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Sabático

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SÁBADO, 10 DE ABRIL DE 2010 ANO I – Nº 5 O ESTADO DE S. PAULO

UM TEMPO PARA A LEITURA

estadão.com.br

DIVULGAÇÃO

SARTRE,
PRÓXIMA
PARADA
Decorridos 30 anos de sua
morte, o instável legado do
pensador e ícone da rebeldia
de 1968, nas análises de Gilles
Visuais Lapouge e Silviano Santiago. E
os novos dilemas da esquerda,
Criação e mercado
Livro analisa história da arte em entrevista de Bernard
segundo o comércio das obras Henri-Lévy. Págs. S4 e S5
Pág. S3

Ciência
Natureza desvendada
Biólogo e físico escrevem com
leveza sobre suas especialidades
Pág. S8

7 8 9 10 11 12
S4 sabático
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SÁBADO, 10 DE ABRIL DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Capa
Jean-Paul Sartre, que morreu há três décadas, em 15 de
abril de 1980, foi o filósofo mais célebre do seu tempo.
Apesar disso, triunfou poucas vezes – e fracassou com
frequência. O que terá ficado de sua controversa obra?

UM HOMEM E SUAS
CONTRADIÇÕES
mo, a guerra fria, a descolonização, o 3º Mun-
GILLES LAPOUGE do, Cuba. Tantos cadáveres, tantas recorda-
CORRESPONDENTE / PARIS ções mortas e que vão recuando, recuando...
Sartre empenhou sua honra em “esposar”
á faz 30 anos que ele nos seutempo.Nãoespantaqueeletenhanaufra-

J
deixou,ohomenzinhoex- gado no mesmo momento em que esse tem-
tenuado que se via cami- po expirava, na virada dos anos 1990.
nhar penosamente, ao Circunstância agravante: Sartre não só se
anoitecer e à noite mes- bateu como um Dom Quixote contra moi-
mo, pelas ruas de Mont- nhos de vento que deixaram de girar havia
parnasse,desajeitado,de- muito tempo, como ainda se equivocou com
bilitado, cego e agarrado uma constância, com uma regularidade sur-
aobraçodeumajovemde- preendente. Para se equivocar o tempo todo
votada à sua fraqueza. e com tal talento, sem dúvida, é preciso um
“Estávendo”,diziaelesorrindoparasuacom- faro que beira a genialidade.
panheira, Simone de Beauvoir, “é um espan- Ele foi sempre do contra, sempre na con-
to como eu faço sucesso com as senhoritas tramão: antes da guerra, jovem superdota-
desde que fiquei velho e cego.” Será que ele do, ele só queria conhecer o pensamento, a
faz o mesmo sucesso com jovens de 2010? literatura, a filosofia. A política? Bá! Isso é
Será que ainda o conhecem? Leem seus li- coisa para simplórios. Ele lia Voltaire, Faulk-
vros? Procuram uma bússola em sua obra? ner, Dos Passos. Ele foi a Berlim estudar os
Quando vivo, ele gozava uma celebridade filósofos alemães (Husserl, Hegel, Heideg-
inaudita. Essafoia primeiracontradição des- ger) e não via nada. Hitler, não conheço! A
se homem tão racional que passou a vida se guerra de 1939. Ele serviu no ridículo corpo
contradizendo. Muito jovem, na École Nor- de “meteorologia militar”: assim, em vez de
male Supérieure, ele expressou seu desprezo se arrastar na lama, ele passou a guerra com
pelo conceito de “grande homem”. Ora, o os olhos no céu, nas nuvens. Veio o debacle
que ocorreu em seguida? Durante a Guerra francês, a invasão nazista.
da Argélia, oficiais pediram a De Gaulle, en-
tão chefe de Estado, para perseguir Jean- Político. Ele teria se comovido? Seja co-
Paul Sartre (1905-1980), que havia convoca- mofor,enquantoCamuseMalrauxlu-
do os jovens à “insubmissão”. Resposta do tavamna Resistência, Sartre escrevia
general De Gaulle: “Não se prende Voltaire!” seu enorme tratado de filosofia
Passaram-se alguns anos e Sartre ganhou o L’Etre et le néant (O Ser e o Nada) nas
Prêmio Nobel de Literatura (1964). mesas do Café de Flore. Para que
Ele o recusou. Não podia fazer escala em ele despertasse para o “político”, e
um país qualquer sem que os estudantes o como um furioso, seria preciso es-
aclamassem. Quando ele morreu, seu funeral perar 1945. Essa nova paixão não o
no cemitério de Montparnasse, em Paris, foi abandonaria mais. Dali em diante,
assistido por uma multidão cosmopolita, por ele estaria em todos os combates.
vezes em lágrimas. Desde Victor Hugo, ne- Mas quais combates? Ele fazia zi-
nhumcemitériofrancêsconhecerasemelhan- guezagues. No começo, foi de
tedelírio.Voltaire,VictorHugo,oPrêmioNo- umaesquerdanãocomunista.De-
bel: confessemos que, para um homem que pois,ei-lo“companheirodeestra-
sempre recusou o conceito de “grande ho- da” e companheiro frenético: “O
mem”, Jean-Paul Sartre errou o alvo. marxismo é o horizonte intrans-
Ele errou outros alvos. Teria conseguido ponível deste tempo”, vaticinou.
ao menos sua sobrevivência literária? Neste Ele era antiamericano e antico-
momento, ele está apagado. Ele se distan- lonialista, mas, aqui também havia
ciou. Esse distanciamento se explica. Sartre, um paradoxo ou um equívoco. Ele
desde sua juventude, ou melhor, as partir dos se tornou inimigo frenético do general De
25 anos (não antes), instalou-se no coração Gaulle, que era, no entanto, o “grande desco- kista,ou maoista,ou libertária,poucoimpor- Estruturalismo. Mas, então, onde está a ge- O pensador,
da sociedade dos homens, de sua tragédia. lonizador”francêseocampeãodoantiameri- tava, desde que fosse extrema. Em Billan- nialidade de Sartre? Em sua literatura? Em por Loredano.
Ele se fundiu a ela. Em vez de elaborar uma canismo (saída da Otan, denúncia da Guerra court, viu-se o velho encurvado sobre um seu pensamento? Seu pensamento é podero- Dívida com a
obra altiva, glacial e refugiada nas alturas im- do Vietnã ...) Não se terminaria de enumerar tonel, diante das fábricas Renault, pregando so.Massurgiuumgrandeproblemaparaesse filosofia alemã
passíveis da filosofia ou da literatura, ele quis as mancadas do grande Sartre que culmina- a revolta absoluta para operários que não pensamento quando apareceram os chama-
de autores como
ser ao mesmo tempo o “contemporâneo” de ram em sua grotesca virada para Cuba por- compreendiam nada daquilo. Muito patéti- dos “estruturalistas”: Claude Lévi-Strauss,
todos os homens, o “vigia”, a testemunha e o queelehaviacompreendidoquelá,nosTrópi- co. Muito belo. Depois, a cegueira. A deca- Roland Barthes, Michel Foucault, Louis Al- Martin Heidegger
combatente das lutas de seu tempo. cos, estava se construindo a felicidade da hu- dência. Uma decadência nobre. Sartre não thusser. Um pensamento novo se alçava à
Mas esse tempo se foi. Já não existe. Os manidade! A velhice chegou. Chegaram tam- podia mais escrever. Ele falava e falava. glória: se o de Sartre estaca atravessado de
combates da segunda metade do século 20 se bém as revoltas de maio de 1968. E lá estava Conclusões: em política, isto é, no campo lado a lado pelo conceito de “História”, os
extinguiram. Tudo aquilo foi varrido como Sartre despertado com sobressalto de seu emqueeleinvestiumaispassionalmente,ma- estruturalistas tiram a História de campo.
folhas de outono pelos ventos da História. “sono dogmático”. ciçamente, o balanço é uma catástrofe. Com Eles só reconheciam o “sistema”. Nada de
Os gritos, as indignações ou os entusiasmos Aqueles estudantes o encantaram. Ele se uma dialética prodigiosa, uma linguagem ad- “sujeito”. O choque foi rude. Sartre já não
deJean-PaulSartreforamlevadoscomaépo- meteu em suas escolas, ouviu suas lições, mirável, ele se equivocou em tudo, enquanto tinha a supremacia.
ca em que eles foram proferidos. Quais fo- admirou seu saber. Ele compreendeu que os seupequenocamaradadaÉcoleNormaleSu- Resta a literatura, mas, aí também, o ba-
ram as grandes causas que Jean-Paul Sartre comunistas eram “nulos” e que era preciso périeure, Raymond Aron, com o estilo mais lanço, por brilhante que seja, é desigual.
defendeu,combateuouilustrou?Ocomunis- inventar uma nova extrema esquerda trots- sem graça do mundo, viu quase tudo. Sartre se consagrou no teatro. Sua primei-

A BUSCA
Definitivas são as palavras que abrem o en- lente a ramificações em multidireções, cuja veis na ficção. Refiro-me ao romance A COM DISCRIÇÃO
saio: “Chega o dia da entrega, e não estou trama só ela desenharia a complexidade da Náusea e ao autobiográfico As Palavras. A Ao contrário do que
pronto. Algum dia estive preparado?” existência dum indivíduo. Daquele indiví- Náusea é um romance dividido em duas par- se poderia imaginar,
Algum dia alguém esteve preparado para duo que se quis “sem importância coletiva” tes. Na primeira, Roquentin investiga a fun- os 30 anos da morte

CONTÍNUA escrever sobre Sartre? A obra livresca ganha e a teve por causa dos excessos e da luxú-
peso pela força dos deslocamentos ideológi- ria. Seu sucessor não é o nietzschiano De-
cos. As intervenções públicas são prova de leuze nem o desconstrucionista Derrida.
do a vida do medíocre marquês de Rolle-
bon para escrever sua biografia. Tão bem já
conhece o objeto de estudo que já não se
de Sartre não estão
provocando uma
enxurrada editorial

POR UMA instabilidade política. O leitor ocasional na- Tampouco é algum “novo filósofo” midiáti-
vega sem norte por sua vida e obra; o espe- co. É o multiforme Michel Foucault.
cialista não tem, ou (ainda) não sabe como Pela exposição dessas razões desarrazoa-
conhece a si mesmo. Decide, então, assassi-
nar no papel o marquês. E passa a anotar o
dia-a-dia da própria vida nas folhas de pa-
na França. Em outros
países – Brasil incluí-
do – a situação é a

SÍNTESE domar mobilidade e instabilidade. Leituras das é que se devem ressaltar alguns traços
individuais são precá-
rias. Alguém se prepa-
permanentes do legado
sartriano. Alheio aos sis-
pel destinadas à biografia do marquês.
A cena culminante é tomada de emprésti-
mo ao personagem Lafcadio, no romance
mesma. O último
lançamento de
destaque foi Talking
ra para a síntese? O leitor **ocasional temas fechados da filo- Os Porões do Vaticano, de André Gide. Na es- with Sartre: Confes-
Trabalho instável e atividade Numa cultura onde
navega sem norte por
sofia, sempre seguro, crivaninha, a folha de papel com quatro li- sions and Debates
predomina a conten- no entanto, das suas nhas escritas e um canivete. Roquentin (Yale University
política dificultam balanços ção nas reações e a li- suas páginas; já os convicções político- não hesita. Corta a palma da mão com a lâ- Press, 2009), de John
totes no estilo, Sartre críticos não aprenderam ideológicas por antípo- mina aberta. Enxerga com satisfação a man- Gerassi, que reúne
é a exceção, assim co- das que se apresentas- cha de sangue. Acompanhemos o texto: extratos de diálogos
mo o dramaturgo bem como domá-lo sem em relação ao pas- “Quatro linhas escritas numa folha branca entre os dois amigos,
Jean Racine e o poeta ** sado recente, Sartre se de papel, uma mancha de sangue, eis o que registrados no
SILVIANO SANTIAGO Paul Valéry são a re- destaca pelo modo co- faz uma bela lembrança”. A mancha de san- período 1970-74.
gra. Ele é tão luxurioso em estilos quanto mo exerceu a crítica da literatura. Suas leitu- gue desmente a certeza da história burgue-
o renascentista François Rabelais e tão ex- ras de Baudelaire, Genet e Flaubert se torna- sa de responsabilidade dos “salauds” e jus-
Jean-Paul Sartre era um buraco escandalo- cessivo ideologicamente quanto o con- ram marcos. As coleções de ensaios cultu- tifica a estória dum indivíduo descompro-
so na obra de Jacques Derrida, o principal temporâneo Louis-Ferdinand Céline. rais, intituladas Situações, são obrigatórias. missado. Que esta seja “bela e dura como o
filósofo que se lhe segue na cronologia fran- A sucessão dos livros publicados, dos des- Por duvidar da racionalidade imposta pe- aço e leve as pessoas a terem vergonha da
cesa. Derrida discorrera sobre todos os pre- locamentos ideológicos e das intervenções la tradição filosófica e religiosa à experiên- própria existência”! A história coletiva e
decessores e contemporâneos, no entanto, políticas trabalha à semelhança dum com- cia existencial e por ser observador ferino pessoal é uma folha manchada de sangue.
ao final do milênio, o silêncio ainda afugen- plicado, preciso e lógico mapa ferroviário do drama de viver, Sartre tem momentos
tava o carismático Sartre. Por ocasião do francês. Livros, deslocamentos e interven- luminosos na sua dramaturgia, com desta- ✽
cinquentenário da revista Les Temps Moder- ções tentam domar pela emoção e a racio- que para Huis-clos (Entre Quatro Paredes). SILVIANO SANTIAGO É ESCRITOR, CRÍTICO
nes, Claude Lanzmann solicita a tão espera- nalidade do instante o indomável território Destaque ainda para As Mãos Sujas. LITERÁRIO. AUTOR, ENTRE OUTROS, DO ROMANCE
da leitura ao pensador da desconstrução. da vida e da história, conduzindo o consu- Também tem ele dois momentos notá- HERANÇAS (ROCCO) E COLUNISTA DO SABÁTICO
O ESTADO DE S. PAULO SÁBADO, 10 DE ABRIL DE 2010 sabático S5

FICHA DO AUTOR DE LA GUERRE EN


Nome: Bernard- PHILOSOPHIE
Henri Lévy Autor: Bernard-Henri Lévy
Idade: 61 anos Editora: Grasset
Origem: Béni-Saf, (128 págs., € 12,50 + frete,
na Argélia na Amazon francesa)

suas ideias vêm ao encontro das minhas, su-


ra peça, Huis Clos (Entre Quatro Paredes), é
genial, as outras são fortes, mas embaladas
em formas herdadas daquele século 19
“ESQUERDA FRANCESA portam as minhas teses, eu as uso.

● O que significa ser de esquerda hoje?


“burguês” que ele detestava.
Os romances? Uma obra-prima: seu pri-
meiro livro, La Nausée (A Náusea). Depois,
ESTÁ MORIBUNDA” É preferir, por exemplo, a desordem à injus-
tiça. Há pessoas que dizem: “Não mexa nas
injustiças, porque vai desorganizar a socie-
Les Chemins de la Liberté (Os Caminhos da Li- dade.” Prefiro desorganizar a sociedade,
berdade),um belo esforço, mas uma forma do Bernard-Henry Levy fala da atual crise dos progressistas mas corrigir a injustiça.
séculoprecedenteeeleseatrapalhouaopon-
to de não conseguir nem sequer terminá-lo. ● A bandeira brasileira ostenta o lema
Eleserecuperoutardecomumpequenogran- Ordem e Progresso.
de livro, Les Mot (As Palavras), no qual nos no qual o senhor aborda Jean-Baptiste Botul, Nossa, eu lhes aconselho mudar a bandeira
fala de sua infância, de sua formação. Genial. ANDREI NETTO autor inventado por um jornalista, Frédéric e escrever “Justiça e Progresso”. Seria me-
Geniais também as biografias que consagrou CORRESPONDENTE / PARIS Pagès. O que Botul e toda essa polêmica re- lhor para o Brasil. E estaria mais de acordo
a alguns escritores – Baudelaire, Jean Genet presentam para o senhor? com o que ele é, este grande país. E tam-
(Saint Genet) e, sobretudo, Flaubert, L’Iidiot á pelo me- O autor existe e o livro também. Não há po- bém de acordo com o presidente nada mal

H
delaFamille(OIdiotadaFamília),monumen- nos 30 anos, lêmica. É um autor que se chama na realida- que vocês têm, que é Lula.
tomonstruosode2milpáginasquepermane- intelectuais de Pagès e que assinou seu livro como Bo-
cerá, sem dúvida, como sua maior obra. discutem a tul. Isso não muda nada. O livro existe e a ● Lula apertou a mão de Kadafi ano passado
consistência ideia que ele defende também. e chamou Ahmadinejad de “amigo”.
Aposta. Será possível esboçarmos uma ten- e a atualida- Eu ignorava isso. É um erro. Ahmadinejad
tativa de explicação? Como um tal gênio pro- de ou não de ● O senhor está em meio a uma guerra de não pode ser amigo de Lula. É um homem
duziu na ação, no pensamento ou nas “pala- termos co- ideias. É preciso combater as críticas? de extrema direita. Suas referências ideoló-
vras”tantasobras-primasmalogradas?Bizar- mo esquer- Quando digo que a filosofia é uma guerra, gicas são os anos 30 alemães, o pensamen-
ramente, esse homem que devia ter sido um da e direita. Agora, filósofos e cientistas po- não estou dizendo que é preciso fazer uma to nazista. É preciso informar Lula.
“vigia do presente e do futuro” não com- líticos parecem mais empenhados em reno- guerra contra um autor que tirei da obscuri-
preendeu nada de seu tempo. Ele vasculhava var outro debate: a própria relação com a dade. A guerra é com os autores contra os ● O senhor concorda com a ideia de que exis-
as nuvens e os céus da véspera. Ele perdeu esquerda. Proliferam pelas livrarias de Pa- quais eu me oponho, que defendem ideias te um divórcio crescente entre os intelectuais
sua bela aposta porque nunca chegou a ver- ris títulos sobre o divórcio definitivo entre diferentes das minhas. É essa a batalha das e o pensamento de esquerda?
ter sua arte, seu pensamento, nos moldes da os intelectuais e o pensamento progressis- ideias. São elas que fazem a guerra. Não. Há oportunismo de um ou outro... Al-
modernidade. No teatro, ele escrevia como ta, para muitos sintoma da migração do guns intelectuais se consideram mais vir-
Alexandre Dumas ou Scribe no mesmo ins- marxismo ao neoconservadorismo. ● O senhor é um crítico da universidade e, tuosos que outros. Quando são cortejados,
tante em que Brecht, Antonin Artaud, Be- Em Le Procès des Lumières – Pourquoi le além disso, é alguém de esquerda. Muitos ficam fascinados. Não acho que exista um
ckett, Ionesco, Adamov inventavam o teatro Monde Vire à Droite (Seuil), o cientista polí- estão criticando a sua obra em função deste divórcio entre a intelectualidade e a esquer-
moderno. No romance, admirava Faulkner tico, historiador e ensaísta Daniel Linden- erro. É oportunismo? da. O que é certo, na França, é que existe
ou Joyce, mas escrevia como Roger Martin berg discorre sobre a aproximação crescen- As pessoas lutam com as armas que têm. É um divórcio entre a esquerda e o pensa-
du Gard ou Paul Bourget. te entre o pensamento conservador e o libe- muito interessante que se critique o meu li- mento. É uma esquerda moribunda.
Últimoparadoxo: essehomem cujogê- ralismo econômico. E conclui: estamos em vro a partir desta ideia. Quando observo
nio radiante teve tanta dificuldade em guerra. De um lado, afirma, estão os defen- meus erros ao longo dos anos, os verdadei- ● Lindenberg diz que a intelectualidade recu-
se encarnar, esse escritor cujas análi- sores da herança iluminista, progressistas ros erros, de fundo e de pensamento, vejo sa o ideário iluminista e a ideia de Progresso
ses luminosas eram tão frequente- por natureza. De outro, os contrarrevolu- que não são muito numerosos. Em uma hoje. O que o senhor pensa a respeito?
mente equivocadas, tolas até, nos cionários, regressistas por definição. época em que toda a intelligentsia se ligava Eu não recuso nem o iluminismo, nem o
tocava, contudo. O adeus que o po- Em Les Maoccidents – Un Néoconservatisve a Sarkozy, eu não o fiz. Na época em que progresso.
vo de Paris lhe deu no cemitério de à la Française (Editora Stock), Jean Birn- três quartos da intelligentsia estava cega so-
Montparnasse numa antiga pri- baum segue a mesma linha acusatória. bre o genocídio em Darfur, eu fazia parte ● O senhor é uma exceção?
mavera, as lágrimas que homens Aponta intelectuais como o filósofo André do grupo que o denunciava. Tive razão so- Não creio. Mas é verdade que existe uma
emulheresdeEstocolmoouMar- Glucksmann, um dos expoentes da “nova fi- bre Barack Obama. Eu o anunciei, em um sombra no iluminismo. O iluminismo não
selha, de Boston ou Madri verte- losofia” de 1977, de esquerda, que 30 anos texto que se chamava Black Clinton, quatro é apenas luminoso. Podemos cometer cri-
ram naquele dia eram justas. depois se tornou cabo eleitoral de Sarkozy. anos antes de sua eleição. Isso tudo é irri- mes em nome do progresso. Já aconteceu.
Essehomenzinho haviasido Por sua vez, em Les Intellectuels Contre la tante. Alguém que erra tão pouco, que é tão Sou amante do iluminismo, nele estão as
uma das figuras mais tocan- Gauche (Agone), Michael Christofferson, livre quanto eu... Não tenho nenhum com- minhas raízes intelectuais. Mas eu sei, ao
tes de seu século. Seu cora- historiador, Ph.D. pela Universidade Colum- promisso com o poder. Não sou comprável mesmo tempo, que ele tem uma face negra.
ção era o coração pulsante do bia e professor da Universidade da Pensilvâ- por nenhum poder. Alguém como eu é exas-
tempo. Ele havia escolhido a nia, tenta entender como a intelectualidade perante. Quando se encontra uma pequena ● É o tema de La Barbarie à Visage Humain
coragem e a generosidade, de esquerda em um país como a França mi- brecha, uma pequena falha em um homem (1977), seu mais importante livro. Qual é a
masseextraviounoslabi- grou do radicalismo contemporâneo, modo livre, que se engana pouco sobre o essen- força atual de uma obra como essa?
rintos de uma época sartriano – marcado pela defesa da classe cial, as pessoas se atiram sobre como um O que é preciso guardar dela é que nin-
“insensata”. Ao operária –, ao progressismo midiático. predador sobre sua presa. guém fará, em lugar do homem, o trabalho
menos,querse- E há Bernard-Henri Lévy, com De la Guer- de construir a própria liberdade. Não é pos-
ja em seus engaja- mentos polí- re en Philosophie (Grasset), no qual esboça ● Isso é guerra. É guerra honesta? sível contar com nenhuma providência lai-
ticos delirantes, ou na sua ambiciosafi- a visão de que o exercício da filosofia pres- Não. Seria mais interessante me atacar so- ca ou nenhum recurso religioso para fazer
losofia, em sua literatura também, ele sem- supõe o enfrentamento violento de ideias. bre minhas posições sobre Althusser, ou so- o trabalho em seu lugar. A barbárie existe
pre jogou o grande jogo. O que torna grande De volta à filosofia após a publicação de bre a minha tese. O que defendo nessas graças ao que eu chamava de “messianis-
seu fracasso. Outros que jogaram jogos me- uma série de ensaios nos últimos anos, Lé- poucas linhas (em que cita Botul) é que os mo profano”, as filosofias da História, o
noresque eleconservaram melhor seu rumo. vy falou ao Estado, em Paris, quando res- grandes filósofos têm corpos, que não são progressismo entendido como “a História
Jean-Paul Sartre por vezes triunfou e pondeu às críticas a seu livro e abordou ou- puros espíritos, cérebros etéreos, mas que que caminha sozinha”. É a ideia de que
com frequência fracassou. Mas mesmo tro tema, espinhoso: a relação entre os inte- seu pensamento é tributário de suas fisiolo- não podemos fazer nada além do que sen-
seu fracasso foi grandioso. E quem sabe se lectuais e o ideário de esquerda. gias. É uma tese. Posso estar errado. Mas tar e esperar o futuro que canta. Há ver-
num outro tempo, um tempo ainda masca- seria mais interessante discuti-la. sões de esquerda e de direita desse fenô-
rado pelos ouropéis de nosso jovem sécu- ● Como o senhor filosofa? meno. A de direita é a ideia da mão invisí-
lo, não verá resplandecer de novo, em sua A tese essencial do livro é que a filosofia é ● Como a obra de Botul foi parar em suas vel do mercado, que conduz a sociedade
glória, a visão do grande Sartre? / TRADUÇÃO uma guerra, não é um exercício sereno. Tra- mãos? O senhor leu esse livro? independentemente do que possa aconte-
DE CELSO M. PACIORNIK ta-se de fixar compromissos, mas também Sim. Li como leio muitos outros livros, rapi- cer. A de esquerda é a mão invisível da dia-
se trata de um enfrentamento ideológica e damente. O que me interessa mais é o meu lética, que conduz a sociedade em direção
culturalmente violento. Falo da violência pensamento, as minhas ideias. Sou como à sociedade “sem classes”, igual e melhor.
estadão.com.br das ideias, do choque de ideias. um pintor. Não passo duas horas a me per- Creio que essas duas visões são terríveis.
guntar o que há dentro do tubo de tinta. Eu Os homens têm uma tarefa, que é criar a
Cronologia e livros no Brasil ● Seu livro seria muito bem acolhido pela tomo a tinta em mãos e jogo na tela. Um li- própria história, de não se deixar levar
estadão.com.br/e/s4 crítica, imagino, se não houvesse um trecho vro, para mim, é como um tubo de tinta. Se por nenhuma dessas visões.

Do Suplemento Literário
10.9.1960 a sua cultura pelas secções de anedotas da
imprensa,maisumaextravagânciadefrance-
reaçõescontraditóriasdasmaisdiversasgen-
tes. É certo que muitas pessoas só conhecem
VISITANTE ILUSTRE
A visita de Jean-Paul
ses decadentes. Pior, todavia, do que tais in- de Sartre a obra literária e supõem o existen- Sartre ao Brasil, em

AINDA genuidades, é a má fé dos que, não tendo o


direito de ignorar que o existencialismo é
cialismo mais uma escola literária; a idéia de
Sartre ser um filósofo pode não ter para elas
1960, mobilizou o
Suplemento de modo

SARTRE uma corrente fundamental do pensamento


moderno, também pretendem reduzi-lo a
umsentidomuitoclaro.Outros,muitodiver-
samente, sabem que Sartre foi (como toda a
particular; foram vá-
rios artigos dedicados
graciosas anedotas, coisa sem dúvida mais gente) largamente insultado por todos os a ele. Na edição do dia
O encontro entre marxismo fácil que discuti-lo. stalinistas, e é, portanto, um reacionário... 3 de setembro, Casais
Uma senhora que o acaso sentou a meu Estas duas noções sem sentido, mas muito Monteiro – ensaísta,
e existencialismo e o debate lado, na conferência sobre o sistema colo- correntes, não preparam evidentemente, as poeta e professor
nialista que Sartre fez no instituto Supe- suas vítimas para se acharem diante dum ho- português, que se
em torno do problema rior de Estudos Brasileiros, ensinou-me mem que lhes fala em termos que não ex- radicou no País em
de uma ficção nacional que Sartre, dantes, era reacionário, mas
agora não; ante o meu tímido protesto,
cluem o existencialismo nem o marxismo.
Que isto se pode entender, mostra-o a breve
1954 e aqui morreu
no ano de 1972 – já
verdadeiramente popular acrescentou que ele abjurara o existencia- mas excelente síntese de José Guilherme havia escrito sobre
lismo. Perante tamanha certeza, e com re- Merquior, no Suplemento do “Jornal do Bra- a participação de
ceio de ser novamente desmentido, não sil”,de27deagosto,quandodiz:“Umahuma- Sartre no Congresso
lhe citei uma frase que se acha no prefácio nidadecondenada àliberdadese responsabi- de Crítica, em Recife.
do último livro do filósofo, e que diz assim: liza pela História; era lógico assim que o pen-
ADOLFO CASAIS MONTEIRO “Considero o marxismo a inultrapassável samentode Sartredesembocasse no marxis-
filosofia do nosso tempo (...) e tenho a mo, e mais ainda, que diante de um marxis-
ideologia da existência e o seu método mo cristalizado ele erguesse uma filosofia de
Não será tão cedo que se desvanecerão os “compreensivo” como uma enclave do pró- reconcretização marxista”.
muitos equívocos por via dos quais, por prio marxismo, que ao mesmo tempo o
exemplo, têm sido perguntado a Sartre coi- engendra e o recusa” (Critique de la raison
sas como estas: por que não se suicidou aos ✽ dialectique, pág. 9/10). estadão.com.br
30 anos, se os existencialistas andam sujos, O SUPLEMENTO LITERÁRIO CIRCULOU Por que cito a minha interlocutora e esta
se dançavam nas caves etc. É o que o existen- NO ESTADO ENTRE 1956 E 1974. FOI MANTIDA frase? Porque, aquela e esta, nos elucidam Leia a íntegra deste texto
cialismo vem a ser, para muita gente que faz AQUI A ORTOGRAFIA ORIGINAL DO ARTIGO. desde logo sobre muita coisa, inclusive as estadão.com.br/e/s5