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Os GENEROS TELEVISUAIS E 0 DIALOGO Nas tiltimas décadas/a idéfa de género tem soffido um questionamento es- dor, de parte inicialment. Struturalista e posteriormente do ssamento dito pés-moderno, para os quais esse tipo de discussio se tomou a coisa anacrénica, quando no irrelevante. Maurice Blanchot, por exem- p, defendia, em seu tempo, que as tinicas coisas realmente importantes so as na sua individualidade, independentemente de como as possamos classifi- Tomo uma fora subversiva capaz de dissolver todas as espécies We claSSifica- (“Como classificar Georges Bataille? [...] E tio desconfortivel responder a sa pergunta que, em geral, se prefere esquecer Bataille nos manuais de literatu- 2)? De forma um pouco mais flexivel, Jacques Derrida problematizava a iden- igo de uma obra literdria com um género, considerando que, ao penetrar no jor de um género, a obra o transformava em outra coisa.’ Para complicar, bemos que as obras realmente Fundantes produzidas em nosso século no se ure Blanchot, Le livre d venir (Pars: Gallimard, 1959) Roland Barthes, O rumor da lingua (Sio Paulo: Brasiliense, 1988). Jacques Derrida, “The Law of Genre", em Crial Inguiry, ¥. 7, © 1, outono, 1980, 68 + A TELEVISAO LEVADA A séRIO a diregio do futuro, mais o hibridismo se mostra como a prépria condigao estru- tural dos produtos culturais. pe No entanto, por mais que Blanchot, Barthes e Derrida ena ccategorias, eles nfo deixam de operar dentro de uma categoria, que ata E.se-thes-parece possivel dizer que nao existem mais romances, nem poemas, fiem ttagédias Qu comédias, esta, todavia, uma categoria que os abrange todos, 0 livro, pélo deffermanéncia e de resisténcia de uma cultura, quicé de uma civiliza- ¢8o-derima Weltanschauung que se recusa a integrar-se passivamente no terreno de outros meios de expressio, como o disco, o cinema, a televiséo, tudo isso que parece exprimir uma outra cultura, uma outra economia e uma outa visio de mundo. Para Marjorie Perloff, 0 livro pode ser tomado ele préprio como um género (recordemo-nos do projeto do Livre, de Mallarmé, tentativa de ampliagao ao extremo das possibilidades tltimas desse meio). Enquanto género, 0 livro “se contraporia a todos esses meios nfo livrescos (e cada vez mais nao impressos), que esto prestes inclusive a ocupar 0 seu espago como o lugar da literatura”.* Poderiamos perguntar ento: acabaram-se realmente os géneros (e, por ex- tensio, todas as classificagdes que nos permitiam vislumbrar um pouco de ordem na selva da cultura) ou os nossos conceitos de género jé nio so mais suficientes para dar conta da complexidade dos fendmenos que agora enfrentamos? Talvez ‘Tosse 0 aso de recorrer a um conceito mais flexivel ou melhor adaptavel a um mundo em expanso e em rpida mutago. De todas as teorias do género em cireu- aco, a de Mikhail Bakhtin nos parece a mais aberta e a mais adequada as obras de ‘nosso tempo, mesmo que também Bakhtin nunca tenha dirigido a sua andlise para © audiovisual contempordineo, ficando restrito, como os demais, ao exame dos fe- n6menos lingiiisticos ¢ literdrios em suas formas impressas ou orais. Para o pensa- dor russo, género é uma forga aglutinadora e estabilizadora dentro de uma determinada linguagem, um certo modo de onganizar idéias, meios e recursos ex- pressivos, suficientemente estratificado numa cultura, de modo a garantir a comunicabilidade dos produtos ea continuidade dessa forma junto as comunidades faturas. Num certo sentido, € 0 género que orienta todo o uso da linguagem no Ambito de um determinado meio, pois é nele que se manifestam as tendéncias ex- pressivas mais estiveis e mais organizadas da evolugdo de um meio, acumuladas a0 longo de varias geragées de emunciadores. Mas nfo se deve extrair dai a conclusio de que o género é necessariamente conservador. Por estarem inseridas na dindmica Marjorie Perloff, “Introduction «em Postmodern Genres (Norman: University of Oklahoma Pres, 1995 Os Géne#os TeLevisuais € 0 piALoco + 69 2 uma cultura, as tendéncias que preferencialmente se manifestam num género ao se conservam ad infinitum, mas estio €m continua transformagio no mesmo stante em que buscam garantir uma certa estabilizacdo, O género sempre 6 nfo &0 mesmo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo. (O género renasce e se renova em cada nova etapa do desenvolv imento da literatura em cada obra individual de um dado género. Nisto consiste a sua vida.’ A palavra género deriva do latim genus/generis (familia, espécie) e nao se Encula ctimologicamente, malgrado a aparente homofonia, comas palavras gene Egenética (do grego génesis: geragao, criagdo). Apesar disso, hé uma inequivoca Eeissdo entre o que faz. 0 género no meio semistico (ou seja, no interior de uma Besnagem) ¢ 0 que faz o gene no meio biolégico. Os geneticistas definem 0 gene Semo.uma entidade replicante, presente nas moléculas de DNA. cuja fungo prin- Spel étransmilir ds novas células que esto sendo formadas as informacdes basi Be v0 garantir a preservagio de uma determinada espécie, O paradoxal Seer relacao aos genes & que, embora cles sejam entidades conservadoras por $0 biol6gica, cles so também os responsaveis pela evolugdo da vida desde j Semas mais simples as mais complexas, através de um longo processo de 0 natural. Como se sabe, o 206logo e geneticista Richard Dawkins, em seu Bee The Selfish Gene, defendeu a idéia de que os genes nao sio os tinicos res- Bis pela evolucdo: quando a questdo é a cultura humana, temos de pensa Be tuivalente “cultural” do gene — segundo ¢{e, o meme que se encarregaria Semesma funcio teplicante das entidades genéticgs.A palavra meme foi criada a Je de uma corrupiela da palavra grega mimesis (imitagao) e se justifica pelo Bde, segundo Dawkins, a imitagdo ser a forma basic: a de replicagdo dos memes.* Pe eoblema da argumentacao de Dawkins & a imprecisdio ou falta de critérios na i eunhada Godard alos de ate respei- ming pro- erificados pro; ane 2, sob ma ido na tra- ritmo das ivo, falan- uito silén- il ainda, 0 rigida por s Quinter; em dizer ; como se com os mpressio- (orgs), Jean Seis exemplos de didlogos na televisio. Da esquerda para a direita, de cima para paixo: René Thom versus Jean-Lue Godard em Six fois deux (Franga, 1976), de J L. Godard e A.M. Migville; Michel Piccoli versus Jean-Luc Godard em Deux fois cinquante ans de cinéma francais (Gra-Bretanha, 1995), de J. L. Godard; Bill Moyers versus Joseph Campbell em The Power of Mith (EUA. 1988), série pro- duzida por Catherine Tatge; Marguerite Duras versus Bernard Pivot em Apostrophes (Franca, 1984), dirigido por Jean-Luc Léridon; Beatriz Sarlo versus Jorge Lanata em Incidentes (Argentina, 1996), ditigido por Jorge La Ferla; Haroldo de Campos versus Luiz Carlos de Menezes em Didlogos impertinentes (Brasil, 1995), dirigi- do por Gabriel Prioli