Revista Painel On-line – Novembro/2009

Disponível no site Unimep Jornal:

http://www.unimepjornal.com.br/hqtronicas-10665.html
Quadrinhos: na tela em um clique
Disponibilização gratuita de HQs na web alimenta debate sobre futuro dos quadrinhos
impressos
Ângela Silva

D

e painéis com passagens bíblicas da Idade Média às tiras de nanquim sobre papel que
conquistaram as livrarias e o cinema, as histórias em quadrinhos são caracterizadas por unir
a escrita à linguagem pictórica. Mas uma outra geração de HQs propõe trazer mais do que
isso. Criadas para o ambiente digital, as chamadas “HQtrônicas” se popularizam no Brasil
em 2001, com a disseminação do plug-in Flash, e se apóiam em recursos multimídia, tais
como animação, trilha, efeitos sonoros, narrativa multilinear e interatividade com o leitor.
Lançadas como promessa de segunda geração dos quadrinhos, as HQtrônicas estão em um
momento de transição. A maioria dos sites dedicados às histórias em quadrinhos, utiliza de
forma tímida as possibilidades de interação que a web proporciona.
Arquivo Pessoal Adriano Gon

Idealizador da NHQ, Adriano Gon afirma que as HQs on line atingem uma gama muito maior de leitores

O Núcleo de Histórias em Quadrinhos (NHQ) é uma editora independente fundada em
2008, com sede em Americana, e publica trabalhos de quadrinistas de todo o Brasil, tanto
por meio impresso quanto eletrônico. O idealizador do projeto e editor-chefe, Adriano Gon,
explica que o site disponibiliza títulos em formato CBR, vinculado ao software Cdisplay,
que permite a exibição de material escaneado na tela cheia do computador, sendo que o
leitor usa as setas do teclado para passar as páginas. Gon atribui a pouca exploração dos

recursos multimídia à acessibilidade incipiente. “Nem todos os internautas tem banda larga
e, nesse caso, as possibilidades do criador ficam limitadas”, explica.

Editora NHQ disponibiliza títulos on-line
Em contato com o mundo dos quadrinhos desde os 10 anos de idade, quando criou o
primeiro personagem, Thunderman, Gon acredita que a divulgação de quadrinhos na web é
uma maneira rápida de alcançar o leitor. “Serve como uma ponte entre autor, leitor e
editora, pois é um espaço aberto a críticas, o que muitas vezes possibilita a adequação da
linha editorial e até a criação de novos rumos à história”, afirma. Ele enumera as vantagens
das HQs on-line: “Baixo custo de produção e de distribuição, maior alcance, custo zero
para o leitor, interação”.
Já nos anos 80, os quadrinistas começaram a utilizar softwares de desenho para as primeiras
experiências de arte seqüencial criadas virtualmente. Hoje, é comum nos estúdios o uso de
efeitos especiais e colorização com o apoio da informática. Camilo Riani, ilustrador do
jornal Folha de S. Paulo, da revista Veja e professor licenciado do curso de publicidade e
propaganda da Unimep, conta que utiliza o computador como uma das ferramentas de
acabamento e a internet como meio de divulgação, postando a produção impressa em seu
blog, mas é enfático quanto a sua preferência: “Falando como leitor, me sinto muito mais
identificado com o papel”.
Designer de multimídia e ilustrador do Estúdio Tris, em São Paulo, Felipe Vitti, vê a
internet como uma oportunidade para as mudanças na produção de quadrinhos, mas
considera que as HQtrônicas ainda estão engatinhando e pouco se definiu sobre como
explorar os recursos disponíveis. “A internet é mais um canal de publicação e leitura das
histórias em quadrinhos, como a mídia impressa ainda é”, afirma Vitti, que também é coautor das tiras de humor “Big & Bill”, publicadas no Jornal de Piracicaba de 2003 até
maio deste ano.
Para Camilo Riani, é inegável que as possibilidades das HQtrônicas são maiores, em termos
de visibilidade, multiplicação e participação mais dinâmica e direta do leitor. “Há recursos
ligados a animação que são impossíveis no suporte impresso, mas essas vantagens não
significam necessariamente maior qualidade artística, nem de conteúdo”. Riani, que
também é presidente do Salão Universitário de Humor de Piracicaba, diz apostar na veia
artística e no repertório cultural para obter um bom resultado no caso de qualquer
linguagem visual.

Arte (des)virtuada
Enquanto as HQtrônicas são proclamadas por alguns como prováveis revolucionárias do
mercado, outros profissionais destacam a queda de qualidade da arte diante da incorporação
de elementos secundários.
Felipe Vitti, que em 2005 produziu o trabalho de conclusão de curso “Web Novel – uma
releitura dos quadrinhos para a web”, para a faculdade de Tecnologia em Design de
Multimídia, acredita que a própria gratuidade das publicações on-line pode gerar a queda de
qualidade dos trabalhos, visto que os profissionais irão buscar nichos mais rentáveis,
enquanto que a web seria o espaço prioritário dos amadores. “O mercado de HQs não está
ameaçado pela internet porque essa questão envolve qualidade do material. Antes de
discutirmos quem vai tomar o lugar de quem, as HQtrônicas precisam ser um produto que
cative os olhos de investidores”, afirma Vitti.
Camilo Riani também alerta para o perigo de se cair em linguagens sem personalidade na
web. “A gigantesca facilidade para se produzir e difundir essa arte pode resultar em
produções pasteurizadas. O ritmo de leitura é diferente para a internet e o artista deve
avaliar isso”, aconselha.
A queda da venda de HQs nas bancas não está relacionada à divulgação on-line, é o que
afirma Adriano Gon. “O futuro das HQs impressas ainda é incerto, mas acredito que não
será a internet que irá trazer a sua extinção”. Ele admite que a web também é um espaço
aberto ao experimentalismo. “A NHQ revelou muitos talentos, mas sabemos que muitos
não conseguirão chegar ao profissionalismo”, compara. Mas ele não acredita que as
HQtrônicas devem ser menos valorizadas que as impressas: “Ignorar a proposta das HQs
on-line como arte é parar no tempo”, finaliza o ilustrador.
Navegue nas HQs!
Baixe a HQ Magnum Negro, de Haeckel Almeida, Rodrigo Vinícius e Adriano Gon:

Para visualizar a HQ, baixe o arquivo CBR
Leia mais títulos on-line no site NHQ.

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