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RESUMO DIREITO CONSTITUCIONAL

ASSUNTO: Princípios de Direito Constitucional. Conceito de


Constituição. Evolução. Poder Constituinte.
Hermenêutica constitucional. Constitucionalismo
brasileiro. A ordem constitucional vigente. Emendas à
Constituição. Disposições gerais e transitórias.
AUTOR: Leonardo Resende Martins

FONTES PRINCIPAIS:
• BULOS, Uadi Lammêgo. Constituição Federal anotada. São
Paulo: Saraiva, 2000.

OBSERVAÇÕES:

O item é eminentemente teórico, de caráter propedêutico,


localizando-se no campo do direito constitucional geral.
No que se refere aos assuntos “emendas à Constituição” e
“disposições gerais e transitórias”, entendi que deveria fazer uma
abordagem teórica dessas normas, e não uma análise particular
dos dispositivos no direito constitucional positivo brasileiro, o que
seria deveras assistemático (comentar cada uma das emendas,
das disposições transitórias...). De toda forma, aconselho dar uma
lida nessas normas e ver o que há de interessante.
A parte que trata da hermenêutica constitucional e os
princípios constitucionais foi extraída de um trabalho meu e vai
dedicada ao amigo Daniel, o “Bacana”.

EMENTA DO RESUMO:

1. Sentidos do termo “constituição”


2. Classificações
3. Teoria do poder constituinte
4. As emendas constitucionais
5. Disposições gerais
6. Disposições transitórias
7. Hermenêutica constitucional e os princípios constitucionais
8. Uma brevíssima história das constituições brasileiras

1. Sentidos do termo “constituição”


• A palavra “constituição”, que se origina do verbo latino
“constituere”, é plurívoca. Cada um dos sentidos merece ser
estudado para que assim se compreenda de maneira ampla o
fenômeno constitucional.
• Uadi Lammêgo Bulos, ancorado nos ensinamentos de Howard
Lee McBain, adota o entendimento de que a constituição é um
“organismo vivo”, cujo escopo é delimitar a organização
estrutural do Estado, a forma de governo o modo de aquisição e
exercício do poder, através de um conjunto de normas jurídicas,
escritas ou costumeiras que estatuem direitos, prerrogativas,
garantias, competências, deveres e encargos.
• As constituições podem ser compreendidas como lídimos
“organismos vivos”, pois consignam verdadeiros documentos
abertos no tempo, em íntimo vínculo dialético com o meio
circundante, com as forças presentes na sociedade, como as
crenças, as convicções, as aspirações, os anseios populares, a
burocracia etc.
• À luz disso, a constituição é um “organismo vivo”, porque no seu
preparo, no ato mesmo da sua criação, é incumbência do
legislador prever possíveis modificações futuras, o que exige
conferir às normas elasticidade, abrindo perspectivas para a
recepção dos fatos novos, surgidos após o advento do
instrumento basilar.
• Pelo exame da constituição, é possível detectar, além dos
direitos e deveres, competências e garantias, o perfil do Estado,
os elementos que o compõem, a principiologia que o rege.
• Daí dizer-se que a constituição é a particular maneira de
ser do Estado.
• O nascimento da organização estatal tem lugar no preciso
momento em que se edita a sua constituição, provenha ela de
revolução ou de assembléia popular. As constituições que se
seguem fundam novas ordens jurídicas, diversas das anteriores.
Nesse caso, o Estado, do ponto de vista histórico e geográfico
pode ser o mesmo. Porém, da ótica exclusivamente jurídica,
não, pois, a cada manifestação constituinte, emissora de atos
constitucionais, se inaugura um novo Estado.
• Ferdinand Lassale salientou o caráter sociológico de uma
constituição, a qual se apoia nos fatores reais do poder. Esses
fatores reais do poder seriam a força ativa que corresponde a
todas as lei da sociedade, e uma constituição que não
correspondesse a tais fatores reais não passaria de uma simples
folha de papel, pois uma constituição duradoura e boa é a que
corresponde à constituição real, isto é, àquela que tem suas
raízes nos fatores de poder predominantes nesse País.
• Hans Kelsen, de outro ângulo, examinou a constituição nos
sentidos lógico-jurídico e jurídico-positivo. A constituição é a
norma fundamental hipotética, que tem a função primordial de
servir de fundamento de validade do ordenamento jurídico,
outorgando-lhe sistematicidade.
• Kelsen distinguiu os sentidos formal e material de uma
constituição. Ao fazê-lo, sentenciou que a constituição em
sentido formal é certo documento solene, traduzido num
conjunto de normas jurídicas que só podem ser modificadas
mediante a observância de prescrições especiais, que têm por
objetivo dificultar o processo reformador. Já a constituição em
sentido material é formada por preceitos que regulam a criação
de normas jurídicas gerais.
• Carl Schmitt enuncia o conceito político de constituição.
Demarcava que a constituição é fruto de uma decisão política
fundamental, é dizer, uma decisão de conjunto sobre o modo e
a forma da unidade política. O conteúdo de uma constituição
refletiria a forma de Estado, a de governo, os direitos
fundamentais, os órgãos de poder, porquanto promana de uma
decisão política fundamental. Daí, exsurge a noção de matéria
constitucional.
• Outras concepções de constituição:
a) jusnaturalistas: a constituição concebida consoante
princípios de direito natural, principalmente no que diz
respeito aos direitos fundamentais do ser humano (Víctor
Cathrein);
b) positivistas: a constituição como complexo normativo
emanado do poder estatal, sem considerar qualquer
elemento axiológico em sua formação (Laband, Jellinek, Carré
de Malberg e Kelsen);
c) historicistas: a constituição como derivação do processo
histórico, que ao reger a vida de um povo considera a
tradição, os costumes, os folkways e mores, a religião, a
geografia, as relações políticas e econômicas (Burke, De
Maistre, Gierke);
d) marxistas: a constituição como produto da supra-estrutura
ideológica, condicionada pela infra-estrutura econômica. É o
caso da “constituição-balanço”, que descreve e registra a
organização política estabelecida, é dizer, os estágios das
relações de poder;
e) culturalistas: a constituição como fato cultural,
desembocando na filosofia dos valores (Meirelles Teixeira,
Maunz, Otto Bachof);
f) estruturalistas: a constituição como resultado das
estruturas sociais, equilibradora das relações políticas e da
sua transformação (José Afonso da Silva, Spagna Musso).

2. Classificações

• Quanto ao conteúdo:
a) materiais: a constituição significa o complexo de normas
escritas ou costumeiras que intergaram o ordenamento
constitucional do Estado, delineando a sua estruturação
orgânica e garantindo direitos fundamentais;
b) formais: a constituição é um documento escrito e solene,
apenas alterável por meio de formalidades estabelecidas nela
mesma.
• Quanto à forma:
a) escritas: aquelas cujas suas normas vêm prescritas de modo
sistemático e codificado através da grafia. Estabelecem-se
por um órgão constituinte, que estipula e esquematiza o
funcionamento dos poderes constituídos, o modo de exercício
e os limites de atuação deles;
b) não-escritas: são aquelas cujas normas não vêm
disciplinadas de modo único, sistemático e codificado, num
documento técnico e solene. Formam-se ao lado dos
costumes, das praxes, das convenções e até da reiteração
uniforme dos julgados.
• Quanto à origem:
a) promulgadas: são as constituições democráticas ou
populares, que se originam através da participação popular.
O povo, na qualidade de eleitor, escolhe livremente, através
do voto, os representantes que irão integrar a Assembléia
Constituinte, destinada a elaborar e estabelecer, sem
interferência dos outros Poderes, normas constitucionais;
b) outorgadas: são as que derivam de uma concessão do
governante, seja ele um rei, imperador, presidente,
representante de uma junta governativa, ditador, líder
carismático (na concepção weberiana), pessoas que
titularizam o poder constituinte originário, em um contexto
não-democrático.
• Quanto ao processo de mudança:
a) rígidas: são aquelas somente suscetíveis de mudança por
intermédio de um processo solene e complicado, bem mais
específico e rigoroso do que aquele utilizado para modificar
as leis em geral;
b) flexíveis: a cada momento, é capaz de ser modificada,
expandida, contraída, sem processo formal complexo, da
mesma forma que as leis em geral;
c) semi-rígidas: possuem uma parte rígida e outra flexível,
como a Constituição Imperial de 1824.
• Quanto à extensão:
a) sintéticas: são constituições compactas, em que a matéria
constitucional vem predisposta de modo resumido;
b) analíticas: são amplas e minuciosas, cujos artigos,
desdobrados em incisos e alíneas, se ordenam de modo
reiterado em várias partes do texto.
• A Constituição Federal de 1988 é democrática, escrita, rígida
e analítica. É ainda dirigente, pois funciona como “estatuto
jurídico do político”, como plano global normativo de todo o
Estado e de toda sociedade, que estabelece programas,
definindo fins de ação futura.

3. Teoria do poder constituinte

• Como afirma Paulo Bonavides, a teoria do poder constituinte é,


antes de tudo, a teoria da legitimidade do poder.
• Na verdade, sempre existiu e sempre existirá o poder
constituinte para criar, estabelecer e estruturar a constituição,
mas, como doutrina, ele surge com o desenvolvimento das
revoluções burguesas, no período do movimento político-
cultural do constitucionalismo, com destaque para as idéias
do abade Emmanuel Joseph Sieyès, autor do clássico panfleto
“Que é o Terceiro Estado?”, que expressava as reivindicações da
burguesia contra o privilégio e o absolutismo.
• Pela manifestação originária constituinte originária,
desencadeia-se a etapa de criação ou elaboração constitucional,
a qual requer trabalho mais apurado e cuidadoso, inspirado pela
filosofia e sociologia, do que aquele destinado à feitura das leis
comuns, haja vista a índole do poder constituinte originário –
elevada competência auto-organizadora do Estado – ilimitado
pelo direito positivo interno, situando-se fora do alcance do
processo legislativo.
• Todavia, há na doutrina o reconhecimento da existência de
limitações extrajurídicas ou metajurídicas, impostas pelas
estruturas políticas, sociais, econômicas, culturais e ideológicas
dominantes na sociedade, ao próprio poder constituinte
originário, razão pela qual já não se lhe pode atestar o caráter
absoluto.
• O titular do poder constituinte originário varia de acordo com a
teoria, podendo ser, p. ex., o rei, a nação ou o povo (teoria
democrática), que o exerce através de representantes.
• O denominado poder constituinte derivado ou,
simplesmente, poder constituído ou reformador, por outro
lado, é manifestação ulterior (secundária) do poder constituinte
originário, estando por ele limitado (vide item seguinte).
• Através da manifestação constituinte derivada exterioriza-se a
função renovadora das constituições, encarregada de modificar
a forma plasmada quando da elaboração primária do texto
básico, recriando e inovando a ordem constitucional instituída.
• Do poder constituinte originária decorre ainda o poder dos
Estados-membros de elaborarem suas constituições, de
conformidade com os princípios da Constituição Federal. É o
chamado poder constituído decorrente.
• Por fim, urge salientar que o caráter dinâmico e prospectivo da
ordem jurídica propicia o redimensionamento da realidade
normativa, em que as constituições, sem revisões ou emendas,
assumem significados novos, expressando uma temporalidade
própria, caracterizada por um renovar-se, um refazer-se de
soluções que, muitas vezes, não promanam de reformas
constitucionais.
• Trata-se do fenômeno da mutação constitucional,
manifestação de um poder constituinte difuso, concebido
como o processo informal de mudança da constituição, por meio
do qual são atribuídos novos sentidos, conteúdos até então não
ressaltados à letra da constituição, quer através da
interpretação, em suas diversas modalidades e métodos, quer
por intermédio da construção (construction), bem como dos
usos e costumes constitucionais.

4. As emendas constitucionais

• Ao lado da revisão (reforma ampla do texto constitucional), as


emendas constitucionais constituem uma técnica através da
qual se processa a reforma da constituição, verdadeira
manifestação do poder constituinte derivado.
• É certo que tal atividade está condicionada a limites jurídicos,
impostos justamente pelo poder constituinte originário, que é o
seu fundamento de autoridade.
• Tais limites podem ser de ordem:
a) formal: questões referentes ao procedimento, bem mais
rígido do que para se alterar as leis em geral. No Brasil, as
emendas se submetem a iniciativa reservada (art. 60, inc. I, II
e III, CF/88) e ainda deverá ser discutida e votada em cada
Casa do Congresso Nacional em dois turnos, com quorum
qualificado de três quintos de todos os membros (art. 60, §
2o, CF/88), não podendo a matéria constante de proposta de
emenda rejeitada ou havida prejudicada ser objeto de nova
proposta na mesma sessão legislativa (art. 60, § 5o, CF/88);
b) circunstancial: não poderá ser editada emenda na vigência
de intervenção federal, de estado de defesa ou de estado de
sítio (art. 60, § 1o, CF/88). Tecnicamente, não é correto falar
que isso seja uma limitação temporal, esta sim ocorrente no
caso da Constituição portuguesa de 1933, que só poderia ser
revisada periodicamente, de cinco em cinco anos;
c) material: determinadas matérias constituem o núcleo
intangível da Constituição, insuscetíveis de modificação via
emenda. Podem ser explícitas, como no caso das cláusulas
pétreas (art. 60, § 4o, CF/88), e implícitas, que impõem,
mesmo sem expressa previsão constitucional, a proibição de
alteração do titular dos poderes constituintes originário e
reformador, de alteração dos processos de reforma da
constituição, das cláusulas pétreas e demais limitações (p.
ex., estabelecimento de “miniconstituintes”, tal como fora
proposto por alguns digníssimos Senadores), bem como de
modificação que descaracterize o sistema constitucional
vigente.
• Dessa forma, violadas as limitações ao poder de reforma, estão
sujeitas as emendas constitucionais ao controle de
constitucionalidade.

5. Disposições gerais

• Disposições constitucionais gerais são normas jurídicas, de


acentuado caráter impessoal e abstrato, em cujo regaço se
erigem pautas de comportamento amplas, porquanto aplicáveis
a situações certas, mutáveis, passageiras e até contingente.
• A experiência vivida pelos diversos ordenamentos
constitucionais, dotados de constituição escrita, atestam o
caráter compromissório das disposições gerais.
• No Brasil, todas as Constituições previram disposições gerais,
com exceção da Carta de 1937, que simplesmente enunciou o
rótulo “Disposições transitórias e finais”.
• Quanto à Constituição de 1988, é possível dizer que não
ocorreram peculiaridades no que tange à disciplina do assunto.
Registre-se, contudo, que o presente Título IX tem servido para
o constituinte reformador incluir preceitos decorrentes das
emendas constitucionais operadas no texto original da
Constituição, alongando cada vez mais o rol de artigos da já
extensa CF/88.

6. Disposições transitórias

• As disposições transitórias incidem sobre um determinado ato


ou fato socioconstitucional relevante. A efemeridade desses
preceitos não lhes subtrai a força das disposições permanentes,
no que tange à aplicabilidade e cogência, embora localizadas e
fixadas em um determinado lapso de tempo, ou até que
ocorrida certa condição de exigibilidade fática.
 Decisão do STF no RE 161.462-5/SP, rel. Min. Celso de Mello, DJU
10.08.95: EMENTA: “O ADCT, promulgado em 1988 pelo
legislador constituinte, qualifica-se, juridicamente, como um
estatuto de índole constitucional. A estrutura normativa que
nele se acha consubstanciada ostenta, em conseqüência, a
rigidez peculiar às regras inscritas no texto básico da Lei
Fundamental da República. Disso decorre o reconhecimento de
que inexistem, entre as normas inscritas no ADCT e os
preceitos constitucionais da Carta Política, quaisquer
desníveis ou desigualdades quanto à intensidade de sua
eficácia ou à prevalência de sua autoridade. Situam-se,
ambos, no mais elevado grau de positividade jurídica, impondo-
se, no plano do ordenamento estatal, enquanto categorias
normativas subordinantes, à observância compulsória de todos,
especialmente dos órgãos que integram o aparelho do Estado”.
• As disposições transitórias veiculam-se através de atos, que se
exteriorizam por um conjunto de normas, incumbidas de cuidar
do direito transitório ou intertemporal.
• Tais atos, convertidos pelo legislador em normas, desempenham
efeito integrativo, porquanto procuram conciliar os efeitos da
ordem constitucional velha com o produto positivado advindo da
manifestação constituinte originária nova.
• Nesse contexto, o Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (ADCT) engloba estipulações quanto às providências
a serem adotadas no período de transição entre a ordem
constitucional pregressa e a promulgada em 5 de outubro de
1988. Consigna mandamentos que se extinguirão por terem
cumprido sua tarefa no tempo e no espaço.
• Cumpre registrar que há corrente doutrinária que entende
impossível a reforma das disposições transitórias de eficácia
exaurida, através da técnica da emenda, pois “muito mais do
que mero desvio de competência, é contumélia execrável, vício
irremissível, corrosão ao caráter originário, inicial, autônomo e
incondicionado do poder constituinte, que as concebeu para
durar momentaneamente” (Uadi Lammêgo Bulos).

7. Hermenêutica constitucional e os princípios


constitucionais

• A superioridade hierárquica, a natureza da linguagem, o


conteúdo específico e principiológico e o caráter ético-político
são peculiaridades que outorgam à constituição uma essência
bem diversa de qualquer outra norma, razão pela qual a sua
interpretação exige um instrumental teórico diferente: a
chamada hermenêutica especificamente constitucional.
• Antes, porém, cumpre esclarecer, brevemente, a diferença entre
princípios e regras. Segundo J. J. Gomes Canotilho, é possível
distinguir as duas espécies normativas segundo cinco critérios,
quais sejam:
a) grau de abstração: os princípios ostentam um grau de
abstração mais elevado que as normas;
b) grau de determinabilidade: na aplicação do caso
concreto, os princípios, mais vagos e indeterminados,
necessitam de densificação, enquanto as regras são
suscetíveis de aplicação direta;
c) caráter de fundamentalidade no sistema: princípios são
normas com papel fundamental no ordenamento jurídico,
razão pela qual estão predominantemente inseridos na
Constituição;
d) proximidade da idéia de direito: os princípios são
standards juridicamente vinculantes radicados nas exigências
de “justiça” ou na “idéia de direito”, ao passo que as regras
podem ser normas vinculantes com um conteúdo apenas
funcional;
e) natureza normogenética: os princípios são fundamento
das regras, constituindo-lhes a ratio.
• Os princípios, espécies do gênero “norma”, exercem papel
fundamental dentro do sistema jurídico. Com efeito, em virtude
de seus aspectos funcionais e estruturais, que lhe denotam
plasticidade e flexibilidade (Gustavo Zagrebelsky), atuam os
princípios como paradigma ético e instrumento do jurista para
superar o legalismo e buscar no próprio sistema a solução mais
adequada para o caso concreto.
• A partir dessa distinção, é importante apontar que a
interpretação dos princípios, em especial os de origem
constitucional, se orienta por cânones diversos daqueles
tradicionalmente utilizados na interpretação das normas, sob
pena de padecer na inefetividade.
• Com efeito, praticar a interpretação constitucional é diferente
de interpretar os princípios de acordo com os preceitos clássicos
da hermenêutica jurídica, desenvolvidos em época em que o
pensamento jurídico se assentava em bases privatísticas.
• Inúmeros equívocos, motivados por vezes por questões
ideológicas, vêm sendo cometidos pelos operadores jurídicos na
interpretação da Constituição, os quais, desconhecendo suas
peculiaridades, acabam por lhe burlar o sentido, alcance e
eficácia, em prejuízo da efetividade constitucional.
• A partir disso e da constatação de que os princípios
constitucionais se encontram em constante estado de potencial
colisão uns com os outros, tendo em vista a Constituição de
1988 adotar a fórmula política do Estado Democrático de
Direito, que pressupõe a convivência de valores antagônicos,
verifica-se a necessidade do emprego do conjunto de princípios
de interpretação especificamente constitucional, que tem como
finalidade última a efetivação dos direitos fundamentais.
• Primeiramente, de um ponto de vista lógico, destaca-se o
princípio da supremacia constitucional, que se assenta no
pressuposto da superioridade hierárquica da Constituição sobre
os demais atos normativos. Encontra fundamento em duas
proposições do constitucionalismo clássico, a saber, na distinção
entre poder constituinte e poder constituído e no princípio da
rigidez constitucional, que impõem consequentemente uma
superioridade material e formal das normas constitucionais.
• Pelo princípio da supremacia constitucional, nenhum ato jurídico
pode subsistir validamente em contrariedade com a
Constituição. Efetivamente, as normas anteriores e contrárias
ao novo comando constitucional são ditas não recepcionadas,
ficando revogadas. Já as normas posteriores que venham de
encontro à Constituição devem, através do processo de controle
de constitucionalidade, ser declaradas nulas e assim extirpadas
do ordenamento jurídico.
• Ainda, em respeito ao princípio da supremacia da Constituição,
não pode o legislador ordinário deturpar, burlar ou prejudicar o
sentido e alcance da norma constitucional. Sabe-se que o
legislador constituinte reservou ao âmbito infraconstitucional a
complementação de algumas normas constitucionais, seja por
expressa referência a uma lei, complementar ou ordinária, seja
pela utilização de termos, expressões e conceitos inexatos ou
equívocos. Tal atividade, entretanto, está limitada pela
supremacia constitucional.
• Salienta-se ainda que a própria demora em se editar a lei
regulamentadora da Constituição pode gerar a
inconstitucionalidade, porquanto a eficácia da norma
constitucional jamais pode depender da vontade do legislador
infraconstitucional. Nesse sentido, o juiz, na qualidade de
intérprete-guardião da Constituição, no exercício da função
jurisdicional, não deve ficar condicionado à intermediação do
legislador ou administrador, cabendo-lhe aplicar os princípios
constitucionais diretamente, por meio de uma hermenêutica
construtiva.
• Como decorrência da presunção de constitucionalidade dos
atos legislativos, havendo possibilidade de múltiplas
interpretações de um dispositivo, deve-se escolher aquela que
mantenha harmonia com a Lei Fundamental, mesmo que não
seja a que mais evidentemente resulte da leitura do texto.
Trata-se do princípio da interpretação conforme a
Constituição, que tem como conseqüência, além da eleição de
uma linha interpretativa, a exclusão expressa das outras
interpretações possíveis, que conduziriam a resultado
contrastante com a Constituição. Cuida-se, portanto, de
mecanismo de controle de constitucionalidade pela qual se
declara ilegítima uma determinada leitura da norma legal.
• Tal idéia é complementada pelo princípio da máxima
efetividade, também denominado princípio da efetividade
constitucional, da eficiência ou da interpretação efetiva, pelo
qual a uma norma constitucional deve ser atribuído o sentido
que lhe outorgue maior eficácia. Havendo duas soluções
razoáveis, deve o intérprete optar por aquela que trague maior
efetividade ao comando constitucional, notadamente quando se
tratar de direito ou garantia fundamental, favorecendo
especialmente o elemento teleológico.
• Grande importância possui também o princípio da unidade da
Constituição, em função da qual deve compreender-se a
Constituição de maneira sistemática e não de maneira isolada.
Na verdade, a Constituição é o elo que outorga sistematicidade
ao ordenamento jurídico, servindo de parâmetro em qualquer
processo interpretativo.
• Outro princípio, indispensável à interpretação dos direitos
fundamentais, é o da proporcionalidade. A idéia de
proporcionalidade, expressão da própria noção de igualdade, é
tão antiga quanto a idéia de direito. Entretanto, após a II Guerra
Mundial, tal princípio assumiu dimensão diversa, por meio de
construção conjunta da doutrina e jurisprudência alemãs.
• Atualmente, recorre-se à proporcionalidade, chamada de
“princípio dos princípios”, para resolver a colisão entre
princípios constitucionais, aos quais se deve igual
obediência, por ocuparem a mesma posição hierárquica,
determinando a procura de uma “solução de compromisso”, na
qual se respeita mais, em determinada situação, um dos
princípios em colisão, buscando desrespeitar ao mínimo o outro,
sem contudo ferir-lhe o núcleo essencial. Isto é, no processo de
harmonização ou concordância prática, almeja-se conformar
os diversos princípios em conflito, de forma que se evite a
exclusão total de um ou de alguns deles.
• O princípio da proporcionalidade pode ser descrito no trinômio
adequação, exigibilidade e proporcionalidade em sentido
estrito. O subprincípio da adequação determina que, dentro do
faticamente possível, o meio escolhido se preste para alcançar o
fim estabelecido, mostrando-se assim adequado. O subprincípio
da exigibilidade ou da vedação do excesso, por sua vez, impõe
que esse meio seja exigível, ou seja, que não haja outro,
igualmente eficaz, e menos danoso a direitos fundamentais. Por
fim, tem-se o subprincípio da proporcionalidade em sentido
estrito, que é a ponderação entre o ônus imposto e o benefício
trazido, para mesurar se é justificável a interferência na esfera
dos diretos do cidadão.
• Conforme já ressaltado, o princípio da proporcionalidade assume
o importante papel de servir como parâmetro de controle da
constitucionalidade das normas restritivas de direitos
fundamentais, bem como para solução de conflitos entre
princípios constitucionais. Percebe-se, pois, que os princípios
fundamentais não são absoluto, sofrendo limitações, ditadas
pela necessária compatibilização dos direitos fundamentais em
latente conflito.
• O exercício de um direito fundamental em contraposição ao
princípio da proporcionalidade, ou seja, atingindo o núcleo
essencial de outro direito fundamental, dá margem ao abuso
de direito fundamental.

8. Uma brevíssima história das constituições brasileiras

• Nas palavras de Paulo Bonavides, não há falar no Brasil de


“crise constitucional”, mas de “crise constituinte”, pois cada
governante que assume o poder deseja adaptar a constituição
aos seus interesses. Por isso, foram várias as constituições na
história brasileira, cabendo traçar um breve resumo, desde a
Imperial à atual.
• Constituição Política do Império do Brazil (jurada a
25.03.1824): influenciada pelas idéias de Clermont Tonerre e
Benjamin Constant, foi a primeira constituição do Brasil
independente. Consagrou o Estado unitário, a monarquia
constitucional, a existência de um Poder Moderador, a religião
católica como oficial do Império e o sufrágio censitário;
• Constituição da República dos Estados Unidos do Brazil
(promulgada a 24.02.1891): influenciada por Ruy Barbosa,
que buscou inspiração na Constituição americana, estabeleceu
o Estado federal, com a criação dos Estados-membros, a
República, tripartição das funções, separação da Igreja e Estado,
criou-se o Supremo Tribunal Federal, o habeas corpus;
• Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil
(promulgada a 16.07.1934): resultada da revolução
constitucionalista paulista de 1932, rompeu com a concepção
liberal de Estado, positivando em seu texto elementos sócio-
ideológicos. Implantou a Justiça do Trabalho, a Justiça Eleitoral, o
voto secreto, o acesso das mulheres à cidadania,
constitucionalizou os direitos sociais, institucionalizou o
Ministério Público e o Tribunal de Contas;
• Constituição dos Estados Unidos do Brasil (decretada a
10.11.1937): a chamada “polaca”, por ter sido uma tradução
da Carta ditatorial polonesa de 1935. Instalou o Estado Novo,
descaracterizando a autonomia das entidades federadas,
concedeu poderes supremos ao Presidente da República,
reduziu os direitos e garantias individuais, eliminou a justiça
federal de 1a instância. Deveria ter sido objeto de um plebiscito,
o qual, entretanto, nunca foi realizado;
• Constituição dos Estados Unidos do Brasil (promulgada a
18.09.1946): oriunda da redemocratização resultante da queda
de Getúlio Vargas. Restabeleceu o equilíbrio entre os Poderes, os
direitos fundamentais, condicionou a propriedade ao bem-estar
social;
• Constituição do Brasil (promulgada a 24.01.1967): fruto
do golpe militar de 1964, foi aprovada apenas formalmente por
um Congresso coagido e desfigurado por atos de cassação.
Preocupou-se fundamentalmente com a segurança nacional,
que condicionada o exercício dos direitos fundamentais;
• Emenda Constitucional n. 1 (17.10.1969): acarretou
substancial reforma no texto da CF/67, podendo ser
caracterizada como uma nova constituição. Trouxe as eleições
indiretas para os governos estaduais e a eliminação das
imunidades parlamentares materiais e processuais;
• Constituição da República Federativa do Brasil
(promulgada às 16 horas do dia 5 de outubro de 1988):
marco da redemocratização, foi elaborada pela Assembléia
Nacional Constituinte, convocada em 1985 pela EC n. 26/85, e
sofreu sensível influência das Constituições portuguesa, italiana
e espanhola. Foi dado maior realce aos direitos e garantias
fundamentais e às ordens econômica e social. Criou o Superior
Tribunal de Justiça e o mandado de segurança coletivo, o
mandado de injunção, o habeas data, a ADIn por omissão, a
argüição de descumprimento de preceito fundamental. Vem
sendo desfigurada por uma infinita sucessão de emendas
constitucionais.