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FORTIUM – CENTRO DE ESTUDOS JURÍDICOS

Curso: Top Federal


Matéria: Direito Agrário
Professora: Marcela Maciel

Conteúdo programático:
DIREITO AGRÁRIO - 05
1. Teoria geral do Direito Agrário: conceito e princípios. 2. Reforma Agrária (Lei n.º
8.629/93). 3. O Processo de desapropriação para fins de reforma agrária (Leis
Complementares n.ºs 76/93 e 88/96). 4. Usucapião constitucional rural (art. 191 da
Constituição da República e Lei n.º 6.969/81).

APOSTILA 1

TEORIA GERAL DO DIREITO AGRÁRIO: CONCEITO E PRINCÍPIOS

Bibliografia utilizada:

 DÁVILA, Renata Almeida. O princípio da função socioambiental da propriedade


rural e a desapropriação por interesse social para fins de reforma agrária. In: Direito
ambiental e desenvolvimento sustentável. Coordenadores: Suzi Huff Theodoro e
outros. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, p. 257-267, 2008.
 MANIGLIA, Elisabete. Atendimento da função social pelo imóvel rural. In: O
direito agrário na constituição. Organizado por Lucas Abreu Barroso. 2ª Ed. Rio de
Janeiro: Forense, p. 25-44, 2006.
 MARÉS, Carlos Frederico. A função social da terra. Porto Alegre: Sergio Antonio
Fabris Editor, 2003
 MARQUES, Benedito Ferreira. Direito agrário brasileiro. 4ª Ed. Goiânia: AB
Editora, 2001.
 PEREIRA, José Edgard Penna Amorim. Terras devolutas. In: O direito agrário na
constituição. Organizado por Lucas Abreu Barroso. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Forense,
p. 45-72, 2006.

1. Breve Histórico do Direito Agrário no Brasil:

- As origens do Direito Agrário remontam aos primórdios da civilização (Cód. de


Hammurabi e Lei das XII Tábuas).

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- Tratado de Tordesilhas (07/06/1494): Portugal adquiriu o domínio sobre as terras
encontradas à direita da linha imaginária do pólo ártico ao pólo antártico, distante 370
léguas das Ilhas de Cabo Verde (direito de propriedade decorreu do Tratado).

1.1 Regime Sesmarial (1531 a 17/07/1822):


- Em Portugal o regime sesmarial era utilizado para corrigir distorções detectadas no
uso de terras rurais (ociosidade, êxodo rural e falta de alimentos): confisco e redistribuição.
No Brasil apenas o domínio útil era transmitido (similitude com a enfiteuse).

- 1531: Martim Afonso de Souza – missão: distribuir as terras descobertas para fins
de colonização (defesa do território contra invasões estrangeiras). Grandes quantidades de
terras entregues a um pequeno número de pessoas.

- Obrigações impostas ao sesmeiro (cláusulas resolutivas): colonizar a terra, ter nela


sua morada habitual e cultura permanente, demarcar os limites, pagar os tributos. Instituto
do comisso: se não cumprisse as obrigações, caía em comisso e as terras voltavam ao
patrimônio da Coroa. Era transmissível por herança (causa mortis).

- Influenciou o processo de formação de latifúndios e minifúndios (trabalhadores


que ocupavam as sobras de sesmarias não aproveitadas ou áreas não concedidas –
abastecimento interno - posseiros).

1.2 Período “Extra legal” ou “das posses” (de 17/07/1822 a 18/09/1850):

- Período sem qualquer lei disciplinando a aquisição de terras (nem a Constituição


de 1824 trouxe regulamentação a respeito – Resolução do Príncipe Regente de 07/07/1822:
“conceda-se as terras requeridas e suspenda-se a concessão de novas sesmarias até a
assembléia constituinte”).

- Situações verificadas: a) proprietários legítimos, por títulos de sesmarias


concedidas e confirmadas, com todas as obrigações adimplidas pelos sesmeiros; b)
possuidores de terras originárias de sesmarias, mas sem conformação por inadimplência das
obrigações assumidas pelos sesmeiros; c) possuidores sem nenhum título hábil subjacente;
e d) terras devolutas: aquelas dadas em sesmarias que foram devolvidas porque os
sesmeiros caíram em comisso.

- Ocupação desordenada do território (pequenas e grandes áreas). Império da força.

1.3 Período de institucionalização do direito agrário (de 18/09/1850 em diante):

a) Lei de Terras de 1850 (Lei nº 601 de 18/09/1850) (tentativa de converter as


situações fáticas em jurídicas):
- objetivos: a) proibir a investidura de qualquer súdito, ou estrangeiro, no
domínio de terras devolutas, excetuando-se os casos de compra e venda; b) outorgar
títulos de domínio aos detentores de sesmarias confirmadas; c) outorgar títulos de
domínio a portadores de quaisquer outros tipos de concessões de terras feitas na

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forma da lei então em vigor uma vez comprovado o cumprimento das obrigações
assumidas nos respectivos instrumentos; e d) assegurar a aquisição do domínio de
terras devolutas através da legitimação de posse, desde que fosse mansa e pacífica,
anterior e até a vigência da lei. Foi regulamentada pelo Decreto nº 1.318 em
30/01/1854.

- Registro Paroquial ou do Vigário (art. 97 do Decreto nº 1.318/1854):

Art. 97. Os Vigários de cada uma das Freguesias do Império são os


encarregados de receber as declarações para o registro das terras, e os
incumbidos de proceder a esse registro dentro de suas Freguesias,
fazendo-o por si, ou por escreventes, que poderão nomear, o Ter sob sua
responsabilidade

- problemas: insuficiência de pessoal habilitado para o desempenho dos ofícios de


juiz comissário e inspetor de medição de terras vagas; barreiras institucionais e
geográficas.

- destaques: legitimação de posse; proteção aos silvícolas; limitações ao acesso de


estrangeiros; proteção às terras situadas na faixa de fronteira.

- impediu o acesso à terra aos negros e aos pobres, pois obrigou que a terras
públicas, após a data da edição da Lei, somente poderiam ser vendidas.

b) Constituição Republicana de 1891: transferiu (art. 64) aos Estados as terras


devolutas, ficando reservadas à União apenas as áreas destinadas à defesa das fronteiras,
fortificações, construções militares e estradas de ferro, e terrenos de marinha.

Art. 64. Pertencem aos Estados as minas e terras devolutas situadas nos
seus respectivos territórios, cabendo à União somente a porção do
território que for indispensável para a defesa das fronteiras, fortificações,
construções militares e estradas de ferro federais.
Parágrafo único. Os próprios nacionais, que não forem necessários para
o serviço da União, passarão ao domínio dos Estados, em cujo território
estiverem situados.
Art. 72. § 17. O direito de propriedade mantém-se em toda a sua
plenitude, salva a desapropriação por necessidade ou utilidade pública,
mediante indenização prévia.
As minas pertencem aos proprietários do solo, salvas as limitações que
forem estabelecidas por lei a bem da exploração deste ramo de indústria.

c) Código Civil de 1916: disciplinou vários institutos (como a posse, por exemplo),
mas com uma visão muito individualista. Posse agrária X posse civil.

d) Constituição Federal de 1934:

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Art. 113. 17) É garantido o direito de propriedade, que não poderá ser
exercido contra o interesse social ou coletivo, na forma que a lei
determinar. A desapropriação por necessidade ou utilidade pública far-
se-á nos termos da lei, mediante prévia e justa indenização. Em caso de
perigo iminente, como guerra ou comoção intestina, poderão as
autoridades competentes usar da propriedade particular até onde o bem
público o exija, ressalvado o direito à indenização ulterior.
Art. 1251. Todo brasileiro que, não sendo proprietário rural ou urbano,
ocupar, por dez anos contínuos, sem oposição nem reconhecimento de
domínio alheio, um trecho de terra até dez hectares, tornando-o produtivo
por seu trabalho e tendo nele a sua morada, adquirirá o domínio do solo,
mediante sentença declaratória devidamente transcrita.
Art. 129. Será respeitada a posse de terras de silvícolas que nelas se
achem permanentemente localizados, sendo-lhes, no entanto, vedado
aliená-las.
Art. 130. Nenhuma concessão de terras de superfície, superior a dez mil
hectares, poderá ser feita sem que, para cada caso, preceda autorização
do Senado Federal.
Art. 166. Dentro de uma faixa de cem quilômetros ao longo das fronteiras,
nenhuma concessão de terras ou de vias de comunicação e a abertura
destas se efetuarão sem audiência do Conselho Superior da Segurança
Nacional, estabelecendo este o predomínio de capitais e trabalhadores
nacionais e determinando as ligações interiores necessárias à defesa das
zonas servidas pelas estradas de penetração.
§ 3º O Poder Executivo, tendo em vista as necessidades de ordem
sanitária, aduaneira e da defesa nacional, regulamentará a utilização das
terras públicas, em região de fronteira, pela União e pelos Estados,
ficando subordinada à aprovação do Poder Legislativo a sua alienação.

e) Constituição de 1937:

Art. 122. 14) O direito de propriedade, salvo a desapropriação por


necessidade ou utilidade pública, mediante indenização prévia. O seu
conteúdo e os seus limites serão os definidos nas leis que lhe regularem o
exercício.
Art. 148. Todo brasileiro que, não sendo proprietário rural ou urbano,
ocupar,por dez anos contínuos, sem oposição nem reconhecimento de
domínio alheio ,um trecho de terra até dez hectares, tornando-o produtivo
com o seu trabalho e tendo nele a sua morada, adquirirá o domínio,
mediante sentença declaratória devidamente transcrita.
Art. 155. Nenhuma concessão de terras, de área superior a dez mil
hectares, poderá ser feita sem que, em cada caso, preceda autorização do
Conselho Federal.

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Usucapião pro labore

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Art. 165. Dentro de uma faixa de cento e cinqüenta quilômetros ao longo
das fronteiras, nenhuma concessão de terras ou de vias de comunicação
poderá efetivar-se sem audiência do Conselho Superior de Segurança
Nacional, e a lei providenciará para que nas indústrias situadas no
interior da referida faixa predominem os capitais e trabalhadores de
origem nacional.

f) Constituição de 1946:

Art. 141 § 16. É garantido o direito de propriedade, salvo o caso de


desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse
social2, mediante prévia e justa indenização em dinheiro. Em caso de
perigo iminente, como guerra ou comoção intestina, as autoridades
competentes poderão usar da propriedade particular, se assim o exigir o
bem público, ficando, todavia, assegurado o direito à indenização
ulterior.
Art. 147. O uso da propriedade será condicionado ao bem-estar social. A
lei poderá, com observância do disposto no art. 141, § 16, promover a
justa distribuição da propriedade, com igual oportunidade para todos.
Art. 156. A lei facilitará a fixação do homem no campo, estabelecendo
planos de colonização e de aproveitamento das terras públicas. Para esse
fim, serão preferidos os nacionais e, dentre eles, os habitantes das zonas
empobrecidas e os desempregados.
§ 1º Os Estados assegurarão aos posseiros de terras devolutas, que nelas
tenham morada habitual, preferência para aquisição até vinte e cinco
hectares.
§ 2º Sem prévia autorização do Senado Federal, não se fará qualquer
alienação ou concessão de terras públicas com área superior a dez mil
hectares.
§ 3º Todo aquele que, não sendo proprietário rural nem urbano, ocupar,
por dez anos ininterruptos, sem oposição nem reconhecimento de domínio
alheio, trecho de terra não superior a vinte e cinco hectares, tornando-o
produtivo por seu trabalho e tendo nele sua morada, adquirir-lhe-á a
propriedade, mediante sentença declaratória devidamente transcrita.
Art. 180. Nas zonas indispensáveis à defesa do País, não se permitirá, sem
prévio assentimento do Conselho de Segurança Nacional:
I – qualquer ato referente à concessão de terras, a abertura de vias de
comunicação e a instalação de meios de transmissão;
§ 1º A lei especificará as zonas indispensáveis à defesa nacional, regulará
a sua utilização e assegurará, nas indústrias nelas situadas,
predominância de capitais e trabalhadores brasileiros.

g) Emenda Constitucional nº 10 de 10/11/1964:

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Criação da desapropriação por interesse social

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Art. 1º A letra a do nº XV do art. 5º da Constituição Federal passa a
vigorar
com a seguinte redação:
“Art. 5º Compete à União:
XV – Legislar sobre:
a) Direito Civil, Comercial, Penal, Processual, Eleitoral, Aeronáutico, do
Trabalho e Agrário”;

h) Estatuto da Terra (Lei nº 4.504 de 30/11/1964)

- necessidade do Estado apresentar proposta para a resolução da questão agrária


(agravada nos anos 60 e 70 – condução da questão agrícola, processo de industrialização)

- marco no regime jurídico brasileiro; consagrou o princípio da função social da


propriedade rural; traçou a disciplina das relações jurídicas agrárias.

- Carlos Marés: "No Brasil, o Estatuto da Terra de 1964 seguiu a tradição dos sistemas
anteriores de permitir um discurso reformista ao Governo mas impedir, de fato, uma quebra da
tradição latifundiária da ocupação territorial. É verdade que modernizou os termos, humanizou os
contratos, impediu velhas práticas semifeudais e pós-escravistas, mas na essência manteve intacta
a ideologia da supremacia da propriedade privada sobre qualquer benefício social".

1.4 Marcos do Direito Agrário Brasileiro: Lei de Terras (Lei nº 601/1850); EC


10/64 e Estatuto da Terra.

2. Autonomia do Direito Agrário:

2.1 Autonomia legislativa: Emenda Constitucional nº 10 de 10/11/1964 (art. 5º,


XV, “a”: compete à União legislar sobre direito agrário); Estatuto da Terra (Lei nº 4.504,
de 30/11/1964).

2.2 Autonomia científica: existência de princípios e normas próprias; objeto


particularizado (atividade agrária).

2.3 Autonomia didática: disciplina em cursos de graduação e pós-graduação.

2.4 Autonomia jurisdicional: agraristas defendem a implantação da Justiça


Agrária; a CF/88 refere-se ao tema no art. 126:

Art. 126. Para dirimir conflitos fundiários, o Tribunal de Justiça proporá a


criação de varas especializadas, com competência exclusiva para questões
agrárias. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004)
Parágrafo único. Sempre que necessário à eficiente prestação jurisdicional, o
juiz far-se-á presente no local do litígio.

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3. Conceito de Direito Agrário:

3.1 Denominação: A denominação mais utilizada é direito agrário (direito rural,


direito da reforma agrária, direito da agricultura, direito agrícola). A EC nº 10 de
10/11/1964 adotou a terminologia “direito agrário”, o que foi mantido na CF/88 (art. 22, I).

3.2 Conceitos da doutrina: Todos os conceitos convergem para um denominador


comum: ou falam dos princípios ou da atividade agrária (objeto); a função social da
propriedade também é a grande fundamentação dos principais conceitos de direito agrário.
(homem, terra, produção, sociedade, dignidade da pessoa humana, solidariedade).

- Fernando Pereira Sodero: “é o conjunto de princípios e normas, de direito público


e de direito privado, que visa disciplinar as relações emergentes da atividade rural, com
base na função social da terra”.

- Paulo Torminn Borges: “é o conjunto sistemático de normas jurídicas que visam


disciplinar as relações do homem com a terra, tendo em vista o progresso social e
econômico do rurícula e o enriquecimento da comunidade”.

- Octávio Mello Alvarenga: “é o ramo da ciência jurídica, composto de normas


imperativas e supletivas, que rege as relações emergentes da atividade do homem sobre a
terra, observados os princípios de produtividade e justiça social”.

- Raymundo Laranjeira: “é o conjunto de princípios e normas que, visando a


imprimir função social à terra, regulam relações afeitas à sua pertença e uso e disciplinam
a prática das explorações agrárias e da conservação dos recursos naturais”.

3.3 Atividades Agrárias (objeto): ação humana orientada no sentido da produção


agrícola (processo produtivo). Classificação: a) explorações rurais típicas (lavoura,
pecuária, extrativismo vegetal e animal, hotigranjearia); b) exploração rural atípica
(agroindústria); c) atividade complementar da exploração rural (transporte e
comercialização dos produtos).

4. Princípios de Direito Agrário:

4.1: Princípios conforme Benedito Ferreira Marques:


a) monopólio legislativo da União (art. 22, I, CF);
b) a utilização da terra se sobrepõe à titulação dominial;
c) a propriedade da terra é garantida, mas condicionada ao cumprimento da
função social;
d) o direito agrário é dicotômico: compreende política de reforma (reforma
agrária) e política de desenvolvimento (política agrícola);
e) as normas jurídicas primam pela prevalência do interesse público sobre o
individual;
f) a reformulação da estrutura fundiária é uma necessidade constante;

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g) o fortalecimento do espírito comunitário, através de cooperativas e
associações;
h) o combate ao latifúndio, ao minifúndio, ao êxodo rural, à exploração
predatória e aos mercenários da terra (especulação);
i) a privatização dos imóveis rurais públicos;
j) a proteção à propriedade familiar, à pequena e à média propriedade;
k) o fortalecimento da empresa agrária;
l) a proteção da propriedade consorcial indígena;
m) o dimensionamento eficaz das áreas exploráveis;
n) a proteção do trabalhador rural; e
o) a conservação e preservação dos recursos naturais e a proteção do meio-
ambiente.

4.2 A Função Social da Propriedade:


- primeiro momento da história: desenvolvimento da agricultura e domesticação dos
animais: propriedade coletiva;
- conceito absolutista de propriedade: aquele pelo qual deve ser assegurado em toda
a sua plenitude, podendo o proprietário usar, gozar e dispor da coisa como bem entenda;
- socialismo: propunha a abolição da propriedade;
- função social da propriedade: mitigação do conceito absolutista, não para extinguir
o direito, mas para tornar possível a sua sustentação;
- as duas primeiras Constituições brasileiras não fizeram menção à função social da
propriedade: caráter absolutista;
- Constituição de 1934: subordinação do exercício do direito de propriedade ao
interesse social ou coletivo;
- Constituição de 1937: apesar de não vincular diretamente o exercício do direito de
propriedade ao interesse social ou coletivo, dispôs que "o seu conteúdo e seus limites serão
definidos nas leis que regulam o seu exercício";
- Constituição de 1946: criação do instituto da desapropriação por interesse social;
- Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra): instituiu o princípio
da função social na legislação brasileira:
"Art.2º. É assegurada a todos a oportunidade de acesso à
propriedade da terra, condicionada pela sua função social, na
forma prevista nesta Lei.
§1º A propriedade da terra desempenha integralmente a sua
função social quando, simultaneamente:
a) favorece o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores que
nela labutam, assim como de suas famílias;
b) mantém níveis satisfatórios de produtividade;
c) assegura a conservação dos recursos naturais;
d) observa as disposições legais que regulam as justas relações de
trabalho entre os que a possuem e a cultivam."
- Constituição de 1967: a função social da propriedade alcançou status
constitucional:
"Art.157. A ordem econômica tem por fim realizar a justiça social,
com base nos seguintes princípios:

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(...)
III - função social da propriedade."
- Constituição de 1988:
Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural
atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência
estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e
preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de
trabalho;
IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos
trabalhadores.

5. Terras Devolutas e Ação Discriminatória:

5.1 Terras devolutas:


- instituto genuinamente brasileiro; origens: terras dadas em sesmarias que foram
devolvidas porque os sesmeiros caíram em comisso (não cumpriram as obrigações);

- Lei nº 601/1850, art. 3º: São terras devolutas: as que não se acharem aplicadas a
algum uso público nacional, provincial ou municipal; as que não se acharem no domínio
particular, por qualquer título legítimo, nem forem havidas por sesmarias e outras
concessões do Governo Geral ou Provincial, não incursas em comisso por falta de
cumprimento das condições de medição, confirmação e cultura; as que não se acharem
dadas por sesmarias, ou outras concessões do governo, que, apesar de incursas em comisso,
forem revalidadas por esta lei; as que não se acharem ocupadas por posses, que, apesar de
não se fundarem em título geral, forem legitimadas por esta lei (definição por exclusão);

- Constituição de 1891 transferiu aos Estados as terras devolutas, ficando


reservadas à União apenas as áreas destinadas à defesa das fronteiras, fortificações,
construções militares e estradas de ferro, e terrenos de marinha;

- o Decreto-lei nº 2.375/87 trouxe o conceito de não serem devolutas as terras que


eventualmente tenham sido arrecadadas ou discriminadas e matriculadas em nome da
União por força do DL nº 1.164 /71 (faixa de 100 km às margens das rodovias citadas): o
STF acolheu esse conceito (ACO nº 481-TO e ACO nº477-TO):

“não são passíveis de enquadramento como terras devolutas, para o efeito


previsto no caput do artigo 2º do Decreto-Lei nº 2.375/87, as glebas que
tiveram situação jurídica devidamente constituída ou em processo de
formação. Tal é o caso de imóvel matriculado no registro de imóveis em
nome da União, ao tempo em que ocorre a tramitação de processos
objetivando a titulação por posseiros via o Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (INCRA)”.

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- Constituição Federal de 1988:

Art. 20. São bens da União:


II - as terras devolutas indispensáveis à defesa das fronteiras, das
fortificações e construções militares, das vias federais de comunicação e à
preservação ambiental, definidas em lei;
Art. 188. A destinação de terras públicas e devolutas será compatibilizada
com a política agrícola e com o plano nacional de reforma agrária.
§ 1º - A alienação ou a concessão, a qualquer título, de terras públicas com
área superior a dois mil e quinhentos hectares a pessoa física ou jurídica,
ainda que por interposta pessoa, dependerá de prévia aprovação do
Congresso Nacional.
§ 2º - Excetuam-se do disposto no parágrafo anterior as alienações ou as
concessões de terras públicas para fins de reforma agrária
Art. 225 § 5º - São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos
Estados, por ações discriminatórias, necessárias à proteção dos
ecossistemas naturais.

5.2 Discriminatória:
- conceito da Lei nº 601/1850: estremar o domínio público do particular;
- o INCRA é o representante da União (art. 11 do Estatuto da Terra);
- Lei nº 6.383/76: procedimento administrativo e procedimento judicial (ação);
sentença homologatória serve de título de proprietário para o registro imobiliário
competente; tem caráter preferencial e prejudicial em relação às ações em andamento, que
se refiram ao domínio ou à posse de imóveis situados no todo ou em parte, na área
discriminada.

6. Imóvel Rural:

6.1 Definição:
- art. 4º, I do Estatuto da Terra: o prédio rústico, de área contínua qualquer
que seja a sua localização que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou agro-
industrial, quer através de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa
privada.
- art. 4º, I da Lei nº 8.629/93: o prédio rústico de área contínua, qualquer que
seja a sua localização, que se destine ou possa se destinar à exploração agrícola, pecuária,
extrativa vegetal, florestal ou agro-industrial.

6.2 Dimensionamento do imóvel rural:

- Módulo rural: segundo o Estatuto da Terra (art. 4º, II e III) era a medida
de área fixada para a propriedade familiar; obs.: art. 65: o imóvel rural não é divisível em
áreas de dimensão inferior à constitutiva do módulo de propriedade rural;

- Fração mínima de parcelamento: Lei nº 5.868/72, art. 8º, § 1º:

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Art. 8º - Para fins de transmissão, a qualquer título, na forma do Art. 65 da
Lei número 4.504, de 30 de novembro de 1964, nenhum imóvel rural poderá
ser desmembrado ou dividido em área de tamanho inferior à do módulo
calculado para o imóvel ou da fração mínima de parcelamento fixado no §
1º deste artigo, prevalecendo a de menor área.
§ 1º - A fração mínima de parcelamento será:
a) o módulo correspondente à exploração hortigranjeira das respectivas
zonas típicas, para os Municípios das capitais dos Estados;
b) o módulo correspondente às culturas permanentes para os demais
Municípios situados nas zonas típicas A, B e C;
c) o módulo correspondente à pecuária para os demais Municípios situados
na zona típica D.
§ 2º - Em Instrução Especial aprovada pelo Ministro da Agricultura, o
INCRA poderá estender a outros Municípios, no todo ou em parte, cujas
condições demográficas e sócio-econômicas o aconselhem, a fração mínima
de parcelamento prevista para as capitais dos Estados.
§ 3o São considerados nulos e de nenhum efeito quaisquer atos que
infrinjam o disposto neste artigo não podendo os serviços notariais lavrar
escrituras dessas áreas, nem ser tais atos registrados nos Registros de
Imóveis, sob pena de responsabilidade administrativa, civil e criminal de
seus titulares ou prepostos. (Redação dada pela Lei nº 10.267, de
28.8.2001)
§ 4º - O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que a alienação da
área se destine comprovadamente a sua anexação ao prédio rústico,
confrontante, desde que o imóvel do qual se desmembre permaneça com
área igual ou superior à fração mínima do parcelamento.
§ 5º - O disposto neste artigo aplica-se também às transações celebradas
até esta data e ainda não registradas em Cartório, desde que se enquadrem
nas condições e requisitos ora estabelecidos.

- a fração mínima de parcelamento acaba sempre sendo menor do que o


módulo rural do município;

- Módulo Fiscal: alteração do art. 50 do Estatuto da Terra pela Lei nº


6.746/79:
Art. 50. Para cálculo do imposto, aplicar-se-á sobre o valor da terra nua,
constante da declaração para cadastro, e não impugnado pelo órgão
competente, ou resultante de avaliação, a alíquota correspondente ao
número de módulos fiscais do imóvel, de acordo com a tabela adiante:
(...)
§ 2º O módulo fiscal de cada Município, expresso em hectares, será
determinado levando-se em conta os seguintes fatores:
a) o tipo de exploração predominante no Município:
I - hortifrutigranjeira;
Il - cultura permanente;
III - cultura temporária;

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IV - pecuária;
V - florestal;
b) a renda obtida no tipo de exploração predominante;
c) outras explorações existentes no Município que, embora não
predominantes, sejam expressivas em função da renda ou da área utilizada;
d) o conceito de "propriedade familiar", definido no item II do artigo 4º
desta Lei.
§ 3º O número de módulos fiscais de um imóvel rural será obtido dividindo-
se sua área aproveitável total pelo modulo fiscal do Município.

- o módulo fiscal é utilizado com fator básico de classificação dos imóveis


rurais pela legislação atual, a exemplo da Lei nº 8.629/93 e MPV nº 458/09.

6.3 Classificação do imóvel rural:

- minifúndio: imóvel rural de área e possibilidades inferiores às da


propriedade familiar;

- propriedade familiar: art. 4º, II do Estatuto da Terra: o imóvel rural que,


direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de
trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área
máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalho com a ajuda
de terceiros; conceito era antes vinculado ao módulo rural, mas após a criação da fração
mínima de parcelamento passou a ser atrelado a ela;

- pequena propriedade: art. 4º, II, a, da Lei nº 8.629/93: área compreendida


entre 1 e 4 módulos fiscais;

- média propriedade: art. 4º, III, a, da Lei nº 8.629/93: área compreendida


entre 4 e 15 módulos fiscais;

- grande propriedade: área compreendida entre 15 e 600 módulos fiscais;

- latifúndio: a) por extensão: mais de 600 módulos fiscais (Decreto nº


84.658/80 que regulamentou a Lei nº 6.746/79); b) por exploração: art. 22, II, b, do
Decreto nº 84.658/80: não excedendo o limite referido no inciso anterior e tendo dimensão
igual ou superior a um módulo fiscal, seja mantido inexplorado em relação às
possibilidades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja,
deficiente ou inadequadamente explorado, de modo a vedar-lhe a inclusão no conceito de
empresa rural.

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