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1 Temas existenciais: conceitos fundamentais Averdade nao deve ser buscada sendo na petixdo. Kietkegaard Existéncia Porque, sendo possivel 0 prazo da existencia levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos ‘08 outros verdes, com leves ondulagdes no contomo das folhas (como um sorriso do vento) ~ porque ‘entdo, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino? Rainer Maria Rilke Um dos principais temas existenciais € a convergéncia da discussao filo- séfica sobre a existéncia, ao contrério de outros posicionamentos, nos quais a esséncia! era discutida em detrimento da outra. Para os existen listas, a discussio da existéncia é a verdadeira temitica da Filosofia Entretanto, no houve preocupagao dos pensadores existencialistas ‘com uma definigao formal do termo existéncia que pudesse diferencis- lo de outras correntes filos6ficas. Etimologicamente o termo existéncia significa “estar fora de”, e, numa tentativa de manter o sentido etimolé- gico da palavra, os existencialistas, a separaram com um hifen, usando “ex-isténcia” em ver. de “existéncia”, Os valores existencialistas 6 que ido determinar uma nova forma de ais, Em rela Vida 4 inepsivel negagato de outras formas existens asso, correntes existencialistas criticam tanto 0 modo de vida do homem. comum quanto as orientagées filoséficas tradicionais, ‘Tanto Heidegger como Sartre se colocam sobre a disparidade radical entre 0 humano e o nao humano, que ambos os autores exprimem, reser vando 0 termo “existéncia” para o homem apenas. Heidegger escreve: “O ser que existe € 0 homem. $6 0 homem existe. As pedras sG0, mas no existem, AS drvores so, mas nao existem. Os cavalos so, mas niio exis- tem. Os anjos so, mas nao existem. Deus é, mas nfl existe”. E tanto para Heidegger como para Sartre é a consciéncia que distin- gue radicalmente 0 homem de outros seres. A natureza essencial do homem é. razao pela qual o homem pode representar os seres como tais € pela qual pode estar consciente deles Heidegger cnumera o que denomina categorias bisicas da existéncia humana: sentimento ou afetividade, entendimento e linguagem. Sartre nio adotou essa definigao de Heidegger, mas naturalmente a aprova na tejeigdo das categorias tradicionais, enquanto consideradas apliciveis aos seres humanos Para o homem comum e para a filosofia tradicional, 0 ideal supremo 6 atingir uma vida de trangailidade e sem softimentos, na qual a felicidade plena esteja presente’, Ocxistencialista contrapde essa posigao trazendo a tona das discussdes © fato de no ser possivel esse tipo de idealizagao na medida em que determinadas agruras existenciais ~ angiistia, solidzo, tédio etc. — fazem parte, de modo inerente e indissoltivel, da existéncia humana, Dessa maneira, ndo € possivel pensar em realizagdes humanas € ao mesmo tempo excluir os softimentos a ela inerentes. Essa nogdo de sofrimento humano, que converge de forma direta para aqueles advindos dos siste- nas sociopoliticos, dé & corrente existencialista uma denominagao vulgar “filosofia pessimista”. ce eronea de iio poderia tomar-se feliz sem deixar de ser homem Ou ainda, nas palavras de Freud”: “E imposstvel fugir & impressio de que 4s pessoas comumente empregam falsos padres de avaliagio — isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas ¢ os admiram nos RE Por outro lado, também nito é verda rnsaglio de que 9 exis tencialistas exploram somente o lado trdgico da existéneia e apenas tow xeram 2 reflexo formas conhecidas da existencia. Si poderiam ser realizadas excluindo-se da discussio temas que le homem soft is investigagdes ilo fo e desespero. A partir do pensamento existeneialista, temticas que, embora sempre fossem parte da existéncia, como morte, salidio e outras, orn cis de reflexo e aprofundamento diante das discusses que visan melhor compreensao da realidade humana. ‘Também é no pensamento existencialista que a angtistia sofren novi dimensio nos pontos referentes & sua compreensii ¢ passou a set Visli como inerente 4 condigao humana, e nao como uma forma de patologia A fungio dos valores existencialistas € libertar 0 homem dessas forint degeneradas e doentias de angistia® E de Sartre uma das citagdes que melhor definem a necessidade de uma redimensao da existéncia: “.. o homem est condenado a ser live” Condenado, porque nao criou a si proprio, e, no entanto, livre, por que, uma vez langado a0 mundo, é responsivel por tudo quanto fizer? Este passa a ser um dos prineipais valores existencialistas:a liberdade pata assumir a totalidade dos préprios atos. Liberdade Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vo mais do que ela rmesina. Pois em parle alguma se delim Rainer Maria Rilke A palavra liberdade € usada no linguajar popular para definir situagoe nnas quais as pessoas decidem determinades objetivos; nao é livre aqicle que nao tem condigoes para tal. Se uma pessoa, por exemplo, decile mudar de residéncia, ela ser livre para aleancar esse objetivo de aconlo com suas condigdes pessoais, que incluem desde realidade cconémnica até questdes mais subjetivas. Entretanto, se condiges adversas prejuuic rem essa mudanga, enti, essa pessoa no seré considerada livre para ti lizar seu projeto inicial. 15 Em termos politicos, o sentido de liberdade também possui conotagao propria, Dizemos possuir liberdade quando temos condigao de expressar nossa vontade e opiniao, seja através do voto, seja através da manifestagio de idéias contrérias & ordem estabelecida. E, de uma forma mais extrema- da, quando podemos manifestar um pensamento contrério ao poder sem ser confinados a prisio ou golpeados pelas policias politicas. Diferentemente das explicagées comuns sobre o termo, para o existen- smo, o homem é liberdade em seu proprio ser. Podemos afirmar que a liberdade € a consciéncia se circunscrevem reciprocamente. A existén- cia precede e comanda a esséncia, ¢ todo empenho em demarcar a liber dade torna-se contradit6tio, pois a liberdade se explica como fundamento de todas as esséncias. Nao se trata de uma propriedade ou de uma tendén- ia actescida a minha natureza; trata-e do estofo mesmo de meu ser, ¢, analogamente & consciéncia, deve-se ver nela uma simples necessidade de fato, uma contingéncia radical. Por ser o homem livre, escapa ao seu pr6- prio ser, faz-se sempre outra coisa do que aquilo que se pode dele dizer", “Estou condenado a existir para sempre além de minha esséncia, além de méveis ¢ dos motivos de meu ato: estou condenado a ser livre.” A tinica necessidade que a liberdade conhece esté aqui: 0 homer nao é livre para deixar de ser livre!! De modo geral, sem entrar na questio da condigio humana de esco- Iha e liberdade, através de termos como “liberdade de auto-realizagao”, “liberdade de indeterminagdo" ou ainda “liberdade da vontade”, alguns filésofos tradicionais definiram a capacidade de realizar objetivos previa- mente propostos E, num contraponto dos mais ricos em nuangas ¢ exuberdncia, 0 pen- samento existencialista determina uma nova reflexdo sistemética sobre a liberdadel2, © homem ¢ um ser que, livre, decide a prépria vida, © homem arca com a responsabilidade de sua escolha. E escolher sua propria vertente significa Jutar pela propria dignidade. © homem é absolutamente livre ou nao é. A alternativa € radical: ou determinismo absoluto ou liberdade absolutal3 O homem é live por necessidade ontol6gica, e qualquer tentativa de fugit dessa condigdo é, por assim dizer, uma forma de quietismo, Sartre presenta a tese da liberdade como um valor absoluto, supra-histérico: ele 16 ilo tenta ao fato de que, sea liberdade é fazer, tal fazer 6 necessariamen: te historico, nto s6 porque supde a historicidade como rasgo esseneial do homem como também porque a ddeterminagio histérico-metafisiea do que seja o homem determina inclusive a esséncia da liberdade!* A questio da liberdade dentre as diversas questées apresentadas pelos cexistencialistas é a que se apresenta como uma das mais axiomatic pessoa exposta a uma situagio em que seja necessiria a deter tuma op¢iio, a liberdade sera o determinante da condigo humana Sartre, eserevendo sobre a vida na Franga durante os anos d ilustra esse aspecto de forma bastante clara: “Nunea fomos mais livres do que sob a ocupagiio alemi. Perdemos todos os nossos direitos, a comecar pelo de falar; cada dia éramos depor tados em massa, como trabalhadores, como judeus, como prisioneiros politicos; e por isso tudo éramos livres, Porque o veneno nazista se infil: trava até em nosso pensamento, cada pensamento correto era uma con: quista; a cada momento viviamos, o sentido desta pequena frase banal ‘todos os homens so mortais’. E a escolha que cada um fazia de si pré prio era auténtica, porque se fazia em presenga da morte, porque podlia ter sido expressa sob a forma: ‘antes a morte que..; todos os que dentre 1nés conheciam alguns fatos concementes a Resisténcia se pergunt com angtistia: ‘Se me torturarem, agiientarei firme? Assim, a que: bisica da liberdade se colocava, tinhamos sido levados ao limiar da le conhecimento mais profundo que o homem pode ter de si mesmo Pois o segredo de um homem nio é seu complexo de Edipo ou de infe rioridade; € o limite efetivo de sua liberdade, € seu poder de resistencia ao suplicio e 8 morte”. “Aliberdade nao é uma qualidade que se acrescente as qualidades que jf possuta como homem: a liberdade é 0 que precisamente me estrututa como homer, porque é uma designagdo especifica da propria qualidade de ser consciente, de poder negar, de transcender. A liberdade € 0 que define a minha possibilidade de me recusar como coisa, projetanclo-m¢ para além disso, ou, se quiser, para além de mim”, E se a concepgao existencialista de liberdade traz a tona 0 questiona mento da totalidade da dimensio humana, é através dessa visio que s« determina uma nova transparéncia dos fatos da vida. E.se Sartre ilustrou seu conceito de liberdade usando como referéncia a ocupaciio nazista a 7 Paicotorapia exstncial Franga, Marighella — personagem expressivo da verdadeira histéria do Brasil ~ na prisdo, ¢ apds sessbes barbaras e desumanas de torturas, assim se expressou sobre a liberdade: Liberdade Nao ficaei tio 86 no campo da arte, @, anime firme, sobrancaio e forte, tudo farei por ti para exaltar-te, serenamente,albelo & prépra sorte Pra que eu possa um cfa contemplar-te ‘dominadora, em férvid transporte, direls que 6s bela e pura em toda parte, Por maior rsco em que essa audacia import uoira-te eu tanto, de tal modo e suma, (que rio exista forga humana alguma ‘que esta paidio embriagadora dame. E que eu por ti, se torturado for, ssa fel, indiferente & dor, ‘morrer sorindo a murmurar teu nome'?. Embora Marighclla nao seja um pensador existencialista, seu grito de cla- ‘mor pela liberdade se harmoniza com a conceituacdo de Sartre. Tal fato mostra claramente que liberdade nao € mera concessdo das instituigdes politicas diante de serviciéncias ideol6gicas, nem tampouco a condigo de se posicionar diante de determinados fatos; a iberdade é a condigdo excel- sa do homem que 0 conduz em busca da verdadeira condi¢ao humana e que determina que as atitudes sejam assumidas plenamente, e inclusive a parcela de responsabilidade na transformagiio ott manutenggio da socieda- de injusta e despotica que escraviza milhares de seres humanos, Assim, ao assumir a liberdade como um dos valores fandamentais da existéncia, estamos assumindo a nossa prép igHo, dando ao verbo que ‘determina a condicao de transitivo direto numa frase em que o sujeito © Wagilo tenham a mesma congruéneia Valdemar Augusto Angeram Solidaot® Solidao & saber do anor da paixdo, de momentos de prac & saber que a vida tem momentos felizes Felizes e suaves deleites da vida EF apesar de tudo saber da tua auséncia Valdemar Augusto Angerami A solidao, assim como a angtistia, foi outro tema que a partir dos existen- cialistas ganhou nova dimensio. A solidao passou a ser vista como sendo inerente 3 existéncia humana e no um fendmeno isolado que acomete determinadas pessoas AA ideia que a maioria das pessoas faz da solidio € de um sentimento doido, que nos acomete em determinados momentos, Aquela sensagio de ‘mal-estar que nos invade na sexta-feira 3 noite ou no domingo a tarde, sozi- rihos em casa, sem programa. Ou o estado em que um amigo se encontra por estar passando por um period diftil, depois de uma separagao. Na verdade, a solido, uma condigdo imanente 20 homem, faz parte da vida. $6 que, em determinados momentos, a percebeos mais aguda- mente e nao sabemos como lidar com el A solidao parece estar longe quando mantemos um relacionamento muito estreito, muito intimo com uma pessoa que amamos, com a qual temos bastante afinidade ¢ pontos de contato. Ou numa relagio sexual cem que os dois sentem a possibilidade de uma unio total. Mas, cedo ou larde, chega a hora de encarar a conclusio inevitivel: cada um € um. Muitas vezes, percebo-me como parte de um todo ~ de uma familia, de um grupo de amigos, de uma comunidade, mas chegard 0 ponto em que tomarei conseiéneia de que, para minhas realizagées pessoais, depen- do de minhas possibilidades, Em sur pessoas que se ama, por mais que se interaja socialmente nao sera possi- ld no fundo, a certeza de ser 86. |, por mais que se viva junto das uum ser ajuda a compreender a solidio. Ao contririo de win objeto inanimado, o homem tem consciéneia de ser. Essa cons- ae tem que resol- seja, “em tiltima instincia, é de mim que i€neia é que vai levi-lo A concluso “sou uma pessoa \\ prOprias coisas”, C icoterapiaexistencial Asolidao, na maioria das vezes, é diretamente associada com desespe- 10, com sofrimento € com o suicidio. E como se a grande maioria das pes- soas niio agtientasse a condicdo de ser 86. E tudo enti é desesperador. As provas sto os bares notumos das grandes cidades cada vez mais repletos de pessoas solitérias que buscam o Outro, ¢ as milhares de chamadas tele- {onieas recebidas por servigos como o CVV ~ Centro de Valorizagio da Vida, Um dia acordo sentindo-me sozinho, necessitado de alguém O que tiro disso? A consciéncia de que preciso do Outro, O Outro também € procurado, seja através de uma carta, da lembranga de alguém... Quem € que nao sentiu essa espécie de vazio alguma vez sozi- no em casa? A televisio nao distrai,a mtisica, em vez de consolar, lembra situagdes em que havia a presenca do Outro, a figura de pessoas queridas Nessas situagdes, tudo € dificil, até mesmo concentrarse em um Livro. basta ligar para alguém, e uns minutos de prosa jé mudam esse pano- 1a sombrio. A voz do Outro é aquela que me faz alguém com signifi- Entrar em contato com a solidio nao ¢ algo facil. Mas, ao compreen- désla, a0 constatar que cada um é snico com sta propria historia, seu pro- prio percurso, sua prépria biografia, sua maneira prépria de buscar senti- ddo para a vida também se percebe que ela demonstra a grandeza e a bele- va da condigao humana. Ha momentos em que as perspectivas da eondigio humana se perdem € 0 sofrimento vence. Sao periodas erfticos de perdas reais ou aparentes. Nem sempre sao felizes ou bem-sucedidas as tentativas de aliviar a soli- dio a qualquer custo. Hoje, muitas pessoas dispostas a procurar companhia encontram al- ‘guém num bar, siem, conversam e até mesmo se relacionam sexualmente. 1330 tudo, inevitavelmente, levaré essa pessoa a um estado que pode ser per- feitamente definido como “ressaca moral”, pois, se tiveralguma Iucidez, ela perceberd que, para suprir uma careneia, procurow alguém que nada tinha ‘1 ver com sua realidade existencial O homem vive a solidao de maneira indissolivel. Nasce e vive s6, dei- xando 0 espectro da solidio apenas e fo te Ihant Hiossomente quando morre, ¢ 0 que 6 mais agravante conhecimento do desespero que a solidao pro: voca em seu se legando a si isoladamente essa problematica 1, como se fosse algo pessoal e indivi ‘Valdemar Augusto Angerami ~ Camon. ‘Ao pensar na solidao como fazendo parte da existéncia humana, esta ‘mos assumindo a nossa condigio de seres tinicos e, portanto, responsiivels pela dimensiio dada a essa existéncia. O confronto com a prépria solidi, a0 contrério do que possa parecer, leva 0 homem a busea de altemativas existenciais muitas vezes eontrérias as formas desesperadoras e fechadas. Esséncia E de repente, neste drduo Nada, o ponto inexprimivel, onde a insuficiéncia pura incompreensivelmente se transforma ~ ce salta aquela vazia plenitude onde o cdleulo de muitos algarismos se resolve sem ntimeros. Rainer Maria Rilke Una das cantinelas mais polemicas que envolvem a existéncia é 0 enre- damento da Idéia de Descartes: “Penso, logo existo”. Esse enredam: = determinista — possui um nexo causal que lega aos homens a condi de existirem apenas e Hiosomente a partir do pensamento ou da cons- ciéncia dos fatos, O pensamento, presungosamente, determinardi a exis- tencia dos seres, Essa idéia, que predominou na Filosofia por muito tempo e ainda predomina em alguns segmentos do pensamento, tornou: se infundada diante de contraposicdes feilas aos seus prinespios pelos pensadores existencialistas. Uma drvore € real, independentemente do pensamento, e, por mais que possam surgir polémicas que debatam esse fato, colocando que cla s6 adquite coneretude na consciéncia quando a consciéncia consegue apreendé-la, isoladamente, essa frvore em nada depende dessa conscién- cia para ganhar de forma e concretude. Sua tealidade é tinica ¢ indepen- de do pensamento, formas e contornos que a consciéneia possa Ihe deter- minar, Com isso, nega-se 0 idealismo ¢ sua crenga de que a consciéncia originatia a existencia humana ¢ os objelos. Se uma conseqiiéncia dessa ‘iegagio implica aceitar a concrelude de modo independente da conscién- se necessirio, no entanto, diferenciar, ao menos brevemente, 0 do materialista ow realista, Embora Sartre wia da con pensamento existencialist proximé-los, reconhecendo a impor tenha se esforgado por Psicolerapia existencial Cretude, todos os existencialistas acreditam na possibilidade de a existéncia Ningir um sentido mais elevado, um “algo mais” que meros organismos biol6gicos. I no encontro do homem com a coneretude do mundo que a xisténcia acontece antes de qualquer pensamento. ‘A existéncia humana, portanto, pode ter como premissa outta idéia: isto, logo penso”. A existéncia, assim, ird determinar 0 pensamento ¢ ité mesmo direcionéslo segundo as vertentes pelas quais possa enveredar ‘Aexisténcia, em suas amiltiplas possibilidades, lega a todos os fendmenos ala inerentes a condigao de serem considerados reais apenas a partir de si ¢ nao do pensamento isoladamente, Nesse sentido, a questao que envolve a temética da esséncia humana deve ser colocada da seguinte forma: a existéncia precede a essé Esséncia, etimologicamente, é assim definida: natureza fntima das coisas; aquilo que faz. que uma coisa seja 0 que € ou the dé a aparéncia domi- ante; aquilo que constitui a natureza de um objeto ari estabelece uma distingdo entre a esséneia humana e a natureza de objetos: “(..) consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, um livro ou um corta-papel: tal objeto foi fabricado por um artifice que se ins- pirou em um conceito; cle reportouse ao conceito do corta-papel e igual- mente a uma técnica prévia de produgio que faz parte do conceito, que é, no fundo, uma receita, Assim, 0 corta-papel é ao mesmo tempo, um obje- to que se produz. de uma certa maneira e que, por outro lado, tem uma ute lidacle definida: nao € possivel imaginar um homem que produisse um corla-papel sem saber para que hi de servi tal objeto. Ditemos, pois, que, pant o corta-papel, a esséncia — quer dizer, o conjunto de receitas e caracte- risticas quee permitem produzi-lo ¢ definilo ~ precede a existenefa: e assim a presenga diante cle mim, de tal corta-papel ou de tal livto, esti bem deter- minada, Temos, pois, uma visio técnica do mundo, na qual se pode dizer que produgao precede a existéncia”20 A comparacio coma fabricagio de tais objetos para equiparar-se a con- dligdo humana prescindiria de um ente eriador de nome Deus, que assim fabricaria entes cha pados homens: “(...) quando concebemos um Deus ificamo-lo quase sempre com um artifice superior a doutrina ceriador, esse Deus ide 6, qualquer que sej que consideremos, rala-se duma doutt como a de Descartes ou a de Leibniz; admitimos sempre que a vontade heguie mais ou menos a inteligencia ov pelo menos a acampanha, € que Valdemar Augusto Angerami ~ Camon_ Deus, quando cria, sabe perfeitamente o que cria. Assim, o conceito do homem, no espirito de Deus, é assimilavel ao conceito de um corta-papel to do industrial; e Deus produz 0 homem segundo técnicas ¢ ‘uma concepgio, exatamente como o artifice fabrica 0 corla-papel, segun do uma definigdo ¢ uma técnica, Assim, o homem individual realiza un certo conceito que esti na inteligéncia divina?!. Na seqiiéncia, Sartre traz a tona 0 posicionamento das filosofias do século XVII, que, apesar de mostrarcm-se contririas aos pontos tecidos pelos filésofos antepassados, t@m ent si similaridade e congruéncia. “No século XVI, para o aleismo dos filésofos, suprimese a nogdo de Deus, ‘mas nfo a idéia de que a esséncia precede a existéncia. Tal idéia encon- tramo-la em Diderot, em Voltaire e até mesmo em Kant. O homem pos- sui uma natureza humana; esta natureza, que € 0 conceito humano, encontra-se em todos os homens, 0 que significa que cada homem é um exemplo particular de um conceito universal — 0 homem; para Kant, resulta de tal universalidade que o homem da selva, o homem primitivo, como o burgueés, esto adstrtos & mesma definiglo e possuem as mesmas qualidades de base. Assim, pois, ainda af a esséncia do homem precede essa existéncia histérica que encontramos na natureza2?, E Sartre torna-se enfitico mostrando como o pensamento existencia- lista lega ao homem a condigdo de ser pleno e tinico: “..) hd pelo menos um ser no qual a existéncia precede a esséncia, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser 6 0 homem, ou, como diz Heidegger, @ realidade humana”? Diante dessas colocagies, surge uma outra questio: que significa, aqui, dizer que a existéneia precede a esséncia? Significa que © homem primeiramente existe, descobre-se, surge no mundo, e s6 depois se def ne, O homem tal como o concebe o existencialist, se nflo é definivel, & porque primeiramente nao € nada’, Essa concepgao existencialista de hiomem antagoniza-se de forma radical com os conceitos leterminalistas de compreensio do homem ‘Se existem tantas resisténcias na aceitagao desse preceito existencialis- 1a, devesse ao determinismo legado ao homem pelas ciéncias contempo- iineas, Esse determinismo, que encontra eco nas mais diversas correntes: do pensamento contemporineo, coisifica o homem, determinando-lhe os. sdlitas, Ao se comparar, por prdprios sentimentos em conceiluagies OE outro Indo, a esséncia humana com a esséneia de outros seres, fica not6- rin a condigdo de ser existente que se transforma e se projela na pr6pria dimensio de seu ser. Uma drvore, por exemplo, se desenvolve a partir da 1 desenvolvimento e crescimento serio deter- ininaclos a partir das condig6es climsticas. A sua esséncia, no entanto, inalterivel: nao se consegue, como era citagio, a partir de sementes de Jaranja, um abacateiro. Por mais que possam existir adubos e implemen- {os agricolas que propiciem condigées de desenvolvimento em situagdes climéticas desfavoraveis, ainda assim, a esséneia de uma dada semente inalterdvel. Mesmo em se tratando de sementes transgénicas, o que muda so as caracteristicas, nfo a esséncia da planta A esséncia humana, ao contrdrio, tem condigdes de desenvolverse ¢ transformar-se segundo projetos de vida previamente estabelecidos pelo proprio homem. cesséncia de sua semente; A esséncia, ao ser determinada pela existéncia, tomase a propria ensio da vida em sua forma mais exuberante, a despeito de a idéia de Descartes ainda pontear a quase totalidade da tecnocracia e do determi- nismo da prépria ciéneia em seu nexo causal ‘Acesséncia humana, dessa forma, jamais é estética ou a mera repetigio de fendmenos a partir de fatos ocorridos no passado, Essa condigio asse- {gura a0 homem a peculiaridade de poder se transformar e, se necessatio, Fecomegar e reconstruir a cada instante uma vida quedada diante do sofrimento e das agruras da existénei Se a ess ia humana recebe, nos tiltimos tempos, diversos questiona- 'mentos filos6ficos, seu valor enquanto fato absoluto torna-se insélito dian- te da proposta existencialista. Desde as correntes filasoficas, cujas vertentes ‘apontam em diregao a0 mistico até aquelas embasadas em éticas eminen- temente materialistas, a questdo da esséncia humana traz em si a condigéo excelsa da existéncia em sua capacidade de transcendéncia. Existem diver- sgéncias na forma da andlise das correntes misticas em relag&o &s materia- listas no que tange ao significado da esséncia em sua condigo mutante, sendo, porém, uma das mais expressivas convergéncias diante das divergén- cias do pensamento contemparsineo, o encontro dessas vertentes. As correntes existencialistas, determinantes do pensamento e da an- lise da existéncia em todas as suas formas e contomos, sio, pelo préprio confronto de seus postulados, separadamente ou até mesmo entre si, sis- 24 temas de r cenvolventes dle expressiio ¢ idéias que, embora diver gentes na transparéncia, convergem no fato de sedimentar facetas indelé veis do mesmo fendmeno; a existéncia. O ser-no-mundo [Nao posso eserever versos. Nao sou poeta ‘Nao posso distribuir as frases artsticamente para que produzam luzes ¢ sombras; ndo sou pintor. ‘Tampouco posto expressar meus sentimentos ¢ idéias por meio de gestos e pantomimas: nao sou bailarino ‘Mas posso fazé-lo por meio de sons: sou musica. Wolfgang Amadeus Mozart © homem existe nfo apenas em sua relagdo corpérea ou pelo lugar que ocupa no espaco. O homem existe em relagdo a sua condigio de ser-no- mundo Do ponto de vista do existencialismo, o homem nao esté sob influéncia daquilo que é extemo a cle; na verdade, ele se compoe juntamente a esse externo, misturandose com cle. Explicando 0 pensamento de Heidegger, Steiner nos ensina: “O mundo é — um fato que é, sem sombra de divida, (0 prodigio e a fonte primordial de todo o perguntar ontolégico. E/Bsté aqui € agora e por todo o lado nossa volta. Nés somos/estamos nele. ‘Completamente. (Como € que poderiamos estar/ser em qualquer ‘outro’ lugar?) Para expressar esta imanéncia radical, esta incrustag20, Heidegger utiliza o termo composto In-der-Weltsein (um ‘ser-no-mundo’)”®. O fato de estar-no-mundo constitui um fato por sis6 determinante de muito sofrimento e desespero, O mundo com suas condigoes e normas ~ morais, éticas, politicas, religiosas ~ cerceia a quase totalidade do desdo- bramento das possibilidades existenciais. Assim, sera muito dificil uma existéncia plena e digna num mundo tio despotico ¢ castico. Seria pos- sive] negat 0 aniquilamento existencial provocado pelas condigdes adver- sas e advindas do emaranhado social em que vivenos? Como negar 0 softimento ¢ até mesmo o desespero diante das injustigas legadas a0 homem pelos sistemas politicos criados segundo a conveniéneia € 0 pri- vilégio de minorias? 25 mundo implica uma luta constante do homem consigo proprio pina nflo perder sua dignidade existencial e suas caracteristcas indivi Na medida em que os valores sio determinados pelo enfeixamento de nor- ls Sociais, os conflitos serdo diversos ¢ exigirdo um discemimento bastan- te hicido no sentido de uma reflexio constante para nao se tomar presa de tum sistema social em que a dignidade humana sequer é questionada, O homem é 0 ser que existe, ao contratio de outros seres e objetos que apenas so. O ser é, O ser € em si, O ser 60 que 2, O homem, no entan- to, € um ser para si. Ba questio do ser-no-mundo converge diretamente para a angtistia do aqui e do agora, Dentte os existencialistas, é Gabriel Mareei quem mais ressalta essa forma de angiistia. “Por que”, pergunta ele num espanto extremo, “existo como um autor num ponto particular do espago e do tempo, num mundo moderno, eserevendo um livro de Filosofia? Por que hilo seria tum leproso num ponto de espago ¢ do tempo, mum mundo medieval, tocando a sineta para prevenir o burgo, encerrado em suas muralhas, de minha aproximagao?"”, (Ow ainda nas palavras de Paseal: “Quando considero a pequena dura- «iio da minha vida, absorvida na etemidade precedente e subsequente, 0 pequeno espago que ocupo, € me vejo, mesmo, perdido na infinita imen- sido dos espagos que ignoro e que me ignoram, sinto-me aterrorizado ¢ admirado de me ver aqui e nao If, pois nao hd nenhuma razio porque aqui € nao 14, porque agora e nao entao”? O ser-no-mundo traz também a questo de que o homem € 0 tinico ser que constrdi seu ambiente de vida (talvez. destrua, se se levarem em conta (0 desastres ecol6gicos provocados pelas mos htimanas no seu afi de [des] Cconstruir novas situages ambientais). Os animais, por outto lado, habitam determinado ambiente sem condigées de transforméslo ou até mesmo de se adaptarem noutro ambiente. Se a existéncia traz em si aspectos tio desesperadores como a solidao, é a questio do ser-no-mundo que o direcio- 1a a0 encontro da consciéncia do outro; formase, nessa anélise, a propria relagio da percepeao de si, do outro e, conseqiientemente, do mundo. Heidegger aprofunda-se, ditecionando a reflexio para aspectos que envolvem o ente ¢ o Ser. “Todo ente é no Ser. Ouvir tal coisa soa de modo trivial em nosso ouvido, quando nflo de modo ofensivo, Pois, pelo fato de © ente ter seu lugar no Ser, ninguém precisa preocuparse. Todo mundo 26 sabe: ente é aquilo que é Qual a outra solugio para o ente a niio ser esta: E, entretanto, precisamente o fato de o ente permanecer recolhido o de Ser manifestar-se no ente, é que deixava aténi- tos 08 gregos, ¢ a cles primeiro e unicamente espantou”™®. cada sentenga que proferimos, 0 er € afirmado, Mas niio nos dete- ‘mos para indagar de nés mesmos 0 que é que estamos dizendo ou, mais exatamente, 0 que € que nos permite, na verdade, e nos compele a dizer 0 que é. Nao indagamos quanto aos fundamentos existenciais de nossa propria existéncia ou no existéncia — as duas sfo formal e substancial- ‘mente insepardveis — nem quanto ao status de entidade atribuido (confe- rido?) ao mundo por toda € qualquer coisa que dizemos. E justamente porque nio fazemos tal indagagio que a questio de Heidegger e o conse- quente discurso nos parecer “loucos” (em sua prépria palavra) ou vazios, Este pedago de giz é branco; € de tal composigo quimica e dis- tribuigdo molecular; seus elementos possuem este ou aquele peso atdmi- co; pode ser usado para fazer marcas visiveis em tais materiais e ndo em outros; pode ser transformado por diluicdo, por calor ou pelo frio nas seguintes subslanecias; e assim por diante, Que ha mais para dizer? Tudo, propée Heidegger. Por que é este pedago de giz? Por que é, quando poderia nao ser? Ej temos de fazer uma pausa, diante do ins6- da formulagao e de sua aparente vacuidade. E 0 que é mais: que pos- sivel resposta pode haver para tais perguntas a no ser uma tautologia (explicar um conceito usando o préprio conceito de maneira diferente)? O pedago de giz é porque é, Mas sendo assim, entio, a palavra é €a enti- dade que ela implica nao seria mais do que uma palavra vazia. Nada sig nifica de real, tangfvel, material. O seu significado 6 uma névoa irreal e (..) quem quer correr atras dessa névoa? Merleau-Ponty, de outto lado, refletindo sobre a questio do Ser, eolo- ca que vemos as coisas mesmas; 0 mundo é aquilo que vemos — formulas desse géncro exprimem uma {€ comum ao homem natural ¢ ao filbsol, desde que abra os olhos; remetem para uma camada profunda de “opi- rides” mudas, implicitas em nossa nova vida. Mas essa fé tem isto de estra- er, de o fen rho: se procurarmos articui-la numa fese ou num enunciad, se pergun tarmos 0 que é este nds, 0 que é este ver e o que é esta coisa on este mundo, penetramos num labirinto de dificuldades e contradigies. “(..) pois se € certo que vejo minha mesa, que minha visio termina nela, que ela fixa e detém meu olhar com sua densidade insuperiv também é certo 7 Psicoterapia existencial que eu, sentado diante de minha mesa, ao pensar na ponte da Concérdia, no estou mais em meus pensamentos, mas na ponte da Conedrdia; e que, finalmente, no horizonte de todas essas visdes ou quase-visdes estd 0 pro prio mundo que habito, o mundo natural e o mundo histérico, com todos 08 vestigios humanos de que é feito (..)"3! O fendmeno, ou aquilo que se manifesta, consiste em ser “plema posi- tividade, sua esséncia € um ‘aparecer’ que ja nao se opie ao ser, pois que 6,0 contrério, a sua medida, porque o ser de um existente reside preci- samente no fato de que ele aparece”®2. O ser do fendmeno mostra-se em Set aparecer ~ o fendmeno ou o relativo absoluto, E relativo no sentido de que o aparecer supde de um modo essencial alguém a quem o apare- cer aparece. Mas 0 fendmeno em si mesmo deve ser considerado um absoluto, no sentido de que se trata de um aparecer que nada esconde atrds de si, ndo podendo ser compreendide como manifestagio de uma suposta coisa em si que seria, ela, o absoluto, O que o fenémeno €, ele 0 € absolutamente, tal como é:o fenémeno é “absolutamente indicativo de si mesmo", é um absoluto®, “O homem é o ser que ndo é 0 que é, e que é 0 que nao é”, E neces sirio, entio, que o homem seja entendido como o ser que é, ndo um mero conjunto de mecanismos desprovido de sentimentos, mas um ser transfenomenal que se percebe enquanto fendmeno e se anuncia no fernémeno como um além deste. Assim, © homem sera capaz de criar e até mesmo enredar a compreenséio de sua propria existéncia, partir de sua condiglio de ser, um ser capaz de aleangar a transfenomenalidade do fendmeno de ser, Morte Morrer é viver as possibitidades do nao, saber que a transcendéncia é a vida, vida em morte, 0 morrer em cada instante no pulsar de um beijo, no afagar de mies. Valdemar Augusto Angerami A morte foi u mito, Sartre coloca que, por al sobre qual 0s existencialistas escreveram mn tempo, foi muito atrafdo pelas con copgoes de Heidegger sobre a morte, especialmente a que indicamos demar Augusto Angerami ~ Camon acima como segunda tese (...a decisio resoluta de assumir a finitude nao apenas alivia 0 terror original que a perspectiva da morte inspira; serve também de alo de encerramento de nossa vida e sua constituigao numa espécie de totalidade, modificando, assim, a profunda brecha em nosso ser, causada pela necessidade ontolégica de perpétua autotranscendén- cia, Assumindo a morte, interiorizamola como possibilidade siltima, como elemento final de todos os atos de autotranscendéncia. Na morte, somos a totalidade que nfo pudemos ser em vida; mas, mesmo em vida podemos em certo sentido antecipar-nos a nés mesmos em diregao a morte e, assurnindo a morte, adotar um ponto de vista sobre nés como totalidade). Humanizando e interiorizando a morte, o homem pode ali- jarlhe o cariter de restrigio da liberdade. A doutrina heideggeriana se apresentava assim a Sartre como um meio de resguardar a teoria da liber- dade total: “Esse limite aparente de nossa liberdade, interiorizando-se, 6 recuperado pela liberdade”88, Porém, tendo considerado mais tarde a doutzina, que acreditava também de Rilke e Malraux, acrescenta: “Nem a comodidade dessa idéias, nem a parte incontestével de verdade que encerram, nos devem confundir. E necessério retomar do comego o exame da questio”>” Critieando a primeira tese heideggeriana, a saber, que a consciéncia da morte intensifiea a autopercepgio e nos confere a categoria da indivi- dualidade, Sartre se detém sobre o juzo de que a morte € a tinica coisa que ninguém pode fazer por mim: “E perfeitamente gratuito dizer que “morrer € a Ginica coisa que ninguém pode fazer por mim’ (...) se a morte for considerada como possibilidade tiltima e subjetiva, evento que s6 con- ceme ao para-si, € evidente que ninguém pode morrer por mim. Mas seguese disso que nenhuma de minhas possibilidades, tomadas desse ponto de vista (..) pode ser projetada por um outro que ndo eu, Ninguém pode amar por mim, se entendermos com isso fazer esses juramentos, € que sfio meus juramentos, experimentar as emog6es (...) que so minhas emogdes (..) Se pelo contxsrio de sua fungao, de sua eficiéncia e de seu resultado, é pacifico que o outra sempre pode fazer o que fago: se se trata de tomar certa mulher feliz, de defender sua vida ou sua liberdade, de the dar o> meios de realizar sua salvagao ou simplesmente de construir 1 amor, entio com ela ann lar, ‘darlhe filhos’, se isso é 0 que defi nar em mew higar, poder mesmo amar por mi (.) nest acontece com todas as minhas atitudes (,.), Minha morte entrar Psicoterapia existencial também nessa categoria: se morrer € morrer para edificar, para testemu- nohat, para patria ete., qualquer um pocle morrer em meus lugar”. re entretece ainda seu esbogo contrapondo as idéias de Heidegger Rilke: “Rilke se esforga pata mostrar que o fim de cada homem se assemelha a sua vida, porque toda vida individualmente € preparagao desse fim; neste sentido, Malraux, em Les Conguérants, mostra que a cul- (uta européia, a0 dar a certos asiticos o sentido da morte prépria, penetra imediatamente a verdade desesperadora ¢ embriagadora de que ‘a morte 6 nica’. A Heidegger estava reservado dar forma filos6fica a esta humani- vagio da morte: com feito, se o Dasein (termo utilizado por Heidegger para designar o ser do homem) nao necessita nada, precisamente porque € projelo © antecipagao, deve ser antecipagao e projeto de sua propria morte como possibilidade de nao realizagao mas presenga no mundo. Assim, a morte se converteu em possibilidade propria do Dasein; 0 ser da realidade humana se define como ‘ser-paraa-morte’, Tanto que 0 Dasein decide seu projeto para a morte, realiza a liberdade-para-morrer ¢ se cons- litui a si mesmo como totalidade pela livre escolha da finitude”®. Sartre, na seqtiéncia, coloca de maneira bastante clara e constrita seu posicionamento sobre a morte num contraponto com as idéias de Heidegger: “Tal teoria, & primeira vista, nfo pode deixar de nos seduzir inleriorizar a morte serve aos nossos préprios designios; esse limite aparen- te de nossa liberdade ao interiorizé-la € recuperado pela liberdade. Entretanto, nem a comodidade de tais concepedes, nem a incontestivel parte de verdade que encerram nos devem confundir. E necessério retomar desde 0 comego o exame da questao. fi certo que a realidade humana, pela qual a condigzo humana torn-se realidade, ndo poderia encontrar-se com © inumano; o conceito de inumano mesmo € um conceito de homem. E necessirio, pois, abandonar toda esperanca, ainda que em si a morte seja uma passagem pata Inu aberta mano, de considers-la como u A morte nada nos revela send acerca ce nds mesmos ¢ desde um ponto de vista humano. Significa isto que pertence a priori a realidade h ? Antes cle mais nada € necessério advertir do caréter absurdo dat one" Sartre, em seguida, coloca o distanciamento de sew posicionamento em telagio a Heide Nesse sentido, toda tentagio de considerd-la como um acorde de resolugao ao Kérmino de uma melodia deve ser Figo rosmmente apartada, A menos que acreditemos estar na situacho de um Valdemar Augusto Angerami - Camon condenado entre condenados, que ignora o dia de sua execugao, poréin vé executar a cada dia seus companheiros de presidio. Isto nao mente exato: melhor seria comparar a um condenado a morte que se pr para valentemente para o tiltimo suplicio, que se prepara com cuidado para fazer bem seu papel no cadafalso e que, entretanto, € arrebatado por wna epidemia de gripe espanhola. Eo que ha compreendido da sabedoria crist’, que recomenda preparar-se para morrer como se a morte pudesse sobrevir a qualquer hora. Com efeito: se 0 sentido de nossa vida se con- verte em espera da morte, esta, a0 sobrevir, nao pode sendio por seu selo sobre a vida. E, no fundo, 0 que hé de mais positivo na decisto resoluta (Entschlossenheit) de Heidegger. Desgracadamente, so consensos mais faceis de ser seguidos, nao a causa de uma debilidade natural da realida- dehumana, ou de um projeto origindrio de inautenticidade, sendo a ‘causa da morte mesma, Com efeito, um pode esperar a morte particular, porém nfo a morte”#! Para Sartre, a morte & a ocorréncia que determina o fim da existéncia pondo fim a todos os projetos elaborados. Heidegger, de outra parte, colo- ‘ca a morte como fazendo parte da vida A existéncia humana softe perda de continuidade com o ato de mor ret. A morte tem a condigdo de determinar & existénciavo fim de seus devancios, planos ¢ ilusdes. A morte é, assim, a ocorténcia mais conereta da exist@ncia humana, determinando, muitas veres, a condigdo de absur- lade da vida, Para Heidegger, a nossa primeira abordagem objetiva do fendmeno do término do Dasein, que € a morte, ocorre através da morte de outros Como ser é sempre um ser-com-outros, “adquirimos literalmente uma cexperiéncia da morte” em numerosos momentos, durante a nossa propria cexistencia, Além disso, Heidegger, neste ponto, atinge um dos seus yomentos mais estranhamente pungentes, a morte de outros coloca-nos diante de “esse extraordinario fenémeno de ser que pode definir-se com a mudanga de uma entidade da espécie de ser (ou da vida) do Dasein para ndo-mais-Dasein™®, Desa mancira, 0 morto abandona o nosso mundo, mas, em termos de ente, “aqueles que ficam podem ainda estar com ele”. Em um nivel, ilo a qualidade compartithada ¢ constantemente de todo ente, Num Heidegger esti reafir purticipatdria do cotidiano existencial, 0 “sere outro nivel, ele esté aduzindo a verdade psicolégica perfeitamente ordi- niria, mas profunda, de que os mortos podem estar mais perto de nds, pais ativamente conosco, mais plenamente uma parte de nosso ser do que 0s vivos. O estudo dos pensamentos de um homem morto, a contem- plagiio de sua arte, a tealizagdo de seu propésito politico, a intensa recor- dagio de seu “estar-af", so exemplos de cuidados inteiramente tipicos da existencia humana® O enunciado de Heidegger (com seu aparente eco da famosa oragao de Rilke para Uma Morte Estritamente Pessoal) obteve uma formidvel influéncia: “Ninguém pode arrebatar a outro a sua motte. F; claro, alguém pode ‘enfrentar a morte por outrem’, Mas isso significa sempre sacrificarse por outrem em ‘algum caso definido’, Tal ‘morrer por’ nunca pode significar que ao outro forlhe assim arrebatada sua morte, Morrer 6 algo que todo Dasein deve ele mesmo assumir no tempo. Por sua prépria esséncia, a morte é, em todo o caso, minha, na medida em que“€. E, com efeito, a morte significa uma peculiar possibilidade-de- ser em que o mesmo ser do proprio Daein do homem é o fim, um desfecho final. No morrer, mostra-se que ‘pertencer a mim’ (mineness) © existéncia so, ontologicamente, constitutivos para a morte. Morrer nio ‘um evento; é um fendmeno a ser compreendido existencialmente"#. A transparéncia dos fatos ea propria dimensao do ato de morter, a0 ser trazida a consciéncia, determina o esteio sobre o qual a vida € sedimenta- da, Em uma simples projegdo, para se ter uma idéia do alcance desse posicionamento, é praticamente impossivel pensarse de que forma seria a existéncia sem a morte. Se no existisse a possibilidade de se morrer, entio, seguramente terfamos que conceber uma forma de existéncia sequer tangivel pela razio c, portanto, pela no razo. Os modelos eco- némicos, scjam eles capitalists, socialistas ou de qualquer outra estrutu- ago, embora sedimentados em bases que nio aquelas meramente filo- séficas, tém seu poderio sobre outras sociedades a partir do determinante da morte € do ato de morrer. Assim, uma nagdo € poderosa em relagio & outra pelo porte de seu arsenal bélico e, portanto, pela condicao de des- truigao do povo ou nagio adverséria. Se nio existise a morte, a condigio bélica perderia o significado ¢ 0 poder. A espoliago mercantilista que ayilta © trabalho do homem, impondo-she condigdes desumanas na busca da pura sobrevivéncia, perderia o significado, Deixaria de haver a condigdo de espoliagdo ¢ de exploragio: ninguém necessitaria exporse & 92 - condigho mercantilista de trabalho em busca da sobrevivencia, ‘Também, se nilo houvesse a motte, a vida prescindiria totalmente da Medici definida em suas lides como sendo a arte de manter a¢ a chama da vida, As doengas que ceifam e dizimam milhares de vidas humanas niio ‘mais atuariam sobre a espécie humana Wilma C. ‘Torres#> coloca que a morte é, no século XX, 0 sujeito ausente do discurso, afirmando também que varios fatores costumam ser apontados para justficar 0 desencontro do homem com a morte. Esse desencontro ocorte, em parte, porque na relago do homem com a morte ha uma aparente contradigdo. Se a morte € natural, por que o conflito? Por que a resistencia? A resposta é dada inicialmente pela prépria biolo- gia. Na verdade, em termos biolégicos, a morte é “natural” apenas no sentido de que € universal, inevitével. E isso o que demonstra a nova teo- ria cientifica da morte, pois a biologia, ao estudar 0 fendmeno mais de perto, pode afirmar que o que mais caracteriza o organismo vivo € a imor- talidade e nflo a morte: as células vivas sio potencialmente imortais ou is. Os seres unicelulares so potencialmente imortais. Assim iz Weissman, a morte dos seres superiores no se baseia em uma propriedade original da substincia viva, mas decorre de condigdes espe- ciais de organizagao dos seres evoluidos. Dessa forma, a biologia desco- brin que a morte no € uma fatalidade da vida organica. Os seres vivos em sua origem ndo slo “heideggerianos” — a vida nao € a morte, Na ver- dade, em termos evolucionistas, a morte “natural” foi uma descoberta tardia da vida, sem “luxo”, e por isso, para a biologia, atualmente, pro- bblema mais misterioso e apaixonante do que o da origem da vida é o da origem da morte. Quanto mais se sobe na escala dos organistnos vivos, na escala das especializagdes, mais diminui a possibilidade de regeneragio celular; a célula mais evoluida —a nervosa ~ parece mesmo incapaz.de se renovar. Como se pode ver, a regressao se mostra como lei necessiria das células especializadas. A morte surge como prego da organizacio, da dife- renciacao, da especializacao®, Na seqiiéncia, tentando aprofundar ainda mais esse questionamento, ‘Torres coloca que o homem transcende os limites da biologia ¢ que, se a morte é contréria & sua natureza biolégica, é ainda mais contréria a essén- cia mesma da natureza humana. Quem procura demonstrar isso, dentro de uma perspectiva existencialista cris, é Landsberg, em seu notével tra- balho Essai Sur I'Expérience de la Mort (Ensaio sobre a experiencia da morte). Landsberg, ainda segundo Torres, contrariando Heidegger, afirma 33 Psicoterapia existencial que pessoa humana, na sua esséncia, nao € existéncia para a morte; tam- bém argumenta que a angistia da morte seria ineompreenstvel se a estru- tura fundamental de nosso ser no contivesse 0 postulado existeneial de lum “outto lado”, Se assim ndo fosse, a morte seria simplesmente um fato do futuro, talvez bastante penoso, mas sem nenhum peso excepcional ¢ sem nenhuma outra ameaga metafisca. A angiistia mesma nos revela que 4 morte ¢ nada se opdem a tendéncia mais profunda e mais inevitivel cdo nosso set. No fundo do ser ha um ato: a afirmagao de si mesmo. Na pes- soa que se sabe tinica encontramos a afirmagio desse elemento tinico a realizar, afirmago que implica a tendéncia a ultrapassar o tempo. A morte interpretada como definitiva, a morte fisica interpretada como negacio universal de nossa existéncia, é apenas o reflexo da descrenga desesperada, a negagio da pessoa por ela mesma, Se a natureza humana tem neces- sidade de sobrevivéncia, no € nem por egoismo, nem por burla, nem por Fegressio, nem por um atavismo histérico qualquer. Esta necessidade mesma é 0 testemunho de uma estrutura ontolégica fundamental: a cons- éncia imita 0 ser profundo. Se nenhuma possibilidade verdadeira cor- respondesse a essa tendéncia, toda a existéncia humana submergiria do nada, Portanto, @ consciéncia da morte caminha paralela a individualiza- glo humana, com a constituigdo de individualidades singulares, obra da pessoa, Talvez isso explique por que épocas histérieas ricas de individua- lidades singulares sejam perseguidas pela idéia da morte e por que s6 sociedades como a modema (que sofre profunda crise de individualida- de) fagam da morte um tabu, A morte é, muitas vezes, um processo vital que determina inclusive a propria condigio da vida, ‘Ao se trazer a tematica da morte para discussio a partir de vitias éptic «as, estamos, na realidade, mostrando uma das facetas mais contunden- tes da existéncia em suas performances e manifestacées. O sentido da vida Tivesse, como nos, conseiéneta o animal trangiile ~ em outro sentido nos arrastaria seu ritmo seria o nosso Sew ser, porém ¢ infinto, inapreensivel e sem olhar E-ele tudo ve, puro e inconsciente des ‘onde nds vemos futuro, em tudo se vée salvo para sempre Rainer Mavia Rilke Valdemar Augusto Angerami ~ Camon Dentre os temas existenciais, o sentido da vida seguramente é um dos que mais provocam celeumas quando de seu questionamento. A questio do sentido da vida ¢ uma das temsticas que mais convertem para a dimensiio do pensamento existencialista em suas nuangas ¢ convergéncias A vida enquanto existéncia tinica ¢ isolada niio tem sentido. O homem existe a partir de suas realizagées, nfo existindo pela sua propria vida iso- lado do contexto de stas realizagdes*®. E sea vida nfo tem sentido, ou usando a definigio existencialista, “a existéncia 6 absurda”,® tal consciéneia nos leva em busca de realizagies significativas visando dar sentido ¢ cor a essa existéncia. A consciéncia de que a vida é um emaranhado de softimentos ¢ agruras exislenciais faz com que assumamos a dimensio da nossa responsabilidade enguanto seres livres e respons4veis pela construgio dos préprios ideais de vida sentido da vida é a propulsio capaz de levar o homem a horizontes sequer atingiveis pela razo. No entanto, é preciso dimensionar a vida como carente de sentido e que necessitaré das realizagdes humanas para tomnar-se algo além da propria vida, Basta pensar numa crianga de cinco anos de idade, por exemplo, Essa crianga tem, na prépria vida, seu senti- do; sua vida sera brinear, demonstrar e quebrar os préprios brinquedos, buscar o provimento de suas necessidades bésicas de sobrévivéncia ~ ali- mentacao, afeto, protegio ete. Para essa crianga, mesmo em sitnagdes de sofrimento provocadas por doengas, brigas ¢ desajustes familiares, entre outras causes, a vida trans- cende pela prépria vida. O adulto, por outro lado e num contraponto com essa crianga aludida no exemplo anterior, precisa dar sentido a sua propria vida, pois ela estard desprovida disso; necessitard de realizagbes, sejam afetivas, sejam emocionais, sejam profissionais, sejam de outta patureza para encontrar algum sentido em sua vida. Ainda assim, diante dle questionamentos que evoquem o porqué da existéneia humana — a Vidla, a morte, as doengas, 0 sofrimento, a questio de Deus, a incom- preensio do proprio fendmeno da vida -, o sentido da vida variard de \cdes que envolvem esse pensamento, Var Xiu sontido da vida 6 um problema ¢ relletindo sobre a obra de Victor E. Frank), coloca que 0 teristicamente humano ¢ uma ind: «ato que todo homer faz a si mesmo, Para assuimir tm compromisso com 4 vida, é preciso descobrinthe o sentido, O sentido assume, portanto, ania Picoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami importincia vital. Daf a énfase dada por Victor Frankl a esta necessidade que todo o homem possui de responder a esta pergunta de sentido, Em sua propria existéncia, Frank! inquitiu, mais explicitamente, sobre o sentido da vida quando de posse apenas da sua existéncia desnuda; como prisioneiro 119.104 viveu a trégica situacolimite do campo de concentragio! Xausa lembra ainda que Frankl dizia que o prisioneiro que perdia a fé no futuro estava condenado a definhar, confirmando a estreita relagio existente entre o dnimo de uma pessoa, seu valor e suas esperangas. De forma instintiva, sua sobrevivéncia ¢ a de seus companheiros que resisti- ram devia-se, portanto, ao sentido que Ihes dava eapacidade de transcen- der aquelas grades, através do sofrimento, numa atitude intencional ¢ livtemente aceita rumo a um valor mais alto. Frank] encontrou sentido para se realizar naquela espécie de vida subu- mana e percebeu que todo aquele que também encontrava um sentido adquiria forgas para sobreviver ao infortiinio, Assim, a resposta ao sentido da vida € mobilizadora de forcas vitais. Ou, pelo contririo, o vazio ou 0 vazio cexistencial & capaz de causar enfermidade. Frankl ensina que a vida néo se trata de uma atribuigdo de sentido, mas de um achado de sentido, 0 que nos faz. nfo dar um sentido, mas encontxé-lo: encontrar, diremos, ¢ no inventar, jf que 0 sentido da vida nflo pode ser inventado, antes tem que ser descoberto>?, O sentido e a significagio da vida sio determinantes da gratificagio emocional obtidos pelas realizagdes alcangadas ao longo do existir®. O homem existe a partir de suas realizagées, nfo pela sua pr6pria vida, isolado do contexto de suas realizagées. Se se permilisse & existéneia o desenvolvimento pleno de suas realizagdes, o homem teria possibilidades de crescimento pessoal muito mais amplas. O homem é aniquilado ¢ acachapado pelo sistema social, que 0 tora ‘mero mecanismo desprovido de todo e qualquer sentido existencial. O siste- ‘ma social que o desumaniza, por outro lado, foi sedimentado por ele préprio ¢, dessa forma, sua destruigao é feita apenas ¢ tio-somente por si mesmo, Ao longo de sua existéncia, o homem busca afoitamente um sentido de vida que Ihe d@ uma significagio plena e total. Nessa busca, depara com as mais diversas dficuldades, fazendo com que a sxist@ncia seja per vezes, Ihes dilo uma dimensiio irreal dos fatos ¢ fendmenos da existéncia, ‘O homem passa a maior parte de sua existéncia buscando o sentido di Vida, perguntando o que €a vida, qual a sua obstinagdo, qual a sua vercade Em sua busca desvairada, recorre a todos 0s tipos de respostas, buscando desde verdades misticas até aquelas chamadas cientificas. sentido da vida € algo buscado pelo homem desde os primérdios da humanidade. No entanto, a atengio dedicada a esse aspecto ¢ pratica- mente nula, Ao mesmo tempo que o homem evolu nos avangos tecno- légicos, chegando mesmo ao pice do desenvolvimento ¢ conhecimento técnicos, a busca do sentido da vida continua sendo tartamudeada da ‘mesma forma ha milénios. Na busca dessa compreensio, 0 homem enveredou pelos chamados conhecimentos cientificos, e, na medida em que a ciéncia mostrous incapaz de responder aos seus anseios, houve uma convergéncia do mis- tico para o cientifico. A ciéncia, entio, passou a trilhar caminhos nos quais as teorias, acima de toda e qualquer verificacio, dependem basica- mente do erivo da fé, da erenga dogmatica e indissolivel que sequer per- mite questionamentos ¢ indagagées. ‘A cexisténcia humana passou a ser explicada por conceitos césmicos, energéticos ¢ outros emprestados da fisica, hidréulica e até mesmo de realizagdes pertinentes as ciéncias exatas. Ea existéncia em si continua dleixando 0 homem perplexo pela sua complexidade, pela sua falta de logica, A vida é ida como um mistério profundo eujo conhecimento real parece cada vez mais distante do homem, e o sentido da vida continua a ser uma das grandes celeumas contemporaneas. © préprio sentido da vida, muitas vezes, € determinado pelas crengas que norteiam a existéncia. Quantas existéncias nfo ganham significado a partir de dogmas e realizagdes misticas, ou, entio, por prine‘pios ideol6- gicos que, muitas vezes, so irreais ou até mesmo utdpicos?l O sentido da vida € determinante da gratificaglo emocional abtida pelas realizagdes alcangadas ao longo da existéncia O home um continuo viraser, ea propria dindmica propulsora da ja € a renovagio da motivacao inerente ao sentido da vida. E ira adequada seu projeto existe necessirio, no entanto, que ele decida de 1 que o sentido da vida seja pertinente as suas realizagoes. De serd necessirio adequar-se a intimeras frustragdes © até de vida, p Psicoterapia existencial rezas do caminho. Existem também pessoas que, ao tomarem como sen- tido de vida a realizagao de projetos praticamente inaleangéveis, atingem nifo as metas inicialmente propostas, mas certamente alcangam patama- es muito supetiores aos impostos pela prépria existencia. De outra forma, ao deciditse por realizagoes aquém de suas possibilidades, 0 que faré com que o sentido de vida seja pebre, cerceado ¢ limitado, a conse- quéncia ser a geracao de muito sofrimento, bem como o aniquilamento «das possibilidades do desdobramento da existéncia®, Dessa maneira, é através do sentido da vida, das polémicas e cantile- nas evocadas, quando de seu questionamento, que 0 pensamento existen- cialista contribu de maneira significativa para uma tomada de consci cia decisiva sobre a prépria realidade da existéncia humana. Também 6 através do sentido da vida que determinados sentimentos podem set ava- liados e superados de modo livre ¢ autentico, Transcendéncia Eu viajo aos teus bragos bij teus labios na austvcia toco nos teus seios som distanciamento « transcendo os sentidos da paixao, Valdemar Augusto Angerami Uma peda existe no espago com os limites de sua érea. A dimensio que ‘ocupa no espaco nao transcende suas formas tampouco seus préprios lim tes, O homem, ao contratio, ocupa uma dimensio que transcende, ultra- passa seus limites corpéreos. © homem tangencia as estrelas com sua ima- ginagao, toca a Lua com sua percepgao e destiza mar adentro através de sensagdes. O homem antecipa seu futuro, vivencia seu passado, trans- cende o limiar do tempo e do espago. Sua imaginagao o leva a horizontes somente aleangveis por sua capacidade de transcendéncia Bertolino® mostra que Sartre nos pede para entender a idéia de “ser no-mundo” no sentido de movimento, e, aqui, isso significa que todo fendmeno psiquico tem de ser completado no movimento de sintese, como, alii, acontece as notas de uma melodia, Assim, o Ego (a defini 4o 6 de Sartre) se constitui na unidade de transcendéncia ¢ a transcen Valdemar Augusto Angerami —Camon de ele mesmo, na medida em que nio se reduz. a nenhuma delas ner soma das mesmas%, Merleau-Ponty afirma que no nos perguntamos se 0 mundo existe perguntamos o que é, para ele, existir. No entanto, mesmo assim transfe mada, a questio ainda nfo € radical, pois € possivel entendé-la num sen- tido superficial que esconde sua verdadeira motivago®?. A questio é, assim, remetida & transcendéncia da propria fé percepti- va58 em relagio ao mundo propriamente dito e 2 Tinguagem através da qual tentamos significélo, indevidamente, j4 que € com palavras que se responderd a questio. Merleau-Ponty coloca ainda que, do ponto de vista do Ser e do Nada, a abertura para o ser significa apreendé-lo nele préprio: se permanece afastado € porque 0 nada, 0 andnimo em mim que vé, leva adiante de si ‘uma zona de vazio onde o ser niio é apenas, mas é visto. F, portanto, 0 ‘meu nada quem faz a distancia do ser ¢ também sua proximidade, a pers- pectiva como distinta da prépria coisa, que constitui em limites os limi tes do meu campo; ele franqueia estes limites, este afastamento, na medi dda em que os faz; s6 faz surgi as perspectivas fazendo surgir 0 geometral, vai ao todo porque no é nada ~ entio, nic ha mais alguma coisa, no ha mais abertura, pois ndo ha mais trabalho do olhar contra esses limites, no hé mais inércia da visio que faz. com que se diga que temos abertura para o mundo? Pelo conceito de transcendéncia é que se pode perceber a extensao de que o homem nao é um ser esttico, mas sim um ser em continuo desen- volvimento. FE nesse sentido a famosa frase de Sartre: “o homem € o ser que niio é 0 que é e que é 0 que nao é”, Ea transcendéncia a questiio que nos permite definir a condigo humana da introspecgdo ¢ meditacio. Também ¢ pela transcendéncia que o homem descobre a totalidade de suas possibilidades existenciais, possibilidades que nao se esgotam ainda que a existéncia esteja quedada, inerte diante das vicissitudes existenciais. O homem é um ser capaz de aleangar a transfenomenalidade do fen6- meno de set. Nao basta, entretanto, dizer que o ser se alinge no fenéme- ma Sartre, “o ser dos fenémenos niio se resolve num fendmeno de ser", F; necessério que o homem seja entendido como o ser que 6, nilo um mero conjunto de ligagdes e conexdes bioldgicas, mas al, que se percebe eng anuncia no fendmeno como um ser além deste um ser tran to um fendmeno e se Psicoterapia existoncial Sartre, em A Transcendéncia do Ego®, refletindo sobre a consciéncia, cada momento sem que pessamos conceber qualquer coisa que a preceda®2 Nossa espontancidade nao é algo sobre o qual tenhamos qualquer do- ininio, assim como erguer o meu brago ou deixé-lo onde esté; € algo que pode ser ou ndo ser. Considere-e o primeiro momento em que a conscién- cia existe, Obviamente ela no pode ser causada por algum estado anterior de si mesma, pois, por hipstese, este é 0 seu primeizo estado. Tampoueo pode ser causada por alguma coisa, pois ndo é uma coisa, e coisas s6 podem ser invocadas na explicagao de coisas. Assim, a consciéneia é easualmente independente de tudo, Por certo que € dependente do mundo, na medida tem que exige um objeto, mas o ebjeto apenas determina 0 contetido da consciéncia, no a sua existéncia. Assim, a consciéncia é uma espontanei- dade no que concerme a qualquer coisa dentro ou fora dela. Aplicarthe ma coisa®, diz. que ela determina sua existén nnogSes causais é traté-la simplesmente como se fosse Se a prépria condicio humana, em sua forma tinica de existéncia, determina as possibilidades inerentes a essa condiglo, € através da trans- condéncia que as realizagdes humanas ganham a dimensio capaz de transformar e até mesmo de redimensioné-la. A existéncia, que é um con- ser’, um sempre “ainda-ndo” com a possibilidade de um “poder-ser’, na condigio de transcendéncia, se desdobra e faz. com que nos projetemos para além de nossas proprias possibilidades existenciais. tinue “v Autenticidade Quem munca estabeleceu convivéncia amorosa ndo poderd ve manifestar, ndo poderd ser transparente para si mesmo, Binswanger O termo “autenticidade” foi introduzido por Heidegger ¢ mais tarde reto nado por Sartre. No sentido mais amplo, a vida auténtica & a que se baseia numa apreciagio exata da condigao humana, Conforme citagtio anterior, de acordo com Heidegger: “O ser que existe é 0 homem. $6.0 homem existe, As pedras so, mas nao existe. Os eavalos so, mas no existe, Os anjos silo, mas nilo existem, Deus é, mas nillo existe”. Eo fate Valdemar Augusto Angerami ~ Camon da consciéneia que distingue radicalmente 0 homem de outros seres. Heidegger coloca ainda que “a natureza existencial do homem é a razio pela qual o homem pode representar os seres como tais e pela qual pode estar consciente deles”. Sartre ensina que o homem auténtico € aquele que se submete & con- versdo radical através da angéstia e assume sua liberdade. Nao como pas- tor do ser, como diria Heidegger, mas como a causa do existir num. mundo ¢ fonte tinica desse valores ¢ inteligibilidade do mundo, Na ela- boracio dessa concepgio fundamental, Sartre € levado a distinguir trés formas de inautenticidade. Uma que deriva do nao reconhecimento da dualidade entre nosso ser-para-nés € nosso ser-para-outrem. A outra se baseia na confusio do nosso estar-no-meio-do-mundo, ou seja, entre estar se relacionando com o mundo e estar confusamente misturado a0 mundo, mas essa forma de inautenticidade ¢ analisida com pouca aten- fo. A terceira forma de inautenticidade decorre do nio reconhecimen- to de nossa situagao ambigua com um em-si-para-si “destotalizado”, ou da confusio entre nosso ser como em-si ¢ nosso ser como parasit# Numa espécie de manifesto publicado em 1939 na Nouvelle Revue Frangaise, Sartre declarava: “Tocaremos as proprias coisas. Nao somos ais prisioneiros de nossassensagdes como homens proustianos. A co ncia esti sempre fora de si mesma; 6 co ia de alguma coisa”. Bomheim® diz. que Sartre, baseado em sua concepgio de liberdade, pretende erigir a sua moral da responsabilidade e do compromisso. O ‘empreendimento, contudo, nao deixa de oferecer sérias dificuldades, e € nesse ponto que mais se ressente a auséncia de uma discussao ampla do fendmeno ético. O subjetivismo de Sartre revela-se extremo: “tudo 0 que acontece é meu”, “tudo o que me acontece acontece por mim”, Tanto para Sartre como para Heidegger, o homem auténtico é 0 que reconhece a dualidade radical entre o humano ¢ 0 nao hurmano, que teco- nhece que estar-no-mundo nao implica estar-no-meio-do-mundo®, Ea luz desses temas que se fundamentam os conceitos de inautenticidade cima deseritos. O ambiente humano artificial das fabricas exemplifica 0 ana diante das co coplamento da condigio hi s. O préprio trabalha- dor ve torma quase nna niquina. Todos 0s seus alos sfo determinados por un grupo de gerentes que nzio conhece ou que no o conhecem, Seu tra- balho 6 inteiramente rotinizado; praticamente qualquer pessoa poderia substitutlo, K ele ndo tem o menor interesse no produto final. f simples. mente tum objeto servindo as necessidades de umn piiblico voraz, Nao esta pre 10 mundo c uum objeto fisico, mo um pintor ou poeta estio; est no mundo como est no mundo com outios objetos fisico®. O homem sente nas préprias entranhas a dor da exploragao merca lista de sua capacidade de trabalho, Sofre na totalidade a dor de ver o tempo passar sem poder viver plenamente suas possibilidades existen- ciais. Percebe a dor que existe a0 seu redor, conhece as agruras da fom da desolagao e da miséria. E reprimido em sua capacidade sexual. E ani quilado na sua forma de amar e muitas vezes, inclusive, é induzido ao 6dio, A@té que possamos conhecer e perceber melhor @ mundo dos ani- Inais, podemos afirmar que nenhum tem a capacidade do homem de sen- tise e perceber-se humilhado € avassalado em seus direitos existenciais mais basicos. A consciéncia determina ao homem sua condigio impar em relagdo 4s coisas. Uma forma de vida inanimada nio tem conhecimento de utras vidas, tampouco interage com outros elementos da natureza. Mesino num contraponto com o reino animal, em que as espécies ani- ais interagem entre si, seja buscando acasalamento, protecao ou confor- {0, seja interagindo num processo predador de destruigao e até mesmo de sobrevivéncia, com pleno conhecimento de seus semelhantes © até mesmo de seus predadores, ainda assim a consciéncia do homem dé a ele ‘uma condigio de se colocar acima desse enredamento de fatos. A busea da autenticidade € a propria busca da condigao humana rnaquilo que ela tem de mais peculiar e sublime: a consciéncia de si e do outro, E na autenticidade que o homem se toma, através da consciéncia, homem na busca dos valores que iro determinarslhe essa condigao, Angistia Uma metrdpole, Carros, tensdo, nervosismo, poluigdo, violéncia na contramao, assaltos sobre asfalto, medo, ansiedade, angistia, Dou giros sem saber o que fazer. Alguns quilémetros, mata virgem, Aquela imagem parece miragem paz, trangiilidade, vida, liberdade, peissaros a voar,seriemas a gritar, vida a vver,liberdade de corer, natureza conviver, a2 ‘ entdo no entardecer ‘eu ired adormecer para numa metrépole acordar ea minha vida angustiar Ki ndro Angerann ‘A angiistia, dentro dos valores existencialistas, é seguramente um dos tnais apaixonantes. Ao contrério das reflexdes anteriores que legavam a angistia a condigao de patologia, o pensamento existencialista a coloca ‘como um dos determinantes que trazem a condig&o humana & nossa pre- senga ¢ nos direciona a categoria de seres livres e tinicos. Dentre os varios pontos discutidlos pelos existencialistas, a angiistia € aquele que ird apare- cer na maioria dos escritos dessa corrente Para os existencialistas, a angtistia no é um sentimento negativo, € sim uma experiéneia valiosa que emerge quando tomamos consciéncia da nossa condigéo humana; é um sentimento que nos amedronta diante do “nada? existencial. Somos langados no mundo, proclama Heidegger. O nosso ser-no- mundo € um “ser langado”, Nada ha de mistico ou metaférico nessa pro- posicao. E uma banalidade primordial que a especulagdo metalfsica ignorou, © mundo em que somos langaelos sem escolha pessoal e sem conhecimento prévio estava at diante de n6s e estari af depois de n6s™. A inalienabilidade da morte, 0 fato simples mais irrésistivel de que cada um deve morrer para si mesmo, de que a morte é a tinica potencia- lidade existencial que nenhuma escravizagio, nenhuma_promessa, nenhurm poder dos “outros” pode arrebatar ao homem individual é a ver- dade fundamental do significado do ser, e, por conseqtiéncia, determ nante de uma angiistia inerente a propria condicio humana, A conseiéneia da liberdade € angiistia. “A angtistia em sua estrututa essencial é liberdade.” Os exemplos, contudo, ¢ 0 fato de que podemos precisar deles apenas sublinham o fato ¢ trazemn esse fato esirutural ac ca da espontancidade & consciéneia reflexiva. Assim, essa conseiéneia mio pode ser nada do tipo automaticamente garantido por algum exictia existencial, jé que deverei sempre estar consciente da liberdade na cons trigdo da consciéncia livre; daf estar eu em permanente angst, se ¢ nisso que a angtistia importa, mesmo que se trate apenas de servir-me de ‘outro croissant ou de tirar uma soneca”!. 4B Psicoterapia existencial Como a idéia de angtstia representa papel tio destacado nos textos listas, tanto em Kierkegaard e Heidegger quanto em Sartre, cabe aqui mais uma palavra a respeito, Em primeiro lugar, ela é um sen- timento, de certa forma, elitista e filos6fico, e pouco ou nada tem a ver com aqueles estados nos quais os homens comuns sio aterrorizados pelo perigo e pelas asperezas da vida, e que podem ser chamados de angtstia, ‘com os sentimentos que se experimenta quando uma carta nio chega, ot ‘uma erianga adoece, ou um emprego out 0 pats sto ameacados existe Nao é preciso um fil6sofo para nos dizer que a vida é angustiante nesse sentido. Seja como for, tal espécie de angistia € transitéria e esporédica, fenquanto a angtistia a que aludem os existencialistas refere-se 8 totalida- de da existéncia humana, ndo apenas a episédios sombrios que podem on niio ocorter nela, Seu contetido, aquilo a que diz respeito, é a liberdade humana, pelo menos em Kierkegaard e Sartre, e o nada, em Heidegger. Assim, nem todos sofrem aquilo que podemos agora designar como angtis- tia metaffsica, mesmo que sejam livres e estejam pré-reflexivamente cons- cientes de o serem. “Ela é completamente excepcional”, escreve Sartre. De certo modo, é acessivel apenas aos que chegam a uma consciéncia reflexiva de sua liberdade, no importa como, ¢ que reconhecem que somos n6s mesmos “a fonte original da possibilidade” ou, mais dramati- camente, que criamos nosso préprio mundo”?, A angtstia & 0 reconhecimento de que as coisas tém o significado que Ihes damos, que o sistema através do qual definimos a cada momento a Ho € atribuido ao mundo por nés, ¢ que, portanto, ndo pode- mos derivar deles a maneita de ser do mundo? A angiistia é mais do que algo transitério ¢ esporddico, é a totalidade da existéncia humana, Assim, a angiistia é deslocada daquelas situagdes cin que uma mae vé seu filo ameagado por uma doenga ou a possivel iminéncia de uma guerra para situagdes que nos remetem a condigio humana como tal em seu nivel mais profundo de softimento existencial. Aa existéncia, on ainda a particularidade ou individualidade da eondigao humana, gtistia seria, assim, o objeto primario de sofrimento da propria Podlemos falar de tréstipos de angistia: angtstia de ser, angistia diante do aquisagora © anggtistia da liberdade, E evidente que a compreensito de Valdemar Augusto Angerami ~ Camon encontré-las presentes de modo a enfeixaratotalidade da propria realida de existencial. yento que nos invade quando cogitamos A angtistia de ser € 0 senti que o nada foi, ¢ ainda 6, tio possfvel quanto ser; quando nos pergunta- mos por que existe algo, ao invés de nao existir nada. E fato curioso nossa ineapacidade de sentir 0 prodigio ¢ o mistério do existir, sem pensarmos no nada absoluto. Metaforicamente, poder-se-ia dizer que s6 podemos ter ‘uma visio ampla do ser através da perspectiva do nada”. A angtstia do ser & mais do que algo transitério e esporidico, € algo que abarca a totalidade da existéncia, Nio se deve, entretanto, confundir a angiistia de ser com a angiistia, da morte, embora a idéia da morte possa evocar e, de fato, amitide evo- que a primeira. A angtistia de ser é propriamente experimentada quando pensamos que nada e ninguém poderiam nunca ter vindo existéncia ou que tudo ¢ todos poderiam deixar de existir num instante, Ao tentarmos imaginar © mundo no momento da criagio a partir do nada ou no ‘momento da transformago em poeira césmica, aproximamo-nos dela’® Segundo os existencialistas, desde que s6 Deus poderia dar sentido 20 ser, ¢ desde que Deus nao existe, o ser é absolntamente sem sentido. Os cexistencialistas religiosos, por outro lado, embora permitam acreditar, por to de f6, que Deus existe e que para Ele o ser tem sentido, a “inco- nnsurabilidade radical” entre Deus e 0 homem torna impossivel para sequer imaginar qual seja esse sentido Nao ha meio concebivel de se mostrar que 0 mundo foi feito para 0 homem, que o homem foi feito para adorar a Deus ou que Deus nos recom- pela obediéncia. A criago nio é apenas um mistério que transcen- mano; 6 um paradoxo l6gico intranspontvel. As pro- is do Ser platénico, que os cristos atribuem a Deus, so pativeis com as propriedades de um criador”®, priedades metafisi logicamente De ow tese do que foi dito até ento. Se nao existem seres eternos ¢ se eles sio impenetriveis ao entendimento humano, entio o homem se toma a fonte de valor e do sentido. O lugar anteriormente ocupado por De Ot vel por sl mesmo parte, o lado positivo da angustia de ser ser a propria ant tveis ow cou pela Natureza é assumido por seres humanos individuais, mer 6 exaltado, Ke ye investe da dignidade de ser 0 tinico responsé cial Nietzsche o exprimiu magistralmente: “Toda a beleza ¢ sublimidade que alsibuimos a objetos reais ou imaginatios reivindico como proprieda- de e criagio do homem. Elas sio cativa. O homem como pocla e pensidor! © homem como Deus, como amor, como poder! Com que generosidade real ele se empobreceu e se fez infeliz para adorar coisas. Até o presente, sua maior baixeza foi ter admirado e venerado coisas, esquecendo que foi ele quem criou 0 que admirou"78 fendmeno da existéncia, por si, deveria dar ao homem o ex 6 discemimento necessério para que ele pudesse viver de modo mais pleno, transformando a prépria condigao da anguistia de ser. A angtislia do agu-agora, por outro lado, revela um trago da condigdo humana que pode ser expresso negativa ou positivamente. Negativamente, cle significa que, mesmo que existissem objetos etemos, © homem nio poderia participar de sua etemidade, Positivamente, que © homem € por natureza um ser temporal, com uma hist6ria individual confinada em determinada época hist6rica e determinada regito do espaco”. Essa condi- «lo da angéstia do agui-agora determina, inclusive, o condicionamento do homem estar preso a uma regio limitada do espago e do tempo, no poderdo, assim, identificarse com a humanidade em geral, mesmo que fosse obrigacio moral fazé-lo e isso trouxesse satisfagio pessoal. O conceito dda humanidade vai, entio, a0 encontro dos prinespias aristotélicos que 0 concebem como sendo uma abstrago vazia, Assim, no ha como estabe- lecer relagio vital entre um individuo concrelo e uma abstragio vazia, Essa situagio em nada se modificara se se conceber a humanidade historica- mente como sendo uma sucessio de geragies, pois, na medida em que 0 no da humanidade, assim concebida, continua oculta ao olhar do indt- singular, 0 conceito € indeterminado, O futuro da humanidade é desconhecido, eo individuo nao pode se identificar com 0 desconhecido™. Aangstia da liberdade, de outta parte, é segundo Sartre, decorrente da necessidade de que o individuo € obrigado a optar. A negagiio da angtistia diante da liberdade 6 a prépria negagao da liberdade como con- did humana des © homem 6 um ser arrojado que, uma vez langado a0 mais absoluta liberdade, buscar eondigdes existen sam trazer novas perspectivas & propria vida Aan ia da liberdlade surge com a consciéneia precisa ¢ - Valdemar Augusto Angerami ~ Camon feréncia dessa responsabilidade para o outro € necessariamente denotista, seja esse outro representado pelo Estado, pela opinifo piiblica, pelo grupo social etc. Nio optar é uma forma de opgaio, pois, assim agindo, estamos transferindo nosso poder decisério ao outro de maneira indisso lkivel, nos responsabilizando pela decisio do outro. De outra parte, podemos perceber que a angiistia da liberdade se rela ciona de maneira sutil e complexa com as outras formas de angtistia ‘A angiistia do aqui-agora leva inevitavelmente & angéstia da liberdade. Sartre coloca que “Toda escolha € uma escolha da finitude”8!. A ago , assim, como uma reago a determinado estado de coisas € uma tenlativa de instanragio de um estado ideal de coisas Implica tanto o reconhecimento de uma dada situaga0 como indesejavel quanto a concepgio de uma situagao ideal como desejavel. Ef através da angiistia que 0 homem poderd direcionar seus atos e sair do quietismo ‘em que muitas vezes é langado pela condigao social. E também através da angiistia que a existéncia adquire plenitude e contomnos especificos de condigao libertéria, humana deve ser Amor Eu sei, minha doce menina de corpo de formas poéticas, ‘ah eu sei, amor de todos os amores 6 0 que ontere senti ‘quando teus labios beiei € feu corpo toquei Valdemar Augusto Angerami Os existencialistas escreveram sobre 0 amor evocando abstragtes criadas no imagindrio, num contraponto muito claro e preciso em relagdo a ‘outros preceitos filoséficos, principalmente a0 Humanismo, que viam no amor um meio pelo qual o individuo se identifica com o género, deixa igo predominado pela empatia ou por alg do de sero intelecto para ser ma emogio mais forte Maree t >, tama relagiio pessoal entre Jaspers afirmaram amitide que aquele que ama a hu n. O-amor 6, por definig dois seres conctetos, Nao pode haver relagio pessoal entre um ser hanna Psicoterapia existencial no individual e a abstragio da humanidade. A pessoa que se sacrifica em nome da humanidade nfio age movida pelo amor universal; ela simples- mente revela sua incapacidade de amor pessoal’? Buber? coloca que “Tada relago atual com um ser presente no mundo 6 exclusiva. O seu Til 6 destacado, posto & parte, 0 tinico existente diante de 1nés, Ele enche o horizonte, no como se nada mais existsse, mas tudo 0 ‘mais vive na sua lu2”¥, O que vem a ser amor € uma afirmagio cuja asser fo esti longe de se tomar real. Se se indagar a varias pessoas 0 que € 0 amor, seguramente, teremos uma quantidade bastante diversificada de res- postas, de acordo com o ntimero de respondentes. O amor que acalenta ‘© coragaio de um amante apaixonado certamente no é, em esséncia, 0 mesmo do missiondrio que dedica sua vida embrenhandose na mata densa ‘em ausilio de seus semelhantes. (Os humanistas estdo certos 20 dizerem que o amor universal depende- ria de algum tipo de identificago com os outros. E seguramente aceitar 6 outro como semelhante 6 algo muito dificil de ser vivido e até mesmo dimensionado. Ao reconhecermos 0 outro como nosso semelhante, priticas como tor- tura, espoliagéo mercantiista de mo-de-obra, a miséria, a fome e tantas utras atrocidades provocadas ao homem pelo proprio homem tornam-se inconeebiveis. Afinal, aquilo que acontece a um semelhante igualmente corre comigo mesmo na projegao do outro como pessoa. Como seme- Ihante, nao posso accitar esses desatinos silenciosamente’ © amor € visto por alguns como sendo aquela forma de entrega afeti- Va na qual 0 amante, apés estender a chama de seu fogo as raias do arre- batamento, recebe com intensidade ainda maior essa mesma chama. © amor seria assim um processo de entrega em que as pessoas amam para serem amadas. Segundo essa conceituagao, 0 amor seria um proces- 50 dialético, o que, de alguma forma, exclui aquelas formas de entrega em que no existem simetria ¢ troca. O sentiment de uma mae pela crianga recém-nascida nao seria, assim, definido como amor. Tampouco seriam amor as ligrimus de dor diante de um ente querido que se faz ausente. {10s tantos, o amor 6 o proprio sentido da vida. Ksses afirmam, que a vida existe a partir do amor ¢ que apenas este da luz ¢ cor a propria cexisténcia, Definem 0 amor como uma forma de rentincia ¢ entrega que Camon Valdemar Augusto Angerami sgatifica as vicissitudes da vida, Amor apenas amor. E, por mais diferen: tes que sejam as atribuigdes e contomos que possa receber, 1 outra vertente da existéncia provoca tanto desalento quanto ela ao se fazer ausente. O amor é 0 amanhecer de cada dia; € 0 Sol rompendo a madrugada com seus raios energéticos. Ea ceriménia sagrada do pér-de-sol, com os passaros orando contemplativamente ao infinito. [As vérias definigdes dadas ao amor fazem, por outro lado, com que muitas vezes determinados atos sejam chamados de amor num total dis- tanciamento dos fatos. E) até mesmo determinados envolvimentos afeti- vos, ao serem chamados de amor, perdem sua verdadeira esséncia Desde os tempos mais remotos, sonhadores se diziam rominticos ¢ escreviam todas as formas possiveis de cantigas de exaltago ao amor. Amor, sublime forma de inspiraglo dos apaixonados que, sob sua ‘magia, jd erigiu os mais lindos cantos ¢ elegias de dor. Se 0 amor carece de uma conceituagao mais precisa quanto ao scu significado, a inspiragao dos poetas converge no sentido de torné-lo dor d’alma diante da excelsi- tude da exis Amor € 0 que se sente pelo exaurir duma intensa emogio, ¢ nunca 0 que se define e se conceitua pela razio. O amor nao existe como valor absoluto ou fendmeno real. Nunca alguém viu, cheirou ou pegou o amor; 0 amor, se existente, é sentido duma forma tinica e finita. E tudo o que € expressado pelos sentimentos aipenas 4 emogdo se toma tangivel. Amor é um sortiso de crianga com seu olhar de esperanga; € 0 trem que parte rumo ao desconhecido, levando sonhos e ilusées daqueles que ficam e daqueles que se vao. £ o nada e o tudo, mas nunca o principio, sempre o fir © homem, afirmam alguns romanticos e sonhadores, existe para amar, quaisquer que sejam as formas como esse sentimento possa ser entendido, O amor & propria cor e, apesar de nao haver como defini-lo, existe também conceituagio, ainda que meramente retériea, de sew anta- gonismo, o desamor. Sartte diz que algumas atitudes humanas, como o desejo fisico, a indi ferenga e o amor, slo, de uma forma ow de outra, alguma modalidade de Psicoterapia existencil sadismo ou masoquismo, e todas esto fadadas & frustragio, em iiltima lise, pelas mesmas razes. Querer ser amado, afirma Sartre, 6 querer como condigdo de toda a valorizagio ¢ o fundamento objetivo de todos 0 valores (..). Aamante exige que o amado Ihe sacrifique, em seus atos, ‘1 moral tradicional e se preocupa em saber se o amado trairia os amigos por ela, se “roubaria por ela”, se “mataria por ela” etc.% Ovamor dos amantes é aquela forma em que mais forlemente seu expres- sionismo se mistura a outros sentimentos, tornando-se praticamente impos- sivel uma separacao desses valores. no amor da posse que se deseja ini- cialmente, com bastante ardor, © corpo do ontro para, em seguida, pos- suirlhe também a propria alma e os sentimentos. fo atirar-se numa busca de prazer indo-se de encontro ao vazio, a0 nada, “Eu te amo”, “eu te adoro” s4o os simbolos maiores dos amantes ¢, quando traduzides, tor- ham-se objetos de possessio d'alma, permitides e acalentados. Sartre coloca que o amante quer possuir liberdade como liberdade num. amento e se armufa com 0 juramento.” Quer ser amado através de uma libetdade, mas exige que esta liberdade enquanto liberdade nao seja mais livre, Nao é 0 determinisma das paixdes que desejamos no outro, no amor, numa liberdade fora do aleance, mas uma liberdade que representa 0 papel do determinismo das paixdes e que acaba por enlearse na prépria representagao”. O amor é, “por sua propria natureza, um logro e um referi- mento ao infinito, de modo que amar € querer que me amem”, Desejar o proprio desejo como se o desejo fosse arbitrio existencial é ‘uma forma de tentar fazer do amor a expresso de tantas outras coisas que transcendem a propria conceituagio dos fatos Amor tal de Mozart A vida ganha a dimensto do eterno quando o amor adquire as formas le Bach; € 0 esplendor dos “Concertos” 1; € a vida e 0 sufoco da dor d'alma, a pureza das“ “a ihussio de an do belo. A conotagiio filoséfica do amor — t bjetos = remete-nos a vertentes basta \déncia da alma para se apega te complexas quanto su: tunagio ¢ amplitude O objeto de apego da alma é, porassim compreender e definir, a meta que determina os aspectos que possam envolver, ou ento, ao contidrio, Valdemar Augusto Angerami ~ Camon enfeixar as razdes de toda uma existéncia. Quando um objeto é amado, intensamente amado, estabelece-se uma sintonia que busca levar tod a propulsio existencial rumo a ele Ao determinar os abjetos de deleite da alma, a existéncia deter também a nao razio dos “porqués” que possam circunstancié-la. O deter rminismo de escolha legado a certos objetos € 0 prdprio sentido da transpa réncia dos fenémenos, Se somos a prépria realidade dos fendmenos, © amor a determinados objetos farsi com que esses sejam também parte dessa realidade. Se se concebessem formas de transcendeneia dos objetos para a propria realidade da existéncia, teriamos que fazer do amor a trans- paréncia capaz de transformar essa realidade ou até mesmo de constru‘-la segundo pardmetros que nao a realidade A realidade transcende sua propria conotagio ao fazer da existéncia a busca de objetos aquém de sua prépria transparéncia, mas sempre em dire- ‘20 20 ideal, a0 supremo. A esséncia humana que determina a realidade da existéncia seré a vertente em culos tecidos se encontra a “razdio”, postergan- do “nao razio” o limiar dessa transcendéncia de escolha do objeto amado. © amor sio plantas que, ainda molhadas pelo aguaceiro, cintilam na presenga do Sol. Eo vaga-lume brilhando nas noites enluaradas, tentan- do seduzir o lua. © amor é negado por algumas correntes da Psicologia ~ as ditas cien- tificas — por ndo possuir condigdes de ser definido operacionalmente. A Giéncia, como sustentéculo maior das estruturas sociais ¢ que sedimenta o enfeixamento determinista de espoliago mercantilista e des- potica, nega todo e qualquer fato e fendmeno que ngo tenham explicagoes a partir de sua légica determinista, Os cientistas transvestem-se do dogma serdotes da moderna religiao dominante — a Ciéncia. Imbutdos que esto dese papel, tomam real o mito de que apenas o “conhecimento cientifico” é um conhecimento verdadeiro ¢ real; somente aquilo que pode ser expresso quantitativamente ou formalizado, ou entio expresso livtemente sob condigbes laboratoriais, pode ser 0 contetido de um verthideito conhecimento. O amor, a emogio, a beleza de um sortiso e uttos sentimentos primérios de prazer e dor so negados como conheci- ‘mentos vilidos e verdadciros, O amor é negado, mesmo porate no é englo- bado em nenhuma teoria cientifica, Os homens, através da Ciencia, bus- cain valores absolutes para sta orientagio a partir de sinais exteriores fixas. bilidade i abso- ificos 0 1 como o amor, existe, ainda que nao se tenha s para escuti-la e aprecid-la, O amor, embora negado, existe de Tuta, independentemente da capacidade de os experimentos cie perceberem, Ariisica, ass amor, hé milenios, atravessa a dimensio do tempo e do espaco, trans- formase com as épocas, mas é sempre o indelével que deifica a exisléncia humana, Algumas manifestagdes remetem-nos a outra conceituagio distinta «de nossa capacidade de compreensio para fendmenos sernelhantes. Ao se observar 0 comportamento dos animais na floresta, podese perce- ber um relacionamento de afinidade em diversos tipos de convivéncia centre varias espécies. A protegdo dada pelas miles aos filhotes assemelha-se Aquela dada pelas maes humanas, O préprio sentimento de protecio de algumas espécies, quando atacadas por seus predadores, dé-nos, por outro lado, a dimensdo de que a sobrevivéncia e a luta desenvolvida nessa dire- «jlo sio passiveis de uma redefinigfo do que seja o amor enquanto manifes- {agilo e fenémeno eminentemente humanos. E mesmo 0 comportamento das pessoas diante das situagSes de flagelo ¢ calamidade, comumente defi- hido como solidariedade humana, na verdade, mostra uma das facetas ma lindas que o amor possui. A propria emogiio presente nessas situagdes trans- conde a mais otimista das conceituagées para transformarse no entrelaga- mento da condigéo humana diante do sofrimento. amor, quando vivido intensamente, deixa na alma marcas dilace- rantes. Por mais que possa ser questionada ou até mesmo dimensionada, 4 reminiscéncia de situagdes passadas toma aqueles momentos vividos no presente inécuos e desprovidos de significagao. E 0 amor, amor que tudo supera, galopa como um cavalo que, solto nas pradarias, toma seu trajeto indefinivel O amor é 0 acinte da pobreza de Sdo Francisco de Assis diante da Igreja, dos papas revestidos pelo poder. Sio as palavras de Simone de Beauvoir referindo-se & separagio de Sartre: “Sua morte nos separa Minha morte nao nos reunird. Assim é: j4 € belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo”. Amor € o sentimento que torna décil e meigo o proprio édio: nada, » ser existente, resiste ao encanto de sua fragrincia e magia. E como sentimento, sentimento capaz. de dar formas concretas ao abstrato, € a propria esperanca, capaz de esconagar o édio dos coragdes humanos. 52 Vivemos a era da informatica com os computadores robotizando a propria esséncia humana. As miiquinas robotizadas em que o homem se transformou sao dlssolvidas apenas quando 0 amor é sentido em suas \ranhas. Certamente sofreriam um processo de humanizagao se conse- issem abrir 0 coracdo para 0 desabrochar do amor. Conforme dria 0 cseritor Mario de Andrade, amar € um verbo intransitivo, apesar de mui- las vezes ser definido como transitive dizeto e até mesmo pronominal. Entictanto, 0 amor & maior do que todas as conceituagdes de definigoes (que a Lingiifstica possa Ihe conferir, Amor e amar, palavras que se mistu- ram ese fundem na imensidio do infinito e que, se vividas intensamente, tomam azul o einza do édio. Tédio existencial 0 posso dizer Ihe o que ndo daria para «star contigo em Baden, em vez de fica parado aqui. Por puro téio, compus hoje uma dria para minha épera Wolfgang Amadeus Mozart © tedio existencial é um tema que surge de forma bastante pulverizada nos escritos existencialistas; talvez essa definigdo que usamos no seja de todo precisa e clara numa convergéncia directa com esses escritos. Tédio, etimo- logicamente, ¢ definido como aborrecimento, desgosto, enfado, fasio. tédio existencial € uma tematica bastante pertinente a reflexdo do homem contempordneo. Sem dtivida, ¢ isso é inegivel, o tédio existencial € um dos determinantes que mais sofrimento tem legado & existéncia, estan do sempre presente, embora nao necessariamente com essa definiggo, na pritica psicoterépica. Sua inclusio no rol e temilicas existenciais visa tomar constrita a teflexao sobre a realidade contemporanea da existencia (O tédio existencial basicamente pode ser definido como aquela siti ‘¢2o em que o homem softe a dor de ver 0 tempo passa e nao estar realli zando o desdobramento de suas possibilidades existenciais. De modo significative, podemos afirmar que um ntimero cada yer maior de pessoas padece desse sofrimento, até mesmo em niveis on a consciéncia de que as possibilidades da vida nao estio sendo a si 53 icoterapia existencial seja por dificuldades existenciais impostas socialmente, seja pela prépria falta de assumir essas possibilidades como parte inerente a existencia, Sartre, no romance intitulado A Néusea®®, mostra a angristia de ser no personagem Roquentin. Este, num instante critico, tornase cénscio de nao tertido aventuras, no por ter levado uma vida sem brilho e cor, a0 contré- rio, a monotonia no aconteceu em sua vida. No entanto, pelo fato de que o conceito de aventura era algo diferente do que vivia, conceito de narrati- vas, ¢ algo distante da propria vivencia. Seu tédio é desolador e sua existén- cia atinge o hiato do existir e 0 conceito das coisas. A questdo da “superfluidade” da existencia e do conceito das coisas é colocada de forma constrita: “Supérflua a Velleda: E eu mesmo - mole, fraco, obsceno, digerindo, jogando com pensamentos sombrios ~ eu tam- bém sou supérfluo™®. O 6dio existencial tomase avassalador diante desses questionamentos. Acexisténeia de cada coisa, inclusive a humana, é superfluamente desne- cesséria: esta conotagdo possui igualmente sentido diibio. Ao mesmo lempo que a existéncia carece de sentido e nos alira ao encontio da absu didade da vida, também nos leva ao fato de que, a0 superarmos o tédio existencial que nos corréi, estamos conquistando horizontes que nos tor nam excelsos e decididamente humanos no sentido mais amplo do termo. A alta de sentido para a existencia é que nos leva, em tiltima andlise, Aqueles atos fulminantes nos quais a morte ¢ instantnea npossivel excluir o tédio, Ble nfo é uma entidade que vem de fora e se instala em nds. Como se lida com ele ¢ outra questio. Pode-se ouvir seus avisos e partir para a agio ou deixar que ele se instale como uma neurose. Para uns, o tédio existencial significa o aniquilamento, a corro- so lenta e doida da prépria solido; para outros, foi o tltimo aviso que os levou a libertagao ¢ ao erescimento, O tédio existencial leva muitas pessoas a um sofrimento em que a pr6- pria sintomatologia supera os limites do conhecimento, Quando alguém diz “estou angustiado”, é O medo, a depressio, os sintomas fisicos (gastrit associados ao que essa pessoa identifica como expressiio do temor do futuro, da sua falta de perspeetiva, da sensagio de portante esclarecer 0 que esti sentindo. , taquicardia), podem ser a iquilada pela vida, do desinteresse generalizado, da ciddade de enfrentar a morte, de tuo isso junto __ Valdemar Augusto Angerami ~ Camon O tédio existencial esté a exigir das ciéncias do comporta definigio mais precisa sobre uma ocorréncia. Somente assim o paciente poderd ser compreendido de uma forma mais abrangente. O desprezo ¢ 0 sofrimento provocados pelo tédio sao tao insdlitos quanto a negagiio cle sua ocorréncia®?. E através do tédio existencial que a propria existéncia se angustia e se toma desesperadora diante da condi¢ao de homem contemporineo dor, sofrimento, espoliacio mercantilista, fome, miséria © outras tantas imposstveis de serem enumeradas, mas que se tornaram possiveis pela condigio degradante que o home impés a si proprio®. Culpa Vocé chama de violentas as dguas de um rio que tudo arrastam ‘mas ndo chama de violentas as margens que o oprimem. Bertolt Brecht Assim como a solidio ¢ a angristia, a culpa é outio tema trazido a luz das discussdes pelos existencialistas como sendo ontol6gico, ou seja, perten- cente ao set como tal, nfo constituindo, portanto, um sintoma especifico A culpa se apresenta quando o homem questiona a realizagao de suas possibilidades existenciais, quando renuncia 2 sua liberdade humana. A.culpa também se faz. presente quando enfrentamos outros homens sem respeito a sua condig&io humana; quando coisificamos nosso seme- Ihante, aniquilando suas possibilidades existenciais. A culpa ainda é pre- sente quando dimensionamos nossa respansabilidade social No entanto, é necessaria uma distingao entre a culpa ontolégica e 0 sintoma decorrente de nio ser assumida como tal. Nesses casos, teremo- Ja transformada num sintoma ou patologia Boss discorre sobre a culpa em contraponto com os escritas psicana- IMticos: “Mas a culpabilidade ainda permanece. Seri que também ela, como a angiistia, pode ser superada? O que é que ela propriamente ‘deve’ cn todos estes milenares sentimentos de culpa padronizados e patol6gi- anga diante dos pais e dos professores, hos adultos em sew relacionamento com o préximo, com o estado, com a de culpa da c Deus, com o destino, com a vida? K quem é 0 credor especifica destas culpabilidades? Psicoterapia existencial pds discorrer sobre a temtica, Boss define a convergeneia da temd- tica: “(...) im outras palavras, de acordo com nossa percepedo imediata, 6 ser humano se mostra como sendo aquele ser do qual o nosso mundo precisa, como o ambito de claridade necessério para poder aparecer, para poder ser. Justamente é este deixar-se-necessitar, ¢ nada mais, que o ser humano deve aquilo que é ¢ que ha de ser. f por isso que todos os sen- timentos de culpa baseiam-se neste ficara-lever; se os senhores quise- em, € a culpabilidade existeneial do ser humano"™®. Diferentemente do uso corrente da palavra culpa, que tend a respon- sabilizar uma pessoa por um ato determinado e espeetfico numa relago de causa ¢ efeito, entendese a culpa ontolégica, em termos existenciais, como 0 sentimento de “estar em divida”. Pensando dessa maneira, vé-se que se trata de um fendmeno pertinente a todas as existéncias, seja em termos pessoais (em divida comigo mesmo), interpessoais (em divida com 0 outro) ¢ até mesmo sociais (em divida com a realidade social). nforme trecho jé citado de Boss, esse € o fundamento de todo senti- mento de culpa. Felicidade Felicidade é uma pipa leve e solta no ar. Felicidade € outra tematica que, a partir do pensamento existencialista, ganhou novas formas e contomos. De uma mera abstragio, comecou a ser dimensionada de maneira profunda ¢ abrangente. Felicidade é a auséncia do desprazer. Ser feliz é 0 que todo ser exis- tente deseja A felicidade, no entanto, ests cada vez mais distante do aleance humano, Pare e ser permitida apenas ¢ tao-somente as criangas, na propulsio social no sentido de leviclas mas ter diteito a ela medida em que existe toda v (0; 0 adulto p rece nd O sentido de vida do adulto, na quase totalidade das ver: ago profissional, no que se empenha durante grande parte do tempo da Valdemar Augusto Angerami ~ Camon A pura sobrevivéneia, para outras tantas pessoas, é a tiniea coniligo cabivel de realizagao. Numa sociedade em que a maioria da populagao gasta cerea de seis horas didrias para locomover-se de suas casas até o local de trabalho & quase sempre num total desconforto, a discussao da tematica que envolve aspectos inerentes a felicidade parece desprovida de propésito e senticlo E um acinte ouvir celeumas que envolvem a questio sobre o praver quando existem tantas pessoas envolvidas na mais degradante das misé- rias, além de outras tantas situagies inconcebiveis de aviltamento a dignida- de humana. Felicidade é uma tematica que parece nio ter espaco nas disenssBes das necessidades do homem contemporinco. A sobrevivencia esté cada vez mais dificil toma indelével tudo que no remeta as discussdes da espo- liagao mercantilista a que o homem contemporineo est submetido. Parece até redundante discutir-se sobre o prazer quando o sofrimento aniquila todos os ideais humanos. A simples observagao de um trem de subtirbio levando pessoas esmagadas entre si rumo aos seus Tocais de tra- balho abre ao nosso campo perceptivo a idéia (errénea) de que aquele grupo apenas trabalha numa luta acachapante pela pura sobrevivencia ‘Toma-se praticamente inconcebfvel acreditar que aquelas. pessoas ainda encontrem algum prazer em suas existéncias. B, apesar de tudo, 0 ovo sorris sorri na esperanga de dias melhores; sorri na dimenso que os Femete ao infinito; sorri diante da vitéria dos times do coracdo. Noutra forma de andlise, que nos remete a observar pessoas que, apres- sadas nos centros das grandes cidades, trazem a expresso da angistia e do sofrimento estampadas no semblante, igualmente dé-nos a dimensio que nilo mais existe lugar para a felicidade no mundo contemporaneo. Aan {tia humana, cada ver mais edustica, estéaliada & degradagao humana imposta pelas adversidades econémicas das sociedades contem- pordineas. As pessoas estio cada ver mais avassaladas com 0 espectro da solide; a angtistia parece adquirir uma dimensio irreal diante do sofri- mento, Viver parece tornarse um peso insuportivel para um ntimero A ansiedade diante das incertezas dos sistemas sociopoliticos 6, segura as gras ca exis énein do homem contemporineo, Existens mmitay formas de sociedade Picoterapia existencial «que transferem a éptica das discussbes para a organizagéo material buscan- do, assim, formas de realizagdes iminentemente humanas, O homem con- temporineo busca suas realizagdes na estruturago material sem ao menos perceber que esse tipo de realizagao nao preenche o seu vazio interior. tédio existencial caminha distante dos bens materiais, nao permitindo complementaridade por si nessa justaposigio de fatos e valores. Basta evocar os Estados Unidos, por exemplo, para uma anilise desse distanciamento. Gonstituem-se numa sociedade altamente evoluida no tocante a0 desenvolvimento material e cientifico. As ciéncias possuem 1a evolugGo impar: tanto nas ditas naturais como nas exatas, a perfor- ance demonstrada apresenta evolugio em todos os niveis passiveis de questionamento, No entanto, as pessoas que compdem essa “Sociedade evoluida” apresentam a mesma insatisfacdo ¢ tédio existencial de outros cantos ¢ paises. Sua evolugao tecnolégica nao traz 0 preenchimento do vazio de seus coragées, (O homem nasce ¢ existe para se desenvolver a partir de suas realiza- «es, dando sentido e significagio para sua vida. O apego e a busea do desenvolvimento material aniquilam essa possibilidade existencial, O sen- tido das realizagdes humanas esbarra na divergéncia da plenitude de seus ideais mais sublimes quando envolvido nas realizages materiais O homem se ilude buscando empreendimentos materiais ¢ acreditan- do que ir, concomitantemente ao enriquecimento material, desenvol- em sua plenitude existencial. Apesar de ser cantada em prosa e verso em todos os escritos humanos, a felicidade nao tem como adquitir formas concretas diante da ilusfo nascida no seio do softimento humano. Alguns afirmam que a felicidade € a meta suprema da existéncia humana, Outros, pocticamente, afirmam nao existir felicidade, e sim ‘as mais eruditas € complexas até as afirmagées mais simplorias e chulas,a felicidade parece se do ideal supremo que n momentos felizes, Desde as conceituagdes filosé revesti rleia a existéncia hu A propria solidao, espectro maior do homem contemporinco, é vista como send algo que finda com os chamados momentos felizes, A dimen: silo da pelo homem na sua busca em diregio ao prazer o leva ao encon- tro de limites ilusérios e irreais da sua condigao humana, O tédio existencial legadlo ao homem pelas vicissitudes das sociedades modernas faz. com que este busque, de forma cada ver. mais afoita, algo que possi suprir 0 vazio existencial de seu corag ‘Valdemar Augusto Angerami — Camion AA felicidade € urna forma de ser indelével que, embora buscada de forma incessante, niio tem modelos estanques de estruturagio. A esséncia da felicidade pode ser definida como aquela exuberincia capaz de prover esperanga ¢ ilusio & existéncia humana, A propria forma automatizada como vivern os habitantes das grandes cidades ¢, por assim dizer, a quase totalidade dos seres existentes € quebrada pela ilusio que a busca da feli- cidade acena. |A misétia a0 longo das favelas existentes nas grandes cidades 6 a stampa maior das desigualdades existentes no seio das sociedades capi- talistas; seus habitantes vivem da maneira mais degradante possivel © sem apresentar indicios do conforto material existente nessas sociedades Sua gente é sofrida e padece na pele as agruras do despotismo financeit. © mundo dos homens, com sua estruturagio em pases e sociedades, 6 praticamente dominado por um nimero bastante reduzido de pessoas Todos os capitalists, no mais lato sentido do termo, que, investindo além das fronteiras, determinam a prépria estruturago politica das sociedades em que atuam. O poder que detém é absurdo ¢ dantesco; de suas deci- sées so ocasionadas muitas degradacies ¢ flagelos & humanidade. Esse poder, no entanto, nao os tora felizes; 0 actimulo de riquezas materiais nfio consegue trazer alivio para seus devaneios existenciais. E, apesar de deterem entre si o poder decisério de toda a humanidade, no conseguem seguramente a ihusio da felicidade. Os depoimentos desses poderosos levam-nos ao debrugar de fatos que, 440 serem comparados enlre si, mostram que, ao mesmo tempo que degra- dam milhares de pessoas pela espoliago capitalista, degradam-se igual- mente pela fia inusitada do poder. [A prépria andlise feta sobre a propulsio que leva determinadas pessoas a buscarem o poder de forma tio selvagem torna-se inéena, remete-nos a vertentes que mostram que esses poderoses sio extremamente infelizes; sio corroidos pelo tédio existencial com a mesma intensidade com que Jade existencial de milhares de pessoas, subjugando-as 20 corroem a di avillamento da condi¢ao mereantilista de suas forgas de trabalho, IF possivel que aquelas pessoas submetidas a viver sua existéncia no seio de uma fayela tenham mais sentido de vida ¢ ilusao de ir ao encon A prdpria consciéncia dos fatos possuiea pelos poderosos fiz com que estes promovam 0 embotamento de conseiéneia do oprimido, eriando- Ihes a ilusiio de que a Felicidade ¢ algo diretamente associado a aquisigaio de bens materiais de consumo. Uns, infelizes pela degradagao humana em que vivem, e outros pela total falta de perspectiva de uma existéncia sem 0 ddio ea violencia inerentes ao poder que detém. AAs seitas misticas e as religides acenam para seus fi¢is ¢ seguidores, aacenos permeados com promessas de que em suas lides e verdades se ntra a tio almejada felicidade. Buscam na salvago eterna a promes- sa de uma vida etema feliz. O surgimento de um néimero tao grande de seitas misticay mostra claramente quanto o homem esti desesperangado infel nado de vida, A felicidade eterna consegue nao apenas aliviar as agruras da existén cia, como também tomar suportével a vida materializada e coisificada imposta pela tecnocracia moderna A filosofia de vida pregada pelas seitas misticus, na sua quase maioria, ora apresente propostas dle resignago diante da transformagao social, consegue fazer com que seus seguidores espiritualizem a propria materia- sane em que estes vivem, Um dos pontos marcantes dessas seitas ¢ religides € a afirmagao de que Deus € a totalidade universal, estando presente em toda parte, corporifi- cando a totalidade do Universo No entanto, sio erigidos grandes templos de adoragiio que, quase sem- pre, so omamentados com tados os bens materiais propiciados pelo “capital”. S80 propostos uma espiritualizagao e um desapego & posse iaterial, mas oficializam seus rituais em templos suntuosissimos. E tudo em nome da felicidade etema, o balsamo cicatrizante de tantas desven- turas e sofrimentos existenciais. As seitas mniticas e religides parecem ser as tinicas instituigdes que tra- vem a tona a discussao sobre a Felicidade, tornando-a, no entanto, tangfvel apenas em discusses enjas vertentes nos remetem a vida ctema, Outras realizagdes humanas passam a ser consideradas como condigdo de desen- volvimento terreno, perdendo importancia diate da felicidade eterna, Um niimero muito grande de pessoas renuncia a suas vidas, cercean- do intimeras possibilidades existenciais almejando Gnica ¢ téo-somente a sonhada felicidade do além-mundo, 60 a felicidade sem, entretanto, saberthe a forma e a © homem bus esséneia, A propria ess ia ¢ a divergencia do “viraser” feliz mostra de for a felicidade é muito mais uma questo filosofica do que qualquer outra conotagao que Ihe possa ser dada. bastante clara qu O homem existe em convivio diteto com seus semelhantes, fato que muitas vezes determina que a conceituagio de Felicidade exisla a pattir de outrem, Felicidade, nesses casos, € um processo de complementaridade, € 0 sofrimento legado a essa situa ente quando ocorte quebra sidade nesse processo de con necessério ao homem, nnm mundo que padece todos as niveis poss’ veis de softimento e desespero, criar condigdes que permitam a felicidade nna dimensio de uma sociedade mais justa e humana sem a associagio de felicidade com a aquisigaa de bens de consumo ou posse desvairada de riquezas materiais, Felicidade € algo como o desdobrar duma intensa emogio; 60 arreba- tamento capaz de deificar as realizagées humanas, colocando-as num nivel superior & coisificagio imposta pela tecnocracia. No entanto, felicidade € uma possibilidade que se contrapse ao “vire- set”, condigo inerente & existncia humana. O homem, na medida em que é um continuo “vira-ser’, um sempre “poderser” e com a possibilida- de de um “sinda-ndo”, tem na felicidade um de seus anseios idealizados, no a Juz da razo que determina outras possibilidades da existéncia, mas no circunstancial de uma emogao que o faz buscar a felicidad sem saber- Ihe a forma ¢ os determinantes. (O sentir de uma intensa emogio dé a0 homem uma sensagio que trans- forma essa emogo num fragmento de momento que, seguramente, sexi definido como feliz. E, apesar de toda a celeuma existente que a toma inde level, afelicidade é acenada no seio das promessas que envolvem a consti do de um mundo menos despstico e sem 0 arbitrio do totalitarismo, O trem de subiirbio que corre nas trihos levando milhates de pessos em busca de un humane atravessa célere o rio do tempo, em cujo leito padecem a emo fo € o anseio de Felicidade dessas pessoas. sobrevivéncia acintosa diante dos preceitos dle dignidde O trem carrega em seus vagdes um ntimero absurdo de pessoas que sequer possuiem consciéncia de outras possibilidades exister a exploracZo aviltante e mercantilista de sua forga de trabalho. O él EE __—_ Ploctorapia oxatoncll tio do tempo que o trem atravessa mostra, através dos meios de comun ago, a imagem contemporanea da felicidade: um alto nivel de consu- mismo que vai além da percepgao.. AAs utopias sociais, por outro lado, mostram-se vulnerdveis diante dos questionamentos de realizagio e felicidade das pessoas que fazem parte de suas estruturas, As sociedades mantém-se estruturadas a partir do arbitrio de seus Bovernantes; 0 efreulo de pessoas que se levantam em protesto contra 0 aniquilamento da dignidade humana € calado de todas as formas. As prisdes esto repletas de rangidos de softimento das torturas a que silo submetidos os presos politicos. A felicidade, nesse caso, reveste-se da performance da justeza e fraternidade existencial. Os justos que clamam por uma vida mais digna e feliz para os seus semelhantes so agoitados e agrilhoados em seus ideais. E, desgracads- mente, todas as utopias sociais, sejam elas capitalistas, sejam socialistas, carecem de sentido na promogio de uma vida feliz e satisfatoria Os defensores das utopias chamadas indevidamente de socialistas sio obrigados a calar-se diante dos abusos cometidos pelos governantes dessas soeledads, fato que se repete na mesma dimensio com os defensores das utopias capitalistas. Os socialistas acusavam os capitalistas das barbaries cometidas pelo Fascismo e mais recentemente pelo Imperialismo Estadunidense. Atiram pedas ao Imperialismo Estadunidense pelas torturas, espoliagao e outros tipos de atrocidades cometidas na América Latina em nome da “paz social” € da felicidade do povo. Mas, certamente, teriam de se calar ou atirar pedras com a mesma intensidade diante de atos como a invasio soviética no Afeganistio. Ou, entdo, 0 que dizer diante dos dissidentes soviéticos presos na Sibéria?! Ou até mesmo da implosio do Leste Europeu? m como manterse diante dos fatos e da and- AAs utopias sociais no lise da realidad Ser feliz € uma possibilidade, por outro lado, que coloca a morte ~ possibilidade tinica ¢ isolada da existéneia humana e da qual todo ser fe terd de abritye numa forma arrebatadora para vivencid: tagonismo, existe como determinante de Valdemar Augusto Angorami~ Gamon Como a Felicidade pode ser considerada uma possibilidade in existéncia se essa mesma existéncia, concomitantemente, apresenta a possibilidade do ato de morrer?! O ato de morrer presente na existéncia humana nio se isola na possi- bilidade ca morte de uma dada pessoa, isoladamente; ao contritio, esten dese a todo efrculo de pessoas que, de alguma forma, pertenca a essa existencia, A morte € sempre uma possibilidade que “6”, a felicidade um “poder- ser”, abrindo-se para um “ainda-nio” e convergindo para um “vir-a-ser”, O homem, mostrou-nos Sartre, é a realidade de seus proprios fendme- nos, e a busca, tentando trazer a consciéneia determinantes que possam fazer a totalidade de suas realizages como fatos plenos e reais, leva-o a realizagdes gratificantes e prazerosas, ‘A consciéncia humana, lamentavelmente, esté embotada, ¢ 0 homem, cada vez mais, toma-se distante daquelas realizages em que a esséncia humana soja permeada por condigées a cla inerentes, Nao se pode reconhecer no conjunto de atitudes humanas um indicio, por menor que seja entre os menores, que possa tornar-se reconhecfvel daqueles principios que deveriam ser e que, a0 contrario, distam de forma abismética daqueles de dignidade a condigdo excelsa da existéncia E possfvel fazer uma projecdo que, embora intuitiva sem qualquer fundamentacio prética ¢ sistematizada, revela que 0 homem, apesar de sua busca desvairada da felicidade, munca, em momento algum, foi tio infeliz. como é na atualidade, Nunca o édio ¢ a destmuigao ganharam formas tio marcantes, até haqueles relacionamentos interpessoais mais estreitos. Anteriormente, apesar da destruigio e do édio presentes nas grandes guerras mundiais ¢ seloriais, a existéneia humana nao era avassalada de forma tao infeliz. Basta notar, num retrato pormenorizado, que o homem anteriormente sofra na pele as agraras da escravatura Sabia e se sentia escravo; era “‘pro- priedade” de outros semelhantes. A prépria Biblia, quando narra a trajeté- tia de Moisés, mostra a preocupagdo deste em estabelecer normas que sgirantissem e preservassem a posse do homem pelo préprio homem, Hoje, liberto da dos feitores, Ao cont 6 pelo “capital”, Sofie até con mais inte ravatura, ele tem a ilusio de estar livre das alger rio: € mats eseravo do que nunca, aprisic Paioterapia exstencal dos, O que se torna mais agravante € 0 fato de possuir a ilusiio de que se libertou da escravatura, podendo, um dia, “vira-ser” feliz A felicidade esbarra em sua propria conceituagio e no significado que lega a0 homem, Muitos buscam-na avidamente e, somente apés viver dleterminadas situagdes, dao a dimensfo de fatos & consciéncia que torna algumas experigneias passadas como sendo felizes. Outros evocam reminiscéncias de um passado distante para dimensio- nar quao infeliz 6 o presente. A felicidade passa a ser 0 passado, toma for- mas € contomos eoncretos quando € trazida 4 conseineia a partir disso, ¢, numa outra consideragdo de valores, dificilmente alguém se diz feliz plenitude e realizacées a partir de fatos presentes. A [elicidade, assim, parece ser o determinante que mostra a existéncia em compartimentos estanques, nas quais 0s fatos so codificados e {ganham significagio apés vividos. A vivéncia de determinados fendmenos, quando de sua ocorréncia, ino basta para impregnélos de plenitude e exuberdncia, Os dias passam levando a existencia de forma irredutivel. A falla de consciéneia ¢ 0 proprio abrir-se diante de emogdes fortes c significativas Imostram uma série infinita de sensacdes, que, dependendo das formas & dos contornos adquiridos, séo definidas, mas no procuradas ¢ conceitua- das em ess@ncia, como siluagdes em que a felicidade tornouse presente, dando alento aos fatos. Umma mae chorosa diante da gravidade de uma cirurgia a que o filho se vé submetido repentinamente definira 0 éxito dessa cirurgia, bem ‘como 0 restabelecimento do filho como uma situagio de extremo arrebe- tamento, em que seu coragio transbordard de felicidade. Se a felicidade st presente no coragio dessa mf, certamente estar no coragao de um adolescente que, apés superar as dificuldades de um arduo vestibular, a tio almejada vaga na universidade, ‘Também se faz presente (0 dos torcedores de um time de futebol ~a despeito de quantas possi ~ quando esse conseg no cora desventuras, sofrimentos e desatinos a existénc time sagra-se campeiio de determinado torneio. A felicidade ainda 6 pres {gos perfodos de separagio e espera, amantes te naquelas situagdes nas quais, apos lon- 1 € se extasiam na noite, noite que traz 0 espectro da solidao de mode tinieo, com 6 sofrimento ¢ a dor a ela inerentes, a felicidade adquite contornos ina _Waldemar Augusto Angerami - Camon tingfveis, fazendo com que seja reduto apenas nos sonhos ¢ ihusdes. Ser feliz, felicidade buscada, com a mesma avidez com que o poeta busca ins Piragdo nas noites estreladas para os versos e elegias d'alina A felicidade eterna, buscada pelos figis em seus devaneios parece ganhar contorno quando da paz da oragio. Eo que é ae sendo a fuga do desprazer e da dot?! A paz da orago € tangfvel ao crente, mas ndo pode estabelecer con- tomos reais & felicidade, Ohomem, enquanto ser que se capacita niio apenas de que é livre, mas também de que sua existéncia como ser livre se caracteriza pela precarie- dade e pela caréncia de condigdes existeneiais, seguramente sofrers em niveis orginicos toda a dor dessa condigao de forma tinica ¢ irremedivel Na busea da construgdo de suas coisas, a existéncia experienciaré a angtistia da liberdade, de decidir suas préprias vertentes ¢ de buscar a feli- cidade em cada ato ¢ realizagto. A felicidade esbarra nos anseios humanos, fazendo com que a prépria esséncia humana transcenda o limiar de seus determinantes. Existe preconizagdo da felicidade como um estado de seguranca, paz de espirito, calma ou trangiiilidade do qual a angiistia,o sofrimento € dot estdo totalmente ausentes, Contrapsern-se tais afirmagdes, colocando-se que € imposstvel que as virias formas de experiéncia, se intensamente vividas, nao tragam angtis- tia, sofrimento e dor em seu bojo. Se a felicidade é buscada por aqueles que acentuam os valores espiri- thas como forma de tornar suportaveis os sofrimentos fisicas a que se ‘vem expostos ao longo da existéncia, ela é vista como tendo forma e con- tornos adquiridos pelas realizagdes humanas. Como a emogao se confun- de com a presenga nos momentos maiores de devaneios ilusto, a felici- dade nao tem como adquitir tragos de verdade © homem ¢ condenado a infelicidade de forma dréstica e, a0 longo de sua vida, procura ignorar fatos desagradliveis dela e, se exposto a situa- ies em que, qu lquer que seja a ope, nenhis desamparade, O homem, ao adquirir consciéncia de que a vida é wm emaranhado inextricavel de situagdes e fatos desagradiveis, adota uma atitude de total alvissareiros em face das dificuldades, Mas o distanciamento do softimento 6 cada vex mais ilusorio, Na América Latina, onde os altares dourados dos Incas estio coberlos pelo sangue das vitimas das ditaduras militares, onde os trabalhadores Imineitos esto morrendo solapados nas minas de carvao com os pulmaes cenfraquecidos e doentes, a felicidade, o que & América, onde o fuzil dos militares cala a voz da justeza. América das criangas de pés descalgos;erianas sem vida, ern chocolates e sem parques de diversi; criangas que conhecem a fome, a miséria e o vento frio da madrugada a esfriar-lhes o amanha e a perspectiva de outra forma de vida, Criangas e adultos, todos unidos no desalento. América, onde 0 canto dos péssaros é abafado pelo grito dos tortura dos, onde cada promessa de justiga e paz é um agoite, uma mentira América, continente de sonhos onde a felicidade € aniquilada das possi bilidades existenciais, antes mesmo de ser sonhada. Felicidade e América, favelas e povo sufocado pelo grito de liberdade. América que, banhada por dois oceanos, esti enchareada de sangue, se entorpecendo com todos os tipos de droga para se anestesiar de tanto sofrimento e dor. E a felicidade insiste em procurar lugar em seu seio, Felicidade, felicidade, felicidade, nao hé como existites em plenitude, como alguns apregoam. Certamente existes longe dos anseios humanos ‘que te conhecem apenas através da idealizagao de alguns sonhadores, O que ¢ felicidade, se a vida 6 um intenso e infindével sofrimento? E s¢ se desse ao homem a possibilidade de ser feliz, na plenitude de sua ‘vistencia, a vida teria de ser redefinida e redimensionada em outta dire- io: 0 infinit. © palhaco, simbolo universal da felicidade infantil, antes do espeticulo cireense pinta 0 rosto com alvaiade misturado a vaselina. Também coloca secante, porque sendo a tinta escorre; escorre com 0 calor do espeticulo, ‘como ainda escorre com as lagrimas de sua dor dala, E, entre suor ligt. ‘mas, 0 espetéculo no pode para Notas | Adiante discutitemos methor a questio da esséncia 2 Introducdo ao Existencialismo, Op. cit 66 3 Idem, ibidem. 4 Idem, ibidem 5 Idem, ibidem. 6 Adiante discutivemos a Felicidade. 7 Freud, S. O Mat-Estar na Civiizagao. Rio de Janeiro: Imago, 1979, 8 A angtistia sera mais bem diseutida posteriormente 9 Sartre, J. P. ¢ Fencira, V. O Bxistencialismo & um Humanismo, Lisboa: Presenga, 1970. 10 Idem, ibidem. 11 Sartre, Op. ei 12 Sartre, J. P. El Ser y Ja Nada. Buenos Aires: Losada, 1981 13 Sartre, dentre os existencialistas, foi o nico a elaborar uma teoria sistemat- ca ¢ minuciosa da liberdade, apesar da importincia que todos atribuem liberdade humana, Assim, as principais reflexes existencalistas sobre liber- dade ou sio do proprio Sartre ou, entto, origindtas de seus escites. Sartre, J P.O Ser eo Nada. Petrépolis: Vozes, 2003 14 Sartre. Op. et 15 Idem, ibider 16 Sartre, J. P. Situations IT, Paris: Gallimard, 1948. 170 Existencialismo é um Humanismo. Op. cit 18 "Liberdade”, C. Marighella, in Batismo de Sangue, de Frei Betto, Rio de Janeiro: Civilizagao Brasileira, 1982. 19 Esse trecho foi extraido de meu livro Soliddo, A Auséncia do Outro. Sio Paulo: Pioneira Thomson, 1990. 20 Idem, ibidem, 21.0 Existencialismo é um Humanisme. Op. ct. 22 Idem, ibidem. 23 Idem, ibidem, 24 Idem, ibidem. 25 Steiner, G. Heidegger, Lisboa: Publicagdes Dom Quixote, 1990 26 EU Ser ¥ la Nada. Op. cit. 27 Introdugao ao Existencialismo. Op. ct 28 Idem, ibidem, 29 Heidegger, M, Being and ‘Time, Londres: Oxford, 1962. or Psicoterapia existencial 530 Steiner, G. As Ideias de Heidegger. So Paulo: Cultrx, 1980. 31 Merleau-Ponty, M. O Visivel e o Imvisivel. Sao Paulo: Perspectiva, 1971 i 52 Bl Sery la Nada. Op. cit. 33 Sartre, Op. cit 34 EI Sery la Nada. Op. cit. 35 Angerami, V. A. Existencialismo ©: Psicoterapia. Sao Paulo: ‘Trago, 1984, 36 El Ser y la Nada, Op. cit. 37 Idem, ibidem 38 Idem, ibidom 39 Idem, ibidem. 40 Idem, ibider. 4 Idem, ibidem, 42 As ldéias de Heidegger. Op. cit. 4 Idem, ibidem, 44 Idem, ibidem. 45 Torres, W. C.; Guedes, G. W. e Torres C. R. (orgs.) A Psicologia e a Morte. Rio de Janeiro: Fundagao Getulio Vargas, 1983, 46 "A Redescoberta da Morte”, Torres, W. C. in A Psicologia e a Morte. Op. cit. 47 Idem, ibidem. 48 Existencialismo & Psicoterapia, Op. cit. 49 Idem, ibidem. 50) Xausa, LA. M.A Psicologia do Sentido da Vida, Petrépolis: Vozes 1986 51 Idem, ibidem. 52 Idem, ibidem. 53 Existencialismo & Psicoterapia, Op. cit. 54 Idem, side 55 Bertolino, P. Sartve ~ Transcendén de Ciéncias Humanas, publicagio da E. Catarina, v. 2, Florianépolis, 1982. 56 lem, ibidem. 57 O Visivel eo bnvisivel. Op. ct 58 1% perceptiva € ain conceito desenvalvido por Metteau-Ponty para desig e Constituigao do H'go, in Revista lora Universidade Federal de Santa “crenga que lemos em nossa percepgio, OM sea, ieeditanos que ayuilo que al, tenon f6 pereeptiva Valdemar Augusto Angerami — Camon 59.0 Vistvel eo Invisivel. Op. cit. 60 El Ser y la Nada. Op. et 61 Sarite, J. P.A Transcendéncia do Ego. (62 Idem, ibidem. 63 As Idéias de Sartre, Op. cit. 64 Idem, ibidem, 65 Idem, ibidem. 6 Satire. Op. cit. 67 Idem, ibidem, 68 Idem, ibidem. 69 Idem, ibidem. 70 As Ideias de Heidegger. Op. cit 71 As Idéias de Sartre. Op. ci 72 Idem, ibidem 7B Idem, ibidem. 74 Introdugdo ao Existenciatismo. Op. ct 75 Idem, ibidem. 76 Idem, ibidem. 77 Idem, ibidem. 78 Vontade de Poténcia. Op. ct 79 Introdugao ao Existencialismo, Op. cit. 80 Idem, ibidem. B1 El Ser y la Nada, Op. cit. 82 Introdugo ao Existencialismo. Op. cit. 83 Buber, M. Ewe Tu. Sa0 Paulo: Moraes & Cortez, 1977. 84 Idem, ibider. 85 Solidao, A Auséneia do Outro. Op. cit 86 HI Ser-y la Nada. Op. it 87 Idem, ibidem. 18 Ider, ibider. HO Sartre, J. P.A Ndusea, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 90 Ider, ibider. 9] Solidao, A Auséneia do Outro, Op. cit Psicoterapia existencial 92 Idem, sbidem. 93 Ou ainda, na citagio filoséfica de Plauto: “O homem é 0 lobo do homem’. HE mesmo Freud, em seu trabalho © Mat Estar na Civilizagao, mostra uma igem de tal modo pessimista do homem que toma os existencialisas ofi- nstas: “Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela dificil e esté- vil em alegrias e t@0 cheia de desgragas que s6 a motte € por nds recebida ‘como uma libertagio?”. 9M Boss, M. Angistia, Culpa e Libertagdo. Sao Paulo: Duas Cidades, 1977. 95 Idem, ibidem. 96 Idem, ibidem. PAREMIA DE PRIMAVERA Hoje & tempo de luz. de vida, de amor, de cor Tempo de esplendor, de fé, de saudades. Tempo da florida maravithosaraene tingida de ouroamarelo da Sibipinuma. E, Primavera.. Hoje é tempo de renascer. do despetalar de rosas braneas; vermelhas ¢ azuis. ‘Tempo do acalanto no amarelo ¢ no branco das margaridas. Do Sol brilhante nas flores azuis levemente tingidas de roo do Jacarandé-Mimoso, Primavera. Primavera no coragao.. Primavera na alma, Primavera no corpo... na brisa suave que, na noite, ‘$e mistura com o aroma da “Dama-da-Noite” ‘Tempo da certeza, do eneantamento do “Bei pousondo a esséncia da Natureza na flor do Hibisco Tempo do destumbremento amarelo-luz do pé-amarelo, E Primavera... 8 Primavera no sorriso da erianga, Primavera na ligrima de dor Primavera na alegria do reencontro. nna canyao do vento que bate na janela, arauto do sonko encantado das flares. Da florada branco-paz do Tpe-Branco, B da Figueira Primavera. Hoje é tempo de viver a vida no azul.. no cintilar da estreta. ‘Tempo de passar na luz da Lua. nnd marola que arrebenta na arcia nna relva enfeitada de verde. ‘Tempo da certesa de que a Primavera ¢ a propria vida. 0 aimor em flor. «lorem amor iluminado a certeza de muitay Primaveras. ‘Valdemar Auguito Angeran| 3 Psicologia e pressupostos existencialistas Como vimos anteriormente, os pressupostos existencialistas caracteri- zamse por uma compreensio do homem enquanto fendmeno tinico. Essa condigiio — essencial para o real dimensionamento dos pressupostos existencialistas - conflita de modo radical com os prinefpios que nor- tciam a Psicologia enquanto ciéncia. ‘A convergeneia dos pressupostos existencialistas para 0 campo da Paicologia € totalmente inadequada, contrariando tudo aquilo que foi pproposto pelos pensadores existencialists. Mostraremos, a partir de alguns contrapontos, o esbogo da inadequa- ao dessa convergéncia, Psicologia como Ciéncia A Psicologia, através de suas principais correntes, propde-se a ser com> preendida por meio de bases “cientificas”, entendendo-se por ciéncia 0 propésito de objetivar, classificar e generalizar, partindo da observagio e da experiéncia, Usaremos a definigéo de Hempel! sobre as ciéncias naturais, defi essa que abarca os princfpios das comrentes positivista, naturalista ¢ outras ue se enquadram no rol das ditas cientificas: “Os diferentes ramos da investigagao cientifies podem ser separacos em dois grupos maiores: as ciéncias empiricas e as ndo empiticas. As primeiras procuram descobrit, descrever, explicar e predizer as ocorrénicias no mundo em que vivemos. Suas assercdes devem ser, portanto, confrontadas com os fatos de nossa 85 ___Psicotrapiaexistencial_ experiencia e s6 aceitaveis se amparadas por uma evidéncia empirica. Tal evidencia se obtém de muitas maneiras: por experimentag#o, por obser- vagio sistemtica, por entrevistas ou levantamentos, por exames psicolé- ssicos ou clinicos, pelo estudo atento de reliquias arqueolégicas, docu- mentos, inserig&es, moedas ete. E, dessa referéncia essencial & experién- cia que prescindem a Légica ¢ a Matematica pura, que sfio as ciéncias niio-empfricas. As ciéncias empiricas dividem-se, por sua vez, em Ciencias Naturais e Ciéncias Sociais. O critério para essa divisfio € mui menos claro do que o que distingue a investigagao empfrica da nao empf- rica, € nfo existe acordo geral sobre onde se enconta a linha da separa- io. E costume incluir nas Giéncias Naturais a Fisica, a Quimica, a Biologia e as suas zonas fronteirigas. As Cigneias Sociais compreendem, entio, a Sociologia, a Ciencia Politica, a Economia, a Historiografia ¢ as diseiplinas correlatas, A Psicologia é as vezes incluida num campo, as vexes noutro, e no raro é dita pertencer a ambos”? Observase, entdo, que a Psicologia, enquanto ciéneia empirica, necessita de um enfeixamento determinista para ser considerada como lak “descobrir, deserever, explicar ¢ predizer as ocorréncias do mundo em que vivemos”. E, para cumprir tais propésitos, deve utilizarse de seu instrumental cientifico: testes psicolégicos, entrevistas, levantamento de dados, exames clinicos e outros’. Os pressupostos existencialistas negam-se a compreendler o homem a pautir de categorizagies, generalizagies e até mesmo de abstragdes restl- Luntes da aplicagio de baterias de testes psicolégicos. O homem, ao ser considerado como fenémeno solado, langa por terra outro prin- efpio das teorias comportamentais em Psicologia: “organismos diferentes reagem do mesmo modo diante de estfmulos semelhantes”, Essa posigdio poderia ser assim definida pelos existencialistas: “organismos diferentes igen de modo diferente diante de estimulos semelhantes”. lida de Rollo May, intitulada totalmente indevida, ‘Tal fato Aleve-se ao total desrespeito desse autor com relagao aos principios existen nico e i Embora exista uma obra bastante di Psicologia Existeneial,! essa denomit cialislas, Inclusive, trata-se de <1-em que os diversos autores iniciam seus trabalhos afirmando que q pins existencialistas. A inadequagio desi obra é express pelos proprios ase nada conhecem dos prinet autores, que, a eada parigrafo, se desculpam pelo desconhecimento ao amon Valdomar Augusto Angora Na medida em que os existencialistas consideram irrelevatites os expe- rimentos feitos em bases dtas cientificas, contrapondo a singularidade do homem, a unio do pensamento existencialista com a Psicologia Cientifica € praticamente imposstvel. O Existencialismo, através do método fenomenolégico no qual 0 conhecimento e a compreensio da existéncia humana se procedem de maneira bastante diversa daquelas propostas pelas bases cienttficas, dista de modo significativo da Psicologia Cientifica. © conhecimento é um cemergir da existéncia ~ ¢, na verdade, trata-se de um processo pessoal, individual e Gnico, Todos os fendmenos dessa classe estdo dirigidos para 6 proprio ser, para o seu projeto de ser; trata-se de decisao existencial, e rio de abstragdes tedricas. A Psicologia Cientifica, em vez de ver o homem como ser tinico numa relagfo intransferivel com seu mundo, trata de categorizar, classificar e deserever os préprios sentimentos humanos ~ indescritiveis por si sb. ‘Como agravante desse fato, temos a peculiaridade de que determina- dos sentimentos humanos ~ 0 amor, a paixio, entre outros ~ inexistem diante dos preceitos cientificos, por nio apresentarem conccituagdes nem definigdes operacionais. A Ciéneia recusa-se a aceitar como verda- deira a prépria expressio da emogao inerente & existéncia. Na media em que os pressupostos existencialistas determinam uma compreensto da cexisténcia a pattir dos sentiments inerentemente humanos, a questio se vé diante de um impasse sequer dimensionével. O ostracismo legado as obras existencialistas nos cfrculos académicos justificase plenamente. A Cincia sente-se ultrajada ao ver seus pressupos- tos cafrem por terra diante da compreensao existencialista de homem® Diante da compreensto do homem através de experimentos realizados com pombos, cobaias ¢ outros animais, o pensamento existencialista € sobe- rano, Nao apenas se recusa a aceitar esses experiments como coloca a impossibilidade de generalizagao de dados obtidos com pessoas. O pensamento existencialista € embasado na impossibilidade de cons- ‘io de tum conjunto sistemstico, do estabelecimento de regras gerais, recusando-se a um enquadre cientifico. Pode, por outro lado, com os ecuisos € métodos que possui, empreitar uma compreensio profunda, ilumin existenciais, Hstende a compreensiio de seu ser e de sua existéneia como ie completa do homem, de seu mundo e de suas possibilidades Psicoterapia exstencial homem. Compreende melhor que outras formas ¢ métodos propostos pela Psicologia e Psiquiatria cada ser estudado, cada existéncia com a qual se estabelece um “encontro”, Esse conhecimento, porém, no pode ser estendido a nenhum outro homem. Nao se pode pensar num método de “Psicologia Existencial”, A tinica possibilidade pertinente aos princi pios existencialistas é a pritica psicoterdpica, em que o terapeuta ira rea- lizar um encontro existencial nico e verdadeiro com o cliente. Embora a prética existencial atualmente venha demonstrando a con- quista de outros campos de atividade, como hospitais, comunidades, io € pesquisas ¢ até empresas, ha sempre o cuidado da nao generali da construgio do encontro existeneial dignificante ¢ humano. As Teorizagées Psicolégicas eo Pensamento Existencialista As teorias em Psicologia apresentam caracteristicas bastante diferentes dlaquelas encontradas em outras reas da Cigncia, As teorias apresentam a necessidade de serem refletidas & luz de uma pratica que possa ou fomé-las tangiveis na dimensio dos fatos, ou, entio, de alguma forma, oferecer-lhes subsdios para uma revisio conjetural, Alguns pensadores contemporineos, preocupados com 0 estabelecimento de dados que pudessem diferenciar o enredamento das teorias no campo das cigneias haturais, diferindo-as em conceituagio ¢ normalizagio daquelas perti- nentes as cigneias exatas, estabeleceram nova conceituagao sobre o signi- ficado do termo “teoria” quando esta abrangesse esse campo. “Uma teo- tin 6 usalmente introduzida quando o estudo prévio de uma elasse de fendmenos revela um sistema de uniformidades que podem ser expressas 1 forma de leis empiticas. A teoria procura, entio, explicar essas regu- lar uma compreensio mais profunda ¢ 10. Com esse fim, interpreta os fendme- tio, por is te6ricas niformi: dades e, apurada dos fendmenos em q nos como manifestagies de e dizer, por tris ou por baixo deles ¢ que sio governados por caracterfsticas ou principios teéricos que permite explicat dades empfricas previamente descobertas e, quase sempre, prever ‘n0 geral, proporci idades ¢ de processos que es sin regularidades Valdemar Augusto Angerami — Camion As teorias, assim, precisam ser especificadas com clar apropriadas, com 0 risco de ndo servir ao seu propésito. No campo da Psicologia, 0 termo “teoria” necessita de outra reformulagzo, pois, tanto ‘em seu significado corrente’, como na conceituagio atribnida pela Filosofia, o que se assiste nessa drea é ao total arbitrio, que enreda fatos € fendmenos a revelia inclusive de seus postulades. Dessa forma, ura dada teoria é absoluta diante das criticas € dos questionamentos que Ihe so disigidos; uma dada teoria s6 perde sua valiade quando revista pelo pré- prio autor. Muitos autores, por maior que seja o distanciamento entre suas idéias ¢ a realidade, continuardo a ser estudados e discutidos acade- micamente, ainda que essas idéias nao resistam a uma revisfo e verifica- ‘¢4o em seus postulades. O pensamento existencialista, por outro lado, mostra-se numa evolu- 40 dinamica, abrindo-se num leque de possibilidades pata a irreversibi- lidade da existéneia enquanto fenémeno tinico ¢ isolado. Lega, assim, a condigio imutavel de que cada ser é responsdvel pelo conjunto de atos e atitudes, enredando dessa forma o préprio enfeixamento das possibilida- des existenciais, Ao contrério das teorizagies vigentes na Psicologia — dog- miaticas em sua asseredo ¢ explicadas a partir de seus proprios pressupos- tos -, 0 pensamento existencialista, longe de tomarse irredutivel diante das criticas, prope uma reflexao sobre o homem a pattir daquilo que Ihe € mais inerente: a existéncia. Essa condigao de exploragdo das totalidades humanas de modo feno- menolégico abre-se numa perspectiva dialética, Uma totalizagao € um ato: modifica 0 agente, o sujeito e a relagdo entre os dois, Esse modo de Pensar dista o pensamento existencialista de forma abismitica das teor zagies psicol6, © precisiio Notas | Hempel, C. G. Filosofia da Ciencia Natural. Rio de Janeiro: Zahar Editores: 1974 2 Idem, ibidem 3 APaica bave estrutural no modelo das Gi los pet ‘lise, apesar do distanciamento das ditas correntes cientificas, tem sua Naturais. Freud utilizou-se de conce centes 31 ilica pata a estruturagio de sua teoria, ‘Teemos como “imecanismos”, "preside Psicotorapia existencial sto do homem. Uma Metapsicologia que deu origem a intimeras outras teo- tias que se ulilizam de termos pertencentes a outras areas para explicagao da existéncia humana. 4 May, R. (org, Psicologia Eistencial. Porto Alegre: Globo, 1975. 5.No item intitulado “Convergéncia do Pensamento Existencialista para a Pratiea Psicoterspica”, tecemos consideragoes sobre Rollo May. 6 Os principios existencialistas agridem de tal modo que as caltinias sobre seus pressupostos também sio langadas em termos pessoais a individuos gute propa- gam essa idéia, A irascibilidade que toma conta dessas caltnias perde-se na propria base em que so langadas: a perda do status conferido pela Ciencia ¢ que, de alguma forma, é ameagado pela proposta existencial 7 Filosofia da Ciencia Natural. Op. cit 8 “Teoria” € assim definida no uso corrente: "1. Prine‘pios basicos e elementares de uma arte ou cincia. 2. Sistema ou doutrina que trata desses prinefpios. 3, Conhecimento especulativa, 4 Conjetura, hipotese. 5. Utopia. 6. Nocdes _gerais, generalidades. 7. Opinides Sistematizadas’ 4 Humanismo e existencialismo O Humanismo é um movimento bem mais antigo que o Existencialismo, € seu apogeu ocorreu durante o Renascimento quatrocentista na Italia, Nesse perfodo era enfatizado 0 estudo dos classicos gregos e romanos, ¢ © movimento foi considerado uma “liberdade de pensamento”, na medi- da em que representava uma ruptura com o sistema escolistico medieval, desenvolvido principalmente pelos fil6sofos da Igreja, Apesar de no haver grandes realizagbes filosficas, estava aberta a porta para um tipo de pensamento eritico ¢ independente, © mais notivel dos primeiros humanistas foi Erasmo de Roterda Homem bastante religioso, aereditava na liberdade essencial do homem e no poder criador do individuo. Diferenciava radicalmente seu pensamen- to do de Martinho Lutero, o qual afirmava que o homem era incapaz de deixar de pecar, exceto pela graga de Deus, Fm sta obra Do Livre Arbitro, Roterdi luta pelo estabelecimento e pela definigao da luta interior. E, dlesde Erasmo até Petrarea (comumente chamado de pai do humanismo), jovimento se caracterizou pela exaltagio & “dignidade do homem” Valores dle dignidade individual”, “lberdade interior” e “criatividade” ° cexistitam como precursores do movimento humanista atu. No campo especifico da Psicologia, a adogio da denominagio “humanista” foi uma tentativa de tornar a Psicologia “humana”, Tal defi- higio parece desprovida de sentido e até mesmo apresenta erro serninti- 9, na medida em que a Psicologia é definida como a ci@ncia que estuda to, essencialmente huma Hist, No cutanto, tal fato nto & verdadeito, nia medida em que a Pesicoterapia exstoncial Psicologia contemporinea estuda muito mais 0 comportamento de ani- ‘mais, reagdes biolégicas e outros tantos fenémenos que nada apresentam de humane. Pelo fato de o Humanismo apresentar varias facetas, Sartre, 0 principal arauto do Existencialismo, através da obra © Existencialismo é um Hu- manismo!, vem a ptiblico mostrar que o Existencialismo é um Humanismo que apresenta caracteristicas bastante peculiares ¢ que se diferencia de ‘outras formas arcaicas de Humanismo: “Na realidade, a palavra humanism tem dois significados muito diferentes. Por humanismo, podese entender ‘uma teoria que toma o homem como fim e como valor superior. Nesse sen- ido, hii Humanismo em Cocteau, por exemplo, quando na sua narrativa A Volta ao Mundo em 80 Horas, uma personagem declara, por sobrevoar montanhas de avigo: “o homem é espantoso”. Significa isto que eu, pessoal- mente, que ndo construf avides, me beneficiarci destas invengées extraordi- nifrias € poderei pessoalmente, na qualidade de homem, considerar-me res- ponsivel e honrado com os atos particulares de alguns homens”, Hisse tipo de Humanismo Sartre recusa-se a aceitar: “Este Humanismo € absurdo, porque 86 0 co ou o cavalo poderiam emilir um juizo de Conjunto sobre o homem e declarar que ele € espantoso, coisa que eles esto longe de fazer, tanto quanto eu sei..”3. De forma incisiva, coloca os determinantes de recusa a esse tipo de Humanismo: “Mas quanto a um homem nao se pode admitir que possa emitir um juizo sobre o homem. O existencialismo dispensa-o de todo o julgamento deste género; 0 exis- tencialista nao tomard nunca o homem como fim, porque cle esti sempre por fazer. Endo devemos crer que hé uma humanidade & qual possamos render culto, maneira de Auguste Comte. O culto da humanidade con duz ao Humanismo fechado sobre si de Comte, ¢ é necessétio dizé-o ao fascismo. F, um Humanismo com 0 qual nao queremos nada”, través dessas colocagdes de Sartre, podemos perceber uma preocupa- enciar o Existencialismo de outras cortentes do pensamento, iciando-o de modo bastante extremado desses segments, Sartre tenta colocar o Existencialismo no encontro de uma nova forma de Humanismo “Mas hii outro sentido de Humanismo, que no fundo significa isto: 0 homem esti constantemente fora de si mesmo; é projetandose ¢ perdendo: se fora de si que ele faz existir 0 homem, e, por outro lado, & pers fing transcendentes que ele pode exist; sendo o homem essa superagio « iclo dos abjetos seniio em referencia a essa superagito, ele no se apoder ” Valdemar Augusto Angerami ~ Caman vive no coracio, no centro desta superago. Nao ha outro universo semio 0 Universo humano, o universo da subjetividade humana. Ea essa ligucio ca transcendéncia, como estimulante do homem — ndo no sentido de que Deus é transcendente, mas no sentido de superagdo -, e da subjetivida de, no sentido de que 0 homem nfo esti fechadlo em si mesmo, mas pre- sente num universo humano; é a isso que chamamos Humanismo Enis tencialista, Humanismo, porque recordamos ao homem que nao hi outro legislador dele préprio e que é no abandono que ele decidird de si; e porque ‘mostramos que isso nao decide com voltarse para si, mas que € procuran- do sempre fora de si um fim —que é tal libertagao, tal realizagao particular = que o homem se realizard precisamente como ser humano”®. Apesar do esforgo de Sartre em mostrar que o Existeneialismo era un Humanismo por sera «nica filosofia capaz de tomar a vida hunmana digna de ser vivida, 2 questo ainda assim é bastante polémica e delicada, Alguns humanistas recusam-se terminantemente a aceitar essa justaposicao, afi- mando que os pressupostos existencialistas contlitam de maneira dréstica com as idéias do Humanismo. Outros, ao contrario, colocam que é atra- vés do Existencialismo que as idéias humanistas tém uma de suas mais bri- Ihantes expresses, Também entre os existencialistas hd os que se recusam uma alianga com o movimento humanista, Tal definigao custou a Sartre crtticas vindas de alguns colegas, que passaram a designar ao termo “exis tencialismo” especificamente o pensamento do proprio Sartre. No campo especifico da Psicologia, por outro lado, a questo é igual- mente cercada de controvérsias, Vimos anteriormente a disc6rdia presen te ao se falar em “Psicologia Existencial”, inadequacao essa que adquire contomos ainda mais imprevisiveis quando se fala em “Psicologia Existencial Humanista”. Essa conceituacao, criada pelos americanos coma intengao de articular entre sialgumas correntes psicoldgicas, pode- tia ser mais bem definida como “Psicologia Humanista”, uma vez. que seus prineipais autores so notadamente humanistas e, muitas vezes, com posicionamentos bastante distantes daqueles propostos pelos pensadores existencialistas, terapia existencial Notas 1 O Existencialismo E. um Humanismo. Op. cit. 2 Idem, ibidem. 3 Idem, ibidem, 4 Idem, ibidem. 5 Idem, ibidem. PAREMIA DE VERAO és desealgos na arcia. Sol na alma, ‘no feito e no conigao. Aida embalada nas ondas do mar. E tudo passa a ser simplesmente, uma noite quente de Vero... Verdo, amor e paixdo. Paixao de wma intensa noite de amor, ‘numa noite quente de Verdo. Esperonga de uma luz que se irradia no sol de Verto. Enna “Chuva de Ouro” das flores da Cassia Imperial De um Anjo Verde que baila suavemente seu encanto nes cores da prpria vida. Verdo e rato azul do céue de verde-dgua do mar... Do bareo que passeia pela orla pontithando a esperanca de branco elias Verao de paz, da noite de Natal, da alegria do Reveition Das flores vermethas encantadoramente avermelhadas do Flamboyant. Verdo de amor, do mergutho fulguronte nas éguas da cachoeira. Verdo da ilusdo de que a vida se transforma, se transformou em novo tempo, nova vida, io a beira-mar ‘vendo 0 luar do luarento mais Bonito que ja ilunsinow o refolhar dos sonkos. Verdo de um corpo de mulher estreitado nos bragos. Com a nudez escondida apenas ¢ taosomente pelas mareas do biquini na pele Do beijo ardent, salgad com gosto de mar, ‘com gosto de suor, com gosto de vida. Verao de um sono encantado de Sol, de Lua e de vida... B da corteza de que amar mama noite de Verdo € vier « vida com ardor, paixdo ¢ amor 5 _Psicandlise e existencialismo A base existencialista, como vimos anteriormente, é 0 fendmeno; a reflexio sobre a existéncia é que determina o contetido das teorizagées. E toda a sua estruturagio respeita 0 fendmeno observado como condicao essencial da anilise, A Psicanélise, ao contrario, tem na “teoria” seu ponto fundamen= tal, ainda que essa se distancie totalmente dos fendmenos observados. Freud deixa bastante clara essa posigio:“(.) no queremos limitarmo- nos a descrever e clasificar os fenémenos; queremos também concebé-los como indicios de um mecanismo que funciona em nossa alma e como manifestacdo de tendéncia que aspiram a um fim definido e elaborando algumas vezes na mesma direcdo ¢ oultras em diegdes opostas. Inten- tamos, pois, formar uma concepeao dinfmica dos fendmenos psiquicos, nna qual os fendmenos observados passam a um segundo plano, ocupando 0 primeino as tendéncias que se mostram como indicios”) Freud tampouco nos diz a razio pela qual os fendmenos observados necessitam ficar num segundo plano diante de suas teorias. Diante dos fendmenos, a “teoria” psicanalitica € soberana. Dogmética em sua assergao, a “teoria” psicanalitica parte de pressupos- tos tidos como axiomiticos, a partir dos quais é sedimentada toda sua cstrutura conjetural. Ede fato, mesmo nao fazendo parte da existéncia ~ existindo apenas na estrutura e ganhando significagao pela propria dimen- so ledirica adquirida —, esses pseudo-axiomas sio 0 sustenticulo de toda a obra psicanalitica, Freud se utilizou dos métodos das Ciéncias Naturais, iétodo que o obrigow a tod uma brilhante condi scar os fendmenas observados, E, a partir de 10 mental, comprimiu todos os fervor Psicoterapia cxisténcia humana dentro de um “nexo causal!” inerente as Ciéncias Natu- rais em sua andlise das coisas realmente existentes. Essa nogio de “causa © efeito” trazida a reflexdo contemporinca pela Psicanélise dista radical- mente da colocagio existencialista, na qual o homem é um ser que reali- ‘1a propria esséneia a partir da existéncia, jo de “causa ¢ efeito” que explica a existéncia a partir de fatos ocortides no “passado” é, na analise amivide dos fatos, mero reducionis- Ino te6rico: € imprescindivel a reflexaio de que, pelo fato de “algo” haver ocorrido numa data cronologicamente anterior, nao significa, em si, que esse “algo” seja a “causa” dos problemas vivenciados no “presente”. A pré- pria conceituagéo de causa ¢ efeito, se revestida de forma livre sem qualquer conceito aprioristco, cai diante do fato de que a exisléncia nfo € sedimentada por esse tipo de nexo causal. Numa aniilise mais rigorosa, deparamo-nos com o fato de que a busca ddesse “nexo causal” faz. com que a esséncia dos fendmenos no seja apreendida na sua totalidade. O homem, na “teoria” psicanalitca, é explicado universalmente como uum conjunto de mecanismos em constante atrto e pressio, Os mecanismos intercalam-se no pracesso de atsito com o perigo iminente de explosio. Os conceitos utilizados por Freud ~ bem como as fases que ele determinou A vida: anal, orale lica ~favemn com que sua “teoria” seja explicada a par \s prOprios pressupostos. Embora algumas nogdes trazidas a refle- tir de s Mio sejam totalmente carentes de raza0, existindo apenas na “teoria”, tais nogdes sio dogmaticamente discutidas2 Nesse sentido, a lembranga de Boss? ¢ bastante oportuna: “.... Mas parece que hoje esté na hora de nos lembrarmos de uma confissao deci siva de Freud. Com efeito, o proprio Freud chamou de ‘ficgao” seu cor ito de ‘aparelho psfquico’. Mas pura fiego, pura invengao dos psicélo- ropélogos atuais so também todas as coisas que o corriqueiro psiquico. Pois ninguém pode, até ino 0: minimo iinais do mundo externo ou gos e a psicologismo in agora, descobrir nos fe indicio da efetiva presenga de imagens cor i no material int os coneretos do existir hu dda exigeneia real de emogies intrapsiquicas e de formas libidinosis. Por ate dos alhos, co: isso os psicdlogos cientistas tem que ter di lante © honestamente, o fato de todos os seus conceitos bisicos serem na reali dade meras ¢ imaginadas suposigdes, Kles foram supostos por Freud « conlinuan sendo supostos por aqueles que constante Wald ‘Augusto Angerami ~ Camon numa melapsicologia de acordo com o propésito basico de toda a teo- tia de Freud” Em seguida, colocaremos alguns aspectos do pensamento existencial de modo a estabelecer um contraponto sistematizado de reflex. 0 Projeto de Ser “O homem, tal como 0 concebe o existencialista, se ndo definivel & porque primeiramente nao é nada, $6 depois sera alguma coisa e tal ‘como a si proprio fizer.(..) © homem € no apenas como ele se cone: be depois da existéncia, como cle se deseia apés este impulso para a exi téncia; © homem nao é mais do que o que ele faz. (..) 0 homem antes de mais nada é o que se langa para um futuro, e o que é consciente de se projetar no Futuro”. Essas colocagdes de Sartre mostram o antagol mo frontal aos prinefpios psicanaliticos, nos quatis 0 homem tem a vida determinada a partir de um “nexo causal” estabelecido por fatos ocorri- dos no “passad A responsabilidade do homem por seus atos serd outro determinante de contrapesigio com a Psicandlise, e seu determinismo do “inconscien- te" como a zona de “censura” numa linha divis6ria com o “consciente”; uma espécie de aparelho controlador que impede os elementos de uma regito de transitarem diretamente para a outra. Ao legar ao homem a contigo de ser responsivel, o pensamento eaistencialista alribuiclhe res- Ponsabilidade pela totalidade de suas agées. Como mera ilustragio, mos 0 chamado desejo inconsciente, muitas vezes evocado para explicar determinaclos atos e comportamentos, O. desejo, por si s6, implica um sentimento que necessita de um objeto para ser efetivado como tal Quem deseja, deseja algo ou alguém, nao havendo como desejar sem se ter a conseiéneia do objeto desejado; 0 que pode de fato ocorrer em niveis inconscientes & a manifestagio do desejo, 0 expressionismo de suas for- mas, Mas ndo o sentimento em si, Como manifestagdes inconscientes, podlem ser definidos o medo c as implicagées de seu expressionistno, mas hunca o sentiento propriamente dito, cit A Questao do “Inconsciente” O “inconsciente” freudiano consiste, entre outras coisas, no conjunto de hnecessidades biol6gicas ou impulsos inatos, permitindo, muitas vezes, uma grande contradigdo em si ao atribuir-se ao inconsciente a responsa- bilidade por determinados atos. Isso de alguma forma faz com que 0 homem negue sua condicdo bisica de se fazer a si préprio. Como na cita- «ilo que fizemos anteriormente, para encobrir determinados sentimentos, iolhes a condigdo de sentimentos inconscientes. A linha ria entre as manifestagies “inconscientes” e o arbitrio humano é, de algu- ma forma, o ponto central de reflexao da Psicoterapia Existencial. Legar simplesmente ao “inconsciente” tudo aquilo que de algum modo se mos- {ta nebuloso ao cliente é negarthe a condigao de participante em seu proprio processo de crescimento pessoal. Nesse ponto, surge uma ques- lio de desacordo entre 0 pensamento existencialista e a Psicanalis. A\ Psicandlise prioriza como determinante de sua anélise a ago do inconsciente, pois, de acordo com ela, aspectos primérios da conduta humana so os impulsos, instintos ou descjos provenientes da instancia iconsciente “Id”; 0 bloqueio dos impulsos ineonscientes prejudiciais nao ‘acarreta seu desaparecimento. De alguma forma, ou o impulso incons- lente é sublimado, isto é,ditigido para um objeto diferente do qual a pes- 5041 nilo tenha temores ou receio; por exemplo, o amor pela mie pode ser onvertido em amor pela poesia, ou, entio, o impulso inconsciente é repri- ido, Nesses casos, ou o impulko se manifestara nos sonhos ou se eonver- teri em alguma das chamadas neuroses. Evidentemente que uma das maneiras como podemos conhecer uma coisa sem estar explicitamente consciente dela € ilustrada pelo ato de nos lembrar, out ainda pelo modo como articulamos corretamente a concordincia gramatical para falar out exerever. De outta forma, acontece freqiientemente lermos 0 nome de outa pessoa em nossa percepeo sem conseguirmos articuli-lo correta- rente. E como um dos eritérios do conhecimento ¢ ter explicitamente presente em mente e ser capaz de articular o que é conhecido, tendemos Wo sabemos o nome ou remetemos a alguma dificuldade em iiveis inconscientes que impede o acesso a informacao correla, 1a obra Na Noite Passada Eu Sonhe asdidat dizer q ‘mostra um ensaio rea. é feita 1 do método psicanalitico de andlise dos sonhos. K, a par Boss, em "no revisio Hizado por um grupo de “anali \Vaidemar Augusto Angerami ~ Gamon tir do momento em que essa critica bastante céustica € realizada pelos réprios psicanalistas, a dimensio inconsciente que esta adquire, toman- do aquelas feitas pelos existencialistas algo bastante tenue, No entanto, é necessdrio interpretar certos fatos que sfo explicitados de modo consciente ¢ dos quais ndo se tinha consciénicia como um mergi- Iho ao encontro do “experienciar” desses fatos ~ conhecidos no sentido incontroverso da palavra e que assumem novo significado, extraindo-se deles conclusées légicas integrais, ou ainda pelo relembrar de fatos que conhecéramos outrora. © homem pode esconder ~e, comumente, na rea- lidade, esconde de si préprio - fatos fundamentais sobre 0 seu set. ‘Tomemos, por exemplo, a questio da liberdade. Na quase maioria das vezes “fugimos” da liberdade de refletr e até mesmo pensar sobre a exis téncia, Nosso pensamento é voltado para outras coisas. A angaistia da liber- dade poderia, portanto, ser produzida por um simples ato de lembranca, sem a menor necessidade de se invocar nenhum conceito metaffsico para cexplicar sua ocorréncia. Sua simples condigao de valor ontol6gico resolve- tia tal questionamento, Notas 1. Freud, S. Obras completas — v. II ~ Lecciones Introductorias al Poicoandlisis. Madrid: Editoral Biblioteca Nueva, 1948. (O grifo é nosso). 2. Angiistia, Culpa e Libertagao, Op. cit 3. Idem, ibidem. 4, Idem, ibidem, 5. O Existencialismo E um Humanismo, Op. cit. 6 Convergéncia do pensamento existencialista na pratica psicoterapica Nesta parte do trabalho, mostraremos os prineipais autores que trabalham na convergéncia do pensamento existencialista na pratica psicoterdpica. ‘Também serio mostrados, de forma casuistica, aqueles que, embora com. siderados existencialistas, em nada justificam tal posicionamento. Rollo May Rollo May € considerado por muitos um autor existencialista. Tal con- ceituagao, no entanto, ¢ indevida, May é organizador de uma obra inti- tulada Psicologia Existencial, que carece totalmente de fundamentagio cexistencialista. Ele tenta fazer uma convergéncia dos principios existen- cialistas com os pressupostos psieanaliticos; ele mesmo um analista-dida- ‘a do Instituto Willian Alanson White de Psicandlise, trabalha com con- ccitos psicanaliticos exaustivamente criticados e questionadlos pelos exis- tencialistas O pensamento existencialista, como vimos anteriormente, recusa-se a aceitar o homem enquanto um mero conjunto de mecanismos em cons- tantes atrito e pressio ~ conceitnagao essa de dominio da Psicandlise a pantir de conceitos emprestados por Freud da Hidréulica. O homem, na Visio existencialista, € um ser tinico, um ser que se percebe enquanto meno. May, enlrctanto, no artigo intitulado “O Surgimento da Psicologia Existencial”, coloca: “..) a énfase em Psicologia nao nega, entretanto, a validade do condicionamento, a formu dos impulsos, fer oestudo de mecinismos individualizados, Psicoterapia exstencial Para melhor configurar seu distanciamento dos principios existencialis- tas, May coloca, na seqiiéneia: “..) Parece que existe a seguinte lei em ati- Vidacle: quanto mais acurada e pormenorizadamente pudermos descrever tum dado mecanismo, tanto mais perdemos de vista a pessoa existente”. May, fiel a seus prinefpios psicanaliticos de “causa e efeito”, nos quais 4 existencia 6 totalmente explicada a partir de fatos ocorridos no passado — essa posigdo é totalmente antagénica aos prinespios existencialistas, que desprezam 0 “nexo causal” determinista, que lega ao passado a ocorrén- cia dos falos presentes -, prossegue em sua aventura existencial termo repressdo, como outro exemplo, obviamente refere-se a um fend ‘meno que observamos a todo instante, um dinamismo que Freud clara- mente, ¢ de muitas formas, descreveu. © mecanismo é, em geral, expli- caddo ao dizerse que a crianga reprime no inconsciente certos impulsos, {ais como sexo ¢ hostilidade, porque a cultura, na forma das figuras do pai ou da mae, reprova-as"* Os existencialistas negam a nogio de inconsciente, alias, como todos 0 termos utilizados pela metapsicologia freudiana, Ora, nesse sentido, lum autor que se propde ser existeneialista tem de compreender o homem ‘partir da existéncia, e nao da Hidréulica ~ atente-e que os termos utili- zados por May séo psicanaliticos no sentido pleno da teoria A propria nogao de “causa e efeito”, totalmente desprezada pelos exis- tencialistas, € enfatizada por May como sendo o elo entre suas idéias e os 1eurdtica, ansio- © certamente o pressupostos existencialistas: “(..) Certamente, a crian sa, esté compu adulto neurético, e nés que o estudamos registramos nossas formulagdes posteriores dentro da mente sem suspeitas da crianga. Mas nfo é a crian- to interessada em mover-se no mundo, te preocupada com a seg Ga normal a que justamente es explorislo, seguir sua curiosidade e senso de aventura ~ sair para ‘aprer der a temer e balangar’, como diz 0 verso da histéria infantil? Eu, por atizado a preocupagio do ser humano ieredito que temos supe isfagdes de sobrevivéncia, porque elas combin coma seguranga ¢ ass tio bem com o nosso pensar em eausa-e-efeito”’, May eh las en fa mesmo so extrem de afirmar que os pressupostos exist Hn que o ‘mecanismo tem significado em fungao da pessoa”. Ele é livros, e muitos académicos, ao procurar por leituras existeneialist, slo ator de varios atirados inadvertidame Valdemar Augusto Angerami —Camon Victor Emanuel Frank! Victor Frankl é autor de vérios livos e, apesar de sua obra ser identificada como Psicoterapia Existencial, o método por cle proposto, na realidade, toca apenas tangencialmente 0 pensimento existencialista, Ele & considerado por alguns como um existencialista que, ao contrério dos demais cxistenci listas europeus, ndo é pessimista em suas idias. De fato, se for incluido no rol dos existencialistas, serd colocado na convergéncia dos existencialistas que inclufam Deus em suas reflexdes, Frankl faz uma convergéncia em sua obra, trazendo Deus para a refle- x40 € compreensio do homem. Deus € visto como sendo 0 “inconscien- te” em sua manifestagio mais suprema. Apesar dessas divergéncias, na verdade, Frankl foi um dos autores que mais esereveram sobre a temstica do “sentido de vida”, sendo que sua obra foi enredada a partir de sua experiéncia como prisioneiro de guerra, quando no campo de concentra- Ho refletiu sobre o “sentido de vida” num contraponto diteto com a pers- pectiva da morte. Ele é admirado principalmente pelos terapeutas que procuram unificar as crengas misticas com a pratica psicoterdpica, A prépria convergéncia que faz de alguns coneeitos psicanalitieos em sua obra toma-se iné- cua diante da importincia dada por ele & abstragao arbitrariamente imag: nada do “inconsciente” como manifestagdo divina. Frank! € eriador da “logoterapia”, afirmando que andlise existencialé e ogoterapia stio a mesma coisa: “Pode-se, pois, dizer que a Andlise Exis- tencial vai além de uma simples andlise, sendo também terapia e preci samente logoterapia, no que difere da anélise da existencia, a qual — segundo as definigdes dos seus pensadores de maior projegao — em si e o tal ndo chega a ser (Psico)terapia no verdadeiro sentido do termo. clit, ‘logos’ significa sentido, e logoterapia 6, portanto, wma psico- terapia baseada no sentido que di ao paciente uma nova orientagio”” Ampliou 0 conceito de inconsciente através do “inconsciente espiri- tual", tentando provar a tanseendentalidade da conse neia, Segundo Psicoterapia existencial Fim sua ampliagao da nogio de inconsciente, Frankl tentou mostrar que nl hé apenas um inconsciente impulsivo, mas, principalmente, um inconsciente espiritual, A Dra. Izar Xausa, grande estudiosa da obra de Victor Frankl, assim 0 define: 1ds perguntamos: Afinal, quem é Vietor Frankl? O prisioneiro 119.104, 0 psicdlogo méttir que softeu as injtirias dos campos de concentragao, a ponto de nem ele mesmo conseguir com- preender como foi capaz de sobreviver a prisio, ¢ tomou-se o psicélogo dda redengao humana. Libertado da degradago do confinamento, fala na ‘deliciosa sensagdo de perceber que nada no mundo se tem a recear a nio ser set Deus’. Tornou-se um dos maiores cientistas contemporaneos, um «dos grandes humanistas da atualidade e o salmista do século XX. Sentint profundamente a dor do povo de Israel e clamou o de profundis dos abis- mos em que se achava no campo de concentragio; sempre digno e sem \emor, atravesson a senda do Vale da Morte, soube sofrer, perdoar, ven- cor ¢ entoar tanto no martirio como na gléria. ‘Shemma Ysrael”®, Ludwig Binswanger Binswanger 6, na realidade, juntamente com Jaspers, o iniciador da cha- mada “Psiquiatria Existencial”. Graduado em Zurique e tendo estudado com Garl Gustav Jung, refletin sobre a obra de Freud e 0 proprio movi- mento psicanalitico em seu inicio, Ao encontrar a obra de Heidegger, compreendeu que o pensamento existencialista oferecia os subsidios necessérios para a sia pritica psiquistrica, Rim 1933, publica sen primei- ro trabalho, mostrando, desde o inicio, um certo distanciamento das idéias de Heidegger, convergindo para id€ias brithantes segundo os estsdiosos da emitica, Tal fato provocou criticas do proprio Heidegger e também de Medard Boss ~ psiquiatta que se manteve fiel as ideas heideggerianas. A\ partir de uma ampla cultura ¢ um rico conhecimento da nature humana, Binswanger reuniu em sua obra a experiencia pritica ea expects luglio tedrica num yoo de rasgos brlhantes. isso apesar de sta linguuagem ite dificil para os nto familiarizalos como p No entanto, Binswanger nito se distaneion totalmente das idéias psicunall 7 Valdemar Augusto Angerami ~ Camon ticas em seus trabalhos, fato este que dé & sua obra um caréter bastante débio na medida em que sua anise, ao mesmo tempo que nos remete 20 encontto de fendmenos como a liberdade existencial, também refere-se aos aspectos latentes e as possfveis energias existentes supostamente atras dos fendmenos. Esse aspecto confere a Binswanger grande aceitagio nos meios psicanaliticos na medida em que, ao propor um novo método de compreensio do homem, nao se distancia de forma antagénica tampouco critica os principios freudianos, A contribuigao de Binswanger & preciosa 4 humanizagio da Psiquia- tria, pois, a partir de suas ideias, pode-se caracterizar a transeendéncia do “doente” em sua individualidade e nos aspectos de linguagem ¢ de distan- ciamento propriamente ditos dos objetos e coisas do mundo. José Paulo Giovanetti, por ocasiao do I Encontro Brasileiro de Anélise Existencial Terapéutica, realizado no Rio de Janeiro em junho de 1989, proferit: uma conferéncia sobre Binswanger, posteriormente publicada?, da qual reproduzimos alguns trechos: “(.0) Encontrar tim caminho novo para a Psiquiatria de sua época, tal maa tarefa de Binswanger. Foi por isso que dedicou uma grande parte de seu tempo ao estudo da Filosofia, Ele caracterizou a Psiquiatria de sta época como uma ciéncia que se encontrava diante de trés vias, as quais nio poderiam darlhe um estatuto cienlifico. Existem, na psiquiatria atual (de seu tempo ¢ ainda hoje), trés caminhos pelos quais chegaremos a unidades que merecem, a mais ou menos justo titulo, o nome de uni- dade de doenga. O primeiro caminho segue 0 método naturalist Acesséncia da doenca é apreendida no momento em que nés detectamos as manifestagées anormais, de tal sorte que elas expdem um proceso bio- légico determinado, no qual conseguimos perceber 0 comego, 0 desen- volvimento ¢ o fim, Dentro dessa perspectiva, as doengas mentais stio doengas do eérebro. O segundo caminho & aquele que utiliza a explica- «0 psicobiolégica: a esséneia da doenga residiria na predisposicdo do organismo psiquico, predisposigao que até o presente nao foi clucidada. Dessa maneira, a esséneia da doenga € coneebida como alguma coisa que estd fora da personalidade: é a perspectiva da sindrome. O terceiro eaminho é a tentativa de explicar a doenga a partir de trans- formagd as da personalidade, isto 6, 0 modo pelo qual a personali- dadle clabora psicologicamente certas experiéncias vividas no seu percurso histérieo, Aqui reina © modo de observagio puramente psicolégico. Esse i infra-estrutura 6 tipo de abordagem consti m eptual a partir da qual s@ poclem explicar todas as ages das pessoas. 'Todavia, para Binswanger, ess caminho é também um caminho do exterior, como os dois outros anterio- res, que buscam compreender a dimensio psicopatoligica do homes como alguma coisa que ver do exterior ao organismo, sendo o psiquismo normal, Para Binswanger, essa perspectiva nao capta a esséncia da doenga”. Quando esereven sobre a situacdo critica da Psiquiatria, em 1920, cr tinha diante de si o modelo de Psicanalise que trazia outra luz ria pessoal de cada Binsw: para a Psiquiatria, explicando a doenga a partir da tum, Ele o fez, enti, inspirado na Psicandlise, para a qual a doenga nfio & alguma coisa estranha 8 pessoa, pois nao se pode perder de vista todo da petsonalidade, devendose, assim, compreender a doenga dentro de um fluxo continno da vida, Com 0 aparecimento do livro Sein und Zeit (Sere Tempo) de Heidegger, em 1927, Binswanger vishumbrou um novo caminho para a Psiquiatria, Aparecia, diante dele, a nova direcio da pesquisa antropol6gica na Psiquiatria, que nao quer reduzir o homem a categorias biolégico-naturalis n a categorias tiradas das ciéncias do espirito, mas compreendé-lo a partir do seu ser mais intimo ~ 0 humano ~ e descrever as direcées funda- Ientais desse Ser: “A doenga mental 6 retirada do campo siraplesment hatural, ¢ também retirada do campo de um assunto mental, para ser com preendida e descrita a partir das possbilidades originais do ser home”, A obra de Binswanger é relativamente extensa, fato que Ihe confere {grande destaque entre os pensadores existencialista, pois, além de ele ser lum dos iniciadores do movimento existencial no campo da psiquiatria, sum obra € ponteada por momentos brilhantes. Medard Boss Boss é um dos autores exponenciais da atualidade. “Tendo estudado Medi- “Zurique, foi em seguida para Viena, onde cursou Psicanslise com Fiend, com quem fez. sua anzlise didatiea, Continuou 0 estudo em Londres com Emest Jones e, em Berlim, com Karen Horney, Fenichel, Schulz-Henkel e Wilhelm Reich, A partir de 1939, trabalhou durante 10 ‘anos com Jung na Universidade de Zurique”™ 108 Posteriormente, por causa de uma amizade com Martin Heidegger, aproximou-se da Fenomenologia Existencial, Boss é autor de uma vasta ‘obra em que apresenta os fundamentos existenciais num contraponto com os métodos e modelos de compreensio do homem. Boss 6 considerado por muitos “mais heideggeriano que o proprio Heidegger”. Em suas andlises, cle nao admite outra forma de anélise além dda descrita por Heidegger. Nesse sentido, em sua obra encontramos eriti- cas a Freud, Marx, Sartre, Binswanger etc, Enfim, sua éptica nao admite nada que se distancie, ainda que tangencialmente, da proposta do filésofo alemio, ao contrério dos autores sartreanos, que procuram uma conver- géncia com a filosofia marxista Boss 6 criticado por alguns e até por Seguin!2 por negar a armagiio teé- rica da Psicanélise, substituindo-a por conceitos existenciais, mantendo, contudo, sua estruturacdo em termos de pritica psicoterspica, a despeito de negar a base cientifico-natural em que essa ¢ estruturada. E, apesar de todas as celeumas que 0 cercam, Boss é seguramente um dos principais responsiveis pela divulgacda do pensamento existencial no campo da Psiquiatria e da Psicoterapia. J. H. Van Den Berg ‘Van Den Berg é um psiquiatra holandes de bastante projegio entre os cexistencialistas contempordineos. Sua obra é reduzida, se comparada a de ‘outros pensadores, mas extremamente rica na andlise realizada sob a 6pti- ca fenomenoldgica no campo da Psiquiatia. Van Den Berg critica de maneira aguda os conceitos vigentes na Psiquiatria, bem como a estruturacdo freudiana. Sua andlise, no entanto, ao contratio de outros existencialistas, éfeita numa estruturagio arquite- tonica de comparagio direta entre a proposta fenomenolégica e os con- ceitos da Psiquiatria, hermeticamente fechados. 'Trata-se de um antor cuja leitura € imprescindivel a todos que se interessam pelo pensamento existencial fenomenolégico. Van Den Berg mantémse fiel 4 proposta de Husserl e & convergéncia da obra existencial para 0 campo psiquistrico realizada por Binswanger. A obra de Van Den Berg é bastante clara e constrita, tomande-se fér- til nas explanacdes permitidas a partir da. sua estruturagao filoséfica Ao contratio dos existencialistas estadunidenses, que dizem que seus 109 Psicoterapia existencial pares curopcus so extremamente poéticos ¢ nada cientificos (¢, isso vimos anteriormente, apesar do distanciamento em que os estaduniden- ses se encontram dos pressuposlos existencialistas), Van Den Berg con- trapde-se a essa visio apresentando nuances poéticas mas mantendo a coeréncia da explanagio de modo bastante claro e indissoltivel; num contraponto as criticas do estilo existencialista e até mesmo a visio dos positivistas e behavioristas. Eis um trecho de sua obra em que, apés a descrigio de caso, Van Den Berg realiza esse pareamento: “O psicélogo positivista ou behaviorista, imbuido de ciéncia fisia, iré dizer que tudo isso é pura poesia. Ele me explicard que, na verdade, eu vi uma garrafa de vinho, com um rétulo etc., mas que eu adorei essa observagao com assuntos que ndo Ihe dizem respeito. Eu contaminei a observagio ‘mediante a projegao de uma condigio, ou seja, a condigio de estar desa- pontado e solitirio, Posso responder a isso com o seguinte comentario: ha projecio que eu estava vendo, nao teria eu observado se fosse tninha solido mais distintamente, menos adulterada, com mais realida- de ¢ mais diretamente, se eu livesse perguntado como me sentia, ndo a garrafa mas a mim mesmo? A introspecgao me teria mostrado como me sentia. Pois bem, parece {que nilo € assim. Sempre que pergunto a mim mesmo, pela introspecgo, como me sinto, em vez de obler uma compreensio mais refinada da minha solidao, eu obtenho uma compreensio menos clara. Pior ainda: se u procuro, pela introspeccdo ~ isto é, deixando de lado tudo 0 que esti fora de mim -, concentrar-me na investigago dos meus sentimentos, Cento, nfo sei o que fazer. Sinto-me de pé diante de um muro impene- Indvel. Cada esforgo que fago para concentrar-me no meu pura intimo resulta na tomada de consciéneia do meu ambiente: 0 quarto, 0 fogo, a garrafa e, dentro de tudo isso, 0 meu amigo ausente”! Nesse simples trecho, fica bastante evidente a forma como Van Den Berg analisa a estruturagao de um caso a partir da éptica fenomenol6gi- de modo a rechagar 6 positivismo cientifico com uma linguagem que, 10 tempo que é precisa e constita, também apresenta rasgos de hho assim, Van Den Berg, descreve a ao mes) beleza e harmonia, Num outro tr situagilo do “estar-doente”: “Quem asi tc, mais do que qualquer outra pessoa, 0 paciente psiquidtrico. O paciente deprimi do descreve um mundo que se tomou eseuro e sinisto, As flores perde ram a cot, 0501 perdew o brilho, tudo parece sombrio e morta” Valdemar Augusto Angerami—Camon Ronald Laing Laing é, seguramente, um dos mais importantes autores que trabul ara na convergéncia dos pressupostos existencialistas para o campo dia Psiquiatria e da Psicoterapia. Sua importancia nao reside apenas nesse ponto, Uma de suas obras, Razdo e Violéneia ~ Uma Década da Filosofia de Sartre,'5 escrita conjuntamente com D. G. Cooper's, é prefaciada pelo proprio Sartre. Essa obra, inclusive, € um dos marcos iniciais do movimento denominado “antipsiquiatria”. A parti das reflexdes sartrea- nas, Laing e Cooper consirufram uum método de compreensaio da existén- cia que colocou por terra todos os pressupostos da psiquiatria tradicional. A propagagdo da “antipsiquiatria foi de tamanho vulto que em todos os cantos do mundo seu eco foi eclodido com uma repercussio sequer tan givel pela razao”. O proprio Sartre, a0 analisar a obra de Laing e Cooper, colocou que ela certamente levaria ao surgimento de uma psiquiatria humana: “Mais ainda, que na perfeita compreensio de La Critique de la Raison Dialectique, o que me encantou, tanto neste ivto como nas suas obras anteriores, foi a cons- tante preocupagao de realizar um approach ‘existencial’ dos doentes men tais. Também eu julgo que nao se pode compreender as pertutbacdes pst quicas do exterior a partir do determinismo positivsta, nem reconstrutlas sgracas a uma combinacdo que permanega estranha a doenga. (..) Por esta razio, tenho no mais alto aprego as suas pesquisas, em especial o estudlo do ‘meio familiar considerado em grupo e em série, ¢ estou conwvicto de que seus esforgos contribuem para acelerar a aproximagao do tempo em que a Psiquiatria ser, finalmente, humana”!” Nessa obra, Laing ¢ Cooper realizaram um estuclo intensivo de tres obras de Sartre, Saint Genet, Camédien et Martyr; Questions de Méthode e Gritigue de la Raison Dialectique. Ba partir da propria evolugio da obra sartreana e do entretecimento que Sartre faz do existeneialismo com o mar- xisino, a psiquiatria recebeu uma das contribuigdes mais importantes em seu processo de humanizagao. A unidio desses dois posicionamentos flosé- ficos faz.com que a verdadeira libertagio humana possa se desvencilhar do comprometimento politico da psiquiatria tradicional — um determinante “Sartre afirma e apéia vigorosamente, com impressionante argumentagio, « ponto de vist de opressito e alienagao sock de que 0 marsismo é a Linica filosofia possivel na nossa época, passando entilo a examina sts posigdes epistemolégicas fundamentais e também tipos especificos de ‘andlise de situagio’ concreta, feita por escritores ou pseudomarsistas Realiza assim a crit onstra como este passou por cerlas deformagées no pensamento mecani- Cista ¢ idealista e como soffeu uma esclerose metodolégica. Mas isto esti Jonge do revisionismo, O revisionism, segundo Sartre, € uma reversi0 a0 pré-marxismo e, porlanto, insustentivel”, Esse modo de compreenisio da texisténcia no qual a pessoa é inserida numa razo social e politica, conere- tizando a real dimenso humana, converge para a propulsfo de transforma- ilo da propria sociedade. “O homem é um organismo pritico com uma multiplicidade de organismos similares mum campo de escassez. Mas esta escassez é uma forca negativa que define cada homem e cada multiplici- dade parcial como realidades humanas ¢ inumanas 20 mesmo tempo. Gada individuo, por exemplo, na medida em que se arrisea a consumir um produto de primeira necessidade para mim (¢ para todos os outzos), artis cibse a tomarse um excedente. Na medida em que € minha repeticio, ele coloca minha vida em perigo; tornase entfo inumano na medida em que um homem. A minha espécie tomas alienigena”, A obra de Laing, bem como o posicionamento de Sartre diante dos desafios contemporaneos, silo sustenticulos do esteio existencialista no campo da Psicoterapia. Laing é um autor que sempre se caracterizou por ‘uma preocupago constante da insergio do homem em uma realidade social, fato que dé uma coneretude bastante sélida as suas reflexes. a de uma confirmagao radical do marxismo, De- Notas 1, May, RO Surgimento da Psicologia Existencial, in Psicologia Exis toncial. Op. cit. 2, Idem, ibidem 3, Psicologia Existencial. Op. cit 4, Idem, ibidem, p. 21 5 Idem, ibidem, p. 17. (O grifo é nosso.) 6, Frank! faz: uma dlferenciagdo entre “andlise existencial” (Hxistencanalyse) a “anilise da existencia” (Daseinsanalyse), colocando que a “anlise exis tencial fiz uma tentativa ousida de aclaramento do sentido, de mado que ‘acento se desloca do aelaramento dos modos de ser para os day possibi Valdemar Augusto Angerami— Camon 7. Frankl, V. E. A Psicoterapia na Prdtica. Si0 Paulo: EPU, 1976, p. 43 8. Xausa, I. A. M. Viktor Frankl: Um Psicélogo no Campo de Concer tracio, in Separata da Revista Psico do Instituto de Psicologia da PUCRS, v. 6, n. 2, p. 95-115. Porto Alegre, julJlez. 83. 9. Giovanett, J. P, O Existir Hamano na Obra de Ludwig Binswanger, in SINTESE — Revista Trimestral da Faculdade de Filosofia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (BH). 10. Idem, ibidem. 11. Bssa citagao foi extraida do livro Angistia, Culpa e Libertagao. Op. cit 12, Existencialismo & Psicoterapia. Op. cit, p. 104, 13. Van Den Berg, J. H. O Paciente Psiquidtrico ~ Esbogo de Psico patologia Fenomenolégica. Sao Paulo: Mestre Jou, 1981, p. 37. 14. Idem, ibidem. p. 47 15. Laing, R. D. ¢ Cooper, D. G. Razdo e Violéncia ~ Uma Década da Filosofia de Sartre, Petrépolis: Vozes, 1976. 16, Existe alguma controvérsia quanto a inelusto de Cooper entre os auto tes existencialistas. Apesar de sta obra principal Razdo e Violéncia ter sido prefaciada pelo proprio Sartre, alguns consideram-no um autor com tendéncias psicanaliticas que fez. um hiato Na verdade, a trajetéria de Cooper é bastante polémica e contradité- ria, e sua importineia maior reside em ser, com Laing, um dos precut- sores do movimento denominado “antipsiquiatria’ 17. Idem, ibidem, p. 7. 18, Idem, ibidem, p. 21. 19, Idem, ibidem, p. 120. lencial nessa obra, 7 Perspectivas da psicoterapia existencial A coisificagao imposta ao campo da Psicoterapia ¢ da Psicologia mostra 0 tecnicismo prevalecendo sobre a propria razo. Numa simples consul- ta As denominagdes das teses académicas das nossas prineipais tniversida- des, vamos encontrar tum sem-ntimero de trabalhos que conferiram a seus autores os mais distintos titulos universitérios e que sao, na sua grande maioria, experimentos realizados com animais, numa v4 tentativa de extrapolacéo do comportamento humano, Nesse sentido, a perspectiva do pensamento existencial & soberana para o resgate da compreensio da condigo humana apenas tdo-somente a aspectos a ela inerentes. NZo aceita tampouco admite nada que nao seja a existéncia humana como contraponto de suas analises. Também nfo aceita um enredamento a par- lir de principios da Hidréulica, Mecanica e outras ciéncias para entender sv abrangéneia do homem, ‘A grande barteira enfientada pela Psicoterapia Existencial € 0 ostracismo legado aos seus pressupostos nas lides académicas de Psicologia. A maioria «dos cursos de formagio de Psicologia e Psicoterapia sequer mostra-na como tuna altemnativa vidvel na pratica psicoterpica. E, quando o fazem, o que & aincla mais dristico, apresentam obras de autores que, apesar de serem con- siderados exist 2s, em nada justificam tal conceituagao. No entanto, a0 levarse em conta as dificuldades encontradas ¢ até 1s colocadas pelos pensadores de outras correntes e a per= formance apresentada pela Psicoterapia Existencial, uma coisa tomase indissoliivel: seu espago, em breve, s pela propria necessidade de hu conquistado dle modo estupendo nizagho da Psicaterapia, Psicoterapia ex'stencial Inegavelmente, de outra parte, se de um lado assistimos ao crescimen- to dos titulos académicos que se utilizam de experimentos realizados com aanimais, de outro, igualmente, vemos crescer o ntimero de trabalhos rea- lizados sob a éptica do pensamento existeneial. E isso, sem sombra de diivida, confere ao pensamento existencial uma performance de vanguar- di na busca de compreensio de ternaticas como morte, felicidade, angtis- tia ete, Outro aspecto igualmente importante € 0 surgimento, nos mais dliversos cantos do pais, de grupos que se procuram e se afinam na tenta- tiva de melhor compreensio do pensamento existencial. Fsses grupos se fomentam ¢, de alguma forma, fazem com que 0 pensamento existencial ‘udquira novos contomos diante de uma reflesao. Também ¢ fato que a Psicoterapia Existencial jamais conseguira reu- hir tantos adeptos como outras comrentes em Psicoterapia, O simples fato de propor uma compreensio da existéncia de forma tinica, desrevestindo- se de amarras tedricas de padronizacio e generalizagto, faz. com que seja deixada ao ostracismo, principalmente numa sociedade tecnocrata na qual, como fizemos referencia hif pouco, muitos trabalhos so realizados 41 partir do comportamento de animais. Aceitar eada pessoa como sendo Uinica sem nenhuma teoria aprioristica a explicar-Ihe o softimento e os desatinos existenciais, seguramente, é uma proposta muito dificil de ser accita num mundo padronizado ¢ até mesmo robotizado. Dessa forma, ‘ilo hi como querer que a Psicoterapia Existencial tenha plena aceitagao, pela simples recusa que faz de qualquer tipo de generalizacao e extrapo- lagio. A Psicoterapia Existencial 6 muito mais um trabalho artesanal em {que 0 encontro terapéutico ganha esplendor do que qualquer conceit gilo que se faga a outras correntes psicoterdpicas. Embora possa parecer mero e simples pedantismo um autor que exereve sobre Paicoterapia Existencial a psicoterapeutas poderdo adotar esses eaminhos, ainda assim tal afirmagio mostrase verdadeira na medida em q «técnica como uma maneira de assegurarse contra per mar que apenas alguns poucos © as pessoas cada ver n algos surgidos ao Jongo do caminho. Cada vez mais sio desprezados os eaminhos que no oplam pelo tecnicismo e pela sisematizagio dos padres de anilise ¢ con du as. A Psicoterapia Kxisteneial é construtda de maneita nova i cada momento ¢ em cada enconteo terapeutico; ela é sedimentada na ver ye da paixio, © » dade que ¢ 6 eatribada no pulsar do coragao, jamais na generalizagio de eomporla mentos obtidos cientificamente de ratos e pombos engaiolados; ela 6 sus- tentada pelo choro chorado pela alma humana, e nao pelos mecanismos em atrito de alguma possivel maquina, A Psicoterapia Existencial 6 uma arte destinada a poucos artesios que, acima de qualquer razio, tém clara a dificuldade de enveredar por caminhos antagénicos aos preceitos con- siderados pralieamente oficiais no campo da Psicoterapia. Ndo é, nem serd jamais, uma pratica sistematizada com preceitos € normas delimita- dos formalmente.