREIRA do qual não sei o SPM. Ambos prestam serviço como alferes. Como capelão do meu batalhão está o Pe. ZÉ MARIA DA COSTA MOREIRA. Em Julho espero estar aí na Metrópole em gozo de férias e então aproveitarei a ocasião para visitar a Direcção da ARM. Para finalizar e como nos encontramos na semana Pascal os meus votos sinceros duma Páscoa muito feliz para todos os Armistas e suas Famílias. Não esqueçam nas vossas orações estes que lutam pelo bem no mundo. Com um abraço do ZÉ MARIA OLIVEIRA
(Bol 35, Abr/Mai 1971, p. 2)

(84). UM SOS DA MISSÃO DE CRISTO REI O nosso pequeno grande Jornal recebeu do “nosso” Rev. P. Manuel Norte uma carta S.O.S. de que passamos a transcrever alguns períodos: “ A Missão de que sou superior nasceu mas não tem padrinho há quase 2 anos. Não quererá o vosso jornal aceitar esse honroso encargo, passando especialmente a auxiliá-la como puder? Por mim

comprometer-me-ia a dar notícias da “criança” em todos os números do “ARM”. Como só se ama o que se conhece, aí vão os primeiros apontamentos: Área: 3 732 Km2. Habitantes: 32 000, sendo 1 267 católicos, 508 catecúmenos, 110 famílias cristãs, 25 escolas da Missão, com 2 569 alunos, além de 7 da Direcção Escolar, também visitadas por mim. O apostolado em regiões de domínio maometano co-cristãos são, por assim dizer, conquistados a ferros. A rapariga, como tem valor comercial, é mais perseguida pelos pais e ameaçada, para não se fazer cristã porque, nesse caso, já não poderá andar de qualquer maneira e terá que casar, ter um só marido, etc., etc. No entanto, temos 35 raparigas a prepararemse para o casamento e um próximo novo curso promete já ser mais volumoso. Edifícios: O Senhor Bispo deu-nos uma residência bem boa; o edifício escolar tem seis boas salas. Mas não temos ainda igreja, nem Irmãs, nem casa privativa para as noivas. A nossa concessão é de 350 hectares de mata, a que já arrancámos 30 hectares para começar a cultura do algodão. Veículos: Land Rover, oferecido pelo Senhor Bispo, 1 motorizada muito doente que trouxe da Metrópole, uma bicicleta e duas pernas que vão servindo. Precisamos: de tudo mas... uma sineta, uma motorizada que não atraiçoe, filmes de projecção fixa, quadros religiosos para os casais cristãos, terços, roupas usadas ou novas, calçado, e até, calculem, notas de Banco. Pedimos orações, especialmente a exigir do Patrono Cristo-Rei um tractor, urgente. Não duvidem de que esta gente só se salva com a graça e essa “compra-se” pela oração. Rezem, rezem por eles e não me esqueçam também. Ah! Um sonho: Gostava de, num sítio maravilhoso que cá tenho, colocar uma imagem de Cristo-Rei, em mármore; aí de metro e meio. Passa lá sempre tanta tropa! Lembrar-se-iam do de Almada. E quem sabe o bem que daí adviria...”. In Jesu Pe. MANUEL NORTE (Metoro - Porto Amélia)
(Bol 38, Nov/Dez 1971, pp. 1 e 2)

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(85). Carta de JOSÉ (MATEUS) CRESPO Saudades, muitas saudades Amigos: Antes de mais, a clara confissão de que, só por desleixo, ainda vos não dei notícias ou, ao menos, ligeiro sinal de vida. Será isso devido ao frio que temos de suportar nesta cidade serrana durante uma boa parte do ano, em que, com frequência, se registam temperaturas negativas? Ao epíteto de “cidade da saúde” teremos que juntar-lhe o de “cidade do frio”. É preciso não esquecer que está situada a uns 1 058 metros de altitude. Franqueza exposta, fico certo não me será negada a vossa indulgência. Amigos, penaliza-me imenso não haver ainda assistido a qualquer das reuniões realizadas, e que já não foram poucas, mas, além do mais, a tal contrariedade não tem sido estranho o negativo saldo financeiro que tem andado cá por casa a fazer companhia, e ainda algumas vezes o precário estado de saúde. Não está, todavia, perdida a esperança da efectivação de tão grande como justificado desejo. Está dentro do plano operacional aproveitar a que vier a ser realizada durante o mês de Setembro. Por norma, faço sempre a leitura do boletim que generosamente me tendes enviado, duas ou três vezes, com incalculável insaciabilidade. Obrigado. Pela leitura revivo os dias mais felizes da minha vida, os dias da nossa alegre e florescente juventude. À generosidade assaz demonstrada da vossa nobre qualidade de ARMISTAS se deve. Os anos passaram, é certo, e uma grinalda branca nos ornamenta já a fronte, mas a saudade de tudo e de todos mantém-se, perdura. Jamais se apaga. Se bem que os anos pesem um pouco, no entanto o espírito conserva a mesma juventude. Jovem como nos dias em que, alegremente, brincávamos nos extensos corredores ou claustros do Convento de Cristo e cercanias da rainha nabantina; jovem como nos saudosos tempos em que, a meio da semana, dávamos o nosso passeio através dos verdejantes campos cucujanenses, embelezados e aromatizados pelas boninas e malmequeres; jovem como quando francamente ríamos, e saltávamos no formoso e odorífero canteiro, berço de Nuno Álvares Pereia, em Sernache do Bonjardim.

As poucas vezes que com o Raimundo Cardigos já me encontrei, serviram-me de verdadeiro tónico reconstituinte, e demos-lhe o cariz de autêntico ZIPZIP. Aquele que durante a nossa vida colegial conhecíamos por Fonsequita, hoje António Alves Rodrigues, como capitão na situação de reserva, encontra-se nesta cidade a comandar a P. S. P. Evidentemente que, de quando em vez, embora o Rodrigues não tenha muita vontade de gastar saliva, tem que me aturar durante esquecidos minutos no seu gabinete, recordando nomes e passagens da vida estudantil cucujanense. Tive conhecimento que andou pela estância sanatorial desta cidade o Padre Julião Valente, mas tal notícia só me chegou depois da sua saída. O Padre Serralheiro também durante dois anos na mesma estância sanatorial Sousa Martins permaneceu, em recuperação da gravemente abalada saúde e energias gastas no ultramar. Durante esse período, como é natural, falámos e passeámos. Não esquecemos o “AGULHAS E ALFINETES” de que foi director, editor e administrador. Restabelecido, fez-se rumo a Mértola, onde depressa se esqueceu do velho amigo que, no seu dizer, nesta cidade Sanchina lhe ajudou a passar maus dias. Bem, AMIGOS, se algum de vós passar pela cidade da GUARDA, não hesite em me procurar na Rua de S. Vicente n.º 52 – 2.º, que é a minha residência. Para já, a oferta da confraternização amiga com uns aromáticos “COGNACS” de “nuetros hermanos”. O Pe. Serralheiro, se quiser, algo sobre isso pode dizer, bem assim acerca dos passeios realizados a Ciudad e Salamanca. Com um abraço de saudades, cá vos espera o AMIGO José (Mateus) Crespo
(Bol 41, Jun/Jul 1972, pp. 2 e 4)

(86). De Luanda – CARTA DE INÁCIO HENRIQUES LAPA Caros Armistas: Os meus melhores cumprimentos e votos de prosperidades. Depois de ter sido descoberto pelo bem conhecido e dinâmico armista Joaquim Craveiro da Gra-

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ça Morais, mais conhecido em Luanda pelo Morais da Arcádia, cá estou a dar-vos conta de mim e da entrevista que a referida descoberta proporcionou. Foi com imenso prazer que abracei este antigo condiscípulo, dos anos 1934-40, que pela sua jovialidade, dinamismo e extraordinária memória dos factos ocorridos naquele tempo, nem parece ter sofrido o desgaste de quase 40 anos já volvidos. O nosso encontro descontraído mas cheio de atenções e cortesias como se fosse um seu familiar dos mais íntimos, teve lugar no seu estabelecimento mais conhecido, a “Arcádia”. A conversa, bastante animada e reveladora, foi regada com uísque. Por ela fiquei a saber uma grande quantidade de notícias sobre a vida, funções e localizações de muitos rapazes da família armista, condiscípulos uns e outros mais antigos ou mais modernos. O Morais é realmente um ás do contacto, tanto cá como na Metrópole, procurando os familiares onde quer que eles se encontrem. E notei que entre os armistas há mais laços de camaradagem, maior harnonia e espírito de colaboração do que entre muitas famílias que o são pelo sangue. Isto mostra que a Escola que nos deu asas para a vida também nos soube incutir a verdadeira religião da fraternidade humana, o autêntico sentir de irmãos em Cristo. Quando há dois anos fui à Metrópole em gozo de graciosa, não me contive sem ir passar algum tempo ao Cernache do Bonjardim, terra a que me prende uma afeição especial por ter sido no seu seminário que bebi os conhecimentos que me prepararam para a Vida. E estou certo que o mesmo acontece com muitos outros que de lá saíram. É uma romagem de saudade e de gratidão ao Seminário que nos deu a sólida formação que trouxemos para o Mundo e o desejo de contactar com antigos condiscípulos e professores que lá se encontrem. Proponho, por isso, que ali se faça uma casa armista para repouso e reunião de Armistas especialmente durante as suas licenças e férias. Uma casa de todos em Cernache do Bonjardim era mais uma obra social de grande alcance, lugar de colaboração fraternal e incentivo para romagem de todos nós à Casa-Mãe. Bem-haja o Morais que me deu a conhecer o movimento armista e até me ofereceu um exem-

plar do Boletim que me sugeriu estas ideias sobre as quais espero se pronunciem os elementos mais relevantes da A.R.M. Vou mandar pagar a minha quota e espero que não deixem de me enviar o jornal. Um abraço a todos do Inácio Henriques Lapa
(Bol 46, Mai/Jul 1973, pp. 1-2)

(87). Carta do Pe. MANUEL TRINDADE Vargem Grande,12 de Setembro de 1993 Caríssimos Amigos, (...) Como esta já vai longa demais, limito-me, para terminar, a um pedido que não está muito nos meus hábitos, mas a que as circunstâncias me obrigam. Porteiras é uma comunidade de cerca de 50 famílias, assentadas há anos pela Paróquia numa gleba de terreno adquirida para esse fim. Lançaram-se agora à construção de uma capela. Eles mesmos fabricaram os tijolos, e deram outras ajudas importantes. Mas o ano foi muito mau para os lavradores, e tiveram de parar a construção, quase no momento de pôr a cobertura. Desejariam pelo menos que a estação das chuvas a encontrasse com o telhado em cima. Se cada um dos meus amigos me enviar o equivalente a 10 dólares (um almoço português dos mais simples!), eu garanto que concluímos a capela antes do fim do ano. Valeu? Fico a aguardar a vossa... resposta! O meu agradecimento vai já antecipado! E Deus dará ainda recompensa mais valiosa! Um abraço muito amigo para todos e cada um. Com sincera amizade, Pe. Trindade
(Bol 50 (2.ª Série), Set/Out 1993, p. 5)

(88). CARTA ABERTA AOS ARMISTAS As exigências cada vez mais prementes da vida quotidiana, por razões pessoais e profissionais, limitam cada vez mais o nosso tempo disponível. Somos assim obrigados a adiar sucessivamente o que não tem carácter de obrigação rígida, transferindo para amanhã as realizações que programámos para hoje.

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Já não somos donos das nossas horas livres e despreocupadas, pois as simples ocupações de rotina, o dinamismo da vida moderna e as responsabilidades acumuladas escravizam-nos cada vez mais. Planificar o dia, elaborar planos e identificar metas, tornou-se cada vez mais necessário. Só os homens dotados dum espírito disciplinado podem tornar exequível um esquema de realizações práticas. Não temos assim dúvidas em afirmar aqui e agora que a criação da Associação dos Antigos Alunos da Sociedade Missionária que congregasse os antigos estudantes que viveram irmanados por uma indissolúve1 solidariedade, apenas se tornou realidade, graças ao esforço, trabalho, persistência e abnegação de um grupo de alunos que são credores da nossa admiração, estima e elevado apreço. É que apesar de nos mantermos dispersos, mantemos viva a chama da solidariedade. O estreitamento e aumento dos laços de amizade são os frutos colhidos dessa plêiade de abnegados pioneiros que criaram a Associação e a dirigiram até ao presente com empenho e entusiasmo na prossecução dos seus objectivos. Os nomes desses obreiros são sobejamente conhecidos. Das finalidades da Associação, torna-se desnecessário falar neste momento, até porque, além de discriminadas nos Estatutos aprovados, elas estão implícitas na mente de cada um de nós. Importante agora é revitalizar e reforçar o laço de união entre todos os Armistas e a Direcção da Associação. Na nossa modesta opinião, entendemos que para se fortalecer o laço de união entre todos os Armistas e a Direcção da Associação, nada melhor se poderia levar a efeito que a publicação do Boletim como elo de ligação entre todos os membros e porta-voz das suas actividades sociais, intelectuais e artísticas. A Direcção está deste modo a trilhar caminho para o êxito e por isso aproveitamos esta oportunidade para a apoiar e concomitantemente para prestar homenagem a todos os inesquecíveis obreiros que criaram e solidificaram os inquebrantáveis valores que hoje representa a A.R.M. José Martins Carreto
(Bol 51 (2.ª Série), Nov/Dez 1993, p. 2)

(89). Chibuto – Carta do PADRE FIRMINO AUGUSTO JOÃO 20.01.94 Caros amigos da ARM: Venho por este meio agradecer novamente a vossa segunta oferta no valor de 801 392 $ 00 para a compra do jeep Land Cruizer que vós tão generosamente prometestes para esta Missão do Chibuto e Alto Changane, pois o Alto Changane, a partir da morte do Sr. Pe. Cristóvão, ficou a depender do Chibuto. Ainda continuamos a esperar novas ofertas e por isso estamos a bater a outras portas. É pena, com estes 18 864 dólares, há dois anos teríamos comprado o carro. Mas agora já custa 33 000 dólares, e cada mês que passa custa mais. E fazia-nos muita falta agora que somos dois padres, pois chegou o Pe. Benjamim do Brasil e só temos um carro muito velho, para atender cinco Missões. Mas temos esperança que venham outras ajudas. Graças a Deus agora podemos trabalhar à vontade, porque não há o entrave da Frelimo nem o problema da guerra e as comunidades precisam da presença do padre mais do que nunca, pois há muita coisa escangalhada, material e espiritulmente falando. É tudo por hoje. Em meu nome, do Pe. José Valente, do Pe. Benjamim e das comunidades das várias Missões, o nosso muito obrigado. Pe. Firmino Augusto João
(Bol 53, Mar/Abr 1994, p. 2)

(90). De Nampula – Carta do PADRE JOSÉ MARIA LUÍS DA SILVA MEUS AMIGOS: Continuo a viver, no louvor, a graça imensa de ter podido entrar, de novo, em Moçambique. Isto acontece após uma ausência de cinco anos, durante os quais fui sujeito a cinco operações, algumas extremamente delicadas. Fui posto a funcionar à força de tratamentos especializados e cuidados intensivos de cirurgiões e médicos dedicadíssimos e competentes do Hospital Egas Moniz, em Lisboa.

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Aterrei no Aeroporto de Maputo, na manhã de 09/11/95, aguardando pela solicitude eficiente do irmão António. Não voltava a Moçambique por engano. Tinha a certeza de que toda a novidade aqui acontecida, mesmo se na minha ausência física, nem por isso era estranha. Sentia-me aberto e disponível para tudo. Mas não podia abarcar que tudo fosse tanto. Encontrei-me a rondar por zonas de risco da fragilidade da minha estrutura psicofisiológica. Até hoje, 01/01/96, ainda não consegui escrever para ninguém nem uma letra sequer. A todos vós a quem o Pai me expôs, na graciosidade de seu Filho e na comunhão do Espírito Santo e a todos aqueles aos quais ele continua a enviar-me, e a quem me sinto ligado por laços de sincera amizade e profundo reconhecimento, ofereço em gratuidade, esta Sua narrativa em mim. Seja celebração. Em sua singeleza se “filtre” na Sua Eucaristia. Cheguei a Nampula, “esta minha Arquidiocese”, segundo a palavra amiga e sentida de D. Manuel, à noite de 14 de Dezembro, vindo de Maputo, de carro, em viagem de dois mil e tantos quilómetros. Na companhia dos PP. Almendra e Simões, peregrinei 12 dias, com vários acidentes de percurso e encontros e experiências enriquecedores. Vivi com intensidade este novo contacto físico e afectivo com Moçambique. Viagem feliz e inesquecível através do “país do coração”. Permaneci em Nampula para participar no encontro de reflexão e reciclagem do grupo. De 18 a 24 de Dezembro, vi-me assaltado por fortes dores de cabeça, atordoado por febre caprichosa a despistar-me na sua dança dos 36 aos 40º. Algumas noites passadas quase em branco, carregadas de pesadelos. Eu a sentir o físico a estalar-me com tremuras de calor. E a verificação cáustica de estar prestes a roçar pelos limites, neste país que amo, no qual se encontra quase de tudo, mesmo o consumismo requintado, e em que quase nada funciona para a grande maioria dos moçambicanos. Poderei eu funcionar ainda? Em 24/12/95, pelas 17 horas, agudizou-se em mim a consciência de que uma situação insustentável de ruptura me atingia. Pus-me de pé, no excesso de mim, cabeça levantada, rosto de granito, pescoço tendido, braços

e pernas hirtos, apostado em resistir até ao desmoronamento do meu ser. E disse: “Liquidação total, sistema bloqueado sem hipótese. Tombarei no tempo do meu esboroamento. Sei que o sopro do Seu Espírito recolherá todos os meus destroços, que a ternura de Deus e Pai de Jesus reamassará a poeira do meu barro e que o Seu beijo boca a boca fará reviver em mim a sua imagem e me fará saber saboreando que sou construção Sua, ao recolocar-me direito sobre a planta dos meus pés.” Desmoronei-me pelas 17.45 h. Estendido no chão, reduzido aos estilhaços de mim, celebro Seu louvor, Sua bondade e Sua glória para sempre. E proclamo que hoje e aqui, também para mim e talvez mais do que nunca, é vigília do Seu nascimento. É já festa do Natal. Porque o Filho de Deus nasceu no tempo, o nosso tempo torna-se decisivamente, por graça, tempo de Deus para os homens. Neste tempo que o Calendário não pode conter nem consegue devorar, é que estou a desejar-vos Natal sempre feliz, Novo Ano sempre de Paz... Sei que, mesmo se fora das datas convencionais, não estou desatempado. Encontro-me em convalescença animada e serena. Agradeço a quantos me têm acompanhado com amizade e dedicação a toda a prova, possibilitando-me assumir na paz a situação delicada de me sentir peso e preocupação para aqueles a quem pretendia proporcionar um pouco de alívio e contribuir para alargar seus espaços de respiro. Neste meu ser “empecilho”, vivo o sinal sacramento, em solidariedade pascal, da fecundidade destas vidas doadas, em tensão permanente e desgastante, nas fronteiras em que a Missão procura preparar Caminhos do Reino, que só por graciosa iniciativa do Pai nos pode vir. – Venha o Teu Reino! Na Comunhão que Ele em nós realiza, a todos envio, de coração, o meu abraço fraterno e amigo. Nampula, 01 de Janeiro de 1996 P. José Maria Luis da Silva
(Bol 59, Jan/Abr 1996, p. 7)

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(91). Carta do PADRE AUGUSTO FARIAS Gabela, 22.03.98 Caro amigo Ponciano Um abraço amigo destas terras africanas. Foi minha intenção quando por aí andei, dar um certo dinamismo à ARM no sentido de ser uma retaguarda firme no apoio aos missionários. Fizemos a campanha dos carros. Conseguiu-se o que se conseguiu... mas mexeu-se com a malta. Agora sou eu que estou em apuros. Não tenho casa para viver! Pensamos nela. Os cunhados Óscar e Serafim, de Rio Meão, já me enviaram as ferragens para as portas e janelas, da fábrica das esposas deles. Já são mais de 2 000 dólares que poupei aqui em Angola. Outras coisas poderiam surgir. Mando a circular que fiz para alguns amigos. Vejam o que se pode fazer. Desde já o meu agradecimento. O jornal da ARM nunca aqui chegou... porque eu nunca o pedi. É uma forma de ligação. Um abraço muito grande do amigo Pe. Farias
(Bol 64, Ago 1997 / Abr 1998, p. 6)

sam encontrar na vasta área de amizade, proporcionada pela ARM, um seguro apoio no caminho. Para todos vai o meu abraço incondicional de amigo com a invocação das melhores bênçãos de Deus e da protecção da nossa Padroeira. Louriçal do Campo, 22/8/98 Pe. José Valente
(Bol 67, Set 1998 / Abr 1999, p. 2)

(93). A missão da Gabela – Carta do PADRE AUGUSTO FARIAS Caros amigos e benfeitores No termo da construção da casa paroquial, cumpre-me, antes de mais, agradecer tanta generosidade da vossa parte, para esta obra que felizmente foi concluída com êxito. A casa paroquial foi benzida e inaugurada por D. Benedito Roberto, Bispo desta Diocese, no dia 08 de Agosto deste ano, festa da padroeira desta Paróquia. Do acontecimento mando foto comemorativa. Foi muito o cansaço e o sacrifício mas valeu a pena porque esta equipa missionária e as outras que lhe seguirão têm uma estrutura que as vai ajudar a empenharem-se mais na construção do Reino Deus. Queiram aceitar, queridos amigos, a nossa gratidão por tanta generosidade. Outros desafios se nos colocam, mas estamos convencidos que vamos conseguir com a ajuda de Deus e dos benfeitores. Estamos para iniciar a construção do Centro Sócio-Cultural: um salão para 400 pessoas sentadas com palco para teatro e projecção de vídeo, uma biblioteca com depósito de livros e sala de leitura aberta aos jovens que não têm livros nem sala para estudar, cartório e gabinete de atendimento, além de mais quatro salas para catequese e outras actividades paroquiais. Temos matriculadas a passar de 1 000 na sede da Paróquia e faltam-nos espaços para essa e outras actividades. Vai ser construído com o mesmo tipo de material da casa paroquial. Queremos iniciar já em Janeiro porque obtivemos um bom subsídio da SONANGOL. Não vai chegar mas será uma ajuda substancial. Outro desafio urgente é a reparação da Igreja paroquial cujo tecto ameaça ruína. Vamos a ver

(92). Carta de saudação do PADRE JOSÉ VALENTE Ao celebrar o 50.° Aniversário da minha ordenação sacerdotal soa com um timbre muito especial a minha vibrante recordação dos antigos alunos e irmãos da SMBN que encontrei ao longo desta caminhada: os companheiros dos cursos iniciados em Tomar nos anos de 1935, 1936 e 1937; e os que foram meus alunos em Tomar no ano lectivo de 1944/1945, e, depois, em Cucujães no vasto período de 1945 a 1964. Para todos eles vai a minha calorosa e amiga saudação nesta festiva ocorrência das minhas bodas de oiro sacerdotais e o desejo sincero de uma feliz realização na vida. O voto, sobretudo, de que, sejam quais forem as circunstâncias do seu viver e as dificuldades que lhes surjam na caminhada, nunca percam a esperança nem a capacidade de partilhar. Oxalá pos-

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como dar resposta a esta situação. A construção do centro infantil ainda aguarda porque não há financiamento. Esta casa não é apenas para nós. É também para receber os amigos. Por isso ficaríamos imensamente satisfeitos por um dia vos recebermos nesta casa que também é vossa, porque há aqui também um pouco do vosso suor e sobretudo da vossa amizade. Com Votos de Feliz Natal e de Paz para cada um de vós no ano 2002, mas particularmente para esta martirizada terra, me subscrevo grato no Senhor. Atenciosamente Gabela 2001-12-20 P. Augusto Farias
(Bol 74, Abr 2002, p. 4)

(94). De Luanda – CARTA DO PADRE ANTÓNIO VALENTE PEREIRA Caríssimo Gamboa Recebi o Boletim da ARM. Obrigado pela ajuda que já veio. A igreja está a ser levantada, embora ainda não tenhamos meios para a acabar. Precisávamos de cerca de 60 000 l. Ai se a ARM nos pudesse ajudar mais um pouco! Sonho com uma igreja ampla, embora simples, e que tenha ligada a si salas para a formação de leigos: 4 salas, cada uma com o nome dos martiri-

zados nessa área, em 1982 – P. Lima e Companheiros, pois ele foi abatido quando ia dar catequese. Com ele foi morta uma senhora de 29 anos e que estava grávida, uma menina aspirante a Irmã (21 anos) e um jovem com 17. Os leigos a formar teriam como modelos estes mártires. Estamos a preparar o baptismo dos jovens e adultos que serão, este ano, baptizados por ocasião da Páscoa. São cerca de 200. Ontem, domingo, tivemos o retiro quaresmal dos catequistas. Temos cerca de 180. No próximo domingo, teremos o retiro dos jovens. No último domingo do mês, teremos o retiro dos casais. Hoje iniciou-se mais um curso bíblico, dado por leigos. Também começámos a dar aulas às crianças e jovens que não têm escola. São cerca de 1700. Bem, caro Gamboa, vê se vens um dia até aqui passar um pouco do teu tempo. Então verás melhor. Estamos no mês de S. José. Certamente que ele nos vai ajudar a levantar a Igreja Corpo de Cristo e também uma Casa onde os crentes se possam reunir para celebrar o Senhor da Vida, bem como meios para formar a gente, a começar pela capacidade de receber a vida que brotou do lado aberto de Jesus. Cumprimentos a todos. 18/03/2003 P. António Valente Pereira
(Bol 81, Dez 2003, p. 6)

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7. TEXTOS DE PROCURA E ENCONTRO

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(95). RECORDANDO Um dia, já muito distante... 8 de Maio de 1930, eu fora convidado a abandonar o Seminário de Cucujães. Os Superiores não tinham encontrado em mim sinais de revelação sacerdotal e missionária. Altos desígnios de Deus nem sempre bem compreendidos... Já lá vão 37 anos! Inconformado e triste... preparei as malas para, no dia seguinte, regressar à casa paterna, sem uma satisfação airosa a dar a meus Pais e sem rumo traçado para uma nova vida. Assim, nessa tarde, para mim muito cinzenta..., eu decidira despedir-me de todos os Superiores, tendo deixado, para final, o Ex.mo e Revmo. Senhor D. Teotónio Manuel Ribeiro Vieira de Castro, já nessa altura nomeado Patriarca das Índias, mas ainda Superior Geral dos 3 Seminários. Bati à porta do quarto – creio que ainda é hoje o quarto do Superior Geral –, pedi licença que me foi concedida e muito embaraçado disse ao que ia. Sem qualquer recriminação o Venerando Prelado dirigiume palavras de conforto e bom conselho e, dando-me a Sua bênção, abraçou-me cingindo-me bastante ao seu coração. Dos seus olhos brilhantes, fitando-me, rolaram algumas lágrimas tão expressivas e quentes que nelas, vida em fora, tenho encontrado conforto e calor, sobretudo nos dias frios e difíceis que atravessei. Nunca esqueci este facto e apesar das vicissitudes passadas, consequências duma época de instabilidade e de dificuldades, parece-me dever à preciosa bênção de meu antigo e Venerando Superior, a relativa estabilidade da minha vida que me vai permitindo dispensar a meus filhos a educação e preparação que a vida actual aconselha. Bem andou o nosso “portavoz” em, na sua “Galeria de Saudade”, ter dado prioridade à figura veneranda deste príncipe da Igreja, glória de Deus e glória da Pátria. Na singeleza destas linhas, vai também o preito da minha gratidão. Maio de 1967 JANC
(Bol 17, Ago 1967, p. 2)

Pois é verdade, “cacei” o José António Coelho Sampaio, muito trigueiro – cor das terras do Ultramar, onde esteve em comissão de serviço militar –, alto e forte. Olhámo-nos frente a frente. Entre surpreso e interrogador, exclama, abrindo os grandes braços: “Olha o Quim Alves!” E um alegre cavaco se seguiu, recordando os velhos tempos da nossa permanência no Seminário. Ornamentando a mesa estavam dois copos de vinho do Porto, mas cheios, claro. Vieram à colação o José Nabais Magro, o Costa Afonso, o Jorge Teixeira, o Teixeira Leite, os Pinas, o Galante, o João e José Gamboa, o Alfredo Rodrigues, o Sequeira, o Felizardo e tantos outros que a mossa memória teve por bem recordar. E foi agradável! Para gáudio e estímulo de muitos informo que o Sampaio, aquele espadaúdo desportista e músico apaixonado que todos conhecemos, não se perdeu pelas sendas da leviandade, não. E é quase Doutor. Faltam-1he três cadeiras para terminar o seu curso de Românicas. Meu caro Sampaio, a minha admiração e o meu respeito. E já agora permite-me a liberdade de procurar estreitar mais e mais os laços da amizade que nos une, na esperança de que ambos contribuiremos para a adesão sincera de outros colegas ao nosso movimento armista. Bem-hajas! Contamos contigo. A. Pereira
(Bol 19, Fev 1968, p. 3)

(97). EU FUI AO S. JOÃO AO PORTO Durante quase 30 anos sonhei ir ao S. João ao Porto. Razões várias vinham-me impedindo de transformar o sonho em realidade. Os meus amigos nortenhos, dos quais não posso deixar de destacar o ZÉ do Porto, insistiam comigo para ir até lá, pois se tratava, diziam eles, da melhor festa popular que se realiza no Mundo!!!... Decidi-me este ano e... fui, para ver e crer, como S. Tomé. MARAVILHA DAS MARAVILHAS! Jamais havia assistido a coisa igual. Delirei. Habituado embora, de há muito, a admirar os “tripeiros” pelas suas excepcionais qualidades de

(96). MAS QUE GRANDE COELHO!... Que surpresa! Que rico “Coelho” que eu apanhei na rua do Telhado, 107-2.º, em Vila Nova de Gaia. Já há muito que o procurava.

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civismo e de educação, quis, porém, observar melhor “in loco” e com os meus próprios olhos – passe o pleonasmo – o quanto eles são ordeiros, e alegres, acolhedores e divertidos. Que noite!... Um povo triste é um triste povo!... Com as suas lindíssimas “cascatas” postas a prémio da Exma. Câmara Municipal, ruas ricamente engalanadas e iluminadas a cores, balões, foguetes e panchões, o Porto apresentou-se com um ar orgulhosamente festivo. Nessa noite, de 23 para 24, toda a gente saiu para a rua, de alho-porro na mão ou, como se vem fazendo de há uns anos atrás, com um gracioso martelinho de plástico. Não se magoa ninguém, toda a gente ri, canta, dança, confraterniza, delira. Dão-se a cheirar raminhos e flores de agradável aroma, toca-se com o alho-porro ou com o martelo na cabeça das pessoas, enfim, numa harmonia de sentimentos fraternais que só dignificam um povo como aquele, de tão curiosas e ancestrais tradições, assiste-se à mais extraordinária e convincente demonstração de civismo. Grande lição. Foi assim – neste ambiente de euforia e comungando nesses mesmos sentimentos – que eu vi e vivi, pela primeira vez, o S. João no Porto, enquadrado eu também numa “rusga” de armistas nortenhos. Obrigado, parabéns amigos. Até ao ano. Lisboa, 26 de Junho de 1969 José Nereu Santos
(Bol 26, Ago 1969, p. 2)

o nome e a posição. Já não é Rabiloto e é Doutor. Sinceramente, Dr. Joaquim da Costa Nunes, gostei de ver-te como gostei de dar notícias tuas, mas não podemos conceber-te sem o nome Rabiloto porque só ele nos associa e nos invoca toda a tua pessoa! Parabéns pela tua posição na vida. A ARM, que somos todos nós, conta com a tua colaboração. Este encontro foi meramente casual como tantos outros no turbilhão da vida de Lisboa. Para estreitar mais os nossos laços de amizade não poderíamos eleger um ou dois Cafés como ponto de encontro informal? Em Lisboa eu propunha o Café “Paladium” nos Restauradores e “A Mexicana” na Praça de Londres. O exemplo podia ser seguido na Metrópole e no Ultramar onde o número de armistas o permitisse. Ninguém duvidará da utilidade destes encontros. António Moutinho Rodrigues
(Bol 39, Jan/Fev 1972, p. 4)

(99). ENCONTRO EVOCADOR Eram três “manos” que se não viam há muito. Uma ideia vagueava na mente dos três, havia anos. Queriam encontrar-se. Veio a oportunidade e concretizou-se a ideia. Leiria apareceu logo a ligar Aveiro e Lisboa. O pretexto de um dos “manos” – a numismática – conseguiu o carro do outro. Assim, partimos de Lisboa – o Moutinho e o redactor destas linhas. Interessava-nos o encontro com o Gamboa. Há que tempos a gente se não via! Inventariámos, durante a viagem, tudo aquilo que a nossa memória ainda possuía do João Gamboa. Falámos do seu entusiasmo pelas fusas. Trauteou-se a pastoral sol-lá-sol-mi de sua autoria. Quem se não lembra? – “Tenho melhor do que isso”, diria mais tarde. Mas, de verdade, não chegámos a ouvir. E falou-se com sinceridade dos assuntos ARM, de uma forma própria nossa – os da geração 1950/60. Nós dois – pretensos especialistas – de bisturi na mão, contra nós próprios, observámos e conjecturámos hipóteses. Formulámos até teorias de transfusão! – Seremos nós quem precisa da ARM, ou será esta que precisa do sangue desta geração? Fi-

(98). UM ENCONTRO Num destes dias estando eu a almoçar num restaurante em Lisboa, eis que vejo entrar alguém que os meus olhos já não viam há longos anos. Vinha acompanhado da noiva. Conversámos animadamente, matando saudades. Era nem mais nem menos que o Joaquim da Costa Nunes (Rabiloto). Pequeno como eu, ele é ainda aquele moço patusco dos velhos tempos da década de 50 que nos habituámos a ver e com quem convivemos em Tomar, Cernache e Cucujães. Se alguém quiser contactar com ele pode escrever para Dr. Joaquim da Costa Nunes, 1.ª Vara do Tribunal de Trabalho de Setúbal. Mas atenção a dois pormenores importantes –

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zemos estas perguntas como elementos suficientemente adultos que somos, mas colectivamente um pouco alheios à vitalidade daquela. – Porquê? Quando apareceu o “fusário”, já nós tínhamos elaborado um esquema de acção a ser posto em prática, numa primeira fase, já na próxima reunião em Sernache. Isto ficou na Agenda. E havíamos também falado de muito “craque” evocado a capricho da memória ou por afinidades de simpatia. Esta foi uma expressão que bastante desenvolvemos e nos serviu de mola para os esquemas previstos e já referidos. Simpatia! – Mas, porque foi que tão tarde se descobriu esta palavra? E as suas virtualidades? Dantes pareciam ignorá-la, a pretexto de possíveis confusões, talvez, com aquelas terríveis amizades particulares. Quando o Austin Mini azul apareceu, decorrera já um longo compasso de espera, interrompido de súbito com dois efusivos e grandes abraços. Aí estava o Gamboa e com a família toda atrás de si – mulher, dois filhos e um irmão, também ex-masnão-ARM. Tivemos pena que as nossas caras-metades houvessem de ter ficado em Lisboa. O João, militarista no cabelo, entroncado de forma, denunciava-se fortemente o mesmo que era e tínhamos na memória. Depois do primeiro batepapo virou logo a Professor, tal como é, e tomou a palavra. Ouvimo-lo com interesse, em todo o almoço e depois, a contar-nos a história da sua vida. Ouçam bem! Os três meses da Filosofia não o dispensaram do 2.º e 5.° anos do liceu. Mais tarde veio o 7.°. Fez isso e mais do que isso. Mas falava com muita maturação e calma. Tirara o curso de enfermagem. Praticara. Eu encontrara-o, então, no HMP à Estrela, em Lisboa, em 1961. Recordámo-nos disso. Entretanto, tropa no Ultramar; e os estudos continuaram. Hoje, é licenciado em Românicas e professor em Aveiro. Já depois no Parque, em Leiria, sentados a tomar uma bica ou a passear, recordámos ainda os episódios mais vivos de todo um tempo passado juntos. O Moutinho era o mais vivo na memória dos tempos primeiros. Ele domina bem tudo o que se passou em Tomar e Cernache. Pensámos em tantos dos nossos. Enumerámo-los, quisemo-los juntos, mas de pleno agrado, na ARM. A propósito de posições na vida passámos a

recordar a malta em pormenor. A última sensação é o Sequeira, como Gerente bancário em Castelo Branco. Mas à conta dos Bancos apetece-me trazer até este palco todos estes do nosso ano: o Felizardo e o Sebastião Alves, o António Pina, o Alfredo, o Costa Afonso e o Nabais Magro. No Magistério vemos o (Dr.) Sampaio e o Valdemar Coutinho, além do protagonista principal desta reportagem que de propósito vou deixando para segundo plano. Sabemos por onde andam o Teixeira Leite (uma boa cunha para a Datsun), o Jorge, o José Gamboa e o José Pina – este está na lista dos internacionais, actualmente em Paris. Mas nós também somos internacionais, meu amigo! – a TAP deixa-nos fazer umas viagenzitas, a mim e ao Moutinho; a todos, afinal. Vocês sabiam que o Moutinho já é pai de 4 filhos? E que eu, casado há pouco mais de um ano, também já lá tenho um herdeiro? É curioso! Entrámos e saímos do Seminário no mesmo ano, e hoje temos o mesmo emprego. Mas há mais gente. Por onde andam os transmontanos Elias, Salvador e o Pires? E o (Barão) de Quintela – que sabemos Gerente da Firma DUN? Recuemos um pouco atrás: – Que é feito do Albino, o Pinto; e daquele transmontano de rija têmpera, o Cepeda? E o divertido Tomás? A finalizar, está na nossa mente o Galante! Andará ainda pela tropa? Quem nos dará uma pista? Gostaríamos de a todos ver. Esta é malta que existia ainda no 3.º ano. A título informativo para todos estes nossos colegas de curso, agrada-nos referir que chegaram ao fim da meta e são hoje missionários o Sebastião João, o Viriato Matos, o Casimiro e o Sá Fernandes. Toda esta digressão anterior foi motivada por este nosso encontro; programado já de há muito, em Leiria, com o Gamboa – encontro esse que desejaríamos ver repetir, a título informal, com todos os colegas mencionados e da mesma forma dentro dos outros anos. Aguardamos que a todo o momento possa chegar ao nosso Boletim outra reportagem. Esta é assinada pelo Manuel da Silva
(Bol 42, Ago/Set 1972, p. 4)

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(100). UM PASSEIO À BEIRA BAIXA Tendo planeado o meu passeio de férias deste ano à Beira Baixa, e tendo como principal atractivo a Serra da Estrela, lá fui, com a família, estrada fora, comendo e dormindo nas terras onde passávamos. E foi, de facto, um passeio bastante agradável. Em Alpedrinha parámos, para almoçar. Durante o almoço perguntei à empregada: “Não conhece aqui um senhor que andou há tempos no Seminário, chamado José Ramos Pina?” E ela disse logo: “Ah! Conheço muito bem. É o presidente da Junta de Freguesia e o vice-presidente da Casa do Povo. A casa dele é ali ao cimo daquela rua”. Acabado o almoço, lá fui bater-lhe à porta. É uma casa tipicamente beiroa, construída em granito, com varanda, escadaria lateral, circundada de árvores de fruto, numa posição na colina de onde se desfruta um lindíssimo panorama. Um garoto acompanhou-me à quinta onde ele estava a dar ordens ao pessoal. Logo que lhe disseram estar ali uma pessoa para lhe falar, ele aparece, rosto meio carrancudo. – Boa tarde. O que é que o senhor deseja? Pensei que ele me reconhecesse. Como isso não se deu, procurei dissimular: – Precisava dum atestado. – Para quê? Emigração? – Sim. – O senhor vive cá? Ainda quis continuar a inventar aldrabices, mas já não sabia o que responder, pelo que resolvi logo dar-me a conhecer. – Então tu não me conheces, pá? – Não me lembro de si de lado algum. – Vê se te lembras do tempo do Seminário. – Do tempo do Seminário lembro-me do Salvado, do André, do Mateus, do… – E o Mateus sou eu! – Não me digas! Já lá vão 30 anos! E o rosto austero do Presidente da Junta de Freguesia tornou-se risonho e cordial como sempre foi durante o tempo em que estudámos e fomos colegas de carreira. E veio o abraço de saudade e deixou-se tudo para conversar e relembrar tempos passados. Apresentei-lhe a família: só a mulher e filho, que a filha ficara em casa dela na companhia do marido e dos seus dois filhos.

– Então tu, Mateus, já tens netos? – É verdade! – Quanto te invejo! Pois eu para aqui estou, solteirão. Não há mulher que queira aturar este diabo! Afinal o nosso José Ramos Pina não é um diabo. Pelo contrário. É uma alma grande e generosa, toda dedicada ao serviço da família e dos seus conterrâneos. Digamos, até, que a vida dele é um autêntico sacerdócio. Como dirigente da Junta de Freguesia e da Casa do Povo, a sua vida é um deambular constante de entrevistas com as entidades oficiais, com vista a dotar a sua terra de tudo aquilo de que precisa. No dia anterior à nossa chegada havia falado com o presidente da Câmara no sentido de resolver a deficiência no abastecimento de água a Alpedrinha. No dia seguinte teria de seguir para Lisboa para representar a sua Casa do Povo nas comemorações do Estatuto do Trabalho Nacional. – E é assim sempre, Mateus. Meteram-me na política. Já não posso deixar isto. E, como não tenho filhos, dedico-me aos conterrâneos, como se meus filhos fossem. Deixou-nos uma grata impressão esta visita ao antigo colega de Seminário, José Ramos Pina. Quem, como ele, sacrifica a vida de casado, para não faltar coisa alguma à mãe e às duas irmãs, das quais se tornou o único amparo; quem, como ele, se sacrifica tanto pelo bem-estar dos seus conterrâneos, só aceitando cargos sem qualquer remuneração, não pode deixar de ter uma sólida e bela formação moral. O Ramos Pina continua a honrar o Seminário que o educou, e envergonha-nos a nós que, às vezes, nos furtamos a pequenos sacrifícios para não prejudicar a nossa comodidade. Fui a Alpedrinha receber uma bela lição. Joaquim Alves (Mateus)
(Bol 44, Dez 1972 / Fev 1973, p. 3)

(101). O MEU POSTAL Nas vésperas do Natal 73, a pedido de pessoa muito amiga, fui com ela visitar, ali à Maia, uma sua antiga lavadeira, muito pobre, encamada por força da terrível doença dos seus 86 anos, para mais,

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carregados do contrapeso de um ror de dolorosas outras enfermidades e muita penúria. Casa térrea, humilde, de duas únicas divisões. Procurei dar à conversa a tónica natalícia: alegria até no sofrimento. Conversou-se. Às tantas, não sei que voltas demos, abri a minha pasta, e pedi-lhes para escutarem uma carta que, dias antes, recebera do Padre Laurindo Neto, o PADRE que dirige a nossa (tua?) afilhada, a Missão de Seles – Angola. Nela agradecia-nos a nossa última remessa e recontava-me as suas dificuldades e aflições, dizendo-me também do delírio em que ele e os que com ele lá evangelizam ficaram, ao saber, pelo nosso Boletim, da ideia de lhes enviarmos uma moto (15 000 $ 00, usada). A simpática velhinha ouviu, visivelmente interessada. Por fim, de olhos brilhantes e um sorriso estranho, se é que sorriso isso era, rebusca debaixo do travesseiro e... – Pegue, meu senhor, aceite para ajuda da moto dos seus padres. Eu, confesso, estarreci. Como sabia que não posso (não pude até agora) contar com a tua compreensão e ajuda, logo me arrependi de lhes ler a “malfadada” carta. É que, cá muito no meu íntimo, eu resolvera até deixar esquecer a história da moto. Pois se ele até ainda faltavam 232$00 para liquidar a conta das alfaias enviadas... Apanhado assim, confuso e até depois envergonhado, aceitei, claro. 20$00 que traduzem tanto amor, carência e sofrimento, Fé, e Esperança. Eles serão bênção. Lá mesmo recebi mais 100$00 e promessa de mais. Outros 4 que leram a carta também prometeram. Ah! mas tu? É para ti que escrevo. Não te esqueças. Pelo Menino que então festejávamos, pelas Missões; às quais tanto devemos. Diz-me ao menos que querias mas não podes, nem sequer alinhar com outra nota igual à da simpática velhinha. A tua boa vontade será bênção que também ajudará à moto da afilhada. Uma velhinha entrevada Lurdes Cardoso L. B. C. Albino Santos 20$00 100$00 100$00 100$00 Zé do Porto

P. S. Recado para um certo: – A nota da velhinha com mais dois zeros dá 2000$00. Sabes?
(Bol 49, Jan/Fev 1974, p. 2)

(102). O QUE NÓS AMARGÁMOS! Pelo que tenho depreendido dos muitos desabafos e confidências dos ex-seminaristas e antigos colegas, estou em afirmar que muitos problemas nos amarguraram a saída do seminário. Quantos deles fizeram descarrilar a formação moral e religiosa ali recebida! A mim, dá-me a impressão que fomos abandonados num deserto ou alto mar, sem bússola e sem qualquer ponto de referência. Aquilo, desde a ausência do rigor dos horários até à falta de ocupação, foi um navegar à deriva. Tantas orações, tantos estudos, tanta disciplina e... tanta despreocupação lá dentro!, enquanto cá fora, quem nos animava a rezar, onde estudar, como ganhar a vida? Para além disso, aqueles sorrisos trocistas dos nossos conhecidos, a idade das inconsequências, as magras possibilidades dos nossos pais e... os estudos sem equivalência para coisa nenhuma... Este último, sim, este foi um problema bem amargo! para nós, sobretudo os mais antigos – quantos o lembram com raiva! Talvez se possa dizer que a maioria das deserções e antipatias para com os seminários se filiam nisso mesmo. Pois ele! Tantos estudos e tão inúteis! Mais felizes os que actualmente por lá andam, porque, matriculados no ensino oficial, ao menos no fim dos ciclos fazem exame, que os coloca ao abrigo da falta de equivalência, ao contrário dos velhos tempos. Grande vantagem, sem dúvida, e com ela nos congratulamos. Mas é preciso ir mais além. Os rapazes de Cucujães frequentam as aulas do ensino oficial em Oliveira de Azeméis – postos assim de parte todos os obstáculos. Quanto a Cernache, o caso muda de figura: inscritos no ensino particutar no liceu de Tomar, ficam sem hipóteses, ao abandonarem o seminário antes do exame do 5.° ano. Sei que a Sociedade estuda o assunto, para acau-

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telar o futuro dos alunos, enquanto disso não se ocupar a legislação. Um apelo a todos os armistas: lembremo-nos das grandes dificuldades por que passámos e não deixemos de ajudar os mais novos a continuar os estudos. Se pudermos, que eles não comam pão tão duro e amargo como o nosso. Lapin du Pré
(Bol 49, Jan/Fev 1974, p. 4)

(104). CONVERSANDO (1) Uma das coisas boas que aprendemos, bem cedo, nos nossos seminários, foi a prática da partilha. Pessoalmente recordo que, nos dois anos passados em Tomar, tinha na cidade uma irmã dedicada à pastelaria. Quinzenalmente ela subia ao Convento de Cristo para me visitar, trazendo essas tão apreciadas especialidades! Pois, tal qual me eram entregues, assim seguiam para as mãos dos superiores, para serem partilhadas pela comunidade. Verdade seja dita que, sendo coisa insuficiente para todos, não deixava de ser minimamente contemplado. Encarava isto com a maior naturalidade, ao ponto até de aceitar que eventualmente nada viesse a provar. Dava assim os primeiros passos no ABC da vocação missionária – estar permanentemente ao serviço do meu semelhante. E, quanto mais bem preparado, tanto mais eficaz. Por desígnios da Providência, não cheguei, não chegámos, na grande maioria, a concretizar a completa vida missionária. Mas sem dúvida que muito de positivo valorizou as nossas vidas. Não sei todavia se o nosso permanente contacto com um mundo egoísta, ou ainda a luta diária pela sobrevivência, não nos terá porventura arrefecido o coração, tornando-nos um tanto ou quanto insensíveis às carências que nos rodeiam. Vou mesmo ao ponto de chegar a pensar se não constituímos uma família virada mais para dentro do que esquecida um pouco de si própria, para ajudar os outros. Vem a propósito este pensamento porque, nos muitos anos que levamos de ARM, nota-se com uma certa regularidade, nos nossos encontros nacionais em assembleia, mais entre familiares, uma certa ânsia em consumir aquilo que, à partida, é oferecido igualmente a todos. É certo que não vou nem posso generalizar este comportamento. Seria muito injusto. Mas que deve servir para reflexão, não tenho dúvida. Reflectir se estamos a possuir e a saber usar o espírito de partilha é a melhor forma de continuarmos a celebrar este ano do Cinquentenário da ARM. É que por aqui passa a nossa vocação de baptizados. Uma vocação de generosidade, de doação e de alegria. Há por aqui e por aí tantos dons não investidos!

(103). BOLSAS & C.ª É certo e sabido que, quando se fala na bolsa, toda a gente leva a mão à carteira, não para a abrir generosamente mas para ver se ela lá está. De facto, custa tanto puxar das notas para as dar, que muitos por elas dão o próprio sangue. Certamente é até por isso que se diz que o dinheiro é sangue. Além disso, o maganão é tão bonito!... Não obstante, de uma maneira ou de outra, é forçoso pô-lo a girar, pois sem ele não se compram melões – nem nada. Mas é preciso também repartilo, na medida do possível (esta é que é muito relativa), pelos que têm necessidades. Nós somos administradores dos bens que Deus nos deu. Não somos obrigados a dar aquilo que nos faz falta, mas, quando o damos (lembro o óbolo da viúva de Naim), como Deus fica contente connosco! Ele avalia-nos conforme o nosso sacrifício. E não precisamos de invocar exigências sócioeconómicas tão em voga hoje em dia. Basta-nos recordar a doutrina do Corpo Místico de Cristo ensinada por S. Paulo. Se todos somos membros do mesmo Corpo, cada um no seu lugar próprio, como não acudimos àquele que está em necessidade? Vem isto a propósito das bolsas de estudo abertas no nosso Boletim e que tanto tardam a completar-se. E também da subscrição a favor da Missão de Seles que tão pouco genrerosamente tem sido contemplada. Não me parece que não possamos todos, ou quase, ajudar um bocadinho. Muitos poucos fazem muito. Quem se recusa a acudir a umas e à outra, nem que seja com migalhas caídas da sua mesa? Não assinado
(Bol 49, Jan/Fev 1974, p. 4)

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Para mim e para todos nós e nossos familiares é altura de voarmos mais alto, pois só desta forma descobriremos as necessidades dos outros e o nosso coração se abrirá em generosidade e amor. Partindo sempre à descoberta de Cristo, no rosto do nosso próximo carente, é partilhar a alegria de em cada dia ser missionário. Com muita amizade Moutinha Rodrigues
(Bol 54, Mai/Ago 1994, p. 8)

Sejam, pois, os nossos encontros e assembleias o verdadeiro espelho de um relacionamento criado e cultivado ao longo dos nossos dias. Com a maior amizade Moutinha Rodrigues
(Bol 55, Out 1994 / Mar 1995, p. 8)

(106). CONVERSANDO (3) Sempre que perdemos alguém que de uma forma ou de outra cruzou os nossos caminhos e influenciou as nossas vidas, costumamos dizer que também nós morremos um pouco. Isto é bem verdade no plano existencial, enquanto ficamos privados da sua influência pessoal, moral e intelectual. Digamos ainda que morremos tanto mais quanto mais avançamos na idade, porque, nessa fase, o leque de referências é cada vez menor. Mas analisando esta realidade na vertente espiritual, sempre que tal acontece ficamos mais enriquecidos. Graças à comunhão dos Santos passamos a beneficiar sobremaneira da influência dos que já partiram porque, então, o seu amor por nós é perfeito. É preciso que tenhamos consciência desta realidade porque nos ajudará imenso no processo do nosso envelhecimento. Uma boa parte dos que vibram com a ARM situam-se na casa dos cinquenta para cima. Todos os anos somos confrontados com a partida deste ou daquele. Lembramos a figura dos padres António Pereira, José Mendes Patrício e Manuel Trindade, ou dos leigos Fernando Augusto Cepeda e Albino dos Santos, que recentemente partiram desta vida. Não é meu propósito lembrar ou dar a conhecer aqui o que cada um destes nossos amigos foi na vida e a influência que tiveram em muitos de nós. Já outros o fizeram e esperamos que mais nos proporcionem o prazer intelectual de um melhor conhecimento destas vidas cheias. Homens como estes souberam dignificar o mundo em que viveram; e também eles, dignificados, gozam agora na casa do Pai não só da felicidade mas da grande capacidade de intercessores e medianeiros. Continuará certamente o nosso coração sensível à ausência destes e de outros nossos amigos mas a nossa alma

(105). CONVERSANDO (2) Neste ano da comemoração do cinquentenário da ARM penso que seria interessante vermos mais uma vez as razões que levam a maioria dos que frequentaram os nossos seminários a não aderirem à nossa Associação. Muito se tem falado sobre o assunto. Também não sou eu que o vou esgotar nem tão-pouco resolver. Gostaria, sim, que passasse a haver uma estreita ligação entre a Sociedade Missionária e a Direcção da ARM para que o aluno, uma vez deixando o seminário, nos fossem fornecidos os seus dados. De imediato a Direcção lhe escreveria. Por outro lado, a já longa experiência nos contactos com os colegas, antigos alunos, leva-me a concluir que uma das poucas coisas que vai resultando é o contacto directo – telefónico e pessoal. O privilégio desse contacto tem o condão da amizade e do interesse pela vida do outro, de modo a cativá-lo e a fazer-lhe nascer a vontade de aderir. Mais do que a escrita, embora esta não se deva descurar, o relacionamento, pessoa a pessoa, irá renovar a nossa Associação. Foi o caso recente que se passou com um dos antigos presidentes da Direcção, José Soares de Almeida, há 20 anos afastado do nosso convívio, vítima da nossa incompreensão e alguma injustiça. Bastou ter descoberto o seu telefone para, de imediato, entrar em conversa amigável com ele e fazer passar uma borracha por aquilo que aconteceu. Foi com imensa satisfação que o vimos e abraçámos neste último encontro regional de Lisboa. Como neste caso, outros poderiam dar o seu testemunho.

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rejubila com tais eleitos. Os colegas armistas que como eu devoramos todas as linhas do nosso boletim talvez se interroguem porque é que o Moutinha Rodrigues fez deste tema o objecto do “Conversando”. Talvez algum acrescente que estou a ficar velho! Mas, quando encaramos a vida pelo prisma aqui abordado, não conta muito a idade da pessoa mas sim a qualidade da sua realização. Sejamos todos dignos da amizade e do testemunho que estes e tantos outros nos legaram para que a paz e a juventude do espírito nos acompanhem até ao fim dos nossos dias na terra. Estejamos onde estivermos, façamos o que fizermos, pensemos o que pensarmos, sintamo-nos envolvidos na amizade de todos e amados por Deus. Com a maior estima e um abraço. Moutinha Rodrigues
(Bol 57, Jun/Out 1995, p. 8)

(107). VARIAÇÕES SOBRE UM CONGRESSO Na certeza de que “escribas” altamente cotados na nossa praça irão abordar o recente Congresso da ARM em Valadares com a categoria e dignidade que tal evento merece, supondo que estou a escrever para ser lido daqui a muitos anos, vou abordá-lo sob a forma de “Era uma vez...”. Era uma vez um grupo de sonhadores que, não sendo coxos, tudo fizeram para reunir em Valadares os antigos alunos da Sociedade Missionária, durante o terceiro fim de semana de Maio de 2002. Porque era linda a razão do seu sonho, pensaram juntar 50, 100, 500, ou até 1000, dos muitos milhares que sabiam andar a morrer de saudades espalhados pelo mundo inteiro e, porque eram sonhadores e não eram coxos, calcorrearam listas telefónicas, exploraram sites na Internet, chegaram a todo o lado com resmas de cartas e paletes de telefonemas, esboçaram programas altamente, idealizaram eventos muito In e organizaram ementas de fazer crescer água na boca. No dia e hora aprazada, começaram a chegar mas às paletes de 1 ou 2, aos centos de 3 ou 4 e aos milhares de 5 ou 6, num total de mais de 50. Com toda a pompa e circunstância confirmaram-se inscrições, receberam-se as pastas com a informação,

as chaves dos magníficos quartos da ala restaurada do Seminário e, antes da solene abertura dos trabalhos, à pergunta a este e àquele que é feito de fulano, de cicrano e de beltrano, a resposta era sempre a mesma: “Eh pá, se ainda não chegou é porque não vem ou porque está coxo...” Confesso que, na altura, me inclinei mais para a primeira hipótese mas quando na segunda-feira passei os olhos pela imprensa vi quanto me enganei pois todos os jornais do Porto faziam com o evento manchetes de primeira página referindo: “Ontem à tarde, inúmeros coxos congestionaram as estradas a caminho de Valadares” “Em direcção a Valadares coxos perturbaram o trânsito na estrada n° 109” “Coxos de todo o País dirigem-se a pé para Valadares” “Fenómeno inexplicável arrasta milhares de coxos em direcção ao Seminário de Valadares” “Inúmeros peregrinos coxos dirigem-se a pé para Valadares” Atrasados, estes já não assistiram ao Congresso e perderam esta grande jornada de convívio e partilha, de reflexão e interpelação à nossa atitude perante os actuais desafios da missão em que todos são chamados a colaborar aqui e agora; faltaram à eleição dos novos corpos sociais da ARM e ao baptismo da sala em que decorreram os trabalhos e que, por proposta da Delegação do Porto, financiada pelo Dr. Ribeiro Novo e aceite pela Sociedade, ficará a chamar-se “Sala da ARM”. Para os que sonharam, parabéns pelo muito e bem que fizeram. Para os que vieram, não guardem a mensagem debaixo do alqueire. Para os coxos de “Domingo à tarde”, espero que na próxima oportunidade saiam de casa logo no sábado e bem pela manhã. Junho 2002 C. Andrade
(Bol 76, Out 2002, p. 2)

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(108). RECORDANDO É verdade. Nunca fui um revoltado nem nunca traí as minhas convicções. Sempre que me perguntavam as minhas habilitações académicas, sempre respondi: Fui Seminarista no Seminário das Missões. É que, se entrei para o Seminário, foi por vontade própria e nunca me arrependerei. Mas não seria suficiente a própria vontade, se lá bem no fundo o Mestre, com desígnios bem diferentes dos meus, e naquele Domingo especial, não me chamasse. Serviu-se do seu Servo, a quem já chamou para o seu seio: Pe. Alexandre de Sousa. Corria o mês de Maio do longínquo ano de 1950 e na Capela de Gondezende, cidade de Esmoriz, cuja capelania naquela época era exercida pelo Seminário de Cucujães, celebrou a Eucaristia o Padre Sousa. Numa entrevista rápida de olhos bem fixos em mim (olhar penetrante e peculiar que jamais esquecerei), fez-me apenas três ou quatro perguntas de aritmética, a que pronta, rápida e acertadamente respondi (não era muito burrico a matemática!...). De seguida disse-me: “Se quiseres, aparece no dia X em Cucujães e lá falaremos”. E assim aconteceu. Não fiz teste algum. Apenas fui apresentado a um outro Padre, já na altura muito “magrinho” (Reverendíssimo Padre Vaz, com quem estive há dias no mesmo local), que me deu instruções e orientações para em Setembro me apresentar no Seminário de Tomar. Deixei a minha terra e os meus e lá parti... E foi assim que os meus caminhos se vieram a cruzar com os vossos, meus caros Armistas. Joaquim Alves Pereira
(Bol 77, Dez 2002, p. 8)

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8. VERSOS E POEMAS, A FECHAR

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(109). EFECTIVO ou ORDINÁRIO? (Art.º 5.º dos Estatutos) A pedido dum velho Secretário, Muito zeloso no pagar das cotas, Cá vai mais um soneto às cambalhotas, Falando do “Efectivo e do Ordinário”! Não creio o “Estratagema” necessário, Nem que haja para tal grave motivo; Mas ele supõe que a marca de EFECTIVO Fica bem como um título honorário. Apostar de ORDINÁRIO quem não paga, Deus sabe por que razão ou mau fadário Injustiça é talvez, que mais estraga, Embora a cota seja pouca massa, E quem tanto por lá estudou de graça, Deva isso e muito mais ao Seminário. Figueira
(Bol 21, Ago 1968, p. 1)

(111). HINO DA “A R M” Ao raiar para a vida tivemos O alto ideal de ligar Terra e Céu! Difundir o Evangelho quisemos, Fazer de almas glorioso troféu! Mas um dia outras vozes soaram, Outro rumo o Senhor nos mostrou... E em famílias cristãs germinaram Fé e Amor que em nós sempre brotou! Os domínios do Senhor Têm fronteiras nunca vistas... Dilatá-las com fervor, É nosso voto de “Armistas”. Seja, pois, o nosso anseio E da nossa fé o sinal Tornarmos nossa “ARM” um meio De a Deus darmos Portugal! Avante, “Armistas”, Que esta hora é de acção! Triunfante, Vivamos, Em paz e Amor, a nossa união! Porto, 25-6-969 Zeferino Gaspar
(Bol 26, Ago 1969, p. 2)

(110). LUZ PASCAL A jornada findara. Só faltava Rematar e selar com sangue e dor A missão que ditara o seu Amor De aos homens dar um céu que se fechava! Sim! Ele o prometera, pois amava Com desvelos de mãe o pecador Que, entre as trevas, sem luz e sem calor, Servia o Mal e o Erro idolatrava! E invulgar maravilha então se viu: Quando a Cruz ao sepulcro O deu, três dias, Vitorioso da Morte ressurgiu! Ressurgiu o Senhor em aleluias! Círio pascal no mundo refulgiu! Boas Festas em santas alegrias! Porto, Páscoa de 1969 Zeferino Gaspar
(Bol 24, Abr 1969, p. 1)

(112). NATAL Natal! Eis chega de novo! E é como se fosse agora... Cantam os Anjos, canta o povo Que ao Menino-Deus adora! – Festa de paz e alegria, Lá no Céu e cá na terra. Seja a noite como dia! Reine o Amor em vez da guerra!… Natal! Eu sinto saudades Dos natais que já passei, Mormente nos Seminários, Onde vivi e sonhei...

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Com que ternura eu fazia O presépio da capela! Com que entusiasmo vivia Festa tão grande e tão bela! Lembro os ensaios, os cantos, A ceia, a Missa do galo... Os jogos, prendas, encantos, De que nem sequer vos falo! Lembro os natais nas Missões... Vinham de longe pretinhos, A branquear os corações, Sequiosos de carinhos... E naquela noite santa, À Missão tudo acorria. A luz, a fé era tanta! Tanto amor, tanta alegria. Feliz o que vive ainda Esta data nas Missões! Não há lá festa mais linda, Mais gratas consolações! Natal sim, nasceu Jesus... Tantos natais! Tantos anos! E continuam sem Luz Tantos corações humanos!... Feliz o que faz nascer Esse Jesus de Belém Nas almas que inda O não têm E nelas O faz viver! Natal de 1969 ESSEFE
(Antigo Missionário) (Bol 28, Dez 1969 / Jan 1970, p. 6)

Num convívio amoroso, Ou muda contemplação... Já me bastava este gozo, Para encher o coração. Aos teus pés me ajoelhei E as mãos pus no teu regaço... Como foi então não sei: Tanto amor... tanto embaraço!... Ai que pena eu tenho agora De não ter morrido então! Contigo iria, Senhora, Sonhando à Eterna Mansão! Ó Mãe do céu, Mãe divina! Vem buscar-me, por favor! Leva esta alma peregrina À Pátria do eterno Amor! Maio de 1970 ESSEFE
(Bol 31, Jun/Jul 1970, p. 1)

(114). IMACULADA “et luna sub pedibus ejus”, Ap Quando as sombras da noite são a veste Do vale ao monte e desde a serra ao mar, Mesquinhos, homem e fera vão buscar Tecto que os cubra ou cova que lhes preste… Por toda a parte a escuridão investe, No céu nem uma estrela a lucilar… E os homens temem homens encontrar, De um pólo ao outro e do Poente a Leste! Mas deixai que apareça a Lua Cheia E ao mundo inteiro a luz de tal candeia De amor e paz eflúvios espargiu! Pois mais bela que a Lua ao Céu sorriu, Quando à mancha primeva foi poupada Maria, a Virgem Mãe Imaculada!… Zeferino Gaspar
(Bol 38, Nov/Dez 1971, p. 4)

(113). OH MÃE DIVINA! Foi num sonho de ternura Que Te vi, Senhora Minha! Que meiguice e formosura!... – Era o Céu todo que eu tinha! Sorridente, docemente, Sentaste-te ao pé de mim... Oh como fiquei contente! Quisera estar sempre assim:

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(115). IMACULADA CONCElÇÃO (1) Senhora da Conceição, Imaculada Senhora, Foste pura e sem labéu Desde sempre e a toda a hora. Ab aeterno foste eleita Para Mãe do Criador. És de toda a criatura A mais perfeita, a melhor. Partilhaste a Redenção Desta enferma humanidade, És por isso lá no Céu Associada à Divindade. Em teu poder infinito Que o Filho te concedeu És a Mãe da Santa Igreja E a Rainha do Céu. Mãe nossa! Por teu amor E ternura maternal, Salva este Mundo doente, Livra-nos de todo o mal. A. S.
(Bol 43, Out/Nov 1972, p. 4)

Não olheis às nossas culpas, Sede a nossa protecção. Rogai por nós, pecadores, Senhora da Conceição! A. ELESSE
(Bol 48, Nov/Dez 1973, p. 4)

(117). ÊXTASE Ao Pe. Alfredo Alves Ouvi dizer que rezavas muito. Mas quem reza Se reza Não reza Por conta nem medida. Sei que rezavas a vida: Tempo para Deus. Adoração louvor. Que eu saiba, pedir só pediste (e “bem”!): Quando me quiseres levar, Não percas tempo, Senhor. Que eu não seja trabalho para ninguém. Seis anos acamado. Dependente todo. Quase imóvel. Rezaste a vida. Ela aí está Oferecida. Só louvor. P. José Maria da Silva (in Abismo e Esperança)
(Bol 59, Jan/Abr 1996, p. 8)

(116). IMACULADA CONCEIÇÃO (2) Senhora da Conceição, Maravilha sois dos Céus E a mais excelsa Criatura Saída das mãos de Deus. Virgem-Mãe Imaculada, Mãe do próprio Criador, Mãe nossa por adopção E amparo em nossa dor. O poder de intercessão Que Deus vos deu é tão forte! Acolhei-nos, piedosa, Na hora da nossa morte!

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(118). DISPONÍVEL Quando o silêncio da noite Te revestir de pobreza, Terás a vida mais rica, Se deixares o que é a mais. Fique teu ser mais liberto, Sendo só tu o que fica. Antes de dormir, Sorri Ao dia que vem, Em que estarás mais perto De quem, Dispensando o que é teu, Precisará de ti! Pe. José Maria da Silva (in Abismo e Esperança)
(Bol 64, Ago 1997 / Abr 1998, p. 6)

Tantos a que inda não chegou a luz E a riqueza infinita da Vossa Fé; Tantos milhões de infiéis para quem é Inútil e nociva a vossa Cruz. Tornai minha alma grande como o mundo, E dai-me a graça da vossa luz, que é Sinal certo do vosso amor profundo. E que jamais eu possa descansar Enquanto houver na terra alguém sem fé, Enquanto houver uma alma p’ra salvar. Domingos J. R. Quina
(Bol 73, Dez 2001, p. 7)

(121). AMOR Quando a tormenta surge, E nos tenta afundar, É para Vós, Senhora, Que voltamos o olhar. Teu coração, Senhora, É lugar de confiança, Onde a alma perturbada Vai encontrar bonança. Teu sorriso, ó Maria, Desabafo de amor, É meu beijo materno, Bálsamo na dor. É a graça de Deus À alma dispensada, Que Vos recorre humilde, Limpa ou esfarrapada. É a consolação, Alívio na desgraça, Paz e felicidade Que a feliz alma abraça. Armindo Henriques
(Bol 73, Dez 2001, p. 7)

(119). “O ELOGIO DA LOUCURA PELA VOZ DO SILÊNCIO / OU A MINHA OUTRA FORMA DE DIZER AS COISAS...” O Silêncio é a palavra, toda em oiro lavrada... A espada flamejante, na bainha mais cortante Do que estando a alguém apontada... O Silêncio é dizer nada, por se já ter dito tudo O que havia a dizer, pela espada! É a minh’alma cortada pelo teu e meu sofrer; É o teu e meu calar da opressão, da revolta, É o falar de quem cala a sua boca... Eu, calando, falo mais, falo mais alto, Porque aprendo a ouvir, sempre escutando Se quem fala, fala bem... aprendo a amar. Silêncio! quero pensar o futuro, repensar o passado, Quero um pensamento mais puro!... Lx. 31/10/2000 José Augusto Rodrigues
(Bol 71, Mar 2001, p. 2)

(120). ORAÇÃO Basta... não mais consolação, Senhor, Que me mudais a terra em paraíso! Que eu sofra e trabalhe agora, é preciso, Para a todos levar o vosso amor.

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Parte III – Antologia de textos publicados no Boletim da ARM

(122). NATAL PARA A VIDA Nasces para o encontro de Deus com o homem, Cristo Menino, e à morte respondes com a Vida para sempre. És a nossa Páscoa. E, no presépio do altar, o Filho que nos é dado, Pão-Menino para a Vida Nova em teu Corpo envolvido em panos. Vejo-te Luz do mundo na árvore iluminada – árvore do Paraíso, árvore gloriosa da Cruz, símbolo de vida imortal e traço que une a Terra e o Céu. És a Vida Eterna oferecida ao nosso corpo transitório. Eugénio Beirão
(Bol 77, Dez 2002, p. 1)

(124). PÁSCOA Tu vês as sombras no nosso perfil e conheces o nosso crepúsculo, a melancolia na noite sem luar. Tu choras as nossas dores, o cativeiro sem passado nem futuro, a morte que nos tolhe sob a pedra. Livra-nos, Senhor, da violência difusa e do limbo que progride no tempo. Livra-nos da imobilidade da consciência, do pulsar da tristeza, da comunicação sem rosto e sem fogo e concede-nos a lua cheia do teu sorriso, o sol sem ocaso da tua primavera. Que respiremos a luz-perfume da tua Páscoa e que a tua graça nos faça navegar e passar de um mar a outro mar, Tu, que és a água onde desliza a nossa barca, o lume novo do novo dia. Eugénio Beirão
(Bol 82, Mar/Abr 2004, p. 1)

(123). PELA PAIXÃO É QUE VOU Pela paixão é que vou, – é a minha arte de marear. Deixem-me ser o que sou e neste oceano navegar. Se os meus gritos ouvirem contra a negra mediocridade, pedras e paus não me atirem, ergam-se, iluminem a cidade. Não há-de a morte vencer-me nem a noite há-de engolir-me; à luz do dia hei-de ver-me, a vida a crescer e a sorrir-me. Pela paixão é que vou, – é a minha forma de estar. A indiferença não me tocou, conjugo sempre o verbo amar. Eugénio Beirão
(Bol 81, Dez 2003, p. 8)

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

PARTE IV

O TESTEMUNHO DOS ARMISTAS

Coordenação, organização e introdução
de

João Rodrigues Gamboa

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

INTRODUÇÃO
Era impensável este livro de homenagem à SMBN sem a palavra pessoal e directa dos armistas que quisessem dizer a sua gratidão. Apresentada a ideia na AG de Fátima, em 18 de Maio de 2003; amadurecida ao longo de um ano e aprovada na AG de 15 de Maio de 2004, em Cernache do Bonjardim, o Boletim não mais deixou de repetir, com entusiasmo e veemência, o apelo à participação de todos1. Além disso, em Novembro de 2004 foi enviada a cinquenta e três armistas uma carta pessoal convidando-os a colaborar com o seu testemunho2. São estes testemunhos que aqui se publicam, num total de cinquenta e três. Há textos muito belos, outros são mais simples3; todos testemunham, porém – apesar da análise crítica às vezes dura –, a gratidão dos que os assinam pelo que receberam, todos dizem que valeram a pena os anos infantojuvenis vividos nos seminários da SMBN. Mas há muito mais do que isso: há experiências e testemunhos de vida tão intensos e inesperados que nos emocionam; há recordações que valem ouro; há revelação de sensibilidades e bondades de coração que espantam; há confissão de preocupações e corações que se abrem com singeleza admirável… É que nós temos necessidade de “manifestar o que somos, o que nos fizeram, (…) o que professamos” 4. Porque estamos marcados, reconhecem-no muitos, expressamente. Alguns depoimentos ultrapassam largamente os limites de espaço definidos. Tal resultou de um acordo dos seus autores com o coordenador, tendo em conta o número total de testemunhos, que não era elevado, embora tenha crescido, posteriormente. Os textos vão ordenados pela ordem cronológica da entrada dos seus autores no seminário e abrangem um leque variado de idades – desde o armista mais velho, o “bisavô” Abel Francisco
Ver Bol 83, Jul 2004, p. 3, Bol 84, Out 2004, p. 6, e Bol 85, Dez 2004, p. 3. 2 Destes 53 armistas, 10 enviaram o seu testemunho. 3 Bastantes foram revistos e retocados (alguns muito) para poderem ser publicados; nenhum foi recusado. 4 Pe. Viriato Matos, Agere sequitur esse, Bol 52 (2.ª Série), Jan/ Fev 1994, p. 1, texto transcrito na Parte III deste livro, com o n.º (22).
1

Martins, já com 92 anos, ingressado no Seminário de Tomar em 1926, até ao Paulo Fernando Dias da Silva, que entrou em 1978, no Seminário de Cucujães, e tem 37 anos. A relação seguinte mostra esses dados: ano de entrada, número de ordem e nome do antigo aluno. 1926 1. Abel Francisco Martins 1927 2. António da Costa Salvado 1934 3. José Roque Abrantes Prata 1937 4. Mário Fernando Coelho Veiga 1939 5. José Ramos dos Santos 1941 6. António Maria de Matos 1943 7. Aníbal Fernandes Alves Catarino 1944 8. Gabriel da Silva 1946 9. Abílio Antunes Pereira 10. Fernando Pinto de Oliveira 1948 11. Domingos Antunes Valente 12. Manuel Joaquim Faria Gomes 1949 13. Mário Alfredo Ferreira Pêgo 14. Mário Simões Júlio Pereira 1950 15. António da Silva Costa 5
Tendo ingressado directamente no 1.º ano, e não na Classe Preparatória, foi companheiro de curso dos alunos ingressados em 1949. A Classe Preparatória deixou de existir em 1951.
5

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16. António Moutinha Rodrigues 6 17. Francisco Manuel Morais 18. João Rodrigues Gamboa 19. Joaquim Alves Pereira 20. Manuel Francisco da Silva 1951 21. João José Gamboa 22. José Alves Sebastião 1952 23. Joaquim Costa Nunes 24. José Farinha Lopes 1953 25. Afonso Marcolino Andrade 26. António Francisco Tavares Regal 7 27. António Raimundo Amado 28. Francisco Antunes Domingues 29. José Marques Farinha 1954 30. Francisco Costa Andrade 31. José Maria Ribeiro Novo 1955 32. Alfredo Luís Vieira de Sá 1956 33. Duarte Nuno Pires 34. Serafim Fidalgo dos Reis 1957 35. António da Silva Pereira 36. Joaquim Candeias da Silva 1958 37. Amadeu Gomes de Araújo 38. Manuel Rodrigues Ribeiro 39. Vítor Manuel da Silva Borges

1959 40. Carlos Amílcar Dias 41. Celestino Cândido Rodrigues Neves 42. Serafim dos Santos Alves do Rosário 1960 43. José Augusto Rodrigues 1961 44. Francisco Moreira de Matos Mota 45. João Manuel da Costa Amado 46. José Abílio Raposo Quina 47. Marinho da Silva Borges 1963 48. Armindo de Jesus Santos 1967 49. Isidro Gomes de Araújo 1969 50. José da Encarnação Arroteia 1976 51. Dionísio Manuel Ferreira Correia 52. Fernando Manuel Pinto Moreira Capela 1978 53. Paulo Fernando Dias da Silva Há dois textos – um de José Marques Farinha e outro de Vítor Manuel da Silva Borges – que, escritos há muito tempo e noutros contextos (que conheceremos à frente), constituem, todavia, dois excelentes testemunhos; por isso se publicam também, com o assentimento e a colaboração dos seus autores. Demos, pois, voz e rosto ao sentir de cada um, que é como quem diz: demos a palavra do testemunho aos armistas, associando a cada nome a expressão dos traços do seu retrato.

6 Descobriu este armista que o seu apelido era Moutinha e não Moutinho, quando teve de requerer o BI. Não se trata, portanto, de engano ou gralha. A partir de quando deixou de ser Moutinho e passou a ser Moutinha é que o autor não sabe. 7 Entrou em 1953 para o 2.º ano, integrando-se no curso dos que haviam ingressado em 1952.

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

1. O MEU TESTEMUNHO Nasci no lugar de Alvite, freguesia de Escariz, concelho de Arouca, em 29 de Outubro de 1912. Em Outubro de 1926, os meus saudosos pais, humildes caseiros, eram avisados de que menos uma malga e uma colher deviam emoldurar aquela mesa comprida onde eram servidas, diariamente, as quinze parcas refeições do dia a dia. Sobressaltado, mas curioso, fui acompanhado pelo meu irmão mais velho, até ao Convento de Cristo, em Tomar, onde permaneci um ano. O fim do percurso adivinhava-se e a imponência austera do referido Convento quase não cabia nas minhas órbitas humedecidas. Mas como tinha sido essa a minha escolha, a habituação não constituiu problema de maior. Mais ou menos entrosado transitei para o Seminário das Missões de Cucujães até que um dia, já no meu sexto ano, fui expulso por não corresponder ao perfil desejado. Transmitida a trágica notícia ao meu pai, este acompanhou-me, de novo, a Cucujães, não só para reaver a mala com o meu enxoval, mas ainda para se inteirar das razões do meu despedimento. Curvado pelo peso da vida e pela presença dominadora do Snr. Reitor, nada consentânea com os valores da caridade, tão massivamente apregoados, não articulou palavra, limitando-se, submisso, a ouvir o veredicto: “Snr. Martins, de um arrocho não se pode fazer um pau direito”.

Proferida a sentença irrevogável esboroava-se, naquele momento, um projecto que tinha sido encarado como viável. Regressado a casa a vida tinha que continuar. Graças à preparação adquirida, quase graciosamente, no seminário, consegui um lugar de regente escolar, durante dois anos, o que me permitiu angariar os proventos suficientes para me autonomizar. Entretanto constituí família e, durante cinquenta anos, sob o patrocínio de S. Cosme e S. Damião, dediquei-me à cura do meu semelhante, aviando medicamentos que, sob prescrição médica, lhe eram prescritos. Agora, aos 92 anos, recordo o passado com cer-

to saudosismo, é um facto, mas prevejo, também, que o futuro ainda irá ser generoso comigo. Abel Francisco Martins
Cabeçais 4540-367 Fermedo ARC

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2. O MEU TESTEMUNHO Entrei no Seminário de Cernache do Bonjardim em Outubro do ano de 1927. Saí em 1932, já lá vão tantas dezenas de anos. Serei, até à data em que escrevo estas linhas, um dos poucos sobreviventes desses tempos inesquecíveis. Tempos que não voltam mais... Estou prestes a fazer 90 anos e quero aqui recordar alguns colegas que já partiram para o ALÉM, todos eles da minha região, a Cova da Beira. São eles: o Bento Morais Sardinha, o José Ramos Pina, o Alfredo Carvalho, o Francisco Silveira, o João Pires, o Francisco José Brito, o João da Costa Abrantes, o Vitorino Barrocas, o Francisco Mendes Sequeira, que se ordenou sacerdote. São tantas as recordações e saudades dos tempos que ali vivi..., os mais sãos e amigáveis anos que tive, ao longo do meu passeio por este mundo, tão falso e agreste. Ali, dentro das quatro paredes que me acolheram durante cinco anos, nunca encontrei hipocrisia, falsidade ou inveja por parte de qualquer dos meus companheiros. Ali só se respirava amizade, lealdade e fraternidade. Fraternidade, que se tem mantido nos encontros regionais e nacionais que a ARM nos tem proporcionado desde a sua fundação. Quero também aqui deixar bem expresso o meu preito de homenagem e gratidão a todos os superiores e professores que me prepararam para ser um homem livre e honesto ao longo da minha vida; para todos eles, o meu mais profundo BEM HAJAM, como se diz na minha Beira. Seja-me permitido, porém, citar o nome de um deles: o Sr. Cónego Benjamim da Silva, que muito me marcou pelo seu exemplo e bondade. Para exemplificar o que atrás digo, vou contar um episódio que se passou comigo, durante uma aula de Geografia. Eu estava distraído e na brincadeira, sem prestar atenção ao que se estava passando. Ele viu, chamou-me para junto de si e quis saber da minha boca que pergunta tinha ele feito ao meu colega. Respondi que não sabia. Retorquiu ele:

“Que o Menino não sabe já eu sei, porque o Menino, em vez de estar com atenção, estava na brincadeira”. E continuou: “O Menino sabe para que fins nos encontramos aqui neste lugar? Eu vou-lhe dizer: estamos aqui para adquirir conhecimentos, que nos serão preciosos ao longo da nossa vida futura”. Fez-me uma prelecção tal que me ajudou a compreender o mal que estava fazendo, não só a mim, mas também aos meus colegas. Fez-me então outra pergunta: “Acha o Menino que, se lhe aplicar um castigo, ele será justo?” Respondi-lhe com toda a lealdade que, se me castigasse, eu o merecia. Resposta dele: “Não te castigo, porque já me demonstraste que reconheces o erro que fizeste. Vai para o teu lugar e não brinques mais”. Tudo isto dito com palavras simples e amorosas. Confesso que esperava um castigo, mas ele, bondoso como era, não o fez. Eu disse-lhe: “Sr. Cónego Benjamim, obrigado pela grande lição que acaba de me dar; prometo-lhe que nunca mais estarei desatento em qualquer aula”. O que cumpri fielmente. Este episódio aconteceu há mais de setenta anos e ainda hoje o retenho na memória com emoção, lembrando-me daquele bondoso professor. Vou contar outro episódio, mas com desfecho oposto. Foi numa aula de Música. Na véspera, no salão de estudo, fui acometido por uma indisposição que me impediu de preparar as lições do dia seguinte. Quando ia a caminho da aula, pedi a todos os santos que não fosse chamado à lição, mas, para meu azar, fui logo o primeiro a ser chamado. Pedi ao professor que me dispensasse, contandolhe o que me tinha acontecido na véspera. Resposta dele: “Estiveste mal disposto para preparar a lição, mas nunca estás mal disposto para correr, saltar e jogar à bola. Pois hoje não corres, não saltas nem jogas à bola”. Esta atitude do professor causou-me uma profunda revolta, quando a comparei com a do Sr. Cónego Benjamim, e provocou em mim um desejo de vingança, que aconteceu passados uns dias. O professor de Música era o Sr. Pe. António Pacheco. Diz-nos ele, uns dias depois: “Hoje vamos dar uma volta pela mata da quinta”. “É hoje que me pagas o castigo injusto que me aplicaste”, pensei eu para os meus botões. No caminho que circundava a mata, havia um sobreiro já velho, com um enorme buraco no tronco que servia de asilo a

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

um enxame de abelhas bravas, as chamadas vespas. Quando, à porta de saída para a quinta, o Sr. Pe. Pacheco deu o habitual “DEO GRATIAS!”, desato a correr por ali abaixo, em direcção ao tal sobreiro; chegado ali, arranco um pinheirito, introduzo-o no dito buraco e as vespas saiem cá para fora, todas furiosas, e atiram-se à cabeça do Sr. Pe. Pacheco... Escondido num ponto estratégico previamente escolhido, eu gozava o panorama dizendo para comigo: “Já estou pago!” Quero também recordar o primeiro encontro que tive, aqui em Lisboa, com o meu excondiscípulo Dr. José Nereu Santos, pela década de 1950 a 1960. Foi casualmente e num eléctrico, ali para os lados do Conde Barão. Quando nos vimos frente a frente, lançámo-nos nos braços um do outro, numa explosão de alegria e amizade que espantou todas as restantes pessoas. A partir daquele momento, nunca mais deixámos de nos encontrar, até à hora em que o acompanhei à sua última morada. Paz à sua alma! Termino este meu testemunho com imensas saudades dos tempos e dos companheiros que tive no Seminário de Cernache do Bonjardim. António da Costa Salvado
R. Bernarda Ferreira de Lacerda, 8 – 2.º D 1700-059 Lisboa Tel. 217 971 164

3. “SE BEM ME LEMBRO...” Dava a Sociedade Missionária ainda os primeiros passos, naquele longínquo ano de 1934, quando me levaram (é mesmo assim, “levaram” é o termo certo) para aquele distante e imenso Convento de Cristo, em Tomar. Para quem saía pela primeira vez da serrana vila de Manteigas, que me vira nascer, devia ter sido um choque um tanto desconfortável. Já não me lembro muito bem; só sei que, no dia seguinte, por assim dizer, já éramos

vinte e oito irmãos, irmandade onde se iam diluindo as saudades dos familiares que, havia pouco, tínhamos deixado. E rapidamente íamos interiorizando as normas de comportamento, ou seja, a disciplina da casa, que era, ao mesmo tempo, tão rigorosa e suave. Não me lembro que tenham sido precisos castigos, vozes alteradas ou ameaças de qualquer espécie. Tenho a sensação de que tudo foi muito simples, como simples era aquele livrinho, as “Normas”, onde, em pouco mais de meia dúzia de páginas, estavam compiladas as regras disciplinares, de forma clara, simples, concisa, até suave. Confesso, perfeitamente consciente do que afirmo, que essa disciplina não foi o fruto mais saboroso que colhi no Seminário, mas foi de certeza o que maior influência benéfica exerceu na modelação do meu carácter. A esta mesma disciplina e aos bem orientados currículos escolares fiquei a dever a possibilidade de, mais tarde, concluir uma licenciatura que me permitiu singrar na vida tranquilo e feliz. Outro factor que me marcou bastante foi aquele rigor na formação cultural. Basta referir que a bitola de classificação nas várias disciplinas ia de zero a quinze, e para haver aprovação era necessário atingir os dez valores. Mas, verdade se diga, os mestres davam o seu melhor e não me lembro de ter notado falta de paciência ou modos bruscos em qualquer aula. É por isso mesmo que, passados tantos anos, ainda me lembro de todos, creio que de todos os professores. Tenho-os tão presentes que, com frequência, sobretudo nas noites mais longas, este ou aquele vem sentar-se ao pé de mim e, por entre esfumadas imagens, conversamos longamente com as memórias. Outras vezes acontece que sou eu a ir ter com eles às aulas. É estranho como há coisas que ficam assim gravadas na memória para todo o sempre. Lá está o tal da Matemática com a sua incontida paixão por problemas de equações. Estoutro regia o Latim, a Filosofia e a Literatura. Era uma enciclopédia viva. Sabia tudo, de tudo e bem. E o de História Universal? Não merecia um vinte na disciplina que tentava ensinar... Mas era um santo. O de Inglês então era um perito em boas maneiras, era um cavalheiro, o único que não usava barbas e o único que fumava o seu cigarrito. E quem não se

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lembra do Poeta? E outros, e os outros todos... sem esquecer aquele senhor padre, que, durante anos, nos orientava nas práticas religiosas e nos celebrava a missa, mal rompia a alvorada. E celebrava-a com tanta concentração de espírito que até nós, jovens, éramos surpreendidos pelo seu desprendimento de toda a realidade terrena. Igual ardor se lhe adivinhava nas “meditações” que precediam a missa matutina. E a cada passo vinha o refrão: “Todos temos que aceitar a nossa cruz”. E repetia devagar e com brandura: “Todos temos que aceitar a nossa cruz”. E nós bem conhecíamos a cruz dele... Quando lhe acontecia ser o celebrante duma “missa solene”, ao chegar a qualquer passo que devia ser cantado a “solo”, o pobre fazia um esforço heróico, mas o dó saía sempre igual ao ré. Para ele as notas musicais eram todas iguaizinhas em altura e duração. Mas nem só de orações e estudo se fazia a vida do Seminário. De vez em quando também havia festa. Eram as “Sessões Solenes”, com ar sério de cultural, onde muitos de nós, mais nervosos do que varas verdes, já “deitávamos faladura”, como então costumávamos dizer. Eram os “almoços em comum”, com a participação de toda a família, por vezes até com a presença do Superior-Geral. Para nós, porém, o mais importante é que, nesses benditos dias, o rancho vinha melhorado. Melhorado... mas não muito, que as dificuldades financeiras condicionavam tudo. Festa era ainda aquele “senhor Padre dos diapositivos”, que nos reunia num salão e nos maravilhava com projecções tão vivas e interessantes que nem sabíamos se nos encantavam mais as imagens dos diapositivos ou os comentários que os acompanhavam. Um ar festivo vinha também na quadra do Natal. Além de toda a solenidade religiosa, havia ainda a distribuição de prendas, sorteadas pelo jogo do loto. Então era coisa digna de ser vista: um batalhão de olhos esbugalhados a acariciar com incontida esperança os “presentinhos” muito bem dispostos numa grande mesa do largo refeitório. Aquilo nem presentinhos eram; aquilo, na verdade, era um quase nada. Mas... para quem tão pouco tinha, aquele nada era tudo. E acabava por parecer a multiplicação dos pães: todos ficavam contemplados e contentes. Mas festa, mesmo festa acontecia todas as quintas-feiras, à tarde. Eram longos passeios, intermi-

náveis caminhadas, por montes e vales, até as pernas dizerem que já bastava. Talvez essas longas caminhadas estivessem como que a preparar aquelas outras bem mais difíceis que um dia faríamos através dos tórridos sertões africanos, que afinal nunca chegaríamos a pisar. De facto, ao terminar a Filosofia, no oitavo ano de estudos, dos vinte e oito alunos que começámos em Tomar, já só restavam três. Eu deixei o seminário nesse ano de 1942. Que será feito desses vinte e oito? Qual terá sido o caminho dos mais de dois mil que frequentaram os seminários da Sociedade Missionária desde a sua criação? A vida é mesmo assim. Separa tantas vezes as pessoas. Numa louvável tentativa de contrariar essa dispersão, em boa hora surgiu a ARM. Estive nos primeiros momentos da sua criação e testemunhei o entusiasmo dos muitos que compareceram às primeiras chamadas. Quando fui dirigente da Associação (onde já lá vão esses tempos...), verifiquei mesmo que havia associados com verdadeira devoção por aquele ideal de irmandade, que se traduzia por confraternizações cheias de verdadeiro calor humano. Não deixemos morrer tão nobres ideais. Procuremos despertar entusiasmo nos corações mais tíbios; mantenhamo-nos unidos uns com os outros e todos com a Sociedade Missionária, onde vivemos parte da nossa juventude e onde recebemos preciosas orientações, que em todos deixaram marcas indeléveis. José Roque Abrantes Prata
Rua dos Junquilhos, 84 Birre 2750-144 Cascais Tel. 214 871 111 / 934 201 527

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4. O MEU PRIMEIRO PRESÉPIO Eu ando roído de saudades. Há quantos anos eu não revejo a rapaziada da Sociedade! E isto de saudades não perdoa. Qualquer recanto me lembra o “in illo tempore” e faz recrudescer o desejo de o reviver. Ora vede lá: Quando me ponho a alinhar os materiais para a construção do meu Presépio, no meio do insistente pedido, da algazarra e do vivíssimo interesse dos meus netinhos (já vou nos 20), sobe-me ao sótão das memórias o Presépio que, em 1937, foi construído pelo Sr. Júnior, de incipiente barbinha ruiva (assim chamávamos nesse tempo ao vice-prefeito de nome Manuel Fernandes Júnior, – sabeis a quem me refiro? – Pois claro, ao Pe. Manuel Fernandes Júnior). Nesse tempo, no Seminário de Tomar era Reitor o Pe. Pinheiro, colaborado pelo Pe. Albano, o Pe. Canas, o Pe. Fidalgo, padre secular (Director Espiritual), Secretário do D. João Evangelista, Superior-Geral da Sociedade. Mas vamos ao Presépio. Ao fundo do corredor maior, mesmo sobre o estádio do recreio, havia um nicho, que teria sido em tempos habitat de alguma imagem de santo, quiçá até de alguma figura ilustre do Convento. Aproveitando o recanto e aumentando-lhe a área com ripas e tábuas, ali construiu o Sr. Júnior um lindo Presépio, com musgo, moinho de vento, figuras populares de pastores e Reis Magos, carreirinhos de serrim e um chafariz de água. Além, evidentemente, do Menino Jesus, sua Mãe Santíssima e S. José. Mas o que mais me atraiu foi o letreiro “Glória in Excelsis Deo”, que, à força de uma engenhoca, mudava a cor das letras. Muitas vezes tenho tentado o mesmo efeito de cores, para pasmo da minha numerosa assistência. E não consigo. Falta-me engenho... Mas ninguém me livra das saudades do ambiente do Natal de então, avivadas pelo Presépio. Gostava de dar um forte abraço ao P. Fernandes: por me ter maravilhado com o Presépio, aquele meu primeiro e inesquecível Presépio, e por ter o Sr. Júnior despertado em mim o vício de cantar e re-

presentar. O nosso coro de vozes finas, que ele ensaiou, foi ao Seminário de Cernache abrilhantar a ordenação sacerdotal de quatro dos nossos sacerdotes. Ai como nós brilhámos! Ninguém contava com tal surpresa. Eu lembro-me nitidamente de termos cantado o motete “Quid retribuam Domino” e a Ladainha de Todos os Santos. A minha voz até sobressaiu, quando chegámos ao versículo “Ut fructus terrae/dare et conservare digneris”. Aí eu só fiz pausa em “dare”, enquanto o coro fez pausa, como devia, em “terrae”. Se houvesse televisão, lá apareceria a cara do solista. Então eu não tenho o direito de sentir saudades dessa fífia? Muitas saudades deste vosso inveterado colega e amigo. Mário Fernando Coelho Veiga
Rua António Graça, 146 4490-471 Póvoa do Varzim Tel. 252 684 063

5. TESTEMUNHO DE JOSÉ RAMOS DOS SANTOS Os meus pais, lavradores médios da freguesia das Medas, Gondomar, tiveram oito filhos. Eu sou o sétimo. O mais velho, Albino Luís dos Santos, foi dos primeiros alunos da Sociedade Missionária. Saiu por altura do sétimo ano e, quando ainda não tinha concluído o curso de Direito, abriu um colégio e deu a mão aos outros irmãos, que ali puderam estudar. Colaborou na A.R.M.. O segundo, Alberto Luís dos Santos, seguiu também para o Seminário, ordenou-se e trabalhou no norte de Moçambique, enquanto a saúde lho permitiu. Em 1939, dei eu entrada no Seminário de Tomar. E comigo, lembrando a chamada: Aníbal dos Anjos João, António Geraldes Chaves, António da Silva e Sousa, António da Silva Tomás, Domiciano Pires Valente, Francisco Casimiro Mouro, Francisco

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da Silva Pinheiro, Idalécio Pais de Loureiro, José Alves, José Maria Alves (...). Recordo o P. e Pinheiro, figura veneranda de velho missionário, com longas barbas brancas, director espiritual. E os Prefeitos Canas, Júnior, Alberto, Pacheco e Patrício, prestes a serem ordenados, que continuavam a estudar mas que foram os nossos professores, que connosco jogavam no recreio e que connosco passeavam nos largos e longos corredores do Convento. Em Sernache, permito-me destacar o P. e Gabriel, professor de matemática, zeloso administrador da quinta, e que foi depois elevado a Bispo; o Senhor Craveiro, professor de português e francês;e o bondoso Pe. Sequeira, director espiritual. Também aí, apesar de ser tempo de guerra, nada nos faltou – nem mesmo o intragável óleo de fígado de bacalhau. O ambiente continuava a ser de verdadeira família. Eu continuava a sentir a amizade sincera de todos, absolutamente de todos, colegas e Superiores. Mas, com o decorrer do tempo, o entusiasmo, a alegria foram-me desaparecendo. Comecei a sentir que não tinha a disponibilidade indispensável para ser Missionário. E a luta comigo mesmo começou a agravar-se e a angústia a aumentar. Já em Cucujães, e depois de, durante dois meses, ter tido o privilégio de ser aluno de filosofia do Pe. Alves, o Pe. Vernocchi, director espiritual, um santo, acabou por aceitar que saísse, podendo regressar, se quisesse, bastando escrever-lhe. Abriu-me a porta sem a fechar completamente. Tornou-se, assim, muito menos dolorosa a decisão mais difícil de toda a minha vida. Vim a verificar que, para além de uma profunda formação religiosa e do ensino de música, de órgão, de canto, de teatro, de civilidade e de enfermagem, tinha aprendido quase o mesmo que se ensinava no liceu, com deficiências na área das ciências mas com grande vantagem no campo das letras. Tinha aprendido sobretudo a estudar. Assim pude, sem perda de anos, chegar à Universidade, ser oficial miliciano de cavalaria, tirar o curso de direito como voluntário, dar aulas na Universidade Moderna e chegar a juiz conselheiro do S.T.J.; e, “a latere”, ser membro do Tribunal arbitral de futebol e relator dos casos “Paulo de Sousa” e “Nikos Feher”.

Refiro tudo isto porque, na base de tudo, está a Sociedade Missionária. Sem ela, nem meus irmãos nem eu teríamos estudado. Sempre tive esta perfeita consciência, continuo a reconhecer esta dívida. Do meu ano, creio que apenas o Aníbal e o José Alves chegaram ao fim. O Pinheiro também se ordenou mas em Bragança, seguindo depois para Lourenço Marques, onde foi director do jornal diocesano e fez o levantamento exaustivo da obra missionária em Moçambique, trabalho que foi oportunamente apresentado na ONU e depois publicado em livro, que amavelmente me ofereceu, quando já era cónego na Igreja de S. João de Deus, em Lisboa. A Sociedade Missionária parecia esquecer os que saíam. Estes é que não a esqueciam, na generalidade agradecidos. Quando estava no Tribunal de Torres Novas, fui, com o Geraldes Folgedo, ao Seminário de Tomar matar saudades. O Reitor cumulou-nos de atenções e manifestou-se plenamente de acordo com uma associação de antigos alunos. A Sociedade já abertamente acarinhava os seus muitos filhos que, embora “chamados”, não tinham sido “escolhidos”. A A.R.M. acabou por aparecer. Graças a Deus. Setúbal, 11 de Fevereiro de 2005 José Ramos dos Santos

6. TESTEMUNHO Razão de ordem Ao prestar o meu depoimento, entendo dirigir-me, em primeiro lugar, ao prezado e dinâmico armista, Dr. João Gamboa, para lhe manifestar a minha sentida gratidão pela meritíssima iniciativa que teve, ao convidar os armistas para que, através de um escrito, que permanecerá como uma memória para o

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futuro, na qualidade de ex-seminaristas, quer da exS.P.M.C.U., quer da actual Sociedade Missionária da Boa Nova (S.M.B.N.), testemunhem o que foi e tem sido a sua vivência com a referida Sociedade. O meu muitíssimo obrigado ao dar-me a oportunidade de recordar, transportando-as para o papel, algumas situações e memórias que tiveram a sua relevância na altura em que os actos se manifestaram e que exerceram e ainda exercem, muitas vezes inconscientemente, a sua acção no nosso dia a dia. O meu testemunho, para um melhor entendimento do que pretendo transmitir, é apresentado em termos temporais, ao evoluir do tempo, servindo também para nele referir o meu irmão ex-seminarista, falecido, após doença grave, em Macau, em finais de 2003 – o Leonardo Luís de Matos, sepultado junto dos nossos pais, no cemitério de Válega, freguesia do concelho de Ovar. Adoptando o critério citado, referirei, em primeiro lugar, o período do meu nascimento até à entrada no Seminário, seguido do período da estadia no Seminário, incluindo o período de tempo em que me preparei para poder inclusive enfrentar as vicissitudes da vida, seguido daquele em que exerci a minha actividade em África (Moçambique), verdadeira “Terra de Missão” e, por último, o período que vai desde o meu regresso a Portugal Continental, onde actualmente permaneço e resido, seguido, ainda, das conclusões. Do meu nascimento até à entrada no seminário De acordo com o Assento de Nascimento, constante do Livro de Registos existente na Conservatória do Registo Civil de Ovar, com o n.º 688, nasci numa casa térrea, situada no lugar do Torrão do Lameiro, freguesia de Ovar, pertencente aos meus pais, no dia 24.10.1929, pelas 10.00 horas, de um

Junto à janela do quarto onde nasci.

parto normal (quarto filho do casal) assistido por uma parteira “ad hoc”, que vim a conhecer, posteriormente. A “parteira designada” era a minha avó materna – a avó Maria –, que tinha ido ao mercado de Ovar vender e fazer compras. Isto, de acordo com o relato prestado por uma tia materna, ainda viva, a tia Dolorosa, tendo sido ela própria a chamar a pessoa que assistiu ao parto. Assim, nasceu um indivíduo do sexo masculino a quem foi dado o nome de António Maria de Matos, filho legítimo de Adelino de Matos, de 30 anos de idade, lavrador, natural de Pardilhó, concelho de Estarreja, e de sua mulher, Nazareth da Silva Vigário, de 28 anos de idade, natural de Ovar, onde ambos se encontravam domiciliados, sendo neto paterno de Manuel António da Silva Matos e de Ana Maria Valente e materno de Joaquim Lopes Conde e de Maria da Silva Vigário. Do Assento referido consta que é gémeo com o que vai ser registado com o n.º 689, identificado como Leonardo Luís de Matos, não tendo sinal algum que os distinga. Casou com Rosa Gamelas de Almeida Martins (Matos), cujo casamento teve lugar na Igreja da Sé, em Aveiro, em 23.5.1959, tendo sido pais de três filhos: o primeiro nasceu em Aveiro (nado morto); o segundo, do sexo masculino, António Manuel de Almeida Martins de Matos, nasceu em 16.2.1961, em Nampula; e o terceiro, do sexo feminino, nascida em 16.3.1962, em Lourenço Marques, actualmente Maputo. Durante o período da minha infância e até ao meu ingresso no Seminário, no ano escolar de 1941/ 42, vivi no Lugar do Torrão do Lameiro, tendo frequentado a “Casa, hoje seria de Infância, da Tia Mestra”, Maria do Céu Valente, irmã de meu pai, solteira, também já falecida, e que ensinou durante vários anos às crianças do lugar do Torrão do Lameiro as primeiras letras, ministrando, ainda, às meninas a arte de costura. Era, à época, exímia pedagoga, confeccionando e remendando peças de vestuário para as pessoas que a ela recorriam, actividade de que vivia em companhia do seu irmão Clemente e família, na casa que tinha sido morada dos meus avós paternos. Prestava primeiros socorros e inclusive ministrava injecções receitadas pelos médicos, excepto as por via venosa.

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Foi a grande impulsionadora e principal investidora, secundada pelos seus irmãos e habitantes do Lugar, na construção de uma nova capela, a segunda, erigida no mesmo local onde ainda hoje se encontra “uma terceira versão”, sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem, Padroeira do Lugar. A primeira capela era pertença de Manuel Pereira e adjacente à sua casa, num edifício térreo, que veio a ser utilizado como Posto Escolar, que frequentei até à realização do exame da 3.ª classe, tendo como professora a regente escolar D. Rosinha, ex-residente nos Palames, em Ovar. A Tia Mestra, enquanto viveu, foi a grande zeladora da capela com tudo o que isso implicava, acolitando o padre e acompanhando a missa com cânticos por si ensaiados, ministrando com elevado sentido cristão a catequese, tendo sido considerada uma líder pelo povo do Lugar, que muito a admirou. Após a 3.ª classe, frequentei a Escola da Ribeira, onde, em 1940/41, tive como professora a Sra. D. Aragão Seia, mãe do Meritíssimo Juiz Desembargador Aragão Seia, e que, na altura, residia no Jardim dos Campos, onde, após as horas em que ensinava na escola, dava, gratuitamente, explicações aos seus alunos, preparando-os para o exame da quarta classe. O meu exame teve lugar na célebre Escola do Castelo, local onde, actualmente, funciona o Tribunal Judicial. Aí pontificavam excelentes pedagogos, nomeadamente os professores Patrício, Baptista, D. Benilde, dos quais o segundo, especialmente, se salientava por falar em voz bastante alta: “gritava” tanto que se ouvia no exterior, acompanhado do uso ruidoso da “menina dos cinco olhos”, instrumento bastante generalizado nas escolas, que, à época, tinha a fama de fazer “alguns milagres”. Na altura, alguns missionários visitavam as aldeias à procura de candidatos a seminaristas, tendo eu sido um produto dessas visitas, pelo que o meu pai e eu nos dirigimos ao Seminário de Cucujães, acabando por me inscrever, tendo a inscrição sido aceite e ficando a pagar uma mensalidade de 5$00. Foi-me indicado um enxoval, cujas peças seriam identificadas pelo n.° 371, marcado a ponto de cruz e a vermelho.

Da frequência do seminário (1941/42/43) até à minha ida para Moçambique O ano escolar de 1941/42 foi o ano da minha entrada para o Seminário. O Leonardo Luís de Matos, meu irmão gémeo, entrou no ano seguinte. No dia indicado pela Sociedade Missionária, acompanhado pelo meu pai, dirigi-me à estação da C. F. P. de Ovar, apanhei um comboio (viajando em 3.ª classe), que me transportou até Paialvo, onde se encontrava uma camioneta que me levou bem como os outros rapazes até ao monumental Convento de Cristo, onde estava sedeado o Seminário de Tomar. Ao chegar a Ovar, no “meu” comboio encontravam-se outros seminaristas, vindos inclusive de Trás-os-Montes, acompanhados por um enviado da Sociedade Missionária, vestido de batina, e que a todos acolhia e atendia com solicitude, entre os quais recordo o Francisco Maria Preto que, além de se fazer acompanhar de uma grande bola de carne e de bocados de coelho e de porco, usava, com mestria, uma navalha igual às utilizadas pelos pastores da sua região. Ainda hoje possuo duas navalhas dessas que me foram oferecidas, muito mais tarde, pelo comandante dos Bombeiros Voluntários de Vimioso. Era a minha primeira grande viagem de comboio. Chegados ao seminário, encontrámos, constituindo uma turma, os alunos que permaneceram no 1.º ano, que nos receberam com muita alegria e grandes manifestações de regozijo, após o que passaram a existir três turmas, tendo sido integrado na “B” e que tinha como Prefeito e Vice-Prefeito os alunos de teologia, respectivamente, Manuel Nunes de Abreu, de Peraboa, e Alexandre Valente de Matos, de Avanca. O primeiro foi meu professor de Português e o segundo, de Latim. Eram considerados por nós como os nossos irmãos mais velhos, com todos os poderes que, na altura, os irmãos mais velhos tinham, mas também com os deveres, especialmente, de protecção, de compreensão, de ensino e de educação, permitindo-me realçar o nosso sempre muito querido P.e

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P. Alexandre Valente de Matos com alunos do Seminário.

Alexandre Valente de Matos, homem de grande ternura, sempre bem disposto, irradiando simpatia, grande devoto de Nossa Senhora e grande impulsionador das melhorias a introduzir na gruta, localizada no topo do recinto do recreio. Foi um Homem de uma enorme estatura cívica, cultural, moral e religiosa, missionário de eleição e um investigador de mão cheia, ressaltando a sua vasta obra identificada com a etnia Macua, povo que ele amou e por ele foi amado e considerado “O Grande Irmão”, morrendo e sendo sepultado em terras macuas, com as honrarias inerentes. Paz à sua alma e que vele por nós, no Paraíso Celeste junto do Divino Pai. Durante os primeiros dias de contacto com o Seminário, tudo era novidade – capela, salão de estudo, salas de aula, refeitório, camaratas, claustros e recinto do recreio –, em que, entre outras coisas, nos ensinaram a fazer as nossas próprias camas, a manter as calças passadas, colocando-as entre o colchão e o lençol de baixo, a vestir-nos e a despir-nos na cama, entre os lençóis, a fazer a higiene pessoal e a tomar banho de chuveiro, a fazer parte da formatura – por alturas –, a falar baixo e somente com elementos da nossa turma, a estar na capela, a assistir à missa e a rezar as nossas orações diárias, a estudar, somente sendo permitido termos em cima da carteira os livros respeitantes a duas cadeiras (disciplinas), durante uma hora de estudo, sendo ainda proibido, durante esse período, levantar as tampas das carteiras. Devíamos utilizar as horas de recreio para fazermos as nossas necessidades fisiológicas. Enfim, as normas deviam ser religiosamente cumpridas, sob pena de o prevaricador ser sancionado e ver o

seu comportamento, classificado por três itens, a níveis bastante baixos e altamente censuráveis, podendo até ser alvo de castigos diversos. No Seminário havia normas ou regras para tudo, permitindo-me recordar algumas situações irregulares em que fui intérprete directo. O facto de só podermos falar com os elementos da nossa turma impediu-me, na prática, de falar com o meu irmão, acontecendo que, durante um período escolar, conseguimos estar juntos uma única vez, ainda por cima acompanhados, e durante um curtíssimo período de tempo. No mínimo, além de ridícula, esta situação era desumana. Muitas vezes, ele tentava contactar comigo por sinais. Assim, por exemplo, para me informar que precisava de umas botas, que acabaram por ser enviadas pelos meus pais, no salão grande gesticulava e colocava as botas enfiadas nos pés, fora do alinhamento das carteiras, infringindo as regras estabelecidas. No refeitório, havia uma escala de serviço para servirmos aos outros seminaristas a comida, cujos pratos eram acondicionados em tabuleiros. Tínhamos de comer de tudo e tudo o que viesse no prato, verificando-se que, às vezes, apareciam coisas bem esquisitas no prato e que até nos provocavam v...... Quando servia o meu irmão à mesa e sabendo que ele não gostava de certos pratos, à socapa procurava que o prato a ele destinado fosse o que tivesse menor quantidade de comida, dando como que um safanão no tabuleiro e com alguma mestria, para não ser topado pelo prefeito, que também comia ao nosso lado, numa mesa com mais de 25 metros de comprimento, embora este fosse servido por um empregado próprio. Nunca cheguei a perceber se o meu irmão descobriu a minha marosca, mas isso era o menos. A minha saída do Seminário e despedida do meu irmão foram bastante dramáticas. Assim, se o motivo indicado para a minha saída, no início do 2.° trimestre do ano escolar 1942/43, em meu entender, não tinha um fundamento sério, dado que fui um bom aluno no primeiro ano, não tendo sequer marcado passo, como aconteceu com outros, embora não me sentisse muito bem, por força de um castigo que indevida e injustamente me foi aplicado, durante as férias passadas em Cernache, por alguém que veio a ser meu professor de Latim e que, também neste aspecto, foi muito injusto para

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comigo. Faleceu muito novo e perdoei-lhe, mas nunca esqueci nem esquecerei a injustiça que cometeu e para a qual eu pedi, oportunamente, a devida atenção, inclusive aconselhei-me várias vezes com o então director espiritual, mas em vão. A decisão tomada também não mereceu o beneplácito do meu pároco de Ovar, P.e Boaventura Valente de Matos, que, na altura, depositava em mim grandes esperanças, conforme, por diversas vezes, demonstrou pessoalmente, inclusive tomando a iniciativa de insistir com o meu pai para me deixar estudar, o que veio a acontecer, no Colégio Júlio Diniz em Ovar. Quanto à minha despedida do meu irmão, porque dos outros colegas tal não era permitido, a situação foi, no mínimo, caricata e paradoxal, dado que o meu irmão não estava a compreender absolutamente nada do que se estava a passar, até porque eu era uma referência para ele (encontravame no 2.° ano e ele na Classe Preparatória, oficializada no ano em que ele entrou para o Seminário). A vida no Seminário, por vezes, era muitíssimo dura, inclusive estávamos em plena 2.ª Guerra Mundial e a Sociedade dependia directamente de Roma, cujos emissários eram os Pes. Parodi e Vernochi, – este último e durante os retiros, de certo modo, “intimidava” os Seminaristas com as descrições que fazia do inferno, cujas cores carregadas de vermelho escuro atribuía a visões de Santos que apresentava como modelos a seguir. Mesmo assim, tivemos bons Superiores, entre os quais o Reitor e o Vice-Reitor e outros professores que, num espaço tão curto de tempo, me incutiram bons hábitos de trabalho e o sentido do dever e da honra, que muito prezo. Muito do que me foi transmitido tem servido para ultrapassar dificuldades que me surgiram ao longo da minha vida, pelo que estou bastante reconhecido, embora refira que a formação escolar que era ministrada pouco ou quase nada tinha a ver com a que era praticada no ensino oficial, com as dificuldades inerentes para quem tinha de abandonar o Seminário. O Leonardo, por exemplo, teve que se preparar para, em três anos, fazer o ensino secundário e entrar no ensino superior. Eu, um ano e meio após a minha saída do seminário, tive que me matricular no ensino comercial e, no final do ano lectivo,

para passar para o ensino liceal, tive que fazer exame de admissão e de transição do 1.°, onde era obrigatório ir à oral a duas cadeiras (Português e Francês), tendo-me valido, no exame de Francês, os meus conhecimentos de Latim, pois foi a Latim que fiz exame e passei. Obrigado, Sociedade Missionária e Pe.Alexandre Valente de Matos, cujas aulas jamais esquecerei, até pelo esforço que fez ao ter permitido identificar-me por Antonius Maria Mattorum, o que, de certo modo, me veio a ser fatal no 2º ano. Em conjunto e novamente com o Leonardo, passámos a frequentar, em simultâneo, o Colégio Universal do Porto – o 6.º e 7.º anos –, fazendo os exames finais no Liceu Alexandre Herculano, o que nos permitiu entrar na Universidade, ele na Clássica (Direito) e eu na Técnica (Administração Pública), onde tirámos os respectivos cursos, acabando eu por tirar um segundo curso em Ciências Sociais e Políticas (Economia), também na Universidade Técnica. Durante toda a última parte do período não tive qualquer contacto com a Sociedade Missionária que, na altura, não possuía qualquer estrutura para acompanhar, inclusive psicologicamente, os seus ex-seminaristas. Muitos deles tiveram de servir o exército como soldados, por falta de recursos financeiros para efectuarem o pagamento de certificados de aproveitamento escolar, aspecto que julgo ter sido, posteriormente, objecto de correcção pela Sociedade Missionária. Bem-haja! Na parte final deste período, dei aulas no ensino secundário, tendo ainda servido o exército, por cerca de sete anos, como oficial miliciano, frequentando, como tenente, em 1957, o curso de Comandante de Companhia, em Mafra. A minha passagem por África e Moçambique Em Fevereiro de 1960, tomei posse do lugar de Chefe de Posto Estagiário do Quadro Administrativo de Moçambique, onde iniciei a minha actividade em Lourenço Marques, tendo sido colocado, posteriormente, no concelho de Nampula, como Secretário de Circunscrição, substituindo o Administrador do Concelho, nos seus impedimentos ou ausências, tendo deixado o referido lugar e quadro, em Abril de 1961, para tomar posse do lugar

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de Chefe de Divisão do Quadro Comum do Ultra- de acordo com o nosso Código Penal. Ficou-me mar, colocado nos Serviços de Economia de muito grato e prometeu corrigir-se, mostrando-se Moçambique, em Lourenço Marques. arrependido do acto praticado. No curto período de tempo em que exerci as Posteriormente, soube que o casal se reconciminhas funções em Nampula, tive a grata oportu- liou, porque, para além da lei dos homens, existe a nidade de contactar com alguns missionários da So- Lei Divina, pregada pelos missionários e que se ciedade Missionária, que actuavam naquela área, baseia em: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos nomeadamente os padres Agostinho, Alírio, Vieira, amei” e “Perdoai-vos”. Eugénio e outros, não me tendo sido possível contactar com o meu ex-prefeito P.e Alexandre Valente de Matos, com enorme pena minha. Enquanto exerci as minhas funções em Nampula, tive algumas situações dignas de registo, das quais destaco a seguinte. Num certo dia, o Pe. António Vieira Mendes, acompanhado por alguns nativos, um dos quais era acusado de ter traído a mulher, solicitou a minha intervenção ou aconselhamento, o que, na qualidade de substituto do AdministraArmistas de Moçambique, com esposas, e os Padres Julião, dor e na sua ausência, aceitei. Álvaro Patrício e José Valente (1956). Antes de iniciar o julgamento e dirigindo-me, à parte e em voz muito baixa, ao A partir de Abril de 1961, passei a trabalhar no Pe. Vieira, disse-lhe: Quadro Comum do Ultramar, colocado nos Servi– Vocês, os missionários, procuram converter ços de Economia de Moçambique como Chefe de os “infiéis” ao catolicismo e baptizá-los e nós, au- Divisão, e a residir em Lourenço Marques, atintoridades com funções de aplicação da justiça, te- gindo a categoria de Director Adjunto onde me mos que julgar os que praticam as infidelidades, mantive até finais de 1973, altura em que vim pasindependentemente de os seus autores serem ou não sar férias em Portugal Continental e já não regrescatólicos. No caso em apreço, vou procurar actuar sei a Moçambique, terra que muito amei e que foi como um bom católico e como juiz pacificador. berço dos meus dois filhos vivos. Assim fiz. Constituiu-se o Tribunal com um O meu irmão Leonardo Luís de Matos esteve juiz municipal, eu próprio, dois assessores, um in- na Ilha Graciosa, como Delegado do Ministério Pútérprete e um secretário, dando-se início à sessão. blico; mais tarde, também serviu como Delegado Ficou provado que o réu cometeu um pecado e um em Novo Redondo, como Juiz de Direito em Lucrime de adultério e que se mostrava arrependido anda e, finalmente, como Inspector Provincial das de tal acto. Actividades Económicas, também em Luanda e em Como era usual, inquiri, junto dos assessores, Angola. qual a pena que seria de atribuir se tivéssemos de Em Lourenço Marques, estive à frente de váriaplicar o direito consuetudinário. Informaram-me as instituições, entre as quais destaco a Delegação que a pena aplicável seria a de amputar um dos da ARM, em Moçambique, com sede na Casa da membros, ou parte. Perante a situação, dirigi-me Sociedade, sedeada no Infulene, onde, além do Sr. ao réu e informei-o de que o nosso quadro jurídico Pe. Pinheiro, residiram, entre outros, o Pe. José Vanão permitia que tal pena lhe fosse aplicada, o que lente, que foi prefeito do Leonardo. foi para ele motivo de um grande alívio, ao mesmo Do Sr. Pe. Pinheiro, que foi meu director espitempo que o informei da pena que lhe ia ser dada, ritual em Tomar, recordo que se fazia sempre trans-

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portar numa motoreta que só tinha uma velocidade (sempre a andar), que era bem conhecida dos polícias sinaleiros, assim como o seu condutor, a quem, devotadamente, abriam sempre o sinal à sua passagem, usando o referido padre, no seu dia a dia, a batina branca e chapéu colonial. Em Lourenço Marques contactei com vários armistas, missionários e leigos, destacando, entre os missinários, os padres Julião e os irmãos Patrício, dos quais refiro o grande amigo Pe Álvaro, cuja missão visitei; sofreu muitíssimo com a descolonização e junto das populações a quem se dedicou de alma e coração. Recordo, ainda, os padres José Valente e Alfredo Alves, tendo contactado várias vezes com este, que era o Superior-Geral da Sociedade Missionária. E, ainda o incansável padre Eugénio, que se deslocava de António Enes (situado no norte de Moçambique) a Lourenço Marques para obter ajudas para o seu querido Hospital de António Enes, junto das entidades oficiais, a quem dei muito gostosamente a minha modesta colaboração. Com a Descolonização acabou a minha actuação como funcionário público, em Moçambique, mantendo-se a que se prende com a colaboração e ajuda à Sociedade Missionária nos mais diversos campos, acreditando que a semente lançada pelos nossos missionários irá produzir bons frutos na população moçambicana, especialmente através da constituição de um clero nativo, renovado e atento às necessidades do seu povo. O regresso a Portugal Continental e conclusões Voltado à minha terra de origem, fui contactado e contactei com os armistas aqui residentes, tendo, dentro das minhas possibilidades, tomado parte em eventos organizados pela ARM, realçando o excelente trabalho que tem sido levado a cabo pela Direcção presidida pelo Dr. João Gamboa, a quem efusivamente felicito. Os armistas devem ser uma força viva, a actuar em consonância com a Sociedade Missionária da Boa Nova, apoiando-a e ajustando-se a novos instrumentos de actuação, no campo missionário em que alguns têm tomado parte. Bem-hajam por isso. A Sociedade Missionária terá, conjuntamente com a ARM, de eliminar as sequelas que ainda possam

existir entre os ex-seminaristas e a Sociedade, de modo a fazê-los regressar ao bom rebanho, deixando de ser ovelhas tresmalhadas e sem rumo. Aproveito esta oportunidade para saudar todos os armistas, recordando especialmente os nascidos no Torrão do Lameiro, três já falecidos, o Albino Vigário, o João Pedro Lopes Conde e o Leonardo Luís de Matos, meu irmão gémeo, e dois ainda vivos, o Manuel Maria de Matos e eu próprio, todos parentes próximos. A terminar, formulo votos sinceros para que os nossos missionários e leigos, directamcntc empenhados em dar o seu melhor, ajudando os mais desfavorecidos, se mantenham firmes e disponíveis para levarem por diante projectos que possam dignificar a condição humana, honrando os nossos Mártires e Santos que tombaram ou morreram a favor da luta de bem servir o próximo, ou seja as populações desprotegidas com as quais actuaram. O nosso testemunho vai nesse sentido. Carnaxide, Dezembro de 2004 António Maria de Matos
R. Manuel Teixeira Gomes, 51 – 1.º E 2790-106 Carnaxide Tel. 214 186 765

7. O MEU TESTEMUNHO Sou Aníbal Fernandes Alves Catarino, natural de Proença-a-Nova. Entrei no Seminário de Tomar em 1.10.43; estudei também no Seminário de Cernache e no de Cucujães, donde saí em 3.5.55. Gostei imenso de viver em Tomar durante três anos, onde comecei pela Classe Preparatória. Estive em Tomar como peixe na água. Não tenho nada a dizer contra o meu prefeito (Pe. Alberto) nem contra ninguém. Nem mesmo contra o regulamento em vigor na altura. Achei tudo bem e correcto. Era uma alegria total e completa. Há quem se queixe dos regulamentos, do rigor e disciplina existentes na altura. Eu, porém, só tenho a dizer bem de

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todos, mesmo dos professores. Que saudades tenho do ambiente vivido no seminário e dos meus condiscípulos! Era uma amizade sincera. Havia discussões e brincadeiras, sobretudo com os transmontanos, que eram muitos. Ríamo-nos muito com as suas expressões e palavras, tais como: nada não, bó, um cilo e outras de que já não me lembro. Mas os transmontanos eram generosos e simpáticos, assim como os seus familiares. Mandavam vir sacas de castanhas muito boas. E bolas de carne que eu desconhecia. Também nos divertiam com os pauliteiros e profissões e com as respectivas danças. Havia também um colega que nos divertia muito, o José de Oliveirinha, ou melhor, José Austrelindo de Oliveira Martins Cardoso. Os recreios eram sempre desejados. O jogo do caçador era o meu preferido. Eu apanhava quase todas as bolas que me atiravam e libertava um morto. Bons tempos! E as nossas idas à gruta, aos sábados, eram uma festa. Os nossos passeios às quinta-feiras para os Pegões e para o Mouchão, onde descobrimos uma gruta de morcegos. Nunca tinha visto tantos morcegos juntos. A roda que tirava a água do Nabão também me causou espanto. Assim como os holofotes do quartel militar que cruzavam o céu, à noite. Era o tempo da segunda guerra mundial. Certo dia, um avião a jacto esboçou vários desenhos de fumo sobre a cidade. O sr. Pe. António Pereira fotografou os desenhos e apresentou-os no quartel, pensando que teriam algum interesse militar, mas os militares não se interessaram por eles. Para nós é que foram interessantes e coisa nova. E assim o tempo ia passando. Nessa altura comíamos triga-milho e apanhálo na cidade era muito bom. Um dia passei pelo refeitório e estava lá um tabuleiro de pão partido. Era quase meio-dia. A fome apertava. Tive tanta vontade de tirar uma fatia, mas não tirei e fui dizê-lo ao vice-prefeito. Este disse-me que podia ter tirado. Quis lá voltar mas ele não me deixou ir lá de novo. Lembro-me também da alegria que tive quando os alunos do primeiro ano começaram a ajudar à missa. A mandioca que comíamos ao pequeno almoço não me agradava muito, mas lá tive de me habituar. O silêncio durante as refeições não me afectava nada.

Sentia-me tão bem no seminário que, quando fomos de férias no Verão, tive pena e saudades. Ia eu na camioneta para Proença e, junto à praça de touros da cidade, virei-me para trás para ver o Convento de Cristo. Quando este desapareceu no horizonte visual, comecei a chorar de saudades... Gostava muito da vida vivida no seminário e dos meus colegas, tanto em Tomar como em Cernache, onde havia outros encantos mas o espírito era o mesmo. Mesmo em Tomar a visita ao Convento e ao Castelo era sempre atraente. Em Cucujães o ambiente e a disciplina não mudaram muito, mas não dá para descrever tudo. À Sociedade Missionária devo muito da cultura e educação que recebi. Estou-lhe muito grato por tudo. Deus a abençoe. Aníbal Fernandes Alves Catarino
Rua Vila Catió, Lote 398 – 1.º Frente 1800-348 Lisboa Tel. 218 516 547

8. SE BEM ME LEMBRO… Já lá vai um moio... desde aquela tarde soalheira de 28 de Setembro de 1944, quando deixei as faldas da Serra de Sicó e abalei para a estação de Pombal para ali aguardar a chegada de um comboio ronceiro que chegou arfante pelas 12 horas do dia seguinte à cidade de Tomar. Acompanhavam-me o meu pai e um tio que tinha sido amanuense de um capitão no regimento da cidade e que sabia os passos a dar até ao Seminário das Missões. Os meus avós tinham ido à Missa Nova do seu sobrinho P. António Pereira e daí o projecto de um neto seu, com jeito para os estudos – que era eu –, vir a seguir também a vida missionária – e daí a origem desta viagem. Da estação da Lamarosa até Tomar, grandes ranchos de homens e mulheres se entregavam à

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faina da apanha da azeitona e que, sustendo o trabalho, se erguiam para acenar aos passageiros do comboio que das janelas os saudavam. Chegados à estação de Tomar, muitos e muitos rapazitos de olhar bisonho se apearam comigo; entreolhámo-nos e logo nos vimos heróis da mesma sonhada aventura de entrarmos um dia por esses sertões de África, de sotaina até ao chão e de longas barbas,convertendo os infiéis. Formado o grupo, encetámos a caminhada até ao Seminário que surgia lá no alto, na majestade do Convento de Gualdim Pais, indo à nossa frente uma carroça puxada por uma mula valente, carregando a nossa bagagem mais simples: umas maletas e muitas taleigas. A meio da subida, surgia impressionante o casario da cidade e o Mouchão e logo, mais acima, abriram-se os olhos de espanto frente à grandiosidade do Convento de Cristo, onde tinha assento o Seminário das Missões. Entrando, tudo foi revelação: no reconhecimento dos colegas e dos superiores, na apresentação dos espaços que nos aguardavam, dentre estes, o imenso refeitório. Num ritmo bem repartido de vida pela oração, estudos e recreio, ali experimentei pela primeira vez accionar um torniquete que acendia a luz, assisti ao primeiro filme que se chamava “Marcelino, Pão e Vinho” e vi um pequeno caixote chamado rádio que transmitiu de Roma a Missa do Natal de 1944 celebrada pelo Papa. Ah... a minha roupa tinha o n.º 519. Recordo a figura do Reitor, P. Pedro, do P. Soares que ensinava aritmética e geometria de envolta com umas reguadas, das visitas do Superior Geral – que era o Bispo de Gurza – e o P. Pinheiro, de barbas brancas que nos recebia semanalmente para conferir a pagela onde contabilizávamos diariamente as quedas no defeito dominante. Saiu o primeiro colega do nosso grupo de cerca de 90 alunos, e por ele rezámos, à noite, no terço, para que Deus lhe valesse, pois tinha perdido a vocação. (Por onde andarás, Godinho, de Santiago de Riba Ul?) Trago na memória a angústia que nos dominou a todos, na iminência da invasão da Península Ibérica pelos exércitos de Hitler e duma noite de

Maio, quando os canhões começaram a troar na cidade, supondo nós que era a invasão e, afinal, era a celebração da rendição dos nazis. Ainda hoje me parece sentir o cheiro e gosto do óleo de fígado de bacalhau que o prefeito lançava na sopa a quem se demorasse a estender a colher. Que saudades desses dois anos de Tomar em que, avezitas singelas, chilreámos ao sol de cada manhã, nessa despreocupada infância!... Depois, foram três anos em Cernache do Bonjardim. Dos caboucos da memória recolho o barulho do gerador de electricidade que em cada tarde anunciava o anoitecer, as representações teatrais com os pauliteiros de Miranda, a visita de Marcelo Caetano em que cantámos “A Portuguesa” a quatro vozes, a apanha da tília, os passeios até ao Zêzere e Santa Maria Madalena onde vi neve pela primeira vez, as missas solenes que fomos cantar a Mação, Vila de Rei, Proença-a-Nova e muitos outros sítios; recordo sobretudo a ida a Mação em que grupos de três ou quatro alunos eram aboletados junto de famílias lá da terra: estávamos ao almoço em mesa distinta e o Ferreira da Silva não conseguia trinchar o bife com a faca prateada do respectivo talher. Sorrateiramente sacou do bolso uma navalhita bem afiada que trazia consigo e partiu facilmente a vianda que saboreou com gosto, sob alguns sorrisos velados dos comensais. Serviram-me de bom proveito as aulas de português do Pe. Alexandre e de francês do Sr. Craveiro. Seguiram-se os três anos de Cucujães, beirando os 18 anos, quando são muitas as perguntas que nos afligem a as respostas se tornam pesadas. Recordo as festas missionárias, o acompanhamento que fazíamos até à Estação de Cucujães dos padres e irmãos que partiam para Moçambique, a tartaruga gigante que hibernava nos jardins do claustro e o Vouguinha que nós do salão de estudo víamos subir aflito até Faria, recuando a seguir até Cucujães, para de novo abalar por aí fora, devorando a subida até S. João da Madeira, deixando no ar um rasto de fumo espesso. E continuo a ouvir as lições de filosofia ministradas pelo P. Alves que lia um pedaço do jornal “Novidades” e daí tirava pretexto para desenvol-

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ver o sumário da aula. Oiço ainda aquele leitor do refeitório que duma vez atirou do púlpito abaixo o nome de uma qualquer encíclica do Papa Pio Vi (era Pio VI); corrigido pelo presidente da mesa, sob o som estrídulo da campainha, veio a esbarrar, mais adiante, com o nome de Roentgen, inventor do Raio dez (queria dizer Raio X). Depois, veio a corrida imparável: a saída de Cucujães, a tropa como soldado raso, o seminário de Coimbra, o exercício apaixonado da Ordem por cinco anos em zonas remotas sitas entre o Caramulo e Buçaco, com fama de bom pregador, o desentendimento com as autoridades políticas constituídas… O Vaticano II, a dispensa do Ministério por Paulo VI, o refúgio em Moçambique, o casamento quase clandestino na Capela do Arcebispo, de madrugada, o ensino, sempre particular, que a Pide mais não autorizava, o 7.º ano do Liceu, a Faculdade de Direito de Coimbra e a Magistratura do Ministério Público e Judicial que me retalhou muitos dos bons anos da vida por África, Angola e Moçambique, Sátão, Alenquer, Setúbal, Aveiro, Vagos, Penacova, Funchal, Guarda, Gaia, Águeda e Coimbra. Três filhos admiráveis, seguindo a mais nova a profissão do pai; o do meio é professor universitário na área do direito de família e o mais velho, oficial da marinha mercante. Quando em noite de insónia faço o filme desta peregrinação, forçoso é reviver as imagens originais dessa aventura começada em Tomar, em que lançámos as primeiras raízes. Muitos dos que ali firmaram as origens não conseguiram ir pelo mundo além “Dilatar a Fé e o Império” – na verdade: Multae viae sunt ad Patrem! De todo o modo: “o silêncio rigoroso”, “as amizades particulares”, a “forma”, a tríplice classificação semanal e pública do “comportamento”, a severa proibição de contactar mesmo com familiares ou patrícios vivendo sob o mesmo tecto, e algumas práticas espartanas (os tempos eram outros...), ajudaram a modelar a personalidade, a fortalecer a vontade e o carácter, para podermos palmilhar com dignidade os caminhos da vida. Todos aqueles que num dia qualquer de finais de Setembro subiram a encosta de Tomar, a caminho ao Seminário das Missões, têm de sentir grati-

dão por aquele Instituto que nos deu os primeiros impulsos para a Grande Caminhada da nossa existência. E enquanto vamos celebrando a riqueza da Vida, relembramos com muita saudade todos esses pequenos heróis sonhadores, muitos dos quais já partiram para o Pai! Gabriel da Silva
Urbanização Quinta D. João, Lote 3 - 6º D 3030-204 Coimbra Tel. 239 716 758

9. O MEU TESTEMUNHO Abílio Antunes Pereira, natural de Orca, concelho do Fundão, e residente na Rua Paul Harris, n.º 14, Entroncamento. Tudo o que sou e tenho devo-o a Deus, a uma grande protecção de Nossa Senhora, aos meus pais e à Sociedade Missionária, na pessoa de vários dos seus membros. Entrei no seminário de Tomar no dia 1 de Outubro de 1946, na idade de 14 anos. Era Reitor o senhor Pe. Albano Mendes Pedro. Foi meu prefeito o senhor Pe. José Patrício. Grande amigo, cooperador e muito humano. Éramos trinta, fui amigo de todos. Tive como vice-prefeito o senhor Pe. Vieira Mendes. Gostei imenso e lembro os três anos que passei em Tomar. Em 1949 transitei para Cernache do Bonjardim. Tive um grande amigo, dedicado, humano, e um grande pedagogo – o senhor Pe. Porfírio. Muito lhe fiquei a dever. Depois passei ao senhor Pe. Teixeira, bom pedagogo. Era Reitor o senhor Padre Canas e depois o Pe. José Baptista que não tinha qualidades para o cargo. Um grande amigo dado aos jovens e muito competente para a altura, o Pe. Antunes; foi o meu professor de Francês e reprovei dois anos. Transitei ao seminário de Cucujães: Reitor, um grande homem – o senhor Pe. Domingos Marques Vaz –, homem de oração, de muita vida espiritual, nada inferior ao Sr.

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Pe. Campos, e muito humano. Outro cérebro e com muita competência – o Pe. Alfredo Alves, meu professor de Literatura e Filosofia. Muito aprendi, reflecti e segui. Só tive amigos da parte dos superiores e colegas. Em Teologia segui o curso normal; trabalhei, dediquei-me ao próximo e passei pelo cansaço. Graças aos superiores que me deixaram sempre em liberdade e confiança mútua. Desde o segundo ano de Seminário habituei-me a rezar todos os dias o rosário completo. Muito dedicado a Nossa Senhora e ao Santíssimo Sacramento – foram os meus dois pilares e que ainda hoje sigo. Ordenado em 29 de Junho de 1960, continuei no Seminário de Tomar até 1964. Como prefeito e professor dediquei-me aos meus alunos. Realizei-me. Em Outubro de 1964, fomos um grupo de seis padres para Moçambique. Tive um grande mestre, que tinha sido meu vice-reitor em Tomar e já falecido, o Sr. Pe. Pereira. Foi um Santo Missionário a 100%. Trabalhámos juntos, construímos uma nova Missão – Corrane –, onde havia comida para toda a gente, paz e amor entre todos. Passei a outra Missão, Nametil, já muito antiga. Riqueza na sede, mas miséria no resto. Num ano, sem gastar um tostão à Missão, contribuí para a construção de 40 escolas e 40 casas de professores, condignas e utilitárias a qualquer família. Não perdi a vocação mas compreendi que Deus me chamava a outro tipo de apostolado. Em 31 de Março de 1971, despedi-me do então Superior-Geral, Senhor Pe. Alfredo Alves, sem nunca deixar a Sociedade a quem tudo devo, o que sou e o que tenho, sem nunca me desviar de Maria e do Pai. Constituí família. Temos dois filhos (um casal) e dediquei-me à juventude. Entrei no Ensino Secundário em 1971; em 73 fui convidado para professor de Moral, mas não aceitei porque não me garantia futuro. Em 1976 entrei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e fiz a Licenciatura em História. No terceiro ano fiz também as cadeiras ad hoc para complemento do Curso Teológico ao Ensino e no quarto ano, aproveitando as facilidades da Faculdade, fiz 4.° e 5.° anos num. A trabalhar, chefe de família, achei que precisava de frequentar a Universidade e formar-me o melhor possível para realizar o que Deus queria de mim. Escolhi livremente e tive sempre a meu lado

uma grande mulher a quem devo muito do que fiz e continuo a fazer. Estive no Ensino, onde completei o tempo e idade de reforma. Foi um tempo feliz para mim, colegas e alunos. Transmiti Cristo a todos e deixei saudades. Tudo isto, por me tornar como um deles, sem me afastar de Maria e Jesus. Em 1973 comecei a trabalhar na Conferência de S. Vicente de Paulo, na Paróquia do Entroncamento. Sempre trabalhei na paróquia em colaboração com os párocos. Fui Presidente do Conselho Central da SSVP na Diocese. Contribuí para a fundação de várias conferências; a última foi aquela em que ainda hoje trabalho, com 28 vicentinos. Jovens, carenciados e idosos seduzem-me, sem esquecer ou pôr de lado qualquer outra pessoa. Realizei-me em liberdade em Cristo e por Cristo. Continuo a transmitir Cristo, na oração, no exemplo, na palavra e pregação. Como casal fundámos e trabalhamos em dois Movimentos: Virgem Peregrina – já com trezentas famílias, que mensalmente recebem a Imagem de Nossa Senhora, e outro – Fé e Cultura. Como casal somos sócios agregados da “Associação Missionários de Cristo Sacerdote”, com sede em Évora. Como tal fazemos dois retiros por ano, de uma semana cada. Tivemos uma grande acção na fundação do “Fraternitas” – Associação-movimento dos padres casados, com Estatutos aprovados pela Comissão Episcopal. Temos dois encontros anuais, um deles de reciclagem teológica. Toda esta acção, porque fui aluno e membro da Sociedade Missionária. Obrigado a todos vós, Padres e Irmãos, que já estais com o Pai, e a todos vós que estais no activo, e a todos vós, bons amigos, que frequentais as mesmas casas, que trabalhámos juntos e que a vontade do Pai e a nossa liberdade nos colocaram em situações bem diferentes. Gosto de vos lembrar a todos, junto de Cristo na Eucaristia e presente no Sacrário, aos pés de Maria e na sua contemplação e oração do Terço. Um abraço em Cristo!... Abílio Antunes Pereira*
* O armista Abílio Antunes Pereira enviou o seu testemunho em 15 Nov 2004, por correio electrónico. Faleceu em 11 Jan 2005.

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10. O MEU TESTEMUNHO Foi no longínquo ano de 1946. Era Setembro e falei a meus pais que queria ser padre. Só que era já tarde para pedir a admissão e os seminários estavam superlotados. Foi preciso meter uma “cunha” ao Pe. Vaz, então reitor de Cucujães. Nessa altura não faltavam vocações, ao contrário de hoje. No dia marcado lá me apresentei no Convento de Cristo juntamente com 35 futuros colegas, oriundos sobretudo do norte do país. Os três anos que passei em Tomar decorreram numa atmosfera de beleza e magia. Aquele cenário constituído pelo Convento, a mata e jardins anexos, os passeios ao longo dos pegões, as visitas aos monumentos da região, de tudo isso me lembro com saudade. Até dos retiros eu gostava. O Pe. Parodi sabia-os dosear com certas graças tornando esses momentos menos pesados. Entre os superiores que nos orientaram nesta primeira etapa de seminaristas, lembro o Pe. José Patrício. Pessoa muito humana, bom pedagogo e por isso muito respeitado por todos. Os três anos seguintes foram passados em Cernache do Bonjardim. Éramos todos já mais crescidos e com problemas de outra ordem. Foi aqui que se deram a maior parte das desistências dos colegas e era sempre com tristeza que os víamos partir. Apesar disso guardo dali boas recordações. A romagem semanal à Senhora de Lurdes constituía um momento de muita devoção e espiritualidade. Era divertida a apanha anual da tília em que eu fiquei pendurado como um macaco pela quebra do ramo em que me apoiava. Lembro-me também dos pombos correios que sempre levava no regresso de férias, para mandar notícias mais rápidas a meus pais. É que meus irmãos eram columbófilos. Finalmente a transferência para Cucujães. Os três anos de Filosofia, academicamente falando,

foram aqueles de que mais gostei. Para isso contribuiu o facto de o Pe. Alves ser um grande professor. Nesta terceira e última etapa da minha vida de seminarista marcaram-me, pela positiva, mais duas pessoas: o Pe. Vaz, meu reitor, e o Pe. Campos, meu director espiritual. Isto sem desprimor para todos os meus mestres a quem devo imenso. Nem sequer me queixo da disciplina imposta e do método de educação de que muitas vezes discordava. Era o sistema e resta saber se os métodos actuais serão os mais adequados ou se não se caiu no extremo contrário. Fiquei por isso amigo e reconhecido a todos os meus superiores e demonstrei-o, com prazer, onde quer que os encontrei: aqui, em Portugal, na cidade da Beira onde residi 14 anos, em Lourenço Marques, Nampula, etc. Para terminar quero mandar um grande abraço ao Pe. Castro Afonso, único do meu ano na vida sacerdotal e que lá longe, na Zâmbia, dedica a sua vida à mais nobre das causas. Fernando Pinto de Oliveira
Rua Dr. Clemente, 472 4535-080 Lourosa

11. TESTEMUNHO DE DOMINGOS VALENTE Entrei na Sociedade (estabelecimento de ensino de Tomar), em Outubro de 1948 e saí (Cernache do Bonjardim), em Fevereiro de 1953. A permanência ali, durante aquele tempo, constitui uma das minhas melhores experiências de vida e, no período da adolescência, sem dúvida a melhor. Os princípios e valores com raízes na moral cristã, que já transportava comigo, ficaram fortemente reforçados, tanto que ainda hoje me acompanham. Beneficiei na minha vida adulta (no estudo, no trabalho, no relacionamento social, na forma de ver e interpretar o

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mundo) muito da formação obtida na Sociedade. Por isso, ficarei eternamente grato. Domingos Antunes Valente
Rua Cabo Verde, 8 – 2.º E 2900-072 Setúbal Tel. 265 551 142

12. TESTEMUNHO PESSOAL PARA A ARM Sou Manuel Joaquim Faria Gomes, natural de Alvelos – Barcelos, residente em Oeiras, à Praceta de Manica, 6 – 4.º D. Recuando no tempo, confesso que tive dificuldade em descortinar que afinal entrei no Seminário de Tomar no ano de 1948, onde comecei por frequentar a chamada Classe Preparatória. Neste percurso de regresso ao passado, já distante, tive de reviver os tempos em que fui, ora vendedor, merchandiser, delegado de vendas, advogado, liquidatário judicial, trabalhador estudante, militar, quase aviador na força aérea, actividades estas exercidas por territórios tão distintos como Lisboa, Algarve, Aveiro, Madeira e todo o território de Moçambique, terra aliás onde tive a oportunidade de presenciar no terreno o trabalho missionário realizado pelos nossos missionários, alguns dos quais haviam partilhado comigo anos de formação religiosa. Contactei com pessoas de todas as classes sociais. Como tive o prazer, ao longo de todo este percurso, de encontrar outros ex-seminaristas, como aconteceu na força aérea de que relembro o meu amigo António Mendes Laia que faleceu em 1959 quando testava o primeiro avião a jacto de treino que entrou em Portugal. Saí do seminário no ano do “noviciado” em 1958. O sentido ou conteúdo religioso entrou e permaneceu na minha pessoa para todo o sempre. As verdades, como aliás todas as ideias abstractamente amadurecidas, são no meu íntimo mais uma referência de contemplação do que assunto para

discutir ou explanar. Esta concepção advém principalmente dos três anos dominados pela componente filosófica que cria um estilo de encarar a vida. Quando surgiu o momento em que decidi deixar o seminário, para trás ficou toda uma aprendizagem que reclamava um desafio de mudança, uma busca pelo pormenor da diferença (na altura pouco tolerada, admito). O sentido religioso de carácter cristão sedimentou serenamente ao longo desses anos a minha própria personalidade, criou uma maneira de ser e de estar na vida, por vezes pouco pretensiosa. Mas sempre disposta a enfrentar novos desafios, também fruto da juventude, na época. Mas tal como ontem, também hoje aceito e desejo a mudança, a melhor mudança “possível” a crescer e evoluir para toda a sociedade nos seus múltiplos estratos sociais. Como para a ARM e para todos nós. Oeiras, Dez/2004 Faria Gomes
Praceta de Manica, 6 – 4.º D 2780-022 Oeiras Tel. 214 423 271

13. O MEU TESTEMUNHO Decorridos que são 55 anos sobre a minha entrada na SPMCU (hoje Sociedade Missionária da Boa Nova), não posso deixar de corresponder ao apelo lançado pela actual Direcção da ARM de redigir um modesto testemunho acerca da minha passagem de cerca de 7 anos pelos seus Seminários. Entrei no velho Convento de Cristo em Tomar (cujos corredores se assemelhavam a largas avenidas onde poderiam circular automóveis) em Outubro de 1949 e saí em Janeiro de 1957 em Cucujães, quando frequentava o segundo ano de Filosofia. De Tomar guardo especialmente a memória daquele Convento frio e sombrio, onde não foi fácil a adaptação a um sistema de vida completamente

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diferente daquele que a infância me proporcionara no longínquo torrão natal do Nordeste transmontano. Mas foi aqui que, para além de começar a moldar a minha personalidade e a aprofundar a espiritualidade, do ponto de vista intelectual se me intensificou a tendência que, tendo tido por professora a minha própria mãe, já revelara nos bancos da escola primária, a qual se traduzia numa mais fácil apreensão de conhecimentos relacionados com as Letras em detrimento das Ciências. Provavelmente por ter sido o Seminário onde permaneci mais tempo e ainda por este se situar numa zona rural, de certo modo idêntica àquela em que havia sido nado e criado, a passagem por Cernache do Bonjardim deixou no meu espírito marcas indeléveis. Em Cernache aconteceu o despertar da juventude, com todas as interrogações que esta fase da vida suscita e com o surgimento das primeiras dúvidas sobre o verdadeiro caminho vocacional. Visito o Seminário de Cernache (aquele que mais saudades me deixou) sempre que posso, com o objectivo de recordar os bons e maus momentos que nesta grande Casa passei e os formadores que ali mais contribuíram para a minha educação, de entre os quais não resisto à tentação de citar os ainda vivos (e que o sejam por muitos anos) padres António Teixeira e Antunes dos Santos e o já falecido Pe. António Pereira. Tal como aconteceu mais tarde na vida e nas instituições onde estudei e trabalhei, a minha permanência nos Seminários da Sociedade caracterizou-se por aspectos negativos e positivos. Dos primeiros, diria apenas que foram resultantes da época que se vivia – a recuda década de cinquenta do século vinte – e de certas normas que os próprios superiores hierárquicos estavam vinculados a fazer cumprir. Algumas dessas normas só eram contraproducentes na medida em que conduziam a que se saísse do Seminário com os olhos completamente fechados para a realidade do mundo exterior, ao qual, aliás, eram destinados os sacerdotes e os missionários. Prefiro, porém, deter-me mais nos aspectos positivos, que superam largamente os negativos. E dos positivos, apraz-me salientar: os hábitos de reflexão sobre os desígnios de Deus em relação à vida futura; a prática da disciplina, do método, da organização, da rectidão e do estudo intensivo e cons-

ciente das matérias que era necessário assimilar, prática esta que, no meu caso concreto, se trduziu numa preciosa ajuda para os anos vindouros; e a vantagem material (que nunca me canso de salientar) de adquirir conhecimentos (alguns deles mais aprofundados do que no ensino público) duma forma praticamente gratuita, beneficiando significativamente o modesto orçamento familiar. A apredizagem exigente do Latim foi um contributo precioso para a paralela aprendizagem do Português e para uma forma característica de escrever correctamente a língua que falamos. Sem querer tornar-me fastidioso, não resisto a contar brevemente um espisódio da minha vida profissional. Em Angola, fui, no início de 1970, Secretário dum Concelho Distrital presidido pelo Governador, competindo-me redigir as Actas das respectivas reuniões, que, por vezes, se alargavam por vinte ou trinta páginas. Em determinado momento, após ter elaborado a Acta, o Governador (um distinto general do Exército) disse-me: “Queria fazer-lhe uma pergunta: o senhor não foi seminarista?” Respondi naturalmente que sim, porque nunca escondi tal facto. Comentário daquele Chefe: “É que a sua forma de escrever denota que aprendeu o Português, que sabe escrever, no Seminário”. Mas no Seminário aprendi ainda muitas outras coisas boas que tenho que agradecer a quem promovia a sua concretização, tais como: as récitas em que apresentávamos, nos salões de festas, os textos em prosa e poesia que nós próprios escrevíamos; as peças de teatro que representávamos; os ensinamentos de música sacra e profana que recebíamos e que cantávamos em ocasiões específicas. Todas estas manifestações artísticas serviam não só para revelar os dotes que Deus nos concedeu como também para distrair e amenizar os momentos mais difíceis de vencer. Como já me alonguei demasiado, termino, felicitando vivamente a Sociedade Missionária e todos os seus membros pela efeméride dos 75 anos da sua existência e desejando que os seus Seminários venham a ficar novamente repletos de vocações sacerdotais e missionárias. Entristece-me ir a Cernache e encontrar o seminário quase vazio e sem prefeituras idênticas às

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que albergava no meu tempo. Mas o tempo também é outro! Um forte abraço para todos do ex-seminarista, Mário Pêgo
Alameda António Sérgio, 14 – 4.º C Miraflores 1495-132 Algés Tel. 214 120 595

Quem és tu, que a luz do sol Não é como a tua luz, Nem o fulgor do arrebol Assim me prende e seduz? Quem és tu, de azul vestida, De fina púrpura ornada, Tu que consolas na vida, Nesta vida degradada? Quem és tu, que o teu olhar Tão delicado e profundo Transpõe as ondas do mar E domina todo o mundo? Me responde com voz pura A visão iluminada: “Sou quem chamam com ternura CONCEIÇÃO IMACULADA”. Mário Pêgo

Mando (…) uns versos que escrevi em Cernache (creio que tinha 15 anos) e que li numa sessão solene dedicada à Imaculada Conceição em 08 de Dezembro; nessa altura tinha como professor de Português o Pe. Antunes dos Santos (que tem estado no Brasil), com quem muito aprendi. Mário Ferreira Pêgo

14. O MEU TESTEMUNHO Nome: Mário Simões Júlio Pereira Nascimento: 19 de Fevereiro de 1938 Residência: Penela Entrada no Seminário: Setembro de 1949 Saída do Seminário: Setembro de 1955 Decorria o ano de 1949. Oriundo de uma família composta por seis pessoas, os parcos salários do meu Pai só com muita ginástica iam dando para o sustento do dia a dia. Conhecedora de todas estas dificuldades e porque sentia quanto me era impossível ter as mesmas hipóteses de outros familiares, minha avó paterna colocou-me a possibilidade de tudo fazer para eu entrar no Seminário. Como a ideia foi por mim bem aceite, iniciaram-se, desde logo, as diligências necessárias à concretização da proposta.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição, existente na igreja do Seminário de Cernache do Bonjardim.

À IMACULADA CONCEIÇÃO Quem és tu assim tão bela, Tão formosa e virginal, Que brilhas mais que uma estrela No Céu azul sem igual?

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Um sacerdote amigo tratou da documentação exigida e, em Setembro de 1949, juntamente com um sobrinho do mesmo sacerdote, dava entrada no Seminário da S.P.M.C.U. sedeado no Convento de Cristo da Cidade de Tomar. Apesar de ter encontrado uma casa acolhedora e deixado para trás as tarefas de carregar cântaros de água para beber e consumo doméstico, andar pelos pinhais em busca de lenha para a lareira, as idas aos recados, guardar os irmãos mais novos e muitas outras, nos primeiros tempos debati-me com algumas dificuldades, quer a nível dos estudos quer a nível do próprio ambiente. O exame da 4.ª classe ficara para trás havia um ano e muita coisa do que me foi ensinado já o tinha esquecido. As normas exigidas – o Reitor, os prefeitos, as orações, os retiros, o estudo, as formaturas, as aulas, as notas, o tocar da sineta, os horários, as refeições, o silêncio, os recreios e muitas outras – eram condutas a que não estava minimamente habituado. No entanto, tal como o barro nas mãos do oleiro, também eu me fui moldando àquela vida do Seminário e paulatinamente tudo começou a decorrer dentro dos parâmetros da normalidade. E isto porque, além do mais, aos poucos comecei a reconhecer a enorme e sempre constante dedicação dos Superiores e a fraternidade cordial e afectuosa de todos os meus colegas. É com muita gratidão e sentida saudade que sempre recordo uns e outros. De Tomar passou-se para Cernache do Bonjardim. Aqui, face ao grande espaço físico, às instalações mais recentes e acolhedoras e ao maior número de alunos, o ambiente era, em meu entender, mais propício para o desenvolvimento pessoal e espiritual de cada um de nós. Cada ano que passava era um passo que se dava a caminho de uma sã maturidade. Ali, muito, mas mesmo muito me foi ensinado. Não foi só o Português, o Latim, o Francês, a Religião, a Moral, a Matemática, a História, a Geografia, a Música ou o Desenho, mas igualmente a ser Homem, a viver em Comunidade. Adquiri também um elevado número de qualidades que muito me têm beneficiado ao longo da vida, designadamente nos aspectos familiar, social e profissional. Após as férias de Agosto de 1955, entendi que não devia continuar. Tinha então 17 anos. A vida fora do Seminário apresentava-se para mim mais

tentadora. Ainda em Cernache, onde nos apresentámos para colaborarmos numa Festa, falei com o meu Director Espiritual e de seguida com o Reitor, os quais acabaram por me passar “guia de marcha”. Terminava, assim, a minha passagem pelos Seminários da Sociedade Missionária. Comecei depois nova vida. Primeiro, a trabalhar para os meus Pais, ao balcão de um Café. Mais tarde e beneficiando já das habilitações literárias que o Seminário me deu, ofereceram-me o primeiro emprego numa Câmara Municipal. Como este era provisório, concorri a um concurso aberto pelo Ministério das Finanças para o lugar de aspirante das Repartições concelhias. Entre muitas centenas de concorrentes classifiquei-me em 19.º lugar, o que implicou a minha imediata nomeação. Mas nem tudo foram rosas. Não consegui livrar-me do serviço militar obrigatório e, muito menos, de em Setembro de 1961 ter partido no paquete Vera Cruz para terras de Angola. No total, foram cinco anos a servir o Exército, metade dos quais na Guerra Colonial. Após o regresso de Angola, constituí família e retomei o meu trabalho nas Repartições de Finanças. Com o nascimento dos filhos a família foi crescendo. Tenho uma filha e dois filhos, todos licenciados pela Universidade de Coimbra. Creio que não é exagero afirmar que o seu comportamento foi sempre irrepreensível, o que para os Pais é sempre motivo de muito orgulho. Profissionalmente, também fui procurando melhorar a situação, designadamente progredindo na carreira. Exerci a chefia de algumas Repartições e, em 1980, a meu pedido, transitei para o Quadro de Pessoal da Inspecção-Geral de Finanças onde exerci as funções de inspector. Como as tarefas abrangiam todo o País, acabei por trabalhar num elevado número de concelhos. Em 1995, já com mais de 36 anos de serviço, solicitei a minha aposentação que acabou por me ser concedida, embora com alguma oposição da parte do dirigente dos Serviços. Apesar das limitações inerentes aos vencimentos da função pública, com a ajuda de minha esposa sempre foi possível oferecer aos meus filhos, a par de uma sã educação, um certo conforto e bem-estar na vida. No âmbito da vocação cristã, também a semente lançada no Seminário tem dado os seus frutos. Penso que tem havido, da minha parte, correspon-

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dência ao que me foi ensinado e que tenho cumprido as minhas obrigações como católico. A minha disponibilidade para colaborar nas tarefas da paróquia tem sido total. Durante vários anos fiz parte do Conselho Económico. Em 1987 fui instituído, pelo Senhor Bispo da Diocese, nas funções de Ministro Extraordinário da Distribuição da Comunhão e, mais tarde, no cargo de Animador das Assembleias Dominicais sem Celebração da Eucaristia. Tudo isto apenas foi e continua a ser possível porque um dia a Sociedade Missionária me abriu as suas portas e, com todo o carinho, me educou para a Vida. Na celebração dos 75 anos da sua fundação, quero expressar à Sociedade Missionária da Boa Nova o meu sentido afecto, o muito respeito e imensa gratidão por tudo o que me deu e fez por mim durante os seis anos que frequentei os seus Seminários. Bem-haja e muitos parabéns.! Mário Simões Júlio Pereira
Travessa da Escola Primária, 2 3230-269 Penela Tel. 239 569 171 / 919 966 387

15. A MAGIA DO FUTEBOL Parece que nasci com uma bola nos pés. A magia do futebol acompanha-me desde a minha infância. Muitas meias da minha mãe acabaram como bolas de futebol. Logo que tive algum dinheiro, comprei uma bola de borracha para jogar nos caminhos da minha aldeia. Tive até alguns problemas com esta bola, pois o meu avô, que não gostava nada de futebol, acabou por ma tirar. Depois de terminar a minha instrução primária e querendo ir para o seminário, fui fazer o exame de admissão ao Seminário Diocesano de Braga. Tive uma boa classificação, mas reparei num por-

menor que me deixou muito preocupado: não vi lá nenhum campo de futebol e disseram-me mesmo que ali não havia este jogo. Entretanto, um seminarista da Sociedade Missionária, natural da minha aldeia, disse-me: “Gostas de futebol? Então, vai para Tomar, pois lá joga-se muito à bola”. Assim foi. Entrei no Seminário de Tomar em 1950 e, durante toda a minha vida de estudante, fui um apaixonado pelo futebol, tornando-me até um adepto convicto do Sporting, simpatia que ainda conservo hoje. Esta paixão pelo futebol causou-me alguns dissabores e foi mesmo por causa dela que, em Cucujães, já em Filosofia, recebi o único castigo em toda a minha vida de seminário. Baixaram-me muito o comportamento por perguntar os resultados de futebol aos funcionários do Seminário. Mais tarde, em Moçambique, na Missão de Corrane, fiz construir campos de futebol em todas as escolas, dando-lhes em troca uma bola. Grandes festas com ajuntamentos de muitas pessoas se realizaram nestes locais, pois também ali funcionava maravilhosamente a magia do futebol. Na Sede da Missão de Corrane, construí o “Estádio das Mangueiras”, bem conhecido em Nampula, e que foi o palco de muitos e importantes encontros de futebol, vivamente participados pela população daquela área. Algumas festas ali realizadas ficaram bem gravadas na memória das gentes daquela região. Creio que muitas pessoas de Corrane ouviram falar de Cristo e da religião cristã por causa desta força misteriosa e mesmo mítico-religiosa do futebol que tanta gente atrai, de todas as raças e culturas, e que continua sempre envolto no seu mistério. Depois, seguindo outros rumos, passei mais de uma dezena de anos estudando, na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), entre outras coisas, as razões profundas da força misteriosa do futebol. Isto aconteceu principalmente nos anos da minha licenciatura em Comunicação Social em que fiz uma dissertação sobre “Futebol e Religião” e durante o meu doutoramento, também em Comunicação Social, onde defendi uma tese sobre o tema: “Futebol e Mito – Função simbólica do futebol analisada através da imprensa desportiva de massa”. Nestes dois trabalhos, que condicionaram toda a minha vida académica e universitária, procurei descobrir um pouco do segredo de toda a força

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

misteriosa do futebol que, para mim, se situa principalmente na sua ligação aos mitos e em toda a sua carga religiosa que, mesmo inconscientemente, funciona em todas as grandes e pequenas competições realizadas em torno da bola. Os grandes estádios são verdadeiras catedrais, onde se celebram liturgias grandiosas e os pequenos campos de aldeia são igrejas locais onde também se celebra o culto da bola, sempre muito participado pela comunidade local. Actualmente, sou professor de Sociologia e de Antropologia do Desporto na Universidade do Porto, onde procuro falar aos meus alunos de toda a natureza religiosa do homem e da sociedade a partir do desporto, principalmente do futebol. Em conclusão, a magia do futebol continua ainda bem presente na minha vida. António da Silva Costa
Av. D. Manuel II, 1011 – 1.º Vermoim 4470-334 Maia Tel. 229 486 830 // E-mail: acosta@fcdef.up.pt

A aldeia beirã sorria para mim Na euforia da viagem p’ra Tomar; A natureza revelava-se um jardim Sem que o tempo desse por passar. Éramos cinco da mesma região Dando entrada no Seminário das Missões, Num convento de tamanha dimensão E motivo de estranhas sensações. Padre Patrício foi recepcionista, Amável e de barbas imponentes, Acolhendo cada seminarista Para evangelização das gentes. A vida em comunidade E com grande disciplina Pedia responsabilidade E tinha a marca divina. O Cristo crucificado, No altar-mor da capela, Deixava-me impressionado Na sua dor que revela. Orar, brincar e comer, Estudar e cedo dormir Era programa a valer E com regra p’ra cumprir. Logo as saudades surgiram Da família que deixámos; E até convites se ouviram Mas que sempre recusámos. O início da adolescência Quase me era fatal; Pela divina providência Distingui o bem do mal.

16. VIVER EM VOCAÇÃO

À família grande que era a minha Em que Deus tinha o seu lugar Foi revelado ao casal Moutinha Seu filho António consagrar. Transmitida a mensagem naturalmente, Como que bebida no leite maternal, Amadureceu em ritmo crescente E aos onze anos já era um ideal.

Vi chegar a maturidade Na direcção espiritual E o apelo à santidade. Foi para mim o sinal. Foi crescendo a vocação De um dia ser missionário, Sempre com recta intenção Neste sonho visionário.

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Contar esta caminhada, Junto dos companheiros, Era tarefa alongada E fora destes roteiros. Sendo nobre o ideal, No receio do fracasso, Pedia a Deus um sinal Que fosse certo o meu passo. Já no probandato andava, No rescaldo da filosofia, Com ansiedade aguardava Frequentar a teologia. Com grande esforço mental, Na ausência de psicologia, Um esgotamento cerebral Retirou-me desta via. Sofrendo a incapacidade Perante os desafios da vida, Tinha a dor da nulidade E alguma esperança perdida. Não sei se dormia em Deus Ou se Deus dormia em mim; Até que os sofrimentos meus Depressa tiveram fim. Alcancei uma profissão; Realizei-me no casamento; E achei que a vocação É para tudo o fermento. Na ARM sou missionário E em tantas coisas também; Palpito que o meu fadário É ser útil para alguém. O mérito que possa ter A mim não deve ser dado; Mas antes reconhecer E até agradecer O que foi nosso passado.

A chama por nós herdada Nunca mais se apagará; No calor desta jornada Mais acesa ficará. O espírito não tem idade; Boa vontade também; Haja disponibilidade, Alguma criatividade E a bênção da nossa Mãe. Lisboa/Fátima, 17/18 de Maio 2003 António Moutinha Rodrigues
Rua Aboim Ascensão, 3 – 3.º D 1700-001 Lisboa Tel. 217 960 277

17. O MEU TESTEMUNHO Ingressei em Tomar, no ano de 1950, onde estudei durante dois anos. Decorrido esse tempo e após as férias do Verão de 1952, regressei novamente mas, dessa vez, ao Seminário de Cernache do Bonjardim, cujo edifício era mais acolhedor que o do Convento. No dia em que transpus a porta de entrada da nova Casa da Sociedade Missionária, senti uma enorme satisfação mas, apesar disso, a minha permanência, em Cernache, acabou por se resumir ao ano lectivo de 1952/53, porque, após as férias do ano em causa, acabei por prosseguir os meus estudos, num Colégio da cidade de Bragança. Para complemento do meu testemunho, junto estes dois sonetos: Ao tempo de Tomar Já mais de meio século é volvido, Desde a saída do enorme Convento Onde, em menino, me vi protegido E abri as asas ao meu pensamento.

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O ensino, a rigor, sempre sentido, Em cada aula e a cada momento, Julgo eu, deveras, ter contribuído, Para dos valores meus ser sedimento. Às bases do saber que hei conseguido, À sombra do amor e fraternidade, Devo o saber estar e ver a vida... E o carinho grátis recebido, No fulcro da eterna humildade, Deixou a minha alma enriquecida!... Ao tempo de Cernache Na Casa de Cernache, a estadia Foi curta, mas deu para o despertar Ser mais consciente que a nostalgia Que, aos poucos, me fez acabrunhar. Aprendi a viver em harmonia, Tal como no Convento de Tomar, Até que as ilusões da vida, um dia, Pensaram em fazer-me vacilar. Cresci mais e a vivência de um sucesso Transpôs a porta do meu pensamento Que já vagueava por outro mar... O ano finda e dá-se o regresso, Lá para a terra do meu nascimento, De onde não deu mais para voltar!... Francisco Manuel Morais
Rua de Sto. Ovídio Velho, 151 4430-222 Vila Nova de Gaia Tel. 227 118 156 / 279 342 604 (Soutelo)

18. TESTEMUNHO DOS TEMPOS DE SEMINÁRIO E RELAÇÃO COM A SOCIEDADE MISSIONÁRIA Natural de Peraboa – Covilhã, entrei em Tomar em Outubro de 1950 (último ano em que houve classe preparatória), e saí em Cucujães nas vésperas do Natal de 1956, no início do sexto ano, com 17 anos. Do tempo de seminário quero guardar e testemunhar sobretudo boas recordações. A primeira é que ele foi para mim – como para centenas e centenas de adolescentes que o demandámos com o sonho lindo e acarinhado de sermos missionários – o único caminho possível, nessa época, para chegar à cultura e ao conhecimento e ascender na vida a patamares profissionais e sociais que seria improvável atingir de outra maneira. Os valores assimilados durante esses anos – como o sentido da responsabilidade, a necessidade do estudo, a disciplina mental e da ocupação do tempo, entre outros – permitiram-me enfrentar, logo a seguir e progressivamente, tarefas como o Curso Geral de Enfermagem (três anos), o Curso do Liceu (sete anos), o serviço militar obrigatório (quatro anos e meio) e a Licenciatura em Filologia Românica (cinco anos). Foi no seminário que fiz os primeiros contactos com a escrita e a música. Essa quase iniciação permitiu-me, já adulto e profissionalmente estabilizado, retomar o estudo dessas áreas e aventurarme a compor e a escrever (livros que sempre têm sido compostos e impressos na tipografia da Sociedade Missionária). No campo da fé e da espiritualidade, também os anos de seminário me apontaram o caminho que sempre tenho procurado percorrer. Nunca tendo perdido, por graça divina, a relação com Deus e com a Igreja, pude aprofundar e alargar os meus conhecimentos e o meu compromisso eclesial como crente activo e empenhado. Este testemunho escrito é expressão da minha estima e homenagem à Sociedade Missionária e é também gesto de gratidão àqueles que foram meus

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educadores e professores, alguns já falecidos, e que fui reencontrando esparsamente.

De facto, o silêncio pode ser fecundo e criativo e dele erguer-se um “rumor novo” ou brotar uma vida bela e feliz: Apaguem-se os ruídos e desça o silêncio sobre os meus sentidos. Acenda-se o fogo de um rumor novo. E da fonte frágil e rara escorra o cristal de água clara.
(Eugénio Beirão, Pétalas e Rubis, Aveiro, 1995, p. 19)

Prefeitura dos “grandes”, em Cernache do Bonjardim (1955-1956).

Dos colegas sinto saudades e poucos tenho revisto. Procurei um há dois meses, no Algarve, que não via há mais de 45 anos. Que pena não ser a ARM mais procurada como espaço amplo e fecundo de encontro, reflexão e compromisso cristão e missionário! O “silêncio rigoroso” marcou-me interiormente e de maneira tão profunda que, há anos, sem relação explícita e consciente com essa experiência, escrevi num poema: Amo o silêncio e anseio possuí-lo irrecusavelmente – como quem apetece e bebe um copo de água fresca em hora de canícula ardente. Afastar-me do bulício e sentir o pulsar do coração, o respirar brando das coisas, o nascer e o morrer da emoção...
(Eugénio Beirão, Pétalas e Rubis, Aveiro, 1995, p. 19)

Deus queira que tenham frutificado na minha vida as coisas que Deus me terá sussurrado ao coração, nesses e noutros momentos de silêncio ascético! Maio de 2002 João Rodrigues Gamboa
Rua de S. Sebastião, 86 – 1.ºE 3810-187 Aveiro Tel 234 425 697 // E-mail: joaogamboa@clix.pt

19. TESTEMUNHO Ingressei na Sociedade Missionária em 1950 e saí em Agosto de 1958, tendo frequentado nestes anos os Seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Cucujães. Nesse tempo ainda se vivia a ressaca da Segunda Guerra Mundial e a vida não era fácil para ninguém, muito menos para os dirigentes dos Seminários. Em Tomar, de modo especial, nunca me faltaram os cuidados ou mesmo os alimentos, apesar dos meus 15/16 anos de idade. Porque vinha já do mundo do trabalho, nunca tive dificuldade em aceitar as regras de convivência que nos eram impostas, melhor dizendo, explicadas nas aulas de civilidade. Achava tudo aquilo normal. Tinha de haver uma ordem estabelecida para um bom convívio entre todos.

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

Vivi Cernache e Cucujães com alegria entre colegas e Professores. E com todos eles aprendi o que de melhor se pode aprender: os valores humanos e cristãos. Estes, aliados à formação intelectual que gratuitamente recebi, permitiram-me vencer na escola da vida as grandes dificuldades que, após a saída, encontrei. Sempre mantive estreita relação com os membros da Sociedade Missionária e colaborei muito fugazmente, quando funcionário da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, em 1959/60, com o então Superior Geral, Padre Manuel Fernandes, e com o Ecónomo-Geral, Padre Sequeira, quando foi preciso desbravar alguma selva burocrática no Departamento de Obras, para se iniciar a construção do Seminário de Valadares, na Quinta do Penedo. E foi neste relacionamento que me tornei um membro activo (talvez pouco) da ARM. Passei a frequentar as reuniões em Vilar do Paraíso, onde funcionou temporariamente o Seminário, depois em Valadares. Fui, através dos anos, membro de diversas Direcções e continuo a gostar de me encontrar e de conviver com a malta. Academicamente fiquei com a equivalência ao 3.º ciclo dos Liceus. Lancei-me na vida. Fui empregado por conta de outrém e desde 1968 torneime industrial, juntamente com mais seis Armistas, alguns dos quais já partiram para o Pai. No momento em que se comemoram os 75 anos de existência da nossa Sociedade Missionária – Missionários da Boa Nova, não posso deixar de lhe agradecer o muito que por mim fez e que por tantos outros continua a fazer nos cinco Continentes, formando Homens de coragem, de convicções e de Fé. O meu bem haja num grande e apertado abraço que enlaça todos os Membros desta Grande Família Missionária espalhada por todo o Mundo: Padres, Irmãos e Irmãs Leigas e todos os demais colaboradores missionários. Madalena, 13 de Novembro de 2004 Joaquim Alves Pereira
R. Conde D. Henrique, 17 4405-739 Vila Nova de Gaia Tel. 227 111 014

20. O MEU TESTEMUNHO Em 1950 entraria para o Seminário de Tomar este armista, Manuel da Silva de seu nome. Nasci a 30 de Maio de 1939 em Cernache do Bonjardim, terra do Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, cuja elevação aos altares aguardamos para breve. Depois, em 1960, acontecer-me-ia, em Cucujães, a fuga, bem provada, do probandato. Mas, hoje, sou pai de três filhos e já avô de duas encantadoras netas. Isto, graças a uma jóia de madeirense que Deus pôs no meu caminho, também ali em Cernache, mas que eu só viria a encontrar no aeroporto de Lisboa. Exactamente no local do meu trabalho. (Ela descera de Cernache, onde exercia como enfermeira, numa “casa” frente ao Seminário, e ia para Lisboa, a fim de comprar uma passagem aérea para o Funchal. Eu era funcionário caixa da TAP, exercendo a minha função, no momento exacto em que ela vinha pagar… O nosso encontro começou ali). Olhando para o passado, apetece-me dizer que sempre pertenci ao ministério das comunicações: três anos nos CCT, mais trinta na TAP, com hipóteses de correr mundo, medianamente aproveitadas por falta de “cum quibus”, e, é claro, nos primórdios da nossa juventude, os meus dez anos vividos nos três seminários, a pensar em ser-se enviado para as missões… Pensei que esta história valesse a pena ser contada, porque quase todo o mundo dos nossos armistas passou por Cernache, minha saudosa terra, pois hoje habito nos arredores de Lisboa. É-me verdadeiramente grato olhar para a solidificação das nossas raízes. Recordo os meus parentes, que não só os mais próximos. Todos tementes a Deus e voltados para a divulgação do seu Reino. Os Padres Patrício, que eram ainda meus primos afastados, eram também “familiares” a toda a geração a que pertencemos muitos de nós. Recordo ainda aqueles dois padres transmontanos que Deus já tem consigo: o Pe. Agostinho Rodrigues

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que nos apontou, uma vez, o modo como se devia ler a imprensa – a Bíblia dos tempos modernos, como dizia. E quem não tem saudades do Pe. Trindade ou do Pe. Alfredo Alves, para só nomear alguns dos que Deus já tem? Deste, é destacável o seu maravilhoso testemunho, como filósofo e paciente, no leito que o levaria para Deus, após longo sofrimento. Mas, e o que devesse dizer-se, em termos de loas, a respeito dos que ainda nos acompanham? Tanto de padres como de leigos armistas. Este cantinho é pequenino demais para as nossas já longas histórias, eu sei. É muito bom que nos vamos reunindo, já tão assiduamente, e agora se prepare este livro em que terei muito orgulho de participar, se ainda for a tempo. Ele será um poderoso meio de contacto entre as várias gerações do grupo que nos enforma; e também com as várias casas dos missionários, espalhados já por quatro continentes. Parabéns à Sociedade Missionária da Boa Nova e à ARM que está com ela. 03.Jan.2005 Manuel Francisco da Silva
Rua António Sérgio, 10 – 1.º D 2620-132 Póvoa de Santo Adrião Tel. 914 321 919

21. DE PERABOA PARA O SEMINÁRIO DE TOMAR Naquele fim de tarde já bem distante de Setembro (?) de 1951, chegávamos ao Seminário de Tomar três candidatos vindos de Peraboa -Covilhã, acompanhados pelo pai do João Cordeiro Tomás, um dos do grupo; os outros dois eram o José Vinagre e eu. Tínhamos saído bem cedo da nossa aldeia para apanharmos o comboio em Caria e rumarmos ao Entroncamento e Tomar. À chegada, não é fácil desmontar todos aqueles sentimentos de saudade e angústia que nos invadiam, mas um facto nos impressionou logo: o

caloroso acolhimento dos Padres e a monumentalidade do edificio do Seminário, instalado no Convento de Cristo. Logo no primeiro dia, quando constituíram as prefeituras, eu apanhei um grande choque pois vínhamos três de Peraboa e ficaram os outros dois numa e eu, sozinho, noutra. Também é certo que não seria fácil dividir os três por duas prefeituras. O P. Manuel Abreu, também de Peraboa, na altura já bastante doente, tinha tido alguma culpa ou mérito na minha vinda para o Seminário mas estava em Cernache do Bonjardim, bem como o Júlio Abreu Gamboa estaria nos últimos anos de formação em Cucujães. O João Rodrigues Gamboa, como tinha feito o ano zero, estava numa outra Prefeitura e, como não podia haver comunicação entre prefeituras, apercebi-me que iria fazer a caminhada um pouco sozinho, pois só poderíamos falar-nos nas férias em Peraboa. Não foi fácil mas ultrapassou-se ao fim de alguns meses... Ainda em Tomar, mas já no 2.° ano, estava o José António Sampaio e eu de serviço à capela e, à noite, enquanto os outros andavam no recreio em frente à gruta, nós estávamos a preparar os paramentos, na sacristia, para a Missa do dia seguinte. Enquanto preparávamos os paramentos deu-nos para experimentarmos se já tínhamos corpo e altura para envergar uma casula. Para nós já não faltaria muito, mas não nos apercebemos que do lado de fora, naquela longa varanda, passeava o Reitor e outros superiores que, oficialmente, não podiam aprovar o que viam com toda a nitidez para dentro da sacristia!... Quando acabámos a “nossa passagem de modelos”, ouvimos umas pancadinhas no vidro da janela e um aviso muito curto e simples: “Amanhã vão ao meu gabinete!” Penso que foi a noite mais longa e mais mal dormida de que me lembro. No dia seguinte lá fomos e tanto o Sampaio como eu fomos seriamente advertidos e a nota semanal do comportamento veio parar a 10 e veio a repercutir-se na informação trimestral que foi para casa, o que me foi muito dificil explicar aos meus pais, quando fui de férias... Sinceramente, ainda hoje tenho dúvidas sobre a gravidade deste acto e se ele não poderia ter outro desfecho!... Mas, para além destes episódios, fiquei com um grande saldo positivo no aspecto da educação

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da vontade e dos verdadeiros valores que nos devem nortear em todos os momentos da vida. Aqueles quase seis anos acrescentaram-me muito os valores de família que já tinha como referência e foram a melhor escola superior que podia ter frequentado para a minha formação humana e cristã. Entretanto saí. Cedo me cruzei com a Acção Católica Rural, na Diocese de Lisboa, e nesse Movimento tenho realizado o meu compromisso em Igreja. Casei e tenho dois filhos. Em 1991, em colaboração com a Acção Católica de Lisboa, participei com um grupo de voluntários numas férias solidárias na Diocese da GuinéBissau. Passados alguns anos, um dos meus filhos fez a mesma experiência integrado num grupo de jovens. Este trabalho já levou à Guiné várias dezenas de grupos de jovens e adultos, num total de mais de 200 pessoas, que já fizeram esta experiência missionária e levaram vários contentores de ajuda. Tudo isto será ainda o “bichinho” que apanhei naqueles anos em Tomar, Cernache e Cucujães, donde saí em Maio de 1956? Quem sabe ?... João José Gamboa
R. Joaquim da Silva Santos, 14 – R/C E 2500-221 Caldas da Rainha Tel. 262 823 698 / 919 927 001

22. O MEU TESTEMUNHO Na comemoração do 75.° aniversário da nossa Sociedede Missionária, seria injusto, da minha parte, não lhe testemunhar a minha gratidão por quanto lhe devo, já que fui seu aluno, desde Outubro de 1951 a Dezembro de 1958. Fui encaminhado para os seminários das missões, devido às palavras e ao exemplo de dois bondosos sacerdotes: o senhor padre José Genro Carvalheira, ao tempo pároco da minha aldeia, bem conhecido na Sociedade Missionária, que despertou em mim a estrelinha do ideal missionário e que sempre me incentivou

para que fosse fiel a esse nobre ideal. Lembro-me de que, enquanto estava no seminário, me escrevia muitas vezes a activar o calor desse ideal e me dizia: “Tomara eu, um dia, poder acompanhar-te para as missões”... As suas cartas tinham timbradas as seguintes palavras: “Opportet Illum regnare”. Afinal, foi ele que, mais tarde, pediu ao senhor bispo da Guarda para o deixar ir para as missões, e lá esteve ele a trabalhar durante vários anos, na diocese de Vila Cabral com o senhor D. Eurico Dias Nogueira. O outro sacerdote foi o senhor padre José Lourenço Baptista, meu primo, reitor e professor de muitos de nós e cujos exemplos de fé, piedade, acção, disciplina e organização lembrarei por toda a vida. Distantes vão os tempos desse Outubro de 1951 em que deixei a minha família e a minha pequena aldeia de Alcaria, entre as serras da Gardunha e da Estrela, com a roupita toda marcada com o n.º 51, pelas mãos e as lagrimitas de minha irmã Patrocínia. E lá “embarquei” para Tomar, na companhia do meu primo Norberto Azevedo, que deixaria o seminário no 3.° ano, em Cernache do Bonjardim. Era um bom amigo, o Norberto. Alguém se lembra ainda do “Calebre”?... Dava uma boa história, mas o espaço é curto! As primeiras pessoas que vi no Seminário de Tomar foram o senhor Pe. Alexandre de Sousa, imponente e afável, o irmão Ribeiro alegre e bonacheirão e o nosso condiscípulo Joaquim Maria Ladeiras. Foi bem gravado na minha cabeça esse retrato... Depois, foi o dia em que me senti mais pequenino na minha vida... Uma ridícula criatura, a caminhar nos majestosos claustros e corredores do Convento de Cristo... Cada dia, a partir daqui, dava para contar uma história, para fazer um testemunho. Foi o receber dos primeiros livros, sobretudo dos dicionários de letra tão miudinha e que deveria ser tudo para decorar, tal e qual como a doutrina, lá em Alcaria. Recordo os nomes, as imagens, as atitudes de todos os mestres e colegas com quem convivi durante todos esses anos. Formámos grandes prefeituras em Cernache do Bonjardim e em Cucujães. Gostaria de referir o nome de cada superior ou condiscípulo e dizer obrigado a cada um deles, pois foi com eles que eu cresci e formei o meu carácter.

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Não o posso fazer, mas quem ler este meu despretensioso escrito, tenha ele sido padre, irmão auxiliar ou condiscípulo, fique certo que os lembro a todos e com muita saudade. Das prefeituras que referi saíram grandes dirigentes da ARM, como o António Moutinha Rodrigues, o Quim Alves Pereira, o João Laia Cardoso Sequeira, o João Rodrigues Gamboa, o Manuel Albertino (“Mané Pinho”) e valorosos missionários como os PP. Casimiro, Manuel Sá Fernandes, Artur de Matos, Manuel dos Santos Neves, João Evangelista Catarino, Farinha, Norberto Pino, Mamede Fernandes, Valdemar Dias, António Luís e o incansável Viriato Augusto de Matos... Eles são as minhas estrelas! Recordarei para sempre a alegria das nossas músicas do “Cantai ao Senhor”, do “Liber Usualis”; das Vésperas, das missas solenes, das novenas e grandes festas litúrgicas; do “gregoriano”, dos “fabordões” e de toda a música polifónica. E das nossas orações tão simples, mas que serenavam a alma, como a que rezávamos ao iniciar cada deslocação: “Lembremo-nos de que estamos na presença de Deus”, entoava o prefeito, ao que nós respondíamos: “Adoremo-l’O”. E as romagens à gruta de Nossa Senhora... Os meses de Maio... A apanha das cerejas... O aroma das tílias e o zumbido das abelhas... As caçadas na quinta e as pesca-

rias na ribeira... As aulas de Química, com o senhor Pe. Baptista, de Filosofia com o senhor Pe. Alfredo Alves, de medicina com o senhor dr. Pinho... E a Academia de S. João de Brito, com o Zé

Malhão a entoar: “Somos jovens, queremos lutar...” Pois, numa tarde de Dezembro de 1958, já bem chegado ao Natal, fui ao quarto do nosso reitor, senhor Pe. Domingos Marques Vaz, para lhe comunicar a minha decisão de sair do seminário. Estou mesmo a vê-lo: encolheu os ombros, como que a dizer-me: “Também tu, Sebastião... Também te vais embora?!” E pouco mais diríamos. Sei que, quando dei por mim, já cá fora, a descer as escadas, me senti muito tranquilo, mas com lágrimas a correr, cara abaixo... O senhor Pe.Vaz, pelo brilho dos olhos e pelo fulgor que punha nas palavras, nas homilias ou conferências, parecia-me uma imagem viva de S. Francisco Xavier. Na verdade, os nossos superiores tinham mesmo pena de nos verem sair do seminário e tudo faziam para que nos sentíssemos felizes na vida e no ideal, que nos eram comuns. Por fim, quero deixar os nomes dos mestres e condiscípulos, de cujo falecimento tive conhecimento e que, por isso, recordo ainda com mais saudade: PP. José Alves, Alexandre de Sousa, Julião Valente, João Pinheiro, José Patrício, Manuel Abreu, Manuel Faria Gomes, Moisés, Aquiles, Manuel Cristóvão, António Pereira, Alfredo Alves, Sequeira dos Reis, José Baptista, Manuel M. Campos e Agostinho Rodrigues... Que grandes mestres! Que bons amigos! E ainda os nossos condiscípulos: Norberto Azevedo, António Mendes Laia, José Coelho Sampaio, Fernando Cepeda, Padre Armindo Lima e Padre Norberto Pino... Que belos ramos da árvore que nós éramos! O ideal missionário é, mesmo assim, estrelinha que continua a brilhar na minha vida e certamente na vida de cada um de nós, de maneiras diferentes e da forma de que somos capazes. Não foi inútil que a boa semente tenha caído neste bocadinho de terra. Os caminhos são diversos, mas a “Messe” é a mesma e imensa. E aquela oração da “formatura”: “Lembremonos de que estamos na presença de Deus” é de marca e para toda a vida, como a do “Santo Anjo do Senhor”, com que terminavam sempre as nossas orações comunitárias. Depois de tantos anos, não me considero um homem de grande sucesso, como vulgarmente se entende. Casei, tenho mulher e dois filhos. Trabalhei num Banco durante 37 anos e estou reforma-

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do. Com 64 anos de idade, ajudo como posso nesta paróquia de Almada, onde resido, procurando ligar a vida à Vida da Bíblia e à Liturgia. Dedico parte do meu tempo ao “canto coral polifónico”. E isto tudo é muito absorvente, mas reconfortante. Obrigado, Sociedade Missionária. Obrigado a todos os mestres, irmãos e condiscípulos. Parabéns pelo 75.° aniversário! Deus queira continue a semear boas sementes, na certeza de que darão bom fruto a seu tempo. E sem angústias – porque só Deus é grande e aqueles que hão-de fazer a ceifa podem não ter sido os que semearam o trigo, mas o Senhor é o mesmo! José Alves Sebastião
Av. D.Nuno Álvares Pereira, 33-R/c. Dto. 2800-179 Almada Tel. 212 753 395

23. TESTEMUNHO Corria o ano da graça de 1952, considerado pela Igreja Católica como Ano Santo. Duma aldeia, Vale de Estrela, pérola encastoada numa das montanhas da Serra mais alta de Portugal, parti, a cavalo, para apanhar o comboio na estação mais próxima, rumo ao Seminário das Missões de Tomar. Era madrugada, caminhando iluminado apenas pelas areias brancas espalhadas ao longo da estrada de terra batida. Quando cheguei à estação, a máquina do comboio apitou ruidosamente, com o som a ecoar pelas encostas das serranias mais próximas. Foi por um triz que não perdi o comboio. E a única carruagem que consegui apanhar foi o vagão de mercadorias, para onde subi apressadamente e onde um familiar amigo conseguiu deixar a minha bagagem. Quis DEUS que não perdesse o comboio e chegasse ao meu destino, em boa hora! Passsado algum tempo, surgiram no vagão em que seguia os funcionários da CP a perguntar o que

estava ali a fazer. Lá expliquei o sucedido, paguei o respectivo bilhete e fui rebocado para uma carruagem de gente, lá bem adiante. No Entroncamento, consegui mudar de comboio sem engano. Com a mala e o cobertor enrolado, qual campista dos tempos de hoje, cheguei ao grandioso Convento de Cristo, onde fui despejado, tal como outros beirões, numa grande camarata, algo sombria e austera, como num quartel. Era um lugar onde se respirava disciplina e austeridade e onde começávamos a sentir saudades da terra e da família. Em todo o caso, nesse dia, não comemos mandioca, como alguém de família nos tinha anunciado. Nos dias seguintes, a comida era bastante boa e, aos domingos, até tínhamos direito a um pequeno copo de vinho branco, colhido nas vinhas e latadas próximas que ladeavam os recreios. Habituei-me à disciplina do estudo, do silêncio e da oração sem dificuldade. Devo dizer que gostava dos recreios que ficavam situados no campo, o que era bastante do meu agrado. Tanto Tomar, como Cernache, como Cucujães tinham uma particularidade: a poética gruta de Nossa Senhora de Lurdes. Todas as semanas, seguíamos, em procissão até à gruta, entoando e cantando alegremente hinos à Virgem Maria. Ainda ecoam na minha memória esses cânticos, de sabor paradisíaco. Recordo-me dos jogos dos recreios: o futebol, a barra, a tala, o berlinde e a dança dos pauliteiros de Miranda, quando fazia mau tempo. Recordo-me dos magustos, ou eu não gostasse tanto de castanhas! e não fosse da região das castanhas, o distrito da Guarda! De vez em quando, fazíamos teatro, nas festas e nas deslocações às aldeias vizinhas, do que eu gostava bastante e para o qual tinha algum jeito, segundo confessavam os superiores e o público. Recordo-me dos passeios grandes que, em parte, eram financiados com a venda da tília que nós próprios colhíamos, nos meses de Verão, na avenida das tílias, cheia de sombra e de perfume. Tudo nos deixou saudade; até a disciplina e a austeridade, que começavam logo às 6 da madrugada, com o toque da sineta e com a voz do prefeito a rezar, em latim, “Benedicamus Domino!”, e nós, ainda estremunhados, a responder: “Deo gratias!”

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Tivemos a sorte de ter sempre professores competentes que, no campo das humanidades, nos deixaram bem preparados, de tal modo que, ao fazer os exames do 5.° e do 7.° anos, no liceu da cidade da Guarda, foi possível ficar dispensado. E a filosofia, ministrada em Cucujães pelos saudosos professores Pe. Agostinho Rodrigues e Pe. Alfredo Alves, que nos deixaram também bem preparados, neste domínio, para estarmos à vontade, nas mais diversas situações desta vida complexa e difícil. Ao chegar à Universidade de Coimbra, tive que fazer exame de aptidão para me matricular em direito, mas, felizmente, não foi difícil porque a boa preparação, nas cadeiras nucleares, latim e filosofia, permitiram a dispensa do exame oral. A alegoria das sombras da caverna no idealismo de Platão, sobre o conhecimento, tinha ficado bem percebida no seminário de Cucujães, para que o exame se tornasse relativamente fácil. Foi também em Cucujães que, ao ler a Apologia de Sócrates, escrita pelo seu discípulo Platão, aprendi quão grande deve ser a nossa humildade frente à grandeza do Universo e ao mundo do conhecimento. Ele, Sócrates, um modelo de filósofo, de pensamento genial, a defender-se perante o tribunal ateniense, afirmando: “Só sei que nada sei”. Mais tarde, pude saber e compreender com mais precisão a frase lapidar de Sócrates, ao ler Karl Popper, filósofo vienense dos nossos tempos. Sócrates afirmou, em sua defesa, ao tribunal ateniense: “Só sei que nada sei e nem mesmo isso sei”. Tanto Sócrates como Platão, defendiam que só os mais sábios, os melhores, os que estavam melhor preparados deviam ter a seu cargo o governo da nação. Parece-me que os nossos políticos dos tempos de hoje deviam ler os ensinamentos destes filósofos da antiguidade. Entretanto, veio a guerra colonial em África, onde prestei serviço militar, em Angola, como alferes da força aérea. Aí, encontrei um mundo de dificuldades, mas também um mundo de gandes espaços abertos, cheios de luz. Havia riscos, mas foi uma experiência única que só podia acontecer nessa idade. Concluí o curso de direito. Desempenhei as funções de delegado do procurador da República no Minho, de magistrado do Ministério Público junto

do tribunal de trabalho de Setúbal, de Subdelegado do Ministério do Trabalho em Vila Franca de Xira, e de técnico Jurista do mesmo Ministério, na Praça de Londres em Lisboa. Neste momento, já me encontro reformado, fazendo um pouco de advocacia, nos momentos dísponíveis. Antes de terminar este testemunho, queria dizer que é com nostalgia que recordo os momentos vividos nos Seminários das Missões da Boa Nova e que o sentimento genuíno que irrompe de mim não pode deixar de ser um sentimento de viva gratidão para com a Instituição que nos formou em tantos domínios: intelectual, moral e religioso. OBRIGADO! aos seminários da Boa Nova que nos fomaram e nos deixaram na consciência a marca indelével da obrigação de evangelizar, conforme o lugar e as circunstâncias de vida. É preciso lembrar São Paulo: “Ai de mim, se não evangelizar”. Lisboa, 8 - 12 - 04 Joaquim Costa Nunes
R. Cidade de São Paulo, 11 - 6º E 2685-190 Portela LRS Tel. 210 874 050

24. ENTRO EM TOMAR EM 1952 Depois de o vendaval descolonizador passar por Moçambique, tive de regressar a Portugal com a família e, ainda com o vigor dos 40, comprei um terreno nos arredores da cidade de Coimbra, numa encosta virada para o vale e encosta de Eiras. No fundo do terreno, e depois de feita a casa, desbravei a terra que sobrou e, depois de bem cuidada a terra, plantei árvores. Bem tratadas no princípio, desprezei-as durante uma boa meia dúzia de anos. As silvas, ervas e caniços tomaram conta do terreno. No fim do ano passado, resolvi procurar as árvores: algumas já nem rastos, uma ou outra abafada com as silvas e uma – só

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uma – resistiu e tinha mais de três dezenas de boas laranjas. Vi nisto muitos retratos de vida... Inclusive a minha! Ao fim duma amena tarde de Domingo do Verão de 53, quando o sol já passava para lá das Capelas Imperfeitas e da gruta de Nª Senhora, ao fundo do campo da bola, e já parecia poisar para lá dos Pegões, um grupo de meninos corria, gritava e brincava, em frente da Charola do Convento de Cristo, em Tomar, sob o olhar atento do Prefeito. Andava por ali um casal de idade já madura e, vendo aquele grupo de meninos alegres, disse ao Prefeito: “Vão ser um dia missionários!” Eu estava no grupo, ouvi e até hoje tenho essa imagem gravada no arquivo da minha memória. A afirmação do casal não se cumpriu em mim, mas, graças a Deus, um bom número desses meninos alegres chegou ao fim. Esses meninos chegaram ao Convento de Cristo, em Tomar, em 1952. Um ou dois meses antes do Natal, em Cernache do Bonjardim, eram seleccionados os alunos com melhor caligrafia para escreverem cartas a amigos e benfeitores do Seminário, a pedir lembranças para o Natal. Chegou o dia da entrega das prendas e coube-me uma lanterninha redonda, de pilhas. Que maravilha de prenda!... Nessa noite, na camarata lá em cima, virada para a avenida das tílias e ao lado do octógono, já deitado, cobri a cabeça com as mantas e acendi várias vezes a lanterninha bem debaixo das mantas, não fosse o Prefeito ou os vizinhos do lado ver... Durante várias noites, foi uma alegria acender aquela luz. Que maravilha! Ainda em Cernache, quem não se lembra dos passeios ao rio Zêzere, ajudando a levar o panelão de arroz, no carrinho de duas rodas, e, na volta, rezando o terço pelo caminho fora!... E já agora... Quem abriu comigo a porta que dá para a quinta, para irmos apanhar peras e uvas? Que grande aventura, não fomos descobertos... Coimbra, 9 de Janeiro de 2005 José Farinha Lopes
Estrada Logo de Deus, 46 Adémia 3020-268 Coimbra Tel. 234 439 479

25. O MEU TESTEMUNHO Chamo-me Afonso Marcolino Andrade, residente em Gulpilhares – Vila Nova de Gaia, junto ao Seminário da Boa Nova (Valadares). Frequentei o Seminário de Tomar no ano de 1953/54. Era Reitor o Pe. José Mendes Patrício, Vice-Reitor o Pe. Manuel Abreu. Lembro-me ainda dos padres Cristóvão, Aquiles e Soares. Do meu ano, parece-me que só se formou o Pe. Armando Soares, conhecido de todos nós. Lembro-me do Mesquita. Que será feito dele? Fiz um concurso de perguntas sobre religião (Bíblia). Ele ficou em primeiro lugar e eu em segundo. O prémio foi uma caneta de tinta permanente. Estive com o Raimundo no Congresso da ARM, no Seminário da Boa Nova, em Maio de 2002. Não o conheci, foi ele que me reconheceu. Também esteve presente o Pe. Armando Soares. Não me lembro de mais ninguém do meu ano. Foi sempre um marco na minha vida a passagem pelo Seminário. Foi com emoção que o visitei mais tarde. Ainda no mês de Setembro último o visitei por fora, assim como o campo de futebol, lembrando passagens a quem me acompanhava na ocasião. Agora frequento muitas vezes o Seminário da Boa Nova, em Valadares, do qual sou colaborador. Afonso Marcolino Andrade
Rua Belos Ares, 192 Cx 613 4405-621 Gulpilhares VNG Tel. 227 622 689

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26. TESTEMUNHO Nasci numa família católica e desde criança senti-me atraído pelo desejo de ser missionário para poder levar o Evangelho a gentes muito distantes da minha terra. Inicialmente fui para o Seminário dos Salesianos, em Mogofores, no ano de 1952, onde estive apenas esse ano, não conseguindo adaptar-me. Regressado a casa, o meu primo Padre Regal diligenciou no sentido de ir para a Sociedade Missionária da Boa Nova para o Seminário de Tomar, entrando para o 2.° ano, em 1953. Os anos decorriam alegres e felizes e precisamente na altura da minha vida de Seminário em que me sentia mais perto do Senhor, em que sentia desabrochar em mim a vocação de ser Padre e se tornava mais viva esta aspiração de ser missionário, fui compelido a deixar o Seminário, exactamente no Seminário de Cernache de Bonjardim, no 5.° ano, em 1956, em circunstâncias dolorosas e traumatizantes que durante algum tempo afectaram a minha vida. Mas, felizmente, graças à fé e ao apoio dos meus familiares, sobretudo da minha mãe, consegui com o decorrer do tempo curar essa ferida que tanto me doeu e, hoje, recordo com viva satisfação muitos dos momentos agradáveis vividos no Seminário que indubitavelmente marcaram para sempre a minha vida. Por tudo isso, dou graças ao Senhor e manifesto o meu agradecimento à Sociedade Missionária da Boa Nova, deixando aqui expresso o meu reconhecimento e também o meu testemunho. É verdade que, após a saída do Seminário, passei por alguns momentos de crise e de aridez, mas com persistência e determinação fui gradualmente superando esses obstáculos, quer de ordem religiosa, quer de ordem económica e profissional, mercê da formação que recebi no Seminário. Entretanto, conheci a Isménia com quem casei e temos três filhos, dando-lhes a educação cristã. Também, devido à formação recebida no Seminário, procurei estudar e aprofundar alguns documentos do Magistério da Igreja, dando-me con-

ta de que o Concílio Vaticano II tinha introduzido profundas alterações e tomando consciência de que os Padres não são os únicos responsáveis pela Igreja, mas que também os leigos são uma parte da Igreja e que, por isso mesmo, devem assumir, em cada dia, a parte da responsabilidade inerente à sua vocação no mundo. Tudo isto teve um impacto muito forte no despertar da minha consciência cristã, ao reafirmar e explicitar, de modo inequívoco, que todos os leigos em razão do baptismo são chamados a participar, à sua maneira, na tríplice função de Cristo: sacerdote, rei e profeta. E esta identificação com Jesus Cristo constitui a essência da plena vocação e dignidade dos fiéis leigos e da sua comunhão e participação na missão da Igreja Católica e, portanto, somos todos corresponsáveis da Igreja e a tarefa da missão e evangelização cabe a todos, porque todos fomos chamados à santidade. Toda esta descoberta foi para mim um assombro, foi como um mundo novo que se abriu diante de mim e, portanto, reacendia-se dentro de mim o desejo e a aspiração de voltar a ser missionário, anunciador da Boa Nova, na minha condição de leigo. Por outro lado, percebi que, para evangelizar, preciso primeiro, e acima de tudo, ser evangelizado. Ninguém pode dar aos outros o que não tem. Tenho que primeiro encher o meu coração do Senhor Jesus. A boca fala do que transborda do coração. Para ser testemunha não posso falar de algo que não conheça em profundidade. Por isso, tinha necessidade, antes de mais, de experimentar, viver o verdadeiro encontro com Aquele que nos chama, estabelecer com Ele uma relação de intimidade profunda, para depois, então, ser enviado como apóstolo de Jesus Cristo. Foi isto o que procurei e efectivamente encontrei nas Oficinas de Oração e Vida. Aprendi a entrar, pouco a pouco, na relação pessoal com o Senhor, a estabelecer, na fé e no amor, uma relação de intimidade e profundidade, começando pelos primeiros passos, continuando por uma variedade de modalidades ou de diferentes modos de relacionamento com o Senhor, até submergir no insondável abismo da contemplação. Para mim é importante a oração para a missão evangelizadora, uma oração feita de silêncio e de escuta desse Deus que, em Cristo, ama todos os

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homens e quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade. Por isso, neste momento eu e a Isménia, em casal e na qualidade de leigos, somos responsáveis pelas Oficinas de Oração e Vida, a nível da Coordenação Zonal Luso-Africana, abrangendo Portugal e os países africanos de expressão portuguesa. Quando verdadeiramente se tem conhecimento de um Deus vivo e pessoal, se faz a experiência do encontro com um Deus infinitamente misericordioso que nos ama incondicional e gratuitamente, então brota em nós a força do Espírito para evangelizar e sentimo-nos impelidos a irradiar e a comunicar o mistério pascal, a Boa Nova de Deus ao mundo actual, onde quer que seja. E assim tenho a plena consciência de que se aplica a mim aquele adágio popular: “Deus escreve direito por linhas tortas”. Não deixei de ser fiel à minha vocação de missionário e de evangelizador, não como eu queria, mas sim como o Senhor quer, não como Padre, mas sim como leigo. Seja feita a Sua vontade. António Francisco Tavares Regal
Rua Bartolomeu Dias, 2 – 7.º Dto. 2685-187 Portela LRS Tel. 219 447 746

27. A DEFESA É CASTIGADA Quando, por vocação ou conveniência de serviço, se entra na nobre missão de ensinar, deverá terse em conta que: ou se toma, logo de início, uma atitude firme de autoridade, sem cair no “posso, quero e mando”, ou se deixa embalar pelo modo como a turma quer ou tenta ser. Uma turma de 25 alunos na idade dos 12, 13 anos, arredados do seio familiar, onde tudo, ou quase, lhes era servido – desde o levantar pelas 8 horas, deitar quando quisesse, com a roupa lavada sem ter o cuidado de a mandar para a lavadeira, cama feita, almoço na mesa e até o bacio debaixo da cama para as suas necessidades primárias.

Agora aqui era tudo diferente, principalmente se pernoitasse na camarata do primeiro andar. Se pelas 3 ou 4 horas da madrugada tivesse necessidades, teria de vestir as calças dentro da cama, enfiar os sapatos, sair da camarata, atravessar um largo corredor onde, ao fundo, pontificava, em tamanho natural, um Cristo crucificado alumiado por uma lâmpada, e meter-se num estreito labirinto escuro, frio e molhado, entrar num pequeno cubículo a que chamavam casa de banho, com um buraco aberto no chão e que dava para um subterrâneo... Esse pequeno cubículo tinha uma porta com fechadura e que àquela hora, mesmo que estivesse sozinho, teria de ser fechada à chave ou ferrolho para recato e pudor de quem se estava a servir. E lembrarmo-nos, agora, que naquela Casa se estavam a formar crianças que amanhã seriam homens que seriam mandados para terras de missão onde não encontrariam homens e mulheres, lá nascidos, vestidos com fatos a preceito, mas sim e apenas com uma única peça de roupa da cintura para baixo cobrindo as suas partes mais íntimas... E, agora, a criança, desanuviada, tiritando de frio e de medo, voltar para a sua cama, até que uma sineta, ainda o sol está no primeiro sono, a acordará e lhe lembrará que tem mais um dia pela frente para a sua aprendizagem. Leccionavam naquela turma vários professores, todos competentes e todos com o seu feitio. Ali não havia lugar para cunhas ou alvíssaras. Sabes? Passas!! Estudas? Tens lugar!! És desleixado? A porta que te deixou entrar também se abre para saíres. E as notas comportamentais, lidas todas as semanas, em alto e bom som, perante todos, não deixavam sombras para o avaliador de que estava tudo correcto. Que grande farsa! Não se compreende que alunos cujas notas trimestrais eram de 13 e 14 pudessem ter 10 ou 12 no comportamento estudantil! Feitios!!! Um professor havia que, a explicar e a corrigir, era impecável; e então na disciplina que quase todos temem: Matemática. Porém, se mostrava um sorriso, da parte da turma era uma gargalhada; se era um riso mais aberto devido a alguma azelhice, havia lugar a uma algazarra, os alunos tinham-no embalado. Podia ele gritar alto e bom som: “Calem-se! Vamos ao trabalho!” e logo as perguntas caíam: “Sr. Padre, explique melhor! Diga outra vez!

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Este x não é igual a este número!” E assim por diante. Quando, certo dia, tudo isto já estava a passar as marcas e um aluno dos mais pequenos se levanta da carteira e grita alta voz: “Calem-se!!! Não aborreçam mais o homenzinho!!!”, o professor, do alto do estrado, lança um olhar carrancudo sobre o defensor, que, encolhido no seu lugar, mais parecia um condenado à morte! E, no meio do silêncio que se seguiu, ouviu o que nunca pensou ouvir: “Homenzinho, eu?” e sem mais demoras: “Rua!!!” E o catraio, com os olhos cheios de lágrimas, abandona a sala de aulas e durante muito tempo foi o bode expiatório daquela turma. Mas um miúdo com 12 anos a olhar para o professor, que talvez tivesse 27, e vê-lo com aquela barba em toda a cara, devialhe parecer não um homenzinho, mas um homenzão. Tudo isto se passou no já longínquo ano de 1953/54, em Tomar. O aluno era o Raimundo e o professor, Carlos Martins Soares, a quem daqui endereço os meus cordiais cumprimentos. 20.10.2004 António Raimundo Amado
Largo da Capela Avessada 3150-215 Condeixa-a-Velha Tel. 239 942 348

28. A FORÇA DE UM TESTEMUNHO Sou o Francisco Antunes Domingues, de Louriçal do Campo, Beira-Baixa. Entrei no Seminário de Tomar, no dia em que fazia 10 anos, 1 de Outubro de 1953. Logo dali são muitas as recordações que ficaram: o Convento e os seus claustros, a charola e o seu órgão, os passeios pela cerca e pelo aqueduto dos Pegões, a ida à igreja da cidade em tempos pascais, o campo de futebol com a gruta de Nossa Senhora ao fundo, o belo pão com manteiga, o queijo e o leite da Cáritas ao pequeno almoço... Em 1955, rumei a Cernache do Bonjardim. Mais espigadote mas novato: era o mais novo do curso. O que logo me salta à mente é a gruta de Nossa Senhora onde íamos todos os sábados em romaria. Passávamos pelo campo de futebol onde, além desse jogo de que guardo recordações num dedo torto contraído no

meu posto de guarda-redes, ficaram célebres as partidas do jogo da tala. Depois, a quinta com as vinhas e as hortas e o irmão que tomava conta delas cujo nome já me esqueceu. O Pe Patrício. Em 1958, entrei triunfante em Cucujães. Ia aprender Filosofia. Que saudades das aulas do Sr. Pe Alves! Como me fez despertar com os seus ensinamentos para a realidade da vida! Com o maestro Pe. Silva Pinto, arruinei um pouco, entre a vaidade e a necessidade de suportar o naipe de tenores, a minha bela voz que, no entanto, ainda continua a deliciar quem me queira ouvir cantar a Samaritana ou Coimbra é uma lição. Não resisti à leitura escondida, em tempos de férias, de Eça de Queiroz, donde retive a célebre frase, creio que de Jacinto em A Cidade e as Serras: “Que me importa o mundo se a digestão me pesa?”. Esta e outras deixas queirozianas deram corpo às minhas redacções de tema livre para as aulas de Português, o que me trouxe alguns dissabores por me querer afirmar como um racionalista no realismo da vida. No campo de futebol, fizemos aprendizagem de andar de bicicleta. A minha estreia ficou marcada com uma saída de campo, tombando da parte mais alta da parede e dando entrada no hospital, parece que apenas magoado sem nada ter partido! Nas férias do 8.° ano, conheci uma moça que me virou a cabeça do avesso, acicatado pelo calor do verão, o peso da puberdade, o cheiro forte a giesta negral e a rosmaninho da Serra da Gardunha, onde ela tomava conta de crianças numa Colónia infantil. Regressado ao Seminário, convenci o Reitor, o meu conterrâneo Pe. José Valente, a abrir uma excepção e a deixar-me frequentar Teologia sem passar pelo Probandato, etapa para a qual não me sentia nem atraído nem preparado. Concedido. Em Teologia, com o Pe. Marques, doutorado em Estudos Bíblicos pela Universidade de Roma, as minhas discussões eram permanentes devido à contestação sistemática, logo a partir do Génesis, com a Criação do Mundo e nela a de Adão e Eva condenando, com o seu pecado original, a humanidade ao trabalho e ao sofrimento. Aguentei, aguentaramme um ano. No 2.º ano, mal cheguei a entrar, já com um dia de atraso, e a dormir, pois regressei ao “mundo” num dos dias seguintes, indo directamente para Castelo Branco onde, no mesmo ano, tirei o antigo 5.º ano de Ciências e Letras, com a ajuda do

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Director do ISA, que me deixou frequentar as aulas de Física e de Matemática já entretanto esquecidas, e fiz o sétimo de Letras. Dispensei ao exame de aptidão para entrada na Universidade de Letras de Lisboa, e ali me licenciei em 1968. Depois, foi um ano no Liceu Camões, três anos de serviço militar, dois deles em Nampula, trinta e dois anos de professor no Colégio Militar, durante os quais me dediquei à publicação de livros para o ensino do Francês. Agora, reformado, vou escrevendo... filosofias da vida, na tentativa de encontrar a Verdade, nas dicotomias Ciência e Religião, Deus e o Homem, o Bem e o Mal, o Espaço e o Infinito, o Tempo e a Eternidade. O primeiro “filho” de tais escritas chama-se O EU CÓSMICO, publicado pela EuropaAmérica. Para alguns que já o leram, apaixonante! Não sei o que seria se não tivesse tido a sorte de ter estado na Sociedade Missionária. Outro, certamente que não eu, pelo menos no pensar, que no corpo... não haveria grande jeito a dar-lhe! Nesta etapa da minha vida, tendo lido António Damásio nos seus livros sobre o cérebro, Carl Sagan sobre os mistérios e as leis que regem o Universo e a vida, e muitos outros, tendo-me apaixonado pelas Ciências da Vida e do Cosmos, sinto que a minha formação de menino a todos os níveis e a filosofia e teologia aprendidas e discutidas, na juventude, com aqueles “crânios”, fo-

ram determinantes para mim e para a clarividência com que vejo e sinto agora as coisas, do átomo ao Universo, do Homem a... Deus! A todos, sem excepção, mesmo aos meus colegas de que não menciono nomes para não ser injusto para com aqueles de quem me esqueceria, o meu imenso obrigado. Imenso, embora de certeza pequeno, como pequeníssimo que sou, pequeníssimo é o Homem na Terra, sendo esta pequena no Sistema Solar, o Sol pequeníssimo na Galáxia, a Galáxia pequeníssima no Universo, não havendo Ciência capaz de provar que o Universo não seja infinito! E, se infinito, eterno! E como só Deus é e pode ser infinito e eterno, por Sua própria definição, e porque dois infinitos ou eternos não cabem senão um dentro do outro, sendo ambos um só, teremos um panteísmo universal! Uma fantasia, dirão uns. A Verdade, dirão, a meu ver, os que raciocinam e têm uma visão não de espaço mas de Infinito, não de tempo mas de... Eternidade! Para o leitor, o desafio da procura! Francisco Antunes Domingues
Rua João de Freitas Branco, 24 – 6.º Dto. 1500-359 Lisboa Tel. 217 262 327 / 969 209 018 E-mail: rdd75218@mail.telepac.pt

?

Aos dezoito anos!

Aos sessenta anos!

Na eternidade!...

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29. TESTEMUNHO MUITO SENTIDO Tive em criança, por circunstâncias várias, o então raro privilégio de “ir estudar” para longe. E estudei. (…) À sombra dos claustros decorreram alguns anos da minha vida. Os primeiros da minha formação. Eles deixaram em mim marca indelével. Habituei-me a amar o Criador do Universo, o próprio Universo e os homens, quando são Homens. A Cernache do Bonjardim, quando me despedi do seminário e transitei para Cucujães, escrevi na juventude UM ADEUS Adeus, Bonjardim! Meu jardim, adeus… Terra de sonhos e cantares, De pombas voando nos ares Cheia de flores, sorrindo, És berço a embalar Corações que vão abrindo… Cheia de sol e de luar, De nuvens brancas, doiradas, – Oh! tardes perfumadas! – Tu, terra do Bonjardim, Sempre cheia de beleza No esplendor da Natureza, Adeus! – sorri para mim! Na hora da partida Minha alma ao Céu erguida Vibra em teu seio dolente. Tu és bela, tu és linda Na frescura da manhã E nas tintas do poente. Como eu recordo encantado A capela branquinha E o altar enfeitado! O salão de estudos,

Aulas e refeitório, Corredores e jardins, Recreios e dormitório! E à tarde, tardinha, Como era bonito Ver uma andorinha No azul do infinito! Adeus, árvores frondosas, Grandes, esbeltas, floridas. Adeus, perfume das rosas, Sorriso das nossas vidas. Adeus, manhãs afogueadas De rosado sol-nascente; Azuis, brancas, encarnadas, Ó manhãs orvalhadas, Adeus, adeus para sempre! Ó aurora branqueada, A tua face rosada Eu quero contemplar! Inunda-me, doirada, De branca luz refulgente, Enquanto eu, sorridente, Escuto, pelos ramos da folhagem, Ao leve sopro da aragem, Os teus rouxinóis a cantar. Adeus, noites calmas, silenciosas, Cheias de estrelas formosas Que no alto espreitam a brilhar! Brilhai sempre, brilhai agora, Que eu quero pela vida fora Vossa luz no peito guardar! Adeus, jardim bendito, De pequenas gotas orvalhado. Inunda de aroma infinito Este pouco do meu passado… José Marques Farinha
(Marques Farinha, Poemas da vida, Lisboa, Editorial LusoAtlântica, 1991, pp. 12-13 e 107-110) Praceta das Várzeas, 16-A 2795-895 Queijas Tel. 969 352 442

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30. O MEU TESTEMUNHO Transmontano, nascido em Carção (Vimioso), em 1942, entrei em Tomar em 1954 e saí em Cernache em 1958. Aderi à ARM em finais dos anos 70. Delegado vitalício da Delegação de Valadares, desde a sua fundação. Aposentado da C. G. de Depósitos. Casado e pai de dois filhos, moro na Maia desde 1975. Entusiasta desde a primeira hora da publicação deste livro, não podia deixar de dar também o meu testemunho que, duma maneira sintética, frontal e directa, se poderia resumir em dizer apenas: ESTOU AQUI. Oriundo, como a quase totalidade dos alunos da Sociedade nas décadas de 40, 50, 60 e 70, das zonas mais interiores do País, será neste contexto que procurarei enfocar o meu testemunho. Como dezenas e dezenas de outros miúdos, devo a minha entrada na Sociedade à influência do saudoso e inesquecível Pe. Amândio Lopes, natural de Carção, que, porta a porta, fazia a mais autêntica dinamização missionária e ao qual nunca foi reconhecido o seu espírito de missão e apostolado, tanto pela Sociedade como por muitos daqueles que ele encaminhou para lá. A ele deve o País intelectuais ilustres, brilhantes homens de leis, médicos famosos, militares competentes, empresários de sucesso e uma plêiade incontável de homens valorosos nas mais diversas actividades, para os quais, pela sua acção e empenhamento, a Sociedade foi o trampolim que os potenciou para níveis de cultura e valorização pessoal que seriam impensáveis para todos eles, de entre os quais, com toda a mosdéstia, também eu me incluo. Quantas vezes ia o Pe. Amândio a casa dos pais para os convencer que o menino era esperto e devia ir para Tomar, que ele até conseguia que pagasse apenas 20$00 por mês de alimentação. Sim, a hoje irrisória quantia de 20$00, quantia bem difícil de grangear por quem trabalhava de sol

a sol para manter a família em níveis mínimos de subsistência, naqueles longínquos e bem difíceis anos 40/50/60. Foi o espírito de tantos colaboradores anónimos como o Pe. Amândio Lopes que fez crescer e afirmar-se a Sociedade que hoje temos. Para eles e para Ela, e por todos aqueles que o deviam fazer e o não fazem, o testemunho da minha eterna gratidão. Francisco Costa Andrade
Rua D, 174 Urbanização Bouça Grande 4470-825 Vila Nova da Telha Tel. 229 423 234

31. O MEU TESTEMUNHO “No fim do Verão vais para o Seminário, vais estudar para Padre”, disse-me o meu pai em jeito de sentença. “Sempre deve ser melhor que guardar cabras”, disselhe eu. E lá fui para o Convento de Cristo, altivo e com esperança, e depois para Cernache do Bonjardim. Até que, quase quatro anos depois, o meu pai recebeu uma carta registada do Senhor Reitor onde, entre outras coisas, dizia que seria melhor para mim ser um bom cristão no mundo do que um mau Padre. Na semana seguinte, fui ao Seminário entregar alguns pertences. Saí comovido por ter lá deixado a minha batina de que tanto gostava. Uns anos mais tarde comprei uma toga, que ainda uso, e que se parece com aquela minha batina. Entrei e saí do Seminário, em paz comigo e sem convulsões, mas não esquecerei nunca aqueles plátanos frondosos que se encontravam junto à cozinha do Convento de Cristo nem a Quinta de Cernache. A esses ambientes devo o meu actual amor pela natureza. Da mesma forma, não posso esquecer aquela música gregoriana que esforçadamente fui aprendendo. É hoje e será sempre a minha música de eleição. Mas foi também lá que aprendi a distinguir o

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livre arbítrio de outros conceitos. De facto foi lá que aprendi que “o livre arbítrio é o dom mais elevado que o homem recebeu de Deus; se o homem não possuísse livre arbítrio e fosse simplesmente forçado a servir Deus, não haveria nem beleza nem vida no homem e não haveria nem alegria nem glória para Deus. É sumamente belo e precioso que o homem sirva Deus e o ame com todo o seu coração de livre vontade. Devido a esse livre arbítrio o homem é supremo em toda a criação” (Princípios Divinos, pág. 27). Mas não foi só isso que lá aprendi. Julgo hoje não ter dúvida que os princípios que enformaram a minha forma de estar na vida tiveram origem nos Seminários da Sociedade que tive o privilégio de frequentar. Foi também lá, penso eu, que descobri a receita para poder ser feliz para sempre e que é: devo ser humilde, cumprir a minha missão e aceitar a vida. De facto, ninguém, por mais culto ou rico que seja aos olhos dos homens, deve considerar-se superior aos outros, uma vez que basta um grão de areia para deitar por terra os nossos projectos. É que grande, grande, é Deus Nosso Senhor. Por outro lado, quantos de nós falam, falam, mas não cumprem a missão que a cada momento lhes compete, porque é dificil?! Só o cumprimento do dever dará a tranquilidade ao homem de novos horizontes. Quantos, por esse mundo, cumprem a sua missão e a dos outros! São os heróis do nosso tempo. Aconteça o que acontecer, terei que aceitar a vida, o bom e o mau que ela nos der, acreditando na nossa condição humana. Por último, não resisto a citar uma frase que li algures: “Cheio de Deus, não temo o que virá, pois venha o que vier nunca será maior que a minha alma”. Continuo a acreditar nesta filosofia de vida e em quem me ajudou a dar os primeiros passos, na estrada que devo percorrer. Por isso, os objectivos que presidiram à criação da Sociedade Missionária continuarão vivos para além dos 75 anos de vida que comemoramos neste ano de 2005. José Maria Ribeiro Novo
Rua Marquês de Fronteira, 117 – 2.º Esq. 1070-292 Lisboa Tel. 213 879 258 / 966 183 744

32. SEPTUAGÉSIMO QUINTO ANIVERSÁRIO DA SOCIEDADE MISSIONÁRIA Testemunho do Vieira de Sá Seminarista No Verão os seminaristas chegavam para férias. Fatinho preto, gravata da mesma cor, camisa branca, sapato preto engraxado, compostura e boas maneiras. Ajudavam à missa, sabiam latim e francês, estudavam para ser padres. Os miúdos gravitavam em torno deles, com curiosidade e admiração. Com os seminaristas de férias, eram maiores os dias e maior a minha liberdade. Não havia hora estrita de chegar a casa, após a catequese à semana ou o terço ao domingo à tarde, bastava dizer quando chegasse, andei com os padres, não havia processo inquisitório, ralho ou castigo. Ser padre era o melhor da terra e do céu. Com ênfase e enlevo, uma tia minha dizia: “Que dita, uma mãe ter um filho que faça descer Deus do céu à terra!” No inferno da tanoaria, o meu pai não me queria. Decidira, quando acabasse a 4ª classe, iria para o Seminário de Tomar. No estudo das linhas férreas, tive especial cuidado em reconhecer o percurso de comboio até à cidade de Tomar. Em dois de Outubro de 1955, embarquei na estação de Esmoriz, ia a manhã a mais de meio. Seriam umas cinco horas da tarde, ou pouco mais, tinha trepado as grandiosas escadarias do Convento de Cristo. Tinha onze anos, ia engravatado e aprumado no meu fatinho preto, já era seminarista. Agora era preciso estudar e portar-me bem para não ser mandado embora. O sacrifício dos pais era grande e seria um desgosto imerecido para eles, se me portasse mal ou me mandassem embora por outro motivo. Quero que sejas um homem Percebi cedo que o padre missionário era um padre diferente do pároco da aldeia. Nas férias do

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primeiro ano, um dia sentei-me ao lado do meu pai que estava a ler um jornal e, com algum receio, aproveitei a ocasião para lhe dizer: “Pai, no nosso seminário estudamos para ser padres missionários. Um dia vamos para as Missões em África, não ganhamos dinheiro como os padres das freguesias e não podemos ajudar os pais, se eles um dia tiverem necessidade”. O meu pai disse-me: – Não faz mal, quero é que sejas um homem! Senti um alívio enorme. Pensei que o meu pai, amargando naquele inferno da tanoaria, sacrificando-se tanto para me trazer no seminário, talvez esperasse alguma recompensa futura. Recebi uma lição de generosidade! Esforcei-me para ser missionário Tinha o aval paterno para ser missionário. Restava esforçar-me para o merecer e esforcei-me. Estudei, rezei, brinquei, interiorizei as Normas Disciplinares, fiz meditações e retiros pequenos e grandes, um Probandato com espírito de asceta, tomei banho em água fria no Inverno e dormi no chão e mais coisas que não são para aqui chamadas. Pelo 3.º ano de Teologia, comecei a ruminar dúvidas, vacilei na incerteza e estive à beira de desistir, mesmo no fim do curso. Prevaleceram os nobres exemplos, as palavras de coragem de gente amiga e um apelo íntimo a dizer-me que o único sentido da minha vida era seguir em frente. E segui. Em Agosto de 1969, fui ordenado sacerdote, na Sé Catedral do Porto, pelo Bispo D. António Ferreira Gomes. Nos dois anos seguintes, trabalhei no Seminário de Cucujães, era professor dos alunos do 1.º e 2.ºanos, fiz parte da Redacção da revista Boa Nova, redigia a secção de noticiário intitulada Horizonte, aos domingos coadjuvava durante toda a manhã, na Paróquia de S. João da Madeira, o P. Aguiar. Lembro que no final do 2.º Ano do Ciclo (1970/71), os nossos alunos foram fazer exame no Ciclo de Oliveira de Azeméis e a Matemática, a média total dos mais de 40 alunos, foi de 16 e umas décimas. Mereceram duas grades de cerveja! (Hoje ofereceria outra coisa!)

Fui para as Missões Em Agosto de 1971, fui nomeado para as Missões, Região de Nampula. Em Outubro seguinte, parti do cais de Alcântara, no paquete Moçambique, rumo à província do mesmo nome. Vinte e tantos dias depois, tinha à minha espera, no porto de Nacala, o abraço caloroso e fraterno dos Padres José Patrício e Manuel Sá Fernandes. O Pe. Manuel levou-me para a Missão de Iapala, enquanto aguardava o Curso de Adaptação. Foi óptimo! Senti-me em família e senti a vida e o trabalho intensos de uma missão do mato. Na missão cultivava-se tabaco, feijão e outros produtos agrícolas. A missão tinha o catecumenado, a escola com a 3.ª e 4.ª classes, o posto de enfermagem, a cantina. A Missão alimentava largas dezenas de bocas. O Pe. Manuel teria uns 32 anos, era ajudado pelo Irmão Edgar e pelas Irmãs Adelgundi, Ágata e Goreti, imprimia uma grande dinâmica à Missão, estava um missionário em grande! Passei aquele Natal de 1971, em Iapala. Numa noite, a irmã Ágata foi chamada para acudir a um parto. Acompanhei essa missão de socorro. Quando chegámos, que vimos ? Uma mulher de cócoras, com a capulana pendente dos ombros, na sua frente um bebé nascido, nu, sobre a terra nua, com sinais de frio. O pai afastado mais para o lado, junto a uns tições acesos. A irmã Ágata encarregou-me de fazer o aquecimento do bebé com leves massagens, ela ocupou-se da mãe. A missão foi bem sucedida! Um presépio vivo, acontecera Natal! Nesse tempo começava a ser questionado o modelo de missão seguido, que tinha por base económica a empresa agrícola, demasiado absorvente para o missionário. Nesse aspecto, era comparável a uma machamba, mas com fins distintos. A acção evangelizadora assentava os seus pilares nas escolas do mato, à frente das quais estava o professorcatequista, na escola com sede na Missão para a 3.ª e 4.ª classes e no catecumenado, frequentado por jovens que se preparavam para o baptismo e casamento. Havia uma influência da Missão que não permitia que um cristão ou uma cristã se casassem com não cristão. O não baptizado teria de se submeter ao regime de catecumenado até se encontrar preparado para o baptismo e casamento. As Irmãs

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tinham um papel relevante na preparação das jovens para as responsabilidades domésticas, a puericultura, a costura, a culinária faziam parte dos ensinamentos ministrados.

Cipriano. Residiam numa casa construída com adobes de morro de muchém, humilde e acolhedora. Nas primeiras noites, fui por eles apresentado aos cristãos que habitavam mais próximo da Missão. A sala de visitas era, invariavelmente, o ar livre. A fogueira e o luar eram os confidentes daquelas noites serenas. O padre novo recebeu os primeiros mimos da hospitalidade africana, uma noite cheguei a casa com sete frangos! O Senhor Bispo visitou a Missão, poucos meses depois. Fez-se grande festa, que ajudei a preparar! Centro Catequético do Anchilo Estava a afeiçoar-me bem à vida de missionário do mato, mas o Senhor Bispo trazia outros planos. Acompanhei-o no regresso a Nampula, com guia de marcha para o Centro Catequético do Anchilo. Fiquei com a redacção da Vida Nova, um boletim mensal, que tentava reflectir os valores do Evangelho no contexto da cultura africana. Recorria muito às frases interrogativas, nos textos que escrevia. Escrevia sempre uma secção com tópicos de reflexão do evangelho das missas dominicais para uso dos catequistas que presidiam à oração dominical. Essa reflexão, antes de tomar a forma definitiva, era partilhada com os catequistas em formação no Anchilo. No Curso de Adaptação, tinha aprendido com o professor Leonardo, ex-seminarista nativo, que

Anchilo - A pastoral no mato estava a meu cargo. Era uma missão todo-o-terreno.

Evangelizar era também civilizar, as Missões tinham à sua responsabilidade a maior rede de escolas da província espalhadas pelo mato. Justiça seja feita, a Igreja Missionária era sensível aos valores da cultura nativa e fazia um esforço notável para a compreender e integrar numa dimensão cristã. A própria Sociedade Missionária, em Moçambique, pode orgulhar-se de contar, entre os seus membros, autores de compêndios de gramática, dicionários e contos, que representam um contributo significativo para a divulgação e conhecimento da cultura macua. A Diocese de Nampula organizava Cursos de Adaptação no Centro Catequético do Anchilo para os missionários e missionárias recém-chegados. Eram assim iniciados na aprendizagem da língua e no conhecimento da cultura e costumes dos nativos. Esta era uma medida sábia, imbuída do respeito pela cultura local, que posso testemunhar não encontrei tão sensível nos revolucionários com quem convivi. Fui Missionário Missão de Lalaua Acabado o Curso de Adaptação fui destacado para a Missão de Lalaua, onde labutavam dedicadamente o Pe. Alfredo Moreira e o Irmão

Com o professor Leonardo, o perito em usos e costumes.

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ouvir era uma característica da cultura africana. Tentava ouvir. Mesmo assim, percebi mais tarde que no povo havia muitas palavras caladas. Mas digo-vos que o encontro de culturas foi das experiências mais ricas que vivi. Uma vez, no Centro Catequético, percebendo que alguns catequistas tinham dificuldade em gerir os poucos centos de escudos, que recebiam para a subsistência da família, falei-lhes do tema – Orçamento. Concretizava, quais as necessidades? Comida, roupa, calçado, transportes, pilhas para o rádio... Era preciso estabelecer prioridades... (E atenção, quem não tem dinheiro, não tem vícios!). Então, vamos fazer contas... O custo do arroz, do peixe, da capulana, das viagens... Tudo foi ouvido atentamente, sem contestação! No final, para ter a certeza de que tudo estava bem percebido e que a mensagem fazia algum sentido para os destinatários, pedi-lhes que se pronunciassem. O Bernardo foi o primeiro a pedir a palavra e disse: “Eu percebi tudo, mas há uma coisa, barriga não tem orçamento!” “Bernardo, não percebo! O que é que quer dizer com essas palavras “barriga não tem orçamento”? O Bernardo, com toda a naturalidade do mundo, foi-me dizendo que ele podia comprar no princípio do mês o tal saco de arroz, mas sempre que amigo fosse lá a casa, ele ia oferecer arroz ao amigo, assim o saco não iria chegar e furava o orçamento. Eu sabia que amigo tinha um sentido muito lato. Ouvira da boca do Leonardo que um velho andrajoso que chegasse à palhota podia ser um rei, logo também poderia comer arroz! Bem longe estava eu de conhecer o sistema de rectificações e os engenhosos passes de mágica para controlar défices orçamentais. Não me aventurei mais em considerações sobre orçamento. A lição do Bernardo ficou para meditar. Noutras ocasiões, os catequistas falavam-me de coisas do género, um motorista conduz o mesmo carro, faz as mesmas viagens, o preto ganha tanto, o branco ganha mais que outro tanto!... É justo? Justo, não seria, mas o negro conseguia viver com menos! Pois, conseguia, porque negro vive na palhota, traz filho descalço...

Anchilo - Com o Irmão Luigi Coronini (comboniano), que fazia parte da equipa do Anchilo, multinacional e pluricongregacional. Crianças da área da Missão.

Paróquia de Nampula No ano lectivo de 1973/74, passei para a Paróquia de Nampula. De uma assentada fiquei com funções de coadjutor na paróquia da Sé Catedral de Nampula, professor de Religião e Moral no Liceu de Nampula, assistente da Mocidade Portuguesa e pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Paz. Esta paróquia correspondia à Nametecalíua, um bairro de palhotas na periferia da cidade de Nampula, bem conhecido pelo estigma da prostituição. Alguns cristãos lamentavam-se, viviam na Nametecalíua, porque a cidade de cimento os rejeitava. Falavam de casos em que a renda pedida a um preto era incomportável e superior à pedida a um branco. Celebrava lá a missa, ao abrigo de uma escola com cobertura de lusalite, participada por umas três dúzias de cristãos. Tinha conquistado a confiança dos meus paroquianos, lembro-me da passagem de ano de 1973/ 74, que partilhei com umas dezenas deles num clube desse famoso bairro. Foi esfuziante a alegria de viver, que manifestaram nessa noite! Ouvi-lhes ao serão histórias divertidas das artimanhas que alguns utilizaram, noutros tempos, para conseguirem o estatuto de assimilados. Para um preto ser assimilado, a mulher devia falar português, saber as etiquetas da civilização para receber alguém em casa, comportar-se à mesa de um café, habitar uma casa decente. Ora, se um não tinha mulher à altura de superar a prova, pedia emprestada ao amigo a mu-

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lher civilizada! Curiosamente, só depois do 25 de Abril se abriram a contar-me estas histórias. Ano de agitação -1974 O ano de 1974 foi um ano agitado. O dia 07 de Março foi para mim um dia marcante. Nesse famigerado dia, foram expulsos pelo poder político sete missionários combonianos, ao serviço da diocese de Nampula. Vários de nós fomos despedir-nos deles ao aeroporto. Ficámos surpreendidos pela inusitada multidão de gente acumulada frente ao edifício do aeroporto, bordejando e invadindo parte do vasto parque automóvel. Pelo aspecto e indumentária via-se que muita dessa gente eram machambeiros vindos do mato. Sentia-se grande tensão e burburinho a pairar no ar. Perplexo e desconfiado, fiquei por ali, misturado na multidão. À minha frente, em breve se ergue uma voz, acusadora: “Os padres são os culpados! Dão cabo disto tudo! Deviam ser todos corridos!” Ferido nos meus brios, reagi logo, incisivo, para quem quis ouvir: “Eh! Amigo, atente no que diz! Eu também sou padre e com muita honra! Não aponte culpas a quem as não tem!” O homem ficou a bufar. Apercebi-me, desde logo, que olhares ameaçadores se concentravam em mim. Saí dali e avancei para o interior do edifício do aeroporto. Dentro, deparei com um assustador aparato bélico de homens armados, com uniforme caqui e capacete, empunhando com ambas as mãos armas G3. Eram pides. Percebi que a coisa estava muito séria. Lancei um olhar rápido pelo interior do edifício, notei que o patamar superior estava menos povoado, subi para lá, coloquei-me discretamente, frente a uma das largas vidraças, que permitiam dominar o panorama exterior e ver o que se passava fora com a multidão. Daí pude ver um missionário comboniano, o Pe. Bruno, a ser empurrado pelos pides para dentro de uma carrinha, à força de sopapos e, soube mais tarde, de um dente partido. Tudo acontecera por delito de uso de máquina fotográfica. Depois, foi a minha vez! Abordou-me um pide, apreendeu-me a máquina fotográfica para censura das fotos, que eu não tinha tirado. Mesmo assim levou-me a máquina, para ma devolver dias depois. Ordenou que saísse dali e que fosse embora, por-

que se não fosse ele, já me tinham feito voar através daqueles vidros, enfim a minha integridade física estava em risco, etc e tal. Comentei: “Muito bem, tenho mais que fazer e já vi o que tinha a ver!” O solícito pide acompanhou-me até o exterior do edifício do aeroporto. À saída, um gesto subtil do pide sinalizou o alvo. Precipita-se sobre mim uma chusma de guarda-costas, que me afaga com unhadas no pescoço e estimula a marcha com biqueiradas, simulando protecção. Percorridos uns 100 metros, já no fim do parque, fiquei de frente para os verdugos! Vociferavam ódio! “Se não fosse por respeito, aqui ao meu chefe, metia-te os vidros dos óculos pelos olhos dentro! – É da paróquia?! Olha, mais um monte de merda da paróquia!”... Estava varado! Felizmente, apareceu um anjo, uma missionária leiga, a Adelaide, com o seu Honda 600, amarelo torrado, e tirou-me daquele princípio de tortura! Estou-lhe grato! Quando cheguei à paróquia, sentia-me todo moído. Abandonei-me uns minutos num dos cadeirões da marquise, respirei fundo várias vezes, concentrei-me e tentei desviar a atenção das imagens tenebrosas do ódio. Um grupo de jovens esperava-me no salão paroquial para um debate sobre drogas, fui para lá. A vida continuou, mas ficaram marcas. Repensar a Guerra Por essa altura, tinha aparecido um documento – “Repensar a guerra” – da autoria do Bispo D. Manuel Vieira Pinto. Depois do massacre de Wiriamu, denunciado na imprensa internacional, era preciso Repensar a Guerra. O documento podia ter inspiração cristã, mas era politicamente herético. Repensar a Guerra era assunto tabu e fez alguma clivagem entre nós (da Sociedade Missionária) e entre os próprios bispos. No princípio de Abril, a Pide engendrou forma de se ver livre do Bispo da Diocese de Nampula. Mobilizou os patriotas cristãos que entendeu, estes, com certeza muito inspirados na cena do Miguel Vasconcelos, precipitaram-se para o Paço, na disposição de linchar o Bispo. A Pide, como lhe competia, poupou a vida do Pastor à sanha da populaça, pondo-o a salvo no aeroporto, pronto a embarcar no avião! D. Manuel teve de fazer escala por uns dias no Sul. Asilou-se na Namaacha.

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Encontrando-me de passagem em Lourenço Marques, o Amadeu Araújo levou-me no seu NSU à Namaacha visitar o Sr. Bispo. Recebi de suas mãos uma carta para a Diocese. No regresso, quando desembarquei no aeroporto de Nampula, num domingo de manhã, tinha os rapazes da JOC à minha espera, preparados para o que desse e viesse. Calou-se a Palavra A expulsão do Sr. Bispo originara algum estado de choque. Na Paróquia, quem fazia as vezes de Pároco, entendia que, espantado o Pastor, deveria calar-se a Palavra, logo na celebração da missa não haveria homilia. Era cómodo e bom para a Pide, não me agradava e não me recordo de ter celebrado mais alguma vez missa na catedral, depois disso. Com o 25 de Abril, as vozes da libertação cada vez mais se faziam ouvir. Tornou-se moda ser democrático. Cada dia nasciam novos democratas. Até o indivíduo que tesourava os textos da Vida Nova, editada pelo Centro Catequético do Anchilo, apareceu um dia na mesa de uma Assembleia da cidade para se erigir em democrata! Alguns Bispos que não tinham tido liberdade de espírito para Repensar a Guerra e afirmar a sua solidariedade com o Colega de Nampula, já o poderiam fazer, a partir de agora, se o desejassem. Na senda da Revolução No meio de toda esta turbulência, arreigou-se em mim a convicção de que a malga da sopa mandava muito na mente e nos ideais das pessoas, fossem elas quais fossem. Cresceu o meu fascínio pelo Che e pelo Camilo Torres, lidos anos antes. Comecei a olhar para os cadernos do Samora Machel, como se fossem o evangelho novo da libertação! Numa edição da Boa Nova de um daqueles meses de 74, o Superior-Geral da Sociedade assinava um texto sobre Moçambique que me decepcionou. Manifestei-lhe o meu desacordo na carta em que comunicava o meu abandono. A decisão do abandono foi, obviamente, da minha inteira responsabilidade. Perguntei-me, quem é que está a fazer mais pela libertação do povo de Moçambique? Entendi que,

sem medo nem hesitação, devia abraçar a causa da Revolução. Parti, sem aviso, de manhã muito cedo! Deixei carta para o Superior-Geral, para a Diocese e outra a dizer onde ficava a carrinha da paróquia. Embarquei no comboio em Nampula, com destino ao Malawi e dali tencionava atravessar a Zâmbia e alcançar a Tanzânia, onde a Frelimo tinha a sua Base principal. Na fronteira do Malawi, em Entre-Lagos, encontrei o primeiro obstáculo. Usava barbas e cabeleira à Jesus Cristo, fiquei a saber que guedelhas e mini-saias não tinham cabimento nos domínios do Presidente Kamusu Banda. Nos serviços aduaneiros, apareceram com uma tesoura a que faltava mais de metade de uma das hastes de corte, rejeitei a gentileza da tosquia. Aproximavase a noite, aproveitei um comboio de mercadorias e voltei atrás até Nova Freixo. Cortei o cabelo e dias depois arranjei boleia até Blantyre. Prisioneiro no Malawi Em Lilongwe, depois de uma tentativa frustrada de passar à Zâmbia, obrigaram-me a trocar a noite na Rest House por uma cela na prisão. Seguiram-se os estágios nas prisões de Zomba e Blantyre. Em Zomba Central Prison, levava mais de dois meses de prisão, fiz uma greve de fome, durante cinco dias consecutivos, desde a manhã de uma segunda-feira até meio da manhã de sábado seguinte. Nesse sábado, o Officer in Charge chamou-me ao seu gabinete e prometeu que o meu processo iria ser accionado junto dos Head Quaters, sede dos Special Branches (polícia política). Contra o meu descrédito, pegou na Bíblia de capas vermelhas que estava pousada sobre a secretária e, pondo-se de pé, afirmou solene e convicto, em abono da sua palavra: “I am a christian!” Eu dramatizei: “Que importa que o senhor seja cristão? Tiraram-me a liberdade! Matem-me! Enterrem-me no pátio da prisão e escrevam: Morreu, porque lhe tirámos a liberdade, sem razão! De Zomba fui transferido para a prisão de Blantyre, onde permaneci umas cinco semanas. Partilhei uma cela com o britânico Ken, conhecido em Londres por Mister Malawi, por espalhar na

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capital do Reino Unido a felicidade do haxixe malawiano. Esse haxixe (top class, segundo ele), continuava a fazê-lo circular, de pavilhão em pavilhão, dentro da prisão, escondido nas meias dos prisioneiros. Dizia-me: “A dealer is always a dealer!” Lembro outro hóspede de circunstância dos serviços de segurança do país, o hindu Rashid, de cabeça envolta num pano branco, tipo turbante, muito compenetrado, de joelhos, sobre uma toalha estendida no pátio de cimento, fazendo mesuras ao sol radioso das manhãs. Tão absorto estava o Rashid que ficava absolutamente alheio à presença do Ken, que, no meio do pátio, em alegria festiva e indiscreto foguetório, bradava aos céus, num gesto de crucificado feliz: “Lovely day! Sun in the sky!” O Hugh Edwards, um súbdito de sua majestade britânica, inquilino da cela vizinha, em Zomba, contou-me a sorte macaca das lagartixas do jardim do palácio do Presidente do Malawi (His Excellency Doctor Hastings Kamusu Banda). As pobres lagartixas tinham sido perseguidas e executadas, para não passarem segredos de estado para o exterior! Acho que nunca estive à beira da sorte das lagartixas, naturalmente menos perigoso que elas, mas, na verdade, também fui detido, because of the Security of the State! Medo, terror, muitos me confessaram ter de uma tenebrosa prisão de Kikwio, onde as condições eram mais aviltantes, onde imperava a lei do trabalho forçado e pairava a incerteza da morte. Entregue à Frelimo Fui entregue à Frelimo algum tempo após uma entrevista no Congress House com o camarada Olimpo. A viagem foi feita em carro da polícia do Malawi. Ao meu lado, ia sentado Uría Simango, que, a determinada altura me perguntou se sabia para onde nos levavam. Quando lhe disse que pensava que nos iam entregar à Frelimo ficou muito inquieto e nervoso e dizia: “Não pode ser! Se me entregam, eles matam-me, consideram-me o inimigo número um!” Quando, numa manhã de Novembro de 74, nos entregaram no quartel de Milange, o Uría Simango foi de imediato separado de nós e nunca mais o vimos. O seu receio veio a

confirmar-se, foi executado, mais tarde, num qualquer simulacro de julgamento. Nos dias imediatos, fomos transportados de Milange para Quelimane, era um domingo. Foi uma viagem longa de horas, num camião de capota toda fechada em zinco, imprópria para transporte de animais, havia como respiradouro um minúsculo postigo, bem acima das nossas cabeças. Antes de subirmos para o camião, foi ordenada uma rigorosa revista, podíamos ter algum feitiço escondido, transformar-nos em passarinho e voar pelo postigo do camião. A ideia foi do motorista, o passarinho teria de ser mesmo pequenino! A ordem foi levada muito a sério e logo ali num auto de fé sumário foi consumida no fogo qualquer coisa insignificante, que poderia ter virtudes de feitiço, encontrada nos bolsos de alguém. Lembrei-me outra vez do Leonardo. Nós, não temos polícia. Se eu quiser guardar a minha machamba, peço ao feiticeiro para lhe pôr feitiço e faço constar. Se alguém roubar ou comer, sabe que vai morrer mesmo! Centro Piloto de Nicoadala Eu estava mesmo um D. Quixote da Revolução, obsessivo e pertinaz. Indiferente às provas e humilhações por que havia passado consideravaas equívocos normais de quem não me conhecia. Iriam ver que podiam confiar em mim e aproveitar os meus préstimos em benefício do povo. Alguns meses depois encarregaram-me de criar um Centro Piloto, em Nicoadala, num campo que tinha sido de prisioneiros da Pide. Havia umas duas dezenas de miúdos, com idades entre os doze e os dezasseis anos e mais uns seis militares. Viviam lá sem quaisquer condições. Andrajosos, alimentavam-se mal, dormiam ao relento abrigandose no alpendre de uma palhota ou debaixo do atrelado de um tractor. A princípio ia e vinha de Quelimane. Depois, pedi ao Governador Bonifácio Gruveta para ficar a residir no campo. Em pouco tempo, construí com os rapazes umas dez palhotas para os alojar. Em seguida, construímos uma escola, que até deixou impressionada uma jornalista europeia de língua francesa que visitou o Centro Piloto e escreveu o

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

livro Mulheres de Moçambique. O trabalho foi muito duro, mas havia uma grande sintonia entre mim e os rapazes. Um deles, certo dia, na minha presença, disse para quem quis ouvir: “O camarada Luís é nosso pai.” Falava a verdade do sentimento. Respondi : “Vosso pai, não, mas vosso irmão mais velho, sim!” O projecto era educar o homem novo para uma sociedade nova. Pelo estudo, trabalho e formação política. O campo podia tornar-se auto-suficiente em relação à maior parte dos bens alimentares. As maiores dificuldades apareceram, após a nacionalização do Seminário Menor de Nicoadala. Ocupámos e sobrelotámos as instalações do Seminário. A responsabilidade do campo foi repartida em três áreas, política, pedagógica e administrativa. Cabiame a parte administrativa. Estava mal acompanhado principalmente pelo responsável político. Achava que os rapazes tinham mais respeito por mim do que por todos os outros. Disse-lhe que respeitasse e também seria respeitado. Não aceitava que lhe dissesse que todos, incluindo ele e eu, devíamos ser responsáveis perante o povo, pelo uso que dávamos aos bens que pertenciam ao povo, como os carros ou tractores. Um tractor era para lavrar a terra e não para deitar muros abaixo, como ele tinha feito! Desiludido com a Revolução O mesmo rapazinho que meses antes dissera “O camarada Luís é o nosso pai”, numa noite silenciosa em que me encontrava só, com a música da rádio, sob um alpendrezito elevado, ao ar livre, aproximou-se receoso: – Camarada chefe, está triste? – Não! Não estou! Queres dizer-me alguma coisa? – O camarada político disse, quando Camarada Chefe Provincial visitar, nós dizer não gostar do Camarada chefe Luís! – Obrigado! Não te importes. O veneno estava a ser lançado. Assim não era possível fazer revolução. O controlo do campo estava a escapar-me. As casas de banho dos continuadores, por excesso de uso ou mau uso, estavam impraticáveis, de portas pregadas por ordem

do enfermeiro do campo, ex-maqueiro do exército português. Custava-me aquele retrocesso na civilização. Com maus exemplos e oportunistas e políticos de ocasião antevia não ser possível ir muito longe com os meus ideais de cavaleiro andante! Regresso à Pátria O meu irmão Álvaro, despachante de tráfego da DETA, arranjou-me um bilhete de avião. Sem dar satisfação a ninguém, um dia de Abril embarquei num avião para a Beira. No meu encalço apareceu, nesta cidade, o comandante Castro Lopo, meu antigo colega de quarto na casa dos comandantes. Apanhou-me em casa do meu irmão, onde lhe oferecemos wiski. Não se fez rogado, sentouse e bebeu. No fim, disse: “Luís, vem comigo.” Eu fui. Deixou-me na prisão da Beira. Dois ou três dias depois levou-me de volta para Quelimane, onde continuei prisioneiro mais uns dias. Lembro uma família amiga, com um bar-restaurante em Quelimane, que não permitiu que eu conhecesse o gosto da comida desta prisão e mais saboreasse o gosto da amizade e compreendesse que, na desgraça, os revolucionários não são amigos de ninguém. Levaram-me a uma reunião no Centro Piloto, não me puderam pegar em nada, fiquei com liberdade total de movimentos. O Governador Bonifácio Gruveta quis-me receber, perguntou-me o que eu ia fazer. Disse que desejava ter a vida de um cidadão normal, no meu país. Se eu fosse daquela terra, naturalmente me seria reconhecida outra força e legitimidade para fazer a revolução e não me poderia furtar a ela. Previa que, na condição de ex-colonizador, haveria muitos desentendimentos e equívocos, tinha pena, mas ia-me embora. O Governador escutou-me atento, com a cabeça baixa, despedime com um aperto de mão, com dignidade. Com todos os meus haveres num leve saco de viagem na mão e quinhentos rands no bolso, oferecidos pelo amigo Martins, reiniciei a viagem em Quelimane. Desta feita, acabei por aterrar em Lisboa, a 3 de Maio de 1976. Fui para casa, era aniversário de minha mãe! Ficou feliz, só dias mais tarde me falou do desgosto de eu ter deixado de ser padre.

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Afinal sou humanista Todo este percurso intrigante, até a mim me surpreende. Pode parecer que não tem relação alguma com o testemunho que eu sinto necessidade de dar neste 75.º Aniversário da Sociedade Missionária da Boa Nova. O João Bernardo Honwana, responsável da Segurança na Zambézia, no meu tempo revolucionário, terá dito ao Gulamo, nessa altura responsável pela Educação, que eu não era um político, era um humanista. Reflecti e percebi. O humanista era o lutador persistente que os incomodava nas belas residências herdadas dos colonizadores e não desarmava, enquanto não conseguia uma camioneta com os mantimentos precisos para os continuadores. O humanista cultiva o respeito da pessoa humana, reconhece a dignidade dos mais fracos, crianças e velhos, pobres e doentes, é solidário, tem compaixão por quem sofre. De facto, sou politizado, mas não sou político. Humanista, sim! Este sentimento de ser humanista, devo-o em grande parte à Sociedade Missionária, onde cedo aprendi a brincar e a conviver com meninos vindos de outras aldeias do país e a sentir que a minha terra era todo o mundo. Houve um espírito de missionário, que assimilei e faz hoje parte do meu ser homem. Tenho visitado várias vezes o Convento de Cristo, o Seminário da minha infância. Sintome um privilegiado ter parte da minha história ligada àquele admirável monumento. Revejo as corridas de estafeta no corredor do cruzeiro, o hóquei jogado no claustro da micha com sticks de ramos de oliveira trabalhados com navalhas transmontanas, durante os passeios; o recreio das árvores e o campo da bola que já não se parecem, os superiores, que também jogavam connosco, a araucária; as missas solenes na charola, a capela onde eu observava as posturas piedosas e a execução do sinal da cruz, para aprender com quem era mais santo. Testemunho do apreço e gratidão Já passei por todos os Seminários depois de ter saído, a todos me ligam recordações agradáveis. Sou beneficiário de uma formação humana e de valores que sinto obrigação de honrar. Sinto amizade pelos antigos colegas e pelos missionários que

continuaram firmes nos seus ideais. Quem passou pelas Missões, como eu, não pode deixar de testemunhar, com admiração, a enorme dedicação e generosidade, devotadas pelos nossos missionários ao trabalho apostólico. Visitei todas as Missões da Sociedade na Diocese de Nampula e algumas na Diocese de Porto Amélia (actual Pemba). Recordando o que vi, digo: uma Obra a todos os títulos grandiosa, que só um escol de eleitos, motivados pela fé, com grande espírito de sacrifício e inteligência podiam levar a cabo. Podemos sentir orgulho nestes homens bons, de moral irrepreensível, a quem cabe com justeza a expressão evangélica: sois o sal da terra e a luz do mundo. São dignos de todo o nosso incentivo e apreço. Quero vincar, neste meu testemunho, a nobreza de atitude manifestada na amizade e compreensão que a Sociedade Missionária sempre manifestou para comigo, após a minha saída. Recordo a visita amiga do P. Manuel Bastos que se deslocou a Quelimane, para saber de mim e dos meus propósitos. As várias visitas e momentos de convívio que tive com outros membros da Sociedade, incluindo uma visita ao Bispo D. Manuel Vieira Pinto, em Amarante, a convite do P. Manuel Sá Fernandes e onde pela última vez vi o P. Alírio Baptista. Lembro a delicada atenção do Sr. P. Vaz, que, na hora em que o pedi, me passou o Certificado de Habilitações dos Cursos de Filosofia e de Teologia, utensílio precioso que me abriu as portas do ensino e me deu acesso a uma matrícula na Universidade. Sinto-me impelido a fazer uma menção especial ao P. Alexandre de Sousa. Conseguiu-me do Liceu de Nampula o certificado do tempo em que lá trabalhei, como professor de Religião e Moral. O P. Sousa foi Reitor em Tomar, no meu 1.º e 2.º anos. Foi, muitos anos, Secretário da Diocese de Nampula, encontrei-o nessa função, quando cheguei a Moçambique. Era um homem de fé. Recebi dele uma carta, em Coimbra, já depois de 1982, contando ter encontrado minha mãe, que lhe dera notícias minhas e provavelmente lhe terá manifestado a sua tristeza pela minha não prática religiosa. O P. Sousa declarava nessa carta que oferecia a sua vida para que eu me reencontrasse na fé. Não sabia que o P. Sousa tinha a vida gravemente ameaçada

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por um cancro, veio a morrer algum tempo depois. Fiquei impressionado, com tamanha grandeza de alma! A maior parte de nós conheceu o P. Alfredo Alves, aquele homem de inteligência brilhante, humor fino e fé profunda. Um dia, em Valadares, numa celebração penitencial no decurso de um Retiro, no momento da confissão, por instantes hesitei, a quem me vou confessar? O P. Alfredo Alves estava ali ao lado, nem me deu tempo de olhar, começou a confessar-se ao mais novato. Não me lembro rigorosamente nada do que ele me disse nem do que eu lhe confessei, mas a lição de grande humildade permanece. Ao P. Jerónimo Nunes devo o facto de ter fortalecido os laços que necessariamente me prendem à Família-Sociedade Missionária, considerando que nela vivi os anos mais viçosos da minha vida. Partiu dele a iniciativa de me fazer chegar de forma regular o Boletim Familiar, mantendo-me informado do que se vai realizando e acontecendo com pessoas que me foram familiares durante tantos anos. Algumas vezes vem a notícia do falecimento de alguém que se cruzou connosco na vida, evoco o tempo e presto-lhe em silêncio a minha homenagem. Há gente nova, felizmente, e a família vai crescendo, espalhando-se por novos mundos. De bem com o meu passado Depois do meu regresso de Moçambique, enquanto exercia a profissão de professor no ensino secundário, fiz, primeiro, uma Licenciatura em Filosofia, na Faculdade de Letras do Porto e, já com 38 anos, iniciei a Licenciatura em Medicina, na Universidade de Coimbra. Com 52 anos, fiz o exame final da especialidade de Neurologia. Exerço a profissão médica, desde 1989. Não sei se alguma vez, sem a disciplina e método de estudo adquiridos ao longo dos treze anos do curso do Seminário, me teria aventurado num curso tão trabalhoso como a Medicina. Também não sei se teria a aceitação que tenho, se não mantivesse algum espírito missionário e aquele tal humanismo que enforma o exercício da minha profissão. Sei que sentiria um grande vazio, se assim não fosse. Pesa-me ter decepcionado algumas pessoas que depositaram grande confiança em mim, agradeço

e enalteço a nobreza de alma com que me compreenderam e relevaram as minhas faltas. Tenho o sentimento de que fui fiel a mim próprio, mesmo quando as minhas decisões não foram acertadas. A Revolução desiludiu-me e já deixou de o ser há muito. Continua a ser necessária uma Boa Nova, aprecio, hoje, muito mais o trabalho dos missionários e considero-o merecedor de todo o apoio. Posso dizer-vos que estou bem com o meu presente, porque estou bem com o meu passado, sem qualquer traumatismo de Manhã Submersa. À Sociedade Missionária da Boa Nova, a minha gratidão, amizade e votos de longa vida! Alfredo Luís Vieira de Sá
Rua Milagre das Rosas, 36 – 3.º Dto. Santa Clara 3040-263 Coimbra Tel. 239 810 162 /965 026 283 E-mail: alvieira@sapo.pt

33. UM SONHO... SER MISSIONÁRIO Corria o ano de 1956. A vida nas aldeias era dura. Tempos difíceis para famílias numerosas. Os trabalhos agrícolas e as jeiras “na floresta” eram a única saída para os jovens que completavam a 4.ª classe. Mesmo daqueles cujas famílias tinham posses, poucos eram os que iam estudar. Neste Outubro missionário, vou recordar a minha história pessoal de infância. Filho mais velho duma família de sete irmãos, pacato, tímido, gostava de saber e aprender. Quis Deus, por intermédio do saudoso Pe. Silva, o então jovem pároco da minha aldeia, que entrasse no Seminário de Tomar. Desses tempos, ainda hoje conservo na memória a experiência da viagem para o Porto que, conjuntamente com o meu pai, efectuei durante toda a noite, à boleia, no camião que o falecido Gil regularmente conduzia carregado de madeira; a paragem nos postos de controlo que a GNR tinha ao

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longo do percurso; o choque que a vida da grande cidade me provocou; o frio que tive na Estação de S. Bento totalmente deserta às 6 horas da manhã; a imponência da sua construção, a magia dos comboios e a novidade da sua estreia. Aí, à hora aprazada, lá estava um padre missionário, de capa e batina, a quem fui entregue conjuntamente com outras crianças. Foi um momento difícil, a hora da separação. Contudo, a incerteza e atracção do desconhecido, o fervilhar da grande cidade, a marcha galopante do comboio, o vislumbrar do mar lá ao longe, o receio de perder os poucos haveres, as apressadas mudanças de comboio, depressa fizeram com que as lágrimas secassem e o grupo, recém-formado, se sentisse unido e seguro. Chegados ao Seminário, já aí se encontravam centenas de jovens. Foi a descoberta da casa grande, a balbúrdia dos primeiros tempos, o toque da sineta, o aprender do “caminho” da camarata, da capela, da sala de aulas, do refeitório, do campo de futebol, situações que recordo hoje com emoção. Era o começo duma nova etapa. O deslumbramento dos rituais. A descoberta do caminho iniciado. O sonho de ser missionário nos sertões africanos. Não quis Deus, porém, que tal se concretizasse. Contudo, ainda hoje guardo saudades desses tempos. O quão importantes foram para o desenvolvimento da minha personalidade, maneira de ser e de estar hoje na vida. Neste mês de Outubro, mês em que se assinala o Dia Missionário Mundial, quis, com a partilha do meu sonho e emoções, acicatar os jovens, desassossegarlhes a consciência e dizer-lhes que, num mundo cada vez mais carregado com as tintas do carreirismo, mundo de aparências, mundo em que pontificam o hedonismo e a ambição da fortuna, se algum dia ouvirem a Palavra de Jesus “vem e segue-me”, não tenham medo de enfrentar o desconhecido, de arriscar a vida ao serviço de Deus e dos irmãos. Não é loucura segui-Lo, loucura é ignorá-Lo. Outubro de 2004 Duarte Nuno Pires
Rua da Boavista, 13 5300-097 Bragança Tel. 273 324 523 / 965 361 473

34. “A ARM NOS 75 ANOS DA SMBN”
Breve nota do antigo aluno Serafim Fidalgo dos Reis

Numa manhã morna do início de Outubro, de 1956, dirigi-me de Rio Meão, a pé, acompanhado de minha mãe, que levava a mala do enxoval à cabeça, à estação de Esmoriz. Enquanto esperava num misto de ansiedade pelo desconhecido que imaginava e pela saudade dos pais e irmãos, vi chegar o Fernando Rodrigues de Sousa e o José Costa Pinto Meneses que também vinham para o comboio com o mesmo destino: seminário de Tomar. Formámos um trio de amigos e entrámos no comboio que já trazia um grupo de futuros colegas, vindos do Porto, na realidade de vários pontos de Trás-os-Montes, acompanhados pelo Pe. Júlio e um tal sr. Nogueira. Durante as longas horas da viagem chilreei com os colegas, irmanados no mesmo sonho. O Convento de Cristo surgiu imponente e esmagador na poalha do sol que já declinava para lá das seculares árvores do recreio com o mesmo nome e dos famosos pegões. As primeiras impressões e as múltiplas emoções que se foram sucedendo, sei que foram intensas, mas a asa do tempo encarregou-se de as erodir e hoje são fiapos na memória. Percorri o ciclo da vida dos seminários. Fiz o probandato e o primeiro ano de Teologia em Cucujães. Estava a viver os tempos novos do Vaticano II. Sopravam ventos de mudança por toda a Europa... Sentia-se que a Sociedade tinha parado no tempo, a mentalidade geral não evoluía, o punhado de jovens doutores, nossos professores, não conseguia alterar os princípios, nem as normas tridentinas. Nas férias de 1967 tomei a decisão de procurar um seminário diocesano que me acolhesse. Assim, fui terminar o curso de teologia ao Seminário dos Olivais, em Lisboa. E depois... outros caminhos se teceram e emaranharam no mapa da vida! A passagem pela Sociedade Missionária dei-

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xou marcas indeléveis. Possibilitou o estudo que, de outro modo, nunca teria sido possível. Educou com um conjunto de valores que considero um património imperecível e que tenho procurado inculcar na minha família e nos meus alunos. Mas o que hoje, à distância de tantos anos, mais rememoro, apesar de todas as contingências, limitações e defeitos, é aquela dedicação, carinho, ajuda, ora paternal, ora fraterna que os padres formadores nos devotavam. Muitas figuras de homens evangélicos ficaram gravadas para sempre, mas seja-me permitido lembrar duas, ou mesmo três, que mais me marcaram: o Pe. Vaz, que me recebeu com o meu pai, quando fomos tratar do meu ingresso – aquela figura esguia, delicada e, mais tarde, quando o conheci melhor, tão espiritualizada... O Pe. Alves, o humanista, o sábio, de coração magnânimo e humilde que marcou gerações de jovens que cruzaram com ele. O Pe. Campos, o asceta, o santo. E por eles quero deixar este simples preito de homenagem e gratidão a todos quantos nos ajudaram a crescer como homens e semearam em nós a Missão de Cristo. Obrigado, Sociedade Missionária da Boa Nova! Serafim Fidalgo dos Reis
R. Mestre António Joaquim, 13 Cruz 4520-239 Santa Maria da Feira Tel. 962 470 098

35. O MEU TESTEMUNHO Corria o mês de Outubro de 1957. A azáfama era grande lá em casa. Tinham sido chamadas à pressa algumas costureiras, bem como o sapateiro. O outro sapateiro, o mais especialista, ultimava os sapatos de calfe, na sua oficina, o mesmo acontecendo com o alfaiate. Naquele tempo, era assim: o vestuário confeccionava-se em casa. As coisas não tinham corrido bem. Depois de ter feito exame de admissão com bastante sucesso,

o miúdo não pensava noutra coisa senão no dia da sua ida para o Seminário. Puro engano! Afinal, não podia ir. Assim o tinha decidido o chefe de família. Os seus colegas de escola abalaram: o Américo Miguel foi para o Seminário de Tomar e o Zé Luís para o do Preciosíssimo Sangue. Outros colegas de admissão – o Femando Lopes e o Artur Marques – também partiram para Tomar. Mas a mãe conseguira ultrapassar os problemas (financeiros, “ideológicos”?). E o chefe dera, finalmente, autorização. O miúdo, com alguns dias de atraso, lá chegara a Tomar. A primeira coisa que fez, acomodadas as malas e instalado numa sala, foi um gesto de cumprimento para o Américo Miguel; gesto infeliz, pois, de imediato, seguiu-se uma áspera repreensão por parte do vigilante instalado numa posição estratégica e que parecia estar absorvido na recitação do seu breviário. O miúdo era eu. Gostei de andar nos Seminários da Sociedade Missionária. A disciplina era vigorosa, mas aceitável. Não era um santo, mas esforcei-me por cumprir. Fui um aluno que, segundo julgo, ultrapassei a média exigível, apesar do meu jeito para o desenho e para a música ser fraco. Em Cucujães, mandaram-me para a Terceira (leia-se, feitura de terços, durante os ensaios musicais). Adorava ouvir os missionários recém-chegados de África. Eles contavam, eu escutava, sonhava... Mas o sonho ficou por aí. Recordo os jogos do caçador e da tala, da apanha da tília, dos trabalhos na(s) Quinta(s), dos passeios extraordinários (ai aquele arroz, quentinho!), enfim, de tantas e tão saudáveis actividades que contribuíram para o cimentar e perdurar da nossa amizade. Mas também me ficaram gravados alguns momentos de “tortura”, tais como: o vestir das calças debaixo dos lençóis, o levantar da cama ainda de madrugada, o não poder falar com os colegas de outros anos, o “silêncio rigoroso”. Mas isto são trocos quando comparado com tudo o que lá aprendi. Entrei no Seminário de Tomar em 1957, passei pelo de Cernache do Bonjardim e concluí o 6.° ano em Cucujães, em 1963. E saí, depois de 6 anos, para grande mágoa de minha mãe (que, até morrer, foi Auxiliar das Missões), que tanto fez por mim e tanto queria ter um filho missionário! E, modéstia aparte, talvez, de certa maneira, tenha sido missionário. A vida cá fora não era fácil. O Liceu ficava lon-

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ge, o dinheiro não abundava e houve que trabalhar. Primeiro, na agricultura, depois como funcionário público (nas finanças). Mas nunca perdi os bons hábitos que adquiri no Seminário. Na verdade, já a trabalhar e com algum esforço, consegui terminar os estudos liceais e, um pouco mais tarde, licenciei-me em Direito na Universidade de Coimbra, o que possibilita que, em reduzida escala, possa, ainda hoje, exercer a profissão de advogado. Como militar, fiz comissão de serviço na Guiné-Bissau, como alferes miliciano. Casei-me com uma mulher maravilhosa, tenho três filhos e uma neta. No início de 2003, aposentei-me da função pública, onde, com a graça de Deus, consegui alcançar o cargo de dirigente superior. Moro em Vila Nova da Barquinha, embora nunca esqueça as minhas origens (CimadasFundeiras, lá para Proença-a-Nova). Agora, sou dirigente associativo (a nível nacional e local), pertenço também à Caritas Paroquial, faço parte do Conselho Diocesano para os Assuntos Económicos, sou catequista, ministro extraordinário da comunhão, frequento um Curso de Teologia e, se Deus quiser, serei ordenado diácono permanente, talvez ainda neste ano. E, claro, pertenço à ARM. Para mim, o Seminário foi óptimo. Deu-me linhas, independência, ensinou-me a lutar. Obrigado à Sociedade Missionária e à minha mãe pelo esforço em encaminhar-me para lá. António da Silva Pereira
Rua Dr. Barral Filipe, 23-A 2260-416 Vila Nova da Barquinha Tel. 249 710 823 / 964 513 545 E-mail: asilvapereira-18591l@adv.oa.pt

36. TESTEMUNHO Face ao “convite urgente e irrecusável” feito no último Encontro Nacional em Cernache (15/ 16 de Maio de 2004) e formalizado no Boletim de Julho, como antigo aluno que sempre me prezei de ser e Armista solícito, não podia ficar indiferente a tão veemente apelo da

nossa Direcção. Pelo que, embora a contra-gosto, por inevitavelmente ter de abrir a alma, “dar a cara” e exprimir para a praça pública sentimentos de foro muito pessoal, aqui estou. Por uma feliz conjunção de acasos que cheguei a interpretar como manifestação divina, entrei em Outubro do ano da graça de 1957. Em Tomar, claro. Ainda com os onze por completar. Depois, foi o embalar de um sonho de cruzeiro, em movimento uniformemente acelerado (ou retardado?) e ao ritmo do cantochão, entre arsis e thesis contínuas, sempre confiante na perícia do Capitão do navio e num feliz ancoradouro, uma terra de “pro-missão”. Acordei estremunhado e interrompi a viagem (saí) no final do 7.° ano, em 1964, de Cucujães. Ainda hoje não sei bem porquê... Mas, como soía dizer-se, “Deus é Grande!”. Para mim a vida em seminário, na tripeça em escadinha que então era constituída pelos três núcleos da metrópole, no essencial não terá sido muito diferente da da maioria dos miúdos que nós éramos: com as vicissitudes próprias de uma personalidade em construção e de um internamento, a nossa senda algo rotineira, mas de alma lavada e “candeias” geralmente às direitas, com mais alegrias que tristezas, mais aspirações que frustrações. E hoje, à distância dos acontecimentos e num balanço geral, ponderada a conjuntura epocal e as circunstâncias que nos rodeavam, apraz-me registar que a dominante foi francamente positiva. E isto afirmo sem complexos de espécie alguma e palpando bem o peso das palavras. Não obstante a pouca preparação directa para a vida activa – contingência esta que não dependia de nós, que estávamos a ser mais objecto de selecção do que a seleccionar (mais de 90 % ficámos pelo caminho) – como formador profissional que também fui e ainda sou tenho que reconhecer que a educação recebida no seminário me foi da maior utilidade, sobretudo como base e “rampa de lançamento”. Direi mais. Ela terá sido mesmo estruturante: por um lado, porque talvez não tivesse outro meio de seguir estudos; por outro, porque, através destes, da espiritualidade sustentada e da vida em comunidade, me foram inculcados valores comportamentais e culturais importantes, como a disciplina, o sentido ético e antropológico, e tanto na dimensão pessoal como social, hábitos de reflexão e

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métodos de trabalho, entre outros. Particularmente marcante e decisiva foi a vertente humanística – e isso bastaria para jamais poder considerar a SPMCU/SMBN e os seus seminários como uma “Manhã Submersa”. Sem ela eu não teria chegado onde cheguei. Embora “lá dentro” raramente tenha evidenciado ou me fossem reconhecidos alguns dos talentos que Deus me dera, “cá fora” fi-los render, penso que com algum sucesso. É com uma pontinha de orgulho que o refiro, e desse pecadilho – que espero seja venial – me penitencio; mas é a verdade; está documentado. Enfim, de tal modo a Sociedade Missionária e os seus seminários-viveiros me marcaram, que, passados quarenta anos, eles continuam ainda a pairar no meu subconsciente como uma referência, eu diria até que como uma sombra tutelar. Um amigo meu dizia-me, ainda não há muitos anos, que eu trazia gravado um grande “S”, bem nítido, na testa. De Seminário, obviamente. Não me custa reconhecer que sob certos aspectos e por vários anos me senti um pouco à deriva, primeiro no meio estudantil, depois no serviço militar obrigatório, e até já como profissional. Com o cordão umbilical abruptamente cortado e sem o providencial acompanhamento que sempre me fora concedido, por algum tempo tive medo do “mundo”, do “escuro”, de me estatelar à primeira topadela ou à rasteira mais soez, de falhar. O castelo que tinha idealizado desabara e era como se não existisse mais futuro; era preciso reconstruir tudo de novo e a sós. Mas, como disse um poeta, “quando fica escuro é que as estrelas aparecem”. E, de facto, elas apareceram. Depois da manhã clara sobreveio a tarde cinzenta, anoiteceu; e novamente se fez dia. Escreveu-se direito por linhas direitas, e tudo acabou por se recompor, graças a Deus. Com alguns/ bastantes sacrifícios, é certo – quem consegue hoje singrar na vida sem eles? –, mas também sem mágoas, sem quaisquer ressentimentos... antes com muita, muita gratidão pelas bases recebidas. E a prova provada é o meu regresso, sempre que posso, ao seio mátrio, consubstanciado na instituição que de direito e de facto nos representa e (re)vivifica: a ARM. Porque, como disse, a tripeça que foi Tomar-Cernache-Cucujães continua a ser para mim uma referência, fundamental. Sem ela, a

minha escalada da vida teria sido outra, porventura pior. Com a ajuda dela, sinto que me realizei. Bem-hajam, pois, todos aqueles, superiores e condiscípulos, que de 1957 a 1964 me ajudaram a crescer. Obrigado, ARM, por nos ir mantendo a vela acesa. E parabéns, SMBN, pelos 75 anos cumpridos. Ad multos... Joaquim Candeias da Silva
Rua de Angola, 30 – 1.º Esq. 2200-390 Abrantes Tel. 919 809 170 E-mail: djcsilva@hotmail.com

37. A MINHA MANHÃ SUBMERSA Quando, no 1.º de Outubro de 1958, atravessei o estreito portão do vetusto Convento de Cristo, com 11 anos de vida, dei comigo a pensar, pela primeira vez. Naquele chão lajeado perdi a virgindade mental, com algum pranto, como se explica. Para trás ficara uma viagem arrasadora, iniciada em Barcelos, pela madrugada, dentro de um camião de gado, e com passagem por Nine e pelo Porto/S.Bento, onde me havia atrelado a uma catrefa de outros minhotos ensonados e de alguns transmontanos assarapantados, todos de preto, dos sapatos até à boina. Cada um carregava a sua maleta de cartão na mão direita, uma sandes de chouriço na esquerda, e uma sacola de pano a tiracolo, e uns atrás e outros à frente e todos à nora, à procura de um reverendo com sotaina e chapéu que, empoleirado numa mala de porão, lá ia dando baixa da malta no rol, à medida que nos apresentávamos, com o bilhete do comboio entre os dentes, que as mãos não chegavam para tudo. Seguiu-se um longo, pachorrento e sedento percurso até Tomar. Empacotado num fatinho de fazenda preta a estrear, sempre com um olho na mala, e com o outro no guia reverendo, como o meu pai me havia

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ensinado, mal me sobravam olhos para as saudades que já assomavam ou para os anúncios da “Pasta medicinal Couto” e do “Licor beirão”, descabidos naquelas carruagens com bancos de tábua corrida. Fiz o trajecto da estação de Tomar ao Convento, com a mala de cartão ora às costas ora à cabeça, até que me rebentaram umas bolhas nos pés, pouco dados a sapatos, e foi assim com algum sofrimento que entrei no Claustro da Micha, naquele fim de tarde cinzento de Outono. Era tímido e, naquele ambiente estranho, toda a minha confiança se ancorava na amizade de outro galfarro da minha aldeola que havia embarcado na mesma aventura. Conversávamos os dois e tudo começava já a compor-se quando um senhor prefeito, depois de algumas informações gerais sobre as rígidas normas disciplinares por que passaríamos a reger-nos, nos advertiu que, a partir daquele momento, estávamos impedidos de falar ou, de qualquer modo, comunicar um com o outro. Tinham-nos separado em turmas diferentes, talvez precavendo alguma amizade particular, que o seguro morreu de velho. Foi como se o Convento me desabasse em cima. Aquele colega de infância era a minha referência, naquele vasto mundo novo. Com aquela decisão desastrada, associada ao desconforto do corpo e ao sofrimento da saudade que assomava, senti-me amachucado. Pousando os olhos amargurados numas goteiras trabalhadas num dos cantos do Claustro, comecei a aperceber-me de que a minha vida de estudante poderia tornar-se da cor do fato e da gravata desajeitada que trajava. Os miúdos de parcos meios, para serem adultos, têm de iniciar precocemente o processo doloroso de destruição da infância. As lágrimas que então chorei ao sentir que começava a agonizar a criança que trazia dentro de mim, ajudaram-me a entender que, para os pobres, a infância é como um rio que gela no seu curso, impedido de chegar à foz. E foi assim, ao iniciar este processo tosco de amadurecimento acelerado, que dei comigo a pensar, pela primeira vez na vida. Toda a minha infância tinha sonhado que o mundo era azul. Naquela noite, com soluços entrecortados, verifiquei que, afinal, era negro como uma padieira de forno. Dias melhores vieram. E outros piores, de chumbo, como os de Cernache, quando me atribuíram notas negativas a comportamento moral, civil

e religioso, durante todo o 4.º ano. As classificações eram confirmadas semanalmente, até que eu me decidisse a revelar “coisas gravíssimas” relativas a dois colegas expulsos no início do ano, (envolvendo sexo, disseram-me sete anos mais tarde) e das quais se julgava que poderia ter tido conhecimento, por ser amigo deles, mas que eu, de facto, desconhecia em absoluto. Eram as únicas negativas a comportamento entre todos os alunos do meu ano, e recordo que alguns colegas fugiam de mim, nos recreios, talvez com medo de serem considerados cúmplices. Não conseguindo que me esclarecessem sobre o que se passava, não descortinando qualquer explicação para o injusto e tremendo castigo moral a que, ao longo de meses infindáveis, estava a ser sujeito, pensei mil vezes em abandonar o seminário, mas sabia que os meus pais e o pároco não me perdoariam tal dislate, e era também certo que não poderia contar com qualquer apoio, até porque éramos, naquela altura, uma dezena de irmãos. Os seminários eram os colégios dos pobres, na sociedade portuguesa de então, particularmente no mundo rural, onde mourejava a quase totalidade da população, enquadrada pelo clero. Os seminários constituíam praticamente a única saída, para qualquer miúdo que gostasse mais dos livros que da sachola, incluindo-me a mim, filho de alfaiate, mas pouco dado a alinhavos. Havia, assim, que amortalhar a alma, afivelar o rosto e seguir em frente, nem que fosse com as tripas na mão, como a minha mãe em diversas circunstâncias me inculcara. Foi o que fiz. Com alguma raiva, com muitas jaculatórias, mas sem alegria de viver. Foi uma tremenda borrasca a minha adolescência. Sem faróis na costa. Saí dela muito encharcado. Uma tarde de bonança A longa manhã submersa não me gelou o espírito, nem me estiolou a sensibilidade para a policromia da vida. O sol reapareceu nos anos da juventude, em Cucujães e em Valadares. A vida retomou o seu curso, a ternura e a verdura da esperança voltaram. Conheci o sabor da amizade e o prazer do estudo, readquiri a alegria de sonhar. Conheci jovens padres que transbordavam entusiasmo, ouvi testemunhos fantásticos de velhos missionários e tive um professor que me permito no-

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mear, porque me deu coordenadas novas, ajudando-me a descobrir rumo: o saudoso Pe. Alfredo Alves. Devolveu-me auto-estima, auto-confiança, convenceu-me que valia a pena jogar a vida. Sonhei seriamente ser padre. Estudei, rezei e senti a força da fé para avançar. Os últimos anos do curso de teologia foram, contudo, de alguma turbulência. Face às hesitações que sentia, no final do curso optei por não me ordenar, apesar dos apelos cordiais do meu director espiritual. Pedi para rumar à África, até que as águas clareassem. Não clarearam. Os dois anos da minha experiência de vida missionária, em Nampula, em vésperas da inevitável e mais ou menos previsível independência, foram de alguma tensão, de pequenas traições e de surda guerrilha entre algumas pessoas da Diocese, envolvendo também membros da Sociedade. Com o crepitar da crise, casos houve em que a nobre solidariedade humana e a sublime caridade cristã se esboroaram, cedendo lugar a pequenos ninhos de víboras e a um ou outro saco de gatos, mais ou menos assanhados. Segui para Lourenço Marques, onde estudei, procurei emprego e constituí família. Dos conturbados anos de Nampula guardo, todavia, algumas recordações excelentes e grandes amigos, dos que me dão sentido e unidade à vida, e por quem dou a camisa. Devo também referir, em abono da verdade, que não foi por falta de exemplos que não segui em frente. Muitos missionários e missionárias com quem privei em Nampula, e também em Porto Amélia, ainda que só de passagem, são pessoas excelentes, das mais interessantes e admiráveis que até hoje conheci, em termos de bondade, de generosidade, de entrega, de fé. Vergo-me a eles, em preito e homenagem. Até ao meu regresso Iniciei estas memórias dos meus longos anos de internato, pintando aguarelas de alguns momentos difíceis que passei nos seminários menores. Carreguei nas tintas e terei até borrado a pintura, mas foi só para estimular a catarse, porque não culpo ninguém. Nem tudo era paz e amor na seara do Senhor, e não há que escondê-lo. É certo que nas calendas de Tomar comi alguns carolos no coruto e uma biqueirada no traseiro, e que, nas nonas de Cernache, além

das classificações negativas a comportamento, já referidas, sofri ameaças veladas e outras côdeas duras que o diabo amassou e que os princípios elementares da pedagogia não aconselham, mas é também conforme à boa verdade afirmar que as doses de sopa de urso não eram servidas regularmente, e que os dias fastos eram mais vastos que os nefastos. Apanhava-se, às vezes, com estilhaços de pessoas que sofriam de algum recalcamento ou frustração assolapada, e gente havia que, talvez por ter contraído resfriado no vendaval que assolara a Itália em meados do século, se armava em capataz e puxava da chibata. Mas esqueçamos estas agruras, porque dos estilhaçados e dos engripados cuidará o Senhor. Vamos adiante. Como já relembrei, os idos do Couto de Cucujães suavizaram o meu quebranto. Do que se passou antes e depois, recordo nomes e lugares, mas sem qualquer rancor. Era o sistema. Era mesmo. A Sociedade funcionava como uma família numerosa e de reduzidos recursos, onde os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos. Comparada com algumas multinacionais, como jesuítas, franciscanos ou combonianos, a Sociedade era, afinal, uma pequena empresa familiar. Havia projecto e mística a rodos, havia vontade e dedicação sem limites, mas faltavam, por vezes, instrumentos fundamentais, como educadores competentes. Uns eram bons, outros menos. Em certos aspectos, laborava-se em vão de escada, sem ferramenta adequada. Algumas peças terão saído canhestras, como eu. Estou certo, porém, que a minha vida teria sido bem mais difícil sem o apoio prestimoso, inestimável dos seminários e dos educadores que tive. Deram o que tinham para dar. E deram muito. Foi graças à educação austera, rigorosa, quase espartana que recebi, à tenacidade e persistência que me incutiram, ao hábito de me desenrascar sozinho que, depois, sem tropeços nem angústias, acabei por fazer uma licenciatura e um doutoramento, por escrever vários livros e artigos em diversas revistas, por ensinar e debater com mestres e doutores, por presidir a pequenos grupos e movimentos. Fui professor, conselheiro de orientação profissional, gestor de recursos humanos, técnico superior assessor de Finanças, chefiei serviços académicos e outros serviços públicos, dirigi a construção de imóveis, e em todas estas variadas circunstâncias

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percebi como me era útil a bagagem herdada da Sociedade. Vivi e trabalhei em diversos continentes, pratiquei desporto e corri maratonas em diferentes latitudes, às vezes fazendo apelo ao espírito de adaptação, de desapego e de sacrifício treinados na adolescência e na juventude. Depois de ter andado pelos quatro cantos do mundo, e de ter tido oportunidade de o conhecer mais ou menos de lés a lés, estou de regresso ao rincão de origem. Curtindo o outono da vida e aguardando que os filhos estejam criados e economicamente independentes, dou comigo, às vezes, a gizar planos para um regresso a terras de missão. Talvez no Brasil. Um assunto a amadurecer, com a mulher e demais família. Resta-me apresentar parabéns à Sociedade, pelos seus 75 anos. Votos de longa vida! E um abraço de enorme gratidão e amizade a quantos colaboraram na minha formação. Bem-hajam! Carcavelos, 31 de Janeiro de 2005 Amadeu Gomes de Araújo
Rua Luís de Camões, 632 Arneiro 2775-518 Carcavelos Tel. 214 564 625 / 934 285 048 E-mail: agaraujo@portugalmail.pt

II - Entrada na SPMCU: Em Outubro de 1958 – só, no fim do dia, pelo refeitório do Convento de Tomar. III - Saída: Julho de 1965 Fim do 2.° ano de Filosofia IV -Membros da SPMCU que marcaram o meu percurso: Pe. Garcês; Pe. Ramos; Pe. João Valente; Pe. Trindade, Pe. Castro, Pe. Alves e Irmão Ribeiro. A todos aqueles que influenciaram o meu caminho, cujos nomes não recordo agora e que contribuíram para a minha visão de Deus, do mundo e dos homens, aqui quero deixar o meu testemunho de agradecimento com um simples bem-hajam. V - Companheiros da VESTIÇÃO CLERICAL - 3-12-64 Acilino F. Pedro, Adelino C. Serafim, Aníbal Fernandes Morgado, Antero A. L. Duarte, Carlos Amílcar Dias, Joaquim Ferreira de Araújo, Joaquim Martins da Costa, Joaquim Patrício da Silva, José Manuel Rainha, José V. Pereira da Silva, Laurindo Neto, Luís M. F. Gomes, Manuel A. Vilas-Boas, Manuel Rodrigues Ribeiro, Miguel Nunes Ramalho, Pedro M. da Costa Amado, Serafim dos Santos Rosário, Vítor M. da Silva Borges. Quero saudar neles todos os companheiros de percurso e deixar uma mensagem de amizade desejando a todos, nestes 75 anos da SMBN, as maiores felicidades “assim na terra como no céu”. VI - À SPMCU/SMBN e a todos os seus membros quero expressar um testemunho de agradecimento e apreço pelo seu trabalho positivo que marcou a minha geração, mesmo em tempos difíceis. Quero lembrar o contributo do “tio missionário” que percorria o país, em tempos e estradas difíceis, anunciando a Boa Nova e recrutando alunos para o Seminário. Foi devido ao seu contributo que deixei de ir para o Seminário de Poiares e ingressei na SPMCU. Destinos de uma vida... Era um tempo em que a preocupação com a educação e evolução dos jovens, nomeadamente os do interior, não existia, e a Instituição assumiu-a, com coragem. Foi o tempo em que a SPMCU educou, todos os anos, dezenas de jovens e contribuiu

38. O MEU TESTEMUNHO

I - Apresentação: Nome completo: Manuel Rodrigues Ribeiro Nome profissional: Manuel Ribeiro Profissão: Advogado Data Nascimento: 15/02/46 Local: Vale da Ribeira (Linhares)- Mesquitela Concelho: Celorico da Beira.

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para o enriquecimento cultural e profissional do nosso país e de alguns países de língua Portuguesa, nomeadamente Moçambique. Obra grande. Foi através desse ensino que obtive a formação básica para encarar a vida. Dessa formação dada pelos membros da Sociedade, aprendi a gostar e a representar teatro, a escrever poesia, a tocar piano (mal, por falta de dom natural) e a filosofar. Para tornar o meu depoimento real não resisto à tentação de aqui deixar poesia escrita em Cucujães, em Fevereiro de 1964 e 1965, que faz parte das minhas recordações boas. DIÁRIOS I Branca ou preta (a minha vida sempre) – Mas secreta No coração de poeta É que a Rosa do Tempo desabrocha Ali se abre e se encorola. Vem a noite e o dia O insecto e a borboleta Atraídos pela nova Primavera ................................................ Esfloram as rosas ao vento Como os flocos de neve quando neva Mas a Rosa do Tempo Sempre secreta e sempre Bela Só a mão de Deus lhe toca e a leva… (1964) II Tudo passa com o tempo Na Roda do movimento À espera de mudança ................................................ Passam as árvores floridas As rosas a as margaridas No Tempo seco do Estio Tudo passa e tudo morre No Tempo que escorre... Só eu é que não passo Porque fico lasso No tempo que corre… (1965)

Com este testemunho pessoal pretendo ter um gesto de gratidão e reconhecimento a todos os que, na SPMCU/SMBN, inculcaram sementes de amor a Deus, desenvolvimento intelectual e moral nos alunos que por Ela passaram. A sua missão continua a ser actual e importante. Exorto-os a trabalhar com coragem neste tempo que se adivinha difícil, mas esperançoso para a integração mais vasta de Deus no coração do homem. Tudo vale a pena… aos 75 anos. Lisboa, Novembro de 2004 Manuel Ribeiro
Av. Cap. António G. Rocha, 12 – 2.º Dto. 2745-246 Queluz Tel. 214 376 542

39. UMA AVENTURA E UM DESTINO Ter andado num seminário não é exactameme o mesmo que ter frequentado um liceu, uma escola, um colégio ou uma universidade. Ter sido seminarista é uma aventura. E muitas pessoas se perguntam sobre a personalidade de um candidato ao sacerdócio que, por qualquer motivo, abandonou a vocação e voltou ao seio dos mortais comuns. Podem vir a ser presidentes de uma nação como Kubischek de Oliveira, primeiros-ministros como Salazar, presidentes de uma Assembleia Nacional como Mário de Figueiredo, de uma Academia como Astragísilo de Athaíde, escritores como Aquilino Ribeiro, jornalistas como Raúl Rêgo, ou exercer as mais diversas actividades nos mais diversos sectores, mas quem foi seminarista fica sendo ex-seminarista para o resto davida. Porquê? Eu próprio já várias vezes me fiz a pergunta, mas nunca encontrei uma resposta satisfatória. Um dia destes ainda hei-de sair por aí e entrevistar psicólogos, sociólogos, ou pessoas ao acaso para me darem algumas razões deste estranho fenómeno. Vários foram os factores que nos levaram ao

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seminário, muitos outros os que nos fizeram abandoná-lo. Os motivos de uns foram diferentes dos dos outros. As influências também foram diversas. Uns entraram por vocação, por influência das famílias, do ambiente. Outros porque queriam estudar, fugir ou simplesmente refugiar-se num claustro. Depois saíram. Por terem perdido a fé, não se acharem aptos ou terem medo de assumirem tão grande responsabilidade, uns. Por julgarem que se podiam realizar melhor noutro lado, não tinham vocação ou mais causas ainda, outros. Alguns continuaram católicos, outros tornaram-se indiferentes e outros ainda ateus. Muitos subiram na vida, outros não foram tão bem sucedidos. Háos frustrados e resssentidos contra a educação recebida, e também os que consideram esses anos os melhores da sua vida. Mas todos foram marcados por essa experiência, que alguns classificam como fabulosa e enriquecedora e outros como completamente desastrosa. Mas a marca ficou. E não há vantagem nenhuma em fazer tábua rasa dessa extraordinária experiência única, mas tirar o máximo partido dela. O culto do silêncio, o hábito da concentração e da meditação, o prazer da leitura, o costume da disciplina, da ordem e da organização, o gosto do estudo, a formação moral e a segurança cultural são algumas características que quase todos apontam como a contribuição mais importante que o seminário lhes deu e os fez singrar e progredir pela vida fora. Depois houve aquela entrada de contacto, vivência face a face com o Absoluto, aquela experiência com o transcendente, com Deus, e que só os que a tiveram poderão compreender. Creio que mesmo os que se tornaram descrentes ficaram marcados por esta experiência e na vida hão-de orientar-se sempre por algo que seja ou pareça o Absoluto. Parece-me também que ficou como característica a abertura aos outros e a ideia de que o mundo se pode transformar para melhor. Tudo isto são sinais que o ex-seminarista, clara ou veladamente, carrega consigo. São valores que tornam por vezes estranhos no meio dum mundo materialista estes homens ou rapazes que como nós passaram a adolescência ou a juventude na exaltação de um ideal que depois mudou de rumo. São qualidades que devem ser aproveitadas, porque cada vez vão rareando mais.

Fomos seminaristas e isso foi para nós uma aventura. Somos ex-seminaristas e isso representa para nós um destino. Acho que vale a pena assumi-lo. Vítor Borges
(Bol 50 (1.ª Série), Mar/Abr 1974, p. 4) Estrada Calhariz de Benfica, Lote 2 – 4.º E 1500-121 Lisboa

40. COMECEMOS PELA SARDINHA Comecemos pela sardinha... Chegar a Tomar naquela manhã chuvosa de inícios de Outono não foi nada fácil. As curvas e contra-curvas do ainda pinhal, que depois virou eucaliptal, a longa viagem de 50 Km que demorou quase três horas, o receio de enfrentar uma nova vida, tudo isso era demasiado para os meus infantilíssimos onze anos. Aliás, parece-me que na antevéspera eu ainda não era dotado do pleno uso da razão. A recepção foi assustadora. Tanto miúdo da minha idade e todos vestidos de bata preta. Aquela casa tão grande não cabia na minha cabeça. Convento de Cristo! Pensei que aquele nome tinha sido bem escolhido! O pai e a mãe foram substituídos por pessoas a quem se tratava por prefeito. Como a professora Celeste não me havia falado desta palavra, eu entendi que era perfeito. E ficava-lhes bem o nome, diga-se de passagem. Divididos em duas turmas, foram os do 2.° ano ensinar-nos onde era a nossa camarata. A seguir à ceia, que ali afinal se chamava jantar, fomos para o recreio, que neste caso foi num corredor que ainda hoje considero enorme. A chuva que tinha caído enregelava o corpo. As mãos estavam frias? A solução era fácil, disseram os do 2.° ano. Vamos jogar à sardinha. Aí, veio-me à lembrança a ceia na casa paterna. Couves, batatas, uma petinga ou uma ponta de

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toucinho. E nesse pensamento o desânimo apoderou-se de mim por momentos. E fui iniciado no jogo da sardinha. Se levei muitas? Pudera! Eu nunca tinha jogado à sardinha e o meu parceiro já tinha pelo menos um ano de treino. Apesar de tudo, a rudeza das minhas mãos aguentou a esfrega daquela noite. E, depois daquele dia completamente inesperado e estafante, lá me fui deitar de pés frios – que falta me fez a lareira! – e de mãos a arder de tantas que levei. Nos dias seguintes, lá fui andando no rego. Desculpem-me a expressão, mas, para quem aprendeu a andar também atrás de um arado, esta é a palavra certa. Tomar, com passeios às quintas-feiras e às vezes com pinhões pelo caminho, Cernache e ainda Cucujães. De garoto a adolescente, eu via-me crescer em todos os sentidos. E sentia-me muito gente, especialmente em cada verão, quando os meus vizinhos me perguntavam para que ano tinha passado! E o que é que me ficou destes oito anos de vivência? Muito! Imenso! Valores, atitudes, hábitos de gestão de tempo, controlo da vontade, formação integral e um sem número de outras ferramentas que me moldaram a personalidade. E se nem tudo foi completamente positivo foi porque na nossa vida nada o pode ser completamente. Mereci tudo o que recebi? De todo que não. Tudo isso me foi oferecido. E estou muito grato a todos os que apareceram no meu caminho. Carlos Amílcar Dias
Rua João Morais Barbosa, 9 - 1º C 1600-416 Lisboa Tel. 217 156 179 / 916 003 039 E-mail: dias.carlos@netcabo.pt

41. TESTEMUNHO Naquela longínqua madrugada de sete de Outubro de 1959, eu e o Carlos, vizinho e companheiro, iniciámos a primeira grande aventura das nossas verdes vidas. Meninos e moços, bem cedinho, ainda noite, deixámos a aldeia, a família e os amigos e partimos rumo ao Convento de Cristo em Tomar. Pelo caminho encontrámos outros companheiros que seguiam o mesmo destino. Em nós tinham ecoado os apelos inflamados, lançados pelos Padres da Sociedade Missionária nas missas dominicais, celebradas na capela da aldeia. No Seminário vivi dias, meses e anos fantásticos. Tempos cheios de vida e alegria. Uma corrida alucinante de felicidade e entusiasmo que, refreada pelo rigor da disciplina, para sempre me moldou o espírito e temperou o carácter. Porém, o meu destino estava traçado por outras vias, afastado dos ideais missionários. Começava o ano lectivo de 1962/ 63 quando abandonei o Seminário de Cernache. A adaptação ao novo mundo nem sempre foi fácil. Por vezes andei errante ou sem grande norte, à descoberta de novos horizontes. Ano após ano vi a vida passar e hoje, de vez em quando, ainda dou por mim à procura de algo perdido na bruma dos tempos. Daqueles tempos, já tão distantes, apenas restam as saudades. Mas valeu a pena tê-los vivido. Celestino Cândido Rodrigues Neves
Rua Dr. Francisco Sá Carneiro, 92 – 3.º Porta 5 2490-548 Ourém Tel 249 543 011 / 917 231 764 E-mail: ccrneves@clix.pt

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42. UM SINCERO BEM-HAJA A celebração dos setenta e cinco anos de existência da Sociedade Missionária, leva-me a revisitar o meu passado, abrir o baú da memória, recordar os meus tempos de criança e juventude, passados nos seminários de Tomar, Cernache do Bonjardim e Cucujães que frequentei desde 1959 a 1966. Mais concretamente posso dizer que foi nos primeiros dias de Setembro de 1959, na aldeia de Caçarelhos, concelho de Vimioso, que iniciei essa minha caminhada. Ali nos reunimos vários alunos do concelho, candidatos ao seminário, a fim de na presença do “Tio Missionário” prestarmos provas escritas de admissão. Dali a dias chegou o veredicto de aprovado, e entrar no seminário de Tomar no dia um de Outubro, devendo minha saudosa mãe marcar o meu enxoval com o n.º 602. A viagem até Tomar foi a minha primeira experiência de contacto com um novo mundo. Com a falta de estradas e comunicações na época, agora, os meus horizontes alargavam-se então para lá da aldeia onde nasci. Tenho ainda bem focado na retina a imagem do padre Carlos Fernandes, com seu hábito clerical, à nossa espera na estação ferroviária de S. Bento na Cidade Invicta. Ele seria o nosso guia para nos acompanhar dali até Tomar. Chegado ao histórico Convento de Cristo, iniciei então um ciclo de vida que me marcou para todo o sempre. Não cheguei a sacerdote, mas o problema da vocação foi amadurecendo ao longo dos sete anos em que frequentei o seminário. A princípio, ainda criança, e com toda a magia do pensamento de criança, o sacerdócio era o ideal a atingir. Mais tarde, como jovem, já outras perspectivas se punham. Depois, já em filosofia, o pensamento começou a ser coerente e o problema da vocação pôs-se abertamente. Afinal, não seria padre, optaria por outro caminho!... Mas, na minha despedida, prometi que não esqueceria a Sociedade e seria missionário à minha maneira. Hoje, a tantos anos de distância, e olhando para

o meu percurso, vejo realmente que tenho sido missionário, mas de um modo diferente. Sei também que muito do que sou e como sou à Sociedade Missionária o devo. Em primeiro lugar pelo ciclo de estudos que me proporcionou e que foram a base para outros voos. Os seminários, numa época em que o ensino público era bastante elitista e as escolas se concentravam apenas nas cidades, foram a saída para muitos jovens do meio rural e de recursos económicos mais débeis. Em segundo lugar pelos valores incutidos como: a disciplina, a solidariedade e lealdade, o sentido de justiça, o amor ao trabalho, à arte, à cultura, valores emanados de um projecto educativo, que apesar de uma disciplina rígida e talvez com outras deficiências, o certo é que contemplava o aluno em toda a sua dimensão. O tempo era escrupulosamente aproveitado nas aulas, no estudo, na oração, no desporto, no teatro, na música, em alguns trabalhos de jardinagem ou na quinta, e até nas quintas-feiras havia o tradicional passeio pelas redondezas, e à noite, a aula de civilidade normalmente dada pelo Sr. Reitor. Não faltava o passeio anual a locais importantes e por vezes, normalmente em Setembro, o acampamento junto ao mar. Assim se criaram raízes para a vida e, agora, lhe reconheço o valor ao constatar tudo o que se passa nas escolas de hoje. Por isso, nesta hora de júbilo, quero expressar à Sociedade Missionária o meu sincero bem-haja. Mas deixo também outro bem-haja ao meu pároco de então e à minha professora primária, os primeiros obreiros nessa minha caminhada, que convenceram meus pais a deixar-me frequentar o seminário. A Sociedade Missionária, no concelho de Vimioso, era muito conhecida devido ao padre Amândio Augusto Lopes, ele próprio ordenado na Sociedade, mas depois incardinado na diocese de Bragança-Miranda. Na altura era o meu pároco. Para ele deixo aqui o meu fervoroso “requiem”. Para a minha professora, D. Aninhas Gonçalves, também grande dinamizadora da paróquia, um beijo de reconhecimento e amizade. Finalmente uma interrogação. Os membros da A.R.M. (Associação Regina Mundi) associam-se com alegria à celebração das bodas de diamante da Sociedade Missionária, porém, vemos um mundo em completa transformação. Com os seminários

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vazios urge perguntar: – Qual o futuro da A.R.M? Creio que Deus lhe dará a melhor solução. Serafim dos Santos Alves do Rosário
Av. do Sabor 5230-201 Santulhão Tel. 273 579 114 / 967 088 491

43. TESTEMUNHO DE UM EX-SEMINARISTA DA SMBN, NEM DE LOUVOR FÁCIL NEM DE CRÍTICA GRATUITA Fui aluno da SMBN, entre 1960 e 1967. Vivíamos um tempo conturbado de fascismo, de polícia política e de censura em que as liberdades fundamentais não eram respeitadas a par de uma guerra colonial e de propaganda mais ou menos despudorada ao regime vigente. É neste contexto que se inserem os sete anos em que eu frequentei os seminários da Sociedade Missionária. Quero afirmar, apesar disso, que me sinto honrado por ter tido o privilégio de lá ter estudado e, talvez se assim não tivesse acontecido, não teria atingido o nível cultural que hoje tenho, apesar das dificuldades e limitações por que passei. A minha formação não é, hoje, simplesmente a que lá adquiri pois tem muito de autodidactismo e das escolas que posteriormente frequentei. De todas elas, a mais cruel é, sem dúvida, a Escola da vida. Foi todavia na Sociedade Missionária que aprendi as bases em que fui construindo tudo o resto, fortalecendo a minha personalidade que, de frágil, se tornou forte. Para tal, tive de ir actualizando e adaptando esses conhecimentos com vista à resolução dos problemas com que ia deparando. Devo isto, sobretudo, ao meu apurado sentido crítico (no zodíaco chinês, sou rato, no ocidental, sou virgem) que faz de mim um amante quase obsessivo da verdade das coisas. Será essa, talvez, a minha maior virtude se outras não tiver. Detesto visceralmente a hipocrisia, com a qual não pactuo, muito embora possa parecer orgulhoso e arrogante. A Sociedade Missionária além de formar al-

guns padres, também nos apetrechou, aos outros que somos leigos, com uma certa forma de estar e de ver a vida. A disciplina, as regras são um meio para conseguirmos outros objectivos e na Sociedade Missionária não faltavam, felizmente, até eram, no meu modesto entender, supérfluas ou excessivas porque, na época, não havia a coragem de explicar a sua razão de ser (influências do regime, da época). Antes assim do que o regabofe que se ouve hoje na comunicação social (veja-se o caso dos padres pedófilos nos EUA e do seminário que foi encerrado na Áustria, por homossexualismo) sobre a Igreja Católica. A SMBN assegurou o ensino que o Estado não proporcionava nomeadamente às pessoas pobres e longe das cidades. É absolutamente necessário e imprescindível reconhecê-lo. Outra função essencial da SMBN e, afinal, a razão por que, há 75 anos, foi instituída pelo papa Pio XI, é a missionação. Ainda há bem pouco tempo faleceu o Pe. Álvaro Patrício. Ele e o seu irmão Pe. José Patrício foram dois grandes missionários, na altura em Moçambique. Agora temos missões também em Angola e Brasil. Parabéns aos missionários que muito fazem com bem pouco. Foi também na Sociedade Missionária que comecei a gostar de Educação Física e desporto que são cada vez mais necessários e recomendáveis, mens sana in corpore sano. Nunca auferi nada com o desporto e sou um defensor acérrimo do desporto amador e do espírito olímpico que tanto tem servido para o desanuviamento de tensões, a nível mundial, e de aproximação dos povos. Também foi na SMBN que comecei a despertar para o teatro e para a música, duas formas de cultura que muito aprecio. Os seminários estavam instalados quase no campo e eu que já gostava passei a apreciar mais os prazeres e as delícias do campo, desde o ar puro à boa fruta que nós mesmos íamos apanhar na quinta para o lanche. Os passeios campestres que a gente dava de vez em quando; enfim tenho saudade de tanta coisa que nem eu já me lembro... No ano em que celebra 75 anos de existência, parabéns à Sociedade Missionária e muito obrigado. 12.08.2004 José Augusto Rodrigues

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PS – Como eu não quero ser mais papista que o Papa, vou lembrar o que ele diz na sua encíclica “A Fé e a Razão”: a história do homem é uma busca incessante para descobrir a verdade ao nível científico e filosófico. Ninguém o consegue sem, com humildade, seguir a máxima socrática “Nosce te ipsum”. É o que eu gostaria de ver na ARM e sua direcção e na SMBN, sendo que eu não sei o que é hoje a SMBN e como se rege. Só sei que este Papa, que alguns apelidam de conservador, tem um passado de luta contra a ditadura, de desportista e de operário, um altíssimo respeito por todas as religiões e um humanismo ímpar que o levou ao cúmulo de ir a Jerusalém e pedir perdão aos Judeus, atitude que, a meu ver, não se justificava, por excessiva. J.A.R.
Praceta Irene Lisboa, 5 – 2.º Esq. Arroja 2675-554 Odivelas Tel. 219 328 700 / 968 569 620

estar todo vestido e com batina precipitou-se na água tendo ficado todo molhado. Recordo o Sr. Padre Lima por ser um dos Mártires da Sociedade Missionária e ter tido a honra de ele ter sido um dos meus superiores. Francisco Moreira de Matos Mota
Rua D.Miguel Casal Novo 3720-859 Vila de Cucujães Tel. 256 827 909

45. TESTEMUNHO O indelével perdura. Ficar-me-ei por pequenos factos pois é difícil, em “uma página A4 (podendo ir até duas)”, transmitir o muito que recebi e o muito – tudo – que procurei dar à minha vivência na Sociedade Missionária. Neste seu aniversário de 75 anos, fica bem abrilhantarmos o diamante. Não é favor este brilho. É dele próprio, porque ele também é nosso. Do “mais que tudo”, na dedicação ao evangelho, sobressai a convivência fraterna, os laços sentidos quer com os colegas quer com os superiores. Mas alicerçada na oração eucarística e na devoção à Imaculada. Valores que, se não feito apelo na vivência constante e profunda, se nos vão rotineiramente esmorecendo. A todos os membros da Sociedade, vivos ou falecidos, me sinto ligado pelo percurso trilhado. Por nenhum me senti menos aceite ou pessoalmente ferido. A alguns me conservo particularmente mais ligado e devedor. Dei entrada no Seminário de Tomar e nele completei os anos lectivos 1960/61 e 1961/62, seduzido por algo de diferente no horizonte da vida. Como marcantes destaco dois acontecimentos. O primeiro ainda o sinto vivo como há 45 anos: foi a data do crisma. Mas esteve muito entorpecida em mim esta vivência. Revivo-a desde há alguns anos (sobretudo, pela vivência familiar emergente após 98, ano do Espírito Santo) tornando-se a chave de in-

44. TESTEMUNHO DA MINHA PASSAGEM PELO SEMINÁRIO Estive na Sociedade Missionária de 1961 a 1963: frequentei o Seminário do Convento de Cristo em Tomar, o Seminário de Valadares (antigo) e o Seminário de Cernache do Bonjardim. Apesar de terem sido apenas três anos, foram particularmente gratificantes e guardo dentro de mim inesquecíveis recordações, tanto dos superiores como de colegas. Além do enriquecimento na minha formação, a passagem pela Sociedade Missionária ajudou-me imenso quando tive de enfrentar a vida – sou Técnico Oficial de Contas e sempre estive ligado ao sector de contabilidade. Facto relevante que se tenha passado nessa época: recordo o Padre Lima que, ainda Diácono, foi figura de relevo num dos passeios à ribeira da Sertã. Quando os alunos estavam a tomar banho, apercebeu-se que um estava com as pernas para o ar, na água, pensando que se estaria a afogar; e apesar de

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terpretação de muito do que tenho vivido e do percurso salvífico de Deus na história que vamos fazendo. Identifico o meu ajoelhar naquela capela, os passos que dei e, acima de tudo e por tudo, o extravasar do fogo-força interior por que fui invadido. O segundo, foram as apanhas de pinhão junto aos Pegões. Facto banal, não fora a dimensão de repouso interior, vivido em Deus, que essa insignificante e ignota actividade me proporcionou debaixo daquela suave brisa, sibilando na copa dos mansos pinheiros. De Cernache do Bonjardim relevo, continuando Tomar, o fervoroso terço (quantas vezes entremeado de cânticos) pela avenida das tílias até à gruta da Imaculada (e para esta festa de 8 de Dezembro – data em que escrevo –, aquelas novenas e festa na igreja...). Mas também a capela nos tempos em que carinhosamente enfeitávamos o altar e de onde, já sonolentos, nos despedíamos à noite da Mãe com o canto da “Salve, Regina...”. E os passeios pelos montes? E os famosos passeios grandes? E os comentários a passagens evangélicas para as quais o prefeito (Pe. José Maria) nos escalava? (Guardava bem viva esta memória quando, anos mais tarde, partilhávamos em Moçambique a tarefa de lá nos vivificarmos no evangelho, a boa nova!...). Seminário de Cucujães. Salta-me logo ao espírito a figura (profunda e perspicaz) do Pe. Alves. Marcante! E, de outro cariz, a do Pe. Campos. Probandato. Tempo forte, local extra (também Convento de Cristo, Tomar). Revivo alguns momentos. Faço sobressair a peregrinação que fizemos a pé a Fátima; e a noite que, como peregrinos, lá vivemos “neste” tão querido Santuário, tão acolhedor, tão fazedor de paz, para mim desde sempre (desde criança) tão atraente e memorável. A 27 de Julho de 1969 fizemos a nossa Consagração Temporária na Sociedade. Naquela “bendita” capela! No Seminário da Boa Nova (Valadares) o tempo foi de um grande esforço de e na mudança. Boa, penso. Pergunto-me hoje: suficientemente reflectida e acompanhada para o transcendente do (no) real transparente? Mas não sei se poderia ter sido diferente – revejo – tanto era o esforço que em alguns dos superiores se notava. Seminaristas de várias proveniências (Sociedade e Dioceses), novos horizontes, ensino partilhado extra-muros, grandes feitos (aqueles “ritmos litúrgicos” e o “conjunto Boa

Nova”!) e realizações empenhadas em comunidades cristãs. Terminei teologia e fui para a Diocese de Nampula. Encontrei uma verdadeira Sociedade Missionária: fraternidade cristã de irmãos em dedicação pelo Reino. Foi uma missão de 73 a 78, tanto mais humanamente rica quanto cristãmente foi sentida. Pela entrega, pela doação da vida. Desde o tempo da guerra, ao atravessar da independência e ao experimentar das novas políticas: com os pobres e os necessitados sempre na nossa mira, sempre na entrega do nosso coração – o que, por vezes, teve com a vida de ser demonstrado. E foi o que valeu... Vivi tempos de comunhão marcante: mais com os conviventes habituais e com os das comunidades e/ou “missões” próximas da nossa; mas foi notável com toda a Região (de Nampula). Um ponto que considero de referência aconteceu com a Assembleia Regional realizada em Malatane. Local a que, como a Iapala, Corrane, Murrupula... talvez não soubesse hoje lá chegar. Mas, se lá colocado, conseguiria fazer reacender nos locais a chama dos encontros de há 30 anos. Na equipa (como lembro aquela Momola!) vivemos padre, irmão e dois “estagiários” “...a alegria de vivermos como irmãos”. Aqueles serões, sentados nas cadeiras de palha, rezando o terço na varanda, ao som do silêncio da noite e ao brilho das luzes trémulas das estrelas, em ciclos, com o espraiar lunar duma “lua que não é mentirosa como na nossa terra” (sempre nos explicava o nosso irmão Balau)!... Quão grande foi toda a experiência com a(s) comunidade(s) que servíamos!... Desde construir a capela (cortar paus à catana, arranjar capim, fazer o seu transporte aos ombros à moda ensinada pelo Pe. Godinho... vê-la erguer...) até às celebrações dominicais com ou sem presbítero e que demoravam tanto quanto demorassem..., dependendo da vida que lhes colocávamos em partilha. Habituado às pressas e ao relógio, guiar-se pelo sol dando margem ao erro da sombra e estando “sem horas” dele abrigado... foi aprendizagem que sem custo consegui interiorizar. E o Espírito estava presente porque se sentia naqueles cristãos que, sem amparo, remavam contra a corrente: tanto da política como das crenças e “religião” pela grande maioria professada.

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Na nossa comunidade tínhamos as tarefas distribuídas. E à nossa responsabilidade específica, cada qual tinha alunos associados. Foi uma experiência educacional muito gratificante. E foi ela a que mais elevou a nossa actividade face às autoridades no pós-independência. Na verdade, o confronto entre a teoria e a prática nem sempre resulta em verdade. Sobretudo no que se referia à estrutura económico-laboral nós provámo-lo para surpresa do comité do partido no poder e louvor de Cristo, motor da acção missionária. Estava eu, ao tempo e desde o período de transição, a leccionar no Liceu de Nampula. Foi uma forma de manter presença “diferente” e de me auscultar nos jovens que enfrentavam o desafio de um país independente. Em nome do que tudo tivemos de deixar. O que construíramos e a proximidade dos laços humano-cristãos que nos animavam. Mas sem menos ânimo. Fortes com o Espírito que nos (e às nossas coisas) enforma(va). Vivi um ano integrado em outra comunidade com um frade (padre) dominicano em zona diferente da Diocese – Nacala – para onde fui transferido, leccionando na Escola Secundária. Fizemos família juntando a nós um casal moçambicano que vivia em outra dependência da residência paroquial. Gostei e apreciava como importante a ida regular à nossa casa-mãe, a Nampula. Recordo, deste tempo social revolto, as grandes assembleias litúrgicas na Igreja daquela cidade-baía e das quais, por exemplo na Semana Santa, ninguém arredava pé durante horas. Regressei para estudar medicina. Foi uma decisão suportada pela vontade de ajudar os mais pobres e desfavorecidos. Na perspectiva de Cristo. Como sinal do Reino. Em família – com esposa e filho – vamo-nos estimulando para que com cada um de nós assim aconteça pelo Espírito, com a ajuda de Maria, nossa terna Mãe e do nosso Mestre, o Emanuel, o Deus connosco.
Porto, 8 de Dezembro de 2004, Festa da Padroeira, a Imaculada Conceição

46. A MINHA HOMENAGEM Mais que narrar uma história repetitiva com algumas notas individualizantes, tem a presente por propósito render o meu preito a uma plêiade de educadores que souberam suprir a falta de uma preparação curricular específica pela dedicação ao munus ministerial assumido e outrossim a uma organização educacional cuja identidade de objectivos teve que ser reformulada no percurso do tempo. Totalizando um universo de 86 candidatos admitidos ao primeiro ano de ensino secundário, população maioritariamente procedente das Beiras do Interior (34), do Douro Litoral (18), de Trás-osMontes e Alto Douro (16), do Minho (10), da Beira Litoral (5), do Ribatejo (2), registando-se ainda uma presença do território insular da Madeira, convergimos no ano de 1961 para o vetusto Convento de Cristo em Tomar. Na integração do plantel constavam 4 repetentes do ano anterior e uma readmissão do ano precedente. Excepção feita para um caso de vocação tardia, as idades do agregado discente compreendiam-se entre os 11 e os 14 anos. No imaginário de cada candidato arrancado à província profunda e aos seus progenitores, Tomar representava tão-só o primeiro passo para a materialização de uma amálgama de motivações impostas e/ou mal digeridas, onde caldeavam o acesso a uma apetecida superação educacional dificultada e porventura inacessível por outras vias, a perspectiva de um posicionamento social de destaque, a expectativa de algo diferente do precário meio existencial, e outras tantas alegações, todas elas sublimadas com a adesão fervorosa a uma insofismavelmente nobre causa. À semelhança destas, diversas outras personalíssimas justificações encontravam fundamento e foros de legitimidade no recurso à estereotipada resposta a um chamamento vocacional.

João Manuel da Costa Amado
Rua Santo Ildefonso, 366 – 1.º E-Trás 4000-466 Porto E-mail: j_amado@sapo.pt

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Uma análise metodicista cartesiana traduzida em termos de produtividade levaria o exegeta a concluir que o rendimento do colectivo, em termos absolutos deverá considerar-se medíocre, sendo certo que dos 86 estudantes um só concluiu a formatura que se propôs, o que representa um coeficiente de rentabilidade da ordem dos 1,16 %. Porém os resultados efectivos têm que revestir-se de outros contornos sob pena de condenação por fracasso e insucesso. A subtil, multiforme e actuante acção recrutadora de um organismo em cujo desiderato estatutário subjazia a preparação de profissionais idóneos para dilatar a fé e o Império emergiu, evidenciando-se em eficiência ao conseguir desarreigar de recônditas aldeias, povoados e casarios, desprovidas do direito de constância no mapa, um avultado número de petizes, procedentes de condição social humilde, preparação académica básica – quarta classe e exame de admissão – para transformar esta massa humana amorfa em outros tantos homens válidos e cooperantemente úteis no seu meio de assentamento original e adquirido. Com efeito no cosmos deste quase centenar de indivíduos, em cujo currículo passou a constar a repleta de história, mas ignota cidade ribatejana, podem contar-se profissionais dotados de formação superior, de mestres dedicados ao ensino, à docência e à advocacia; empresários e altos funcionários com responsabilidades de realce no serviço público, na actividade empresarial, bancária e governativa; homens de relevo, destaque e protagonismo no seu meio de inserção, no espaço geográfico nacional e na diáspora. Não integra a dissertação especular sobre o hipotético advir de cada adolescente provinciano, se um dia uma força motivadora não tivesse interposto a cidade do Nabão no roteiro dos seus destinos. O tema fica para reflexão e perscrutação de cada um. Concomitantemente formidável deverá considerar-se a intervenção de uma Sociedade formadora (leia-se: Sociedade Missionária das Missões Católicas Ultramarinas), porque, com o dispêndio de recursos humanos e materiais no suceder dos anos de capacitação curricular potenciou tais resultados, devendo ter por certo haver dado fiel cumprimento ao seu móbil estatutário, quando conse-

guiu joeirar em mó de proventos um tal número de acrisolados cidadãos competentes e cooperantemente empenhados na edificação da sociedade do seu tempo. Por ser controverso, abstenho-me de demasiadas referências ao tema da formação religiosa, preferindo destacar o acervo axiomático de princípios morais que pautam o dia a dia consuetudinário, quer a nível familiar próximo quer alargado ou societário, e ainda a atitude colaborante nas comunidades de inserção e não só, onde não faltam exemplos de engajamento e dedicação em prol de causas de alto sentido de nobreza. Era uma manhã fresca de Setembro outonal ainda com odores estivais. As tulhas, palheiros e várzea encontravam-se repletos das colheitas sazonais, em cuja consecução os meus catorze invernos reclamavam desempenho e cobraram a respectiva quota-parte de intervenção. O cheiro e fragrância dos bastardos e moscatéis já acicatava o apetite. Tendo por bagagem uma bolsa de tecido branco, exibindo em face bem visível o número 757, abastecida com merenda para dois dias, encetei uma longa e até à data inusitada viagem. Meu destino: a cidade dos Templários. A roupa que trajava, composta por fato, gravata e boina pretas; botas (a sapatos, mesmo de segundo uso, só tive direito no segundo ano) também de cor preta, já precocemente me convertiam em seminarista, fazendo emergir na minha mente a imagem empossada de outros colegas que me precederam. Da casa até ao largo da capela (da Senhora dos Remédios), onde deveria tomar o autocarro da carreira, assim designado por fazer o serviço regular de vaivém – ida de manhã, regresso à noite – de Vimioso a Duas Igrejas, estação terminal da preguiçosa e anciã via-férrea do Sabor, a mãe fez-me as últimas recomendações, já com anterioridade escutadas em conselho familiar, de aplicação nos estudos, de obediência e respeito aos superiores e ainda outras de cariz pragmático pela viagem iminente. A mala baú, contendo o enxoval preparado em escrupuloso apego às Normas de Admissão, já tinha sido expedida em data prudentemente calculada, para que chegasse ao seu destino em tempo

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oportuno. Já na central, enquanto aguardávamos permissão de embarque, a mãe deparou numa viajante a quem indagou para onde se deslocava. – Para o Porto, retorquiu. – Então encarrego-lhe o meu rapaz, que também para lá vai. Agradecia-lhe que olhasse por ele, porque é a primeira vez que viaja. A tendeira do Campo (de Víboras) anuiu. O distanciamento progressivo da casa paterna provocava em mim um efeito emancipante, produto dos meus já 14 anos. Não obstante, na transição de meio de transporte e tomada do comboio em Duas Igrejas, na mudança de composição e de linha, no Pocinho e ainda na busca de estalagem para pernoitar no Porto, quando já tarde, chegados à estação de São Bento, a ocasional tutora mostrou-se solícita e eficiente. A experiência empiricamente adquirida pelas viagens frequentes à fonte de acópio do meio citadino, onde se abastecia de bens de escassa oferta entre as fronteiras do seu meio actuante, actividade de que fazia seu ganhapão, convertiam-na em exímia conselheira para qualquer neófito que, tal como eu, se aventurasse numa primeira expedição. Um sem número de novas e inusitadas sensações se desencadeava na minha mente juvenil com o desenrolar do trajecto: a casuística originadora da viagem de cada passageiro que a atitude passiva de viajante conduzido induzia e evocava na minha imaginação; as altas torres de transporte de fluido eléctrico proveniente das barragens hidroeléctricas do Douro; as caldeiras aerotransportadas nas minas de ferro do Carvalhal, na proximidade de Moncorvo; as diferentes localidades e estações que paulatinamente iam revelando e dando forma ao nominalismo cantilenicamente decorado na instrução primária; as laranjeiras (nunca tinha visto a árvore: só a laranja na sua cor antonomásica) de onde pendiam os imaturos frutos ainda de cor verde; a azáfama e burburinho citadinos ao desembarcar numa urbe das proporções do Porto… quanto motivo para contar aos entes próximos quer por carta quer sobretudo pessoalmente no primeiro encontro! No dia seguinte, ao longo da manhã fomos arribando ao ponto designado de encontro, a estação de São Bento. A indumentária conferia-nos a iden-

tidade da nossa agregação. Porém era mister aguardar pela chegada de um comboio rápido, que fazia ligação com duas automotoras também elas ditas rápidas, uma da linha do Sabor e a outra da linha do Tua, procedentes de Duas Igrejas e de Bragança respectivamente. Alguns dos meus condiscípulos do nordeste transmontano, vizinhos de aldeias não servidas ainda por qualquer meio de mobilização mecânico, utilizaram esta variante de transporte, o que lhes extorquiu uma noite de vigília, deslocando-se sobre cavalgadura ou mesmo a pé, para embarcar nas referidas composições que, admitindo respeito à tabela, levantariam ferro às cinco horas da madrugada. É de notar que o rigor e apego aos horários tabelados beneficiava tão-só de uma ponderação relativa, sendo a laxitude e irresponsabilidade práticas de uso corrente, sempre absolvidas com alguma causa de força maior ou motivo fortuito. Exemplifica o dito a viagem de regresso no fim do ano lectivo. O comboio chegou com atraso à terminal de Bragança e a carreira que deveria fazer ligação de percurso já tinha abalado. Consequência: um grupo de colegas que deveríamos prosseguir neste meio, e posto que a disponibilidade financeira obedecia a cálculos de contenção, tivemos de pernoitar em banco de jardim, à espera do transporte regular do dia seguinte à mesma hora. A reivindicação de direitos era matéria que não fazia parte do nosso programa curricular! O recurso à escola da vida foi a melhor resposta que encontrei, quando infelizmente tive que enfrentar farisaicas e pervertidas mentes inescrupulosas e seus mesquinhos interesses sustentados numa lógica maquiavélica. Hoje estas duas vias e as respectivas estações, outrora geradoras de relativo desenvolvimento local, mas sobretudo factores de aproximação, encontram-se desactivadas por obsoletagem técnica e atiradas a um inadmissível abandono, em ignóbil desrespeito pelo património edificado, acentuando endémicas assimetrias regionais. Pelas quatro horas da tarde, após a chegada dos últimos colegas, sob a égide do Padre Firmino João, então Vice-Reitor da casa de Tomar, demos continuidade ao último segmento da viagem, em autocarro fretado, que nos conduziu ao destino, após

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dois dias de itinerário. Antes de prosseguir tive a nobre atitude de regressar à estalagem que ficava na proximidade, procurar a ocasional guia para lhe agradecer o seu auxílio. Ficou enternecida e, de regresso à sua aldeia, preocupou-se em conhecer a identidade dos meus pais, dando-lhes conta do dever cabalmente cumprido. O tempora, o mores! Não posso precisar a hora em que franqueámos a portaria do Claustro da Micha, dando ingresso na parte conventual disponibilizada para seminário menor da Sociedade. De facto uma fracção do notável monumento estava ocupada pelo exército, convertida em hospital militar e ainda outra, na qual a Charola e Castelo se inseriam, estavam abertas ao turismo, sob a tutela do Estado. Ainda me lembro de ver no referido claustro, aleatória e separadamente dispostas as nossas malas, de forma a poderem ser identificadas pelos respectivos titulares. Sem perca de tempo, reunidos num dos cantos do amplo recinto, e tendo por critério as proporções de estatura, fomos cindidos em dois agregados numericamente equivalentes: o dos pequenos, entregue aos cuidados do Padre Fernando Eiras – prefeito – coadjuvado pelo teólogo finalista Américo Oliveira Henriques – vice-prefeito – e um outro, o dos fisicamente mais avantajados no qual me incluía, cuja responsabilidade incumbia ao Padre Abílio Antunes Pereira em parceria com o teólogo também em fase terminal de curso José Nuno Castro e Silva, em idênticas atribuições respectivamente das do grupo anterior. Estavam criadas as duas prefeituras do primeiro curso.

2. Curso de 1961. Prefeitura do Pe. Abílio Antunes

Foi já nesta condição que, auxiliados pelos colegas do segundo ano, fomos conduzidos aos respectivos dormitórios, onde nos foram atribuídas as camas. Coube-me um grande salão de tecto abobadado, suportado por arcadas e colunas de pedra, iluminado por uma grande janela semicircular, com chão em tijoleira avermelhada já gasta, no qual tiveram lugar as longínquas cortes de Tomar. Um aluno de apelido Pisco ajudou-me na confecção da cama e instruiu-me na rotina e procedimento do arranjo dos leitos, administrando-me os ensinamentos da praxe: a frequência da mudança das fronhas e lençóis, o posicionamento e sequência destes em relação aos cobertores e colcha, etc. Dou fé de, após termos sido conduzidos ao descomunalmente enorme refeitório onde nos foi servida uma frugal e primeira refeição, ter compartido com ele o remanescente da minha merenda de viagem. No repasto seguinte essa partilha já não seria possível porque entre as duas prefeituras constitutivas do primeiro ano e a do segundo, entregue aos cuidados do Padre Carlos Fernandes e do propedeuta José Alves de Sá Fernandes, a comunicação era vedada, por exigência disciplinar. A separação da massa estudantil por prefeituras era condição basilar do modelo educativo institucional. O desenrolar da nossa vida quotidiana pressupunha a presença do binómio prefeito/ vice-prefeito ou pelo menos de um dos dois tutores: os recreios, sempre preenchidos com jogos colectivos, de acordo com a fruição rotativa dos

1. Curso de 1961. Prefeitura do Pe. Fernando Eiras

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pátios ao ar livre ou a coberto, nos quais geralmente eles também tomavam parte activa; os estudos em salão, as práticas de piedade na capela, as oito horas de descanso nocturno, dormindo na mesma camarata; as deslocações que se efectuavam em formatura dupla de ordenamento por estatura física, e que era periodicamente alterada porque esta ordem ditava o posicionamento sequencial no refeitório e na capela; os ensaios de canto, os passeios às quintas-feiras de tarde, a prática de banho de chuveiro, as idas aos sanitários no início dos recreios, todos os actos aconteciam sob a presença tutelar de um ou geralmente da dupla pedagoga. Eram poucos os factos que constituíam excepção, como as aulas, onde o professor titular da matéria assumia momentaneamente a função de responsável disciplinar. O afastamento do grupo, mesmo durante os recreios ou passeios, carecia de autorização específica e o regresso devia ser notificado. As Normas Disciplinares, livrinho contendo a súmula de preceitos orientadores ao ínfimo detalhe da vida seminarística, prescreviam que, mesmo em dia de passeio, nenhum aluno deveria distanciar-se do educador que seguia à frente, geralmente o viceprefeito, nem tão-pouco do que precedia a pequena grei na retaguarda. Ainda determinavam que uma petição negada por um superior não poderia ser requerida a outro, pressupunha-se hierarquicamente ascendente, sem que se desse conhecimento da hipotética negativa. O progresso comportamental era objecto de avaliação polifaceticamente mensurável. Três notas de comportamento, religioso, civil e disciplinar eram semanalmente lidas pelo prefeito, em sessão de leitura espiritual acontecida aos domingos, no final do dia, e extraordinariamente, quando (mau sinal!) o rigor correctivo se impunha, pelo vice-reitor ou mesmo pelo reitor. A comunidade de Tomar era constituída, para além dos já mencionados educadores, pelos Padres António João Valente, de grata memória, no exercício das funções de reitor, Firmino João, já referido, como vice-reitor, Adriano Garcês, na direcção espiritual, e Aquiles Augusto Rodrigues, também de saudosa lembrança, como ecónomo. Todos, à excepção do reitor e director espiritual assumiam, em alternância e aproveitamento sinérgico, funções

de docência, ditando diversas matérias curriculares às diferentes turmas em que, por razões de aspecto pedagógico, as prefeituras se subdividiam. Integravam ainda o colectivo comunitário os Irmãos Leigos, ao tempo designados por Irmãos Auxiliares, José Ribeiro, em funções de hortelão, e Alberto Luís da Silva, como despenseiro. A adaptação à monumental residência foi lenta e progressiva. Os imponentes e longos corredores onde se jogava estafeta em dias de chuva, os altos e amplos terraços nos quais até se recebiam práticas de educação física, as inumeráveis escadas de caracol que interligavam os diferentes pisos do monumento, os caprichosos talhados na pedra guarnecedora de portas, janelas, pilares, capitéis e nervuras estruturais, onde o mais emblemático era sem dúvida o ventanal da janela do capítulo, a magnificência da edificação no seu conjunto… tudo constituía exótica novidade na minha mente simples de provinciano. A moldagem educativa era manifestamente actuante, em forma progressiva e continuada, desde o primeiro dia. As normas preceituavam que “não era do espírito da Sociedade a aplicação de castigos, considerando-se como única punição a expulsão do seminário”. A correspondência epistolar, tanto expedida como recebida, era entregue aberta. Uma disfunção manifesta na vida seminarística e vocacional, uma acentuada deficiência de aproveitamento escolar, qualquer falha considerada grave, ressaltando de imediato à mente, não como a mais gravosa, porém como mais emblemática, a transgressão do silêncio rigoroso, durante o descanso nocturno, delimitado por nove badaladas da sineta, separadas três a três, desde o fim das orações da noite na capela, até ao fim da prédica de meditação, no fim das orações matinais, antes da missa… continham punitivamente associado o abandono coactivo do seminário. O ano lectivo estendia-se em programada rigidez de carga horária, com aulas, estudos em salão, práticas religiosas colectivas, como actos devocionais, missas rezadas e cantadas, meditação, homilias, conferências, leituras espirituais, recreios, refeições, retiros espirituais periódicos, ao lon-

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go de dez meses e meio. Este subdividia-se em três trimestres delimitados por dois hiatos na actividade docente, coincidentes com Natal e Páscoa, envolvendo leitura e envio para casa dos resultados de aproveitamento escolar, findos os quais auferíamos 45 dias de férias no seio familiar. Concluído o primeiro ano e gozado o período de férias, regressámos como era devido a Tomar. Porém não foi no monumental casarão que prossegui os estudos do segundo ano curricular. Recentemente havia sido adquirida a Quinta da Boa Nova, também conhecida por Quinta da Condessa, em Vilar do Paraíso, complementada por outra contígua e anexa, esta já na circunscrição de Valadares, onde futuramente viria a ser edificado o seminário da Boa Nova. Desde o ano lectivo de 1961-62 que um grupo de 25 alunos do segundo curso, originários do Douro e de Trás-os-Montes, ocupando parcialmente instalações já existentes acrescidas de uma edificação térrea subdividida em salão polivalente destinado a estudos e aulas e em camarata, integrando as respectivas dependências sanitárias e banheiras, ali frequentaram o segundo ano, fragmentando desta forma a respectiva prefeitura tradicionalmente em Tomar. Não obstante foi ainda na casa conventual da Ordem de Cristo que passámos os dias que mediaram o fim de férias domésticas e o início das aulas do período sucedâneo. Desta feita, de regresso à cidade templária, por escassas semanas, ainda compartimos tecto sob os auspícios do inolvidável agora Reitor Padre José Marques. Durante esse curto período, o par disciplinarmente responsável era constituído pelo novíssimo Padre Américo de Oliveira Henriques, que já fora meu exemplar vice-prefeito, em substituição do anteriormente referenciado José Nuno Castro e Silva, por troca de parceria na segunda metade do ano anterior, e pelo memorável finalista Manuel Lima. Dez anos mais tarde após o meu ingresso em Tomar, ao longo de um tirocínio estagiário de cinco anos em Moçambique, de 1970 a 1975, vim a encontrar em terras de missão, nas regiões de Nampula e de Lourenço Marques, actual Maputo, um vasto número destes educadores, compartindo com eles idênticas ou comuns tarefas e ombreando em comuns encargos. Menciono o Irmão Alberto

Luís da Silva que, à minha chegada a Nampula encontrei no incipiente Lar de Momola, parceirando e dando apoio ao Padre António Vieira e Irmão João Balau. Compartimos horas inesquecíveis quando posteriormente zarpou para apoiar o Padre Júlio Gamboa na missão de Mecutamala. Na mesma diocese de Nampula tive oportunidade de encontrar o já Padre José Nuno Castro e Silva, meu primeiro vice-prefeito, e de o substituir nas funções de docência na Escola Normal do Marrere. Deste estabelecimento partiu após a minha chegada em 1970, para coadjuvar o Padre Manuel Gomes, na missão de Meconta, tocando-me desta dita a gratificante tarefa de compartir responsabilidades com o prestigiado e saudoso Padre Alexandre Valente de Matos, à data director da mesma. O Padre Carlos Fernandes, meu insigne professor de Matemática, era nesta altura não menos notável Reitor do Seminário de Nampula. Também não esquecerei desta primeira equipa de formadores o já ordenado Padre José Alves de Sá Fernandes, destacadíssimo superior da Missão do Mutuali, meu anfitrião, nem o seu dedicado coadjutor Padre Manuel Lima, em cuja companhia visitei algumas escolas da região, quando ali me deslocava durante as férias escolares, em labores de pesquisa e investigação, na companhia do Padre Alexandre Valente de Matos: ele para a publicação, entre outras obras, do seu dicionário de “Português-Macua” e o signatário para a publicação da Colectânea “Ritmos Macuas”. Foi na primeira destas deslocações à Missão de Santa Teresinha que tive o ensejo de confraternizar por escassos dias com o Padre Manuel Fernandes que, após ter cedido as funções de Superior-Geral ao Padre Alfredo Alves e, após imperturbável regresso ao campo apostólico, se encontrava de despedida para ir iniciar a missão de Angola. Esta reverente e eminente figura impressionava-me agora pela sua simplicidade e jovialidade, quando lado a lado compartíamos refeições que o nosso anfitrião Padre José Alves e o seu braço direito, o diligentíssimo Irmão Joaquim Veloso, hospitaleiramente nos dispensavam. Recordo ter deixado constância desta minha impressão num relato que nessa data enviei para a revista Boa Nova. A missão do Mutuali, implantada em graciosa e fértil campina no sopé da Serra Cucuteia, era ba-

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nhada pelo rio Mapalume, engrossado por abundantes cascatas de água cristalina procedentes da serra. Diversos cultivos contribuíam para a sua independência e desafogo económicos, constituindo escola eficaz para as populações daquela zona geográfica. À semelhança de outras que percorri, graças à intervenção de egrégios apóstolos, era cenário de florescentes e paradigmáticas comunidades de promoção cristã e humana. A igreja da missão, edificada em lugar panorâmico, era testemunha de fervorosas e interactivas celebrações litúrgicas de culto divino, onde não se podia ficar insensível ao ouvir a vozes cheias trechos de alto valor artístico e catequético, tais como Muluku t’apatunshe atchu… As comunidades locais foram terreno fecundo para a minha recolha de temas musicais singelos, mas de alto conteúdo e rara beleza, como já referi. Estes temas coligidos, somados a vários outros, hauridos no seio de distintas comunidades dispersas na imensidão do território geográfico da nação macua, não só de presença da Sociedade, mas também de outras agremiações missionárias, desde o Alto Ligonha até à zona do Niassa, originaram uma publicação de texto e música, até à data única no seu género. A edição deste opúsculo ocorreu sob os auspícios dos Padres Valdemar Dias e Manuel Brito que me dispensaram alojamento na missão de Murrupula e me apetrecharam de invulgares e pouco comuns utensílios indispensáveis para o efeito: máquina de escrever e mimeógrafo. Após ter adquirido todos os materiais necessários, papel, tinta, matrizes, etc., de Land Rover carregado, aproveitando uma vinda do Padre Valdemar a Nampula, partimos para a missão a seu cargo. Ainda do corpo formador inicial não omitirei o Padre José Marques, meu reitor por breve, mas marcante espaço de tempo. Fui visitá-lo ao hospital civil de Nampula nos meus primeiros dias de permanência no Marrere, onde estoicamente convalescia na sequência de um acidente de viação, quando, deslocando-se ao porto de Nacala na companhia do Padre Manuel Ribeiro Cardoso, foram vítimas de colisão contra o comboio. A comunidade de Valadares, no ano lectivo de 1962/63 revestia-se de aspecto familiar por numericamente reduzida, contrastando com as prefeitu-

ras anteriores. O Padre André Marcos compartia eficientemente as funções de Reitor, de ecónomo, de director da exploração agrícola e pecuária e ainda de brilhante professor de matemática. Vim encontrá-lo, em abnegada acção apostólica, na diocese de Nampula, em equipa laboral com o Padre Alberto Fonseca Prata, na minha estadia de recolha, na missão do Iuluti, onde ainda caçámos juntos. Os Padres João Almendra e Aires do Nascimento exerciam funções de prefeito e vice-prefeito respectivamente. Pertencente à diocese do Porto, mas residente na casa de Vilar do Paraíso, o septuagenário Padre Alexandre de Carvalho, após anos de labor apostólica paroquial no Bonfim e missionária em Moçambique, brindava apoio na direcção espiritual e assistência religiosa, colaborando com esta equipa.

3. Turma de Valadares 1962

Findo o segundo ano, a escala lógica era a pitoresca vila de Cernache do Bonjardim, em pleno coração de paisagem beirã, onde os pinheiros e eucaliptos alternavam com os plantios minifundiários de olivais, laranjais e vinhedos. O entorno de matriz essencialmente rural propiciava a nossa estadia de três anos, dotando-a de sensato distanciamento do bulício urbano. Aqui, no outrora berço dos padres do Priorado do Crato, de missionários para o Oriente e de padres seculares para o Ultramar colonial, se cursava o terceiro, quarto e quinto anos, considerados os mais propícios à clivagem selectiva, quer por opção, quer sobretudo impositiva. O reagrupamento das duas fracções do terceiro curso procedentes de Tomar e de Valadares, sal-

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dou-se numa ainda numericamente expressiva prefeitura sob a égide do Padre Orlando Martins, prefeito, e do Teólogo António Costa, vice-prefeito, enquanto paralelamente, nesse mesmo período lectivo de 1963/64, os quartanistas e quintanistas eram liderados pelas duplas Padre José Maria Luís da Silva / finalista Valdemar Coutinho e Padre José Tomás Borges / finalista Manuel Alves de Sá Fernandes. O executivo da casa era constituído pelo Padre Dr. Manuel Augusto Trindade, de gratíssima memória, na reitoria, pelo Padre Manuel Castro Afonso, na vice-reitoria, e pelo Padre Aquiles Augusto Rodrigues, que Deus haja, na incumbência de ecónomo. As funções de director espiritual eram exercidas agora pelo inolvidável Padre António João Valente que no final do ano anterior transitara da reitoria de Tomar para assumir este novo cargo. O Irmão Leigo Adelino Tomé desempenhava com eficiência a tarefa de despenseiro. Este quadro directivo manteve-se, com ligeiras alterações, no decorrer dos dois anos escolares subsequentes, quarto e quinto, nos quais, com o acréscimo gradual da idade biológica, a equipa formanda ia numericamente minguando. Contamse entre estas variações a chegada do Padre Luís Filipe Tavares para guarnecer o corpo docente como distinto professor de latim. Era admirável o seu minucioso conhecimento de qualquer efeméride pessoal ou colectiva, noticiando os prelúdios da Sociedade. Alguns anos mais tarde, tendo regressado ao campo apostólico, reencontrei-o em Nampula, onde assistia espiritualmente os alunos do seminário. Era sempre o primeiro a felicitar qualquer confrade no seu dia de aniversário. Durante o nosso quarto ano de curso conduziam o quinto e terminal ano desta casa o Padre Sebastião João e teólogo Policarpo Lopes. Nas duas etapas académicas seguintes as equipas educadoras sucessivas foram constituídas pelo Padre Valdemar Coutinho em parceria com o ainda estudante finalista Artur de Matos Bastos e no ano imediato, o quinto, pelo Padre Viriato Augusto Matos coadjuvado, pela segunda vez em idênticas funções, pelo António da Silva Costa. Estávamos no ano curricular de 1965/66. Cinco anos mais tarde viria a encontrá-lo já clérigo em actividade

evangelizante, na missão de Corrane, na região de Nampula, ombreando com o Padre Manuel Martins Canas, onde era idolatrado por toda a juventude da circunscrição pela sua aficção e incremento à actividade futebolística. A primeira vez que me desloquei a Corranesburg (assim era designada a localidade pelo saudoso Padre Canas) fui em busca do meu dilectíssimo companheiro de responsabilidades Padre Alexandre de Matos, procedente da missão de Namaponda, região de António Enes, para o trazer de volta ao Marrere e coincidiu com um fim-desemana. Fui convidado a integrar uma das equipas desportivas litigantes, porém a camisola do equipamento disponível não fora confeccionada exactamente para a minha talha. Dado que o lugar que me incumbia era de defesa à baliza, a camisa de escuteiro que possuía até se enquadrou satisfatoriamente no conjunto, marcando a diferenciação funcional. O evento mereceu fotografia de circunstância, a mesma que ilustrou um artigo do Padre Costa na Revista Boa Nova, se a memória não me atraiçoa. A ocorrência já não seria exactamente notícia de última hora no momento da sua redacção e provavelmente o fotógrafo não estaria nos seus melhores dias nem munido do equipamento de maior eficiência ou da tecnologia de ponta. Daí resultou que o autor da resenha mencionou, não sei se exactamente com estas palavras, mas inequivocamente com este sentido: “…um militar que se encontrava de passagem reforçou ocasionalmente a nossa equipa…” Doutor e grande amigo António Costa, também é para si esta minha homenagem… mas nunca lhe perdoarei tal diatribe! Da expressiva turma original de 86 educandos, ainda reforçada com três elementos adventícios, o efeito depurador e clivático permitiu o ingresso no outrora beneditino convento do Couto de Cucujães, aglomerado populacional disperso, situado a 30 quilómetros ao Sul do Porto e a 5 de Oliveira de Azeméis, 16 postulantes ao curso de filosofia. Cucujães, até à data da abertura do recémconstruído Seminário da Boa Nova em Valadares, foi ao longo dos anos de vida societária a almamater institucional. Aqui residiam as mais destacadas individualidades, como Superior-Geral, Director Pedagógico, Ecónomo-Geral, Vogais ou As-

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sistentes. Aqui eram cursados os dois níveis terminais da formatura, filosofia e teologia, assim como o ano curricular que mediava entre ambos, o que reivindicava um corpo docente mais alargado, multidisciplinar e porventura mais erudito. Era ainda no Couto de Cucujães que residia a comunidade de aspirantes a Irmãos Leigos, até quando, em 1964, foi ocupar as instalações de Valadares, e também a denominada Escola Tipográfica das Missões. Por toda esta convergência de motivos, o colectivo formador, mesmo com um optimizado aproveitamento de sinergias, deveria ser numericamente expressivo. Daí que venerandas e insignes figuras como a dos digníssimos Padres Manuel Fernandes e Alfredo Alves, Domingos Vaz, Francisco Sequeira, Manuel Moreira Campos, António Soares, Januário Aniceto, Irmãos José Pacheco, Manuel Silveira Nunes, Venâncio Silveira Azevedo e Fernando Moreira…, figuras na sua quase totalidade já de grata memória, ficarão para a posteridade indelevelmente vinculadas à história de Cucujães. O ingresso no sexto ano curricular revestia-se ainda de outro conteúdo do ponto de vista educativo. A aproximação e incursão na faixa etária de maioridade era facto potenciador de alguma superação traduzida em termos de menor vigilância e omnipresença tutelar, que iam cedendo lugar a hesitantes manifestações de auto-afirmação. A estrutura disciplinar dos três anos de filosofia era de uma só prefeitura, o que de per si também induzia alguma permeabilidade a subtis e titubeantes ideias de abertura a mais largos e progressistas horizontes. Com efeito a opção pelo preenchimento do tempo livre de carga horária curricular com afazeres de cariz lúdico, desportivo, recreativo, artístico ou mesmo utilitário, e também a participação em actividades associativas conjuntas com a comunidade local, como escutismo, celebrações e festas missionárias e paroquiais, e ainda a menor rigidez na assistência a determinados actos que até então aconteciam sempre sob o marco colectivo, assim como o olvido progressivo das anacrónicas Normas Disciplinares… eram outras tantas manifestações de nova e progressiva etapa evolutiva, porventura a mais relevante após o ingresso no primeiro ano. A estas manifestações não ficava incólume o até então proscrito e agora tolerado acesso

a leituras extracurriculares que por serem consideradas profanas assumiam agora efeito liberalizante. A habitual indumentária passava a incorporar batina e chapéu, sendo este de uso obrigatório em dias de passeio e cerimónia. Porém tais prescrições, por contarem com a repulsa de utentes e condescendência com esta por parte dos superiores menos ortodoxos, caíram em desuso nos primeiros meses do nosso curso.

4. Agrupamento de Escuteiros. Cucujães 1968-69

A condução da turma foi assegurada nos dois primeiros anos pelo Padre Manuel da Silva Costa, que três anos mais tarde viria a encontrar como pároco da Catedral de Nampula, a quem emprestei modesta colaboração, e pelo teólogo Adelino Simões, já em condição de ordenado no segundo ano, e pelo Padre António Valente Pereira, sem viceprefeito, no ano imediato. Em comunidade paralela coexistia o curso de teologia ao qual se ascendia após um nono ano de reclusão celular absoluta designado probandato ou noviciado, findo o qual tinha lugar o juramento temporário de adesão à Sociedade pelo período de três anos. Era em Cucujães que, em dependências fisicamente segregadas do mesmo edifício, decorria este ano de introspecção e meditação, sob a regência de um Director. Durante o triénio filosófico os moldes de prefeitura ainda prevaleceram e com eles o estudo em salão e descanso nocturno em camarata, apesar de que os períodos de recreios já decorriam com relativa flexibilidade opcional. No último ano no entanto a prefeitura passou a ocupar os quartos deixados vagos pelos teólogos que então transitaram para ocupar o novíssimo Seminário da Boa Nova em Valadares.

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A reitoria de Cucujães incumbiu ao Padre Manuel Marques Gonçalves durante os dois anos iniciais e logo a seguir, no terceiro, ao Padre Dr. Manuel Augusto Trindade, enquanto as funções de Vice-Reitor foram asseguradas pelo Padre José Tomás Borges no primeiro e pelo Padre Francisco Santos no segundo. O Padre Joaquim da Silva Pinto compartia funções de ecónomo da casa com as de professor de Música. Os Padres Dr. Agostinho Rodrigues e Artur Bastos integraram também o corpo docente nos anos da nossa permanência em Cucujães. Pela sua singularidade merece ainda a nossa especial referência o Dr. Pinho Rocha, médico de clínica geral, com consultório em Oliveira de Azeméis, e membro honorário da Sociedade Missionária. Em dia determinado ditava aulas de práticas médicas elementares, tendo mesmo para o efeito redigido uma escolástica Sebenta duplicada a mimeógrafo, atestada de conselhos de conteúdo pragmático sobre a matéria. No ano lectivo de 1968/69 o primeiro ano curricular deixou de desenrolar-se em Tomar para vir instalar-se nesta secular casa do Couto, ocupando os espaços da filosofia que, tal como ficou dito, passou a fruir as dependências incluindo quartos deixados vagos com a transição dos teólogos para Valadares. Conformava duas prefeituras entregues à égide dos Padres Francisco Mendes e Libério Sousa Pereira em parceria com os Padres Sebastião João e Luís Vieira de Sá. O cargo ministerial de Vice-Reitor seguiu na posse do experiente Padre Firmino João, mas sem efeitos disciplinares sobre o curso de Filosofia. Por efeito da adopção do novo método de ensino em colagem ao ensino oficial, a via do ensino à distância ou telescola requeria agora cada vez menos a intervenção de um corpo docente pletórico, sendo as aulas substituídas pelo serviço de monitoria. O apego ao ensino oficial dos liceus já vinha acontecendo desde o ano lectivo de 1962/63, sob o sistema de matrícula e prestação de provas de exame em estabelecimento oficial, sendo desta forma que os alunos do segundo ano, em data de testes finais, se deslocavam de Tomar para Cernache do Bonjardim, prestar provas no Instituto Vaz Serra; contudo as práticas educativas mantinham-se nos mesmos moldes de aulas, sendo que agora em concordância com o ensino oficial.

A chegada do nosso curso a Cucujães aconteceu com a concomitância de alguns factos dignos de alusão pela alteração do desenrolar rotineiro e regular ao longo de anos. Foi intermitentemente suspenso o ano de probandato e com ele a libertação das dependências físicas onde desde a sua génese teve lugar, a denominada casa de Santa Teresinha, dotada com todas as condições de ascético isolamento como convinha ao eremítico ano de segregação física que precedia a primeira adesão juramentada à Sociedade. Tal espaço foi o berço potenciador de uma primeira tentativa de incorporar membros femininos no corpo societário. A permanência desta recente comunidade em Cucujães teve a duração de dois anos. Transitou para Valadares aquando da abertura desta nova casa que albergava agora os teólogos, cujas aulas passaram a ter lugar não no âmbito da própria colectividade, mas no Porto, de forma conjunta com outras comunidades congéneres. Valadares acolhia desta feita os alunos do curso de teologia, Irmãos Leigos e outrossim as Auxiliares. O probandato, agora designado Ano de Formação, retomava agora no legendário Convento de Cristo de Tomar, com turma integrada por dois anos de curso, no ano curricular de 1967/68, sob a direcção do Padre Manuel Castro Afonso, após um agiornamento no seio de uma comunidade religiosa em terras do Minho, e na monumental casa permaneceu por quatro anos consecutivos. Foi neste quadro que em Setembro de 1969 regressámos a Tomar para mais um ano de carreira, conformando um plantel de oito formandos, integrado também por dois cursos sucessivos: o de 1961, agora reduzido à expressão de sete elementos, dos quais cinco correspondiam ao plantel original e dois adventícios; o curso de 1962 contava tão-só com um aluno da turma inicial; um segundo elemento constitutivo do grupo provinha do ano anterior. A comunidade de Tomar incorporava, para além dos supramencionados formandos, o Padre Manuel Castro Afonso, na direcção do curso e na condução comunitária, o Padre João Craveiro Viegas, ex-Superior-Geral, os Irmãos José Ribeiro, João Gonçalves e Macário Oliveira Guedes e ainda o Padre António João Valente, que ali residia

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sem ingerência na vida colectiva. Reencontrei-o duas décadas mais tarde, não em terras de missão, cuja nomeação declinou, custando-lhe, à diferença de outros em similares circunstâncias, pesada e estóica marginalização. Visitei-o nos hospitais de Bragança e Leiria, a escassos dias antes do seu falecimento. Dele conservo grata recordação. O ano de noviciado foi um período de relativa reclusão e introspecção entregue a programáticas actividades formativas e com escassa, ainda que regular, colaboração na paróquia local da cidade. Estudos lectivos de Sagrada Escritura e de Espiritualidade preenchiam escassas horas de carga curricular que mediavam os tempos de leitura, de práticas religiosas, de trabalhos utilitários, espaços recreativos e período de descanso nocturno. Pelo terceiro quartel do ano, os ventos de renovação prenunciaram o submetimento de todos os formandos a inusitados testes de psicologia aplicada levados a cabo por psicólogos do I.S.P.A. (Instituto Superior de Psicologia Aplicada de Lisboa), ao longo de duas sessões, a primeira das quais teve lugar no âmbito doméstico e a segunda decorreu com a nossa deslocação a Lisboa, e cada uma das quais originou um relatório. Da interpretação dos enunciados emanou um despropositado epílogo concludente da nossa falta de idoneidade para a carreira postulada! (O efeito selectivo sobre o plantel original já era na altura da ordem dos 96,51 %!). Recordo que, após ter sido convidado a abandonar o seminário, chegando a ter data assinalada para o efeito, por iniciativa própria escrevi para um dos responsáveis pelos testes efectuados, manifestando-lhe as minhas dúvidas sobre a fundamentação da pretensa conclusão nos relatórios dos testes. A resposta foi expedita, e a minha petição mereceu a oferta de uma entrevista em Lisboa, em dia definido. Perante algumas hesitações e tentativas de dissuasão, o consentimento da minha deslocação a Lisboa acabou por ser concedido. A permeabilidade a bafejantes ares de renovação, a não resignação em aceitar um desfecho de cuja sustentação estava pouco seguro e ainda a coerência de propósitos em que acreditei permitiram que, em companhia de mais quatro condiscípulos, concluísse o ano de formação e que a minha proposta para levar a cabo um tirocínio em terras de

missão fosse consentida. O estágio aconteceu durante cinco anos em terras de Moçambique, como professor e director numa Escola de Professores de Posto Escolar, na região de Nampula, cujo Superior Regional era ao tempo o afável e inesquecível Padre José Mendes Patrício, e posteriormente, como professor e responsável pedagógico no Liceu 5 de Outubro em Lourenço Marques, desde Setembro de 1970 até Dezembro de 1975.

5. Ano de Formação 1969-70

A Escola Normal do Marrere, lugar situado a 7 quilómetros da cidade de Nampula, inseria-se num idealizado pólo educacional mandado edificar pelo bispo de Nampula, Dom Manuel Guerreiro, sendo integrado por edifício para seminário, com ampla igreja localizada na parte central, escola de artes e ofícios, escola normal de professores de posto escolar masculina (nas imediações de Nampula havia outra congénere feminina), escola primária anexa para práticas de didáctica, casa de retiros e missão. Era rodeado de vastos terrenos para cultivo e pomares de atas, anonas, citrinos, mangueiras e cajueiros. A implantação dos edifícios articulavase em traçado geométrico, com artérias de circulação embelezadas com acácias rubras e amarelas. O funcionamento e gestão de um tal complexo pressupunha a intervenção de recursos humanos, de profissionais idóneos e estáveis, condição que nunca teve lugar em forma conveniente e adequada pela via da administração directa diocesana. A missão, a escola normal e escola anexa no entanto sempre funcionaram com relativa regularidade, mesmo antes de a Diocese entregar a gestão das

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experiência adquirida sobre a matéria enquanto enfermeiro encarregado em Cucujães, mas sobretudo conhecimentos de sentido comum e o desejo de ser prestável tinham a sua melhor aplicação nos tempos livres que mediavam as aulas.

6. Vista aérea do complexo do Marrere

mesmas à Sociedade, destacando-se na primeira os laboriosos cuidados do Padre Agostinho de Sousa, até à sua nomeação para vigário diocesano, coadjuvado pelo incansável Irmão António Maria Marçal, e na segunda a oportuna e profissional intervenção do Padre Alexandre Valente de Matos, de quem o signatário veio a ser despretensioso colaborador e substituto interino, com nomeação publicada no Boletim Oficial.

8. Missão do Mutuali. Pe. José Alves rodeado por alunos internos, Irmãs e Professores, com o Autor. 1971.

7. Visita das Autoridades Escolares Provinciais à Escola Normal do Marrere. 1971.

O escola de artes e ofícios encontrava-se desactivada, dispensando parcialmente as suas instalações para centro de promoção da mulher africana, responsabilidade esta que também acabou por ser entregue aos cuidados das Auxiliares da Boa Nova; a casa de retiros foi convertida em dormitório dos alunos internos da escola normal; quanto ao seminário foi transformado em casa de saúde e entregue à responsabilidade das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Era aqui, na assistência ao ambulatório, que os ensinamentos recebidos do Dr. Pinho Rocha e alguma (pouca)

Considero que foram cinco anos de inolvidável experiência ao serviço de uma indiscutivelmente nobre causa, durante os quais as responsabilidades profissionais se coligavam em fusão simbiótica com actividades complementares tais como: conduzir uma velha ambulância, assistir a enfermos e a parturientes em situações emergentes, retelhar e reparar o edifício e dependências escolares, transformação de um espaço em salão de festas, construção de garagem para preservação das viaturas, fomento de práticas de agropecuária entre os alunos normalistas nativos, complementar a educação estudantil com o fomento da música e teatro, criação de dois conjuntos musicais e de um rancho folclórico de pauliteiros, integração do grupo musical e instrumental na catedral de Nampula, recolha, compilação, tratamento e publicação de músicas autóctones macuas susceptíveis de aplicação em celebrações litúrgicas e culturais, registo e edição das mesmas em fita magnética e maquetização dos trechos musicados da “Missa Macua” para disco de vinil, acompanhamento dos professores recém-formados nas suas escolas de inserção, criação e chefia de um agrupamento de escuteiros, dinamização litúrgica na catedral de Lourenço Marques / Maputo, participação em campanhas de esclarecimento em período de transição e emancipação política… A ociosidade não foi moeda de uso corrente, sendo

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certo que o elemento aglutinador da dinâmica diária era o denominador comum do sentido altruísta evangélico. A abertura de novas faculdades inexistentes durante a época colonial na Universidade de Lourenço Marques potenciou o prosseguimento da minha formação académica em terras de Moçambique colonial e emancipado, em paralelo com os estudos de teologia no Seminário de S. Pio X, enquanto este funcionou, sob a égide dos padres Sacramentinos, e até ao meu regresso à metrópole, no Portugal pós-25 de Abril. Uma fugaz tentativa para prosseguir estudos no Portugal coetâneo, submerso em crise de identidade, esvaiu-se perante a oportunidade de solicitações e reconhecimento de equivalência de habilitações literárias na Sorbona, em Paris. Aprouve ao destino que o meu afastamento não terminasse com os anos de estadia em terras gálicas, mas devesse ser acrescido de mais de uma década de permanência no novo mundo, desenraizado do rincão provinciano e do solo pátrio. As imperativas obrigações de desempenho profissional em domínios onde a formação humanístico-literária não constituía resposta suficiente reclamaram um novo desafio e a incursão por novas áreas de capacitação em campo eminentemente técnico, em engenharia de automação, sendo que, nesta altura, o repto de uma nova formatura já era onerado com responsabilidades familiares. Já convertido em cidadão da aldeia global, após longa diáspora de vinte anos, cúmplices de ambivalentes sequelas, tanto categóricas como menos edificantes, o regresso semi-forçado ao país constituiu uma nova incitação. A mais árdua peleja até à data travada, com novas e pouco agradáveis experiências à mistura foi um gravoso preço para uma vindoura etapa de superação. … Foi na atitude frente a cruentas adversidades, no apetrechamento de valiosos hábitos de trabalho, de gestão e ocupação do tempo, na metodologia para gerir e enfrentar a problemática existencial, no discernimento para não optar por meios que apetecidos fins nunca poderão legitimar… que o acervo de recursos adquiridos mais se evidenciou fazendo a diferença. No rescaldo da praxe pessoal,

no desempenho profissional, da condução familiar e ainda nos desafios e reveses que cada nova etapa a vida colectou, os anos de vínculo a um organismo que qualifiquei de educacional e a acção operante de uma vasta e ínclita estirpe de educadores, não obstante as manifestas limitações, constituíram e continuam traçando a cada passo sendas de conduta. É para eles esta minha modesta homenagem. Lisboa, Janeiro de 2005 José Abílio R. Quina
Quinta das Açucenas Rua dos Meosporos Vale de Nogueira 1685-539 Caneças Tel. 219 810 035 / 938 248 282

47. GRATIDÃO À SOCIEDADE MISSIONÁRIA Avalio a experiência de permanência, durante 7 anos, nos seminários da Sociedade Missionária, como muito enriquecedora. Teve um papel decisivo no rumo e estilo de vida por que optei, que se tem revelado bastante gratificante. Por isso, estou grato à Sociedade Misssionária. Na vida de seminário, tudo estava devidamente estruturado, sendo claras as regras e as normas por que cada um se deveria reger no seu dia a dia, preenchido sistematicamente por actividades que todos deveriam cumprir. Mesmo os fins de semana, férias, intervalos e recreios eram devidamente enquadrados por um programa de actividades e desafios a respeitar por todos. A ocupação do tempo, sem cedências ao facilitismo, e a aprendizagem da superação de todos os obstáculos moldaram o carácter e estruturaram a personalidade para ir tão longe quanto o permitissem as capacidades de cada um. Recordo-me, a propósito, que, com apenas três meses de seminário, fui capaz de vencer o desafio

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de ajudar à missa celebrada num dos altares laterais da Charola de Tomar. Devo, pois, a esta experiência de vida, além de um grande enriquecimento pessoal, a criação de condições para o acesso e concretização da minha formação académica e posterior percurso profissional. Por isso, estou grato à Sociedade Missionária. Entrei, em 1961, no seminário de Tomar e, em 1968, abandonei o seminário de Cucujães, após terminar o então 7.° ano. Já decorreram, portanto, bastantes anos, o que permite uma avaliação distanciada e despreconceituosa deste período. Esta avaliação terá de ser feita à luz das circunstâncias da época. Algumas das regras que hoje nos parecem injustificadas adquirem razoabilidade e sentido, se forem perspectivadas de acordo com as mundividências da altura. Caso contrário, algumas facetas da vida de então poderão ser vistas de forma algo amarga e eventualmente traumatizante. Dentro desta visão, e consciente também que o decurso do tempo tende a relativizar as dificuldades pessoais e a favorecer uma leitura mais optimista da realidade, parece-me que esta longa experiência foi globalmente positiva e recheada de momentos felizes. Por isso, estou grato à Sociedade Missionária. Recordo com emoção a viagem de Resende para Tomar, que me levaria ao Convento de Cristo e que decorreu sob a responsabilidade de um militar conhecido que prestava serviço nesta cidade. Fui acolhido de forma carinhosa pelo meu primo e saudoso Ir. Ribeiro, que sempre me apoiou e acompanhou, dentro dos condicionalismos da época, ao longo do 1.° ano. Relembro com saudade também o 2.° ano, formado por cerca de vinte elementos, originários do Norte, passado e vivido num ambiente verdadeiramente familiar na recém-adquirida quinta da Boa Nova, em Valadares, em que tivemos apenas três professores. A seguir, vieram os tempos das interrogações e da irrequietude da adolescência e da juventude, condimentados com momentos marcantes e felizes, como os torneios desportivos, a visita de missionários, as comemorações dos dias festivos, as romagens semanais à gruta, a distribuição de prendas no Natal, a leitura do “Missionário Católico” e da “Cruzada Missionária”, para não falar dos dias em que chegava uma carta.

Por isso, estou grato à Sociedade Missionária. Saúdo todos os irmãos e padres que comigo se cruzaram e foram responsáveis pelo meu percurso educativo de sete anos. Realço a dedicação, o entusiasmo e sentido de responsabilidade que norteavam as suas funções. Alguns marcaram-me, de forma especial, pela humanidade que os vi imprimir às suas vidas e às vidas que se iam cruzando com eles. Por tudo isto, estou grato à Sociedade Missionária. Marinho da Silva Borges
Rua 1.º de Maio, 171 – 1.º Dto. Fala 3040-181 Coimbra Tel. 239 814 023 / 966 365 778

48. DO CANADÁ, COM SAUDADE E GRATIDÃO Como passa rápida a Primavera da vida! Recordo ainda com emoção aquele ano distante de 1963, em que dei entrada no vetusto e histórico seminário do Convento de Cristo em Tomar. Foram os primeiros anos que serviram de base e alicerce para a formação moral e religiosa que ao longo dos anos têm marcado a minha existência. Cernache do Bonjardim e Valadares contribuíram significativamente para o amadurecimento da minha personalidade e da minha realização como homem e sobretudo como cristão. Em 1971, quis o destino que outro rumo tomasse a minha vocação e a saída seminário não foi decisão fácil. No entanto, os conselhos, as advertências e toda a formação adquirida ao longo de oito anos, não foram em vão, constituindo elementos preciosos em tudo o que hoje sou. Foi no seminário que vim a encontrar o modelo da minha educação e formação cristã. Há 24 anos longe da Pátria que me viu nascer, o Canadá como país de acolhimento, tem recebido

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o meu modesto contributo numa acção missionária de leigo comprometido, como membro activo no apostolado da catequese e no Conselho Pastoral, ao serviço da comunidade local da Paróquia da Imaculada Conceição de Winnipeg. Antes de terminar este meu breve testemunho, uma especial saudação e os meus parabéns ao Pe. António Couto, meu colega de curso de Filosofia no Seminário de Valadares, pela sua nomeação para Membro da Congregação para a Evangelização dos povos. Votos de fecundo apostolado. À Sociedade Missionária da Boa Nova, parabéns e felicidades pelos seus 75 anos de evangelização e o meu sincero preito de estima e gratidão. Bem haja! 28/10/2004 Armindo de Jesus Santos
1015 Spruce St. Winnipeg, Manitoba R3G 3A1 CANADA

49. MEMÓRIAS… EM FORMATO SUSHI! Esclareça-se de entrada que não gosto de memórias. Não gosto de memórias e incompreensivelmente estou carregado delas. Cruéis mas sadias, catárticas, purificadoras deste presente assente em alicerces seguros. Sou um pintor que no meu arquivo de filmes a preto e branco, retoca e refaz, com deleite, películas coloridas. Da minha ida para o seminário lembro-me como se fosse hoje... também com retoques ligeiros e lúcidos de amarelo e de paixão! Foi em 1967, então com onze anos cumpridos pelos caminhos da aldeia, pelo morno da cozinha e do colo da minha mãe. Acordei cedo que o dia era longo e Tomar era o destino. Não cheguei bem a acordar porque aquela noite não fora bem minha. Foi nossa, dos nossos lá da casa, do alfobre onde medrei feliz! A mãe há muito me fizera crer no bem e no bom da medida e assim, entre as missas de domingo e as novenas a

todos os santos me foi determinada a vocação. Coisa boa, graças a Deus! Ganhou-se este ruminante de existências e perdeu-se o melhor alfaiate lá da minha terra. Mas enfim! Tinha de ser! Caminhos do Senhor não são para discutir e toca a andar! O camião chegou cedo, pelas 5 horas da manhã. Não me apanhou desprevenido! Pois sim, onde eu já estava... Se a noite foi de remexidas na alma, a manhã foi de êxtase quase divino. Como diria o poeta – cumpria-se o seminarista. Ganhavam significado os três meses de preparação ansiosa. Há um momento, dos mais claros do início desta manhã que nunca deixei ser submersa: a chegada da carta. Ah! abençoada carta! Coisa bonita, papel timbrado, letra de forma... Entre coisas diversas e menores como a informação que o rapaz sempre havia sido aceite, seguiase a informação de substância – teria o número 534 a bordar em todas as peças de roupa, e seguia-se a lista bendita. Que maravilha! Abençoado seja o Senhor! Estava traçado o caminho da sabedoria e enunciavam-se as Suas ferramentas! O camião parou e rápida pela porta dos fundos da adega a mala saltou diligente para a carroçaria. Serviço ligeiro que aquela fornada do Senhor era composta por mais duas promessas: o Manuel e Jorge ambos meus primos e ambos também perdidos nesta seara de vocações. A monda foi vasta e entre algumas ervas daninhas também se arrancaram pés de boa cepa. A culpa, Senhor, às vezes também era dos obreiros, perdoa-lhes que não eram dos melhores, não!... Resisto neste caminho de encontro aos obreiros (foge-me a mão para a chibata) e volto à minha manhã. O camião seguiu com a mala grande. Era uma mala enorme, de madeira, revestida de chapa pintada às florzinhas vermelhas, protegidas por aros de madeira. Foi durante muitos anos o meu tesouro, a minha arca da aliança. Por ela comuniquei com o meu irmão durante um ano, que seminarista também, a fazer teologia em Tomar, estava proibido de falar comigo. Quem é capaz de me explicar ainda hoje que dois irmãos a habitar a mesma casa, ambos nos trilhos certinhos do Senhor, que se viam diariamente, tivessem de, pela calada da noite, deixar recados e rebuçados com que se alimenta a alma, para continuarem a dar-se como irmãos?! Quem determinou aquelas pedagogias educativas?! Quem,

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Parte IV – O Testemunho dos Armistas

de esclarecido à moda italiana, atirou por terra tanto de paixão, de vontade de servir, de amor seguro e certo no caminho do bem?! Quem rasgou tantos lençóis de linho como diria Camilo Pessanha!? Voltemos à minha mala que dos obreiros sombrios o Senhor se encarregará de tratar!... A minha mala continha o meu tesouro, o meu mundo, a minha vida... Continha também umas sapatilhas novas. As minhas primeiras sapatilhas! Fora pela sua pertença que lutara anos a fio em manhãs de geada a caminho das missas diárias da minha infância. Nunca percebi porque se levantava um mortal para assistir a uma missa às 6 horas da manhã, que o padre Cardoso rezava ainda em tom morno durante dez minutos, num latim algaraviado. Eram receita materna e não me fizeram mal, não fossem as lambadas do reverendo, em dias não, quando a cama lhe tinha ficado a chamar pelo corpo e eu chegava atrasado para ajudar à missa... Embarcadas as malas, corremos a Nine no carro de praça lá da aldeia. No Porto um homem seco e grande, negro, muito negro, talvez pela batina(?), ordenava, de lista na mão, o rebanho do Senhor. “E com que então era Araújo, sim senhor, boa gente, boa cepa... Já lá havia no seminário um dos bons. Coisa fina!?” Pena que a mão da monda se tenha enganado... Das memórias da partida guardo a imagem do meu pai, parado no meio da estação de Campanhã no Porto, até onde me acompanhou. Quando o comboio partiu ele permaneceu longo tempo parado com o olhar no vazio da distância. Vi-lhe aquele olhar até chegar a Tomar. Ali o vi todo o dia, tenso e apreensivo, de chapéu na mão, especado no meio da estação como quem não percebeu bem o que acabara de fazer... Ah meu pai, meu herói de sempre, minha rocha, minha traineira de todos os mares..., como te vi frágil nesse dia, nessa decisão difícil que te fez fechar a oficina e guardar a tesoura na gaveta. É assim a vida, pai! Sou-te grato hoje pela decisão que tomaste. Devo-te tudo o que sou de matéria e de sonho!.. Foi longa a viagem de comboio. Muito longa! Foi um duro baptismo de santidade. A Tomar seguiu-se Cernache em 1968. Foram anos de aprendizagem e de vida. Foram anos de todas as luzes e de todas as noites. A subida da estação de Tomar ao Convento de

Cristo está aqui lúcida e bela. Foi o caminhar do seminarista, feliz, de bolhas nos pés, acompanhado do irmão. Era o primeiro delinear da “pedra bruta, arrancada à rocha”, como diria o Padre António Vieira. Pena que a mão do cinzel fosse imperfeita! Usando uma metáfora hoje na moda diria – deram muitas cotoveladas na incubadora... Por questões que nunca entendi, seguiu-se no ano seguinte Cucujães. Foi em 1969. Ano feio! Aí, a mão que monda botou-se firme à minha cepa. Não quero agora beber desse cálice! Deixem-me esquecer o seco director espiritual... A sua espiritualidade mandou-me embora no fim do segundo período, a dez dias do término das aulas, sem avaliações e sem futuro. O aviso chegou-me pela tarde: “Amanhã vais-te embora. Perdeste a vocação e toma lá este bilhete de regresso para o teu nada. A camioneta sai às 10 e no Porto procura comboio para casa”. Assim trabalhava a mão do mondador! Obrigado minha mãe pela força, pelo porto de abrigo, pela alma grande que me roubou à oficina do pai. Talvez no regresso tenha descoberto porque fui para o seminário! E ainda bem que o fiz. Como diz Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu / Mas nele é que espelhou o céu”! Por aqui me fico. Sei que do peixe só servi a cabeça e a posta do meio é que é boa. Mas hoje em dia o peixe também se serve à japonesa. Em formato sushi. Obrigado à Sociedade Missionária, a quem devo a maior experiência de vida. Parabéns pelos 75 anos. Isidro Gomes de Araújo
Casa do Romão – Carrazedo 4720-291 Amares Tel. 253 993 254 / 939 932 544

A ARM nos 75 anos da S M B N / Testemunho

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50. O MEU TESTEMUNHO Entrei para a SMBN em 1969, com 17 anos, e saí em 1972. Dos colegas que tive lembro-me do Santos Ponciano, do Ilídio, do Gabriel Conceição, do Botelho Pereira, do Parreira, do Quina, do Angelino, do Gamboa, do Moisés, do Peralta, do Reis... Dos professores recordo os Padres Sebastião, Francisco, Libério, Frazão, Viriato, Armindo Henriques, Alfredo Sá, Almendra, Januário, Artur... Estudei em Cucujães e em Cernache do Bonjardim. Embora a diferença de idade em relação à maioria dos meus colegas fosse um obstáculo, do ponto de vista psicológico, muito foi feito para que o problema fosse atenuado. Em Cucujães, tive direito a quarto individual e em Cernache do Bonjardim, partilhei a enfermaria com o Gabriel, o Botelho, o Peralta e outro, de quem não lembro o nome. Aliás, foi nessa enfermaria que me aconteceu algo de inexplicável, à luz dos conhecimentos humanos: estávamos a equipar-nos para jogar futebol; a minha sapatilha direita começou a dar-me problemas; perdi a calma, sacudi o pé com demasiada energia e aquela malvada sapatilha saiu disparada, contornou todos os obstáculos, desafiando todas as leis da física, para ter um encontro imediato do primeiro grau... com o vidro da janela!!! Não imaginam quanto me custou pedir o dinheiro ao meu pai para pagar a destruição! Ainda hoje não sei se a sapatilha era demasiado forte ou o vidro demasiado fraco!!! Sinto-me grato aos professores, aos colegas, a toda a SMBN pelo que vi, ouvi e aprendi, porque isso constituiu a base daquilo que, humana e espiritualmente, eu fui, sou e serei. Recordo ainda uma pequena frase de uma canção revolucionária, cantada em surdina, não fosse o diabo tecê-las, pelo Armindo Henriques: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar...” Trinta anos depois a mensagem continua actual... Tenho 53 anos, três filhos, um neto, e divorciei-me em Dezembro de 2004. Enfrento agora a difícil tarefa de recomeçar a viver a partir do zero,

tanto a nível económico como sentimental. Aprendi que nada na vida pode ser considerado um dado adquirido e que “Nunca é tarde para recomeçar!!!” José da Encarnação Arroteia
Rua de Santa Marta, 681 Souto de Baixo 2410-159 Santa Eufémia LRA

51. O MEU TESTEMUNHO Parabéns, SMBN, pelos teus 75 anos! Foste a minha casa, foste o meu pai, foste a minha mãe e agora posso chamar-te minha avó, minha velha e minha amiga. Sei que, numa tarde do Outono do ano de 1976, te encontrei nos claustros do convento de S. Martinho de Cucujães, e contigo vivi em Cernache do Bonjardim, de 1978 a 1981. Como sabias quanto eu gosto de história de Portugal, levaste-me para Tomar, de 1981 a 1982, e não descansaste enquanto não me mostraste a tua Casa de Valadares, de 1982 a1983.

Valadares, 11º ano (1982-1993).

Impuseste-me, amavelmente, que escrevesse algumas palavras sobre esta caminhada que contigo percorri. Quando te encontrei, não sabia como vivias, não sabia como pensavas, não sabia o que sentias, nem sabia como estavas: eras desconhecida para mim. Sei que há mais coisas no céu e na terra do que a

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minha mente pensa. Tu assim um dia mo disseste. Olho para ti, lembro-me da alegria que mantinhas e continuas a manter, pela energia indomável que fazes crescer no teu espírito dia após dia. Formaste o meu espírito e a minha mente, ensinaste-me a ser homem, a ser um cristão activo. Contigo aprendi a viver, a sentir, a pensar, a olhar para tudo aquilo que me rodeia. Contigo passei os anos mais difíceis e os mais alegres do meu crescimento e formação. Obrigado, foste sempre uma formadora presente. Que cada amanhecer seja o início de mais um dia feliz de crescimento, na paz e no amor de Deus, porque o futuro está no seio de Deus. Falo com o Criador, para que te dê alegria e força indomável de espírito. Porque depois da noite vem a manhã. Dionísio Manuel Ferreira Correia
Rua Ângelo da Fonseca Faria de Cima 3720-372 Vila de Cucujães Tel. 256 882 006

daram-me, ontem e hoje, a sempre respeitar os outros e a procurar lutar contra as injustiças. Por isso, meus amigos, procuro sempre pôr em prática esses valores no sentido de conseguir um mundo melhor. É preciso dar bons exemplos... O mundo precisa, mais do que nunca, das nossas boas acções e de rezar a DEUS para que encha os corações humanos de esperança e de amor entre todos, para que os mais velhos e as crianças possam ter uma futuro risonho. Por isso, meus amigos, gostaria, ainda hoje, de ser padre missionário para levar os verdadeiros valores da vida a quem deles precisa: a fé, a esperança e a caridade. Sabem porquê? Para que haja justiça, paz, amor e solidariedade no mundo. Valeu a pena ter sido seminarista. No ano em que celebra 75 anos de existência, parabéns à Sociedade Missionária e votos de que outros possam vir a sentir o mesmo. Bem-haja a todos. Fernando Capela
Rua da Cavada Velha, 92 4500-730 Nogueira da Regedoura Tel. 969 543 020

52. TESTEMUNHO DE UM EX-SEMINARISTA DO SEMINÁRIO DAS MISSÕES DE CERNACHE DO BONJARDIM Fui aluno da SMBN entre 1976 e 1977. Nesse tempo da minha vida, assistíamos a alguma instabilidade pelo começo da jovem democracia em Portugal, mas também era um sinal de esperança de que a sociedade em geral iria melhorar. Sobre a minha experiência como seminarista, apesar dos momentos difíceis que passei, pelas saudades de casa, dos meus pais e irmãos e dos meus amigos, foi para mim uma fase da vida muito enriquecedora. Só tenho que agradecer a todos os que ainda hoje são vivos e àqueles que já partiram, nomeadamente o Padre Basílio, meu director espiritual da altura, tudo o que de bom me fizeram. Os valores e os ensinamentos que recebi aju-

53. O MEU TESTEMUNHO Frequentei o Seminário de Cucujães (1978 a 1980), o de Cernache do Bonjardim (1980 a 1983) e o de Valadares (1983 a 1985). Há sempre um momento na vida em que se impõe um olhar para trás, até para compreender o presente. E o testemunho que irei dar implica que eu volte o meu olhar para um passado que se encontra presente no meu dia a dia. Com efeito, o que hoje sou, inclusive na minha forma de estar, de pensar e de olhar o mundo ao meu redor, deve-se muito a tudo aquilo que recebi no Seminário, desde Cucujães, passando por Cernarche do Bonjardim até Valadares.

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Cucujães foi o tempo da infância, da assunção de uma consciência mais séria da necessidade do estudo e do cumprimento dos deveres, bem como o tempo de uma maior abertura à dimensão espiritual da vida. Cernache foi o prolongar desse tempo até ao tempo das interrogações e das primeiras fissuras. Valadares foi o prolongar do tempo das interrogações, num contexto de uma maior abertura ao exterior. A avaliação que hoje faço dos anos que passei no Seminário é extremamente positiva. Nem tudo foi rosas, mas o certo é que não há rosas sem espinhos e a vida no seu dia a dia é a comprovação disso mesmo. Na realidade, foi nessa casa, e sem esquecer a casa paterna, que os valores se sedimentaram no interior do meu ser. Hoje em dia, olhando para trás, não posso esquecer o amor gratuito recebido de todos os padres/missionários, irmãos missionários e funcionários que deram e desgastaram a sua vida para que outros, como eu, pudessem ter vida e uma vida melhor. Não posso deixar de prestar a minha homenagem a todos eles. Não posso também esquecer os meus colegas, uma vez que ao longo de vários anos e numa etapa importante da nossa vida juntos rezámos, estudámos, trabalhámos, divertimo-nos e ajudámo-nos a crescer sem que, muitas vezes e por isso, tivéssemos dado conta. Paulo Fernando Dias da Silva
Rua da Igreja, 165 4505-571 Santa Maria de Pigeiros Tel. 256 911 287 / 967 725 409

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FUTURO

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Futuro

FUTURO
Sem memória não há perspectiva. A memória é que alicerça o futuro. A memória é que o perspectiva e lhe dá curso, cor e calor. Acontece assim a nível pessoal; acontece assim ao nível das associações. Um antigo aluno dos seminários da Sociedade Missionária, se o foi sem nuvem de sombra e de maneira consciente, integrada e assumida, mesmo que tenha seguido outra via não corta com as raízes, porque aquele tempo faz parte da sua história e nele sedimentou muito do que é ou veio a ser mais tarde. A sua pessoa ganhou alguma coisa durante aquele tempo e nesse ganho cresceu. Cresceu espiritual e moralmente, desenvolveu capacidades e potencialidades intelectuais, incorporou hábitos de trabalho, valores e saberes. Quando recorda esse tempo não o aliena nem se sente alienado, mas sente-o e vive-o integrado na sua história global, na sua evolução para a adultez, atribuindo-lhe o valor que merece. A memória que dele faz dá-lhe perspectiva do que veio ou virá a seguir, ilumina-lhe o futuro tornando-o mais claro, motiva-o a prosseguir. O mesmo acontece ao nível da nossa Associação. A ARM nasceu do impulso genuíno de reunir em redor da Sociedade Missionária os seus antigos alunos, “aumentando e estreitando os laços de amizade entre eles, com o fim de mutuamente se auxiliarem no campo social, missionário e cultural” 1. E foi o que procurou fazer ao longo de sessenta anos, com gerações sucessivas de armistas a dar o seu melhor, entusiasticamente e com denodo. A ARM também procurou auxiliar materialmente a Sociedade Missionária e os projectos dos nossos missionários. Fê-lo com recursos humildes, é verdade, mas com persistência e criatividade, com carinho e generosamente. Não se esquecendo dos seus associados mais carecidos ou em necessidade ocasional, pensou neles e, com as dificuldades próprias e evidentes neste campo, tentou esboçar alguma ajuda e solidariedade. Deus sabe com que angústia por quase nada poder fazer! Os armistas organizaram encontros a nível nacional e regional, trouxeram a eles as suas famíli1

Estatutos em vigor (de 1994), Art.º 3.º.

as, reviveram aí, com os condiscípulos, os tempos e episódios passados, às vezes na própria Casa onde tinham decorrido e ocorrido, conviveram, cresceram em amizade e na afinação e afirmação dos objectivos comuns, partilharam a fraternidade e os bens, recordaram os que já haviam partido… Os armistas fizeram história, às vezes de memória dolorosa mas predominantemente e sobretudo tecida de alegrias, de felicidade, de inquietação e consciência tranquila, de bondade, história que vale a pena recordar. Há memórias e pedaços dela nos olhos, no pensamento e no coração de cada um. Mas está espalhada, de tantas maneiras e esparsamente, pelo nosso Boletim, e agora fica reunida neste livro. Sim, o nosso Boletim, que é o elo de ligação entre todos, que a grande maioria aguarda ansiosamente e lê várias vezes e um ou outro talvez esqueça e não lhe ligue. O Boletim que procura levar a ideia e o projecto da ARM e despertar para eles a vontade e os corações dos armistas, de modo que cresçam e dêem frutos na vida de cada um. O Boletim que é sempre feito com tanto amor e espírito de serviço, às vezes também com suor e lágrimas. A ARM tem uma história longa e rica, uma história que é motivo de orgulho para todos nós, uma história que nos aponta com clareza o caminho e é promessa de futuro com esperança, porque nos esboça o seu desenho e entreabre a sua perspectiva. Esse futuro com esperança tem de ser construído, creio bem, sobre os seguintes cinco eixos: 1.º - Continuar a procurar e a reunir e unir à volta da Sociedade Missionária, no seio da ARM e de maneira activa, o maior número possível de antigos alunos, de modo que os nomes dos que participam verdadeiramente ultrapasse a percentagem actual de quase 20%. Como? Com persistência, com engenho, cada um descubra e traga mais outro. Individualmente e nas delegações. 2.º - Continuar a dar ao encontro nacional de dois dias um grande cunho de alegria e festa, com grande participação do maior número de armistas nos diversos serviços necessários, quer por delegação quer individualmente, cuidando sempre a novidade e a criatividade e aperfeiçoando o que tenha estado menos bem nos últimos anos e de encontro para encontro.

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As nove delegações devem ser consolidadas e o seu encontro local, mesmo que estrategicamente não se faça todos os anos, tem de ser assegurado porque é ocasião de dinamização e crescimento dos armistas locais. Alguns nunca se teriam encontrado se não fosse o encontro regional. 3.º - Em todo este processo e na sua economia, o Boletim é indispensável e importantíssimo. Ele faz a relação entre todos, quer formando quer informando. Deve ter a colaboração de muitos, o que não é fácil, e convém que cada vez mais nomeie os armistas pelos seus nomes – isso motiva e cria calor humano e empatia. A tipologia de textos deve ser variada. 4.º - A relação íntima com a Sociedade Missionária e com a realidade e os trabalhos no terreno de missão é essencial e uma das razões de ser da ARM. A nossa Associação nasceu para cooperar neste campo – com afecto e apreço pelo trabalho dos missionários e com ajuda financeira aos seus projectos. Estes são frutos que indiciam e perfumam a boa árvore que é a ARM. 5.º - Finalmente, e dadas as circunstâncias e a

evolução da ARM, é urgente e de esperar que os armistas sejam capazes de descer ao terreno de missão e trabalhar aí com os dons que receberam de Deus e desenvolveram com o seu estudo e desempenho na Sociedade e na Igreja. Esta é a dádiva maior e mais preciosa que é necessário os armistas serem capazes de oferecer. Por aqui passará, creio sinceramente, o futuro da ARM. Quem tem a história que este livro entremostra, quem possui este património não pode deixar-se anquilosar nem paralisar. Se este livro é homenagem e gratidão à Sociedade Missionária nos seus 75 anos, o compromisso com este futuro é gesto de apreço e vontade de comunhão na missão com os nossos irmãos missionários. E é também preito aos armistas que nos precederam, incluindo os que já vivem na eternidade. Devemos a todos – missionários e armistas – esta obrigação e esta fidelidade. João Rodrigues Gamboa

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Nota biográfica do Autor

Nascido na freguesia de Peraboa (Covilhã), em 5 de Abril de 1939, casado, com três filhos e quatro netos, JOÃO RODRIGUES GAMBOA é (desde 2000) professor aposentado, tendo orientado o estágio de formação de professores de Francês, no então Ensino Preparatório, de 1975 a 1980. Após o Ensino Primário na sua aldeia, entrou no Seminário de Tomar, da Sociedade Missionária Portuguesa, em 1950, na Classe Preparatória, tendo saído em Cucujães, no final do primeiro trimestre do sexto ano; fez o Curso Geral de Enfermagem e completou o Ensino Secundário em Coimbra e, após o serviço militar obrigatório (19611966), licenciou-se em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da mesma cidade. Na segunda metade da década de Setenta e nos anos Oitenta, retomou estudos musicais no Conservatório de Música de Aveiro e frequentou as Semanas Gregorianas, em Fátima; seguiu os cursos de Verão “Introdução à Criatividade Musical da Criança”, orientado pelo professor Pierre van Hauwe, no Porto e em Delft (Holanda), e “Música e Vida”, orientado pelo professor Bruno Bastin e outros, em Torres Vedras; frequentou vários cursos de direcção coral; e, dedicandose à Liturgia e ao canto litúrgico, começou a compor. Neste âmbito publicou, em 2000, o livro Cânticos para a Liturgia (296 paginas), que reeditou em 2003 (336 páginas), revisto, corrigido e aumentado com mais cerca de 55 novos cânticos. Sob o nome literário de Eugénio Beirão – homenagem a sua Mãe (Eugénia), ainda viva, e à Beira (-Baixa), onde nasceu –, publicou os seguintes livros de poesia (dois são também diários): Invocação de Deus (1994), esgotado; Diário Intermitente (1994), esgotado; Pétalas e Rubis (1995), esgotado; Rosa-dos-Tempos (1996), esgotado; Poemas Aveirenses (1997), esgotado; Na Luz das Palavras (1998); NovamenteDiário (1999); e Beira: Um Rosto Interior (1999), esgotado. Quando terminar tarefas associativas (na Direcção da ARM) em que tem estado empenhado desde 2002, tem intenção de publicar as seguintes duas obras: Os Dias Férteis (poesia) e Invenção para Dois Trombones e Outras Histórias (contos).

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Lume novo, lareira acesa na cidade, És Tu, Senhor, o clarão da tarde (...) Envia-nos, Senhor, e partiremos O pão Juntos nos caminhos da missão. Pe. António Couto

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Convento de Cristo, Tomar.

Seminário de Cernache do Bonjardim.

Seminário de Cucujães.

Seminário da Boa Nova, Valadares.

Seminário de S. Francisco Xavier, Fátima.

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A ARM nos 75 anos da S M B N

ÍNDICE
Flores que ainda darão fruto (Prefácio) ................................................................................... Introdução.................................................................................................................................. PARTE I – VIVER NAS FRONTEIRAS Migalhas de História dos Missionários da Boa Nova ......................................... INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 1. AS GRANDES FIGURAS DO ALICERCE ......................................................................... 1.1. D. António Barroso ................................................................................................... 1.2. D. João Evangelista de Lima Vidal ........................................................................... 1.3. D. Teotónio Vieira de Castro ..................................................................................... 1.4. Pio XI, o Papa das Missões ....................................................................................... 2. MOÇAMBIQUE – SEMEAR A FUTURA IGREJA ............................................................ 2.1. Diocese de Nampula ................................................................................................. 2.2. Em Cabo Delgado ..................................................................................................... 2.3. Evangelização do Sul do Save .................................................................................. 2.4. Resistência e martírio ................................................................................................ 3. EM BUSCA DA UNIVERSALIDADE – INCARNAÇÃO NOUTRAS CULTURAS ........ 3.1. Brasil – Evangelização e Formação de Comunidades .............................................. Minas Gerais – construir uma jovem Igreja ........................................................... Paraná e Mato Grosso do Sul ................................................................................. Maranhão – nos porões da humanidade ................................................................. Missionárias da Boa Nova ...................................................................................... 3.2. Angola – Testemunho na Guerra ............................................................................... Tempo de provação ................................................................................................. A experiência do martírio ....................................................................................... Nova estratégia pastoral.......................................................................................... Nova etapa pastoral ................................................................................................ Nova experiência pascal ......................................................................................... Nova experiência do martírio ................................................................................. Empenho pela Missão ............................................................................................. Lar Boa Nova em Viana ......................................................................................... Paróquia da Boa Nova – Viana ............................................................................... 3.3. Zâmbia – fora do espaço de língua portuguesa......................................................... 3.4. Japão – voltando ao Oriente ...................................................................................... 4. A SOCIEDADE E A ANIMAÇÃO MISSIONÁRIA EM PORTUGAL ............................... NOTAS ...................................................................................................................................... 5 9

11 13 13 13 14 14 15 16 17 18 20 22 23 24 24 25 26 27 28 29 31 32 32 33 34 34 35 35 36 41 41 42

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320 49 51 51 52 52 53 54 54 55 58 59 59 62 67 83 91 96 96 98 98 98 99 99 99 99 99 100 100 101 101 101 101 101 102 104 105 106

PARTE II – ARM: 60 ANOS DE VIDA ................................................................................. INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 1. AS ORIGENS (1944-1960) ................................................................................................... 2. A ARM SEGUNDO OS ESTATUTOS.................................................................................. 2.1. Os Estatutos de 1960 ................................................................................................. 2.2. Os Estatutos de 1964 ................................................................................................. 2.3. A crise de 1974-1975 e a paralisação até 1978 ......................................................... 2.4. Os Estatutos de 1981 ................................................................................................. 2.5. Os Estatutos de 1994 e a constituição legal da ARM; a celebração dos 50 anos e outras iniciativas ..................................................................................................... 2.6. Quadro-resumo dos Estatutos ................................................................................... ANEXO I – Cópia dos primeiros Estatutos (de 1960) .............................................................. ANEXO II – Cópia dos Estatutos actualmente em vigor (de 1994).......................................... 3. OS ÓRGÃOS SOCIAIS ........................................................................................................ 4. REUNIÕES ANUAIS DE CARÁCTER NACIONAL E ENCONTROS REGIONAIS ...... 5. O BOLETIM DA ARM ......................................................................................................... 6. O MISSIONÁRIO CATÓLICO E A BOA NOVA COMO ÓRGÃO INFORMATIVO DA ARM 7. AS DELEGAÇÕES ............................................................................................................... 7.1. Breve quadro panorâmico ......................................................................................... 7.2. As delegações de per si ............................................................................................. 7.2.1. Delegação de Barcelos.................................................................................. 7.2.2. Delegação de Bragança-Miranda.................................................................. 7.2.3. Delegação de Castelo Branco-Guarda .......................................................... 7.2.4. Delegação de Cernache do Bonjardim ......................................................... 7.2.5. Delegação de Coimbra.................................................................................. 7.2.6. Delegação de Cucujães ................................................................................. 7.2.7. Delegação de Lisboa..................................................................................... 7.2.8. Delegação de Tomar ..................................................................................... 7.2.9. Delegação do Norte (Porto) / Delegação de Valadares ................................. 7.2.10. Delegações do Ultramar ............................................................................. Delegação de Lourenço Marques ............................................................... Delegação de Luanda ................................................................................. 8. A ASSISTÊNCIA SOCIAL DA ARM AOS SEUS MEMBROS E A SOLIDARIEDADE COM OS MISSIONÁRIOS .......................................................... 8.1. A assistência social da ARM ......................................................