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vf a BRASHRD | BRASILEIRO Processo de um Racismo Mascarado um Racismo Mascarado 4 Mt ihe “a #30) .4510981 PB N}3g “0 primeiro revolucionirio sera o anunciae dor di alma negra Com ext Tre shri Abdiag do. Nasenento seu "Prd Ae ramos para negros. Neste vo de agora. © Glonal bras, A hipocisa, bis, dos sist fnas bragos do Ocdet,espectlmente aque Tes que se inconporiram na maldigto dere Store dis lagrimas do negro, O sang. em to Sov ck eanidos, o satger proprnmonie die erramado no copistulo-e na mort, © bide gular © abomindvel de rsdenglo descus pro to, para a invesigagdo Gontfica eo julgamen- to dh conseineia moral, tapar com a pencira de Fealidade do genociio dos neros no Brasil E 4 paler gonoetdio va agut empregad com tod su carga de horr ‘Genooiio. A-palavra nao’ antiga, € n fis. Parece que foi sunhada durante a Sez mdi Guerra Mundial, para deine he tombe do povo judes sob nazismo. Fat res Prestigio mundial do poxo de Isa, pata {12004400 mies, astidgs durante see | ss01000748 WO Il “0 primeira revaluct dos os sentidas, 0 sar erramado no espist. hts veias da raga bra Ama conseitneis se Lomasse conheci do impunemente « ras religides, out gros, especialment ‘de 200 3 400 mills como as irvores d destban ilo hut eados de O GENOCIDIO DO NEGRO BRASILEIRO PROCESSO DE UM RACISMO MASCARADO a Copyright © by Abdias do Nascimento, 1978 Capa: Jayme Leo | Supervisio grifica: Luiz Carlos Rodrigues Calazans fT He CLASS, 294 Livros do mesmo autor: gro-brasileiro, Teatro Experimental do Negro: Rio de Janei- Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality? edig&o em inglés Rua André Cavalcanti, 86, A primera edigio da versio em inglés dese livro, “Racial Democracy” in tri: Myth or Reality. eita por Elisa Larkin do Nascimento, & do Departamento de Hie, 1977-A segunda ed | Llinguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ty je —___ ‘low inglés, revista eaumentads, ol publicada por Sketch Publishing Co, Ibadan, Impresso no Brasil 1977. Esta € 4 primeira edigdo do original em lingua brasileica, Copyright © 1978 Printed i Brazil | by Anais do Riseimento, Proximas publicagdes ‘Third World Press: Soritlege (Black Mystery) ~ edi Chicago, 1978 Afro-Brazitian Theater (An Anthology of Seven Plays) ~ edigao em inglés de Dramas para negros e prélogo para brancas Mixture or Massacre? Essays in the Genocide of Black Brazil ~ uma colegio de discursos e ensaios em inglés, traduzidos por Elisa Larkin do Nascimento, 1978, IN MEMORIAM PIO ZIRIMU, diretor do Coléquio do Festae 77, esere- veu uma carta ao autor deste livro, datada em 15 de de- zembro de 1976, da qual transcrevemos abaixo os se- guintes excertos: Lamento que vocé nao tenha recebido antes noti- cias minhas. Eu s6 tenho de confessar que falhei. Nao fui capaz de conseguir que seu trabalho fos se aceito pelo Estabelecimento. (...) Estou con- vencido que o material deve ser publicado. (...) Espero que as forgas da historia ainda trabalha- ro, continuardo a trabalhar, para trazer & luz 0 que vocé téo claramente disse em seu trabalho. Até o instante de sua morte a 30 de dezembro de 1976, Pio Zirimu dedicou-se completamente ao esforgo de transformar 0 Coléquio num evento cultural de ver- dadeira significagao histdrica para Africa e para os ne- gros de todo o mundo. A realizagao de tal objetivo éle sacrificou sua vida. Nos deixou um legado de trabalho corajoso e honesto, um raro modelo de integridade pes- soal. O professor Zirimu merece nosso respeito € pro- funda gratidao, AN. para Florestan Fernandes exemplo de integridade cientifica € coragem humana GENOCIDIO ~ geno-cidio © uso de medidas deliberadas ¢ sistemiticas (como mor- le, injiria corporal ¢ mental, impossiveis condigdes de vida, prevengiio de nascimentos), calculadas para a ex- lerminagao de um grupo racial, politico ou cultural, ou para destruir a lingua, a religito ou a cultura de um gru- po. (Webster's Third New Ine ternational Dictionary of the English Language, Mas- sachussetts, 1967,) GENOCIDIO - geno-cidio Genocidio s.m. (neol,) Recusa do direito de existéncia a grupos hu- ‘manos inteiros, pela exterminagio de seus individuos, desintegra- cio de suas instituigdes politicas, sociais, culturais, inguisticas e de seus sentimentos nacionais ¢ religiosos, Ex.: perseguigio hitlerista aos judeus, segregagao racial, ete Dicionario Escolar do Professor Organizado por Francisco da Silveira Bueno Ministério da Educagdo e Cultura, Brasilia, 1963, p. $80. SUMARIO Prefiicio: Florestan Fernandes... Prefiicio & edigdo nigeriana: Wole Soyinka Prdlogo: a historia de uma rejeigio 1. Introdugio mae : 1, Escravidio: o mito do senhor benevolent: IIL, Exploragao sexual da mulher afticana IV. O mito do “afticano livre Spsaaeaunees ¥. 0 embranquecimento da raga: uma estratégia de genocidio . VI. Discussio racial: proibida 3 VII. Diseriminagao: realidade racial ci B2 VIII. Imagem racial internacional 2 88 IX. © embranquecimento da cultura: uma outra esiratgpia de genocidio apviga 8 93 X. A perseguida persisténcia da cultura aivicana no Brasil 101 XI. Sineretismo ou folelorizagto? ..... 108 XII. A bastardizagdo da cultura alro-brasileira lg XIIL, A estética da brancura nos artistas negros aculturados ...123 XIV, Uma reagio contra o embranquecimento: © Teatro Experimental do Negro... eeseeesssee 129 XV. Conclusio .ssseesceeee 3 2136 Referéncias é 142 Documenta |: Relatorio Minoritirio: Colaquio Festae 77... 149) Docamento Il. Teatro negro-brasileiro: uma auséncia conspicia 159 Pocumento It: Arte afro-brasileira: um espirito libertador Tl Prefacio So tantos e téo profindos os lacos que me prenden a Abdias do Nascimento, que enfrenio um compreensivel acanhamento em apre- sentar esta obra ao piblico brasileiro. Estanos no mesmo barco e dando 0 mesmo cambate ~ néo de hoje, mias hd anos. Persistimos por tuna quesida de carver e dle formagdo politica. Ese algo nos separa, & 0 wulto de sua contribuicdo, comparada coma minha. Eu fui acusado de idenuificacdo morale psicolégica com o negro. Ele é 6 negro mili- tante que no pode ser acusado por ninguém, e, por ventura, 0 que ndo ddesistiv depois que todas as bandeiras se arriaram. Portanto, 0 que nos distingue &a qualidade de sua contribuicéo ¢ 0 valor de sua attvi- dade. Nesses dois pontos, hé que tomar em conta una pedagogia e uma politica, A pedagogia se consubstancia no Teatro Experimental do ‘Negro, que ele nventou como wn expediente revoluctondrio, que aba- fasve a estruturas nrentais da negro, destruindo uma auto-inagemt re- eva desiruidora, ¢ que expusesse a hipocrisia racial do brance a uma ‘rise irreversivel. A politica aparece a guerritha a descoberto e per- ‘manente: fustigar as eausas ¢ 0s efeitos do "preconceito de cor” sem ‘qualquer concessito, enire os brancos e entre as negros ~ & contra am- dos, quando eles se revelassem indignos da licdo. En: consegitencia, a ddentincia da propatada democracia racial se convertia em fato poltico © passa @-contar como fator de eroséo da ideologia racial oficial Este livro repde, de nova, todo o significado da presenca de Ab: dias do Nascimento na agitacdo do problema africano no Brasil (eno inais do “problema racial brasileiro”). Ele ndo pede “as migathas do dhanguete" © tampouco perde tempo com a" questo da justica d gente 19 negra”. Isso ficou para o passado, para as agitardes e os movimentos das décadas de 30 ¢ de 40. Como no é branco e liberal, como Nabuco, indo toma as vestes do paladino da“ causa do negro”; e como ndo acre- dita que se possa fazer qualquer coisa antes de unta auténtica revolt edo democrética, também ndo se apega ao fomento de uma contra- ideologia racial de awtodefesa e de contra-ataque. Limpa e claramente reioma a agéo direta dos quilombolas, centrando suas baterias na luta pela liberacdo do negro e do mulato de tantas e ido variadas servidées vistets & dnvistvets, Vejo neste fivro trés contribuicdes novas, para as quais convém chamar a atengdo do leitor. Primeiro, a mais importante de todas: a configuracdo do protesto negro no contexto histdrico do tiltimo quar- tel do sécido XX. Depots de algunas arrancadas audaciosas e incom- preendidas, principalmente nas décadas de 20, 30 ¢ 40, 0 negro aceitou ‘a tdtica do que parece ser 0" caminko vidvel” e "mats facil”: 0 da in- fittracdo individual, das compensagées pessoais, que simplifica as coi- sas e revela que “o negro de alma branca” € to competente quanto (qualquer outro, nacional ou estrangeiro, Por que ndo? Abriram-se no- tas vias de ascensdo econdmica, social, cultural e politica, Nao sao inuitas mas aparecem em vérias nivels, Por que ndo aproveitélas no inethor estilo convencional, posto em prética pelos brancos? So vias que levam, com freqiiéncia, 4 proletarizacdo (a transformacao real em trabalhador livre e a integracto as classes trabalhadoras) e, algunas vezes, @ posicies cobicadas (para alguns, nas chamadas "classes mé- dias" para poucos, nas "classes altas"). Essa udtica é suicida, no pla- no coletivo: ela pressupae a acefalizacao da populacdo negra. Seu ta- lento ¢ transjeride para os estratos socials da raca” dominante e pas- saa ser utilizado na mais estrita defesa da ordem. Todavia, esse é 0 preco a ser pago pela conguista de “wn lugar ao sol”, Todavia, de ‘modo indiveto ela & constrativa, pois ria, aos poucos, wn Rov NeBrO, que forca a reeducacao do branco na avatiagdo do negro e do mulato ¢ pe em cheque of estereotipos ou as estigmas raciais, Estamos, poi ‘ent wn clima pouco propicio ao reenceramento do protesto negro, Ab- dias nao sé-0 retoma; ele 0 reequaciona politica e socialmente. Nao Jala mais em uma “Segunda Abolicdo" ¢ situa os segmentos negras & imudaios da populacio brasileira como estoques africanos com tradi- ies culturais eum destino histérico peculiares. Em suma, pela pri- neira vez surge a idéta do que deve ser uma sociedade pluri-racial como democracia: ou ela é democrética para todas ax racas e thes confere igualdade econimica, social ¢ cultural, ow ndo existe una so- ciedade pluri-racial democrdvica. A hegemonia da “‘raca’’ branca se conirapde una associacdo livre e igualitaria de todos os estoques ra- 20 eee SS 4 segunda coniribuigéo se vincula ao uso sem resirigdes do conceito de genocidio aplicado ao negro brasileiro. Trata-se de wma palavra terrivel e chocante para a hipocrisia conservadora. Contudo, 0 que se fez € se continua a fazer com 0 negro e com seus descendentes merece outro qualificativo? Da eseraviddo, no inicio do periodo colo- nial, até os dias que correm, as populacdes negras ¢ mnuatas tém sof do wn genocidio institucionalizado, sistemético, embora silencioso: Ai indo entra nem wma figura de retdrica nem un jogo politico. Quanto é excravidio, o genocidio esté amplamente documentado e explicado pe- os melhores ¢ mais insuspeitos historiadores. A Aboligdo, por si mes- ‘ma, nao pis fim, mas agravou o genocidio; ela propria intensificowo nas dreas de vitalidade econdmica, onde a mao-de-obra escrava ainda possuia wilidade. E posterionmente, o negro fol condenado d periferia dda saciedade de classex, conto se no pertencesse & ordem legal. O que o expds a um exterminio moral e cultural, que teve sequelas econdmi- cas ¢ demogrificas. Contra abdias se pode dizer que essa realidade do foi, ainda, suficientemente estudada pelos cientistas sociais, Mas, cla & conhecida ¢ suas proporcies nao sao ignaradas, pelo conheci- mento de senso comum, pela experiéncia direta de negras e nudatos pobres ¢ por evidéncias de investigacdes parciais, que apanham uma (ou outra faita da soviedade brasileira. Portanto, o genocidio ocorreu ¢ estd ocorrendo: e é um grande mérito de Abdias do Nascimento susci- “amo tema concreto. Com isso, ele concorre para que se dé me- nos éufase d desmistificacdo da democracia racial, para se comecar a cuidar do problema real, que vem a ser wn genocidia insioso, que se processa dentro das muros do mundo dos brancos e sob a completa in sensibilidade das forcas politicas que se mobilizaram para combater outras formas de genocidio, A tiltima contribuicdo esté toda ela concentrada no capitulo 15, de conclusio. Hé uma passagem construtiva do diagndstico e da con. dentacao para sugestaes préticas. Fugindo & hipocrisia e & tolerdncia calculada dos opressores ¢ d impoténcia dos oprimidos, Abdias do Nascimento propibe una série de medidas que poderiam configurar a consirucdo de wm novo fruro no presente. Essas sugestées demarcam 4 diferenca essencial que existe entre wna pseudademocracia racial 4 que deveria ser wna sociedade pluricracial demacrética. Muitos di- ro que ele se apega a wma utopia e que. sob 0 capitalismo, nada se conseguind. AT estd uma diseussdo académica. Sob o capitalismo é possivel fazer algumas transformacées e urge partir da ordem existen- te para Jomentar uma democratizacdo profunda de todas as esferas de vida, Sabemos que o Brasil ainda néo forma uma conunidade politica verdadeiramente nacional (pois a maioria ainda estd excluida da par- ticipacéo efetiva e eficiente dos direitos civs e politicos) e que também ainda ndo é uma sociedade demoeratica (pois 0 poder esta institucto- 21 —_—_—_—_—_—_— EEE ainente concentrado no tope das classes possuidoras e de seus seto= res dirigentes), Nada disso impede que as retvindicagaes democrdti- cas, igualitérias ¢ libertérias sejam proclamadas e, 0 que é mats int. fortante, que se lute por sua implantacio nas condiches exivtentes Vistas desse prismna, as proposicdes de Abdias so congruentes ¢ deet sivas. Elas mudam a qualidade das exigéncias do negro ¢ do mulato, saciedade brasileira, ee ‘ So pretend exer pret ed foto noo Lint sme a estreitar as miéos de won companheiro de luta ea soldartagn oie 4 com ele. Acredito que estamos certasecreto,firmemente gnecn bea, relic xe o-signficado histbrico da missdo que Abdias do Nascinente ve ine & edigiio nigeriana 1s serd reconhecida e receberd forte apoto de todos aucles que lec tam pela causa dit deniocracta ho Bratt i Sio Paulo, 10 de Julho de 1978 Florestan Fernandes 0 refrio favorito de um meu colega é: n6s, 0s africanos, somos i uma raga descuidada. Este suspiro elogiente me ocorreu durante viirios trechos de “Racial Democracy” in Brazit, de Nascimento. O talvez, © mais forte argumento a favor de uma constante, aliagiio da posicio do negro em qualquer situagio social na quill ele se encontre ~ em seu préprio solo, governado por seu préprio povo, ou, transplantado para outras tezras, e entre ou- tras racas. De que outra forma, por exemplo~ a nao ser como uma | generosidade mental descuidada que linda com a autonegagio de si mesmo podemos descrever a accitagéo, durante o FESTAC "77, de tum delegado das afro-amérieas que, a propésito do Primeiro Fest val Mundial de Artes Negras, Dakar, 1966, declarou: “se NO que se refere & dimensdo histérica, parece que existe tum certo sentimento de inferioridade que é africano. Assim nao ¢ possivel apresentar um texto historico eorrendo pare- lelo aquele dos pafses ocidentais.” Porém, isto € 0 que os organizadores do FESTAC fizeram Nio s6 admitiram 0 autor daquela afirmagio, um branco, como um delegido oficial do Brasil, mas ainda excluiram a participagdo do Professor Abdias do Nascimento, um negro que vem persistente © apaixonadamente propondo e demonstrando uma contra-opiniio | i respeito do negro, sua criatividade e sua historia Beste fato, um s6 entre um milhdo de exemplos anilogos, for- ‘neve seu proprio suporte para a tese justificativa dos argumentos de Nascimento, isto & que existe uma censura que vai de sutil- aberta, na discussio da anomalia racial que & 0 Brasil; que a casui tica que reforca esta censura € a causa ea excusa da inatividade 23 2 uma sittagdo que requer ago corretora; ainda mais, qu cesso encoraja e perpetua # anomalia, assim tornando pos exemplo, para uma nagio africana, numa reunido negro-afticana, aceitar como porta-vor. de povos negros uma antipatica, até mesmo hostil testemunha da histéria do negro: e permitir a tal estrangeiro participar em deliberagdes que crucialmente afetam a auto- definicio do negro e o planejamento do seu futuro, Conforme Nascimento declara em sua introducao, ele no esté “interessado em exercer qualquer tipo de gindstica académica, im- parcial e descomprometida.” O ensaio que segue esti, de qualquer maneira, apoiado em selecionada referéncia cujo propésito central & prover um hackground da formulagao intelectual do Brasil bran- 0, para explicar uma realidade negra atual que ele estabelece como sua preocupagio principal e urgente, Naturalmente haverd desacor- do sobre a anilise que Nascimento faz da realidade racial brasileira, tanto histéricamente, quanto em suas operagdes contemporaneas. A expresso genocidio chocard, sua aplicagio, particularmente a0 fendmeno do desaparecimento da “mancha negrs” no Brasil, talvez parecer demasiadamente sutil e emotiva. Ainda o formidavel con junto de estatisticas narra sua propria historia inguietante, e as leis imigratérias citadas, de selegao racial e ainda nao revogadas, sto clamorosas em sua dcusagdo, Mas no final das contas a considera- Gio mais imediata e pertinente para nés, neste momento, indubita- mente permanece: quem sio as testemunhas auténticas da condi- 10 do negro nesta etapa da sua historia? Serd o transcrito observa- dor do Festival de 1966, ninda uma vez mais delegado da zona afro- americana? Ou sio 0s artistas e analistas negros como Nascimento, cuja contribuigsio a0 debate, a despeito de ser ele adicionalmente lum sisiting scholar numa universidade nigeriana, foi manipulada para fora do seu caminho natural pelos homens-fortes da politica dat sua nagio? Wole Soyinka University of Ife e-lfe 4 PROLOGO: . A HISTORIA DE UMA REJEICAO Basicamente este Volume reproduz o ensaio que redigi para o Colsquio do Segundo Festival Mundial de Artes ¢ Cultura Negras, realizado em Lagos, entre 15 de janeiro e 2 de fevereiro de 1977, a pedido do entéo diretor do Coloquio, Professor Pio Zirimu. O tra- balho deveria ser apresentado como conferéneia piblica na série que constituiu um dos pontos altos no desenrolar do Coléquio. Este projeto nao se coneretizou porque o documento foi rejeitado pelo “establishment”, segundo a expressio do proprio Professor Zirirou em carta que me esereveu a 15 de dezembro de 1976, apenas Guinze dias antes de sua morte. Alguns excertos desta carta foram transevitos & pagina /n Memoriam, onde rendo homenagens a este sehotar'e irmao falecido antes que pudesse assistir A abertura do Co- lbquio cuja organizagio The consumiu anos de trabalho incansével Gostaria de relatar, ainda que resumidamente, a historia da re- cusa do nici trabalho ~ evento que eerlamente permanesera como tum capitulo escuso suspenso sobre a eabeca dos responsaveis, espe- cialmente porque os motives da rejeigio continuam ceultos pelo véu do segredo oficial e do mistério A imprensa de Nigéria permaneceu solidiria com meu protes- foe com minha iniuil tentativa em desvelar o “mistério”. O Sunday Times, edigio dominical do Daily Times, um dos mais importantes didrios do pais, iniciou a divulgagio da ocorréncia publicando am- pla reportagem de primeira pagina a 23 de janeiro de 1977, sob o \itulo-manchete “Professor Explode’, assinado por Achike Chuks Okafo. Na mesma edicdo, & pagina treze, aparece ainda breve en frevista com o autor intitulada: “The Blackman’s Burden in Brazil” (A carga do negro no Brasil) 25 Ao fim d6 artigo sobre & rejeigio de “Racial Democracy” in Brasil: Myth or Realits?, © Sunday Tones publicou breve tesposia do Coronel Ahmadu Ali, Ministro da Educagio da Nigéria e Presi- dente do Coloquio, quando o repérter tentou conseguir uma expli- eagio ao acontecido. Inicialmente, 0 Coronel Ali advertiu ainda no se encontrar a frente do Coléquio quando se fez a selegao dos trabalhos: s6 fora nomeado para a funeao no fim de dezembro: En- tretanto, o Coronel Ali mencionou as 8s fazdes que poderiam cau= sar a recusa de qualquer contribuigdo, nenhuma das quais se aplica- va ao caso, conforme se verificari mais adiamte ‘Nesta altura dos acontecimentos 0 assunto se havia tornado de dominio piiblico e me encontrei assim obrigado a insistir numa res- posta que explicasse e/ou justificasse a exclustio do meu paper. Es- colhi o caminho de un: Carta Aberta a 8. Excia, Coronel Ahmadu Ali, Presidente do Comité do Coléquio Senhor Presidente: Ontem, 23 de janeiro de 1977, 0 Sunday Times publicou uma reportagem relacioniada & rejeicio do meu trabalho “Racial Demo- racy” in Brazil: Myth or Reality?, © qual foi escrito a pedido do diretor do Coléquio, 0 falecido Professor Pio Zirimu, No fim do ar- tigo, respondendo 0 repérter. 8. Excia, Coronel Aamadu Ali, Chairman do Comité do Coldquio e Ministro da Educagio da Nigé- ria, apresentou trés razdes para a rejei¢do de qualquer trabalho pelo Comité. Transereverei da reportagem: Coronel Ali “nao estava consciente da rejeicdo de ne- nhum trabalho exceto aqueles que se atrasaram no prazo exigido para a submissao. “Coronel Ali disse ser provavel que alguns trabalhos pu- dessem ter sido recusados por ndo serem estritamente académicos, ou 3. Procurarem usar o férum de discussio para propagar crengas ideolégicas.” (Sunday Times, 23 de janeiro de 1977, p. 11.) E ébvio que a rejeigo do meu trabalho nao se incluiu na pri meira razio, desde que ensaio foi escrito dentro do estrito prazo estabelecide pelo Diretor do Coléquio, fato que esti claramente manifesto na carta que o falecido Professor Zirimu escreveu ao au- tor em 15 de dezembro de 1976. 26 Quanto ao segundo item citado por S. Excia. © Coronel Ali, eu estou plenamente convencido que o trabalho cumpre cabalmente as rnormas aeudémicas e as exigéncias do rigor cientifico; entretanto, 0 estudo no se imerge naquele vazio jogo escolistico que S. Excia. 0 General Obasanjo, Chefe de Estado da Nigéria e Grande Patrono do FESTAC, tao sabidamente condenou no discurso inaugural do Coldquig. Transcrevo 0 General Obasanjo: Eu deixo voeés na esperanca de que o escolasticismo estéril que freqentemente afoga a criatividade ser mantido sob reserva, © que um esforgo positivo sera feito para relacionar sua investigagio as nossas condigdes sociopoliticas e econd- Esta adverténcia contra o “escolasticismo estéril" foi, além do mais, uma das razOes que me levaram a propor, na sessdo plendria do Coléquio, de sibado, 22 de janeiro de 1977, que esta bela mens: gem de S, Excia. o General Obasanjo fosse considerada como docu- mento basico de trabalho, norma na preparagio dos Relatérios dos varios Grupos em que se dividiram os trabalhos do Coléquio." 0 tereeiro ponto a ser considerado se refere a “propagacio de rena ideologicas”. A pagina 72 do meu trabalho, ja distribuido a virios membros do Coléquio, inclusive ao Presidente Coronel Ali, podemos ler que: Hoje, nds, 05 negros, rejeitamos qualquer tipo ou forma de “mandato” apresentado pelo homem branco em nosso nome ~ nem o mandato dos representantes do capitalismo nem de qualquer ideologia politico-social, doutrina ou siste- ima que nao seja uma auténtica expresso da experigneia ne- gra, assim eonio dos objetivos culturais, politicos, econdmi- cos, € humanisticos da Revolugio Africana. Pensamento ¢ afticanos baseados sobre os valores especificos negra, criticamente atualizados e/ou acrescidos de valores de outras origens, corrctamente adatados as nevessi- Gades e interesses africanos devem tomar uma parte agre ‘va na configuragdo da eivilizagdo ecuméniea do futuro, Uma civilizagio aberta a todos os acontecimentos da existéne humana, sem exploradores e explorados, € completamente livre de opressores ¢ oprimidos de qualquer raga ou e6r epi- érmica, Nos ndo desejamos transterir para outros a respon subilidade que a Histéria colocou sobre os nossos ombros. __ Nao hd, por isso, lugar para nenkuma divida quanto ao co teiido ideolégico mencionado enfaticamente no meu trabalho; ele se encontra em pleno ¢ limpido acordo com a ideologia advogada pot S. Cxcis. o General Obasanjo em seu discurso de abertura deste old quio n Eu deixo voces com um apelo: encontrem os caminhos € 08 meios de abrir os impulsos eriativos que habilitem os negros individualmente, as nagdes negras, e as organizagdes de tais nagdes, a reconquistar © controle de seus destinos. Somente assim poderd nosso povo contribuir novamente com sua quota ao progresso humano € sémente assim poderdo cles obter sua justa parte dos recursos do mundo, Ainda mais: « “ideologia” do meu documento esté em comple- to e claro acordo com outro orador da mesma cerim@nia de abertu- ra, $. Excia, o Presidente do Coldquio Coronel Ahmadu Ali, quan- do diss Nés ndo podemos decepcionar 0s afticanos ¢ os povos ne- gros... OS povos alricanos © negros tém de ser reconhecidos como uma forga com a qual 0 mundo tem que lidar. Em virtude do que acabamos de expor nao vislumbramos uma razIo validy que possa justficar a arbitréria exelusdo do meu traba- Iho, exceto se existirem “razdes de Estado” ou “razdes ocultas”, restringindo a liberdade de eriagio académica bem como a pesquisa © a discussio, 0 que, em caso afirmativo, constituiria inadmissivel censura se chocando frontalmente com os abjetivos basicos deste Coldquio. Lagos, Nigéria 24 de janeiro de 1977 Como iiniea © sintomética resposta a Jeitura dessa Carta- Abert no pleniirio do Coléquio, o Coronel Ali afirmou mais uma vez ndo se achar ainda no cargo quando ocorreu a selegio. E ne- nhuma outra resposta foi jamais conseguida das autoridades do FESTAC. Nenhuma justificativa, explicagdo ou esclarecimento se io dla Coldquio, ou ao povo da Nigéria dos jornais, oferecew aa autor, a0 plen: aque seeuia os lances do caso atta O titulo de algumas noticias nos fornece uma idéia do clima que rodeava a questi: Daily Sketch, outro importante diirio nigeriano, a 26/1/77: “The Black Pro's Paper’ (O trabalho do professor negeo), pagina 5, assinado por Segun Adelugba; Nigerian Observer de 28/1/77: “The Plight of Blacks in Bra- 2il” (A desgraca dos negros no Brasil), por Mike Ogbeide: Nigerian Punch, em 29/1/77. "Why was my paper Rejected? = Nascimento asks Colonel Ali” (Por que meu trabalho foi rejeitada? = Nascimento pergunta so Coronel Ali), pagina 3, por Nduka A Onum; 28 SS Daily Times, em 29/1/77: “Ideology that can Suit Our Cau * (Ideologia que se conforma & nossa causa), dltima pa por Bisi Adebiyi; Sunday Tide, 30/1/77: “Nascimento Blasts Colloquium” (Nascimento arrass 0 Coléquio), por Fubara David-West. Naturalmente © comportamento da imprensa, revelando o in leresse tdo vivo, ultrapassava os limites da mera curiosidade jor- nalistica @ respeito do meu trabalho: considera o fato mais como demonsiragio de interesse profundo pelo Brasil - 0 segundo maior pais negro do mundo, superado em importincia demogrifica ape- nas pela propria Nigéria. Ou talvez tal interesse emergiu da cons- tante evidéncia da interacdo econdmica com o Brasil que os nigeria nos constatam permeando sua vida de todos os dias; talvez por cau- sa dos numerosos nigerianos que retornaram do cativeiro no Brasil e formaram um bem conhecido bairro brasileiro, em Lagos. Nio importa qual a razio ou razdes; o fato é que o interesse no tema das. condigdes do negro no Brasil foi de tal natureza que os nigerianos ¢ sua imprenst permaneceram atentos até mesmo apés 0 encerra- mento do Festival, Por exemplo, o Daily Sketch em seu editorial de 14/2/77 comentou sob o titulo “FESTAC was Grand, But (FESTAC foi grande, mas...) 0 Coldquio, peea central do FESTAC, rejeitou o trabalho Racial Demoeraey” in Brazil: Myth or Reality? do Profes- sor Nascimento, tim negro brasileiro, sem dar razes validas pura fuzer isso, © fulecido Professor Pio Zirimu, o ugandia~ no diretor do Coldquio, foi transerito dizendo que o “trab: Iho do Professor Nascimento tinha sido rejeitado pelo E: tablishment™: aparentemente porque ele foi considerado ofensivo para alguns governos ou interesses, Se isto foi ver~ dadeiro, enido um grande ponto sobre o FESTAC tem sido ignorado: isto é, ele € mais um acontecimento de povos- para-povos que de governos-para-governos, mesmo que os contingentes nacionais possam ter sido patrocinados por seus respectivos governos. (Pigina 3) A 18/2/71, 0 Daily Times publicou uma carta assinada por Olalekan Ajia (Kuti Hall, University of Ibadan), sob o titulo de “Shadow-Boxing at Colloquium” (Boxeando fantasmas no Cold- quio) (pagina 13), na qual 0 missivista condena a rejeigio do estudo © 4 maneira sigilosa sob a qual os responsiveis esconderam as ri 250s da decisio. Pelas razdes salientadas pelo Daily Sketch em seu editorial, isto & de que a conferéncia deveria ser um encontro de povos e in dividuos antes que de governos, este mesmo didrio tomou a decisio de transmitir na integra, diretamente 20 povo da Nigéria, 2 mensa- 29 gem dos negros brasileiros eontida no trabalho. Assim o Sketch publicou o ensaio, dividido em cinco capitulos, nos dias 11, 12, (4, 15, 16 de fevereiro de 1977, sob o titulo geral de “The do Nase. mento Paper” (O ensuio de Nascimento). © interesse em torno do “caso” atingiu nivel internacional, sntravessando as fronteiras da Nigéria. Um exemplo temos no jornas lista portugués Antonio de Figueiredo, que desde Lagos escreveu longo artigo intitulado “Brasil FESTAC "77", publicado no Diario Popular, de Lisboa, em 23/2/77. Depois de se referir 4 minha entre. Mista 20 Sunday Times como um “olho negro na imagem do Brasil", © cronisia prossexue colacando © dedo na ferida nifieativamente, € com certo escdndalo, a comuni do professor Nascimento “Democracia racial” no. Brasil: Mito ow Realidade? nao foi uprovada Prosseguiigdo seu raciocinio o eseritor comeca a levantar a ponta do véu encobrindo o segredo que envolvia a questi: Allos interesses diplomaticos, diretamente ligados as eres- centes relagdes brasileiro-nigerianas, levantaram-se ¢ pro- fessor Nascimento reeebeu uma resposta de recusa, Figueiredo ajuda a iluminar as defesas encobertas da ideologia bra- siltra a lingua portuguésa ¢ a longa tradigao de censura sobre quest6es raciais 1ém contribuido para manter o Brasil “res- guardado” da atengdo das correntes principais do pan- alricanismo ¢ negritude, E entdo sabiamente adverte 0 eseritor: Mas que 08 nossos amigos brasileiros no se equivoquem acerea da validade da tese do professor Nascimento e apren- dam com a experiéncia portuguésa. (...) E embora o racismo centre portuguéses e brasileiros tenha a condigio de pecado, © que € fato € que se peca a todo o momento, Em forma de livro mimeografado, o trabalho foi editado pelo Departamento de Linguas ¢ Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, © foi distribuido aos participantes do Coléquio. Esta edigio de duzentos exemplares provocou muita discussdo e curiosidade, Uma manifestagio do ativo interesse inspirado pelo volume se en- contra na proposta de um delegado de Zambia a0 Grupo 1: Civili- zacdo Negra e Consciéneia Historica. (Os participantes do Coléquio se dividiram em cinco Grupos de Trabalho a fim de facilitar a dis cussio tépica das teses apresentadas sob a riibrica de um dos dez subtemas; entretanto durante # primeira semana, todos os colo- quianos se reuniram diariamente, pela manhi, em sesso plenaria para a série de Conferéncias Pablicas, dedicando a parte da tarde 30 ‘tos trabalhos de grupo. Na segunda semana quase todo o dia houve sessdes plendrias para discutir os Relatorios de Grupo e suas reco- mendagdes.) Assim foi que o delegado de Zambia, a 26 de janciro, propds na reunido do Grupo IV que se tomasse em consideragao, em suas recomendagoes, as sugestdes e a deniincia que eu havia fei to através de varias intervengSes nos debates do Coldquio. Foi também neste Grupo que o Professor Fernando A. A. Mourio, delegado oficial do Brasil, apresentou seu trabalho The Cultural Presence of Africa and the’ Dynamics of the Sociocultural Process in Brazil' (A presenga cultural da Africa e a Dindmica do Processo Sociocultural no Brasil), o qual comentarei mais tarde no texto deste volume. O Relatorio do Grupo IV, preparado pelo Rap- porieur (relator) Dr. Aleme Eshete, da Etiopia, contém 0 seguinte somentario « propésito dessa contribuigao do’ Brasil: O orador brasileiro disse que a cultura africana tanto ten) Penetrado nu sociedade brasileira que hoje é dificil com!) preender a cultura brasileira sem compreender a cultura aft. cana, Os participantes souberam pelo mesmo autor que Brasil era uma sociedade multiracial e multicultural. Entre tanto, esta afirmagdo foi fortemente desafiada por outr Professor brasileiro, Nascimento, o qual disse que no Brasil cOr negra era considerada inferior e que os brasileiros cor sangue africano sofriam diseriminagao. Entre as Recomendagdes aprovadas por esse Grupo de Traba- Iho ¢ inserita no mesmo relatério havia a seguinte: ' Contribuiedo cultural Africana no Brasil, Suriname, ¢ fndia Dravidiana: Os membros deste Colbguio recomendam que em vista do forte protesto do professor Nascimento, uma investiga- {do seja feita sobre as condigdes dos negros no Brasil, para se verificar se hii ow ndo discriminago contra os negros e a cultura afrieana, Que outras pesquisas sejam realizadas sobre a posiggo éa assimilagio e da contribuiggo dos africanos no Brasil. No plendrio do Coldquio do dia 29 de janeiro se discutiu 0 Re- latorig e as Recomendagdes do Grupo IV. Tal sesso constituiu um evento verdadeiramente histdrico nos anais da imagem internacio- nal do Brasil Devo primeiramente mencionar que os delegados oficiais do Brasil ~cerea de cinco ou seis - durante o decorrer de todas as ses. Ses plenarias do Coléquio nem por uma tinica vez se dignaram abrir a boca para articular qualquer comentario, sugestao, critica 31 ‘ow emenda ao que se discutia, Eles optaram pela absolute ¢ total ‘omissio: até mesmo quando a discussdo afetava diretamente 0 Bra- sil, Em uma das sess6es plendrias propus que o portugués fosse con- siderado como uma das linguas oficiais em todos os futuros Festi- vais, Coléquios ou qualquer outro encontro do mundo negro- afticano. Esta proposta se baseava no fato de existir enorme popu lagdo africana, no continente e fora dele, usando a lingua portugué- st; ndo apenas os sessenia ou mais milhdes de descendentes africa- nos no Brasil, como também os africanos de Angola, Mogambique € Guiné-Bissau. Parece Sbvio que to grande parcela da familia africana no devesse ser obrigads a se submeter nao s6 a imposigio colonial de uma lingua ~ a portuguésa ~ mas por acréscimo ser re- colonizada por seus irmaos africanos através do uso compulsério, do francés e do inglés exigido, por exemplo, pelos dois Festivais, camo 0s inieos idiomas permitidos, Esta proposta foi aprovada na sessio plenaria do dia 29 de j neito. Aprovacao esta obtida sem nenhum apoio da delegagao ofi- cial do Brasil, a despeito da conseqincia imediata que tal medida teria sobre a populagdo negra do pais, A proposta teve, nao obstan- tc, o suporte e a defesa do Dr. Maulana Ron Karenga, jlustre com- batente da luta libertiria dos irmaos negros dos Estados Unidos. ‘A recomendagio n® 5, do Grupo IV, citada anteriormente, foi ‘© tinico ¢ singular item entre todos discutidos nas sessdes plenacias, ‘que mereceu a atencio e resposta dos delegados oficiais brasileiros. A discussio deste topico fol iniciada pelo Dr. George Alakija, que leu umas poucas palavras dizendo mais ou menos o seguinte Eu sou representante permanente do governo brasileiro jun- to. a0 FESTAC. Eu sou meio brasileiro e meio nigeriano. A proposta em discussio € de natureza politica. O professor Nascimento do é um delegado oficial neste Coléquio, por esta razio nao pode fazer nenhuma proposta. Se esta recomendagdo, de sentido politico, fdr aprova- da, ela eriard complicacdes e dificuldades nas relagdes entre © Brasil ¢ Nigéria. ia nas palavras do Dr, Alakija provocow in- tensa expectativa no plensrio. Foi quando o Coronel Ali, Presiden- do Coléquio, proferiu calmamente e com dignidade exemplar & fulminante resposta: = Nao, para Nigéria nao haverd nenhuma dificuldade ¢ ne- hum embarago, Em verdade, estava 6bvio para o plendio a falta de fundamen- to na tentativa do delegado oficial brasileiro de afogar a recomen- 2 ‘40 de que o membro ndo-oficial nao tinha auto- ridade para fazé-la. O autor da recomendagio havia sido um dele- gado oficial africano (de Zambia) e fora aprovada por todo 0 Gru. po IV. Nao obstante, o debate prosseguiu no seu curso. Varios dele- gados se manifestaram antes que @ palavra me fosse concedida, Quando enfim pude falar, lamentei de inicio, o fate de que em lugar de argumentos contrariando minhas afirmagoes, o delegado oficial do governo brasileiro tivesse simplesmente focalizado, aliés imper- inentemente, questio de natureza burocratica no conhecido tom brasileiro de repressio policial, O comportamento do Dr. Alakija - como também idéntico comportamento do Professor Mourio no Grupo IV exibiram para quem ainda necessitasse de “provas” obje- tivas do carter da nossa “democracia racial”, o respectivo auténti- £0 € grosseiro strip-tease. Pois diante da assembléia de todo o mun- do negro-africano, através desses delegados, o Brasil reiterou uma vez mais sua habitual insensibilidade & voz de um descendente afti- ano, tentando silencii-la. Ainda mais chocante; o Brasil ndo trepi- dou em publicamente confirmar sua arroganeia face aos paises $0- beranos da Africa, ameagando abertamente a Nigéria em seu pré- prio solo! Voltando a recomendagio em debate; nao era eu 0 seu Proponente e a considerei desnecessiria por jl existirem varias pes- uisas a respeito, inclusive trabalhos patrocinados pela UNESCO e feitos por Florestan Fernandes, Roger Bastide e varios outros. Na casio, ofereci ao Presidente do Coléquio uma lista, feita de me- moria, com cerca de trints indicagdes entre autores e titulos de obras, todas revelando de uma forma ou de outra o racismo subja- cente na sociedade brasileira: entre os nomes incluidos se contavam es do ganaiense Anani Dzidzienyo, dos norte-americanos Thomas E. Skidmore, Angela Gillian, Doris Turner, Carl Degler, da cubana Flora Mancuse Edwards, dos brasileiros Guerreiro Ramos, Alva= Fo Bomilear, A. Silva Mello, Thales de Azevedo, Sebustido Rodri- gues Alves, Arthur Ramos, Octivio Lanni, Vioti da Costa, Fernan- do Henrique Cardoso, Romeu Crusoé, etc. Com este fundamento, © como substitutive 4 recomendagdio em aprego, propus 0 seguinte: 5. O Coléquio recomenda: i que o Governo Brasileiro, no espirito de preservar e ampliar | consencia Wstrica nos descendents aficanos da popu] Iago do Brasil, tome as seguintes medidas: 4) permita ¢ promova a livre pesquisa e aberta discussio das Felagdes raciais entre negros e brancos em todos 05 niveis econdmico, social, religioso, politico, cultural, ¢ artistico, 3 b) promova ensino compulsério da Historia e da Cultura da Africa ¢ dos africanos na diéspora em todos os niveis da ‘educagio: elementar, secundiria e superior; ©) inclua informagdes vilidas com referéncia aos brasileiros de rigem africana em todos os censos demograficos, assim como em outros censos tais como: natalidade e morte, casa- mento, crime, educagdo, participagdo na renda, emprego, mobilidade social, desemprego, saiide, emigragio e imigra- d) demostre seu muito autoproclamado interesse e amizade & Afriea independente, concedendo ativo apoio material, politico ¢ diplomatico aos legitimos movimentos de libera- Gio de Zimbabwe, Namibia e Africa do Sul Esta proposta nao Toi aprovada, No entanto, restrito ao meu status de observador, tentei colaborar para que 0 Coléquio atingis- se 0 objetivo para o qual foi estabelecido: a busca de um futuro de melhor qualidade para os africanos e os negros do mundo. A as- sembléia geral discutia 0 Relatério do Grupo I ~ Civilizagiio Negra © Pedagogia numa outra sesso do Coléquio, Basicamente, 0 relaté- rio, conforme seu predmbulo, tratava da grande necessidade de redefinir nossos objetivos ¢ propési- Tos educacionais para refletir os permanentes e estiveis valo- res sociais, culturais e econémicos da Africa. * Notando que 0 relatério nio mencionava os africanos fora do continente, propuz ao Plendirio a seguinte recomendagio G. Educagiio dos africanos na Diéspora 26. Que os governos dos paises onde exista significativa po- pulagio de descendéncia africana incluam nos curriet Tos educativos de todos os niveis (elementar, secundario, € superior) cursos compulsérios que incluam Histéria Africana, Swahili, e Historia dos Povos Alricanos na Diispora, Outra proposta detrotada aparentemente sob 0 pretexto de que 0 Rekatorio se referia unicamente aos africanos no continente © seus respectivos governos. De qualquer maneita, os delegados ao Coléquio fiearum sabendo que no Brasil nao existe, em qualquer etapa do ensino ~ elementar, médio e superior ~ cursos sistemticos de Historia da Africa, seus povos e suas culturas, Nem os afto- brasileros, nem os “brancos” brasileiros, estdo informados dos problemas emergentes da vida africana continental ou na diéspora, sob © ponto de vista da escolaridade. A inclusdo do Swahili enfati- zou o apoio dos povos negros na diispora ao projeto da Uniao dos Escritores Alricanos (4frican Writers’ Union), to convincentemen- te defendido por Wole Soyinka em conferéneia pibliea no Col 4 eee ene Es quio intitulada “The Scholar in African Society” (O scholar na so- ciedade africana), O projeto de selecionar e ensinar uma lingua - 0 Swahili ~ entre todos os Abibiman (povos airicanos ¢ negros) do mundo € nevessidade urgente. S6 assim nfo continuaremos depen- dendo das elaboragdes conceituais da Europa para nossa interna- cional e entre-irmaos comunicagao. Como imediatamente afirmou © Dr. Maulana Ron Karenga, a comunidade negra dos Estados Unidos estava ja ativamente engajada na promogio, e no ensino, do Swahili, endo ha razdes para que o Brasil nio possa fazer 0 mes- mo, Uma das grandes desvantagens do afro-brasileiro em sua co- municagdo internacional tem sido a marginalidade da lingua portu- guésu; com a adocdo do Swahili entre os negros do Brasil, nossa i teragio com nossos irmaos africanos melhoraria consideravelmen- te, dirios aspectos da realidade, em matéria de relagdes de raga brasileiras, contidas tanto no meu trabalho "Rar cial Democracy” in Brazil: Myth or Reality? como inclusive nas in- tervengdes ¥: s pelo autor no desenrolar do Coléquio, hal ‘ram a comissao redatora do Relatério das Minorias do Coléquio 2 incluir uma segio sobre 0 Brasil. O Relatério das Minorias est publicado integralmente no fim deste volume como Docunento n° I Quanto as contribuicdes dos delegados oficiais do Brasil, elas foram mera repeticdo da linha tradicional do pais: Fernando A. A. Mourio ¢ Clarival do Prado Valladares *, cada um & sua maneira ¢ ‘em seu campo especifico de interesses, deram a bendigéo ao status quo desirutado pelos afro-brasileiros; René Ribeiro ‘, Yéda Pessoa c Castroe seu marido ’, eo Dr, Alakija ', produairam monografias, deseritivas, de pretenso cardter cientifico; trabalhos de cun'o aca- démico naquela orientagdo que 0 Teatro Experimental do Negro, desde 1944, ver denunciando como totalmente iniiteis as necessi- dades da populacdo negra brasileira. Tal “ciéneia” em geral usa 0 ‘ro-brasileiro ¢ 0 africano como mero material de pesquisa, disso- ciado de sua humanidade, omitindo sua dindmica historica, ¢ as as- piragdes de sentido politico ¢ cultural do negro brasileiro. Sao estu- dos de vista curta, em geral considerando os povos afticanos e ne- 870s como “interessantes” ¢/ou “curiosos”; tais “estudos” véem 0 hegro apenas na dimensdo imobilizada de objero, verdadeira mimia de laboratério, oO, fepresentante permanente do governo brasileiro junto a0 FESTAC, gue ¢ também um desses cientistas, merece atengio espe- cial como expressivo exemplo de pesquisa estéril, Estudando oesta- o de transe ni religido afro-brasileira, o Dr. George Alakija insiste no uso de rotulos ¢ expressdes pejorativas, cunhadas pelo eurocen- 35 trismo pura descrever essas religides, tais como “cultos primitivos” (p. 8), “religiio animista” (p. 8), ou “aparéncia magico-primitiva” (. 9). © Dr. Alakija, um psiquiatra, preocupa-se primariamente com © cavalo, o sacerdote afro-brasileiro que entra no estado de transe religioso para receber 0 Orixa, Seguindo critério de verdadeira cién- cia européia quando se defronta com uma cultura que ela no com- preende, Dr. Alakija esquematiza sua interrogagio central: (© que podemos dizer sobre os “cavalos™? Sio eles sujeitos & histeria ou a similares formas de desequilibrio, cujo estado patologico é solo fértil para germinagio do complexo feno- menal? Estdo eles engajados em mistficagao? Estas questoes jd foram tratadase respondidas muito antes por Roger Bastide, especialista da Sorbonne e simultaneamente com responsubilidade no culto de Xango. Bastide expde o valor da tese sociologica, oposta A tese patoldgica: o que torna a crise violenta nao € 0 terreno neuropaitico constituido pelo indivi- duo no qual ela explode, mas 0 modelo mitoligico fornecide pela sociedade ao individuo. * (enfase no original) Nosso Dr. Alakija, nfo convencido com tais refutagdes, prefe- re se enireter no terreno patoldgico. Suas conclusdes classificam 0 transe espiritual como um estado sofrdnico que “ni pode ser clas sificadlo nem como ordindrio nem como patolégico.” (p. 4) © autor tenta aproximar-se da questo central por ele levanta- da através da aplicagio dos conceitos da safrologia, segundo cle, “uma nova disciplina cientifica originada em Madrid em 1960." (p. 3) Com estes instrumentos © Dr. Alakija analisa 0 estado de posse sio mistica. Uma vez mais, a patente aplicagdo de perspectivas eu- ropéias para fendmeno puramente africano e/ou afro-brasileiro, ea mondtona repetigdo do comportamento cientifico domesticador que Mloresceu na Europa e nos Estados Unidos desde o século pas- sado. Nese aspecto o Dr. Alakija dé continuidade a uma verdadei- ramente curiosa linha da “‘ciéncia” brasileira: o interesse de quase um século demonstrado pelos psiquiatras no estudo das religides afro-brasileiras. Foi Nina Rodrigues 0 ponto inicial do estudo psi- quiatrico classificador do éxtase mistico ao nivel da histeria, ou ma nifestacio patolégica. Arthur Ramos, outro psiquiatra, foi discipu- lo de Nina € 0 seu continuador. Presentemente René Ribeiro ¢ George Alakija corporificam essa tendéncia que, parece, vai-se tor- nando uma tradiclo na psiquiatria brasileira, Deixo ao leitor tirar sua propria conclusio do fato, repleto de implicacdes, de que no Brasil, uma das qualificagdes para o estudo do negro ¢ das religides afro-brasileiras, & ser um especialista em psiquiatria 36 A tse de Nina Rodrigues, classificando 0 éxtase religioso como patoldgico, segundo Alakija (p. 10), baseia-se na Escola Sal- petriére, de Paris, famosa na passagem do século XIX para 0 XX, ¢ inclui a influéneia dos trabalhos de Pierre Janet e Charcot. O Dr. Alakija, trocando Paris por Madrid, tem certamente dado um salto radical a partir das santificadas ligdes de Rodrigues. Entretanto, ele toma precaugdes para nao cair em superentusiasmos de avaliagdo, Ele conclui assim Hoje em dia ndo pode haver dividas de que as pessoas que Fevebam tais possessdes so mentalmente saudaveis, ‘mas rapidamente acresventa na mesma frase, cuidando-se de exage- ros: embora isto nio impossibilite que num ou noutro grupo possa haver individuos que apresentem evidentes anomalias patoldgicas. (p. 10) Entretanto, no devemos temer 0 pior. © Dr. Alakija fez 0 exa- mental em quinze pessoas, dez “cavalos” de Candomblé e cinco médiuns do espiritismo cardecista, Os resultados quanto a “nivel de inteligéncia” e “conhecimento geral” nao sio terrivelmente desfa- voriveis & linha de pensamento estabelecida e sucralizada por Nina Rodrigues: EXAME MENTAL * Norma Ab = Anormal P= Presente Ausente P~ Pobre L = Baixo R= Rico iW Ako S = Satifutdrio Mimero 1234567 8910n02 13 IIS Sexo FMFFEFRFPPRFPEP EME Geral NNNNNNNNNNNNNNS Comportamento NNNNNNNNNNNNNNN Fila NNNNNNNNNNNNNNN Humor NNNNNNNNNNNNNNN Hester AAAAAAAAAAAAAAA ‘alsas interpretagies AANAANAAAAAAAAAA Disiurbios de Peteepeto RRA AAAAARAAAAAA Fendmeno compulbivo AAA AAAAAAAAAAAA Srientigio NNNNNNNNNNNNNNN Memiria no NNNNNNNNNNNNNNN Atencio « Concentraedo $5 $5 SSSSSSSSS Niele intebgéncia ELL LLL LEC LELL LL hesimento eral PPPPPPPPPPP PPD D * Tabelstomada dretamente da pigina 11 da monografa Simbolos pars Awsentee Sorta lo, respestivamente, Abs Ab mo argh. Els foram mudados gud sumpesmente part faclidade datlogriea Ko Desta breve mostra podemos coneluir da inequivocs identida- dle do Dr. Alakija com a do pesquisador de visio distoreida reviven- do nos dias de hoje aquéla “perspectiva cientifica” adotada por Nina Rodrigues, no eomego do século, Por coincidéncia sio ambos rmulatos, baianos ¢ psiquiatras, Coincidéncia que se nos afigura as- saz curiosa e interessante... Anda um outro delegado oficial do Brasil: AntOnio Vieira. Seu trabalho, intitulado Camino Vivencial de wn sdutor Afro: Brasileiro, no foi distribuido no ColBquio, assim no podemos co- menticlo agui. Porém assistimos ao pronunciamento que fez no Grupo de Trabalho I: um répido comentario sobre sua propria poe sia. Quem Ié-as poesias de Vieira fiea impressionado com a nenhu- ma referéncia e engajamento do autor com a cultura, o espirito, ¢ os problemas dos descendentes africanos no Brasil, Enquanto ouvia Vieira falar, interiormente eu lamentava a auséncia de poetas ne- 8108 brasileiros do porte, por exemple, de um Osvaldo Camargo, tum Eduardo de Oliveira, vozes fortes da cultura afro-brasileira ¢ das aspiragdes negras, vozes vitais nfo domesticadas pelo Estabele- cimento, Vozes evocadoras do espirito rebelde de um Solano Trin- dade ou da eritieasutil de um Lino Guedes, todos estes autenticos wates dos negros: de sua vida e da sua morte, das suas esperancus, das suas hutas por liberdade e dignidade Agora devo ser indulgente comigo mesmo e abrir um parénte- ses para evocar e celebrar vertas imagens nostilgicas do FESTAC. (0 Coldquio revelou-se acontecimento excitante e significative. Es- peremos a pronta divulgagio dos trabalhos apresentados ¢ das Re- solugies tomadas para o conhecimento geral de toda a familia ne gro-africana, Devemios aguardar, principalmente, resultados con- cretos. Eniretanto, o que no Colbquio se pensou, se discuti, se es- crevei e se decidiu no deveri, esperemos, ficar eneerrado nos ar- ‘quivos mais ou menos inacessiveis desse histérico encontro da inte- ligéncia africana © negra de todas as partes do mundo. Desde dingulo muito pessoal, ¢, confessemos, emocional, di cilmente poderia esquecer certas imagens que durante os trabalhos foram captadas por minha sensibilidade, gravadas na meméria, Oh meus irmaos e minhas irmas! Como esquecer aquela comunicabili- dade explosiva do Dr. Maulana Ron Karenga, ¢a segura e discreta competéneia do Dr, Ron Walters, ambos da comunidade negra dos Estados Unidos? E o primeito encontro, « tanto tempo desejado, 38 com poeta Mario de Andrade, atualmente no Consetho Nacional de Cultura de Guiné-Bissau? E rever o artista © Sous Clington, sempre sorrindo a prépriainguietag ria esquecer a palavra brilhante do Dr. Hussein M. Adam, da So- inilia ow 9 Feeneontro om Kofi Awoonor, ineseratavel novelista de Gana, E Keorapetse Kgosisle, empunhando a poesia bélica da libertagdio do seu pus: Africa do Sul. Foram todos estes momen- tos de intenso valor esprituale humano, Porém houve mais: houve 1 comovente solidariedade de Leo W. Bertley, do Cunadd, houve 0 hhomem do jase Ted Joans, cberto com o poy a poesia e o conhes mento histérico de Timbukty,. E-0 Dr, Molefi K. Asante, aquele due derrete a invulnerdvel neve de Buffalo com o calor do seu esp tito Fraterno ni lit Proclamo c eelebro agora a dnica personalidade que realmente sgalvanizou a assembléia: a dramaturga de Quénia, Dea. Mugo. Sua palaura bela e vibrante ecoard pura sempre na lembranca de todos jaqueles que a ouviram s0b 08 aplausos tempestuosos dos delepados no Coldquio. E outros encontros aconteceram, outras alegsias emergiram dos corredores, dos salbes, dos restaurantes, do imenso Teatro Na- sional E-entao chegou a ver de acontecer Ernest Ctichlow, 0 exee. lente pintor norte-americano, deslumbrado com a sabedoria de cer. to Babalad de Abeocuti; ¢ aconteceu Ola Balogun earregando no calmo olhar inguisto todos os sontios do cinema nigeriano: ¢ hou vee 9s brasileiros, o sax extraordindrio de Paulo ransado em ritmo sutil-irdnico de Gilberto Gil e Caetano Veloso; sia trancada na seriedade de Rubem Confete. Ea irmi Tereza Santos! Sua presenga me devolveu a emoedo de lugares e tempos que se foram: o Rio de Janeiro do teatro negro. Pogas e ensaios, a existenca fecida em dancas, pocsia; e no canto ¢ natldyrimta,e na esperanga forjavanmos um lugar para a nossa gente nos paleos brasileiros. Agora voee, Tereza Santos, orgulhosamente Tesgatou sua cidadania original; se tornou cidada de Angola, ¢ cola- bora na edifieacto do teatro revolucionirio de sua nova e antiga patrianmie. Antes da abertura do Coléquio, revistas nigerianas me pe ram para escrever dois artigos relacionados a contribuigio do Bra- sil ao FESTAC ‘77. Ambos estio incluidos neste volume. So: Tea- tro Negro do Brasil: wma auséncia ostensiva (Documento n° 11), que foi publicado em AYriscope. revista de Lagos, edi¢lo especial dedi- 9 —————— ve cada a0 FESTAC, janeiro de 1977; ¢ Arte afro-brasileina: um espi 10 libertador (Documento n° 111), escrita para Chindaba (antigamen. te Transicdo) editada por Wole Soyinka. A edigao especial sobre 0 FESTAC. para a qual o artigo se destinava, nio foi publicada por questdes téenicas de impressao. texto original deste volume, apresentado ¢ rejeitado pelo Co- \quio, sofreu pequenas alteragdes: foi revisto, e acrescentadas no. vas informagdes, fatos © comentirios Gosturia de expressar minha gratidio aos autores citados no texto deste livro, especialmente a Thomas E. Skidmore, Florestan Fernandes, ¢ Anani Dzidzienyo, pela fundamental contribuigao de seus trabalhos. Também agradego 20 Departamento de Linguas ¢ Literaturas Atricanas ds Universidade de Ife, pelo apoio que me dew e pelo convite como Professor Visitante: isto me ensejou prod: zit © presente ensaio e participar no Coloquio. Minha profunda gratidio ao Daily Sketch por seu inequivoco e decisive apoio du. ante todo o processo que resultou neste volume. Também estou em débito com Olabiyi Babalola Yai, meu coléga, pelas Fontes de inlor, magio que me forneceu. Meu reconhecimento fraterno a, Wole Soyinka, inteligéncia eriativa da cultura revoluciondria da Africa, pela enérgica solidariedade demonstrada em todo o desdabramento do caso. Finalmente meu profundo e emocionado agradecimento 2 ‘minha mulher Elisa, no s6 pela tradugzo da edigao em inglés, ¢ a datilografia dos textos, mas, sobretudo, por sua total e estimulante Participacdo nesta peripécia nada democriitica de demolir mitos antichist6ricos, — Em certo momento na‘ssembleia geral do Coléquio, quando os delegados oficiais d0’Brasil tentavam me silenciar, levantei mi. vou € me-identifiquei no como representante do Brasil mas como um sobrevivente da Republica dos Palmares. € nesta qualida, de que me reconhego e me confirmo neste trabalho. A.N. (um quilombola dos Palmares) 6-118, 14 de marco, de 1977 40 I INTRODUCAO © ensaio que desenvolverei nas paginas a seguir nfo se molda nas formulas convencionalmente prescritas para trabalhos acadé iicos ¢/ou contribuigdes cientifieas, Nem estd o autor deste inte- ressado no exercicio de qualquer tipo de ginistica tebrica, imparcial € descomprometida, Nio posso e no me interessa transcender mim mesmo, como habitualmente os cientistas sociais declaram sus Dostamente fazer em relagdo as suas investigagdes. Quanto a mim, considero-me parte da matéria investigada. Somente da minha pro pria experiéncta e sieuaedo no grupo étnico-cultural « que perteneo, interagindo no contexto global da sociedade brasileira, 6 que posso Surpreender at realidade que condiciona o meu sere o define. Sita. «do que me envolve qual um cinturio histérico de onde ni0 posso escupur conseientemente sem praticar a mentira, a traicio, ou dis. torgio da minha personalidade © que o leitor encontrarit nestas paginas se insere no contexto de um mero testemunho eruzado de reflexdes, comentarios, eriticas ¢ conclusdes pertinentes ds respectivas etapas do trabalho. O que logo sobressai mu consideragio do tema basica deste ensaio & o fato de que, a base de especulagdes intelectuais, freqdentemente com o apoio das chamadas ciéncias historicas, erigiu-se no Brasil o concel- to da democracia racial: seaundo esta, tal expressio supostamente {Is pulavras do professor Thales de Azevedo, “o maior at diretor, Professor Pio Zirimu, ‘brange uma yisdo total da expe- riéncia coletiva do homem negro e africano” °,"tem a obrigagiio es- Ha alguns “cientistas” que de fato ajudam a construir toda uma carreira com a fabricagio de novos eufemisimos deste porte Um dos exemplos mais convincentes se encontra no internackona!, mente fumoso historiador Gilberto Freyre, fundador do chamado {uso-tropicalismo, a ideologia que (Zo efetivos servigos prestou ao colonialismo portugués. A teoria tus a de Freyre, pa indo da suposio de que a RatOR SST ET Pacidade dos seres humanos em erigir eivilizagdes importantes nos Lrépicos (os “selvagens” da A fri dios do Brasil seriam do- cumentos viventes deste fato), afirma que os portugueses obtiveram xito em eriar, no s6 uma altamente avangada civilizagao, mas de fato um paraiso racial nas terras por eles colonizadas, tanto na {rica como na América. Significativamente, um dos livos de auto. | ria de Freyze se O mundo que 0 portugués criow. Sua enti Sidstica glorificagio da eivilizagio tropical portuguesa depende smn grande parte da teoria de miscigenagio, cultural e fisica, entre ne, 2 ~ gros, Indios ¢ brancos, cuja pritica revelaria uma sabedoria dnica, expicie de vocaeio espeeifica do portugues. Mirio de Andrade, 0 poeta angolano, foi um dos primeiros a efetivamente refutar este ar dil colonizador. Mais recentemente, 0 eseritor ¢ jornalista portugués Antdnio de Figueiredo, eserevendo desde Lagos, Nigéria, expde uma vez mais a real natureza do luso-tropicalismo gilbertofreyreano: as concepedes e praticas de tolerancia luso-tropicalista fo- ram ultrapassadas © tomaram-se_irrisorias. Tolerincia, como conceito moral, implicava ainda uma arraigada, ainda que inconsciente, nogio de condescendente superioridade racial Sirtamos, naruraldo-“braeo” brasileiro. Como sempre, Freyre Tigra bem afrmanva: ele considera Oliveira Viana, como“ maior mistico do arianismo que uinda surgiu entre nds” " entre tanto Freyre hao imagina, conforme observa o critico Agripino Grieco, que Casa grande e senzala, 0 livro que o tornou famoso, foi diretamente influeneiado pelo pensamento de Oliveira Viana e Al- berto Torres.” Este fértileriador de miragens no se contentou com a moren- dade, Sua mais recente faganha esta na tentativa de atrelar os afric nos uo bareo perdide das lusoes coloniaistas Dai justificarse uquele neologismo criado por sécio- antropélogo brasileiro: co-colonizuelo. Conceito que cor- responderia 4 caracterizagao do negro africano, a despeito de sua condic¢ao de escravo, como co-colonizador do Brasil com consideravel influéncia aculturativa sobre o amerindio, menos desenvolvido em sua cultura do que o negro africa. 0." uja Fesponsabilidade € exclusiva das classes “que na sua Tomposcio total silo de origem branco-européia. As populagbes Indigenas no comeco da colonizagio, contorme as estimativas mais 43 uutorizadas, somavam cerea de dois milhées de seres humanos, Atualmente, como resultado ou da extingzo direta, com ou sem vio- léneia, ou dos métodos de liquidagiio sutis e indiretos, aqueles ni meros reduziram-se consideravelmente: nfo excedem a duzentos mil nos célculos mais otimistas. Este exterminio das populacdes indigenas do Brasil, constitui ainda hoje um explicito objetivo do Governo Brasileiro, A 28 de de- zembro de 1976, 0 altamente respeitado Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, publicou uma entrevista com 0 Ministro do Interior, Ran- gel Reis. Seu ministério preside os assuntos indigenas através da Fundagiio Nacional do Indio (Funai), e na entrevista Reis afirma Vamos procurar cumprit as metas fixadas pelo Presidente Geisel para que, através de um trabalho concentrado entre varios Ministérios, daqui a 10 anos possamos reduzir para 20 mil os 220 mil indios existentes no Brasil, e daqui a 30 ‘anos, todos eles estarem devidamente integrados na socieda- de nacional. " Um sacerdote jesuita, Egydio Schwade, langa seu grito paté Poucos povos do mundo possivelmente terfio conseguido re- sistir tanto tempo e com {do poucos recursos a uma socied: de tio barbara e tio covarde que os invade, como 0 tém con- seguido os braves Waimiri-Atroari..." Enquanto isto ocorre a fertilidade ideolégica de Freyre, nio contente em simplesmente implicar os africanos nesse genocidio dos indios, continua sua euforia autodeslumbrada, agora cunhando © préprio “mestre” u etarraca, 0 iltimo, as- sim parece, produto da sua fantasia. A metarraca significaria 0 além-raga, suposta base da consciéneia brasileira. Atingiriamos neste ponto do nosso desenvolvimento demogrifico uma sintese su- prema: 4 uorenidade mewurracial, oposta aos concsitos Fornecidos Por arianismo © negitude, ambos clasificados como tacistas por Gilberto Freyre. " E oportuno transerever uma frase do historiador Thomas E, Skidmore comentando a otal inutilidade, aos interesses do negro brasileiro, dos trabalhos de Freyre © valor pritico da sua anilise néo estava, todavia em pro- mover 0 igualitarismo racial. A andlise servia, principalmen- te, para reforgar o ideal do branqueamento. ” s sofismas gilbertofreyreanos trazem ainda d mente certa pas- sagem de Frantz Fanon: Nesta etapa o racismo nio se atreve mais a aparecer sem dis- farce. Ele esté inseguro de si mesmo. Em niimero sempre cerescente de circunstancias, 0 racista se esconde. (...) © pro- 44 sito do racista tem se tornado um propésito assombrado pela ma conseiéneia. * De favo, tanto o paiernatismo, quanto 0 neocolonialismo e 0 racismo que permeiam a obra de Gilberto Freyre so mais pernicio- sos que todo set elenco de eufemismos. Batizados de morenidade, metarragi ou qualquer outro nome que sua imaginagio possa fan asia, a farsa de Gilberto Freyre se desarticula na contradigio de seu prdprio raciosinio e de suis proprias palavras: pois o paladino dias mestigagens éino-culturais afirma que estas ocorrem entre 08 brasileiros sem que signifique reptidio & predomindncia de valores cultu- ruis europeus na formagio brasileira, " (minha énfase) Destacado socidlogo brasileiro Florestan Fernandes esereveu © seguinte a respeito do trabalho de Freyre: Devo observar de saida que este assunto de “democracia ra- cial” esta dotado, para o oficialismo brasileiro, das caracteri intociveis de verdadeiro tabu. Estamos tratando com uma questéo fechada, terreno proibido sumiamente perigoso, Ai daqucles que de- safiam as leis deste segredo! Pobre dos temerarios que ousarem ra- zer 0 tema a atencdio ou mesmo & andlise cientifica’ Estardo cha- mando & atengao para uma tealidade social que deve permanecer escondida, oculta, Certamente, como sugeriu o antropélogo Thales de Azevedo, para que nio “despertemos as supostas vitimas™. De acordo com um estudo-pesquisa do scholar ganés Anani Dzidzie- yo, publicado pelo Minority Rights Group, de Londres, intitulado The Position of Blacks in Brazilian Society (A posigao do negro na ade brasileira), existe uma eviquéta envolvendo as relagbes de aga no Brasil, a qual permeia a sociedade que faz dela uma prética consuetudinari: Esta etiqueta dita fortemente contra qualquer discussio, es- pecialmente em forma controvertida, da situagdo racial, assim ela efetivamente ajuda perpetuar 0 modelo de relagdes ‘que tem existido desde os dias da escravidio, Tradicional- mente se espera que os negros sejam gratos aos brancos por generosidudes que Ihes foram concedidas, ¢ que continuem dependendo dos brancos que agem como patronos ¢ benfei- ores deles; também se espera que os negros continuem acei- tando os brancos como os porta-vozes oficiais da nagio, ex- 45