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CENTRO DE ESTÁGIO

Prática Processual Civil


24 de Novembro de 2008

De:
Sabino Rui
Rua do Café, 2
N. Sª da Graça dos Degolados

Nossa Senhora da Graça dos Degolados, 4 de Novembro de 2008

Sr. Dr.
Votos de boa saúde, são os meus desejos. Eu vou andando assim-assim porque não recuperei
totalmente do acidente de Março do ano passado.
Lembra-se do que contei quando estive no seu escritório há um mês?
Se o Sr. Dr. não se lembrar eu volto a contar-lhe a história do acidente.
Olhe Sr. Dr. isto foi no dia 4 de Março do ano passado.
Como sabe, sou viúvo e ao Domingo costumo ir ver a minha filha que vive em Elvas, onde
costumo almoçar em casa dela e ver os meus netos.
No fim da rua onde moro existe um cruzamento com a Estrada Nacional 371, aquela que vai
para Campo Maior e depois segue para Elvas.
Saí de casa muito cedo, eram cerca das 6 da manhã, porque ia ainda à Feira de Campo Maior
comprar umas cebolas e umas batatas para levar à minha filha.
Esse cruzamento tem uns sinais luminosos, que foram colocados há uns dois anos, para evitar
muitos acidentes que se verificavam no local, dado que o cruzamento tem pouca visibilidade e
os tipos que circulam na Estrada Nacional vêm sempre “largados”. Já lá morreu muita gente
Sr. Dr.
Parei e aguardei pelo sinal verde. Mal abriu o sinal, avancei e não é que vinha a uma
velocidade dos demónios um idiota, um tal José Fangio, como é conhecido em Campo Maior,
onde reside e que vinha ao que consta de uma discoteca de Portalegre, que atirou o carro dele
para cima do meu, de tal maneira que o meu carro ficou com a parte da frente e do lado
direito todo destruído, tendo o pára-choques do carro dele ido parar ao banco de trás do meu
carro. Levei com a placa da matrícula do carro dele (11-AB-22) na cabeça.
Nem rasto de travagem houve do carro do Fangio. Apesar de ser Março o tempo estava bom,
pois já não chovia há três semanas.
O Fangio, tinha o sinal vermelho para ele, como a GNR, concluiu no local, porque falou com
duas pessoas que vinham em dois carros imediatamente atrás do carro do Fangio.

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Resultado disto, Sr. Dr., bati com a cabeça no tejadilho do meu carro e entrei logo em estado
de coma, segundo me disseram no Hospital de Lisboa.
Não me lembro de mais nada, mas os Bombeiros de Campo Maior, com quem falei depois de
sair do Hospital disseram-me que tive muita sorte, pois para além do traumatismo crânio
encefálico, parti o fémur direito e fiquei com várias escoriações na cara, por causa dos vidros
partidos do meu carro.
Os bombeiros estiveram de volta do meu carro mais de uma hora para me retirarem dali.
Levaram-me para o Centro de Saúde de Campo Maior e como não havia camas disponíveis
mandaram-me logo de helicóptero do INEM para Lisboa, onde estive internado um mês em
tratamentos e em perigo de vida.
Felizmente recuperei Sr. Dr. mas ainda tenho sequelas do acidente.
Ainda ando na fisioterapia, por causa da fractura da perna e em psicólogos porque não consigo
esquecer o acidente. Mal adormeço, acordo de noite em pânico e mal consigo conduzir, com
receio de ter outro acidente.
Como sabe, depois de transferido para Lisboa, onde fiquei internado um mês, fui transferido
para Elvas, onde fiquei internado mais outro mês.
Falei com a minha Companhia de Seguros, a “Previdente em Acidentes, S.A.” lá em Lisboa,
onde está a sede, que me disse que eu não sou responsável pelo acidente, que quem teve a
culpa, foi o Fangio.
Falaram com a Companhia dele a “ Portugal Segurado, S. A.” que tem sede em Portalegre, na
Rua das Seguradoras Aflitas, 30 e os tipos dizem que não têm nada a ver com o assunto,
porque com este é o oitavo acidente com o Fangio e não me querem pagar nada.
O Sr. Dr. pediu-me para lhe dizer quanto já gastei com o acidente. Pois aqui vai:
O meu carro foi rebocado para a oficina “Bate Chapas Impecável” em C. Maior, e gastei com o
reboque € 120,00;
O arranjo do carro que tinha comprado há 3 meses, novinho em folha, no Stand Maiorense,
custou € 14.000,00, que ainda não paguei porque já não tenho dinheiro.
Gastei com os hospitais a quantia de € 4.550,00, porque fui operado duas vezes à perna, uma
em Lisboa e a outra em Elvas.
Ando ainda em tratamentos, a tomar medicamentos e nas consultas de psicologia e com isto
tudo já gastei € 3.500,00.
E pelos problemas com as dores que ainda sinto e tudo o resto em consequência do acidente
que o Sr. Dr. me falou, peça aí uns € 8.000,00.
Sr. Dr. mando-lhe aqui a procuração que me pediu, o livrete do meu carro com a matrícula
(33-EF-44), a minha apólice de seguro, a do Fangio, que a GNR me enviou com o relatório do
acidente e todos recibos e facturas de tudo quanto gastei até agora e ainda o documento dos
Hospitais do tempo que estive internado e com os relatórios dos médicos.

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Sr. Dr. diga-me quanto tenho que lhe enviar para as despesas com a acção.
Muitos cumprimentos para si Sr. Dr. Eu depois mando-lhe uma saca de batatas da feira de
Campo Maior.

Sabino

I
Imagine que Sabino Rui, seu habitual cliente, lhe remeteu a carta em anexo.
Ficcionando o que entender necessário, e apenas o estritamente necessário, elabore a peça
processual adequada à defesa dos interesses dele.

(16 valores)

II
Imagine que, sendo advogado, no dia 11 de Dezembro de 2008 receberá no seu escritório
carta expedida no dia anterior e proveniente do Tribunal Judicial da Comarca de Vila Viçosa,
notificando-o de despacho judicial proferido no processo nº 123/08, a ordenar o
desentranhamento de uns documentos cuja junção tinha requerido. Entende que o juiz não
tem razão, e pretende recorrer da decisão judicial. Responda, justificadamente, às seguintes
questões:
1. Qual é a espécie de recurso que deve interpor;
2. Em que dia se considera notificado;
3. Qual é o primeiro dia do prazo para recorrer;
4. Qual é o último dia do referido prazo.

(4 valores)

Nota: A falta de justificação às respostas do II Grupo, implicará a não cotação das


mesmas.
As justificações deficientes serão objecto de desvalorização, ponderada de acordo
com a solução dos tópicos de correcção do teste.
Na justificação das respostas, basta a indicação das normas jurídicas
correspondentes.

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TÓPICOS DE CORRECÇÃO
PRÁTICA PROCESSUAL CIVIL – 26.11.08

1ª Questão – 16 Valores
a) Correcta identificação do tribunal competente--------------------------------------1,00
 Tribunal Judicial da Comarca de Elvas
Qualquer outra resposta----------------------------------------------------------------0

c) Correcta Identificação das Partes-------------------------------------------------------2,50


 Autor – Sabino Rui (profissão, estado civil, residência)--------------1,00
 Ré - «Portugal Segurado, SA» (sede)------------------------------------1,50
 Invocação de litisconsórcio activo e/ou passivo---------------------------------------0
d) Correcta indicação da forma de processo---------------------------------------------1,00
 “Acção declarativa de condenação sob a forma ordinária” ou “com processo ordinário”
e) Alegação da matéria de facto relevante------------------------------------------------4.40
 Existência de contrato de seguro
 Propriedade do veículo conduzido pelo autor
 Velocidade a que seguia o veículo conduzido pelo autor
 Velocidade a que seguia o veículo conduzido pelo segurado da ré
 Identificação de ambos os veículos (matrículas)
 Desobediência do segurado da ré ao sinal luminoso
 Danos patrimoniais
 Danos não patrimoniais
 Quantificação dos danos patrimoniais
 Quantificação dos danos não patrimoniais
 Circunstâncias do acidente (sentido de marcha, local, piso, condições climatéricas, pouca
visibilidade e ausência de travagem por parte do segurado)
f) Correcta alegação da matéria de facto-------------------------------------------------1,60
g) Correcta indicação da matéria de Direito---------------------------------------------1,00
(indicação da normas do C.C: 483º, 496º e 503º)
h) Correcta formulação do pedido---------------------------------------------------------2,50

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 Pedido de procedência da acção e consequente condenação da Ré no pedido---------------


-----------------------------------------------------------------------0,50
 Ressarcimento danos patrimoniais--------------------------------------------1,00
 Ressarcimento danos não patrimoniais---------------------------------------1,00
i) Correcta indicação do valor da causa--------------------------------------------------1,00
 €30.170,00
j) Correcta indicação da juntada-----------------------------------------------------------1,00
 Procuração
 Número de documentos
 Duplicado
 Cópia dos documentos
 Comprovativo do pagamento da taxa de justiça inicial
0,20 valor cada

2ª Questão – 4 valores
1. Apelação (artigo 691º, número 2, alínea i) do CPC)---------------------------1,00
2. 15 de Dezembro de 2008 (artigo 254º, nº 3 do CPC)---------------------------1,00
3. 16 de Dezembro de 2008 (artigos 279º, alínea b) do CC, 144º, número 1 do CPC)---------
---------------------------------------------------------------------------1,00
4. 12 de Janeiro de 2009 (artigos 691º, número 5, 144º, número 1, ambos do CPC e artigo
12º da L.O.F.T.J.)---------------------------------------------------1,00

NOTAS:
1 – A falta de justificação das respostas à Questão II implica a sua não cotação; à justificação
deficiente será atribuída cotação proporcional às normas jurídicas invocadas.
2 – Não será atribuída qualquer cotação à justificação – ainda que tecnicamente correcta ou
escorreita – caso haja erro na data indicada.

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