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As imagens nao sao bolas de sinuca. Como pensam as imagens Devo a Gregory Bateson (1904-1980) parte do titulo, deste ensaio, Na introdugao do seu tiltimo livro (Bate- son, 1980, p. 17) esse autor escrevia: “No decorrer da minha existéncia coloquei as descrigdes de tijolos e de jarras, de bolas de sinuca e de galixias numa caixinha 6,ali, deixei-as repousar em paz, Numa outra caixa, co- loquei coisas vivas: os caranguejos do mar, os homens, os problemas de beleza eas questdes de diferengas (.." Colocarei, assim, as imagens (todas as imagens) a0 lado dos caranguejos do mar e das borboletas, isto é, nna caixa das coisas vivas. Sao elas que a mim interes- Este teto faz parte de uma pesquisa deseavolida pelo autor, na condligi de bolsista de produtividade CNPa, Etienne Samain Era pequeno ainda, Olhava o mar, que desenhava suas ren- «das brancas sobre suas préprias costas, Essas ondas que no acabavam de cantar me fascinavam. Hoje, lembro-me disso ‘como se fosse uma fotogefia, isto é, uma “revelagao” Uma fo- tografa, no entanto, que nunca fiz, uma fotografia apenas pre- sente fia minka meméria, uma fmoagem mental. As imagens gostam de cacar na escuridio de nossas memérias. Sio infin tamente menos capazes de nos mostrar o mundo que de ofere- «é-lo a0 nosso pensamento, E.Samain"* sam, Quanto as bolas de sinuca, nao devemos esquecer seu estado de letargia, uma ver que somente se deslo- cam quando impactadas. ‘Devo ainda Bateson ter descoberto que mais impor- tante que a questio do porqué das coisas, permanece a do como das coisas. Assim sendo, nao procurarei saber a que serve as imagens e por que existem, e sim como elas existem, como vivem, como nos fazem viver. Ou ainda, quais sio suas maneiras de nos fazer pensar? E chegar, desse modo, a desvendar algo da maneira como a imagem nos provoca a pensar, nos convoca a pensar. ** E Samain, 2005.35 2 Em outras palavras: como se orientar ante a imagem edentrodaimagem, sendoanossa dficuldade de orien- tacdo decorrente do fato de que a imagem “deve ser entendida ao mesmo tempo como documento e ob- jeto de sonho [Sigmund Freud], como obra e objeto de passagem [Walter Benjamin], monumento ¢ objeto de montagem (Sergei Fisenstein], ndo saber [Georges Bataille] e objeto de ciéncia [Aby Warburg]” (Didi- Huberman, 20068, p. 14). subtitulo deste artigo, por sua vez, contém uma verdadeira provocacao: seré que as imagens poderiam “pensar’ elas que sio meros objetos desprovidos de consciéncia, embora nao de vida? Nao é meu propési to, com efeito, procurar “humanizar” as imagens. Nao precisam disso, elas que, por natureza, sio pocos de ‘memérias e focos de emogGes, de sensagdes, isto & lu- gares carregados precisamente de humanidade. Como, dessa maneira, desatar minimamente 0 paradoxo exis tente na imagem- objeto, quando ela deveria confessar a0 mesmo tempo sua inconsciéncia e, no entanto, uma inequivoca vivéncia? Essa contradicdo requer um mo- mento de atengao. Uma primeira problematizagao Nas reflexdes recentes sobre a imagem, vem se de- senvolvendo a ideia de que ela alimenta uma relagdo privilegiada entre o que mostra, o que dé a pensar € 0 que, sobretudo, se recusa a revelar: o seu proprio tra- balho, ou seja, o trabalho que ela realiza ao se asso- ciar, notadamente, a outras imagens (visiveis/exterio- res; mentais/interiores) e a outras memérias. O que tal assergdo poderia vir a significar em termos de ex- 2 ploracdes heuristicas possiveis em torno da imagem? Eis 0 que o presente livro ¢ as contribuicées de seus parceiros procuram desvendar ou, pelos menos, ten- tar esclarecer minimamente. A primeira, a mais evidente, € 0 fato de que toda imagem (um desenho, uma pintura, uma escultura, ‘uma fotografia, um fotograma de cinema, uma ima- gem eletrénica ou infogréfica) nos oferece algo para pensar: ora um pedaco de real para roer, ora uma faisca de imagindrio para sonhar. “Nao basta pensar para ver; a visio é um pensamento condicionado’, Iembrava Merleau-Ponty (1964, p. 52). Roland Barthes (1980), por sua vez, dizia essas coisas com outras pa- lavras. Falava de Studium (a imagem é um campo de estudo) e de Punctunt (a imagem é, também, um mo- mento ¢ um espaco de paixdes e de emordes: 0 lugar de muiltiplas outras memiérias). Assim sendo, toda imagem nos faz pensar. Sera que podemos aprofun- dar esse dado no sentido nao tanto de saber 0 “por- qué” de ela nos permitir pensar, e sim 0 “como” nos faz pensar? Segunda possibilidade de se aproximar do eixo “Como pensam as imagens”: 0 fato de que — tam- bém — toda imagem é portadora de um pensamen- to, isto é, veicula pensamentos. © que se pretende dizer? Que toda imagem leva consigo primeiramen- te algo do objeto representado. No caso da pintura, © que o pincel, ao deslizar sobre uma tela, tragou; no caso da fotografia, o que a luz se encarregou de ins- crever na placa sensivel. Veicula, assim, uma figura, mas muito mais ainda. De um lado, 0 pensamento daquele que produziu a fotografia, a pintura, 0 dese- ho; de outro, 0 pensamento de todos aqueles que olharam para essas figuras, todos esses espectadores COMO PENSAM AS IMAGENS que, nelas, “incorporaram” seus pensamentos, suas fantasias, seus delirios e, até, suas intervengoes, por veres, deliberadas. Para tornar mais claro o que procuro dizer, acres- centaria: 0 que pensa a Gioconda, hoje, depois de tan- tos olhares terem perscrutado, aps Leonardo da Vin- Gi, 0 seu rosto e 0 seu sorriso sereno e enigmttico, espécie de confidéncia? Mas para quem? Em lembran- a de quem? Fis outras vertentes desse questionamen- to em torno de como pensam as imagens. Vertentes es- sas que nos levam e nos conduzem a outros horizontes € novos territérios da meméria: toda imagem ¢ uma meméria de memérias, um grande jardim de arquivos declaradamente vivos'. Mais do que isso: uma “sobre- vivéncia’, uma “supervivéncia’. Ver a menina coberta de fapalm, gritando de dor numa estrada do Vietna, significa cruzar milhares de outros olhares postos so- bre seu corpo indefeso e penetrar numa meméria cole- tiva: nossa historia & qual ela pertence, da qual jamais sairé e da qual nunca poderemos sair sem ela, sem os outros que a verio “renascer” sob outras formas, em outros tempos, tempos futuros. A terceira proposicao é, de longe, a mais questio- navel, a mais ut6pica (“sem chao” ¢ “em lugar ne- nhum"), imaginéria’, diria. Provavelmente a mais necessiiia, também. Ouso dizer quea imagem — toda ara falar do “trabalho da meméra tl como o entendo, proponho compari-loao “trabalho do mar Nao apenas os movimentos do ma, das ondas, do fluso edo refluo, o que podera ser uma boa imagem para expressr essa varredura constante do tempo edo espace, Além ‘da questio do “movimento analogia com 0 “trabalho do mar” poder se estender em outas dresbes: os “mistérios do mar’ os “segredos do ma’, os “silncies do mar guardido de destrocos, de nuagos de tesours, de historia ede memérias, AS IMAGENS NAO SAO BOLAS DE SINUCA imagem — ¢ uma “forma que pensa”. A proposicio € tanto mais ambigua e complexa que chega a insi nuar — até sugerir — que, independentemente de nds, as imagens seriam formas que, entre si, se comu- nicam e dialogam. Com outras palavras: indepen- dentemente de nés — autores ou espectadores — toda imagem, ao combinar nela um conjunto de dados signicos (tragos, cores, movimentos, vazios, relevos e ‘outras tantas pontuacdes sensiveis e sensoriais), ou_ 20 associar-se com outra(s) imagem(ns), seria “uma forma que pensa’. A provocagio torna-se plena, quando se quer alocar, dessa vez a imagem, um “pensamento” que Ihe seria proprio. A imagem teria uma “vida propria” e um ver- dadeiro “poder de ideagao” (isto é, um potencial in- trinseco de suscitar pensamentos ¢ “ideias”) ao se asso- ciar a outras imagens. Alias, exatamente da maneira como, numa frase verbal, palavras (por exemplo: um su- jeito, um adjetivo, um verbo, um pronome relativo, um outro verbo, um complemento direto ou indireto, um geriindio ou um simples ponto de interrogagio), a0 se associarem, sio capazes de despertar e promover isto é movimentos de ideias. Algo semelhante se produz também na frase musical quando as sete notas tonais literalmente se “tocam’ ¢ “ressoam” entre elas, promovendo efeitos sonoros, sin- gulares e quase infinitos. Por que, entao, tratando-se de imagens, desapareceria, num stibito ato magico, esse poder ideativo que elas possuem, tanto nas suas 2 Deva citagioe posterior reflexio a Jean-Luc Godard (1988, ps) 43 Devo a dela de “vida propria” (das imagens) a Ronaldo Enter, de {quem se poders lero inovador artigo “Um pensamento delacunas, sobreposigdesesléncios” na parte 2 da presente obra a