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Referencia para citar este articulo: Dos Santos, R. M., Nascimento, M.A. & Menezes, J. de A. (2012). Os sentidas da escola piblica para jovens pobres da cidade do recite, Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niftez y Juventud. 10 (1), pp. 289-300, Os sentidos da escola publica para jovens pobres da cidade do Recife” Rusewrze Maria pos Santos” Grupo do Estos e Pesquisas sobre Poder, ula Prteas Coletivis(GEPCOL/UFPE), Resi Brasil Maia Aparecipa Nascrento™ ‘rape do Estudos e Pesquisas sobre der, ultra ePrteasColtvas(GEPCOL/UFPE), Recife, Bras Janen ve Aratso Menezes” ‘Universidade Federal de Pernambuco, Bra Articulo recibido en noviembre 28 de 2011; articulo aceptado en marzo 7 de 2012 (Eds.) + Resumo: O presente artigo reflete sobre os sentidos da escola para jovens pobres no contexto da educagao piiblica no nordeste do Brasil. A literatura sobre juventude comumente relata um encontro tenso entre os jovens ea escola, Em uma perspectiva qualitativa, observamos uma sala de aula do Ensino Médio e convidamos os/as estudantes para produedo de narrativas sobre a escola real, ideal ¢ possivel. A aniilise desdobra-se a partir de cinco eixos: Organizagao ¢ disciplina; Infraestrutura; Qualidade de ensino e profissionalismo dos professores: Ineragdes sociais; e Escola e projeto de vida, Apesar das dificuldades que vivenciam os jovens consideram 0 processo de escolarizagdo importante para a realizagdo de seus profetos de vida e valorizam a escola pela sociabilidade que ld experimentam. Palavras-chave: jovens pobres, escola plibliea, projetos de vida. El sentido de la escuela publica para nifios pobres de Recife + Resumen: En este articulo se reflexiona sobre el significado de la escuela para nifios pobres en el contexto de la educacién ptiblica en el noreste de Brasil. La literatura sobre la juventud comiinmente reporta una tensa relacién entre los jévenes y la escuela, Desde un punto de vista cualitativo, se observa un grupo de un aula de escuela secundaria y se invito a los estudiantes para la produccién de narrativas sobre la escuela ideal. El andlisis se desarrolla a partir de cinco dreas: organizacion y disciplina, infraestructura, calidad de la educacién y la profesionalidad de los docentes, las interacciones sociales, y la escuela y el proyecto de vida. A pesar de las dificultades que los jévenes encuentran el proceso de la experiencia educativa es importante para la realizacién de sus proyectos de vida y por la soctabilidad que experimemtan alli. Artigo de efexdo prot de pesquisa de Conclsto de Curso de Gradua em Poggi das ds prmcis autores sh nna deri ‘ors. Pesquisa realzada no periode de agosto de 2010 ju de 2011 Gradua em Pedagogia- Cento de Edsags0 - UEPE,Mrrnhacida@ hotmail.com Graduadn em Pea i- Ceo de Educapao- UFPE.rubenizemaria@bounall com Mest ¢ Doutora em Psicologia polo Instiuin de Psicologia da Universidade Fedral do Rio de Janoire. Professora Programa de Pos trade cm Psicologia do CFCH edo Departamento de Psicologia e Orienlagdes Educacionais do Canto de Eocagao da UFPE. jails {erracom br Ia emnnt te pucxoneamponinde Med — Rowexize Manis bos Savros = Manns Arawecros Palabras cl sscruenra = duet De Anata Mevezes jovenes pobres, escuela piiblica, proyectos de vida. ‘The meaning of public school for poor children from Recife + Abstract This article reflects on the meaning of school for poor children in the context of public education in northeastern Brazil. The literature on youth commonly reports a tense relationship between the young and the school. From within a qualitative perspective, we observed a high school classroom and invited students to produce narratives about an actual school, as real as possible. The analysis unfolds in five areas: organization and discipline, infrastructure, quality of education and ‘professionalism of teachers, social interactions, and school and life project. Despite the difficulties experienced hy young people, they find the educational process important for the realization of their life projects and value the schoo! by its sociability experience, Key words: young poor, public school, life projects. -Introdugao. -1, Referencial teorico. -2. Metodologia. -3. Resultados. -4. Consideragoes finais, -Lista de Referéncias. Introdugao © interesse pelo tema juventude pobre ¢ escola piblica surgiu de uma experiéncia das duas primeiras autoras do artigo com aeducagio, de jovens na rede de ensino da Prefeitura do Recife, no Projeto Alfa Letramento. O propésito do projeto era sanar o alto indice de defasagem em que se encontravam os alunos do 3°. € 4°. ciclos, e voltava-se para pré-adolescentes & adolescentes com dificuldade na aquisigao da leitura e escrita. Na ocasiio chamou-nos a atengao 0 quao discrepante é a relagao entre 0 jovem eaescola, ea falta de comunicagao entre ambos. Mediante isso, mobilizou-nos_a necessidade de conhecer as demandas da juventude contemporinea, particularmente, da juventude das camadas populares, imersas em redes especificas de simbolizagdes, bem como ‘0 desejo de verificar o que a Lei de Diretrizes e Bases da Educagdo (LDB) assegura acerca da juventude circunscrita na condigao de pobreza e o que ocorre na pritica, na realidade dos jovens alunos, Consideramos importante conhecer como esses jovens encaram a escola; os sentidos que Ihe atribuem; e os instrumentos, meeanismos, de que a escola dispde para atender as demandas juvenis. O presente artigo objetiva refletir sobre ‘0s sentidos da escola para jovens das camadas populares, a partir da investigacao dos aspectos positivos € negativos de suas vivéncias em 200) contexto escolar; conhecer e analisar o lugar atribuido @ escola para a realizacio de seus projetos de vida; identificar espagos e situagdes que existem para a participagao do/a jovem na vida escolar; e como eles/elas entendem que poderiam participar da escola, de modo a contribuir para sua transformagio. 1. Referencial teorico 1.1. © proceso de escolarizagio dos jovens das camadas populares Aescolatizagdo de grande parte dos jovens das camadas populares passa por entraves e dificuldades, conforme expdem Corbue: Cassiolato, Codes e Chaves (2009), de modo que esses jovens sdio marcados por baixos niveis de escolaridade, motivados por falta de condigdes de acesso e permanéncia no ensino infantil e fundamental, o que resulta em sucessivas reprovagdes e evastio escolar, temporiria ou definitiva. O capital cultural, conceito abordado por Bourdieu (1998), representa um. divisor de aguas entre a juventude rica e abastada, que consegue retardar a entrada no mercado de trabalho —muito frequentemente chega a faculdade—e a juventude pobre ¢ excluida, que mal consegue concluir o ensino médio, por conta de sua entrada cada vez mais precoce no mercado de trabalho. Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Analise Sociais ¢ Econémicas (Ibase, 2005) oxtnoa cons so nie: 10: 298082002 up/mowcmantaesedcepubteetone ampoule ne Mat (Os SexTIbOS but ESCOLA PUBLICA PARA JOVENS PonRES DA CtoADE Do RéciFE intitulada “Juventude Brasileira e Democracia’ mostra que, de fato, dos oito mil participantes, cujas maiores concentragdes se dao nas regides metropolitanas de Belém, Rio de Janeiro e Recife, © maior nimero de jovens das classes populares tém nivel educacional aquém do que se esperava, indice de defasagem na aquisigio do ensino-aprendizagem altissimo. A maior parte dos entrevistados (42.5%) tém 0 ensino médio incompleto, 33,2%, ensino médio completo e 24,3% nem coneluiram © ensino fundamental. Segundo o relatério de monitoramento global da Educagio para Todos da Unesco (2005), a taxa de alfabetizagao entre jovens de 15 a 24 anos é varidvel e representa. por mais infima que seja, um progresso na educagdo para todos. Ainda assim, ¢ preciso avangar mais, pois se estima que existam no mundo 137 milhoes. de analfabetos, ¢ 85 milhdes (63% deles) so do sexo feminino. Além das desigualdades de género, é interessante destacar as disparidades. existentes entre a zona urbana e rural, como também das diferentes regides do planeta. A escolarizagio ¢ um espago de significados, com miltiplos sentidos, que evidencia as desigualdades e oportunidades limitadas, que marcam profundamente os grupos de jovens brasileiros, e, ao mesmo tempo, constitui espago de reflexto ¢ lutas por direitos. A familia, de modo geral, ocupa importante papel na vida do jovem e na maneira como ele passa a ver a escola ¢ seu processo de escolarizagio. Segundo Ledo (2006), nas familias pobres os pais almejam que seus filhos cumpram todas as etapas da escolatizagao oficial. pois querem. para eles um futuro melhor, diferente do que veram, embora esse desejo concorra com condigdes concretas ¢ imediatas que exigem a entrada de criangas ¢ adolescentes na economia doméstica. Muitos pais e mies valorizam a escola em razio da ampliagdo do repertirio de sociabilidade que esse contexto oferece (Dayrell, 1996; Marques, 1997), pois por vezes. figura inclusive como uma das poueas opgdes em meio a territérios/bairros/comunidades marcadas pela precariedade de equipamentos de cultura e lazer. evi cen nie: 10 (1): 298500, 2012 lignans ce pubeeineampescinde nd on A escola tem assim diversos sentidos para os jovens pobres: lugar de lazer, ambiente onde varias atividades podem ser feitas, lugar da obrigagdo e lugar da “salvagio” ou meio de ascensao social, esperanga de futuro melhor. Existem aqueles, porém, para quem a escola & impessoal, desvinculada de sua realidade ~ @ escola ¢ concebida como puro acontecimento em estado bruto, impessoal © neutro, sem afetagao (Pelbart, 2003). No entanto, a escola, como construgo histérico-cultural e politico-econdmica, esti Jonge de set uma esfera neutra no proceso formativo da juventude. O sistema de seletividade em seu interior ¢ perverso, como bem explana Bourdieu (1998), ¢ poucos sfio 0s que conseguem sobreviver a ele. Desse modo, & preciso repensar as bases politicas da escola publica brasileira, no sentido de dialogar com a juventude que consegue chegar —embora nem sempre se mantenha~em seus bancos escolares. ‘Afinal, 0 que querem os jovens da escola e © ‘que esta pode lhes ofertar? 1.2. Culturas juveni ‘encontro entre o jovem ea escola Entender as culturas juvenis ¢ 0 que clas representam & imprescindivel para ultrapassar as barreiras do discurso retirico e verticalizado do que vem a ser a juventude. Os professores possuem uma ideia ou concepgao de juventude que norteia sua pritica pedagdgica, €, segundo Silva (2005), ainda predomina uma visdo negativizada sobre a juventude pobre. Ocorre que, a0 chegar escola, o jovem pobre se depara com um cenario de outras tantas dificuldades que desafiam seu desenvolvimento cognitivo, humanistico e cultural. Problemas de ordem estrutural das escolas, formagio deficitéria dos professores, curriculo desatualizado e descontextualizado vio compondo um cenario de distanciamento entre juventude e escola, Um estudo de Gilroy (2001), na contramiio da descontextualizagao, demonstra, a partir do hip hop (movimento estético caracterizado pela combinagio verbal e musical e pelo break ~danga de rua, € 0 grafite~ pinturas de muros), possibilidades de considerar a cultura juvenil e dialogar com ela, Essa manifestagio, ‘a exemplo de tantas outras, aparece na vida Rowexize Manis bos Savros = Manns Arawecros de alguns desses jovens estudantes como motor de mobilizagio social e notoriedade, principalmente para os jovens pobres ¢ negros das camadas populares, ¢ representa esperanga, emancipagio e ganhos econémicos (Zeni, 2004). Esse movimento cultural, dentre outros, destaca-se pela facilidade com que envolve os jovens e pelo uso da linguagem aproximada da realidade de que fazem parte. Segundo Maia (2008), que trabalhou com um grupo de capoeira, a relagio arte-ciéncia é fundamental para uma significagdo positiva da escola ¢ do processo de escolarizacao, pela via da valorizagao do universo cultural dos/das estudantes. Nessas situagdes de aprendizagem, os jovens sentem-se laborativos. A cultura cientifica é importante, mas nao é suficiente, & necessirio relaciond-la com 0 conhecimento de cunho popular, com os saberes que os jovens trazem para as salas. Os alunos participantes da pesquisa disseram ndo encontrar no bairro onde residem muitos espacos ptiblicos para o lazer € também quase nenhuma opgao edueativa de arte ou esporte, entdo, tinham na escola a expectativa de um espago para estas priticas. Os professores atentos a isso, de maneira sistémica e holistica, podem trabalhar interdisciplinarmente em suas matérias de ensino, valendo-se da cultura do jovem estudante. Os alunos, por meio de. suas diversas formas de compreensio de mundo e expressOes culturais (reggae, rock, hip hop, fink, pop, capoeira, maracatu), esto falando ‘em politica, critica social, historia, geografia, lingua portuguesa, sexualidade, violencia, negritude, preconceito e discriminago, custo de vida, gravidez na adolescéncia. Mesmo conhecimentos matematicos podem ser construidos a partir da realidade deles, de suas linguas ¢ rede de simbolizagdes. Weller (2000), que estudou o hip hop e sua repercussiio na vida da juventude paulistana, constatou que a influéncia do género musical foi decisiva na formagao da consciéncia social e politica dos jovens. bem como no desenvolvimento da propria historia e cultura afro-descendente. Considerando a realidade de jovens pobres de uma escola publica da cidade do Recife, quais os aspectos que se colocam como mais 202) sscruenra = duet De Anata Mevezes desafiadores as significagdes positivas para a escola e 0 seu process de escolarizagio? 2. Metodologia A pesquisa em tela foi realizada em uma Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, localizada em Recife, em um bairro da regio oeste da cidade, que atende a 11 turmas, nos turnos da manba, tarde e noite, O trabalho foi desenvolvido em uma turma de 3°. ano do Ensino Médio, composta por 27 estudantes, na faixa etdria entre 17 ¢ 20 anos, de ambos os sexos. O corpo docente que trabalhava com essa turma era composto por: um professor de Lingua Portuguesa, um docente para as disciplinas de Historia e Geografia, outro de Matematica, um. de Inglés e um docente para ministrar Biologia © Quimiea, Mesmo constando na grade de horario as disciplinas de Fisica, Sociologia ¢ Filosofia, durante nossas visitas & escola, no nos deparamos com esses professores. Embora nao tenhamos _ perguntado explicitamente sobre a renda familiar, a percepgdo e escuta de conversas informais a0 longo das observagdes permitem alirmar 0 pertencimento dos jovens as camadas populares. (Os estudantes fazem “zoagdio” de sua condicao social, por exemplo, quando afirmam ter de vender muito doce ¢ picolés na praia para ir a shows de bandas de rock. A inferéneia da condigao socioecondmica dos jovens também tem por base comentarios dos professore: que registramos em didrio de observagao, sobre a comunidade na qual 0s jovens esto inseridos. A comunidade do entorno da escola € considerada de risco social ou, conforme dito por um professor, “comunidade necessitada”. ‘A insuficiéncia de politicas piblicas efetivas comprometidas com a revitalizagio das areas pobres da cidade colabora para a situagdio de vulnerabilidade da juventude desses territirios, Nossa aproximagtio do universo escolar e da turma especifica ocorreu por meio do procedimento de observagao — devidamente registrado em diirio de campo- das aulas de Lingua Portuguesa, Histéria, Geografia, Matematica, Inglés, Biologia e Quimica. De acordo com Morin (1997), esse procedimento possibilita a0 pesquisador dar significado oxtnoa cons so nie: 10: 298082002 up/mowcmantaesedcepubteetone ampoule ne Mat (Os SexTIbOS but ESCOLA PUBLICA PARA JOVENS PonRES DA CtoADE Do RéciFE ao contexto integral em que acontecem as tramas ¢ relagdes sociais. Nos quatro tiltimos. dias de nossa presenga na escola, solicitamos aos estudantes a escrita das cartas, que foi o procedimento escalhido para registro das vozes juvenis sobre suas experiéncias no contexto escolar. Foi proposta a produgdo de trés cartas pelos jovens estudantes acerca de suas préprias impressdes € sentidos, a respeito da escola real, da escola que gostariam de ter (ideal) e da escola possivel. A preferéncia por esse instrumento metodolégico teve por base a experiéneia de Esteves (2005), registrada no Livro Estar no Papel. sobre a maneira como os jovens retratavam e valoravam 0 ambiente escolar em que estavam inseridos. As situagdes de escrita das cartas a ser elaboradas compreenderam 0 uso de estimulos artisticos. Para a carta 1. sobre a escola real, aquela que os alunos tinham como realidade imediata, utilizamos o filme ritores da Liberdade, que conta a historia de jovens em condigao de risco psicossocial, que viviam no limite da vida, com seus problemas de ordem social e econdmica, seus conflitos étnicos e raciais, mas que superaram suas dificuldades, quando receberam atenciio diferenciada de uma docente que atentou para suas necessidades, deu-lhes voz ¢ atengao, além de trabalhar sua disciplina de maneira mais significativa, inovando em sua abordagem —didatica, dialogando com a realidade dos jovens. Para esse momento, utilizamos a sala'de video da escola, onde principio tivemos um pouco de dificuldade, devido 4s condigdes precarias do espaco, pois nem pilhas havia no controle remoto, ¢ tivemos de providencié-las. A sala estava suja e mal arejada, situagdo que levou os. alunos a reclamar bastante, Todos assistiram ao filme até o fim, e essaatividade foi acompanhada pela docente de Lingua Portuguesa, que nos. cedeu o tempo de sua aula, ‘Na ocasido de produgio da carta 2, no nono dia de visita, sobre a escola ideal procedemos 4 leitura do poema de Clarice Lispector! sobre sonho. Os jovens demonstraram grande. 1 Graors © jomainin, nascla na Uerinia (em 1920) ‘atralizada brasileira. Faeseu em 197 deixando uma vasa © ‘econfecida ca, tno nacional quanto inlemasionalmente evi cen nie: 10 (1): 298500, 2012 lignans ce pubeeineampescinde nd on ieresse e gosto pelo poema, pediram para que ‘o l&ssemos duas vezes, € no final ficaram com c6pia dele para si Para a escrita da carta 3 sobre a escola possivel, jd no décimo primeira dia de ‘observacio, levamos a cangtio $6 depende de ‘mim, um rap de um grupo de jovens da cidade do Recife. Os estudantes ficaram surpresos por Jevarmos um estilo musical que comumente nao & utilizado para atividades de sala de aula. Eles participaram cantando a musica, acompanhando ‘a letra com a cépia dela na mao e seguindo a cadéncia da batida. Mais uma vez, recorremos um recurso da escola, o som, para a leitura do CD. Nessa carta, a mobilizagaio para sua escrita, apesar da empolgaco com a musica, foi menor, muitos desistiram da produgao. Acreditamos que 0 fato em si esteja associado & natureza da questo suscitada na carta, & escrita sobre a escola possivel, a relatar como sua contribuigao pode ser dada no sentido da transformagio da realidade de que tanto reclamam. Pensamos que © sentimento de impoténcia ¢ de ineapacidade por parte de alguns jovens possa explicar essa “desisténeia”, por acreditar que como alunos & jovens no podem fazer nada para mudar a sua realidade. Os alunos e alunas foram orientados a eserever as cartas e entregé-las a ns pesquisadoras, de modo que ficamos com esse registro para andlise, Vale ressaltar que a identificagio doa autor/a era voluntaria, e os orientamos para que direcionassem 0 texto a um/a amigo/a imagindrio/a, Tivemos a seguinte produgo por carta: 25 da escola real (cartal) 25 da escola ideal (carta 2) ¢ 17 produgdes sobre a escola possivel (carta 3) Procedemos a anilise de contetido, na qual © foco é a mensagem, e devem ser considerados ‘os aspectos contextuais de seus produtores, assim, 0 pesquisador deve estar atento nao apenas 4 etimologia e & seméntica da lingua, mas a interpretagao, a hermenéutica do texto, ou seja, so importantes os significados e sentidos {que os atores da pesquisa atribuem & escrita, 3. Resultados Considerando-se os objetivos da pesquisa € ‘os aspectos orientadores da analise de contetido, 293 Rowexize Manis bos Savros = Manns Arawecros estabelecemos cinco eixos para a abordagem dos principais aspectos presentes nas narrativas dos/as jovens. io eles: orga disciplina, infraestrutura, qualidade de ensino € profissionalismo dos professores, interagdes sociais, escola e projeto de vida. Refletiremos sobre cada um desses eixos, conforme aparecem em cada uma das trés modalidades de carta, 3.1. Eixo 1 — Organizagao e disciplina Esta presente nas cartas sobre a escola real o anseio dos jovens de ter uma escola organizada e mais bem preparada em termos de disciplina, em que o respeifo mituo seja constante entre professores, alunos € direga0, como exemplificam os extratos: “A escola (...) se tornou uma escola sem equilibrio, nao hi organiza “Tentamos.estudar, “mas fio conseguimos, pois hi uma diretora muito desorganizada’; “[Fa] falta de organizacao nos horatios...". Os alunos denunciam uma escola permissiva, em que “rola de tudo”, inclusive drogas, ¢ onde as turbuléncias estio presentes cotidianamente: ‘Mas realmente a escola se chama eabaré, porque rola de tudo; As vezes escondido da diretora, drogas, confusdo diatia (..): s alunos dominam a escola 0 que nio deve acontecer alunos fazendo outros brigarem, pratos, copos, talheres voam. pelas nossas cabegas. Os alunos solicitam limites que deveriam ser impostos a eles mesmos. Suas falas sugerem uma situagio de abandono do espago escolar, onde se encontram entregues & propria sorte. Uma possivel explicagdo para a falta de geréncia efetiva nas instituigdes.piblicas de ensino pode ser encontrada na reflexiio de Aquino (1996) sobre o despreparo para lidar com essa clientela. A escola idealiza um tipo de sujeito e é ocupada por outro, com caréneias muito concretas. A indisciplina encenada pelos alunos vem justamente denunciar a indisciplina da escola, sua omissio, sua indiferenga para com o futuro dessa juventude pobre: “Eu queria que a escola fosse melhor em termos de disciplina. Que na escola entrassem os alunos mais selecionados, com bom desempenho, porque assim nfio terfamos mais barulho” 294) sscruenra = duet De Anata Mevezes Osalunos atribuem a disciplina ao interesse pelos estudos, expresso no desempenho cognitivo dos colegas. O que eles deixam de considerar & justamente o fato de que a falta de disciplina pode estar ocorrendo justamente porque eles nao conseguem aprender, e aqui haveriam de ser considerados aspectos como ‘a proposta pedagdgica e as reais condigdes de ensino nesse contexto. Como aponta Silva (2005), os professores que trabalham com a juventude pobre costumam ter uma concepgao negativa dela, associada 4 marginalidade, 0 que desmotiva os jovens na pratiea pedagégica. Enquanto essa concepgo acerca da juventude pobre estiver contaminando as formas de pensar a educagi © discurso diga outra c politicas piblicas, projetos diversos e na construgao do curriculo, na formulagao do Projeto Politico Pedagézico — a educagao ndo meihoraré, porque continuamente as vozes juvenis serio silenciadas, e tudo © que for adotado e produzido sera numa visto profilatica © sanitarista, higienizante, ¢ néo pelos jovens. ou com a participagio deles, num processo dinimico, dialogal e interativo de produgiao. ‘Os alunos participantes também cobraram, nas cartas da escola ideal, rigidez por parte das autoridades, para enquadrar os alunos indisciplinados no regimento da _ escola, critiearam 0 habito dos colegas de fiear nos corredores na maior parte do tempo e as brigas constantes, a mistura com os alunos da Fundagao da Crianga e do Adolescente (Fundac)? ‘como claro sinal de descontrole, portanto, forte evidéncia de desordem, falta de organizagao e disciplina. Os alunos exigem regularidade, rigor e maior severidade na implantagdo das normas da escola, mesmo sob pena da austeridade, & qual ficariam assim submetidos, mas que se tora preferivel & 7A Fundagio da Crianga« do Adolescente (Funda), integrate ‘da Administagao Tiiota do. Poder Exseuivo Estadual, incl 4 Seeetaria de Desenvolvimento Sociale Diteits manos, tem pot fialidade remover. no abit clad, @ poli de lendimento a cringe ao adlessnt abundonados ‘a forma da Te, om como as evolves aos autores de alo intaciona,wisando a sua protego itegral © gaantia de seus ies fandamenais, median ages aniculadas com outs Innitigdes pics ea sociedad il organi, no eos <0 gue dpe 6 Estuno da Cranga e do Adolescent, Lei £3060, de 13 dello de 1990 (Pernambuco, 207), oxtnoa cons so nie: 10: 298082002 up/mowcmantaesedcepubteetone ampoule ne Mat (Os SexTIbOS but ESCOLA PUBLICA PARA JOVENS PonRES DA CtoADE Do RéciFE liberdade absoluta, licenciosidade, que denota falta de compromisso com a proposta educativa, como fazer pedag6gico. interessante observar a auséncia de reflexio por parte dos alunos no que tange a participagio que eles poderiam ter na elaboragao das regras da escola. Em nenhum ‘momento eles se colocam como capazes. de empreender uma ago transformadora dessa realidade. 0 incdmodo causado pelos assim denominados “alunos da Fundac” também evidencia © quanto os jovens estilo despreparados para lidar com o campo dos direitos, assim, acabam segregando ainda mai quem ja esti em situagdo de discriminagiio social. A propria denominagtio de “alunos da Fundac” demonstra 0 quanto a escola mantém um aparthefd, aumentando o estigma dos jovens que se envolveram em situag%o de iniragao. Nesses termos, uma politica de incluso, nos moldes de sua operacionalizagao, niio consegue ser efetiva. Os jovens nio estio preparados. para essa convivéneia, e durante a realizagao do trabalho nao observamos iniciativa da escola para promover a incluso, de fato, dos alunos da Fundac entre os demais. ‘Na narrativada carta sobrea escola possivel, os jovens evidenciam alguns acontecimentos. em que a preocupagio com a organizagio € disciplina € levantada como importante para bom funcionamento das atividades escolares, melhor desempenho das obrigagdes € responsabilidades didrias dosatores presentes na escola, de maneira que seja efetiva a promogao da educagiio, sem os impedimentos que a ma organiza’ e indisciplina possam provocar. Ainda, na linha de argumentagdio de que o foco da intervengdo deve incidir sobre os proprios alunos, eles sugerem aumento da vigilfincia: “Pois sabemos que muitos alunos sé vém para bagungar e respeitam os professores na sala de aula (...) A diretora poderia colocar um inspetor para sempre estar de olho nos alunos OP Chamamos atengto para o fato de que contetido da carta da escola possivel tem como referéncia a implicago dos jovens na resolu¢io dos problemas escolares. Nesse_ momento, mostrou-se significativa a convocagao da figura do inspetor ¢ a ndo-referéncia a algo que os evi cen nie: 10 (1): 298500, 2012 lignans ce pubeeineampescinde nd on proprios jovens pudessem fazer, para ajudar a resolver a situagdo. O chamamento a uma figura. de autoridade externa remete a um estado de heteronomia preocupante, é como se os jovens estivessem impossibilitados de agir em favor proprio, de convocar as proprias forgas. Parece que 0 estado de caos ¢ desagregagio é to severo € que os alunos esto to acostumados A situago de subjugados que, mesmo quando podem, nfio conseguem se envolver na resolugao dos problemas que vivenciam. 3.2. Eixo 2 ~ Infraestrutura escolar Em relagdo a infraestrutura da escola foco de pesquisa, as queixas reveladas nas cartas da escola real se concentram na inadequagao dos equipamentos e recursos oferecidos e na falta de instrumentos que por certo elevariam as condigdes de ensino © aprendizagem. F. notério @ descaso no tocante aos aspectos estruturais das salas, pois ha ma ventilagio, poucas entradas de ar, as salas so compactas, ha cadeiras quebradas ¢ ja desgastadas, o prédio estd em mas condigdes de uso. Os jovens estudantes reclamam, de modo geral, das condigdes fisicas da escola, evocam, por meio de seus relatos, a questéio da merenda de qualidade, que nfo ha, além da quantidade insuficiente de cadeiras, pois alguns alunos se chegam tarde, ficam em pé. Os banheiros sto sujos e fétidos; os alunos nio tém acesso & sala de informatica; a agua no é boa: 0 acesso & biblioteca é ruim e dificultoso e o espago dela nao lhes oferece conforto; as lousas das salas de aula so pequenas, o que obriga os professores a escrever ripido. Os alunos exigem mais espago de lazer e esportes, com uma quadra maior, conforme escrevem: ‘Nao podemos pegar livros na biblioteca, pois vive fechada; O banheiro no tem papel higignico e esté faltando tomeiras no banheiro para lavar as maos e fede, amigo, ¢ nao tem descarga; Nao temos direito a merenda e bebemos gua da Compesa; Nao temos direito a internet. De acordo com a teoria Broken Windows (teoria das janelas quebradas), elaborada por James Q. Wilson e George Kelling ¢ citada em Andrade (2011), diante de ambientes 295) Rowexize Manis bos Savros = Manns Arawecros depredados, que nao oferecem as devidas condigées de uso, hd maior tendéneia para os que ali circulam de continuar 0 ciclo de depredagdo. Isso demonstra certa reprovagaio e revolta em relagio aos recursos desvalidos que sdo oferecidos, associam o valor que lhes € atribuido pelo tipo de recurso, atendimento e atengdio que hes dispensam os responsaveis pela administragdo e alocago dos investimentos € verbas dirigidos a educactio. A escola dos sonhos seria perfeita, “(..) com boa estrutura... limpa e sem pichagdes”. Os jovens enfatizam por vezes a necessidade de um espago fisico melhor e maior, com banheiros limpos ¢ com armarios. Os estudantes também sonham com uma quadra maior, uma biblioteca em boas condigées de uso e acessivel, sala de computago que possam usufruir sem ter de concorrer com professores ¢ funcionarios. Quando os jovens reivindicam com tanto fervor a sala de informatica, em ttlima instincia, esto reivindicando © direito de participar da sociedade contempordnea e, uma vez que estamos falando de uma juventude pobre, o lugar hipoteticamente de mais fécil acesso a esse meio € justamente a escola. Ainda Sobre a escola dos sonhos, chama atencfio 0 desejo de uma escola de tempo integral, onde houvesse todas estas coi Queria que ela fosse assim, maior com 1°., 2°, 3°, andar e fosse integral, com banheiros maiores como daqueles filmes que tém vestidrio... Que tivesse trés quadras enormes, uma de futebol, Vélei e basquete, natagdo, biblioteca, sala para computago e um espago para dormir na escola... Porque assim nao ia hem pra casa. Os alunos querem estar _na escola, valorizam-na, isso se manifesta de forma patente em suas narrativas, quando dizem que querem ‘uma escola bem preparada para acolhé-los, 0 que contraria a opinifo corrente de repulsa a escola. Conforme afitma Ledo (2006), a escola para o jovem e seus familiares € um importante pilar, seja porque tem um valor em si, seja por conta das sociabilidades ou por capacité-los, em seu entender, para ascensiio ao mercado de trabalho. 296] sscruenra = duet De Anata Mevezes Em relago aos aspectos fisico-estruturais, nas cartas da escola possivel predomina a culpabilizagio das autoridades competentes, por ser omissas quanto as demandas juvenis. Atentemos para uma fala que demonstra es inquietagao ou insatisfagao por parte do jovem estudante em relagao a sua escola: Uma escola tem que ter uma merenda melhor, ter agua para a gente beber, precisa ter uma cadeira nova para a gente se sentar, ventilador novo, 0 que tem ja t4 quebrado, um banheiro limpo porque 0 banheito é (...) muito sujo, ter uma sala de filme maior pra caber mais gente, ter porta na sala porque s6 tem grade, parece que a gente té no presidio ¢ ter uma diretora que prometa e cumpra a palavra, Um ambiente desestruturade & pouco estimulante e atrativo. Entdo, prédio em decadéncia, cadeiras quebradas, espagos com grades por todos os lados e muros muito altos. denotam que esse espago mais parece que remonta a privagdo e & tortura do quea um lugar que prima pela educagio, prazer e 0 lazer, a satistagio de ser feliz no ambiente em que se estuda: “O que nds alunos podemos fazer & zelar pelas nossas cadeiras, quadros, livros, paredes, pelo que nela estd, vim sempre com fardamentos (...)”. ‘A fala acima sugere 0 que est ao alcance dos alunos como implicagio com o ambiente escolar. Os alunos querem educagao de qualidade, © 0 que eles mais pontuam de forma predominantemente negativa sto as mas condigdes fisico-estruturais da es desvalia no é em relagio escola em si, mas por conta das condigdes deficitérias e pouco adequadas para se desenvolver a edueago e do meio pouco estimulante e atrativo, 3.3. Eixo 3 — Qualidade do ensino ¢ profissionalismo dos professores Os alunos, nas cartas sobre a escola real, fazem alusdes 4 mA qualidade do ensino, ao descompromisso dos professores ¢ falta de aulas de algumas disciplinas em certos hordrios, que faz com que eles voltem para casa mais cedo, ao invés de estarem na sala de aula. Aulas vagas. oxtnoa cons so nie: 10: 298082002 up/mowcmantaesedcepubteetone ampoule ne Mat (Os SexTIbOS but ESCOLA PUBLICA PARA JOVENS PonRES DA CtoADE Do RéciFE € ensino fraco_ndo os motiva nem os engaja no processo de aprendizagem. Reivindicam ensino de qualidade para poderem competir em base real de igualdade com os alunos da rede particular, por estudos posteriores ¢ ascenstio financeira e profissional. “Pois essa [escola] aqui nao dé nenhuma oportunidade para melhorar nossos conhecimentos... Eu quero ser conhecida profissionalmente e fazer faculdade piiblica e melhorar de vida..." Os jovens enfocam a questo da qualidade de ensino em relagdo ao contetido — que niio se baste somente & aula, que englobe outros aportes, c recursos didaticos que despertem seu interesse e que haja relago com seu cotidiano, Os alunos ssonham” com uma escola de referéncia, com 0 ensino bom, de qualidade, ¢ que oferega, além das disciplinas comumente dadas, outras que fagam da escola um espago mais significativo e atraente, Nesses termos, os jovens apelam para uma escola de tempo integral, no sentido mais amplo do termo: “Ela possui aulas que ja existem, como Portugués ¢ Matematica ¢ etc Mas possuii muitas outras coisas para aprender como aulas de danga, aula de canto, ensino religioso puxado...” ‘Na escola ideal, eles requerem ensino de qualidade, que prime pela exceléncia, e cujos professores sejam dedicados ¢ exempliveis: “Com professores mais qualificados preocupados com a situagao do alunt Ainda, mais uma vez, destacam a necessidade de um ensino mais afeito, com aplicago pritica, com usos no cotidiano: “Ela uma escola em que todas as disciplinas tém laboratérios, pois nao ha coisa tio chata quanto ficar somente na teoria. Iriamos ter aulas priiticas’ Percebemos nas cartas da escola possivel que osjovensquerem aulasde qualidade, que nao fiquem s6 na teoria, mas que sejam associadas a suas vivéneias e tenham ligagdio com a pritica, Durante as observagdes, notamos que as aulas de Histéria, Geografia, Biologia e Inglés eram convencionais, desmotivantes e no promoviam, a criatividade nem 0 desenvolvimento da autonomia, Para quebrar com o ciclo vicioso de um ensino excessivamente conteudista é preciso, explorar outras potencialidades em que, podem se desenvolver as aptides ¢ habilidades evi cen nie: 10 (1): 298500, 2012 lignans ce pubeeineampescinde nd on humanas, para além do aspecto cognitive e do puramente racionalista. E possivel aproveitar ‘esse potencial dos jovens, e fazer ligagdes com suas culturas, como o Hip Hop, 0 Maracatu, 0 Brega, a capoeira, assim, abre-se a possibilidade de mobilizar o jovem e engajé-lo no proceso educativo (Giroy, 2001). 3.4, Eixo 4 ~ Interagées sociais Um dos mais importantes _aspectos Jevantados nas cartas da escola real é em relagtio @ importancia atribuida as interagdes sociais no Ambito da instituigao. Para os alunos, a escola um ambiente valorado, tendo em vista a ampliagtio de seu repertorio de sociabilidades. em que os vinculos socioafetivos com seus pares e demais membros da escola encontram espago para ser desenvolvidos. Apesar de todas as dificuldades acima descritas, os jovens consideram que existe clima favoravel, espaco ¢ atividades que estimulam as relagdes interpessoais. ..) A escola sempre me deu apoio ¢ meus professores também e vou sentir muita falta dos meus amigos, da diretora e de todos que eu conheci nesses 9 anos; A escola é boa, eu fago amizade, 0s professores so étimos, ¢ a diretora também...; Eu no sai ainda porque gosto dos meus professores ¢ também dos meus amigos (...) Sendo que esta escola e os alunos tém que ajudar para essa escola ser melhor um dia. cola ideal, os alunos ressaltam a importincia das interagées para a construg’o de um trabalho efetivo, para a realizago dos fazeres pedagégicos e da gestio escolar, sob uma 6tica democratica, assim como uma boa relagdo com todos os segmentos envolvidos, de modo a formar uma rede de interagdes numa visio sistémiea, em que haja a ligagdo da escola e de toda sua comunidade, interagdes no sentido da melhoria, da mudanga, da colaboracdo e do espitito de coletividade: “A escola onde eu estudo é diferente, um lugar que pode ser até chamado de casa, é como uma familia, todos nés somos unidos e amigos” Aimporténcia dasinteragdes sociais foi bem destacada nas cartas da escola possivel, na qual 297 Rowexize Manis bos Savros = Manns Arawecros ‘as mudangas a ser operadas precisam envolver ‘os amigos. Sabemos da importincia do grupo de amigos para os jovens, o espirito gregéi valor das turmas com suas particularidades, seus proprios cédigos e rituais. Eles interagem, criam redes, teias de socializagao e buscam firmar idemtidade ¢ demarcar territério (Menezes, Arcoverde & Libardi, 2008). Dessa forma, é inteligivel que desejem estabelecer relagdes, principalmente com seus semelhantes, ou Seja, para simples descontrago, conversas castiais, para reflexdo ou para reivindicar direitos: “Para melhorar minha escola, primeiramente, nao iria conseguir um resultado tao bom, teria de ter ajuda dos meus amigos, pois se nbs batalharmos. juntos conseguiremos ‘A ideia de interagdes aqui trabalhada é segundo a concepeao. vygotskiana, ou seja, aquela em que a produgao do conhecimento depende do outro, do grupo, da coletividade, Martins (1997) ressalta que a escola disciplinada, onde todos devem ouvir uma s6 pessoa, o professor exigindo siléncio absoluto e sem sentido, transmitindo informagées que stio reservadas em caderno, mortifiea um proceso mais rico de produgio de conhecimento, que seria um processo interativo. Sem davida, isso fica aquém de o que de falo ocorre na escola. Os alunos sto, na maioria das vezes, violados em sua autonomia e em seu direito de usar a fala para alcangar suas metas ¢ planos. Mesmo assim, conseguem entre pares forjar momentos de sociabilidade e convivene como nos intervalos entre aulas € no recreio, dai gostarem tanto do espago dos corredores, que acaba sendo 0 espago de liberdade. 3.5. Eixo 5— Escola e projeto de Vida Em relagaio ao projeto de vida dos jovens estudantes, os anseios por uma escola apta & ‘capaz aparecem preponderantemente na escrita da escola dos sonhos. Na escola real, ndo ‘aparecem mengées nessa vertente. Eu sonho com a vida estabilizada onde cu ganhe meu dinheiro com o suor do meu rosto e satisfagtio do mew trabalho... E para que tudo isso acontega tenho que comecar agora! Aqui na minha escola... Isso acontecendo agora futuramente eu poderei realizar alguns 209) sscruenra = duet De Anata Mevezes dos meus sonhos, que ¢ ser enfermeira, ser professora de Biologia e escrever um livro; Cursos profissionalizantes para os alunos se formarem para o mereado de trabalho; (...) sabendo que a escola tem um papel fundamental na nossa formagiio académica e em nosso crescimento intelectual, sem contar que precisamos dela para ter um bom emprego. A maioria dos jovens tem um projeto de vida, que também & destacado nas cartas da escola possivel, trata-se de um parimetro que norteia sua existéncia € seu modo de ser, um referencial para o futuro, © inerentemente a isso a escola, apesar de todas as dificuldades que 0s jovens vivenciam nesse contexto, é vista como um dos instrumentos que podem tomar realidade esse projeto. - Conforme destaca Dayrell (1996), a escola ¢ essa esfera politica, social e econdmica validada pelo Jovem como meio termo entre a vida adulta € ‘a juventude vivenciada. No interim, constroem seus projetos, dando falego e impulso a suas expectativas de uma vida melhor, em que seus planos e anseios possam ser assegurados. E muito significativo o fato de o projeto de vida no aparecer nas cartas da escola real. [sso pode ser entendido como uma dentineia de que a escola, como se apresenta atualmente, nao consegue sustentar um sonho, um projeto para os jovens. Eles trazem entendimento de qu para as coisas mudarem, precisam eles mesmos, fazer 0 melhor que podem, mas também ¢ preciso acionar outros atores sociais: “Essa escola vai ser uma escola possivel, porque eu vou fazer o melhor, ndo sé eu, mas 0 governo, diretores, professores e alunos”. Sobre esse mesmo tema da mudanga, surge uma fala contraria, em que se destaca a desmotivago ou sentimento de impoténeia e incapacidade para contribuir, colaborar com a melhoria das condigdes: “Para melhorar a escola, eu nao posse fazer nada”. ‘0 jovem sente-se inerte e desmobilizado. Nesse sentido, fala Freire (1987) sobre a forga da interiorizagio da opiniao dos opressores pelos oprimidos, ou seja, os jovens ja esto de tal forma acostumados a ouvir que so ineapazes e inoperantes, que terminam por incorporar isso como verdade e passam a acreditar que oxtnoa cons so nie: 10: 298082002 up/mowcmantaesedcepubteetone ampoule ne Mat (Os SexTIbOS but ESCOLA PUBLICA PARA JOVENS PonRES DA CtoADE Do RéciFE io incapazes, que efetivamente nfo podem fazer nada para mudar sua realidade. No geral os alunos tém cigncia de seus problemas ¢ das necessidades suas ¢ da escola, porém, no sabem como mudar tal realidade, e sentem que néio dispdem dos instrumentos para tal, sentem que esse feito, esse empreendimento, nao s6 depende da forga de vontade e do desejo deles, pois mais do que isso € necessario que o poder constituinte ¢ constituido, relacionado a escola e a educagaio, assuma a causa, disponha-se a ouvir seus clamores, suas vozes, que faga com que seus requerimentos sejam acolhidos, cumpra seu dever, € no se omita da responsabilidade para com 0 ato educativo em seu sentido mais amplo. 4. Consideragées finais (Os jovens, apesar de apontar as deficiéneias e fragilidades presentes na escola, no parecem desvalorizi-la, apenas querem um ambiente mais bem estruturado, em condigdes de uso, com mais espago, qualidade de ensino, com recursos pedagégicos, financeiros. & téenicos, para garantir 0 bom funcionamento da instituigao. Ao destacar essas questoes, niio esto denegrindo a imagem da escola ou © ambiente em que passam boa parte de seu tempo, mas trazendo A tona o que os inquieta e © que gostariam de que melhorasse, no sentido do atendimento de suas necessidades © seus interesses Os jovens revelam vivéncias ambivalentes nna instituigo escolar, pois, ao tempo em que valorizam as experiéncias prazcrosas © © engajamento em atividades que Ihes si0 significativas, também demarcam 0 desprazer € o descontentamento, por conta das dificuldades que 14 vivenciam, Efetivamente, desejam uma escola methorada, com a qual possam se identificar e na qual sejam reconhecidos. Apesar de tudo, consideram a escola um suporte para enfientar os embates e obsticulos da vida e do ‘mundo do trabalho, e nela depositam confianga, expectativas, sonhos e esperangas, com relagio A execucdo de seus projetos de vida. Eles estiio na escola todos os dias. as vezes otimistas, outras vezes nem tanto, mesmo numa situago pouco estimulante, em condigdes precarias, que denotam deseaso para com as evi cen nie: 10 (1): 298500, 2012 lignans ce pubeeineampescinde nd on juventudes. Ainda assim, eles arranjam formas de ressignificar e valorizar esse territério de aprendizagens. Os jovens maream em seus relatos a ineficiéneia da instituigao para promover aproximaciio entre a cultura jovem e ada escola, para construir mecanismos eficazes para essa interlocugio. © veiculo institucional mobilizador das culturais juvenis na instituig&io escolar € a radio, porém, ela é parcamente aproveitada. Nao notamos na escola manifestagao cultural (movimentos culturais) de origem alguma, nem nas comunidades no entorno. A instituigao oferta o programa Escola Aberta, mas ele nio é suficiente para estreitar e fortalecer os lacos da escola com a comunidade, em geral, ¢ com os jovens estudantes, em particular. Os alunos sequer citam o programa Escola Aberta em suas carlas, por que seré? A auséncia de iniciativas que colaborem para constituit uma cultura politica nos moldes almejados por uma sociedade demoeritica se destaca como lacuna. significativa no processo de formagdo da nossa juventude, e repercute na execugdo de seus projetos de vida, E interessante criar e oportunizar maneiras para insergo do jovem estudante na cultura escolar, como meio de transformagio e mobilizagio social. No resgate da autoestima e da propria identidade, os movimentos culturais, sdo mecanismos que buscam aperfeicoar e aprofundar a paz, a tolerancia, a harmonia, 0 conhecimento e vinculo de familia e de grupo. ‘Também so dtimos meios de ampliar o circulo de amizades e de lidar com conflitos, por vezes. transformam 0 que seria motive para confusdo e violéncia em elementos a ser trabalhados e canalizados para produgio_artistica. S30 maneiras também de ligaras vivéneias da sala de aula, 0 saber fazer, 0 saber set ¢ 0 saber saber, a partir das produgies e conhecimentos do jovem estudante, de relacionar 0 conhecimento de cunho proprio e 0 popular com o conhecimento cientifico da escola, a fim de estabelecer pontes, e assim contribuir para 0 enriquecimento do processo de ensino-aprendizagem. Nesses termos consideramos que a juventude pobre conseguiria vincular-se por mais tempo com a escola publica elaborando roteiros alternativos ‘4 profecia auto realizadora do fracasso e evasao escolar. 299 Rowexize Manis pos Savros = Manns Araxecioa Nascruenro = Duaeiea pe Anstao Mevezes Lista de referéncias Andrade, F. C. (2011). “Broken windows theory” ou teoria das janelas quebradas. Jus ‘Navigandi, Teresina, 2811 (16). Reenperado em 16/05/211 de http:/jus. com. br/revista/texto/18690, Aquino, J. G. (1996). A desordem na relagio professor- aluno: indisciplina, moralidade e conhecimento. In: J. G. Aquino (Org). (1996). 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