Você está na página 1de 11

margaret mazzantini

A rosa de Sarajevo
Tradução
Federico Carotti

cj.p.blogdacompanhia. — São Paulo : Companhia das Letras. Margaret A rosa de Sarajevo / Margaret Mazzantini . Milão Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. 11-05344 Índice para catálogo sistemático: 1. que entrou em vigor no Brasil em 2009.A. sp. Bósnia Maio de 2011 Preparação Jane Pessoa Revisão Ana Maria Barbosa Carmen S. Título original Venuto al mondo Capa Victor Burton Imagem da capa Tinta sobre buracos na rua causados por explosões de granadas durante o cerco de 1992-95 © Danilo Krstanovic/Reuters/ LatinStock Sarajevo. Brasil) Mazzantini.companhiadasletras.com.br www. da Costa Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro.. Título.Copyright © 2008 by Arnoldo Mondadori Editore S. Romances : Literatura italiana 853 [2011] Todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz ltda. Romance italiano i.br cdd 853 . Título original: Venuto al mondo isbn 978-85-359-1899-1 1. 32 04532‑002 — São Paulo — sp Telefone (11) 3707‑3500 Fax (11) 3707‑3501 www. tradução Federico Carotti.com. 2011. Rua Bandeira Paulista. 702.

236 A mulher da pensão. 407 A bagagem está fechada em cima da cama. 202 Pietro se vira na cama. 363 A porta se abre para o silêncio. 436 O dia é um céu vivo.Sumário A viagem da esperança. 424 Estamos deixando Sarajevo. 493 . vitaminas. 318 Depois da chuva saem os caracóis. 484 Agradecimentos. 267 Olho o céu pela janela. 62 Esperamos no saguão. 171 Foi rápido. 146 Em Dubrovnik o sol flutuava. 123 É uma igreja. 345 Pietro está na frente do espelho. 297 Pilhas. 91 O que lembro daquele dia?. 11 Foi Gojko quem me levou. 39 Voltei a entrar em minha vida. 191 Estamos na classe executiva. 449 Caminho na areia. 397 Meu pai recebeu o telefonema. lampiões de acampamento.

talvez. Há o silêncio da cidade. por temor. olho a vista de sempre. de costas. pesado. num recipiente de vidro ao lado do caixa. Dorme do jeito dele. uma viagem da esperança. com o peito nu. Às vezes emite um pequeno grunhido. Roma dorme. poeira de sons distantes. Lidas na farmácia. dessas que arrastam sua derrota e mesmo assim continuam a lutar com dignidade. um daqueles que têm de viajar para longe para tentar uma operação. Tem o ros­ to de uma mulher um pouco desolada. O telefonema chega de manhã bem cedo. no final do dia. Dorme sua festa. O bar com o letreiro apagado. o de uma moça envelhecida. Dorme o papa. Vou para a sacada. com uma fenda para introduzir o dinheiro e a foto de um menino pregada com fita adesiva. dorme seu pântano. como um animal sossegado espantando mosquitos. penso nessa palavra que adquire forma no escuro. O prédio em frente ao nosso. parado. as persianas fechadas. Olho o corpo de Giuliano. entre tantas. seus sapatos vermelhos estão vazios. justamente. Dormem as periferias. Esperança. Meu rosto.A viagem da esperança A viagem da esperança… palavras que sobram. Viro a cabeça no travesseiro. Tenho um sobressalto quando 11 . parada no tempo. solto sus­piros. por fidelidade.

” O cheiro dele. Lembra?” 12 . “É um acontecimento. como vento farfalhando entre os ramos.” O frio do chão me sobe pelas pernas. o teu Gojko. vou tropeçando pelo corredor. “Sou eu. Reconheço essa risada rouca. o rosto dele. mais para consolar aquela tristeza leve e constante.” “Por quê?” “Porque a vida passa. sem alegria verdadeira. “Posso falar com Gemma?” O italiano é bom. Conversamos um pouco: Como vai? O que você anda fazendo? Passei alguns anos em Paris e agora estou de novo em casa… “Está havendo uma exposição para lembrar o cerco… as fotos de Diego também estão lá.” Ele ri de novo.” “Vou pensar. precisa vir. arrastada… num segundo toma conta de mim. sim…” “Não precisa pensar. “O meu Gojko…”. “Faz meses que tento encontrá‑la por meio da embaixada…” Pensei nele poucos dias atrás. na rua. Um vazio imenso que se enche de detritos. e nós com ela. Gemma?” “Sim…” “Gemma…” Repete meu nome e agora ri. balbucio. se bem que as palavras soem muito escondidas.” “Gemma? É você. detém‑se na barriga. “Venha. como costumava rir. “Ele mesmo.toca. “Alô. de repente. falo talvez alto demais para parecer que estou desperta. os nossos anos.” É uma explosão contida. “Sim.” Uma interferência na ligação. por causa de um rapaz que estava passando e talvez fosse parecido com ele. “Gojko…” Para um pouco.

“Ligo para avisar a que horas chega o avião. os pés compridos para fora do lençol. que sua cama agora é pe13 . que agora me parece insuportável. Pergunto a Gojko por que me procurou só agora. Havia poeira quando deixei Sarajevo. Estou de calcinha. Por que às vezes na vida renunciamos às melhores pessoas em favor de outras que não nos interessam. por que só agora sentiu saudade de mim. nos corrompem com suas mentiras. Agora lembro sua maneira de mexer no nariz. os mortos do mercado. “Há anos sinto saudade de você. os prédios. Gojko exulta. Cobria os minaretes. De novo um ruído de vento… de quilômetros de distância.” A lama seca da vida agora é poeira voando em minha direção. impelida pelo vento gelado.” Vou ao quarto de Pietro. erguia‑se das coisas. com receio de perdê‑lo outra vez. nos tornam medrosos? “Combinado. É um celular. descalça. sempre esteve vivo. de apertá‑lo feito cera mole enquanto recita aque­ les versos que escreve em caixinhas de fósforos ou na mão. De repente fico com medo que a ligação caia e volte aquele silêncio de anos.Claro que lembro. os pedaços de madeira das bancas derrubadas. apagava o que ficava para trás. Gojko está vivo. como uma velha puta desdentada esperando o último cliente…” Os versos de Gojko… a vida como uma longa balada.” Sua voz some por trás de um suspiro. “E ri da gente. dá um grito de alegria. enterrados sob as verduras. Penso o que costumo pensar quando olho para ele deitado. Pietro dorme. Agarro o passado. Teria de procurar outra. que não nos fazem bem. De repente me pergunto como pude renunciar a ele durante esse tempo todo. as quinquilharias. turbilhonava nas ruas. mas tenho medo de me afastar do telefone. vou. escrevo por cima daquele número sem cor. anoto‑o num pedaço de papel com uma caneta que não escreve. Peço depressa seu número de telefone. Vejo um fio de telefone que se rompe e cai faiscando… quantos fios pendurados no vazio vi naquela cidade isolada. A interferência está cada vez mais alta. calcando forte no papel. despejo suas canetas. simplesmente nos atrapalham.

um olhando o outro. “Preciso me organizar. “Assim. é um animal de cidade. e come outra fatia de bolo. uma jovem derrotada a um passo da velhice.” É verdade. largado no chão ao lado dos chinelos. ele surgiu num aeroporto militar dezesseis anos atrás. Tomo banho e encontro Giuliano na cozinha. diz foram vocês. ele balança a cabeça. de quartéis. No chuveiro minha pele pareceu firme como antigamente. fica vermelho. tenho de voltar ao banheiro para passar o secador nos cabelos. Falo de Gojko e digo que quero viajar.” “Talvez seja o caso de acordá‑lo. os cabelos desgrenhados lhe caem na testa. quando lhe digo que salvou minha vida. Levanta. Já fez o café. Que agora me parece apenas nostalgia. a mais cheirosa e secreta… a dos primeiros tempos.quena demais e precisa ser trocada. “Quem era no telefone?” Não respondo na hora. nota‑se mais a calvície no meio da cabeça. meus olhos atônitos. por isso é tão acolhedor. tenho que ir à redação. quando tomava um banho rá­ pido e saía de casa com os cabelos molhados. “Contou para Pietro?” “Está dormindo. “Depois não reclame da barriga…” “Você é quem reclama. não… não sei. Durante o dia ele sempre está ali­ nhado. Está voraz. “Faz bem em ir. Sou eu de novo. Somos marido e mulher. Aquela desordem é só para mim.” 14 . imóveis.” Está com a barba por fazer. Vai ficar bravo. Sinto um frio no pescoço. de repente?” Mas não me parece surpreso. Aproveita a situação. estou com os olhos vítreos. diz que não é verdade.” Viu em meus olhos que estou reavaliando… de repente sinto medo. quando fazíamos amor e depois ficávamos sentados. será uma briga para convencê‑lo a vir comigo. nus e despenteados. Recolho o violão. e ainda me parece nossa melhor parte. para o ardor da juventude. eu me aceito. de arquivos. Mas. Eu me atirei rápido demais para o passado. toca meu ombro de leve. ele se aceita. você e Pietro. que salvaram a minha.

a sair de casa sem se despedir. 15 . talvez consiga encontrar passagens em promoção. Onde foi parar aquela vozinha lamuriosa que por anos me acompanhou? Conseguia falar tão bem com ela. sim. ele deixou seus ossos de criança para se tor­nar uma grande garça claudicante que ainda não controla direito os movimentos. imagino que ele também deve sentir falta daquele corpo delicado. Agora ele me dá pena. para me repreender. “Estou com fome. ele me afasta. tiro o lençol da cabeça dele. encheu a mesa de farelos. Num gesto brusco. toco seus cabelos que se tornaram ásperos. em poucos meses devorado pelo monstro da puberdade. Viro‑me ressentida ao ouvir seu vozeirão mal‑humorado que só se dirige a mim para exigir. sorri: “Não acredito que haja fila para ir a Sarajevo. e volta irritado com seus amigos. Foi reprovado na escola. Está com a boca suja. Este foi o ano da mudança. Quando dorme. Por isso não quer acordar. e que ainda o procura durante o sono. Sente-se aborrecido por não ter passado de ano. Abaixo‑me. “Preciso conversar com você. Começou a olhar fixo para o chão como quem procura ouro. porque no ano que vem não estarão na mesma classe e acha que foram eles que o traíram. fechou‑se numa prepotência ridícula.” Num segundo se levanta da cama.“Pelo contrário.” Assim. Agora que é verão. não fez o menor esforço. a comer de pé na frente da geladeira. rasgou a embalagem de cima a baixo. foi de uma burrice desarmante. você sabe. abriu mal o pacote de biscoitos. enquanto espalha Nutella nos biscoitos. abro a janela. sai com sua raquete e tênis número 43. e nos últimos meses. em vez de se aplicar. ele cobre a cabeça com o lençol. resmungando que não quer mais vê‑los. falo com ele na cozinha. quando seu rosto relaxa. Fico ao lado de uma múmia. parecia que combinava com a minha.” Vou ao quarto de Pietro. o peito descoberto. Prepara pequenos sanduíches que engole de uma só vez.” Diz que vai me telefonar do escritório quando estiver na internet.

não posso repreendê‑lo o tempo todo. sem querer derrubo a caixinha de leite. olha para o chão. olho suas costas. mas ele não quer ouvi‑la. “É a mesma coisa. “Nem pense nisso.” “Então vamos para a Sardenha. “Mas o que você está dizendo.” “Olha que Sarajevo é uma cidade lindíssima…” Sorri. a penugem na nuca.” Olha para mim. Recolhe o chocolate com o dedo e o lambe. mãe! Que coisa mais ridícula. “Uma semana.” Estou fazendo um esforço para não desmoronar. mãe…” Estou suplicando. “Como o que eu quero? Era teu pai!” Dá de ombros. agora é um olhar autêntico. todo mundo sabe que a Iugoslávia é o fim da picada.” Abaixo a voz. Pietro. mãe…” “Iremos até o litoral. balança as mãos juntas. essa história toda. você e eu… vamos nos divertir. Vira‑se. era mais curioso. mais corajoso. quase implorando. esperto. “Mas você não quer mesmo conhecer onde teu pai morreu?” Larga a xícara na pia. você vai sozinha. Quan­ do pequeno. e esse idiota fala da Sardenha. a Nutella escorre.” “Não é a mesma coisa. e me olha com seu rosto simpático. tem um mar maravilhoso. depois lhe conto da viagem. “Que saco.” Contenho‑me.” Essa história é sua história. “Como nos divertiremos? Ora. “Pietro… Pietro. Olhava aque16 . nossa história.Não digo nada.” “O que você quer?” Fico de pé. Levanta e se espreguiça. perguntava mais. “Não se chama mais Iugoslávia. “Que saco. com a voz fraca e incerta.” Engole outra bolachinha. A voz dele quando era criança. Balança a cabeça. enrijeço os braços. mãe. Assisto em silêncio ao banquete de meu filho.

de mão. pondo‑lhe a mão na nuca e puxando‑o para si. com seu ray‑ban e os cabelos reluzentes de gel. disse‑lhe Giuliano ontem durante o jantar. quando se afogou no raso. E me abraçava. 17 . Pietro afastou o celular da boca e me perguntou: Quando voltamos? Olhei para Giuliano. Penso em Pietro. enquanto nos beijamos. toca violão de olhos fechados. Pietro ligou para seu amigo David para avisar que não iria ao curso de vela. no aeroporto. a palheta arranhando as cordas. Quando cresceu. adultos. Para Pietro. era ele que o acompanhava à escola.” Deposito a bolsa na esteira e vamos para o outro lado. assobia. “Prepare pouca bagagem. não perguntou mais nada. papai. visto o casaco. “Volte logo”. Logo. dos Prada Eyewear. presa por um ímã. Foi ele que lhe deu aquela palmada na praia. Roma ainda está pálida. Seu universo se restringiu a suas necessidades. os pensamentos. respondi. enrugada pelos vapores da cozinha. “Comporte‑se. Estamos no carro. ficava grudado em mim. Giuliano não foi embora. Depois abraça Pietro. a seus pequenos egoísmos. Você não pode fazer esse desaforo com sua mãe. o pai é Giuliano. abaixa a cabeça e com ela roça a de Giuliano.le pai jovem… Aquela fotografia de Diego na geladeira. Escovo os dentes.” “Pode deixar. Ainda está de cueca. Pietro está sentado atrás. A viagem da esperança. diz Giuliano. Ficam assim por al­ guns segundos. Nós. Não quer complicar a vida. A esperança pertence aos filhos. O amigo deve ter perguntado quando voltaria. as rodinhas de minha maleta deslizando atrás de mim. que viajaria comigo. que o levava ao pediatra.” Não responde. Passamos pelos anúncios luminosos da Lancôme. já tivemos esperança. Penso de novo naquelas palavras que por acaso me caíram sob os olhos. disse Pietro ao amigo no celular. Pietro se deixa prender. Paro e me viro. Logo. volto para o quarto dele. e quase sempre a perdemos.

Homens de negócios com gravatas de grife. A aeromoça não criou problemas. sorri. Fico realmente surpresa. Estamos sobrevoando o Adriático. inerte. oferece‑o a mim. Está com a fisionomia diferente. “Não. Ele mastiga e contempla o azul lá em­ baixo.ainda continua ali. Sorri para a aeromoça. franzindo a boca no vazio. pede mais pão.” 18 . um doce embrulhado em celofane. obrigada. As mães de seus amigos me dizem que ele é muito educado e me elogiam. agita os braços. “Não estou com vontade…” “Então deixe aí. Ele me vê e se reanima. Duas fatias de presunto cozido defumado. Manda vários beijinhos à distância. com uma pronúncia razoável. “Quer?” Parece‑lhe natural que eu tenha de comer seus restos. comem refeições quentes e tomam champanhe. os traços de seu perfil clareados pela luz que atravessa a janela. Ele chama a aeromoça. É um grande hipócrita esse meu filho. para andar logo. em vez daquelas opacas e sintéticas de antigamente. Pietro devora seu prato e lhe dou o meu. Em inglês. Pietro agradece. as mãos no bolso como um motorista à espera. salada de legumes em conserva. sua voz rouca até parece bonita. Está lindo essa manhã. Como se. os músculos parecem ter cedido. Chegam nossas bandejinhas. mirradas. A aeromoça volta com o pão.” Fica com aquela coisa manteigosa que se esfarela na mão. a classe econômica está bem vazia. Dá uma mordida no doce. só comigo ele é malcriado. com os olhos cintilantes como dois trechos de mar. Num segundo percebo a solidão em que o deixei. depois de partirmos. Faz sinal para eu me apressar. O violão de Pietro ocupa um compartimento inteiro acima de nossos assentos. cevados na dor de seus conterrâneos. Olha para a entrada por onde desaparecemos. uma figura anônima no vaivém das pessoas. Estamos no avião. Leem jornais financeiros. Novos‑ricos do Leste. está cheia. eu olho para ele. frias. As pernas abertas. porém. um pequeno retângulo gorduroso coberto de glacê. tivesse perdido sua iden­ tidade. A executiva. Não gosta. adianta‑se num salto.

Interesses relacionados