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17/02/2016

A argumentação em filosofia

Abril de 1997 ⋅ Lógica

A argumentação em filosofia
Desidério Murcho
Oferecem­se neste apêndice alguns instrumentos complementares para a
redacção e avaliação de argumentos. Os instrumentos aqui expostos são
particularmente importantes para a redacção e avaliação de ensaios
argumentativos em filosofia, onde o risco de errar não é amenizado pelos
dados da experiência. Por este motivo, a ênfase é toda colocada nos
argumentos dedutivos. O objectivo é oferecer aos estudantes, sobretudo
os de filosofia, a possibilidade de exercer as suas faculdades críticas,
argumentando a favor do que pensam acerca dos mais diversos
problemas, teses e argumentos filosóficos.
A estrutura deste apêndice é a seguinte: as três primeiras secções tratam
da validade de argumentos e da avaliação de condicionais; as duas
secções seguintes apresentam duas falácias comuns que têm de ser
detectadas e evitadas; introduz­se depois algum simbolismo lógico, assim
como algumas regras de transformação, úteis para avaliar alguns
argumentos filosóficos; o apêndice termina com dois exemplos de
argumentos filosóficos que o leitor já pode agora avaliar, com os
instrumentos oferecidos ao longo deste livro.
Validade e correcção
Um argumento dedutivo válido é qualquer argumento dedutivo que
obedeça às regras da lógica, algumas das quais foram apresentadas no
capítulo VI. A definição semântica de argumento dedutivo válido é a
seguinte: um argumento dedutivo é válido se, e somente se, nos casos
http://criticanarede.com/fa_2_apendice.html

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 Mas já se torna claro o facto de este argumento ser válido se fizermos a seguinte consideração: precisamente pelo facto de as premissas não poderem nunca ser simultaneamente verdadeiras. Claro que se as premissas forem falsas. A validade dedutiva do argumento só nos garante a verdade da conclusão caso as premissas sejam verdadeiras.html 2/13 .  Logo. porque estas são inconsistentes. Considere­se agora o seguinte argumento: O mundo exterior existe. Logo. a conclusão tanto pode ser falsa como verdadeira. À primeira vista pode parecer que este argumento não é válido. Considere­se este outro argumento: Deus existe. os cépticos estão enganados. Deus existe. Por outras palavras. a conclusão é também verdadeira.  Logo. o mundo exterior existe ou o mundo exterior não existe. pois é isso precisamente que caracteriza os argumentos válidos. A indecisão nasce do facto de não ser possível atribuir a verdade simultaneamente às duas premissas. um argumento dedutivo válido garante que nunca podemos ter as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. Por exemplo: Se o conhecimento é possível.  O conhecimento é possível.17/02/2016 A argumentação em filosofia em que as premissas são verdadeiras. a conclusão também é verdadeira. Mas se http://criticanarede. apesar de poder parecer o contrário.  O mundo exterior não existe.  Logo. segue­ se que nunca podemos ter as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. os cépticos estão enganados.com/fa_2_apendice. o argumento é válido. este argumento é válido. Pela definição dada. Dada a verdade das duas premissas.

  3. a conclusão pode ser falsa? Bom. Verificar se é um argumento válido. Um argumento só é relevante se passar os três testes. e somente se: 1) todas as premissas podem ser simultaneamente verdadeiras; 2) a conclusão pode ser falsa. Logo. O objectivo destes dois exemplos de argumentos válidos que aparentemente não o são é distinguir a validade de um argumento da sua relevância. não é a validade dos argumentos tout court. quer estejamos a avaliá­lo.html 3/13 . Assim. Logo. eles não são relevantes.17/02/2016 A argumentação em filosofia tivermos mais atenção verificamos que se trata. é fácil ver que a conclusão nunca pode ser falsa. é um argumento válido. Temos assim de perceber que o que nos interessa num ensaio argumentativo. não é relevante. também não é falsa dada a verdade da premissa. Verificar se todas as premissas podem ser simultaneamente verdadeiras. quer estejamos a escrevê­lo. temos de usar a seguinte definição: um argumento dedutivo válido é relevante se. pela definição semântica dada. mas um caso especial de validade.  2. Verificar se a conclusão pode ser falsa. Condicionais http://criticanarede. a que podemos chamarrelevância. Porquê? Porque o primeiro é válido à custa da inconsistência das premissas; e o segundo é válido à custa do facto de a conclusão ser sempre verdadeira.com/fa_2_apendice. de facto. Perante um argumento dedutivo qualquer. Mais uma vez: dada a verdade da premissa. o leitor deve usar a seguinte rotina para verificar a sua relevância: 1. para decidir se um argumento é relevante. Apesar de os dois argumentos acima serem válidos. Se passar apenas um ou dois. de um argumento válido.

  8.  5. A só na condição de B.. Esta secção é útil para avaliar argumentos cuja estrutura lógica está escondida (geralmente atrás de uma hecatombe lexical que impede o leitor de pensar. assim como a regra C4: a clareza na exposição dos seus argumentos é fundamental.. que significa precisamente o mesmo que Se Deus não existe.  7. isto é. pois só servem para obscurecer o que de outra forma seria uma condicional facilmente compreensível — e também facilmente criticável. Algumas das formas de exprimir condicionais são de evitar. O primeiro facto: muitas vezes.html 4/13 . Outros factos menos evidentes: Se A. então. A somente se B. B é condição necessária de A.17/02/2016 A argumentação em filosofia As condicionais são canonicamente expressas na forma “Se.com/fa_2_apendice. como em Se Deus não existe. Mas a verdade é que existem muitas formas de exprimir condicionais. O leitor deve recordar as regras 2.  6. a ética não é possível. A implica B. Não se deve usar a lista acima para fazer variar a forma como.. Lembre­se da regra 6.”. então B pode exprimir se como 1.. se exprimem condicionais. que se http://criticanarede. B se A.  9. A só no caso de B. Esta secção oferece uma lista de algumas dessas formas. 4 e 6. A é condição suficiente de B. então a ética não é possível. A só se B. de avaliar criticamente o que o autor está a afirmar).  4. o “então” é elidido.  2.  3. ao longo de um ensaio. Só se B é que A..

 Por outras palavras. não afirme de seguida “C só se D”. porque é uma forma luminosa para um conteúdo obscuro (é como um automóvel com uma excelente pintura.com/fa_2_apendice. A diferença consiste agora em tomar a antecedente da condicional em vez das premissas. então D”. como Se não existir livre­arbítrio. uma condicional pode funcionar como um argumento válido se. Mas estar inscrito em Filosofia não é uma condição suficiente para passar a Filosofia. for uma verdade lógica. nos casos em que a antecedente é verdadeira. http://criticanarede. a responsabilidade moral não é possível.html 5/13 .17/02/2016 A argumentação em filosofia aplica também às partículas lógicas: se começou por dizer “Se A. e somente se. Um texto não é um espectáculo de variedades e a elegância literária não vale nada se for conseguida à custa da clareza. Ter 10 valores é uma condição suficiente para passar a Filosofia. A lista acima permite saber exactamente o que é uma condição suficiente (a antecedente de uma condicional) e uma condição necessária (a consequente de uma condicional). uma condicional pode funcionar como um argumento válido se. então B”. e somente se. e a sua consequente em vez da conclusão. O que costuma fazer mais confusão são as noções de condição necessária e condição suficiente. Mas ter 10 valores não é uma condição necessária para passar a Filosofia. Para avaliar a verdade de uma condicional usam­se precisamente as mesmas regras que se usam para avaliar a validade de um argumento. Argumentos e condicionais Muitos argumentos são expostos sob a forma de uma condicional. Assim. a consequente também for verdadeira. para tornar o texto variado; afirme antes “Se C. Mas os exemplos seguintes tornarão claras estas noções: Estar inscrito em Filosofia é uma condição necessária para passar a Filosofia. mas com o motor avariado).

 As duas condicionais anteriores são verdadeiras e relevantes. Se Deus existe.  Logo.  Logo. não exposta na lista do autor. és português de naturalidade. Falácia da inversão da condicional Uma falácia comum. então Deus existe. então B. Se Deus e o mundo existem. não existirá livre­arbítrio. mas as duas seguintes não são relevantes. Deus existe.  2. Se o mundo exterior existe e o mundo exterior não existe. aplica­se a mesma distinção que já introduzimos anteriormente: para que se aceite uma condicional verdadeira como relevante é necessário que a sua antecedente possa ser verdadeira e que a sua consequente possa ser falsa. substituí as frases de maneira a obter uma premissa verdadeira e uma http://criticanarede.  2. nasceste em Lisboa. Nos casos de condicionais com antecedentes ou consequentes complexos. apesar de serem verdadeiras: 1. então Deus ou o mundo existem. a responsabilidade moral não será possível. então o mundo exterior existe ou o mundo exterior não existe.html 6/13 . é a seguinte: Se não existir livre­arbítrio. Repare­se no método informal que usei aqui para tornar evidente que este argumento é falacioso: mantendo a sua forma lógica intacta. A forma lógica desta falácia é a seguinte: Se A. que tem a mesma forma lógica do que o anterior: Se nasceste em Lisboa. então A. se a responsabilidade moral não for possível.  Logo. se és português de naturalidade.17/02/2016 A argumentação em filosofia Note­se que uma condicional pode ter antecedentes ou consequentes complexos: 1. se B. É fácil verificar que se trata de uma falácia com o exemplo seguinte.com/fa_2_apendice. Se Deus existe.

 isso não implica que o argumento seja válido: pode sempre haver uma possibilidade em que o leitor não pensou. não só para não a cometer inadvertidamente nos seus argumentos. tem de haver um número que seja o sucessor de todos os números. http://criticanarede.17/02/2016 A argumentação em filosofia conclusão falsa.  Logo. o argumento será inválido. Falácia da causa única Esta é talvez a falácia mais popular. tem de haver algo que seja a causa de tudo. sintácticos ou semânticos.html 7/13 .  Logo. Como é uma falácia do cálculo de predicados. que não cabe aqui explicar. ou dos de outrem.  Logo. Mas as regras 24­29 abrangem as formas de raciocínio simples mais comuns. Mas a mesma forma lógica pode surgir inadvertidamente em vários argumentos. Se conseguir imaginar um caso em que todas as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa. Mas se não o conseguir. Este argumento é usado em particular para defender a existência de Deus. A única forma de saber inequivocamente que um argumento é válido é através de processos formais. que depois é identificado com a causa de todas as coisas. Verifica­se que este argumento é inválido considerando os seguintes exemplos. que têm a mesma forma lógica do que o anterior: Todas as pessoas têm uma mãe. O leitor com poucos conhecimentos de lógica pode sempre usar este método para testar a validade dos seus argumentos. Todos os números têm um sucessor. como para poder detectá­la nos argumentos das outras pessoas. Todas as coisas têm uma causa.com/fa_2_apendice. Mas é tão comum que o leitor deve estar alertado. tem de haver alguém que seja a mãe de toda a gente. Weston não a incluiu na sua lista.

 e também aqui o simbolismo ajuda. e das quais depende a sua validade. Por outro lado.17/02/2016 A argumentação em filosofia Nestes dois argumentos. que poderão servir como uma introdução à lógica. porque torna mais simples a sua avaliação. esta forma de argumento dedutivo não é válida..  Logo. tem de haver um y para todos os x. a premissa pode ser verdadeira e a conclusão falsa. Conhecer algumas delas torna­se importante para avaliar argumentos que não pertencem a nenhuma das http://criticanarede. Esta falácia é particularmente clara para as pessoas que sabem lógica formal. Existe pelo menos um objecto x que tem o predicado P: ∃x;Px As regras de transformação permitem­nos mudar as frases existentes para outras logicamente equivalentes. como “se. Se A. Logo.. as premissas são verdadeiras e as conclusões são falsas. “e”. As palavras­chave que ocorrem nos argumentos dedutivos.. na sua forma geral.”. Símbolos lógicos Apresento a seguir alguns símbolos lógicos e algumas regras de transformação básicas. Logo. Todos os objectos x têm o predicado P: ∀xPx  7. ajudarão qualquer pessoa a exercer o seu poder crítico sobre argumentos informais onde ocorra algum deste simbolismo.html 8/13 . A e B: A ∧ B (ou: A & B)  5.então.com/fa_2_apendice.. são operadores lógicos e simbolizam­se assim: 1. “ou” e “não”. Não A: ¬A (ou: ~A)  3. Os argumentos dedutivos podem ser muito complexos. sendo conhecida por falácia da inversão dos quantificadores. A ou B: A ∨ B  4.. Todos os x têm um y. A se e somente se B (ou: A se e só se B): A ↔ B  6. então B: A → B (ou: A ⊃ B)  2.

T1.  Logo. A ↔ B ≡ (A ∧ B) ∨ (¬A ∧ ¬B)  T7.com/fa_2_apendice. ¬(A ∨ B) ≡ ¬A ∧ ¬B  T11. Dois exemplos http://criticanarede.  Logo. A → B ≡ ¬A ∨ B  T3. A ≡ ¬¬A  T2.  A vida tem sentido. A → B ≡ ¬B → ¬A  T4.  Mas a vida tem sentido. B É agora claro que se trata de um caso simples demodus ponens: Se a vida tem sentido. A ↔ B ≡ (A → B) ∧ (B → A)  T6.html 9/13 . Este símbolo significa que o que está à sua esquerda pode substituir­se pelo que está à sua direita e vice versa. B. como: Ou Deus existe. ¬(A → B) ≡ A ∧ ¬B  T5. ou a vida não tem sentido. separadas por ≡. é agora fácil compreender que a forma do argumento original era B ∨ ¬A  A  Logo. Deus existe. Mas. Deus existe.17/02/2016 A argumentação em filosofia formas válidas apresentadas no Capítulo VI. A ∧ B ≡ B ∧ A Retomando o exemplo dado acima. Deus existe. as regras T9 e T2 permitem substituir a primeira premissa por A → B: A → B  A  Logo. Cada regra consiste num par de fórmulas. A ∨ B ≡ B ∨ A  T10. Listam se a seguir algumas regras para realizar estas transformações. ¬(A ↔ B) ≡ (A ∧ ¬B) ∨ (¬A ∧ B)  T8. A ∨ B ≡ ¬A → B  T9. ¬(A ∧ B) ≡ ¬A ∨ ¬B  T12.

 os problemas e os argumentos da filosofia só são respectivamente verdadeiras. não é algo que exista independentemente de uma história.com/fa_2_apendice. Esta ideia. de uma mentalidade. de uma língua; é antes uma manifestação de um tempo. de um lugar. seria descontextualizar a filosofia da sua história. e consequentemente a filosofia. O leitor percebe imediatamente que a tese P1 é verdadeira. já foi abordada na regra 7 e surge também na lista de falácias (falácia da palavra ambígua). é por vezes usada como premissa para a conclusão seguinte: C. que por ser tão forte precisa de ser cuidadosamente defendida; mas não da tese P1. http://criticanarede. de uma cultura. O nosso trabalho consiste na descrição contextualizada do que os filósofos escreveram. O filósofo. Mas esta falácia adquire por vezes contornos de uma razoável complexidade.html 10/13 . e não na discussão das teses. A teses. pertinentes e válidos no tempo em que foram proferidos. trata se sempre de usar uma certa expressão ambígua ou equívoca. No fundo. A ideia que serve de premissa a esta tese acerca do carácter histórico da filosofia é ambígua e pode substanciar­se em duas teses muito diferentes: P1. mas trivial. de uma sociedade. que são necessários argumentos poderosos para nos convencer da sua verdade. As teses. P2.17/02/2016 A argumentação em filosofia A ambiguidade. mas não depois disso. mudando depois a sua interpretação quando confrontados com argumentos desfavoráveis. que justificam um tratamento mais detalhado. porque isso seria não compreender o carácter histórico da filosofia. tal como os filósofos. A filosofia está de tal forma contextualizada historicamente que tem de ser avaliada no contexto histórico que a legitima. Repare se na seguinte ideia: P. aparentemente pacífica. ou equivocidade. os argumentos e os problemas da filosofia têm uma história e são influenciados por diversos factores históricos. não podemos argumentar nem discutir com os filósofos. E que a tese P2 é de tal maneira forte. argumentos e problemas que eles discutiram; não podemos concordar nem discordar. Acontece que a conclusão C só pode derivar­se da tese P2.

 Mas acontece que P1 não implica C. começar a pensar http://criticanarede. e é na verdade a teoria que sustenta todo o discurso. O que se observa por vezes é uma estratégia que consiste em defender C partindo da premissa P. Desta forma. mas sobre toda uma premissa. As coisas tornam­se ainda mais complicadas quando no plano teórico se defende a filosofia como uma actividade crítica e reflexiva.com/fa_2_apendice. o leitor está agora em condições de começar a discutir e a avaliar. tornando o estudante de filosofia num antiquário do texto filosófico.17/02/2016 A argumentação em filosofia que realmente não precisa de ser defendida. Confrontado com argumentos simples que contrariam P2. mas no plano prático se verifica que está subjacente a tese C. que identifica afinal a filosofia com a filologia. o autor da tese historicista defende­se afirmando que tem P1 em mente. cria­se a ilusão suficiente para parecer que se defende P1. pois isso mostraria imediatamente que se está a defender a interpretação P2 e não a P1. por ser trivial. C é o pano de fundo sobre o qual se constrói uma complicada teia de frases complexas. Na realidade. mas não P2. mas apenas P.html 11/13 . C está a todo o instante a ser sugerida e a ser suposta. isto é. que é na realidade a única interpretação de P que sustenta C. que é trivial. e que portanto não levanta objecções; mas retiram­se consequências de P2. mas nunca é claramente expressa. Ao invés. Com tudo o que já aprendeu com este livro. Repare­se que a estratégia é exactamente a mesma daquela que foi discutida na regra 7 e na falácia da palavra ambígua — apenas um pouco mais complicada porque a ambiguidade não reside agora sobre uma única palavra. tudo se torna ainda mais complicado porque em geral nunca se chega de facto a formular claramente a tese C.

 é uma evidência segura de que os cépticos se colocam numa perspectiva a que poderíamos chamar errónea. Na verdade. o conhecimento é possível. O objectivo a que deve dirigir­se é a verdade. já podemos discutir a sua validade. Por outro lado. abre­se um abismo dilacerante no seio mesmo desta questão. Uma vez clarificado o raciocínio realizado. O resultado desse trabalho é o seguinte: Se o universo existe. a conclusão só tem de ser admitida como verdadeira se se admitirem como verdadeiras todas as premissas. nem à negação do Nada. Repare­se que mesmo que este argumento seja válido. com tudo o que ele contém. para depois discutirmos a verdade das suas premissas e da sua conclusão. Quero deixar como exercício ao leitor a discussão crítica deste argumento. Mas para isso impõe­se uma ajuda. ou o Todo. Repare na forma obscura como o argumento está originalmente expresso. o que. assegurando assim a facticidade do próprio Ser e a eloquente negação do Nada. os cépticos estão enganados. faça­o da forma mais clara possível. convenhamos.  Ou o conhecimento não é possível. Se não quer que as suas ideias sejam discutidas.  Logo. através duma espécie de espectáculo de variedades lexical. não as exprima; se as exprimir. escondendo o raciocínio realizado.com/fa_2_apendice.17/02/2016 A argumentação em filosofia sobre os argumentos. pois a própria intangibilidade teorética do conhecimento se apresenta em alternativa paralela à intangibilidade da perspectiva céptica. teses e problemas filosóficos. não corresponde à própria existência do Todo.  Mas o universo existe. existe.html 12/13 . e não a http://criticanarede. ou os cépticos estão enganados. o conhecimento é uma possibilidade em aberto se o Universo. Tomemos um exemplo: O próprio facto de o Universo existir. O resultado desta forma de expressão é a inibição das faculdades críticas do raciocínio e a consequente falência da possibilidade de discussão. O primeiro passo para avaliar este argumento consiste em pôr a descoberto o que realmente está a ser afirmado.

Por outro lado. http://criticanarede. (É também por isso que deve escrever os seus argumentos o mais claramente possível: para que os seus leitores possam ajudá­lo a descobrir os erros que você não foi capaz de descobrir sozinho.br Texto retirado de A Arte de Argumentar. 1996).com/fa_2_apendice. No final verificará que ganhou duas coisas: treinou a sua capacidade crítica e. mesmo que não tenha descoberto uma tese.) Desidério Murcho desiderio@ifac. nem o recuse liminarmente como ininteligível. um problema ou um argumento interessantes. Faça um genuíno esforço de compreensão. Procure pôr a descoberto o raciocínio subjacente; avalie a sua validade; e discuta depois as suas premissas e a sua conclusão o melhor que puder. a descoberta do erro é um passo muito importante.ufop. quando se deparar com um argumento deste género. de Anthony Weston (Lisboa: Gradiva.17/02/2016 A argumentação em filosofia ilusão de que a alcançou só porque se exprimiu de forma tão obscura que ninguém foi capaz de reagir criticamente ao que afirmou. Na procura da verdade. não se deixe amedrontar. ou alguns disparates contra os quais ficou entretanto alertado. algumas trivialidades.html 13/13 . descobriu pelo caminho alguns erros.