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BORGES, LEITOR ~ DO QUIXOTE Joao Alexandre Barbosa [~ Comecei a escrever quando tinka seis fete anos. Tentei imitar escritores cléssico spanhbis ~ Miguel de Cervantes, po peemplo. (...) Minka primeira histéria fo wma obra sem sentido & maneira de Cervantes, 1m romance & moda antiga, chamado La viseral fatal. (Jorge Luis Borges, “Um ensai sutobiografico”, Elogio da sombra. Um] snsaio autobiogréfico, editora Globo). Até onde pude averiguar,entretanto, ‘ervantes por Borges esté num artigo, | Bjercicio de andlisis”, do livro El tematic mi esperanza (ainda inédito em portugués). Na verdade, é um pequeno texto de eitura de dois versos de ui soneto com- osto por um dos muitos personagens que surgem por entre as diversas histéria aralelas com que escrtor ia semeand percurso das andangas de Dom Quixot de Sancho. Procedimento semelhante de leitura que esté no segundo texto de Borges! RRefiro-me ao ensaio “Indagacién de l palabra, dolivro £2 idioma de los argent também inédito no Brasil). Partindo di sma indagagio de ordem gramatical, de imediato é proposto o tema de sua flexes: Mediante qué proceso pscoligic ntendenas una oracién? Di. Borges: Séas sa frase conocidisima y de claridad no dudosa: “En un lugar de la Mancha, de exyo nom 10 quero acordarme,. Segue-se, entio, a anélise atomizad cra manifesta piibica de leitura de He cada um dos vocabulos, com a diferenc: Barges ne es cngsenie He que agora ndo se perde jamais de vist p contexto de que sio provenientes. Mas aqui neste texto néo se vai alé Ha tentativa de responder a indagacid briginaria. E como se Borges afinasse og feus instrumentos de andlise para futuro ‘oncertos mais ambiciosos. Assim, indicacéo de que, ainda que seja de um: Kinica oracdo, entra em jogo todo um -omplexo proceso de percepgio di totalidade, estabelecendo-se, deste modo, uma tensa relagio com a particularidade. IE esta tensio nio se dé apenas em termog spacias, isto é, no modo de organizacid specificamente gramatical dos termos ago, mas temporas, de tal maneira qui compreensio termina por solicitar fnvolvimento, num s6 ato de leitura, ronologias diversas de uma nica orga izagho psicolbgica pela qual se perfila itor Como néo ver aqui, em germe, aquel efuagin da tempo que vai aingit 0 se nite precisamente ao retomar o livro de, Cervantes pela reescritura de Pierre jénard? Mas antes de crar o famoso texto dod inos 30 € 40, ele ainda se aproximaria dd jixote através de um outro ensaio dos nos 20 ¢ agora decididamente enfren- ando a construcio poética da narrat ervantina, Trata-se do artigo “La conduct jovelistica de Cervantes”, incluid ambém no lio ET idioma dels argentns| que chama de conducta novelistica de ervantes & 0 método, por ele uilizado| ara provocar no leitor uma reaccién compasiva 0 hasta enojada frente a la indignidades sn fn que injurian al héroe, Para chegar a isso, entretanto, ainda sia preciso passar por seguidas reflexdcx cerca do proprio processo de leitura nvolvido nae pela matéria que fz do sonhd im principio fundamental da realidade (in Ieitura que nfo apenas decifra, ma cif, escrevendo, a obra que se Ie E 0 momento culminante dessa pas agem é representado pelo quarto texto da elacoes explicitas entre Borges ¢ Cer} BICOL iste resi Corn ke Sberten ) 3:25( 44.99) D classico de Cervantes ocupa lugar entral na obra de Borges e aparece em liversos artigos dos anos 2m “Pierre Menard, autor do Quixote’, jue estabelece um interv: ? a narrativa que transforma o ato da leitura 2m elemento indissociavel da escritura » das ficciones borgianas 20, culminando alo entre o ensaio svaneesoncunoafBERERE antes: “Pierre Menard, autor do Qui] ue”, que esté em Ficgées (incluido n slume I das Obras completas de Borge ela editora Globo). A diferenga dos outros trés texto: msiderados, com uma distancia de mais : dez. anos, este quarto texto nao € sot ervantes, nem a utiizacko exemplar de xto cervantino. Mais ainda: nao é un igo de critica como os demais. Com tué-lo? Creio que a melhor maneira imegar por sua origem, ¢ ela esta descrit lo proprio Borges em pigina de “Un saio autobiogréfico”, em que, depois de latar 0 sério acidente doméstico qui freu, acrescenta: Quando comecei a me reeyperay; temi por ina integridade mental. Um pouco depois} rguntava-me a mim mesmo se poderial rever de novo. Havia antes escrito alguns} rmas ¢ dias de pequenas resenhas. Pense tse lentasse escrever agora uma resenha ‘hase, fatharia intelectualmente por npleto, mas se tentasse alguma coisa que eul wea tvese fit antes efahasie ndo seria td me paderia até mesmo me preparar para a elagao final, Decidi que tentariaescrever conto, O resultado foi “Pierre Menard, or do Quixote”. E acrescenta: Pierre Menard, como seu| cursor ‘A apraximagio a Almetdsin, era da uma construgao intermediéria entre tia ea verdadeira narrativa, E quase a definigio daquilo que serd para Borges ¢ que caracterizard ivro com 0 qual assumiu a sua singw Jaridade na literatura do século. Na verdade, por mais que tenha s proximado do que chama de *verdadeira harrativa” em textos anteriores ou pos iotes a0 “Pierre Menard? a brecha, o intervalo, entre o ensaio € a narrativa, ossibilitando, entre outras coisas, faze Ha Ieitura um elemento indissociavel d répria operagio de escritura, & 0 trag iglutinador de suas fccones Sendo assim, jé o primeiro parigraf Ho texto borgiano € revelador A obra visivel que dexou este romancis # de fil e breve enwmeragéo. Mais (ou menos) do que um roman sta, © personagem, precisamente pel Jetura da “obra visivel”, onde nio const im tinico texto sequer de ficgdo narrativa antes um autor de ficiones nos termo: “om que o narrador enaltece a sua contri nigho final Menard (talvex sem queré-lo) enriquecen| Jnediante uma técnica nova, a arte fixa pudimentar da leitura: a técnica do anacronismo) iberado e das atrbuigieserréneas. Situado entre 0 ensaio ¢ a verdadeira rrativa, o “Pierre Menard” encontra 10 Quixote o correlato mais adequado para exercer no intervalo dos dois. O Quixo omega a ser visto como suma de um: pectice em que a ficcionalizagio d ealidade inclui a da leitura, sobretud iquela que se opera pela utilizagao d: écnica inventada por Menard. prino, quer em trechos mais sutis, como Aspectos particulares dessa suma em] ue, para Borges, vai se constituindo o| Juixote serdo retomados € especificados or ele no texto “Magias parciais do uixote”, publicado no volume Ouiras| iuqusiges (volume I das Obras completa le Borges pela Globo) Na verdade, partindo da afirmagio de we “o Quixote €realsta”, texto borgiano| uusca, em primeiro lugar, acentuar a| listingfo entre orealismo que ali se contém) aquele outro praticado pela tradigio ealista do século XIX. cerne do ensaio de Borges esta em| ensar 0 modo pelo qual foi Cervantes apaz de encontrar uma estratégia nar- rativa que possibilitasse a figuragio dol ynaravilhoso, do sobrenatural, sem pro- ‘ocar uma fissura no arcabouco realista is Quixote. Ou, como ele mesmo diz: ‘er vantes nda podia recorrer a talismas nem a portilégios, mas insinuow o sobrenatural de modo} uil 6 por iso mesmo, mais efcaz. Aspectos dessa estratégia € 0 que hama de “magias parciais do Quixote”. E| patie dessas magias esté em que, como] ssinala Borges, Ceruantes compraz-se em! fonfndir o objetivo e o subjetivo, 0 mundo do citor ¢ 0 mundo do livro, Esta confusdo prazerosa para o autor! anifesta-se quer em episédios explicitos, {como aquele que compée o capitulo XX1, la primeira parte, gue trata de la alt mtura y rica ganancia de yelmo de mam stasis Case Dore para Das Quiet primeira parte, em que a Galatea, de ‘ervantes, é julgada pelo barbeiro du- bante o escrutinio que realiza, com 0 cura, Ha biblioteca do engenhoso fidalgo. O rbeira,sonho de Cervantes, ou forma de wm ci de Cervantes, julga Cervantes ie ‘que esté no sexto capitulo, também Mas é na segunda parte do Quixote que ges vai encontrar a culmindincia dessa bstratégia cervantina: as protagonists learn primeira [part], a protagonisas do Quixote dio, também, leitores do Quixote.” Confuundidos “o mundo do leitor ¢ 0 wundo do livro”, a estratégia narrativa [re Cervantes tem acapacidade de trans formar Borges, seu leitor, em seu autor, sm os riscos da tautologia que, com ou sm 0 seu consentimento, corria 0 per- sonagem Menard, traduzindo uma poética da leitura, como queria Rodriguez lonegal, em poética out court. Por outro lado, encontrava Borges 0 aminho pelo qual podia melhor embasar sua critica as leituras parédicas do fe, nna medida em que, sendo letores plicitos de si mesmos, os personagens ervantinos péem no mesmo nivel ficcio- al as novelas de cavalaria com que, sem |hivida, dialogam, e a novela de que sio pprotagonistas. Mais ainda: em “La con- Hlucta novelistica de Cervantes”, Borges mnotava como uma das conseqiéncias das cituras parédicas o fato de que termi- triam por negar & obra una permanencia (conclu, Fimitariam a sva leitura & deci fracio de paralelos com a tradicio dal novela em que a obra se inseria, ‘A deteccio de uma outra estratégia arratva, qualificando de realista a obra para terminarafirmando o que i de maravilhoso le de sobrenatural em todo o processo de ficcionalizagio, permite pensar na novela como um aspecto de sutil e engenhoso mecanismo de refutaclo e, portanto, capaz Ide ter na permanencia larga en el tiempo. Borges ainda voltard, com variagoes, a este tema de suas meditagées sobre 0 Quixate| ‘numa conferéncia, pronunciada em inglés, ina Universidade do Texas, em Austin, em) 1968, e que foi republicada recentemente| pelo Diario de Poesia de Buenos Aires. ‘Antes desta conferéncia, entretant, foi possivel marcar a presenga de Cervantes na obra de Borges pela leitura de dois textos Ipublicados em O fazedor,livro de 1960 (volume I das Obras completas): “Um| problema” ¢ “Pardbola de Cervantes ¢ de Quixote” Entre estes textos dos anos 60 € os |poemas, dos anos 70, em que evoca al presenga de Cervantes e do Quixote, situa-| se a conferéncia mencionada, na qual Borges retoma, as vezes amplia, € com! freqiiéncia melhor esclarece, alguns ;pontos que foram sendo disseminados em textos anteriores sobre 0 Quixote. De certo modo, trata-se de acrescenta| algumas outras “magias parciais” ao| lensaio de Outras inguisgées. Assim, logo de inicio, retoma aquilo que Ihe parece ur trago muito especial da conducta narra de Cervantes isto 6, fazer com que, sentind. a solidio do personagem, o leitor sej induzido a uma reagio de compaixio para com ele e que Borges, nesta conferéncia qualifica como de amizade. Sin embargo, siempre hay placer, sem shay una suerte de felicidad cuando se habla de tumamigo. ¥ erco que todos podemos considera a Don Quijote como un amigo. E esta amizade, diri em seguida, est alicergada no fato de que Cervantes fo capaz de criar um personagem com o qual 6 leitor se identifica de tal modo qu mesmo que se saiba menos dele do que de ‘outros personagens famosos da literatura ele é melhor conhecido. Diz Borges: ¥ tal vex, después de leer Ulises, conocemos cientos de cosas, cientos de hechos, cientos de circunstancias acerca de Stephen Dedalus y Leopold Bloom. Pero no los conocemas como Don Quijote, de quien sabemas mucho menos: E € de tal maneia intenso 0 modo pel qual se sente a realidade do personagem, do qual Cervantes nio se interessou ¢ explorar sequer a psicologia que pudess sugert as razbes de sua loucura(merament ase uese voi loca. Y masts ecreemas)} ‘que as aventuras do cavaleiro sio vistas por Borges, num lance de grande belezae finura critica, como meras adjetivas de Don Quijote Finalmente, retoma, dando-Ihe outros contornos originais, aquela magia central cde Outras inguiigies:e hecho de qu, tal come ga en el tiempo, desde que, é de se Miguel de Cervantes ente Tabla todo eT tiempo del teatro en ale, la gente habla todo el tempo de libros Don Quijte,criando-se, entio, como era observado, aquela prazerosa “confusio tre 0 mundo do leitor e o mundo do ro”. E Borges arremata: Asi que es como si Cervantes exteviera loel tiempo entrandoy saliendo fugazonente su propio libro y, por supuesto, debe haber frntado mucho su juego Estava preparado 0 caminho para que desse encerrar a sua conferéncia com ta nota magistral de articulagio entre satura € Felicidade Cre que les hombres seuivén pensando en m Quite porque después de tao hay wna cosa + no queremos alvidar: ama casa que nas da ade tanto en tanta, que tl vee nas a quit, ew casa es la ficidad. Y, apesar de los muchos tunis de Don Quit, libro nx da como timiento final la flicidad(...) Siempre pienso made las casas flies que me an ocurvid en vida es haber coco a Dam Quit. Conhecimento que se completa com dois poemas de O aur das igres (volume das Obras completas), com 0s quais cro encerrar este meu périplo pela obra Jorge Luis Borges. O primeiro € figuel de Cervantes” Crueles estrellas y propicias estrellas Presidieron la noche de mi génesis, Dabo a tas iltimas la edveel En que soié ef Quijote (*Cruéis estrelas e propicias estrelas/ ssidiram a noite de minha génese;/ [Devo s iltimas o cércere/Em que sonhel lo Quixote”) ‘O segundo é “Sueia Alonso Quijano”: El hombre se despierta de un incerto Sweio de alfanjes y de campo Hano ¥ se toca la barba con la mano Y se pregunta se esd herido 0 muert, No lo persegirn las hechiceras (Que han jurado su mal bajo la luna? ‘Nada. Apenas el fia. Apenas una Dolencia de sus aos potrimeros, El hidalgo fue wn suet de Cervantes ¥ Don Quijote wn suet del hidalg. El doble suet los confide y algo Esté pasando que pass mucho antes. Quijano duerme y suena. Una batalla: as mares de Lepanto y la metvalla, (‘Sonha Alonso Quijano”: “Desperta jaquele homem de um indistinto/ Sonho |de alfanges e de campo chio,/ Toca de leve la barba com a mao/ Duvidando se esté ferido ou extinto,/ Nao irio persegui-lo| 0s feiticeiros/ Que juraram sew mal por sob a lua?/ Nada. O frio apenas. Apenas sua/ Amargura nos anos derradeiros,/ Foi Jo fdalgo um sonho de Cervantes/ E Dom ]Quixote um sonho do fidalgo./ © duplo| sonho 0s confunde e algo/ Esté ocorrendo {que ocorreu muito antes./ Quijano dorme sonha. Uma batalha:/ Os mares de Lepanto e a metralha.”) a Este texto repro parcalmente aquele que foi apresentado no evento “Borges ~ Cem ‘Anos", realizado na USP em maii99, e seri publicado imegralmente nos ana do evento Confundidos “o mundo do leitor le o mundo do livro”, a estratégia narrativa de Cervantes tem la capacidade de transformar Borges, seu leitor, em seu autor KONA c nce eet Emenee forma, Opus 60 (Livraria Duas erro) CU a Trea oat Troe Tetras SEE ER re aenet este de Filosofia Toone Cetera ono CRT universidace, Joao Alexandre eee eee et Caryn er eat eet