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Carta para Carolina Maria de Jesus

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Publicado há 12 meses - em 12 de dezembro de 2014 » Atualizado às 11:45

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Categoria » Mulher Negra

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Acarta para Carolina Maria de Jesus e que faz parte da versão
ebook “Onde estaes felicidade” organizado por Me Parió

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Revolução
enviado porHildalia Fernandes Cunha CordeiroviaGuest

Postpara o Portal Geledés

Marcha das Mulheres Negras 2015

Venerada Carolina Maria de Jesus, 

REDES SOCIAIS 

Bom dia, amada senhora! Escrevo-lhe esta carta neste dia tão importante, para parabenizá-la pelo seu centenário e
retribuir um pouco do muito oferecido por você. Ficou um tanto longa, eu sei, mas faça a leitura da mesma quando
puder, sem pressa para finalizar. Realize a seu tempo e da forma mais confortável e tranquila possível.
Como tem passado, amiga tão querida? Sei que, apesar do lugar muito aprazível onde está (pelo menos são as
poucas informações que chegam até aqui sobre o mesmo), você, permita-me tratá-la assim, não anda satisfeita com
o que pode ter conhecimento nesse outro plano. Sou portadora, nesta comunicação, de boas e más notícias. Quais
as que prefere receber primeiro? Não que eu guarde esperanças de que você não saiba o que passo a relatar a partir
de então.

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Passado um século do seu nascimento, não creio que descanse em paz, infelizmente. Não sei notícias sobre seu
filho José Carlos. João José, seu mais velho, sei que faleceu. Vera Eunice é lembrada por alguns (uns, sérios, outros,
nem tanto). Não encontro notícias sobre seus netos: Ricardo, Luciana, Marisa, Paulo César, Adriana, Lilian, Eliane,

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Elisa, Ana, Jackson e Rafael. Fiquei sabendo a respeito deles na dedicatória existente no seu livro mais conhecido,

Quarto de despejo: diário de uma favelada. Por aqui pelo nordeste, notícias suas não costumam chegar, mesmo em
tempos que se dizem e se desejam globais. Quase nada se fala por aqui sobre você, querida, infelizmente. Até
mesmo as suas obras são muito difíceis de achar ainda hoje. Mas, em compensação, há muito, não ouvia falar tanto
de você como neste ano, em que completaria 100 anos (não vou dizer se viva estivesse, uma vez que creio na
continuação da sua energia, amiga tão querida). Envio essas mal traçadas linhas, constituídas de indignadas
indagações sobre sua trajetória, suas andanças, produções e legados deixados à sua família e que, novamente, as
“aves de rapina”, como você mesma nominava todos aqueles oportunistas, não deixam chegar a quem, por direito,
deveria.
Carolina desejaria muito partilhar com você somente as boas notícias, compartilhar o quanto tem sido grande a
procura das suas obras pelas gerações mais novas, com um genuíno interesse de aprender, com as suas negras
escritas, sobre as artes de vencer mesmo em contextos mais do que adversos. É meu desejo, também, falar sobre os
desdobramentos da sua escrita, mesmo sabendo que você os acompanha atentamente os desdobramentos e
alcances do legado deixado por você, pois creio que a vida não acaba aqui e que vive em suas obras e para além
delas.
Diria mais, penso que você traga a condição de Ìyetùndè, que é aquela que retorna. Espero e anseio por isso. No
entanto, gostaria de lhe dizer, mesmo ciente que você observa a caminhada de muitas das nossas irmãs e se
regozija com as nossas vitórias, que muitas são as mulheres negras que seguem as estradas desenhadas
inicialmente por você, querida amiga. Muitas têm escrito com dignidade, (re) significando para dignificar a nossa

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existência aqui no àiyé, no plano material. A lista é enorme, graças a Olórun. Dentre elas, podemos citar: Conceição
Evaristo, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão, Ana Celia da Silva, Vanda Machado, Lia Vieira, Geni
Guimarães, Cristiane sobral, Cidinha da Silva, Nilma Lino Gomes, Mel Adún, Lívia Natália, Elizandra Souza, Rita
Santana, Urânia Muzanzu, Edileuza Penha, Florentina Souza, Ana Rita Santiago e Cristian Sales, dentre outras tantas.

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dentre tantas outras. bem como a sua vasta obra. Você nunca desistiu. Uma contadora de histórias reais. registrava ressentimentos os mais diversos. para que gritemos ao mundo sobre os nossos negros mundos. recomenda: econômico. mas a intenção permanece a mesma. mesmo Alex Castro hoje. as Pai compra tênis à vista para os miserias são reais”. dores. quer tenhamos estudo ou não. nossas mães ancestrais. cumprida com toda a dignidade e teimosia que lhe eram tão peculiares. Construindo um futuro. “Há de existir alguem que lendo o que eu escrevo dirá« isto é mentira! Mas. espero explicitar características suas que gostaria de ter Sou mulher.\0  . nos quais o privado e o público são separados por linhas tão tênues. Projetava um futuro diferente. sob folhas em branco. se denominou de Gèlèdè. para que os dias passem. que tinha como patronas as Ìyaa Mi. por que não? O vento parece traduzir perfeitamente a sua energia. amiga. dá uma aula de resistência negra para a PM Você resistiu. saídas. a falta de dinheiro para impor respeito. seguro e ecológico. pela representação tão digna da nossa condição As cotas para negros: por que de humanas mulheres negras. VOCÊ JÁ LEU? Complexo de vira-latas: Como a elite brasileira enfiou isso na sua cabeça Narrar. a sua condição de humana mulher negra. Sentenciava sobre isso em muitos dos seus textos. consegue recordar amiga? Narrava a Existe racismo no Brasil? Faça o Teste do Pescoço e descubra agonia de não poder oferecer condições mínimas à sua prole. Entre uma dor e outra. vividas e experienciadas diariamente. irmã. um qual. levando-nos. depois. Afrobetizar a educação no Brasil Permita-me. Na pauta dos dias e no conteúdo dessas pretas letras. O ofendido precisa compreender isso”. visto que se trata de uma carta. nunca atalhos – uma vez que esses não costumam funcionar para nós. rumo à emancipação individual. a de confiná-la na favela da Feminismo para homens. pelo espelho que se tornou para todas nós. o que torno público aqui ultrapassa. objeto de estudo para tantos não negros. Narrar para: (sobre) viver. tão interessadas nas suas escritas. Sempre acreditou na sina de ser uma escritora. para procurar entender. precursora em tais caminhos. a dureza dos dias. para se (re) fazer. Penso que seja importante reproduzir alguns trechos aqui. inevitável e desejoso tom emocional. tal qual outrora. diversificado e complexo acervo. 10 comportamentos machistas disfarçados de “coisas naturais” Narrar: esta foi a sua missão. “Duro é o pão que nós comemos. já tão impregnado naquelas épocas imemoriais? Seria uma (re) atualização do que. iniciei o caminho por essa seara difícil. as Senhoras Donas do Pássaro? Penso que muitos dos nossos traços de garra. para aceitar – como se possível fosse. venerável ancestral. “Não tenho força física. para que as novas gerações. mais especificamente no ano em que se “comemora” o seu centenário. para acumular força e energia contra o poder falocêntrico. Dura é a vida do favelado”. perseverança (sobretudo ira. Prometo que os reproduzirei aqui. Eis o duro e árduo ofício que escolhemos (será mesmo que escolhemos?). é tratado como ladrão e que espada. alinhavar a nossa comunicação com a explicitação de algumas das suas falas magistrais. venho relembrar os seguintes trechos: o primeiro a ser relatado aqui nessa carta. mas as minhas palavras ferem mais do filhos. Escreveu. você corria para o papel para eternizar a sua história. como quem ouve assobios lançados ao vento. Eternizou-se no papel e em nossas memórias. que procuramos seguir pela mata apontada por você. na linda e sofrida pele preta. Mario Sergio Cortella destas. amiga. decidiram se unir. Você continua sendo pensada por eles. Mostrou-nos caminhos. tão cheios de sabedoria e de ensinamentos. por concebê-la como aquela que conseguiu driblar todas as inúmeras adversidades e produziu um acervo que. para que não lhe arrancassem de vez a dignidade duramente assegurada. Posso ouvir os ecos dos seus escritos no primeiro diário publicado. não é mesmo? Quanto mais nos tempos atuais. teimosia. KWWSZZZJHOHGHVRUJEUFDUWDSDUDFDUROLQDPDULDGHMHVXVJVU8\P. no mais das vezes. pelo menos daqueles a que tivemos condições de realizar Frequência afetiva. por que não?) sejam advindos “Todo preconceituoso é covarde. muitas vezes. a admiração pela escritora. em 1 de junho de 1958. qual é a sua? a leitura. demandas de todas as ordens. E as feridas são incicatrisaveis”. com as passagens selecionadas. quando as ìyagba. aos quais tenho acesso ao longo desses anos de estudo sobre a sua ainda tô na vantagem: sou escrita e sobre você. o segundo. muito mais pareça com o ruído de uma trovoada. também (e inevitavelmente). coletor menstrual ganha adeptas no Brasil registrar trechos da sua primeira e mais conhecida obra. Dura é a cama que dormimos. mulheres negras desfavorecidas economicamente. Suburbana. com toda a facilidade advinda das altas tecnologias. Sabia-se e concebia-se escritora. juiz federal (RJ) Hoje. outrora. iniciado por você e perpetuado por essa forte e determinada rede formada por mulheres negras. não permite que um escritor tenha fôlego e vontade para produzir tanto quanto você o fez. escrito em 22 de maio de 1958. e muito. Até mesmo eu. suave. e como elas nos proporcionam poderes imensuráveis e nos fazem acreditar que podemos sempre ir mais além e seguir adiante. nessa nossa comunicação de ordem tão íntima. de forma leve. Permite que assim seja? Espero que você e todas (os) as (os) que. desenhando-o no papel. ora furacão. o terceiro. Obrigada. conforme constam nos originais. que é o de ouvir. arquivar e propagar nossas negras memórias. Mas lido em muitos das escritas sobre a sua pessoa. em 29 de maio de 1958. Os cotistas desagradecidos Escrever era tudo que lhe restara Carolina. em terras nigerianas. pela persistência. Ainda que seja um texto com um forte. “memorialista do lixo”. você volta a ser. ora brisa. Esperando o fim? Não. para que ele ganhasse força e se tornasse real. mas que não há garantia de onde ela vá parar amanhã. sobretudo. mudei de opinião por William Douglas. “voz enunciativa favelada”. permaneceu engessada no imaginário daqueles que não conseguem nem desejam curso rápido em 26 lições. Adjetivos como “escritora da miséria”. vierem a ter acesso leiam tais trechos. para se fortalecer e tentar seguir adiante. Obrigada pela teimosia. mas que era de tantas outras das nossas também. muito recentemente. ainda que a admire infinitamente. Seria uma continuação da reunião ocorrida em solo africano. ainda que. amores não correspondidos. &DUWDSDUD&DUROLQD0DULDGH-HVXV*HOHGpV Todas continuam o trabalho arduamente iniciado por você. de ordem ancestral. são atualizadas. mas sempre vento. tão frágeis e tão próximas« Acredito que seja interessante Quem usa. mesmo tendo se mudado. até mesmo para que eu possa provar ao nosso leitor virtual e real que. sempre a partir da ênfase ao depreciativo. para que futuros leitores sintam-se incitados a realizar a leitura da sua linda e necessária obra. à emancipação coletiva. possam conhecer um pouco mais do seu rico. minha mais velha. branca Sobre a sua escrita. traumas.

 &DUWDSDUD&DUROLQD0DULDGH-HVXV*HOHGpV O seu ato de escrever era diário e compulsivo. sempre cuidadosa com a aparência. E os favelados são os gatos. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal”. Tem fome”. Narrar para sobreviver. problematizar e publicizar adjetivos que revelam o menosprezo à sua pessoa e à Infantolatria: as consequências de deixar a criança ser o centro da família sua rica obra. preferisse continuar só. sobretudo o seu e dos seus iguais. Igreja católica. cultura africana nas escolas. Carolina? Escrever para (re) construir-se dia após dia: “Todos os dias escrevo”. hoje. muito pelo contrário. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso. escreveu “Eu classifico São Paulo assim: O Palácio. Eternizar as nossas histórias e memórias no papel para que elas ganhassem o Esta mulher fotografou-se todos os dias durante um ano. para terras distantes e. deseja impor a sua vontade sobre as demais. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Os espôsos quando vê as esposas manter o lar. à subordinação. em 19 de julho de 1955. Se é que existe reincarnações. seus tapetes de viludos. Pensei: talvez ela não tenha apreciado a minha resposta”. “Há mulheres que os espôsos adoece e elas no penado da enfermidade mantem o lar. “E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!”. que são nossos. ainda. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E o cabelo de branco. o não render-se à exploração masculina em troca de um pouco de comida. dentre outros tantos produzidos por você? LEIA NOSSOS GUEST POSTS Bem vindo ao nossos Guest Posts Uma veia para comentários que beiravam o domínio do marxismo. “Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. vivendo em condições desumanas! Era preciso narrar. junto com as suas negras escritas. por prova. conhecer e propagar ideias deles e de os seus pensamentos. um par de sapatos para Vera Eunice. Carolina Maria de Jesus. um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. as poucas imagens fotográficas que chegam até nós. para testemunhar. em 21 de julho de 1955. não é. Orgulho poderia ser o seu sobrenome. é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. e nem quero! Uma senhora que estava me olhando escrever despediu-se. mas a nossa capacidade. assim. registro também o seu domínio sobre o que se passava no Brasil e no mundo. você não se deixava levar por nenhum “perna de calça”. são seus feitos e não os seus possíveis defeitos. eu quero voltar sempre preta”. não saram nunca”. Era a sentença proferida por você. Foram os coloniza-DORES que. ainda assim. impuseram a nossa existência ao mundo. Estes voltam. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. É indisciplinado. para não perder esta gaiola. mas que avançavam para muito além do que um economista de origem europeia poderia prever. Mesmo tendo somente a antiga segunda série. dona uma caligrafia caprichada. Êles respondia-me: – É pena você ser preta. são tão bem acolhidos. que viemos a partir da porta arrombada por você. Momentos de sossego e de merecido descanso eram irreais para você a nossa heroína e. porque os Professores evangélicos gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. Cuidado sabiá. Uma consciência e lucidez do quanto era explorada. Mas. E agora. Bela. Torna-se imprescindível. com toda a valentia que lhe era peculiar. eternizou o seu orgulho em “Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. visto que você era humana. também. de superar os inúmeros e diversificados obstáculos. jogados ao vento. temos alma sim. você. Tinha. E depois. E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. “Quando estou impedem ensino da história e na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais. E a favela é o quintal onde jogam os lixos”. mais do que ninguém. bradou em letras pretas “O que o senhor Juscelino tem de aprovável é a voz. como nomeiam as nossas mensageiras. desbravando. Você manifestou. esse era devidamente limpo e engraxado antes de ser entregue. conforme narrou em 2 de junho de 1958: “O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mesmo que o único presente possível para a filha caçula fosse encontrado no lixo. para publicizar continuadas atrocidades perpetradas contra o nosso povo de pele preta e negra alma. talvez. Tantos dos seus. o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catête. tamanha a lucidez de leitura do contexto sóciohistórico desfavorecido que vivenciava. O que não pode deixar de ser contado hoje e precisa ser feito por nós. ininterruptamente. Como? De que maneira se dava o acesso a tais autores e obras? Que momento do dia você tinha para lê-los e guardá-los em sua privilegiada mente. e o meu cabelo rustico. O país onde os negros tem cabelos naturalmente loiros Aqui. Não se rendia à força e à presença masculina que. coisa. Não casei e não estou descontente”. “O casamento é um risco para a vida das mulheres”. Dividia os afazeres domésticos e de garantia da sobrevivência com a leitura e a escrita. despedaçando-se. nunca deixou de acreditar que chegaria a concretizar o destino que desenhou para si e para os seus. Conhecia os grandes das letras de sua época e de outros tempos que a antecediam. Tudo isso a fazia uma mulher sempre muito à frente do seu tempo. como ilustram as passagens a seguir: em 18 de julho de 1955. Uma mãe teimosa que não abria mão de dar aos filhos o que estivesse ao seu alcance. muito e tanto a nos dizer.\0  . sobretudo no plano político: em 15 de maio de 1958. Não somos e nunca fomos peça. E que levanta para escrever. que encontrasse pelo caminho. Você não maldizia a sua tez negra nem o seu cabelo crespo. KWWSZZZJHOHGHVRUJEUFDUWDSDUDFDUROLQDPDULDGHMHVXVJVU8\P. os restos e sobras destinados ao nosso povo negro. O final nos deixa sem palavras mundo e tornasse pública a miséria. nobre guerreira. “Não tenho marido. é a sala de visita. o sobejo. diz médica especialista em saúde mental feminina sabe que nunca nos submetemos ao jugo. Talvez. a exemplo da recepção de suas obras em outros países.Você contava o mundo tal qual o via. repetidamente. cheia de si. a ponto de reproduzi-los até mesmo no formato poético. na tentativa de que a sentença ecoasse e para que você não fraquejasse e não desistisse. em 19 de maio de 1958. procurar. também. Esquecendo êles que eu adoro a minha pele negra. seguia você. revelam tais cuidados. por lá. no mais das vezes. são devolvidos por esse mesmo vento que os leva. enaltecia a sua estética herdada dos africanos: em 16 de junho de 1958. e uma sagacidade e ironia a toda ‘Os demônios do Demônio’. diz almofadas de sitim. Sim. mercadoria. recebidos e lidos. Porque o cabelo de preto onde põe fica. os dias que passavam corridos e cheios Eduardo Galeano de adversidades. orgulhava-se. vaidosa. digno de estar num especialista quarto de despejo”. É obediente.

Desejo que você. para prosseguir em sua missão. o tempo é espiralado. trata-se de um acervo inestimável ao nosso povo negro. E é desse lugar de poder que ouso convocar as minhas irmãs. Toda vez que leio algo seu ou vejo uma imagem sua. Você parece tensa. Poucos são os que a alcançam e a respeitam. querida mais velha? Tão sábia e tão resistente! Educação Eleições 2014 em pauta Você continua sendo estudada na Academia. Mas você desbravou inúmeras fendas e possibilidades com sua escrita primeira. Carolina Maria de Jesus. tem sido escrito sobre você. não lhe pertence mais. entretanto. Aproveite para se revigorar. “SOMOS TODAS CAROLINAS”. E é com a sua permissão e autorização que procuro seguir adiante na senda escancarada por você. Preto é o lugar onde eu moro. infelizmente. com o auxílio indispensável do vento. que muito nos dignifica nas letras pretas – que vai afirmar que. respeito e dignidade. Desejo que retorne logo. tanto quanto a sagacidade de se saber roubada. não? Mínima e fragilmente assegurada estará a apropriação de sua rica sabedoria por parte das “aves de rapina”. Narrava para abrir os caminhos. Carolina. histórias tão próximas às vividas por nós também. com tanta ousadia. sinto a sua forte presença abençoando o estudo. historicamente. faz-se necessário. Penso que deva ser iniciada por aí a nossa jornada como perpetuadoras do que você nos legou. para falarmos e tratarmos de você. de fato e de direito. Só nós poderemos fazer isto: levar adiante a missão iniciada por você. tem sido preta. não são necessários reforços. Você foi usurpada. Voemos. ainda assim. KWWSZZZJHOHGHVRUJEUFDUWDSDUDFDUROLQDPDULDGHMHVXVJVU8\P. um coletivo de mulheres negras. Faltou fôlego. que tinha tudo para nem tentar. Sempre que penso em você. que desistiremos ou deixaremos novamente nas mãos das “aves de rapina”. dissecados. Que orgulho tenho eu de ter tido uma ancestral tão digna e cheia de garra! Gosto de sentir a sua presença que parece chegar com o vento que pela janela adentra. brigar com o àiyé que quase tudo lhe negou. partiu para o òrun asfixiada. propaga-se. Não que muitas coisas tenham mudado por aqui. adorável irmã. Nossa mais velha.\0  . hoje. Há muito o que dizer e escrever sobre a Carolina. ressoa. segue. tal qual a Mulher Búfalo. pela espoliação que fizeram com o seu legado e o muito sofrido por você a partir de então. minha mais velha? escravidão estupro Feminismo Feminista de jovens negros Guest Post História do Brasil Holocausto௙ Homofobia intolerância religiosa lei 10. Aprendi que. até aqui. Como isso me apazigua e me engrandece! É como se você estivesse contemplando e abençoando o trabalho. pois. originárias da mesma fértil barriga. momentaneamente. sinta-se contemplada. sinto a sua forte e doce presença. Levamos o nome dela no vento. muito poucos. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. Faltou ar para encarar. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido”. tão lúcidos. &DUWDSDUD&DUROLQD0DULDGH-HVXV*HOHGpV PALAVRAS – CHAVES Nutria a crença de que venceria. Parece. tão combativa e incansável. amiga e daí nos emane força para continuarmos. mulher negra e orgulhosa do que é. Hoje. Fernanda Pompeu genocídio Poucos. junto com ela! Narrar Carolina. espalhar seu nome ao vento« Despeço-me. superar-se diante da vida. Carolina. pedir a sua permissão para tanto. tão atuais. fazer com reverência e muito respeito. centenária e atemporal. teimou e foi adiante. A minha. nossa mais velha. Ou ainda quando. positivizar o que os não negros fazem questão de não contar. de maneira menos penosa e pesada. suas proezas. ou no tempo previsto. Você nunca parou de escrever e. Este não é nem esta para todos. espera que assim procedamos. Gosto muitíssimo de sentir a sua presença-benção. Mas. Tão poucos conseguem e desejam alcançar tal nobreza. infelizmente não consigo vê-la serena. mestra na arte de contar histórias do cotidiano. afirmou em 20 de maio de 1958: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. Ainda bem. que. mesmo passadas algumas décadas desde a sua escrita primeira: em 9 de agosto de 1958. Você mantinha a teimosia em continuar narrando. Entupida de dizer? Provavelmente. o corpo que a terra já deu conta. porque todo o mais vive. violentados. Carolina. dada a sua determinação e seu poder de transmutar-se. Sigamos. vibra. no “espaço celestial”. com mais um dos seus ricos ensinamentos. tranquila. suas artes de ginga. não foi mesmo. mas só para uso interno. de você. cheia de ideias. devassados em suas intimidades e memórias. o contar sobre a nossa mestra maior. novamente secados. revelando as marcas do tempo sobre a mesma. mas não conseguiu garantir o tão desejado futuro para seus filhos. momentaneamente de passagem pelo òrun – lugar reservado a poucos. percorridos com tanto sofrimento por você. Preta é a minha pele. mesmo de posse de tal informação e conhecimento. a busca por saber quem foi essa mulher-GÊNIO. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. Viu o seu projeto de escrever dar certo. Gosto de senti-la abençoando a caminhada. acima de tudo. o qual lhe trouxe ainda mais sabedoria. sobretudo. sem ar. juntas. as “aves de rapina” continuam rondando o que restou do seu cadáver. mas sua família. eis o desafio. veem-se na sina da mãe. Sim. goza deles no plano material? Você nos ensina e nos representa com maestria. usufruindo da paz e descanso que o lugar deveria lhe proporcionar merecidamente. para que jovem senhora. É novamente Conceição Evaristo – outra mais velha nossa. sobretudo. mas e seus desejos de não deixar seus filhos passarem pelos mesmos dificultosos Aborto Afro-brasileiros e suas lutas BlackLivesMatter cantoras e compositoras cantores e compositores casos de preconceito casos de racismo Comunicação Consciência Negra cotas cotas raciais crimes da escravidão Direitos Humanos caminhos. que precisamos tomar novamente a caneta para falarmos com propriedade. legounos que “A vida é igual um livro. a pele já toda enrugada. tão profética e lucidamente. dessa vez. De que valeu escrever tantos cadernos inéditos. interruptas dificuldades. com um projeto intitulado Carolinas ao vento. Os usurpadores de ontem e os descendentes dos mesmos continuam no desespero de se apropriar do que restou para sua família do seu legado. ainda. Para (re) lembrar tudo de negativo que. irmãs. só aos que têm merecimento para tal – consiga ter um descanso digno. ainda a labutar com a vida.639/03 Leonardo Sakamoto LGBTI machismo maioridade penal Mulher Negra Mídia Patrimônio Cultural Questão Racial Questões de Gênero Racismo racismo e preconceito Saúde Violência contra Mulher violência policial violência racial violência racial e policial África e sua diáspora Asfixiaram-lhe. para não sucumbir. venerada mulher. Se você. que foi embora do plano físico tão cedo. se a sua herança não é usufruída pelos seus? Tudo bem. suas superações. Este parece ser o seu elemento. Dizem que o corpo somatiza o que a mente produz. quase consigo visualizá-la com a cabeça e o ìrun todo branquinho. não seremos nós. que momentaneamente neste plano.

Pesquisa sobre narrativas de professoras negras. Da sua mais nova. sua maior obra. Pedro II. email: hildaliafernandes@hotmail. que já se tornou extensa por demais. É aprendiz de contista. FRPHQWiULRV &ODVVLILFDUSRU 3ULQFLSDLV $GLFLRQDUXPFRPHQWiULR 'LQD$OHQDā&XUVRVXSHULRUFRPSOHWR 0DUDYLOKD &XUWLUā5HVSRQGHUāGHGH]HPEURGH $QD&ULVWLQDGH2OLYHLUDā(($UDF\/HPHGD9HLJD5DYDFKH PHXGHXVTXHFRLVDOLQGDDLHXGLJRREULJDGDDRVRUL[iVSHODIRUoDGRVQRVVRVDQFHVWUDLVHSRUPXOKHUHV GELEDÉS ÁREAS DE ATUAÇÃO QUESTÃO RACIAL QUESTÕES DE GÊNERO WDRHVSHFLDLVFRPR+. &DUWDSDUD&DUROLQD0DULDGH-HVXV*HOHGpV Mesmo tendo muito que dizer ainda.com  Leia sobre GĊlĊdĊ na tradição yorubá Tags: Mulher Negra · Carolina Maria de Jesus · Carolina de Jesus · Guest Post Escreva um comentário e participe! 3 comentário(s).\0  . amada mais velha.$HWDQWDVRXWUDVHVWDVVLPPHUHSUHVHQWD &XUWLUā5HVSRQGHUā ATLÂNTICO NEGRO EM PAUTA RACISMO E PRECONCEITOS āGHGH]HPEURGH +LOGDOLD)HUQDQGHVā8QHE8QLYHUVLGDGHGR(VWDGRGD%DKLD 2EULJDGD$QDRGDUHYHUrQFLDHUHIHUrQFLDIHLWDD&DUROLQDDLQGDVHUiSRXFR(ODPHUHFHWXGR( VHPSUHPDLV &XUWLUā5HVSRQGHUāGHGH]HPEURGH )DFHERRN&RPPHQWV3OXJLQ 1 DIA ATRÁS Será que é racismo? 5 HORAS ATRÁS Tudo preto no branco 1 DIA ATRÁS O Feminismo do Futuro KWWSZZZJHOHGHVRUJEUFDUWDSDUDFDUROLQDPDULDGHMHVXVJVU8\P. para sempre sua admiradora. de uma maneira ou de outra e que você permanece em cada uma de nós mulheres negras. Tem um conto publicado nos Cadernos Negros 36. para que você não se canse com a leitura desta carta. É Erva Doce na família Abadá Capoeira e mãe de Cauê. Sei que nos encontraremos em breve./'$/.  Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro   Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro é mestre em Educação e Contemporaneidade (UNEB) docente no curso de Pedagogia e Letras da Faculdade D. cabelo como símbolo identitário e escrita feminina negra (em especial sobre Carolina Maria de Jesus). fico por aqui.

O Brasil é um dos países mais racistas do mundo SOBRE O PORTAL GELEDÉS Quem Somos Nossa Missão Doações Contato Geledés Instituto da Mulher Negra Rua Santa Isabel.São Paulo / SP Copyright © 2014 . 137 .Desenvolvimento: iFOCUS Tecnologia 7UDQVODWHª KWWSZZZJHOHGHVRUJEUFDUWDSDUDFDUROLQDPDULDGHMHVXVJVU8\P.\0  .Portal Geledés Projeto: Odemur Marangoni . &DUWDSDUD&DUROLQD0DULDGH-HVXV*HOHGpV 3 DIAS ATRÁS O Geledès-Instituto da Mulher Negra 2 DIAS ATRÁS forma a sua XII Ocupação nas turma de escolas Promotoras Legais 3 DIAS ATRÁS Populares.CJ 41/42 .