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Editor de Rich Text, editor-inputEl bups:/sapiens agu.gov.br/editor?d~64255658 @ ADVOCACIA-GERAL DA UNIAO CONSULTORIA-GERAL DA UNIAO ASSESSORIA JURIDICA JUNTO A SECRETARIA DE PORTOS GABINETE 6390699 ts {WAGU NUP: 00045.000657/2016-26 INTERESSADOS: SINTRAPORT - SINDICATO DOS OPERARIOS E TRABALHADORES PORTUARIOS EM GERAL NAS ADMINISTRAGOES DOS PORTOS E TERMINAIS PRIVATIVOS F. RETROPORTOS DO ESTADO DO PARANA, ASSUNTOS: Consulta, Possibilidade de terceirizagao de atividades de seguranga e vigilincia no ambit dos portos organizados. EMENTA: CONSULTA. PORTOS ORGANIZADOS. GUARDA PORTUARIA ATIVIDADES DE VIGILANCIA E SEGURANCA. POSSIBILIDADE DE TERCEIRIZAGAO. 1. As guardas porturias so unidades subordinadas as adminstraes dos. portos organizados, cvja organizagio e fungdes sto definidas por rexulamento do poder concedente (art. 17, § 1°, XV, da Lein® 12815, de 2013) 1 As quardas portuarias nto sto érgios de seguranga public, embora possam exercer atividades de vgilancia eseguranga patrimonial ede pessoas em cariterprivado. IIL, A terceirizagdo de atividades de vigilincia e segurangs pelas empresas incumbidas da adminisragdo dos portos é ume questo estritamente trabalhista e que nao diz respeito ao poder concedente, a menos que implique alguma violago ao regulamento do art 17, §1%, XV, da Lein? 12.815, de 2013 1. O Chefe de Gabinete da Secretaria Executiva solicitou manifestagao desta Assessoria Juridica sobre pedido formulado pelo Sindicato dos Trabalhadores Empregados na Administragdo © nos Servigos de Capatazia dos Portos, Terminais Privativos e Retro-Portuarios no Estado do Parana ~ SINTRAPORT no sentido.) de determinar que a Administragio dos Portos de Paranagud e Antonina ~ APPA se abstenha de terceirizar \ atividades proprias da Guarda Portuaria. \ 2. pedido do SINTRAPORT foi inicialmente dirigido a Advocacia-Geral da Unido - AGU, a Ide 12 26102/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-inputEl hutps:/sapiens.agu.gov:br/editor?d=6425565&c~6390699 fim de que determinasse Secretaria de Portos da Presidéncia da Repiblica ~ SEP/PR e & APPA que se abstivessem de terceirizar as atividades das Guardas Portuarias dos portos de Paranagua e Antonina, 3. Como explicou o Advogado-Geral da Unio substituto em seu Oficio n° 1S/AGU, por nao ter a AGU qualquer ascendéncia sobre a SEP/PR € considerando que a orientagao juridica a ser prestada as autoridades da SEP/PR é de competéncia desta Assessoria Juridica, na condigdo de dro de execugio da pripria 1,0 pedido formulado pelo SINTRAPORT foi encaminhado a Secretaria de Portos para a adogdo das providéncias que sejam consideradas cabiveis. Advocacia-Geral da U1 4. Em seguida, 0 Chefe de Gabinete da Secretaria Executiva solicitou manifestagdo desta Assessoria Juridica sobre o pedido formulado pelo SINTRAPORT 5. Eo relatorio. 6. Ainda durante 0 chamado “governo provisério”, chefiado por Getilio Vargas, resultado da Revolugao que deu fim ao periodo denominado Repiiblica Velha, foi editado o Decreto n° 24.447, de 22 de junho de 1934, que criow 0 conceito de “porto organizado”. Em seu art. 8°, 0 Decreto n° 24.447, de 1934[1], estabeleceu que a “policia interna das instalagdes portuérias” competiria as administragées dos portos, que deveriam manter “corpos de guardas necessérios”, cujas atribuigdes seriam definidas nos regulamentos do tréfego dos portos, aprovados por decreto do governo. 7. A denominagao que em seu art. 6 estabeleceu o se swarda portuaria” surgiu com 0 Decreto-Lei n® 3, de 27 de janeiro de 1966, it Art 9° As guardas portuirias, como forgas de policiamento, ficam subordinadas aos Capitaes dos Portos, vedada aos seus imegrantes toda e qualquer vinculagéo ou atividade de cardter sindical § I" Ao concessiondrio caberd a responsabilidade de rotina na esealagdo, emprego e ‘movimentagao do pessoal da guard § 2°A Guarda Portuéria continuard sendo paga pelos concessiondrios, devendo, para tanto, » Departamento Nacional de Portos ¢ Vias Navegdveis, no caileulo das tarifas, prever os necesséirios recursos. 8. Portanto, a legislagao mais antiga, especialmente 0 Decreto n? 24.447, de 1934, © 0 Decreto-Lei n’ 3, de 1966, tratava a guarda portuiria como uma “forga policial”. E importante ressalvar, porém, que 0 termo “policia” € polissémico. Num sentido mais geral, a policia é a atividade encarregada de evitar a 4 violago da ordem juridica, englobando a policia administrativa e a policia de seguranca. Por sua vez, a polic de seguranca se subdivide em: policia ostensiva, que busca evitar danos e perigos que possam ser causados iis pessoas (ou ao seu patriménio); e policia judicidria, que se dedica a investigar ¢ apurar crimes, fornecendo a0 Ministério Pablico elementos necessirios & represstio de condutas criminosas[2]. A esse respeito, vale 2de 12 26102/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-inputEl hups://sapiens.agu.gov:br/editor?d~64255658c~6390699 transcrever o seguinte trecho da obra de José Afonso da Silva: Judiciéria. A policia administrativa tem “por objeto as limitagoes impostas a bens Jwridicos individuais” (liberdade e propriedade). A policia de seguranga que, em sentido estrito, &a policia ostensiva tem por objetivo a preservagao da ordem piblica « ‘Pols, “as medidas preventivas que em sua prudéncia julga necessérias para evitar 0 dano ow o perigo para as pessoas”. Mas, apesar de toda vigildncia, nao & possivel ‘evitar 0 crime, sendo pois necesséria a existéncia de um sistema que apure os fatos delituosos e cuide da perseguigio aos seus agentes. Esse sistema envolve as atividades de investigagdo, de apuragao de infragdes pena, a indicagao de sua autoria, assim como 0 processo judicial pertinente i punicdo do agente. E ai que entra a policia Judicidria, que tom por objetivo precisamente aquelas atividades de investigagdo, de apuracao das infrasdes penais ¢ de indicacdo de sua aoria, a fim de fornecer os elementos necessirios ao Minstério Piiblico em sua funcdo repressiva das condutas criminosas, por via de agdo penal piblicaf3. 9, Diferentemente das Constituigées que Ihe precederam, a Constituigo de 1988 tratou dos, ‘rgiios de seguranga pblica com maior detalhamento, Em seu art. 144, a Constituigdo estabeleceu os seguintes orgiios de seguranga piblica definiu suas atribuigdes: (i) policia federal; (ii) policia rodoviaria federal; (ii) policia ferrovisria federal; (iv) policias civis; e (v) policias militares e corpos de bombeiros militares. 10, Essas seriam as forgas policiais de seguranga publica que exercem, respeitadas as competéncias de cada uma, as fungdes de policia ostensiva e de policia judiciéria, Portanto, as guardas portuarias no podem ser, no atual regime constitucional, um érgdo de seguranga piblica em sentido estrito. Neste ponto, vale mencionar que 0 Supremo Tribunal Federal, na ADI n? 236 (1992), julgou inconstitucional norma da Constituiglo do Estado do Rio de Janeiro que havia estabelecido uma “policia penitenciéria” com fungdo de “vigikincia intramuros” nos presidios fluminenses, por entender que o rol de érgfios de seguranga pibblica previsto no art. 144 da Constituigdo federal é exaustivo. 11. Isso nio quer dizer que os portos brasileiros estejam alheios ao sistema de seguranga piblica instituido pelo constituinte de 1988. Claro que ndio. Mas apenas que as atividades policiais, tanto de policiamento ostensivo como de policia judiciéria, serio exercidas no Ambito dos portos pelos drgios de seguranga pablica previstos pela Constituigio, de acordo com as suas respectivas competéncias. 12. No que interessa a consulta formulada a esta Assessoria Juridica, & importante considerar que, de acordo com o § 1° do art. 144 da Constituigo[4), a Policia Federal exerce nao apenas as fungées de policia judiciéri da Unidio, mas também algumas atividades de policia ostensiva. Nesse sentido, 0 inciso III do § 1° do art. 144 da Constituigdo atribui a Policia Federal as atividades de “policia maritim: yeroportuaria © de fronteiras”. 13. A definigdo e a abrangéncia da atividade de policia maritima esto descritas no art. 1° da 3de 12 26/02/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-inputEl bttps://sapiens.agu.gov.br/editor?d=64255658&c=6390699 Instrugo Normativa n° 2, de 5 de agosto de 1999, do Departamento de Policia Federal Art. 1° Considera-se Policia Maritima a atividade de competéncia privativa do Departamento de Policia Federal, exercida por seus servidores polictais, em dmbito nacional, pelo SERVICO POLICIA MARITIMA, AEROPORTUARIA E DE FRONTEIRAS da DPMAF e, regionalmente, por intermédio de suas Unidades de Policia Maritima, com atuagdo nos portos ¢ mar territorial brasileiro, objetivando principalmente a prevencao ¢ a repressdo aos ilicites praticados a bordo, contra ou em relagio a embarcagdes na costa brasileira e, a fiscalizagdo do fluco migratério no Brasil (entrada e saida de pessoas), sem prejuizo da prevenedo e repressdo aos demais ilicitos de competincia do DPF, inclusive estendendo-se além do limite territorial, quando se fzer necessério e observadas as normas especificas da Marinha do Brasil. Pardgrafo tinico. Além do disposto no Caput deste artigo, compreendem atividades de Policia Maritima as providéncias ow medidas que devam ser implementadas nos portos, terminais e vias navegiveis, objetivando manter a seguranga, quando ndo constituam atribuigdes especificas das Policias Civil, Militar ou Forgas Armadas. 14, Portanto, compete a Policia Federal a prevengao ¢ a repressao a ilicitos praticados a bordo, contra ou em relagao a embarcagdes na costa brasileira e a fiscalizagao do fluxo migratério no Brasil, além da de entorpecentes ¢ drogas afins, prevengdo e repressio a outros ilicitos de sua competéncia, como 0 trafico il © contrabando ¢ o descaminho. 15, Claro que, nos portos, podem ser praticados diversos tipos de delitos comuns que nao se relacionam especificamente ao transporte naval de pessoas ou bens. Ressalvadas as competéncias especificas da Policia Federal ou de outros érgiios de seguranca, o policiamento ostensivo e a preservacaio da ordem piblica nos igdo(5) portos organizados caberiam as policias militares estaduais, nos termos do § 5° do art. 144 da Con: 16, Nao vejo uma distingdo essencial entre a atividade de seguranga publica desempenhada em portos © em aeroportos, ainda que cada contexto tenha suas proprias peculiaridades no que diz. respeito a seguranga. Quero dizer com isso que, tanto no ambito portuério como no aeroportuario, diversos érgios policiais atuam, cada um de acordo com suas atribuigdes préprias, para garantir a incolumidade de pessoas e bens, sem que haja um érgdo policial especifico para esse desiderato 17. Portanto, a guarda portuaria nao é um érgao de seguranga piblica, pois nao esté elencada no art. 144 da Constituigao, Vale mencionar inclusive que hi uma Proposta de Emenda Constitucional em tramitagdo no Congresso para criar uma “policia portudria federal”, com atribuigao de “patrulhamento ostensivo dos portos organizados” (PEC n° 59/2007). 4 18. De qualquer modo, ainda que venha a ser criada a “policia portudria federal”, ela nao poderia \ se organizar do modo como esté organizada a atual guarda portuéria, subordinada as administragdes dos portos. De acordo com o art. 17, § 1°, XV, da Lei n? 12.815, de 2013, compete administragio do porto “organizar a guarda portuaria, em conformidade com a regulamentagao expedida pelo poder concedente”, Ocorre que, nos 4de 12 26/02/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-inputEl hutps:/sapiens.agu.gov:brieditor?d~642556SAc~6390699 termos do caput do art. 17 da Lei n° 12.815, de 2013, a administragdo dos portos pablicos pode sd apenas pela Uniao, diretamente, mas também por delegatérios ou mesmo concessionétios, \ ve 19, Atualmente, os portos organizados so administrados por empresas oN” chamadas companhias docas (sete no total[6]) ou por empresas estatais estaduais ou municipais, na condigao de delegatarias. 20. As empresas estatais so sociedades empresérias criadas pelo Estado, mediante autorizaglo legislativa, para realizar atividades econdmicas de dominio privado ou prestar servigos piiblicos de natureza econdmica. So espécies de empresas estatais: (i) as empresas pilicas; ¢ (ji) as sociedades de economia mista AA diferenga fundamental entre elas diz respeito a origem do seu capital. As empresas piblicas tém seu capital constituido exclusivamente por recursos piblicos, enquanto as sociedades de economia mista permitem a conjugacdo de capitais piblicos e privados, assegurado 0 controle estatal. Embora a Constituigéo imponha as empresas estatais, como entidades integrantes da Administragao PUblica indireta, algumas normas de direito Piiblico, todas as empresas estatais so constituidas sob a forma de pessoas juridicas de direito privado (art. 5°, Te Il, do Decreto-Lei n° 200, de 1967[7]). So sociedades empresérias. Portanto, aplica-se 0 privado as empresas estatais, exceto no que for incompativel com norma expressa de direito piiblico’ 21, Na ADI 1717 (2002), 0 Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional que os servigos de fiscalizago de profissdes regulamentadas fossem exercidos por entidades privadas, por considerar vedada a atribuigdo de “atividade tipica de Estado” a particulares. A referida decisio esti assim ementada: EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. ACHO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 58 E SEUS PARAGRAFOS DA LEI FEDERAL 1N* 9.649, DE 27.05.1998, QUE TRATAM DOS SERVIGOS DE FISCALIZACAO DE PROFISSOES REGULAMENTADAS. 1. Estando prjudicada a Ago, quanto ao § 3° do art, 58 da Lei n° 9.649, de 27.05.1998, como jd decid o Plenério, quando apreciou 0 pedido de medida cautelar, a Agdo Direta ¢ julgada procedente, quanto ao mais, declarando-se a inconstitucionalidade do "caput" e dos § 1%, 2 4%, 5%, 6%, 7" € 8° do ‘mesmo art. 58. 2. Isso porque a interpretacdo conjugada dos artigos $°, XI, 22, XVI 21, XXIV, 70, pardgrafotnico, 149 e 175 da Consttucdo Federal, leva @ conclusdo, no semido da indelegabildade, a uma enidade privada, de atvidade tipica de Bstado, que abrange até poder de policia, de tributar e de punir, no que concerne ao exericio de atividades profisionais regulamentadas, como acorre com os dispasitivos impugnados 3. Decisdo undnime. (ADI 1717 / DF; Relator(a): Min. SYDNEY SANCHI Julgamento: 07/11/2002; Orgdo Julgador: Tribunal Pleno; Publicagdo: DJ 28-03-2003 PP-61). 4 4 jo se aplica as entidades que, apesar de integrantes da 22. A meu ver, 0 mesmo rac Administragao Pablica, possuam personalidade juridica de direito privado, \ se manifestou © 23. No caso de atribuicdo de poder de policia a empresas estatais, assim Superior Tribunal de Justia no REsp 817534 / MG Sde 12 26/02/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-input bntps:/sapiens.agu, gov br/editor?d=64255658&c=6390609 ADMINISTRATIVO, PODER DE POLICIA. TRANSITO. SANCHO. PECUNIARIA APLICADA POR SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA, IMPOSSIBILIDADE. |. Antes de adentrar 0 mérito da controvérsia, convém afastar a preliminar de conhecimento levantada pela parte recorrida. Embora o fundamento da origem tenha sido a tei local, indo ha dhividas que a tese sustentada pelo recorrente em sede de especial (delegagio de poder de policia) & retirada, quando o assunto & transito, dos dispositivos do Cédigo de Trinsito Brasileiro arrolados pelo recorrente (arts. 21 ¢ 24), na medida em que estes artigos tratam da competéncia dos drgdos de trénsito. O enfrentamento da tese pela instancia ordindria também tem por consequéncia 0 cumprimento do requisito do prequestionamento, 2. No que tange ao mérito, convém assinalar que, em sentido amplo, poder de policia pode ser conceituado como 0 dever estatal de limitar-se 0 exercicio da propriedade e da liberdade em favor do interesse piblico. A controvérsia em debate é a possibilidade de exercicio do poder de policia por particulares (no caso, aplicagdo de multas de transito por sociedade de economia mista). 3. As atividades que envolvem a consecugdo do poder de policia podem ser sumariamente divididas em quatro grupo, a saber: (i) legislagdo, (Hi) consentimento, (ii) fiscalizagdo e (iv) sangdo. 4. No dmbito da limitagdo do exercicio da propriedade e da liberdade no trénsito, esses grupos ficam bem definides: 0 CTB estabelece normas genéricas ¢ absiratas para a oblengdo da Carteira Nacional de Habititagdo (legislagdo); a emissio da carteira corporifica a vontade 0 Poder Piiblico (consentimento); a Administragao instala equipamentos eletrénicos para verificar se hé respeito a velocidade estabelecida em lei (iscalizagdo); ¢ também a Administragio sanciona aquele que ndo guarda observancia ‘40 CTB (sangdo). 5. Somente 0 atos relatives ao consentimento e a fiscalizacao sao delegdveis, pois aqueles referentes a legislagdo ¢ & sangdo derivam do poder de coeredo do Poder Piiblico. 6. No que tange aos atos de sangdo, 0 bom desenvolvimento por particulares estaria, inclusive, comprometido pela busca do lucro - aplicacao de ‘multas para aumentar a arrecadagao. 7. Recurso especial provido. (REsp 817534 / MG; Relator(a): Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES; Orgdo Julgador: T2 - SEGUNDA TURMA; Data do Julgamento: 10/11/2009; Data da Publicagdo/Fonte: Die 10/12/2009) 24. Portanto, as sociedades empresérias encarregadas da administragdo portuéria, sejam empresas estatais da propria Unido ou de outros entes federativos, nfo podem exercer “poder de policia”, ressalvado o entendimento do Superior Tribunal de Justiga quanto a possibilidade de exercicio, por empresas estatais, de fungdes delegadas de “consentimento” e “fiscalizagao”, pelo menos no que diz respeito ao transito. 25, Endo, enquanto estiverem submetidas as companhias docas ou outras empresas deleatérias ou concessionarias de portos organizados, as guardas portudrias também no poderiam exerver nem mesmo atividades tipicas de policia administrativa. 4 26. Em suma, as guardas portuarias nao sio érgaos de seguranga piblica (policia de seguranga),\ pois nao esto elencadas no art, 144 da Constituigdo; ¢ também no poderiam exercer ati adm lades de policia trativa, pois sociedades empresirias ndo podem exercer esse tipo de fungo, nem mesmo empresas 6de 12 26/02/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-inputE butps:/sapiens.agu.gov.br/editor% 7 ID estatais, ressalvado o entendimento do Superior Tribunal de Justiga (REsp 817534) quanto & poles exercicio, por empresas estatais, de fungdes delegadas de “consentimento” e “fiscalizagio”. m 27. Por outro lado, nao se pode negar que as guardas portuarias, que estio previstas no 1°, XV, da Lei n® 12.815, de 2013, como unidades que devem ser mantidas pelas administragdes portudrias em conformidade com a regulamentagao do poder concedente, podem exercer fungdes de seguranga e vigildncia Porém, ndo se trata de uma atividade de “seguranca piblica”, posto que as guardas portuarias nao estdo previstas como érgio de seguranga piblica na Constituigdo federal e tampouco seria possivel que exercessem uma fungao policial tipica estando vinculadas a pessoas juridicas de direito privado, ainda que integrantes da Administragio Piiblica indireta. 28. As atividades de vigildncia patrimonial ou de seguranga pessoal podem ser exercidas em cardter privado por particulares, nos termos da Lei n° 7.102, de 1983. Portanto, ainda que nao se tratem de Orgdos de seguranga piblica © mesmo estando vinculadas a empresas responsaveis pela administragdo dos Portos, as guardas portuérias certamente podem exercer fungdes de vigilincia e seguranga de bens e pessoas nos ortos organizados. Mas se trata de uma atividade de seguranga de caréter privado. O fato de se tratar a atividade portudria de um servigo piblico nao retira o caréter privado das fungdes de seguranca e vigillincia que podem ser licitamente desempenhadas pelas guardas portudrias, Basta fazer um paralelo com os servigos de transporte aéreo ou rodovidrio. Sem prejuizo do desempenho das atividades de seguranga piblica por parte dos érgios indicados no art. 144 da Constituigdo, as empresas administradoras de terminais aeroportuérios ou rodovisrios evidentemente podem executar atividades de vigilincia e seguranca de bens e pessoas que circulem em suas instalagdes, mas exercidas em caréter privado. 29. Por todo 0 exposto, parece-me que a possibilidade ou nao de terceirizagio de atividades da guarda portuaria, a principio, é uma questao estritamente trabalhista. Porém, como ja exposto, 0 art. 17, § 1°, XV, da Lei n® 12.815, de 2013, atribui ao poder concedente a competéncia para expedir regulamento para normatizar ‘como as empresas responsiveis pela administragio portuéria deverdio “organizar” a guarda portuéria. 30. Por conseguinte, com base na competéncia normativa estabelecida no art. 17, § 1°, XV, da Lei n® 12.815, de 2013, o Ministro de Estado Chefe da Secretaria de Portos pode, com o fim de assegurar 0 bom desempenho das atividades atribuidas as empresas que administram os portos organizados, impor que certas fungdes relacionadas seguranga sejam realizadas por empregados do quadro proprio, ainda que « priori fossem passiveis de terceirizagio, Nesse sentido, 0 § 2° do art. 2° da Portaria GM/SEP n° 350, de 2014[9], estabelece que fungdes de supervisdo ou chefias de equipes do quadro proprio devem ser desempenhadas por “integrantes da ‘guarda portuaria”, estando implicito nesse dispositivo que os “integrantes da guarda portuéria” so empregados do quadro proprio das empresas encarregadas da administragio dos portos organizados. 4 31. Isso nao significa que caiba & Secretaria de Portos da Presidéncia da Repiiblica decidir se as atividades de vigilincia e seguranga desempenhadas pelas empresas que administram os portos organizados \ sejam, no todo ou em parte, passiveis ou no de terceirizagao segundo a legislagao trabalhista. © que o Ministro de Estado Chefe da Secretaria de Portos pode fazer, com base no art. 17, § 1°, XV, da Lei n® 12.815, de 2013, € \ definir que certas fungdes relacionadas a seguranga e vigildncia (em cardter privado) exercidas no ambito dos portos organizados sejam necessariamente desempenhadas por empregados do quadro proprio das empresas Tde 12 26/02/2016 18:59 Editor de Rich Text, editor-inputE hutps://sapiens.agu.gov.br/editor?d~64255658c=6390699 responséveis pelo servico piiblico delegado ou concedido, ainda que a legislacao trabalhista permitisse que tais fungoes fossem terceirizadas. Nesse caso, a motivagao do ato nao seria o cumprimento da legislagao trabalhista, mas sim a qualidade do servigo portuario, se houver alguma justificativa razodvel para concluir que em certos casos a terceirizacdo, ainda que admissivel pela legislacao trabalhista, seria prejudicial a qualidade do servigo, sem prejuizo de uma avaliagao de custo-beneficio. 32. Dai se pode concluir que o fato de haver alguma eventual vedagao a terceirizagao de certas atividades de seguranga ¢ vigildncia na regulamentagao de que trata o art. 17, § 1°, XV, da Lei n° 12.815, de 2013, nao significa necessariamente que as demais atividades de seguranga e vigildncia possam, segundo a legislagao trabalhista, ser terceirizadas; tampouco que as fungdes que tal regulamento tenha exigido que sejam desempenhadas por pessoal do quadro proprio nao fossem, em tese, passiveis de terceirizagio de acordo com a legislagdo trabalhista. Isso porque, como ja exposto, a finalidade da regulamentagao de que trata o art. 17, § 1°, XV, da Lei n° 12.815, de 2013, nao é garantir o cumprimento da legislagdo trabalhista, mas a qualidade do servigo piblico desempenhado pelas empresas responsaveis pela administragao dos portos organizados. 33. Em sintese, © poder concedente pode exigir, a bem do servigo piblico, que as empresas encarregadas da administragdo portuaria, sejam elas vinculadas a prépria Unio, a outros entes federativos ou concessionarias privadas, exergam atividades de vigilncia e seguranga de bens e pessoas que transitam por suas instalagdes; mas o tipo de vinculo juridico ~ se direto ou indireto — que as administragdes portudrias manterao com o pessoal responsavel por tais atividades nao interessa necessariamente ao poder concedente. Se houver alguma justificativa razodvel, baseada no interesse em garantir a qualidade do servigo piblico prestado por tais empresas, a regulamentacdo prevista no art. 17, § 1°, XV, da Lei n° 12.815, de 2013, pode eventualmente estabelecer certas exigéncias quanto ao modo como deverdo ser desempenhadas essas atividades de vigilancia seguranga intraportos. Mas, a principio, incumbe as administragdes portuérias apenas cumprir a legislagao trabalhista[10], 0 que deve ser objeto de fiscalizagao pelos drgos competentes, como o Ministério do Trabalho Emprego ¢ 0 Ministério Pablico do Trabaiho. 34. A organizagao das guardas portudrias, em conformidade com o art. 17, § 1°, XV, da Lei n® 12.815, de 2013, foi disciplinada pela Portaria GM/SEP n° 350, de 1° de outubro de 2014 (publicada no DOU de 2 de outubro de 2014). A referida Portaria determinou que as administrages dos portos estabelecessem, em suas struturas organizacionais, uma “unidade administrativa” encarregada de organizar, gerenciar e supervisionar os servigos de “seguranga portuéria”, estando diretamente subordinada ao dirigente méximo das respectivas empresas (art. 2°, caput da Portaria GM/SEP n° 350, de 2014). Também exigiu, como ja exposto, que fungdes de supervisio ou chefias de equipes do quadro proprio devem ser desempenhadas por “integrantes da guarda portuaria”, Fora dessas hipdteses, nao ha na Portaria GM/SEP n° 350, de 2014, qualquer exigéncia de que as demais atividades de vigilincia ¢ seguranga sejam realizadas diretamente por pessoal do quadro proprio das empresas incumbidas da administragio portudria, n 35. Por outro lado, a Portaria GM/SEP n? 121, de 13 de maio de 2009 (DOU de 14 de maio de 2009), expedida ainda durante a vigéneia do marco legal anterior, em que estava em vigor 0 art. 33, § 1°, IX, da\ Lei n® 8,630, de 1993[11], previu em seu art, 4° que “a vigilancia e a seguranga do porto organizado serio \ promovidas diretamente pela Guarda Portuéria{12]". Aparentemente, esse dispositivo poderia dar margem ao entendimento de que todas as atividades de vigilancia e seguranga do porto organizado devem ser esempenhadas por pessoal do quadro préprio das empresas delegatarias ou concessionarias. dos portos. Bde 12 26/02/2016 18:59 Editor de Rich Text, editorinputtl hups://sapiens.agu.gov-brieditor?d-6425; Portanto, é preciso avaliar se a Portaria GM/SEP n° 121, de 2009, ou pelo menos o seu art. 4% vvigentes. Como ficard demonstrado a seguir, essa ndo é uma tarefa muito simples. Seppe 36. Nao se destinando a vigéncia temporaria, os atos normativos vigoram até que Ot modifiquem ou revoguem (art. 2°, Decreto-Lei n* 4.657, de 1942[13]). A revogagio é a supressio da forga obrigatéria da lei, retirando-Ihe a eficacial'*!, O mero desuso nao revoga a norma juridica. Ai reside o principio da continuidade das leis. Quanto a extenso, a revogagdo pode ser: (i) integral; ou (ii) parcial. A revogagao integral ou ab-rogagao atinge inteiramente um ato normativo. A revogaco parcial ou derrogaglo atinge apenas algum ou alguns de seus dispositivos. Quanto a forma, a revogagao pode ser: (i) técita; ou (ii) expressa. E ‘expressa quando norma posterior declara, de forma taxativa e inequivoca, a revogagao da norma anterior. E a forma aconselhével de revogacio, para evitar inseguranga juridica (art. 9°, Lei Complementar n° 95, de 1998(15)). 37. A revogagao tacita ocorre por via obliqua, quando: (i) a norma posterior seja incompativel ‘com a norma anterior; ou (ii) a lei posterior regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior (art. 2°, § 1°, Decreto-Lei n° 4.657, de 1942{16)). A incompatibilidade ocorre quando a aplicagio de uma norma implica o