SEMINÁRIO PRESBITERIANO

“REV. JOSÉ MANOEL DA CONCEIÇÃO”

MISSIOLOGIA
“Declare sua glória entre as nações”
Salmo 96:3

"Deus é o Senhor Soberano das Missões"
John Eliot

“Deus não pode ser invocado por ninguém, exceto por aqueles
que conheceram sua misericórdia por meio do Evangelho”
João Calvino

GILDÁSIO JESUS B. DOS REIS
2006

2

O ESTUDO DA MISSIOLOGIA
Quando olhamos para a Igreja Evangélica Brasileira e o movimento missionário atual,
percebemos como ao longo dos anos teologia e missão tem andado por caminhos
diferentes, completamente divorciados. Trata-se de uma dicotomia que precisa ser
corrigida. Nós precisamos das duas: Precisamos da teologia, pois ela nos dá o
embasamento para a tarefa missionária, e é especialmente importante por causa da
dependência que a igreja tem dela para medir os nossos esforços com o padrão divino. E
precisamos da missiologia pois ela é o meio pelo qual Deus faz nascer a Igreja, ela é
resultado da ação não somente de Deus ao enviar seu Filho ao mundo como também do
esforço de irmãos que divulgam o Evangelho de Cristo.
Missiologia é a soma de duas palavras: do latim, “missione” significando função ou
poder que se confere a alguém para fazer algo, encargo, incumbência; e do grego,
“logia”, que significa estudo, conhecimento. Portanto, podemos definir Missiologia
como a ciência que estuda os diferentes aspectos da missão que Deus deu ao homem.
Carlos Del Pino, em seu artigo "Missiologia e Educação Teológica", diz que a “nossa educação
teológica não tem se preocupado com o aspecto missiológico e missionário na formação dos
nossos alunos"1, reforçando o fato de que existe, mesmo que inconsciente, uma tentativa de
divorciar a Missiologia da Teologia.
Esta dicotomia trás algumas implicações para a vida da igreja:
1) Dificuldades para identificar de maneira global a "obra de Deus", que acaba sendo
confundida com a manutenção do status quo, dando a entender que o Reino de Deus2
está contido em uma estrutura eclesiástica.
2) As prioridades ministeriais são via de regra, voltadas para dentro, a fim de satisfazer
todas as necessidades que foram criadas “em nome de Deus” dentro das estruturas
eclesiásticas, em prejuízo da missão integral3.
3) O treinamento dos líderes sempre se torna diferenciado, pastores e missionários não
tem a mesma excelência em seu preparo acadêmico.
Com o objetivo de romper com este dualismo entre teologia e missiologia, vamos neste curso
abordar o tema sob 5 perspectivas:
I.
II.

Perspectiva Teológica: Estudaremos a conceituação da tarefa missionária da Igreja
e os fundamentos teológicos, abordando os diversos pressupostos que sustentam
uma teologia reformada de missões.
Perspectiva Cultural: É praticamente impossível transmitir uma mensagem do
evangelho que faça sentido em situações transculturais sem que seus comunicadores

1

PINO, Carlos Del. Capacitando para Missões Transculturais; Revista Missiológica da Associação de Professores de
Missões no Brasil, Vol.1, n.2; 1995
2

O Cristo que a Igreja reconhece como Senhor é o Senhor de todo universo. Nesta afirmação de seu senhorio
universal, a Igreja encontra a base para sua missão. Cristo foi coroado como Rei, e sua soberania se estende sobre a
totalidade da criação. Como tal, ele comissiona os seus discípulos a fazerem discípulos de todas as nações (Mt 28.1820)

3

O conceito de missão integral propõe um modelo d missão que vai além da experiência religiosa pessoal para incluir
também auxílio aos pobres e marginalizados.

3

III.

IV.

V.

conheçam os receptores da mensagem em seu ambiente cultural e histórico e sem
que conheçam a si mesmos. Portanto, nossa proposta aqui objetiva mostrar a
importância em se determinar os pontos de tensão cultural a partir de uma
abordagem natural (não crítica) dos costumes, cosmologias e cosmovisões comuns
em diferentes povos.
Perspectiva Urbana: Nesta parte do curso, estudaremos as cidades e seus desafios
para as missões; desafiando os alunos a desenvolver uma estratégia para o
ministério urbano, focalizando os desafios sociais e espirituais que o ambiente
provoca. Examina diversos modelos de ministérios urbanos, inclusive através de
estudos de campo, e fornece critérios para a elaboração de um ministério bíblico de
impacto na cidade.
Perspectiva Bíblica: Nosso objetivo aqui é estudar de maneira panorâmica, as
bases bíbicas do Antigo e Novo Testamentos de Missões. A matéria apresenta a
Bíblia como o relato da "história da salvação" e como inspirada por Deus para o
desempenho da Igreja no mundo.
Perspectiva Histórica: Analisaremos o desenvolvimento e a expansão da fé cristã
ao longo dos séculos, compreendendo os seus principais personagens, métodos e
povos alcançados.

Rev. Gildásio Reis

4

MISSIOLOGIA
UMA PERSPECTIVA
TEOLÓGICA-REFORMADA
“Não existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da
qual Cristo, que é soberano de tudo, não declare: é minha”
Kuiper

I. Conceituando a Missão

A

questão da definição e conceituação da missão, há muito tem sido uma das questões
mais discutidas no estudo da missiologia. Nem sempre tem havido consenso sobre o que se deve
entender por missões. O que é missão? Qual é a sua natureza? Quais os objetivos das missões
cristãs? A considerar os diferentes pressupostos teológicos, uma gama muito grande de

respostas pode ser dada a estas questões.
Não obstante, este ser um assunto controvertido, ele é também muito importante
para a igreja e para os cristãos individuais. Como pode a igreja ser o que deve ser e
fazer o que deve fazer se não tiver uma clara compreensão acerca do seu propósito na
sociedade e no mundo?
Desde o começo da História da Igreja muitas derivações de termos têm
aparecido nas traduções latinas procedentes do verbo grego ‘apostolein’, significando ‘a
arte de exercer o apostolado, o ofício de um apóstolo’. As palavras mais usadas são:
Missio e Missiones. A terminologia ‘Missio’ somente veio a aparecer no século XVI
quando as ordens de monge Jesuítas e Carmelitas enviaram ao novo mundo de então
centenas de missionários. Inácio de Loyola e Jacob Loyonez consistentemente
empregaram o termo ‘Missio’. Eles, os jesuitas foram os primeiros a utilizarem a
terminologia “Missão”, como a propagação da fé Cristã entre os povos não-cristãos, ou
seja, a disseminação da fé entre os povos não-católicos (os protestantes foram vistos
como indivíduos a serem alcançados). Este sentido estava intimamente associado com a
expansão colonial do mundo ocidental aos demais povos (atualmente chamado de
terceiro mundo).4
Desde meados do século XX, vários sentidos têm sido aplicados ao termo
“Missão”, alguns mais estreitos, outros, mais amplos. É importante que iniciemos nosso
curso de missiologia dando alguns conceitos de missão.
1.1. DEFINIÇÕES GENERALIZADAS DE MISSÃO
Em sua obra Mission Theology: An Introduction,5 o missiólogo Karl Muller apresenta
uma lista com os seguintes de conceitos:
1.
4

Missão é o envio de missionários para um designado território;

Dr. Antônio José, op cit.
Karl Muller. Mission Theology: An Introduction (Nettetal, Germany: Eteyler Verlag, 1987), 31-34. (citadas por Dr.
Antônio José do Nascimento Filho, material utilizado no curso de mestrado em Missiologia no CPPGAJ em 2001)

5

5
2.
3.
4.

Missão tem a ver com as atividades realizadas por tais missionários;
Missão é a área geográfica aonde os missionários realizam seus ministérios;
Missão é a agência missionária responsável pela logística e pelo envio dos missionários
aos seus respectivos campos;
5. Missão é a propagação do evangelho aos povos não alcançados;
6. Missão é o centro do qual os missionários irradiam o evangelho;
7. Missão é uma série de serviços religiosos com o propósito de despertar vocações
missionárias;
8. Missão é a propagação da fé Cristã;
9. Missão é a expansão do reino de Deus;
10. Missão é a conversão dos povos pagãos;
11. Missão é a plantação de novas igrejas.

Dr. Antônio José nos informa que até o século XVI, o termo “Missão”, foi usado
exclusivamente com referência à doutrina trinitária, isto é, ao papel da trindade na história da
redenção.6 O envio do filho pelo Pai, e por sua vez, o envio do Espírito Santo pelo Pai e pelo
Filho, cuja interpretação missiológica deu origem à doutrina chamada na história de “Filioque”.7
Esta interpretação, contanto que aceita como doutrina básica da Igreja Cristã, foi um dos
motivos da cisão do Cristianismo medieval no ano de 1054.
1.2. UMA DEFINIÇÃO DE MISSÃO
Em seu sentido mais amplo, a missão é tudo o que a igreja faz a serviço do Reino de Deus
(Missões no plural). Em sentido mais restrito, contudo, a missão refere-se à atividade
missionária, a pregação do evangelho entre povos e culturas em cujo meio ele não é conhecido
(Missão no singular). A seguir, duas definições:
J.H. Bavinck define assim:
Missões é aquela atividade da igreja, essencialmente nada mais do que a atividade de Cristo,
realizada por meio da igreja, pela qual a igreja, neste período intermediário, chama os povos da
terra ao arrependimento e à fé em Cristo, de modo que se tornem seus discípulos e, pelo batismo,
sejam incorporados a comunhão daqueles que esperam a vinda do Reino8

Carlos Del Pino, em artigo publicado diz que “a missão da igreja não pode ser algo
independente de Deus e de Cristo, como se a igreja pudesse realizá-la por si só”.9 É exatamente
este o ponto da definição de Bavinck quando ele diz que “Missões é aquela atividade da igreja,
essencialmente nada mais do que a atividade de Cristo”10

6

Dr. Antônio José do Nascimento Filho, Op Cit., p. 24
A Igreja Cristã tem uma declaração histórica sobre o Espírito Santo, estabelecida no Concílio de Toledo (589 DC).
O credo que emanou daquele concílio dizia que o Espírito Santo "procede tanto do Pai como do Filho". Longe de
estabelecer uma subordinação em essência, a declaração apenas reflete o ensinamento bíblico que na administração
das interações entre Deus e o Homem, cada pessoa da Trindade cumpre um papel específico. No caso do Espírito
Santo, Ele procede do Pai e do Filho e testemunha de Cristo-não fala de si próprio. Este é o critério primário de
reconhecimento do trabalho do Espírito - As ações supostamente realizadas pelo Espírito apontam para Cristo, ou
para os agentes humanos? Os supostos porta-vozes do Espírito falam de Cristo, ou falam de si mesmos ou do próprio
Espírito? A grande maioria das maravilhas e fenômenos contemporâneos atribuídos ao Espírito Santo não passa por
este crivo. O credo do Concílio de Toledo, apenas expandia e particularizava a doutrina já exposta no Credo Niceno.
O Concílio de Nicéia havia indicado a "processão do Pai", para o Espírito Santo. Concílio de Toledo (que para alguns
não foi um concílio, mas um mero Sínodo - perdendo, portanto em autoridade) ampliou, indicando a procedência
também do Filho (Jesus Cristo) para o Espírito Santo. Essa expressão "e do Filho" foi grafada com a palavra latina
filioque.
8
J.H. Bavinck, An Introduction to the Science of Missions - citada por R.B.Kuiper in: Evangelização Teocêntrica,
São Paulo, SP: Ed. PES, 1976 p.5
9
Cf. Fides Reformata, 5/01/2000 in: O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja
10
J.H. Bavinck, Op Cit., p. 5
7

6
Bosch11 nos oferece também uma definição de missão:
A missão constitui um ministério multifacetado em termos de testemunho e serviço, justiça, cura,
reconciliação, paz, evangelização, comunhão, implantação de igrejas, contextualização,
etc..Inlcusive o intento de arrolar algunas dimensões da missão, porèm está repleto de perigo,
porque de novo sugere que nos é possível definir o que é infinito. Quem quer que sejamos,
espreita-nos a tentação de enclausurar a Missio Dei nos estreitos confins de nossas próprias
predileções, voltando, necesariamente, à unilateralidade e ao reducionismo”12

Labieno Palmeira dá sua definição de missões:
Fazer missões é procurar estar em sintonia com Deus, empenhando-se ao
máximo para ver o que Deus vê, ouvir o que Deus ouve e conhecer como Deus
conhece, e não apenas isto, é estar disponível para descer onde Deus quer
descer, livrar aqueles que Deus deseja libertar e fazer subir aqueles que Deus
deseja levar para a terra que mana leite e mel13

1.3. O Conceito de Missões na Confissão de Fé de Westminster.
A Confissão de Fé de Westminster, no seu capítulo XXXV, que trata do “DO AMOR
DE DEUS E DAS MISSÕES, assim prescreve:
I. Em seu amor infinito e perfeito - e tendo provido no pacto da graça, pela mediação e
sacrifício do Senhor Jesus Cristo, um caminho de vida e salvação suficiente e adaptado a toda
a raça humana decaída como está - Deus determinou que a todos os homens esta salvação de
graça seja anunciada no Evangelho. (Ref. Jo.3:16; I Tim.4:10; Mc.16:15).-A Universalidade
do Evangelho (Inclusivista)
II. No Evangelho Deus proclama o seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único
caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e
crêem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que
conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do Seu Espírito, a aceitem como dádiva da
graça. ( ef. Jo.3:16 e 14:6; At.4:12; I Jo.5:12; Mc.16:15; Ef.2:4,8,9.) - A Necessidade da Fé
Consciente, ou seja, há uma posição restritivista quanto ao destino daqueles que nunca
ouviram falar de Jesus.
III. As Escrituras nos asseguram que os que ouvem o Evangelho e aceitam imediatamente
os seus misericordiosos oferecimentos, gozam os eternos benefícios da salvação: porém, os
que continuam impenitentes e incrédulos agravam a sua falta e são os únicos culpados pela
sua perdição. ( Ref. Jo.5:24 e 3:18.) - A certeza do Sucesso na Pregação
O ponto aqui é o seguinte: Como pode a igreja em geral, e o cristão individual, estar segura de
que não está assumindo uma obra que é intrinsecamente impossível de ser realizada? W.G.T.
Shedd, D.D. (1820 – 1894) diz que “a pregação do evangelho encontra sua justificação, sua
sabedoria, e seu triunfo, somente na atitude e relação com o infinito e todo-poderoso Deus
que a sustenta”14
Sobre a certeza do sucesso da Igreja na pregação, Kuiper assim se expressa:
11

David Bosch serviu como missionário numa universidade da África do Sul até 1971, falecendo aos 63 anos.
BOSCH, David J. Missão Transformadora – Mudanças de paradigma na teologia da Missão. São Leopoldo, RS.
Ed. Sinodal. 2002.
13
PALMEIRA FILHO, Labieno Moura. O Caráter Missionário de Deus. Goiânia – Go.: Série Nasce, 2001. p. 62.
(O autor é pastor presbiteriano e missionário da Junta de Missões Estrangeira da Igreja Presbiteriana do Brasil, e está
atuando como missionário em Moçambique)
14
W.G.T. Shedd, O Sucesso Certo do Evangelismo – extraído www.monergismo.com; capturado em 21/11/2003
12

7

A fé salvadora não é dom do evangelista ao seu ouvinte não salvo; "é dom de Deus" (Efésios
2:8). Nenhum evangelista jamais deu fé em Cristo a uma única alma. Ela é produzida nos
corações humanos pelo Espírito Santo, pois "ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor" senão
pelo Espírito Santo" (1 Coríntios 12:3). Nenhum pecador jamais foi convertido por um
evangelista; o autor da conversão é Deus15

IV. A Comissão por Jesus Cristo: Visto não haver outro caminho de salvação a não ser o
revelado no Evangelho e visto que, conforme o usual método de graça divinamente
estabelecido, a fé vem pelo ouvido que atende à Palavra de Deus, Cristo comissionou a sua
Igreja para ir por todo o mundo e ensinar a todas as nações. Todos os crentes, portanto, têm
por obrigação sustentar as ordenanças religiosas onde já estiverem estabelecidas e contribuir,
por meio de suas orações e ofertas e por seus esforços, para a dilatação do Reino de Cristo por
todo o mundo. ( Ref. Jo.14:6; At.4:12; Rom.10:17; Mt.28:19,20; I Cor.4:2; II Cor.9:6,7,10. )
1.4. O CONCEITO DE MISSÕES EM JOÃO CALVINO.
Veremos um pouco mais adiante e de maneira mais detalhada, a visão que o reformador tinha de
missões. Por hora, basta apenas uma síntese do seu pensamento missionário. Uma crítica que
tem sido levantada à Calvino e à outros reformadores, é que os mesmos não possuíam uma
visão missionária.
Veja o que Gustav Warneck escreveu:
Nós perdemos com os Reformadores não apenas a ação missionária, mas mesmo a idéia de
missões... [em parte] porque perspectivas teológicas fundamentais deles evitaram que dessem a
suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma direção missionária16

Missiólogos mais recentes, como Ralph D. Winter, perpetua o errro de Warneck. Ele afirma:
A despeito do fato de que os protestantes ganharam no fronte político, e, em grande medida,
alcançaram a capacidade de reformular sua própria tradição cristã, eles nem mesmo falaram sobre
missões, e aquele período terminou com a expansão católica européia nos sete mares, tanto política
como religiosa.17

Mas o que realmente querem estes críticos dizer quando afirmam desinteresse dos reformadores
por missões? Qual conceito tinham eles de missões e por qual padrão estavam julgado os
reformadores?
É certo que Calvino não escreveu, entre suas muitas obras teológicas, nenhum tratado sobre
missões, mas é certo também que ninguém pode afirmar que ele tenha escrito algo contra a idéia
de missões. O ponto que precisa ser ressaltado aqui é que se Calvino não escreveu
especificamente um tratado sobre missões, isso não significa dizer que ele não possuía visão
missionária.
Entre os Reformadores, nenhum tem falado com mais clareza do que João Calvino a respeito de
toda a questão do alcance da mensagem da fé cristã. Calvino apela repetidas vezes aos crentes a
mostrarem interesse por seu próximo descrente. No contexto da época (século XVI), descrentes
eram as pessoas simples do rebanho católico ou aquele que se livrara da dominação romana,
15

KUIPER, R.B.. Evangelização Teocêntrica, São Paulo, SP: Ed. PES, 1976 p.179
Gustav Warneck, History of Protestant Missions, trans. G. Robinson (Edinburgh: Oliphant Anderson & Ferrier,
1906), 9, citado em Fred H. Klooster, “Missions—The Heidelberg Catechism and Calvin,” Calvin Theological
Journal 7 (Nov. 1972): 182.
17
Ralph D. Winter, "The Kingdom Strikes Back: The Ten Epochs of Redemptive History," em Perspectives on the
World Christian Movement, eds. Ralph D. Winter e Steven C. Hawthorne (Pasadena: William Carey Library, 1981),
153. Minha tradução.
16

8
mas não aderira à Reforma. As admoestações de Calvino são aplicáveis a todas as situações em
que o crente se torna vizinho de um descrente. Em um sermão sobre 1 Timóteo 2.5,6, Segundo
comenta Forbes, Calvino declara: “Quando vemos homens destruindo-se, não tendo Deus sido
tão gracioso para juntá-los a nós pela fé do evangelho, devemos apiedar-nos deles e esforçarnos para trazê-los ao caminho reto.”18
Veja ainda a visão missionária de Calvino em suas palavras lembradas por Forbes:
Nosso Senhor Jesus Cristo foi feito um como nós, e sofreu a morte para que pudesse tornar-se
um advogado e mediador entre Deus e nós, e abrir um caminho pelo qual possamos chegar a
Deus. Aqueles que não se empenham em trazer seu próximo e descrentes ao caminho da
salvação mostram abertamente que não têm em conta a honra de Deus, e que tentam diminuir o
imenso poder de seu império, e estabelecem limites para que Ele não possa governar todo o
mundo, de igual modo obscurecem a virtude e morte de nosso Senhor Jesus Cristo e diminuem a
dignidade dada a Ele pelo Pai.19

Em um sermão baseado em I Timóteo 2.3-5, Calvino demonstra a preocupação que os cristãos
precisam ter com os descrentes. Conforme Forbes, Calvino assim afirma:
Portanto, podemos estar cada vez mais certos de que Deus nos aceita e fortalece dentre seus filhos,
se nos empenharmos em trazer aqueles que estão afastados dele. Confortemo-nos e tenhamos
coragem neste chamado: embora haja nestes tempos um grande desamparo, e embora pareçamos
ser miseráveis criaturas completamente arraigadas e condenadas, ainda assim devemos labutar
tanto quanto possível para atrair aqueles que estão afastados da salvação. E, acima de todas as
coisas, oremos a Deus por eles, esperando pacientemente que Ele se digne mostrar boa vontade
para com eles, assim como tem mostrado para conosco.20

Calvino ensinou com firmeza que a Salvação é dom de Deus somente para os seus eleitos. Não
obstante, isto não o impede de insistir para que os membros da igreja procurem trazer um
grande número de pessoas a Cristo. Parker, elucidando o pensamento de Calvino sobre a igreja,
registra a seguinte declaração de Calvino em um sermão sobre Isaías 53.12:
Se desejamos pertencer à igreja e ser reconhecidos como rebanho de Deus, devemos admitir que
isto ocorre porque Jesus Cristo é o nosso Redentor. Não receemos ir a Ele em grande número, e
cada um de nós traga seu próximo, considerando que Ele é suficiente para salvar a todos.21

Calvino entendia que os cristãos têm a grande responsabilidade de espalhar as Boas Novas do
Evangelho. Ele escreve: “porque é nossa obrigação proclamar a bondade de Deus para todas as
nações... a obra não pode ser escondida em um canto, mas proclamada em todos os lugares”22.
Deus poderia ter escolhido outros meios, no entanto, ele escolheu “empregar a ação de homens”
para a pregação do Evangelho.23

II. CONCEITUANDO A EVANGELIZAÇÃO
No debate contemporâneo entre missão e evangelização, a maioria dos missiólogos
sustentam a visão que evangelização é um indispensável componente da missão da igreja.
Missão, dizem eles, inclui tudo o que a igreja é chamada por Deus para fazer no mundo visando

18
J. Forbe, The Mystery of Godliness and Other Sermons (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing House,
1950), 199.
19
Ibid., 200.
20
Ibid., 110.
21
T. H. L. Parker, Sermons on Isaiah’s Profecy of the Passion and Death of Christ (London, England: Lames Clarck
and Co. Ltd., 1956), 144.
22
Calvino, João. Comentário sobre Isaías 12:5, em Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 403.
23
Calvino, João. Comentário sobre Isaías 2:3, em Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of
John Calvin,” 28.

9
a manifestação de sua glória. Evangelização refere-se ao específico processo de espalhar as boas
novas acerca de Jesus Cristo como a salvação de Deus aos povos.24
O missiólogo J. D. Douglas em seu livro Let the Earth Hear His Voice apresenta-nos a
definição do pacto de Lausanne (1974) sobre evangelização:
Evangelizar é espalhar as boas novas que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e
ressuscitou da morte segundo as Escrituras, e que agora, ele concede perdão dos
pecados e o Dom do Espírito para todos que se arrependem e crêem. Portanto,
evangelização é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor,
com o propósito de persuadir as pessoas a vir a Ele pessoalmente e assim ser
reconciliado com Deus. Jesus continua ainda convidando a todos para seguí-lo, negar a
si mesmos, tomar a sua cruz e identificar a si mesmos com a comunidade dos remidos.
O resultado do evangelismo inclui obediência a Cristo, incorporação na vida da igreja, e
responsável serviço para o mundo.25

Orlando Costas, conhecido teólogo latino-americano, afirma:
Evangelizar é participar de uma ação transformadora, isto é, as boas-novas da salvação.
Neste sentido, a evangelização não é um conceito, mas sim uma tarefa dinâmica,
encarnada primeiro na vida e ação salvífica de Jesus Cristo. Portanto, ela não pode ser
reduzida a uma fórmula verbal. Evangelizar é reproduzir pelo poder do Espírito Santo a
salvação que foi revelada em Jesus Cristo. 26

John Stott, em sua obra The Biblical Basis of Evangelism, comenta:
O tema central dos evangelhos e das cartas apostólicas é a natureza e o significado de
Jesus Cristo. Ele é o Deus encarnado, o Messias esperado, o Senhor do universo.
Através dele Deus tem pessoalmente entrado na história e provido salvação27

III. OS MOTIVOS PARA MISSÕES
Roger Greenway nos ajuda a entender por que devemos fazer missões?28
A. Motivos errados:
Devemos admitir que sempre houve pessoas que ingressaram no trabalho do Senhor por
razões equivocadas. Até os missionários que têm os motivos corretos podem cometer erros. At
13.13, At 15.37-40 e 2Tm 4.10.
Podem existir motivos errados escondidos nas mentes dos mais sinceros missionários.
1. O desejo de ser admirdado e louvado por outros
2. A busca por “auto-realização”, sem levar em consideração o esvaziar-se a si
mesmo(Fp 2.5-7);
24

Bavinck não vê razões para diferenciar estes dois termos. (Cf. Evangelização teocêntrica, p. 5)
825 J. D. Douglas, Let the Earth Hear His Voice (Minneapolis, Minnesota: World Wide Publications, 1974), 4.
26
Orlando Costas. Liberating News (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1989), p.
133 (Orlando E. Costas (1942-1987) nasceu em Porto Rico e faleceu nos Estados Unidos, vitimado por um câncer,
aos 45 anos de idade. Era pastor e teólogo batista. Graduou-se doutor em teologia e missiologia nos Estados Unidos.
Foi reitor e professor do Seminário Bíblico Latino-Americano de Costa Rica; fundou o Centro Evangélico LatinoAmericano de Estudos Pastorais (CELEP), em 1973, em San José, Costa Rica. Atuou como administrador da
faculdade do Eastern Baptist Theological Seminary, na Filadélfia, onde também foi professor de missiologia e diretor
de estudos hispânicos)
27
John Stott, The Biblical Basis of Evangelism (Minneapolis, Minnesota: World Wide Publications, 1975), 65.
28
GREENWAY, Roger . Ide e Fazei Discípulos. São Paulo,SP: Ed. Cultura Cristã. 2001. p.30-34

10
3. A busca por aventura e excitação;
4. A ambição em expandir a glória e influência de uma igreja ou denominação em
particular, ou mesmo de um país;
5. A fuga das situações desagradáveis do lar;
6. A esperança de sucesso profissional após um curto período de serviço missionário.
7. A culpa e o anseio pela paz com Deus por meio do serviço missionário.

B. Motivos corretos
Os motivos corretos para missões são ensinados na Palavra de Deus e aplicados nos
corações dos crentes por meio do Espírito Santo.
1. O desejo de que Deus seja adorado e sua glória conhecida entre todos os povos da
terra: A glória de Deus diz respeito a tudo o que foi revelado sobre ele: seu nome, sua
santidade, seu poder, seu amor por meio de Jesus Cristo, sua misericórdia, sua grsaça e
sua justiça.
Entretanto, mais de três bilhões de pessoas no mundo não aodram ao verdadeiro Deus.
Este pensamento é que inspira os missionários! Eles sentem uma divina compulsão em
pregar o evangelho 1Co 9.16.
2. O desejo de obedecer a Deus por amor e gratidão, por meio do cumprimento da
Comissão de Cristo: “Ide fazei discípulos de todas as nações”. (Mt 28.19): O amor
genuíno por Deus produz obediência à sua Palavra cf.: Jo 14.15; A obediência cristã
toma forma e o povo de Deus é ungido com o Espírito Santo a servi-lo numa variedade
de ministérios 1Co 12.4,5; Ef 3.10.
3. O desejo ardente de usar todos os meios legítimos para salvar os perdidos e ganhar nãocrentes para a fé em Cristo: A paixão missionária pela glória de Deus é acompanhada
pela paixão pelas pessoas que, por ignorãncia e descrença, estão morrendo em seus
pecados.
4. A preocupação de que as igrejas cresçam e se nultipliquem e de que o reino de
Cristo seja estendido por meio de palavras e ações que proclamem a compaixõ e a
justiça de Cristo a um mundo de sofrimento e injustiça.

11

II. O PROPÓSITO DA MISSÃO:
A GLÓRIA DE DEUS
______________________________

“Deus é o Senhor soberano das missões”
John Eliot (Missionário entre os índios americanos -1690)

Introdução

Tendo já conceituado a Missão, precisamos agora tratar da questão sobre a a prioridade ou
principal missão da igreja.29 Qual é a Missão principal e última da Igreja? Muitos missiólogos
afirmam que a prioridade última da igreja é evangelizar e fazer missões ao redor do mundo30.
Quem não ouviu a famosa frase atribuída a Alexandre Duff: “A Igreja que não evangeliza não é
evangélica”31?. Dizer que a tarefa principal da igreja é evangelizar não encontra respaldo nas
Escrituras e óbviamente, também não encontra eco na teologia reformada de missões. Se por
“prioridade” queremos dizer “o alvo último” da igreja, nossa resposta deve ser “não”. Como
reformados entendemos que a obra missionária não é o alvo último da igreja.
Martyn Lloyd-Jones assim se expressa:
O objetivo supremo desta obra é glorificar a Deus. Esse é o ponto central. Esse ;é o objetivo
que deve dominar e sobrepujar todos os demais. O primeiro objetivo da pregação do
evangelho não é salvar almas; É GLORIFICAR A DEUS. Não se tolerará que nenhuma
outra coisa, por melhor que seja nem por mais nobre, usurpe esse primeiro lugar. 32
Neste ponto de nosso curso de missiologia, vamos ver á luz da Palavra de Deus, que é o culto a
Deus e não a obra missionária, deve ser a preocupação principal da igreja do Senhor. Conforme
vemos nos argumentos de John Piper, “o desafio missionário existe e persiste porque o culto
pleno a Deus ainda não existe”.33 O culto é o alvo último da igreja. O culto a Deus deve ter
prioridade na igreja, não a obra missionária, porque Deus é último, e não o ser humano.
Quando esta era terminar e representantes de toda raça, tribo e nação se dobrarem diante
do Cordeiro de Deus, a obra missionária não mais exisitirá na igreja. Mas existirá o louvor
e a adoração. Permanecerá na igreja o culto. ( Paixão de Deus por sua própria glória :
Isaías 48:9-11 ). O homem natural busca a sua própria glória, mas Deus, a sua.34
A adoração é o combustível e a meta das missões. É a meta das missões porque nelas
simplesmente procuramos levar as nações ao júbilo inflamado da glória de Deus. O alvo
das missões é a alegria dos povos na grandiosidade de Deus. “Reina o Senhor. Regozije-se
a terra, alegrem-se as muitas ilhas” (Sl 97.1). “Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os
povos todos. Alegrem-se e exultem as gentes” (Sl 67.3-4). Quando a chama da adoração
arder com o calor da verdadeira excelência de Deus, a luz das missões brilhará para os
29

Este capítulo faz parte de um artigo do Dr. C. Timóteo Carriker, adaptado por mim para ser utilizado no Curso de
Missiologia no JMC. As idéias principais que se seguem são grandemente fruto da leitura recente que o Dr. Timóteo
fez do livro de John Piper, Alegrem-se os Povos! A Supremacia de Deus em Missões. (Livro este que está sendo
resenhado pelos alunos do curso de missiologia doJMC)
30
Apenas para citar um: Charles Van Engen in: Povo Missionário, Povo de Deus, Edições Vida Nova, São Paulo,
1996
31
Cf. www.editoraaleluia.com.br/estudos_biblicos/estudos_1-50/est16.htm
32
Texto extraido do site: http://www.geocities.com/Athens/Delphi/7162/ . Acesso em 12/11/2003
33
PIPER, John. Alegrem-se os Povos – A Supremacia de Deus em Missões. São Paulo, SP ( Editora Cultura Cristã:
2001 ) p. 13
34
Idem, p.13

12
povos mais remotos da terra.35 ( Ef 1:4-6; cf 12-14; Sl 106:7,8; Rm 9:17; Ex. 14:4,17,18;
Ez 36:22,23,32)36
Por mais que queiramos afirmar a prioridade da obra missionária, creio que uma análise honesta
da revelação bíblica leve à conclusão que o culto é o fim último da igreja e o desejo máximo de
Deus para toda a humanidade. A primeira pergunta do Catecismo de Westminster diz: “Qual é
o fim principal do ser humano?” E a resposta acertada é: “O fim principal do ser humano é
glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre.” É dentro desta perspectiva reformada e bíblica
maior da prioridade última da glória de Deus que nossa reflexão a respeito da obra missionária
se encontra.

Missões começam e terminam na adoração. Há alguns pontos a serem destacados com
relação a isso:
I. O Amor de Deus por Ele mesmo é a Base para o nosso amor.
A ordem bíblica da evangelização dos povos, precisa ser vista no contexto do deleite
divino. Não podemos nos esquecer que o motivo por trás de todas as ações deve
objetivar agradar a Deus (Sl 115:3; Is. 48:9-11). Deus tem prazer nele mesmo. Esta
última afirmação por nos soar um tanto estranha, mas vamos buscar entender o que isso
significa. Deus nos ensina que nosso objetivo supremo deve ser amá-lo e glorificá-lo
para sempre, como, então, isso poderia ser diferente para ele mesmo? O fundamento
para nosso deleite em ver Deus glorificado é seu próprio deleite em ser glorificado.
Deus é central e supremo em todas as suas afeições. Não há rivais para a soberania de
Deus em seu próprio coração. Deus não é um idólatra.37
Isso tudo pode nos parecer um tanto confuso, talvez porque nunca tenhamos parado para
pensar desse modo. O coração mais apaixonado por Deus em todo o universo é o
coração do próprio Deus. Essa verdade sela a convicção de que adoração é o
combustível e o objetivo de missões. O amor de Deus por si mesmo é justo, pois ele é
justo, é reto, é amor. Podemos ver de modo claro essa paixão da qual estamos falando
em Isaías 48.9-11:
Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me
conterei para contigo, para que te não venha a exterminar. Eis que te acrisolei, mas
disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por
amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha
glória, não a dou a outrem.

As expressões desse texto deixam claro que Deus agiu “por amor do seu nome”, por
amor de si mesmo ele não exterminou o povo de Israel. É isso, também, o que
demonstra uma série de outros textos. Deus escolheu seu povo para sua glória (Ef 1.46); nos criou para sua glória (Is 43.6-7); libertou Israel do Egito para sua glória (Sl
106.7-8); Jesus disse que responde às orações para que o nome de Deus seja glorificado
(Jo 14.13); Jesus nos acolheu para a glória de Deus (Rm 15.7); o plano de Deus é encher
a terra com o conhecimento da glória do Senhor (Hc 2.14). Esses e tantos outros textos
da palavra de Deus não deixam dúvida de que Deus ama a si mesmo, e esse deve ser
também o nosso objetivo e nossa motivação para missões. Por esse motivo é que...
35

Idem, p. 13
Idem, p.14
37
Piper, op cit., p. 17
36

13
II. A Centralidade de Deus na Vida da Igreja
Quando as pessoas não estão maravilhadas pela grandiosidade de Deus, como poderão
ser enviadas para proclamar a mensagem: “grande é o SENHOR e mui digno de ser
louvado, temível mais que todos os deuses” (Sl 96.4)? É essencial que em missões haja
centralidade de Deus na vida da igreja.
A paixão por Deus no culto precede a oferta de Deus na pregação. Não podemos pregar
com convicção aquilo que não estimamos com paixão. “Quando a chama do culto
queima com o calor da verdadeira dignidade de Deus, a luz da obra missionária brilhará
até os povos mais distantes da terra”38 Quando a paixão por Deus está fraca, o zelo por
missões certamente será fraco também. As igrejas que não exaltam a majestade e a
beleza de Deus dificilmente poderão acender um desejo afervescente para “anunciar
entre as nações a sua glória” (Salmo 96.3). O zelo pela glória de Deus no culto é a
grande força motivadora para a obra missionária.
John Piper, cita o seguinte pronunciamento de Andrew Murray há mais que cem anos:
Enquanto buscamos a Deus sobre por que, com tantos milhões de cristãos, o verdadeiro exército
de Deus que está combatendo os exércitos da escuridão é tão pequeno, a única resposta é C falta
de coragem e entusiasmo. O entusiasmo pelo reino de Deus está faltando. E isto é porque há tão
pouco entusiasmo pelo Rei.

Ninguém poderá se dispor à causa missionária se não experimentar a magnificiência de
Cristo (Apocalipse 15.3-4; cf. Salmos 9.11; 18.49; 45.17; 57.9; 96.10; 105.1; 108.3; e
Isaías: 12.4; 49.6; 55.5)
Quero acrescentar ao que Piper e Carriker já disseram que, Calvino também tem este
foco em sua teologia de missões. Para ele tudo na vida deve ser vivido para a glória de
Deus.39 Para Calvino, o fator que deveria motivar as missões mundiais era a glória de
Deus.
Charles Chaney escreve sobre Calvino:
o fato de que a glória de Deus era o motivo primordial nas primeiras missões
protestantes e isto ter se tornado, mais tarde, uma parte vital do pensamento e
atividade missionárias, pode ser traçado diretamente em direção à teologia de
Calvino.40

Precisamos nos voltar para o Todo-Poderoso e buscar a sua glorificação em primeiro
lugar. Deus deve estar no centro de toda e qualquer atividade da igreja. Missões não são
o primeiro e o último, Deus o é. Essa verdade é a vida da inspiração e da perseverança
missionária. O missionário William Carey, chamado de “Pai das missões modernas”, foi
enviado para a Índia em 1793 e expressou assim essa conexão:

38

PIPER, John. Op Cit., p.12
J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message: Some Remarks About the Relation Between Calvinism and
Missions.” Evangelical Quarterly 22 (Jul. 1950): 177.
40
Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” Reformed Review 17 (Mar. 1964):
36-37. See also Samuel Zwemer, “Calvinism and the Missionary Enterprise,” Theology Today 7 (Jul. 1950): 211.
39

14
Quando eu deixei a Inglaterra minha esperança na conversão da Índia era muito forte,
mas, em meio a tantos obstáculos, ela poderia morrer a não ser que fosse sustentada por
Deus: Eu tenho a Deus e sua palavra é verdadeira. Apesar de as superstições dos pagãos
serem milhares de vezes mais fortes do que eles e o exemplo dos europeus milhares de
vezes pior; embora eu tenha sido abandonado e perseguido por todos, ainda assim esta é
minha Fé, firmada na certeza da palavra, que se elevará acima de todos os obstáculos e
superará cada provação. A causa de Deus irá triunfar41

William Carey e milhares como ele têm sido movidos pela visão de um grande e
triunfante Deus. Isso significa ter Deus no centro da vida. A centralidade de Deus deve
ser evidente na vida da igreja e isso é motivação para realização de missões.
III. A glorificação de Deus é o alvo de missões
O culto é o alvo da obra missionária simplesmente porque nosso propósito é levar as nações a
regozijarem-se em Deus e glorificá-Lo acima de tudo. O alvo da obra missionária é a alegria dos
povos na grandeza de Deus (Salmo 97.1; 67.3-4; cf. 47.1; 66.1; 72. 11, 17; 86.9; 102.15; 117.1;
e Isaías 25.6-9; 52.15; 56.7; 66.18-19.
Penso que o culto a Deus como o alvo da obra missionária já se tornou patente como decorrente
de toda a nossa reflexão até este momento. Mas há um aspecto desta verdade que precisamos
explorar mais. É o seguinte: O culto a Deus como alvo da obra missionária ajuda a entender a
própria definição da obra missionária. Pois a obra missionária enfatiza a prioridade de alcançar
povos, ou etnias não alcançadas. Isto se evidencia na repetida descrição bíblica da tarefa
missionária em termos de etnias (Mateus 24.14; 28.18-20; Romanos 15.19-21).
Na Bíblia, a frase, pa,nta ta. e;qnh significa “todas as nações” ou “todas as etnias”. A palavra
na forma singular,εθνοσ de fato, sempre se refere a coletividade dum povo ou duma nação.
Nunca se refere a indivíduos gentílicos. O mesmo é geralmente verdade em relação a εθνοσ, na
forma plural. A frase pa,nta ta. e;qnh quase sempre denota esta referência coletiva na Bíblia,
também. Que a estratégia bíblica seja de alcançar especialmente as etnias não alcançadas é
claro em Romanos 15.19-21. Para muitos cristãos, talvez até a maioria, esta estratégia não
parece muito lógica. Antes alcançar todos os indivíduos ao nosso alcance e semelhantes
culturalmente a nós, que procurar alcançar representantes de etnias que podem ser geografica ou
culturalmente distantes. Parece uma questão de mordomia de esforços.42
Conclusão: A obra missionária começa e termina com o culto prestado à glória de Deus.
Começa, porque somente o culto genuíno e profundo pode motivar adequadamente a igreja para
assumir sua vocação missionária. E termina, porque o alvo último e o fim principal de toda
humanidade é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. E na obra missionária, procuramos levar
as nações à mesma alegria e exaltação que carateriza o nosso culto a Deus. Portanto, quando
afirmamos que a obra missionária é a prioridade penúltima na igreja não estamos diminuindo a
sua importância. Estamos meramente fazendo o que devemos, maximizando a tarefa de
glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. E assim, enxergamos a verdadeira importância da obra
missionária, certamente acima de outras atividades na igreja, isto é estender e diversificar, e
assim intensificar o culto que glorifica e goza Deus entre todas as nações da terra (Apocalipse
5.9-10; 7.9-10).

41

Citado em Alegre-se os Povos de John Piper, Editora Cultura Cristã, a ser lançado.
PIPER, John. Alegrem-se os Povos – A Supremacia de Deus em Missões. São Paulo, SP ( Editora Cultura Cristã:
2001 ) p. 184
42

15

III. A NATUREZA DA TAREFA
MISSIONÁRIA
_________________________

“Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o louvem” Rm 15.11

Qual é a tarefa das missões cristãs?43 Se toda a raça humana está sob condenação por causa do
pecado e excluídas da vida eterna (Ef 2.2-3, 12; 4.17; 5.6) e se invocar a Jesus é sua única
esperança para a comunhão eterna e jubilosa com Deus, então podemos entender que se
amamos estas pessoas, devemos fazer missões? Amor pelos perdidos é uma elevada e

sublime motivação para a obra missionária. Sem isso perdemos a doce humildade de
repartir um tesouro que recebemos de graça. Mas a compaixão pelas pessoas não pode
ser separada do amor a Deus. John Piper nos fornece um motivo adicional do porquê o
amor aos perdidos não pode ser o nosso combustível em missões. Ele afirma que é
impossível amar verdadeiramente aos “perdidos”, pois não conseguimos cultivar um
amor profundo por alguém que conhecemos somente por meio de fotos ou quando
colocados, de um modo mais geral, como uma nação ou um povo, ou algo tão vago
como “todos os perdidos”.44
Vejamos então o que a Escritura nos ensina sobre a natureza da obra missionária:
1) Territórios Não-Alcançados ou Povos Não-Alcançados ?

Desde 197445, a tarefa das missões tem sido focalizada crescentemente na evangelização
de povos não-alcançados46 em oposição à evangelização de territórios não-alcançados.
Naquele ano, no Congresso de Evangelização Mundial de Lausanne, Ralph Winter
acusou o empreendimento missionário ocidental do que ele chamou de “cegueira dos
povos”. Desde aquele tempo, ele e outros têm pressionado incessantemente a
focalização do “grupo de pessoas” no planejamento da maioria das igrejas e
organizações similares voltadas para as missões. A “verdade destrutiva” que ele revelou
em Lausanne foi esta: apesar de o evangelho ter chegado a todos os países do mundo,
quatro de cada cinco não-cristãos estão ainda excluídos da pregação do evangelho
devido não a barreiras geográficas, mas a barreiras culturais e lingüísticas.
Por que esse fato não mais é amplamente conhecido? Receio que toda nossa exultação
pelo fato de todos os países terem sido transpostos permitiu que muitos supusessem
que todas as culturas também foram alcançadas. Esse mal-entendido é uma doença tão
disseminada que merece um nome especial. Vamos chamá-la “cegueira dos povos”,
isto é, cegueira para a existência de povos separados dentro de países – uma cegueira,
posso acrescentar, que parece mais predominante nos Estados Unidos e entre os
missionários norte-americanos do que em qualquer outro47

43

O presente capítulo foi adaptado da obra de John Piper - Alegrem-se os Povos – A Supremacia de Deus em
Missões. São Paulo, SP ( Editora Cultura Cristã: 2001 ) pp. 177 a 230.
44
Piper, Op Cit., p. 178
45
Neste ano foi realizado o Congresso Mundial de Evangelização em Lausane na Suíça.
46
A definição de “povos não-alcançados” é: grupos de pessoas que não possuem entre si um movimento cristão
atuante e/ou números suficientes de cristãos com recursos adequados para evangelizar o restante do grupo ( Winter
em Missões Transculturais – Uma Perspectiva Estratégica. São Paulo, SP Ed Mundo Cristão. 1987 p.712
47
WINTER, RALPH. The New Macedônia: A Revolutinary New Era in Mission Begins, em Ralph Winter e Steven
Hawthorne, eds.; Perspectives on the World Missions Movement ( Pasadena: William Carey Library, 1981, p. 302

16
A mensagem de Winter serviu como um alerta para a igreja de Cristo, reorientando seu
pensamento para que as missões fossem vistas como a tarefa de evangelização dos povos nãoalcançados e não meramente como a tarefa de evangelização de mais territórios.
Extraordinariamente, nos 15 anos seguintes, o empreendimento missionário respondeu a esse
chamado. Em 1989, Winter foi capaz de escrever: “Agora que o conceito de Povos NãoAlcançados foi aceito amplamente, é possível elaborar planos imediatamente... com muito
maior confiança e precisão”.48
Definição de Povos não-alcançados:
O chamado de Deus para missões não pode ser definido em termos de atingir outras culturas
para aumentar o número de indivíduos salvos. Antes, a vontade de Deus para missões é que
cada grupo de pessoas seja alcançado com o testemunho de Cristo, e que as pessoas sejam
chamadas, em seu nome, de todas as nações. Assim é demonstrada a soberania de Deus entre
todas as nações. Somos comissionados para cumprir essa tarefa.
Se a tarefa de missões é alcançar todos os grupos de pessoas não-alcançados do mundo,
necessitamos ter idéia do que significa “alcançado”, de modo que as pessoas chamadas para a
tarefa missionária da igreja conheçam quais os grupos de pessoas a que devem se dirigir e quais
deixar. Paulo deve ter tido alguma idéia do que significava “alcançado”, quando disse em
Romanos 15.23: “ ...não tendo já campo de atividade nestas regiões”. Ele deve ter entendido o
que significava completar a tarefa missionária, quando afirmou em Romanos 15.19: “desde
Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo”. Ele sabia
que sua obra estava concluída naquela região. Eis por que ele dirigiu-se à Espanha. O Encontro
dos Povos Não-Alcançados de 1982, a que nos referimos anteriormente, definiu “nãoalcançados” desta forma: Um grupo de pessoas não-alcançadas é “um grupo de pessoas
dentro do qual não há comunidade nativa de crentes cristãos capazes de evangelizá-los”.
Assim, um grupo seria alcançado quando os esforços da missão tiverem estabelecido uma igreja
nativa que tenha força e recurso para evangelizar o restante do grupo. (Ap 5:9; 7:9; 10:11;
11:9; 13:7; 14:6; 17:15)
fulh/j: descendentes físicos
glw,sshj: comunicação idiomática49.
laou/: grupo etnico50. 24 mil grupos étnicos – 8 mil ainda não alcançados.
e;qnouj: entidade política, fronteiras geográficas

48

RALPH WINTER, Unreached Peoples: Recent Developments in the Concept, Missions Frontiers, Agostosetembro, 1989, p. 18
49 Ronaldo Lidório diz que convivemos hoje com 6528 línguas vivas. 336 possuem a Bíblia completa, 928 o Novo
Testamento completo e 918 grandes porções bíblicas, ou seja a Palavra está expressivamente presente em 2212
línguas. Deixa-nos com mais de 4.000 línguas, minoritárias e faladas por apenas 6% da população mundial, sem nada
da Palavra de Deus. Entretanto tudo isto acontece em um mundo onde 1 bilhão e meio de pessoas, segundo a ONU,
não sabe ler ou escrever. Não poderiam ler a Palavra mesmo se a tivessem em sua própria língua
http://www.monergismo.com/textos/missoes/restaurando_lidorio.htm ). Na Índia com 940 milhões de habitantes tem
17 línguas oficiais e mais de 400 castas relacionadas. Ronaldo Lidório afirma que só em Gana, África entre os
Konkombas há 23 dialetos diferentes. (Cf. Lidório em O Desafio Continua, p. 43)
50
Segundo a Word Mission International há no mundo hoje 2.227 povos que desconhecem totalmente o evangelho de
Jesus em suas vidas.Mas não apenas esses; há outros 4000 povos que possuem igreja, testemunhos, alguma
conversão, mas que não possuem uma igreja forte suficiente para comunicar o evangelho ao restante daquela própria
etnia; temos perante nós um desafio étnico. Dentre as 258 tribos indígenas brasileiras, eu falo isso com muita
vergonha e constrangimento em meu coração, há hoje 103 tribos em nosso país, na nossa circunferência nacional,
totalmente não alcançadas pelo evangelho de Jesus e sem presença missionária. E 40 destas tribos estão com as portas
abertas para alguém que lhes fale de Jesus, mas não há. Estão na espera de uma igreja que, muitas vezes, nunca envia
ou ora por um missionário. (cf. http://www.mhorizontes.org.br/Docs/transparencias/11-tarefainacabada.pdf)

17
II. A Esperança do Antigo Testamento: Todas as Famílias Serão Abençoadas
Essa é uma promessa presente no Antigo Testamento. Na verdade, o Antigo Testamento
está repleto de promessas e expectativas de que Deus será, um dia, adorado por nações
de todo o mundo. Fundamental para a visão missionária do Novo Testamento foi a
promessa que Deus fez a Abraão em Gênesis 12.1-3:
Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu
pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei urna grande nação, e te abençoarei,
e te engrandecerei o nome. Sê tu urna bênção! Abençoarei os que te abençoarem e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da
terra.
Essa promessa de benção universal às “famílias” da terra51 é essencialmente repetida em
Gênesis 18.18; 22.18; 26.4 e 28.14. Em 12.3 e 28.14 a frase hebraica para “todas as famílias”
(kol mishpahot) é traduzida no grego do Antigo Testamento por pasai hai phulai. A palavra
phulai significa “tribos” em muitos contextos. Porém mishpaha pode ser, e usualmente é, menor
que uma tribo. Por exemplo, quando Acã pecou, Israel é investigado em ordem decrescente de
tamanho: primeiro por tribo, em seguida por mishpaha (família) e por fim por pessoa (Js 7.14).
Assim, a bênção de Abraão decorre do propósito divino de alcançar eqüitativamente pequenos
agrupamentos de pessoas. Não precisamos definir esses grupos com precisão para sentir o
impacto dessa promessa.

A palavra hebraica para o termo "família" dá a idéia de uma tenda, um grupo não de
muitas pessoas. Podemos, por meio disso, afirmar que a promessa de alcançar cada
tribo, povo ou nação já está presente no Antigo Testamento. O evangelho não é apenas
para as grandes nações, mas para os pequenos grupos de pessoas também, como as
tribos. Isso deixa claro que nosso empenho evangelístico deve ser muito maior, pois
temos o mandamento de alcançar não somente as nações, mas os pequenos grupos que
as formam.
O que podemos concluir de Gênesis 12.3 e de seu uso no Novo Testamento é que o
propósito de Deus para o mundo é a bênção de Abraão, ou seja, que a salvação
alcançada por Jesus Cristo, a semente de Abraão, possa alcançar todos os grupos étnicos
do mundo. Isso acontecerá quando as pessoas de cada grupo colocarem sua fé em Jesus
Cristo e tornarem-se "filhas de Abraão" e "herdeiros da promessa" (Gl 3.7,29).
Há vários textos que expressam a esperança de que todas as nações louvem ao Senhor:
"Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que
se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação. Louvem-te os povos, ó
Deus; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com
equidade e guias na terra as nações. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos" (Sl
67.1-5).
"E todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações o sirvam" (Sl 72.11).
"Subsista para sempre o seu nome e prospere enquanto resplandecer o sol; nele sejam
abençoados todos os homens, e as nações lhe chamem bem-aventurado" (Sl 72.17).
Há outros textos que expressam a esperança das nações, anunciando os planos do salmista em
fazer sua parte para tornar a grandeza de Deus conhecida entre elas:
51

Ver a exposição de Gn. 12 feita por Gerard Van Groningen. In: Revelação Messiânica no Velho Testamento.
Campinas, SP: Ed. Luz Para o Caminho. 1995 p.123-132

18
“Glorificar-te-ei, pois, entre os gentios, ó SENHOR, e cantarei louvores ao teu nome” (Sl 18.49).
"Render-te-ei graças entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações" (Sl 57.9).
"Render-te-ei graças entre os povos, ó SENHOR! Cantar-te-ei louvores entre as nações" (Sl
108.3).

Esses textos deixam clara a responsabilidade do povo de Deus em proclamar a sua
glória entre as nações. O povo de Deus deve ser canal de bênção para todas as
famílias.52
III. A Prioridade de Paulo por Povos Não-Alcançados.
Isso é notavelmente confirmado em Romanos 15. Aqui se torna evidente que Paulo via o seu
chamado especificamente missionário para alcançar cada vez mais grupos de pessoas e não
apenas mais e mais indivíduos gentios.
Em Romanos 15.8-9 Paulo afirma o duplo propósito para a vinda de Cristo: “Digo, pois, que
Cristo foi constituído ministro da circuncisão [isto é, tornou-se encarnado como um judeu], em
prol da verdade de Deu, para [1] confirmar as promessas feitas aos nossos pais; e para que [2]
os gentios (ta ethne) glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia”. Portanto, o primeiro
propósito para a vinda de Cristo foi provar que Deus é verdadeiro e fiel em manter, por
exemplo, as promessas feitas a Abraão. E o segundo, foi para que as nações pudessem glorificar
a Deus por sua misericórdia.
Esses dois propósitos sobrepõem-se, uma vez que, claramente, uma das promessas feitas aos
patriarcas foi que a bênção de Abraão viria a “todas as famílias da terra”. Isso está em perfeita
harmonia com o que vimos na esperança do Antigo Testamento. Israel é abençoado para que as
nações possam ser abençoadas (Sl 67). De igual modo, Cristo vem a Israel para que as nações
possam receber misericórdia e dar glória a Deus.
IV. A Visão de João sobre a Tarefa Missionária.
A visão da tarefa missionária nos escritos do apóstolo João confirma que a percepção de Paulo
sobre a esperança do Antigo Testamento de alcançar todos os povos não era única entre os
apóstolos. O que transparece do Apocalipse e do Evangelho de João é uma visão que admite a
tarefa missionária principal de alcançar grupos de pessoas, não apenas indivíduos gentios.
O texto decisivo é Apocalipse 5.8-10. João teve um vislumbre do clímax da redenção com a
adoração de pessoas redimidas diante do trono de Deus. A composição daquele grupo é
essencial.
Os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos... entoavam novo cântico, dizendo: “Digno
és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste
para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para o nosso Deus os
constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra”.
A visão missionária por trás dessa cena é que a tarefa da igreja é reunir os redimidos de todos os
povos, língua, tribos e nações (fulh/j kai. glw,sshj kai. laou/ kai. e;qnouj ). Todos os povos
devem ser alcançados porque Deus designou pessoas a crerem no evangelho, as quais ele
redimiu pela morte de seu Filho. O desígnio da redenção prescreve o desígnio da estratégia da
missão. E o desígnio da redenção ( a redenção de Cristo, versículo 9) é universal, pois se
estende a todos os povos, e definitivo, uma vez que efetivamente redime alguns de cada um

52

É esclarecedor o estudo exegético feito por Piper com u uso Singular e Plural de Ethnos no Novo Testamento ( ver
Piper pp. 85-188 ) e o Uso de Pantha Ta Ethne ( ver Piper pp. 188 a 191 )

19
desses povos. Portanto, a tarefa missionária é reunir os redimidos de todos os povos por meio da
pregação do evangelho. ( João 10:16; 11;51,52, Ap 5:9 )
V. Uma Casa de Oração para Todas as Nações.
Outro indicador do modo como Jesus imaginava os propósitos missionários universais de Deus
vem de Marcos 11.17. Quando Jesus limpa o templo, ele cita Isaías 56.7:
Não está escrito: “A minha casa será chamada cada de oração para todas as nações (pa/sin toi/j
e;qnesin)”?
A razão disso ser importante para nós é que ela mostra Jesus buscando no Antigo Testamento
(exatamente como ele faz em Lucas 24.45-47) para interpretar os propósitos universais de
Deus. Ele cita Isaías 56.7, que, em hebraico, diz explicitamente: “A minha casa será chamada
casa de oração para todos os povos ( kol ha’ ammim).
“Assim está escrito” no VT - Sl 22:27 cf. At 1:8; Lc 24:47
O significado de grupo de pessoas é inconfundível. A posição de Isaías não é que todo indivíduo
gentio tinha o direito de permanecer na presença de Deus, mas que haja convertidos de “todos
os povos” que entrarão no templo para adorar. O fato de Jesus estar familiarizado com essa
esperança do Antigo Testamento e ter baseado suas expectativas universais referindo-se a ela
(Mc 11.17; Lc 24.45-47), sugere que devemos interpretar sua “Grande Comissão” nesta mesma
direção – a mesma que encontramos nos escritos de Paulo e João.
VI. Como a Diversidade Magnífica a Glória de Deus.

O grande objetivo de Deus é sustentar e demonstrar a glória de seu nome para o regozijo
de seu povo entre todas as nações. A questão agora é: "Por que Deus mantém o objetivo
de mostrar sua glória por meio da obra missionária entre todas as pessoas do mundo.
Corno o objetivo missionário serve melhor ao propósito de Deus?" Refletindo
bib1icamente sobre o assunto, quatro respostas emergem:
1. Primeiro, há uma beleza e poder no louvor que vem da unidade na diversidade,
que é maior do que aquele vindo da unidade exclusiva. O Salmo 96.3-4 conecta a evangelização
das pessoas com a qualidade de louvor de que Deus é merecedor. “Anunciai entre as nações a
sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas. Porque grande é o Senhor e muito digno de
ser louvado, temível mais que todos os deuses”. Observe a palavra “porque”. A grandeza
extraordinária do louvor que o Senhor deve receber é a base e o ímpeto da nossa missão.
2. segundo, a fama, grandeza e valor de um objeto de beleza aumenta em proporção à
diversidade daqueles que reconhecem sua beleza. Se uma obra de arte é considerada excelente
por um grupo de pessoas pequeno e de mesma opinião e por ninguém mais, a arte com toda
certeza não é verdadeiramente grande. Suas qualidades são tais que não alcançam as
profundezas universais de nossos corações, mas apenas as tendências provinciais. Porém, se
uma obra de arte continua ganhando cada vez mais admiradores, não somente através de
culturas mas também de décadas e séculos, então sua grandeza é irresistivelmente manifesta.
Assim, quando Paulo diz: “Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos os povos o
louvem” (Rm 15.11), ele está expondo que há alguma coisa acerca de Deus que é tão
universalmente digna de louvor, tão profundamente bela, tão compreensivelmente valiosa e tão
profundamente satisfatória que ele encontrará admiradores apaixonados em todo grupo diverso
de pessoas no mundo. A sua verdadeira grandeza será manifesta na amplitude da diversidade
daqueles que percebem e apreciam a sua beleza. Sua excelência será mostrada para ser mais alta
e mais profunda que as preferências limitadas que nos fazem felizes a maior parte do tempo.

20
Seu apelo será para as mais profundas, mais elevadas e mais amplas capacidades da alma
humana. Portanto, a diversidade da fonte de admiração testificará a sua incomparável glória.
3. Terceiro, a força, a sabedoria e amor de um líder são magnificados em proporção à
diversidade de pessoas que ele pode inspirar para segui-lo com alegria. Se você pode liderar
somente um grupo pequeno e uniforme de pessoas, suas qualidades de liderança não são tão
grandes como as que teria se pudesse conquistar seguidores de um grande grupo de pessoas
muito diferentes.
O entendimento de Paulo do que está acontecendo em sua obra missionária entre as
nações é que Cristo está demonstrando sua grandeza, conquistando obediência de todos os
povos do mundo: “Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que
Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras”
magnificada à medida que cada vez mais pessoas diferentes decidem seguir a cristo. É a
grandeza de Cristo. Ele está mostrando-se superior a todos os outros líderes.
4. Por focalizar todos os grupos de pessoas no mundo, Deus eliminou o orgulho
etnocêntrico e recolocou todos os povos sob sua livre graça, em vez de qualquer característica
que possam ter.

Conclusão: O objetivo de Deus em toda a história é sustentar e demonstrar sua glória
para o regozijo dos redimidos de cada tribo, povo, língua e nação. Seu objetivo é a
alegria de seu povo, porque “Deus é mais glorificado em nós quando nós estamos mais
satisfeitos nele”. A maior boa-nova em todo o mundo é que o objetivo de Deus é ser
glorificado, e o objetivo do homem estar satisfeito não são probabilidades, mas verdades
da Palavra de Deus.
A igreja deve engajar-se com o Senhor da glória em sua causa. É nosso grande
privilégio alcançar com ele, no maior movimento da história, a reunião dos eleitos "de
toda tribo, língua, povo e nação" até que se complete o número dos eleitos e todo Israel
seja salvo, e o Filho do homem desça com poder e grande glória, como Rei dos reis e
Senhor dos senhores, e a terra esteja cheia de sua glória, assim como as águas cobrem o
mar para sempre e sempre. Então, a soberania de Cristo será manifesta a todos, e ele
entregará o Reino a Deus, o Pai, e Deus será tudo em todos.

21

IV. A NECESSIDADE DAS MISSÕES
____________________________
Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe
nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que
sejamos salvos. At 4:12

Questão para debate: Há pessoas devotas em outras religiões, as quais coinfiam humildemente
na graça de Deus que conhecem por meio da Revelação geral (Rm 1:19-21) e assim recebem a
salvação eterna? As Pessoas Devem Ouvir o Evangelho de Jesus Cristo para Serem Salvas?53
Quem nunca fez uma destas perguntas: “os que jamais ouviram o Evangelho estão perdidos?”;
ou então “os índios vão ser salvos?”. Em nossas classes de escolas dominicais, ou nas
conversas sobre evangelismo e missões, sempre surgem dúvidas como essas. Normalmente
nossas respostas são muito evasivas, se é que temos alguma. Não refletimos sequer nas
implicações que elas possam vir a ter. Teólogos, pastores e seminaristas fazem a mesma
indagação e procuram investigar o assunto sob uma perspectiva bíblica, teológica e filosófica.
Três pontos de vista sobre o destino dos não-evangelizados54.
1) Inclusivismo: Alguns teólogos acreditam que mesmo aquelas pessoas que nunca
ouviram o evangelho podem ser salvas. Se, através da criação – revelação geral –
vierem a crer em Deus, ainda que não conheçam a Jesus, serão redimidas de seus
pecados. Dizem que qualquer religião pode ser um instrumento útil para aproximar a
pessoa de Deus. Isso é chamado de “inclusivismo”, porque Deus inclui todos em sua
graça, antes de excluí-las no julgamento. Mas a fundamentação bíblica desse ponto de
vista é muito questionável.
Este posicionamento é fruto da ambiência pós-moderna e do mundo globalizado. Ricardo
Barbosa explica este ponto:
Vivemos o risco de um novo modelo de intolerância. Afirmar a centralidade da obra de Cristo já
pode ser visto como preconceito.Uma das contradições da cultura pós-moderna e globalizada é
sua capacidade de romper fronteiras e preconceitos, tornando-a mais inclusiva e, ao mesmo
tempo, criar outras fronteiras e preconceitos, tornando-a extremamente exclusiva e violenta. Nas
últimas décadas, a civilização ocidental tem feito um enorme esforço para diminuir as distâncias
entre as raças, romper com os preconceitos e a discriminação sociais e criar uma sociedade
menos violenta e mais aberta à inclusão das minorias55

O que o chamado inclusivismo defende é que uma tolerância perigosa para o cristianismo.
Como bem afirmou James Houston, o que ele chamou de uma nova forma de fundamentalismo,
o da “democracia liberal”, que impõe sobre nós a obrigação de aceitar e admirar tudo aquilo que
contraria princípios e valores que fazem parte da consciência cristã. Esta tolerância oriunda do
cenário globalizado, também agora está questionando a questão da centralidade da morte e
ressurreição de Cristo para a vida e a necessidade das pessoas ouvirem sobre Cristo para serem
salvas. Imagino que, mais cedo do que pensamos, enfrentaremos uma forte resistência à
afirmação bíblica de que Jesus é “o caminho”, “a verdade”, “a vida”, de que ele é “o único
Senhor”, de que “não há salvação fora dele” e de que ele é o “único que pode perdoar nossos
53

Texto extraído e adaptado do livro de John Piper – Alegrem-se os Povos: A Supremacia de Deus em Missões, São
Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2001. pp. 124-176
54
Sobre este tema há um livro que sugiro seja consultado por aqueles que queiram aprofundar um pouco mais esta
três posições: Donald E. Price, org. Que Será dos Que Nunca Ouviram? São Paulo, SP: Ed. Vida Nova. 2004.
55
Cf. http://www.monergismo.com/textos/pos_modernismo/pos_modernidade_singularidade_cristo.htm capturado
em 27/01/2006.

22
pecados”. Todas essas afirmações são, por si, uma agressão ao espírito “democrático” da
sociedade pós-moderna. Como vamos ver no terceiro ponto de vista sobre a necessidade de se
ouvir sobre Jesus, afirmar a exclusividade de Cristo implica na negação e rejeição de qualquer
outro nome que possa nos reconciliar com Deus, e isso soa como um preconceito, uma forma de
discriminação inaceitável. Afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus e que só ela traz a revelação
do propósito redentor de Jesus é também uma afirmação que pode ser considerada
preconceituosa, uma vez que nega todas as outras formas de revelação.
2) Perseverança Divina: Outros dizem que ninguém será salvo com base no
conhecimento que possam ter de Deus através da natureza. No entanto, chegam ao
absurdo de afirmar que, logo após a morte, aqueles que nunca ouviram o Evangelho
terão uma oportunidade de dizer “sim” ou “não” a Jesus. Deus concederá a todos os
homens a chance de ouvir o evangelho e optar, ou não, pela redenção trazida por Jesus.
Tomam por base alguns textos difíceis de 1 Pedro (como o cap. 3: 18ss). Dão ao seu
ponto de vista o nome de “perseverança divina” ou “evangelismo post-mortem”
3) Exclusivismo (restritivismo):56 Há também os teólogos que ensinam não haver
qualquer oportunidade de salvação para o homem, se não existir conhecimento de
Cristo e uma resposta pessoal e consciente ao seu chamado. Essa posição é
conhecida como “exclusivismo”; às vezes também “restritivismo”. Para que alguém
seja salvo, é fundamental ouvir o Evangelho nesta vida e fazer uma decisão por Jesus.
Essa é a interpretação que mais parece se afinar ao ensino geral das Escrituras
Sagradas.

Essas três opiniões têm alguns pontos interessantes de semelhança bem como
diferenças. Como já foi observado, todas as três afirmam que a salvação em Jesus é a
palavra final bem como a singularidade dessa salvação. O restritivismo e o inclusivismo
concordam, numa posição contrária à defendida pela perseverança divina, que nosso
destino já está selado no momento da morte e que não existe nenhuma oportunidade de
salvação após ela. O restritivismo e a perseverança divina concordam, contrariamente
ao inclusivismo, que o conhecimento da mensagem do evangelho é uma condição
necessária para a salvação. Mas discordam sobre se a mensagem deve ser apresentada
por um agente humano antes da morte. O inclusivismo diverge das duas outras opiniões
ao sustentar que Deus concede salvação mesmo onde o Evangelho é desconhecido. O
inclusivismo e a perseverança divina afirmam que Deus, em Jesus Cristo, torna a
salvação disponível a todas as pessoas que já viveram, ao passo que o restritivismo nega
isso.
Deve-se observar que há outras opiniões quanto ao destino dos nãoevangelizados que não estamos discutindo aqui. Podem ser resumidas assim:

56

Alguns advogam um completo agnosticismo, dizendo que nós não temos
informação bíblica suficiente para justificar uma conclusão sobre o assunto.

Alguns teólogos católicos romanos propõem uma versão da evangelização postmortem chamada de teoria da opção final. Eles crêem que Cristo encontra todas
as pessoas no momento em que estão morrendo – não depois da morte – dandolhes uma oportunidade de conversão.

Cf. Artigo de Ronald Nash “Restritivismo”

23

Alguns, como John R. W. Stott, são otimistas de que Deus irá salvar a grande
maioria da raça humana, muito embora eles não saibam como Deus irá realizar
isso. Isto é, eles se recusam a tomar uma posição quanto ao método que Deus
usa para salvar os não-evangelizados, embora afirmem que Ele o faz.

Outros, como J. I. Packer, têm uma posição mais pessimista, asseverando que,
embora talvez seja possível que Deus proveja um meio de salvação para alguns
dos não-evangelizados, o melhor é permanecer negando essa possibilidade. Isto
é, pode ser que Deus o faça, mas não temos razão para pensar que Ele o fará.
Pontos de Vista Sobre o Destino dos Não-Evangelizados
Restritivismo

Inclusivismo

Perseverança Divina ou Evangelismo
Post-mortem
Definição:
Definição:
Definição:
Deus não provê salvação para Os não-evangelizados podem vir a ser Os não-evangelizados recebem uma
aqueles que não ouvem acerca de salvos, se responderem a Deus em fé, oportunidade de crer em Jesus depois
Jesus e, conseqüentemente, não baseados na revelação que possuem. da morte.
crêem nEle antes da morte.
Textos-chaves:
Jo 14.6
At 4.12
1Jo 5.11-12

Textos-chaves:
Jo 12.32
At 10.43
1Tm 4.10

Textos-chaves:
Jo 3.18
1Pe 3.18 – 4.6

Representantes:
Agostinho
João Calvino
Jonathan Edwards
Carl Henry
R. C. Sproul
Ronald Nash

Representantes:
Justino Mártir
John Wesley
C. S. Lewis
Clark Pinnock
Wolfhart Pannenberg
John Sanders

Representantes:
Clemente de Alexandria
George MacDonald
Donald Bloesch
George Lindbeck
Stephen Davis
Gabriel Fackre

OBS: Todos os representantes mencionados desses pontos de vista concordam que Jesus é único Salvador.

A supremacia de Deus nas missões é confirmada biblicamente pela afirmação da supremacia de
seu Filho, Jesus Cristo. É uma verdade surpreendente do Novo Testamento que, desde a
encarnação do Filho de Deus, toda fé salvadora deve, dali por diante, se fixar nele. Isso nem
sempre foi verdade, por isso aqueles tempos eram chamados “tempos da ignorância” (At 17.30).
Mas agora é e Cristo tornou-se o centro consciente da missão da igreja. O objetivo das missões é
levar “graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os
gentios” (Rm 1.5). Isso é mais uma coisa nova que ocorreu com a vinda de Cristo. A vontade de
Deus é glorificar seu Filho, fazendo-o foco consciente de toda a fé salvadora.
1. Há Necessidade de Consciência da Fé em Cristo?
Poderia alguma pessoa ser salva sem que tivesse sido evangelizada e tivesse consciência de ter
obtido salvação cm Cristo Jesus? Alguns evangélicos afirmam somente que não sabem
responder a essa pergunta, enquanto outros dizem que Cristo é o único meio de salvação, mas
que salva alguns que nunca ouviram dele por meio de uma fé que não tem a Cristo como foco
consciente. Será, então, realmente necessário que as pessoas ouçam de Cristo para que sejam
salvas?
Esse tipo de pensamento elimina a idéia de urgência na evangelização. Se as pessoas podem ser
salvas sem que tenham ouvido de Cristo, por que sair por aí evangelizando, fazendo missões?
Deus salvará aqueles que quer de um modo ou de outro. Mas não é isso o que nos ensina a
Palavra de Deus.

24

Haverá um inferno de tormento consciente para aqueles que possuem uma fé cujo foco não seja
o Senhor Jesus Cristo. Veja o que diz Daniel 12.2: "Muitos dos que dormem no pó da terra
ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno". Apren demos
ainda que haverá um castigo eterno: “A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua
eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em logo inextinguível" (Mt 3.12);
"...se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida
manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno" (Mt
18.8). O fogo é eterno, sem fim. Não há como negar sua existência.
O inferno é uma terrível realidade. Por quê? Porque os infinitos horrores do inferno têm o
objetivo de demonstrar o infinito valor da glória de Deus, a qual eles rejeitaram. A compreensão
bíblica da justiça do inferno é um claro testemunho de que o pecado deixou de glorificar a Deus.
Se não houver fé consciente no Senhor Jesus, o resultado será o castigo eterno.
2. A Necessidade da Redenção de Cristo para a Salvação.
Há pessoas que podem ser salvas de outras maneiras do que pela eficácia da obra de Cristo? As
outras religiões e as provisões que elas oferecem são suficientes para levar as pessoas à
felicidade eterna com Deus? Os seguintes textos bíblicos levam-nos a crer que a redenção de
Cristo é necessária para a salvação de todo aquele que é salvo. Não há salvação fora daquela que
Cristo conquistou com sua morte e ressurreição.
Se pela ofensa de um, e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que
recebem a abundancia da graça e o dom da justiça, reinarão em vida por meio de um
só, a saber, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos
os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre
todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como pela desobediência de
um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência
de um só muitos se tornarão justos. ( Rm 5:17-19 )
O aspecto fundamental aqui é a universidade da obra de Cristo, ou seja, não se limita
meramente aos judeus. A obra de Cristo, o segundo Adão, corresponde à obra do primeiro
Adão. Assim como o pecado de Adão leva à condenação de toda a humanidade que se uniu a ele
como seu cabeça, assim a obediência a Cristo conduz à justiça de toda a humanidade que está
unida a ele como seu cabeça – “os que recebem a abundância da graça” (v. 17). A obra de Cristo
na obediência da cruz é retratada como a resposta divina para a condição de toda a raça humana.
( Cf.: I Co 15:21-23; I Tm 2:5; Ap 5:9-10; At 4:12; Rm 3:23-25 )
4. “Abaixo do Céu não Existe Nenhum Outro Nome”, Atos 4.12
A razão dessa mensagem salvar é que ela proclama o nome que salva-o de Jesus.
Pedro disse que Deus visitou os gentios “a fim de construir dentre eles um povo para o seu
nome” (At 15.14). É evidente, pois, que a proclamação pela qual Deus escolhe um povo para o
seu nome seria a mensagem que depende do nome do seu Filho Jesus.
Isso é, na verdade, o que vimos na pregação de Pedro na casa de Cornélio. O sermão
atinge seu clímax com estas palavras sobre Jesus: “Por meio de seu nome, todo aquele que nele
crê recebe remissão de pecados” (At 10.43). A necessidade implícita de ouvir a aceitar o nome
de Jesus que vemos na história de Cornélio é tornada explicita em Atos 4.12, no clímax de outro
sermão de Pedro, desta vez perante os líderes judeus em Jerusalém.
A situação por trás dessa famosa declaração é que o Jesus ressurreto curou um
homem por meio de Pedro e João. O homem era coxo de nascença, mas se levantou e correu
pelo Templo louvando a Deus. Juntou-se uma multidão e Pedro pregou. Sua mensagem tornou

25
evidente que o que estava em jogo aqui não era meramente um fenômeno religioso. Aquilo dizia
respeito a qualquer um no mundo.
Então, de acordo com Atos 4.1, os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus
vieram e prenderam Pedro e João, colocando-os em um cárcere até o dia seguinte. Na manhã
seguinte as autoridades, os anciãos e os escribas reuniram-se e interrogaram Pedro e João. No
curso do interrogatório, Pedro expôs a implicação do senhorio universal de Jesus: “Não há
salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os
homens, pelo qual importa que sejamos salvos”.
Precisamos sentir a força dessa alegação universal atentando para as várias expressões
muito seriamente. A razão de não haver salvação em nenhum outro é que “abaixo do céu não
existe nenhum outro nome (não apenas nenhum outro nome em Israel, mas nenhum outro nome
abaixo do céu, incluindo o céu sobre a Grécia, Roma, Espanha etc), dado entre os homens (não
apenas entre os judeus, mas entre todos os humanos de todos os lugares), pelo qual importa que
sejamos salvos”. Essas duas frases, “abaixo do céu” e “entre os homens”, reforçam a alegação
da universalidade em sua extensão mais plena.
Porém, há ainda aqui mais coisas que precisamos ver. Geralmente a interpretação dos
comentaristas de Atos 4.12 é que, sem a crença em Jesus, uma pessoa não pode ser salva. Em
outras palavras, Atos 4.12 é visto como um texto essencial para responder à indagação de que
aqueles que nunca ouviram o evangelho de Jesus podem ser salvos. Mas Clark Pinnock
representa outros que dizem que “Atos .12 não diz coisa alguma sobre [essa questão]. ... ele não
faz nenhuma observação sobre o destino do pagão. Embora essa seja uma questão de grande
importância para nós não há ninguém a respeito de quem Atos 4.12 expresse um julgamento,
quer positivo ou negativo”. Pelo contrário, o que Atos 4.12 diz é que “a salvação em sua
plenitude é disponível à humanidade somente porque Deus, na pessoa de seu Filho Jesus,
proveu-a”. Em outras palavras, o versículo afirma que a salvação vem somente por meio da
obra de Jesus e não apenas pela fé em Jesus. Sua obra pode beneficiar aqueles que têm um
relacionamento particularmente com Deus sem ele, por exemplo, com fundamento na revelação
geral na natureza.
O problema com a interpretação de Pinnock é que ela não considera o verdadeiro
significado da focalização de Pedro sobre o “nome” de Jesus. “Abaixo do céu não existe
nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos”. Pedro está dizendo alguma coisa a
mais do que não haver outra fonte de poder salvador e que você pode ser salvo por algum outro
nome. O fato de dizer que “não existe nenhum outro nome” significa que somos salvos por
invocar o nome do Senhor Jesus. Invocar seu nome é a nossa entrada na comunhão com Deus.
Se alguém é salvo por Jesus incógnito, não pode falar que foi salvo por seu nome.
Observamos anteriormente que Pedro afirmou em Atos 10.43: “Por meio de seu
nome, todo o que nele crê recebe remissão de pecados”. O nome de Jesus é o foco da fé e do
arrependimento. A fim de crer em Jesus para obter o perdão dos pecados, você deve crer em seu
nome. O que significa que você precisa ouvir a respeito. Dele e saber que ele é um homem
especial que fez uma obra salvadora especifica e levantou-se dentre os mortos.
A finalidade de Atos 4.12 para as missões é tornada explicita pelo modo como Paulo
colocou a questão do “nome do Senhor” Jesus em Romanos 10.13-15. Voltaremos a essa
passagem agora e veremos que as missões são essenciais precisamente porque “todo aquele que
invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E
como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?”
Algo de imenso significado histórico aconteceu com a vinda do Filho de Deus ao
mundo. Tão grande foi o significado desse evento que o foco da fé salvadora, desde então, teve
seu centro em Jesus somente. Tão repleto estava Cristo da revelação de Deus e de todas as

26
esperanças do povo de Deus que, desde então, seria urna desonra para ele que a fé salvadora
repousasse em qualquer outro que não nele. Havia uma verdade que não estava completa e
claramente revelada antes da vinda de Cristo. Essa verdade, agora revelada, é chamada de
mistério de Cristo, porque é a verdade, vinda por meio do evangelho, o qual está sobre Cristo.
O evangelho não é a revelação de que as nações já pertencem ao Senhor. Ele é o
instrumento para trazer as nações para o estado de salvação. O mistério de Cristo está
acontecendo por meio da pregação do evangelho. Portanto, ninguém pode ser salvo se não tiver
ouvido o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
5. Como Crerão Nele?
Vimos que há necessidade da consciência de fé em Cristo para salvação e de que há
somente um mediador entre Deus e os homens, e estes não podem ser salvos sem ter ouvido de
Jesus. Se há necessidade de ouvir, é preciso que haja quem pregue.
Em Romanos 9.30-10.21, o apóstolo Paulo apresenta Jesus como sendo o foco da fé
salvadora. É nesse contexto que ele cita o profeta Joel: "... acontecerá que todo aquele que
invocar o nome do SENHOR será salvo" (10.9); e, depois, como cita Isaías 28.16: “Todo aquele
que nele crê não será confundido" (10.11). Paulo quer deixar claro que nessa nova era da
história da redenção, Jesus é o objetivo e o clímax do ensino do Antigo Testamento e, então, é o
Mediador entre o homem e Deus como objeto da fé salvadora.
A seqüência de versos é muito familiar e com freqüência é citada em relação á obra
missionária: "Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de
quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem
enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!" (Km
10.14-15).
Mas como esses versículos se encaixam na linha de pensamento de Paulo. Por que no
seu inicio há a expressão "porém"? Por que o verso seguinte (16) começa assim: “Mas nem
todos obedeceram ao evangelho"?
A resposta parece ser a seguinte: O "porém" no inicio do verso 14 e o "mas" no inicio
do verso 16 apontam para o fato de que a série de questões nos versos 14 e 15 são realmente o
relato de que Deus já havia trabalhado para trazer, sob essas condições, o chamado para a
salvação no Senhor Jesus. Portanto, o ponto principal nos versos 14-16 é que, embora Deus
tenha providenciado os pré-requisitos para o chamado no Senhor, eles, entretanto, não
obedeceram.
O que fica claro é que o povo do Antigo Testamento pôde ouvir de Jesus, ou da
promessa da sua vinda, mas não deu crédito á Palavra de Deus. Eles também ouviram do
evangelho. A salvação já implicava na necessidade de ouvir sobre Cristo, e nele crer. Mas para
que isso aconteça, é preciso que alguém pregue. É necessário que os pregadores do evangelho
sejam enviados. Isso é a realização da obra missionária.
Conclusão: Jesus Cristo é o foco consciente da fé salvadora. Não há meio de as pessoas serem
salvas, senão por intermédio de sua obra expiatória. É preciso que as pessoas ouçam a
mensagem do evangelho e creiam em Jesus para que sejam salvas. Nesse contexto, a igreja
possui a função de pregar o evangelho, de levar a mensagem de salvação ás pessoas. Essa é uma
grande responsabilidade, pois sabemos que não há como ser salvo sem ouvir o evangelho do
Senhor Jesus Cristo. "E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não
há quem pregue?"

27

MISSIOLOGIA
Uma Perspectiva Cultural
Rev. Gildásio Reis

Dificilmente uma pessoa poderá sentir as dificuldades do trabalho missionário a menos que
esteja envolvida ativamente neste campo. Tais dificuldades parecem ser maiores quando o
trabalho missionário se dá em uma outra cultura que não a do missionário. As diferenças
culturais e as surpresas são incalculáveis. De maneira nenhuma, o missionário pode comunicar
bem o evangelho, se ele desconhecer a cultura das pessoas que irão ouvi-lo.
Bruce Niholls afirma o seguinte:
Os comunicadores evangélicos frequentemente substimam a importância dos fatores
culturais na comunicação. Alguns se preocupam tanto com a preservação da pureza do
evangelho e das suas formulações doutrinárias que têm sido insensíveis aos padrões de
pensamento e comportamento culturais das pessoas às quais proclamam o evangelho.57

É inquestionavelmente e universalmente aceito entre os missiólogos e missionários, que é
praticamente impossível comunicar o evangelho de maneira que faça sentido em circunstâncias
transculturais sem que seus comunicadores conheçam a cultura daqueles que eles desejam
alcançar. Nesta parte do nosso curso de missiologia pretendemos dar uma visão geral dos
fatores envolvidos na comunicação transcultural do evangelho.
Um Modelo tricultural de Comunicação Missionária58

CULTURA DA BÍBLIA

CULTURA DO
MISSIONÁRIO

CULTURA DO
RECEPTOR

I. QUEM É O HOMEM?
Para começarmos a entender o que significa a expressão “ser humano”, é preciso alargar nossa
visão para contemplar toda a diversidade de tipos, costumes e valores que constitui nossa
espécie. As pessoas se diferenciam biológica e psicologicamente. Distinguem-se nas sociedades
que organizam, nas culturas que criam; e essas diferenças levantam questões filosóficas e
teológicas profundas.

57

NICHOLLS, Bruce. Contextualização: Uma teologia do Evangelho e Cultura. São Paulo, SP: Edições Vida Nova.
1983. p. 8
58
HESSELGRAVE, David J. in: A Comunicação Transcultural do Evangelho. São Paulo. Vida Nova, 1995. Vol. 1
p. 92

28
Apesar das muitas diferenças temos também que admitir que existem muitos pontos em comum
entre os grupos humanos, caso contrário seria impossível culturas diferentes se relacionarem
entre si. Por exemplo: compartilhamos a maior parte das funções fisiológicas; respondemos aos
mais diferentes estímulos da mesma forma; experimentamos alegrias e sofrimentos, etc.
Além disso, o cristianismo acrescenta outros aspectos universais aos já mencionados: fomos
feitos à imagem e semelhança de Deus nosso criador (Gn.1:26), todavia todos pecamos e
carecemos de Deus mas a salvação está ao alcance de todos através de Jesus Cristo (Rm. 3:2126). Essa unidade na diversidade se reflete na essência e natureza da Igreja, onde apesar de
todas as diferenças possíveis e imagináveis há uma só mensagem e um só Deus.
1) O ser humano a partir de uma abordagem integrada (ciência + teologia)
Uma abordagem holística do homem: Aprender o que a ciência e a teologia têm para nos ensinar
acerca das pessoas e entrelaçar essas idéias em um entendimento amplo do homem como ser
integral, percebendo que o nosso conhecimento sempre é imperfeito e incompleto.59

Paul G. Hiebert, O Evangelho e a Diversidade das Cultura.

Infelizmente, no último século ciência e teologia têm se confrontado em várias frentes, cada
uma tendendo a reivindicar uma visão ampla e clara da realidade e, propositadamente,
ignorando os achados de uma e outra parte. Mas ocorre que cada vez mais se toma consciência
de que a realidade é muito mais complexa do que podemos captar ou explicar e, na melhor das
hipóteses, ciência e teologia estão a vê-la de perspectivas diferentes. A ciência nos oferece
idéias sobre várias estruturas da realidade empírica. A teologia nos oferece uma visão geral da
construção, do construtor, dos acontecimentos-chaves na sua história.60
É bom lembrar, porém, que a essa complementaridade nem sempre significará concordância
entre a ciência e a teologia. Quando surgem divergências, precisamos reexaminar nossa ciência
e nossa teologia à luz das Escrituras e da criação, visto que Deus é a fonte de ambas.
2) O Homem criado à Imagem e Semelhança de Deus.
O homem distingue-se das demais criaturas de Deus, porque foi criado de uma maneira singular.
Apenas do homem é dito que ele foi criado à imagem de Deus61. Esta expressão descreve o
homem na totalidade de sua existência, ele é um ser que reflete e espelha Deus. ( Gn 1:26-28).
O conceito de imagem de Deus é o coração da antropologia cristã.

59

HIEBERT, Paul G., O Evangelho e a Diversidade das Culturas. São Paulo, SP: Ed. Vida Nova 1999. p. 25
HIEBERT Paul G. Op Cit., p. 26
61
TIL, Cornelius Van. Apologética. Apostila traduzida por João Alves dos Santos. P. 11
60

29

Dr. Van Groningen assevera que:
Ao criar a humanidade à sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na qual a
humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito Rei-Criador. A
humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais como "retidão e verdadeira
santidade"... e seu "conhecimento" ( Cl 3:10 ). A humanidade deveria dar expressão ás funções
divinas em ralação ao cosmos e atividades tais como encher a terra, cultivá-la e governar sobre o
mundo criado. A humanidade em uma forma física, também refletiria as próprias capacidades do
Criador: apreender, conhecer, exercer amor, produzir, controlar e interagir 62

Percebemos nas palavras do Dr. Van Groningen que ele apresenta a imagem de Deus como
tendo uma tríplice relação: Relação com Deus,Relação com o próximo Relação e com a criação.
Quando lidamos como o homem, não importa a cultura em que está inserido, ele terá alguns
atributos da Imagem de Deus nele. Todo homem, em qualquer parte do planeta, reflete alguns
atributos “essenciais” sem os quais ele não poderia continuar sendo o que é, homem 63:
a) Poder intelectual: É a faculdade de raciocinar, inteligência e outras capacidades intelectivas
em geral, que refletem aquilo que Deus tem.
b) Afeições naturais: É a capacidade que o homem tem de ligar-se emocionalmente e
afetivamente a outros seres e coisas. Deus tem esta capacidade.
c) Liberdade moral: Capacidade que o homem tem de fazer as coisas obedecendo a princípios
morais.
d) Espiritualidade: A Escritura diz que o homem foi criado “alma vivente” (Gn 2:7). É a
natureza imaterial do homem. Deus é espírito, e num certo sentido, o homem tem traços
desta espiritualidade.
e) Imortalidade: Depois de criado, o homem não deixa mais de existir. A morte não é para o
corpo, mas para o homem. Morte é separação e não cessação de existência. A imortalidade é
essencial para Deus (I Tm 6:16). O homem, num caráter secundário derivado, passa a Ter a
imortalidade.
3) A queda e a Imagem Desfigurada
Como sabemos, este estado de integridade ("posso não pecar") não foi mantido até o fim pelos
nossos primeiros pais. Veio a desobediência e consequentemente a queda. Nossos primeiros
pais, criados para refletir e representar Deus não passaram no teste. Provados, caíram e
deformaram a imagem de Deus neles.
Podemos fazer a seguinte pergunta: Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a Imago Dei
? Respondemos que em seu aspecto estrutural ou ontológico ( aquilo que o homem é ), não foi
eliminado com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o aspecto funcional
(aquilo que o homem faz) da imago Dei, seus dons, talentos e habilidades passaram a ser
usados para afrontar a Deus.
Para Calvino, a imagem de Deus não foi totalmente aniquilada com a Queda, mas foi
terrivelmente deformada Ele descreveu esta imagem depois da queda como "uma imagem
deformada, doentia e desfigurada" .64
O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta condição
restaurada. Restauração esta que se estenderá por todo o processo da redenção. Esta renovação
62

GRONINGEN, Gerard Van, Revelação Messiânica no Velho Testamento . São paulo, Campinas: Editora Luz para
o Caminho. 1995
63
Extraído adaptado de Apostila do Dr. Héber C. de Campos, Antropologia em curso ministrado no CPPGAJ.
64
CALVINO, João. As Institutas, I, XV, 3

30
da imagem original de Deus no homem significa que o homem é capacitado a voltar-se para
Deus, a voltar-se para o próximo e também voltar-se para a criação para governá-la.
4) Cristo e a Imagem Renovada
Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas também
num sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem. Esta restauração da imagem só é possível
através de Cristo, porque Cristo é a imagem perfeita de Deus, e o pecador precisa agora tornarse mais semelhante a Cristo. Lemos em Cl. 1:15 "Ele é a imagem do Deus invisível" e em
Romanos 8:29 que Deus nos predestinou para sermos "Conforme a imagem de Seu Filho ..." ( I
Jo 3:2; II Co 3:18 )
5) A Imagem Aperfeiçoada
A completação da perfeição dos cristãos será a participação da final glorificação de Cristo
Jesus. Não somos apenas herdeiros de Deus, mas também co-herdeiros com Cristo, "Se com ele
sofremos, para que também com ele sejamos glorificados" ( Rm 8:17 ). Não podemos pensar
em Cristo separado de seu povo, nem de seu povo separado dele. Assim será na vida futura: a
glorificação dos cristãos ocorrerá junto com a glorificação do Senhor Jesus . É exatamente isto
que Paulo nos ensina em Cl 3:4 :
"Quando Cristo que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com
ele, em glória" A glorificação é voltar à perfeição com a qual fomos criados por Deus, é voltar
a imagem de Deus. Este é o propósito último de nossa redenção. Esta perfeição da imagem será
o auge, a consumação do plano redentivo de Deus para o seu povo. E isto só é possível em
Cristo.
Em Cristo, o eleito não apenas volta ao que era Adão antes de pecar, mas vai um pouco mais à
frente:
Note as palavras de Anthony Hoekema:
Devemos ver o homem à luz de seu destino final (...) Adão ainda podia perder a impecabilidade e
bem aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá mais ocorrer. Adão era "Capaz de
não pecar e morrer"(posse non peccare et mori), os santos na glória, porém "não serão capazes de
pecar e morrer" (non posse peccare et mori). Esta perfeição, que não se poderá perder, é aquilo
para o qual o homem foi destinado e nada menos do que isto 65

Sabemos que os santos glorificados, em seu estado final não vão pecar nem morrer. Várias
passagens das Escrituras nos garantem isto. (Is. 25:8 I Cor. 15:42,54 ; Ef. 5:27 ; Ap. 21:4)
Paulo em sua carta aos Efésios nos ensina que o propósito de Deus para sua igreja, é apresentála "a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e
sem defeito" (cf. Ef. 5:27)
Nesta dispensação, até a Segunda Vinda de Cristo, carregamos conosco, conforme lemos em I
Cor. 15:49, a "imagem do que é terreno", mas na glorificação, teremos plena e perfeitamente a
"imagem do celestial", ou seja, a imagem de Cristo. No porvir, nossa vida será gloriosa, porque
teremos a imagem de Cristo, seremos como Ele é, e Cristo sendo a imagem de Deus, teremos a
imagem de Deus de volta em nós de forma completa e perfeita.

65

HOEKEMA, Anthony. Criados Á Imagem de Deus. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã , 1999, 108

31
Calvino comentando este texto de I Cor. 15:49 diz:
Pois agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela diária e
paulatinamente; porém esta imagem depende da regeneração espiritual. Mas depois seremos
restaurados à plenitude, que em nosso corpo, quer em nossa alma, o que agora teve início será
66
levado à completação, e alcançaremos, em realidade, o que agora esperamos

Note ainda as palavras de João: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se
manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes
a Ele, porque havemos de vê-lo como ele é" I Jo. 3:2
O que João nos diz, é que, na ocasião da Segunda Vinda de Cristo, seremos assemelhados a
Ele, perfeita e completamente. E como Cristo é a imagem de Deus invisível, os santos
glorificados terão a imagem de Cristo. Isto significa dizer que a nossa imagem na glorificação,
será restaurada à imagem de Deus. Esta semelhança a Deus e a Cristo é o propósito final da
nossa redenção, ou seja, a glorificação.
Por enquanto, a imagem de Cristo em nós está em processo contínuo conforme nos diz Paulo
em II Cor. 3:18 que estamos "sendo transformados de glória em glória" , mas após a nossa
ressurreição, poderemos refletir a perfeição desta imagem, que Deus começou em nós, e assim,
só então, poderemos ser tudo aquilo para o qual fomos destinados pelo Pai.
Neste processo de restauração da imagem de Deus em nós, através de Cristo, chamamos de
santificação que é a "conformidade progressiva à imagem de Cristo aqui e agora (...); a glória
é a conformidade perfeita a imagem de Cristo lá e então, Santificação é a glória começada;
glória é a santificação completada" 67
Gerrit C. Berkouwer, teólogo holandês, nos mostra que a verdadeira imagem de Deus se pode
conseguir apenas em Jesus Cristo que é a imagem perfeita de Deus. Ser renovado á imagem de
Deus é tornar-se parecido com Jesus68
Todo o povo de Deus, de todas as nações, tribos, línguas, estará então com Deus por toda a
eternidade, glorificando a Deus pela adoração, serviço e louvor. Todos nossos atos serão enfim
feitos sem pecado com perfeição e aí o propósito que Deus estabeleceu para seus remidos terá
sido alcançado.
II. A CULTURA
1) O que não é cultura?
Cultura é uma palavra comum! Normalmente nos referimos a uma pessoa como culta porque
possui um elevado grau de estudo, ou porque ouve música clássica e ópera, ou porque fala
várias línguas, ou por vários outros motivos que, via de regra excluem pessoas comuns e
consagram os costumes e ideais de membros da elite de uma sociedade geralmente rica,
poderosa e estudada. A permanecer tal idéia de cultura, implicitamente estamos pressupondo
que pessoas comuns, particularmente as pobres e marginalizadas, não tem “cultura” exceto
quando tentam se igualar à elite.
2) O conceito de cultura
Dezenas de definições de cultura foram elaboradas pela antropologia e outras ciências sociais,
ao tentar estudar o comportamento humano Definir cultura não é uma tarefa fácil. Ricardo
66

CALVINO, João, Comentário de I Coríntios , (Edições Paracletos, São Paulo, 1996), 488
BRUCE, F. F., citado por Geoffrey B. Wilson, Romanos - Um Resumo de Pensamento Reformado, (SP - PES) 130
68
G.C.Berkouwer, Man, The image of God, p. 107
67

32
Gondim69 indica que os antropólogos já criaram mais de trezentas definições. Mas como
poderíamos definir esse conceito? A palavra em si vem do latim e significa “trabalhar o solo” ou
“cultivar”70 Uma boa compreensão do significado de cultura é um pré-requisito para qualquer
comunicação eficaz das boas novas do Evangelho a um grupo distinto de pessoas.
Não obstante a dificuldade de dar uma definição final para cultura, alguns missiólogos deram
uma definição. Vejam algumas:
A cultura é um sistema integrado de crenças (sobre Deus, a realidade e o significado
da vida), de valores (sobre o que é verdadeiro, bom, bonito e normativo), de
costumes ( como nos comportamos, como nos relacionamos com os outros, falar,
orar, trabalhar, jogar, comer, etc..), e de instituições que expressam estas crenças,
valores e costumes ( governo, tribunais, templos, igrejas, famílias, escolas,
hospitais, fábricas, sindicatos, lojas, clubes, etc..), que unem a sociedade e lhe
proporciona um sentido de identidade, de dignidade, de segurança, e de
continuidade71
Os sistemas mais ou menos integrados de idéias, sentimentos, valores e seus
padrões associados de comportamento e produtos, compartilhados por um grupo de
pessoas que organiza e regulamenta o que pensa, sente e faz.72
Conjunto de comportamentos e idéias característicos de um povo, que se transmite
de uma geração a outra e que resulta da socialização e aculturação verificadas no
decorrer da sua história73
Cultura é um sistema integrado de padrões comportamentais aprendidos,
compartilhados e transmitidos de geração em geração, que distinguem as
características de uma determinada sociedade74
O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia
nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas
profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura
local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o
homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade;
porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e
parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura
sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e
justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As
missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura
estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma
determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de,
humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a
fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e
enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus.75

69

Ricardo Gondim, É Proibido ( S. Paulo: Mundo Cristão, 1998) p. 12
HORTON, Michael S., O Cristão e a Cultura (S. Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998). p. 40
71
Série Lausane. O Evangelho e a Cultura. A Contextualização da Palavra de Deus. Belo Horizonte, MG. Editora
ABU. 1983. p. 10-11
72
HIEBERT, Paul G., O Evangelho e a Diversidade das Culturas, Ed. Vida Nova 1999. p. 30
73
NIDA, E.A. Costumes e Culturas, Uma Introdução à Antropologia Missionária. São Paulo, SP: Edições Vida
Nova. 1985. p. 10
74
FREITAS, Maria Ester de. Cultura Organizacional: formação, tipologias e impacto. São Paulo: Makron, McGrawHill, 1991. p. XIX-XXVI.
75
Pacto de Lausane, Evangelização e Cultura
70

33
3) As dimensões da Cultura:
Para efeito desse estudo vamos abordar o conceito bem mais amplo e multidimensional de
cultura, o qual leva em conta a própria natureza complexa e integrada do ser humano, conforme
apresentado anteriormente. Segundo Paul Hiebert, são três as dimensões da cultura:76
A. A Dimensão Cognitiva (conhecimento, lógica e sabedoria)
Esse aspecto da cultura relaciona-se ao conhecimento compartilhado pelos membros de um
grupo ou de uma sociedade. Sem ele fica impossível a comunicação e a vida em comunidade. O
conhecimento fornece o conteúdo conceitual da cultura. Reúne as experiências das pessoas em
categorias e organiza as categorias em sistemas maiores de conhecimento.
É o conhecimento quem diz às pessoas o que existe e o que não existe. O conhecimento cultural
é mais do que categorias que utilizamos para entender a realidade, a natureza do mundo e como
ele funciona. Ele molda a própria percepção da realidade.
B. A Dimensão Afetiva (sentimentos e estética)
Aspecto que engloba os sentimentos das pessoas – suas atitudes, noções de beleza, preferências
alimentares e de vestuário, seus gostos pessoais e a maneira com que alegram ou sofrem. As
culturas variam muito na forma de lidar com o componente emocional do ser humano. A
dimensão afetiva da cultura se reflete na maioria das áreas da vida: padrões de beleza, moda,
culinária, bens de consumo, etc. Se imaginarmos uma cultura onde tudo seja pelo funcional a
monotonia iria imperar em praticamente tudo.
As emoções também moldam as relações humanas, pois determinamos padrões
comportamentais (expressões faciais, tom de voz, gestos, etc) para expressar ódio, escárnio e
inúmeros outros sentimentos.
C. A Dimensão Avaliadora (valores e fidelidade)
Engloba os valores pelos quais as relações humanas são julgadas como morais ou imorais.
Define o comportamento e escolhas tidas por certas ou erradas. Impõe seu próprio código moral
e seus pecados definidos culturalmente. Cada cultura tem seus próprios valores supremos e suas
devoções fundamentais, e seus próprios objetivos culturalmente definidos (e.g. sucesso
econômico, ou honra e fama, ou poder político, ou méritos ancestrais ou divinos, etc).
4) O Evangelho nas 3 dimensões
O evangelho se relaciona com todas as 3 dimensões: cognitiva, afetiva e avaliadora. No nível
cognitivo relaciona-se com o conhecimento da verdade, o conhecimento e aceitação da
informação bíblica e teológica e o conhecimento de Deus.
Afeta também a dimensão afetiva, dos sentimentos. Sentimos temor e mistério na presença de
Deus. Sentimos vergonha e culpa pelos nossos pecados. Sentimos felicidade e alívio pela
presença de Deus e pelo perdão dos pecados. Sentimos conforto na comunhão com o povo de
Deus.
O evangelho também tem a ver com a dimensão avaliadora, na medida que Jesus proclamou as
boas novas do Reino de Deus, o qual governa com retidão. Suas “leis” contrastam com as dos
reinos e governos humanos, e sua perfeição julga nossos pecados culturais. Ser cristão também é

76

Hiebert, Op Cit, pp. 30-34

34
ser chamado a seguir a Jesus incondicionalmente, a ser totalmente fiel a ele. Qualquer outra
coisa é definida como idolatria.
O conceito bíblico de conversão abarca todas as 3 dimensões: precisamos saber (I Co 2:2) que
Jesus Cristo é o Filho de Deus, mas só esse conhecimento não é suficiente. Precisamos dos
sentimentos de afeição (I Co. 8:1-3) e aceitação da obra de Cristo por nós. Mas também isso só
não é suficiente! Tanto o conhecimento quanto os sentimentos devem nos levar à adoração,
submissão e obediência a Cristo (Jo. 14:15; 23; I Jo 2:3-6), transformando-nos em seguidores
plenos e comprometidos do Mestre.
5) Manifestações de cultura
Há a parte da cultura que podemos ver, ouvir e experimentar através de outros sentidos. É
manifestada através do que chamamos de:
A. Comportamentos: Geralmente aprendemos a nos comportar através da nossa cultura.
Mas nem todo comportamento é aprendido culturalmente. Nossas escolhas e decisões
no dia-a-dia são influenciadas por circunstâncias políticas, econômicas, sociais e
religiosas.
Podemos tentar quebrar ou contornar as regras sociais e sermos punidos ou não por isso, pois
toda cultura tem seus próprios meios para impor esses regras. Quando não há punição pela
quebra de regra e essa regra tende a generalizar-se, as leis culturais tendem a morrer e ocorre
mudança social. As pessoas de uma mesma cultura nem sempre concordam com as mesmas
regras.
B. Produtos: A cultura inclui objetos materiais – resultado de nossa interação e adaptação
ao meio ambiente e do poder transformador que exercemos na natureza. A cultura material
inclui mais do que respostas humanas ao ambiente. As pessoas fazem muitas coisas para seu uso
próprio e para expressarem suas habilidades criativas.
O comportamento humano e os objetos materiais derivados são prontamente observáveis.
Consequentemente, são meios importantes para compreendermos e estudarmos uma
determinada cultura.
C. Símbolos: forma e significado: O comportamento e os produtos culturais do homem
não são partes independentes de uma cultura; eles estão intimamente ligados às idéias, aos
sentimentos e valores presentes dentro de seu povo.

HIEBERT, Paul G., O Evangelho e a Diversidade das Culturas

Essa associação entre um significado, uma emoção ou um valor específico e um certo
comportamento ou produto cultural é chamada de símbolo. Num certo sentido a cultura é

35
formada por um conjunto de símbolos. Ex. a fala, a escrita, os sinais de trânsito, a moeda, os
selos, sirenes e alarmes sonoros, perfumes, etc
6) Cultura e Cosmovisão
As pessoas percebem o mundo de maneiras diferentes porque constróem pressupostos diferentes
da realidade. Juntos, os pressupostos básicos sobre a realidade que se encontram atrás das
crenças e comportamentos de uma cultura são, algumas vezes, chamados de Cosmovisão77.
As pessoas acreditam que o mundo é realmente da maneira como o vêem. Raramente estão
cientes de que a maneira que vêem é moldada por sua Cosmovisão.
Há pressupostos básicos implícitos em cada uma das 3 dimensões da cultura. Os pressupostos
existenciais dão à cultura estruturas cognitivas fundamentais que as pessoas utilizam para
explicar a realidade. Essas estruturas definem o que é “real”.
As suposições existenciais ou cognitivas também munem as pessoas com os conceitos de
tempo, espaço e outros mundos. Os pressupostos cognitivos também modelam as categorias
mentais que usamos para pensar, para reconhecer e acatar determinados tipos de autoridade e o
tipo de lógica utilizada. Juntos estes pressupostos dão ordem e significado à vida e à realidade.
Os pressupostos afetivos permeiam as noções de beleza, estilo e estética encontradas em uma
cultura. Influenciam o gosto das pessoas em música, arte, vestuário, comida, arquitetura, e o
sentimento mútuo em relação à vida.
Os pressupostos de avaliação fornecem os padrões que as pessoas utilizam para realizar
julgamentos, incluindo critérios para determinar verdade e mentira, gostos e preferências, e o
certo e o errado. Essas hipóteses de avaliação também determinam as prioridades de uma
cultura e, por sua vez, moldam as vontades e as obrigações das pessoas.
Reunidos, os pressupostos cognitivos, afetivos e avaliadores fornecem às pessoas uma maneira
coerente de ver o mundo, a qual faz que se sintam em casa e lhes garante estarem corretos. Essa
Cosmovisão serve de fundamento para que edifiquem suas crenças e sistemas de valores
explícitos, e as instituições sociais dentro das quais vivem no dia-a-dia.
7) Cultura compartilhada
Como afirmado anteriormente, uma cultura é “compartilhada por um grupo de pessoas” e
simboliza suas crenças, símbolos e produtos dessa sociedade. O homem foi criado para ser um
ser social (Gn 1:28ª ; 2:18) e sua sobrevivência depende de seu relacionamento com seus
semelhantes. Todas as relações humanas exigem uma grande soma de entendimentos
compartilhados entre as pessoas – linguagem (verbal e não-verbal), um conjunto mínimo de
expectativas, um certo consenso de crenças, etc. Quanto mais tiverem em comum, maior a
chance e possibilidade de inter-relação.
É preciso ter claro como “sociedade” se relaciona com “cultura”. Sociedade é um grupo de
pessoas que se relaciona mutuamente de maneira ordenada em ambientes diferentes. A ordem
básica implícita nessas relações é chamada de organização ou estrutura social. É na estrutura
social que as pessoas verdadeiramente se relacionam umas com as outras. A estrutura social está
ligada à cultura, mas é diferente dela: a cultura inclui o que as pessoas crêem sobre
relacionamentos.

77

O termo cosmovisão [worldview] veio da língua Inglesa como uma tradução da palavra alemã Wel-tanschauung
[percepção (de mundo), ponto-de-vista, concepção (de mundo), cosmovisão]

36
A relação entre uma sociedade e uma cultura é dialética - as pessoas desenvolvem estruturas
para conduzir suas vidas. Com o tempo, ensinam essas estruturas aos filhos como parte da
cultura que modelará suas vidas.
Os limites sociais e culturais são claramente definidos nas sociedades tribais. No
entanto, em áreas urbanas e rurais complexas, os limites culturais e sociais se tornam confusos e
a relação entre eles é mais complicada; por exemplo, nas metrópoles habitadas por diferentes
grupos étnicos (São Paulo, Nova Iorque, Londres, etc), onde são nítidas a sub-culturas que têm
que conviver debaixo de uma cultura mais ampla.
Em tais situações, o que constitui uma cultura ou uma sociedade? Aqui temos que retornar ao
conceito das estruturas culturais (uma escola, um hospital, um banco, em clube, etc) com seu
próprio grupo de pessoas, hierarquia social, conjunto de conhecimentos e regras e valores. Os
indivíduos em sociedades complexas se mudam de uma estrutura para outra , de um grupo para
outro e de uma cultura para outra “trocando engrenagens” à medida que se mudam.
Essas culturas locais, por sua vez, são integradas a culturas regionais e nacionais maiores
compartilhando uma história cultural, crenças e valores comuns mais amplos.
FORMAÇÃO DA CULTURA78
1a

O que se faz?

Camada
2a Camada

O que é bom ou melhor?

3a Camada

O que é verdadeiro?

4a Camada

O que é real?

CRENÇAS
VALORES
COMPORTAMENTO

1º)Comportamento: Aquilo que as pessoas fazem. É a 1a camada da cultura e é
superficial.
2º)Valores: São as decisões preestabelecidas. Escolhas sobre o que é “bom” ou “melhor”.
3º)Crenças: É a reflexão dos valores. Aquilo que de fato as pessoas acreditam.
4º) Cosmovisão: A forma como vêem a realidade. Geralmente não é questionada. Aí está o
verdadeiro motivo para as crenças, valores e comportamento.
8) O EVANGELHO E A CULTURA
A. A cultura humana é do maligno?
“...O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça
a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus...”
2 Co 4:4
A partir desse trecho, muitos têm concluído que o mundo está sob controle de Satanás e suas
hostes, crendo num dualismo cósmico entre Deus e Satanás, luz e trevas, o bem e o mal. No
78

G.Linwood Barney. Citado por Nicholls in: Contextualização: Uma teologia do Evangelho e Cultura. P. 10

37
entanto, a Bíblia apresenta esse conflito tendo como palco esta terra, onde Satanás tenta
confundir ou diminuir no crente a confiança em Cristo e sua justiça imputada como suficiente
para a salvação. É uma batalha pelas mentes e corações dos homens e tem a ver com verdade x
erro, fé x incredulidade, fé em Cristo x crença em qualquer outra coisa ou pessoa.

Paulo jamais argumentou que um Deus bom reina na esfera espiritual enquanto um
deus mau (Satanás) reina nas arenas “seculares e mundanas”. Satanás é citado como deus deste
século apenas porque está sendo servido como se fosse um deus pelos homens.
Como anjo caído, Satanás cegou tanto judeus como gentios, mas é sempre dentro da permissão
divina, a qual é retirada sempre e quando Deus quiser.
Não há razão, portanto, para ver o mundo como algo inerentemente mau ou o campo de batalha
para o controle do planeta e do universo, cujo resultado depende da habilidade humana em se
amarrar demônios. Embora a humanidade pecadora faça deste mundo um lugar de rebelião,
maldade e desordem, Satanás jamais terá vitória final sobre os propósitos e intenções de Deus
(Dn 4:34-37).
“Não existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da qual Cristo,
que é soberano de tudo, não declare: é minha” Kuiper
A soberania de Deus é essencial para a fé cristã. É preciso traçar uma linha divisória clara entre
aquilo que a Bíblia declara como “mundo” e aquilo contra o que lutamos nossa batalha
espiritual. Ef. 6:10-19, não deixa dúvidas que nosso inimigo não é a cultura humana (as
manifestações multiformes inerentes à nossa humanidade) mas contra os poderes e autoridades
espirituais que dominam um mundo de trevas e de maldade e distorcem a beleza e originalidade
da criação e da obra de Deus. São esses poderes que foram humilhados e expostos à vergonha
por Cristo na cruz (Cl. 2:13-15) e não a obra criativa de Deus – os homens.
A humanidade, com sua cultura, seu modo de ser e se relacionar entre si e com o mundo criado
por Deus, não é má em si mesma e nem foi criada desta forma, mas contou com o planejamento
e a aprovação de Deus (Gn 1:26-31). Esse texto não parece a descrição de algo ruim!
Quatro maneiras como reagimos á Cultura
É natural que o novo convertido rejeite muito do que se associa ao seu passado. Ele se retrai
do seu ambiente social, abandonando todas as ligações e relacionamentos anteriores. O
momento de afastamento e fechamento da cultura anterior é natural, visto que a experiência de
ser uma nova criatura em Cristo freqüentemente causa uma grande mudança e conflito. Este
momento inicial da vida cristã deve ser encarado como necessário para a maturidade do novo
crente, mas o retorno à identificação com a cultura secular deve acontecer, à medida que sua
maturidade aumenta. Analise a seguir quatro reações79 quanto a cultura, suas causas e
conseqüências:
1) Rejeição: Mentalidade de Gueto. Um tipo de isolacionismo cristão.
Causas: Medo da secularização e contaminação com o mundo.
Conseqüências: Barreira a evangelização. As pontes não são construídas.
2) Imersão: Flexibilidade que permite uma identificação radical com a cultura humana.
Causas: Necessidade forte de identificação com a cultura secular.
Conseqüências: Tornam-se essencialmente indistinguíveis do mundo. O sal perde o sabor,
tem receptores, mas não tem Mensagem.
79

Joseph C Aldrich., Amizade - a chave para a Evangelização, Ed. Vida Nova, São Paulo 1992 pp. 51-69

38

3) Adaptação dividida: Mistura rejeição e imersão. Seria uma espécie de esquizofrenia
espiritual.
Causa: Tem necessidade de estar a vontade nos dois mundos.
Conseqüências: Fica em cima do muro, vida dupla.
4) Participação crítica (nossa proposta): Sabe que Deus o tem envolvido numa missão
redentora com implicações culturais.
Causa: Não acredita que o novo nascimento deva "desculturalizar" um novo cristão.
Conseqüência: Possivelmente terá problemas com a colisão entre as culturas cristã e nãocristã. Vive sob a tensão constante entre a fé cristã e a cultura humana.
B. Princípios básicos para entender a tensão dinâmica entre o evangelho e as culturas
humanas:
Está fora de cogitação qualquer tentativa para associarmos o cristianismo com a cultura
ocidental, seja a de hoje ou do passado. Mesmo se quiséssemos associar o cristianismo com a
cultura judaica da época de Cristo, teríamos dificuldades na fundamentação da idéia, visto que a
própria Igreja Primitiva teve dificuldades com essa tentativa de associação e não seguiu por este
caminho, embora o cristianismo nos fosse entregue dentro do contexto dessa cultura. Não era
preciso tornar-se um judeu para se tornar um cristão! E bem sabemos que ainda não o é e nunca
será.
É preciso, portanto considerar pelo menos 3 princípios para entender essa tensão dinâmica entre
evangelho e culturas humanas:
1º) O Evangelho deve ser separado de todas as culturas humanas.
Ele é revelação divina e não mera expressão humana. A tendência de associarmos o cristianismo
com nossa própria cultura (não importa quem ou onde) tem sido um desastre e um sério tropeço
em muitas ações missionárias.
2º) O Evangelho se expressa em todas as culturas
Embora o evangelho seja diferente das culturas humanas, ele sempre dever ser expresso
em formas culturais. Os homens não podem recebê-lo fora de seus idiomas, símbolos e rituais.
Se as pessoas devem ouvir e crer no evangelho, ele precisa ser apresentado em formas culturais.
• No nível cognitivo as pessoas devem entender a verdade do evangelho.
• No nível emocional devem experimentar o temor e o mistério de Deus.
• No nível de avaliação o evangelho as desafia a responder à fé.
A Bíblia está repleta de exemplos dessa “contextualização” do evangelho de Deus em relação
aos homens:
• Deus passeava no Jardim do Éden
• Deus se manifestou multiformemente a muitas pessoas: Abraão, Moisés, Davi, os profetas,
etc.
• Deus finalmente se fez carne como nós para que conhecêssemos sua essência (Hb 1:1-3 a)
Todas as culturas podem servir de canal para a comunicação do evangelho – não é preciso
mudar de cultura para se tornar um cristão! Isso não significa que não haja maior grau de
dificuldade para se comunicar o evangelho em algumas culturas.

39
3º) O Evangelho propõe mudanças para todas as culturas
Assim como a vida de Cristo foi uma condenação para nossa natureza pecaminosa, assim
também o Reino de Deus julga todas as culturas. Apesar de sermos criados por Deus à sua
imagem nosso pecado impregna nossas culturas de maldade e pecado. Uma teologia
verdadeiramente contextualizada deve não só reforçar os valores positivos (sob crivo bíblico) da
cultura onde está sendo formulada, mas também deve desafiar aqueles aspectos dela que
expressam o pecado e a maldade humanas.
O evangelho exerce uma função profética, mostrando o caminho que Deus planejou para
vivermos como seres humanos, julgando nossas vidas e nossas culturas por essas normas. Como
cristãos, devemos lutar sempre com as questões sobre o que é o evangelho e sobre o que é
cultura – e qual é a relação entre eles. Não fazer isso é correr o risco de perder as verdades do
evangelho.
III. A TENSÃO ENTRE CRISTO E A CULTURA
H. R. Niebuhr classificou em cinco categorias as perspectivas defendidas por vários teólogos acerca
da relação entre Cristo e a Cultura:80
(1) Cristo contra a Cultura. Segundo esse posicionamento, o conceito de “mundo” é amplamente
negativo e o cristão é desafiado a escolher entre servir a Cristo ou servir ao mundo. Cristo, aqui, está
em franca oposição ao mundo. Amplamente defendida por Tertuliano (c. 155-220),81 esta posição
rejeita qualquer vínculo com as manifestações culturais (esportes, músicas, teatro e até mesmo a
filosofia) por entender que o cristianismo não pode ser preterido sob quaisquer argumentos.
Qualquer tentativa de um diálogo entre Cristo e a Cultura seria visto por Tertuliano como uma
afronta aos ensinos de Cristo. Niebuhr apresenta três problemas teológicos com essa postura: (1) a
conceituação de pecado como algo de cunho eminentemente social, em detrimento da consideração
daquilo que se passa na alma do homem; (2) a há uma tendência ao legalismo, visto ser necessário e
quase que inevitável que inúmeras regras sejam estabelecidas para se tentar definir o alcance do
termo “cultura”; (3) há uma tendência na concepção do dualismo metafísico, como se o mundo fosse
governado por dois deuses. Esta posição contra a cultura é considerada como sendo uma posição
radical.
(2) Cristo da Cultura. Para os defensores dessa posição, não há qualquer tensão entre a cultura e
Cristo. Na verdade, afirmam, o que há é uma grande concordância entre ambos. Cristo é o próprio
Messias social, e sua vida é o maior exemplo do empreendimento humano. Por isso a sua vida,
enquanto Deus encarnado, deve ser transmitida às diferentes culturas e gerações. Cristo é explicado
ou entendido à luz das diferentes manifestações culturais. Assim, os gnósticos procuraram uma
conciliação entre o evangelho e as idéias gnósticas; os evolucionistas do séc. XIX interpretaram as
doutrinas à luz da evolução das espécies. Hoje há tentativas de se conciliar o evangelho com a
psiquiatria, psicologia, física, objetivando-se mostrar a harmonia entre ambos. A observação de
Niebuhr é importante: não é que o cristão deva deixar o mundo, mas que deva permitir a presença de
Cristo em todas as esferas sociais, pois, no final das contas, o mundo pertence a Cristo. Dentre os
problemas com esta posição, Niebuhr lembra o perigo de Cristo ser abandonado, a fim de que as
próprias manifestações culturais prevaleçam. Talvez essa é considerada uma posição radical.
(3) Cristo acima da Cultura. Cristo é tanto concebido como sendo Deus como sendo homem; ele é
Senhor, mas também é o Logos feito carne. Ele participa da cultura, mas está acima da cultura. Há
uma espécie de síntese na compreensão do Cristo. Há aqui uma tendência na preservação dos
aspectos culturais como legítimos elementos divinos. Nesse sentido a lei de Cristo é identificada ou
80

H. Richard Niebuhr. Christ and Culture. Nova Iorque: Harper & Row, Harper Torchbooks, 1956, citado por
HESSELGRAVE, David J. in: A Comunicação Transcultural do Evangelho. São Paulo. Vida Nova, 1995. Vol. 1 p.
97 (Michael Horton em sua obra O Cristão e a Cultura faz uma análise destas categorias desenvolvidas por Niebrhr
(cf. pp. 40-51 )
81
HORTON, Michael Op Cit., p. 41

40
considerada como sendo a lei da igreja; o senhorio de Cristo é representado ou equiparado com os
seus pseudos sucessores. Há sempre alguém nesse sistema tentando fazer uma síntese no
relacionamento de Cristo com algum aspecto social, desde que tal síntese siga o pensamento
particular de quem a elabora. Assim pode ser visto o pensamento de Tomás de Aquino, assim pode
ser visto o argumento moderno sobre o que é de Deus e o que é de César. Esta posição é considerada
por Niebuhr como sendo sinteticista.
(4) Cristo e a Cultura em Paradoxo. A posição dualista que rejeita a tentativa de síntese das duas
esferas e afirma a cidadania dupla do cristão, constitui-se na abordagem denominada “Cristo e a
Cultura em Paradoxo”. O cristão possui duas cidadanias, ele é membro da Cidade do Homem e da
Cidade de Deus. Sendo esferas diferentes de atuação, com propósitos diferentes, não há porque uma
reger ou atacar a outra. Aqui o que se enfatiza é que a graça está em Deus e o pecado está no
homem. A graça de Deus não está na cultura nem no cristão, mas o que ocorre é que deve ser feita
distinção entre as esferas da criação e da redenção. Como a cultura jamais será um meio de encontrar
a Deus, a abordagem “Cristo da Cultura” está descartada, por outro lado, a cultura não pode ser
objeto de desprezo, porque ela não promete salvar ou redimir, isso elimina também a abordagem
“Cristo Contra a Cultura”. O prazer que advém do envolvimento no trabalho, na vida familiar, na
educação, nas artes ou no lazer, é um dom criacional de Deus e não redentivo. Essa visão foi iniciada
por Agostinho, recuperada por Lutero e apoiada por Calvino. Calvino sustentava que a sociedade
não precisa ser explicitamente cristã para ser justa e cheia de virtudes civis, pois que a lei moral de
Deus está escrita nas consciências humanas. Niebuhr identifica Lutero, Kierkegaard, Marcião e
Paulo de Tarso como possíveis exemplos dessa posição.
(5) Cristo, o Transformador da Cultura.. Aqueles que sabem que este mundo nunca será
transformado numa utopia pelo progresso humano e que, estão ansiosos por ver a mão de Deus nos
avanços científicos, da medicina, das artes, e do conhecimento em geral, constituem-se na
abordagem denominada “Cristo o Transformador da Cultura”. Os participantes dessa visão não
querem ser apenas observadores, porém agentes de mudança, agentes transformacionais do mundo
no qual estão inseridos, fazendo-o melhor. São aqueles que realmente crêem na soberania de Deus
em todos os aspectos da vida do homem, aqueles que crêem que, embora decaído, o mundo continua
sendo objeto do amor e do interesse de Deus. Três são as convicções teológicas que sustentam essa
visão: 1) a importância da doutrina da criação (graça comum e a imago Dei): “o mundo é o teatro da
glória de Deus”; 2) a humanidade é caída: porém a depravação total não se constitui no mal
ontológico, isto é, o homem não é mal meramente porque é humano; e 3) o mundo aguarda completa
redenção, podemos ter vitórias parciais ocasionais enquanto aguardamos a volta de Cristo. Há duas
esferas distintas e Deus age em ambas: o transformador não adora e nem odeia a cultura. Alinham-se
com essa abordagem Agostinho, Calvino e a tradição reformada. A proposta de abordagem que
Horton faz, e que podemos abraçar é combinar os paradigmas “Cristo e a Cultura em Paradoxo” e
“Cristo o Transformador da Cultura” para que os cristãos possam somar as vantagens de cada um.
Nessa combinação o cristão reconheceria que esse mundo é do Senhor, e, contudo, aqui não é o seu
lugar, ainda.
Conclusões: A proporção que alcançamos maturidade, descobrimos que algumas de nossas regras
precisam ceder ao machado do tempo. Contudo, como igreja de Cristo, temos pontos absolutos,
intocáveis e não negociáveis, que não comprometeremos jamais. Estes estão enraizados solidamente
na Palavra de Deus, são nossa doutrina e alicerce. O cristão precisa estar pronto para entrar numa
outra cultura sem rejeitá-la, mas também não pode se render totalmente a ela. A tensão cultural
vivida pela igreja é natural e reflete o choque entre coisas eternas e imutáveis, e portanto, divinas, e
coisas temporais e humanas. As Boas Novas foram implementadas num contexto cultural, e o seu
Autor utilizou-se fortemente deste elemento.

41

MISSIOLOGIA
Uma Perspectiva Urbana
Rev. Gildásio Reis
“A vida não me é mais preciosa que o laço sagrado
que a liga ao bem estar público de nossa cidade”
Calvino

Não

há como negar que a cidade se apresenta
como a próxima fronteira missionária82, nos
desafiando a entender a conjuntura sócio-cultural
para que o trabalho missionário seja
verdadeiramente salutar e produza frutos. É fato
que no mundo inteiro as cidades estão enfrentando
uma explosão demográfica. As cidades do hemisfério norte se apresentam mais urbana
do que dos países do sul. 94% da população do Canadá e dos Estados Unidos já vivem
na cidade, bem como 82% dos Europeus e 80% de todos os Russos. No entanto, apenas
36% de todos os Asiáticos e 45% de todos os Africanos morarão em cidades. Na
América latina temos 73% de seus habitantes morando em cidades.
A migração de mais de um bilhão de pessoas para as cidades nas últimas duas décadas
representa o maior movimento populacional da história. As cidades representam o
grande desafio para as missões cristãs devido ao seu tamanho, sua influência e suas
necessidades. Naturalmente elas são centros de poder político, de atividade econômica,
de comunicação, de pesquisa científica, de instrução acadêmica e de influência moral e
religiosa. O que acontece nas cidades acaba por afetar uma nação inteira e o mundo
caminha na direção que as cidades seguem.
Os resultados de um crescimento de abrangência mundial tão rápido são evidentes em
toda parte. Nas ruas de Nova Iorque vivem cinqüenta mil pessoas desabrigadas. Outras
27.000 vivem em abrigos temporários e estima-se que 100.000 famílias recebem abrigo
em apartamentos de amigos e parentes. Em Bombaim, Índia, 1.000,000 de pessoas
vivem em uma favela construída sobre um gigantesco depósito de lixo. Em Detroit,
72% dos adultos em idade de empregarem-se não encontram trabalho e provavelmente
nunca o encontrarão. Esta é a cidade que Deus ama e pela qual Cristo morreu. Esta é a
cidade onde está a igreja de Cristo e este é o lugar onde ela é chamada para ministrar.

No Brasil, como em muitos países, 80% das pessoas vivem nas cidades, ao contrário do que
havia há poucas décadas, quando a maior parte vivia nas áreas rurais. Este é um grande desafio
para as igrejas. As cidades têm grandes e graves problemas, próprios do crescimento urbano
desordenado a que são submetidas, tais como concentração excessiva de pessoas, desigualdades
sociais, problemas de habitação, favelas, falta de saneamento, de saúde, etc. No que tange à
evangelização, as cidades oferecem facilidades e dificuldades, como veremos adiante. As igrejas
precisam ter estratégias de trabalho para alcançar as cidades. Há diferenças, entre evangelizar

82

Chamo a atenção para o título do livro sobre missões urbanas de Roger GREENWAY - “Cities – Mission´s New
Frontier”. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House. 1989.

42
numa Metrópole e num lugar interiorano. Em nosso curso de missiologia urbana procuraremos
refletir sobre este importante aspecto de nosso ministério pastoral.
I. DEFINIÇÕES:
1.1. Definição de cidade:

Não existe um padrão mundial que defina uma cidade. Esta definição pode variar de
país para país:
Na Dinamarca bastam 250 habitantes para uma comunidade urbana ser considerada uma
cidade, e na Islândia, apenas 300 habitantes. Na França, um mínimo de 2 mil habitantes é
necessário, e na Espanha, 10 mil habitantes. Organizações e empresas também podem
possuir seus próprios critérios de "cidade". No Brasil, popularmente qualquer
comunidade urbana com uma sede de município pode ser considerada uma cidade,
independentemente de seu número de habitantes83

Não obstante esta complexidade para definir a cidade, muitos pensadores e historiadores
a definiram, e achamos oportuno apenas citar algumas:
No dicionário Michaelis (2002), cidade é definida como o centro urbano, sede de
município, um aglomerado permanente, relativamente grande e denso, de indivíduos
socialmente heterogêneos. 84
[Do lat. civitate.] Complexo demográfico formado, social e economicamente, por uma
importante concentração populacional não agrícola, ie, dedicada a atividades de caráter
mercantil, industrial, financeiro e cultural; urbe: "Cidade é a expressão palpável da
necessidade humana de contato, comunicação, organização e troca, -- numa determinada
circunstância físico-social e num contexto histórico"85
Uma cidade é uma área urbanizada, que se diferencia de vilas e outras entidades urbanas através
de vários critérios, os quais incluem população, densidade populacional ou estatuto legal. A
população de uma cidade varia entre as poucas centenas de habitantes até a dezena de milhão de
habitantes. As cidades são as áreas mais densamente povoadas do mundo86
Cidades são concentrações de pessoas vivendo muito próximas e interagindo umas com as outras
sob alguma forma de incorporação municipal e governamental87

1.2. Conceito de Missiologia urbana
Missiologia urbana é a disciplina ou ciência que pesquisa, registra e aplica dados relacionados
com a origem bíblica, a história, os princípios e técnicas antropológicas e a base teológica da
missão cristã na cidade.88
II. A NECESSIDADE DE UMA MISSIOLOGIA URBANA
83

Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade. capturado em 04/05/2006
As três primeiras definições foram extraídas de www.ub.es/geocrit/sn/sn-170-36.htm, Capturado em 12 de julho
de 2005
85
www.geocities.com/RainForest/Canopy/9555/glossario_ambiental.htm (Lúcio Costa: Registro de uma Vivência,
p.277)
84

86

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade. capturado em 04/05/2006
GREENWAY, Roger; Monsma, Timothy M. Cities – Mission´s New Frontier. Grand Rapids, Michigan: Baker
Book House. 1989. p. 8
88
GREENWAY, Roger; Op Cit, p. 7
87

43

O fenômeno da urbanização requer uma missiologia urbana.
Urbanização é o processo pelo qual, em uma região particular, a porcentagem de
pessoas vivendo em cidades tem um aumento relativo a população rural, com
consequências na vida humana. Onde há rápida urbanização, há um declínio
relativo na população rural.89
Os problemas relacionados com a missão da Igreja na cidade exigem uma missiologia urbana.
As necessidades do homem urbano tornam imperativo o estudo de uma teologia e uma práxis de
evangelização compatíveis com os princípios e modelos bíblicos. Isto é, faz-se mister o estudo
de missiologia urbana.
III. OBJETIVOS DO ESTUDO DE MISSIOLOGIA URBANA
1. Tomar consciência da realidade das cidades e seus desafios.
2. Considerar os fatos bíblicos e os princípios neles presentes, relacionados com missões
urbanas.
3. Apreciar os métodos de missões urbanas, hoje adotados, com base nos princípios e modelos
bíblicos.
4. Ensaiar a elaboração de um projeto de Missões urbanas, visando a evangelizaçào das
cidades.

IV. O FENÔMENO DA URBANIZAÇÃO
O mundo passou por uma revolução profunda em termos demográficos nos dois últimos
séculos, cujas mudanças populacionais acontecidas no campo e na cidade, alteraram
completamente o quadro. O Dr. David Barret em sua obra World Christian Encyclopedia
apresenta os dados estatísticos abaixo relacionados:
Ano.................................................................................%

População Urbana

1800 A.D........................................................................3%
1900 A.D.........................................................................15%
1950 A.D.........................................................................21%
1978 A.D.........................................................................40%
2000 A.D.........................................................................70-87%

O século XX começou com 15% da população mundial vivendo nas cidades e terminou com
15% vivendo fora das cidades.
Dentro de dezenove anos, o mundo sofrera uma mudança drástica. Pela primeira
vez, desde que a história começou a ser registrada, a maior parte da população
mundial viverá nas cidades principalmente nas cidades da Ásia, África, e América
Latina. Essas cidades terão tamanho assustador e serão flageladas pelo desemprego,
pela superpopulação e doença. Nelas os serviços tais como energia, água, saúde
pública ou coleta de lixo, atingirão limites críticos.90

89

GREENWAY, Roger; Op Cit., p. 7
Rafael Salas, “Meeting the Challenge of Urban Explosion”, Indian Express, Madras, Índia, October 5, 1986 Citado
pelo Dr. Antônio José em Apostila não publicada, material utilizado no CPPGAJ
90

44
Esta é uma lista das maiores cidades do mundo, por população (estimada para 2006):
Fonte: Almanaque Abril 200591
Rank Cidade

População 2005 País

Continente

1 Tóquio

35,0 Japão

Ásia

2 Cidade do México

18,7 México

América do norte

3 Nova York

18,3 Estados Unidos América do Norte

4 São Paulo

17,9 Brasil

América do Sul

5 Mumbai

17,4 Índia

Ásia

6 Délhi

14,1 Índia

Ásia

7 Calcutá

13,8 Índia

Ásia

8 Buenos Aires

13,0 Argentina

América do Sul

4.1. Cinco Fatores determinantes da urbanização

1. A industrialização: O processo de Industrialização provocou o crescimento das
cidades, surgindo as cidades consideradas Megacidades.
2. O próprio crescimento natural da população (ver gráfico abaixo)
3. Desejo de melhores condições de vida: Estudo para os filhos, busca de melhores
salários, busca de assistência médica,etc.
4. Atração dos grandes centros: A penetração da imagem das Tvs que iludem com
expectativa de vida melhor nas cidades.
5. Mecanização da agricultura, trazendo a instabilidade Agrícola e o desemprego
na zona rural.
Brasil – Taxas de natalidade e mortalidade
Períodos

Natalidade %

Mortalidade %

Cresc. Vegetativo %

1872-1890

46,5

30,2

1,63

1891-1900

46,0

27,8

1,82

1901-1920

45,0

26,4

1,86

1921-1940

44,0

25,3

1,87

1941-43,5

43,5

19,7

2,38

1951-1960

44,0

15,0

2,90

1961-1970

37,7

9,4

2,83

1971-1980

34,0

8,0

2,60

1980-1991

26,9

8,0

1,89

1991-1996

21,8

8,0

1,38

Fonte: IBGE - Contagem da População

91

Retirado de "http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_das_maiores_cidades_do_mundo"

45
4.2. A cidade: Sua diversidade demográfica
Há pelo menos cinco características que devemos considerar acerca das cidades, e que
as torna fascinantes.
1.

População: Crescimento urbano e das áreas periféricas. A cidade encontra parte do seu
charme na mobilização. Nas oportunidades que abre, nas relações que se pode criar.
Com uma sociedade em constante mobilização, atrai investimentos, exige um pensar
criativo e causa um efeito periférico sensível e importante.

2.

Cultura: abriga ainda os grandes centros internacionais. Culturas diferentes podem ser
encontradas no meio dela. Pessoas de muitas raças e nacionalidades. Isto abre espaço
para a ministração e exige uma atenção redobrada para os ministérios alternativos. Isto
abriga também conflitos e tensões. "metade do crescimento das cidades no Brasil é
gerado pelo êxodo rural, como a maioria dos migrantes vindo do campo é pobre, não
tem dinheiro para alugar uma casa, o resultado é a explosão de cortiços e favelas". 92

3.

Raças: Cidade é o local onde raças e culturas divergentes se tocam. A resistência aos
diferentes e a tolerância facilitam a inserção de pessoas distintas, compartilhando os
mesmos espaços. O preconceito não é tão acentuado, o que facilita o dialogo. Por outro
lado revela também a indiferença e o individualismo que se torna marca da alienação e
coisificação das pessoas nas grandes cidades. Não existe lugar tão bom para se esconder
de uma pessoa que alugar um apartamento no mesmo prédio em que ela vive. Pode-se
passar anos sem que você cruze com a pessoa que mora no apartamento acima ou ao
lado do seu.

4.

Idade: A cidade é um local onde a juventude predomina. Por dar mais oportunidade
para o crescimento pessoal e fornecer melhores informações e acessos a meios de
consumo, atrai de forma gravitacional a juventude. As melhores escolas, os melhores
empregos, normalmente se concentram nas grandes cidades, e isto exerce um tropismo
para a geração mais jovem. Os riscos e oportunidades são maiores.

5.

Educação: Cidade é também lugar onde abriga a contradição e os paradoxos.
Privilegiados e maltrapilhos convivem lado a lado. Afluência e pobreza... É para a
cidade que o pobre e miserável flui em busca de melhores oportunidades, mas é o lugar
onde as maiores oportunidades e conquistas aparecem. Cidades convivem com grandes
condomínios, e ostentam riquezas exóticas, mas é o lugar dos becos, dos cortiços, dos
favelados e daqueles que não tem voz e nem vez, sofrem a violência e vivem no
anonimato. Grandes centro universitários atraem e são atraídos para grandes cidades.
Pesquisas, industria, empresas high tech se concentram de forma singular nas grandes
cidades.

Implicações para missões urbanas:
1. A igreja, em meio à diversidade, consegue demonstrar a unidade do Evangelho.
2. A Igreja tem flexibilidade para alcançar diferentes idades e grupos culturais.
3. A Igreja consegue tornar-se um centro educacional.
4. A igreja transforma-se tem a capacidade de tornar-se uma agência de misericórdia.

92

Janice Perlman, entrevista revista Veja, 27 de Julho de 1994, pg 8

46
VI. AS CIDADES NA BÍBLIA

O termo cidade na Bíblia ocorre mais de 1.600 vezes no Antigo Testamento e 160 vezes
no Novo Testamento, sem contar as vezes em que nomes de cidades são usados. As
primeiras cidades surgiram por volta do ano 3.500 a. C.
A primeira cidade mencionada na Bíblia é a cidade fundada por Caim - “Caim edificou
uma cidade e lhe chamou Enoque”. (Gn 4:17). O contexto em que esta cidade é
apresentada é muito importante. Caim estava discutindo com Deus sobre o que ele havia
feito para com seu irmão e qual seria o julgamento de Deus sobre ele. Caim reclama de
que ele não suportaria aquele castigo e Deus, cheio de compaixão em sua graça, permite
que Caim não fique em completo desespero, sem nenhuma proteção. Caim ficou
contente com a solução divina porque ele não ficou solto num mundo em anarquia
total.93 A ele foi permitido se encontrar com outras pessoas e, inclusive, construir uma
cidade. Conseqüentemente a cidade em si não era uma coisa ruim; ela surgiu
diretamente da graça de Deus. Kline até argumenta que a construção de cidades era o
propósito do “Mandado Cultural”94
Se o conceito da cidade não está errado em si próprio, qual é o problema então?
O problema é o uso que foi feito dela pelo homem caído que estragou o propósito da
cidade. Quando Caim inaugura a cidade ele a nomeia em homenagem a seu filho
chamado Enoque. Desde o recomeço Caim comete o mesmo erro que o levou a matar a
seu irmão. Ele estava mais preocupado em edificar seu próprio nome ao invés de dar
glórias a Deus por aquilo que Deus havia feito por ele. A narrativa mostra uma situação
até pior com o progresso da genealogia. Lameque, um descendente direto de Caim, usa
sua autoridade de líder da cidade para quebrar os mandamentos de Deus em relação à
família: ele toma para si duas esposas. Como se isto não bastasse, ele também abusa da
sua autoridade e estabelece leis opressivas para lidar com aqueles que não concorda
com ele. As palavras de Lameque às suas esposas, claramente demonstram sua rebelião
contra Deus: “Sete vezes se tornará vingança de Caim, de Lameque, porém, 70 vezes
sete” (Gn 4:24). Isto é uma perversão do propósito divino para o estado.95
Como Kline diz, também a cidade se torna o Templo do homem.96 Lameque, em suas
próprias palavras está tentando ser como Deus.
Na área do mandato social, a evidência da desobediência e rebelião tornou-se mais
predominante. Lameque casou-se com duas mulheres (Gn 4.19), quebrando a
determinação de um macho e uma fêmea tornarem-se uma só carne (Gn 2.24). Ele
assassinou um jovem em vingança por ter sido ferido; Lameque, arrogantemente,
escarneceu de Deus dizendo que estava preparado para aceitar a vingança divina em um
grau muito maior do que a que Caim teve (Gn 4.34). Moisés registrou que como "os
homens começaram a crescer em número" (Gn 6.1), a revolta social piorou. A violência
tornou-se um modo de vida (Gn 6.11). Casamentos que não honravam a Deus foram

93

Kline, Meredith G. Images Of The Spirit. Baker Biblical Monograph Grand Rapids: Baker Book House.1980, p.
26 p. 72
94
Kline, Op Cit., p. 23
95
Kline, Op Cit., p. 71
96
Kline, Op Cit., p. 46

47
escriturados (Gn 6.1-2).8 Está claramente inferido que, no seu tempo, Noé era o único
homem que tinha um casamento e uma família que honravam a Deus (Gn 6.9).
A corrupção espiritual estava integralmente envolvida na deterioração social e violência
dentro do domínio social. O mandato de comunhão que o Rei Criador tinha colocado
diante dos seus vice gerentes, havia sido desobedecido no Éden. Yahweh tinha feito a
restauração se tornar possível. Alguns invocaram e caminharam com Yahweh. Mas,
assim como as pessoas cresceram em número, existia mais e mais maldade sobre a terra.
A raiz desta maldade estava no coração das pessoas; toda a inclinação do pensamento
originada do coração "era somente má todo o tempo" (Gn 6.5). Note que o texto usa o
termo "todo" duas vezes e o termo "somente". O grau extremo de depravação espiritual
nos é, então, revelado.97
A narrativa é interrompida neste ponto e a genealogia de Sete é apresentada, mas logo
depois desta o autor volta ao tema da cidade dominada pelo homem. Em Gênesis 6, nós
temos a razão porque Deus mandou dilúvio. O abuso de autoridade agora é ainda maior.
O número de pessoas aumentou e o número de casamento também, e no versículo 5 nós
vemos que a maldade continuava e o desígnio do coração era continuamente mau.
Provavelmente a pior fase desta narrativa é a atitude dos lideres (Gn 6:2). Eles se
chamavam a si mesmos Filhos de Deus.98 Eles falam como se Deus não estivesse no
controle e também agem como Deus e tomam as responsabilidades de Deus, como se
fossem seus filhos. Deus não poderia mais agüentar esta situação e então Ele os destrói
com o dilúvio.
Com o remanescente desta destruição, Noé e sua família, Deus começa aquilo que
poderia ser chamado de a “re-criação”. Os paralelos entre a criação original e esta não é
somente simbolismo, mas um paralelo nas próprias palavras de Deus. O mesmo caos em
água aparece nos dois episódios. Mas o mais imprescindível é que o “Mandado
Cultural” é repetido em Gn 9:1. Isto é um sinal claro de um novo começo. Infelizmente
é a história do homem tentando tomar outra vez lugar de Deus. O propósito é claro: eles
querem uma cidade que engrandeça o nome deles, ao invés de irem, através da Terra,
como Deus ordenara (Gn 11:4).
Este estado de apostasia se tornou mais uma vez insuportável para Deus. Entretanto, Ele
se mantém fiel a sua Aliança com Noé e não destrói o povo. Deus apenas promove uma
confusão na língua deles, de maneira que eles abandonam aquele projeto e fazem aquilo
que eles deveriam ter feito desde o começo (Gn 11:6-7).
Como podemos perceber, a Escritura fala amplamente da cidade. Ela é uma realidade com a
qual a igreja deve se preocupar. A reflexão cristã sobre a cidade deve ser uma prioridade por
parte da igreja. A história, a geografia, a sociologia, o urbanismo, para não mencionar as
ciências afins, estudam a cidade. Penso que não seria muito que a teologia também a estudasse.
A igreja é enviada também às cidades, não para assimilar-se a ela, mas para transformá-la, para
libertá-la de seus pecados.99

8

Ver a minha discussão a respeito do casamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens em Revelação
Messiânica no Velho Testamento, 109-110.
97
Van Groninger. Criação e Consumação. São Paulo, SP: Cultura Cristã. , p.
98
Kline, Op Cit., p. 83
99
COMBLIM, José. Teologia da Cidade. São Paulo, SP: Editora Paulinas. 1991. p.60

48
A missiologia urbana, num contexto religioso como o nosso, não pode dispensar a
reflexão bíblica, mesmo que as cidades das quais falam os Textos Sagrados pouco ou
nada tem a ver com as nossas metrópoles. Seria um erro de análise transpor
características das cidades referidas na Bíblia, no entanto não podemos ignorar a
história, se quisermos atuar numa perspectiva cristã. A seguir algumas cidades que se
destacam nas páginas da Escritura, com alguma informação sobre elas:
1) Sodoma (Gn 18.19): Uma das cinco cidades da planície do Jordão. Estudando esta cidade,
percebemos que existe uma relação entre a presença dos fiéis e a preservação da cidade. No
caso de Sodoma, se houvessem nela 10 justos, Deus não a destruiria. Há um princípio aqui: o
maior mal das cidades não é ambiental, mas sim espiritual e está dentro das pessoas. Em Ez 16.
49-50, temos a causa da destruição de Sodoma por Deus: “Soberba, fartura de pão e próspera
tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre necessitado. Foram
arrogantes, fizeram abominações diante de mim”.
2) Babilônia: A capital do império babilônico, fundada por Nimrod (Gn 10:10), localizada às
margens do rio Eufrates. Pelos registros do Antigo Testamento sabemos que foi para esta cidade
que Deus enviou os melhores jovens para exercerem atividades dentro das estruturas do palácio,
durante o cativeiro babilônico. Estes jovens assimilam a cultura da cidade, mas separam
perfeitamente sua fé e suas convicções das crenças e costumes desse reino (Dn 1.8-17). Daniel
realiza uma obra de assessoria espiritual. Torna-se um estadista com princípios éticos elevados.

A Babilônia simbolizava através das Escrituras a cidade completamente dominada por
Satanás. Ela é citada pela primeira vez em Gêneses 11 na decisão humana de construir a
Torre de Babel. No nosso contexto a cidade é Babilônia, símbolo da civilização com
sua pompa e com tudo organizado para ser contra Deus, William Hendrisken comenta:
“Uma cidade que fascina, que tenta, que seduz e arrasta as pessoas para longe de
Deus”100. Uma cidade mundana, louca por prazeres, arrogante e presunçosa. A
descrição da Babilônia (Ap 17 a 19), nos faz lembrar de Tiro (Ez 26-28), um centro
pagão de impiedade e sedução, uma grande metrópole industrial e comercial. Babilônia
indica um mundo como um grande centro de progresso, de comércio, de arte, de cultura.
Simboliza a concentração da luxúria, do vício, dos encantos deste mundo. É o mundo
visto como a personificação da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e
da soberba da vida (I Jo 2.16)
3) Nínive: Era uma grande cidade para a época, com mais de 120 mil habitantes101 (Jn 4.11),
capital de um poderoso império que durou por volta de 1.500 anos. Mas toda a riqueza e glória
dessa cidade provocaram a ira de Deus, já que foram conseguidas através da opressão e da
guerra.
Roger Greenway comenta:
Toda a vida política ou econômica da cidade se baseava na agressão militar, na
exploração de nações mais fracas e no trabalho de escravos. O profeta Naum
não poupou adjetivos negativos ao descrever esta traidora de nações e cidade de
sensualidades (Na 3.4). Nínive era mestra de feitiçarias e uma capital do vício.
Suas obras artísticas haviam sido pervertidas por obscenidades, sua cultura

100

HENDRIKSEN, William. Mais que Vencedores. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã. 1997 p.12
Samuel J. Schultz em História de Israel no Antigo Testamento, p.364, afirma que E.B.Pusey na obra The Minor
Prophets, vol. I (Nova Iorque: Funk and Wagnalls, 1885), p.426, “calcula a população de Nínive em 600 mil
habitantes” .
101

49
pelos ídolos, e sua beleza pela violência. Chamavam-na de cidade sanguinária`
(Na 3.1), porque o despojo haviam-na enriquecido (tradução nossa).102
A maldade da cidade provocou a ira de Deus. Greenway acrescenta:
O pecado da cidade era pessoal, pois o cometiam pessoalmente os milhares de
habitantes de Nínive. Era também pecado coletivo, porque somada em sua
totalidade a vida de Nínive, seu selo era: maldade. Ao sobrevir o castigo,
afetaria a cada um.103
Lendo os livros dos profetas Jonas e Naum observamos dados importantes sobre Nínive. A
preocupação de Deus de salvar a população dessa cidade, que estava fora da Palestina, é prova
de que de fato a salvação é universal.104
Deus providencia o profeta Jonas com uma mensagem de chamada ao arrependimento. Embora
não houvessem boas relações entre os israelitas e os assírios, Deus queria um missionário em
Nínive, a qual era a principal cidade dos sistemas urbanos do mundo de então. O profeta foi e
pregou percorrendo toda à cidade. Seus habitantes arrependeram-se de seus pecados e Deus
aceitou o arrependimento, desistindo de destruir a cidade.
4)Jerusalém: Jerusalém é uma das cidades mais famosas do mundo. Data do segundo
milênio A.C. no mínimo; e atualmente é considerada sagrada pelos adeptos das três
grandes religiões monoteístas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.105

Embora Jesus tenha pregado em diversas cidades como Cafarnaum, Nazaré, Betânia,
Jericó e outras, seu propósito final era Jerusalém (Lc 9:51), a cidade de Davi, a cidade
da paz. O conceito de Jerusalém para os judeus como cidade santa, exige um estudo
mais detalhado, mas este não faz parte do nosso propósito aqui. Contudo, é mister
registrar que é em Jerusalém que Jesus enfrentou os poderes estabelecidos, tanto o
religioso quanto o institucional. É a mesma Jerusalém que ele quis aconchegar com
afeto materno (Mt 23:37), é nela que com Ele se repete o mesmo destino dos profetas
(Mt 23:34). Sua morte se dá fora da cidade, mas o impacto causado não deixou o
ambiente urbano sossegado. Guardas foram deslocados para o sepulcro, discípulos de
trancam com medo, a cidade se contorce em comentários que depois se transformam em
silêncio. Porém, tal silêncio é quebrado pela ressurreição. Jerusalém volta a ser atingida
por Jesus, a notícia alvoroça a cidade e à seus líderes mais do que nunca. Em Jerusalém,
cidade de Davi, o Messias acabava de implantar o seu reino e reconquistar o poder sobre
tudo e todos. O Espírito Santo veio aos apóstolos em Jerusalém no dia de Pentecostes,
dando-lhes a capacidade de pregar o evangelho.
Em Apocalipse 21 lemos sobre a “Nova Jerusalém”, que é a Cidade Santa, a Noiva de
Cristo, a Igreja Triunfante, a Esposa do Cordeiro. A Bíblia começa com um jardim e
termina com uma cidade.
O contraste entre estas duas cidades e a Nova Jerusalém é claro. Enquanto estes tiranos
opressores usam as cidades para a sua própria glória e propósito, na Nova Jerusalém
os reis da Terra vêm para apresentar a glóriade Deus. (Ap 21:24). O propósito de
102

GREENWAY, Roger; Monsma, Timothy M. Cities – Mission´s New Frontier. Grand Rapids, Michigan: Baker
Book House. 1989. p. 20
103
Greenway. Op Cit., 20
104
Universal no sentido de que a salvação é para todos os povos e não apenas para os judeus.
105
Cf. O Novo Dicionário da Bíblia.

50
Deus jamais falha. Na Nova Jerusalém Deus claramente demonstra o seu propósito
escatológico para a cidade.106 A cidade era para ser um lugar onde os reis viriam para
exaltar o Rei dos Reis e não para elevar a si próprios.
Contraste Entre a Cidade dos Homens e A Cidade de Deus
Na Nova Jerusalém “as nações andarão mediante a sua luz” (Ap 21:24). Jamais haverá
noite naquela cidade (Ap 21:25). Que contraste em relação as cidades construídas
pelos homens. Mesmo durante o dia era perigoso andar pelas ruas por causa do
despotismo daqueles que tomaram o lugar de Deus naquela cidade. Não havia
segurança para aqueles que estavam oprimidos. É inclusive possível dizer que até
durante o dia na cidade dos homens, é sempre noite. As ameaças da noite estão
sempre presentes. Na Nova Jerusalém, entretanto, as nações podem caminhar
livremente, porque as luzes da cidade vêm daquele que a construiu: Deus. Não há
ameaça nas ruas da Nova Jerusalém, por isto seus portões estão sempre abertos. Não há
mal na cidade, somente aqueles que podem viver diante da glória de Deus a esta cidade
pertence. Conseqüentemente, a Nova Jerusalém é somente para aqueles cujos nomes
estão escritos no livro da vida.107
5) Antioquia da Síria: Antioquia foi a cidade onde a fundação para a missão mundial
foi estabelecida para alcançar os confins da terra. Ela era uma cidade cosmopolitana, a
metrópolis da Síria. Em 27 DC ela tornou-se a capital da Síria, sendo um importante
centro comercial e ações militares, Antioquia tornou-se em um influente centro urbano,
uma cidade (polis) Helenística e a terceira cidade do Império Romano. Ela era a terceira
maior cidade do Império Romano. Sua população, no primeiro século, estava estimada
entre 300.000 e 450.000 habitantes.
Sua população era mista formada de gentios e de judeus. Após o martírio de
Estevão, os cristãos fugiram para Antioquia e pregaram ali o evangelho, primeiramente
aos judeus que falavam a língua aramaica e depois aos judeus que falavam o grego.
Barnabé foi enviado pela igreja de Jerusalém para ali trabalhar. Depois de algum tempo,
foi buscar Paulo em Tarso. Ambos evangelizaram em Antioquia por um ano e meio.
Nessa cidade os seguidores de Cristo foram pela primeira vez chamados de cristãos (At
11.19-26). Boa liderança na igreja ali se desenvolveu (At 13.1). Em tempo de fome em
Jerusalém, os cristãos de Antioquia enviaram ajuda (At 11.28-30) e nas questões sobre a
circuncisão dos gentios convertidos, submeteram o assunto à igreja-mãe em Jerusalém
(At 15).
A igreja de Antioquia foi o ponto de saída e o ponto de chegada das viagens
missionárias de Paulo. Ali Paulo repreendeu Pedro por discriminar os gentios. “A
cidade conservou a sua grande opulência e a igreja continuou a crescer enquanto durou
o Império Romano” 108
6) Corinto: Cidade portuária da Grécia. Extremamente cosmopolita. O comércio era
muito desenvolvido. Os jogos atléticos, chamados Jogos Ístmicos, se sobressaiam aos
das demais cidades. Os teatros abrigavam milhares de pessoas. “Templos, santuários e
106

Rissi, Mathias. The Future Of The World. Naperville: R. Allenson Inc. 1966, p. 53
Mounce, Robert H. The Book Of Revelation . The New International Commentary Of The New Testament. Grand
Rapids: Eerdmans.1977, p. 385
108
DAVIS, John D. Dicionário da Bíblia. Rio de janeiro, RJ: Ed Juerp. 1985. p. 41
107

51
altares pontilhavam a cidade. Mil prostitutas sagradas se punham à disposição de
qualquer um no templo da deusa Afrodite “109. A vida imoral dos coríntios deu origem
ao verbo “corintianizar”.
No ano 52 d.C. o apóstolo Paulo chegou a Corinto e lá evangelizou por um ano e meio
(Atos 18:1-18). Uma congregação foi fundada. Paulo residia na casa de Áquila e
Priscila, líderes colaboradores. Apolo substituiu Paulo no trabalho da igreja. Não era de
se admirar que uma igreja em meio a uma sociedade tão paganizada tivesse tantos
problemas. Nessa congregação, entre todas as congregações fundadas por Paulo, surgiu
a questão de falar em línguas. Paulo escreveu três cartas à congregação de Corinto,
tendo uma se perdido.
Apesar das dificuldades enfrentadas, a igreja cresceu. “No segundo século, o bispo
dessa igreja exerceu grande influência na igreja em geral” 110
7) Atenas: Nome da capital da Ática, um dos estados da Grécia. “Esta cidade foi o
centro luminoso da ciência, da filosofia, da literatura e da arte do mundo antigo”111. Em
Atenas a idolatria era excessiva. Havia muitos altares e, entre esses, um ao “deus
desconhecido” (At 17.23), o que Paulo sabiamente usou para referir-se “ao Deus que
fez o mundo” (At 17.24).
Foi na segunda viagem missionária que Paulo esteve em Atenas. O evangelista Lucas
narrou:
Revoltava-se nele seu espírito, vendo a cidade cheia de ídolos. Argumentava,
portanto, na sinagoga com os judeus e os gregos devotos, e na praça todos os
dias com os que encontrava ali (At 17.16-17).

Os filósofos epicureus e estóicos debateram com Paulo. Os epicureus não reconheciam
um criador. A doutrina dos estóicos era panteísta. “Faziam distinção entre matéria e
força e davam-nos como sendo o princípio das coisas, do universo. A matéria era o
elemento passivo, e a força, um elemento ativo”112. Os ouvintes de Paulo “chegaram a
pensar que Jesus e a ´ressurreição` fossem duas divindades com as quais não estavam
familiarizadas”113. Em Atenas teve pouco resultado numérico o trabalho evangelístico
realizado por Paulo, embora não sofresse nenhuma perseguição religiosa.
8) Roma: a Grande Metrópolis114: Tradicionalmente fundada em 735 a.C.115 Tendo o
apóstolo Paulo visto o seu trabalho pioneiro-estratégico praticamente concluído no eixo
Jerusalém-Roma, ele agora volta os seus olhos para a capital do império com o intuito
de torná-la o novo celeiro base de ação missionária (Rm 15:24). Roma, do primeiro
século, era uma cidade incomum. Ela possuía mais de um milhão de habitantes e foi a
primeira cidade na história a atingir este número. Registra-se que ali haviam bairros de
mansões soladas, apartamentos de classe-média e "cerca de 4.600 prédios de aluguel,
109

GUNDRY, Robert H. Panorana d Novo Testamento. São Paulo, SP: Ed Vida Nova. 1985. p. 309
DAVIS, Op Cit. P. 128
111
DAVIS, Op Cit., p.61
112
Davis, Op Cit., pp.188-189 e 199
113
Gundry, Op Cit., p 268
114
Rev. Sérgio Paulo Ribeiro Lyra . Uma Teologia da Cidade Na Perspectiva do Novo Testamento. Extraído do site:
http://www.missiodei.com.br/ capturado em 01 de novembro de 2004
115
O Novo Diciuonário da Bíblia.
110

52
muitos deles com oito ou dez andares". Apesar do tamanho da cidade de Roma, a sua
igreja não era tão expressiva como a de Antioquia. Contudo marcou a sua presença na
cidade. O Evangelho chegou até a capital, provavelmente, por meio de gentios romanos
convertidos que estavam no dia de pentecostes em Jerusalém (At 2:10).
Embora, inicialmente, não se tenha conhecimento de que Roma tenha sido impactada
pelo evangelho, a cidade se tornaria o palco de grandes eventos da história do
cristianismo. Quer seja pelas perseguições cruéis, martírios e crimes, quer seja pelo
crescimento da igreja perseguida que depois de torna regio licita, e por fim se projeta
como a igreja do imperador, com a conseqüente ascensão da importância e
proeminência do cargo de bispo, principalmente o de Roma.
Muito há o que se aprender em termos missiológicos com a cidade de Roma, e não foi à
toa que Paulo a elegeu como nova fronteira missionária. A perversidade de instituições
corruptas de uma cidade cosmopolita, egoístas e corrompidas pelo poder e pela
dominação, se apresentam como um grande desfio e oposição à tarefa missionária. A
expansão do cristianismo em uma cidade, transforma o modus vivendi, assim como se
deu em Roma que antes perseguia, e matava cristãos até por diversão, se torna sua
seguidora e divulgadora. Uma séria advertência aqui necessita ser feita, tais
transformações na cidade não podem ser vista integralmente como verdadeiras, apenas
pela ação do evangelho. A mesma cidade de antes, agora se disfarça, e suas instituições
se "convertem" por conveniência ao status quo. O nominalismo e a hipocrisia escondem
as mesmas perversas estruturas antes aterradoras, e agora atuantes, utilizando-se de
outras e novas roupagens.
Nas palavras do missiólogo Linthicum, passamos a ter a "cidade com aparência de
Deus, mas com alma de Satanás".
Assim, cidades são fronteiras missionárias onde, ao passo que o reino se expande, a
resistência se acirra ou se disfarça para continuar presente. É em Roma, projeto da nova
base missionária de Paulo, que ele fica preso, é julgado e executado.
9) As cidades no ministério de Jesus: As cidades tiveram uma grande importância em
seu ministério. Jesus nasceu na vila de Belém. Foi criado na cidade de Nazaré, que na
época teria de 15 a 20 mil habitantes.116 A maior parte da população de Nazaré era de
gentios e por isso, uma cidade desprezada. Mas foi justamente numa sinagoga de
Nazaré que “Jesus estabeleceu suas credenciais messiânicas” 117ao apresentar seu
programa de missão quando leu em Is 61.1-2 e 58.6:
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os
pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista
aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do
Senhor (Lc 4.18-19).

Depois que Jesus tornou pública sua missão, “desceu a Cafarnaum, cidade da Galiléia”
(Lc 4.31). Cafarnaum estava localizada junto ao Mar da Galiléia, tendo inúmeras
indústrias ligadas à pesca. Era uma das mais importantes cidades da província.
116

BARRO, Jorge H. De Cidade Em Cidade – Elementos para uma teologia bíblica de missão urbana em LucasAtos. Paraná, Londrina: Ed. Descoberta, 2002. p. 47
117
Orlando Costas, em Christ Outside the Gate, NY: Orbys Books, 1982:55, citado por Barro, Op Cit., 46

53

“Estava localizada em um lugar extremamente estratégico, às margens de uma rota
internacional de comércio que ligava Egito, Palestina, Síria e Mesopotâmia”118. Em
Cafarnaum Jesus ensinou, ajudou e curou pessoas. Nessa cidade ´fixou residência`,
partindo dali para outros lugares.
O ministério público de Jesus é resumido em Mt 9.35: “E percorria Jesus todas as
cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando
toda sorte de doenças e enfermidades”.
Pregar a palavra do Pai nas cidades fazia parte da estratégia evangelística de Jesus. Ele
disse: “É necessário que anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras
cidades, pois para isto é que eu fui enviado” (Lc 4.43). Jesus era aquele “que andava de
cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de
Deus” (Lc 8.1) e vinha “ter com ele gente de todas as cidades” (Lc 8.4).
V. CARACTERÍSTICAS E PROBLEMAS DO HOMEM URBANO

5.1 Características do Homem Urbano
5.1.1 Características psico-sociais:

118

Anonimato – Esta é a primeira característica descrita por Cox no seu clássico
"A cidade secular"119 ao se referir à face da cidade. Em geral as pessoas se
horrorizam diante da impessoalidade e pela perda da identidade que a cidade
traz. Pessoas podem perder toda sua identidade personalidade no meio da
correria diária, e dos intermináveis números. "Solidão é indubitavelmente um
sério problema na cidade"120

Alienação – Neste caso, percebe-se que a pessoa não passa de um número, e que
os encontros normalmente são feitos de forma esporádica e sem desejo de
aproximação. O homem urbano se distancia facilmente do outro. A falta de
intimidade e distanciamento nos grandes centros e grupos. Você pode morar no
mesmo prédio e não conhecer quem mora em frente à sua casa. Exemplo pastor
do Rio de Janeiro que mudou-se par ao interior por medo da alienação da grande
cidade.

Isolamento – Diante da constante mobilização, as pessoas são sempre muito
diferente mesmo na vizinhança. Muitas estão constantemente se mudando.
Alguém por perto não significa "proximidade".

Despersonalização – individuo tratado como número e coisa. Tente acessar seu
banco, sua conta na internet. Você estará sendo sempre identificado pelo número
que tem. A Bíblia diz que mais vale o bom nome do que as muitas riquezas, mas
na cidade, mais vale um bom número.

BARRO, Op Cit, p 54
Cox, Harvey – The secular City, pg 37
120
Cox, idem, pg. 39
119

54
A atmosfera impessoal dos grandes centros urbano, produzindo uma terrível
solidão. Os lugares de maior solidão no mundo não são “o deserto Saara e a Amazônia,
“ mas sim os grandes centros urbanos. Pessoas que moram nos grandes complexos de
apartamentos não conhecem seus vizinhos e raramente conversam entre si. Proximidade
geográfica, por si só, não produz comunhão ou relacionamentos fraternos ( Sl 25.16 ).
5.1.3 Características morais e religiosas :
a) Ele tem a tendência a ser um cristão nominal.
b) Ele é tendente a ter padrões morais relaxados.
c) Ele tem inclinação à auto-suficiência.
d) Posmoderno121
5.1.4 Características cívicas e políticas :
a) Ele tem a consciência política mais acentuada.
b) Ele tem a tendência de ser influenciado por grupos de pressão.
5.2 Problemas do Homem Urbano
5.2.1 Problemas econômicos: O grande êxodo rural tem inchado as cidades,
provocando o baixo nível econômico de vida. O desemprego tem crescido e
consequentemente as pessoas têm apelado para o emprego informal. A habitação não
tem sido suficiente para todos, ocasionando o surgimento de casebres e favelas122. O
saneamento básico não tem acompanhado esta expansão rápida e descontrolada.
Epidemias têm surgido com mais facilidades. ( Dados da FGV mostram que 33% da
população brasileira é constituida de miseráveis e que para erradicar a pobreza
bastaria apenas a contribuição de R$14,00 por cidadão que está acima da linha da
pobreza).
São Paulo também tem grande quantidade de favelas e as estimativas mais recentes
indicam que há na cidade 2018 favelas cadastradas, nas quais vivem aproximadamente
1.160.516 habitantes. (Rocinha é a maior favela do Rio de Janeiro contando com mais
de 60.000 habitantes)123

121

A pessoa urbana vive numa época denominada de pós-modernidade. Jair Ferreira dos Santos (1991:8) descreve
assim a pós-modernidade: O nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas
desde 1950, quando, por convenção se encerra o modernismo (1900-l950) [...] Nasce com a arquitetura e a
computação nos anos 50, toma corpo com a arte Pop nos anos 60, cresce ao entrar pela filosofia durante os anos 70,
como crítica da cultura ocidental e amadurece hoje, abstraindo-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano
programado pela tecno-ciência (ciência + tecnologia) invadindo o cotidiano desde alimentos processados até
microcomputadores.

122
A origem do termo se encontra no episódio histórico conhecido por Guerra de Canudos. A cidadela de Canudos
foi construída junto a alguns morros, entre eles o Morro da Favela. O Morro de Favela possui este nome porquê o
morro era coberto de uma planta, chamada de favela. Os soldados que foram lutar na região, ao voltar ao Rio de
Janeiro, em um certo momento deixaram de receber seu soldo e passaram a morar em construções provisórias
instaladas em alguns morros da cidade, juntamente de outros desabrigados. A partir daí, estes morros passaram a ser
conhecidos como favelas, em referência à "favela" original.(Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Favela. capturado em
04/05/2006)
123
MINISTÉRIO DAS CIDADES. "Política Nacional de Habitação." Cadernos do MCidades Habitação vol 4.
Brasília: MCidades, 2004. p.13

55
A migração da população rural para o espaço urbano em busca de trabalho, nem sempre
bem remunerado, aliada à histórica dificuldade do poder público em criar políticas
habitacionais adequadas são fatores que têm levado ao crescimento dos domicílios em
favelas. Dados do Ministério das Cidades, apoiados nos números do Censo 2000 do
IBGE, apontam que entre 1991 e 2000, enquanto a taxa de crescimento domiciliar foi de
2,8%, a de domicílios em favelas foi de 4,8% ao ano. Entre 1991 e 1996 houve um
aumento de 16,6% (557 mil) do número de domicílios em favelas; entre 1991 e 2000 o
aumento foi de 22,5% (717 mil).
Dentro deste aspecto, vale citar a influência que Calvino teve na área social em
Genebra. Tal influência e contribuição levou Graham a considerar Calvino como o
teólogo de maior influência para o contexto urbano de sua época, ao defender que "todo
empreendimento humano está marcado com o mal, contudo isto nos impulsiona com o
propósito de fazer o evangelho relevante na cidade de comércio na qual vivemos e
trabalhamos.". Dentre o muito que foi conseguido pela participação marcante do
reformador em Genebra na área sócio-econômica podemos destacar 12 itens:124











Assistência social aos necessitados sem discriminação de nacionalidade.
Ajuda e cuidado com a saúde popular através de um programa de visita médica
domiciliar.
Esforços do governo na capacitação profissional.
Combate ao desemprego com oferta de trabalho pelo governo.
Ênfase no amparo aos pobres, idosos e desamparados.
Luta contra a insolência do luxo em relação aos pobres.
Exemplo de simplicidade por parte dos reformadores-líderes públicos.
Limitação dos juros nos empréstimos.
Forte combate à especulação.
Ataque frontal à escravidão.
Combate a bebedice e proliferação das tavernas.
Grande esforço na educação de todos.

Rev. Sérgio Lira também faz breve menção sobre a liderança de Calvino na área da
educação. Diz ele:
Em Genebra a sua grande marca educacional ficou indelével através da criação da
Academia. Essa escola possuía dois níveis, o fundamental que era conhecido como
escola superior ou pública , e o segundo era o inferior ou escola privata equivalente ao
nosso terceiro grau. A Academia de Genebra foi fundada em 1559 e Calvino convidou
Teodoro Beza para ser o seu primeiro reitor. Essa escola veio a tornar-se o seminário do
calvinismo e o modelo para várias outras universidades que foram lideradas por grandes
nomes, ex-alunos da Academia de Genebra. No ano da morte de Calvino a escola tinha
1.500 alunos matriculados, onde a maioria era de estrangeiros. A escola de primeiro
grau possuía 1.200 alunos, e a universidade 300 estudantes de teologia, direito e
medicina125 .

124

LIRA, Sérgio Paulo Ribeiro. Em seu artigo João Calvino: Sua Influência na Vida Urbana de Genebra in:
http://www.monergismo.com/textos/historia/calvino_genebra_sergio.htm capturado em 28/12/05
125
Idem

56
5.2.2. Problemas Sociais ou violência urbana:
• Crimes contra a vida: homicídio - assassinato, infanticídio, aborto ,latrocínio
(assassinato com objetivo de roubo), lesão corporal (ataque à integridade física de
outra pessoa)
• Crimes contra a honra: injúria (ofensa verbal, escrita ou encenada), calúnia
(falsa atribuição de cometimento de crime a alguém), difamação (propagação
desabonadora contra a boa fama de alguém).
• Crimes contra o patrimônio: furto (subtração de coisa alheia), roubo (subtração
de coisa alheia mediante violência), dano (danificação de coisa alheia), extorsão
(extorsão mediante seqüestro
• Crimes contra os costumes: estupro, corrupção de menores (indução de menor
a práticas sexuais), rapto de mulher.126

Local
Peru

Motivo
Guerrilha

Tempo
7 anos

Mortos
25.000
cidadãos

Vietnã

Guerra

7 anos

56.000
americanos

Rio
de Violência
Janeiro
urbana

7 anos 70.000
(85-91)
cidadãos
Revista Conjuntura Economica - Fundação G.V. 02/94

5.2.3 Problemas na Família: A desintegração da família tem aumentado com os
meios de comunicação, incentivando a infidelidade conjugal. Os filhos pequenos,
muitas vezes, ficam sós ou com pessoas que não têm condições de educá-los, enquanto
os pais trabalham fora. Separações de casais têm crescido e se tornado algo comum.127
“A Igreja é chamada a assumir a sociedade urbana, não por oportunismo religioso, mas
por vocação (...) Seu papel consiste em criar o povo de Deus a partir da cidade”. 128
5.2.4 Problemas psicológicos: Estes e outros problemas acarretam a
instabilidade emocional. As pessoas sentem-se inseguras, ficam ansiosas, aumenta a
incidência da depressão.
5.2.5 Problemas espirituais e morais: Nunca ocorreu com tão grande
intensidade a proliferação de seitas religiosas. Muitas fazem promessas vãs, mais
confundindo do que ajudando. Seitas espiritualistas têm recebido mais credibilidade. O
esoterismo ganha cada vez mais adeptos. Pessoas, sem estruturas emocional e espiritual,
tornam-se facilmente presas do alcoolismo, de drogas inaláveis e injetáveis e outros
vícios desagregadores. A corrupção sexual aumenta e quadrilhas se organizam a fim de
aliciar menores para o “turismo sexual”. Cidade é cenário de luta espiritual. Milhares de

126

Cf. MORAIS, Regis. Que é violência urbana. Sao Paulo : Brasiliense, 1985 p. 121
A Revista Isto É de setembro de 1994 traz uma reportagem de 6 páginas intitulada "Barriga de Anjo", na qual trata
da gravidez na adolescência. Essa reportagem mostra os assombrosos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística) dando conta de que: “...um milhão de meninas de 15 a 20 anos dão à luz no Brasil por ano..
Elas são responsáveis por 20% do total de nascimentos. Enquanto mulheres entre 21 e 49 anos diminuem a cada ano
sua contribuição no total de nascimentos, os casos de mães precoces triplicaram da década de 80 para cá.(p.69)
128
Comblin, Jose – Teologia da Cidade. São Paulo, Paulinas, 1991, pg 19
127

57
pessoas são vitimas de religiões falsas, de seitas e grupos espiritualistas, em busca de
sentido e identificação.
5.2.6. Problemas educacionais: Nem todos têm acesso a boas escolas. E quando
têm, a necessidade de trabalhar fora do lar bem cedo impede de continuarem os estudos.
A pessoa de pouca leitura e reflexão pode ser mais facilmente manipulada pelos meios
de comunicação de massa, os quais podem influenciar com uma cultura enlatada as
pessoas.
Algumas dificuldades:
• O baixo salário dos professores
• Pressão econômica daqueles pais que necessitam do trabalho das crianças.
• Falta de boas universidades e dificuldades no acesso a estas(principalmente nos
países mais populosos e menos desenvolvidos).
• Evasão escolar antes do término do ensino Ensino Fundamental.
• Elevado número de jovens e adultos que não concluiram a escolarização em idade
regular.

VI. OBSTÁCULOS PARA O CRESCIMENTO DE IGREJAS URBANAS
Nós concordamos que a evangelização é um imperativo de Cristo para a sua igreja,
contudo, não são poucas às vezes que nos sentimos impotentes, desanimados e vencidos
diante de tamanha responsabilidade. De fato, mesmo cônscios de nosso dever, da
assistência divina e dos frutos, ainda assim, não deixamos de reconhecer as barreiras
que se levantam e nos intimidam ou amedrontam quando pensamos em evangelizar.
Precisamos reconhecer barreiras reais129 e contrapô-las com os recursos dispostos por
Deus ao nosso alcance. Se muitas forem as barreiras, suficiente e superior será o auxílio
divino para transpô-las, nos concedendo vitórias e nos fazendo efetivos instrumentos de
proclamação das Boas Novas da Salvação em Jesus Cristo.
1. Diabo. Satanás, com seus anjos maus, procura impedir o crescimento da igreja em
qualquer lugar. John T. Mueller exemplifica as artimanhas destes inimigos da igreja de
Cristo:
a) continuamente procuram destruí-la por investidas em geral (Mt 16.18);
b) tentam impedir que os ouvintes recebam a Palavra de Deus (Lc 8.12);
c) disseminam doutrina errônea (Mt 13.35; 1 Tm 4. 1s); e
d) incitam perseguições ao reino de Cristo (Ap 12.7 [...] No intuito de arruinar a
igreja, o diabo causa transtornos também ao estado político (!Cr 21.1; 1 Rs
22.21-22), e ao estado doméstico (1 Tm 4.1-3; 1 Co 7.5; Jó 1.11-19).

2. A Relativização de absolutos: Vivemos dias em que os absolutos são descartados.
A verdade tornou-se subjetiva e pessoal, cada um tem sua própria verdade. A liberdade
individual e a felicidade pessoal são o alvo buscado e a justificativa de qualquer meio
para se alcançar este fim. A nossa cultura perdeu a perspectiva de que existe uma lei
129

As barreiras que estudaremos a seguir, algumas foram extraídas e adaptadas da obra de Jerram Barrs, A Essência
da Evangelização, Editora Cultura Cristã. São Paulo. 2004

58
moral transcendental que se aplica a todos e que rege o próprio equilíbrio das partes.
Diz o insensato no seu coração: não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já
não há quem faça o bem. (Salmo 14.1)
“O Cristianismo é a única história que faz o nosso mundo ter sentido, que age como
guia moral, que nos enche com uma esperança confiante dos nossos futuros individuais
e o futuro da nossa raça e o deste mundo”, entretanto, a História Cristã perdeu seu
significado para o homem moderno.
Entrementes, a relativização de absolutos, ou seja, você decide o que é verdadeiro
segundo suas próprias concepções, tem rodeado e até mesmo invadido a igreja. Muitas
das nossas convicções e fundamentos sobre os quais lançávamos princípios de vida
estão abalados e sob suspeição. As incertezas sobre o teor da mensagem do Evangelho
nos fazem recuar. Será que de fato cremos numa verdade? Ela poderá mudar derrubar os
muros da incredulidade? Já não nos sentimos tão seguros quanto ao conteúdo de nossa
pregação. Como combater a incerteza com incertezas?
“Devemos ter certeza de que nossa fé é de fato a verdade”. Para tanto, o conhecimento e
estudo da Palavra de Deus é a fonte que nos prepara para que possamos estar “sempre
preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em
vós”. (1 Pedro 3.15b), assim, “...procurai, com diligência, cada vez maior, confirmar a
vossa vocação e eleição...” (2 Pedro 1.10a).
3. Ausência de credibilidade da Igreja: Boa parte da população está decepcionada
com erros diversos em igrejas como a exploração financeira, escândalos de líderes
religiosos, o legalismo de certas igrejas que impõem aos seus adeptos leis humanas
muito rígidas, tirando-lhes a alegria de viver.: Outra barreira que enfrentamos na
evangelização urbana é o discurso da incoerência. A igreja tem desassociado a pregação
do testemunho. A ética cristã tem se tornado extremamente maleável, adequando-se às
circunstâncias. Os escândalos estão nos deixam constrangidos – porém, não
envergonhados ou arrependidos – a nós já não pertence mais o “corar de vergonha”
(Daniel 9.7b)
O evangelho está desacreditado porque perdemos o crédito de nosso comportamento
perante a sociedade. É certo que não somos perfeitos e ao olharmos para o passado,
veremos manchas na História que até hoje são evocadas e simplesmente nos enchemos
de desculpas. Devemos assumir os erros que se registraram nos anais da história,
atitudes humanas desprovidas de aprovação divina.
Mas, ao mesmo tempo em que devemos assumir nossos erros passados, devemos,
também, tomar atitudes no presente para coroar o futuro, viver como luz do mundo e sal
da terra, a fim de que os homens vejam nossas boas obras e glorifiquem a Deus (Mateus
5.13-16).
4. A perda da linguagem comum: A comunicação é uma importante conexão entre as
pessoas e para que ela se efetive o transmissor da mensagem deve se fazer entender pelo
seu receptor, ou seja, minhas palavras devem estar adequadas à linguagem do ouvinte.
Como costumamos dizer: “agora, estamos falando a mesma língua” - referência ao fato
de terem se entendido. Isto, porém, tem se perdido nos dias atuais. “Mais e mais pessoas
são biblicamente analfabetas” – incluindo o meio evangélico. Devemos ter a

59
sensibilidade para fazermo-nos entender na pregação, na proclamação de uma
mensagem universal que é “para todos as nações, tribos, povos e línguas” em qualquer
tempo ou lugar.
Devemos nos questionar sobre tais barreiras, reconhece-las tão somente não é
suficiente, é preciso preparar-se para enfrenta-las, e temos recursos para isto, como
afirma o apóstolo Paulo: “porque as armas de nossa milícia não são carnais e sim
poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando nós, sofismas e toda altivez que
se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à
obediência de Cristo”. (2 Coríntios 10.4,5). Sendo, pois, praticantes da Palavra e não
somente ouvintes (Tiago 1.22) o nosso testemunho falará mais alto que nossas palavras
e esta é uma linguagem que todos compreendem, vida coerente.
5. Reação de Condenação: Quando nos sentimos acuados reagimos condenando a
todos. A parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14) ilustra o cuidado que
devemos ter em relação a julgarmo-nos melhores do que outros. Se do “lado de fora”
sentimos o cheirinho de enxofre nos “pecadores” e agradecemos a Deus por não sermos
como eles, um perigoso sinal nos alerta contra a vaidade e arrogância espirituais. Não
devemos julgar nossos inimigos, antes, amá-los. Se fosse possível tirar uma fotografia
da realidade espiritual da alma humana e guardássemos a nossa, antes da conversão,
veríamos que somos tal qual aqueles que desprezamos ou condenamos.
É neste tipo de arrogância que criamos uma subcultutra cristã (mera presunção) que
finalmente vai mudar as coisas, pensamos nós. Nos propomos a preencher os espaços
políticos, culturais, sociais para subjugar o “ímpio”, mas para isso vale tudo que estiver
ao nosso alcance, seja ético ou não, seja lícito ou não, seja honesto ou verdadeiro ou
não. Nos tornamos maiores tiranos do que aqueles que foram “demonizados” por nós.
Devemos, como Cristãos, exercer nossa cidadania e contribuir ativa e conscientemente
nossos direitos e deveres como cidadãos. Mas, também como Cristãos, devemos ter a
percepção de que pertencemos uma “nacionalidade” que nos exige que vivamos
segundo suas prerrogativas, como cidadãos do céu e neste exercício de cidadania a
palavra amor e misericórdia estão entre os primeiros deveres.
6. Isolamento: Uma falsa idéia se opõe a uma evangelização ativa: “não pertencemos
ao mundo devemos, simplesmente, nos isolar”. Somos a geração dos condomínios
fechados, do shopping center, das grades de segurança, do espaço privado distante e
protegido do espaço público. Reagimos, então, da mesma maneira, nos isolando em
nossas casamatas (abrigos subterrâneos usados principalmente nas guerras) e criamos
um novo conceito de “mosteiro social gospel” com uma placa na entrada: “proibida a
entrada de estranhos”.
Não devemos amar ao mundo, é certo, disse o apóstolo João, mas, também somos o sal
da terra. Imaginemos se podemos temperar um feijão colocando o saleiro em frente à
panela. Devemos por o sal no feijão e suas propriedades suscitarão o efeito desejado.
Podemos criar espaços com certas peculiaridades, mas não nos escondermos em guetos
evangélicos.
7. Separação: Uma outra barreira sutil e perigosa é a de nos separarmos das pessoas
“de lá de fora” e restringir nosso círculo social aos “irmãos”. A senha poderia ser (e às

60
vezes é), “a paz do Senhor” em caso de resposta satisfatória, então é bem vindo ao
nosso meio, de outra forma, “as más conversações corrompem os bons costumes” (1
Coríntios 15.33 – interpretado fora do contexto). Olhemos para aquele que foi acusado
de ser amigo de publicanos e pecadores (Lucas 7.34), que tocou em leprosos, que
perdoou prostitutas, que se aproximou dos excluídos.
Já tentou conversar com alguém que não te olha nos olhos? Que estranha sensação.
Como podemos pregar o evangelho que tem características tão evidentes de amor,
misericórdia, perdão, reconciliação, adoção, aceitação? Seria muito difícil uma família
adotar uma criança órfã sem permiti-la entrar em sua casa. Nós fomos adotados e
recebidos na presença do Pai, que não faz acepção de pessoas (por isso nos aceitou),
como poderemos testemunhar disto praticando o oposto da mensagem?
8. Paganismo: O paganismo está de volta á essa geração pós-moderna. As seitas e
religiões espiritualistas ganham novos adeptos e seus conceitos não são questionados se
verdadeiros ou sensatos, basta que faça a pessoa se sentir espiritual e se lhe é sensata e
moral. Interessante notar aqueles que chamam cristãos de fanáticos e incultos, e no
ápice de sua própria arrogância veneram e acreditam em superstições, pirâmides,
objetos, fetiches, gnomos e duendes. São, na verdade, pessoas carentes de uma
espiritualidade verdadeira e de um amor profundo, coisas que só encontrarão no
Evangelho que a nós foi confiada a proclamação.
9. A insegurança urbana: Como já vimos, a violência tem aumentado nas cidades.
Estatísticas revelam que em São Paulo no ano de 2001, os sequestros envolvendo
pessoas de qualquer camada social aumentaram 600%.
Assaltos nas ruas,
arrombamento de residências e tráfico de drogas têm levado as pessoas a se trancarem
em suas casas e duvidarem de todos.
Pelo poder da Palavra e do Espírito Santo, as pessoas são convertidas e integradas nas
congregações. Porém, muitas vezes terão dificuldades para participarem de
programações à noite, por falta de segurança.
10.Ativismo: O ativismo é outra barreira sutil e perigosa. Nos envolvemos em tantas
atividades na igreja e ocupamos de maneira tal nosso tempo, que não nos sobra
momentos de sociabilidade (muito importante no evangelismo pessoal). Falta-nos tempo
para a família, parentes, vizinhos, etc. Algumas vezes, fazemos disso uma desculpa para
“fugir” de determinadas atribuições. Mas, em meio à tantas “atividades inadiáveis”,
somos exortados a buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (6.33).
11. Medo de testemunhar: Este medo pode se manifestar, por causa de algumas destas
razões:
a) Temor de ser rejeitado - ao falar de Cristo, você se expõe, define sua posição,
mostra em que valores você crê. Obviamente, a possibilidade de rejeição existe, e
é muito maior do que a possibilidade de ser respeitado em suas convicções cristãs.
b) Temor de ser um fracasso - às vezes, não temos vergonha de testemunhar
abertamente, mas tememos receber um "NÃO", ao tentarmos evangelizar alguém.
Ou então, fracassarmos por não comunicarmos com clareza o plano da salvação.

61
c) Temor de se contaminar com os incrédulos - muitas pessoas, quando se
converteram, foram erradamente instruídas a não cultivarem amizades com
incrédulos. O desejo de santificação é muito positivo, mas algumas pessoas tem
partido para radicalismos e exageros.
O crente ser sal e luz, dentro da comunidade doente (Mt 5:13-16). Devemos ter muito
cuidado com o conceito de sermos separados do mundo (Jo. 17:11, 14,15). O crente
deve conhecer os problemas do seu tempo, para manter conversas inteligentes. Saiba
dialogar sobre outros assuntos, além da Bíblia. Paulo, em Ef. 4:17 diz: "não andeis
como andam os gentios". Mesmo andando entre os incrédulos, não devemos viver como
eles, mas podemos viver entre eles.
12. Não saber como comunicar o evangelho: Muitas pessoas nunca prepararam seu
testemunho escrito. Outras pessoas, nunca estudaram nenhum plano bíblico para
evangelização. Pode ocorrer também a falta de capacidade, de como iniciar uma
conversa, que viabilize a pregação do Evangelho.
13. Falta de confiança: Outra barreira é a falta de confiança. De certa forma, ela tem
um aspecto positivo, pois nos ensina a humildade e a dependência de Deus. Outro
aspecto, porém, precisa ser retirado de nossos pensamentos. Tal obra não é resultante de
mero esforço humano, conseqüentemente, Aquele que nos comissionou, também nos
capacitará.
O apóstolo Paulo reconheceu-se fraco diante de tal missão. Escrevendo aos colossenses
diz:
Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta
à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também estou
algemado; para que eu o manifeste, como devo fazer. Cl. 4:3,4
Se esta oração partiu dos lábios deste intrépido evangelista, não necessitaríamos
também orar de maneira semelhante? Conhecer nossos temores e fraquezas é o ponto de
partida para todo crescimento, porque esse conhecimento nos leva a orar por nós
mesmos e requer de nós reconhecer, perante os outros, que não somos de maneira
alguma adequados para as tarefas para as quais Deus nos chamou.
A oração humilde tem que ser nosso ponto de partida. Deus é compreensivo e gracioso e
certamente suprirá nossas limitações, nos dispondo a ajuda necessária para “dissipar
nosso medo e nos dar ousadia de coração e palavra”.
Quando vos levarem às sinagogas e perante os governadores e as autoridades, não vos
preocupeis quanto ao modo por que respondereis, nem quanto às coisas que tiverdes de
falar. Porque o Espírito vos ensinará, naquela mesma hora, as cousas que deveis dizer.
(Lucas 12.11,12)
XIII. ESTRATÉGIAS DE EVANGELIZAÇÃO URBANA
Sabemos que a conversão de indivíduos ao Cristianismo, sua busca e transformação
operados pela ação do Espírito Santo, se dá apenas mediante a pregação da Palavra e a

62
aplicação interna desta feita pelo Espírito Santo. Todavia devemos ter em mente que os
meios que Deus utiliza para que a sua Palavra seja coloca e aplicada no coração dos
seus eleitos faz uso de vários meios diferentes. Jerram Barrs sugere o seguinte quanto a
este assunto:
À medida que começamos a fazer perguntas àqueles que chegaram à
fé, vamos descobrindo quão fiel e pacientemente Deus trabalhou na
vida deles para conduzi-los ao ponto de compromisso. Descobrimos
também que Deus usa de uma infinita variedade de meios para atrair as
pessoas a ele130

Deus utiliza as características peculiares de cada um dos seus eleitos para chamá-los à
salvação, afinal “como uma pessoa é única, assim também o caminho que Deus usa
para atrair cada pessoa a ele é único”.131 A seguir descreveremos algumas estratégias de
evangelização que poderão ser utilizadas nas cidades.
1. Formar Equipes de oração: O nosso primeiro passo na Evangelização deve ser a
humildade diante de Deus em reconhecermos quem somos e quem Deus é, e isso nos
leva a reconhecer a nossa dependência do Senhor. Em outras palavras, “Começamos
com um apropriado senso de humildade sobre o nosso papel e sobre nossa capacitação
para o trabalho diante de nós, e essa humildade deve nos levar à oração.”132. A Igreja
precisa sentir o desejo de orar pelos ainda não convertidos.133
Um outro fator peculiarmente interessante é que
Deus nos colocou em ‘famílias’134 e ele alegremente utiliza esse meio mais
natural para a extensão de seu reino. Então, começamos a orar por aqueles com
quem vivemos e amamos. Estes, acima de todos, devem ser as pessoas por
quem nos importamos mais profundamente e oramos por eles.135

Uma outra frase interessante de Jerran Barrsé a que afirma que “Oração sincera,
apaixonada, poderosa deve brotar dos nossos corações em favor daqueles a quem
amamos, e daqueles cujas vidas são ligadas conosco, na teia da existência diária.” 136
Sem dúvidas um primeiro bom motivo para orarmos é “... pela obra do Espírito Santo
nos corações e mentes daqueles que nos rodeiam. Sabemos que ele pode alcançar o
íntimo, trabalhar suas mentes e corações, o que não podemos fazer.” 137 Mas, também
devemos orar para que as portas se abram para nós, proclamadores da palavra de Deus.
não devemos nos esquecer nunca que “Cristo prometeu reinar sobre as nações e sobre
nossa vida pessoal por amor ao evangelho. Então podemos Ter certeza de que ele
130

BARRS, Jerram. A essência da evangelização. Editora Cultura Cristã. São Paulo. 2004. Página 95.
Ibid, página 95.
132
Jerram BARRS, A Essência da Evangelização, p. 44.
133
Cf. uma bela frase de PIPER sobre a oração na nota 15 desse trabalho.
134
A família tem um lugar de destaque na sociedade em geral. Essa verdade é reconhecida até por pessoas que não
pertenciam a família cristã, como é o caso do filósofo J. J. ROUSSEAU (1712 – 1788) que afirma que “A mais
antiga de todas as sociedades, e a única natural é a família.” (ROUSSEAU, Jean – Jacques, (s/d). Do Contrato
Social e Discurso sobre a Economia Política. Tradução de Márcio Pugliesi & Norberto de Paula Lima. 7 ed.,
Curitiba – PR, Hermus Livraria. p. 18).
135
Jerram BARRS, op. cit., p. 44.
136
Ibid., p. 45.
137
BARRS, Jerram. A Essência da Evangelização. Tradução de Neuza B. da Silva. São Paulo – SP: Cultura
Cristã. p. 47
131

63
responde nossas orações quando lhe pedimos para abrir as portas à medida que
construímos relacionamentos com pessoas.” 138 Por mais que as vezes pensemos que
Deus demora em responder nossas orações, não podemos jamais nos esquecer das
palavras de Pedro que afirma que o Senhor não retarda a sua promessa. (Cf. II Pe. 3: 8 –
9). Isso é o que nos consola e fortalece quando desanimamos na missão de pregar o
Evangelho ou em alguma outra questão de ansiedade que temos no dia a dia.
É preciso orar por causa da extrema dureza do coração humano (Jr 3.17; 7.24; 11.8;
16.12; 18.12). O pecador tem “coração obstinado” (Is 46.12), “tendão de ferro no
pescoço” e “testa de bronze” (Is 48.12). Ele carrega uma bagagem enorme de apatia,
ignorância, cegueira, loucura, incredulidade, tradicionalismo, preconceito, soberba e
servidão pecaminosa.
É preciso orar porque só Deus é capaz de fazer o mais difícil de todos os transplantes:
“Tirarei do peito deles o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” e
“colocarei no íntimo deles um espírito novo” (Ez 11.19).
2. Testemunho pessoal: Cada cristão em particular, por ser parte da Igreja de Deus,
tem a responsabilidade de se envolver no chamado missionário que Deus deu a Igreja.139
Duas passagens em particular me que observamos os apóstolos convidando aos crentes
para participarem do trabalho de evangelização. ( Cl 4:5,6; I Pe 3:15,16)
É preciso viver o que se prega, senão a evangelização torna-se uma hipocrisia. Essa
incoerência entre conduta e mensagem gera indignação, desprezo, zombaria, escândalo,
incredulidade e rejeição.
Jesus deu muita ênfase à evangelização pelo exemplo, quando declarou francamente:
“Vocês são o sal da terra para a humanidade; mas, se o sal perde o gosto, deixa de ser
sal e não serve mais para nada; é jogado fora e pisado pelas pessoas que passam” (Mt
5.13, NTLH). No mesmo Sermão do Monte, Ele ensina que “uma cidade construída
sobre a montanha não fica escondida” e “não se acende uma lâmpada para colocá-la
debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro, onde ela brilha para todos os que estão
em casa”. Em seguida, Jesus ordena: “Assim também, a luz de vocês deve brilhar para
que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está
no céu” (Mt 5.14-16, CNBB e NTLH). Somos agora o que Jesus foi no passado:
“Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (Jo 9.5). A igualdade da missão de
Jesus com a de seus discípulos aparece também na Grande Comissão: “Assim como tu
me enviaste ao mundo, eu também os enviei” (Jo 17.18).
Aos coríntios, Paulo assume que, “como um perfume que se espalha por todos os
lugares, somos usados por Deus para que Cristo seja conhecido por todas as pessoas” (2
Co 2.14, NTLH). Tornamos o evangelho conhecido mais pelo perfume do que pela
palavra. Abusando da figura, é possível acrescentar: mais pelo olfato do que pela

138

Jerram BARRS, op. cit., p. 48.
Acertadamente sobre este assunto afirma PIPER: “Deus está nos chamando, acima de tudo, para sermos o tipo de
pessoa cujos temas são a sua total supremacia em nossa vida. ninguém será capaz de elevar-se à magnificência da
causa missionária, se não sentir a magnificência de Cristo. Não haverá nenhuma grande visão universal sem um
grande Deus. Não haverá nenhuma paixão para atrair outros à adoração, se não houver nenhuma paixão pela
adoração.” (PIPER, Jonh. Alegrem-se os Povos. A Supremacia de Deus em Missões. Tradução de Rubens
Castilho. São Paulo – SP: Cultura Cristã, 2001. p. 43 – 44).
139

64
audição. Foi por isso que São Francisco de Assis disse: “Evangelize sempre; se
necessário, use palavras”.
Se o evangelho não alterou o nosso comportamento e continuamos iguais aos não
convertidos, não temos como evangelizar, pois “a fé que não se traduz em ações é vã”
(Tg 2.20)
3. Receptividade: Boa receptividade da parte dos membros é muito importante para
com os visitantes à igreja. É necessário ter uma equipe treinada de recepcionistas, os
quais darão atenção especial antes, durante e depois do culto aos visitantes e membros
ausentes que retornam. Discretamente pode ser preenchida uma ficha com dados dos
visitantes (nome, endereço, telefone, se aceita visita ou não) e esta ser entregue ao
pastor ou à secretaria da igreja para que uma correspondência seja posteriormente
enviada. Um cafezinho após o culto oportuniza a confraternização entre todos.
4. Grupos Familiares: É claro que os cristãos primitivos eram obrigados a fazer uso
do lar, porque não lhes era permitido adquirir nenhuma propriedade, até o fim do
século II. Não podiam, durante o governo de diversos imperadores, organizar grandes
aglomerações públicas por causa das possíveis implicações políticas do ato. Em outras
palavras, a Igreja nos três primeiros séculos de nossa era cresceu sem a ajuda de dois
dos nossos mais estimados instrumentos: a evangelização de massa e a evangelização
na igreja. Ao contrário disso, faziam uso do lar. No livro de Atos lemos acerca de lares
usados extensivamente, como os de Jasão e Justo, de Filipe e da mãe de Marcos.
Algumas vezes tratava-se de um culto devocional, outras vezes, de uma tarde de
encontro e doutrinação, ou mesmo de um culto de comunhão. Podia ser também um
encontro para reunir novos conversos, ou uma reunião com a casa cheia de novos
interessados. Reuniões de improviso também aconteciam.140
O valor do lar em oposição ao culto mais formal da igreja, ou antes, como complemento
dele, é óbvio. O lar possibilita fazer perguntas ao dirigente. Promove o diálogo. Torna
possível distinguir as dificuldades. Facilita a comunhão. Pode, com extrema facilidade,
desembocar numa ação e num serviço de caráter coletivo em que todos os diferentes
membros do corpo desempenhem sua parte a contento.Igrejas iniciadas em casas é um
dos modelos mais efetivos e comprovados para fazer crescer o Corpo de Cristo. Há
múltiplas referências Bíblicas que apóiam o conceito da “Igreja em sua Casa”: (Atos
17:5; 16:15,32-34; 18:7; 21:8, I Co 16:19; Cl 4:15; Rm 16:5)
5. Equipe de visitação aos lares: Faz parte do testemunho pessoal. Porém aqui com a
ênfase de ser feito periodicamente por um grupo de irmãos. Esta equipe de
evangelização da igreja procurará semanalmente ir às casas dos visitantes (com dia e
horário combinados) levando material de apoio, Bíblia, livretos, etc.
6. Plantação de igrejas: O crescimento das igrejas também acontece quando são
iniciados pontos de pregação. Quantas igrejas têm expandido seu trabalho abrindo
pontos de pregação em bairros onde residem vários membros ou às vezes apenas uma
família, usando como local uma área simples, porém adequada.

140

CF. M. Green. Evangelização na Igreja Primitiva. São Paulo,SP: Vida Nova.

65
7. Distribuição de Folhetos: Ter disponíveis uma boa variedade de folhetos é o
primeiro passo no hábito de distribuir folhetos. Oportunidades sem conta são perdidas
porque não temos os folhetos na hora certa. Tenha folhetos no seu emprego, em sua
casa, perto da porta, e na sua escrivaninha. O fato de você ter bons folhetos consigo a
qualquer hora, capacitá-lo-á a aproveitar as muitas oportunidades de entregar a Palavra
da Vida a uma criança, a um transeunte, a um companheiro de viagem. “Semeia pela
manhã e tua semente, e à tarde não repouse a tua mão, porque não sabes qual
prosperará; se esta, se aquela, ou se ambas igualmente serão boas” (Ecl 11.6),
8. A Motivação
Eis aqui um último aspecto que entendo ser de vital importância: A motivação é a chave
para a evangelização. Se isso ardesse em nossas almas, não haveria necessidade de
tantos congressos sobre evangelização. Michael Green141 diz que se perguntássemos
aos cristãos primitivos, por que eles não perdiam a paixão para evangelizar, responderiam:

O exemplo de Deus, que tanto se preocupou a ponto de mandar o seu próprio
Filho ser missionário em nosso mundo.
O amor de Cristo, que nos constrange. Ele foi posto na cruz por nós. E nos diz
para irmos em frente e passá-lo a outras pessoas. A evangelização é a resposta
obediente ao amor de Cristo, que nos tem constrangido.
O dom do Espírito, que nos é dado especificamente para dar testemunho. A
tarefa de evangelização do mundo e a cooperação do Espírito Santo são as duas
características indica das por Jesus em relação à época entre a sua ascensão e a
sua volta.

Assim, os cristãos primitivos tinham por hábito basear a evangelização, clara e
insofismavelmente, na natureza do Deus triúno. No coração dele repousa a missão. Mas
havia mais três razões que os impeliam:
1. O privilégio de ser embaixador de Cristo, representante do Rei dos Reis. Nós
recebemos esse ministério. Privilégio estupendo, esse!
2. A necessidade dos que não têm Cristo. Isso soa através do Novo Testamento e
dos primeiros líderes da Igreja. Quando percebi que as pessoas sem Deus estão
perdidas agora e também para todo o sempre, mesmo sendo gente boa, mesmo
sendo minha família e meus amigos, foi então que fiz um propósito de gastar a
minha vida em contar aos outros as fabulosas Boas Novas que Jesus trouxe ao
mundo.
3. Finalmente, há o tremendo prazer da tarefa em si. Ela começa no Novo
Testamento e é contagiosa. Os cristãos podiam ser presos, e cantavam louvores.
Podiam mandá-los calar-se e eles falavam mais ainda. Se perseguidos, na
próxima cidade divulgavam a mensagem. Se levados à morte, pereciam alegres,
suplicando bênçãos para os seus algozes. É por essa razão que eu não trocaria
essa missão de pregar o Evangelho por nenhuma outra ocupação no mundo. Isso
é um privilégio enorme. A necessidade é urgente. Nessa tarefa, o homem se
realiza totalmente. Fomos criados para isso.

141

GREEN, Op Cit. Pp.

66
VII. OITO DECISÕES PARA A IGREJA NO CONTEXTO URBANO:
1. Decidir fazer uma séria pesquisa sócio-demográfica do contexto onde a
igreja encontra-se inserida.
2. Decidir desenvolver um ministério centrado na comunidade, no ministério do
leigo e nos dons do Espírito.
3. Decidir saturar a comunidade local com o Evangelho de Cristo.
4. Decisão de mover para fora das quatro paredes da igreja local. (abandonar a
mentalidade de gueto)
5. Decisão de proclamar o evangelho pela voz e pela vida, testemunhando em
palavras e em obras, na missão integral da Igreja.
6. Decisão de mover para frente, mas somente em unidade.
7. Decisão de jamais barganhar o evangelho da Graça, em nenhuma
circunstância.
8. Decisão de executar seriamente a tarefa da grande comissão do Senhor: “Ide,
portanto, fazei discípulos de todas as nações...” (Mt 28:19).
VIII. PRINCÍPIOS RELEVANTES PARA FAZER MISSÕES E
EVANGELISMO EM UM CONTEXTO URBANO142
8.1. O reconhecimento de que o não cumprimento à Grande Comissão constitui-se num
ato de desobediência a Deus (Mateus 28:18-20);
8.2. A premente necessidade de contemplar que os campos estão “brancos para a ceifa”
(João 4:35);
8.3. Ênfase em um ministério eclesiástico que priorize a tarefa de fazer novos discípulos
(Atos 1:8);
8.4. Multiplicação de líderes leigos que possam comunicar Cristo aos não salvos (Atos
8:1-4).
8.5. O Princípio da evangelização através do testemunho e do evangelismo pessoal: O
índice de arrefecimento da fé entre os novos convertidos alcançados por evangelização
em massa tende a ser 75%. Os esforços evangelísticos como grandes cruzadas, sem as
raízes fincadas na igreja local, tende a ser movimentos com forte ênfase em decisões
mais do que em discipulado.
8.6. O Princípio da Obediência: Um comum denominador na plantação de igrejas, é o
inarredável compromisso de sermos a comunidade do compromisso com a Palavra.
8.7. O Princípio da pluralidade de lideranças locais: Nenhum homem é a expressão da
mente de Deus... A pluralidade de líderes na Igreja local salvaguarda o ministro de toda
e qualquer tendência de brincar de Deus sobre a comunidade.
8.8. O princípio de evitar Publicidade Sensacional: É importante que a igreja
novamente imite o Senhor por aproximar do mundo evitando toda a publicidade
sensacional.
8.9. O Princípio da Mobilidade: Nós precisamos enfrentar a verdade que Igrejas falham
quando elas tornam-se prisioneiras de suas próprias estruturas e perdem sua mobilidade,
confinando suas atividades dentro das paredes do santuário, sem visão evangelística e
sem uma influência benfazeja dentro da sociedade.

142

Nascimento, Antônio José. Fundamentos Bíblicos e teológicos da Missão. (in: Apostila do curso de Missiologia
do CPAJ – 2001 )

67
8.10. O Princípio de evitar quaisquer tipos de Sincretismos na tarefa de plantação de
novas igrejas: Entre os inimigos da igreja incluem-se: a crença que cada um já é um
cristão mesmo sem ter nascido de novo, e o relativismo moral e religioso.
OS ELEMENTOS DA MISSÃO URBANA143 – MT. 9:35; 10:1
11.1. O Contexto da Missão Urbana : Lc 4:43; 8:1; 14:21,23
11.2. O Conteúdo da Missão urbana
Jesus percorria as cidades e povoados fazendo três coisas:
1a) Pregando (Kerigma ) : Salvação
2a) Ensinando ( Didaskalia ) : Educação
3a) Curando ( Diakonia ): Serviço
11.3. A Compaixão para a Missão Urbana (9:36)
Segundo esta passagem existem três característica do homem urbano:
1a) São pessoas aflitas: sentimento de angústia
2a) São pessoas exaustas: cansadas
3a) São pessoas desorientadas: sem rumo e direção
11.4. O Compromisso para a Missão Urbana – Mt 9:37,38
11.5. O Comissionamento para a Missão Urbana – Mt 9:37 – 10:1
XII. PASTOREANDO A CIDADE
Roger Greenway144 sugere seis características que devemos ter no ministério urbano:
1. Aqueles que desejam servir na cidade devem aprender a amar a cidade.
2. Os trabalhadores cristãos devem conhecer a cidade
3. Os trabalhadores cristãos devem aprender a apreciar o corpo de Cristo
existente na cidade.
4. Um trabalho bem sucedido implica em se condoer pela cidade.
5. Bons trabalhadores urbanos possuem uma paixão por evangelização profunda
e genuína.
6. O trabalhador deve construir uma credibilidade genuína para ser eficaz no
ministério urbano.

143

BARRO, Jorge Henrique. Ações Pastorais da Igreja com a Cidade. Londrina, Pr: Editora Descoberta. 2000. p. 24-

31

144

GREENWAY, Roger; Monsma, Timothy M. Cities – Mission´s New Frontier. Grand Rapids, Michigan: Baker
Book House. 1989. p.p. 246-260

68

MISSIOLOGIA
Uma Perspectiva Bíblica-Reformada
Perguntas para debate em classe:
1) Com relação a eleição de Israel, o autor faz três apontamentos. Quais?
2) Por que o autor fala da eleição de Israel como responsabilidade e não como privilégio
ou favoritismo?
3) Com relação ao caráter missional, qual a diferença da prclamação e da presença?
4) Quais os meios que Israel iria cumprir sua missão ?
5) Quais as implicações para a missão da Igreja nos dias atuais?
I. A NATUREZA E O PROPÓSITO MISSIONÁRIO DO POVO DE DEUS ANTIGO
TESTAMENTO
Ricardo Agreste da Silva
Eleição e o Chamado de Israel
Tendo em vista a proposta de redescoberta da natureza e do propósito do povo de Deus
no Velho Testamento, somos naturalmente levados a olhar para Israel. A história de Israel tem
seu início em Gênesis 12:1-3 quando Deus escolhe e chama Abraão com a finalidade de fazer, a
partir dele, uma nova e grande nação.145 Embora esta promessa tenha colocado Abraão e seus
descendentes num papel de grande visibilidade e importância na história da salvação, uma
análise mais cuidadosa do evento que envolve sua eleição e chamado pode nos oferecer uma
visão mais precisa acerca dos propósitos de Deus para com esta nova e grande nação que viria a
surgir.146
Primeiramente, a eleição e o chamado de Abraão são inteiramente frutos da ação
intencional de Deus. Como Hedlund observa, sendo Abraão um arameu de ascendência pagã
(Gênesis 11:26-29) e originário de uma família idólatra (Josué 24:2), ele não poderia ter
qualquer mérito na escolha de Deus.147 Assim, ao escolher e chamar Abraão, Deus estaria
criando “um novo povo a partir da mais precisa realidade do que eram os demais povos do
mundo”, escreve De Ridder .148 Da mesma forma que Abraão, seus descendentes deveriam
lembrar-se constantemente que sua eleição e chamado não se baseavam em seus próprios
méritos, mas na iniciativa de Deus em amá-los e chamá-los dentre as nações (Deuteronômio
7:6-8). Como Berkouwer afirma, “esta imerecida eleição excluia desde o princípio toda autoconfiança e toda pretensão dela derivada.”149
Em segundo lugar, a eleição e o chamado de Abraão são manifestações da graça de
Deus para com um povo, mas visando todos os povos da terra. O contexto no qual Gênesis 12
está inserido, nos oferece um significado amplo e universal para o ato de Deus. Como Carriker
demonstra, em Gênesis 12 encontramos a resposta de Deus para a dispersão humana (Gênesis
145

Johannes Blauw, The Missionary Nature of The Church: A Survey of The Biblicall Theology of Mission (Grand
Rapids,: Eerdmans, 1974), 19.

146

Embora os termos hebraicos para eleição (Bahar ou Yadah) não estejam presentes em Gênesis 12: 1-3, Yadah
aparece em Gênesis 18:19 indicando estar implícito no chamado de Abraão (Gênesis 12) sua eleição por Deus.

147

Roger E. Hedlund, The Mission of the Church in the World (Grand Rapids: Baker Book House, 1991), 37

148

Richard R. De Ridder, Discipling the Nations (Grand Rapids: Baker Book House, 1975), 32

149

G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: The Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), 403

69
11:1-9), a qual é também o climax da história universal (Gênesis 1-11).150 Assim, podemos
concordar com Blauw ao afirmar que toda a história de Israel nada mais é do que a continuação
do interesse de Deus para com as nações, e portanto, a história de Israel pode ser entendida
somente a partir do problema não resolvido na relação entre Deus e todas as nações.151
Desta forma, ao eleger e chamar Abraão, Deus não está lidando apenas com um homem
ou um povo, mas com toda a criação e com toda humanidade. Através da escolha de Abraão,
Deus está traçando o caminho para redimir todas as nações da terra. Como Verkuyl afirma que
através de Israel, Deus prepara o caminho para alcançar Seus objetivos de abraçar o mundo.
Escolhendo Israel, como um segmento de toda a humanidade, Deus nunca tira seus olhos das
outras nações; Israel é o pars pro toto, a minoria chamada para servir à maioria.152
Em terceiro lugar, uma vez que a eleição e o chamado de Abraão apontam para o
propósito universal de Deus, esta eleição e este chamado são para ser entendidos não como um
mero privilégio, mas como uma responsabilidade para com as nações da terra.153 A eleição é
um chamado para o serviço e envolve o dever de testemunhar entre as nações.154 Abraão e sua
descendência foram comissionados para ser canal pelo qual outras nações seriam abençoadas. O
mesmo Deus que em Gênesis 11 dispersa as nações sobre a terra, agora em Gênesis 12
comissiona Abraão para ser o instrumento pelo qual elas seriam novamente reunidas. Portanto, a
eleição e o chamado não poderiam ser entendidos por Abraão e sua descendência como
benefícios para seu próprio conforto e satisfação, mas para o serviço às nações junto a missão
de Deus na história humana. Enfatizando isso, Newbigin escreve:
Aqueles que são escolhidos para serem portadores das bençãos, são escolhidos em favor de
todos… Novamente deve ser dito que eleição é para responsabilidade e não para privilégio… A
Bíblia está cheia de referências ao propósito de Deus em abençoar todas as nações… há um
processo de seleção: poucos são escolhidos para serem portadores do seu propósito; eles são
escolhidos, não para benefício próprio, mas em favor de todos.155

Assim, podemos afirmar que a eleição e o chamado do povo de Deus no Velho
Testamento têm sua base no propósito intencional, universal e missional de Deus na história da
humanidade.156 Apesar de que o modo através do qual Israel viria a ser usado é desenvolvido ao
longo da história da salvação, em Gênesis 12 podemos encontrar em forma embrionária a
natureza e propósito do povo de Deus no mundo.
Missão de Israel
Embora o caráter intencional e universal do propósito de Deus na escolha e chamado de
Israel sejam aceitos pela maioria dos teólogos e missiólogos, temos que reconhecer que o
caráter missional deste propósito é assunto de grande controvérsia. Se entendermos “missional”
como sendo exclusivamente a intenção de enviar um povo às nações para proclamar salvação
nos moldes neo-testamentários, então devemos afirmar que o chamado e eleição de Israel não
150

Timóteo Carriker, Missão Integral (São Paulo: Editora Sepal, 1992), 45

151

Blauw, 19. O Deus que escolheu Abraão em Gênesis 12 é o mesmo único e poderoso Deus que no princípio criou
os céus e a terra (Gênesis 1,2), que criou o homem à sua própria imagem como o centro de toda a criação (Gênesis
1,2), que prometeu, depois da queda humana, que um descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente
(Gênesis 3), que enviou o dilúvio sobre a terra, que estabeleceu uma aliança com Noé e seus descendentes (Gênesis
5-10) e que dispersou as nações em Babel (Gênesis 11). De acordo com Blauw, a ligação entre o que é conhecido
por Urgeschichte (Gênesis 1-11) e a origem de Israel (Gênesis 12) é convincentemente demonstrada por Gerhard
Von Rad em Old Testament Theology Vol I (New York: Harper & Brothers, 1962), 136-175.

152

J. Verkuyl, Contemporary Missiology: An Introduction (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 91-92

153

Blauw, 23, e Hedlund, 37

154

Verkuyl, 94

155

Lesslie Newbigin, The Open Secret (Grand Rapids: Eerdamans, 1995), 32-34. Ênfase do autor.

156

Por “propósito universal de Deus” não quero dizer “salvação universal” sem a necessária resposta e
compromisso de fé. Refiro-me aqui à intenção de Deus em levar a mensagem de reconciliação para todas as nações
da terra.

70
possuem qualquer propósito missional. Com exceção de algumas porções encontradas em Isaías
40-55 e no livro de Jonas, não há qualquer ordem explícita para que Israel vá às nações e
proclame salvação.157
No entanto, se considerarmos o caráter missional do chamado e eleição de Israel como
algo que, apesar de não implicar explicitamente em “ir” exige o “testemunhar”, então estaremos
concordando com a visão de que, apesar da missão do povo de Deus no Velho Testamento não
ser estabelecida nas mesmas bases da missão da Igreja no Novo Testamento, isso não quer dizer
que Israel não tenha missão. Existe na eleição e no chamado de Israel uma clara intenção de que
sua existência no meio das nações seja um sinal que faça todos os povos se voltarem para Deus.
Assim sendo, embora Israel não seja enviado a “ir”, é inquestionavelmente
comissionado por Deus para “viver” entre as nações. Vendo Israel, as nações deveriam ser
levadas a conhecer, temer, e servir a Deus. Como Hedlund afirma, Israel seria “servo, pregador
e mediador de Deus em favor das nações… A existência de Israel era, então, para o serviço
missionário.”158 Carriker também demonstra concordar com esta visão ao afirmar que embora a
missão de Israel não implicasse em proclamação ou persuasão, sua presença evangelística entre
as nações constituia-se em uma obrigação missionária.159
Portanto, em parte podemos concordar com Blauw ao caracterizar o propósito e a
natureza missionária do povo de Deus no Velho Testamento por uma “consciência missionária
centrípeta.”160 Entretanto, será sempre oportuno relembrar que esta ênfase “centrípeta” não
significa ausência de missão, ou ainda, como Hahn entende, que a missão de Israel tinha
“caráter completamente passivo.”161 Prefiro dizer que a missão do povo de Deus no Velho
Testamento é dada em um padrão diferente daquele que a Igreja no Novo Testamento viria a
receber, o qual é explicitamente “centrífugo” com uma clara ordem de proclamar salvação.
Se concordarmos então que a eleição e o chamado de Israel possuem um propósito
missional da parte de Deus, precisamos agora apontar os meios através dos quais Israel deveria
cumprir sua missão como povo de Deus no mundo do Velho Testamento.
Primeiramente, Israel é eleito e chamado para ser uma genuína teocracia e para assumir
o papel sacerdotal entre todas as nações (Ex. 19:5-6). Como é bem colocado por Verkuyl,
“Israel deveria ser um sinal para as outras nações que Yahweh é igualmente Criador e
Libertador… e [Israel deveria ser] uma ponte para as outras nações.”162 Hedlund afirma que
Israel estaria cumprindo seu papel missionário entre as nações ao viver como “um legítimo
modelo do Reino de Deus no meio das nações.”163 Observando o estilo de vida social e moral de
Israel (Dt 28:1,10), bem como sua dedicação exclusiva a Deus e seus mandamentos (Dt
10:12,13), outras nações chegariam ao reconhecimento de Deus como o único, verdadeiro e
grande Deus (Dt 4:6-8).164

157

Blauw, 29-30. O propósito missionário no livro de Jonas tem sido amplamente questionado por muitos estudiosos.
Para estes, ao invés de ser caracterizado como uma evidência no Velho Testamento de uma comissão missionária
para ir às nações, o livro de Jonas nos apresenta a ira de Deus contra a tendência nacionalista de Israel (Veja
Blauw, 41). Por outro lado, outros estudiosos entendem que, tendo sido Jonas enviado por Deus para proclamar
salvação a outra nação, não podemos negar certa qualidade missionária inerente a este livro. (Veja Carriker, 155,
Verkuyl, 96-100, e Roger Greenway, Apostoles a la Ciudad, Grand Rapids, Subcomision Literatura Cristiana CRC, 198, 15-30)

158

Hedlund, 42

159

Carriker, 171

160

Blauw, 34

161

Ferdinand Hahn, Mission in the New Testament, (Londres: SCM, 1965), citado em Verkuyl, 94

162

Verkuyl, 94

163

Hedlund, 61

164

Idem, 39-40

71
Se cuidadosamente seguidos, os preceitos de Deus acerca da justiça, igualdade e
ecologia trariam tamanha prosperidade e paz sobre Israel que outras nações iriam admitir a
grande sabedoria da lei de Deus. Os preceitos sociais, econômicos e ecológicos da lei mosaica
fariam de Israel uma maquete do Reino de Deus na terra. No entanto, como o Reino de Deus
não deveria ser tido por acessível apenas a um povo, a mesma lei que, se obedecida, traria
prosperidade e paz a Israel, também exortava Israel a não ser fechado para os outros povos da
terra que viessem a viver sob a autoridade de Deus. É marcante na lei mosaica a constante
preocupação acerca dos estrangeiros que viessem a viver entre Israel.165 Assim, se as leis
sociais, econômicas e ecológicas dadas por Deus fossem observadas por Israel, estas seriam
uma grande expressão não apenas de sabedoria, justiça e igualdade entre os Israelitas, mas
também de graça e cuidado de Deus para com todos os povos da terra.
Se, por um lado, através do estilo de vida de Israel as nações teriam a oportunidade de
ver uma sociedade alternativa sob os valores e princípios de Deus, por outro lado, os atos
poderosos de Deus na história de Israel mostrariam às nações quem realmente se encontrava no
controle do curso da história humana. Os atos poderosos de Deus na história de Israel
chamavam constantemente a atenção das nações para reconhecerem Yahweh como o único e
verdadeiro Deus. Como Blauw observa, através da história de Israel, “Deus iria fazer seu poder
conhecido, visível e tangível aos olhos de todas as nações e sob a vista de todos os povos.”166
Este propósito fica evidente ao observarmos alguns dos relatos das ações redentoras de
Deus na história de Israel. Quando da libertação do cativeiro egípcio, Deus afirma que a
intenção no envio das pragas era a de “mostrar-te o meu poder, e para que seja meu nome
anunciado em toda a terra“ (Ex. 9:16). Quando relembrada a travessia do Mar Vermelho e do
Rio Jordão, encontramos a explicação de que Deus havia feito isso “para que todos os povos da
terra conheçam que a mão do Senhor é forte: a fim de que temais ao Senhor vosso Deus todos
os dias” (Jos. 4:24). Antecedendo ao confronto entre Davi e Golias, a vitória de Davi é predita e
aí “toda terra saberá que há um Deus em Israel” ( I Sam. 17:46). A consequência direta da
libertação de Daniel da cova dos leões é o decreto real no qual o rei ordena: “em todo domínio
do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel“ (Dan. 6:25-27). E na
reconstrução dos muros de Jerusalém, Neemias afirma que “todos os nossos inimigos temeram,
todos os gentios nossos circunvizinhos … porque reconheceram que por intervenção de nosso
Deus é que fizemos a obra” (Ne 6:15-16).
Diretamente relacionada com os atos poderosos de Deus está a forma como Israel
recorda e conta estes atos adorando ao Senhor. No livro dos Salmos encontramos inúmeras
referências aos atos redentores de Deus os quais levam o salmista a proclamar a todas as nações
o nome de Deus e convidá-las a vir a Jerusalém e reconhecer que Ele é o único Deus
verdadeiro.167 Dessa forma, a adoração de Israel tem suas raízes na missão de Deus no mundo.
A experiência da redenção leva Israel a adorar de forma missionária. A consequência disso,
como Verkuyl afirma, é que “os gentios que também vêm a Israel e habitam como estrangeiros
entre o povo de Deus, participam da adoração de Israel. Eles escutam dos feitos poderosos de
Deus e juntam-se a Israel em canções de louvor.” 168 Este caráter da adoração de Israel é
enfatizado por Orlando Costas quando escreve que a “adoração está intrinsicamente ligada às

165

A lei mosaica já previu a presença dos estrangeiros entre Israel. Por exemplo, eles eram explicitamente protegidos
por algumas leis (Ex 22:21; 23:9; Lv 19:10,34; 23:22; 24:22; 25:6; Dt 10:19; 14:28ss; 24:14ss; 26:12ss),a
observação dos dias sagrados e das festas os incluía (Ex 20:10; 23:12; Lv 16:29; Dt 5:14; 16:11,14) e muitas leis
eram aplicadas igualmente para ambos o Israelita e o estrangeiro (Lv 17:8ss; 18:26; 22:18; 24:16; Dt 1:16; 26:11).
Desta forma, De Ridder diz que “Israel não apenas vivia no meio das nações; os povos do mundo tinham também o
direito de viver no seu meio… Deus sempre teve a visão de que estrangeiros seriam encontrados entre seu povo na
terra em que habitava.” De Ridder, 41-42

166

Blauw, 37.

167

Por exemplo: Salmos 67, 96, 98, 100, 117, 148, etc.

168

Verkuyl, 94-95

72
ações de Deus na história e à conversão das nações a Deus. Adoração, em sua dimensão
humana, surge da missão. É um resultado espontâneo da experiência de rendenção.”169
Portanto, podemos concluir dizendo que enquanto o estilo de vida de Israel deveria ser
um modelo do Reino de Deus entre as nações, os atos poderosos de Deus na história de Israel
seriam a demonstração da soberania de Deus sobre as nações e a adoração de Israel deveria ser
o convite para que as nações viessem a Jerusalém e se rendessem ao único Deus verdadeiro.
Aqui encontramos como a natureza e o propósito missionário do povo de Deus no Velho
Testamento deveriam se expressar através da vida de Israel, como povo de Deus no mundo de
então.
Falha e Expectativa de Renovação
Infelizmente o desenvolvimento da história de Israel nos mostra que ao invés de tornar
o nome de Deus conhecido e temido entre os povos da terra, Israel o profanou aos olhos de
todas as nações (Ez. 36:22-23). Ele se afastou de Deus para a presença dos ídolos (Jr. 5:19;
18:15; Ez. 14:5-6). Seus líderes e juízes tornaram-se corruptos, favorecendo o rico e oprimindo
o pobre (Is. 3:14-15; Am. 2:6-8; 5:7,10-12; Mi. 3:1-4, 9-11). A desigualdade econômica e social
prevaleceu (Is. 5:8; Am. 4:1, Mi. 2:1-5). Seus pastores eram falsos (Mi. 3:11; Os. 5:1) e os
profetas profissionais mentirosos (Ez. 13:2, 17; Mi. 3:5-8, 11). Mesmo diante do chamado de
Deus para o arrependimento, Israel gradualmente se esqueceu da sua natureza particular como
povo de Deus e do seu propósito especial para servir entre as nações.
A perda de foco e o consequente desvio dos propósitos de Deus podem ser
exemplificados com a narrativa do livro de Jonas. Aqui, encontramos a visão desenvolvida por
Israel na qual todas as outras nações eram compreendidas apenas como detalhes no propósito
maior de Yahweh em relação a Israel. Como J.H.Stek comenta, “o povo escolhido tinha
desenvolvido uma quase total cegueira para o fato fundamental de que Israel havia sido
separado não para privilégio mas para serviço, de que Israel tinha sido escolhido como
instrumento de Yahweh para seu testemunho ao mundo (Is. 43:10-12).”170 Isto leva Verkuyl a
afirmar que “Jonas é o pai de todos os cristãos que desejam os benefícios e as bênçãos da
eleição, mas recusam sua responsabilidade.”171
Consequentemente, como Bright aponta, “uma nação apóstata não pode ser povo de
Deus.“172 Desde que o chamado e a eleição de Israel não eram para ser entendidos como
privilégios mas como responsabilidade para com o mundo, “se a responsabilidade é recusada, a
eleição torna-se um motivo ainda mais forte para punição divina: “De todas as famílias da terra
somente a vós outros escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades” (Am
3:2).”173 Israel, como entidade política, não poderia ser mais chamado “povo de Deus”.
Portanto, começando com o reino do norte, e mais tarde alcançando Judá, o julgamento de Deus
veio sobre ele (Am. 5:2, 8:2, 9:8-10; Is. 3:1ss, Mi. 3:12).
Entretanto, é no mesmo contexto do anúncio da punição que emerge nos escritos
proféticos o tema do “remanescente.” 174 O profeta declara, “Eis que os olhos do Senhor Deus
estão contra este reino pecador, e eu o destruirei de sobre a face da terra; mas não destruirei de

169

Orlando Costas, The Integrity of Mission, The Inner Life and Outreach of the Church, (San Francisco: Happer &
Row, 1979), 90

170

J. H. Stek, “The Message of the Book of Jonah”, Calvin Theological Journal 4, (1969): 23-50

171

Verkuyl, 100

172

J. Bright, The Kingdom of God: The Biblical Concept and Its Meaning for the Church (Nashville: AbingdonCoresbury, 1953), 74, citado por Hedlund, 105

173
174

Blauw, 23.

Carriker nota que embora o conceito do remanescente é especialmente desenvolvido nos escritos proféticos, o
conceito já está presente na história da salvação. Por exemplo: Noé, Abraão, Isaque e Jacó foram escolhidos dentre
outros. Carriker, 142

73
todo a casa de Jacó, diz o Senhor” (Am 9:8). O remanescente de Israel torna-se parte da
“redução progressiva” a qual Blauw define como sendo:
Humanidade >>> Israel >>> Remanescente de Israel >>> Servo do Senhor175
Desde que Israel, como nação, havia falhado em sua missão, seria agora representado
pelo remanescente que é, em última análise, apresentado na figura do Servo do Senhor em
Isaías.176 Através de seu sofrimento ele traria o “fim dos tempos” dentro da história da salvação
e os confins da terra seriam alcançados por sua mensagem de salvação. Desta forma, a “redução
progressiva” se torna uma “expansão progressiva” caracterizada como:
Messias >>> Apóstolos >>> Israel >>> Gentios >>> Humanidade177
Algumas Implicações
1. A Necessária Reavaliação da Natureza e do Propósito da Igreja Local

Para igrejas em cidades brasileiras, a redescoberta do propósito intencional, universal, e
missional de Deus para com seu povo pode causar grande impacto, tanto na sua forma de
pensar, como também de agir como povo de Deus.
Primeiramente, como aqueles que foram eleitos e chamados para ser parte integrante do
povo de Deus nas cidades brasileiras, temos que reconhecer que a diferença entre nós e aqueles
que ainda estão envolvidos pela idolatria, misticismo e sincretismo religioso, reside apenas na
ação intencional que Deus teve um dia para conosco. Precisamos considerar que a distinção
entre nós e aqueles que ainda estão envolvidos por toda forma de imoralidade, vícios e
materialismo reside tão somente na graça de Deus. Esta compreensão nos levará, como igrejas,
a evitar toda forma de orgulho religioso ou sentimento de superioridade, bem como a
consequente separação geográfica em relação as pessoas que nos cercam. Como povo de Deus
nas cidades brasileiras precisamos aprender acerca do sentimento de Jesus quando ora: “Não
peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo.17:15).
Em segundo lugar, precisamos perceber que a ação intencional de Deus nos dando “vida
juntamente com Cristo” não é apenas um “dom de Deus”, mas também uma responsabilidade
para com aqueles que nos cercam, pois somos agora “feitura dele, criados em Cristo para boas
obras” (Ef.2:1-10). Como Abraão foi chamado para ser uma bênção para todas as nações da
terra, em Jesus fomos escolhidos e chamados para sermos sal da terra e luz do mundo (Mat.
5:13-16). Assim como Israel, fomos eleitos e chamados não apenas para ser “depósito” das
bêncãos de Deus, mas principalmente “canal” para que estas cheguem a todo homem e mulher
residente nas cidades brasileiras.
A correta compreensão acerca dos propósitos de Deus para seu povo nos protegerá da
“síndrome de Jonas” a qual induz crentes a compreenderem os conceitos de eleição e de
chamado apenas como fonte de benefícios exclusivos e não como base para responsabilidades.
A percepção das implicações de nossa eleição e de nosso chamado para sermos povo de Deus
nas cidades brasileiras fará de nossas igrejas locais comunidades de serviço onde pessoas
cansadas encontram abrigo, pessoas feridas são curadas e pessoas perdidas encontram salvação.
Em terceiro lugar, uma vez compreendido nosso papel como veículos das bênçãos de
Deus aos povos da terra, precisamos reavaliar nossas atividades e estruturas comunitárias, tendo
175

Blauw, 91

176

Aqui temos o climax do propósito intencional, universal e missional de Deus no Velho Testamento. Muitos
autores têm concordado que a identidade do Servo do Senhor aqui deve ser vista com certa “fluidez”. Veja H. H.
Rowler, The Missionary Message of the Old Testament (London: Carey Kingsgate, 1945) citado em Hedlund, 111;
Bright, 150-151 e Carriker, 146. O Servo é algumas vezes identificado como o resto de Israel chamado para ser
uma comunidade missionária entre as nações. Mas, também o Servo é um indivíduo que encorpora a missão de
Israel em si mesmo. Hedlund conclui que “é correto, então, entender o Servo como ambos, Cristo e Israel, enviado
ao mundo das nações como um mensageiro de Yahweh. Hedlund, 111

177

Blauw, 91 e Carriker, 143

74
em vista uma postura missionária mais clara e objetiva em relação a população urbana
brasileira. Assim como os primeiros discípulos foram chamados para ir e dar frutos, e frutos que
permanecessem, nós também fomos chamados por Deus e enviados a gerar frutos nas cidades
brasileiras (Jo.15:16). De acordo com as últimas palavras do nosso Senhor, “fazer discípulos”
não é um detalhe ou apêndice na vida daqueles que o seguem ou nas estruturas das comunidades
que chamam pelo seu nome (Mat.28:18-20). “Fazer discípulos” é um imperativo dado por
aquele que recebeu “toda autoridade … no céu e na terra.” Assim, como igrejas nas cidades
brasileiras, precisamos reavaliar-nos visando nos tornar comunidades evangelisticamente
orientadas nas quais as pessoas sejam bem vindas e os crentes treinados para serem missionários
no seu próprio contexto.
2. A “Presença” Como a Base Para a “Proclamação”
Muitos são aqueles que falam de missões a partir da Igreja de Atos dos Apóstolos e
entendem que nada temos para aprender dos moldes missionários estabelecidos por Deus para o
povo de Israel. Parte desta rejeição encontra-se na argumentação de que a missão de Israel foi
caracterizada por uma ênfase centrípeta ou, como é normalmente chamada nos meios
missiológicos, pelo testemunho de presença; enquanto a Igreja do Novo Testamento recebe um
mandamento caracterizado pela ação centrífuga e grandemente identificado com o testemunho
verbal (Mt. 28:18-20). Entretanto, embora a igreja do Novo Testamento tenha recebido de fato
um mandamento de “ir” e “proclamar” o evangelho para todas as nações, a importância do
testemunho de presença nunca foi negada por Jesus, ou mesmo pela prática da igreja primitiva.
Por exemplo, no sermão do monte, climax de seus ensinamentos, Jesus afirma: Vós sois o Sal da
Terra… Vós sois a Luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;
nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a
todos que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que
vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” ( Mt. 5:13-17).
Observando a comunidade cristã primitiva, podemos também constatar que esta
testemunhava não apenas pela proclamação (At. 2:1-41), mas também pelas suas obras e estilo
de vida (At. 2:44-47). A consequência disso é que a comunidade cristã contava com “ a
simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo
salvos” (At. 2:47). Mais tarde, escrevendo para a Igreja em Filipos, Paulo encoraja aquela
comunidade a ser como “filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e
corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fil. 2:14).
Assim, creio que podemos afirmar que o testemunho cristão através do estilo de vida da
igreja é parte essencial na sua missão e base para sua proclamação. Enquanto a mensagem da
Igreja aponta para Jesus como Salvador e Senhor de todas as coisas e convida pessoas a
renderem-se aos seus pés, seu estilo de vida funciona como a hermenêutica para compreensão
de sua mensagem, ou a lente através da qual pode tornar-se conhecida e pela qual pode ser
completamente interpretada.178 Como Berkouwer diz, porcausa da “distância entre suas palavras
e seus atos, as palavras da Igreja podem não ter mais nenhum poder.”179
Parece me apropriado chamar a atenção para este aspecto da missão da Igreja num país
onde os escandalos envolvendo evangélicos tem crescido tão rapidamente quanto a membresia
das igrejas e onde o crescimento númerico não tem sido acompanhado por uma visível
transformação de valores éticos e morais, tanto na vida dos crentes, como no contexto social em
que vivem. É tempo de lembrarmos que, embora o crescimento numérico da igreja seja bíblico e
importante, este é apenas uma dimensão do crescimento integral que uma igreja bíblica deve
objetivar. Orlando Costas enfatiza que a igreja deve também buscar o crescimento “reflexivo”,
“orgânico” e “estrutural.”180 Quando não há crecimento no envolvimento da Igreja nos
problemas estruturais e históricos, nas lutas pessoais e coletivas da sociedade, então seu trabalho
178

Leslie Newbigin, Sign of the Kingdom, (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 19

179

Berkouwer, 413

180

Orlando Costas, Christ Outside the Gate (Marynoll, NY: Orbis, 1982), 43-54

75
evangelístico, seu desenvolvimento orgânico e sua reflexão teológica levam a missão a uma
redução.181
Valdir Steuernagel também nos alerta para o fato de que o resultado da evangelização
não pode ser apenas medido por números. Deve ser medido também pela qualidade de vida que
é produzida, pela ação das igrejas que emergem, pelo impacto do testemunho que se dá diante
da sociedade, pelo serviço que é prestado aos necessitados, pela coragem com que o evangelho
é anunciado.182
As cidades brasileiras serão certamente impactadas quando as pessoas começarem a
notar que o número de crianças de rua tem diminuído, as condições das escolas tem melhorado,
homens e mulheres de rua tem sido treinadas e habilitadas a trabalhar e ter um lar, órfãos e
viúvas têm tido suas necessidades supridas, vozes tem se levantado para exigir mudanças de leis
injustas e atitudes objetivas contra a corrupção política e financeira nos meios governamentais.
Que surpresa o povo brasileiro terá quando perceber que por detrás de cada uma dessas atitudes
existe um cristão ou uma igreja comprometida não apenas com o discurso, mas com a prática da
fé e com um estilo de vida coerente a mesma.
3. A Adoração como Evento Missionário
Outro importante elemento da missão de Israel que deve ser cuidadosamente observado
por nós nas cidades brasileiras é o lugar da adoração na vida do povo de Deus. Como vimos
anteriormente, a adoração no Velho Testamento era um evento essencialmente missionário.
Tempo de adoração era tempo de celebrar e anunciar o que Deus havia feito. Através da
adoração as nações eram convidadas para vir e viver sob os princípios e valores deste Deus
gracioso e poderoso.
Além disso, através da adoração que relembrava o que Deus havia feito na história de
Israel, adoradores eram encorajados diante dos novos desafios emergentes. Desta forma, a
adoração em Israel era ao mesmo tempo, consequência da missão de Deus no mundo e fonte de
encorajamento para o engajamento de adoradores nesta missão. Como Orlando Costas bem
define esta relação missão-adoração:
Missão é a culminação e a antecipação da adoração… Liturgia sem missão é como um
rio sem uma fonte. Missão sem adoração é como um rio sem o mar… Sem um o outro
perde sua vitalidade e seu significado. 183
Por um lado, esta perspectiva nos desafia como igrejas a termos um estilo litúrgico no
qual a ação de Deus possa ser expressa como uma realidade presente na vida dos crentes. A
adoração se torna mais viva e objetiva a medida que se declara e proclama o que Deus tem feito
ao longo da história de seu povo e na vida daqueles que o servem. Esta ênfase implica também
na habilidade do líder comunitário em identificar e sensibilizar sua comunidade para com a ação
de Deus no mundo contemporâneo, bem como na vida da igreja local.
Por outro lado, esta perspectiva nos dasafia como igrejas a termos um estilo litúrgico no
qual a adoração a Deus se torne fonte motivadora para o engajamento missionário consciente
da igreja no mundo. Num contexto histórico e social em que o “tempo de louvor” tem sido tão
fortemente caracterizado pela dicotomia entre o que se canta e o que se vive, se faz necessário a
redescoberta da adoração bíblica, através da qual, a adoração vigorosa e o engajamento
missionário certamente serão reintegrados na vida do povo de Deus. Assim, como Costas
afirma: “o teste de uma experiência vigorosa de adoração será uma participação dinâmica na
missão. O teste de um envolvimento missional fiel será uma profunda experiência de
adoração.“184
181

Idem, 47

182

Valdir R. Steuernagel, A Serviço do Reino, (Belo Horizonte, Missão Editora, 1992), 150

183

Orlando Costas, The Integrity of Mission (New York: Harper & Row, 1979), 91

184

Costas, Christ Outside the Gate, 13

76

Leituras
Sugiro outras leituaras para ajudar a entender o texto do Ricardo Agreste:
A Base Bíblica do Mandato Missionário Mundial, Johannes Verkuyl in: Winter, Ralph
D. Missões Transculturais – Uma perspectiva Bíblica. São Paulo, SP: Mundo Cristão.
1996. pp. 40-53
A Chamada Missionária de Israel, Walter C. Kaiser Jr. In: Winter, Ralph D. Missões
Transculturais – Uma perspectiva Bíblica. São Paulo, SP: Mundo Cristão. 1996.
pp. 28-39

77

II. PARADIGMAS MISSIOLÓGICOS NO

NOVO TESTAMENTO
Gildásio J. B. dos Reis

No Novo Testamento há vários paradigmas

missiológicos185 que dão diferentes perspectivas
de missão. Por exemplo, os primeiros quatro livros do Novo Testamento não são simplesmente
biografias de Jesus e sim são "evangelhos", histórias com uma mensagem específica.
Johannes Verkuyl186, diz que:
“Do começo ao fim, o Novo Testamento é um livro missionário. Ele deve sua própria existência ao
trabalho missionário das igrejas cristãs primitivas, tanto a judia como a helenística.Os Evangelhos
são ‘recordações vivas’ da pregação missionária, e as Epístolas, mais do que uma forma de
apologética missionária, são instrumentos atuais e autênticos do trabalho missionário”187

O fato de que temos quatro destes, mostra que, sob a direção do Espírito Santo, os autores estão
dando sua perspectiva sobre o evangelho e a missão. Cada "evangelho" é uma apresentação
contextualizada com base na mensagem cristã para um grupo de leitores específico188, trazendo
a mensagem relevante a eles em sua situação em particular. Não dizemos que um se contradiz
ao outro sendo que são como diferentes faces de uma mesma moeda. Quando a luz se põe em
um lado, mostra um aspecto e quando se põe em outro lado se vê outro aspecto.
Declarações complementares sobre a Grande Comissão189

Passagem

Autoridade

Capacitação

Esfera

Mensagem

Atividades

Mt
28:18-20

A autoridade
dada a Cristo:
Todo poder no
céu e na terra

Cristo está
conosco até o fim
da era

As nações gentias

Todas as coisas
que Cristo
ordenou

Discipular por
meio de: ir,
batizar e ensinar

Mc 16:15

Em Seu Nome

A promessa do pai
(poder)

O Mundo Inteiro
(toda a criatura )
Todas as nações
começando de
Jerusalém

O Evangelho

Ide e pregai
(proclamai)

Lc
24:46-49
João 20:21

185

Pregar e
testemunhar

Enviados por
Cristo assim
como Cristo foi
enviado pelo Pai
Poder do Espírito

Atos 1:8

Arrependimento
de pecados

Jesrusalém,
Judéia e samaria,
e até os confins
da terra,

Cristo

Testemunhar

BOSCH, David J. Missão Transformadora – Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. 2002. São
Leopoldo, RS. Ed Sinodal, p.15.
186
Johannes Verkuyl, foi prisioneiro durante a segunda guerra mundial na Indonésia, em 1963 retornou a Holanda e
assumiu o cargo de secretário Geral do Conselho Missionário holandês. Dois anos mais tarde aceitou a nomeação
como o sucessor a J. H. Bavinck na universidade reformada livre de Amsterdã. Aposentou-se lá em 1978 como o
professor e chefe do Departamento de Missiologia e Evangelismo.
187
Em sua obra Comtemporary Missiology citado por Roger Greenway in: Ide e Fazei Discípulos. São Paulo,SP: Ed.
Cultura Cristã. 2001. p.49 (Cf. também CARRIKER, Timóteo. O Caminho Missionário de Deus Uma teologia
bíblica de missões. 3. ed. Brasília – DF: Palavra, 2005. p. 201)
188
Mateus foi escrito para os judeus, para ensiná-los sobre Jesus e fazer deles o apoio para a missão da igreja junto
aos gentios. Marcos era um “tratado” missionário para os gentios que precisavam de um breve relato sobre a vida e
os ensinamentos de Jesus. Lucas, um gentio convertido à fé em Jesus, escreveu para os gentios como ele, os quais
precisavam saber que Jesus os queria em seu Reino tanto quanto os judeus. João abertamente declarou seu propósito
missionário: “Para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”.
Jo 20.31.
189
Extraído de David J. Hesselgrave: Comunicação Transcultural. (Grand Rapids: Zondervan, 1978), p. 54.

78
I. Missão em Mateus: Fazendo discípulos
Em Mateus, "a grande comissão" é o versículo mais citado, e tem sido o slogan para muitas
conferencias missionárias e escritos de capacitação missionária. Mas, mesmo sendo muito
importante, Mateus 28.16-20 não é tudo o que se pode dizer sobre a missão em Mateus. Hoje
em dia se reconhece que esta última passagem é o clímax do evangelho e não somente por que
contém os últimos versículos, sendo que os temas da grande comissão são como fios de ensino
que correm ao longo do evangelho e se convergem nesta passagem.190
Natureza Trinitária da Missão

A. Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra
B.

B.

Portanto, fazei discípulos de todas as nações

O Pai dá ao Filho a
onipotência.
Mandato: Fazer nas nações
discípulos do Filho.

batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

Batizar as nações no nome
trino.

Ensinado-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado

Mandato:Ensinando-lhes a
obedecerem o ensino do
Filho.

A. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.

O Filho promete sua
onipresença por meio do
Espírito Santo

Antes de mostrar isto, quero destacar alguns elementos sobre a forma da comissão em si.
Primeiro, podemos ver que se está escrito na forma de um 'quiasmus' com os três membros da
Trindade envolvidos mais com o enfoque no Filho. Isto mostra a natureza trinitária da missão e
a natureza missionária da Trindade e assinala que a missão não é, somente um mandato de
Cristo sendo uma expressão do processo de envio entre o Pai, Filho e o Espírito Santo. A
missão nasce, não da natureza da igreja e sim da de Deus. A missão para Mateus é
primariamente a Missio Dei (a missão de Deus) não a missão da igreja. A missão da igreja
provém de a Missio Dei e a serve.
Observe o que Carriker afirma sobre a origem da missão:
Através de toda a revelação bíblica se torna patente que o principal agente no drama é Deus.
"No princípio criou Deus ..." É Deus quem cria, quem julga, quem age, quem escolhe, e
quem se revela. Ele é ativo não só na criação, mas também nos julgamentos, na libertação
do seu povo do Egito, nas exortações dos seus profetas e na promessa de restauração
vindoura. Ele é o único e verdadeiro Deus e deseja que sua glória seja conhecida nos céus
(Salmo 19) e nas extremidades da terra (Isaías 11.9).
Portanto, "missão" é uma categoria que pertence a Deus. A missão, antes de ter uma
conotação humana que fala da tarefa da igreja, antes de ser da igreja, é de Deus. Esta
perspectiva nos guarda contra toda atitude de auto-suficiência e independência na tarefa
missionária. Se a missão é de Deus, então é dEle que a igreja deve depender na sua
participação na tarefa. Isto implica numa profunda atitude de humildade e de oração para a
capacitação missionária, uma dependência confiante em Deus, em vez da independência
característica da queda, do dilúvio, da torre de Babel e do próprio cativeiro.

190

Bosch, Missão Transformadora. 1991 p.57.

79
Por outro lado, se a missão é de Deus, temos a segurança de que é Deus quem está
comandando a expansão do seu reino, nos seus termos, e isto nos dá plena convicção de que
ele realizará os seus propósitos.191
Em segundo lugar, a grande comissão estabelece uma missão abrangente. Note-se o "todos". A
autoridade que o Pai entrega ao Filho abrange "toda autoridade", a missão que Filho entrega a
seus discípulos abrange "todas as nações", o ensino que deve ter abrange tudo o que Jesus lhes
havia dado e a missão durará "todos os dias".
1. Grande Comissão como Clímax
Todo o evangelho de Mateus tem haver com missão, porque, como já temos dito, cada
elemento da grande comissão é um sumário do ensino que ocorre por todo o livro.
A) A AUTORIDADE DA MISSÃO: Primeiro a autoridade que é dada a Cristo. É com a
autoridade de Cristo ressuscitado que Jesus comissiona seus discípulos a realizarem a missão.
Agora devido a morte obediente do servo de Deus, "toda autoridade no céu e na terra" foi dada a
ele pelo Pai. Não é dizer que Jesus não tinha autoridade antes, "sua autoridade não é mais
absoluta, e sim mais extensa"192. Note o advérbio no início da sentença “Portanto”. Ou seja, a
Missão é consequência natural da coroação do Senhor ressurreto e da autoridade que isto trás.
Sobre a entrega da autoridade do Pai ao Filho tem sua referência em Daniel 7:13-14. Um como
Filho do Homem se aproxima do Ancião de Dias "e se lhe deu autoridade, poder e majestade.
Todos os povos, nações e línguas o adorarão! Seu domínio é um domínio eterno, que não
passará, e seu reino jamais será destruído!"
Ao usar estas palavras de Jesus, Mateus nos ensina que a autoridade é para que o Filho do
Homem193 reine sobre todas as nações e para sempre. A autoridade do Filho do Homem tem o
elemento universal no sentido geográfico e cronológico. Missão ocorre em todo lugar onde o
senhorio de Cristo não penetrou ainda.Missões é a manifestação de seu senhorio universal.
Mas, a autoridade de Jesus se expressa claramente em várias formas ao longo de todo o
evangelho. Se vê nos títulos usados para Jesus: Filho de Davi (1.1), Filho de Abraão (1.1),
Senhor e Filho do Homem (8.20; 9.6; 10.23; 11.19; 12.8, 32, 40; 13.37, 41; 16.13, 27-28; 17.9,
12, 22; 19.28; 20.18; 20.28; 24.27, 30, 37, 39, 44; 25.31; 26.2, 24, 45, 64), e Filho de Deus
(8.29; 14.33; 26.63; 27. 40, 54) todos mostram autoridade de uma forma ou outra. Também se
vê nas narrativas de seu nascimento. Com a participação de pessoas importantes como o
Espírito Santo, os anjos, os reis magos, etc. (1.20, 21, 23; 2.2, 6, 11-13) vemos que este bebe é
especial. Sendo assim, Jesus tem autoridade em seu ministério para curar, expulsar demônios
(4.10; 8.9, 13, 32; 9.8; 10.1; 17.18), tem autoridade para ensinar e re-interpretar as escrituras
(5.22, 28, 32, 34, 39, 44; 7.29; 21.23-24), especialmente quanto ao Sábado (12.8) e ao perdão
dos pecados (9.6). Então, a autoridade de Jesus em sua vida e no ministério, nos prepara para a
autoridade completa que recebe depois da ressurreição (28.18).
B) A TAREFA DA MISSÃO: O verbo principal na comissão de Mateus é fazer discípulos194,
não ir, nem batizar, nem ensinar. Fazer discípulos é o imperativo enquanto os outros são
particípios. A construção gramatical nos leva à conclusão razoável que o objetivo principal da
Grande Comissão é fazer discípulos; enquanto que ir, batizar e ensinar são meios essenciais para
este fim, mas não são fins em si mesmos."195 É a tarefa e não a localidade que é importante.

191

Timóteo Carriker no capítulo nove do livro Missão Integral: Uma teologia bíblica, Ed. SEPAL, 1992.
CARSON, D. The gospel of John (Leicester: IVP, 1984 p.594)
193
Filho do Homem é usado 31 vezes em Mateus (Marcos 14x; Lucas 26x [João 12x]).
194
HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento - Mateus. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2001.
195
CARRIKER, Timóteo. O Caminho Missionário de Deus. São Paulo, SP: Ed. Sepal. 2000. p. 205
192

80
Nestes versículos temos quatro verbos: matheteusate (imperativo aoristo ativo), poreuthentes
(particípio aoristo passivo), baptízontes (particípio presente ativo) e didaskontes (particípio
presente ativo). O verbo principal e, também, aquele que constitui o coração da perícope, como
dito acima, é matheteusate (BOSCH, 1996, p. 73). Os demais particípios, pelo simples fato de
serem particípios, denotam o meio, "o modo de emprego relacionado a ação do verbo
principal" (LASOR, 1990, p. 77; CHAMBERLAIM, 1989, p. 128). Bosch comenta que os
particípios estão subordinados ao verbo principal e que estes descrevem a forma pelo qual o
fazer discípulos será tomada. (BOSCH, 1996, p. 73).196

Definição de Discipulo:
Se a tarefa da missão é fazer discípulos, como podemos definir “discipulo”? A palavra grega
mathetes quer dizer alguém que aprende, pois no Novo Testamento um discípulo denota os
homens que estão ligados a Jesus como seu mestre. Como diz Macarthur, “a essência do
verdadeiro discipulado é um compromisso pessoal de ser como Jesus Cristo”197. Os 'discípulos'
são "cristãos verdadeiros...que se comprometem com Cristo sem condições, que contém na
palavra...que levam sua cruz, que tem um testemunho cristão por toda sua vida. É dizer,
demonstrar uma vida transformada e poder ser identificado por seu fruto
Como realizar a missão: Se o verbo principal (fazer discípulos) nos mostra o que é a missão,
os dois particípios (batizando e ensinando) nos mostra como fazê-la.
Batizando: O batismo é importante por que foi mais que um testemunho pessoal do novo crente
sendo um rito de passagem que assinala a inclusão do discípulo na comunidade de fé, ou seja, a
igreja. Mateus enfatiza muito o rol da comunidade na missão e este rol sacerdotal do batismo se
realiza pela comunidade. Mateus é o único evangelista que usa a palavra ekklesia (igreja) em
seu evangelho (ver Mateus 16.18 e 18.17) e no quarto discurso de Jesus em Mateus o enfoque é
na vida da comunidade missionária (18.1-35). A fórmula trinitaria do batismo é importante
porque, como disse Barth, é no batismo que "um gentio se faz discípulo quando está seguro que
pertence ao Pai, Filhoe Espírito Santo198" e incorporado na igreja.
Ensinando: O outro aspecto de ensinar é, para Mateus essencial para a obra missionária. Jesus
dedica muito tempo em Mateus para ensinar a seus discípulos. Mateus inclui cinco discursos
importantes de Jesus em seu evangelho que formam uma estrutura para todo o livro (5:3- 7:1327; 10:5-42; 13:1-46; 18.1-35; 23.1- 46)199. Muito do ensino de Jesus foi sumamente ética e
como já temos visto, no Antigo Testamento a ética é essencial se as nações passam a conhecer a
Deus. Principalmente o que ensinava, foi a obediência que não se faz por discursos e sim por
modelo. E a última instrução também se inclui no ensino, a de fazer discípulos. Então a missão
para Mateus não termina até que o discípulo esteja fazendo discípulos. Então a missão é
constante, discípulos fazendo discípulos, que fazem discípulos.
C) A PROMESSA DA MISSÃO: Finalmente, Jesus promete sua presença por meio do
Espírito Santo. A presença de Deus na missão de Jesus forma uma inclusão no evangelho de
Mateus. A princípio Mateus registra que o anjo dá a Jesus o nome de Emanuel, e porém
entenda-se que Mateus está escrevendo para os judeus onde se traduz “Deus conosco”,
obviamente enfatizando o ponto. A presença permanente do Senhor ressuscitado em sua igreja
missionaria a sustentará e animará até que termine a era e seja completo o triunfo do reino de
Deus. Então desde o princípio e ao fim a presença de Deus se vê.

196

CARVALHO, Reginaldo Corrêa. O Discipulado em Mateus. Tese de mestrado apresentada no CPPGAJ mas ainda
não publicada
197
MACARTHUR, John. O Evangelho Segundo Jesus. São José dos Campos, SP: Ed. Fiel. 1991. p. 229
198
Karl Barth, "An Exegetical Study of Matthew 28.16-20" en The Theology of the Christian Mission (Gerald
Anderson ed. London: SCM Press, p.69).
199
Bosch, Op Cit., p.69.

81
Neste sentido, Mateus mostra que todo o evangelho nos fala da missão universal de
Deus e da igreja e não somente a 'grande comissão'. Nos mostram além disso, com qual
autoridade fazer a missão (a autoridade de Cristo ressuscitado), como faze-la (fazendo
às nações discípulos de Cristo, incorporando-as na comunidade da fé e ensinando-lhes
tudo o que Jesus ensinou), em que pode faze-la (o poder do Espírito Santo) e até quando
faze-la (até o fim do mundo).
D. O ALCANCE DA MISSÃO: E finalmente parece que há um entendimento de que as
bênçãos irão alcançar aos gentios. Várias passagens mostram isto como a visita dos gentios reis
magos (2.1-12) a expressão "Galileia dos Gentios (4.14-16), os crentes devem ser a luz do
mundo (5.13-14), o incidente com o centurião (8.5-13) etc. (10.18, 22; 12:21 cf. Isaías 42:4;
13:38 cf. 13:32 e Dn 4:12; 16:13-28; 21:28 - 22:14 véase 21:43; 22:9; 24:9,14 e 25:31-46;
26:13, 28 cf. Isaías 52:15;53:11-12; 27:54; 28:19). Tudo em Mateus, fala da missão universal
de Deus e a igreja.
A visão missionária por trás dessa cena é que a tarefa da igreja é reunir os redimidos de todos os
povos, língua, tribos e nações (fulh/j kai. glw,sshj kai. laou/ kai. e;qnouj ). Todos os povos
devem ser alcançados porque Deus designou pessoas a crerem no evangelho, as quais ele
redimiu pela morte de seu Filho. O desígnio da redenção prescreve o desígnio da estratégia da
missão. E o desígnio da redenção ( a redenção de Cristo, versículo 9) é universal, pois se
estende a todos os povos, e definitivo, uma vez que efetivamente redime alguns de cada um
desses povos. Portanto, a tarefa missionária é reunir os redimidos de todos os povos por meio da
pregação do evangelho.

II. Missão em Marcos: a pregação do evangelho de Jesus Cristo
Basicamente, a missiología de Marcos se pode resumir como "a pregação do evangelho
de Jesus Cristo a toda criatura." Hedlund disse "O evangelho se deve pregar, e este fato
se deve dizer a todos os homens de todos os lugares"200. Pregação, evangelho e
universalidade são os três elementos importantes.
"A grande comissão" de Marcos se encontra em Marcos 16.15-18. "Ide por todo o mundo e
pregai o evangelho a toda criatura." (Marcos 16.15). Esta comissão não se encontra nos
manuscritos mais antigos e se supõe que Marcos 16.9-20 foi acrescentado após outra pessoa,
resumindo as comissões nos outros evangelhos e em Atos. Por isso muitos eruditos tem evitado
usá-la. Contudo, me parece que este texto tem resumido bem a missiología de Marcos porque
contém os três elementos já mencionados; a pregação, o evangelho, e a universalidade.
A) O evangelho de Marcos se intitula “o evangelho de Jesus Cristo”, é dizer que o evangelho é
sobre Jesus Cristo201 e não o evangelho pregado por Jesus Cristo, ainda que se inicia com a
pregação de Jesus. Seu conteúdo é o evangelho pregado pelos primeiros pregadores. Acredita-se
que Marcos uniu a pregação de Pedro para formar seu evangelho. Então o que temos em Marcos
não é somente uma história sobre a vida de Jesus e sim, literalmente "o evangelho de Jesus
Cristo."202

200

Roger Hedlund The Mission of the Church in the World: A Biblical Theology (Grand Rapids: Baker books, p.155).
Mí traducción.
201
CARRIKER, Timóteo. Op Cit., p. 207.
202
A palavra “evangelho” se usa oito vezes em Marcos onde usa somente 4 vezes em Mateus, onde sempre é "o
evangelho do reino" e 3 vezes em Lucas, enfatizando a importância do evangelho.

82
Este evangelho está centrado em Jesus Cristo e em suas ações. Em Marcos não temos muitos
discursos e ensinos de Jesus, como os temos em Mateus, sendo suas ações e os eventos de sua
vida, incluindo sua morte e ressurreição. Jesus realmente É o evangelho que se deve pregar.
Pregá-lo é o que temos que fazer com este evangelho. Em Marcos Jesus mesmo sempre se
mostra, pregando o evangelho, chamando discípulos, curando gente enferma, expulsando
demônios, perdoando pecados. (Marcos 1:14-15, 16-20, 21-45; 2:1-17). E desde o princípio
designou os doze “para estarem com ele e para os enviar a pregar e as exercer a autoridade de
expelir demônios.” (Marcos 3:14-15 cf 6:7-13) Pois, pregando o evangelho”(kerussein to
euangelion) é a ênfase; proclamando as Boas Novas e chamando homens e mulheres a
responder em fé e arrependimento.
B) Este evangelho de Jesus Cristo se deve pregar a toda criatura. O elemento universal se vê em
três formas203. Primeiro, pela situação do ministério de Jesus. Em Marcos, Jesus começa seu
ministério pregando o evangelho na Galiléia (1.1-8.21), um local de gentios e judeus, onde
ganha muitos discípulos e tem uma grande popularidade. Termina seu ministério em Jerusalém
(11.1-16.8) o centro do judaísmo onde encontra a oposição, o padecimento e a morte. A
perspectiva positiva se fazia na área pagã em preparar a terra para a missão universal. Segundo,
o elemento universal se vê pelo desprezo pelos judeus e a aceitação pelos gentios. Ao longo de
Marcos os judeus não entendem a missão de Jesus e o desprezam, em troca os gentios o
aceitam. Isto nos leva ao terceiro elemento, a purificação do templo (11.1-19). Como nos outros
evangelhos Jesus faz uma limpeza no templo. E como Mateus e Lucas, citam as palavras de
Isaías 56.7 e Jeremias 7.11 dizendo que os judeus haviam feito do templo um "covil de ladrões"
onde deveria ser "uma casa de oração". Porém, Marcos associa a frase "uma casa de oração" às
palavras "para todas as nações". Para Marcos, o templo é uma indicação da universalidade no
plano de Deus. O templo judeu se deve destruir e um templo que não se faz por mãos se deve
construir para que as nações possam agradar a Deus.
Podemos concluir que para Marcos a missão de Jesus foi pregar o evangelho e a missão que
entregou a seus discípulos foi a mesma, porém com a adição importante de que esta pregação
foi sobre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.
III. Missão em Lucas/Atos: o caminho segue até os confins da terra
A importância da missiología de Lucas/Atos se vê de algumas maneiras. Primeiro, Lucas é o
único dos evangelistas que continua a história da missão de Jesus à missão da igreja. Mostra a
continuidade entre a missão que Jesus iniciou em sua missão e o que ele passou a fazer por
meio da igreja (Atos 1.1.) Em segundo lugar, se pensa que Lucas é o único autor gentil do
Novo Testamento. Então, o que Lucas nos conta são os primeiros passos na missão da igreja
diante do ponto de vista gentio. Por isso, podemos ver como uma adiantada contextualizacão da
historia de Jesus. E em terceiro lugar Lucas, com sua preocupação com os pobres, nos dá, uma
visão, não somente da missão AOS pobres e sim a missão DOS pobres. Deste nosso ponto de
vista nos pode inspirar, corrigir e dar pistas para nossa missão hoje em dia.204
Como sabemos Lucas/Atos é uma obra de dois tópicos, porém, veremos que cada um deles tem
sua própria mensagem missionária.
A. LUCAS
Se tem argumentado que o tema do evangelho de Lucas se encontra em Lucas 3.4-6.

203

CARRIKER, Op. Cit., p. 208-209
Para uma descrição mais ampla da missiología de Lucas/Atos veja o capítulo "La misión en el Evangelio de Lucas
y en los Hechos" com Bases bíblicas da missão: perspectivas latino americanas (Buenos aires: Nueva Creación,
1998)
204

83
Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas
veredas. Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; os
caminhos tortuosos serão retificados , e os escabrosos, aplanados; e toda carne
verá a salvação de Deus
Ainda que Mateus e Marcos citem a passagem de Isaías 40.3-5, é somente Lucas que acrescenta
o versículo 5, “E toda carne verá a salvação de Deus”. Parece que Lucas usa este versículo no
seu contexto em todo seu evangelho. Neste primeiro livro, Lucas conta a história do caminho do
Senhor (hodos kyrios). O evangelho de Lucas e todo livro de Atos é a história do caminho. Isto
se vê claramente em "a narrativa da viagem" (9.51-19.44) onde Jesus menciona várias vezes a
necessidade em ir para Jerusalém (Lucas 9.51; 10.22; 14.25; 17.11; 18.35; 19.28). E no princípio
desta passagem temos o relato da transfiguração, Moisés e Elias estavam falando a Jesus de sua
"partida" (NVI) que literalmente é a palavra ex-hodos ou "êxodo" - 9.31. Este termo não aparece
nos outros evangelhos. A missão em Lucas é dinâmica por que está no caminho.
Este caminho é o caminho do Senhor. Como Mateus, Lucas fala de Jesus como o Senhor. Nos
relatos do nascimento se tem claro que esta criança é o Senhor (1.17, 76 e 1.43, 2.11), Jesus aceita o
título quando se dirigem a ele (6:46; 7:6; 9:54, 59, 61), Lucas se refere a Jesus como "Senhor"
(7:13,19; 10:1,39; 11:39), Jesus reivindica ser "o Senhor do sábado" (6.5) e depois da ressurreição a
mensagem é S
 enhor já ressuscitado' (24.34). Fazer a missão em Lucas é estar com o Senhor no
caminho do Senhor.
Este caminho do Senhor supera todos os obstáculos como a oposição, que seja de demônios
(4.33-35, 41-42), de seres Humanos (5.17-6.11; 13.31-35; 15.2), a intenção de matá-lo (4.29;
19.47-48; 20.19; 22.2) também veio a superar as barreiras da classe social (5.27-32; 7.36-50;
15.1-32; 19.1-10), de preconceito sexual (7.36; 8.3; 13.10-17) e de preconceito racial (10.2937; 17.11-21). Para Lucas não há dúvidas que o caminho do Senhor vá atingir seus objetivos.
O caminho segue para que todo mortal veja a salvação do Senhor. O elemento universal está
presente aqui. Todo mortal, todo tipo de pessoa e toda classe de condições. Homens, mulheres,
velhos, jovens, classe alta baixa, ricos, pobres (sendo que os ricos devem usar bem sua sua riqueza
[16.1-15, 19-31; 18.18-30; 19.1-10), crianças e leprosos, etc. O caminho do Senhor não terá
terminado sua viagem até que todo mortal veja a salvação do Senhor.
E finalmente é a salvação que vão ver. Para Lucas a salvação tem um amplo significado. Nos
relatos do nascimento, a salvação também tem conseqüências políticas, a exaltação aos humildes
(1.51-53), a libertarão do povo de Deus (1.71-74), luz para os que estão na escuridão e a paz,
(1.77-79), a revelação e a glória (2.30-32) usa a linguagem de Jubileo. Jesus usa a mesmo
linguagem quando descreve sua missão no sermão em Nazaré (Lucas 4:18-19 cf. Isaías 61:1-2;
58:6 cf. 7:21-23). Além disso, Lucas usa a palavra "salvar" para incluir a sanidade física, a
libertação de demônios tanto como o perdão dos pecados (4:43; 7:36-50 esp. v 50; 8:1-3, 26-56;
17:19, 19:10 cf. v 9.) Isto se segue em Atos também (Hechos 2:38-41 cf. v 47., 4:12 cf. vv. 9-10;
13:26 vv. 38-39; 16:31.) Darío López postula seis dimensões da salvação em Lucas: "econômica,
social, política, física, psicológica e espiritual."205 Tanto no Antigo Testamento como em Lucas, a
salvação é de toda a pessoa e todas as pessoas.
Pois no evangelho de Lucas a missão de Jesus é seguir o caminho do Senhor, superando todos
os obstáculos para levar a salvação a todo mortal.
B. ATOS
Enquanto o livro de Atos as palavras no capítulo 1.8 se tem visto como uma ordem do
dia para o livro. “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis
205

Darío López, "La misión liberadora de Jesús según Lucas" en Padilla, 1998, p.224.

84
minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria e até aos
confins da terra”. Nesta passagem, Lucas deixou duas coisas bem claras, conforme John Stott
habilmente expõe: "que seu reino é internacional quanto a seus membros e gradual quanto á
expansão".206
1) A internacionalidade dos membros
Os discípulos de Jesus estavam pensando em um reino mais restrito a Israel, mas, em
sua resposta, á pergunta deles (v.6), Jesus lhes expandiu os horizontes, demonstrando que seu
reino e seu desejo se estendiam a todas as nações da terra. Tem sido corretamente observado
pelos estudiosos que Atos 1.8 é como se fosse um índice do próprio livro de Atos. E, realmente,
o evangelho começou a ser disseminado em Jerusalém (caps. 1-7), depois alcançou Samaria
(cap. 8), e, finalmente, impulsionado pela conversão do "apóstolo dos gentios", expandiu até
alcançar Roma e os confins da terra (caps. 9-28).
2) A expansão gradual
Outro aspecto importante que Cristo enfatizou em Atos 1.8 é a expansão gradual da
igreja. Da maneira como Jesus expôs, ele deixou bem claro que seus discípulos seriam
testemunhas em círculos cada vez maiores. Veja as expressões: "tanto em... como em toda... e
até aos...". Não pode haver barreiras para o reino de Deus. Nem raça, nacionalidade, costumes,
ou mesmo distâncias podem impedir que o reino cresça por meio da graça de Deus presente no
testemunho dos convertidos.
A mensagem do evangelho começou em Jerusalém com um pequeno grupo dentro do
judaísmo, reuniam-se no Templo, seguindo as tradições judaicas e esperando a restauração de
Israel, pregando nas ruas e no Templo, vivendo uma vida em comum e lutando para sobreviver
(1.1-8.1a). Depois, se estendeu ao mundo semi-judeu da Judéia e Samaria, começando a aceitar
a possibilidade da conversão dos gentios. Felipe pregou em Samaria, se converteu em um
homem que viria a ser o mais importante missionário dos gentios, Deus dirige a Pedro a pregar
para a família de Cornélio (gentio, temente a Deus), estes gentios receberam o Espírito Santo, a
igreja de Jerusalém aceita Cornélio como irmão e a igreja de Antioquía, que viria a ser a base da
missão aos gentios é citada pela primeira vez (8.1b-12.25). Vemos um movimento, não
somente geográfico do evangelho mas, também um movimento muito além do judaísmo, havia
uma fé universal. Finalmente, desde o capítulo 13 até o fim do livro somos testemunhas da
extensão do evangelho na Ásia Menor e Europa, testemunhamos a aceitação dos gentios como
membros plenos da igreja e vemos como o evangelho chega ao centro do mundo daqueles dias.
Atos termina com Paulo em Roma, pregando o evangelho sem “impedimento algum” (Atos
28.30.). O "caminho" percorreu um longo caminho da Galileia a Jerusalém e de Jerusalém,
passando por Antioquía, chegando em Roma. Também percorreu um longo caminho de
transformação de ser uma seita judia a uma fé universal.
Quero mencionar outra coisa importante a cerca deste versículo. Em sua tradução de
Atos 1.8, a NVI tem seguido o grego mais precisamente que as outras traduções ao sublinhar a
forma coerente para missão em vez de uma forma consecutiva. E dizer que a missão se fez
TANTO em Jerusalém COMO em toda Judéia e Samaria e até aos confins da terra. A missão
aos confins da terra não necessitava esperar que a missão a Jerusalém terminasse para receber a
atenção dos crentes. Mas, parece que os Apóstolos não entendiam isto, tampouco por que, era o
Espírito Santo que deu o impulso para cruzar as barreiras em cada etapa e não uma estratégia
dos apóstolos. Em cada caso o Espírito Santo teve que lanca-los de sua "zona de conforto." Para
que saísse de Jerusalém, usou a perseguição (8.1) para que pregasse aos gentios, tementes a
Deus, usou visões (10.1ss), para que a igreja de Antioquía, mandasse uma equipe de
missionários, outra vez usou visões (12.2), para que a igreja de Jerusalém aceitasse aos gentios
206

STOTT, John Scott. A Mensagem de Atos. São Paulo: Aliança Bíblica Universitária, 1994. p.41-2.

85
como membros da igreja, usou uma mensagem direta (15.28) e para que Paulo pregasse na
Europa usou obstáculos, circunstancias e uma visão (16.6-10). Deus queria que a igreja
missionária TANTO em Jerusalém COMO em toda Judéia e Samaria e até os confins da terra se
tornasse possível. Enfim, para Lucas a frase "mas há tanto que fazer aqui, sem pensar em outras
partes do mundo" é uma negação da natureza universal do evangelho e da natureza bíblica da
missão.
Temos mostrado que cada livro, na obra de Lucas, tem sua própria mensagem missionária, mas
também a obra inteira tem uma estrutura e uma mensagem missiológica. Para entender o livro
inteiro, seguimos outra vez a Bosch quem propôs que Lucas 24.46-49 serve como a grande
comissão em Lucas/Atos e serve como o clímax na mesma forma que a grande comissão em
Mateus207 Esta passagem pode-se ver como o ponto em que convergem os ramais do Evangelho
para logo disseminar-se com o fim de recorrer o caminho narrado em Atos. Bosch comenta,
A totalidade da compreensão 'lucana' sobre a missão cristã: é o cumprimento das promessas
bíblicas; chega a ser possível unicamente depois da morte e ressurreição do Messias de
Israel; seu conteúdo é a mensagem do arrependimento e perdão; está destinado a "todas as
nações"; começando "por Jerusalém"; se implementará através de "testemunhas"; e se
levará a cabo pelo poder do Espírito Santo208.

Concluo que a missiología de Lucas encontrada no Evangelho e em Atos mostra que o
sofrimento e o testemunho são a forma de missão, a salvação e a universalidade são a
mensagem da missão e a segurança do progresso do caminho e a presença do Espírito Santo são
o motivo da missão.
Devemos “encarnar” o evangelho de Jesus em nossa vulnerabilidade e nosso testemunho
humilde, pregando todo o evangelho, testemunhando a todas as nações, seguindo o
"caminho" do Senhor com o Espirito Santo como nosso guia.209

IV. Missão em João: a revelacão de Deus em Jesus Cristo

Ler e discutir em sala de aula o artigo do Rev. Carlos del Pino
O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja, Fides Reformata 5/1/2000
As consequencias do apostolado de Cristo para a missão da Igreja sob a perpectiva do Quarto Evangelho

O propósito do Evangelho de João é sumamente missionário. Está escrito "creiais que Jesus é o
Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (João 20.31). Então é
levar as pessoas a fé em Jesus Cristo e nutrir sus fé e para que levem outros a fé. O tema
central é evangelistico e missionário.
A mensagem central de João é o envio do Filho pelo Pai, impulsionado por seu amor infinito
pela humanidade perdida para que, os que creem nele sejam salvos e tenham vida eterna. (João
3:16) Como disse em I João 4.14, “E nós temos visto e tertemunhamos que o Pai enviou o seu
Filho como Salvador do mundo.”
A) O Filho foi enviado ao mundo. “Mundo” (ho kosmos) em João, geralmente se refere
a humanidade caída em inimizade a Deus mas todavia é o objeto de amor de Deus. Bosch não
trata o paradigma de João, somente aos de Mateus, Lucas e de Paulo210 e diz que estes tres
autores, são "representantes do pensamento e prática missionária do primeiro século."211 Mas,
estou de acordo com Philip Towner quando propõe que se Bosch houvesse usado o paradigma
de João haveria tido uma perspectiva menos positiva ao mundo.212 A falta de Bosch é rara por
207

Bosch, Op Cit., p.91.
Bosch, Op Cit., 991, p.91.
209
Ibid, p.272.
208

86
que as palavras ho kosmos aparecem 96 vezes em João e somente 22 vezes nos sinóticos!
Obviamente João pensava que foi um conceito bastante importante. O mundo é o enfoque do
amor de Deus POR QUE está caído. Isto nos dá outra perspectiva quanto a missão.
Me parece que o mundo no pensamento de João tem o mesmo rol que as nacões no Antigo
Testamento (especialmente Deuteronômio). As nacões são más (Deuteronômio 12.31 por
exemplo)mas é o desejo de Deus que o bendigam (Gênesis 12.3). O mundo é malvado (I João
2.15) mas é o objeto do amor de Deus (João 3.16). As nações são uma tentação para Israel
(Deuteronômio 13) mas também é a existência da vida ética de Israel (Deuteronômio 4.5-8). O
mundo nos pode contaminar (I João 2.15) mas é a existência do amor dos discípulos (João
13.35).
B) A missão de Jesus: Jesus veio para revelar o Pai, para levar aos homens o Pai, para
dar lhes a vida eterna. Veio ao “mundo” em seu pecado, obscuridade e alienacão. A
profundidade cósmica no princípio do evangelho nos prepara para a extensão mundial da
mensagem do amor de Deus para toda a humanidade. O “Filho” também é o “Logos” quem
esteve com Deus antes da criacão, e que por meio dele, o mundo foi criado, e a fonte de toda luz
e vida. Também Jesus é o único caminho ao Pai, a quem o Pai entregou a salvacão e o juizo.
(Cf. as declaracões “Eu sou” - João 6:36; 9:5 etc. também João 1:18; 14:8.) Sua morte é o meio
de revelacão do Pai e o meio de levar aos homens o Pai. Por sua morte retira as barreiras que
nos impedem de conhecer ao Pai (João 1:29 e 12:31). Jesus é enviado pelo Pai (cf João 3:17,
34; 4:34; 5:23, 24 etc.) que tem a autoridade completa do Pai e veio para fazer a vontade do Pai
(João 5:19-30; 8:29).
C) A Missão dos Discípulos (cf. João 20:21-23).
Paz seja convosco! Assim com o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto,
soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espirito Santo. Se de alguns perdoardes os pecados,
são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos.
1) Façamos alguns comentários sobre os elementos desta comissão. “Paz seja convosco” Esta
frase é mais que uma saudacão (João 20.19, 21, 26). Pela sua morte, Jesus deu a paz que o
mundo não pode entender, dar nem tirar, que persiste até na tribulacão. A paz que Jesus lhes
presenteia é SUA paz (João 14:27; 16:33). É a paz que se deve compartilhar com o mundo.
2) “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Este verbo indica um ato no passado
que todavia tem efeitos no presente. Na mesma maneira em que foi enviado, os discípulos são
enviados “ao mundo” (João 17.18). Não pertencem ao mundo da mesma maneira que Jesus não
pertence ao mundo. Os escolhidos do mundo (João 15.19) e o mundo irá odiar como odiou a
ele (João 15.18-25). O mundo ao qual os manda, primeiramente é o mundo caído mas também
inclui a idéia de TODA a humanidade, não somente os judeus. (Cf. João 1.29 “o pecado do
mundo” Ver também João 10:16; 11:52; 12:32 cf. vv. 20ff). O modelo da missão da
comunidade de discípulos, é Jesus. Por isso, John Stott disse que esta comissão é a mais
ignorada pois é a mais trabalhosa.
3) A promessa do Espírito Santo. O ato de soprar simbolizou que está entregando ou
prometendo o Espírito Santo, que se cumprirá nas promessas de Jesus sobre o consolador. O
Espírito Santo os fará lembrar das palavras de Jesus, interpretar o significado de sua obra e

210

ibid. Capítulos dois a quatro.
Ibid. P.55.
212
(Evangelical Quarterly 67/2 1995) (“Paradigms Lost: Mission to the Kosmos in John and in David Bosch’s Biblical
Models of Mission”). ( “Paradigmas perdidos: A missão do Kosmos em João e nos modelos bíblicos da missão de
David Bosch) Porém, ainda que Senior e Arana Quiroz tratam o evangelho de João, não menciona o kosmos como
conceito. Senior, 1985 cap. 12 e Padilla, 1991, cap 273.
211

87
acompanha-los em seu testemunho e sua missão com o poder para convencer e converter (João
14:25-26; 15:26-27; 16:7-11, 12-15.).
4) Perdão dos pecados. O Espírito Santo também lhes dará autoridade para anunciar o
evangelho e suas promessas de perdão dos pecados aos que creem e adverti aos que entrarão em
juízo. A missão em João significa tanto o juízo como a salvacão.
Enfim, a missão segundo João é a revelação do Pai por Jesus, e Jesus dá aos discípulos a
mesma missão para fazer da mesma forma.

Leitura

Paulo, Plantador de Igrejas: Repensando Fundamentos Bíblicos da Obra Missionária. Augustus
Nicodemus Lopes. FIDES REFORMATA 2/2 (1997)

88

III. Perspectiva de Missões no Ministério de Jesus

213

_____________________________________________________________________
Nos últimos capítulos confirmamos que o mandato missionário se baseia no Velho
Testamento como um fio que entrelaça toda a história de Israel. O escopo de missões sempre foi
e sempre será universal, já que procura anunciar e promover o reino de Deus por todo o mundo.
Na própria história de Israel, a mão forte e poderosa de Deus se estendeu ao povo não somente
para seu benefício, e sim, como testemunho às nações a fim de levá-las a conhecerem o
SENHOR dos Exércitos.
No Novo Testamento esta preocupação universal de Deus se intensifica a partir do
ministério de Jesus. O Evangelho segundo Lucas, mais que todos os outros enfativa a
significância universal da vinda de Jesus. Entre os quatro Evangelhos, apenas Mateus e Lucas
traçam a descendência de Jesus através da sua genealogia. Mateus, porém, começa a partir de
Abraão a fim de destacar aos seus leitores judeus e gentios inquisidores da fé judia que Jesus,
sendo filho de Abraão, é o prometido Rei de Israel. Lucas, entretanto, começa com a genealogia
de Jesus a partir de Adão destacando-o como filho do pai de toda a humanidade. Assim Jesus se
identifica com o plano-mestre e universal de Deus na história da criação de ter domínio sobre
todas as coisas, e não somente o Israel. Em Lucas vemos Cristo como o Missionário de Deus,
enquanto que em Mateus ele é visto mais como o Messias prometido de Israel.
Lucas enfatiza a significância do ministério de Jesus. Isto é, tanto em termos
geográficos, quanto em termos sociais e em termos culturais. Consideremos estes três aspectos
do seu ministério.
1. Atravessando as Barreiras Geográficas
Em Lucas 4, Jesus fora a Cafarnaum onde se centralizou o seu ministério no início. Foi
lá que ele começara a pregar,ensinar e curar com autoridade. Foi até a casa de Simão e curou
sua sogra. Nas altas horas da noite o povo lhe trazia os doentes e ele os curava. Deve ter ficado
um tanto sobrecarregado com este ministério, pois lemos: “sendo dia, saiu e foi para um lugar
deserto; as multidões o procuravam e foram até junto dele, e instavam para que não os deixasse”
(Lc.4.42).
Aparentemente o povo percebia que Jesus estava prestes a deixá-lo, e isto quando Jesus
mal começara seu ministério lá! Imagine a reação das pessoas angustiadas como se estivessem
na fila do INPS durante toda a noite e de repente o médico de plantão entrasse em férias.
“Espere aí! Não diga que já vai! Acabou de começar seu ministério aqui. Esta cidade
está cheia de corrupção e pobreza, pecado e doença. Ainda não pode nos deixar!”
Qual era a resposta de Jesus?
“é necessário que eu anuncie o Evangelho do reino de Deus também às outras cidades,
pois para isso é que fui enviado”.
O Evangelho deve se espalhar. Não pode ficar parado em lugar algum! Já que o
Evangelho do reino tem isto dimensões as mais amplas e universais possíveis. Portanto é
implícita sua divulgação por toda parte, atravessando todas as barreiras geográficas, sempre em
movimento, até que todos recebam as Boas-Novas. O ministério de Jesus demonstra uma

213

Capítulo de autoria de Timóteo Carriker extraído do site: http://www.carriker.org/, capturado em agosto de 2003

89
preocupação missionária que cruza as fronteiras geográficas, convocando todos em todo lugar a
assumirem a vida do reino.
2. Atravessando as Barreiras Sociais
Contudo, a missão de Jesus não se reduziu a cruzar barreiras geogràficas. Jesus também
atravessou barreiras sociais, pois ele incluiu novas faixas da sociedade antes negligenciadas.
Por exemplo, observamos que três vezes Jesus foi à casa dum fariseu para jantar
(7.36;11.37;14.1). Ele portanto não deixou de ministrar até à classe religiosa que mais se opunha
a ele. Outra vez, uma mulher pecadora ungiu os pés de Jesus com perfume (7.36-50). Jesus não
se preocupava com o estigma social que poderia ganhar por causa da sua simpatia e
disponibilidade de ministrar a todos igualmente, tanto àqueles que deveriam ser seus maiores
inimigos quanto àqueles que poderiam causar o maior escândalo para seu ministério. Aliás, pelo
menos segundo Lucas, havia aparentemente até uma ênfase, se não preferência por este tipo de
gente, embora Jesus também tenha atendido à alta classe de líderes religiosos. Ele ministrou ao
desterrado, ao aflito e ao pecador.
Até os publicanos foram o objeto de seu amor e da sua atenção. Eles eram as pessoas
mais odiadas pelo povo, considerados exploradores, pelos altos impostos que coletavam, e
traidores por ajudarem a enriquecer o estado político e romano. Jesus, apesar deste forte
preconceito social, foi jantar na casa de Levi (5.27-32). Ainda mais, ele se convidou à casa de
Zaqueu, um outro coletor de impostos (19.1-10). Desta forma, Jesus demonstrou concretamente
que sua missão implicava em cruzar todas as barreiras sociais, dando atenção especial para as
faixas da sociedade mais rejeitadas.
Por isso mesmo Lucas revela com ênfase o alcance que Jesus teve entre os pobres e
oprimidos, desde o princípio do seu ministério: “Vim para evangelizar os pobres, libertar os
cativos e oprimidos e restaurar a vista aos cegos” (4.18). Nas bem-aventuranças pregadas na
planície, o contraste proposital entre a pobreza e a riqueza exemplifica esta preocupação
especial de Jesus pelos pobres, famintos, desesperados e oprimidos. Exemplifica-se também na
ilustração dos dois devedores (7.4l-43, observe a quem Jesus ama mais), do amigo da meianoite (ll.5-8), do rico e seus celeiros (l2.13-21, veja o último versículo), da moeda perdida (l5.810), do administrador esperto (l6.1-13, repare de novo o último versículo) e do juiz iníquo
(18.1-8) e a viúva.
Achamos necessário fazer duas explicações nesta altura da nossa elaboração do
ministério de Jesus. Em primeiro lugar, quando afirmamos a sua preocupação pelos pobres e
oprimidos, não estamos nos baseando ou propagando nenhuma teologia contemporânea de
libertação. Mas apenas pretendemos uma rigorosa, não obstante abreviada,base e interpretações
bíblicas coerentes (julgue você mesmo!). Em segundo lugar, bem sabemos que muito se fala
sobre uma opção preferencial pelos pobres. Sugiro que a própria evidência bíblica leve a esta
conclusão. Se não, Jesus poderia dizer: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me
ungiu para evangelizar aos ricos,” ou ainda mais, “Bem-aventurados os ricos”? e Paulo poderia
descrever a composição da igreja coríntia como sendo de “não muitos analfabetos, nem muitos
oprimidos, nem muitos de nascimento humilde” (1 Co. 1.26)?
Para o intérprete espiritualizante, digo, portanto, que sim, há uma certa preferência
bíblica pelo pobre e oprimido. Não é por acaso que nenhum dos textos citados descreve o pobre
como alguém que não seja social e economicamente pobre. Por outro lado, para o intérprete
liberacionista em termos apenas sócio-políticos, digo que esta preocupação pelo pobre não é por
causa da sua pobreza em si, mas sempre em relação à justiça e à glória de Deus. O pobre é
preferencialmente bem-aventurado porque ele não tem de quem pode depender para defendê-lo,
a não ser o próprio Deus, se deste, de fato depende. Assim, o pobre bem-aventurado é de fato
uma pessoa política e economicamente pobre, porém, é um pobre não só injustiçado pelos

90
homens como também justo diante de Deus. Esta idéia do pobre injustiçado e também justo se
deriva da palavra ' ani no Antigo Testamento que se traduz tanto como “pobre” quanto
“humilde” e também “piedoso” (Am. 2.6 e Is. 2. 6-12). Portanto, a postura do pobre é
dificilmente conhecida pelo rico e a posição do pobre diante de Deus é preferenciada pela sua
maior propensão a depender de Deus.
A sua necessidade de dependência de Deus, então, vai além de dimensões espirituais,
emocionais e de relacionamentos e inclue também as crises cotidianas financeiras, operárias e
até políticas, crises estas que o rico sente bem menos. Entretanto, quando o rico consegue
assumir esta mesma postura (isto não é o sentido da exortação ao jovem rico? Lc. 18.18-23),
também pode gozar a bênção de Deus (como no caso da bem-aventurança para o “humilde” ou
“pobre de espírito'ém Mateus 5.3). Demoramos nesta questão, primeiro por ela tanto necessitar
de esclarecimento bíblico e, segundo, por ser tão pertinente no Brasil, cuja população, em
grande parte, é pobre (e cada vez mais, proporcionalmente!).
Decerto Jesus também ministrou aos ricos, pois, provavelmente, tanto Zaqueu quanto
José de Arimatéia tenham tido bons recursos financeiros. (Porém, a sua orientação quanto às
suas riquezas, tinha que mudar diante do seu compromisso com Jesus!). Assim, reparemos que
se Jesus assumiu uma opção preferencial pelos pobres certamente esta opção não era exclusiva.
O essencial era um compromisso a favor do Senhor, não deixando isto de ter manifestações
concretas não só na vida devocional como também nas relações humanas.
Um outro grupo desprezado pela sociedade que ganhou a atenção e preocupação de
Jesus eram as mulheres. Lucas faz menção desta dimensão do seu ministério quarenta e três
vezes, enquanto Marcos e Mateus juntos a fazem apenas quarenta e nove vezes. Além disto,
Lucas dá especial ênfase ao fato dos primeiros missionários (quem testifica da ressurreição de
Jesus) serem todos mulheres (23.55-24.12). Num mundo onde o papel da mulher não possuia
prestígio nenhum, este fato é significante e revelador. Além disto, só Lucas destaca as mulheres
que acompanhavam e sustentavam nosso Senhor na sua missão (8.1-3).
A soma destas observações assinala convincentemente que o ministério de Jesus
atravessou barreiras sociais. Sua missão atingiu todas as faixas da sociedade, especialmente as
mais desprezadas e oprimidas e elogios da igreja neste sentido, tendemos a esquecer do modelo
de Jesus e nos acomodar com a mobilidade ascendente que a nossa fé propicia. Não que a
ascendência é negativa, mas apenas a acomodação e injustiças cometidas aos outros (não é este
o sentido da parábola do rico e Lázaro? 16.19-31).
3. Atravessando as Barreiras Culturais e Religioas
Jesus alcançou até os samaritanos, aqueles meio-judeus desprezados e marginalizados
pelos judeus. Mas não só os alcançou como também fez deles heróis quando contou a história
do bom samaritano (10.29-37). Imagine o aborrecimento dos fariseus quando contou esta
história!
Interessante que entre os dez leprosos que Jesus curou, aquele único que voltou para
agradecer era samaritano (17.11-19).
Um outro escândalo cultural e religioso que Jesus causou foi seu tratamento para com o
centurião romano. Pois é claro que os judeus colocavam os gentios fora da esfera do amor e
atividade de Deus (a não ser que se tornassem judeus!). Contudo, quando este guarda romano
que mantinha a lei e a ordem na região, pediu que Jesus curasse seu servo e confiou apenas na
palavra afirmativa de fazê-lo, Jesus afirmou: “nem mesmo em Israel achei fé como esta” (7.9).

91
Resumo
Jesus, sendo filho de Adão (que significa “homem”), cumpre a imagem de Deus no
homem-Adão, realizando o domínio de Deus atravessando todas as barreiras que limitam este
domínio, as geográficas, as sociais e as culturais. Desta forma, o plano divino e salvador
continua, sendo Jesus nosso precursor, nosso modelo, nossa autoridade e nosso poder. é um
plano para o universo que nós temos que cumprir. Este peso da nossa responsabilidade pelo
cumprimento da Missão de Deus aparece bem nítido quando Jesus falou: “Vós sois testemunhas
destas coisas” (Lc. 24.48).
A mesma passagem define este evangelho como tendo no seu centro a morte e
ressurreição de Jesus. A fé se baseia num evento concreto da nossa história. Não é um
misticismo das religiões orientais nem a magia das religiões animistas e nem a força mental das
crenças do alto espiritismo. Nossa fé surge do fato da atuação concreta de Deus na nossa
história e resulta na transformação integral do homem em todos os seus relacionamentos.
O Evangelho também exige o arrependimento como pré-requisito para entrada no reino
e o perdão como promessa e dom do seu ingresso.
Onde deve ser pregado? — “a todas as nações” (24.47). Como Jesus não foi detido ou
atrasado no início do seu ministério por barreiras geográficas, mas tinha que ir às outras cidades,
semelhantemente, no final deste ministério ele exorta seus discípulos que fossem para todas as
nações. E esta exortação nos pertence hoje em dia. A responsabilidade é nossa. Esperemos
apenas até que “do alto sejamos revestidos do poder” (24.49).
Em síntese, Lucas fornece ampla base para a obra missionária através do modelo do
ministério de Jesus. Aliás, nestes estudos, temos destacado que as escrituras todas fornecem o
extenso alicerce que apóia e prepara pela elucidação desta obra na grande comissão. A obra
missionária da igreja não é uma pirâmide feita de cabeça para baixo, com seu ápice num texto
isolado no Novo Testamento, da qual elaboramos uma grande estrutura conhecida como
“missões”. Ao contrário, a obra missionária é uma pirâmide feita de cabeça para cima com sua
base estendendo-se de Gênesis 1 até Apocalipse 22. Toda a escritura forma, então, o alicerce
para um alcance do Evangelho ao mundo todo. A grande comissão entáo seria a maior
explicação desta obra e assim poderia ser considerada um ápice da revelação divina quanto a
esta obra para o lançamento da igreja nesta missão. Salientamos que a obra missionária não
parte de um texto bíblico só, senão da Bíblia toda.
Além disto, observemos que a dimensão da grande comissão é tão larga quanto toda a
humanidade, isto é, em toda área geográfica, toda classe da sociedade e toda cultura.
Finalmente, a responsabilidade está nos nossos ombros. “Vós sois testemunhas destas
coisas” inclue todos os cristãos. é nossa responsabilidade levar o Evangelho a todas as nações.
Se nós náo fizermos, deixamos até de ser a igreja, pois este envio para o mundo é da sua própria
essência.

92

MISSÕES
Uma Perspectiva Histórica
Dr. Antônio José do Nascimento

I. A EXPANSÃO NUMÉRICA E GEOGRÁFICA DO CRISTIANISMO DO Iº A0 Vº
SÉCULOS A. D.
1. A Expansão Numérica
O Cristianismo é verdadeiramente a única religião universal. Embora seu fundador
nascera numa estrebaria, vivera na obscuridade, e morrera crucificado numa remota província
do império romano, hoje, a Sua mensagem tem sido proclamada e difundida em toda a parte, e
o cristianismo se faz presente em todos os países do mundo em menor ou maior escala.
O livro de Atos começa com uma comunidade de 120 tímidos discípulos reunidos
secretamente no cenáculo em Jerusalém. O N. T. e mais especificamente o livro de Atos, dános uma projeção do movimento missionário da Igreja nos seus primórdios. Uma geração mais
tarde, quando se fecha a narrativa do livro, o evangelho tinha se espalhado através do império
ate Roma. O que era um tímido movimento no ano 30 A. D. estava agora em franca expansão
por toda parte, por volta do ano 60 A. D.
Durante os primeiros dias da missão Cristã "três mil novos discípulos" são
mencionados como sendo batizados num só dia (At. 2:41). Registra-se que "enquanto isso,
acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos" (At. 2:47); Depois, menciona-se
que o numero dos discípulos cresceu para "cinco mil" (At. 4:4); Faz-se alusão que, "creScia
mais e mais a multidão dos que criam" (At. 5:14); Menciona-se que "se multiplicava o numero
dos discípulos e muitíssimos sacerdotes obedeciam a fé" (At. 6:7).
Uma coisa é certa: O livro de Atos dos Apóstolos não nos conta a história completa. O
apóstolo Paulo nos informa que o "evangelho foi pregado a toda criatura debaixo do céu" (Col.
1:23); que a fé da Igreja de Roma "tem sido proclamada em todo o mundo" (Rom. 1:8); que "a
fé dos cristãos de Tessalônica para com Deus tem sido divulgada por toda parte" (I Tes. 1:8).
Durante o segundo século o Cristianismo continuou a crescer vigorosamente. Naquela
época, os cristãos eram especialmente numerosos em toda a região da Ásia Menor. Na segunda
década do segundo século, Plínio, governador da Bitínia queixou-se ao imperador romano,
dizendo-lhe que os templos pagãos estavam completamente vazios por causa da influencia da
nova superstição (a fé Crista) que invadiu toda a Bitínia (At. 16:7; I Ped. 1:1). Um pouco mais
tarde, Justino o Mártir escreveu: "Não há um povo, grego ou bárbaro, ou nenhuma outra raça . .
. entre os quais não se proclame a Jesus e não se faça orações ao Pai em seu Nome." Cerca do
ano 200 A. D. Tertuliano declarou que "pessoas de todas as raças, condição e status social estão
vindo para o Cristianismo."
No começo do século terceiro quando o império romano começou a desmoronar-se,
grande numero de pessoas vieram para o Cristianismo. Will Durant em sua obra Caesar and
Christ, declara: "No caos e terror do terceiro século os homens fugiam da fraqueza do estado
romano para consolar-se na religião, e a encontraram mais abundantemente no Cristianismo."214
No começo daquele século o Cristianismo era dominante na província da Frigia e através da
Ásia Menor, formando uma larga minoria da população. Os historiadores informam que no
214

Will Durant. Caesar and Christ (Grand Rapids, Michigan: Wm. Eerdmans, 1977), 650.

93
norte da África as conversões eram tão numerosas que se transformava em um verdadeiro
movimento de massa.
Antioquia, a mais antiga Igreja do oriente depois de Jerusalém, e um exemplo notável.
João Crisóstomo, no quarto século, disse que a Igreja de Antioquia, correspondia a dois tercos
de uma população de 500 mil pessoas. O bispo Stephen Neill informa-nos que em grande parte
do império romano a Igreja representava a metade da população no quarto século da era Cristâ.
Durante o período de paz, de 260 a 300, a Igreja teve a oportunidade de extender
largamente a sua influência por todo o império. Estas quatro décadas, justamente antes das
perseguições movidas pelo imperador Deocleciano, foi um tempo de um crescimento sem
prescedentes. O historiador Edward Gibbon, em sua obra The Triumph of Christendom in the
Roman Empire, informa-nos: "Convertidos entraram aos milhares no Cristianismo. Em quase
todas as cidades foram construídas Igrejas, as quais não cabiam as pessoas que afluiam, diante
do rápido crescimento e da multidão e prosélitos."215 Naturalmente, um dos sérios problemas é
que, em alguns casos, entravam no Cristianismo trazendo consigo o seu paganismo.
2 - A EXPANSÃO GEOGRÁFICA
O silêncio do NT com respeito a entrada do Evangelho no Egito é algo deveras
interessante. É difícil compreender que o Evangelho foi levado para o norte, de Jerusalém a
Antioquia, Ásia Menor e assim por diante, sem ir em direção ao sul aonde estava situada a
cidade de Alexandria, uma das maiores e mais importantes cidades do império romano. Pouco
ou quase nada se conhece acerca da chegada do Cristianismo ali, exceto o que diz a tradição
que descreve e atribui a João Marcos o trabalho de pioneirismo em Alexandria. Sabe-se que no
tempo do imperador Adriano, havia já uma forte igreja em Alexandria. Sabe-se também que por
volta do ano 180 A. D. havia uma ali uma escola teológica aonde ensinaram Clemente e
Orígenes, pais da Igreja. A oeste do Egito estava "Cirene" e é possível que os cirênios levaram
o evangelho para Alexandria (At. 2:10; 11:20).
Cartago, no norte da África, tornou-se um grande centro do Cristianismo. É possível
que eles tenham sido alcançados por cristãos de Roma ou de Éfeso que cruzaram o
Mediterrâneo para proclamarem a fé cristã. Próximo do fim do século III a Ásia Menor e o
Norte da África eram as províncias romanas com o maior numero de cristãos. Uma das
características interessantes da Igreja do norte da África e que ela possuia um grande número de
bispos e produziu larga literatura Cristã na língua latina. Agostinho (354 a 430) foi bispo de
Hipona, norte da África, e o maior teólogo da Igreja depois do apóstolo Paulo. Sua teologia tem
influenciado o Cristianismo nos últimos 1600 anos.
Durante o terceiro século da era cristã, o Cristianismo tornou-se um movimento de
massa no Ponto (Atos 2:8, 9; I Pe. 1:1), província romana, sob a liderança de Gregorio
Traumaturgo. É dito que ele se tornou bispo de seu povo nativo, e quando morreu deixou
somente 17 pessoas não cristãs.
A mensagem do evangelho viajou atingindo também a Mesopotâmia (At. 2:8, 9), entre
os rios Tigre e Eufrates. Uma importante cidade da Mesopotâmia chamada “Edessa,” tornou-se
um nota´vel centro missionário. No fim do século II o Cristianismo tornou-se a religião do
Estado. O Siríaco, a língua da Igreja ali, foi a primeira língua na qual o NT foi traduzido.
O evangelho entrou na Armênia através da Capadócia. Como resultado, um forte
movimento de massa surgiu sob a liderança de Gregório o iluminado, que eclodiu na conversão
do rei Tirídates da Armênia, tornando-se assim um reino cristão. O Cristianismo, ainda hoje, é
forte na Armênia. O NT foi traduzido para a língua armeniana por volta de 410 A. D.
215

Edward Gibbon. The Thriumph of Christendom in the Roman Empire (London, England: Allen and Unwin, 1981),
125.

94

Os godos foram os primeiros entre os povos do norte do Danúbio a adotarem o
Cristianismo em larga escala. A evangelização sistemática entre os Godos, deve-se, graças a
obra missionária de Úlfilas (311 a 380), cujo pai era um capadócio e sua mãe do povo godo.
Após passar 10 anos em Constantinopla aonde se tornara um cristão, Úlfilas voltou para o seu
povo "os godos" e os evangelizou. Seu trabalho mais importante foi a tradução da Bíblia para a
língua gótica. Para fazer isto ele teve que criar a linguagem escrita ainda ate então não existente
entre os godos. Ele foi o pioneiro entre os linguistas do mundo a criar a língua escrita com
vistas a disseminar o evangelho.
Quanto ao Francos, Scott Latourette, famoso historiador, em sua obra The First Five
Centuries of Christianity, estabelece que "a conversão dos Francos no século V foi um dos mais
importantes estágios da expansão do Cristianismo entre os povos não-romanos."216 Vários
Francos já tinham tido contato com a fé crista, contudo, o movimento de massa para o
Cristianismo entre os Francos, deu-se como consequência da conversão e batismo do Rei
Clóvis no dia de Natal em 496 A. D. Sua decisão pelo Cristianismo influenciou a milhares de
Francos a tomarem a mesma decisão de seu rei, embora não o haverem sido obrigados a isso.
A ultima área a ser evangelizada neste período foi a Irlanda, a área mais ocidental e
mais distante do mundo de então conhecido. O apóstolo e missionário que alcançou a Irlanda
foi Patrício, que, ao contrário da crença popular, ele não nasceu na Irlanda, mas na Bretanha
Romana cerca de 389 A. D. e tornou-se um dos maiores missionários de seu tempo. Patrício era
um cristão de profunda piedade e intenso zelo missionário. Sofrendo muitas perseguições,
ameaças e perigos de morte, e, sendo salvo milagrosamente muitas vezes, ele passou quatro
décadas evangelizando os povos da Irlanda.
Pelo fim do século V, o Cristianismo tinha alcançado todo o império Romano e vários
outros povos não-romanos como os Godos, os Francos e os moradores da Irlanda, variando em
sucesso e êxito missionário, indo do Norte da África até ao deserto Saara, da Índia até a
Espanha.
II. A CRISTIANIZACAO DA EUROPA: 500 A.D. ATE 1000 A. D.
1 - A IRLANDA: Durante este periodo da Idade Media a Irlanda comecou a destacar-se dos
demais paises da Europa no que tange ao Cristianismo. Do sexto ao oitavo século, a Irlanda
tornou-se o ponto mais avancado da fé Crista naquele continente. Livre das invasões dos
bárbaros, a igreja ali guardou a luz do saber brilhando sobre toda a Europa, atraindo educadores
e lideres cristãos de todo o continente. As grandes escolas monásticas da Irlanda e o zelo pelo
saber por parte dos cristãos irlandeses ajudaram em muito a cristianização da Europa.
“Os Celtas, mais conhecidos por irlandeses foram abençoadoramente notáveis na Idade
Média, resultado da evangelização da Irlanda por Patrício. Ele nasceu numa famílai cristã na
província romana da Bretanha, no ano 389 A.D. Ele chegou a Irlanda no ano 432 A.D.

Os objetivos da vida monástica eram: adoração, trabalho, ascetismo, estudo, obediência
e cooperativismo. Com o seu desenvolvimento, passou a ter objetivo missionário
também:

216

Kenneth Scott Latourette, The First Five Centuries of Christianity, 208.

95
A missióloga Ruth Tucker, em sua obra Até aos Confins da Terra, declara:
Os Celtas possuíam profunda paixão pelas missões estrangeiras, um entusiasmo impetuoso
dos crentes irlandeses, zelo esse incomum em seus dias. Ardendo de amor por Cristo, sem
temer qualquer perigo, pondo de lado toda dificuldade, eles iam a toda parte com o
evangelho. “Os monges missionários celtas realizaram uma forma mais pura de trabalho
missionário... do que o proveniente de Roma.217
Igualmente importante, o zelo missionário dos irlandeses foi uma outra importante
caracteristica da Igreja Cristã. Desde os tempos de Patrício, a igreja ali tornou-se
acentuadamente missionária. Durante os seculos VI e VII a igreja de Irlanda tornou-se a maior
força missionária do muindo cristão. Com um profundo conhecimento das Escrituras e uma
inegável experiência com Deus, os missionários irlandeses espalharam-se por toda a Europa
com a mensagem do Cristianismo. Com um santo entusiasmo eles se entregaram a
evangelização de outros povos. Os escoceses, os anglo-saxões e os frísios das regiões baixas
(hoje Holanda e Bélgica) foram povos que receberam muitos missionarios irlandeses. Patrício
foi o modelo de missionário para os cristãos da Irlanda. Não obstante as muitas perseguições,
ele agiu com profunda tenacidade no cumprimento de sua tarefa missionária.
O historiador Stephen Neill faz a seguinte assertiva sobre Patrício:
Patrício (389 - 474) pagou o mal com o bem e teve um ministério muito frutífero. Era filho
de um sacerdote celta, nascido na Inglaterra. Quando tinha 16 anos de idade foi raptado,
escravizado e levado para a Irlanda. Após 6 anos de escravidão escapou e voltou para sua
família por 10 anos, quando novamente é aprisionado e levado à França. Ao ser libertado
voltou ao seu país, mas logo desejou voltar à Irlanda para evangelizar os pagãos. Preparouse na França para seu retorno à Irlanda onde ficou conhecido como o apóstolo da
Irlanda218.
Os métodos missionários de Patrício eram semelhantes de certo modo aos de tantos
missionários antes e depois dele. Contudo, ao contrário de grande parte dos missionários
católicos da época, os missionários celtas davam grande ênfase á questão da espiritualidade. O
historiador Kenneth Scoth Latourette, informa-nos que “os convertidos recebiam instruções
intensas sobre as Escrituras e eram encorajados a envolver-se no ministério da missão e
evangelização de seu povo. As mulheres desempenhavam um papel imjportante as Igrejas
Celtas, embora Patrício tivesse cuidado em seu relacionamento com elas, na sua condição de
solteiro.”219
Segundo as palavras der Ekstrom, “estima-se que ele tenha fundado cerca de 200
igrejas com mais de 100.000 convertidos.220 A evangelização da Irlanda por Patrício e outros
companheiros seus, resultou em um dos emprendimentos missionários mais esplêndisos da
Idade Média. Trava-se de uma expansão missionária séria e responsável, levada a efeito por
homens que estavam prontos a sofer o martírio para o cumprimento de sua missão.
F.F. Bruce belamente registra a confissão de Patrício antes de sua morte:
Oro para que os que crêem e temem a Deus, quem quer que se tenha dignado a examinar e
aceitar as Escrituras, que tenha sido preparado por Patrício, o pecador, homem inculto como
se sabe, para que ninguém jamais diga que foi minha ignorância que realizou qualquer coisa

217

Ruth Tucker. Tucker Até aos Confins da Terra. (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1999), 41.
Stephen Niell, História das Missões Cristãs. (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1997). 58.
219
Kenneth Scoth Latourette, The First Five Centuries of Christianity, 219.
220
Bertil ~Ekstrom. História de Missões. (Campinas, SP: CEMIBI, 1993) 16.
218

96
que fiz ou mostrei conforme a vontade de Deus; mas, julguem e seja verdadeiramente crido,
que foi dom de Deus. E esta é a minha confissão antes que morra.221
A origem do Cristianismo na Britânia é um tanto obscuro. Nós
2 - A Britânia (Inglaterra):
não sabemos exatamente como o evangelho foi introduzido naquela região. Que as Igrejas
Cristãs já existiam ali desde o século III é completamente plausivel. A primeira autêntica
informação relata a presença de três bispos de Londres, York e Lincoln no Concilio de Arles no
sul da França em 314 depois de Cristo. Quando os Anglo-Saxões invadiram a Britânia no
quinto século, muitos dos primeiros cristãos foram perseguidos e mortos, deixando um pequeno
remanescente deles isolados e inacessiveis a outros povos do continente. Foi a Irlanda, que
muito antes havia sido cristianizada pelos cristãos da Britânia, e que agora envia para a Escocia
e Britânia seu primeiro grande missionário chamado “Colombo.” Ele nasceu no ano 521 da era
Cristã, de uma nobre família irlandesa e possuia vasto conhecimento. Colombo fundou muitas
Igrejas e monastérios em seu país natal. Descrito por seus biógrafos como de “aparencia
angelical, gracioso na fala, santo no viver, com talentos da mais alta ordem e prudência
consumada,” ele saiu da Irlanda para a Escócia com doze companheiros para ser o maior
missionario daquele periodo. Em Iona na Escócia, ele fundou um monastério que tornou-se um
dos mais famosos centros de atividade missionária de todos os tempos. Segundo Raymond
Edman em sua obra The Light in Dark Ages, Os membros do monastério foram divididos em
três categorias:222
1) Os que se devotavam as atividades puramente espirituais e a cópia das
Escrituras;
2) Os que se devotavam ao trabalho manual;
3) Os que se devotavam a aprender e a estar sob instrução, por serem neófitos.
Colombo e seus companheiros viajaram extensivamente por toda a Escócia e Britânia
ensinando os novos convertidos, construindo igrejas e estabelecendo monastérios, todos sob o
controle central de Iona. Como um cristão de profundo zelo e piedade, Colombo deixou marcas
indeléveis na vida dos povos por ele alcançados e cristianizados. Ele morreu no ano 596 A.D.,
mas o monastério de Iona continuou por mais duzentos anos a enviar missionários para todas as
partes da Britânia e Escócia.
A Missióloga e historiadora Ruth Tucker, em sua obra Até aos Confins da Terra,
comenta:
Colombo (521 - 597) foi um dos mais famosos missionários celtas. Nasceu na Irlanda e
fundou um centro celta no litoral da Escócia, no qual fez sua base de trabalho. Na primeira
fase de sua vida, foi uma pessoa contraditória. Ele era tanto um lutador quanto um santo,
homem de proporções avantajadas e voz poderosa; seu gênio violento provocou muitas
brigas e finalmente o levou a uma guerra com o rei da Irlanda.223
Após essa drástica experiência, Colombo mudou radicalmente, decidido a converter
tantas almas quantas as que caíram nesta peleja (5.000 mortos). Foi um multiplicador. Buscava
alto grau de piedade na vida monástica praticada em seu mosteiro. Ele preparava os
evangelistas que eram enviados à Escócia para pregarem o evangelho, construírem igrejas e
estabelecerem novos mosteiros. Os frutos do seu trabalho se espalharam por todo o país e em
outros países da velha Europa.

221

F. F. Bruce. The Spreading Flame: The Rise and Progress of Christianity First Beginnings to the Conversion of
the English (Grand Rapids, Michigan: Erdmans, 1979), 381.
222
Raymond Edman. The Light in Dark Ages (Wheaton, Illinois: Van Kampen Press, 1949), 150.
223
Ruth Tucker Até aos Confins da Terra (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1996),. 42.

97
Aida, um dos mais ilustres sucessores de Colombo na cristianização daqueles povos,
estabeleceu um monastério em Lindsfarne, na costa ocidental da Inglaterra, e por 17 anos, ele e
um grupo de monges, evangelizaram tenazmente os Anglos-Saxões com grande efeito.
Ao mesmo tempo, uma segunda invasão Cristã da Inglaterra teve lugar. No ano em que
o grande missionario Colombo morreu (596 A.D.), o papa Gregorio o Grande, enviou
Agostinho com quarenta monges beneditinos para a Inglaterra. Enqujanto Agostinho e seu
contingente de monges evangelizavam a Bretanha e batizavam milhares de pessoas, eles
enfrentaram problemas complicados relativos às tradições pagãs. As cerimônias pagãs
poderiam coexistir com a Crsitianismo católico e o que deveria ser feito com os templos os
templos pagãos? Foi em resposta a essas questões que o papa Gregório estabeleceu certas
regras de condutas para os missionários católico-romanos e insistiu em um padrão que foi
seguiio durante séculos. Stephen Neill informa-nos:
Os templos pagãos desse povos não precisam ser destruídos, apenas os ídolos neles
encontrados. Se os templos forem bem construídos, será interessante desliga-los do serviço
do diabo e adapta-los para o serviço de Deus. Como o povo está acostumado, quando se
reúnem para o sacrifício, a matar muitos animais para oferta-los aos demônios, parece
razoávelmarcar uma festa popular para substituir essa celebração. O povo precisda aprender
a matar o gado em honra a Deus e para o seu alimento em lugar de homenagear ao diabo. Se
lhes concedermos essas alegrias exteriores, terão maior possibilidade de descobrirem a
verdadeira alegria interior. É sem dúvida, impossível cortar todos os abusos de uma só vez
desses corações embrutecidos, da mesma forma que o homem que se decide a subir uma
montanha não avança aos saltos, mas passo a passo, com regularidade.224
Conhecendo a selvageria dos Anglo-saxões, Agostinho foi com seus companheiros, mas logo
retornou para a Gália, contudo o papa ordenou que retornassem para a Inglaterra, e agora,
reduzidos a um grupo de sete monges, eles retornam e são bem recebidos pelo rei Etelberto,
que já possuia algum conhecimento do evangelho através de sua esposa francesa, chamada
Bertha, que era uma cristã. Ethelberto concedeu liberdade para pregar a nova religião e
providenciou comida e morada para os monges em Canterbury. Dentro de um ano, em reposta a
persuasao de sua esposa, Ethelberto tornou-se um cristão. Pouco tempo depois, o seu
parlamento adotou a sua fé e dez mil pessoas foram batizadas em um só dia. Por um tempo, as
formas de cristianismo do povo da Britãnia e de Roma estavam em conflito. Contudo, sob a
liderança de Wilfrid, bispo de York (634-709), a forma romana prevaleceu. Theodoro de Tarso
organizou a Inglaterra numa provincia eclesiástica regular de Roma, com a autoridade do
arcebispo de Canterbury (Cantuária) sobre toda a Britânia.
3 - A GALIA: Desde o início, as missões católicas se ligaram intimamente às explorações
políticas, sendo as conversões em massa o fator principal no crescimento da Igreja. Foi esse o
caso do rei Clóvis, rei dos Francos, no quinto século. Ele casou-se com um princesa cristã, mas
recusou deixar suas divindades pagãs,a te estar prestes a sofrer uma grande derrota. Nesse
momento, afirma-se que fez Nesse momento, afirma-se que fez um voto de que serviria a Deus
caso seu exército fosse vitorioso. No dia de natal de 496, ele comemorou a vitória recebendo o
batismo cristão. A razão de sua conversão, conforme informa-nos Norman Cantor em sua obra
Medieval History: The Life and Death of a Civilization, foi a seguinte: “O rei Clóvis viu que se
aceitasse a religião Cristã Católica, ele seria o único rei cristão na Gália, e como paladino desta
fé, ele teria maior possibilidade de ganhar a lealdade dos galo-romanos à medida que
prosseguisse nas suas conquistas.”225 A conversão em massa do rei Clóvis foi a primeira dentre
224

Stephen Neill. History of the Christian Missions (New York, USA: Penguin, 1964), 68-69.
Norman F. Cantor. Medieval History: The Life and Death of a Civilization (Londres, England: McMilan,, 1969),
130.
225

98
muitas durante a Idade Média, sendo este um dos métodos que converteu a Europa Medieval. O
conceito de conversão individual com ênfase no novo nascimento foi o métodlo utilizado pelas
missões Protestantes , com especial ênfase na transformação individual do coração.
Assim, a cristianização da Gália ficou tolhida e impedida de tornar-se realidade até o
século sexto. Aquela região foi evangelizada e cristianizada por Columbano, que junto com os
seus companheiros, ele com a idade de quarenta anos, entraram na Gália. Após vinte anos de
árduo trabalho, semelhante a João batista, ele caiu na ira da corte ao denunciar a imoralidade da
alta sociedade da Gália. Expelido dali, Columbano e seus monges celtas, cruzaram o rio Reno e
pregaram o evangelho para os antigos habitantes da atual Suiça. Ele promoveu uma verdadeira
guerra contra o paganismo, queimando imagens e templo pagãos, e, ao mesmo, promovendo a
fé cristã, ensinando os conversos e construindo monastérios. É dito que Columbano estava
sempre “aprendendo, ensinando, vagando, e pregando.”
4 - A FRÍSIA (HOLANDA E BÉLGICA): O primeiro contacto das missões cristãs com as
terras baixas, conhecidas como Frísia, aconteceu quando o bispo Wilfrid parou naquela região,
numa de suas viagens para Roma. Ele pregou o cristianismo com grande poder e batizou muitos
dos líderes frísios e milhares do povo.
Em 692 (A.D.) o missionário Willibrord, que tinha sido treinado por Wilfrid, cruzou o
mar do norte juntamente com onze companheiros para se tornar o primeiro missionário entre os
Frísios. Ele trabalhou durante quarenta anos através da Frísia e, mesmo suportando muitas
vississitudes, ele fundou monastérios em Utrecht (Na atual Holanda) e Antwerp (Antuérpia, na
atual Bélgica). Apesar das perseguições e procelas, as missões Cristãs foram bem sucedidas e
uma igreja forte foi estabelecida entre os Frísios.
5 - A ALEMANHA: O Cristianismo veio para a Alemanha através dos monges Irlandeses e
Ingleses. Reconhecido por muitos como o maior de todos os missionários da Idade Media,
Bonifácio (680-754), um nobre Inglês e monge beneditino, foi para a Alemanha na metade da
vida. Sua brilhante carreira missionária por quarenta anos na Alemanha, concedeu-lhe o título
de apóstolo da Alemanaha. Em 722 (A. D.), ele foi consagrado pelo papa Gregorio II como
bispo da Alemanha.
Sendo um brilhante missionario de grande piedade, vasto conhecimento e ardor
evangelístico, Bonifacio lançou os fundamentos da Igreja na Alemanha. Grandes monastérios
foram estabelecidos em Reicenau (724), Fulda (744) e Lorsch (763). Em 741 (A. D.) Bonifácio
foi nomeado Arcebispo de Mainz e dez anos mais tarde (751) ele presidiu a coroação de Pepino
quando este se tornou rei dos Francos.
Em seus últimos dias, o espirito de pioneirismo estava ainda nele. Deixando a
Alemanha, ele foi para uma região da Holanda onde os Frísios ainda não tinham sido
alcançados. Pregando ainda com grande poder ele ganhou muitos frísios para a fé Cristã. Como
sucedeu muitas vezes antes, os pagãos promoveram a violéncia e em 05 de Junho de 755 (A.
D.), Bonifácio e cinquenta de seus companheiros monges foram mortos.
.
III.
A EXPANSÃO MISSIONARIA DO CRISTIANISMO NA SAXÔNIA E NOS
PAÍSES ESCANDINAVOS
1 - Os Saxões: A conversão dos Saxões conincidiu com o reino de Carlos Magno (771-814). Os
méritos deste acontecimento foi mais por uma conquista militar do que por uma persuasão
moral ou religiosa. A profana aliança entre a igreja e o estado, a qual culminou no ano 800
(A.D.) na formação do Santo Império Romano, capacitou a Igreja para empregar meios carnais
visando alcançar fins espirituais. Esta é uma das liçoes mais tristes na história da igreja no
periodo das trevas (Idade Média).

99
Carlos Magno, o primeiro governante do assim chamado "Santo Imperio Romano", o
qual durou por mil anos, foi um dos grandes imperadores da história. Ele misturou a religiao
cristã com a política, e ofereceu as tribos bárbaras as quais ele subjugou, o conforto do
Cristianismo bem como os benefícios da civilização. Uma vez que uma tribo ou povo era
conquistado, estava incluso no tratado de rendição e termos de paz, a aceitação do cristianismo
por parte do povo vencido. Os bárbaros não desejavam nem o Cristianismo nem a civilização.
Ambos foram impostos pela força aos povos derrotados e muitas atrocidades foram cometidas
neste processo. Vilas foram queimadas, as plantações destruidas, e comunidades ceifadas, tudo
no propósito de impor o cristianismo sobre os povos bárbaros ou pagãos. Quase
frequentemente, os missionarios foram alvos de ataques e muitos morreram. Gradualmente,
com dores e orações, os missioanrios fizeram o seu caminho e o evangelho prevaleceu. Quando
o imperador Alexandre Magno morreu, a cristianização dos Saxões estava completada.
2 – ESCANDINÁVIA: Os Vinkings da Escandinávia aterrorizaram a Inglaterra e o continente
Europeu durante o nono século. Tão devastador foram suas investidas contra os monastérios e
igrejas que, por um tempo, eles quase que exterminaram por completo, todo o esforço do
Cristianismo naquela região. As coisas começaram a mudar quando Alfredo o grande ganhou
uma decisiva batalha contra os Vikings em 878 e forçou trinta de seus líderes a aceitar o
cristianismo.
Após este tempo, intrépidos missionários começaram a invadir a Dinamarca, Noruega e
Suécia com a mensagem Cristã, contudo, alcançando pouco êxito. Os escandinávios preferiam
seu estilo de vida, incluindo seus deuses pagãos.
O Imperador Luis o piedoso, teve um ativo interesse em espalhar a religinao cristã na
Escandinávia. Em 823 (A.D.) ele enviou Ebo, arcebispo de Rheims na Alemanha, para a
Dinamarca. Mais tarde, após a conversão do rei Haroldo da Dinamarca, o imperador Luis
(Louis) enviou uma segunda missao Cristã, agora sob a liderança de Anskar (801-865), um
monge francês treinado no monasteriod e Corbie, fundado por Colombo, missionário Irlandês.
Anskar também realizou serviço missionário na Suécia aonde permaneceu por dezoito anos e
conduziu muitos aoi conhecimento de Cristo. Ele também construiu a primeira igreja Cristã na
Suécia.
Quando ele retornou para a Alemanha, o imperador Luis arranjou com o papa Gregório
IV, a concessão religiosa e direção espiritual de toda a Suécia, os povos da Dinamarca e os
eslavos do norte da Europa. Neste tempo, cerca de 832 (A.D.) Anskar foi consagrado Arcebispo
de Hamburgo na Alemanha. Prontamente, ele começou a treinar missionários e a enviá-los
como missionários para a Escandinávia. Com muita habilidade e tato Anskar ganhiou a
confiança do rei Horic da Dinamarca, o qual deu permissão para construir Igrejas em seu país.
Como temos visto, a Dinamarca foi o primeiro país da Escandinavia a ser contactado
pelos missionários Cristãos. Rimbert, um discipulo de Anskar, executou a missão Cristã na
Suécia e Dinamarca; mas a inabiblidade em comunicar-se efetivamente com aqueles povos e a
fraqueza da Igreja faziam também a missão extremamente dificil. No começo do décimo
século, o rei Gorm da Dinamarca, opôs-se tenazmente ao Cristianismo, destruindo as Igrejas e
conduzindo à morte muitos missionários.
A mudança veio quando o imperador Henrique da Alemanha subjugou em 934, os
povos da Dinamarca e compeliu os seus líderes a abraçar o cristianismo. A situacão da Igreja na
Dinamarca variava de reino a reino. Sob o rei Harold sucessor de Gorm, o Cristianismo
floresceu; sob o reino de seu filho, o Cristianismo esvaiu-se. Enfim, o cristianismo estabeleceuse e fincou raizes na Dinamarca sob o reinado de Canute, um rei cristão da Inglaterra e
Dinamarca entre 1018 a 1035. Neste periodo igrejas e monasterios foram construidos por toda a
parte. A fase missionária da Dinamarca veio a concretizar-se completamente com o
estabelecimento de uma arqui-bispazia em 1104.

100
3 – NORUEGA: O evangelho foi para a Noruega através da Inglaterra. A introdução da fé
Cristã ali foi acompanhada pela violência. Os agentes do cristianismo não foram os
missionários e sim os reis. O rei Haakon tornou-se um cristão e reuniu esforços para cristianizar
a Noruega. Encontrando muita oposição por parte do povo e de muitos líderes, precipitou-se
uma rebelião vindo o rei a morrer em 961 sem conseguir alcançar os seus intentos. O
Cristinismo fincou raizes na Noruega durante o reino de Olaf Tryggvason (963-1000).
Semelhante ao seu antecessor, ele havia morado algum tempo na Inglaterra aonde tornara-se
cristão. A diferença é que Olaff foi bem sucedido aonde Haakon falhou. Ele muito fez pela
evangelização de seu povo, tendo grande parte do mérito na historia da cristianização da
Noruega.
4 - A CRISTIANIZAÇÃO DOS POVOS EUROPEUS
Quando nós nos movemos para esta parte do mundo, permanece-se o fato de que o
Cristianismo por muitos séculos tinha estado fluindo de duas fontes: Uma emanava de Roma e
a outra de Constantinopla (antiga Bizâncio). Desde os tempos de Maomé (570-632 A.D.) até a
queda de Constantinopla (1453A.D.) o grande imperio Bizantino foi a grande muralha contra os
avanços do Islamismo no leste europeu. Mesmo nos piores dias daquele periodo,
Constantinopla foi a mais importante e também a mais civilizada cidade do mundo cristão. O
Império Bizantino durou onze séculos e vai desde a fundação de Constantinopla, por
Constantino, como cidade Cristã , até a sua queda nas mãos dos Turcos em 1543.
Contantinopla sofrera muitas vicissitudes. Desde o inicio do século VIII, o império
começara a sentir-se seriamente ameaçado pelos muculmanos. Ao mesmo tempo, a sua unidade
interna via-se abalada pelas amargas tensões da luta iconoclástica. Pode a Igreja usar pinturas e
imagens na sua vida e oração? Os espiritos tradicionalistas respondiam: Sim. Um grupo mais
puritano, chefiado pelo imperador Leão III (675-740), respondia: Nao. É possivel ver-se aqui a
influência no espirito do Imperador, do puritanismo do Islamismo, com o qual manteve
contacto nos seus primeiros dias, na fronteira oriental. Durante mais de um século (725-843) a
Igreja e o Estado foram abalados por esta disputa e os recursos que deveriam ter sido
empregados na defesa do mundo cristão e na propagacão da fé estavam sendo gastos em
perseguições mútuas.
Mas Constantinopla possuia poderes estraordinários de recuperação. Os séculos IX e X,
em que o Ocidente atingiu o seu mais baixo nível de imundo barbarismo, representaram para
Constantinopla um periodo de renascentismo militar, político, cultural e, numa certa medida,
religioso.
Em 863, a Universidade de Constantinopla foi restaurada. Houve uma redescoberta dos
antigos clássicos gregos, tal como se verificou no renascentismo do Ocidente. A partir desse
periodo Constantinopla foi o centro de uma cultura literária vigorosa, e mesmo nos dias piores
da Idade Medieval, ela ainda resplandecia como a mais civilizada cidade do mundo cristão. O
seu povo era aberto e inteligente, e apaixonado pelas discussões teológicas. Contudo, a Igreja
ali tornara-se tão subserviente em relação ao estado, na pessoa do principe cristão, divinamente
nomeado, que perdera grande parte da sua independência. Mas era ainda a representente de uma
grande tradição cristã.
Do ponto de vista missionário, pouco se fez nos consturbados séculos VIII e IX. Leão
III, desejando a unidade do seu império, procurou converter os Judeus pela força, o que com
dificuldade poderia considerar-se como uma “ação missionária". No entanto, com o
revigoramento verificado noutras direções, assistiu-se também a um renovar do esforço
missionário.
5 - A ESLÁVIA:
No século IX, o interesse concentrou-se nos povos eslavos cujo
poderio crescia cada vez mais, a norte e a ocidente. Tornar-se-iam cristãos? E se assim

101
sucedesse, sob que Igreja?
A primeira grande missão aos Eslavos associa-se com os
nomes de dois irmãos, Constantino (mais tarde Cirilo, 826-69) e Metódio(815-65). Estes dois
irmãos foram enviados para a Eslávia a convite de Ratislav, o principe da Eslávia pelo patriarca
de Constantinopla. Ratislav considerou prudente virar-se para o Oriente e pedir missionários ao
imperador oriental. O imperador escolheu Constantino e Metódio, descendentes de uma familia
nobre de Tessalônica. Cada um deles possuia educação teológica esmerada e grande paixão
missionária. Eles também eram familiarizados com a lingua eslava. Eles decidiram que
deveriam sempre pregar o Cristianismo ao povo na lingua eslava e não no grego. A língua
cúltica seria a língua do povo alcançado e não latim.
O passo seguinte consistiu em criar um alfabeto em que se pudessem escrever as
linguas eslavas. Constantino produziu o alfabeto que até hoje é a base de quse todas as linguas
eslavas no leste europeu. Os dois irmãos dedicaram-se a tradução e produção da liturgia eslava.
Roma insistia sempre em que o latim era a única língua litúrgica do Ocidente. As linguas dos
bárbaros incultos eram consideradas indígnas para serem utilizadas na liturgia cristã.
Para a Igreja do Ocidente (de Roma), o latim possuia todo o prestígio da antiguidade e
do poder civilizador. A vantagem desse método consistiu na criação duma certa unidade do
mundo ocidental, em que o latim foi a língua comum, até ao fim do século XVIII pelo menos
entre os eruditos e cultos, e uma grande força unificadora. A debilidade consistia em que os
cristãos compreendiam pouco do que se passava na celebração liturgica.
A atitude da Igreja de Constantinopla era intereiramente diferente. Os cristãos
ortodoxos estavam familiarizados com os armênios e com os sirios, que tinham um alfabeto
diferente e as suas próprias tradições litúrgicas. O desejo de centralização eclesiástica tão
peculiar no Ocidente, nao afetava a Bizâncio (Constantinopla), que encorajava a Igreja do
oriente no sentido de serem edificados na cultura nacional de cada povo, na base da prória
língua.
A questão dos limites entre os mundos oriental e ocidental não podia deixar de produzir
atritos intermináveis. Tinham Constantino e Metódio algum o direito de evangelizar as regiões
habitadas pelos povos eslavos? Eles decidiram ir a Roma para falar com o papa Nicolau I,
contudo este veio a morrer no dia 13 de Novembro de 867, e eles não puderam encontrá-lo. A
ortodoxia e a santidade dos dois irmãos eram geralmente reconhecidas. O trabalho na Eslávia
foi aprovado pela liderança da Igreja oriental. Permitia-se o emprego de liturgia na língua
eslava.
Constantino morreu a 4 de Fevereiro de 869, mas o papa fez reviver a antiga sede de
Esmirna e nomeou Metódio seu arcebispo e seu legado especial para os povos eslavos. O
principe Ratislav da Eslávia estendeu os seus limites geográficos para a Galícia, Silésia e
Saxônia, e aonde que o soberano ia, Metódio o seguia cristianizando aqueles povos e fundando
Igrejas. Contudo, após a sua morte, a situação politica e religiosa sofreu uma profunda reversão
e o eslavo voltou a ser proibido na adoração e na celebração litúrgica. Constantino e Metódio
foram admiráveis pela sua visão, resistência e trabalho, mais do que pela duração de suas vidas.
Contudo, da obras de ambos e da semente por eles lançada, Deus fez surgir uma grande árvore.
Seus discípulos foram perseguidos na Eslávia e espalharam-se pelas regiões da Bulgária e
outras partes da Europa oriental. Constantino e Metodio, podem ser considerados os primeiros
missiólogos da contextualização na Idade Média entre os povos eslavos.
III. - "A CRISTIANIZAÇÃO DO LESTE EUROPEU"
1 - A RUSSIA: A vasta área hoje denominada "Rússia" fora durante séculos a pátria de muitas
tribos de várias origens raciais, sem unidade entre si e sem uma cultura própria. A criação da
nação russa foi obra dos comerciantes escandinavos, em busca de riquezas. Os escandinavos

102
haviam descoberto duas novas vias comerciais: uma para sudeste, ao longo do rio Volga para o
mar Cáspio e para Bagdá, a outra ao longo do rio Dnipre, para o mar negro. O patriarca Photius
de Constantinopla enviara uma missão e um bispo a Kiev, cidade russa; mas esta cidade foi
subjugada pelo príncipe de Novgorod, ainda pagão, e esta primeira tentativa de cristianizar o
povo russo resultou em nada. A russia teria de aguardar outro século, antes de verificar-se a
fundação da sua Igreja.
O grande passo em frente foi dado pela princesa Olga que, após a morte do marido
Igor, governou Kiev, de 945 a 964 A.D. Ela é enaltecida na historia russa por sua justiça e
equidade. Em 975, a princesa Olga decidiu ir a Constantinopla e receber o batismo cristão das
mãos do patriarca. O batismo foi celebrado numa cena de prodigioso esplendor. É
caracteristico da confusão daqueles tempos que Olga, desejando fortalecer o seu poder, tenha
enviado uma embaixada ao imperador ocidentental Otto, pedindo-lhe que lhe enviasse um
bispo. Otto respondeu àsperamente; mas antes da embaixada voltar a Kiev, a situação mudara
por completo. O filho de Olga, Sviatoslav, arrebatara o poder de sua mãe e lançara-se de corpo
e alma numa reação anti-cristã.
Houve um momento em que se pensou que Sviatoslav e toda a sua corte iriam se
converter ao Islamismo. Ele havia conquistado uma raça de turcos do Volga que aceitavam o
Islã e, enquanto permanecera com eles, sentira-se muito atraido pelo seu modo de vida. Se a
Russia se convertesse ao Islamismo, toda a história ocidental teria sido notàvelmente diferente.
A diplomacia bizantina deu-se conta da situação e o perigo muçulmano na Rússia não voltou a
erguer a cabeça.
Foi sob Vladmiro (980-1015), filho de Sviatoslov, que a Rússia se tornou profunda e
permanentemente cristã. A historia cristã conta que Vladmiro enviou mensageiros aos povos
vizinhos (subjugados ou não) para investigar as religiões por eles professadas, com o propósito
de adotar para os seus súditos, aquela que provasse ser a mais sublime. O Islã não atraiu os
mensageiros. Viraram-se para os Khazars, único exemplo de um povo que, na era cristã, aceitou
em grande escala a fé judaica, e não encontraram o judaismo adaptado aos russos. As
cerimônias da Igreja ocidental, como se praticavam na Alemanha não lhes agradara. Mas
quando chegaram a Constantinopla, encontraram o que procuravam.
Muita gratidão se deve aos missionários que a partir do ano 1000 difundiram a cultura
cristã na Russia. Todos os bispos, e a maior parte do clero, eram gregos, embora muitos destes
fossem da Criméia, antiga civilização grega que não se encontrava muito longe da Rússia. A
obra cristã espalhou-se para lá de Kiev: para o norte, para Novgorod, para o nordeste, para a
região de Moscou que seria mais tarde o centro da vida russa. Esta cultura era inteiramente
bizantina, embora dotada da flexibilidade tão caracteristica de Bizâncio, que tornou possivel
que uma importação estrangeira viesse a ser considerada como nativa e ganhasse gradualmente
as qualidades da região para a qual fora transplantada.
Assinalamos aqui o choque de interesse entre o Ocidente e o Oriente, cada um deles
tentando aumentar o seu campo de influência entre as nações. A linha divisória entre o que
chamamos hoje de católicos romanos e Cristãos Ortodoxos veio a ser marcada no próprio
coração da Europa.
Lugar após lugar, o processo é mais ou menos o mesmo. O primeiro bispo enviado é
martirizado pelas tribos selvagens; o seu sangue forma então adequadamente a semente da
Igreja. Os êxitos iniciais são seguidos de uma reação pagã; mas a Igreja revigora-se sob a égide
de um governante convertido ao Cristianismo, com quem um ou vários bispos importantes
podem trabalhar em harmonia. A primeira cristianização é evidentemente muito débil e
superficial, e em geral seguida de um longo periodo de construção, em que a fé se torna parte
da herança daquele povo. As alianças políticas, frequentemente cimentadas por casamentos,
formam uma grande parte do quadro. E, nos casos dos reis Clóvis e de Etelberto, a influência
das rainhas cristãs desempenharam um papel importante na sua conversão.

103

2 - Boêmia (Atual Tchecoslováquia): O Cristianismo entrou pela primeira vez na Boêmia
através da Eslávia. No fim do século IX a Boêmia estabeleceu laços firmes com o Ocidente e
com o que é hoje a Alemanha. Vratislav, que governou a Boêmia durante o fim do século, era
nominalmente cristão, mas a sua morte foi seguida de uma reação pagã. E somente sob seu
filho, o piedoso Václav (o bom Rei Venceslau dos contos de natal), educado desde a infância
como cristão, começou a fé a progredir. Mas, em 929, numa ocasião em que Václav se dirigia à
Igreja, foi assassinado por seu próprio irmão Boleslav. Boleslav sucedeu ao irmão assassinado,
sem qualquer protesto da parte dos tchecos, e seguiu-se um periodo hostil ao Cristianismo. A
evangelização do país só sae completou no tempo de seu sucessor, seu filho homômino, que
reinou de 967 a 999. Boleslav II construiu muitas igrejas e mosteiros nos seus dominios.
Boleslav II desejava possuir uma organização eclesiástica independente, isto é, no
sentido de que o bispo dependesse apenas da vontade do príncipe. Contudo, ele não conseguiu
o seu intento. Quando o bispado foi criado em 975, dependia do arcebispo de Mainz na
Alemanha.
3 - A Polônia: A historia Cristã começa com o duque Mieszka, que em 963 D.C. fora
obrigado a reconhecer a soberania do imperador Otto I. Mieszka casou-se com uma senhora
cristã, Dobrawa, irmã de Boleslav II da Boêmia. Foi provavelmente sob a sua influência que em
967 concordou em ser batizado. A este acontecimento seguiu-se a criação de uma ordem
episcopal na Polônia, em Poznam. Sob o filho de Mieszka, chamado de Boleslav - Chrobry, o
bravo, que governou de 992 a 1025, a Polônia realizou grandes progressos, tanto no ponto de
vista do poder político, como da estabilidade religiosa. Boleslav aumentou grandemente os seus
dominios e fêz da Polônia o maior reino da Europa Oriental. Em 1024, ele recebeu do papa o
título de rei e uma coroa real. Boleslav transformou a cidade de Gnesen, aonde Adalberto
(bispo de Praga em 983), santo Polonês, fora sepultado, no centro eclesiástico do reino; o irmão
de Adalberto foi feito arcebispo em seu lugar. Após a morte de Boleslav, tudo, durante um
certo periodo, caiu na apatia, e só um século depois é que o Cristianismo acabou se
completando na Polônia.
4 - A Bulgária: A conversão dos búlgaros ao Cristianismo foi grandemente acelerada pela
conversão e batismo do rei Boris em 865. Logo após a sua recepção a religião cristâ, ele
estabeleceu um monastério, o qual tornou-se o centrro de irradiação da cultura eslava. O Rei
Bóris enviu a Constantinopla o seu filho herdeiro para ser educado como um monge. Mais
tarde, ele enviou o famoso missionário "Clemente" para a Macedônia, onde ele fundou um
centro de treinamento missionário. Pelo tempo da morte do Rei Bóris (907 A. D.) os Búlgaros
tinham se tornado os líderes Cristãos do mundo eslavo. O Rei Simeão, filho do Rei Bóris, fez
história quando persuadiu seus bispos para declarar a Igreja Búlgara uma igreja independente
de controle externo, e que se elegesse um patriarca para a Bulgaria. Da Bulgária a fé Cristã se
espalhou para o que foi chamado mais tarde de "Iugoslavia".
5 - A Hungria: Um povo de origem mongol, cuja língua e cultura os assemelham aos
finlandeses ou aos turcos, começaram a surgir na Europa, no fim do século IX. Era um povo
destrutivo e sem lei, cujos ataques, acompanhados pelos assassinatos de sacerdotes e a
profanação de igrejas os tornaram temidos. Em 955 D.C. sofreram uma derrota esmagadora, às
mãos do imperador Otto I, nas vizinhanças de Augsburgo. Isto marcou o limite da sua expansão
ocidental, trazendo-os também para a esfera de influência dos poderes cristãos e ocidentais.
Em 973 D.C., Geisa, príncipe da Hungria, casou-se com uma princesa cristã, Adelaide
da Polônia. Dois anos mais tarde, ele foi batizado, juntamente com o seu filho Vajk, que
recebeu o nome de Estevão. A partir de então, Geisa dedicou-se a cristianização de seu país.
Quando a persuasão não era eficaz, recorria a outros métodos, menos agradáveis. As
conversões multiplicaram-se em toda a nação..

104
Foi durante o reinado de Estevão (975-1038) que a Hungria se tornou realmente um
país cristão. Estevão, que em 1001 recebera do papa o título de rei e uma coroa real, mostrou-se
um príncipe cristão ideal. Devoto à fé cristã e sábio em suas decisões, ele mostrou ao povo o
caminho da religião cristã e indicou que deviam seguir a Deus de forma vigorosa.
Estabeleceu-se uma hierarquia, com dois arcebispos e oito bispos, tendo como o centro
eclesiástico a cidade de Esztergom. Sob as novas leis cristãs, os bispos e os abades dos
mosteiros beneditinos receberam um estatuto privilegiado entre a aristocracia, sendo também os
bispos juízes em certos casos legais. Após a morte o rei Estevão, desencadeou-se uma reação
pagã na Hungria contra os Cristãos. O Cristianismo sobreviveu às varias ameaças que afetaram
a sua existência e, no fim do século XI, encontrara uma aceitação geral, como a religião
nacional do povo húngaro.

6 - A China:
Os êxitos dos muçulmanos haviam cortado o mundo em dois. Tendo-se
apoderado do mar, tornaram o Mediterrâneo perigoso para a navegação cristã. E nas águas
indianas eram o poder dominante. Este estado de coisas permaneceu inalterável até o fim do
século XV, quando ∫artolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, contornando por trás as
potencias muçulmanas. Por terra, a maior parte das vias encontravam-se nas suas mãos, embora
algumas das vias nórdicas estivessem ainda abertas aos cristãos. A Europa ocidental como um
todo, entretanto, estava quase completamente separada da Ásia e é pouco provável que, nesse
tempo, alguém conhecesse uam das mais notáveis ações cristãs, a penetração da China pelos
cristãos nestorianos, no século VII.
Foi o cristianismo nestoriano que se espalhou ao longo das vias comerciais terrestres da
Asia Central e, em 635 d. C., atingia o coração da China. Este país encontrava-se então sob o
governo da dinastia T'ang (618-907), raça de governantes capazes e vigorosos, sob os quais
restaurara a unidade do império e se restabelecera a ordem. O comércio florescia e eram muitos
os visitantes. Sob T'ai Tsung, a China era provavelmente o império mais rico e mais civilizado
de todo o mundo.
Em 1623, foi descoberto um monumento nestoriano em Hsianfu, China, que data do
ano 781, contendo informações admiráveis sobre a influência do cristianismo nestoriano
naquele país. Em 1908, foi encontrado muitos livros e escritos cristãos nas grutas de TunHuang, na China com referências ao cristianismo nos editos imperiais chineses dos anos 683,
745 e 845.
Diz-nos que no ano 635 A-lo-pen, um líder chinês, chegou a capital de T'ai T'sung,
levando consigo "uma religião luminosa vinda da Siria. Ele foi bem recebido pelo imperador,
que estudou a nova religião, aprovou-a e ordenou e sua propagação. Naturalmente houve
reações anticristãs por parte dos budistas. Mas a igreja conseguiu sobreviver e teve uma historia
de pelo menos dois séculos.
O Cristianismo da China foi sobretudo monástico, caracteristica nada prejudicial num
país tão familiarizado com as tradições do monasticismo budista. A relação de livros cristãos
traduzidos para o chinês, sugere que os monges estrangeiros aprenderam a lingua do povo e se
instalaram na terra que os recebera. Mas teremos que perguntar: Até que ponto foi a sua
presença sentida e se a sua influência ultrapassou as paredes dos mosteiros. Diferentemente, da
vida monástica do ocidente, aqui, o monge era o único ser sivilizado, trazendo conhecimentos e
também melhores métodos agrícolas, a uma população essencialmente simples.
Em 845, a perturbação desabou sobre a Igreja. O Imperador Wu Tsung, que era uma
taoista ardente e se opunha ao monasticismo sob todas as suas formas, publicou um decreto
proibindo o budismo, dissolvendo os mosteiros e ordenando aos monges que voltassem à sua
vida privada. Os nestorianos eram monges e o decreto também se lhes aplicava. Não se sabe o

105
que sucedeu. È provável que a Igreja cristã haja sido quase totalmente exterminada. Mas é
natural que o seu poder e influência tenha diminuído ou até mesmo destruído, e que a partir de
então declinasse rapidamente.
IV. AS CRUZADAS E A EXPANSÃO DA IGREJA NA EUROPA
Do ano 1.000 a 1500 ocorreram-se cruzadas, isto é, lutas de cunho religioso a serviço
da igreja cristã. Sabemos que havia interesses políticos e econômicos, mas o motivo primeiro
era religioso. Justus Gonzáles assevera:
O objetivo das Cruzadas era derrotar os muçulmanos que ameaçavam
Constantinopla, salvar o Império do Oriente, unir de novo a cristandade, reconquistar a
terra santa, e em tudo isto ganhar o céu. Os quatro primeiros objetivos foram alcançados ainda
que temporariamente. Se ganharam o céu ou não,
cabe ao Supremo Juiz decidir.226
A expansão da igreja no norte da Europa e o combate aos muçulmanos ocorreram em
função de interesses políticos e por questões religiosas. As cruzadas iniciaram-se em 1096 com
o objetivo de expulsar os muçulmanos do sul da Europa e durou de certo modo até 1492,
quando os mouros foram vencidos definitivamente.
1 – As Principais Cruzadas
Podemos destacar sobre as cinco primeiras cruzadas armadas contra o domínio dos
muçulmanos, os seguintes aspectos históricos:
- A primeira cruzada iniciou-se em 1096 e conquistou a cidade de Nicéia, Antioquia e
finalmente em 1098, conquistou Jerusalém (o alvo da cruzada), numa das mais sangrentas e
violentas batalhas.
- A segunda cruzada também rumo a Jerusalém foi um fracasso, e foi derrotada em
1187, quando os muçulmanos reconquistaram Jerusalém.
- A terceira cruzada, chamada cruzada dos Reis, iniciou-se em 1189 como reação ao
fracasso anterior; também foi fracassada, mas obtiveram um acordo, a permissão da entrada dos
peregrinos em Jerusalém.
- A quarta cruzada iniciou-se em 1202 para atacar os muçulmanos no Egito, e fazê-lo
de base para as operações contra a Palestina. Contudo, ao passar por Constantinopla,
saquearam-na e tomaram e o poder.
- A quinta Cruzada aconteceu em 1219, no Egito, cuja Cruzada teveteve a
companhia de Francisco de Assis.
Earle Cairns, em sua obra O Cristianismo através dos Séculos, outorga-nos a seguinte
informação:
A cruzada das crianças de 1212 foi o episódio mais triste da história das cruzadas. Estevão
e Nicolau, dois meninos, dirigiram um batalhão de crianças da França e da Germânia. Elas
marcharam desde o sul da Europa até a Itália, na suposição de que a pureza de suas vidas
lhes daria o sucesso não obtido por seus pais pecadores. Muitas morreram pelo caminho e as
sobreviventes foram vendidas como escravos no Egito.227
São lamentáveis os resultados das cruzadas armadas. Estes resultados trágicos ainda se
refletem no difícil relacionamento entre cristãos latinos e os orientais e entre os cristãos e
muçulmanos. Elas acentuaram a intolerância religiosa, e justificaram a guerra desde que em
defesa da fé. Deram início às ordens monásticas militares, e fortaleceram o poder do papa na
igreja ocidental. "Do ponto de vista da história, todo o movimento das cruzadas foi um vasto
fiasco".228 Apesar do interesse político dominante nas Cruzadas, temos alguns missionários
extraordinários neste período como, por exemplo:
226

Justus Gonzáles. Gonzáles. História do Cristianismo. vol 4.(São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1981), 47.
Earle Cairns. O Cristianismo através dos Séculos (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1995).
228
Stephen Neill. História das Missões. (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1997), 177.
227

106

Naturalmente, havia muitos interesses envolvidos tais como: interesse econômico,
político, pessoal (os cavaleiros por fama, glória e recompensas) e o interesse religioso. Todavia,
o fator preponderante segundo a maioria dos historiadores, foi o fator religioso. Fomentado
pelo clero e autoridades religiosas, produziu-se um desejo particularmente europeu, de querer
libertar Jerusalém e os lugares sagrados das mãos dos muçulmanos. A idéia se libertar dos
muçulmanos, não era em si mesma uma idéia ignóbil. Os homens do ocidente já haviam lutado
por causas muito menos nobres do que esta. Foi uma atitude astuta por parte dos papas, para
desviar o vigor incansável das classes guerreiras da futilidade das guerras internas que
devastavam a Europa medieval. Áqueles que tombavam e caiam nas guerras na terra santa, a
auréola do martírio pela fé cristã coroava-lhes as cabeças, diante de uma morte por tão grande
causa, asseguravam os religiosos.Aqueles que sobreviviam, tinham a esperança de grande
recompensas materiais. A região da Palestina estava sob o controle dos muçulmanos desde o
século sétimo. Para muitos, a contínua presença dos muçulmanos dominando a Palestina, era
uma afronta para o Cristianismo e uma ameaça aos cristãos peregrinos rumo aos lugares
sagrados. Existia também o desejo da Igreja do ocidente de reatar contatos com a igreja do
oriente com sede em Constantinopla. Enquanto o mundo ocidental combalia em termos
intelectuais na Idade média, Constantinopla resplandecia como a mais intelectual cidade na era
medieval. Durante o século X, as relações entre essas igrejas do ocidente e do oriente
deterioraram-se até chegar a ruptura em 1504 A. D.
Assim sendo, havia uma certa prontidão e espírito resoluto por parte da Igreja Católica
Romana em envidar esforços junto ao império bizantino, centralizado em Constantinopla, para
que junto pudessem combater o inimigo em comum: O Islamismo. No século XI, o império
bizantino foi vitimado por dias difíceis e nebulosos com a morte do imperador Basílio II ,
piorando ainda mais com o fim da dinastia macedônica em 1056. Dissenções internas e
ameaças estrangeiras ameaçavam fortemente a existência do estado. A maior ameaça veio dos
turcos, os quais, convertidos ao Islamismo, formaram no século XI um império que abrangia a
Pérsia, a Mesopotâmia, a Síria, o Egito e a Palestina. Em 1071, em batalha acontecida na
Armênia, os exércitos turcos infligiram uma grande derrota as forças bizantinas.
Mas, depois de se ter dito tudo que se pode dizer de favorável,em relação às cruzadas, o
cristão é obrigado a considerar que representaram um desastre irreparável de grandes
proporções para a causa missionária da Igreja. Ainda hoje, muitos muçulmanos quando
evangelizados, lembram do que acontecera com as cruzadas. As cruzadas foram romantizadas
na Idade Medieval, com o propósito de conseguir o maior número de adesão possível. Para a
maioria dos guerreiros cristãos, os muçulmanos eram infiéis q, sem direito à existência, cuja
vida não era necessário conservar, podendo assim serem chacinados sem dó nem piedade, para
maior glória do Deus cristão. É certo, evidentemente, que o ódio gera o ódio, e que o fel
engendra o fel. Os guerreiros sarracenos sentiam-se igualmente felizes ao poderem chacinar os
cristãos, o que perante o seu próprio juízo estaria bem justificado. E assim, durante os dois
séculos que decorreram entre a primeira conquista de Jerusalém em 1099 e a perda do último
forte dos cruzados em Acre, em 1291, o Mediterrâneo foi ensombrecido por uma nuvem ainda
mais escura de ódio, tanto mais desastroso quanto este sentimento era conjurado em nome de
Cristo.
De três formas deixaram as Cruzadas a sua marca
indelével na história cristã:
1 – Em primeiro lugar, lesaram para sempre as relações entre os ramos ocidental e
oriental da Cristandade. Os cruzados ocidentais foram inicialmente convidados pelo império
oriental, para somar esforços no combate ao Islamismo. De início, os cruzados ocidentais
aceitaram estar sob a tutela e jurisdição dos patriarcas orientais. Mas, não tardou esta submissão
e logo, insuflados pelo ocidente, eles criaram dioceses latinas sob a tutela de Roma. E, como
seria de esperar, esta atitude provocou o ressentimento do clero oriental. O mal-estar atingiu o

107
clímax mais horroroso quando a quarta cruzada se desviou do seu próprio objetivo, saqueou
Constantinopla em 1204 e instalou um precário Império Latino sobre as ruínas do Império
Oriental, que assim fora destruído. Sessenta anos depois os bizantinos reagiram, expulsaram os
estrangeiros e criaram de novo o seu próprio Império oriental. Mas este era simplesmente uma
sombra do Império anterior, permanentemente enfraquecido pela luta infindável contra os
muçulmanos. Quando Constantinopla caiu nas mãos dos turcos em 1453, revelou-se toda a
extensão da culpa das cruzadas. Nunca mais a Igreja do Oriente seria a mesma!
2 – Em segundo lugar, as cruzadas deixaram um rastro de amargor nas relações entre
os cristãos e os muçulmanos, que continua a ser um fator vivo na situação mundial dos nossos
dias. Independentemente do que pensamos, para os muçulmanos o ocidente é o grande agressor.
Há cerca de novecentos anos, os cristãos participaram deliberadamente deste papel, em nome
de Cristo. Hoje, os novos missionários cristãos que chegam a países majoritariamente
muçulmanos, ou são mortos ou expulsos daquelas nações. Não queremos dizer com isso que os
muçulmanos hajam sido sempre ternos e gentis – também foram bastante agressivos, sempre
que se viram com força e com oportunidade para aplica-la. Mas, em qualquer dos casos, os
muçulmanos da idade Medieval não pretendiam tornarem-se cristãos ou seguir ao Senhor
Jesus, o nosso Príncipe da Paz. Para os ocidentais, poderá parecer que as cruzadas se efetuaram
há muitos séculos atrás e que os cruzados dormem tranqüilamente no silêncio das igrejas
católicas da Europa. O oriente tem uma perspectiva diferente do tempo.Para cada muçulmano
das terras mediterrânicas, os cruzados são um acontecimento de ontem e as feridas estão
prontas a abrirem-se de um momento para o outro.
3 – Em terceiro lugar, as Cruzadas implicaram numa descida e declínio moral da
Cristandade. Não tardou muito que o papa Inocêncio III mostrasse que o mesmo princípio
poderia ser usado contra os chamados “hereges” pela igreja. Milhares de cristãos Albingenses e
Valdenses, e até mesmo Judeus, foram mortos na Era Medieval. O próprio concílio de Latrão
de 1215 aceitou a derrota moral da Igreja, ratificou e erigiu-a em lei. O papa não desconhecia as
atrocidades cometidas pelos cruzados. É impossível discordar do juízo moderado de um
historiador das cruzadas:
Simon Runciman, em sua obra A History of the Cruzades, faz a seguinte assertiva:
Visto dentro da perspectiva da história, todo o movimento das Cruzadas foi um vasto fiasco.
Serviu para mostrar que a fé sem sabedoria é perigosa... O historiador, quando regride nos
séculos observando a sua história, acaba por encontrar a sua admiração vencida pela tristeza,
ao verificar as limitações da natureza humana. Havia muita coragem e demasiado pouca
honra, muita devoção e pouca compreensão. Os grandes ideais foram maculados pela
crueldade e selvageria. O Cristianismo viu-se afetado por uma retidão estreita e cega. A
própria guerra santa nada mais era do que um longo ato de intolerância em nome de Deus, o
que consistia em um pecado contra o Espírito Santo.229
V. ASSUNTO TEMÁTICO: AS MISSÕES CATÓLICAS NOS SÉCULOS XIII AO
XVII.
1. As Missões Católicas na Alta Idade Média
Os empreendimentos missionários politicamente orientados da Igreja Católica Romana,
durante o período Medieval representaram muito pouco em termos de missões. As Cruzadas,
um movimento que durou 200 anos (1095-1291), dificilmente se poderia chamar de
empreendimento missionário. O objetivo precípuo era expandir o território controlado pelos
229

Simon Runciman. A History of the Cruzades Vol. III (Hodder and Stoughton, 1954), p. 469.

108
cristãos e não converter os muçulmanos. Foram duzentos anos de lutas sangrentas, nas quais
dezenas de milhares de vidas se perderam. Embora as primeiras cruzadas tivessem
alcançado algum êxito militar, não houve vitória final. Muito mais significativo, contudo, foi
a perda do diálogo e da possibilidade de alcançar os sarracenos A animosidade dos
muçulmanos contra os cristãos era tão grande, como resultado da crueldade selvagem
demonstrada durante as Cruzadas, que até hoje a memória deles não se apagou, e o trabalho
missionário permanece muito difícil e extremamente hostil entre os povos de fé islâmica.
Nem todos os cristãos os cristãos professos do período acreditavam que a força militar
era a maneira apropriada de tratar os muçulmanos. Durante os primeiros anos do século
XIII, enquanto o espírito das Cruzadas ainda se mantinha vivo, Francisco de Assis fossem
ganhos pelo amor em lugar do ódio. Convicto de que os muçulmanos não eram pessoas
convertidas, e que isso se devia ao fato de que os Evangelhos não se lhes haviam sido
apresentados em toda a sua simplicidade e beleza, ele próprio fêz três tentativas para
consegui-lo. As primeiras duas, em Marrocos em 1212 e na Espanha em 1214, nada
produziram. Mas, em 1219, quando os soldados da Quinta Cruzada acampavam no Egito,
juntou-se-lhes e conseguiu ser apresentado ao sultão do Egito. É improvável que o sultão
tenha apreendido e compreendido muita coisa do que foi dito por aquele homem vindo da
Itália, com uma outra língua e outra cultura.
No que tange ao assunto supra-mencionado, Neill faz a seguinte assertiva:
Esta viagem de Francisco de Assis ao Egito foi algo mais do que a expressão de um interesse
pessoal ou de um zelo missionário. Significava que um novo espírito surgira mundo cristão
católico, e que uma notável transformação se efetuava nos métodos missionários daquela
igreja.Durante vários séculos, os mosteiros ocuparam o centro da obra missionária, como
elemento de perpetuidade imutável num mundo em transformação constante. A partir de agora e
durante os dois próximos séculos, o lugar central das missões seria ocupado por duas grandes
ordens de frades: Os Franciscanos e os Dominicanos. Até a fundação da ordem dos Jesuítas, nos
meados do século XVI, só vimos os Franciscanos e os Dominicanos, como os grandes
empreendededores da obra missionária.230

Havia, evidentemente, uma grande diferença entre os fins e as aspirações das duas ordens.
Francisco de Assis (1181-1226), queria trazer de novo o amor, a simplicidade e a alegria ao
mundo cristão, e suscitar um novo zelo e compaixão pelos pobres. Antes de findar o XIII, os
Franciscanos já se haviam espalhado por várias partes do mundo. Na ordem de São
Domingos (1170-1221) existiam desde o início características mais severas. A sua ordem
destinava-se a ser intelectualmente competente, dedicada à conversão dos pagãos, em
especial por meio da pregação, como indicava o seu título oficial: A ordem dos pregadores.
Em cada um dos seus membros existia um forte impulso missionário. Em cerca de 1300, os
Dominicanos formaram a Societas Fratrum Peregrinatium Propter Christum Inter Gentes
(A Companhia dos Irmãos para a Salvação de Cristo entre as Nações).
Desde o século XII, a pressão cristã em Portugal e Espanha, estavam obrigando os
sarracenos (os muçulmanos) a recuar. Granada, a última praça forte dos muçulmanos, caiu
em 1492. Mas, desde meados do século XII, Portugal encontrava-se livre dos muçulmanos e
era evidente que em breve a Espanha estaria também Os muçulmanos deixariam atrás de si
inúmeras marcas da sua ocupação, na vida da península Ibérica. Uma vez libertados da
influência muçulmana, Portugal e Espanha, voltaram a ser novamente, a vanguarda do
catolicismo medieval na Europa.
No processo da reconquista, houve muitas coisas pouco nobres e outras que
provocaram o descrédito. Era talvez inevitável que a violência e a pressão exercidas pelos
cristãos fossem mais visíveis que o amor proclamado nos evangelhos. Contanto que alguns
230

Stephen Neill. História das Missões Cristãs, p. 118.

109
cristãos afirmassem que os muçulmanos só eram bons depois de mortos, havia outros
cristãos que pensavam diferentemente e que acreditavam que, por meio da pregação do
evangelho, os próprios muçulmanos seriam ganhos para a fé Cristã.
É nesse contexto com entra em cena um dos homens mais marcantes da história cristã
medievaL: Raymond Lull. O espanhol Raymond Lull deve figurar como um dos maiores
missionários na história da Igreja. Outros possuíram o ardente desejo de pregar o Evangelho
aos muçulmanos e se necessário fosse, sofrer no cumprimento desta missão. Contudo, coube
a Raymond Lull ser o primeiro a desenvolver uma teoria de missões, não apenas por desejo
de pregar o evangelho, mas para trabalhar com um cuidado pormenorizado na forma de
fazê-lo. Lull nasceu em 1235, em Maiorca, uma ilha à costa da Espanha, no Mediterrâneo,
cinco anos depois de os Catalães (sob a chefia do rei Jaime, o conquistador) terem
conquistado a ilha dos muçulmanos. Quando jovem, depois de vários anos de uma vida
devassa e promíscua, ele teve uma profunda experiência religiosa de conversão e a partir
dali tudo mudou em sua vida. A reação inicial de Lull ao chamado para o serviço cristão foi
característico da era em que vivia. Ele dedicou seu tempo à vida monástica – ao jejum, à
oração e à meditação. A maior demonstração de amor por Deus, segundo acreditava, era
viver como monge recluso, completamente separado das tentações do mundo.
Segundo informa-nos Eliott Whight, em sua obra Holy Company: Heroes and
Heroines, sua perspectiva cristã mudou a partir de uma visão que ele teve:
Uma visão, porém, tornou-o consciente de suas responsabilidades para com os que o rodeavam. Esta
visão tornou-se o seu chamado missionário. Enquanto se achava numa floresta à sos com Deus, bem
distante das distrações do mundo, ele se encontrou com um peregrino que, ao saber da vocação
escolhida por Lull, o repreende pelo seu egoísmo e o desafia a seguir para o mundo e levar a outros a
mensagem de Cristo. Esta visão motivou Lull a dirigir suas energias para missões e, em particular,
aos Sarracenos – os mais odiados e temidos inimigos da Cristandade.231

O tema central de todas as ambições e objetivos de Raymond Lull era a conversão
dos muçulmanos à Cristo. Primeiro, foi atraído pelo Dominicanos. Não encontrando, porém,
apoio para os seus planos e empreendimento missionário, transferiu suas afeições para os
Franciscanos.
Lull era da opinião que a evangelização dos Sarracenos exigia três estágios
condicionais. Ou seja, sua abordagem missionária era tripla: Educacional, Evangelística e
Apologética.
Primeiro, No campo da Educação Missionária: Raymond Lull cria ser de fundamental
importância que, para evangelizar os muçulmanos, os cristãos precisavam conhecer a sua
linguagem. Ele viajou bastante, apelando para a igreja e os líderes políticos que o apoiassem
na sua causa. O rei Jaime II da Espanha foi um dos que adotaram o seu ponto de vista e em
1276, com sua ajuda entusiástica e contribuições financeiras, Lull abriu um mosteiro em
Miramar, na ilha de Maiorca com 13 monges Franciscanos e um currículo incluindo cursos
na língua árabe e geografia de missões. Além disso, ele achava ser importante que se
estudasse outras línguas relacioandas com o mundo muçulmano: o hebraico, o grego, e o
Siríaco. O sonho dele era estabelecer centros em toda a Europa, mas para isso teria de
convencer a hierarquia católico-romana do valor de seus projetos – o que não era tarefa
fácil. Quando visitou Roma várias vezes, suas idéias foram ridicularizadas pelos papas e
cardeais da igreja. Conforme informa-nos Stephen Neill, “em 1311 o concílio de Viena,
cedendo aos argumentos de Lull, decidiu criar cinco colégios em associação com as mais
famosas universidades do mundo: Roma, Bolonha, Paris, Oxford e Salamanca, para o estudo
das línguas do mundo muçulmano.”232
231

Elliot Wright. Holy Company: Christian Heroes and Heroines (New York, USA: Macmillan Company, 1980),
234.
232
Neill, História das Missões, 138.

110

Em segundo lugar, no campo da Evangelização: Raymond Lull não foi o primeiro cristão
a interessar-se pela língua árabe. Haviam existido notáveis lingüistas na Espanha medieval e
foi por meio de suas traduções do árabe para o latim que o conhecimento de Aristóteles
começou a ser difundido no ocidente. Contudo, Lull foi decerto o primeiro a relacionar o
estudo do idioma árabe com a evangelização. Ele não se interessava tanto pela língua em si
mesma, como pelo fato de poder conduzir uma compreensão cabal do pensamento e das
doutrinas dos Sarracenos e à possibilidade de uma discussão elevada e fraterna com eles,
acerca de temas religiosos e cristãos. A carreira missionária de Lull não começou com a
facilidade que seria esperada de um estadista e missionário especializado, que promovera os
seus projetos nos mais altos níveis da sociedade européia. Conforme aprendeu, uma coisa
era pregar missões e outra coisa era praticar ele mesmo o que pregava. Ele cria que os
cristãos deveriam oferecer um testemunho fiel e corajoso perante os Sarracenos, mesmo à
custa da prória vida. Empreender a pregação do evangelho em países muçulmanos era
decerto uma decisão perigosa, pois tal fato constituía, sob a lei islâmica, uma ofensa punível
com a morte.
O bispo Stephen Neill faz a seguinte assertiva:
Lull não era um homem que formulasse pensamentos que não estivesse pronto a traduzir em
atos. Ele fez sozinho quatro viagens missionárias para pregar o evangelho aos países
muçulmanos do norte da África. Na sua quarta viagem missionária em 1315, ele foi preso,
agredido e apedrejado em praça pública na cidade de Bugia, na Argélia.233

Elliot Wright em sua obra Holy Company: Christian Heroes and Heroines, comenta:
Ele se achava no porto de Gênova para viajar para a Tunísia. Seus pertences se achavam-se
a bordo do navio e multidões de conhecidos se apinhavam, todos prontos para uma
despedida ruidosa. Então, no último momento, ele foi engolfado pelo terror, com a idéia do
que poderia acontecer-lhe naquele país muçulmao para o qual se dirigia. A possibilidade de
suportar tortura, prisão perpétua, ou a própria morte, apresentou-se-lhe com tanta força que
não podia suportar.234
Os temores de Lull quanto ao trabalho missionário na Tunísia não eram infundados.
A Tunísia era um entro poderoso do Islamismo na África do Norte que resitira a repetidas
invasões. Os cruzados eram vistos com ódio e ressentimento. A chegada dele à primeira vez,
não foi porém acolhida com tanata hostilidade. Ele apresentou-se aos principais eruditos
muçulmnaos e solicitou depois uma conferência para debater os méritos relativos ao
Cristianismo. Quando teve oportundiade de defender o Cristianismo, ele estabeleceu uma
posição doutrinária que, era ortodoxa e evangélica, com pouca teologia medieval e um
mínimo de idéias romanas.
Edith Deen em sua obra Great Women and men of the Christrian Faith, insere na
íntegra uma parte do primeiro discurso de Raymond Lull na Tunísia. Os princópios básicos
de seu argumento continuam plenamente válidos hoje num debate com muçulmanos.
Todo homem sábio deve reconhcer que a religião, para ser verdadeirda, Atribui a maior
perfeição ao Ser Supremo e não só transmite a mais alta concepção de todos os seus
atributos, sua bondade, poder sabedoria e glória, mas demonstra a harmonia e igualdade
existente entre eles. A religião deles era porém deficiente por reconhecer apenas dois
princípios ativos na Divindade, sua vontade e sabedoria, deixando sua bondade e grandeza
inoperantes como se fossem qualidades indolentes, nãos sendo chamados para o exercício
ativo. Mas a fé Cristã não podia ser acusada desta falha. Em sua doutrina da Trindade ela
transmite a mais alta concepção da Divindade, como o Pai, o Filho e o Espírito Santo em
uma simples essência e natureza. Na encarnação do Filho ela revela a harmonia existente
entre a bondade e a grandeza de Deus; e na pessoa de Cristo demonstra a verdadeira união
233
234

Ibid., 140.
Wright, Holy Company,233.

111
do Criador e criatura; enquanto na paixão que sofreu por causa de seu grande amor pelo
homem, ela estabelece a harmonia daquele que por nós, homens, e pela salvação e
restituição a nosso estado de perfeição, submeteu-se a esses sofrimentos e viveu e morreu
pelo homem. 235
Em terceiro lugar, no campo da Apologética: Ele queria que os Cristãos compusessem
livros em que a verdade da religião Cristã fosse comprovada por razões necessárias. Ele foi
impelido nesta direção, em virtude dos seus próprios encontros com muçulmanos cultos e
devido a ter obtido conhecimento dos pontos de vista muçulmanos. A teologia muçulmana
havia desenvolvido a sua própria escolástica e tinham a certeza de demonstrar a verdade das
suas doutrinas para lá da possibilidade de erro. Segundo assevera Wright, “Lull inventou um
sistema filosófico para convencer os muçulmanos e os demais não-cristãos da verdade do
Cristianismo.”236 Lull foi um sábio e profundo entendedor de todos sistemas filosóficos do
seu tempo. Conforme o testemunho de Tucker, “a contribuição de Lull como apologista
cristão aos muçulmanos foi imensa. Escreveu cerca de 60 livros sobre teologia, muitos dos
quais eram dirigidos aos intelectuais muçulmanos. O tema que maus desenvolveu se
associava à doutrina de Deus.237
Apesar de Lull sempre afirmar que se aproximava dos muçulmanos com amor, sua
mensagem era bastante ofensiva para o muçulmano, é claro. O historiador Kenneth Scott
Latourette declara: “Um dos argumentos de Lull era apresentar os Dez Mandamentos como
a Perfeita lei de Deus, e depois demonstrar nos próprios livros dos muçulmanos que Maomé
havia violado cada um dos mandamentos.“238
Embora os muçulmanos fossem o principal objeto da paixão missionária de Lull, os
judeus chamaram sua atenção. Os séculos XII e XIII foram manchados por terríveis histórias
de anti-semitismo. Os judeus eram acusados de quase todo os males da sociedade e, como
resultado, foram expulsos da França e Inglaterra naquela época medieval. – cujo castigo
pareceu brando em comparação ao infligido pela inquisição espanhola. Aqui e ali,
indivíduos mais ousados defendiam os judeus e entre eles achava-se Lull. Ele os abordou
com amor, apresentando-lhes Cristo como o seu Messias e Mestre.
Conforme afirma Sherwood Wirt em seu artigo God´s Loved Ones:
A missão de Raymond Lull era experimentar se poderia persuadi-los, conferenciando com
os seus sábios e manifestando a eles, segundo o método divinamente concedido, a
encarnação do Filho de Deus e as três pessoas da Santíssima Trindade na unidade Divina da
essência. Ele procurou estabelecer um parlamento de religiões, onde desejava confrontar
face a face o monoteísmo pobre do Islamismo com a revelação do Pai, do Filho e do
Espírito Santo.
O CONTEXTO HISTÓRICO
O apogeu das missões Católicas dá-se entre os anos 1600 a 1800 d.C.. Entretanto, para
que isso acontecesse, existiram muitos fatores corroborativos. Como em toda mudança de
paradigma, no caso, de “Idade Média” para a “Idade Moderna,” houveram muitas mudanças e
descobertas em todos os campos: Intelectual, geográfico, social, econômico e político.
No cenário mundial das grandes potências colonizadoras, dois países, ambos católicos,
destacam-se naquele período da história: Portugal e Espanha. Portugal foi a vanguarda, partindo

235

Edith Deen. Great Women and men of the Christrian Faith ew York: Harper & Row, 1959), 6.
Ibid., 235.
237
Ruth Tucker, Até aos Confins da Terra (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1996), 54.
238
Kenneth Scoth Latourette. The First Five Centuries (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publisching Company,
1970), 213.
236

112
primeiro nas suas viagens dalém mar. A Espanha do século XV, ainda tinha como preocupação
a expulsão dos mouros que haviam invadido o seu território.
As grandes descobertas na era da navegação como a bússola, o astrolábio, o
mapeamento dos mares, o uso dos conhecimentos astronômicos, influenciaram os aventureiros
navegadores a saírem em busca de novos caminhos para alcançar a Ïndia e China, e a busca de
novas terras e riqueza, princiapalmente “o ouro,” “él oro.”
Entretanto, havia outro forte motivo: o motivo religioso. Muitas expedições saíram com
o intuíto de livrar Jerusalém do domínio dos turcos. Um grande exemplo disto foi o desejo
expresso por Cristovão Colombo, de acumular riquezas enquanto explorava à espanhola, afim
de montar um exército para chegar a Jerusalém, desejo este que foi deixado em seu testamento
de herança para seus descendentes, com cláusula condicional.
No nacionalismo espanhol estava imbuído o fervor católico. Igreja e estado não
possuiam funções tão distintas. O espanhol possuía em seu caráter e personalidade a influência
muçulmana do fanatismo religioso pela fé católica. Ser mensageiro da coroa Espanhola em
outras nações, era uma honra; mas, muito maior honra estava no fato de ser um representante da
“Santíssima Igreja” a os povos bárbaros e pagãos, conforme era difundido.
Nesse contexto, é imprescindível que seja notabilizado o domínio que Igreja possuía
sobre as emoções e mentes das pessoas. A compreensão prevalescente e lógica era que Deus
enviou seu filho Jesus ao mundo, como o mais importante dos homens para cumprir uma
missão. Este, deixou o seu domínio aqui na terra nas mãos de seu representante: o apóstolo
Pedro. Pedro, por sua vêz, delegou poderes aos santos papas, os quais foram sucessivamente,
sentaram no trono de pedro revestidos de poder espiritual e temporal, e com a incumbência de
cristianizar os povos. Portanto, na descoberta das novas terras, olhando nessa perspectiva, nada
seria mais aceitável do que a decisão do papa Nicolau V, no ano de 1454, através da Bula
Romanus Pontifex, outorgando aos portugueses o direito a todas as terras descobertas dos
“infiéis,” em toda a costa ocidental da África. Como a Espanha também entrou no negócio
rentável das navegações e consequentes descobrimentos de novas terras, dá-se a necessidade de
dividir o globo terrestre entre os soberanos portugueses e espanhóis.
Os papas davam o “direito” às novas terras descobertas ou a descobrir, desde que
houvesse o compromisso de converter os pagãos ao cristianismo católico, independentemente
dos meios utilizados. Daí, muitos historiadores afirmarem que os grandes instrumentos das
missões católicas foram “a cruz e a espada.” E foi justamente a espada que impediu muitos
povos de chegarem a cruz, pois a crueldade dos colonizadores era o maior obstáculo à
evangelização.
2. Os Reformadores e a Tarefa Missionária da Igreja
É dito amplamente que os Reformadores Protestantes não tinham visão missionária;
embora cressem que tinham redescoberto o evangelho apostólico, não tinham nenhuma visão
apostólica para anunciá-lo às partes extremas da terra. Esta é uma visão que os historiadores
modernos parecem adotar.
Gustav Warneck, tido como o pai da missiologia como disciplina teológica, foi um dos
primeiros estudiosos protestantes a promover esta visão. Perdemos na Reforma não somente a
ação missionária, disse ele, “mas até a idéia de missão, no sentido em que a compreendemos
hoje”. “Isto é assim”, afirmou, “porque os pontos de vista teológicos fundamentais impediramnos de dar a suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma orientação missionária.”239
Stephen Neill, em seu livro A History of Christian Missions, procura um julgamento
equilibrado e escreve:

239

Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (London, England: Oliphant, Anderson & Ferrier,
1906), 9.

113
É claro que a idéia de progresso consistente da pregação do evangelho por todo o mundo não
é estranho ao pensamento de Lutero. Entretanto, quando todas as coisas favoráveis que têm sido
ditas e que podem ser ditas; quando todas as evidências possíveis dos escritos dos Reformadores
têm sido reunidos, isto resulta em muito pouco missões.240
O livro History of the Expansion of Christianity, de Kenneth S. Latourette, revela o
registro das igrejas da reforma (século dezesseis) comparado com o registro de Roma: “No
século dezesseis, apogeu da atividade missionária católica, os protestantes não fizeram nenhuma
tentativa de propagar a fé fora da Europa.”241
3 - O Ambiente da Época:
Em 1492 Colombo deparou com um novo mundo, e cinco anos depois Vasco da Gama tinha
sido o primeiro europeu a alcançar a costa ocidental da Índia por mar. Vastas oportunidades
para a igreja cristã foram abertas. Como Latourette observa, “A descoberta e a conquista
estavam abrindo a maior das portas para a expansão que qualquer religião jamais teve.”242
As grandes viagens de descobrimento foram motivadas pela necessidade de comércio,
ambição por ouro, desejo de fama e de absoluta e inexorável curiosidade. Mas elas foram
também devidas ao impulso missionário da Igreja Católica Romana, que tinha sido mais ou
menos contínuo por centenas de anos. Durante esse período, a história da missão cristã foi,
necessariamente, a história do monasticismo.
No ano seguinte ao da descoberta de Colombo, o Papa Alexandre VI dividiu o mundo em
duas esferas de operação: a espanhola e a portuguesa. Ao mesmo tempo instigou os hispânicos a
procurar converter os povos do novo mundo e “para enviar tanto às ilhas como aos continentes
homens honestos, tementes a Deus e virtuosos que fossem capazes de instruir os povos
indígenas na boa moral e fé católica.”243
5 - Obstáculos às Missões Protestantes
Obstáculos práticos e teológicos tinham de ser superados antes que as missões protestantes
pudessem agir com determinação. Havia, em primeiro lugar, sérias dificuldades práticas. Até
1648, quando a Paz de Westphalia marcou o fim da luta religiosa da Guerra dos Trinta Anos,
que devastou a Germânia, os protestantes estavam lutando por sobreviver e não dispunham de
tempo para se preocupar com missões aos pagãos estrangeiros.
Além disso, a oportunidade para missões aos pagãos era inacessível aos protestantes, uma
vez que não dispunham de contato direto com os povos bárbaros ou pagãos; as rotas marítimas
eram dominadas naquele tempo por navios de países católicos. Outro fator é que, enquanto
numerosos Reformadores, tais como Lutero e Bucer, tinham sido monges, a Reforma havia
rejeitado todo o sistema monástico e o conceito que por quase mil anos tinha constituído a
tradição, habilidade e equipamento das missões.
6 - Preocupação Missionária dos Reformadores
Houve, inquestionavelmente, vários pontos de preocupação missionária nas igrejas
protestantes da Reforma. Houve mais do que um estudioso que detectou uma visão missionária
verdadeira.
W. P. Stephens fáz o seguinte comentário acerca de Martin Bucer, pastor reformado de
Estrasburgo, na época de Calvino:
240

Stephen Neill, A History of Christian Missions (Harmondsworth: Penguin, 1964), 222.
Kenneth S. Latourette, A History of the Expansion of Christianity (Grand Rapids, Michigan: Zondervan
Publishing Company, 1971), 42.
242
Ibid., 38.
243
Stephen Neill, A history of Christian Missions (Harmondsworth: Penguin, 1964), 141.
241

114

Comentando sobre a determinação em Ezequiel 14.16 para buscar os perdidos e arrebanhar de
volta os extraviados, Martin Bucer observa que a igreja deve levar a Cristo aqueles que não o
conhecem, enviando o evangelho da terra natal até os confins das terras pagãs. Como Bucer vê
esta questão, enquanto somente Deus conhece seus eleitos, Ele ordena a seu povo que saia e
chame as criaturas para a vida eterna. A igreja é a cidade de Deus “onde Deus governará por sua
Palavra e Espírito mais do que qualquer outro no mundo, e a partir daí Ele propagará a doutrina
salvadora a toda a terra.244
Arrazoar que os Reformadores não tinham visão missionária alguma é desconhecer o
impulso básico de sua teologia e ministério. Scherer afirma que “os cristãos devem permitir-se
ler a Bíblia através dos olhos de Martinho Lutero como missiologista.”245 Um ponto de partida
relevante na teologia dos Reformadores não era o que as pessoas podiam ou não podiam fazer
pela salvação do mundo, mas o que Deus já havia realizado em Cristo.
Em conexão com a doutrina do sacerdócio de todos os crentes, Lutero enfatiza o direito e
dever de todo cristão propagar o evangelho; o cristão é obrigado a fazer isto com medo de
perder sua alma e incorrer no grave descontentamento do Senhor.
Se ele estiver em um lugar onde não haja nenhum cristão, não precisa de outro chamado para
ser cristão, chamado e ungido por Deus no seu interior. Aqui é seu dever pregar e ensinar o
evangelho aos pagãos extraviados, ou não-cristãos, por causa do dever do amor fraternal, muito
embora nenhum homem o chame a fazer isto.246
Seria anacrônico esperar que os Reformadores falassem em termos do movimento
missionário dos séculos XIX e XX: eles certamente não tinham definido claramente o conceito
de obra missionária estruturada contemporânea. A chave do pensamento de Lutero sobre esta
questão é sua inequívoca compreensão da missão como missão da Palavra de Deus. Os homens
são os instrumentos fracos e dispensáveis do poder irresistível da Palavra de Deus.
Embora os pastores possam ser fracos e o mundo, poderoso, o santo evangelho é ainda mais
poderoso, e nenhum obstáculo pode impedir seu progresso. Ainda que todos os pastores
tivessem de ser eliminados, o evangelho prosseguirá no mundo da melhor forma e transformará
o mundo.247
Segundo Oberman, “Calvino, por outro lado, foi mais explícito, uma vez que sua teologia era
a que impunha a responsabilidade do crente no mundo mais seriamente do que a de Lutero.”248
Os Reformadores imaginavam uma expansão missionária em direção aos países em que não
havia protestantes. Em 1555, Calvino foi contatado por Nicolas Durand de Villegagnon, com
apoio do Almirante Gaspar de Coligny, sobre o envio de pastores de Genebra para ministrar a
uma pequena colonização huguenote na baía do Rio de Janeiro. A companhia genebrina de
pastores comissionou de fato 14 deles, que viajaram com várias famílias calvinistas huguenotes
para o Brasil. Sua intenção foi não apenas ministrar às famílias protestantes, mas também
converter os nativos, tendo, porém, abandonado o empreendimento devido à violenta e
selvagem ação contrária dos portugueses.
Digno de nota é também que eles abandonaram completamente com qualquer idéia de fazer
uso da força na cristinianização das pessoas.

244

W. P. Stephens, The Holy Spirit in the Theology of Martin Bucer (London, England: Hodder and Stoughton,
1968), 159.
245
J. A. Scherer, Gospel, Church and Kingdom: Comparative Studies in World Mission Theology (Minneapolis,
Minnesota: Augsburg Publishing House, 1987), 66.
246
Luthers’ Works, vol. 19, (London, England: SCM Press, 1955) 310.
247
Ibid., vol. 19, 98.
248
Heiko Oberman, The Down of the Reformation: Essays in Late Medieval and Early Reformation Thought
(Edinburgh, Scotland: T. & T. Clark, 1986), 235.

115
Lutero disse:
A espada do imperador nada tem a ver com a fé, e nenhum exército pode atacar outros sob a bandeira
de Cristo; na verdade, se o papa fosse realmente o vigário de Cristo sobre a terra, ele pregaria o evangelho
aos turcos, em vez de incitar os governadores seculares a desfechar violentos ataques contra eles.249

A principal preocupação dos Reformadores foi a de irradiar a fé Reformada em toda a
Cristandade, concebida como missão da Palavra de Deus; Além dos vastos problemas
teológicos naquele tempo, olharam também além do horizonte imediato para difundir o
evangelho aos ainda não alcançados.
A obrigação de ministrar o evangelho a outros incumbe a todos os crentes. Mas os métodos
pelos quais esta responsabilidade deve ser realizada em variadas circunstâncias requer estudo
adicional e delineamento. Entretanto, é importante ouvir o testemunho da igreja em sua história
sobre a questão da pregação do evangelho por todos os cristãos, à medida que a igreja se torna
cada vez mais cônscia da responsabilidade de todos os seus membros para espalhar a grata boanotícia da salvação em Jesus Cristo.
Esta afirmação pode também ser dita com respeito aos Reformadores. O testemunho de
Calvino e Lutero com vistas à obrigação que todos os crentes têm de transmitir o evangelho a
seus próximos é clara e sincera. As persuasões mais fortes possíveis fomentaram o despertar dos
membros da igreja para sua responsabilidade. Essa responsabilidade é firmemente ancorada na
condição oficial do povo. O Espírito Santo está ativo em toda a igreja. Toda a comunidade
testemunha porque é a habitação do Espírito Santo.
Portanto, a igreja existe para o mundo como reflexo da obra salvadora estendida a todo o
mundo. Como Kraemer declara: “Começando desta orientação fundamental, os aspectos
essenciais da igreja como corpo, que Cristo cria para si mesmo através do Espírito Santo, são
que a igreja é missionária e ministerial.250
Isto implica que cada membro do corpo de Cristo tem o direito e o dever de
realizar a Obra missionária da Igreja.
O ensino cristão da era apostólica inicial até o presente, tem como premissa afirmar o direito
e o dever dos membros comuns da igreja de levar a outrem o evangelho. Os Reformadores
enfatizaram o fato de que a confissão pessoal e o compartilhamento da fé são implicações éticas
da vida cristã, embasando estes atos no ofício que os crentes recebem de Cristo, o ofício de
sacerdócio de todos os crentes, ou, mais especificamente. o ofício profético de todos os crentes.
Qualquer tentativa de negar este direito e obrigação contraria o testemunho unânime da igreja
cristã ao longo de sua história.
A obrigação de ministrar o evangelho a outros incumbe a todos os crentes. É importante ouvir
o testemunho da igreja em sua história sobre a questão da pregação leiga do evangelho, à
medida que a igreja se torna cada vez mais cônscia da responsabilidade de todos os seus
membros para espalhar a grata boa-notícia da salvação em Jesus Cristo. O dever dos crentes de
anunciar o evangelho a seu próximo não-crente é um aspecto da responsabilidade de
testemunhar o que promana da natureza missionária da igreja. Os investidos do ofício têm o
dever de lembrar aos membros cristãos esta natureza da igreja e preparar os santos para a tarefa
do ministério (Efésios 4.12). O ministério dos santos é um ministério de palavra e virtude a
todas as pessoas dentro e fora da comunidade cristã (Colossenses 3.12-17; 1 Tessalonicenses
5.15; 1 Coríntios 10.31-11.1). O chamado de Deus tem a intenção de mover a igreja de dentro
do espaço físico do templo para fora, para alcançar o mundo, conforme observa o bispo
anglicano Leslie Newbigin: “A igreja é o povo peregrino de Deus que corre por todos os cantos
da terra, instando todos os homens a reconciliar-se com Deus, e apressa-se em chegar ao fim do
tempo para encontrar seu Senhor, que reunirá todos em um.”251
249

Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (London, England: Oliphant, Anderson & Ferrier,
1906), 11.
250
Hendrik Kraemer, A Theology of the laity (Philadelphia, pennsylvania: Westminster Press, 1958), 127.
251
Leslie Newbegin, The Household of God (London, England, 1953), 25.

116

João Calvino e Missões
Um Estudo Histórico
Scott J. Simmons
Introdução
Existe uma duradoura tradição que afirma que Calvino e o movimento protestante primitivo não
tinham interesse em missões. Gustav Warneck escreveu no começo deste século: “Nós
perdemos com os Reformadores não apenas a ação missionária, mas mesmo a idéia de
missões... [em parte] porque perspectivas teológicas fundamentais deles evitaram que dessem a
suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma direção missionária”[1] Warneck chega a
afirmar que Calvino afirmou que a Igreja não tinha a obrigação de enviar missionários [2]. Seu
engano continua até os dias de hoje. Ralph D. Winter, por exemplo, escreve que os
Reformadores “nem mesmo falavam de missões estrangeiras” [3]. Ele afirma que o movimento
missionário protestante pode ser dividido em três eras: a primeira iniciando em 1792, com
William Carey, a segunda iniciando em 1865 com Hudson Taylor, e a terceira iniciando em
1934 com Cameron Townsend e Donald McGavran. O autor descreve os esforços missionários
até 1792 ao dizer “nossa tradição protestante nos levou durante 250 anos a pensar apenas em
nossos próprios negócios e nossa própria bênção (como o antigo Israel)”. [4]
Mesmo que estes ataques possam ser lançados contra muitas igrejas da tradição protestante, e
mesmo contra algumas igrejas calvinistas, é simplesmente falso dizer que João Calvino não
tinha interesse em missões. Na verdade, Calvino enviou centenas de missionários para a França,
o resto da Europa, e mesmo para o Novo Mundo. A discussão a seguir, portanto, não somente
demonstrará que João Calvino tinha uma coerente teologia de missões, mas provê um resumo de
como sua teologia o levou a agir em seus propósitos missionários através do mundo.
A Teologia de Missões de Calvino
Calvino nunca escreveu um tratado sistemático sobre sua teologia de missões. Entretanto, suas
Institutas, seus comentários e cartas contêm muitas referências à sua teologia de missões e seu
espírito missionário. Uma descrição acurada de sua teologia de missões pode ser reconstruída
destas afirmações feitas por Calvino em seus escritos. O que se segue nos trará um resumo de
sua teologia de missões, bem como respostas a objeções à sua teologia e como ela se
relacionaria com missões.
Uma afirmação positiva
A base para as missões cristãs, de acordo com Calvino, é o presente Reino de Jesus Cristo. Em
seu comentário aos Salmos e profetas, fica claro que Calvino considerava o reino de Davi como
a sombra do Reino maior que viria. Por exemplo, comentando Isaías 2.4, Calvino escreve: “a
diferença entre o Reino de Davi, que era apenas uma sombra, e este outro Reino” é que, “pela
vinda de Cristo, [Deus] começou a reinar... na pessoa de seu Filho unigênito”[5]. Comentando
Salmo 22.28, Calvino escreve: “esta passagem, não tenho dúvidas, concorda com muitas outras
profecias que representam o trono de Deus erguido, no qual Cristo pode assentar-se para
comandar e governar o mundo[6]. Este Reino presente de Deus, por meio de Cristo, é
pressuposto através de seus escritos quando ele fala da base para missões mundiais.
Uma importante dinâmica que toma efeito neste novo Reino é a destruição da distinção entre
judeus e gentios. Calvino frequentemente faz uso de Efésios 2.14 para insistir que a parede
divisória entre judeus e gentios foi quebrada e o Evangelho tem sido proclamado, de forma que
“nós [judeus e gentios] fomos reunidos juntos no corpo da Igreja, e o poder de Cristo é posto
para sustentar-nos e defender-nos”[7]. Desde que o reinado de Cristo se estende não somente

117
sobre os judeus, mas sobre o mundo inteiro, gentios são chamados junto com os judeus ao Seu
Reino[8]. É a inclusão dos gentios na comunhão de Israel que permite que o Evangelho do
Messias judeu seja proclamado aos gentios por todo o mundo.
A tarefa de Cristo enquanto governa a terra dos céus é subordinar a terra a Ele mesmo. Isto
acontece de duas formas. Primeiro, os réprobos que se recusam a submeter-se ao domínio de
Cristo “atacam” o Reino de Cristo “de tempos em tempos até o fim do mundo”, e ao mesmo
tempo eles se prostrarão aos Seus pés [9]. Segundo, os eleitos serão “trazidos para prestar uma
disposta obediência a Ele”, se submetem e se humilham-se diante dEle. Depois do último dia,
estes serão feitos “participantes com Ele em glória” [10]. Por meio desses dois métodos, o
Reino será estendido por todo o mundo. Em nenhum momento, o progresso do Reino será
barrado. Comentando Isaías 2.2, Calvino escreve que haverá “progresso ininterrupto” na
expansão de Seu reino “até que Ele apareça uma segunda vez para nossa salvação” [11]. O
Reino de Cristo, o “Reino invencível” será “vastamente estendido” porque Deus faz “sua
comitiva avançar para longe e numa larga estensão” [12]. Por toda a era da Igreja, de acordo
com Calvino, o Reino de Cristo será expandido por todo o mundo.
O meio pelo qual o Reino de Cristo é espalhado pela terra é através da pregação do Evangelho
às nações. Calvino escreve “não existe outra forma de edificar a igreja de Deus senão pela luz
da Palavra, em que o próprio Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. Até que
a verdade brilhe, os homens não podem se unir juntos, na forma de uma verdadeira igreja”[13].
Calvino insistia que os cristãos carregam a responsabilidade de espalhar o Evangelho. Ele
escreve “porque é nossa obrigação proclamar a bondade de Deus para todas as nações... a obra
não pode ser escondida em um canto, mas proclamada em todos os lugares” [14]. Embora Deus
pudesse ter usado outros meios, Ele escolheu “empregar a ação de homens” para a pregação do
Evangelho [15].
A teologia de missões de Calvino é, portanto, teocêntrica e cristocêntrica, focando a glória de
Deus em Cristo assim como a obrigação do homem. Tudo na vida deve ser vivido para a glória
de Deus. Enquanto a Igreja Católica usava obras meritórias e ascetismo como ferramenta de
motivação para missões, protestantes não usariam este tipo de motivação[16]. Para Calvino, o
fator motivacional de missões mundiais era a glória de Deus. Quando o Evangelho é
proclamado e aceito entre as nações, Deus é adorado e glorificado. Esta é a finalidade principal
do homem. Charles Chaney escreve sobre Calvino: “o fato de que a glória de Deus era o motivo
primordial nas primeiras missões protestantes e isto ter se tornado, mais tarde, uma parte vital
do pensamento e atividade missionárias, pode ser traçado diretamente em direção à teologia de
Calvino” [17].
Ataques contra a Teologia de Missões de Calvino
Muitos disseram que a teologia de Calvino era uma obstrução para missões, nos séculos XVI e
XVII. Dois ataques são comumente dados contra a teologia de missões de Calvino. Há um mau
entendimento quanto à Grande Comissão e sua doutrina da predestinação. Entretanto, estes
ataques refletem um entendimento pobre da teologia de Calvino.
A Grande Comissão
Alguns objetam contra o entendimento missionário de Calvino ao afirmar que Calvino cria que
a Grande Comissão (Mt 28.18-20) estava ligada apenas aos apóstolos do século I, fazendo
missões desnecessárias para as gerações futuras [18]. É verdade que Calvino interpretava a
Grande Comissão como se referisse ao ministério apostólico [19]. Entretanto, seu motivo para
interpretar a Grande Comissão desta forma não era diminuir a necessidade de missões no tempo
atual. Ele estava lutando uma batalha diferente – a saber, a batalha contra a doutrina católica da
sucessão apostólica. Calvino pretendia mostrar que o Apostolado era um munus

118
extraordinarium temporário que cessou após os Doze. A Grande Comissão era trazida à
discussão para argumentar contra o Catolicismo, não contra a atividade missionária [20].
Calvino nunca expressou a idéia de que os apóstolos completaram o mandamento missionário
de tal forma que a atividade missionária não é mais necessária. Ele via somente o princípio do
avanço do Evangelho para todas as nações completado pelos apóstolos [21]. Calvino escreveu
sobre o ministério apostólico: “Cristo, como sabemos, penetrou com velocidade assustadora, do
oriente ao ocidente, como o relâmpago, com o objetivo de levar à igreja os gentios de todas as
partes do mundo” [22]. Ainda assim, Calvino também escreveu sobre a necessidade da atividade
missionária no tempo presente. Por exemplo, comentando Mateus 24.19, ele escreveu: “o
Senhor ordena que os ministros do Evangelho vão para longe, com o objetivo de anunciar a
doutrina da salvação em todas as partes do mundo” [23]. Calvino também fez afirmações
similares em seus comentários sobre Isaías 12.5; 45.24; Mateus 24.14 e 2 Coríntios 2.12. Ainda
que houveram alguns após Calvino que ensinaram que o mandado missionário foi cumprido
[24], esta perspectiva não pode ser atribuída ao próprio Calvino.
Predestinação
Tem sido objetado que, se a doutrina da predestinação de Calvino é verdadeira, então não existe
razão para se envolver com missões, pois todos os eleitos serão certamente salvos e todos os
réprobos certamente serão condenados. Ruth Tucker, por exemplo, escreve em sua história das
missões cristãs que a doutrina da predestinação ensinada pelos calvinistas “fizeram missões
irrelevantes se Deus já escolheu aqueles que ele salvaria” [25]. Entretanto, de acordo com
Calvino, esta objeção se esquece da doutrina da palavra pregada. Calvino insistia que Deus
usava a pregação do Evangelho pelos homens para levar pessoas à fé. Calvino escreve:
“embora ele seja capaz de realizar a obra secreta de seu Santo Espírito sem qualquer meios ou
assistência, ele também ordenou a pregação externa, para ser usada como um meio. Mas para
torná-la um meio efetivo e frutífero, ele escreve com seu próprio dedo em nossos corações
aquelas palavras que ele fala em nossos ouvidos pela boca de um ser humano”. [26]
Não somente Deus ordenou a pregação de Evangelho como um meio de salvação, mas é o único
meio de salvação. Calvino escreve “Deus não pode ser invocado por ninguém, exceto por
aqueles que conheceram sua misericórdia por meio do Evangelho”. [27]
Além disso, Calvino insistia que o número de eleitos é desconhecido. Portanto, o Evangelho
deveria ser livremente proclamado a todos. Citando Agostinho, Calvino escreve “Porque não
sabemos quem pertence ao número de predestinados ou quem não pertence, devemos ter em
mente um desejo de que todos os homens sejam salvos” [28]. Desta forma, a pregação do
Evangelho às nações não é obstruída, mas encorajada. A vontade do homem está cativa à
vontade de Satanás (2 Tm 2.25,26) de tal forma que é impossível para alguém desejar sua
própria salvação. Entretanto, o pregador sabe que existem eleitos que serão salvos pela pregação
do Evangelho, por meio da obra interna do Espírito Santo [29]. Portanto, o pregador pode
proclamar o Evangelho com confiança de que os eleitos para a vida eterna atenderão ao
chamado.
Atividades Missionárias de Calvino
Certamente Charles Edwards estava correto quando afirmou que “A Reforma foi um movimento
missionário em uma grande escala internacional” [30]. Com a Reforma espalhando-se pela
Europa, a atividade missionária tomava lugar. O sacramentalismo do Catolicismo abriu caminho
para o verdadeiro Cristianismo baseado na sola scriptura, sola fide e sola gratia. Na verdade,
mesmo o entendimento católico do Evangelho não chegou a alcançar muitas classes sem
instrução. As Escrituras eram escritas em latim e as missas eram dirigidas em latim. Muitos

119
destes eram incapazes de entender esta língua, de forma que o Evangelho não era pregado a eles
de uma maneira inteligível. Com a Reforma espalhando-se pela Europa, a Bíblia foi traduzida
para as línguas comuns e os cultos da igreja eram inteligíveis para as massas. Povos nãoalcançados na Europa foram alcançados pelo o Evangelho com a Reforma. Os Reformadores
continuamente tinham de lutar por sua sobrevivência, lutando para estabelecer sua própria
identidade sobre seus adversários Católicos Romanos [31]. Ainda assim, mesmo com toda esta
confusão, Calvino foi capaz de fazer um esforço extraordinário para evangelizar a França, o
resto da Europa e mesmo o Novo Mundo.
França
Calvino teve uma paixão intensa pela conversão da França à fé reformada. Em 1553, Calvino
começou a enviar missionários para a França. Muitos destes missionários vieram à Genebra
como refugiados da França, enquanto a perseguição avançava. Logo depois de treinados por
Calvino em teologia, moral e pregação, ele os enviava de volta para plantar igrejas na França.
Estes esforços de Calvino tiveram um tremendo sucesso. Em 1555, existiam cinco igrejas
reformadas na França. Em 1559, haviam quase 1000. 1562, o número chegou a 2150 [32]. A
membresia total destas igrejas em 1562 é estimada em três milhões (com a população total da
França por volta de 20 milhões). [33]
Quando pedidos da França por novos ministros foram recebidos em Genebra, Calvino fez seu
melhor ao enviar pastores para preencher esses púlpitos. O Registro da Companhia de Pastores
menciona 88 homens que foram enviados de Genebra entre 1555 e 1562[34]. Entretanto, esta
não era uma lista completa. Alguns nomes foram mudados, e mesmo omitidos, para protegê-los
de uma possível perseguição religiosa. Também, entre 1555 e 1562, seria certamente uma tolice
guardar registros, por causa das perseguições. Além disso, pode ser determinado de outras
fontes que nada menos que 142 missionários foram enviados de Genebra (uma cidade de 20.000
pessoas) em 1561 somente[35]. O retrato que fica é que um incrível número de missionários foi
enviado por Genebra sob a influência de Calvino. Fred Klooster escreve que “a atividade
missionária que emanou de Genebra sob a influência da inspiração de Calvino foi de proporções
monumentais. Talvez seja o maior projeto de missões locais que a história viu desde a época dos
apóstolos”.[36]
Os esforços de plantação de igrejas eram tão bem sucedidos que chamou a atenção do rei da
França. Em 1561, Charles IX, o novo rei da França, enviou uma carta ao Concílio de Genebra.
A carta dizia que os pregadores enviados por Genebra estavam causando “sedições e dissensões
que estão perturbando seu reino”[37]. O rei então pediu que os pastores fossem chamados de
volta para que se mantivesse a paz na terra. Calvino respondeu ao rei dizendo que “nós nunca
fizemos tentativas de enviar ao seu reino pessoas como sua majestade afirma...de forma que
ninguém, com nosso conhecimento e permissão, tem saído daqui para pregar, exceto um único
indivíduo que nos pediu, para a cidade de Londres”. Ele admite que algumas pessoas têm vindo
a eles, mas eles são simplesmente instruídos a “exercitar seus dons onde quer que eles devam ir
para o avanço do Evangelho”[38].
O resultado dos extraordinários esforços de Calvino para evangelizar a França foi que uma
igreja protestante foi formada por meios pacíficos. Williston Walker escreve que “Uma grande
Igreja nacional, pela primeira vez na história da Reforma, foi criada independente de um Estado
hostil; e a obra foi a que Calvino deu o modelo, a inspiração e o treinamento”[39]. O sangue foi
derramado na França sobre a causa protestante. Entretanto, após o massacre em Vassy e a paz
de Amboise em 1563, Calvino escreveu: “eu aconselharia sempre que as armas sejam deixadas
de lado, e que nós todos pereçamos ao invés de entrar novamente nas confusões que temos
testemunhado.”[40]

120
Seu desejo de trazer reforma à França por meios pacíficos é também evidente em sua
correspondência com os reis Francisco I e Henrique II. Em 1536, três anos depois de sua
conversão, Calvino dedicou sua primeira edição das Institutas da Religião Cristã ao Rei
Francisco I. Nesta dedicatória, ele chama o rei para a conversão à fé protestante[41]. Em 1557,
Calvino escreveu ao Rei Henrique II explicando a fé das igrejas reformadas francesas. Nesta
carta, ele dá ao Rei da França uma breve afirmação de fé a fim de encorajar o rei a “ter
compaixão daqueles que buscam nada senão servir a Deus em simplicidade, enquanto eles
lealmente cumprem suas obrigações para com você”. [42]
O Resto da Europa
Genebra: Centro de Refúgio e Centro Missionário
Por volta de 1542, a Genebra de Calvino tornou-se um centro de refúgio. Protestantes de toda a
Europa, incluindo Holanda, Inglaterra, Escócia e Itália, iam à Genebra para refugiar-se da
perseguição religiosa. Em 1555, a população de Genebra duplicou. O próprio Calvino tinha
prazer em abrigar esses refugiados, mas às vezes era extremamente difícil acomodá-los. Calvino
escreveu uma carta a Farel datada de 1551: “Eu estou, por enquanto, muito preocupado com os
forasteiros que diariamente passam por este lugar em grande número, ou que vêm aqui para
viver... Você deveria nos fazer uma visita no próximo outono, você encontrará nossa cidade
consideravelmente maior – um espetáculo agradável para mim, se eles não me sobrecarregarem
com suas visitas”[43].
Ainda assim, a Genebra de Calvino pode ser considerada não apenas um centro de refúgio, mas
um centro missionário para a propagação do Evangelho e fundação de igrejas reformadas por
toda a Europa. Pessoas que vinham de toda Europa eram treinadas como missionárias e
enviadas de volta como ministros do Evangelho. Laman escreve que
“Por meio da ida e vinda destes refugiados, e por meio dos escritos evangélicos da imprensa de
Genebra, e tudo em latim, francês, inglês e holandês, a fé reformada foi exportada vastamente,
mesmo para Polônia e Hungria. Por correspondência, Calvino encorajou, guiou e dialogou com
essa diáspora de cristãos evangélicos que testemunhavam sob perseguição”.[44]
É impossível, dado o escopo deste documento, explorar em detalhes os resultados das ações de
Calvino por toda a Europa. Abaixo, no entanto, simplesmente traremos luz a alguns dos
envolvimentos de Calvino, focando somente a Holanda, Inglaterra, Escócia, Polônia e Hungria.
Holanda
Em 1544, Calvino enviou o primeiro missionário reformado à Holanda. Pierre Brully trabalhou
para estabelecer uma igreja reformada lá, mas foi martirizado depois de apenas três meses [45].
Luteranos e anabatistas fizeram alguns convertidos nas décadas de 1520 e 1530, mas os
calvinistas tiveram mais sucesso, possivelmente devido à forma calvinista de governo e
disciplina eclesiásticas[46]. Guy de Bray, que se encontrou com Calvino em Frankfurt em 1556,
escreveu a então chamada Confissão Belga em 1559. Esta confissão foi impressa em 1561 em
Genebra[47]. Esta confissão tornou-se a fundação para a Igreja Reformada da Holanda.
A Holanda produziu seus próprios missionários, muitos por meio dos escritos de Hadrianus
Saravia (1531-1613). Ele tomou para si a tarefa de desenvolver uma perspectiva reformada em
missiologia, mesmo que tenha sido influenciado de várias formas pelo sistema anglicano de
governo eclesiástico. Em 1590, ele escreveu um tratado intitulado “Sobre os vários níveis de
ministros do Evangelho como foram instituídos pelo Senhor”, em que argumentava contra a
visão de que a Grande Comissão terminou na era apostólica. Os escritos de Saravia
influenciaram mais tarde missionários na Índia, como Justus Heurnius (1587-1651).

121
Missionários foram enviados da Holanda à Índia quase duzentos anos antes que Carey
escrevesse seu Inquérito em 1792[48]. O trabalho de Saravia também influenciou os primeiros
puritanos na América, como John Eliot, que ministrou aos índios americanos na Nova
Inglaterra, durante o século XVII.[49]
Inglaterra
Calvino conquistou alguma influência na Inglaterra durante o reino de Eduardo VI, como
evidenciado em suas cartas a Cramner[50]. A aceitação à teologia de Calvino cresceu durante o
reino de Eduardo. Além disso, foi por meio do ministério de Calvino em Genebra aos exilados
por Maria que o calvinismo tomou lugar na Inglaterra[51]. Numerosos exilados foram aceitos
em Genebra durante o reinado de Maria. Pelo menos 50 exilados eram recebidos por dia em
1557. John Knox, um discípulo devoto de Calvino, que mais tarde retornou à Escócia em 1559,
pastoreou esses refugiados. Durante o reinado de Elizabeth, estes exilados retornaram à
Inglaterra com sua doutrina calvinista. O resultado eventual foi a formação do partido puritano e
a produção da Confissão de Fé de Westminster em 1646[52].
Durante o reinado de Eduardo VI, Londres também se tornou um centro de refúgio. Em 1550,
John à Lasco (ou Jan Laski), um nobre polonês e amigo de Calvino, foi colocado como pastor
sobre uma “igreja de estrangeiros” da França e Alemanha em Londres. A igreja de Lasco foi
formada de acordo com as ordens de Calvino para Genebra, mas com algumas modificações.
Calvino manteve um contato regular com a igreja de Lasco, que existiu até que Maria I a deteve.
Potter e Greengrass escrevem que depois do término da igreja, Lasco e outros membros “foram
importantes catalisadores para a reforma suíça na Europa”[53]. Muitos desses exilados foram
para Frankfurt e formaram uma congregação lá, em 1554. Lasco foi para a Noruega antes de
chegar em Frankfurt, para mais uma vez pastorear a “igreja de estrangeiros” de lá[54].
Em 1554, Lasco era superintendente das igrejas na Friesland oriental. Lasco encontrou-se com
Simon Menno, com o propósito de converter Menno e seus seguidores à fé reformada. Um
escritor nos diz :
“A discussão aconteceu em 28 a 31 de janeiro, de 1554, quando os artigos a respeito da
Encarnação, batismo, pecado original, justificação e chamado de ministros foram discutidos.
Apesar de os dois não concordarem em tudo, Menno e seus seguidores despediram-se de Lasco
de uma forma amigável. Menno prometeu apresentar uma confissão escrita a respeito da
Encarnação, e ele escreveu... uma breve e clara confissão e declaração escriturística a respeito
da Encarnação”[55].
Embora Lasco tenha mais tarde publicado esta confissão “sem o consentimento ou
conhecimento de Menno”, este debate demonstra o desejo de Lasco de converter mesmo os
reformadores radicais à causa protestante sem apelar para a violência.[56]
Escócia
O apoio de Calvino para trazer a reforma à Escócia foi por meio do ministério de John Knox.
Knox deixou a Inglaterra depois que Maria subiu ao trono, e chegou em Genebra em 1554. Ele
retornou à Escócia em 1555, numa tentativa fracassada de levar a Reforma, e então retornou
rapidamente à Genebra[57]. Em 1556, começou a pastorear uma congregação de fugitivos
ingleses em Genebra. Knox foi enviado de volta à Escócia em 1559 e estabeleceu com sucesso o
Protestantismo naquele país. Em 1560, o parlamento escocês derrubou a autoridade papal e
preparou a Primeira Confissão de Fé, que foi totalmente calvinista em sua orientação. A Igreja
da Escócia foi preparada segundo o modelo calvinista encontrado nas Institutas e na prática das
igrejas reformadas francesas[58].

122
Embora Calvino geralmente aprovasse John Knox e seu ministério, houve algumas tensões. Em
1558, enquanto Knox ainda estava em Genebra, ele publicou um panfleto sem o conhecimento
de Calvino intitulado O Primeiro Toque da Trombeta contra o Monstruoso Regime das
Mulheres. Este panfleto foi escrito em resposta ao reinado de Maria e afirmava que regentes
femininas eram contra a lei de Deus. Calvino baniu a venda do livro em Genebra. Quando
Elizabeth I tornou-se rainha em 1558, Calvino dedicou seu comentário de Isaías a ela, numa
tentativa de reparar as relações entre Genebra e Inglaterra. Entretanto, o estrago estava feito, e
em 1566, Beza afirmou que a hostilidade de Elizabeth contra o Calvinismo era resultado deste
incidente. Depois que Knox retornou à Escócia, Calvino continuou preocupado sobre a natureza
abrasiva e descompromissada de Knox. No entanto, parece que houve uma boa relação entre os
dois reformadores. Ainda assim a preocupação de Calvino sobre Knox demonstra sua mente
missionária. Calvino queria levar a Reforma à Inglaterra e Escócia em submissão completa às
autoridades devidas[59].
Polônia
Calvino teve muito sucesso logo no início da evangelização da Polônia. Em 1545, o Calvinismo
estava espalhando por toda a nobreza da Polônia. O próprio Rei Sigismund Augustus da Polônia
era um católico tolerante, “iluminado”, que tomou uma esposa protestante[60]. Calvino dedicou
seu comentário de Hebreus a ele em 1549. Ele escreveu: “seu reino é grande e renomado, e
abunda em muitas excelências, e sua felicidade somente então será sólida quando adotar a
Cristo como regente maior e governador”[61]. Calvino novamente escreveu a ele na véspera de
Natal de 1555 e dizia que “na Polônia, a verdadeira religião já começa a se desenhar entre as
trevas do Papado...”[62]. De fato, Calvino pregou o Evangelho ao Rei da Polônia e pediu a ele
para que encorajasse o trabalho da Reforma lá.
Embora Calvino e Sigismund Augustus permanecessem em bons termos, o rei nunca concordou
em permitir uma Reforma nacional. No entanto, John à Lasco (Jan Laski) retornou à Polônia em
1557, onde passou três dos últimos quatro anos de sua vida “em uma campanha evangélica para
criar uma igreja evangélica digna na Polônia”[63]. Lasco foi o reformador inicial na Polônia.
Ele inicialmente era um sacerdote e amigo de Erasmo, antes de tomar a tarefa de espalhar a
Reforma em muitos países, incluindo Inglaterra e Alemanha. Depois de seu retorno, ele se
ocupou de “pregar, sustentar sínodos, estimular a tradução da Bíblia para o polonês, e procurou
trazer as variedades do Protestantismo numa única estrutura eclesiástica.”[64]
De muitas formas, Lasco foi um líder protestante modelo. Kenneth Scott Latourett escreve que
ele “era uma alma pacificadora que gastou muito de si mesmo em busca de acordo entre os
protestantes”[65]. Calvino o via com um respeito similar. Ele escreveu a John Utenhoven, que
também trabalhava na Polônia, “eu estou completamente convicto de que ele trabalhará
confiante e energicamente no crescimento do Reino de Cristo”[66]. Embora os esforços de
Calvino e Lasco tenham alcançado um sucesso inicial, não durou muito após a morte de
Calvino. Conflitos com luteranos, anti-trinitarianos e jesuítas causaram o declínio do
calvinismo, que não deixou ao menos uma marca na Polônia”[67].
Hungria
O cenário para a Reforma na Hungria deve-se em parte a pelo menos três fatores. Primeiro, o
ministério e martírio de John Hus (1373-1415), cujos ensinamentos foram espalhados por toda
Hungria no século XV[68], e incitaram simpatia pela causa protestante. Segundo, 1541, todo o
Novo Testamento foi traduzido para a língua húngara. Terceiro, em 1536, o Rei Soliman, o
Magnífico, atacou a Hungria. Em 1526, o Rei Louise foi enfrentá-lo em Mohácz com apenas
27.000 homens – uma pequena fração do exército turco. O resultado foi um massacre, e o Rei
Louise saiu do país, deixando um vácuo no poder da Hungria. James Wylie continua a história:

123
Dois candidatos agora lutavam pelo trono da Hungria – John Zapolya, o nobre antipatriota que
viu seu rei marchar para a morte, mas ficou parado em seu castelo, e o Arquiduque Ferdinand da
Áustria. Os dois coroaram a si mesmos, e então se levantou uma guerra civil que, complicada
com aparições ocasionais de Soliman, ocupou os dois rivais por anos, sem deixar ninguém para
proclamar editos de perseguição. No meio destes problemas, o Protestantismo fez um progresso
rápido. Peter Perenyi, um poderoso nobre, aceitou o Evangelho, com seus dois filhos. Muitos
outros magnatas seguiram seu exemplo, e colocaram ministros protestantes em seus domínios,
construíram igrejas, criaram escolas e enviaram os filhos para estudar em Wittemberg. A
maioria das cidades da Hungria uniu-se à Reforma[69].
Por estes ou outros motivos, na década de 1550, o calvinismo foi estabelecido na Hungria. Em
1557 e 1558, um sínodo foi apresentado, resultando na Confissão Húngara, exibindo uma
distinta teologia calvinista. Em 1567, no Sínodo de Debrecen, a Igreja Reformada Húngara
adotou o Catecismo de Heidelberg e a Segunda Confissão Helvética[70]. O calvinismo
sobreviveu na Hungria, a despeito de muita perseguição, mesmo durante o século XVII, em que
a Contra-Reforma conseguiu muitos convertidos à fé católica. Entretanto, na virada deste
século, dois terços das igrejas evangélicas da Hungria são calvinistas em origem[71]. De quase
2,6 milhões de pessoas associadas a denominações cristãs na Hungria hoje (população de 10,5
milhões), aproximadamente 2 milhões são afiliadas à Igreja Reformada[72].
Missões além-mar no Brasil
Protestantes foram grandemente impedidos de qualquer tentativa para levar o Evangelho além
da Europa. Em 1588 (quando a Armada Espanhola foi derrotada) os espanhóis e portugueses
controlavam as navegações[73]. O Papa dividiu o Novo Mundo entre eles. A França resistiu ao
Papa neste assunto e enviou navios para o Novo Mundo[74]. Uma vez que esses países eram
católicos, eles não permitiam missionários protestantes navegando pelos mares com o
Evangelho. Como Gordon Laman notou, havia um tipo de “imperialismo religioso” unido ao
imperialismo político e comercial” da Espanha e Portugal[75]. Portanto, é incrível que Calvino
conseguiu enviar missionários ao Brasil.
Nicolas Duran, que recebeu o título de Villegagnon de seu pai, era um estudante com João
Calvino em Paris. No entanto, Villegagnon entrou para o exército e tornou-se Rei de Matal.
Mais tarde ele recebeu o cargo de Vice-almirante da Bretanha. Depois de uma disputa com um
governador, decidiu iniciar uma expedição colonial no Brasil. Villegagnon teve o auxílio de
Coligny, Almirante da França, que era um sustentador e protetor da Igreja Reformada.
Villegagnon lhe contou que desejava iniciar uma colônia que ofereceria proteção para
protestantes perseguidos na França. Isto convenceu Coligny, e Coligny convenceu Henrique II a
conseguir navios para a expedição[76].
Em 10 de novembro de 1555, Villegagnon partiu e depois de quatro meses, eles chegaram ao
Rio de Janeiro. Depois de sua chegada ao Brasil, ele enviou uma mensagem a Coligny pedindo
por reforço e por ministros para evangelizar os índios tupinamba. Coligny ficou muito feliz em
atender ao pedido. Ele escreveu a Calvino sobre o assunto, e de acordo com Baez-Camargo,
Calvino “viu uma maravilhosa porta abrindo-se para a extensão da Igreja de Genebra, e então
começou de uma vez a organizar uma força missionária”[77]. Dois pastores e onze leigos se
voluntariam para a missão. Eles deixaram Genebra em setembro de 1556 e chegaram ao Forte
Coligny (no Rio de Janeiro) em março de 1557.[78]
Os missionários genebrinos foram recebidos com alegria. Pierre Richier e Guillaume Chartier,
os dois pastores, começaram a organizar a igreja no Forte Coligny. Em 21 de março de 1557,
eles fizeram seu primeiro culto de comunhão. Villegagnon aparentava ser um líder protestante
modelo. Entretanto, as coisas logo começariam a mudar. Villegagnon começou a interferir com
os pastores em questões de disciplina e mesmo em “questões de fé”. Ele começou a exigir que o

124
batismo e a Ceia do Senhor fossem ministrados de uma forma similar aos ensinos católicos.
Para resolver essa situação, os dois lados concordaram em enviar Chartier de volta à Genebra
para discutir o assunto e Villegagnon disse que aceitaria o que Calvino dissesse sobre o assunto.
Entretanto, logo que Chartier foi enviado, Villegagnon começou a chamar Calvino de herege.
Ele também começou a punir os missionários genebrinos, sobrecarregando seus trabalhos na
construção do forte e sem dar comida adequada. A esta altura, Richier confrontou Villegagnon
face a face e contou a ele que os missionários de Genebra retornariam à cidade no próximo
navio[79].
Em janeiro de 1558, os missionários prepararam-se para voltar para casa. Ainda assim, cinco
dos homens de Genebra resolveram retornar à missão. Villegagnon inicialmente os recebeu
bem, mas então as atitudes estranhas aumentaram. Ele exigiu uma declaração de fé dos
calvinistas genebrinos. Quando recebeu a declaração, três dos cinco homens foram
estrangulados e lançados no oceano (os outros dois foram salvos porque Villegagnon precisava
de um alfaiate e um cozinheiro). Villegagnon mais tarde retornou à França em busca de
reforços, e em 1560, os portugueses atacaram e destruiram o forte, e a colônia francesa
terminou[80].
De todos os pontos de vista práticos, a missão no Brasil foi um fracasso. Ainda durante o curto
tempo em que os missionários genebrinos estavam no Brasil, tentativas de evangelizar os índios
foram feitas. Richier foi desencorajado pela natureza dos índios canibais. Ele os via como
“primitivamente estúpidos” e “incapazes de distinguir o bem do mal”. Ele também foi
desencorajado pela grande barreira da língua. Ainda assim, ele escreveu a Calvino: “uma vez
que o Altíssimo nos deu esta tarefa, esperamos que esta Edom torne-se uma futura possessão
para Cristo”[81]. Em um momento mais otimista, Richier reconheceu a oportunidade que teve
de evangelizar aqueles índios e escreveu a Calvino que eles eram “como uma tábua rasa, fácil
de pintar”[82]. Assim, Richir nunca abandonou seu desejo pela conversão dos índios.
Um dos leigos, um estudante de teologia chamado Jean de Léry, era menos pessimista. Ele
gastou tempo com as pessoas e tomou notas sobre suas crenças e costumes religiosos. Ele até
mesmo viu algumas boas características entre eles. Certa vez ele escreveu que “se nós
tivéssemos conseguido permanecer neste país por um tempo maior, teríamos sucesso e ganhado
alguns deles para Cristo”[83]. Léry deu um exemplo de uma vez em que ele cruzou a floresta
com três índios amigos. Compelido pela beleza do ambiente deles, Léry começou a cantar o
Salmo 104 “Bendize ó minha alma, ao Senhor”. Os índios pediram para que ele explicasse a
música. Léry não sabia o dialeto indígena muito bem, mas começou a explicar a música e o
Evangelho por uma hora e meia. Os índios se alegraram com o que ouviram e o presentearam
com um aguti (um tipo de roedor do tamanho de um coelho).[84]
Portanto, ainda que não houve um único convertido indígena na missão brasileira, a razão foi
mais falta de tempo do que falta de esforços. Calvino aproveitou a única oportunidade que teve
de iniciar uma missão no Novo Mundo. Embora a missão tenha falhado, esse esforço demonstra
o desejo de Calvino de ver o Reino de Cristo espalhado por todas as nações da terra. Calvino
nunca teve outra oportunidade de enviar mais missionários. Seriam os Puritanos ingleses do
século XVII que retornariam ao trabalho iniciado por Calvino.
Conclusão
João Calvino nunca apresentou uma teologia sistemática de missões em seus escritos.
Entretanto, mostrou-se que não somente uma teologia de missões coerente pode ser reconstruída
de seus escritos, mas que Calvino considerava Genebra como um “centro missionário” para
evangelização da França, do resto da Europa, e até mesmo do Novo Mundo. Talvez a razão para
não encontrarmos uma teologia de missões em seus escritos é porque missões eram centrais em
seu ministério em Genebra. Missões não era uma “seção” de sua teologia sistemática, era central

125
ao que ele tentava cumprir em seu ministério. Calvino daria uma definição do século XX sobre
o que um missionário deveria ser? Provavelmente, não, mas nem mesmo William Carey ou
Hudson Taylor dariam. O fato que permanece é que a teologia de Calvino e seus esforços
missionários constituem um passo importante em direção à missiologia protestante.
Depois de discutir os esforços missionários de Calvino, destacar o trabalho dos puritanos na
Nova Inglaterra e os missionários holandeses no oriente (para não mencionar as missões
morávias), deve estar evidente que uma quarta era de atividade missionária deveria ser
adicionada ao histórico de Winter, começando em 1544, quando João Calvino enviou seus
primeiros missionários à Holanda. Enquanto esta era possa parecer diferente quando comparada
ao movimento iniciado por William Carey (um calvinista), ainda assim merece um
reconhecimento adequado em qualquer história das missões protestantes.
NOTAS:
[1]Gustav Warneck, History of Protestant Missions, trans. G. Robinson (Edinburgh: Oliphant Anderson & Ferrier,
1906), 9, citado em Fred H. Klooster, “Missions—The Heidelberg Catechism and Calvin,” Calvin Theological
Journal 7 (Nov. 1972): 182.
[2]Ibid., 19.
[3]Ralph D. Winter, “The Kingdom Strikes Back,” em Perspectives on the World Christian Movement (Pasadena:
William Carey Library, 1992), B—18.
[4]Ralph D. Winter, “Four Men, Three Eras, Two Transitions,” em Perspectives on the World Christian Movement,
B—34.
[5]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32 (Grand Rapids: Baker, 1979), 98-99.
[6]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 4, Josué —Salmos 1-35, 385.
[7]Comentário sobre o Salmo 110:2, em Calvin's Commentaries, vol. 6, Salmos 93-150, 301; veja também seus
comentários sobre Isaías 45:22, Mateus 24:19, e Atos 8:1.
[8]Veja também o comentário de Calvino sobre Isaías 2:4, em Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 98-102.
[9]Veja também o comentário de Calvino sobre o Salmo 110:1, em Calvin's Commentaries, vol. 6, Salmos 93-150,
299.
[10]Ibid., 300.
[11]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 92.
[12]Comentário sobre o Salmo 110:2, em Calvin's Commentaries, vol. 6, Salmo 93-150, 300.
[13]Comentário sobre Miquéias 4:1-2, citado em Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John
Calvin,” Reformed Review 17 (Mar. 1964): 28.
[14]Comentário sobre Isaías 12:5, em Calvin's Commentaries, vol. 7, Isaías 1-32, 403.
[15]Comentário sobre Isaías 2:3, em Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,”
28.
[16]J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message: Some Remarks About the Relation Between Calvinism and
Missions.” Evangelical Quarterly 22 (Jul. 1950): 177.
[17]Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin,” Reformed Review 17 (Mar. 1964):
36-37. See also Samuel Zwemer, “Calvinism and the Missionary Enterprise,” Theology Today 7 (Jul. 1950): 211.
[18]Isto é sugerido por Ruth A. Tucker em Jerusalem to Irian Jaya: A Biographical History of Christian Missions
(Grand Rapids: Zondervan, 1983), 67.
[19]John Calvin, Institutas da Religião Cristã, 4.8.4; 4.8.8.
[20]J. van den Berg, “Calvin's Missionary Message,” 178.
[21]Ibid., 179.
[22]Comentário sobre o Salmo 22:27 , em Calvin's Commentaries, vol. 4, Josué —Salmos 1-35, 386.
[23]John Calvin, Calvin's Commentaries, vol. 17, Harmonia de Mateus, Marcos e Lucas, 384.
[24] Beza ensinou que os apóstolos levaram o Evangelho até mesmo à América. Veja J. van den Berg, “Calvin's
Missionary Message,” 179.
[25]Ruth A. Tucker, From Jerusalem to Irian Jaya, 67.
[26]John Calvin, The Bondage and Liberation of the Will: A Defence of the Orthodox Doctrine of Human Choice
against Pighius, ed. A.N.S. Lane, trans. G. I. Davies (Grand Rapids: Baker, 1996), 215.
[27]Veja John Calvin, Institutas da Religião Cristã, 3.20.12. Veja também 3:20.1; 3.20.11.
[28]John Calvin, Institutas da Religião Cristã, 3.23.14. Veja também, The Bondage and Liberation of the Will, 160.
[29]John Calvin, The Bondage and Liberation of the Will, 163-65.
[30]Charles E. Edwards, “Calvin and Missions,” The Evangelical Quarterly 8 (1936): 47.
[31]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” Reformed Review 43 (Aut. 1989): 53.
[32]Ibid., 59.
[33]Robert M. Kingdon, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France (Genève: Libraire E. Droz, 1956),
79.
[34]Prefácio a Robert M. Kingdon, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France.

126
[35]Philip E. Hughes, “John Calvin: Director of Missions,” Columbia Theological Seminary Bulletin 59 (Dec. 1966):
20.
[36]Fred H. Klooster, “Missons—The Heidelberg Catechism and Calvin,” Calvin Theological Journal 7 (Nov. 1972):
192.
[37]Robert M. Kingdon, Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France, 34.
[38]John Calvin, Selected Works, Vol. 7, Letters, Part 4, 168.
[39]Williston Walker, John Calvin: The Organizer of Reformed Protestantism 1509-1564 (New York: Knickerbocker
Press, 1906), 385.
[40]Ibid., 387
[41]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 58.
[42]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3, 372.
[43]Corpus Reformatum, XLII, col. 134, citado em G.R. Potter and M. Greengrass, John Calvin, Documents of
Modern History (New York: St. Martins Press, 1983), 123.
[44]Ibid., 59.
[45]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 59.
[46]W. Fred Graham, ed., Later Calvinism: International Perspectives, Sixteenth Century Essays and Studies, vol. 22
(Kirksville, MO: Sixteenth Century Journal Publisher, 1994), 386.
[47]Ibid. Veja também Williston Walker, John Calvin, 388.
[48] Os escritos de Carey provavelmente foram muito influenciados pelos escritos de Justus Heurnius. Veja Ibid., 63.
[49]Gordon D. Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 62-3.
[50]Williston Walker, John Calvin, 389.
[51]Ibid., 389-90.
[52]Ibid., 390-91.
[53]G.R. Potter and M. Greengrass, John Calvin, 134-35.
[54]Ibid., 138. Veja também Williston Walker, John Calvin, 393.
[55]Canadian Mennonite Encyclopedia On Line:
http://www.mhsc.ca/encyclopedia/contents/M4636ME.html.
[56] Ao mesmo tempo, deve ser percebido que Lasco cria que a teologia de Menno errava em muitos pontos da
verdadeira fé e poderia atrasar seu progresso. Em 1554, depois que alguns menonitas vieram ajudar alguns do grupo
de Lasco, a discussão entre os grupos terminou em hostilidade.
[57]Williston Walker, John Calvin, 392-93.
[58]G.R. Potter and M. Greengrass, John Calvin, 157.
[59]Ibid., 156-57.
[60]Williston Walker, John Calvin, 394.
[61]Charles E. Edwards, “Calvin and Missions,” 50.
[62]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3, 246.
[63]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3, 323-24 n. Veja também G.R. Potter e M. Greengrass, John
Calvin, 140-41.
[64] Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity, vol. 2, Reformation to Present (Peabody, MA: Prince Press,
1975), 793-94.
[65]Ibid., 891.
[66]John Calvin, Selected Works, Vol. 6, Letters, Part 3. Ibid., 325.
[67]Williston Walker, John Calvin, 394.
[68]James Aitken Wylie, Protestantism in Hungary and Transylvania, vol. 3, bk. 20. On line: http://www.
whatsaiththescripture.com/Voice/History.Protestant.v3.b20.html.
[69] James Aitken Wylie, Protestantism in Hungary and Transylvania, vol. 3, bk. 20.
[70] Encyclopedia Britannica, s.v. “Reformed Church in Hungary.” On line: http://www.britannica.com.
[71]Ibid., 395.
[72]Patrick Johnstone, Operation World (Grand Rapids: Zondervan, 1993), 268.
[73]Charles E. Edwards, “Calvin and Missions,” 47.
[74]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil , ” The Reformed Journal 17 (1967): 15.
[75]Gordon Laman, “The Origin of Protestant Missions,” 53.
[76]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil , ” 14.
[77]G. Baez-Camargo, “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America ,” Church History 21 (Jun.
1952): 135.
[78]Ibid., 136.
[79]Ibid., 138.
[80]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil ,” 20.
[81]Ibid., 17.
[82]G. Baez-Camargo, “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America ,” 140.
[83]R. Pierce Beaver, “The Genevan Mission to Brazil ,” 17-18.
[84]G. Baez-Camargo, “The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America ,” 141-42.

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Bibliografia - Trabalhos citados
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Traduzido por: Josaías Cardoso Ribeiro Jr.
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