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Ficha Técnica

Título original: THE PROMISE Autor: Lesley Pearse Capa: Maria Manuel Lacerda Imagem de capa: Yolande de Kort/Trevillion Images Fotografia da autora: Roderick Field ISBN: 9789892324739

Edições ASA II, S.A. uma editora do Grupo LeYa R. Cidade de Córdova, n.º 2 2160-038 Alfragide – Portugal Tel.: (+351) 214 272 200 Fax: (+351) 214 272 201

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Para a Maureen, com amor Porque tu mereces.

CAPÍTULO 1

Julho de 1914

A brigado da chuva num toldo, olhou para a montra em arco da pequena chapelaria, do outro lado da rua. Só de ver o nome «Belle» escrito em itálico com letras douradas por cima da montra sentiu o coração bater um pouco mais depressa. Havia

duas senhoras no interior da loja, e a maneira como se mexiam sugeria que estavam entusiasmadas com os bonitos chapéus em exposição. Tinha real- izado o seu objetivo, saber se Belle concretizara o seu sonho, mas agora que estava ali, tão perto dela, queria mais, muito mais. Uma senhora gorducha e de faces rosadas juntou-se-lhe no toldo, para fugir à intempérie. Debatia-se com um chapéu de chuva que o vento virara do avesso.

– Se não para de chover em breve, vão-nos crescer barbatanas no lugar

dos pés – comentou jovialmente, enquanto tentava endireitar o chapéu de

chuva. – Nem sei o que me deu para sair de casa com um dia assim.

– Estava a pensar o mesmo – respondeu ele, e tirou-lhe o chapéu de

chuva das mãos para endireitar as varetas. – Aqui tem – acrescentou, devolvendo-lho. – Mas receio que a próxima rajada de vento torne a virá- lo.

A mulher examinou-o com curiosidade.

– É francês, não é? Mas fala muito bem inglês.

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Ele sorriu. Gostava da maneira como as mulheres inglesas daquela id- ade não hesitavam em fazer perguntas a um perfeito desconhecido. As francesas eram muito mais reticentes.

– Sim, sou francês, mas aprendi inglês quando cá vivi um par de anos.

– Voltou de férias? – perguntou ela.

– Sim, para visitar velhos amigos – disse ele, porque era em parte

verdade. – Disseram-me que Blackheath era um lugar muito bonito, mas

ainda não consegui apanhar um dia bom para conhecer a terra.

Ela riu e concordou que ninguém ia de certeza querer passear pela charneca com um tempo daqueles.

– Deve viver no Sul de França – continuou, estudando-lhe o rosto

bronzeado com um ar avaliador. – O meu irmão esteve de férias em Nice e voltou de lá negro como um tição.

Ele não fazia a mínima ideia do que pudesse ser um tição, mas ficou contente por a mulher parecer disposta a conversar. Talvez conseguisse ficar a saber alguma coisa a respeito de Belle através dela.

– Vivo perto de Marselha. E aquela loja ali faz-me lembrar as

chapelarias francesas – disse, apontando para o outro lado da rua.

A mulher olhou para a loja e sorriu.

– Bem, dizem que a dona aprendeu o ofício em Paris, mas todas as

senhoras da aldeia adoram os chapéus dela – disse, com genuína simpatia

na voz. – Eu própria tinha pensado passar por lá hoje, se o tempo não est- ivesse tão mau. É uma jovem encantadora, sempre com tempo para toda a gente.

– Tem um bom negócio, então?

– Sem dúvida, ouvi dizer que vêm cá senhoras de todo o lado comprar

chapéus. Mas é melhor ir andando, ou esta noite não há jantar lá em casa.

– Foi um prazer conversar consigo, minha senhora – disse ele, e

ajudou-a a abrir novamente o chapéu de chuva.

– Devia ir até lá e comprar um chapéu para a sua esposa – disse a mul-

her, enquanto começava a afastar-se. – Não encontrará uma loja melhor, nem sequer em Regent Street. Continuou a olhar para a loja do outro lado da rua, depois de a mulher ter desaparecido, na esperança de ver Belle, nem que fosse de relance. Não tinha uma mulher a quem comprar um bonito chapéu, nem precisava de

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desculpas para entrar na loja de uma velha amiga. Mas seria sensato re- mexer no passado? Voltou-se para examinar o seu reflexo no vidro da montra a seu lado.

Em França, os amigos diziam que tinha mudado naqueles dois anos decor- ridos desde a última vez que vira Belle, mas ele não notava qualquer difer- ença. Continuava esbelto e atlético: o trabalho duro na sua pequena quinta mantinha-o em forma e tinha os ombros ainda mais largos e musculados

do que antes. Mas talvez os amigos se referissem ao facto de a velha cica-

triz que lhe cruzava a face se ter desvanecido um pouco e à maneira como

a tranquilidade e o contentamento lhe tinham suavizado as feições

angulosas, fazendo-o parecer menos perigoso. Dez anos antes, a meio da casa dos vinte, quando precisava de infligir medo às pessoas, ficava orgulhoso ao ouvir dizer que os seus olhos azuis eram gelados e que havia ameaça até na sua voz. Mas tinha-se afastado desse mundo, embora soubesse que continuava capaz de violência, quando era necessário. Se os elogios que a senhora do guarda-chuva tecera a Belle eram rep- resentativos do que as pessoas daquela simpática aldeia pensavam dela, isso só podia significar que os aspetos mais escandalosos do seu passado não a tinham seguido até ali. O que era bom. Ele, mais do que ninguém, tinha consciência de como erros antigos, más escolhas e episódios vergon- hosos eram tantas vezes difíceis de pôr para trás das costas. Agora, cumprida a sua missão, sabia que o mais sensato a fazer era voltar à estação e apanhar o comboio de regresso a Londres.

*

O tilintar da campainha da porta avisou-o de que alguém saía da loja

de Belle. Eram as duas senhoras, que calculou serem mãe e filha, porque

uma teria quarenta e poucos anos e a outra não devia ir além dos dezoito.

A mais jovem correu para um automóvel que as aguardava levando na mão

duas chapeleiras às riscas pretas e cor-de-rosa, enquanto a mais velha

voltava a cabeça para o interior da loja, como que a dizer adeus. E então,

de repente, viu Belle aparecer à porta, tão elegante e encantadora como a

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recordava, com um muito recatado vestido verde-pálido de gola alta, o ca- belo negro e brilhante preso no alto da cabeça num bonito penteado de que só uns quantos caracóis escapavam para lhe emoldurar o rosto.

Subitamente, já não queria ser sensato, tinha de falar com ela. Os tam- bores de guerra que haviam começado a rufar um ou dois anos antes soavam cada vez mais alto, e com o assassínio do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em finais de junho, o conflito tornara-se inevitável. A Alemanha iria certamente invadir a França, e ele teria de lutar pelo seu país

e era muito possível que não vivesse para tornar a ver Belle. Enquanto o carro das duas mulheres se afastava, Belle fechou a porta da loja. Incapaz de resistir ao impulso, agora que ela estava sozinha, at- ravessou a rua sob a chuva detendo-se apenas um ou dois segundos para a ver através do vidro. Estava de costas para ele, a arranjar alguns chapéus em pequenos expositores. Havia uma fila de botões de pérola ao longo das costas do vestido, e o pensamento de que nunca seria ele a desapertá-los despertou nele uma pontada de ciúme. Belle inclinou-se para apanhar uma chapeleira do chão e ele teve um vislumbre dos seus elegantes tornozelos acima dos bonitos botins rendados. Vira-a nua quando a salvara em Paris,

e sentira apenas preocupação por ela, mas naquele instante a visão de uns breves centímetros de perna foi o bastante para o excitar. Belle voltou-se quando a campainha da porta tilintou e, ao vê-lo, levou as mãos à boca e abriu muito os olhos, de choque e surpresa. – Étienne Carrera! – exclamou. – Que fazes tu aqui?

A voz dela, o azul profundo dos seus olhos e até a maneira como dis-

sera o nome dele fizeram-no fraquejar de desejo.

– Sinto-me lisonjeado por te lembrares de mim – disse, tirando o

chapéu com um floreado. – E tu estás cada vez mais bonita. O êxito e a vida de casada ficam-te bem.

Avançou um par de passos, com a intenção de a beijar na face, mas ela corou e recuou, como que envergonhada.

– Como soubeste que estava casada e a viver em Blackheath? –

perguntou.

– Fiz uma visita ao Ram’s Head, em Seven Dials. O novo proprietário

disse-me que tinhas casado com o Jimmy e ido viver para Blackheath. Não

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podia deixar Inglaterra sem voltar a ver-te, de modo que apanhei o com- boio e vim até cá na esperança de te encontrar.

– Depois de tudo o que fizeste por mim, devia ter-te escrito quando me

casei – disse ela, a parecer simultaneamente ansiosa e atrapalhada pelo súbito aparecimento dele. – Mas…

– Compreendo – disse ele, num tom ligeiro. – Os velhos amigos que

passaram por tanta coisa juntos não precisam de explicações. Sempre soube, pela maneira como o Jimmy nunca desistiu de te procurar depois de

teres sido raptada, que deve amar-te muito. Por isso, estou feliz por as coisas terem corrido bem entre vocês os dois. Ouvi dizer que ele e o tio têm um pub aqui na aldeia. Belle assentiu.

– É o Railway, ao fundo da colina. Lembras-te com certeza de eu te ter

falado da Mog, a governanta da minha mãe. Bem, casou com o Garth, o tio do Jimmy, há dois anos, em setembro, e eu e o Jimmy casámos pouco depois.

– E conseguiste finalmente ter a tua loja de chapéus! – Étienne olhou

com um sorriso apreciador para a decoração em tons de rosa-pálido e bege.

– É encantadora, tão feminina e chique como tu. Uma senhora lá fora disse-me que nem em Regent Street é possível encontrar chapéus mais bonitos. Ela sorriu e pareceu relaxar um pouco.

– Porque é que não despes essa gabardina encharcada enquanto eu

faço um chá para nós? – Dirigiu-se a uma pequena divisão nas traseiras da loja e de lá perguntou: – Ainda tens a quinta? Étienne pendurou a gabardina num cabide junto à porta e alisou com as mãos o cabelo louro e molhado.

– Tenho, pois. Mas também faço algumas traduções, e foi por isso que

vim a Inglaterra, para falar com as pessoas de uma editora para a qual já trabalhei aqui há anos.

– Portanto, a tua vida agora é mais do que galinhas e limoeiros –

afirmou ela, voltando à loja. – Por favor, diz-me que te tens mantido no caminho reto e estreito.

Ele levou a mão ao coração.

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– Juro que me tornei um pilar da melhor sociedade – disse, num tom

grave e com os olhos a faiscar. – Nunca mais escoltei rapariguinhas até à

América nem salvei nenhuma das garras de loucos.

Nunca se perdoara por não ter resistido quando os gangsters para quem trabalhava na altura o tinham obrigado, através de chantagem, a en- tregar Belle num bordel de Nova Orleães. Talvez se tivesse redimido em parte quando, dois anos mais tarde, a salvara em Paris, mas, a seus olhos, isso não bastara para apagar o passado.

Não acredito que possas alguma vez ser um pilar da sociedade – riu

Belle.

Duvidas da minha palavra? – exclamou ele, a fingir-se ofendido. –

Devias envergonhar-te, Belle, por teres tão pouca fé! Alguma vez te menti?

– Bem, uma vez disseste que me matavas se tentasse fugir – retorquiu ela. – E mais tarde admitiste que era mentira.

– Ora aí está o grande problema das mulheres – suspirou ele. –

Lembram-se sempre das pequenas coisas sem importância. – Estendeu a mão e tocou num minúsculo chapéu emplumado que estava num expositor,

encantado por a determinação e o talento dela terem dado frutos. – Agora é a tua vez de dizer a verdade. O teu casamento é tudo o que esperavas?

– Isso e muito mais – respondeu ela, um tudo-nada demasiado de-

pressa. – Somos muito felizes e o Jimmy é o melhor dos maridos.

– Fico feliz por ti – disse ele, e fez uma pequena vénia. Belle voltou a rir.

– Ficas? Tens uma mulher na tua vida? – perguntou.

– Nenhuma suficientemente especial para assentar. Ela arqueou as sobrancelhas, numa interrogação. Ele sorriu.

– Não faças essa cara, nem toda a gente quer casamento e estabilidade. Sobretudo com a guerra que aí vem.

– Com certeza que vai ser possível evitá-la – disse ela, esperançosa.

– Não, Belle. Não há a mínima hipótese disso. É uma questão de semanas.

– Os homens não falam de outra coisa. – Belle suspirou. – Estou tão

farta. Mas ouve, porque é que não vens agora comigo para eu te apresentar

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o Jimmy, o Garth e a Mog? Eles iam ficar tão contentes por te conhecer, ao fim de tanto tempo.

– Não me parece que fosse apropriado.

Belle fez beicinho.

– Porque não? Salvaste-me a vida, em Paris, e eles vão ficar muito de-

sapontados e intrigados quando souberem que estiveste cá e não foste visitá-los. Ele olhou-a pensativamente por um instante.

– Quando te mudaste para aqui, deixaste o passado para trás.

Belle abriu a boca para protestar mas voltou a fechá-la, ao aperceber- se de que ele tinha razão. No dia em que casara com Jimmy fechara defin- itivamente a porta ao tempo que tinha vivido na América e em Paris. Étienne podia ter voltado a abri-la ao aparecer para a ver, e ela estava con-

tente por ele o ter feito, mas Jimmy podia não encarar as coisas da mesma maneira.

– E o Noah? – perguntou. – Vais vê-lo? Tornaram-se tão bons amigos

quando andavam à minha procura, e tenho a certeza de que te lembras da Lisette, que cuidou de mim no convento antes de me levares para a

América. O Noah apaixonou-se por ela, casaram e estão à espera de um filho. Têm uma casa encantadora em St. John’s Wood. – Tenho-me mantido em contacto com o Noah – disse Étienne. –

Talvez não tão frequentemente como devia, mas ele é jornalista e tem muito mais facilidade em escrever do que eu. Se bem que seja agora um colunista tão famoso que até posso ler os trabalhos dele em França. A ver- dade é que vamos almoçar juntos amanhã, num restaurante perto do jornal. Seremos sempre amigos, mas não vou a casa dele. Ambos sentimos que aquilo que a Lisette menos precisa é de coisas que lhe recordem o passado, especialmente com um filho a caminho. Belle esboçou um sorriso triste, compreendendo exatamente o que ele queria dizer. Também Lisette fora forçada à prostituição quando era uma rapariguinha, e por isso se mostrara tão carinhosa para com ela.

– A respeitabilidade paga-se caro. Gosto muito do Noah e da Lisette,

mas apesar de nos mantermos em contacto, e de nos visitarmos de vez em

quando, temos sempre o cuidado de não falar da forma como nos

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conhecemos. Sei que é o melhor, agora que tanto eu como a Lisette es- tamos casadas, mas isso não nos impede de sermos bastante amigas.

– O passado afeta a tua relação com o Jimmy? – perguntou Étienne, os olhos fixos nos dela, a desafiá-la a mentir-lhe.

– Por vezes – admitiu Belle. – É como termos uma farpa espetada num

dedo e não conseguirmos tirá-la. Estamos sempre a senti-la, e a mexer-lhe. Étienne assentiu. Pensou que a descrição dela era bem adequada.

– Comigo acontece o mesmo. Mas, a seu tempo, a farpa acaba por sair

e o buraco que deixa enche-se de novas recordações. De repente, Belle riu.

– Porque é que estamos a ficar tão sombrios? Para todos nós… para

mim, para ti, para a Mog e também para a Lisette… apesar de todos os problemas que tivemos, alguma coisa boa resultou de tudo o que aconte-

ceu. Porque serão as pessoas tão perversas que só gostam de lembrar os maus tempos?

– São os maus tempos que recordamos, ou os bons momentos que nos

ajudaram a aguentar os maus tempos? – perguntou ele, a arquear uma sobrancelha. Belle corou, e ele soube que ela recordava até bem de mais os bons momentos que tinham partilhado. Embora tivesse sido levada para a América contra a sua vontade, Belle servira-lhe de enfermeira quando ele enjoara durante a viagem. Muito antes de chegarem a Nova Orleães, tinham-se tornado amigos muito próxi- mos, e na noite em que fizera dezasseis anos ela oferecera-se-lhe. Nem ele sabia como conseguira conter-se naquela noite, pois desejava-a, não ob- stante a mulher e os dois filhos que tinha em casa. A recordação do corpo

dela, jovem e firme, nos seus braços, da doçura dos seus beijos, inflamara-

o muitas vezes ao longo dos anos. No entanto, estava satisfeito por não ter

sucumbido aos encantos de Belle naquela noite: já carregava consigo culpa suficiente, em relação a ela, para não precisar de lhe somar também aquilo.

– Sempre que leio qualquer coisa a respeito de Nova Iorque, lembro-

me de como me mostraste a cidade – disse Belle. – Tenho de ter muito cuidado para nunca dizer que lá estive, ou talvez tivesse de explicar quando e com quem. Nunca te perguntei se também gostaste daqueles dois dias. Gostaste?

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– Foram os melhores que tive em muito, muito tempo – admitiu ele. –

Tu estavas tão espantada, tão desejosa de ver tudo. Custou-me muito con-

tinuar a viagem até Nova Orleães, sabendo que ia ter de te deixar lá.

– Não foi assim tão mau no Martha’s – disse ela, pousando-lhe uma

mão no braço para o tranquilizar. – Nunca te culpei, sempre compreendi que tinhas sido obrigado a fazê-lo. E de qualquer modo, quando dois anos mais tarde, em Paris, entraste por aquela porta e me salvaste do Pascal, isso compensou tudo o resto.

Estremeceu involuntariamente, como lhe acontecia sempre que recor- dava o horror por que Pascal a havia feito passar. O louco aprisionara-a no sótão de sua casa, e ela não duvidava que a teria matado se Étienne não tivesse conseguido encontrá-la. E Étienne não se limitara a salvá-la, tinha-a ajudado também a sarar sentando-se junto à sua cama no hospital, deixando-a chorar, conversando com ela e dando-lhe esperança no futuro. Também recordava o dia em que Noah lhe dissera que a mulher e os dois filhos dele tinham morrido num incêndio. Para sua vergonha, a sua primeira reação fora pensar que Étienne estava livre, em vez de se horrorizar pela maneira bárbara como aqueles

que ele amava tinham morrido. Étienne notou o estremecimento e, consciente de que a sua inesperada visita e a recordação do passado que partilhavam estava a perturbá-la, sen- tiu que tinha de trazê-los a ambos de volta ao presente.

– Vou alistar-me no exército quando regressar a França – disse.

– Oh não, claro que não vais! – exclamou ela.

Ele riu.

– As mulheres reagem sempre assim, mas é o meu dever, Belle. E mais

uma vez o meu passado vai apanhar-me, porque fugi ao serviço militar obrigatório quando era rapaz, escapando para Inglaterra.

– Vão castigar-te por causa disso?

Ele sorriu.

– Espero que se contentem com pôr-me uma espingarda nas mãos –

disse. – Não vou gostar da recruta e de ter de obedecer a ordens, e não sou suficientemente ingénuo para pensar que é o caminho para a glória, mas

amo a França e macacos me mordam se vou ficar de braços cruzados a vê- la cair nas mãos dos Alemães.

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Belle lançou-lhe um olhar especulativo.

– És hábil e corajoso, Étienne, darás um bom soldado. Mas eu ficava

muito mais contente se continuasses na tua quinta a cultivar limões e a dar

de comer às galinhas. Étienne encolheu os ombros.

– Nesta vida, nem sempre podemos escolher a estrada mais segura e

agradável. Tenho um passado violento, conheço o pior que os homens são capazes de fazer uns aos outros. Pensava nunca mais ter de usar esse con-

hecimento, mas parece ser exatamente o que o meu país precisa agora.

– És um homem bom e honrado. – Belle suspirou. – Por favor, tem

cuidado. Mas se tens a certeza de que não queres ir comigo conhecer o

Jimmy, são horas de fechar a loja e ir para casa. Gostamos sempre de jantar juntos antes de ele abrir o pub.

– Sim, claro, não te quero atrasar – disse ele, mas não fez menção de

pegar na gabardina. Queria dizer-lhe que sempre a amara, queria abraçá-la e beijá-la. Mas sabia que era demasiado tarde. Tivera a sua oportunidade

em Paris e não a aproveitara. Agora, ela pertencia a outro homem.

– É melhor saíres primeiro. Não quero que ninguém se lembre de me

ver a descer a rua com um desconhecido – disse ela, francamente. Étienne vestiu a gabardina.

– Encontrei o que procurava – disse em voz baixa. – Fiquei a saber que

estás feliz e segura. Mantém-te segura, ama o Jimmy com todo o teu cor- ação, e espero vir um dia a saber pelo Noah que tens um rancho de filhos. Pegou-lhe na mão e beijou-a, e então deu meia-volta e saiu rapida- mente da loja.

Au revoir – murmurou Belle quando a porta se fechou, e as lágrimas

arderam-lhe nos olhos, porque havia muito mais que teria gostado de lhe dizer, muito mais que teria gostado de saber a respeito da vida dele. Com dezasseis anos, julgara amá-lo. Ainda corava de cada vez que re- cordava como se despira e se enfiara no beliche dele e o convidara a partilhá-lo com ela. Mas ele fora um cavalheiro: abraçara-a e beijara-a, mas não fora mais longe do que isso.

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Como adulta, ao rever os horrores por que tinha passado antes de con- hecer Étienne, raptada em plena rua perto de sua casa e levada para Paris para ser vendida a um bordel e violada por cinco homens, supunha que era possível que tivesse sentido que amava quem quer que fosse gentil para com ela depois de um tal inferno. No entanto, não podia ter sido só por Étienne se ter mostrado gentil, ou por ser forte, sensível e afetuoso, porque aqueles sonhos de miúda a re- speito dele tinham continuado com ela durante o tempo que vivera em Nova Orleães e na viagem de regresso a França. Quando ele reaparecera para lhe salvar a vida, há muito que a sua in- ocência se perdera e ela sabia mais acerca de homens do que qualquer mul- her devia saber. Mas ele também devia sentir qualquer coisa por ela: senão, porque teria corrido para Paris dois anos mais tarde, quando lhe tinham dito que ela desaparecera? Ao longo de toda a sua convalescença, depois do salvamento, esperara e desejara uma confissão de amor. Sentia que ele a amava pela maneira como a olhava, pela ternura que lhe mostrava. E no entanto, não a tomara nos braços nem admitira que a desejava, nem sequer quando se tinham despedido na Gare du Nord e ela chorara e tornara mais do que claros os seus sentimentos. Esforçara-se ao máximo por apagar da memória aquela despedida, e as saudades que tivera dele durante muito tempo depois disso, mesmo quando já estava a salvo em casa junto de Mog e Jimmy começara a falar de casamento. Porque tivera então ele de ir ali naquele dia e voltar a cravar aquela farpa no seu coração? Dissera-lhe a verdade. Ela e Jimmy eram muito felizes. Ele era o seu melhor amigo, amante, irmão e marido numa só pessoa. Tinham os mes- mos objetivos, riam das mesmas coisas, ele era tudo o que uma rapariga podia desejar ou precisar. Curara-a dos horrores do passado, nos seus braços encontrara uma ternura maravilhosa, e satisfação também, porque ele era um amante atento e sensível. Jimmy era o seu mundo; amava a vida que tinha com ele. Ao mesmo tempo, no entanto, desejava ter podido dizer a Étienne como fora maravil- hoso voltar a vê-lo, que ele estivera muitas vezes nos seus pensamentos naqueles dois últimos anos e que lhe devia muito.

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Mas uma mulher casada não podia dizer aquelas coisas, tal como não podia encorajá-lo a demorar-se mais tempo na loja. Blackheath era uma aldeia, as pessoas eram tacanhas e bisbilhoteiras, e não faltaria quem ficas- se feliz por poder coscuvilhar a respeito de a ter visto na loja com um homem atraente. Começou a arrumar as coisas, limpando o balcão e apanhando do chão pedaços de papel de seda. Apesar de tudo, não conseguia impedir-se de perguntar a si mesma por que razão, se era tudo assim tão bom, continuava a sentir que faltava qualquer coisa na sua vida. Porque lia a respeito das suffragettes no jornal

e as invejava por terem a coragem de se baterem pelos direitos das mul-

heres face à hostilidade? Porque se sentia um pouco sufocada pela respeit- abilidade? Mas, acima de tudo, por que motivo a voz de Étienne, a sua

presença e o toque dos seus lábios na mão dela ainda tinham o poder de a fazer estremecer? Abanou a cabeça, abriu a gaveta onde guardava a receita do dia e des- pejou o dinheiro num saco de pano que enfiou na bolsa de rede. Prendeu o chapéu de palha ao cabelo com um alfinete comprido, pôs a capa por cima dos ombros e tirou o chapéu de chuva do bengaleiro junto à porta. Deteve-se antes de apagar as luzes e recordou o dia em que inaugurara

a loja. Fora num dia frio de novembro, apenas dois meses depois de Mog e

Garth se terem casado, quando ela e Jimmy tinham o casamento marcado para antes do Natal. Tudo fora novo e brilhante, naquele dia. Jimmy fizera- lhe a vontade e comprara os pequenos mas dispendiosos candelabros franceses e o balcão com tampo de vidro. Mog descobrira as duas cadeiras estilo Regência e mandara-as forrar de veludo cor-de-rosa, e a prenda de Garth fora pagar aos dois decoradores que tinham feito o milagre de trans- formar a lojeca feia e miserável num paraíso feminino cor-de-rosa e bege. Vendera vinte e dois chapéus naquele primeiro dia, e dúzias de outras mulheres que tinham entrado só para dar uma vista de olhos tinham voltado mais tarde para comprar. Nos dezoito meses decorridos desde en- tão, houvera menos de sete dias em que não vendera um único chapéu, e tinham sido todos dias de mau tempo. As vendas médias de uma semana andavam pelos quinze chapéus, e embora isso significasse que tinha de tra- balhar duramente para acompanhar a procura, e contratar trabalho fora

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para a ajudar, estava a ganhar um bom dinheiro. No verão, comprara uma porção de simples chapéus de palha e enfeitara-os, e fora muito lucrativo.

A loja era um êxito retumbante.

«Como tudo o mais na tua vida», recordou a si mesma enquanto apagava as luzes.

Étienne foi direito à estação, mas ao descobrir que acabava de perder o

comboio e ia ter de esperar vinte e cinco minutos pelo seguinte, ficou junto

da bilheteira a olhar para o Railway, do outro lado da rua.

Nunca conseguira compreender os pubs ingleses, as rígidas horas de abertura, os homens de pé em frente do balcão a beber enormes quan- tidades de cerveja e a cambalear de regresso a casa quando eram horas de fechar, como se só embriagados conseguissem enfrentar as mulheres e os filhos. Os bares franceses eram muito mais civilizados. Nunca eram vistos como uma espécie de templo onde um homem se podia embebedar porque estavam abertos todo o dia e ninguém estranhava se algum cliente bebia um café ou um refresco enquanto lia o jornal. O Railway, ao menos, parecia convidativo, com a sua pintura recente e

as janelas de vidros muito limpos. Não lhe custava imaginar que numa

noite fria de inverno fosse um refúgio quente e amistoso onde os homens

se podiam reunir. Enquanto olhava, viu um homem grande, de cabelo e barba ruivos aparecer na porta da frente. Usava um avental de couro por cima das roupas e Étienne calculou que devia ser Garth Franklin, o tio de Jimmy. O homem deteve-se a olhar para a água que jorrava de um algeroz partido e escorria pela fachada do edifício, e chamou alguém que estava no interior. Um homem mais novo juntou-se-lhe, e Étienne soube imediatamente que era Jimmy. Era maior do que o imaginara, tão alto como o tio e com os mesmos ombros largos, mas não usava barba e o cabelo ruivo estava bem aparado e era um pouco mais escuro do que o de Garth, talvez devido à brilhantina. Os dois, que mais pareciam pai e filho, ficaram ali a olhar e a discutir sobre o algeroz partido, aparentemente indiferentes à chuva.

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Jimmy voltou de repente a cabeça e o rosto rasgou-se-lhe num grande sorriso, e Étienne soube que era por ter visto Belle avançar na direção deles. Belle esforçava-se por manter o chapéu de chuva a cobrir-lhe a cabeça e a capa à volta dos ombros, mas correu os últimos metros até aos dois ho- mens. Quando chegou, o chapéu de chuva estava inclinado para trás e Étienne notou que o sorriso dela era tão feliz como o do marido. Jimmy tirou-lhe o chapéu de chuva com uma mão enquanto com a outra lhe acariciava a face, e beijou-a na testa. Aqueles pequenos gestos de ternura disseram a Étienne o quanto o homem a amava. Teve de desviar o olhar. Sabia que devia sentir-se em paz por ter a cer- teza de que Belle era verdadeiramente amada e protegida, mas em vez disso sentia apenas a amarga ferroada do ciúme.

CAPÍTULO 2

B elle ergueu os olhos do desenho, a testa franzida de irritação por causa da algazarra que vinha do pub, lá em baixo. Esperava aquele nível de

ruído num sábado à noite, perto da hora de fechar, mas não às oito da noite

de uma terça-feira. Os dotes de Mog como dona de casa tinham-se refinado desde a mudança para Blackheath. A sala de estar era espaçosa, com duas janelas de guilhotina debruçadas sobre a rua. À tarde enchia-se de sol, e a decor- ação que Mog escolhera – papel de parede verde-claro com um pequeno motivo vegetal, cortinas de veludo verde-musgo e um sumptuoso tapete turco que adquirira num leilão – era muito atraente na sua simplicidade. O anterior proprietário do pub deixara ficar o enorme sofá, provavel- mente porque já tinha visto melhores dias, mas Belle e Mog tinham-lhe feito uma cobertura de pano estampado, e outras a condizer para os dois cadeirões de braços trazidos de Seven Dials. Garth gostava de brincar a re- speito das pretensões de Mog a ser «gente fina», e dizia-lhe que não tardaria muito estaria a exigir uma criada. Mas tanto ele como Belle sabiam que nunca Mog confiaria fosse a quem fosse o cuidado de limpar e arrumar a sua casa; amava-a demasiado para permitir que por lá andasse uma estranha a meter o nariz. Quase sempre, a sala de estar era um porto de abrigo sereno onde po- dia fugir à barulhenta azáfama do pub, e Belle adorava os seus fins de tarde sentada à mesa perto da janela, a desenhar chapéus. Daquela vez, porém, apercebendo-se de que não ia conseguir concentrar-se e vencida pela curiosidade, decidiu descer para ver o que se passava. Uma vez que Garth não aprovava a presença de mulheres atrás do bal- cão durante as horas de funcionamento, só poderia espreitar pela porta

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entreaberta. Mas mesmo com um tão limitado campo de visão, não era di- fícil perceber que a casa estava à cunha, cheia de jovens aos berros que exigiam ser servidos. Mas o mais surpreendente era o facto de aqueles

jovens pertencerem aos mais variados estratos sociais. Uns eram típicos senhores da City, de chapéu de coco, fato escuro e camisa de colarinho en- gomado, outros trabalhadores braçais, de boné achatado e fato-macaco a pedir barrela, mas, entre estes dois extremos, havia representantes de quase todas as restantes profissões e estilos de indumentária. Jimmy e Garth esforçavam-se visivelmente por manter constante o fornecimento de cerveja.

– Que se passa? – perguntou Belle a Mog, que estava na cozinha a lav-

ar copos. – Devem estar ali pelo menos oitenta homens. O que foi que os trouxe a todos cá esta noite?

– Estiveram a alistar-se no exército – respondeu Mog, e abanou a

cabeça, como que estupefacta por semelhante loucura. A 4 de agosto, duas semanas antes, a Alemanha invadira a Bélgica e, por força das alianças estabelecidas, a Inglaterra declarara guerra ao Im- pério Germânico. Desde então, não se falava de outra coisa. O tema enchia as páginas dos jornais, os homens juntavam-se nas esquinas para discutir o provável desfecho, até as senhoras que entravam na loja de Belle falavam disso, umas receosas de que os maridos ou namorados se alistassem, outras proclamando que era dever de todos os homens fisicamente aptos irem combater. Belle sabia, como toda a gente, que o exército britânico era pequeno, mas também se dizia muitas vezes que os seus soldados estavam mais bem treinados do que os de qualquer outro exército europeu. O que nunca es- perara fora que homens vulgares, como os que ali via, corressem a alistar- se.

– O quê, todos? – exclamou, enquanto voltava a espreitar pela abertura

da porta. – Nem sequer são homens, são quase todos rapazes! Agora que sabia o que provocava tamanho rebuliço, aqueles rostos corados e olhos brilhantes fizeram-na sentir-se gelada. Reconhecera em al- guns daqueles homens os filhos, irmãos ou maridos de mulheres que con- hecia, e perguntou-se como reagiriam elas ao facto de eles se terem alistado.

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– Parece que havia um soldado a tocar cornetim à porta da igreja –

disse Mog, como se aquilo pudesse servir de desculpa para um comporta- mento tão impulsivo. – O Garth passou por lá esta tarde e viu-os fazer fila

para se alistarem. Chegou a casa com o mesmo brilho nos olhos, mas, graças a Deus, não aceitam ninguém com mais de quarenta anos. Belle sentiu uma pontada de medo percorrer-lhe o corpo.

– O Jimmy não está a pensar em juntar-se-lhes, pois não?

– Só se perder o juízo por completo – sentenciou Mog, e empalideceu,

horrorizada pela ideia. – Mas os homens são criaturas estranhas… quem sabe o que lhes vai na cabeça? A maior parte só quer um pouco de aven- tura, de modo que esperemos que seja verdade e esteja tudo acabado antes do Natal. Garth abriu a porta que dava para o pub e gritou a Mog que se des- pachasse com os copos, pedindo-lhe de seguida que fosse dar uma ajuda a servir. Enquanto subia as escadas, Belle pensou que ele devia estar mesmo muito pressionado para ultrapassar o seu preconceito contra a presença de

mulheres atrás do balcão. Mas uma vez de regresso à sala de estar, deu por

si a preocupar-se com Jimmy.

Até ao momento, a opinião dele fora que ser soldado era uma coisa para profissionais, não para um bando de amadores de cabeça quente. Mas, dissesse ele o que dissesse, Belle suspeitava que a pressão dos seus pares e

a vaga de patriotismo que parecia ter empolgado o país eram bem capazes

de o fazer mudar de ideias. Mog tinha provavelmente razão quando dizia que a maior parte dos recrutas queria apenas aventura, mas alguns deles seriam de certeza mortos ou feridos, e Jimmy poderia contar-se entre eles. Só a possibilidade de perder Jimmy encheu-lhe os olhos de lágrimas. Não conseguia, e não queria, pensar na vida sem ele. Limpou com as cost- as da mão uma lágrima perdida, sem compreender por que razão, naquelas últimas semanas, se tornara tão emotiva a respeito de tudo. Ainda no dia anterior se desfizera em lágrimas quando abrira uma caixa de guarnições e descobrira que o fornecedor lhe enviara quatro rolos de fita encarnada em vez de um de fita encarnada, outro de fita cor-de-rosa, outro de azul e outro de amarela.

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Mas a verdade era que, desde aquele dia de julho em que Étienne aparecera na loja, não voltara a ser a mesma. O tempo aquecera muito de- pois daquela visita, provocando um súbito aumento na procura de chapéus de palha. Tinha alguns de reserva, já arranjados, de modo que não havia verdadeiro motivo para entrar em pânico, mas entrara. Correra ao seu fornecedor habitual, em Lewisham, e comprara-lhe quase todo o stock. No entanto, em vez de se sentar a preparar os chapéus para serem vendidos, dava por si a olhar para a rua, distraída e ociosa, através do vidro da

montra. Deixava-se cair num sonolento torpor várias vezes ao longo do dia, e depois à noite não conseguia dormir. Era capaz de passar o dia in- teiro cheia de fome, mas quando Mog lhe punha o jantar na mesa, descobria que tinha perdido o apetite. Também a capacidade de con- centração parecia tê-la abandonado, e não conseguia manter-se a fazer a mesma coisa durante mais de meia hora seguida.

A princípio, pensara que era apenas porque Étienne viera despertar re-

cordações adormecidas; muitas vezes se surpreendera a si mesma em flag- rante delito de devaneio. Mas agora perguntava-se se não seria apenas a guerra, sendo difícil como era olhar em frente quando se tornava impos-

sível prever o que traria o futuro. E, no entanto, seriam a guerra e a incer- teza justificação suficiente para se sentir tão excessivamente emotiva, dis- traída e cansada? Não falara do assunto a Jimmy nem a Mog porque não havia nada de tangível para descrever e, além disso, receava dizer o que quer que fosse a qualquer deles, não fosse escapar-se-lhe alguma palavra a respeito da visita de Étienne.

E isto fazia-a sentir-se mal consigo mesma. Que poderia ser mais nat-

ural do que partilhar a alegria de rever um velho amigo? Mas, claro, a ver- dade era que temia dizer qualquer coisa que levasse Jimmy a aperceber-se de que os seus sentimentos em relação a Étienne tinham sido algo mais do

que simples amizade. Saltava à vista de qualquer pessoa que não podia ter encontrado um marido melhor do que Jimmy. Não acreditava que muitas antigas prosti- tutas pudessem afirmar que o passado nunca lhes fora atirado à cara num momento de raiva ou de ciúme. Mas Jimmy nunca o fizera. Era terno, firme, sensível às suas necessid- ades, disposto a fazer por ela absolutamente tudo. E, o que era ainda mais

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invulgar, e ao qual dava um valor muito especial, tinha no seu casamento uma espécie de liberdade que se poderia considerar quase inaudita. Jimmy nunca interferia no negócio da loja, orgulhava-se do êxito dela e, se al-

guma coisa corresse mal, tinha a certeza de que ele a apoiaria. E adorava-a.

O senso comum dizia-lhe que mesmo que Étienne lhe tivesse dito que

a amava quando estavam em Paris, e tivesse casado com ele em vez de

Jimmy, nunca teria sido o género de relação serena que tinha agora. Noah tivera razão ao fazer notar, durante a viagem de regresso a Inglaterra, que

Étienne era perigoso. O que não queria dizer que alguma vez fosse capaz de a magoar fisicamente. Era mais uma questão de ser um homem pro- fundo, com um passado complicado e obscuro. Mas agora desaparecera para sempre. Agora talvez até já estivesse a combater os Alemães. Só esperava que estivesse a salvo.

– Um penny por eles! Belle rodou vivamente na cadeira ao ouvir as palavras de Mog. Est- ivera tão absorta nos seus culposos pensamentos que não a ouvira entrar.

O casamento fizera maravilhas por Mog. Durante toda a infância de

Belle em Seven Dials, Mog fora como um ratinho cheio de bondade e amor. Andava atarefada de um lado para o outro a fazer o seu trabalho, a cozinhar, a limpar e a remendar, sempre enfiada em roupas escuras e in- formes, o cabelo preso num apertado carrapito. Parecia muito mais velha do que Annie, a verdadeira mãe de Belle, apesar de terem as duas a mesma idade. Agora vestia roupas elegantes, bem cortadas, que lhe realçavam o

corpo esguio mas bem feito. Talvez tivesse mais alguns fios de cinza entre

o castanho do cabelo, que passara a usar presos num rolo sobre a nuca,

com alguns caracóis soltos a emoldurarem um rosto que brilhava de ar fresco e felicidade. Podia ter trinta e oito anos, mas naquele dia, no seu vestido às riscas cor-de-rosa e pretas com um corpete plissado, parecia dez anos mais nova. Fora ela própria que fizera o vestido, mas era uma costureira tão hábil que parecia saído da luxuosa loja de roupa de senhora que havia um pouco mais abaixo, em Tranquil Vale. Dizia sempre a quem lhe perguntava que tinha sido governanta antes de casar com Garth, e as pessoas assumiam, pelos seus modos, que trabalhara em casa de uma família da aristocracia.

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Nunca ninguém adivinharia que tinha passado toda a sua vida adulta, até pouco antes, como criada num bordel e que tinha na cabeça mais con- hecimento a respeito dessa profissão do que toda a população feminina de Blackheath.

– Estavas a quilómetros daqui – disse a Belle, com um terno sorriso. –

Queres contar-me o que se passa? Belle hesitou. Mog fora como uma mãe para ela desde que nascera, e seria, normalmente, a pessoa a quem confidenciaria quaisquer problemas

que tivesse. Mas não podia falar-lhe de Étienne. Mog ficaria horrorizada só de pensar que outro homem que não Jimmy lhe passava sequer pela cabeça. Suspirou.

– Nem isso os meus pensamentos valem – disse. – É só a guerra, a

loucura lá em baixo no pub. É muito perturbador. Mog espreitou para o que ela estava a desenhar e franziu a testa ao ver que era quase fúnebre, muito diferente do seu estilo habitual.

– Há já um par de semanas que te acho estranha – observou. – Não ter- ás apanhado um pontapé nas costas, por acaso?

Belle abriu a boca, chocada, em parte por Mog ter usado o género de calão que usaria em Seven Dials, mas sobretudo por nunca lhe ter passado pela cabeça que ela pudesse pensar que estava grávida.

– Não, claro que não – respondeu. – Bem, pelo menos não me parece.

Não posso estar grávida! Pois não? Mog riu.

– Se não te conhecesse, diria que não sabes como é que se fazem bebés

– disse. Belle corou e deixou escapar uma pequena gargalhada. Desde que cas- ara com Garth, nunca Mog dissera uma palavra a respeito do tempo em que ela fora prostituta, e mesmo quando falava da época em que fora sua criada e ama no bordel da mãe, arranjava sempre maneira de evitar

qualquer referência ao que se passava no resto da casa. Por isso, aquela ob- líqua alusão ao assunto era tão surpreendente.

– Não tinha considerado essa possibilidade – respondeu.

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– Pois considera-a agora – aconselhou Mog, secamente. – Reparei que

ficaste verde ontem à noite quando eu estava a preparar aquela língua de

vaca. Fugiste da cozinha a sete pés.

– Foi porque tinha uma cheiro esquisito.

– Talvez, mas o cheiro da língua de vaca nunca te tinha incomodado. Quando foi a última vez que tiveste o período? Belle tentou pensar. Lembrava-se de o ter tido em maio, quando houvera uma breve vaga de calor, mas mais nada. Disse-o a Mog.

– O que não quer dizer que não tenha tido outro. Só não me lembro –

acrescentou.

– Se esse foi o último, estarias agora com três meses – disse Mog, a ol-

har para Belle com uma expressão especulativa. – Tiveste mais alguns sintomas?

– Bem, tenho-me sentido um pouco estranha – admitiu Belle. – Mas

não agoniada, nem nada disso.

– Não faças esse ar tão preocupado – disse Mog, num tom mais li-

geiro. – Se vais ter um filho, é uma bênção do céu e uma coisa que devia alegrar-te. Eu ainda tenho esperança, mas talvez já seja demasiado velha.

A revelação apanhou Belle desprevenida. Nunca lhe passara pela cabeça que Mog pudesse querer um filho. E, no entanto, a julgar pela ex- pressão triste dos seus olhos ao dizer aquelas palavras, fora exatamente isso que esperara ao casar com Garth.

– Claro que não és demasiado velha – apressou-se a dizer. – As mul-

heres têm filhos até aos quarenta e tal anos. Mas não tenho a certeza de que seja a melhor altura para qualquer uma de nós, com a guerra e tudo o mais.

– Bem, eu sei que não vou ter filho nenhum. – Mog suspirou. – Mas tu

talvez vás, e com guerra ou sem ela, todos nós vamos adorar ter um novo elemento na família. Imagina só como o Jimmy vai ficar entusiasmado!

– Não digas nada, por enquanto – avisou Belle. – Não me parece que esteja grávida.

Mog limitou-se a olhá-la com a mesma expressão satisfeita que cos- tumava fazer quando estava convencida de que ela é que sabia.

– Nunca me passaria pela cabeça dizer ao Jimmy qualquer coisa que

discutíssemos em privado, mas agora acho que é melhor voltar lá para baixo e lavar mais alguns copos.

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Depois de Mog ter saído, Belle pousou a mão na barriga. Estava tão lisa como sempre fora, mas era agradável pensar que talvez houvesse um minúsculo bebé a crescer lá dentro. Em Nova Orleães, e também em Paris, fora uma coisa a recear, e recorria a todas as medidas preventivas que con- hecia para se certificar de que nunca aconteceria. Estava bem familiarizada com a maior parte dos primeiros sintomas de gravidez, por ser um assunto de que as outras raparigas em Nova Orleães falavam constantemente. As repentinas aversões a determinados cheiros eram dos mais comuns, tal como o peito sensível e os enjoos matinais. Mas não tinha os seios particularmente sensíveis e não andava agoniada. Ter um filho depois de casada era a ordem natural das coisas. Por qualquer razão, no entanto, Belle não esperava que lhe acontecesse. Pegou no lápis e recomeçou a desenhar, mas os seus pensamentos an- davam por outros lados, e quando ouviu Garth, lá em baixo, tocar a sineta para anunciar os últimos pedidos, ficou contente por a noite estar quase a chegar ao fim. Garth e Jimmy levaram muito mais tempo do que era costume a correr com os últimos clientes. Belle espreitou pela janela da sala e viu os ho- mens atravessarem aos tropeções a rua em grupos de dois e três, com per- nas que pareciam feitas de gelatina e os braços passados pelos ombros uns dos outros. Viu um deles estatelar-se de bruços na calçada. Não fazia ideia se partiriam logo no dia seguinte para os campos de treino em França ou se demorariam tempo os preparativos, mas era assustador pensar que dentro de poucas semanas todos eles poderiam ter uma espingarda nas mãos. Eram caixeiros de lojas, escriturários, assentadores de tijolos e jardineiros; o mais perto que tinham estado de uma arma fora numa barraquinha de tiro numa feira. Sentiu o estômago apertado de medo por eles, e teve a premon- ição de que muitos não chegariam ao próximo aniversário. Sacudiu a cabeça, para afastar estes negros pensamentos, e desceu até ao pub para dar uma ajuda, sabendo que haveria muito que limpar depois de uma noite tão concorrida. Meia hora mais tarde, o balcão e a mesa estavam limpos, os bancos e a cadeiras empilhados em cima deles, e a maior parte dos copos lavada e seca. Mog parecia exausta. Garth estava a lavar à mangueirada o pátio das

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traseiras, enquanto praguejava entre dentes contra as poças de vomitado e o estado de imundície em que ficara a casa de banho.

– Hoje fizemos mais do que a receita normal de uma semana inteira –

disse Jimmy, enquanto pegava numa bandeja carregada de copos e os arru- mava nas prateleiras debaixo do balcão. – Mas espero que não voltemos a ter outra noite como esta.

– Não te vais alistar também, pois não? – perguntou Belle, ansiosa.

Ele riu e interrompeu o que estava a fazer para lhe acariciar a face.

– O quê, e deixar sozinha a mulher mais bonita de Londres? Claro que

não, pelo menos enquanto não for obrigatório. E isso é pouco provável, pois quem trataria das coisas em Inglaterra, se toda a gente com menos de

quarenta anos fosse mandada para França?

– Os velhos jarretas como eu – gritou Garth do pátio. – E se torno a ter

de limpar uma porcaria como esta, minto a respeito da idade e ofereço-me como voluntário.

Nessa noite, Jimmy adormeceu quase mal se enfiou na cama, mas, como sempre, tinha um braço passado pelo pescoço de Belle, dobrado sobre as costas dela. Na escuridão do quarto, a ouvir-lhe a respiração calma, Belle fez deslizar a mão direita até à barriga. Já tinha recuperado do choque que a sugestão de Mog lhe causara, e ali, tão confortavelmente aconchegada na cama, a ideia de ela e Jimmy terem um filho agradou-lhe. Imaginava Mog e Garth a mimar a criança, sempre prontos para dar uma ajuda, tão babados como quaisquer avós. E Jimmy seria um excelente pai; era meigo, paciente e tinha um coração enorme. Mas seria ela uma boa mãe? Não sabia nada de bebés: sem nunca ter tido irmãos ou irmãs mais novos, e, criada como fora, nunca tivera opor- tunidade de pegar num ao colo. O mais perto que alguma vez estivera de um bebé fora ao ver as mulheres de Seven Dials a carregarem nos braços os filhos embrulhados em xailes. Ali em Blackheath, a maior parte das mães tinha amas que via a passear as crianças pela charneca, nos seus carrinhos.

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Seria capaz de manter a loja a funcionar? Embora a ideia de desistir do negócio não lhe agradasse, não ia com certeza fazer o que a mãe fizera com ela: entregar o filho aos cuidados de uma Mog. Ao pensar em Annie, perguntou-se como reagiria ela ao facto de ser avó. Ficaria indiferente? Ou veria ali uma oportunidade para se redimir de erros passados? Esperara, quando Annie a ajudara a montar a loja, que se tornassem mais próximas, mas tal não acontecera. Se não fosse ela a ir visitá-la uma vez por mês, não haveria qualquer espécie de contacto entre as duas. Annie continuava a gerir a pensão que comprara em King’s Cross quando a velha casa de Jake’s Court fora destruída por um incêndio, e es- tava a governar-se muito bem. Ninguém diria, pelas roupas elegantes que usava e pelos seus modos refinados, que fora em tempos dona de um bor- del. Belle suspeitava que também mantinha em segredo o facto de ter uma filha, pelo que era pouco provável que ficasse muito entusiasmada com um neto. Passou a mão pelo ventre e, em silêncio, jurou a si mesma que havia de dar ao filho ou filha todo o amor e afeto que nunca recebera da mãe.

CAPÍTULO 3

B elle abanava-se, com um jornal a fazer de leque. Estava tanto calor dentro da loja que se sentia derreter. Não era a primeira vez, naqueles

últimos dias de calor sufocante, que perguntava a si mesma quem teria de- cidido que as mulheres eram obrigadas a usar tanta roupa. Vestia camisola interior, combinação, cuecas e meias, e por cima disto um saiote com metros de tecido e um vestido justo, de mangas compridas e gola subida. Tudo aquilo estava húmido de suor e doíam-lhe os pés, incha- dos pelo calor, mas pensou que, mesmo assim, podia considerar-se mais feliz do que a maior parte das mulheres, que se julgavam obrigadas a suportar também um espartilho de barbas de baleia. Eram quatro da tarde e não tivera uma única cliente desde as dez da manhã. Mais cedo, tinha passado muita gente a caminho da charneca. A maioria das senhoras levava guarda-sóis, e Belle pensou que se lhe tivesse ocorrido ter alguns em stock poderia ter feito meia dúzia de vendas naquele dia.

Mas estava tudo muito sossegado para uma sexta-feira, talvez um compasso de espera, tendo em vista que a feira abriria essa noite na charneca. No ano anterior, ficara verdadeiramente entusiasmada com o evento; Jimmy levara-a lá no sábado à noite e tinham-se divertido imenso nos balouços, no carrossel e no escorrega, e regressado a casa com um coco e um peixinho-dourado que ele ganhara. Naquele ano, porém, o entusiasmo esfumara-se. Bem podia ser o último fim de semana de agosto, e para toda a gente talvez o fim do verão, mas a erva da charneca estava castanha e coberta de pó devido à falta de chuva. Naquele ano, a concor- rência seria ainda maior, porque as pessoas estavam decididas a

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divertirem-se enquanto podiam, empurrando a guerra para o segundo plano dos seus pensamentos. Desde aquela agitada noite em que tantos jovens se tinham alistado, falara-se muito menos de guerra mas, em contrapartida, crescera o mur- múrio de queixas contra os ricos que estavam a açambarcar comida. Em al- guns casos, tinham deixado lojas completamente vazias, e o que se dizia era que isso ia fazer os preços subir em flecha. Mas Belle vendera muito mais chapéus, porque era cada vez maior o número de namorados que se apressavam a casar. Bem gostaria que ela e Jimmy pudessem ir até à praia no dia seguinte. Seria maravilhoso inspirar a brisa que soprava do mar e fugir durante algu- mas horas ao fedor dos esgotos que a mantinha perpetuamente agoniada. Mas sabia que, com a feira, Jimmy não poderia deixar Garth e Mog sozin-

hos no pub. Aproximou-se da porta aberta da loja, ansiosa por um pouco de ar mais fresco, e encostou-se ao umbral, a perguntar a si mesma, sem pensar muito a sério nisso, se aquela noite seria uma boa altura para falar a Jimmy no bebé. Dois dias antes, fora finalmente consultar o Dr. Towle, em Lee Park, e o médico confirmara-lhe que estava de facto grávida de três meses

e meio. Quase logo a seguir a Mog lhe ter sugerido que talvez estivesse, os

sintomas tinham aparecido. Primeiro, tornara-se cada vez mais sensível a cheiros e deixara de beber chá. Mas agora tinha os seios mais cheios e dor- idos, e o elástico do cós do saiote parecia-lhe mais apertado. De momento, só Mog sabia, e parecia ser de opinião que não era ainda

a melhor altura para dar a notícia a Jimmy ou a Garth. Belle achava que aquilo era a maior tolice que alguma vez ouvira, pois o que poderia ser mais natural do que informar o marido de que ia ter um filho ou uma filha? Mas já reparara que as mulheres da terra nunca falavam de gravidez, e com receio de cometer uma gafe social, guardara para si a novidade, até mais ver.

Um jovem casal subia a rua. A rapariga, provavelmente mais nova do que ela, pequena e magra, usava um vestido rosa-pálido, com folhos nas mangas e na saia. Dava o braço a um homem poucos anos mais velho, que, com o seu sóbrio fato escuro e colarinho engomado, tinha todo o ar de ser funcionário de um banco. O rapaz falava e a rapariga olhava para ele,

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embevecida, pendente de cada uma das suas palavras. Dado que parecia demasiado jovem para ser casada, era invulgar o facto de não haver nin- guém a acompanhá-los para servir de pau de cabeleira. Intimamente, Belle achava ridículo que um rapaz e uma rapariga não pudessem passear juntos sem provocar falatório, mas as coisas eram o que eram, e ali era assim. Quando ela e Mog tinham ido viver para Blackheath, não havia tido outro remédio senão aceitar aqueles peculiares e limitadores costumes, sob pena de não se integrarem na comunidade e tornarem-se alvo de coscuvil- hices. Belle conformara-se às regras, mas lá no fundo sentia-se superior porque sabia muito mais a respeito de homens e da vida em geral do que qualquer das mulheres afetadas para as quais fazia chapéus. Agora que ia ser mãe, no entanto, aquele conhecimento do mundo deixava-a um pouco triste e preocupada. Como poderia criar uma filha de modo a ser casta, ensinar-lhe que devia obedecer ao marido e a todas as in- úmeras regras de etiqueta para que pudesse integrar-se numa sociedade re- quintada quando ela própria violara todas essas regras? Ficou a observar o jovem casal até o ver desaparecer na esquina a caminho da charneca, e então olhou para o lado esquerdo, a considerar a possibilidade de fechar a loja e ir para casa, uma vez que a povoação pare- cia deserta. Mais ao fundo da rua formara-se uma bruma de calor que mais parecia uma poça de água. Perguntou a si mesma se aquilo seria uma miragem, porque ouvira dizer que, nos desertos, as pessoas viam muitas vezes água onde ela na verdade não existia. De súbito, um grito estridente e o som ribombante das rodas de uma carruagem arrancaram-na ao seu devaneio. Olhou de novo para a direita e viu uma pequena carruagem puxada por dois cavalos castanhos deter-se bruscamente quando o cocheiro puxou as rédeas. No chão, diante das patas dos cavalos, jazia, enrodilhada, uma mul- her. O cocheiro devia vir a uma boa velocidade, e, ao que parecia, a mulher atravessara-se-lhe no caminho. Enquanto Belle corria para ajudar, o cocheiro saltou da boleia. – Atravessou a rua sem sequer olhar. Podia tê-la atropelado – arquejou o homem, lívido de susto. – Fez bem em parar – disse Belle, e ajoelhou-se ao lado da mulher.

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O chapéu tinha caído e o cabelo tapava-lhe o rosto. Belle afastou-o

cuidadosamente para trás, meio à espera de ver uma horrível ferida, se o

casco de um dos cavalos tivesse chegado a atingi-la. Mas não havia

sangue, apenas um arranhão na testa, que parecia causado pela pancada no chão. Se tinha tropeçado e ficado inconsciente em consequência da queda ou se tinha desmaiado era algo que Belle não tinha modo de saber, uma vez que não vira o que acontecera. A mulher era jovem, talvez com pouco mais de vinte anos, e vestia um elegante vestido azul-pálido.

– Consegue ouvir-me? – perguntou Belle enquanto passava rapida-

mente os olhos pelo corpo da desconhecida, à procura de qualquer coisa que pudesse sugerir outros ferimentos.

As pálpebras da mulher estremeceram e abriram-se.

– Que aconteceu? – perguntou, numa voz fraca e pouco nítida.

– Penso que deve ter desmaiado, e teve muita sorte por não ter sido at-

ropelada pela carruagem – explicou Belle. – Consegue mexer os braços e as pernas?

A mulher olhou para ela com uma expressão vaga, claramente em

choque.

Belle virou a cabeça para olhar para o cocheiro, um homenzinho baixo e anafado que envergava uma libré verde e torcia as mãos, parecendo tão em estado de choque como a mulher caída.

– Chegou a atingi-la? – perguntou.

– Não sei – respondeu o homem. – Saiu de repente do passeio e

quando lhe gritei caiu como uma pedra. Puxei as rédeas com tanta força que só me admira os cavalos não se terem empinado. Pode ter sido at-

ingida por um casco, mas eu estava tão perto que não via nada para lá dos cavalos. Mas a culpa não foi minha.

– Não, claro que não – disse Belle, e puxou o vestido da mulher de

modo a tapar-lhe as pernas. – Não há sangue, e ela parece mais aturdida do que ferida. Penso que desmaiou. Entretanto, tinha-se juntado um pequeno grupo de pessoas, e apesar de saber que não se deve mover uma pessoa ferida, Belle não podia deixar a mulher caída no meio da rua. Viu um homem corpulento, de cabelo escuro, entre os espetadores, e chamou-o com um gesto da mão.

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– Importa-se de me ajudar a levá-la para a minha loja? – pediu. – Posso chamar o médico de lá.

– Eu estou bem – disse a mulher, com uma voz trémula. – Pode só ajudar-me a pôr-me de pé?

O homem avançou, inclinou-se e levantou a mulher do chão como se

ela não pesasse nada. Belle apanhou o chapéu azul que ficara caído e apon- tou para a loja.

– Também parece muito abalado – disse, dirigindo-se ao cocheiro. – Quer vir connosco? Preparo-lhe uma chávena de chá.

– É muita bondade sua, menina – respondeu o homem –, mas tenho de

ir buscar a minha senhora.

Belle já aprendera, no tempo passado em Blackheath, que os criados tinham muitas vezes receio de desagradar aos patrões.

– Se tem a certeza de que está bem – concordou Belle. – A jovem sen- hora não corre perigo, eu trato dela. Quando chegou à loja, o homem que se prestara a ajudar estava a

pousar a desconhecida numa cadeira. Belle agradeceu-lhe antes de ele sair

e voltou-se para a mulher ferida.

– Chamo-me Belle Reilly – disse. – Consegue dizer-me o seu nome?

– Miranda Forbes-Alton – respondeu a mulher, e deixou-se cair para

trás na cadeira. Estava muito pálida, e tinha o arranhão na testa sujo de

terra. Por qualquer razão, o nome Forbes-Alton pareceu familiar a Belle, mas não conseguia situá-lo nas suas recordações.

– Muito bem, Miss Forbes-Alton – disse, num tom cheio de firmeza. – Vou fechar a porta da loja e lavar-lhe a testa.

O instinto dizia-lhe que a mulher se encontrava ainda em estado de

choque e que isso poderia fazê-la vomitar, e não queria público. Fechou a

porta da loja e baixou as persianas.

A primeira coisa que fez foi dar-lhe água para beber. Esperou um pou-

co, para se certificar de que não ia vomitar, e só então foi buscar uma bacia com água e um pano limpo para lhe lavar a testa.

– Estava um calor horrível e eu vinha a subir a rua – explicou Miss

Forbes-Alton enquanto Belle lhe limpava a ferida com gestos cuidadosos.

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– Estava a pensar que precisava de beber água, mas não me lembro de nada depois disso. Como fui parar ao meio da rua?

– Penso que desmaiou – respondeu Belle. – Já alguma vez lhe tinha

acontecido?

– Só quando estava no colégio – disse Miranda, e fez uma careta

quando Belle removeu da ferida uma pequena pedra. – Aconteceu-me vári-

as vezes quando tínhamos de tomar a comunhão antes do pequeno-almoço.

A carruagem atingiu-me?

– Julgo que não – respondeu Belle. – Doem-lhe os braços ou as

pernas?

Miranda passou uma mão pelas pernas, por baixo do vestido.

– Não, só a cabeça.

– Foi uma sorte o cocheiro ter conseguido parar a tempo. Disse que

saiu do passeio e caiu mesmo à frente dele. Se aqueles cavalos a tivessem atingido, podia ter sido muito grave. Uma vez limpa a ferida, Belle dirigiu-se à sala das traseiras e pôs a

chaleira ao lume. Enquanto esperava que a água fervesse, olhou pela porta

e estudou a mulher um pouco mais atentamente. Apesar de estar aturdida e

abalada, era óbvio pela voz, pelas maneiras e pelas roupas que pertencia à classe alta. Só os elegantes sapatos bege que calçava tinham de certeza custado mais dinheiro do que o mais caro dos chapéus que tinha na loja, e

o vestido azul era de seda autêntica.

– Sempre admirei a sua loja – disse Miranda com uma voz muito mais

forte, que surpreendeu Belle. Tinha aquela maneira nítida e precisa de falar que era característica da sua classe. – Alguém disse à minha mãe que é francesa, mas não é, pois não?

– Não, mas aprendi chapelaria em Paris – respondeu Belle. – Vive aqui

perto?

– Sim, no Paragon. A mamã comprou-lhe um chapéu quando abriu a

loja. É o preferido dela, veludo púrpura com enfeites de violetas à volta da

aba.

De repente, Belle soube por que razão o nome Forbes-Alton lhe pare- cera familiar. Era o de uma senhora muito empertigada que exigira que o chapéu que acabava de comprar lhe fosse levado a casa. Belle só con- cordara por ser o seu primeiro dia, e quando fora entregar o chapéu ao fim

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da tarde, o mordomo recebera-o e fechara-lhe a porta na cara sem sequer uma palavra de agradecimento pelo incómodo. A casa era uma mansão magnífica, mas a verdade era que todo o Par-

agon, um conjunto de casas georgianas de três pisos ligadas por colunatas, era magnífico, de certeza a área mais rica de Blackheath.

– Lembro-me da sua mãe – disse. – Fui entregar o chapéu a vossa casa

no Paragon. Há de estar preocupada consigo, menina. Quer que telefone para vir alguém buscá-la? Belle tinha telefone instalado há duas ou três semanas apenas. O dono da loja de vestidos, um pouco mais abaixo na rua, dissera-lhe que era de toda a conveniência ter um, pois as senhoras ricas gostavam de marcar, para irem escolher um vestido ou um chapéu, a uma hora em que fossem as únicas clientes. Até então, Belle sempre considerara o telefone uma

moda que nunca pegaria junto das pessoas vulgares. Mas estava desejosa de atrair uma clientela mais abastada, pelo que decidira experimentar. Desde que o mandara instalar, já tinha recebido vários pedidos de inform- ação, e era agradável poder encomendar os materiais para os seus chapéus sem ser obrigada a deslocar-se aos armazéns. Estava agora convencida de que, dentro de poucos anos, todas as empresas e muitas casas particulares teriam um.

– Por favor, trate-me por Miranda. E não, não quero que telefone seja a

quem for. Mais um ou dois minutos e fico ótima. Belle fez o chá, deitando uma porção extra de açúcar no de Miranda, e insistiu com ela para que comesse também alguns biscoitos. Miranda con-

tinuava muito pálida, mas Belle já reparara que a maior parte das mulheres da classe dela tinham aquele aspeto quase cadavérico.

– Não vou deixá-la ir para casa sozinha – afirmou, enquanto entregava

a Miranda a chávena de chá. – Vou acompanhá-la e vou aconselhar a sua

mãe a chamar um médico. Sei que hoje está muito calor, mas isso não de- via ser razão para a fazer desmaiar. Miranda abriu muito os olhos, horrorizada.

– Não! Não preciso de companhia nem de médico – disse, com a agit-

ação a fazer-lhe subir o tom da voz. Belle ficou imediatamente desconfiada. A maior parte das pessoas ficaria grata por ter ajuda e apoio, se tivesse passado por uma situação de

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que poderiam ter resultado ferimentos graves ou até mesmo a morte. E se a mãe de Miranda não era sequer capaz de levar para casa uma chapeleira, dificilmente poderia ter criado uma filha que fosse independente.

– Poderá ser por ter feito hoje qualquer coisa que não quer que a sua família saiba? – perguntou, num tom jovial.

– É franca ao ponto de roçar a má-educação – replicou Miranda,

empinando o seu fino e aristocrático nariz. – Agradeço ter-me ajudado,

mas isso não lhe dá o direito de me interrogar. Belle encolheu os ombros. Tudo indicava que Miranda era tão pedante

e pomposa como a mãe. Calculou que tinha sido educada na convicção de

que as pessoas «do comércio» tinham por obrigação fazer vénias às classes

superiores.

– Acredito que qualquer mulher estenderia uma mão amiga a outra que

lhe parecesse ter um problema. Deduzo pela sua suscetibilidade que sabe exatamente porque foi que desmaiou e receia que, se eu a acompanhar a casa, a sua mãe insista em chamar um médico. Belle estava, por assim dizer, a atirar o barro à parede, mas quando viu

a expressão de alarme no rosto de Miranda soube que tinha tocado num

ponto sensível. Talvez tenha sido o facto de, naquelas últimas semanas, se ter sentido tantas vezes zonza. Houvera até um par de ocasiões em que julgara ir des- maiar. E Miranda não usava uma aliança de casamento no dedo, nem se- quer um anel de noivado. Seria esse o género de problema que a afligia? Tinha perfeita consciência de que poderia facilmente ofender a jovem,

o que não deixaria de ter graves consequências para o seu negócio. Mas

não estava na sua natureza virar a cara quando o instinto lhe dizia que al- guém precisava de ajuda, de modo que se aproximou dela e ajoelhou-se junto da cadeira.

– Vai ter um bebé? – perguntou em voz baixa. – Pode dizer-me que me

meta na minha vida, se quiser; mas se está, vai precisar de falar com al-

guém. Pode confiar em mim, não direi uma palavra seja a quem for. Miranda não precisou de responder. As lágrimas subiram-lhe aos olhos

e ela escondeu a cara nas mãos, esquecida toda a altivez.

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Belle sentiu uma enorme vaga de compaixão crescer-lhe no peito. Conhecia o bastante a respeito da alta sociedade para saber que um filho nascido fora do matrimónio causaria um escândalo tremendo.

– Não pode casar rapidamente? – perguntou, ao mesmo tempo que ab-

raçava Miranda para a confortar.

– Ele já é casado – soluçou Miranda. – Eu não sabia, quando aconte-

ceu. Mas isso já não importa porque hoje fui ver uma mulher e ela resolveu

o problema. Belle sentiu o estômago contorcer-se-lhe. Uma das raparigas do

Martha’s, em Nova Orleães, tinha procurado uma mulher que «resolvera»

o problema da sua gravidez indesejada. Sabia o que isso implicava.

– Foi ver essa mulher hoje? Ela fê-lo com água e sabão e um duche?

Miranda confirmou com um gesto da cabeça.

– Pensei que sairia enquanto estava lá, mas ela disse-me que fosse para

casa e que aconteceria dentro de algumas horas. Quando ia a subir a rua vinda da estação, senti-me tonta e a única coisa de que me lembro depois

disso é de vê-la a meu lado. Belle adivinhou que Miranda era suficientemente ingénua para acredit-

ar que abortar uma gravidez no seu início era um processo simples e indol- or. Como era evidente, a aborcionista não a esclarecera, com medo de per- der o pagamento.

– Como se sente agora? – perguntou, pousando uma mão no ventre de

Miranda. A jovem era muito esbelta, mas apesar disso usava um espartilho

apertado.

– Tenho uma dor aguda – disse Miranda.

Belle inspirou fundo, para se acalmar. Sabia que o mais sensato seria deixar Miranda ir para casa, como ela já tinha planeado; ao fim e ao cabo, a jovem aristocrata não lhe era nada. Mas

duvidava que Miranda fizesse a mínima ideia de como as dores iam ser vi- olentas, ou que muito provavelmente perderia uma grande quantidade de sangue. Escondida no seu quarto, era duvidoso que conseguisse aguentar tudo aquilo sem gritar. E com uma casa cheia de criados, e uma mãe tirân- ica, o seu segredo seria revelado e ela ficaria arruinada para sempre. Não conseguia suportar a ideia de qualquer mulher ter de enfrentar sozinha um tal tormento.

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– Não tem uma amiga em cuja casa possa passar esta noite? – perguntou. Miranda olhou para ela, confusa.

– Porque havia de querer fazer semelhante coisa?

Belle suspirou, a perguntar-se como era possível alguém ser tão

estúpido.

– Porque pode precisar de ajuda. Não é uma coisa bonita – disse.

Os olhos azul-claros de Miranda abriram-se muito, de horror.

– Então não posso procurar ninguém que conheça. Ficariam todos es-

candalizados. Que vou eu fazer? Está a assustar-me. Belle pegou na mão de Miranda e estudou-a. Não era exatamente bon- ita, tinha um nariz demasiado afilado e uns lábios finos de mais, mas havia nela qualquer coisa de muito atraente, mesmo com aqueles olhos avermel-

hados pelas lágrimas. Recordou todos os apertos em que ela própria já se vira metida. Arranjara maneira de sair da maior parte deles sem ajuda, e a experiência tornara-a mais forte. Mas não conseguia decidir-se a deixar aquela rapariga perder tudo mandando-a para casa. Adivinhava que a mãe era do género de a repudiar se ela a envergonhasse.

– Pode ficar aqui – disse, impulsivamente.

– Aqui?

Miranda olhou em redor, como que confundida pela sugestão.

– Não quis dizer aqui na loja – apressou-se Belle a explicar. – Referia-

me à sala das traseiras. Posso instalá-la lá com algum conforto. Há água e

uma casa de banho no pátio. Ficarei a tomar conta de si. Mas tem de tele- fonar para casa e arranjar uma desculpa qualquer.

– Faria isso por mim? – Os olhos de Miranda voltaram a encher-se de

lágrimas. – Mas não me conhece! E, além disso, é casada. O seu marido há de estar à espera de que vá para casa.

Belle sabia que Jimmy ficaria horrorizado por ela se ter envolvido, mas não fazia tenção de lhe dizer fosse o que fosse, pelo menos enquanto não estivesse tudo acabado. Falaria com Mog e recorreria à ajuda dela.

– Vou ser franca. Não quero isto – disse, com toda a simplicidade. –

Mas também não quero ter na consciência o que aconteceria se a mandasse para casa sem ninguém para a ajudar. A sua reputação ficaria destruída se

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isto se soubesse. Conheço a sua mãe, lembra-se? Não estou a vê-la a ser muito bondosa para consigo.

– Porque é que se importa?

– Digamos que é porque passei por alguns tempos difíceis no passado. Ora bem, em casa de quem pode dizer à sua mãe que vai ficar?

– Esta manhã disse-lhe que ia visitar uma amiga que mora em Bel- gravia. Por vezes passo a noite em casa dela.

– O telefone está ali – disse Belle. – Use-o.

Voltou à sala das traseiras enquanto Miranda pedia à telefonista da central que estabelecesse a ligação. Só esperava que não fosse possível a Mrs. Forbes-Alton descobrir que o telefonema fora feito de Blackheath e não de Belgravia. A sala das traseiras tinha a mesma largura que a loja, mas era menos

funda, e, num dos extremos, uma porta abria para um pequeno pátio murado, onde ficava a casa de banho. No lado esquerdo havia prateleiras até ao teto, cheias de caixas de aplicações, tela e rolos de feltro. Por baixo ficava a bancada de trabalho, com os blocos e a máquina de vapor para dar forma aos chapéus. À direita, passada a porta, havia um lavatório, um fo- gão a gás e um pequeno fogão a lenha que Belle costumava acender nos di- as mais frios. Se mudasse a pequena mesa para o outro lado, para junto da bancada de trabalho, poderia improvisar no chão uma espécie de cama. Felizmente, tinha várias almofadas, que levara de Seven Dials com a intenção lhes fazer fronhas novas. Havia também um lençol, já velho mas limpo, que servira para proteger do pó móveis e materiais aquando das obras que fizera na loja. Ouvia Miranda a falar ao telefone. Ao que parecia, a mãe não se en- contrava em casa e ela estava a deixar recado a um dos criados. O calor era intenso, pelo que Belle abriu a porta que dava para o pátio e correu a cor- tina de contas para impedir as moscas de entrarem, e em seguida dispôs as almofadas no chão e cobriu-as com o lençol.

– A mamã e o papá saíram e só estarão em casa ao fim da tarde – disse

Miranda, atrás dela. Quando se voltou, Belle viu-a parada no umbral, a ol- har com uma expressão ansiosa para a cama improvisada. – Ainda bem,

porque o mais certo era a mamã ter-me interrogado durante horas.

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– Ótimo. Agora vou ter de deixá-la sozinha por um instante enquanto

dou um pulo a casa – respondeu Belle. Bem via que Miranda começava a ficar assustada, agora que sabia que não ia ser tão simples como esperara.

Mas não podia fazer outra coisa. Tinha de ir a casa dar uma desculpa qualquer para passar a noite fora, e precisava ainda de munir-se de lençóis lavados, toalhas e outras coisas. – Não se assuste, não demoro nada. Porque é que não despe o vestido e o espartilho? Ficará muito mais con- fortável, e eu trago-lhe uma das minhas camisas de noite para vestir. Saiu pelo portão do pátio, que dava acesso a um beco estreito, depois de avisar Miranda de que regressaria pelo mesmo caminho. Enquanto cam- inhava em direção a casa, ia fazendo mentalmente a lista das coisas de que precisaria, ao mesmo tempo que tentava pensar no que diria a Jimmy. A sorte esteve com ela. Encontrou Mog sozinha na cozinha, a fazer um bolo. Jimmy e Garth tinham ido a Lewisham encomendar cadeiras novas para o pub. Belle era incapaz de mentir a Mog, de modo que despejou toda a ver- dade a respeito de Miranda.

– Já sei o que vais dizer – disse, quando acabou. – Devia tê-la

mandado para casa e não me ter envolvido, mas não fui capaz, Mog. Mog parecia fulminada e não disse nada por um momento. Belle quase conseguia ver as emoções contraditórias que se debatiam dentro dela. Por fim, fez um gesto com as mãos, como que a aceitar que Belle não tivera outro remédio senão ajudar a rapariga.

– Acho que teria feito o mesmo. Mas, Belle, estas coisas podem dar

para o torto. Já ouvi falar de mulheres que morreram. Prometes-me que se alguma coisa correr mal, se ela começar a ter febre, chamas o médico?

– Claro – respondeu Belle. Já tinha inventado uma pequena história

para uma emergência: diria que o quase-acidente com a carruagem provo- cara em Miranda o início de um aborto e que lhe parecera melhor para ela ficar na loja do que tentar chegar a casa. Foi bem típico de Mog não perder tempo com mais sermões. Em vez disso, correu escadas acima e juntou lençóis, um par de toalhas, uma manta e alguns panos limpos para estancar a hemorragia. Voltou a descer num in- stante, ainda antes de Belle ter acabado de comer uma sanduíche feita à pressa.

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Mog trazia também um medicamento num frasco castanho.

– Dá-lhe uma ou duas colheres de chá disto de três em três ou quatro

em quatro horas. Vai aliviar as dores e ajudar a controlar a temperatura –

disse. – Vou dizer ao Jimmy que foste para casa da Lisette porque o Noah está fora e ela ficou sozinha. Ele vai achar normal, estando ela à espera de bebé, e tudo isso. Mas não te esqueças de falar com a Lisette, não vá ela deixar o gato fugir do saco. Belle subiu ao quarto para ir buscar umas coisas e quando voltou en- controu Mog a enfiar lençóis, toalhas e panos num pequeno saco de viagem. Um outro, mais pequeno, continha um frasco de sopa para aque- cer, algumas fatias de tarte de maçã e uma pequena garrafa de brandy.

– Só para o caso de terem fome – disse, tirando as coisas das mãos de

Belle e guardando-as no saco de viagem. – E o brandy com leite quente

poderá ajudar a acalmá-la, depois. Belle passou os braços à volta dela e abraçou-a com força.

– És um amor de pessoa – disse. – Obrigada por não estares zangada comigo. Mog afastou-se, mas segurou os braços de Belle e olhou-a bem no fundo dos olhos.

– Como poderia zangar-me contigo por teres bom coração? – pergun-

tou. – Passo lá pela loja amanhã de manhã, antes de os homens se levantarem. Mantém-na limpa e ferve água para a lavar por baixo. É provável que vomite quando finalmente acontecer, não te assustes. Mas se

perder os sentidos ou se houver uma hemorragia muito forte, chama imedi- atamente o médico, diga ela o que disser. Belle percebeu que Mog já devia ter ajudado outras raparigas a passar por aquela situação. Mais uma parte do seu passado que nunca revelara.

– Está bem – respondeu, subitamente assustada pelas potenciais con-

sequências daquilo em que se metera. Mog voltou a abraçá-la.

– Estarei contigo em espírito, já que não posso estar em pessoa. Agora vai, antes que o Jimmy regresse.

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Miranda estava sentada num banco junto à porta aberta das traseiras quando Belle entrou, atrapalhada pelos dois sacos, pelo portão do pátio. Continuava vestida e tinha o rosto cinzento de ansiedade.

– Está tanto calor – lamuriou-se. – E dói-me a barriga.

– É bom sinal – disse Belle, vivamente. – Quer dizer que está a

começar a acontecer. Porque foi que não despiu o vestido?

– Não consegui desapertar os botões – respondeu Miranda. – Em casa

temos uma criada que trata disso.

– Bem, aqui não há criadas – disse Belle e, pousando os sacos, obrigou

Miranda a voltar-se e desabotoou-lhe o vestido. O espartilho por baixo da camisa estava apertado com tanta força que era quase um milagre ela con- seguir respirar. Belle desapertou rapidamente os atilhos. – Dispa o resto – acrescentou, enquanto procurava no saco de viagem a camisa de noite que

levara para ela. Miranda voltou-se enquanto despia a combinação e a camisa, e Belle fez uma careta ao ver os vergões vermelhos que o espartilho lhe deixara na pele nua das costas e da cintura. Enfiou a camisa de noite pela cabeça de Miranda e disse-lhe que tirasse também as cuecas e as meias.

– Vou aquecer água para se lavar como deve ser aí em baixo – disse. – Mas, para já, continue sentada enquanto eu faço a cama.

Às nove já era de noite e ficara muito mais fresco. Miranda estava

deitada na cama, agora feita com lençóis lavados, e Belle tinha ido buscar uma das cadeiras da loja para se sentar. Miranda comera um pouco de pão

e sopa e parecia mais relaxada, e só com a luz que Belle usava na bancada de trabalho acesa, a sala tinha um aspeto quase acolhedor.

– Fale-me do homem – disse Belle. Via que Miranda estava a ter dores

a intervalos regulares, mas até ao momento, segundo ela, nada pior do que

as da menstruação. – É alguém que a sua família conheça? Miranda já lhe contara que tinha dois irmãos mais velhos, casados e com as suas próprias casas, e uma irmã mais nova, Amy, de vinte anos e noiva de um solicitador. Quanto a ela, Miranda, tinha vinte e três. Quando Belle lhe perguntara o que fazia o pai, parecera surpreendida.

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– Fazer? – perguntara. – Gere a propriedade no Sussex, claro. Era isso

que queria dizer? Belle deduzira então que Mr. Forbes-Alton herdara a fortuna e tudo o

que tinha de fazer era manter debaixo de olho os que trabalhavam na sua propriedade rural e lhe proporcionavam o dinheiro com que mantinha uma luxuosa mansão em Londres. Segundo Miranda, tinham regressado re- centemente de um mês passado no Sussex. Dissera que vivera aterrorizada pela ideia de a mãe querer ficar mais tempo, pois sabia que tinha de fazer o aborto o mais depressa possível.

– Não, a minha família não o conhece – disse. – Conheci-o em Green-

wich Park, na primavera. Tinha ido passear sozinha, e escorreguei na lama. Ele ajudou-me a levantar, mas como tinha magoado o tornozelo, ofereceu- se para me levar a casa. Foi tão encantador, divertido, interessante e aten-

cioso. Há já alguns anos que os meus pais andam a tentar casar-me, mas os cavalheiros que eles consideram adequados são sempre tão aborrecidos e sérios.

– E imagino que também não devia ter ido passear sozinha – sugeriu

Belle. Miranda esboçou um meio sorriso.

– Não. A mamã teria ficado furiosa se soubesse. E também não podia

convidar o Frank a ir visitar-me, uma vez que não tínhamos sido apresenta-

dos por familiares ou amigos. Por isso, começámos a encontrar-nos em se- gredo logo desde o princípio. Belle calculou que Frank devia ser um perfeito patife. Aproveitara-se de Miranda sabendo perfeitamente que, não podendo ela convidá-lo para conhecer os pais, estava à vontade para inventar a patranha que quisesse sem receio de ser desmascarado.

– O que foi que ele lhe contou a respeito de si mesmo? – perguntou.

– Muito pouco. Que havia para contar? Um cavalheiro com meios de

fortuna. – Miranda encolheu os ombros. – Vestia bem, e disse que vivia

em Westminster.

– Onde ia com ele?

– Íamos sobretudo passear, quase sempre para os lados de Greenwich,

porque eu não podia correr o risco de alguém de Blackheath nos ver juntos. Por vezes apanhávamos um dos barcos que sobem o rio e íamos almoçar.

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Só podia estar com ele uma vez por semana, ou a minha ausência seria notada.

– O que estava a perguntar era aonde foi que ele a levou para a seduzir – disse Belle. Miranda corou.

– A um quarto em Greenwich.

Belle abanou a cabeça.

– E isso não pareceu estranho, depois de ele dizer que vivia em

Westminster?

– Disse que os criados poderiam falar. Por essa altura, eu estava tão apaixonada que teria ido com ele para qualquer lado.

– E quando foi que ele lhe disse que era casado?

– Quando eu lhe disse que achava que talvez estivesse grávida. – Os

olhos de Miranda voltaram a encher-se de lágrimas. – Estava sinceramente à espera de que ele me dissesse para eu não me preocupar, que casaríamos imediatamente. Mas ele nem sequer olhou para mim. Estávamos numa casa de chá, e ele olhou pela janela e disse: «Nesse caso, tens um prob- lema.» Nem sequer foi «temos» um problema. Comecei a chorar, e percebi que isso o irritava. Saímos da casa de chá e ele disse que eu sempre soubera que ele era casado.

– Muito habilidoso, para dar a entender que a culpa era sua! – exclam- ou Belle. – Que patife! Miranda suspirou e fez uma careta ao sentir uma pontada de dor mais forte.

– Combinávamos sempre o próximo encontro. Quando me disse que

nos encontraríamos à hora do costume no roseiral de Greenwich Park, na semana seguinte, tive a esperança de que, com tempo para pensar, ele con- seguisse encontrar uma solução. Despediu-se de mim com um beijo junto

ao Colégio Naval, em Greenwich, com a mesma ternura de sempre. Mas foi a última vez que o vi.

– E suponho que não tem maneira de contactar com ele?

Miranda abanou a cabeça.

– Não tinha uma morada, nada senão pequenas histórias a respeito de

pessoas que, desconfio agora, o mais certo é nem sequer serem verdadeir- as. Fui à casa de chá onde costumávamos ir, em Greenwich, e perguntei à

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rapariga que servia ao balcão se o tinha visto, mas ela respondeu-me que ele só lá ia comigo. Que mais podia eu fazer? Já tinha ido à casa onde ele me levou algumas vezes e que me tinha dito ser de um amigo, mas quando falei com uma pessoa de lá fiquei a saber que era um lugar onde arren- davam quartos à hora. Belle pegou na mão de Miranda e apertou-lha. Calculava que descobrir que tinha sido usada como uma prostituta, e sem sequer ser paga, fosse a pior das humilhações.

– Depois desta noite, deve pôr tudo isso para trás das costas – disse,

docemente. – A maior parte das pessoas tem no passado qualquer coisa de que se envergonha. Mas a sua única culpa é ter sido um pouco ingénua. O

mau foi ele, ao fingir que a amava.

– Essa é a parte que mais magoa – disse Miranda. – Amava-o muito,

arrisquei tudo para estar com ele. Como pode alguém fazer uma coisa as- sim a outra pessoa?

– Acho que há pessoas que já nascem más – disse Belle. – Estou con-

vencida de que é useiro e vezeiro nestes truques, mas ao menos não tentou sacar-lhe dinheiro.

Miranda fez um ar envergonhado.

– Dei-lhe cinquenta libras, uma vez – confessou. – Foi duas semanas

antes de lhe dizer que achava que talvez estivesse grávida. Ele andava a

dizer-me há já algum tempo que sabia de um terreno nos arredores de Lon- dres que era ótimo para construir. Até me mostrou alguns desenhos de pequenas moradias, perfeitas para jovens casais que quisessem uma casa

no campo, não muito cara e que lhes permitisse deslocarem-se à cidade to- dos os dias para trabalhar. Belle adivinhou o que se ia seguir.

– Suponho que lhe disse que tinha todos os seus fundos aplicados e que precisava de dinheiro vivo para segurar o terreno. Miranda olhou para ela, espantada.

– Como é que sabe?

– Instinto – disse Belle. – E a Miranda ofereceu-se para lhe emprestar as suas poupanças.

– Ele queria cem, mas eu não tinha tanto dinheiro. Prometeu devolver- mas logo que vendesse os primeiros lotes.

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Belle sentiu um nó de fúria no estômago face a tanta baixeza.

– Detesto dizer-lhe isto, Miranda, mas penso que tem de enfrentar o

facto de que obter dinheiro de si foi a intenção dele a partir do momento

em que soube onde vivia – disse. – As boas roupas, os modos e até o lugar onde a encontrou indicam que andava ativamente à procura de alguém para enganar. É obviamente um trapaceiro profissional.

– Não acredita então que seja casado?

Miranda fez a pergunta com tanta esperança nos olhos que Belle quase

riu ante o espetáculo de tamanha estupidez. A perda do dinheiro e o facto de aquele homem não ter comparecido ao encontro combinado pareciam não ser, para Miranda, prova bastante de que se tratava de um aldrabão; continuava a preferir acreditar que ele a deixara por ser casado.

– Talvez seja, com alguma mulher tão ingénua como a Miranda – re-

spondeu. – Mas o mais provável é que tenha uma fila de mulheres de uma ponta à outra de Londres, todas apaixonadas por ele, a sustentá-lo e con- vencidas de que são o seu único e verdadeiro amor. Belle ouvira muitas vezes Jimmy e Garth falarem de homens que tin- ham conhecido em Seven Dials e que ganhavam a vida a enganar mul- heres. Mog costumava dizer que enquanto as mulheres não acordassem, conquistassem o direito de votar e exigissem uma sociedade que não fosse governada só pelos homens e para os homens, haveria sempre um lugar onde os patifes e aldrabões se poderiam esconder.

– Como foi que soube da mulher que a «ajudou»? – quis saber. Não

conseguia imaginar como teria alguém do nível social de Miranda entrado em contacto com uma tal pessoa.

– Através de uma mulher da casa de Greenwich – respondeu Miranda.

– Comecei a chorar quando o homem que manda naquele lugar me tratou mal e disse que não conhecia o Frank. Ela veio atrás de mim e perguntou

se podia ajudar. Eu estava tão perturbada, e ela foi tão bondosa, que lhe falei do bebé, e então ela deu-me a morada em Bermondsey. Belle assentiu. Calculou que a mulher em causa era uma prostituta, uma prostituta com bom coração. Por vezes, pensava que as únicas mul- heres com bom coração eram mulheres caídas.

– O sítio onde me mandou era horrível – continuou Miranda. – Nunca

tinha visto uma coisa assim. Havia crianças sujas e esfarrapadas por todo o

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lado, portas e janelas partidas, e a porcaria era tanta e cheirava tão mal que eu só queria dar meia-volta e fugir dali. Mas não podia, tinha de ir até ao fim.

Belle conseguia imaginar o género de lugar, um pardieiro decrépito e sobrelotado como os que havia em Seven Dials.

– Foi muito corajosa. Mas se conseguiu aguentar aquilo, consegue aguentar seja o que for. Diga-me, como se sente agora?

– Acho que comecei a perder um pouco de sangue – respondeu Mir-

anda, vermelha como um tomate por ter de revelar algo tão íntimo.

– Deite-se para trás e deixe-me ver – disse Belle. – Não tenha ver-

gonha. Não tem nada que eu não tenha. Faça de conta que sou uma enfermeira. Miranda estava a sangrar um pouco, mas era sobretudo a água com sabão que a mulher tinha usado. Uma das raparigas de Nova Orleães que passara por aquela experiência explicara a Belle que o processo consistia em abrir a extremidade fechada do útero e despejar água com sabão lá para dentro. A mistura funcionava como um irritante e provocava o aborto. Era melhor não pensar muito em que espécie de instrumento era usado para ab- rir a extremidade do útero. Belle lavou Miranda e estendeu um pano lavado por baixo dela. Sentiu que já não faltava muito e deu-lhe uma dose do remédio que Mog tinha

fornecido. Era quase uma da manhã quando as dores de Miranda se tornaram ver- dadeiramente intensas. Belle adivinhava-lhes a violência pelo suor que lhe alagava a testa e pela maneira como arqueava as costas e contorcia o rosto. Mas não gritou. Só agarrou com muita força a mão de Belle. Às duas e meia, a própria Belle estava exausta e perguntava a si mesma durante quanto tempo conseguiria alguém suportar dores tão terríveis.

– Está a ser muito corajosa – disse, enquanto voltava a lavar a cara de

Miranda com água fria. A infeliz contorcia-se com dores e mordia o lábio inferior para não gritar. Quando teve o primeiro vómito, Belle pegou rapidamente numa bacia e colocou-lha diante da boca, mas com a mão livre puxou o lençol para baixo e olhou. Havia muito sangue fresco, e quando Miranda voltou a

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vomitar, houve como que uma golfada de qualquer coisa semelhante a ped- aços de fígado. Saber o que aquilo era fez com que Belle tivesse vontade de vomitar também.

– É essa coisa? – arquejou Miranda.

Belle retirou os panos ensanguentados e substituiu-os por outros limpos. Não queria olhar de muito perto, mas sentiu que devia fazê-lo antes de deitar aquilo num balde. Havia qualquer coisa branca e com a forma de um girino, e sabendo que devia ser o bebé, não conseguiu

impedir-se de chorar. Era ainda mais perturbador pensar que trazia no seu próprio útero um bebé que seria desejado e amado, enquanto aquela pobre

e minúscula criatura tinha de ser destruída.

– Sim, é essa coisa – conseguiu dizer por entre as lágrimas. – Já não tem dores?

– Não, estou só dorida – murmurou Miranda, numa voz rouca. – O que

teria feito eu sem a sua ajuda? Belle esperava não ter de voltar a ver uma coisa tão horrível nem que vivesse cem anos. Amaldiçoou silenciosamente Frank, desejou que ele pudesse ver o que a sua ganância e a sua maldade tinham feito naquela

noite, e que sofresse por isso. Voltou a lavar Miranda e tapou-a com o lençol.

– Da próxima vez que conhecer um homem, traga-mo para eu o sondar

– murmurou, e beijou-a na testa. – Agora vou preparar-lhe um copo de leite quente com um pouco de brandy. Depois pode dormir.

CAPÍTULO 4

P ouco passava das seis da madrugada quando Mog entrou sem ruído pelo portão do pátio. Estava uma bela manhã, com a promessa de mais

um dia de calor. As aves cantavam e, em qualquer outra altura, tudo aquilo lhe teria lembrado como fora afortunada por ter conseguido fugir de Seven Dials e ter um marido apaixonado e trabalhador. Mas mal conseguira dormir naquela noite, preocupada com Belle. Apesar de, nos tempos em que trabalhava como criada no bordel de Annie, ter tido de cuidar de seis ou sete raparigas confrontadas com o mesmo problema que Miranda, nunca fora fácil para ela. Era uma coisa suja e ver- gonhosa, que o facto de estar grávida tornara de certeza ainda mais terrível para Belle. Mog desejava do fundo do coração que houvesse uma alternativa para as mulheres solteiras que se encontravam naquela situação. Mas se não re-

corressem ao aborto, sem o apoio das famílias ou do pai da criança ver-se- iam na esmagadora maioria dos casos atiradas para as ruas, e o hospício seria o único lugar que as acolheria. Se o bebé não morresse durante o parto, seria mandado para um orfanato ou entregue a uma dessas pessoas que viam nas crianças abandonadas uma forma lucrativa de negócio e as tratavam sem a mais ínfima ponta de ternura e só com um mínimo de cuidados. Mas a principal preocupação de Mog era outra: se alguma coisa tivesse corrido mal na noite anterior, Belle estaria metida em grandes sarilhos. A lei podia fazer vista grossa se alguém ajudasse uma prostituta numa situ- ação daquelas, mas não uma senhora da sociedade. Porque muitas mulheres morriam em consequência daqueles bárbaros abortos: se não enquanto estavam a ser feitos, algum tempo mais tarde,

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quando surgiam as infeções. Belle podia não ser culpada de encorajar e colaborar com o que Miranda fizera, mas se a rapariga morresse, a família

ia querer alguém para acusar, e ela seria o bode expiatório ideal.

Não se ouvia qualquer ruído e a porta estava entreaberta para deixar entrar um pouco de ar. Mog empurrou-a um pouco mais e espreitou para dentro. Belle dormia no chão, vestindo apenas a camisola interior, com o cabelo despenteado e um braço dobrado à volta da cabeça. A rapariga loura deitada na cama improvisada parecia igualmente tranquila. Vestia uma velha camisa de dormir de algodão debruada a renda que se lembrava de ter feito para Belle. Estava com boas cores, nem demasiado pálida, nem afogueada e febril. Sentiu-se invadida por um enorme alívio. Não havia sangue nem nada que sugerisse que qualquer coisa fora do vulgar tivesse acontecido naquela

sala. Viu um balde coberto no pátio, e calculou que todas as provas est- ivessem ali. Não obstante o seu alívio por estar tudo bem, havia na rapariga loura qualquer coisa que a fez voltar a espreitar pela porta entreaberta, e, cho- cada, reconheceu a filha de Mrs. Forbes-Alton. Até poucos dias antes, tudo

o que sabia a respeito da mulher vinha de coscuvilhices: que era bom-

bástica e gostava de controlar tudo o que acontecia na aldeia. Conhecera-a finalmente numa reunião convocada para criar um grupo de tricot que fizesse coisas úteis para os soldados que combatiam na frente. Mrs. Forbes-Alton comparecera com as duas filhas, e Mog lembrava-se muito bem delas por terem parecido tão embaraçadas quando a mãe começara a comportar-se como se fosse ela a mandar ali. Mrs. Fitzpatrick, a esposa de um famoso pianista que tinha sangue azul

a correr-lhe nas veias, sugerira que talvez Mrs. Jenkins, proprietária da ret- rosaria, pudesse aconselhar as senhoras em relação a que género de peças tricotar e dar instrução às novatas, uma vez que era perita na matéria. Mrs. Jenkins dissera que teria muito prazer, e que faria um desconto em todos os novelos de lã comprados na sua loja. – Oh, não! – exclamara Mrs. Forbes-Alton, com a sua voz enfatuada. – Não podemos permitir que alguém lucre com a nossa iniciativa. Temos de comprar a lã a um grossista.

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Mog ficara furiosa, tal como muitas das outras mulheres presentes, porque Mrs. Jenkins perdera o marido na guerra contra os Boers, na África do Sul, e semanas antes vira os dois filhos alistarem-se. Era uma mulher de bom coração, que tricotava generosamente roupas para todos os bebés que nasciam na aldeia e ajudara inúmeras jovens a fazer o vestido de noiva. Toda a gente sabia que ia enfrentar sérias dificuldades, com os dois filhos na guerra. Mas como uma das presentes fizera notar, iria provavelmente tricotar, mesmo assim, mais peças do que qualquer outra pessoa da aldeia. Naquela tarde, na reunião, ambas as meninas Forbes-Alton tinham aparecido impecavelmente vestidas, a imagem perfeita da tímida docilid- ade. O que tornava ainda mais difícil para Mog imaginar a mais velha e menos bonita a ter um caso amoroso secreto. Depois da reunião, crescera o ressentimento contra Mrs. Forbes-Alton e alguém comentara que era sempre assim que ela se comportava, menos- prezando os esforços dos outros mas fazendo muito pouco pelo seu lado. Dizia-se que era arrogante e mesquinha, e que tratava os criados de uma maneira execrável. Por isso não deixava de ser irónico o facto de, ao salvar Miranda, Belle ter poupado à horrorosa criatura a vergonha e a humilhação que tão largamente merecia. Agora que sabia como era a mãe de Miranda, Mog tinha ainda mais pena da filha. O mais certo era ter sido criada por serviçais, com pouco ou nenhum afeto ou interesse por parte da mãe. Não admirava que tivesse caído nos braços do primeiro homem que lhe dissera que a amava. Mas pagara um preço alto por essa pequena e fugaz felicidade. Se tudo corresse bem, recuperaria fisicamente em poucos dias, com re- pouso e boa higiene, mas Mog sabia que a cicatriz mental de perder um filho, por acidente ou intenção, era algo que demoraria muito mais tempo a sarar. Belle mexeu-se e abriu os olhos quando a porta rangeu. Sorriu ao ver Mog, levou um dedo aos lábios e fez um gesto de cabeça na direção de Miranda, após o que se pôs de pé e saiu para o pátio. Fechou a porta, agarrou no braço de Mog e guiou-a até um par de caix- otes de madeira, onde se sentaram ao sol.

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– Ela vai ficar bem, parece-me – disse. – Foi muito corajosa, não grit-

ou nem nada, e adormeceu pouco depois de ter acabado, mas eu não seria

capaz de voltar a passar por isto.

Mog passou-lhe o braço pelos ombros e puxou-a para si. Detestava a ideia de a sua Belle ter tido de enfrentar uma coisa daquelas.

– Não quero nem pensar no que teria acontecido à Miranda se tivesse

ido para casa – disse. – Conheci a mãe dela, uma autêntica bruxa. – Contou

a Belle tudo o que sabia a respeito de Mrs. Forbes-Alton. – Mas o que é que vais fazer agora com a rapariga?

– Deixá-la dormir o mais possível – respondeu Belle, a olhar para a

porta. – Não vou abrir a loja, claro, uma vez que é suposto eu estar com a

Lisette. Mais logo acompanho-a a casa. Felizmente, a amiga em casa de quem é suposto ela ter passado a noite não tem telefone, de modo que a mãe não tem forma de saber que nunca lá esteve. A Miranda pode fingir que teve uma menstruação particularmente forte e enfiar-se na cama.

– Vais ter de ver-te livre daquilo – disse Mog, a apontar para o balde.

– Vou enchê-lo de terebintina e deitar-lhe fogo, mais tarde – respondeu

Belle. – Não pode ser agora; poderia levantar suspeitas, se alguém visse

fumo a esta hora da manhã.

– Tiro-te o chapéu, pensaste em tudo – disse Mog, num tom de admir-

ação. Nunca deixava de a espantar ver como, depois de todas as humil-

hações por que tinha passado, Belle conseguira conservar a sua humanid- ade, a sua dignidade e um caloroso sentido de humor. Amara-a como sua filha a partir do momento em que lhe pegara ao colo quando ela nascera, e teria continuado a amá-la se ela tivesse perdido

a razão e a beleza. Mas o facto de ter regressado a Inglaterra e, graças à sua força de vontade, abrir a chapelaria com que sempre tinha sonhado e transformá-la num enorme êxito deixava-a imensamente orgulhosa. Mog esboçou um meio sorriso.

– Não é a primeira vez que tenho de planear qualquer coisa, mas não

sei se vou ser capaz de dizer ao Jimmy. Como estava ele ontem à noite?

– Estava ótimo, mas tu sabes como ele leva sempre tudo na maior. Não

é como certos homens a quem salta a tampa quando a mulher sai de casa.

Tens ali um dos bons.

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– Eu sei – disse Belle, sombria. – É por isso que me vai custar tanto mentir-lhe a respeito de ter estado com a Lisette.

– Nesse caso, não lhe digas muito. Em vez disso conta-lhe do bebé.

Vais ver que fica tão empolgado que nem se lembra de perguntar pela Lisette. Belle fez um ar pensativo.

– Achas que a Miranda se manterá em contacto comigo depois disto?

– Queres que mantenha?

– Quero. A princípio achei que era uma emproada, mas quando ultra-

passámos essa fase descobri que tínhamos muito em comum e senti-me próxima dela. Não conseguia deixar de pensar que só pela graça de Deus

nunca cheguei a ver-me na mesma situação. Mas não lhe disse que ia ter um bebé, não me pareceu certo. Mog suspirou.

– Não. Mas não penses demasiado nisso. Estavas presente quando ela

mais precisava de alguém. Bem, se não precisas de mim aqui, acho que é melhor ir para casa. Há alguma roupa que queres que leve para lavar? Não quero que o Jimmy te veja com qualquer coisa suspeita.

– Há um lençol e uma toalha – disse Belle, e pôs-se de pé para os ir

buscar. – Estarei em casa por volta da uma. Quando, minutos mais tarde, abria o portão do pátio com a roupa suja

num saco, Mog voltou-se para ela.

– Estou muito orgulhosa de ti – disse. – Pode ser que aos olhos da lei

tenhas agido mal ao envolver-te, mas para mim foste corajosa e bondosa. Espero que a Miranda compreenda que Deus devia estar a sorrir-lhe quando te mandou ao seu encontro.

Pouco depois da uma, Belle deu o braço a Miranda e iniciaram as duas a caminhada até ao Paragon. Havia muita gente a caminho da feira, cri- anças a correr numa excitação de um lado para o outro e música no ar. Miranda estava pálida, com um ar cansado, mas não tinha dores. Belle saíra logo de manhã para lhe comprar pensos higiénicos da marca Hart- mann’s, e fora um alívio para ambas verificar que já não estava a perder sangue.

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– As feiras parecem ser divertidas – disse Miranda, a olhar para o lado

da charneca. – Mas a mamã detesta-as. Nunca nos deixou ir, a mim e à Amy. Uma vez, há alguns anos, planeámos escapulir-nos depois do jantar

e ir até lá, mas ela apanhou-nos a abrir a porta da frente. Castigou-nos,

ficámos fechadas nos nossos quartos durante uma semana. Disse que só as

raparigas das fábricas e as prostitutas é que iam a feiras.

– Isso não é verdade! – protestou Belle, indignada. – O meu marido

levou-me, o ano passado, e vimos lá muita gente fina. É um divertimento

inofensivo para todos.

– A mamã tem ideias muito fixas – suspirou Miranda. – Para dizer a

verdade, seria capaz de casar quase com qualquer homem só para me livrar

dela.

– Não precisa de casar com ninguém para sair de casa – exclamou

Belle, horrorizada. – Pode arranjar emprego num escritório com toda a fa- cilidade, e depois arrendar um quarto. Eu sei que as raparigas do seu nível social normalmente não trabalham, mas agora estamos em guerra, vai haver muito mais oportunidades para as mulheres. E pode apostar que as bem-educadas, como a Miranda, terão preferência em relação às outras. Miranda apertou-lhe o braço.

– É tão inspiradora – disse. – Mal me veja livre disto, vou começar a

procurar emprego. O pior que a mamã pode fazer é deixar de me falar, e da maneira como me sinto agora isso seria uma bênção. Belle pensou que Miranda havia de ficar muito menos feliz quando descobrisse a quantidade de horas que a maior parte das mulheres era obri-

gada a trabalhar por salários irrisórios. Mas estava satisfeita por lhe ter dado alguma coisa em que pensar.

– Antes que se deixe entusiasmar pela ideia da liberdade, é melhor pre-

parar bem a história que vai contar à sua mãe – disse, num tom sério. – Pode usar esse arranhão na testa como desculpa para se sentir um pouco abalada. Diga que caiu esta manhã, em Belgravia, e que teve uma menstru-

ação muito intensa. Para o caso de alguém nos ver juntas, talvez seja boa ideia dizer que me viu no comboio e porque se sentia zonza me pediu para

a acompanhar. Miranda assentiu vivamente com a cabeça.

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– Espanta-me a maneira como pensa em tudo. Mas, e se alguém viu o

acidente, ontem? Belle também já tinha pensado nisso.

– Bem, não reconheci nenhuma das pessoas que lá estavam, e tenho a

certeza de que se alguma delas a tivesse reconhecido a si, se teria apres- sado a ajudar. Mas se chegar alguma coisa aos ouvidos da sua mãe, diga e repita que nem sequer sabe do que está a falar. E se ela vier perguntar-me, apoiá-la-ei e direi que era uma desconhecida.

– Nunca poderei agradecer-lhe – disse Miranda, em voz baixa. –

Sentira-se muito embaraçada quando acordara naquela manhã; nunca nin- guém a tinha tratado com tanta generosidade. – Posso manter-me em con-

tacto consigo?

– Ficaria triste se não o fizesse. Espero que venhamos a ser boas

amigas. De repente, lembrou-se de que nunca Mrs. Forbes-Alton consentiria que a filha fosse amiga de uma lojista, e sobretudo de uma lojista casada com um taberneiro. Além disso, era mais do que provável que, dentro de alguns dias, Miranda começasse a recear que ela falasse.

– É claro que não pertenço ao seu círculo social – acrescentou, num

tom ligeiro. – Mas pode sempre aparecer na loja para dois dedos de con- versa. E não tema nem por um instante que eu a traia e fale a respeito disto.

Prometo nunca dizer uma palavra que seja a quem for. A Mog, a minha tia, sabe, mas somos as duas iguais: os nossos lábios estão selados.

– Eu sei – respondeu Miranda. – Senti-o no momento em que me

ofereceu a sua ajuda. Compreendo agora porque é que as amigas da minha mãe falam a seu respeito. Apesar de ser tão nova, é uma mulher profunda e fascinante. Belle riu.

– O que é que dizem a meu respeito?

– Bem, a sua beleza foi muitas vezes notada, tanto como os seus mara-

vilhosos chapéus. Correu palavra, como disse ontem, que era francesa, e para muita gente isso significa ser um pouco… atrevida. Belle achou aquilo divertido.

– Acha que sou atrevida?

Miranda olhou de soslaio para ela e corou.

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– Bem, há qualquer coisa em si… É vivida, forte e compreende as

pessoas. Espero que um dia me conte tudo a seu respeito. Como foi parar a Paris, onde conheceu o seu marido e se já tinha estado apaixonada antes de

casar com ele.

– Tenho a certeza de que contarei – disse Belle, embora suspeitasse

que se contasse toda a sua história a Miranda a pobre rapariga teria uma síncope. – Talvez esta guerra também ajude a derrubar as barreiras sociais;

é o mais provável, quando as mulheres de todos os estratos sociais tiverem

de trabalhar lado a lado para contribuírem para o esforço de guerra. Espero que sim. Não tenho muita paciência para as atuais restrições impostas às mulheres.

– É tão bom ouvi-la dizer isso. A mamã está sempre a dizer: calce as

luvas, tem de usar chapéu, endireite os ombros, uma senhora não faz isto,

ou não faz aquilo. Era uma das coisas de que mais gostava quando estava com o Frank, apesar de ele ser um patife. Sentia-me livre porque ele viol- ava todas as regras.

– Bem, algumas dessas regras foram feitas para nos proteger –

lembrou-lhe Belle. – Mas um homem não precisa de ser um patife nem um

malandro para ser excitante e apaixonado. E agora que conhece o pior dos homens, pode procurar o melhor, no futuro. Despediu-se de Miranda à porta de casa e iniciou o caminho de re- gresso à sua. Embora estivesse preocupada com a recuperação de Miranda

e esperasse que a mãe da jovem não desconfiasse de nada, a sua grande

apreensão tinha que ver com Jimmy. Nunca lhe tinha mentido. Era culpada de nem sempre lhe dizer tudo, mas talvez ele fizesse o mesmo. Mas não podia contar-lhe o que fizera na noite anterior. Ele ficaria horrorizado.

Jimmy estava atrás do balcão, com Garth, quando ela entrou pela porta

lateral. Por causa da feira, o pub estava a rebentar pelas costuras, e muito barulhento. Belle dirigiu-se à cozinha e encontrou Mog a fazer sanduíches.

– Está tudo bem? – perguntou Mog em voz baixa, apesar de a porta que dava para o pub estar fechada.

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– Ela está ótima – tranquilizou-a Belle. – Nem dores nem febre, e es-

tava com apetite esta manhã e muito animada no caminho até casa. Estou

tão aliviada por ter corrido tudo bem.

– As minhas preces foram atendidas. – Mog ergueu os olhos para o

teto. – Mas falemos agora de coisas mais terrenas. Daqui a um minuto vou

levar estas sanduíches para o pub e dizer ao Jimmy que já voltaste. Porque

é que não aproveitas para mudar de roupa e arranjares-te um pouco?

Belle tinha-se lavado e estava a vestir uma camisola interior lavada quando Jimmy entrou no quarto. Encostou-se ao umbral da porta, a olhar para a mulher com um sorriso descarado.

– Ora aí está uma visão encantadora, a minha bela mulher quase sem

roupa nenhuma. É uma pena estarmos com tanto que fazer no pub, senão era bem capaz de te atirar para cima da cama e abusar de ti. Belle riu e aproximou-se dele. Estava muito atraente, de camisa branca

e um colete verde-esmeralda que lhe realçava os olhos castanho-claros.

– Tive saudades tuas ontem à noite – disse. – Queria muito dizer-te uma coisa.

– Espero que não seja que andavas a pensar em fugir com outro

homem mas mudaste de ideias – disse ele, esfregando o nariz no dela.

– Não, porque não poderei correr durante muito mais tempo – re-

spondeu Belle, e segurou-lhe a cara com ambas as mãos e beijou-o.

Foi Jimmy o primeiro a afastar-se.

– Porquê? – perguntou, intrigado, e então olhou para baixo e pousou- lhe a mão na barriga. – Estás…?

Estou – respondeu Belle, com uma gargalhada. – Vamos ter um

filho!

Jimmy olhou para ela, como que atordoado, por um segundo, e então o rosto rasgou-se-lhe num sorriso de orelha a orelha.

– Um filho? Tens a certeza? Quando?

– Bem, o médico não pôde ser muito preciso, mas eu penso que devo

estar de três meses e meio, mais ou menos, de modo que será para finais de

fevereiro. Jimmy abraçou-a com força.

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– É a notícia mais maravilhosa que alguma vez recebi… bem, exceto

talvez quando me disseste que me amavas pela primeira vez – disse do- cemente, com a boca encostada ao cabelo dela. – Oh, Belle, será possível

que haja mais alguém no mundo tão feliz como eu? Belle inclinou-se para trás de forma a olhar para ele e viu as lágrimas deslizarem-lhe pelas faces.

– Eu. Sou eu a pessoa mais feliz, porque te tenho a ti e ao bebé.

– Temos de dizer à Mog e ao Garth – disse ele, com os olhos húmidos

a brilharem de prazer. – Sei que a Mog vai ficar encantada, mas quanto ao Garth, tenho as minhas dúvidas. Vai precisar de algum tempo para se ha- bituar à ideia.

– Dizemos-lhes quando fecharem o pub – disse Belle. Sabia que Mog

nunca daria a entender que já sabia.

– E agora tenho de voltar lá para baixo e fingir que não aconteceu nada

de importante? – perguntou Jimmy. – A minha vontade era chegar lá e anunciá-lo a toda a gente, mas não é assim que se deve fazer, pois não?

– Não – respondeu Belle, a sorrir de tanto entusiasmo juvenil. A

gravidez era uma coisa que os homens não referiam nem comentavam fora

do círculo da família, nem sequer quando era mais do que evidente. O máximo que diziam era «Está de esperanças», e mesmo isso só quando havia uma razão muito boa para falar no assunto. Apesar de tudo isto,

Belle já tivera ocasião de reparar que os homens mais rudes eram os mais corteses e atenciosos para com as mulheres grávidas. – Se o fizesses, irias embaraçá-los a todos.

– Mas nunca se importam de beber à saúde do bebé – comentou

Jimmy, com uma gargalhada. – E dão palmadas nas costas do novo pai, como se ele tivesse feito a coisa mais difícil do mundo. E ele gaba-se do seu novo filho, e logo a seguir apressa-se a esquecê-lo até que tenha idade

suficiente para ser útil.

– Eu sei que nunca serás um desses pais – disse Belle, e fez-lhe uma

festa na cara. – Estou a contar que partilhes tudo comigo, incluindo mudar fraldas. Portanto, volta lá para o pub e sorri, mas não digas nada.

– Amo-te, Mrs. Reilly – disse, e voltou-se para regressar ao pub.

– E eu também te amo, Mister Reilly – disse ela para a porta que já se fechava.

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Enquanto se vestia, Belle pensou no comentário de Jimmy a respeito dos homens se gabarem do novo filho e depois o ignorarem até ele ter id- ade suficiente para se tornar útil. Ouvira-o várias vezes falar num tom re- provador dos homens que iam ao pub todas as noites, sem quererem saber das mulheres e dos filhos que deixavam em casa. Ambos tinham visto, em noites de sexta-feira, mulheres à espera em frente do bar com um filho nos braços, ali e em Seven Dials, na esperança de apanharem os maridos e conseguirem arrancar-lhes pelo menos uma parte do salário antes que eles o gastassem todo em bebida. Muitos homens achavam normal bater nas mulheres, tratando-as como se fossem gado. Jimmy, cujo pai saíra de casa quando ele era ainda bebé, sabia como era difícil para uma mulher criar um filho sozinha. Talvez por isso fosse tão sensível às necessidades das mulheres. Sempre se mostrara muito pro- tetor em relação a Belle, compreendendo quando ela estava cansada, sempre disposto a ajudá-la. Agora que trazia no ventre um filho dele, Belle sabia que podia contar com a sua força para a manter a salvo, e com o seu sentido de humor para a animar, e com ele a seu lado não temeria o parto. Talvez até a ajudasse também a livrar-se da recordação do horror por que Miranda passara. Mas, acima de tudo, sabia que nunca faltaria à criança amor e afeto. Iriam ser uma família feliz, Jimmy jogaria críquete e andaria de barco no lago com o filho, contar-lhe-ia histórias para o adormecer, beijar-lhe-ia as nódoas negras, acalmar-lhe-ia os sonhos maus. Em suma, seria o género de pai que tanto ela como ele desejariam ter tido. Que cri- ança afortunada!

*

Depois de o pub ter fechado para o intervalo antes da noite, Jimmy e Garth juntaram-se a Belle e Mog na cozinha para uma chávena de chá e uma fatia de bolo. Mal se tinham sentado à mesa quando, incapaz de se conter por mais tempo, Jimmy despejou o saco.

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– Vamos ter um bebé – disse, sem mais preâmbulos. – A Belle disse- me há pouco.

A reação de Garth à notícia não foi a que ambos tinham esperado.

Levantou-se da mesa e pôs-se a dançar pela cozinha e a gritar de alegria. Era surpreendentemente ágil, para um homem com a sua corpulência, mas mesmo assim continuava a parecer um pouco ridículo.

– É a melhor notícia de todos os tempos – disse, e aplicou nas costas

de Jimmy uma palmada que teria atirado ao chão um homem menos ro- busto. – Não que eu tenha muita experiência com bebés. Costumava pegar- te ao colo de vez em quando, claro, mas isso foi há muito tempo. Espero que seja uma menina, não estou a ver para que é que havíamos de querer mais um homem com cabelo cor de cenoura na família. Mog fingiu estar tão surpreendida como o marido, e foi magnífica na

sua representação; levantou-se e abraçou Belle e Jimmy, e disse que era a melhor notícia que alguma vez tivera. Então, enquanto servia chá a toda a gente, falou com ofegante entusiasmo acerca de fazer um enxoval para o bebé e comprar um berço.

– Quando é que vais fechar a loja? – perguntou Garth a Belle. – Não podes passar o dia inteiro de pé.

– Para ser franca, ainda não tive sequer tempo para pensar nisso –

disse ela. Garth cruzou os braços e fez um ar severo.

– Pois muito bem, acho que deves tratar do assunto nas próximas sem-

anas – declarou, e olhou para Jimmy em busca de apoio. – Não concordas, filho? Jimmy sorriu a Belle e pegou-lhe na mão.

Tenho a certeza de que a Belle fará o que for melhor para o nosso

bebé.

A

qualquer pessoa que estivesse a ouvir, poderia parecer que ela era

livre de escolher, mas Belle sentiu que o que aquilo significava era que ia ter de ficar em casa a tricotar e a coser até que a criança nascesse. Muito obviamente, alguns dos valores do tio tinham passado para o sobrinho. Garth não aprovava a emancipação feminina. Mog adorava desafiar- lhe as opiniões, quer fosse no respeitante ao voto das mulheres, a entrar no pub ou a fazer um trabalho que fosse tradicionalmente masculino. No

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entanto, por muito que o provocasse, era na realidade a mulher ideal para ele, uma vez que lavava, cozinhava e limpava de uma maneira soberba, e deixava-o tomar todas as decisões. Até ao momento, ter um filho fora apenas um sonho cor-de-rosa. Belle imaginara a vida a continuar como até então, mas com um bebé rechon- chudo que todos eles adorariam a palrar no berço. Não lhe ocorrera que também significaria o fim da sua liberdade de fazer o que queria.

– Estás com um ar cansado, Belle – disse Mog, talvez a adivinhar o

que ela estava a pensar. – Porque é que não te vais deitar um bocadinho?

– Sim, acho que é o que vou fazer – respondeu Belle. – Mas tu tam-

bém precisas de descansar. Aposto que estás a pé desde o raiar da aurora. Ainda estava acordada quando Jimmy entrou no quarto, mas manteve os olhos fechados e fingiu que dormia. Calculou que ele tinha subido para falar do bebé, mas isso era uma coisa que não lhe apetecia fazer naquele momento. Jimmy descalçou os sapatos e deitou-se na cama ao lado dela. Passados poucos minutos, Belle soube – pelo ritmo regular da respiração dele – que tinha adormecido. Estava muito calor e, deitada de costas, Belle observava a dança das partículas de pó nos feixes de luz do sol que entravam pelas cortinas de renda. Fora ela que escolhera tudo o que havia naquele quarto, desde o pa- pel de parede com um motivo floral de rosas à cama de latão com a sua grossa colcha branca e o toucador com pequenas gavetas onde guardava as suas joias. Certa vez, Garth dissera a Jimmy, meio a brincar, que nunca seria capaz de viver num quarto tão feminino, tão cheio de folhinhos e rendinhas, e Jimmy respondera que gostava dele assim porque ela gostava. Aquela resposta resumia tudo o que Jimmy era. Não era um banana, nem pouco mais ou menos. Conseguia ser muito duro com os clientes que se portavam mal e tinha escassa paciência para os que passavam a vida a queixar-se do que a sorte lhes reservara. Mas era um homem sem com- plicações, que aceitava as coisas tal como elas eram e não queria saber do que os outros pensavam a seu respeito. Na realidade, Belle não conhecia ninguém que não gostasse dele, porque era bom, generoso, interessava-se pelas pessoas e tinha um enorme sentido de humor. E, acima de tudo, era honesto. Se alguém lhe pedisse uma opinião, dava-a; quando prometia qualquer coisa, cumpria a sua palavra.

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Havia, em cima da mesa de cabeceira, uma moldura de prata com uma fotografia dos dois no dia do casamento. Mog fizera o vestido de noiva de Belle com um bonito cetim cor de marfim. Tinha um decote subido, man- gas compridas, um corpete plissado e uma pequena cauda presa de um dos lados, para dar efeito. Nunca Jimmy lhe parecera tão atraente como naquele dia, com a sua casaca às riscas cinzento-clara. Em todas as outras fotografias, tinham ficado com um ar rígido e sério. Mas aquela fora tirada quando estavam a olhar um para o outro e a rir, e refletia as suas verdadeir- as personalidades. Para Belle, era uma constante lembrança de como era afortunada por ter alguém que a amava incondicionalmente, apesar do seu passado. Ali naquele bonito quarto, nada importava senão a alegria que encon- travam no ato do amor. Jimmy podia ter chegado virgem à noite de núp- cias, mas nos braços dele Belle experimentara um êxtase ainda maior do que conhecera com Serge em Nova Orleães. Serge fora pago para lhe en- sinar as delícias do sexo, e era um autêntico mestre, mas Jimmy mostrara- lhe que o amor verdadeiro e uma paixão vinda do coração eram uma força ainda mais poderosa. «É tempo de lhe provares que sabes ser uma verdadeira esposa. Fazer e vender chapéus não é assim tão importante», pensou. Voltou-se para ele, passou-lhe um braço por cima do peito e apertou-o contra si. Com um bebé a caminho, ia ser um novo começo, só que dessa vez ia ter de se lembrar de ter em conta as ideias e os sentimentos de Jimmy.

CAPÍTULO 5

O tilintar da campainha da porta fez Belle pousar o véu de rede que es- tava a prender a um chapéu e passar para a loja.

– Jimmy! – exclamou ela, surpreendida. Jimmy só costumava ir à loja

para a acompanhar a casa quando estava a chover. Mas eram apenas três da tarde de um belo dia de outubro. – O que te traz por cá?

– Saí para comprar tinta para as janelas – disse ele.

Belle franziu a testa. A loja de ferragens não ficava para aqueles lados

e, além disso, Jimmy parecia abalado.

– Aconteceu alguma coisa?

– Será preciso acontecer alguma coisa para eu visitar a minha mulher? – replicou ele, num tom inusitadamente duro. Belle aproximou-se.

– Não, mas foi de certeza preciso acontecer alguma coisa para me falares nesse tom – disse, com uma nota de censura na voz.

– Desculpa. Uma mulher veio ter comigo e deu-me isto.

Enfiou a mão no bolso e tirou de lá uma pena branca. Belle arquejou. Lera no jornal que um ou dois dias antes tinham an- dado mulheres pelas ruas a entregar penas brancas aos homens. Era uma

sugestão de que eram cobardes por não se terem alistado. Tinha pensado que se tratara de casos isolados, meia dúzia de mulheres patetas sem mais nada que fazer do que incomodar quem trabalhava.

– Não ligues. Devia ser uma maluca qualquer – disse.

– Não, era um grupo de dez – disse Jimmy, com um ar muito perturb-

ado. – Estavam a abordar todos os homens. Vi o Willie, o lavador de janelas, receber uma, e também o homem que vende jornais na estação, e

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outro que andava a passear com a mulher. Fiquei tão chocado que não esperei para ver quem mais recebia uma pena e vim direito para aqui.

– Não tem importância – tranquilizou-o Belle. – Ninguém tem de se

alistar, se não quiser. Mas mesmo enquanto dizia estas palavras sentiu um arrepio descer-lhe pela espinha, porque apenas duas semanas antes vira na estação um enorme cartaz que mostrava Lord Kitchner de uniforme e dedo esticado. «O Teu País Precisa de Ti», dizia o cartaz. Na altura, achara que transmitia uma poderosa mensagem.

– Pode não ser obrigatório, mas talvez seja moralmente certo eu fazer

a minha parte – refletiu Jimmy. Nesse momento, Belle ficou assustada. Sabia que quando Jimmy usava palavras como «moralmente certo» era porque já estava seguro do que tinha de fazer.

– Não podes! Vamos ter um filho! – exclamou.

Jimmy estendeu os braços para a abraçar.

– Não quero que o nosso filho ou filha pensem que o pai foi um co-

barde – disse docemente, com os lábios muito perto do cabelo dela. – E

não te vou deixar abandonada à tua sorte para te desenvencilhares sozinha. Terás o tio Garth e a Mog para cuidar de ti. Belle afastou-se dele, furiosa.

– Mas podes morrer. Não quero que o nosso bebé tenha por pai um

herói morto.

Não vai acontecer – disse ele, e fez um gesto de súplica com as

mãos.

– Vai-te embora. – Belle apontou para a porta. – E espero que, quando chegar a casa, tenhas recuperado o juízo. Jimmy saiu sem dizer mais uma palavra e Belle regressou à sua ban-

cada de trabalho. Estava tão zangada que, com um gesto mais brusco, rasgou o véu em que estava a trabalhar, e pegou no chapéu e atirou-o para

o chão. A campainha da porta voltou a tilintar e, pensando que era Jimmy que voltara atrás para pedir desculpa, Belle ignorou-a.

– Belle? – chamou uma voz feminina, hesitante. – Está aí?

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Era Miranda. Belle fez um esforço para recuperar a compostura e dirigiu-se à loja. Miranda estava muito elegante, com um vestido malva- claro e um pequeno chapéu enfeitado com violetas artificiais a condizer. Tinha as faces rosadas e parecia brilhar.

– Que agradável surpresa – disse Belle, grata por aquela interrupção

que a distraía da sua fúria. – Tenho pensado muito em si. Miranda escrevera-lhe uma carta um par de semanas antes, quando es- tava na propriedade da família no Sussex. Nessa carta agradecia a Belle a

sua bondade e dizia que tinha recuperado plenamente sem que ninguém desconfiasse.

– É bom estar de volta a Londres – disse Miranda. – Quis tanto falar

consigo enquanto estive fora. A mamã esteve insuportável, ainda mais do que é costume. Está tão desesperada por me casar que todos os dias convi-

dava pessoas com filhos solteiros para jantar. Não poderia ter tornado as suas intenções mais claras se tivesse escrito no convite que se destinava a arranjar-me marido. Belle sorriu.

– E apareceu algum jeitoso?

Miranda revirou os olhos.

– Horríveis, todos eles. E, além disso, só falavam da guerra e de irem

juntar-se a um regimento qualquer. Julguei que morria de tédio. E a Belle,

como tem estado?

– Estava bem até há cinco minutos, quando o Jimmy apareceu. Acha

que tem de se alistar, mas eu não suporto a ideia de vê-lo ir.

– Oh, Céus! Claro que não. Mas tinha-me dito que ele não fazia tenção de se alistar até que fosse obrigatório.

– Foi o que ele disse. Mas hoje uma mulher deu-lhe uma pena branca e

agora sente-se culpado e com medo de que as pessoas o considerem um

cobarde.

– A mamã juntou-se a um grupo que anda a distribuir penas brancas –

disse Miranda, de nariz franzido num gesto de reprovação. – Na minha opinião, já é suficientemente mau para os homens terem os seus pares a pressioná-los, mas agora com as mulheres a humilhá-los, os pobrezinhos sentem que têm de ir. As pessoas como a minha mãe não pensam em como

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é que as mulheres e os filhos dos soldados vão sobreviver. Segundo ouvi dizer, o que pagam no exército é uma miséria.

A compaixão de Miranda para com esposas e filhos pareceu a Belle a

oportunidade ideal para lhe dizer que ia ter um filho.

– Não estou muito preocupada com o que pagam no exército, mas é

que, bem vê, estou à espera de um filho.

– Mas que notícia maravilhosa! – exclamou Miranda, e o calor do seu sorriso mostrava que estava a ser sincera. – Para quando?

– Finais de fevereiro.

Miranda fez um ar chocado.

– Sim, na altura já sabia – disse Belle. – Mas não fui capaz de lho dizer

naquela noite. Achei que não era a ocasião mais indicada.

– Nesse caso, foi duplamente horrível da minha parte afligi-la com os

meus problemas naquele momento – disse Miranda, e avançou para a ab- raçar. – Mas estou muito feliz por si e, por favor, não sinta que não deve falar no assunto por receio de me perturbar. Compreendo perfeitamente que não queira que o seu marido se aliste numa altura destas. Mas estou certa de que, depois de pensar bem no assunto, ele há de reconsiderar.

– A verdade é que muitos outros homens com vários filhos o fizeram.

Ainda ontem ouvimos falar de um homem de Lee Green com cinco filhos que se alistou. O Garth disse que os homens no pub estavam a brincar com

o assunto e a dizer que se tinha alistado para fugir deles. Conversaram durante mais alguns minutos acerca da guerra em geral e

Miranda disse que tinha pensado muito em arranjar um emprego e sair de casa.

– Candidatei-me a vários lugares, nos últimos dias – disse. – Não me

iludo a mim mesma, sei que não tenho experiência. A única coisa digna de nota que sei fazer é conduzir um automóvel.

– Jesus!

Belle estava impressionada; não conhecia pessoalmente nenhum homem que soubesse conduzir, quanto mais uma mulher. Aquando da mudança para Blackheath, os automóveis eram ainda uma raridade, mas nos últimos dois anos tinham-se tornado muito mais comuns. Mas ainda eram só os ricos que os tinham, e não via que isso fosse mudar nos tempos mais próximos.

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– Pedi ao chauffeur do papá que me ensinasse quando estávamos no

Sussex – disse Miranda, alegremente. – Pensei que com tantos homens a irem para a guerra, talvez houvesse uma oportunidade para uma mulher.

Os automóveis são muito difíceis de pôr a trabalhar, é preciso uma força bruta para rodar a manivela. Também tenho andado a ler a respeito da maneira como funcionam. Não quero fazer figura de pateta no caso de o meu se avariar.

Estou muito contente por vê-la tão organizada e otimista – disse

Belle.

Sei muito bem a quem tenho de o agradecer – respondeu Miranda, e

arqueou as sobrancelhas. – Agora que me contou as suas novidades, talvez

haja uma maneira de eu poder pagar-lhe tudo o que fez por mim. Posso to- mar conta da loja, se precisar de descansar ou ir a qualquer lado. Belle ficou emocionada.

– É muita gentileza sua – disse. – Mas acho que vou fechar a loja

muito antes de o bebé chegar.

– Oh, não! – exclamou Miranda. – Não pode, porque é muito talentosa e toda a gente adora os seus chapéus. Não pode contratar uma ama?

– Nunca faria uma coisa dessas – disse Belle, horrorizada.

Miranda riu.

– Não, suponho que não. Mas olhe que eu fiquei muito mais bem ser-

vida com uma ama do que teria ficado com a minha mãe.

– Há uma coisa que tenho de lhe perguntar – disse Belle. – Está

mesmo bem? Não falo de estar doente nem nada disso, mas já venceu o desgosto? O rosto de Miranda ensombreceu.

– Houve alguns dias em que andei chorosa e cheia de pena de mim

mesma – admitiu ela. – Mas ficou tudo muito melhor quando fomos para o Sussex. Dava grandes passeios, andava ocupada a aprender a conduzir e visitava alguns dos rendeiros do papá. Nunca o tinha feito, acho que o que me aconteceu me abriu os olhos para o mundo real. O mais certo é terem ficado muito espantados por eu me interessar pelas hortas deles, pelos fil- hos e pelo telhado que metia água. Algumas daquelas pessoas são tão ter- rivelmente pobres que compreendi que afinal a minha vida não era assim tão má.

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Continuaram a conversar até serem horas de Belle fechar a loja. Quando estava a trancar a porta, Miranda pousou-lhe a mão no braço e apertou-lho.

– Espero que o Jimmy não se aliste, mas se o fizer, lembre-se de que tem aqui uma amiga.

Quando, nessa noite, ela e Jimmy se deitaram, Belle soube que ele tinha tomado uma decisão. Houvera pouco que fazer no pub e Jimmy pas- sara o tempo escada acima escada abaixo. Sentava-se alguns minutos a fazer-lhe companhia, mas sem dizer uma palavra, e voltava para o balcão. Adivinhou, pela expressão tensa dele, que queria falar, mas temia que a conversa descambasse em discussão. Estava ansiosa por pôr tudo a limpo, mas conhecia suficientemente bem o marido para saber que ele gostava de ter tempo para ponderar sozinho as situações e se o pressionasse demasi- ado poderia vir a arrepender-se. Naquele momento, porém, enquanto Jimmy enrolava o corpo à volta do dela, como sempre fazia, quase conseguia ouvir-lhe as engrenagens do cérebro a rodarem com emoções contraditórias. Sabia que o medo dele não era por si mesmo, mas por ter de a deixar. E também sabia que se chorasse e suplicasse, conseguiria demovê-lo. Mas teria o direito de o fazer, quando ele sentia que era esse o seu dever? Não duvidava que Jimmy tinha consciência de que não eram na ver- dade necessários os dois, ele e Garth, para gerir o Railway, sobretudo agora que a maior parte dos clientes habituais já tinha partido para França. Provavelmente, sentia-se culpado de cada vez que ouvia dizer que fulano ou sicrano se tinham alistado, sendo ele jovem e saudável e sem qualquer boa desculpa para ficar em casa. Um bebé a caminho não seria certamente

considerado uma desculpa válida, uma vez que a maior parte dos homens preferia distanciar-se de todo desse assunto e deixar que as mães e as irmãs das respetivas mulheres tratassem de lhes dar apoio.

E sabia que Jimmy seria um bom soldado; era corajoso, forte e inteli-

gente. Os outros homens gostavam dele, e tinha a certeza de que não tardaria a ser promovido porque possuía as qualidades necessárias para liderar.

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Por muito que a aterrorizasse a ideia de ele ser ferido, ou até morto, uma das coisas que mais amava em Jimmy era a honradez intrínseca à sua natureza. Não queria vê-lo envolvido num turbilhão de sentimentos, a tentar equilibrar aquilo que entendia ser o seu dever com a reação dela. Não duvidava que ele receava que ela visse ali uma deserção, uma vontade de a abandonar, e isso seria introduzir uma cunha entre os dois, abrir uma clivagem. Amava-o demasiado para querer prolongar a confusão em que se en-

contrava. Sabia que tinha de ser tão corajosa como ele era e deixá-lo fazer o que pensava ser correto. Pegou na mão que ele pousara na sua coxa e apertou-a.

– Não quero que vás – disse muito baixo na escuridão do quarto. –

Não sou como tu, não quero saber para nada do rei e da pátria, sou sufi-

cientemente egoísta para querer que as coisas continuem a ser agradáveis e boas como até agora. Mas sei que tens princípios, e se achas que deves ir combater, apoiarei a tua decisão.

– A sério? – sussurrou ele em resposta. – É que, estás a ver, apesar de

não querer separar-me de ti, quando o nosso país está em guerra, isso não é

uma desculpa válida para fugir à luta. Quase todos os homens que já partiram deviam ter namoradas ou mulheres de quem não se queriam sep- arar, mas arranjaram coragem para o fazer. A pena branca de hoje será

apenas a primeira de muitas, se eu ficar. As pessoas dirão que não só sou um cobarde como lucrei com a guerra. Não seria capaz de viver com isso. Belle agarrou-se a ele, a morder o lábio para não dizer que não queria saber do que lhe chamassem desde que o tivesse a seu lado.

– Eu sei, eu também não seria capaz de o suportar – mentiu.

– Quem me dera acreditar que estará tudo acabado pelo Natal – disse

ele, puxando-a para si. – Quem me dera poder prometer-te que voltarei para casa são e salvo. Mas acredito que tendo-te mantido viva e tendo-te trazido de volta para mim depois de tudo aquilo por que passaste quando foste raptada, Deus não será cruel ao ponto de deixar que eu morra em França quando esperamos o nosso primeiro bebé. Belle não tinha tanta certeza de que Deus funcionasse daquela maneira. Pensava que o mais provável era colocar certas pessoas neste mundo para serem postas à prova uma e outra vez. Ela e Jimmy tinham

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tido dois anos de sublime felicidade, e talvez isso fosse tudo o que podiam esperar. Jimmy passou-lhe a mão pelo ventre, acariciando a ligeira curva, como que a dizer silenciosamente ao filho que o amava e que tencionava ser o melhor dos pais.

– Quando é que vais então ao centro de recrutamento? – murmurou ela, emocionada por aquela mostra de sensibilidade.

– Amanhã – respondeu ele. – Não vale a pena prolongar a agonia.

*

O tempo pôs-se repentinamente outonal no dia em que Jimmy foi ao centro de recrutamento. A temperatura desceu, a chuva caiu e o vento soprou, provocando cascatas de folhas douradas e cor de ferrugem que até então tinham sido tão belas. Para Belle, foi um presságio de que toda a fe- licidade que tinham partilhado ia acabar, mas engoliu as lágrimas e arru- mou numa mala peúgas quentes e grossas, roupa interior, sabonete e al- guns pequenos confortos, a tentar não pensar que os dois preciosos dias que lhes restavam podiam ser os últimos. Na manhã em que Jimmy ia apanhar o comboio que o levaria a Lon- don Bridge para se juntar aos outros homens do Royal Sussex Regiment, o céu estava tão sombrio como o coração de Belle e um vento frio assobiava por baixo da porta das traseiras. Ao pequeno-almoço, Garth comentou em tom jovial como fora animada a despedida no pub na noite anterior, mas era evidente que também ele temia o momento em que o sobrinho teria de partir. O rosto de Mog estava envolto num sudário de tristeza enquanto ela embrulhava sanduíches e bolo para Jimmy levar consigo, e Belle não se at- revia a falar. Às oito, estavam os quatro na estação de Blackheath e Belle agarrava- se a Jimmy, sob o olhar de Mog e de Garth. Quando os seus primeiros cli- entes se tinham alistado, tinham os dois ficado à porta do pub, a despedir- se dos que partiam com acenos e vivas, mas desde então tinham visto a

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lista de baixas e a realidade da guerra estava bem presente. Agora, a an- siedade marcava todos os rostos.

– Estarás no meu coração cada minuto de cada dia e cada noite – sus-

surrou Belle. Em London Bridge, Jimmy apanharia um comboio de tropas para Dover, e dali viajaria de barco até França, onde faria a recruta em Étaples. A gare estava cheia de grupos de parentes e amigos que tinham ido despedir-se dos seus homens. Alguns eram apenas rapazes, acarinhados e mimados por mães e irmãs chorosas. Havia alguns homens já de uniforme, talvez de regresso às respetivas unidades no fim de uma licença, um pun- hado de oficiais elegantemente fardados, mas muito mais homens da idade de Jimmy. Belle calculou que, como Jimmy, tinham achado que a corrida inicial ao alistamento fora uma tolice, mas que agora, depois das penas brancas e dos cartazes de Kitchner, sentiam que tinham de ir. Reparou que uma das mulheres devia estar muito perto do fim da gravidez, e que tinha o rosto inchado e manchado como se tivesse passado a noite inteira a chorar.

– E tu estarás no meu coração cada segundo – murmurou Jimmy ao

ouvido dela. – Não te habitues a ocupar a cama toda. O mais certo é eu não ser capaz de acertar num celeiro e eles mandarem-me de volta para casa. Belle forçou um sorriso. Jimmy dizia graças como aquela desde que se

alistara. Mas ela não se deixava enganar pela bravata; sabia que ele tinha medo. Ouviu o comboio entrar na estação, e saber que isso significava que só lhe restava mais um ou dois minutos com ele fez-lhe subir as lágrimas aos olhos que estivera a conter desde que acordara, duas horas antes, e os dois tinham feito amor. Todas as carícias tinham sido tão ternas, todos os beijos tão doces, que parecera impossível que sequer a morte fosse capaz de separá-los, mas agora que o comboio se aproximava cada vez mais, já não tinha tanta certeza.

– Deixa-me ir até London Bridge contigo – suplicou.

– Não, minha querida – disse ele, rodeando-a com os braços e

puxando-a para si. – Já é suficientemente mau dizer-te adeus aqui. Lá seria

ainda pior, e tu terias de voltar para casa sozinha.

– Vais escrever, não vais?

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– Claro que vou, todos os dias, se puder. Mas é natural que os correios

estejam a funcionar mais devagar, de modo que não te assustes se houver

um atraso.

O comboio tinha entrado na estação, e o fumo envolveu-os quando a locomotiva passou. Jimmy beijou-a mais uma vez e virou-se para abraçar Mog e Garth.

– Volta são e salvo para nós – disse Mog, numa voz que tremia.

– Mantém a cabeça baixa, filho – aconselhou Garth, roucamente. –

Não queiras ser herói, deixa isso para os outros. De repente, as portas do comboio estavam abertas e o chefe da estação soprava o apito para indicar aos passageiros que embarcassem. Belle agarrou-se a Jimmy e abraçou-o com força.

– Amo-te – murmurou, e pôs-se em bicos de pés para o beijar. –

Mantém-te a salvo para mim. Jimmy teve de se libertar à força para embarcar no comboio, mas de- pois de fechar a porta debruçou-se da janela aberta a soprar-lhe beijos. Com um último e longo apito, o comboio começou a mover-se, e Belle caminhou ao lado dele, cada vez mais depressa, até correr, com as lágrimas

a rolarem-lhe pelas faces. Viu Jimmy limpar os olhos e formar com os lábios a palavra «Amo- te», e então a gare acabou-se e ela teve de parar. Só então se apercebeu de que não estava sozinha; pelo menos vinte outras mulheres tinham feito o mesmo. E ficaram todas a chorar no fim da gare até que o comboio desa- pareceu da vista. Ocorreu-lhe que era a primeira vez que via uma tal exibição pública de emoção, e voltou-se para uma rapariga ainda mais nova do que ela que chorava histericamente e abraçou-a.

– Tenho a certeza de que vai correr tudo bem – disse, a tentar confortá-

la.

– Porque teve ele de ir? – soluçou a rapariga. – Eu supliquei-lhe que

não fosse.

– Porque acreditam que é esse o seu dever, e nós temos de ser fortes e

admirar-lhes a convicção e coragem – disse Belle. Enquanto ela e as outras mulheres voltavam para trás ao longo da gare, muitas esticaram a mão para tocar no ombro ou no braço das outras,

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apenas um pequeno gesto de dor e compreensão partilhadas. Isso fez Belle recordar-se de como tinha sido com as outras raparigas no bordel de Martha em Nova Orleães: uma irmandade silenciosa mas profundamente sentida que, à sua maneira, era mais reconfortante do que meras palavras ocas.

Duas semanas depois de Jimmy ter embarcado para França, Belle es- tava sentada numa cadeira, na loja, ao fim da tarde, a ler mais uma vez a primeira carta a sério que recebera dele. Chovia intensamente e estava cada vez mais escuro, mais uma indesejada lembrança de que o inverno não vinha longe, e ela pôs-se de pé para acender as luzes. Na semana anterior, recebera um postal. Era uma fotografia bastante indistinta do porto de Boulogne, que ele devia ter comprado logo após o desembarque, pois escrevera o postal no primeiro dia que passara em Étaples. Eram apenas cinco linhas, só para dizer que tinha chegado e que partilhava uma cabana com nove outros homens. Avisava-a de que não ia ter muito tempo para escrever, pois os seus dias seriam ocupados com o

treino da recruta, que incluía tiro, ordem unida e preparação física a correr pelas dunas e praias das proximidades. A primeira semana sem ele arrastara-se devagar; tinha saudades do calor do corpo de Jimmy na cama a seu lado, da mão pousada na sua bar- riga – que parecia ter-se tornado maior depois de ele partir. Tinha saudades de partilhar com ele a refeição da noite, das piadas que ele contava a re- speito dos clientes do pub e os mexericos da aldeia. Garth e Mog tentavam compensá-la. Mog entrava no quarto, à noite, para lhe dar um beijo na testa

e aconchegar-lhe as roupas, Garth limpava-lhe os sapatos e perguntava-lhe como tinha sido o dia na loja. Mas, por muito ternos e queridos que fossem, nunca poderiam preencher o vazio que Jimmy tinha deixado. Todos eles sentiam a ausência do seu assobio quando regressava da

cave, dos seus passos ligeiros nas escadas, do seu riso contagiante e do seu encanto. Mog desfizera-se em lágrimas certa tarde, quando tirara do forno uns biscoitos acabados de cozer e os deixara em cima da mesa a arrefecer,

e ele não aparecera para roubar descaradamente um enquanto ela estava de

costas voltadas. Garth habituara-se de tal maneira a que Jimmy fizesse a

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maior parte do trabalho mais pesado, movendo barris e carregando grades de cerveja que, agora que tinha de fazer tudo sozinho, lhe doíam as costas e tinha dificuldade em deixar tudo tratado antes de abrir o pub. Receber finalmente uma carta a sério fora um alívio para os três. Fora bom ter um vislumbre das peripécias dos primeiros tempos dele na vida militar, ler a respeito dos amigos que tinha feito e de como estava a aguentar-se. Jimmy começara a escrever a carta na sua segunda noite no campo de treino, descrevendo os nove homens com quem partilhava a cabana, o treino e até a comida. Travara amizade com um homem chamado John Dixon, que viera de Woolwich. Descrevia-o como sendo um indivíduo desbocado, divertido e um pouco malandro que, contava, lhe recordava al- guns dos homens de Seven Dials. Devia ter tido de parar de escrever e continuado na noite seguinte, ao fim de um longo dia passado na carreira de tiro. «Fui uma desgraça», es- creveu. «Disparávamos várias vezes contra o alvo e depois íamos ver se tínhamos acertado. Eu nem sequer cheguei perto, nem uma única vez. O sargento chamou-me cabeça de cenoura que não serve para nada, à mistura com alguns outros insultos que não vou repetir.»

O dia seguinte fora de aplicação militar. Jimmy conseguira trinta

flexões antes de se ir abaixo, mas a maior parte dos outros não passara das

dez. «Sempre desconfiei que levantar barris havia de servir para qualquer coisa», acrescentava. Naquela altura, apesar de ele nunca o dizer, percebia- se pelas suas palavras que estava a achar tudo aquilo muito duro e difícil. Contava que alguns homens quase tinham desfalecido de cansaço no fim de uma longa corrida pelas dunas.

O simples facto de não escrever mais do que algumas linhas de cada

vez era prova bastante de que o mantinham ocupado do nascer do sol até à noite, mas dias mais tarde, escrevia, com algum orgulho, que tinha obtido uma pontuação de setenta em cem na carreira de tiro e conseguido fazer cinquenta flexões. Enquanto lia, Belle pensava que Jimmy devia estar a passar pelo pior dos pesadelos – revistas constantes, corridas de quilómetros pelas dunas com equipamento completo, rastejar pela areia húmida, treino com

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baioneta e aprender a carregar rapidamente a espingarda. Além disso, se- gundo ele dizia, não parava de chover e fazia muito frio. Falava de uma coisa chamada a Arena, onde treinavam ordem unida, e dizia que Étaples era uma aldeia miserável e esquecida por Deus, que não tinha sequer uma loja decente. As imagens que criava para ela eram todas sombrias, e no entanto conseguia parecer surpreendentemente jovial quando dizia que usar as botas que lhe tinham sido distribuídas era como carregar uma bola de chumbo em cada pé. Mas o melhor da carta eram os seus pensamentos a respeito dela. «Imagino-te a escovar os cabelos diante do toucador, a maneira como eles caem sobre os teus ombros, brilhantes como alcatrão derretido. Ou ver-te quando sais para a loja de manhã, toda elegante e aperaltada. Penso na maneira como comes maçãs, a mostrar os dentinhos muito brancos e a ponta rosada da tua língua quando lambes os lábios.» Belle adivinhou que ele tinha outros pensamentos bem mais íntimos, mas não se atrevia a escrevê-los por saber que a carta seria muito provavel- mente lida por um censor, e que ela a leria, pelo menos em parte, a Garth e a Mog. Mas terminava dizendo: «Estás sempre nos meus pensamentos, e pergunto a mim mesmo o que estarás a fazer, se te sentirás muito sozinha sem mim. Penso no nosso bebé que cresce dentro de ti e rezo para estar de volta a casa antes de ele nascer. Espero que não estejas zangada comigo por te ter deixado quando mais precisavas de mim.» Ela, pelo seu lado, tinha-lhe escrito uma carta todos os dias desde que ele partira. Deixava-as no correio quando regressava a casa, ao fim da tarde. Mas tinha cada vez mais dificuldade em descobrir coisas novas para lhe dizer, porque os seus dias eram todos iguais. E tentar tornar as suas cartas divertidas era ainda mais difícil. As suas clientes eram, de um modo geral, pessoas vulgares, era muito raro alguém dizer qualquer coisa que ele achasse mesmo vagamente engraçado. Por vezes, quando lia o que tinha escrito a respeito do que Mog lhes fizera para o chá na noite anterior, ou de alguma mensagem que um dos clientes deixara para ele através de Garth, sentia que a carta mal merecia ser lida. Mas procurava sempre encontrar alguma antiga recordação partilhada para o fazer sorrir, dizia-lhe das muitas saudades que tinha e tudo o que ele representava para ela. E depois,

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no final de cada carta, desenhava qualquer coisa, um coelho, um gato ou qualquer outro pequeno animal, e acrescentava um chapéu. Pegou na carta que lhe tinha escrito e em que lhe contava que, nessa

manhã, tinha encontrado uma grande aranha em cima da sua bancada de trabalho. Ficara muito assustada, pusera um copo em cima dela e correra à loja do lado para pedir a Mr. Stokes, o sapateiro, que fosse tirá-la dali. Por isso, no fim da página, começou a desenhar uma gorda e cómica aranha de cartola, a lembrar-se de como Jimmy achava graça ao facto de ela ter tanto medo de aranhas.

A campainha da porta tilintou e ela levantou-se de um salto, deixando

o bloco de papel em cima do balcão. Era um homem alto e corpulento que vestia uma comprida e enchar- cada gabardina, e a primeira coisa que lhe ocorreu foi perguntar-se se

poderia pedir-lhe que a despisse e a deixasse junto à porta, porque não a queria a pingar para o chão.

– Boa-tarde, senhor – disse, delicadamente. – Posso ajudá-lo?

– Quero um chapéu – disse o homem, num tom brusco.

– Não vendo chapéus para cavalheiro, senhor – respondeu ela, assum-

indo que era o que ele queria, uma vez que não usava nenhum e tinha a cabeça quase calva a brilhar molhada pela chuva. – Mas há uma loja de roupa de homem algumas portas mais abaixo, onde poderá encontrar o que procura.

– Eu disse que queria um chapéu de homem? – ladrou o sujeito.

Belle ficou instantaneamente assustada. Embora o homem parecesse, visto de longe, bastante respeitável, exalava, de mais perto, um cheiro a bafio que lhe fez lembrar Sly, um dos homens que a tinham raptado quando tinha quinze anos. Usava bigode, mas descuidado, e uma sombra de barba escurecia-lhe o queixo. Ao examiná-lo com mais atenção,

descobriu que o colarinho da camisa estava muito sujo.

– Deseja então comprar um chapéu para a sua esposa, talvez? –

perguntou. Nunca antes sentira medo na loja, mas naquele instante, ao ver como a rua estava escura, e deserta, devido à chuva, apercebeu-se de que podia ser vista como uma vítima fácil para qualquer ladrão que olhasse para dentro através da montra e a visse sozinha.

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– Quero dinheiro – rosnou o homem, e, enfiando a mão no bolso, tirou de lá um curto e grosso cacete de madeira. Belle olhou para ele, cheia de espanto e medo. O homem fizera-a

sentir-se nervosa desde o primeiro instante, mas não estava à espera daquilo.

– Quase não fiz nada hoje – arquejou.

Era verdade, só tinha vendido um chapéu, e dos mais baratos, que custava apenas dois xelins. Com os trocos que tinha na gaveta do balcão,

não haveria mais de sete ou oito xelins, ao todo.

O

homem arrepanhou os lábios.

Não me minta, eu sei que faz um bom negócio.

Mas hoje não. Não parou de chover, e está muito frio – disse ela.

O

homem avançou, brandindo o cacete, e Belle recuou, cobrindo a

cabeça com as mãos.

– Não me bata, dou-lhe o que tenho! – gritou.

Quando a pancada que esperava não aconteceu, espreitou por entre os dedos. O homem já tinha aberto a gaveta do balcão e estava a tirar as moedas e a enfiá-las no bolso. O que provava que já a tinha observado

noutras ocasiões, uma vez que a gaveta era pequena e não se notava à primeira vista.

– Onde está o resto? – perguntou o indivíduo, voltando a avançar para

ela. – Se não mo dás, dou cabo da loja, e depois de ti. Aterrorizada, Belle sentia o coração martelar-lhe o peito. Via o deses- pero refletido na cara do homem e soube que a ameaça não era vã.

– Não há mais nenhum – insistiu. – Só vendi um chapéu barato, não tenho mais dinheiro na loja.

– Não me mintas! – gritou ele. – Vai buscá-lo!

Se houvesse mais algum dinheiro fosse onde fosse, Belle teria corrido

a buscá-lo. Tinha experiência suficiente com homens desesperados para saber que o apaziguamento era vital.

– Juro que não há mais nenhum – disse, apavorada. – Se houvesse, eu

dava-lho. Ao ouvir isto, o homem bateu com o cacete no espelho rotativo e estil-

haçou o vidro, que caiu numa tilintante cascata.

– Vai buscá-lo, ou a próxima és tu! – berrou o indivíduo.

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Não posso ir buscar o que não existe – gritou ela. – Já tem tudo o que

havia.

O

homem soltou uma espécie de grunhido furioso, saltou para ela e

bateu-lhe com o cacete no ombro. Belle gritou de dor e recuou a cam- balear, agarrada ao ombro.

– Está ali, não está? – perguntou o indivíduo, a apontar com o cacete

para a sala das traseiras. Belle recuou até à parede ao lado da porta.

– Se encontrar algum dinheiro aí dentro, pode ficar com ele – soluçou.

Quando o assaltante passou por ela para entrar na sala das traseiras, Belle julgou ver a sua oportunidade e correu para a porta da frente. Mas no

instante em que deitou a mão à maçaneta para a abrir, ele alcançou-a, agarrou-a pelo ombro e puxou-a para trás.

– Não vais a parte nenhuma, cabra! – gritou, e, erguendo o cacete,

bateu-lhe no flanco do corpo com tanta força que ela se dobrou sobre si mesma e tombou no chão. Mas nem mesmo assim o energúmeno ficou sat-

isfeito, e levantou a perna para lhe desferir um pontapé. Na fração de segundo em que a perna se moveu, Belle tentou proteger

o ventre com os braços, mas era demasiado tarde e a pesada bota atingiu-a

em cheio na barriga, com tanta força que a fez deslizar pelo chão até cho- car contra o balcão.

A dor foi tão violenta que não tentou pôr-se de pé. Em vez disso,

enrolou-se sobre si mesma, quase incapaz de ver. Ouviu-o trancar a porta da frente e baixar a persiana, e, convencida de que ia matá-la, o seu único pensamento foi o que uma coisa daquelas faria a Jimmy. Mas o homem não voltou a bater-lhe. Limitou-se a passar por cima

dela e dirigir-se à sala do fundo. Belle ouviu-o revistar tudo, atirando para

o chão as caixas de aplicações arrumadas nas prateleiras, como se estivesse

possesso. Tinha quase a certeza de que ele guardara no bolso a chave da porta. Tentar chegar ao telefone não era opção, porque ele não deixaria de

a ouvir, mal se mexesse. Não podia lutar contra ele, não se atrevia sequer a gritar de dor com medo de o enfurecer ainda mais. Por isso, permanecer imóvel e aparentemente inconsciente no chão parecia ser a única coisa a fazer. Quando o homem se convencesse de que não havia mais dinheiro, ir- se-ia embora.

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Era muito difícil ficar calada e quieta quando todo o seu ser queria gritar de dor. Mas conseguiu. Só abriu os olhos uma vez, ao ouvi-lo abrir uma lata, e viu despejar no bolso do casaco os biscoitos que continha.

A dor era tão intensa que a loja começou a rodopiar, e a última coisa

de que mais tarde se lembraria de ter pensado foi que ia vomitar.

– Mrs. Reilly! Mrs. Reilly!

Ouviu a voz, a voz de um homem, como que vinda de uma grande dis- tância, e forçou-se a abrir os olhos.

– Oh, graças a Deus! – exclamou ele. – Por um instante pensei… –

Não completou a frase. – Não se mexa, há vidros partidos por todo o lado. Vou pedir ajuda. Belle estava suficientemente consciente para saber que era Mr. Stokes, o sapateiro da loja ao lado, mas não sabia porque tinha tantas dores ou porque estava deitada num chão coberto de vidros partidos. Só recordou tudo quando ouviu várias outras vozes masculinas e reconheceu uma delas como sendo a do Dr. Towle. Achara-o do género pomposo, quando fora consultá-lo por causa da gravidez. Era um homem alto e bem-parecido, com uma densa cabeleira negra e olhos de um azul profundo, e pensara que talvez aquela afetação se

devesse ao facto de tantas das suas pacientes o cortejarem. Naquele mo- mento, porém, ao registar o cuidado e a gentileza com que a examinava ali caída no chão da loja, e a sua genuína indignação por ela ter sido agredida daquela maneira, apercebeu-se de que não era o sujeito emproado que lhe parecera, mas sim um homem capaz de compaixão. Conseguiu falar ao polícia que estava presente do homem que a roubara e atacara, e então Garth apareceu e, com a ajuda de outro homem, deitou-a numa maca e levou-a para casa.

– Foi vítima de um ataque selvagem – disse o Dr. Towle num tom

cheio de gentileza algum tempo mais tarde, quando ela já estava em casa e na sua própria cama. – Mas preferi trazê-la para aqui em vez de a levar para o hospital porque estou convencido de que recuperará mais rapida- mente entregue aos cuidados de Mrs. Franklin.

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Belle não foi sequer capaz de assentir com a cabeça para mostrar o seu agradecimento por estar junto de Mog e de Garth.

– O bebé está bem? – conseguiu perguntar enquanto o médico usava

um pequeno instrumento de prata em forma de trompa para lhe auscultar a barriga.

– O coração continua a bater – respondeu o Dr. Towle, e deu-lhe uma

terna palmadinha nas costas da mão. – Mas é essencial que permaneça aca-

mada, pois suspeito que tem um par de costelas rachadas. Pus-lhe uma

ligadura, resta-nos agora deixá-las sarar. Infelizmente, pouco posso fazer em relação ao seu ombro; não está partido, a dor que sente resulta da viol- ência da pancada. Vai continuar a doer-lhe mais alguns dias, e é muito comum, depois de um tal choque, sentir-se abatida durante uns tempos. Mas há de passar, e eu virei vê-la todos os dias. E, depois de dar a Mog mais algumas instruções, e alguns medicamen- tos para aliviar as dores de Belle, o médico deixou-os.

– Minha pobre querida – disse Mog, inclinando-se para afastar com

uma carícia os cabelos da cara de Belle. – Só espero que apanhem o de- mónio que te fez isto. Disse-me o Garth que um dos polícias lhe contou

que houve um ataque semelhante a um lojista em Lewisham, a semana passada. Acham que foi o mesmo homem.

– Pensei que ia matar-me – murmurou Belle, num fio de voz. – Estrag- ou muito a loja?

– O Garth disse que estava uma desgraça, mas sabes como os homens

têm tendência para exagerar quando estão furiosos. Vou lá amanhã de

manhã ver por mim mesma e fazer uma limpeza. Mas tu é que não voltas lá, minha menina.

– Foi Mr. Stokes que me encontrou – disse Belle. – Ele chegou a ver o ladrão?

– Só um homem a fugir em direção à charneca – respondeu Mog. –

Aparentemente, estava a fechar a loja quando o patife saiu a correr da tua,

e no mesmo instante apareceu um polícia na rua. Mas Mr. Stokes disse ao Garth que, ao princípio, julgou que estavas morta.

– Não contes nada disto ao Jimmy nas tuas cartas – pediu Belle. – Não quero que ele se preocupe comigo.

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– Vou ter de falar com o Garth a esse respeito. Está tão furioso que só

quer bater em alguém. Mas acho que tens razão, contar ao Jimmy não ser-

viria qualquer propósito útil.

Belle começou a chorar e Mog sentou-se na beira da cama. Não podia abraçá-la com medo de a magoar ainda mais, de modo que se limitou a limpar-lhe as lágrimas.

– Pronto, pronto, querida, eu e o Garth estamos aqui para tratar de ti – disse, como se estivesse a tentar acalmar uma criança.

– Sinto que os maus tempos vão voltar – soluçou Belle. – Primeiro o

Jimmy alista-se, e agora isto! Eu tinha obrigação de saber que a felicidade não podia durar.

CAPÍTULO 6

B elle foi acordada por uma violenta pontada de dor. O que em si mesmo não tinha nada de muito invulgar: naqueles dois dias depois

do ataque, habituara-se a ser acordada por pontadas de dor. Só que aquela dor era diferente: em vez de vir das costelas e do ombro, era na barriga e nas costas. Ainda era de noite. Via, à volta das cortinas, a débil claridade do can- deeiro a gás que iluminava a rua. Mas o remédio que Mog lhe dera deixara-a zonza, e quando a dor acalmou voltou a adormecer. Foi mais uma vez acordada por outra pontada. Não sabia quanto tempo passara desde a primeira, talvez uma hora, mas a segunda foi ainda mais forte, o suficiente para a fazer gritar. Parecia crescer até atingir um pico, e então diminuir lentamente. Soube o que era antes de a dor desaparecer por completo.

O bebé vinha a caminho. Ali deitada de costas, pousou ambas as mãos no ventre, a sentir-lhe a curva, e chorou, consciente de que o bebé não conseguiria sobreviver nas- cendo com pouco mais de seis meses. Recordou a imagem de Miranda deitada na cama de almofadas na sala ao fundo da loja, a parecer exatamente como ela se sentia naquele mo- mento. Seria Deus a castigá-la por a ter ajudado? Se sim, era um Deus cruel e injusto, porque ela limitara-se a servir de enfermeira, não parti- cipara no aborto e nem sequer na decisão de o fazer. Tanto ela como Jimmy queriam aquele bebé. Teria sido amado e acarinhado porque ambos queriam dar-lhe tudo o que eles próprios não tinham tido quando eram crianças. Ou seria o castigo pela sua antiga vida de prostituta?

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Uma nova pontada de dor dilacerou-lhe as entranhas, e ela agarrou-se ao colchão. Por mais que quisesse manter silêncio, não conseguiu conter o grito. Nunca experimentara uma dor assim.

A porta do quarto abriu-se e Mog entrou, de vela na mão.

– O que foi, querida? – perguntou.

– É o bebé! – arquejou Belle. – Ajuda-me!

– Oh, Virgem Santíssima! – exclamou Mog, aproximando-se da cama

e pousando a palmatória com a vela. – Há quanto tempo estás com dores?

A dor abrandou o suficiente para Belle lhe dizer, mas, enquanto a

ouvia, Mog acendeu o candeeiro a gás da parede, tirou da cómoda um lençol lavado e enfiou-o por baixo dela.

– Vou só acordar o Garth e mandá-lo chamar o médico – disse, com a

mesma calma que revelava sempre, até numa emergência. – Visto-me e

venho já ter contigo. Aguenta um bocadinho, não demoro nada.

Belle teve vagamente consciência de Garth a falar com Mog no pa- tamar. Ouviu os passos pesados dele na escada e a porta da rua a bater. Pouco depois, Mog estava uma vez mais junto dela com uma jarra de água quente e toalhas.

– Era capaz de matar o filho da mãe que te fez isto – disse, enquanto

lavava a cara e as mãos de Belle com uma toalha. – Mas, para já, temos de enfrentar a situação juntas. As dores iam e vinham, cada vez mais fortes e com menos intervalo entre si. Mog segurava a mão de Belle, lavava-lhe a cara com água fria e falava-lhe num tom calmante, dizendo-lhe que o médico não tardaria a chegar. Belle não conseguia responder-lhe, porque mesmo nas tréguas entre as

guinadas de dor já estava a preparar-se para a seguinte, e quando ela vinha era como um ferro em brasa, uma agonia tão horrível que pensava que ia matá-la.

O Dr. Towle chegou quando o bebé já começava a sair. Mog tapou-lhe

a cara com as mãos quando o médico puxou a roupa da cama para baixo,

mas apesar de não conseguir ver o que eles viam, Belle sentia a massa escorregadia e quente entre as pernas e o jorro de líquido que escorria dela.

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Daí para a frente, tornou-se tudo confuso e desconexo. Quando voltou a dar por si, o Dr. Towle estava a auscultá-la com o estetoscópio.

– Lamento muito, Mrs. Reilly. – disse o médico. – Esperava muito que

as agressões que sofreu não resultassem nisto, mas estas coisas não estão nas nossas mãos. Belle não teve de perguntar se o bebé tinha morrido; sabia que nunca tivera a mais pequena hipótese.

– Era um menino ou uma menina? – conseguiu dizer.

– Uma menina, mas demasiado pequena para conseguir respirar – re-

spondeu o médico, com a voz a quebrar-se-lhe de emoção. Jimmy queria uma menina, queria chamar-lhe Florence. Belle deixou

as lágrimas correrem livremente; sentia que lhe tinham roubado tudo.

– Agora eu e Mrs. Franklin vamos lavá-la e eu vou dar-lhe qualquer

coisa para a ajudar a dormir – continuou o Dr. Towle, enquanto lhe pegava no pulso. – Quem me dera que estivesse ao meu alcance aliviá-la também do desgosto, mas receio que só o tempo possa fazê-lo. Belle sentiu outra golfada de sangue sair dela e fechou os olhos, a não querer ver o pânico estampado na cara de Mog.

Eram dez da manhã quando Mog desceu a escada com o Dr. Towle para o acompanhar até à porta. Ambos cambaleavam de cansaço: Mog tinha grandes manchas vermelhas a sujar o avental branco e o médico,

sempre tão impecável e imaculado, parecia uma pessoa diferente, com um restolho de barba na cara e os olhos raiados de sangue. O céu estava cinzento-escuro e fazia muito frio. Ouviram Garth a ar- rastar barris na adega. Tinha deixado a porta aberta.

– Ela vai recuperar? – perguntou Mog, com a voz a tremer. Belle per-

dera uma quantidade enorme de sangue e houvera um momento em que não parecera possível salvá-la. Mas o médico enchera-a de gaze, e agora estava tudo nas mãos de Deus.

– É jovem e forte – disse o Dr. Towle, e deixou escapar um suspiro

fundo, como se estivesse a tentar encontrar aspetos positivos. – Se con- seguir ultrapassar as próximas vinte e quatro horas sem mais hemorragias e sem infeções, julgo que recuperará completamente. Vou mandar uma

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enfermeira para ficar com ela. O seu esforço é admirável, Mrs. Franklin, mas está exausta e a Belle precisa de cuidados especializados. Mog assentiu com um gesto de cabeça.

– O que for melhor para ela. Não suportaria perdê-la.

– É sua sobrinha? – perguntou o médico, a olhar para ela com curiosid-

ade. Sabia que Mr. Franklin era tio de Jimmy Reilly, mas sentia o pro- fundo amor que aquela mulher tinha pela sua paciente, e parecia muito mais forte do que seria normal num parentesco só por afinidade.

Fui governanta da mãe dela – respondeu Mog. – Mas criei-a desde

bebé.

Estou a ver. – O médico anuiu. – Pois deixe-me dizer-lhe que fez um

excelente trabalho. É uma jovem encantadora e, segundo a minha mulher, uma talentosa chapeleira. É uma pena o marido ter partido recentemente

para França. Tenho a certeza de que a presença dele lhe faria muito bem.

– Acha então que devemos tentar trazê-lo para casa? – perguntou Mog.

– A Belle não quis que ele soubesse do ataque, para não o preocupar, e

suspeito de que dirá o mesmo acerca disto.

– Sim, mas pelo que sei a respeito do Jimmy, diria que gostaria de es-

tar aqui para apoiar a mulher. É claro que vai demorar algum tempo a contactá-lo e conseguir o seu regresso, mas sim, penso que é o que deve ser feito.

– Mas como, senhor doutor? – perguntou Mog, a retorcer o avental

com as mãos. – Não sei nada dessas coisas.

– Dê-me o nome do regimento e outros pormenores e deixe o assunto

comigo. Tenho alguma influência que posso usar para o trazer de volta. Depois de ter dado a Mog instruções sobre a maneira de cuidar de Belle enquanto a enfermeira não chegasse e de ter tomado nota das in- dicações referentes a Jimmy, o Dr. Towle saiu, dizendo que voltaria antes

do jantar. Garth entrou na cozinha quando Mog estava a pôr a roupa suja na

celha para ser lavada. Viu, por cima do ombro dela, a água fria tornar-se encarnada, e empalideceu.

– Ela vai conseguir? – perguntou.

– Não sei.

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Mog voltou-se para o marido, desfeita em lágrimas. Tinha-o ouvido, durante a noite, andar de um lado para o outro no corredor, e o facto de saber que ele tinha tanto medo como ela era reconfortante. Garth abraçou-a e apertou-a contra o peito.

– A sorte não pode ser cruel ao ponto de levá-la agora, desta maneira,

depois de tudo aquilo por que ela passou e tudo o que significa para o Jimmy e para nós – disse, com a voz a tremer de emoção. Mog endireitou-se e limpou os olhos à manga do vestido.

– Tenho de voltar para junto dela – disse. – Importas-te de trazer

carvão para acender a lareira no quarto? Pôs-se muito frio, e quando a en- fermeira chegar não podemos deixá-la gelar.

– Alguma vez pensas em ti mesma? – perguntou ele gentilmente, e

acariciou-lhe a face. – Só dormiste um par de horas antes de isto acontecer.

Não podes com uma gata pelo rabo.

– Ficarei bem logo que souber que ela vai recuperar.

Ele voltou a abraçá-la e passou-lhe as mãos pelo cabelo.

Vai, então. Já te levo uma chávena de chá, e trato eu de acender o

lume.

Às oito da noite, Mog estava sentada num cadeirão de braços no quarto de Belle, a observar a dança das chamas na lareira. O Dr. Towle tinha aparecido uma hora antes para substituir os pensos e mostrara-se encorajado ao verificar que não houvera novas hemorragias e que o pulso da paciente estava mais forte. Por isso, mandara a enfermeira Smethwick para casa, pedindo-lhe que voltasse na manhã seguinte para render Mog. Dissera também que tinha conseguido enviar uma mensagem ao comandante do campo de treino em Étaples e que tinha esperança de que Jimmy pudesse apanhar o próximo barco para Dover. Mog ouvia os carroções, carruagens e, muito de longe em longe, os carros que passavam na rua. Tinha ouvido os passos de alguém que usava protetores metálicos nas botas, mas o pub estava muito mais silencioso do que era habitual. Pensou que Garth devia ter dito aos clientes que não fizessem barulho por causa de Belle. Fora um dia longo e esgotante. Smethwick, ainda que muito claramente uma excelente enfermeira, era

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uma das mulheres mais imperiosas que alguma vez tivera a infelicidade de conhecer. A primeira coisa que exigira fora que retirasse do quarto tudo aquilo a que chamava «patetices» e que incluía almofadas bordadas, nap-

erons de renda, o expositor onde estavam pendurados seis bonitos chapéus

e inúmeros lenços de cabeça e a colcha com folhos. Mog ainda tentara ar-

gumentar que Belle ficaria chocada ao ver-se num quarto despido de todas as coisas que amava, mas Smethwick pusera fim à discussão declarando que eram viveiros de germes. E assim se passara o dia todo, com Mog a

andar de um lado para o outro às ordens da mulher. Nem uma única vez a harpia sugerira que fosse dormir um pouco, apesar de ver que mal con- seguia manter-se de pé de tão cansada que estava. Muito pelo contrário, mandara-a até sair para comprar um pouco de fígado, que deveria ser li- geiramente estufado em leite e dado a Belle quando ela se sentisse capaz

de comer, para lhe fortalecer o sangue. Mog fizera notar que Belle detest- ava fígado e que, em sua opinião, um copo de Guiness faria o mesmo efeito de uma maneira muito mais agradável.

– Dar álcool a uma mulher doente? – escandalizara-se a enfermeira Smethwick. – Era o que faltava!

A partir daí, Mog evitara quaisquer novas confrontações, mas estava

decidida a, no dia seguinte, dar a Belle um pouco de Guiness, se ela quisesse, uma vez que era uma das suas bebidas preferidas. Tencionara dormitar um pouco junto à lareira, mas agora que podia descansar, não conseguia manter os olhos fechados. Levantou-se do ca-

deirão e foi ver como estava Belle. Só com a luz da lareira e da vela pou- sada em cima da mesa de cabeceira, era impossível saber se estava ou não

a recuperar as cores, mas, pelo menos, parecia dormir sossegada. Tinha o

cabelo preto húmido e emaranhado, e os lábios pareciam gretados, mas, para ela, continuava a ser a mais bonita. Lembrou-se de como a tinha tratado quando tivera sarampo, com cinco anos. Permanecera fechada com ela no quarto escurecido durante quinze dias, a dar-lhe banhos de esponja para fazer baixar a febre, aterrorizada pelo pensamento de que podia ficar cega, como acontecia a tantas crianças que contraíam a doença. Annie aparecia de vez em quando, para saber dela, mas nunca passava da porta. Dizia que era por não querer correr o risco de espalhar a doença, mas

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Annie tinha sempre uma desculpa qualquer para não se comportar como uma mãe normal. «Devia enviar-lhe um telegrama», pensou Mog, a sentir-se culpada por

não o ter feito logo a seguir ao ataque e, desse modo, preparado Belle para

o que acontecera naquele dia.

A relação de Mog com Annie desfizera-se quando o bordel fora

destruído pelo fogo, pouco depois de Belle ter sido raptada. Dois anos mais tarde, quando Belle voltara de França, tinham-se reconciliado por causa dela, e Mog convidara Annie para o seu casamento. Annie estivera presente também no casamento de Belle, chegara até a ajudar nos preparat- ivos, mas na realidade tudo o que tinham eram um passado partilhado. Mog perguntava muitas vezes a si mesma se poderia sequer dizer que tin- ham sido verdadeiramente amigas. Em retrospetiva, parecia-lhe muito mais uma relação do género patroa e criada. No entanto, apesar de Annie ser dura como pedra e muito pouco dada

a expressar os seus sentimentos, Mog sabia que amava a filha. Belle dis-

sera que da última vez que a visitara e lhe contara que estava grávida, An- nie respondera que tinha esperança de ser melhor avó do que fora mãe.

Uma lágrima rebolou pela face de Mog. Quando Belle engravidara, tinha ficado tão empolgada e entusiasmada que esquecera completamente a sua própria esperança de vir a ter um filho. Já tricotara dois casaquinhos e várias camisinhas de dormir e estava a preparar-se para começar um xaile.

As roupas não importavam, podia dá-las a qualquer outra jovem mãe.

O que verdadeiramente lhe doía era o facto de todos aqueles belos sonhos terem sido desfeitos. Não poderia passear o bebé no carrinho até à charneca. Não haveria férias em família à beira-mar, nem nunca iria levar à escola, pela mão, um menino ou uma menina. O Dr. Towle dissera-lhe naquela noite que, em sua opinião, não seria sensato da parte de Belle tentar ter outro filho, dada a alta probabilidade de haver lesões internas ir- reparáveis capazes de provocar uma repetição daquele desfecho. Jimmy ia ficar inconsolável. Confidenciara-lhe uma vez que queriam ter pelo menos quatro filhos. Não amaria Belle menos por causa disso, claro, mas Mog sabia que havia de querer descarregar a sua fúria no homem que a assaltara e agredira. Não quereria saber do dinheiro nem dos

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estragos causados na loja, mas aquele homem malvado roubara-lhes, a ele

e a Belle, a coisa mais preciosa da vida. Belle mexeu-se na cama e abriu os olhos.

– Que estás a fazer aí de pé? – perguntou, numa voz que era pouco mais do que um murmúrio.

– A olhar para ti, querida – respondeu Mog, e sentou-se na beira da cama. – Como te sentes?

– Não sei – disse Belle. – Estou aqui há muito tempo?

– Algum. São quase dez da noite. Passaram mais de vinte e quatro hor- as desde que começou.

– E estive sempre a dormir?

Mog apercebeu-se então de que, por ter passado o dia praticamente in- consciente, Belle não fazia ideia de como tinha estado perto da morte.

– Sim, a maior parte do tempo – disse. – E podes voltar a dormir, mas

primeiro deixa-me arranjar-te qualquer coisa para beber. O médico disse para te dar leite morno com uma gota de brandy. Vou buscá-lo.

Voltou pouco depois com o leite, ao qual acrescentara não só o brandy mas também o medicamento que o Dr. Towle lhe deixara para ajudar Belle

a dormir. Passou-lhe um braço pelas costas, levantou-a com muito cuid-

ado, para não sacudir o ombro magoado, e levou-lhe a caneca aos lábios.

– Bebe tudo – disse, como fazia quando Belle era uma menina. – Para

ficares boa. Foi bom vê-la beber o leite até ao fim – durante o dia, não conseguira engolir mais do que alguns pequenos goles de água. Quando acabou, arranjou-lhe as almofadas e voltou a deitá-la.

– Como é que vou dizer ao Jimmy? – perguntou Belle, com os olhos marejados de lágrimas.

– Havemos de pensar nisso amanhã de manhã – disse Mog. – Vou

ficar aqui contigo esta noite, para o caso de precisares de alguma coisa.

– Deita-te na cama comigo. – Belle agarrou-lhe a mão. – Por favor.

Não quero que passes a noite sentada na cadeira. Deves estar tão cansada. A ideia de que a enfermeira Smethwick não aprovaria aquilo perpas- sou de modo fugaz pela cabeça de Mog. Mas ela e Belle tinham partilhado muitas vezes a mesma cama, no passado, e era um conforto nos momentos

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difíceis. Além disso, quem queria saber do que pensava a enfermeira Smethwick? Só os desejos de Belle importavam.

– Se quiseres – disse. – Vou só lá abaixo despedir-me do Garth e de-

pois vestir a camisa de noite. Agora dorme. Inclinou-se e beijou Belle na testa. Estava morna, mas não febril. Teri- am as suas preces sido atendidas?

Mog passou todo o dia seguinte com os nervos em franja. Belle pare- cia ter estabilizado, até comeu algumas colheres de sopa, mas isso não sig- nificava que estivesse livre de perigo. Mog sabia que uma infeção podia surgir de um momento para o outro, e que era isso que matava mulheres naquela situação.

A enfermeira Smethwick começava a mexer-lhe com os nervos, com

as suas ordens e os seus ares de superioridade. Deixara bem claro que não a queria a entrar e sair constantemente do quarto da doente, remetendo-a

para as suas tarefas e as suas preocupações. Tinha enviado um telegrama a Annie, que podia aparecer a qualquer

altura. O que não deixaria de tornar a atmosfera ainda mais tensa. Garth não gostava muito dela, e se Annie se mostrasse tão abrasiva como era seu costume, ia de certeza irritá-lo. Tudo o que verdadeiramente queria era que Jimmy voltasse. Confortaria Belle, daria a Garth um aliado masculino e a sua força tranquila ajudá-la-ia a ela a aguentar-se.

E então chegou o carteiro, com uma resposta de Annie: «Diz Belle

lamento. Não posso ir agora. Breve. Annie.»

– O que poderá ser mais urgente do que ver uma filha doente? – disse

Garth, de lábios arrepanhados como costumava fazer quando escondia os seus verdadeiros sentimentos.

Como sempre, Mog sentiu-se obrigada a fazer o papel de pacificadora.

– Talvez esteja doente. Pode ter tido um hóspede mais difícil. Montes de coisas.

– Mais provavelmente acha que perder um filho só pode ser uma coisa boa – rosnou Garth, maldoso.

– Não digas isso – ralhou Mog. – A Belle disse-me que ela estava muito feliz com a perspetiva de ser avó.

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– A única coisa que a faz feliz é ganhar dinheiro – replicou Garth e, dando meia-volta, afastou-se.

Mal a enfermeira Smethwick saiu, ao fim do dia, Mog subiu para ir ver Belle. Estava acordada e tinha os olhos vermelhos do choro.

– Que se passa, querida? – perguntou Mog, enquanto se sentava na cama junto dela.

– Queria que o Jimmy cá estivesse – respondeu Belle, tristemente. – Não sei como é que vou dar-lhe uma notícia destas.

– Bem, com isso podes deixar de te preocupar. O doutor enviou-lhe

uma mensagem e pediu que o mandassem para casa. Não te disse nada antes porque pensei que vê-lo entrar porta adentro seria uma surpresa

maravilhosa para ti.

– Tinha de ser um estranho a dizer-lhe? – Belle fez um ar horrorizado.

– E porque haviam eles de deixá-lo vir por uma coisa assim? Só se pensas-

sem que eu estava a morrer! Mog engoliu em seco. Devia ter adivinhado que Belle só pensaria em Jimmy, não nas suas próprias necessidades.

– O doutor Towle disse que tinha alguma influência. Achou que pre- cisavas do Jimmy aqui.

– E achou que era uma generosidade deixá-lo fazer toda a viagem a

pensar o pior?

– Tenho a certeza de que o doutor Towle há de ter dito ao comandante

que tu estavas a recuperar, querida. E também conheço suficientemente o Jimmy para saber que ficaria zangado connosco se não tentássemos ao menos fazer-lhe chegar uma mensagem. Seria muito mais cruel dar-lhe a notícia numa carta e deixá-lo imaginar sabe-se lá o quê.

Belle tapou a cara com as mãos e começou a soluçar.

– Nunca mais vai voltar a ser a mesma coisa. Todos os nossos planos

foram por água abaixo. O Jimmy está na tropa e eu perdi o bebé. Não resta nada.

– Isso é pura patetice – disse Mog, indignada. – Tu e o Jimmy con-

tinuam a ter-se um ao outro, e a guerra não há de durar para sempre. E há a loja, também, quando voltares a estar bem.

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Belle afastou as mãos do rosto.

– Sabes muito bem que nem o Garth nem o Jimmy me deixarão voltar

para lá. Vou ter de estar como todas as outras esposas inglesas, fechada em

casa. Sem poder ser eu, a ver os anos passar sem propósito nem objetivo, sem nada que realizar. Mog protestou porque achou que era a sua obrigação. Disse que Belle estava transtornada por ter perdido o bebé e a olhar para as coisas de uma maneira distorcida. Mas sabia que ela tinha razão. Garth e Jimmy não iam querer que voltasse à loja: teriam medo, depois do que acontecera. Se Belle fosse como qualquer uma dessas vulgares jovens bem-educa- das, não aspiraria a mais do que ser uma esposa bem-amada. Mas Belle não era vulgar, não tinha tido uma infância normal com uma mãe que cui- dasse da casa enquanto o pai trabalhava fora. Na idade mais impres-

sionável, fora levada para longe de casa e, de ambos os lados do Atlântico, aprendera coisas que haviam apagado a sua inocência e lhe tinham en- sinado a arte da sobrevivência. Ela, que odiava as distinções de classes, fora, desde o primeiro dia em que abrira a loja, obrigada a fazer vénias a snobes porque eram eles a cli- entela que lhe permitia viver. Em casa, estava sempre a imitar as senhoras que lhe entravam na loja, a pavonearem-se de nariz empinado e a queixarem-se de como estavam cansadas depois da prova de um vestido, de um almoço com amigas ou até de um jogo de bridge. Mog, Jimmy e Garth achavam muito divertidas as suas pequenas imit- ações, que retratavam com tão crua fidelidade a monotonia vazia das vidas daquelas mulheres. Pouco faziam pelas suas próprias mãos, e o seu único objetivo parecia ser assegurarem-se de que as filhas casavam bem e viviam exatamente da mesma maneira que elas.

E no entanto, por ser uma chapeleira tão talentosa, Belle conquistara

um estatuto especial junto daquelas mulheres e habituara-se a ser lison- jeada por elas. Podia não gostar daquilo que representavam, mas orgulhava-se de ter conseguido pôr um pé no mundo onde elas se moviam. Se desistisse da loja, passaria no mesmo instante a ser vista como a mulher de um taberneiro, e as mesmas mulheres que a tinham tratado como uma amiga não se dignariam sequer a olhar para ela.

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Belle precisava de pessoas quase tanto como precisava de criatividade. Se tivesse tido o bebé, teria sido uma boa mãe, uma mãe cheia de amor, mas tinha demasiado fogo, imaginação e inteligência para se conformar a uma vida de tarefas domésticas.

– Ainda vai demorar algum tempo até voltares ao normal – disse Mog

com muito cuidado, porque não queria ir contra qualquer coisa que Garth ou Jimmy pudessem dizer. – Descansa, melhora, e fala com o teu marido quando ele chegar a casa. O Jimmy é muito compreensivo, tu sabes disso.

Talvez não queira que voltes à loja, mas não acredito nem por um instante que se oponha a que faças algum trabalho voluntário para ajudar ao esforço de guerra.

– A distribuir penas brancas, como a mãe da Miranda? – respondeu

Belle, com algum azedume. – Ou talvez queiras que me junte ao teu cír-

culo de tricotadeiras? Consegues verdadeiramente imaginar-me a fazer esse género de coisas?

– Sabes muito bem o que penso a respeito dessas estúpidas mulheres

que distribuem penas brancas – retorquiu Mog. – Há outros papéis, papéis úteis. Portanto, porque é que, enquanto estás aí deitada, em vez de te en-

cheres de pena de ti mesma não pensas no que é que gostarias de fazer?

CAPÍTULO 7

–E stá bem, está bem, já lá vou – resmungou Garth enquanto subia as escadas da adega para ir abrir a porta. Sabia que Mog estava com

Belle e a enfermeira Smethwick ainda não tinha chegado, de modo que as-

sumiu que devia ser o Dr. Towle que vinha mais cedo do que de costume, uma vez que ainda não eram sete e meia da manhã.

Correu os ferrolhos da porta lateral e rodou a chave na fechadura, e en- controu Jimmy, de uniforme, à espera.

– Jimmy, meu rapaz – exclamou, encantado e surpreendido. – Mas que grande alegria! Anda, entra.

Jimmy tirou a boina antes de entrar e deteve-se no vestíbulo, a olhar para a escada.

– Como está ela? O comandante só me disse que tinha perdido o bebé, mas eu sei que há mais.

Garth, que sempre tivera dificuldade em falar de coisas de mulheres, hesitou.

– Não morreu, pois não? – perguntou Jimmy, com os olhos muito

abertos de medo.

– Não, não. – Garth deu-lhe uma palmada no ombro. – Claro que não.

– Esteve muito mal, mas agora estamos convencidos de que vai recuperar. Sobretudo depois de te ver. Jimmy correu escada acima, galgando os degraus dois a dois. Mog acabava de tirar a bandeja do pequeno-almoço da frente de Belle quando ele irrompeu no quarto.

– Jimmy! – exclamaram as duas mulheres.

Mog disse como estava feliz por vê-lo e Belle começou a chorar.

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Estava quase sentada, apoiada em duas grandes almofadas, mas, à luz do dia, o seu rosto parecia um pergaminho amarelecido pelo tempo. Mog tinha-lhe escovado o cabelo, mas mesmo assim continuava baço e sem vida. Jimmy correu para a abraçar, mas Mog deteve-o.

– Tem cuidado com o ombro e com as costelas. Ainda lhe doem.

– Porquê? – perguntou ele, intrigado.

– Explicamos-te mais tarde – disse Mog.

Jimmy lançou-lhe um olhar confuso, mas sentou-se na beira da cama e acariciou a face de Belle.

– Não chores, querida – disse. – Agora estou aqui e poderás contar-me tudo quando estiveres pronta. Mog ouviu os passos da enfermeira Smethwick na escada.

– É a enfermeira – anunciou –, que vem lavar a Belle e fazer outras

coisas. Vem até à cozinha enquanto ela trata disso e eu preparo-te um pequeno-almoço como deve ser. Deves estar cansado e cheio de fome, de-

pois de teres viajado a noite toda.

– Não vou ser arrastado para longe da minha mulher por causa de uma

enfermeira – declarou Jimmy, indignado. Mog voltou-se e viu a enfermeira Smethwick de pé no umbral da porta. Era uma mulher feia e gorda, com uma cara que parecia um pedaço

de massa de tarte acinzentado, e muito evidentemente ouvira o comentário de Jimmy.

– A sua esposa, Mister Reilly, precisa neste momento de uma enfer-

meira – disse, num tom seco. – E não se sente na cama. Sabe Deus que germes esse uniforme traz agarrados. Jimmy ficou de queixo caído, mas Belle soergueu-se um pouco das almofadas.

– Não se atreva a falar ao meu marido dessa maneira! – exclamou. –

Viajou a noite inteira vindo de França para chegar aqui. Pagamos-lhe para

que preste serviços de enfermagem, não para que dê ordens ao meu marido ou à minha tia. É favor lembrar-se disso se quer trabalhar aqui. Mog sorriu. Teve a certeza de que Belle estava muito melhor, para conseguir fazer frente a um dragão como a enfermeira Smethwick.

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– Deixe-os ficar dez minutos, enfermeira – sugeriu. – Venha até à co-

zinha beber uma chávena de chá comigo enquanto preparo o pequeno-al-

moço do Jimmy.

Jimmy sorriu a Belle enquanto Mog e a enfermeira saíam.

– Onde foram desencantar aquele ogre? – perguntou.

Belle voltou a deixar-se cair nas almofadas.

– A Mog diz que foi o médico que a mandou, mas eu acho que é o di- abo em forma de gente. Um castigo por pecados antigos.

– Agora, conta-me o que aconteceu – pediu Jimmy. – Que queria a

Mog dizer com aquilo do ombro e das costelas? Tiveste um acidente? Belle tinha estado a tentar arranjar uma maneira de suavizar o que acontecera para que Jimmy a deixasse voltar à loja, mas ao ver a preocu- pação nos olhos dele, e ao pensar no medo que devia ter sentido durante

toda a viagem de regresso a casa, compreendeu que tinha de lhe dizer toda a verdade. Viu-o cerrar e abrir os punhos enquanto ela descrevia o incidente. Ho- mens como ele e Garth não eram do género de ficar de braços cruzados e esperar que a polícia e os tribunais fizessem justiça. Tinha quase a certeza de que Garth já oferecera uma recompensa a quem lhe revelasse o nome do atacante.

– Lamento tanto, Belle – disse Jimmy, e pousou a mão na face dela,

com os olhos marejados de lágrimas. – Não consigo suportar a ideia de al- guém te fazer mal. E também estou muito triste pelo nosso bebé. Não con- sigo encontrar as palavras certas para te reconfortar.

– A tua presença aqui é o suficiente – disse ela, pegando-lhe na mão e

beijando-a. Viu-a coberta de marcas e bolhas, uma maneira de lembrar que também ele tinha passado por tempos difíceis. – Vai agora tomar o teu pequeno-almoço, e depois toma um banho e dorme. Diz ao ogre que pode

subir. E tenta convencer a Mog a descansar hoje. Com certeza calculas como ela tem estado. Jimmy sorriu sombriamente.

– Durante todo este tempo, em França, imaginava-os a conversar e a

rir na cozinha, tudo como sempre costumava ser. Pensava que se pudesse

acontecer alguma coisa de mal seria a mim, nunca a ti.

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– Já estou quase bem, agora – disse ela. – Anda, vai-te embora. Falam- os mais tarde.

Mal acabou de tomar o pequeno-almoço, gulosamente acompanhado por três chávenas de chá, Jimmy foi procurar Garth. Estava no pub, a limpar copos, e voltou a cabeça, ansioso, quando Jimmy entrou e fechou a porta que dava para a casa.

– Que tal o treino? – perguntou. – Esse corte de cabelo é um pouco

rigoroso. Jimmy sorriu a contragosto e passou a mão pelos dois centímetros e

meio de cabelo que o barbeiro do exército lhe tinha deixado.

– Com um pouco de sorte, não vou precisar de outro até ao Natal –

disse. – A Belle contou-me do ataque. Tem alguma informação sobre quem foi?

– Só que tem havido vários semelhantes nos últimos meses, em Lew-

isham, Catford e Greenwich – respondeu Garth. – A polícia acha que é o mesmo homem. Ataca sempre pessoas que estão sozinhas nas lojas, nor-

malmente ao fim do dia. Pensam que é de Deptford, mas tu sabes como são as coisas para esses lados. Jimmy sabia: prédios degradados e sobrelotados, pardieiros que mais pareciam coelheiras e pessoas que nunca denunciariam um dos seus.

– Se pensam que é de Deptford, não têm um suspeito?

– Se têm, não estão a dizer. É difícil encontrar alguém sem uma descrição completa. Achas que a Belle seria capaz de o desenhar? Talvez ajudasse. Jimmy pensou nisto por um instante. Belle era muito boa a fazer es- boços rápidos de pessoas, mas não tinha a certeza de que desenhar um

homem que de certeza preferia esquecer fosse bom para ela. E assim o disse a Garth. Garth suspirou.

– Eu sei, foi por isso que não disse nada. Um homem capaz de espan-

car uma mulher indefesa está a precisar de uma boa lição. E gostaria muito

de ser eu a dar-lha.

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– Também eu – disse Jimmy. – Mas só tenho dois dias de licença, e quero passar esse tempo todo com a Belle.

– Como é aquilo por lá?

– Doem-me músculos que nem sequer sabia que tinha – respondeu

Jimmy, com algum humor. – Mas, mesmo assim, estou em melhor forma do que a maior parte dos outros. E também estou a tornar-me um grande atirador… o sargento deixou de berrar comigo e há dias até me disse que estava a ir muito bem. Só espero não perder a coragem quando estiver na frente. A maior parte dos mais novos está ansiosa por ir, mas eu vim num barco com os feridos e vi ferimentos tão horríveis que fiquei doente. Não quis dizer a Garth que fora mobilizado para ajudar os enfermeiros. Pouco mais podia fazer além de oferecer água ou levar um cigarro aos lá- bios de um soldado. Alguns tinham-lhe pedido que escrevesse por eles uma carta para os pardieiros onde viviam. Mas aqueles eram soldados profissionais, homens sem medo que já tinham combatido na África do Sul, uma raça muito diferente dos voluntários com que Jimmy estava a fazer a recruta. Se eles, com todo o seu conhecimento da guerra, podiam ser feridos ou mortos, que aconteceria aos novatos que ainda acreditavam

que a guerra era uma aventura? Dois dos homens para quem Jimmy escrevera cartas tinham morrido antes de chegarem a Dover, mas mesmo assim ele iria pôr as cartas no cor- reio, mais tarde. Talvez fosse um pequeno consolo para as famílias saber que tinham pensado nelas até ao fim. Garth deu-lhe uma das suas vigorosas palmadas nas costas. Jimmy sabia que era a maneira de o tio lhe dizer que se orgulhava dele e com- preendia os seus medos. Depois de um banho, um par de horas de sono no sofá e novamente vestido à paisana, Jimmy ouviu o médico sair do quarto de Belle e apanhou-o quando ia a descer a escada.

– Como está ela, senhor doutor? – perguntou, depois de se ter

apresentado.

– Muito mais animada, agora que está em casa – disse o médico, com

um sorriso. – Julgo que está fora de perigo, mas vai demorar algum tempo

a recuperar as forças. Perdeu muito sangue. Jimmy anuiu.

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– Mrs. Franklin certificar-se-á de que come bem e descansa muito.

Obrigado por tudo o que fez por ela. E por me ter conseguido a licença.

Fico-lhe muito grato.

– Não teve importância. – O médico pousou a mão no ombro de

Jimmy e olhou para ele com uma expressão preocupada. – Mas receio que haja mais uma coisa que preciso de lhe dizer. Não será aconselhável para a sua mulher tentar ter outro filho. Jimmy empalideceu.

– Nunca mais?

– Não posso dizer com certeza absoluta que as lesões que sofreu a im-

pedirão de levar a termo outra gravidez, mas seria arriscado – disse o médico, gentilmente. – Sei o golpe que isto representa para os dois, e lamento muito.

– Já o disse à Belle? – perguntou Jimmy, com a voz a tremer de

emoção.

– Não, não disse, e, por enquanto, penso que será preferível manter

isto entre nós os dois e Mrs. Franklin. Jimmy engoliu em seco e assentiu em silêncio. Não confiava na voz,

se abrisse a boca para falar.

*

Dois dias mais tarde, enquanto Belle estava a descansar, Jimmy foi até à loja. Naquela manhã, tinham chegado várias cartas de clientes que, sabedoras do que acontecera, queriam manifestar a sua solidariedade. Belle perguntara-lhe como devia responder-lhes, se devia avisá-las de que não voltaria a abrir a loja, e Jimmy não soubera o que dizer. Garth deixara bem claro o que pensava do assunto. Para ele, manter a porta aberta era peri- goso e o lugar de Belle era em casa. Jimmy estava de acordo, mas também sabia o que a loja significava para Belle e por isso estava relutante em pronunciar-se, de momento. Pensara que, se fosse dar uma vista de olhos, talvez conseguisse arru- mar as ideias e chegar a uma decisão. Fechou a porta da loja depois de

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entrar e olhou em redor. Mog tinha feito a limpeza no dia seguinte ao ataque, mas o espelho sem vidro e a cadeira partida na sala das traseiras bastavam para lhe dar uma ideia de como fora horrível. Ainda havia uma mancha de sangue na parede, e vê-la fez com que as entranhas se lhe con- traíssem de fúria. No entanto, enquanto deambulava pela loja, a tocar nos pequenos chapéus que Belle fazia tão bem, soube que não era capaz de lhe exigir que desistisse completamente dela. Sem aquele interesse e com ele em França,

Belle sentiria que nada mais lhe restava. O som de alguém a bater à porta interrompeu-lhe os pensamentos. Mog pendurara um letreiro a dizer «Encerrada até nova ordem», mas, apesar disso, viu uma jovem do outro lado do vidro, a fazer-lhe sinais para que abrisse. Um pouco irritado, abriu a porta. A jovem, elegantemente vestida, usava um chapéu verde enfeitado por uma pena que tinha, de certeza, sido feito por Belle.

– Lamento, mas a loja está fechada – disse, ao mesmo tempo que

apontava para o letreiro.

– Eu sei ler – replicou a jovem, num tom de seca ironia. – Mas estive

fora uns dias. Vim ver a Belle, somos amigas, compreende? Chamo-me Miranda Forbes-Alton. Aconteceu alguma coisa à Belle? E já agora, quem

é o senhor? Jimmy lembrou-se de uma referência a alguém chamado Miranda. Se-

gundo Mog, tinha uma mãe insuportável, e a julgar pelas maneiras, a filha fora cortada do mesmo pano.

– Sou o marido – disse. – A Belle foi atacada e roubada e em con-

sequência da agressão perdeu o nosso bebé. Para sua consternação, os olhos da jovem encheram-se de lágrimas.

– Oh, Céus, não! – exclamou Miranda, limpando os olhos com um

lenço de renda. – Pobre Belle, que coisa horrível! Estava tão feliz por ir ter

um filho. Se tivesse sabido mais cedo! Há alguma coisa que possa fazer? Posso tomar conta da loja, se isso ajudar. Jimmy não gostara da maneira como ela lhe perguntara quem era. No entanto, a óbvia perturbação da jovem por causa do que acontecera a Belle apaziguou-o.

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– É muita gentileza sua – disse –, mas decidimos manter a loja encer-

rada, de momento. Como pode imaginar, ela ainda está muito fraca e triste.

– Claro que deve estar. Desculpe ter-lhe falado com dureza, Mister

Reilly. Não esperava que fosse o senhor, sabendo que estava em França. Conte-me o que aconteceu. A que horas foi? Jimmy explicou tudo com mais pormenor, incluindo como Belle est- ivera perto da morte devido à perda de sangue e como o médico tinha usado a sua influência para lhe conseguir uma licença. Miranda sobressaltou-se, com uma expressão horrorizada.

– Mas vai ter de voltar para o exército, não vai? – disse. – Há alguma

coisa que eu possa fazer para ajudar? Gosto muito da Belle e sei que vai

ficar ainda mais triste quando se for embora. Jimmy reconheceu a sinceridade das palavras daquela jovem, e soube que se sentiria muito mais descansado quando regressasse a França sabendo que Belle tinha uma boa amiga com quem falar.

– Tenho de voltar amanhã – disse. – Tenho a certeza de que a Belle

ficaria contente por receber a sua visita, da parte da tarde. Talvez consiga animá-la.

– Vou certamente tentar – respondeu ela. – E, por favor, diga-lhe que

penso nela e explique-lhe que só soube do ataque depois de falar consigo.

– Com certeza, Miss Forbes-Alton. A Belle agradecerá o seu cuidado,

como eu agradeço. Temos uma porta lateral no Railway; não precisará de passar pelo pub.

– Irei por volta das duas. E mantenha-se a salvo, lá em França. A Belle

precisa de si inteiro. Jimmy sorriu-lhe. Compreendia agora o motivo pelo qual Belle gostava dela; podia parecer um pouco emproada à primeira vista, mas mel- horava à medida que se dava a conhecer.

Às seis da tarde, Jimmy estava a tentar convencer Belle a comer um pouco mais.

– Vá lá, só mais um bocadinho – disse, a segurar no garfo com um pedaço de empada de peixe.

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Belle suspirou, abriu obedientemente a boca e deixou-o alimentá-la. Mog fazia a melhor empada de peixe do mundo e, em circunstâncias normais, tê-la-ia devorado gulosamente, mas não tinha apetite e só comera um par de garfadas antes de desistir. Mas como Jimmy regressava a França na manhã seguinte, sabia que iria menos preocupado se pensasse que ela tinha voltado a comer. Tê-lo em casa a seu lado fizera-a sentir-se melhor. Para grande irrit- ação da enfermeira Smethwick, Jimmy passara a maior parte dos dois dias

anteriores sentado na cama ao lado dela, a conversar e a ler-lhe o jornal em voz alta. Ia ter tantas saudades dele quando voltasse a partir. Na noite anterior, o Dr. Towle dissera à enfermeira Smethwick que os seus serviços já não eram necessários. Tanto Belle como Mog tinham fic- ado contentes por verem pelas costas a tirana criatura.

– Vês, estás só a ser preguiçosa – disse Jimmy num tom de triunfo, en-

quanto lhe enfiava mais uma garfada na boca. – Se não comes, digo à Mog que volte a chamar a Smethers.

– Agora é que já não posso mais, a sério. – Belle afastou o prato com a

mão. – Não estou a gastar energia suficiente para ter fome. Hei de recuper-

ar o apetite quando puder levantar-me da cama todos os dias.

– Só daqui a mais uma semana – disse Jimmy, perentório, e pousou o

prato na bandeja. – E, mesmo assim, só durante uma ou duas horas, para

começar.

– Tu não vais saber – disse ela, a provocá-lo.

– Aposto que vou. Sinto-me ligado a ti, mesmo quando estamos sep-

arados. No dia em que aquele homem te atacou tive um estranho pressenti- mento. Só não pensei que tivesse alguma coisa que ver contigo.

– Nesse caso, o melhor é eu ter cuidado com o que faço – declarou ela,

maliciosa. – Agora passa-me o bloco de papel e eu vou tentar desenhar aquele homem. Jimmy recostou-se nas almofadas enquanto Belle desenhava. O facto de alguém ser capaz de representar fosse o que fosse só com um lápis era uma coisa que nunca deixava de o espantar. Ele só sabia fazer desenhos de criança: cães que pareciam salsichas com palitos espetados e flores que acabavam sempre parecidas com malmequeres.

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Custava-lhe ver Belle tão pálida e fraca. Estava a precisar de lavar o cabelo, nunca lho tinha visto tão escorrido e baço, mas não poderia fazê-lo enquanto o ombro continuasse a doer-lhe. Sabia que ela estava a esforçar- se muito por convencê-lo de que a recuperação estava no bom caminho, e fisicamente estava, mas por mais que risse e brincasse com ele, sentia a profunda desolação que lhe assombrava a alma por ter perdido o bebé. Só desejava que houvesse qualquer coisa que pudesse dizer ou fazer para afastar aquele negrume. Quando chegara a casa e lhe dissera que Miranda iria visitá-la no dia seguinte, Belle parecera ficar muito contente.

– Ainda bem que a conheceste – dissera. – À primeira vista pode pare-

cer um pouco empertigada, mas é só a maneira como foi educada. Quando

a conhecemos melhor, não é diferente de nós.

Naquele momento, enquanto a via desenhar e pensava no facto de ela ter travado amizade com alguém tão improvável como Miranda Forbes- Alton, perguntou a si mesmo se o pai de Belle teria sido um cavalheiro. Já com quinze anos ela tinha aquele ar polido e refinado que era prevalecente nas classes superiores. Talvez fosse em parte por terem uma alimentação melhor desde a infância, mas bastava olhar para um cavalo puro-sangue para saber que a linhagem contava. Mog podia tê-la criado e ter-lhe en- sinado boas maneiras, mas o cabelo negro e encaracolado e os olhos azuis de Belle deviam ter sido herdados do pai. Achava que o aprumo e o en- canto dela também deviam ter vindo dele. Se Annie sabia quem era – e, tendo em conta a profissão que na altura exercia, provavelmente não sabia –, o mais certo era que nunca o dissesse

a Belle. Mog não sabia; dizia que pouca atenção prestara a Annie até ela

estar na fase mais avançada da gravidez e que quando, certa vez, lhe per- guntara, ela tinha respondido que não se metesse onde não era chamada.

Jimmy sabia, através de Mog, que Annie crescera numa aldeia e que o pai era carpinteiro. Podia dar-se ares, vestir bem e ter adquirido uma certa patine de sofisticação, mas nunca ninguém se deixaria iludir ao ponto de pensar que nascera em berço de ouro.

– Pronto, é o melhor que consigo fazer – disse Belle, estendendo o bloco de desenho e arrancando Jimmy ao seu devaneio.

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Jimmy pegou no bloco e examinou o desenho, mas em vez do patife assassino que imaginara, Belle tinha desenhado um rosto muito vulgar que poderia facilmente pertencer a um empregado bancário ou a um bagageiro dos caminhos de ferro.

– De que é que estavas à espera? – perguntou Belle. – Lamento não ter

podido pôr-lhe uma cicatriz na cara ou uma pala a tapar um olho, mas ele era assim, uma pessoa normal. Corpulento, quase completamente careca, com cerca de um metro e oitenta. Tinha uma voz rouca e só quando se

aproximou de mim é que reparei no colarinho sujo, na barba por fazer e no cheiro a mofo e a humidade. Foi então que tive medo.

– Tinha obrigação de saber, depois de tantos anos em Seven Dials, que

os maus não andam com letreiros na testa – disse Jimmy, pensativo. – Desenhas tão bem, Belle. Talvez devesses pensar em dedicar-te a isso. A

sério, quero dizer.

– Em vez da loja? – perguntou ela, e viu-lhe nos olhos aquela ex-

pressão obstinada que conhecia tão bem.

– Não necessariamente – respondeu ele, cauteloso. – Olha, concordo

com o tio Garth: deixou de ser seguro para ti trabalhares lá sozinha. Fica

demasiado perto da charneca, é muito fácil para um patife qualquer à pro- cura de um alvo indefeso assaltar-te e desaparecer sem ser visto. Mas se contratasses uma ajudante, estarias muito mais segura.

– Pagar a alguém iria diminuir os lucros – argumentou ela.

– A princípio sim, mas se escolhesses a pessoa certa, por exemplo, a

tua amiga Miranda, ficarias com todo o teu tempo livre para fazer chapéus.

Podias reservar os especiais só para a tua loja e vender os mais vulgares a outras lojas, em Lewisham ou Greenwich, por exemplo.

– Estás a dizer que vais deixar-me manter a loja?

Jimmy sorriu ao ver como os olhos dela se tinham repentinamente iluminado.

– Sou o teu marido, não o teu dono – disse. – Sei que a maior parte dos

homens pensa que as duas coisas vão a par, mas eu cresci com uma mãe a gerir um negócio de modista e sem nenhum homem a dar ordens em casa. A minha mãe costumava dizer que as mulheres é que são, na realidade, o sexo forte. Basta-me olhar para ti e para a Mog para saber que é verdade. Belle pegou-lhe na mão, levou-a aos lábios e beijou-a.

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– Mas não voltarás para lá enquanto o doutor Towle não disser que es-

tás suficientemente recuperada – avisou ele. – E enquanto não arranjares

uma ajudante.

Belle olhou para ele por alguns instantes sem falar, e então uma lágrima deslizou-lhe pela face.

– Porque é que estás a chorar? – perguntou ele.

– És tu que tens este efeito em mim. Por seres sempre tão compreens- ivo e atencioso. Tenho tanta sorte em ter-te. Jimmy inclinou-se e beijou-a.

– Bem, esperemos que o tio Garth não se lembre de querer ser o rei e

senhor da casa, porque acho que é tempo de ir ter com ele e falar-lhe dos

nossos planos. Vou levar o teu desenho comigo e peço-lhe que amanhã o entregue à polícia.

Ainda estava escuro, na manhã seguinte, quando o despertador tocou. Jimmy silenciou-o e começou a levantar-se.

– Um último abraço – pediu Belle, sonolenta.

Jimmy voltou-se e passou cuidadosamente os braços à volta dela, evitando tocar-lhe no ombro ou nas costelas. O corpo quente de Belle pareceu fundir-se no dele, e Jimmy aspirou o perfume a alfazema que exa- lava e desejou do fundo do coração não ter de apanhar aquele comboio. O cabelo dela contra a sua cara era suave, o corpo por baixo da camisa de

noite de algodão branco macio, e ele não fazia ideia de quanto tempo pas- saria antes de poder voltar a abraçá-la assim.

– Tenho de ir – sussurrou. – Tu fica na cama e volta a dormir. Não quero que tentes descer a escada… É melhor despedirmo-nos aqui. Beijou-a ternamente, e deslizou para fora da cama, acendendo uma

vela para conseguir encontrar as roupas. Sentia Belle a observá-lo enquanto lavava a cara e os dentes na bacia do lavatório.

– Leva a camisola de lã que a Mog fez para ti, vai estar frio no barco.

Mog tinha-lhe lavado e engomado o uniforme, e Garth engraxara-lhe as botas: uma forma discreta de lhe mostrarem como gostavam dele. Naquele momento, o que mais queria era que não houvesse tantas provas

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de amor, que Mog não estivesse lá em baixo à espera com uma caneca de chá quente, um embrulho de sanduíches para levar e mais meias e um lenço enfiados na mochila. Tantos cuidados tornavam ainda mais difícil a partida. Finalmente, apertou os atacadores das botas e voltou à cama para bei- jar Belle uma última vez. Queria dizer-lhe que se não voltasse deveria lembrar-se sempre de que ser amado por ela fizera dele o homem mais fel- iz do mundo. Mas não podia semear-lhe na cabeça a ideia de que podia morrer. Nem semeá-la na sua própria cabeça. Só devia pensar no futuro que partilhariam quando a guerra acabasse.

– Amo-te – disse apenas, e puxou a roupa da cama para cima,

aconchegando-a. Permitiu-se um último e longo olhar, uma imagem a que poderia sempre agarrar-se por muito más que as coisas se tornassem em França: a tempestade de caracóis negros na almofada, os olhos azuis afogados em lá- grimas e os lábios carnudos e macios a tremerem. – Tem muito cuidado contigo e escreve-me todos os dias – disse numa voz muito baixa antes de soprar a vela e voltar-se para sair do quarto. Deteve-se no alto da escada para se recompor. Naquela casa podia ser apenas um marido, mas quando saísse pela porta teria de ser um soldado e pôr de parte o medo e outros sentimentos.

O som das pesadas botas de Jimmy lá fora na rua, pouco depois, fez

Belle chorar. Mais tarde, ouviu o comboio entrar na estação e voltar a partir, levando-o para longe dela. Mog subiu a escada, abriu a porta e espreitou para dentro do quarto, mas Belle fingiu que estava a dormir. A última coisa que queria era com-

paixão. Só serviria para fazê-la sentir-se ainda pior. Passou o resto da man- hã a chorar e a dormitar; agora que tinha perdido o bebé, que Jimmy tinha partido e que se capacitara da possibilidade de ele nunca mais voltar, sentia-se completamente arrasada.

E o facto de Mog lhe falar com dureza por não ter comido o pequeno-

almoço nem o almoço não ajudou nada.

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– Compreendo perfeitamente que estejas triste por o Jimmy ter tido de

voltar para França – ralhou. – Mas recusares-te a comer não vai trazê-lo de

volta; mas vai com certeza impedir-te de recuperar as forças. Tenho mais que fazer do que subir até aqui com bandejas de comida que tu não tentas sequer comer.

Quando ouviu passos no corredor, por volta das duas da tarde, Belle

pensou que era Mog que voltava para lhe dar mais um sermão e enfiou a cara na almofada, novamente a fingir que dormia, mas a porta abriu-se e a voz que ouviu foi a de Miranda.

– Oh, minha pobre Belle!

Belle sentou-se na cama. Tinha-se esquecido de que Miranda promet-

era aparecer. Caso se tivesse lembrado, teria pedido a Mog que arranjasse uma desculpa qualquer para a mandar embora. Mas agora que ela ali es- tava, com um grande ramo de flores de estufa nos braços, não foi capaz de ser mal-educada.

– Obrigada por ter vindo – disse numa voz fraca, muito consciente da

presença de Mog atrás de Miranda, preparada para dizer qualquer coisa se ela não se mostrasse devidamente agradecida.

– Fiquei perfeitamente horrorizada quando Mister Reilly me contou do

ataque, e lamento muito a sua perda – disse Miranda. – Tenho estado no Sussex, e por isso não sabia de nada. Quem me dera que houvesse

qualquer coisa que estivesse ao meu alcance para a fazer sentir-se melhor.

– Já me sinto melhor só por a ver – disse Belle. – Entre, por favor, e

sente-se. Essas flores tão bonitas são para mim? Mog sorriu, claramente aliviada por ela se ter comportado como devia

ser.

– Posso trazer-lhes um chá? – sugeriu. – E vou levar essas flores para baixo, se achar bem, e pô-las numa jarra com água. Miranda disse que adoraria um chá e puxou uma cadeira para junto da cama. Mog saiu, levando as flores consigo.

– Esteve a chorar – disse Miranda, quando a porta se fechou. – Mas

seria de esperar, agora que o Jimmy voltou para França. Aposto que sente que lhe tiraram tudo.

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– É exatamente o que sinto. – Belle suspirou. – Não sei o que faço se

perder o Jimmy. Vão mandá-lo para a frente muito em breve, e se podem

tê-lo ensinado a disparar, duvido que haja uma maneira de aprender a evitar as balas do inimigo.

– Deu-me a impressão de ser um homem muito calmo e inteligente –

disse Miranda. – Além disso, tem muitos motivos para voltar. Tenho um tio que é brigadeiro; uma vez disse-me que os homens que não têm nada a perder podem ser um perigo. São com frequência muito corajosos, mas

temerários. Os que têm tudo a perder, como o seu Jimmy, não correm riscos que os coloquem em perigo a eles e aos camaradas, e acabam por ser os melhores a comandar.

– É reconfortante sabê-lo – disse Belle, e sorriu debilmente. – Mas

ajude-me a sair deste poço de autocomiseração. Conte-me o que tem feito.

Miranda atirou para trás o elegante lenço de seda que usava ao pescoço, com um gesto que dizia que tinha muito para contar.

– Bem, por estranho que possa parecer, estava a ajudar num pequeno

hospital lá no Sussex – disse. – Os pacientes eram, na sua maioria, oficiais feridos em combate e, como sei conduzir, era eu que os levava para as cas-

as de convalescença, ou para as das famílias, quando estavam em con- dições de viajar. Mas acabou porque alguém achou mal uma mulher estar a fazer um trabalho de homem.

– Que ridículo! – exclamou Belle. – A maior parte do homens que sabem conduzir deve ter-se alistado.

– Parece que não – disse Miranda, sombria. – Eu era apenas uma

voluntária, claro, e, para ser franca, acho que foi muito rude da parte deles recusarem a minha ajuda. Sugeriram que me tornasse voluntária a ajudar a tratar dos feridos e dos doentes, se queria ter alguma coisa que fazer. Mas eu detestei esta ideia de que as mulheres só servem para lavar pessoas e en-

rolar ligaduras. Como calcula, a minha querida mamã acha que um menina bem-nascida não devia sequer fazer uma coisa dessas. E, no meio de risos, começou a contar a Belle uma aventura que lhe acontecera quando andava a conduzir. No escuro, metera pelo lado errado na bifurcação de uma estrada rural e acabara atascada na lama no meio de um bosque com um paciente que não podia andar.

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– Foi horrível. Tive de o deixar no carro e ir a pé procurar a quinta

mais próxima para pedir ajuda. Chovia imenso e eu estava a escorrer água

e tinha o casaco e os sapatos completamente estragados. Quando, por fim,

consegui que um fazendeiro me levasse no trator até ao carro, o malfadado paciente pôs-se a ralhar comigo por não me ter certificado de que tinha fósforos para lhe acender os cigarros antes de me ir embora. Dá para acred- itar? Ele ali sentado, quentinho e seco, a queixar-se de não ter podido fu- mar, enquanto eu tinha caminhado oito quilómetros e parecia uma ratazana

afogada!

Belle riu à gargalhada. A verdade era que Miranda dava a impressão de ser um pouco insensível. Muito provavelmente, o paciente pensara que ela tinha ido passar o resto da noite no hotel mais próximo e se esquecera de onde o deixara.

– Que se segue, então? – perguntou Belle. – Distribuir chávenas de chá aos soldados enquanto eles esperam pelos transportes de tropas?

– Fui convidada para gerir uma banca de chá – respondeu Miranda. –

Mas vai ser o inferno. Vou passar os dias com um monte de mulheres iguais à minha mãe. Duvido que consiga aguentar muito tempo.

– Pode ajudar-me na loja quando eu estiver melhor – disse Belle, num

impulso. – O Jimmy disse que eu podia voltar, desde que tivesse alguém comigo. Até sugeriu o seu nome. Pagar-lhe-ia, claro, e seria a pessoa ideal.

Olhe para si, uma imagem da moda! Miranda usava um vestido cinzento-prata com uma saia comprida e es- treita; à volta da gola do casaco justo pusera um lenço de seda em tons de azul e prata com uma levíssima sugestão de cor-de-rosa. O discreto chapéu

cinzento, de aba larga, tinha à volta da copa uma tira do mesmo tecido que

o lenço. – Com certeza não está a falar a sério? – perguntou, muito surpreendida.

– Claro que estou – insistiu Belle. – Tenho de contratar um ajudante,

mas faz muito mais sentido ter alguém com bom gosto e presença do que uma caixeira de loja que até agora só tenha cortado queijo. Miranda riu.

– Oh, Belle, estaria como peixe na água, porque adoro chapéus. Mas só Deus sabe o que vai a mamã dizer.

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– Talvez possa dizer-lhe que está só a ajudar-me? Fazer com que

pareça mais uma missão de misericórdia do que um emprego? Com esta, desataram as duas a rir. No caso de Belle, foi por estar a

imaginar a formidável Mrs. Forbes-Alton toda inchada de indignação, a manifestar as suas opiniões a respeito das empregadas de lojas como se fossem uma espécie de roedor.

– Dirá: «Não pode estar a falar a sério, Miranda! As pessoas vão

pensar que é uma dessas suffragettes» – disse Miranda, a imitar a voz da

mãe. – Para ela, qualquer coisa ligeiramente subversiva é uma indicação de sufrágio.

– A Mog tem grandes simpatias pelo movimento das suffragettes

disse Belle. – E eu também. Porque não hão de as mulheres poder votar?

– Para dizer a verdade, concordo – confidenciou Miranda. – Se fossem

as mulheres a mandar, não haveria guerras. Temos coisas melhores que fazer com o nosso tempo do que escavar trincheiras e matar pessoas.

– Em que ocuparia então o seu tempo, se pudesse fazer o que quisesse?

– perguntou Belle. – Não me importaria de passar uma tarde com um amante maravilhoso. A resposta, inesperadamente audaciosa, levou Belle de volta aos dias preguiçosos no Martha’s em Nova Orleães. As raparigas eram sempre sim-

páticas e abertas, e ela tinha saudades daquele género de cumplicidade feminina. Miranda não fora tão explícita como qualquer delas teria sido, mas o facto de se sentir suficientemente segura para falar provava que a via verdadeiramente como uma amiga. Miranda tapou a boca com a mão.

– Oh, que falta de tato da minha parte, depois de tudo por que passou – disse, muito corada.

– De modo nenhum – riu Belle. – Animou-me mais do que pode

imaginar.

– A sério?

– Sim, a sério. Foi adorável não se ter sentido na obrigação de andar em bicos de pés à minha volta. Ainda estavam a rir quando Mog entrou com uma bandeja onde tinha posto as flores numa jarra e chá e bolo para as duas.

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– Ouvi-as rir lá em baixo – disse Mog. – Posso saber qual é a graça?

– Foi só uma patetice a respeito de uma das clientes da Belle – re- spondeu Miranda. – Fez-nos rir às duas.

– Bem, gostei de as ouvir. – Mog pousou a bandeja em cima da mesa

de cabeceira e levou a jarra com as flores para a cómoda. – Deixo-a a fazer

o papel de mãe, Miss Forbes-Alton – disse, e voltou-se para sair.

– Miranda, mente quase tão bem como eu – disse Belle, com uma nova

gargalhada.

– Foi uma coisa que aprendi para manter feliz a querida mamã. Tenho

a impressão de que ela desaparecia numa baforada de fumo, se me ouvisse dizer que desejava uma tarde com um amante.

No mesmo instante, Belle compreendeu por que razão Miranda fora tão imprudente com Frank. Talvez fosse um tanto ingénua quando o con-

hecera, mas não era de certeza a flor de estufa pela qual a princípio a to- mara. No fundo do coração, era uma aventureira, e fora só a sua falta de experiência com um certo tipo de homens que a levara a deixar-se enganar pelo hábil sedutor. Parecia que, afinal, tinham mais em comum do que de início pensara. Miranda ficou com ela quase até às cinco da tarde, e o tempo passou a correr enquanto as duas falavam disto e daquilo. Só quando se apercebeu de que horas eram e disse que tinha de ir para casa, é que Miranda voltou a ficar séria.

– Sei que não lhe perguntei como se sente por ter perdido o seu bebé –

disse e, inclinando-se, acariciou a face de Belle, os olhos azul-claros cheios de compreensão. – Por favor, não pense que foi por não querer saber, porque quero, muito. Mas depois das coisas por que passámos juntas, não me senti no direito se perguntar uma tal coisa porque provavelmente pensa que não senti a perda do meu bebé.

A sinceridade dela comoveu Belle.

– Sei exatamente o que quer dizer, Miranda. Foi por essa mesma razão

que, naquela noite, não lhe disse que ia ter um filho. Ambas perdemos os nossos bebés, intencional ou acidentalmente, e o nosso desgosto é igual. Penso que deu provas de uma grande coragem ao vir ver-me; deve ter tido receio de que eu me voltasse contra si. Mas fez-me sentir melhor, deu-me a

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esperança de que, um dia, hei de conseguir ultrapassar isto. E isso é muito mais valioso do que meras palavras de solidariedade. Miranda limpou apressadamente uma lágrima do canto do olho.

– Posso voltar a visitá-la? Eu sei que precisa de descansar para recu-

perar as forças, mas que me diz de depois de amanhã?

– Gostaria muito – disse Belle. – E estava a falar a sério quando disse

aquilo a respeito de trabalhar na loja, de modo que o melhor é começar a

pensar numa maneira de preparar a sua mãe. Voltaram as duas a rir, e Belle ainda sorria quando Miranda saiu do quarto e desceu a escada.

CAPÍTULO 8

N uma das salas de interrogatório da esquadra de polícia de Deptford, o guarda Broadhead tirou do bolso o esboço que Mrs. Reilly fizera do

seu assaltante e mostrou-o ao sargento Wootton. Garth Franklin fora entregar o desenho na esquadra de polícia de Blackheath um par de dias antes, e Broadhead não perdera tempo: saltara para a sua bicicleta e tratara de visitar todas as outras vítimas de crimes semelhantes cometidos na área para o mostrar. Todas menos uma confirm- aram que era o mesmo homem que as tinha assaltado. Pela primeira vez desde que fora recusado pela junta médica do exér- cito, James Broadhead sentia que talvez pudesse na realidade fazer mais pelo seu país ficando na polícia. Com trinta e cinco anos, solteiro e forte como um cavalo, sentira que era seu dever alistar-se. Mas então fora recusado porque lhe faltavam dois

dedos na mão direita. Perdera-os onze anos antes, quando ficara com a mão presa debaixo de uma trave de metal enquanto tentava libertar um rapazinho que fora brincar para um edifício em ruínas que se desmoronara. Os médicos da junta não tinham acreditado que ele fosse capaz de dis- parar uma espingarda. Bem gostaria de ter tido oportunidade de lhes provar que estavam enganados – ao fim e ao cabo, a perda dos dedos não afetara o seu trabalho na polícia. A rejeição doera-lhe durante algum tempo, fizera-o sentir-se diminuído como homem, mas o entusiasmo que sentia agora que tinha provas de que o atacante de Mrs. Reilly era também responsável por outros crimes varrera tudo isso. – O que foi que ele fez? – perguntou Wootton, enquanto aproximava o esboço da luz e o examinava. Era um homem de cinquenta e tal anos, com feições pesadas e um farto bigode encaracolado ao estilo militar.

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Broadhead fez-lhe um resumo dos crimes do homem e disse que outras vítimas de assaltos semelhantes tinham confirmado que aquela era a cara do meliante que as roubara.

– Quem fez o desenho? Alguém da polícia?

– Foi Mrs. Reilly, a chapeleira de Blackheath. Também perdeu o bebé

e esteve à beira da morte por causa do ataque. Wootton franziu o sobrolho.

– Nesse caso, é melhor apanhá-lo antes que faça mal a mais alguém. A

cara é-me familiar, mas não consigo ligá-la a um nome. Não importa, al- guém daqui há de saber se já o engavetámos alguma vez. Broadhead sorriu, encantado. Aquela investigação tornara-se para ele um caso pessoal. Fora o primeiro agente a chegar ao local do crime e ficara horrorizado ao ver que uma mulher que há tanto tempo admirava à distân- cia tinha sido maltratada daquela maneira. O Railway era o pub onde cos- tumava ir beber, e porque também respeitava muito Jimmy Reilly, estava determinado a levar perante a justiça o homem que lhe atacara a mulher.

– Podemos tratar disso agora? – perguntou a Wootton. – Quanto mais cedo pusermos esse malandro atrás das grades melhor.

Wootton saiu para falar com os seus agentes e esteve ausente cerca de vinte minutos. Enquanto esperava sozinho na sala de interrogatório, Broadhead espantava-se com o barulho e agitação que reinavam no edifí- cio. Excetuando as noites de sábado, quando tinham de arrebanhar os

bêbedos que se envolviam em zaragatas, a esquadra de Blackheath tendia a ser um lugar muito sossegado. Mas ali era meio-dia de um dia de semana,

e uma mulher berrava como se estivessem a matá-la, outra pessoa qualquer

batia sem parar nas grades de uma cela, e de dois em dois minutos havia

uma erupção de gritos e pragas. A dada altura, houve uma confusão qualquer mesmo à porta da sala de interrogatório, com um homem a prote- star aos urros que não tinha sido ele. Wootton voltou à sala com um ar satisfeito.

– Sim, temo-lo cá registado. Chama-se Archie Newbold, sem residên-

cia fixa. Dizem que foi desmobilizado do exército por invalidez há alguns

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anos e tivemo-lo cá como convidado várias vezes, por embriaguez e con- duta desordeira. Broadhead assentiu com um gesto de cabeça.

– Podemos então ir buscá-lo?

– «Podemos»? – disse secamente o graduado. – O homem pertence à

nossa jurisdição, vamos ser nós a apanhá-lo. Quanto a si, pode voltar para a sua simpática e tranquila Blackheath. Entraremos em contacto com a es- quadra de lá quando o tivermos na jaula.

Para Broadhead, aquilo foi como uma estalada.

– Mas, sargento, fui eu que fiz todo o trabalho de base neste caso. Gostaria de ser eu a capturá-lo. Wootton olhou com dureza para ele durante um momento, antes de replicar:

– Aqui, para capturar os bandidos, é preciso conhecer a área. Há

montes de vielas escuras e estreitas, velhos armazéns, casas de ópio, bor- déis e prédios onde chegam a viver dez pessoas em cada quarto, pardieiros

imundos onde as mulheres são tão más como os homens e as crianças seguem o exemplo dos pais. Parece ser um tipo duro, mas isso aqui não

basta. Aqui é preciso ser tão manhoso como eles. Broadhead sentiu-se ofendido pela assunção de que o seu trabalho como polícia consistia em encontrar cães perdidos e ajudar velhinhas a at- ravessar a rua, mas tinha demasiada experiência para se pôr a discutir com um superior, e Wootton tinha todo o ar de não ser flor que se cheirasse, caso o irritassem.

– Bem, sabe onde pode encontrar-me, se precisar de uma ajuda extra –

disse. – Vou levar o desenho comigo. Vai ser necessário, como prova. Wootton voltou a dar uma vista de olhos ao esboço.

– Está muito parecido. Pergunto a mim mesmo se ela seria capaz de

desenhar alguém que lhe descrevessem. Ajudar-nos-ia a encontrar a malandragem muito mais facilmente.

– Transmitirei o elogio, mas não a imagino a querer passar o seu

tempo a fazer esse género de trabalho, sobretudo depois daquilo por que passou – respondeu Broadhead. – Bem, vou andando. Desejo-lhe sorte

com esse Newbold.

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Na última semana de novembro, Belle foi ver a loja pela primeira vez desde que fora atacada. Tinha Mog consigo, e Miranda iria ter com elas a qualquer momento.

– Cheira um pouco a mofo – disse Mog, enquanto abria a porta e

acendia as luzes. – Mas vai desaparecer logo que acendermos o fogão. Belle entrou, hesitante, e ficou um pouco surpreendida por parecer tudo exatamente igual ao que era antes do ataque. Sabia que Mog e Garth tinham mandado substituir o espelho e retirado tudo o que ficara partido, mas estava à espera de ainda encontrar algum vestígio dos acontecimentos que tinham ocorrido na última tarde que ali estivera. Sabia que devia sentir-se aliviada por não haver nada que lhe recor- dasse esses acontecimentos, e até empolgada por rever o lugar que em tem-

pos tanto amara. Mas a verdade era que não queria estar ali. Nem naquele momento, nem no futuro. Não que tivesse medo. Só sentia que o que quer que fosse que a tinha feito desejar tanto aquela loja, e trabalhar tão arduamente para fazer dela um êxito, desaparecera. Pura e simplesmente, já não lhe apetecia passar longas horas a desenhar um chapéu e depois a imaginar a maneira de o fazer. Tal como não lhe apetecia ficar ali dia após dia a ver mulheres ex- perimentarem chapéus e ouvir-lhes as histórias a respeito de para que os queriam. A ironia desta mudança não lhe passou despercebida. Passara horas a convencer Mog, Jimmy e Garth de que precisava da loja, e agora que es- tavam convencidos, não a queria. Mas não estava a ver como livrar-se dela, sobretudo depois de, num impulso, ter oferecido um emprego a Miranda.

– Vais ter de fazer algumas peças novas e mudar a montra, para as

pessoas verem que estás feliz por voltar – disse Mog. Belle abriu a boca para dizer que nunca estaria feliz por voltar, mas

tornou a fechá-la, sabendo que se dissesse a Mog o que sentia iria deixá-la preocupada.

– Não posso fazê-lo antes do Natal – conseguiu finalmente dizer. – Vou esperar pelo Ano Novo.

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O seu corpo podia ter sarado, mas era como se a centelha vital que em

tempos o habitara se tivesse extinguido. Deixava-se muitas vezes invadir

por um desânimo e uma melancolia tão grandes que se refugiava no

quarto, dizendo a Mog que queria ler. Mas nem tentava abrir um livro. Em vez disso, estendia-se na cama e ficava a olhar para o teto, a sentir-se im- potente e desesperadamente triste.

– Acho boa ideia – respondeu Mog, sem sequer olhar para ela. Estava

a endireitar um chapéu encarnado num expositor, como se isso fosse a

coisa mais importante do mundo. – Não vais ter tempo para fazer mais do que alguns chapéus novos, e precisas de fazer uma reabertura em grande. Além disso, a Miranda ainda está a ajudar na banca de chá. Como se esta última frase fosse uma deixa, Miranda chegou, a acenar- lhes através do vidro da montra. Grata pela diversão, Belle abriu a porta e

abraçou a amiga. Sentia que se não fossem as visitas regulares de Miranda, era bem capaz de se ter deixado ir abaixo naquelas últimas semanas. Miranda nunca fazia perguntas; se ela estava de humor sombrio, limitava-se a aceitar o facto. Se estava a chorar, abraçava-a e oferecia-se para lhe arranjar o ca- belo, ou sugeria que fossem dar um passeio. Contava-lhe histórias diverti- das a respeito das senhoras com que trabalhava na banca de chá em Char- ing Cross. Fora a habilidade de Miranda para a fazer rir que lhe permitira aguentar muitos dias maus.

– Estou entusiasmada por voltar aqui – disse Miranda, ofegante, e en-

tão, ao ver um chapéu azul-escuro num expositor, correu para ir buscá-lo.

– Oh, tão querido! – exclamou e, atirando para cima de uma cadeira o

castanho de feltro que estava a usar, substituiu-o pelo azul-escuro. Então, a fazer pose diante do espelho, chupou as bochechas para dentro e projetou para fora os lábios franzidos. – Como é possível que me tenha escapado até

agora? É perfeito para mim. Como sempre, conseguiu fazer Belle rir. O chapéu azul era na verdade

um pouco extravagante, todo ele tules e flores de veludo, um chapéu para um chá da tarde num hotel elegante, e ficava perfeito no cabelo louro de Miranda.

Acho que a tua mãe diria que não te vai aquecer muito a cabeça –

disse.

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