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EDIGAO ESPECIAL cS | e483 , emrnieniag linguagens do 0) 98)0) Estreitas relacoes entre stress e satide im O sucesso A Mente do Bebé esta de volta. ICAO REVISTA E ATUALIZADA Accolecao A Mente do Bebé esta de volta e traz em suas quatro edicdes todo 0 conhecimento sobre a formaggo do ‘cérebro e seu funcionamento. A Mente do Bebé apresenta artigos cientificos de renomados pesquisadores, editadosem | | linguagem acessivel e ricamente ilustrados. Profissionais da satide, educadores e pais interessados no desenvolvimento fisico e emocional de seus filhos encontrardo as informacbes mais atuais sobre a fase que pode determinar em boa medida ‘a qualidade de uma vida inteira. Peca ao seu jornaleiro ou acesse www.lojaduetto.com.br tt Uma série fundamental da sua revista Mente & Cérebro. | SUMARIO 6 corpo, psique e 36 experiéncia humana Ruens Maceo VOUCH Satide, sintoma e doenca sio manifestacdes de um jogo complexo de forgas quase sempre desconhecidas 14. Mensagens sutis Ie Where Por muito tempo os gestos foram menospre2 dos pelos estudiosos. Hoje se sabe que um 22 Faces da mentira ‘Sin Sc Pevsador que mapeou orepetrio de ‘express6es faciais humanas revela as pistas devadas pelos mentross 36 sinal de alerta Hermann ENGLERT cérebro e 0 corpo reagem ao stress da vida ‘moderna isso se reflete na satide. Mas ha ‘como prevenir seus efeitos nocivos 42 Psicoterapia corporal -Rusens KiGNeL Seguidores de Wilhelm Reich desenv olveram abordagens hoje reconhec ‘idas mundialmente 48 uma filosofia da satide Mara Extn Com um olhar global e multidisciplinar fica sobre 0 ser humano, a psicosson busca a unidade entre corpo € mente 28 Explosées de prazer Mase PoRTNER Durante 0 orgasmo, diversas dreas cerebrais sio desativadas, tal qual disjuntores que se desacoplam devido a uma sobrecarga elétrica 54 58 64 70 78 Historia de uma medicina ANDREA ALBIN Os conceitos da psicossomética atual remontam as origens da teoria médica ocidental, linha evolutiva que inclui Hipécrates, Galeno, Freud e Groddeck Equilibrio essencial Kaa BecHer E Katia GascHier Pique e sistema imunol6gico esti estritamente igados, 0 balan dessa complesarelagto repereute na sae sce © poder da agulha Susanne Kenneer Antes vista com ressalvas por parte dos profissionais da rea da satide, a acupuntura ¢ reconhecida hoje como tratamento cficaz contra a dor Eixo regenerado Unc Kea lluminagao neural Uta Kear de pensar, de sentir e de ser om mentecerebro.com.br DIRETOR GERAL: ALsREDO NASTAR, DIRETOR EXECUTIVO: EDIMILSON CARDIAL DIRETORA DO GRUPO CONHECIMENTO: ANACLAUDIAFERRAR ESPECIAL CORPO REDAGAO MenTEmCEREBRO (edacsomecduettoeditoraLcom.be) EDITORA Clas Lea EDITORA-ASSISTENTE Denise oes REVISAO: tena Adorno EDITORA DE ARTE: Sone Ovi Vera AASSISTENTES DE ARTE: Tatane Santos de Olvera, “Marela Sole julanaFretas. 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Ao mesmo tenpo nos dstingue ‘como seres tnicos e nos remete a limitagao humana, Atravessado por marcas psiquicas, bistérias ecicatizes, apresesta inimeros enigmas ¢ aferect algunas restostas Enbora sinbolizado de infivias mancira, expde 4 realidade do concreo, da palpoel. Tanto « relagéo consigo mesmo quanto ‘om 0 outro mediada pelo corpo: olbar, toque, cir, calor, falta cexcesos,atragto ou reulsa, Percepgdes do mundo, de mds mesmos € daguels que nos cecam sao intrmediadas plas rages corpora E no contato com 0 corpo do outro que a vida ¢ gerada, somos acolbidos ¢ n0s consltuimos como protagonisas de nossa propria ‘ida, Como um campo proficuo de conflitospsiquicos, atranessados tela sexualidade o corpo testenuna deseoseavstdades,sofe dors eangiistias, permeado pla muiplicidade de sentiments “Maitiplas também so as manciras como as inimeras dreas do saber olham o corpo, se rerem a eee lhe conferen siguifcados. O corpo ao qual se voltam fisiologistas e anatomistas, por exemplo, no Zomesmo sobre 0 ual fala a maiora dos pscslogos ecertamente no ten os mesmossntidos qu os pscanalistasatibuen ade, Os ciatistas a separa em parts eoexaminam,Psioterapeutas oe integrante de wna waidade que se compe com a mente 1d os méticos, an geral,seconcentram an aplacar sus desconforts, sinasesintomas. Hi ainda o corbo ere, desiad edeseant,o corpo enolto plas paixdes ou atormentado pelo descanforto. O fto € que estamos nl ‘existinos como sujeitos apenas encartados, corporificados. Os artigos seecionados para ee especial de Mente&Cérebro tratam dessas conotagées ¢ linguagens, ora silencosas ¢ suis, ora explicitas. Os autores abordam esse corpo em transformagio ~ real cot imaginrio, adorcido ow em busca da said ~ seas sna, gesto, suas inleragdes como psiguismo, pi hecem como foes terapias, mistios efaschnios inexordves,blsants Um corpo ds veces prazeos, ds vez assstador en care oss, no qual se deseo a exerci do exis Glaucia Leal, editora glaucialeal@duettocditorial.com.br vevouementecerebro.com be INTEGRAGAO e experiéndia ais que uma questio de semintica antesm de discusses filosdficas ou embates ideol6g 0s, a8 relagBes entre corpo ¢ psique sio uma realidade que sistematicamente se manifesta por meio =xperiéncia de cada um, Das mas simples vivéncias Cotidianas, como aaceleracio do ritmo cardiaco diante da lembranca de um encontroamoroso aéas complexas descobertas experimentas da psiconeuroimunologia que ‘Comprovam a redicdo do nimero de glabulosbrancose das defesas imunolégicas em pessoas que vivem momen tos depressvos, a gama de manifestagBes que revelam 35 interages permanente e indissoci is entre fungies “organicas e psiquicas ¢ infnita Apesar de seu cardter quase intuitivo © das fortes evidéncias encontradas pela pesquisa experimental, em igen ciadas, produzindo situagées paradoxais. Na medicina, muitas situagies clinicas essas relagSes so neg apesar dosenomes avangos diagndsticose péuticos alcangados em todas as especialidades,ndo so raros os ‘cas05 em que os médicos deparam com pacientes cuias ueixas esintomatologia permanecem refratérios a todos esses progressos. As dificuldades encontradas nessa situagSes origina ram diferentes termos que tentam descrever os quadros apresentados por esses pacientes: doencas“funcionas Psicossomaticas,“idiopéticas, sintomas de “Somatiza a0". Essas denominagdes em gera se apresentam como liagnsticos de exclusdo,resultantes da impossibilidade de idemtificacio das dindmicas etiologicas das queixase da sintomatologia ou do caréter surpreendente de suas evolugdes. Os tratamentos prescritos, normalmente sintomaticos, trazem alivio, porém nao resolvem o problema do paciente, que volta a apresentaros mesmos 6 extescéee » ssreca cone As interacdes ou fae oe GuadhOs sintomsticos © histércas (Paralisos anestesiasce- era @ ‘uitas outras. Até hoje, Entre 0 corpo Muss exes €submetdo rane FN COmulsGes, entre outros) esa vise conversiva do adoccer Gra? de encaminhamentos ae pelo, Sintomas que pareciam impregna cone ‘compreensio po. a mente diversosespecalitas, com quem a ‘io respeitar onganizacBes anats. Pular do adoecimento, quande se Ocorrem em Memsditaicadesserepetam NOT fsolégicase newolégicas, fame {Que uma pessoa somatiza A necessidade nao apenas Freud revelou a existéncia de Por problemas ‘€macionais’ geral por ge Feconhecer mas, sobretudo telacoes particulares entre fommas Meio de compreender razarem sia pe. jE “rpressio corporal e dinimi-. Efeitos da fragilidade Hetatces nitude os fendmenosrelacionados cag Psiguicas. Referidos a uma Porém, ao Propor 0 conceito de dinamicas de a interagdes entre compo e psique senomia imagindria, caregados neuroses atuais, © préprio Freud OrBanizacao e dev orgem a divenas hips fe signifados, marcados pela spon ara os limites do mo. d izacdiq Numa perspectva fenomenole, hiss eporepisédiosespecticos at dda conversio histérica (uma ©sorganizacao £94, Karl Jaspers sugeru o termo. de Vida da pessoa, os sintomas siconeurose) para a compreensio I somatopsicologia para descrever histéricosevidenciam a capacidad de algumas expressBes e doencas i ‘ofato de que toda sensacio e ‘toda de, expressio, através do. ‘compo, de orgénicas, Diferentemente das i Teagio expressiva manifestam se Lum confltopsiquicoinconsciente orBanizagdes histéricas,nas quis Pormeio de fungées comporais que Reconhecendo e considerando a € possivel encontrar sentidos § % brestam como sede da alma, cportinca dos procestossomét-_simBohces Para on sintomas, ele Ciaidcett Ye% determina 28 cos presente Nickode eB 2 observou que nas neuroses suc : files dasexpeiéniasdeses grate Conttbuigioda psicanalse (neurose de angistia, neurastenia # fungdes. Utilizada em 1818 Por]. foi ter desenvolvido ipsmumentos © hipocondria) Parecia haver £ Heinoth a paiapsicosomat. espera Para 2 obseracio € uma descarga drs fe exctagio | Ca € atualmente mais conhecida, Grats dedlimensdesdacxperiéncia —_pulsiona Pelasviassomsticascom { Ber uestionada Por meio doco suetanscendemosubs. pouca ou nenhun claboracio # dela, muitos modelos tesricos tato orginico dessa experéncia mental dy exciacio, nem deri. $ Pescam descevere explcaras prewar Amaniesasto, 20 vacto ou comespondénen com E relagbes casas existentes entre as remnrhamenocomoouroea dinimieas pyar i dimensdescomoraisepsiquicas ds garsfomaciopormeiodalingua. "Por hi dessas caracters. experiéncia humana em edo universosimbtico, ticas, Freud desaconselhava i veo js omeeemodeles, Desde o nko doses XX tratamento psicanalitico pars ; SENETICO, 2 psicandlise trouxe importante © modelo da histetia inspirou a Pacientes com neuroses atuais £ rranrats Wvéncias contribuicéo a essa Investigac3o, _investigacao das telagées etiols- ¢ doencas orgénicas. Sandor i dae Diane da peploaden sedi, {E88 entre confitos psicuicos e Ferenc’ reconheceu as difcul- # deere cena fe eettesmédicos — divenas doenga orgine ss como dades apontadas por Feud parao i Integrasao psiquica elas manifestagdes corporais asma, eczema, psoriase, retocolite, ‘ratamentodessas manilestacies, porém insist naimportincia do referencial teérico que a psicand: lise vinha desenvolvendo para a apreensio da experiéncia subje tiva e para 0 acompanhamento clinico dos pacientes com doen «as orgiinicas, tanto no ambito da propria psicanélise como no ‘meio médico, Ferenczi sugerit a necessidade de outra postura do terapeuta e de modificagdes no dispositive clinico para lidar com cesses pacientes,ao mesmo tempo que propunha a sensibilizagao dos médicos para as vivencias psiquicas de seus pacientes, um caminho pelo qual enveredaram todos os pioneiros da psicosso- rmética como Georg Groddeck Felix Deutsch, Franz Alexander, Ballin e muitos outros. Na esteira desses pioneiros ¢ de Melanie Klein, René Spitz, Donald Winnicott, Pierre Marty Pierre Fédida, ¢ varios outros) desenvolveu-se toda uma vertente teérico-clinica que, ampliando a compreensio da metapsicologia psicanalitica, atualmente oferece possbilidades de tratamento nao apenas para pacientes que apresen tam sintomatologia organica, mas também psicéticos, borderlines, adictos e com transtomos de ca: iter, use, pessoas que vivem Os efeitos das fragilidades da precariedade de suas vivéncias infantis, de seu desenvolvimento do esgarcamento de seu tecido psiquico, de suas fra csicas, da pobreza de seu mundo objetal e de representacoes. Com efeito, apesar das di ferencas entre es5as formas de manifestagao, a clinica revela a cexistencia de uma perfeita cont nuiidade funcional e de modos de organizacdo entre esses quadros, tanto do ponto de vista do desen volvimento humano, como no da manifestacao patolégica A partir dessa constatacio, a psicossomatica psicanalitica presenta ima perspectiva te6rica clinica que permite compreender que asmanifestagies ouas queisas entradas no corpo sio apenas tuma das modalidades possiveis de expressio do sofrimento humano. pesar da pr rnancia da expressio psiquica, 08 Por sua ve sintomas psicopatolégicos cons: tiruem outra vertente paraa mani festacdo desse sofrimento. Meso considerando osmecanismes fio: Togicose psiconeuroimunoldgicos implicados nesses processos, € fundamental compreender a pets pectiva intersubjetiva € hist segundo a qual se desenvolvem anismos tem suas relagées com as funcoes psfquicas e com a regulagio do funcionamento vital. A prepon derincia de uma ou outra dessas formas de expresso ¢ fruto da his t6ria de cada um, no contexto de uma interacio permanente fatoresconsttucionas, condigies do ambiente c suas experiencias de vida, modeladas pelo tecido relacional estabelecido, nascimento, com as demais pes: de 0 soas de seu convivio, Ao longo da vida, somos permanentemente confrontados com exigéncias, incitagdes € apelos que partem do interior de nosso organismo (instintos, processos biolégicos, pulsdes da realidade em que vivemios ambiente, condiqdes € recursos sociais), ¢ das pessoas que nos cercam (familia, amigos, colegas de trabalho, comunidade). Os complexos mecanismos meta bélicos do corpo, por exemplo ‘exigem o aporte de carboidratos, proteinas ¢ sais minerais, entre outros, que, pormeio da sensacao de fome, mobilizam-nos a buscar alimentos capazes de acalmé-la ¢ de satisfazer cessidades fisicos Historia de vida Diante das ameacas da natureza ou da civilizagao, desde sempre buscamos abrigo. A necessida de sobrevivéncia e de protege ncita formas de organizagao coletiva. Ao mesmo tempo que tentam criar maneiras mais eficientes de produzir recursos, repras de convivencia € leis regulam, mas muitas vezes mm comportamentos € as individuais. iniciati [APSICANALISE, criada por S. Freud, trouxe importante contribuigse acinicio da investigagao psleossomstica: Freud revelou os contitos psiquieos inconscientes cexpressos nas rmanifestacoes histéreas nu mentacerebo.com 8° FUNCAO MATERNA pelicula protetora” que reserva o bebé do ‘2xcess0 de estimiulos, ropiciando seu amadurecimento siquico Para lidar com exigéncias ¢ necessidades como essas, ¢ com ™Muitas outras,o ser humano busca «em principioalcangar os melhores Fecursos possiveis. Seu grau de desenvolvimento, eficiénciae qua- lidade dependem de sua histéria de vida: seu patriménio genético, suas experiéncias infantis, suas condiges materias de vida, suas experiéncias afetivas, relacionais socioculturaisetc. Nesse contexto, modulado pelasrelagdes com seus semelhantes, gradualmente se desenvolvem recursos organicos Comportamentaise psiquices A filogenese revela que, ao longo da evolucao, os seres vivos mais complexos ¢ mais tardios apresentam caracteristicas mold das a partir daquelas presentes em Seres mais simplese primitivos, Na contogénese, desenvolvimento de cada ser humano se inicia através de seu elemento mais essencial 2 reproducéo celular, formando estruturas € fungées de com. Plexidade crescente, Durante a Bestagio, a partir de uma tinica ccélula indiferenciada, formam-se gradativamente os tecidos, os BHO, 05 sistemas vitas,o feto ‘como um todo, Apés 0 nascimen: to, o beb integra de maneira cada vvez mais especifica e diferenciada movimentosefungBes antes desor- ganizados: a convergéncia ocular, coordenagio motora, adiscrimi- naglo auditiva, o reconhecimento © distingio entre seres familiares estranhos, ameméria,aimagina so, © pensamento, a linguagem, entre outros. Apesarde ‘completo’ do ponto devvistabiolbgico, ao nascero bebé um ser imaturo e desamparado, Por si s6 invidvel para a sobrevi véncia. Sua vida e seu crescimento cdependem da presengade outro ser humano, geralmente os pais, que além de satisfazer suas necessida- des vitais(alimentagio, protecao, cuidado), assumem inicialmente funcdes que obebé ainda nao é a az deassumir(reconhecer, disc ‘minar, agit; pensar), protegendo-o de estimulos que ele € incapaz de assimilar de ameacas que ndo pode reconhecer nem evitar Hierarquias e dinamicas Podemos pensar na fungao mater. 1a como uma “pelicula protetora’ pela qual o adulto de certa forma ‘empresta’ ao bebé seus prdprios Tecursos enquanto os da crianga ainda nao puderem se desenvolver. Essa dinamica continua se ‘manifes- tando sob as mais diversas formas Por meio de intimeras pessoas 20 longo de toda a vida © constitui importante paradigma para a fun: 20 terapéutica, € essencial para © amadurecimento € 0 equilibrio da economia Psicassomatica do bebe, para a integracio das fungdes: ‘organicas, motoras e psiquicas. As condig6es promovidas pela funcio ™materna propiciam a criancaa des Coberta ¢ o acompanhamento de Seuspriprios rtmos,a percep3o, a icerpretagdo ea resposta aos con- {atos comporais,asvocalizacBes eos aestosdo bebé, ea organizacio de seus comportamentos ¢ ungoes, Unma vez presentes as minimas Condigbes necessiras, nocontexto das relagics vividas pelo sujeto, as interagbes entre funcdes corporas © pwiauieas constituem onganiza es, estuturas,hierarquias ¢ di ‘némicas cada vez mais complexas, O objetivo da complexifcacio do desenvolvimento humano € res- Ponder aosestimulos slicitagSes intemos ¢ externos e assegurar 0 «quilibrio de vida do sujcito pelas ‘organizagdes e modos de funcio- ‘pamento mais evoluidos, Porém, perturbagdes do desenvolvimento (1 situagdes desonganizadoras do ‘equilibio vital podem impedir a formacio ou autilizagdo de recur. 50s, que se revelam insuficientes para lidar com a intensidade das solicitagdes e com as condigies a ue se encontra submetido, Para aleangar ou recuperar seu equil brio, as interacoes entre corpo ¢ Psique podem responder a essas solictacdes por meio de reacées anacrénicas, primitivas, menos claboradasdo que éou joi capaz Apesar de potencialmente orientar-se para a formacio de funges cada vez mais comple- as, organizadas © hierarquiza das, 0 equilfbrio da economia Psicossomitica & algumas vezes alcangado pelo desencadeamen. t0 de movimentos regressivos e de desorganizagio, mobilizando modos de funcionamento mais Primitivos, Segundo o psicanalsta francés Pierre Marty (1918-1993), © adoecimento, orginico ou psi Quico, pode ser um dos recursos Para a regulagio da homeostase do individuo, de suas relagdes com © meio ¢ com os outros humans. As vias orginica, motora ¢ de pensamento representam nessa ‘ordem uma hierarquia progressiva de recursos aserem utilizadoscom tal finaldade. Os recursos psiqui- cos sio 0 grau economicamente mais elaborado de organizacao € funcionamento, por permitirem que sejam poupados recursos da motricidade ¢ da desorganizaga0 somética, mais primitivos, menos ‘elicientes’ para lidarcom estimu- Jos e contlitos Consideremos, por exemplo, diferentes reacoes diante de uma ddemissdo injusta. Um trabalhador reage escrevendo uma carta de protesto & diregio da empresa buscando negociar com os res ponsiveis porsua demissio. Outro, incapaz dessas atitudes, exprime sua revolta chutando 0 carro do responsivel por recursos humans Um terceio, sem conseguir realizar asaqbesprecedentes, pode acatara decisio emsiléncio, aparentemen- te sem nenhuma contrariedade e, mais tarde, apresentar algum tipo de disfuncao somatica Na vida, muitassituagBes cos- tumam provocar esses tr tipos de reagio, com diferentes conse- aiiéncias em beneficio ou prejuizo do sujeto, De forma esquematica, clas evidenciam trés modalidades hierarquicamente diferentes de onganizagio dos recursos psi cossomiticos para lidar com as cenigencias vitais, Com 05 outros € comarealidade econfltosque de- Jes decorrem. Naturalmente,além da demissio, comum aos trés, 0 segundo trabalhador come 0 rsco de pagar os danos que provocot ao carro do diretor, ¢ 0 terceito pode terum comprometimentode sgravidade varidvel de sua said. Recursos psiquicos Marty destaca a importancia dos recursos psiquicos, por ele de- nominados menializagao, como: reguladores da economia psicos- somatica. A mentalizagao consis teem operacies de representaga0 ¢ simbolizagio através das quais co aparelho psiquico busca regular as energias instintivas € pulsio- nais, lbidinais e agressivas. A fantasia, o devaneio, 0 sonho, & riatividade, os recursos metalé ricos da linguagem sio portanto fungdes essenciais de regulacéo do equilibrio psicossomatico. Falhas durante o desenvolvi mento ou experiéncias de vida desorganizadoras, traumaticas, comprometem a estrutura, 0 funcionamento € 2 disponibili- dade dos recursos psiquicos, de forma duradoura ou temporaria Diante dessas deficéncias ¢ da indisponibilidade dos recursos mais evoluidos si mobilizados recursos mais primitivos, da or- dem da motricidade oumesmo da cexacerbagao de reagdes orgnicas como tentativas para reequilibrar 2 economia psicossomitica Observando pessoas que ten- dem a reagit 20s confltosinternos cextemosatraves de manifestacoes somaticas, Joyce McDougall relata ‘que muitas delas se revelam supe- radaptacis’realidade e mesmo 3s dificuldades de sia existencia, Em seu comportamento, 38 pessoas sio freqiientemente impelidas 3 acdo em vez de lidar com os contltos pela elaboracio psiqui ca, solicitando permanentemente dos objetos do mundo exterior a realizacio de fungdes que deve- O processo terapéutico nao deve apenas eliminar 0 que incomoda o paciente, mas se debrugar sobre a hist6ria de vida que gerou conflitos ENFRENTAR FRUSTRACOES como tuma demissio, por cexemplo, pode causar repercussdes somaticas vwoumentecereecombr 11 de uma experiéncia 0 €inerente apenas 3 natureza do acontecimento (como a perda de tum ente querido), ‘mas dependente das intensidades afetivas ‘mobilizadas pelo fato, em conjungao com 05 recursos de que 0 individuo dispoe Tiam ser asseguradas por objetos interns simbélicos ausentes ou comprometidos. Muitos dos pa. Gentes que apresentam esse tipo cde comportamento procuram seus médicos completamente alienados de outros solrimentos que ndo os orporais. Por seu caréter con ‘reto, real © urgente, os sintomas orginicos capturam o médico e o Paciente numa visio limitada da Vida e da doenca deste A impossbilidade do desen- volvimento dos recursos mais evoluidos da economia psicosso- mética oa desorganizac3o desses ecursos em situagdes criticas de vida podem tornar uma pessoa vulnerdvel as afecgdes sométi- cas, a Comportamentos de risco como adigdes, atos impulsivos e acidentes. As trés vias possiveis Para lidarcom as olictagBes vitais ¢ do ambiente — orgénica, motora ede pensamento—sio também os caminhos potenciais da doenga iindividuo bem organizado no plano psfquico poderé apre- ‘sentar, em decorréncia de uma situagio conflitual, manifestacées Psicopatolégicas, da ordem das Neuroses ou das psicoses, de in- tensidade © duragio variaveis, gcralmente sem maiores riscos de desorganizagées comportamentais (4 somiticas. A pessoa com falas estruturais ou agudas das funces Psiquicas pode tentar encontrar, através da motricidade ou das vias onganicas, as vias de descarga e de organizagao da excitagio ¢ dos conflitos vividos por nio dispor de recursos mentaissonhos, fantasias, mecanismos de defesa psiquicos) para lidar com essas experiéncias, Observa-se entio a manifestagao de descargas pelo comportamen- to (impulsividade, toxicomanias, transtornos de cardter), ou ainda, como tiltimo recurso, 0 apare: cimento de perturbagées, sinto- matologias ¢ doencas sométicas. E importante considerar que, apesar de seu caréter mais primitivo eedesviante, toda doenga—mental comportamental ou somética — é ainda uma tentativa do humano de alcangar um equilibrio, A gra vidade dessa doenga depende da qualidade dos recursos do sujeito para enfrentar tensdes e conflitos ‘mas também da intensidade e da dluragdo destes. A manutengo do ‘equilfbrio psicossomético em pa ‘amares mais primitives dependers dla duracio da tensio e da capaci dade do organismo de reorganizar. se para responder de maneira mais claborada a tais situagies Assim, evidencia-se que o card ter traumatic de uma experiéncia no € inerente & natureza de um acontecimento (a perda de um ente querido ou uma frustracéo, Por exemplo), mas depende da Cconjungio das intensidades aeti- vas mobilizadas por tai aconteci mmentos com os recursos dos quais dlisp6e o individuo para lidar com eles. Ou seja, algumas pessoas fragilizadas do ponto de vista da {economia psicossomtica podem ficar bastante perurbadas diante ddeacontecimentos de intensidade leve ou moderada (frustracio por uma derrota esportiva) enquanto ‘outras, mais bem estruturadas, ‘conseguem preservar sua organi. zagio ¢ lidar de forma satisfatoria com acontecimentos intensos (como a morte de um préximo). E evidente, portanto, a impor. tancia e 0 interesse para todos 0s profisionais da saide, e para ‘© médico em particular, de am- pliar seus recursos diagndsticos € terapéuticos de forma a incluir a ‘compreensio da economia psicos- somtica do paciente, A avaliagao dos elementos cinicos, anatomo- fisiopatol6gicos, bioquimicos ¢ radiolégicos geralmente utilizados ara o diagndstico e para acompa nhara evolugéo dopaciente éeni quecida quando se consideram os recursos deste para lidar com suas situagGes de vida, com os confltos 4 ela inerentes e com a prépria doenga, No plano terapéutico 5 tratamentos médicos podem ser potencializados por técnicas ue enriquecem e promovem os recursos da economia psicosso- ‘mitica para propiciat 20 paciente © funcionamento segundo niveis mais evoluidos. Varios autores apontam que ainda é grande a dificuldade dos médicos de diagnosticar ¢ tratar a pluralidade ea heterogencidade de manitestagdes dos fendmenos de somatizagéo, bem como de reconhecer 0 sofrimento psiquico (como depressao e ansiedade) sub- Jacente sintomatologia orgénica Essasdificuldades sio perturbado. ras para 0 paciente, provocando efeitos negativos na relacdo tera- péutica € no tratamento, sendo também responsaveis pelo excesso de procedimentos médicos e pela insatisfag3o com o médico € com co servigo de sade eenfoque quase exclusive na queixa somitica faz com que as dificuldades diagnésticas ou a impossibilidade de descobrir as cauisas orginicas de tais queixas seam ansiGgenas para o paciente muitas vezes sem que 0 médico consiga lidar com elas. O conhe- ‘cimento das dinamicas subjacentes 2 economia psicossomatica pode ser um meio de superar grande parte dessas dificuldades e suas conseqiiéncias, diminuindo as consultas € os procedimentos desnecessdrios, com seuseventuais cleitosiatrogénicos “Também no imbito psicotera péuticoé fundamental perceber¢ lidar com os efeitos das desorgani zagbes e das manifestagbes corpo: rais do sofrimento. Hi momentos em que a palavra, a interpretagio a transferéncia chegam a seus limites, e € através de atuagdes € expresses corporais que 0 pa: Gente ainda tenta comunicar-se como terapeuta. Ele éconvocado ao encontro do paciente nos terre- ‘nos mais primitivos da existéncia deste, que muitas vezes se coloca em isco através de adigies, atuagdes impulsivas ou mesmo doencas graves Ao compreender a fungio dessas manifestagGes no momen- to vivido por quem 0 procura 6 psicoterapeuta pode ajudar a promover no paciente seus me- Ihores modos de funcionamento com relacio 20s recursos que The sio imediatamente dispontveis. horizonte terapéutico visa propiciar a evolucdo e o enrique: cimento dessas capacidades e, em especial, dos recursos psiquicos € representativos, através de um trabalho de figuracio, de criagSo ¢ instalagio do espago onitico © Vidico. A descrigdo da instauracao doespaco potencial eda constitu cdo dos objetost por Winnicott 4 compreensio dos movimentos fundamentais dessa verdadeira clinica das desorganizagoes. Percebemos, portanto, a im. ansicionais,feita pertine para portincia de consideray, na clinica € no tratamento, a histéria do deserwolvimento do paciente que lagio perma ios, psiqui cos € 0 meio ambiente, meciados pela qualidade da presena de seus semelhantes, E nesse contexto que se organiza a eco evidencia 2 inte nente de fatores or cossomitica que, no processo de vida, pode em alguns momentos encontrar seu equilibrio tanto em condicdes saudaveis como em processos patolégicos. Assaide, osintoma ea doenga sao manifestagdes que resultam de um jogo complexo de forgas quase sempre desconhecidas do individuo. Diante do sofrimento, paciente e terapeuta devem nao apenas eliming-lo mas compre- ender a hist6ria da qual ele se constituiu, Nao se trata apenas de tentar atribuir um sentido a essa historia, Trata-se, sobretu: de propiciar 20 paciente um acolhimento € uma escuta que, simultaneamente aos procedimen: tos necessarios ao tratamento € & ccura das manifestagdes somaticas de uma doenga, possam também promover o desenvolvimento de recursos que Ihe permitam lidar ‘com conflitos ¢ impasses da vida com menos riscos & integridade fsica €& propria existéncia. Através dessa funio terapéutica, esperamos também que essa pessoa que sofre cconsiga realizar-e através de modos de vida mais atisfatorios, mee IMAGENS ONIRICAS: Tkénia e Oberon (1793-4), 6leo sobre tela de Henry Fuse, ‘@sonho é uma das fungBes essencials, para regulacso do equillrio prlcossomatico BI As psiconeuroses de defesa. Sigmund Freud. Edigo standard brasileira das Obras psicol6gicas completa de Sigmund Freud (5.8, I Imago, 1981 ‘Anova crianga dda desordem psicossomética. L kresler. Casa do Psicélogo, 1999. ‘A psicossomética do ‘adulto. P. Marty. Artes Médicas, 1994. A dlinica dos farrapos, por uma nica psicanalitica das desorganizacoes. R.Volich, em Percurso, 1°24, pigs. 85-58, Janeiro de 2005. vwovwmentecerbrocembr 13 ME cestuaupave “4 Mensagens sutis ovimento, atitude e postura corporal M sempre comunicam alguma mensagem. O corpo se expressa quando estamos em pé ‘ou sentados, se falamos ou simplesmente ouvimos. E poucas vezes mente Diferentemente da fala a linguagem involunté- ria do corpo nio recorre ironia ou &dissimulacao. Transmite a verdade nua ¢ crua por meio de sinais ue revelam pistas¢ impresses sobre personalidade € desejos. Lim movimento feminino comum, que pode por intengdes & mostra, € jogar os cabelos para tris. Homens fazem esse gesto mais raramente Na maioria das vezes ocorre de forma involuntéria € justamente por isso € tdo revelador: se a mulher sorri ~ e principalmente se inclina ligeiramente a cabeca -sinalizainteresse pelo interlocutor. Como mostrou o etologista Karl Grammer, do Instituto Ludwig Boltzmann de Etologia Urbana, na Austria aso se mantenha séria, as chances de o parceiro estabelecer um relacionamento amoroso com ela provavelmente no sio boas. Atualmente, muitos pesquisadores consideram que tais movimentos fisicos, especialmente gestos, so mais que meros acessérios para a comunicacio. Ainda assim, sio pouco investigados, Desde os anos 90, gragas a diversos trabalhos como o do psicolin: aliista americano David McNeill, da Universidade de Chicago, muitos estudos mostraram como 0 corpo influencia, enfatiza, atenua ou até mesmo veta de- isivamente aquilo que alguém quer transmitit com palavras. Para o pesquisador, “os gestos sao janelas do pensamento’ Segundo McNeill, gestualidade e fala com. Gem uma unidade insepardvel ¢ tém por base um MENTEECEREBRO + ESECIA CORPO TRC roe Ron ole teeter foi menosprezada pelos estudiosos. Hoje se sabe que um tnico aceno [rere RU Taunt me (ocr MI Clarecorand einer ne oe Toney POR VOLTA de 1 ano acrianca aprende a apontar objetos com ‘um unico dedo A linguagem _ processo cognitive. Ele recorre a um exemplo do cotidiano para embasar sua hipétese: a gestual é controlada — maioria das pessoas tem muita responsaveis 16 i dificuldade de se comunicar PSE BIAS oar (igo ltcmpe sem recorres cerebrais is mios. Quando explicamos algo, a acao aparece, na maio: ria das vezes, acompanhando também a linguagem verbalizada. ‘E pela fala Pose! transmits com gests informacdes para as quais fra cassa a linguagem sonora’, diz a pesquisadora gestual Cornelia Miller, da Universidade Livre de Berlim (oer entrevista na pig 18). Com as maos descrevemos relacoes espaciais complexas, percursos ou formas, Podemos dlesenhar no ar mapas inteiros ou cesquematizar com gestos um pas seio a um jardim zoolégico, por ‘exemplo, evocando tais mapas: “A dircita, mais atrés, esto os macacos, € a esquerda, & frente, as zebras". Quem nio gesticula tira de si mesmo um importante ‘canal de informacio. MENTUCERERRO + ESPECAL CORPO A relacao inequivoca entre gesto e fala & corroborada por Pesquisas acerca dos distirbios da comunicagio. A gestualida- de que acompanha a lingua gem verbal nao é prejudicada apenas por lesdes cerebrais que paralisam membros. Essa forma de comunicagdo pode ser comprometida nos casos de afasias (perda da capacidade de falar ou de compreender 0 que € dito). Portanto, a linguagem gestual é controlada por areas cerebrais responséveis também pela fala Sons © movimentos apare- ccem interligados néo s6 quando se deseja transmitir uma mensa- ‘gem, mas no momento de captar © que 0 outto tenta comunicar. Em 2004, os neurocientistas Spencer Kelly, Corinne Kravitz ¢ Michael Hopkins, da Univer- sidade Colgate, em Hamilton, Nova York, mostraram que gesto ¢ palavra sao interpretados simul- taneamente pelo cérebro, Além disso, encontraram confirmagdes de que 0 ouvinte compreende imediatamente a linguagem do corpo de seu interlocutor, mes- mo que nem sempre essa percep- 80 seja consciente, Por muito tempo, porém, isso foi mostrado apenas indiretamente, quando Participantes voluntérios de estu- dos eram questionados sobre as informagoes apreendidas de uma ‘manifestacio gestual O grupo da Colgate exami- ‘noua contribuigdo semintica de sgestos coma ajuda de potenciais relacionados a eventos (ERP, da sigla em inglés) — respostas letrofisiolégicas especificas a estimulos internos ou externos Esses sinais coordenam etapas de processamento neural em de- terminadas regides do cérebro, 0 que pode ser visto no tracadoele- troencefalogréfico (EEG). Apds aproximadamente 400 milésimos de segundo aparece a oscilagio ‘maxima negativa, a chamada N400. 0 fenémeno ocorre, pot exemplo, quando ouvimos uma frase como ‘Ele passou meias no pio" — e tropecamos na palavra ‘meia’, um estimulo inadequado e inesperado no contexto Sinais contrarios No experimento, voluntérios assistiram a um video com situ agées tipicas de conversa: um ator dizia uma palavra e indica- va, a0 mesmo tempo, qualidades de um objeto com um gesto. O. movimento de mao podia se adequar semanticamente a0 que cera dito quando, por exemplo, a palavra “grande” era expressa ¢ indicava a dimensio de uma vi- draca. Em outra situacao 0 gesto fornecia informacies adicio- ras, que nem sempre pareciam combinar de imediato com 0 primeiro dado apresentado; para ‘grande’ os dedos faziam mo: vimento que significava "fino Outra cena contraditéria ligava 2 palavra “grande’ a um sinal correspondente a "pequeno”. As vezes, 0 ator nao gesticulava, usava apenas palavras para trans- iti 0 conceit. De cada situacio resultaram diferentes"respostas’ no eletroen- cefalograma (EEG); nas contradi- ges semanticas entre fala e gesto os pesquisadores constataram fortes estimulos negativos, ou seja, um efeito N400. De onde 0 grupo conclui que o significado do movimento € incluido na interpretacio da palavra O resultado ¢ apoiado pelo fato de que os ERPs em situagao de controle nfo apontam nega- tividade compardvel. No pro- cessamento precoce as curvas do tracado também se diferenciam seo movimento de mao combina coma palavra, sea complementa fou até mesmo se a contradiz. ‘Gestos nao so simplesmente tum aceno insignificante, eucon tetido seméntico contribui para ‘o processamento de significadas de palavras, diz Kelly E possivel fazer algumas suposigbes a respeito da origem dessa estreita conexdo entre ges- tual e fala, A base dessa ligacdo reside possivelmente nas origens da propria aquisigao da lingua gem verbal, j4 que primatas ossuem um rico repertério de estos, Filhotes de chimpanzés, por exemplo, se dirigem a mae com um sinal tipico, estendendo- Ihe a mio aberta Estudiosos acreditam que no homem, o gesto pode ter precedido a fala. O pesquisador Uwe Jurgens, coordenador do departamento de neurobiologia no Centro Alemao de Primatas, em Gottingen, compartilha com alguns colegas a opinido de que 0 homem desenvolve primeiramen te "gestos vocais’, ou seja, sons pouco sofisticados, empregados de forma similara movimentos de mio oua caretas, como unidades sigoificantes simples Um desenvolvimento comum dda comunicagio sonora e gestual pode ser observado mas criangas. Entre 9 ¢ 12 meses 0 bebé usa estos, Porvoltade 1 ano, estende a mio aberta com todos os dedos = como os chimpanzés quando pedem comida ~ em diregio 20 objeto desejado. Em torno do 112 més as meninas—cum pouco mais tarde 0s meninos ~ iniciam um processo de amadurecimento neu- ral por meio do qual io capazes de estender a mio ndo mais com todos os dedos, mas apenas um. O gesto de alcancar 0 “objeto do desejo” com as mios estendidas passaa sera expresso clara da in tengdo de se dirigira outra pessoa —€ nao necessariamente de pedir ‘gua, alimento ou brinquedo A primeira ordenagio de sim: bolos da fala comega no ho: mem com gestos de apontar algo aqui’, “au-au’, “quet’), embora muitas vezes fracasse a nitidez de articulagao da palavra. Entre 9 € 14 meses desenvolve-se um vocabulério diferenciado, € 0 controle motor dos dedos toma-se ‘mais preciso, masa palavrafalada ainda sucede o gesto, Por volta dos 17 meses, paralelamente a0 desenvolvimento do repertério de palavras, surgem finalmente combinacées sincronizadas de movimentose verbalizagies. Com a.acGo de mostrar comega o dese volvimento de uma expressio ¢s- treitamente relacionada fala, Essa forma nos possibilita, mais tarde ‘epresentar” com bragos € m0 0 formato de objetos ¢ sua posicio no espaco, descricdes complicadas de caminhos ¢ até mesmo 0 abs trato € 0 metatérico FILHOTES de primatas dirigem as maos para ‘amae em busca de alimento eatencio 1B OS ITALIANOS, tendem aunira falaamovimentos expressivos com ‘as mos, como na ‘ena de 0 ouro de ‘Népoles filme de Vittorio de Sica, ‘om Lionella Carell, (Tots, 1954 Balancando o impulso A linguiista Cornelia Maller, da Universidade Livre de Berlim, pesquisa a importancia dos estos na comunicasao. Na entrevista abaixo, questiona alguns preconceitos. Mente&Cérebro: Europeus do sul (italianos, por exemplo) gesticulam realmente mais que pessoas de outras regides? Cornelia Maller: £ opiniao comum, mas em- piricamente nao est provada. Numa pesquisa comparativa entre espanhéis e alemaes nao pude constatar que os germanicos utilizam ‘menos gestos. Mas ¢ inegavel que gesticulam de ‘outra forma, partindo do pulso. Espanhéis usam ‘ombros e cotovelos mais freqientemente, isto seus movimentos sao mais amplos e visivels. Isso talvez despertasse a impressdo de que eles ‘usam os gestos com maior freqiiéncia. MBC: Por que a pesquisa dos gestos foi negli- genciada por tanto tempo? Maller: Nos anos 70 muitos pesquisadores tinham a conviego de que a linguagem do corpo e a mimica tinham a ver s6 com emogées ‘© com as relacdes que as pessoas constroem ‘entre si. No plano semantico, a comunicacao verbal parecia ser a Gnica responsavel pelos significados. Por isso muitos linguistas e psic6- logos nao perceberam que os gestos podem ‘mais que expressar apenas sentimentos. MBC: 0 queos gestos dizem e as palavras nao? Miller: Um nico gesto € capaz de trans- mitir muitas informacdes ao mesmo tempo. A linguagem sonora precisa ordenar mais palavras. Se estendo minha mao com a palma da mao para cima, posso enviar a mensagem: “Isto esté claro para vocé?”. Um movimento breve pode significar duracéo, entdo enfatizo um perfodo de tempo e nao um momento isolado. M&C: Gestos, portanto, nao sio responsaveis pela empatia? Maller: Certo. é um equivoco atribuir a uma pessoa um “emocionalismo” exacerbado s6 porque ela gesticula muito. M&C: Mas em treinamentos para oradores € comum que se tente atenuar 0 habito que a pessoa tem de gesticular. Miller: Desde o retérico romano Quintilianoa gesticulacdo excessiva € vista como expresso de um fraco dominio da linguagem falada. Muitos concluem que quanto menos gestos, melhor. Mas 0s oradores profissionais sabem ‘quo poderoso pode ser um movimento bem colocado. E muito mais inteligente usar a Jinguagem do corpo como canal adicional de informacao do que reprimi-ta. Cornelia Miller & co-fundadora da revista Gesturee do Centro Berlinense de Pesquisa do Gesto (wwm.berlingesturecenter de). Uma vez amadurecida essa ‘capacidade, os gestos que acom- panham as palavras oferecem aos Pesquisadores a possbilidade de observar as pessoas enquanto pensam e falam. No estudo de Comelia Maller, uma voluntéria diz:'Nos ourigamos bem em nossa relagdo”, formiando uma bola com as duas maos. Ela representou mentalmente algo estico, refe rindo-se a uma forma similar 8 do ‘ourigo—algo que a linguagem so- nora nio revela imediatamente, Varrer 0 lixo ‘Como ha muitas variagdes des. ses gestos acompanhantes da fala, David McNeill, em seu influente livro Hand and mind, what gestures reveal about thought (Mio € mente: 0 que gestos revelam sobre pensamentos), de 1992, distinguiu quatro tipos bisicos de estos: dicticos, icénicos, meta. f6ricos e “beats’.E facil reconhe- er esses tltimos movimentos a0 observar poltticosnas campanhas eleitorais. E, em geral, aparecem estreitamenteligadosao ritmo da fala; golpes de braco ou batidas de mao conferem uma estrutura temporal ao que € dito ¢ enfa: tizam a "forga combativa’ do argumento, independentemente do conterido expressado. estos dicticos acompanham palavras como ‘aqui’, ‘lé” ow isto’, e também “eu’ “voce Por meio deles mostra-se algo concreto “este piozinho” — ou abstrato (“nesse caso”). Quem diz ‘cu’ freqdentemente aponta a mio levemente aberta para © proprio peito. Quando faz 0 ‘mesmo movimento ~ sem que a Palavra ‘eu seja pronunciada -, supde-se que a pessoa se refere asi mesma, Gestos icénicos expressam representagdes figuradas, re feréncia espacial ou aconteci mento. Surgem, por exemplo, quando alguém conta. "Marina tirou a sujeira da sala ¢, si multaneamente, gesticula como se movimentasse uma vassoura imaginéria. O movimento pode oferecer informagées comple- mentares, representando mais detalhadamente como o lixo foi recolhido do chao ~ e até s¢ foi varrido pela esquerda ou pela direita J4 os metaféricos se parecem exteriormente com 0s icénicos (como que acompanhou a palavra ‘ourigar", no exemplo anterior), mas se referem a expresses abstratas. Quando se diz “outro tema..”, muitas vezes um objeto invisivel € delimitado com as maos semi abertas, Nesses casos, a idéia se torna “palpavel" & medida que a Pessoa se refere espacialmente a cla. E se continua a dizer: primeiramente, vamos colocé-lo de lado”, 0 tema exposto é real mente “empurrado” para o lado com um movimento das mics, EM DIFERENTES. épocas e sociedades politicos costumam mmarcaro ritmo do discurso com as maos para enfatizar um argumento Oradores profissionais sabem quao poderoso é um movimento bem colocado. E muito mais inteligente usar a linguagem do corpo do que reprimi-la vwwnsmentecereyocombr 19) A mistura de simbolos pré- verbais e as representagoes imagéticas compoem © ponto de partida para que as idéias sejam expressas IMiMICAS india 0 Formato dos objetos ‘sua localizacao ‘no espago Tanto os gestos icénicos quanto os metaféricos podem apresentar significados con- vencionais. Pense na méo que limpa o suor imagindrio da testa ‘coma lateral do dedo indicador. "Como foi cansativor’. A maior parte das pessoas do nosso circulo cultural compreende a mimica, Tomando por base 0 cotidiano na cidade de Berlim ‘0 especialista em semiologia Roland Posner coordenow a organizagio do Lexico berinense dos gests. Ele procurou mostrar que € possivel reconstituir como surgem os gestos. O pesquisador cita um exemplo: balangamos a mao como se estivéssemos nos queimado numa chapa do fogio, procurando resfriéla com o ar, para transmitir a mensagem de ‘que estamos lidando com um assunto delicado, que quase dew cerrado. Com isso utiliza-se meta foricamente um movimento que se origina do contexto cotidiano, acozinha, O gestual convencio: nal funciona sem palavras. Assim como o colega David McNeill, Adam Kendom, que 20 senreactsano + esPecia. COMPO leciona na Universidade da Pen- silvania ¢ na Universidade de Napoles, j6 supunha no inicio ddos anos 80 que gestos e pala- ‘ras poderiam surgir das mesmas idéias, De acordo com Kendom, movimentos que acompanham a verbalizagio sio apresentados poucos segundos antes ou no maximo a0 mesmo tempo que uma palavta ou frase de referencia pronunciada—como bater com a ponta do dedo na testa para fazer alusio a uma idéia original. Se o lixo € varrido ou um tema € deixado de lado, sao oferecidas também a0 mesmo tempo indi cagies verbais evisuais, Maos em movimento Segundo a teoria formulada por McNeill, existe uma fonte men taltinica responsvel pela produ- gio de fala e gesto. A mistura de simbolos pré-verbais e as repre: sentagdes imagéticas compaem © ponto de partida para que as idéias sejam expressas. Para 0 pesquisador, haveria uma espécie de ‘grio do qual se desenvolvem palavras ou frases, por um lado, «¢ movimentos significativos de mio, por outro. As familias lingtiisticas se distinguem na forma como divi dem determinados componentes semanticos sonoros € gestuais. Nas linguas de origem latina, como portugues € espanhol, 0 movimento indica a agio. Na frase “ele escala a montanha’, 0 gesto geralmente mostra o ato de scalar. Nas linguas germanicas, como alemio ¢ inglés, as maos sao mais usadas para designar ‘0 substantivo ~ nese aso, a palavra "montanha "As Kings se diferenciam ni- tidamente em relagao astunidades de informagio de fala © gesto", diz David McNeill. Sua orien- tanda Gale Stam, que pesquisa a assimilacio de uma segunda lingua, utiliza essa observagio para constatar se um espanhol ‘que aprende inglés passa a pensar ccom base também no segundo idioma. Enequanto.o akuno enfatiza ccom gesto a palavra inglesa climb (escalar), internamente ainda ‘a traduz do espanhol para 0 inglés. Se o movimento aparece na preposigao through (através! isso faz supor que a transigao para 0 pensamento em inglés ja se realizou. Ela provavelmente ‘esta em "montanha’ (O estreito entrelagamento de lingua, pensamento ¢ gesto chamou a atencao de pesquisa- dores que por muito tempo se preocuparam com a produgao apenas sonora da lingua. Um modelo importante nessa érea foi apresentado por Willem Le- velt, do Instituto Max Planck de Psicolingiiistica, em Nijmegen, Holanda, Segundo ele, 0 cére ‘bro elabora a inguagem em trés riveis. Num primero momento, ‘0 que ser dito € organizado como informagao puramente pré-lingiistica (conceito ainda sem formulagao). No passo se- guinte, num desdobramento do processo interno, que ocorre em fragdes de segundo, sio encon. tradas palavras e formadas frases para designar o que se pretende cexpressar. S6 na terceira fase & acionado o aparelho de articu- lagio que produz, através dos pulmdes € cordas vocais, a fala Rascunho e robés Jan-Peter de Ruiter, aluno de Levelt, estudou 0 modelo e en caixou nele 0 gestual. Ele supde que no primeiro nivel (concei tualizador) j4 surge uma etapa preliminar imagética para gestos: 0 cérebro “desenha” rascunhos de movimentos. No segundo ppasso 0 esbogo toma-se um pro jeto de como gesticular, que no terceiro momento € repassado ACAO de mostrar esté assoclada ao desenvolvimento da linguagem verbal aos programas motores. Estes levam maos e bracos a agit. quando alguém aponta para um na Universidade de Bielefeld Com tal modelo seria pos: ponto muito alto ~ provoca 0 criou Max, um robé virtual sivel explicar por que 0s gestos _adiamento da fala paralela cor. que entende e produz gestos muitas vezesse manifestamantes _respondentea ele. A adequago que acompanham palavras. Ele da fala correspondente, Para nosentido contrario, do gestoa —_sabe olhar para uma pessoa que uma expressao como “o martelo fala, fica mais clara quando uma _—_aponta para um objeto virtual e usado para colocar 0 prego na pessoa testada se engana ¢ titu- Ihe diz: ‘Monte o componente parede’, o movimento de mio beia, Nesse caso, 0 movimento ali atrés', Quem se comunica poderia descrever primeiro a jd preparado parece ‘esperar’ até com Max pode fazé-lo de forma ferramenta ou o prego € depois que a fala flua novamente. natural. E também aqui se vé a agio de pregar, ou os dois Quem realmente quer en- como a linguagem do corpo € concomitantemente, Mas nio tender a comunicagio falada _pratica e dbvia. Com sua ajuda, existe uma expressio corporal precisa investigar como 0 corpo evitam-se equivocos: quando para “martelo-para-colocar-pre- se expressa. Por isso os estudio digo “esquerda’ a Max, para faci go-na-parede sos de robstica se interessam _litar posso apontar para a direcao De Ruiter pesquisou mais pela expresso nao-verbal, pois 3 qual me refiro, partindo do detalhadamente a suposta rela- _querem construir parceiros que meu ponto de vista, O robd en em, gies indicativas ("isto aqui!"). pessoas. A idéia do Léxico erlinnse Ou seja, funciona de modo tao Ele anotou didlogos em que se dos gesios surgitr quando técnicos multimodal quanto n6s, ao inter contavam hist6rias € confirmou em informatica da Universidade _pretar ou produzir frases e gestos TS que certamente a fala se adapta Técnicade Berlim perguntarama a0 mesmo tempo. Isso simpliica Gio de fala e gesto por meio de paregam verdadeiros para as tende de imediato a mens ao gesto, mas também que o Roland Posner como as pessoas a comunicag3o enormemente, Someta? contrario ocorte. O pesquisa gesticulam=a fim deensinaressa De qualquer forma, ainda vai perPaneyneae® dor observou que um "percurso habilidade aos seres artficiais. _demorar para mandarmos Max Knapp e judith A Hall, de gesto” muito longo ~ como Nosso grupo de trabalho _paquerar no bistr. mes SN, 1999. vevonerentecerebrocombe 21 ExpRESSAO FACIAL Ii da. mentira expresso de um rosto muitas vezes dispensa Peete cae ene cert Ak egies, ek os % Fs cifrar expresses faciais um dos exercicios Sele el sgetine mais corriqueiros do ser humano, tanto que quase eer eeu oct scupmeg ingen: sem perecber: A convenes yacl deixadas pelos mentirosos seria impensével sem essa habilidade. Hi mais de quatro décadas o psicélogo americano Paul Ekman, da Universidade da Cali 6mnia de S30 Francisco, se ‘ocupa do estudo da mimica facial humana. Aos73 anos © aposentado hé cerca de trés, ele continua ajudando especialistas da CIA no combate ao terrorismo, Mas é bastante consciente dos limites de seus métodos: ‘Oferego apenas uma ferramenta descritiva Sob as fartas sobrancelhas, seus olhos observam, arentamente cada franzir de minha testa, cada movimento dos meus labios. 'O senhor pode ler pensamentos?’, pergunto. "Nao, posso no maximo perceber como voce esté se sentindo, mas n3o 0 que a: “O medo se manifesta sempre da mesma forma, no importa se cesta pensando.” E explica a difereng vocé teme que suas mentiras sejam descobertas ou que no acreditem em suas verdades’ Em situacdes com essa, pode ocorrer 0 que Ekman chama de “equivoco de Otelo’. No drama de Wiliam Shakespeare, 0 protagonista interpreta ‘omedo no semblante de Desdémona como sinal de traigio, ¢a mata bascado na percepgio equivocada Ekman quer ajudar a evitar enganos semelhantes por parte de agentes secretos. ‘Prender um culpado é bom, mas € igualmente importante diminuir 0 riimero de pessoas postas sob suspeitainjustamente’ ressalta Quando ele estudava psicologia na Univers dade de Chicago, nos anos 50, as emogoes eram vwomumentecersbrocombr 23 24 EM 1872 Charles Darwin postulou um repertorio universal de sentimentos humanos ene Como identi consideradas uma érea marginal da pesquisa cientifica, Muitos académicos acreditavam que 0 mundo das emogdes era pouco acessivel ao conhecimento cien- tfico ~ ou, pelo menos, no tio interessante quanto, por exemplo, cos mecanismos da aprendizagem, do pensamento ou das motiva bes. Maso jovem Ekman decidia se concentrar, desde o inicio, nos enigmas da comunicacdo io-verbal. Queria entender por que algumas pessoas decifram facilmente os sentimentos de seu interlocutor enquanto outras caem em qualquer armadilha Na época, considerava-se que © comportamento mimico humano era resultado de apren dizado cultural. Pesquisadores io pareciam interessados no repert6rio universal de expressdo dos sentimentos, j4 postulado por Charles Darwin (1809-1882) icar deslizes sutis no livro A expresso d homens e dos animais, de 187. Ekman, porém, preferiu tomar diregio contréria & do pensa- ‘mento cientifico vigente e viajou para o Brasil com uma colegio de fotografias na bagagem. Eram retratos de americanos brancos expressando sete emogdes: ale ari, tristeza, ira, medo, surpresa, nojo e desprezo, Moradores da regio amazénica identificaram facilmente os sentimentos expres sos pelos fotografados. Ekman repetiu a experiéncia em outras expedigdes, Chile, Argentina, Japio ~ onde quer que fosse, as pessoas manifestavam tristeza ira cou alegria com as mesmas mimi: ceasusadas pelas pessoas das fotos Uma das possibilidades cogitadas pelo psicélogo era de os entre vistados terem se inspirado em expressées faciais apresentadas cm filmes ou revistas. | esticar o misculo da pélpebra acompanha todo sorriso verdadeiro. Labios narinas contraidos (e), ao contrério, mostram ojo. Com mais oito movimentos - dos mus- ‘culos da testa (a), das sobrancelhas (b), da regido ao redor dos olhos (¢), dos cantos da boca (P, dos cantos abaixo da boca (9), dos labios (h), da drea abaixo do labio inferior (?) e do queixo j)~0 virtual Max, desenvolvido © Sistema de codificaséo de agéo facial (Facs), desenvolvido nos anos 70 por Paul Ekman € pelo pesquisador Wallace Friesen, é um método para descrever mimicas de contetido | emocional. além dos aspectos neurais das re- ages afetivas a um estimulo, tedo sentimen- to envolve uma mimica. A contracao de mis- culos faciais é definida pelo Facs por meio de ‘mindsculas unidades de movimento. Assim, ita (d) por Ipke Wachsmuth, da Universidade de c Bielefeld, Alemanha, apresenta mimicas de sentimentos muito convincentes. Para tirar a diivida, ele foi a Papua Nova Guiné, em 1967, «em busca de populacoes isola das. E novamente comprovou que as sete emocaes bisicas selecionadas faziam parte de um repertorio universal. Isso indica- vva que 2 linguagem facial tem origem biolégica ¢ independe de fatores culturais Os resultados suscitaram novas perguntas: de quantas expressies faciais 0 ser humano dispde para se comunicar? Que significa determinada expresso? E possivel treinar a leitura de emogoes? Ekman queria produ: zir uma espécie de dicionario universal da mimica facial Em parceria com 0 pesqui sador Wallace Friesen, Ekman levou seis anos para produzir © Sistena de codificagto de agio facial (Facs, na sigla em inglés publicado em 1978. Além de descrever € classificar cada ex: pressio facial, o sistema permite combinagaes entre 43 grupos de iiisculos bésicos da face, o que resulta em 10 mil possibilidades Todas foram catalogadas com os nomes latinos dos miiscu- los envolvidos ¢, em alguns 2505, com a identificagio da emogao correspondente, por exemplo. “Frontalis, pars medial, 1. Levantar a parte interna das sobrancelhas: tristeza’. Lima das. limitagdes do sistema, entre- tanto, esté no fato de algumas combinagoes musculares nao rem significado Houve uma descoberta sur preendente depois que o préprio Ekman tentou simular, enquan. to trabalhava no laboratorio, expressdes convincentes de tristeza, mantendo-as pelo maior tempo possivel. A noite, sentia- se emocionalmente esgotado. Quando, a0 contrrio, procurava sorrir mais que usual, seu hu- mor melhorava. “Foi uma ilumi- nagao’, lembra-se. No entanto, isso contradizia a idéia segundo a qual os sentimentos surgem na psique e 0 papel do compo é simplesmente comunica-los, Tensao muscular Ekman ¢ Friesen mostraram que a tensio de certos miisculos da face nao provoca apenas alte ragdes na pressao arterial e no batimento cardiaco, mas pode desencadear emocdes. Portanto, parece haver alguma relacio entre a musculatura facial € 0s mecanismos cerebrais responsé. veis pelos sentimentos Na década de 80, uma provo: cacao comum dos psiquiatras aos pesquisadores da mimica era se como eles poderiam detectara mentira no rosto dos pacientes, Um dia Ekman lembrou-se de uum video antigo de uma paciente € percebeu uma oportunidade para usar 0 Facsna prética, Anos antes, ele filmara uma mulher, identificada como Mary, interna- da numa clinica psiquidtrica. Ela ‘estava aparentemente recuperada de uma grave crise de depressio. ¢ havia pedido ao médico que a liberasse para passar o fim de semana em casa, Felizmente seu desejo nao foi atendido, pois Mary admitiu mais tarde que pretendia aproveitar a ocasido para suicidar-se, Segundo sua hipstese, se a mimica facial de fato denuncias Se 0s sentimentos, aintengio de Mary deveria ter sido revelada naquele video, Ele o viu muitas vezes, até mesmo em camera lemta, para nao perder nenhum detalhe. De repente flagrou uma expressio de desespero escapar do rosto da paciente no meio de uma frase, Essas micro- expresses, que muitas vezes nao duram nem um quinto de segundo eram a chave procurada pelo pesquisador O controle das prdprias expressdes faciais Nem sempre € possivel controlar as proprias express6es. As vezes, num lampejo, elas denunciam os verdadeiros sentimentos SINAL DE PERCEPCAO equivocada pode provocar enganos, como mostra o drama Otelo, de Shakespeare, em aque 0 personagem Principal interpreta redo no rosto de Deselémona como traigaoe, enclumado, amata