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Eugenio Raúl Zaffaroni

A questão
criminal
Tradução
Sérgio Lamarão
Revisão da tradução
Antonio Almeida

Editora Revan

Copyright © 2013 by Editora Revan
Todos os direitos reservados no Brasil pela Editora Revan Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios
mecânicos, eletrônicos ou via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
Revisão
Roberto Teixeira
Antonio Almeida
Capa
Sense Design & Comunicação
(Com ilustrações de Rep)
Impressão e acabamento
(Em papel off-set 75 g. após paginação eletrônica,
em tipos Garamond 11/13)
Divisão Gráfica da Editora Revan
Produção de ebook
S2 Books
CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Z22q
Zaffaroni, Eugenio Raúl, 1940A questão criminal / Eugenio Raúl Zaffaroni; tradução Sérgio Lamarão. – 1. ed. – Rio de Janeiro : Revan, 2013.
il.; 320p.; 23 cm
Tradução de: La cuestión criminal
ISBN 978-85-7106-504-8
1. Criminologia. 2. Direito penal - Brasil. 3. Crimes e criminosos. I. Título.
13-04452 CDU: 343.2
22/08/2013 26/08/2013

Ilustração 1
A tradução dos textos inseridos nas ilustrações está na página "Tradução de textos das ilustrações".

1. A academia, os meios de comunicação e os mortos[1]
Em qualquer lugar da superfície deste planeta fala-se da questão criminal. É quase a única
coisa de que se fala – em concorrência com o futebol, que é arte complexa –, embora poucos
pareçam se dar conta de que machucamos muito o planeta e podemos lhe provocar um espirro
que nos projete violentamente a quem sabe onde (para não usar alguma expressão pouco
acadêmica). Fala-se, diz-se, com esse “se” impessoal do palavrório. E o mais curioso é que quase
todos acreditam ter a solução ou, pelo menos, emitem opiniões.
Claro que se fala ao compasso de julgamentos assertivos em tom sentenciador, emitidos
pelos meios de comunicação de massa, estes às vezes nas mãos de grandes corporações
transnacionais, enredadas com outras que disputam o poder aos Estados, bastante impotentes,
do mundo globalizado.
É indispensável escutar o que se fala para não se ficar falando sozinho, como costuma
acontecer no mundo acadêmico. E em nosso país, e nos outros por onde às vezes me desloco,
fala-se da questão criminal como de um problema local. As soluções passam por condenar um
ou outro personagem ou instituição, mas sempre falando de um problema local, nacional,
estadual, às vezes quase municipal.
Poucos se dão conta de que se trata de uma questão mundial, na qual se está jogando o
âmago mais profundo da forma futura de convivência e talvez, inclusive, do próprio destino da
humanidade nos próximos anos, que pode não estar isento de erros fatais e irreversíveis.
Se ficamos no plano da análise local, perdemos o mais profundo da questão, porque
olhamos as peças sem compreender as jogadas do tabuleiro de um xadrez macabro, no qual se
joga, em definitivo, o destino de todos.

Quando nos limitamos a esses julgamentos, ficamos presos à Doña Rosa
http://es.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Neustadt. É claro que se deve resolver o problema da
Doña Rosa, mas a armadilha do velho comunicador dos festivos anos 1990 consistia em nos
encerrar no problema de Doña Rosa. Devo esclarecer que sempre me ofendi com aquela
menção a Doña Rosa, por me lembrar de minha avó materna, que se chamava Rosa e vivia em
um bairro – como eu sempre fiz – e pensava muito mais e melhor do que o personagem de
ficção com o qual o artífice da comunicação dos anos irresponsáveis sintetizava sua
argumentação enganosa.
Quando se abriu a possibilidade de escrever esses suplementos, confesso que me senti
seriamente desafiado. Em todo o mundo acadêmico, os dedicados ao tema observam e criticam o
fenômeno da centralização da questão criminal, e o fazem, inclusive, com diagnósticos muito
bons. Nenhum dos conceitos expostos nesses suplementos foi concebido no plano científico por
minha exclusiva criatividade, longe disso.
Porém, se tudo fica no mundo acadêmico, parece que não temos capacidade de comunicá-lo
ou, melhor dizendo, parece que a comunicação é contaminante, que a pureza científica deve ser
mantida à margem da comunicação, que perdemos nível acadêmico quando pretendemos
explicar algo a isso que hoje chamam o público, sem que nos apercebamos de que o público
somos nós quando nos dói o fígado, ou quando saímos para comprar pães.
É claro que o pensamento acadêmico, universitário, é importante, mas creio que chegou a
hora de comunicá-lo. As borlas doutorais, as togas e os punhos (esclareço que se assim se
denomina as extremidades ornadas das mangas das togas dos catedráticos) de pouco servem
quando se fala do que todos sabem, segundo o que lhes dizem as grandes corporações
midiáticas do mundo, incluindo muitos políticos – oportunistas alguns, propulsores conscientes
de um novo totalitarismo outros, amedrontados e tremendo diante das corporações midiáticas os
demais.
Não estamos diante de fenômenos apenas locais, nacionais, estaduais nem municipais, mas
sim diante de problemas que podemos resolver apenas em parte nesses níveis, e que integram
uma trama mundial. Insisto. Se não compreendemos essa trama, moveremos sempre mal as
peças, perderemos partida após partida. Devemos fazer o maior esforço para impedir que isso
aconteça, porque, no fundo, estamos diante de uma encruzilhada civilizatória, uma opção de
sobrevivência, de tolerância, de coexistência humana.
Vivemos um momento de poder planetário que é a globalização, que sucede ao colonialismo
e ao neocolonialismo. Cada momento, nesse contínuo do curso do poder planetário, foi marcado
por uma revolução: a mercantil do século XIV, a industrial do século XVIII e, agora, a
tecnológica do século XX, que se projeta para o século atual. Esta última revolução, a
tecnológica, é fundamentalmente comunicacional. Se não compreendermos isso e nos deixarmos
ficar em nossos guetos acadêmicos, o serviço que prestarmos será muito pobre.
Há um mundo que as pessoas comuns não conhecem, que se desenvolve nas universidades,
nos institutos de pesquisa, nas associações internacionais regionais e mundiais, nos foros e nas
pós-graduações, com uma literatura imensa, que alcança proporções siderais, de dimensão
tamanha que ninguém pode dominar individualmente. É o mundo dos criminólogos e dos
penalistas. As corporações os ignoram e quando lhes cedem algum espaço, os técnicos se
expressam em seu próprio dialeto, incompreensível para o resto dos humanos.
O desafío consiste em abrir esses conhecimentos, não para pontificarmos a partir da ciência
com a solução, nem para sermos os iluminados que, corrigindo o velho Platão, pretendemos nos

colocar como um criminólogo-rei, mas sim para mostrarmos o que se pensa e o que se sabe até
agora. E também para fazer a autocrítica do que dizemos, porque, certamente, tampouco temos
uma história e uma genealogia feitas somente de prestígio, dado que, muitas vezes, nossos
colegas legitimaram o ilegitimável até limites inacreditáveis.
Imaginemos o que aconteceria caso se procedesse com o mesmo critério em outros âmbitos,
como por exemplo, no da medicina. Se, numa mesa de bar, alguém defendesse a teoria dos
humores, é provável que os demais o olhassem com ironia. Porém, como a liberdade é livre, é
claro que qualquer um pode continuar defendendo a teoria dos humores na mesa de bar;
ninguém discute esse direito à expressão.
No entanto, seria grave se a teoria dos humores fosse divulgada como discurso único pelos
meios de comunicação, se se desprestigiasse ou menosprezasse a quem dissesse algo diferente,
se os pesquisadores médicos e biólogos ficassem isolados com seus discursos em seus institutos,
se a autoridade sanitária e os políticos que fazem as leis acreditassem na opinião do bar e não
na que os médicos poderiam dizer, ou, pior ainda, se os próprios médicos fizessem calar a quem
negasse a teoria dos humores porque isso lhes gera um perigo político. É óbvio que o índice de
mortalidade subiria de forma alarmante.
Pois bem, o mesmo acontece com a questão criminal: aumentam os mortos no mundo.
Afirmam-se opiniões mais ou menos estranhas, equivalentes à teoria dos humores na medicina;
os políticos e as próprias autoridades difundem ou aceitam essas incoerências e,
lamentavelmente, também aumentam os índices de mortalidade.
Eu não estava em 1811 quando se suprimiram as togas no judiciário – nem sequer na
reforma universitária de 1918, pois não sou nenhum fenômeno da biologia –, mas sei que não
usamos togas nos tribunais nem nos recintos universitários nacionais desde muito antes que me
pusessem a primeira fralda. Contudo, as togas continuam nos pesando e isso não é admissível na
hora da comunicação. Se o campo de batalha é comunicacional, devemos travar a luta também
nesse terreno. Este é o grande desafio. Por isso, devemos arregaçar as mangas e sair ao campo
em que nos desafiam.
O cidadão comum deve saber que há um mundo acadêmico que fala disso, da questão
criminal, que, embora não tenha nenhum monopólio da verdade, pensou e discutiu umas tantas
coisas, que se equivocou muitíssimas vezes e muito feio, mas também aprendeu com esses erros.
Os médicos também se equivocaram muitíssimas vezes, desde os tempos em que, para curar
as feridas, passavam unguentos sobre a arma que havia causado o dano, até os tempos mais
próximos, em que, para curar os doentes mentais, lhes enfiavam agulhas na cabeça, mas nem
por isso nos colocamos nas mãos dos curandeiros quando nosso apêndice fica inflamado.

Ilustração 2

É bem verdade que há diferenças entre a medicina e a ciência penal e criminológica, que
consistem em que esta última trata sempre do poder, o que não é alheio à medicina, mas pelo
menos nesta a relação não é tão linear. Também é certo que inclusive o conceito de ciência
depende do poder que decide quem tem esse status. Por isso, quando se fala de ciência penal
ou de ciência criminológica, pode-se colocar em dúvida o status de ciência, mas também se diz
que a medicina não é uma ciência, e sim uma arte.
Como o mundo acadêmico também se equivoca, tampouco é seguro que o que nele se fala

seja a realidade. A questão da realidade, neste como em tantos outros âmbitos, é algo muito
problemático, em particular quando vivemos numa era midiática, em que tudo se constrói.
Não vou me meter numa questão que se discute desde os albores da filosofia, porém o certo
é que, na nossa época, o problema da realidade chegou a um ponto tal que não faltou quem
afirmasse que tudo é construído, que não há onde se agarrar.
Mas Baudrillard escrevia na França, não sei se tomava algum aperitivo adocicado em uma
calçada de Paris, e fazia isso antes de Sarkozy e quando ninguém pensava na filha de Le Pen à
frente das pesquisas. Nós estamos aqui, no fundo do mapa ou na parte de cima, depende de
onde se olhe (o norte acima é uma mera convenção; os neozelandeses, certa feita, fizeram um
mapa com o sul acima), porém, por sorte, longe de latitudes hoje mais perigosas, ainda que com
todos os inconvenientes do subdesenvolvimento.
Nós nos achamos, por um lado, com a publicidade midiática das corporações mundiais e seu
discurso único de repressão indiscriminada para com os setores mais pobres ou excluídos; por
outro, com o discurso dos acadêmicos, isolados em seus guetos e falando em dialeto.
Se, junto com o aperitivo, engolimos as batatinhas fritas e os amendoins e pensamos que
não há nada que possa nos dar um gostinho de realidade, estamos perdidos. Eu não pretendo
ser localista e afirmar que, quando digo nós, me refiro, agora, somente aos latino-americanos,
mas sim que em poucos anos se fez mais que evidente que se não há um mínimo gostinho de
realidade nessas questões, também os franceses estariam perdidos com Sarkozy e a jovem Le
Pen, para não falar dos estadunidenses e seu Tea Party (quando era pequeno, me lembro que
“party” era algo muito mais divertido).
Perón dizia que a única verdade era a realidade, mas as batatinhas fritas e os amendoins de
Baudrillard nos dizem pouco menos que a realidade não existe. Será que isso se aplica à questão
criminal? Não, pelo menos aqui – e não me meto nas outras coisas que dizem respeito aos
filósofos – isso não se aplica. Se eu tivesse perguntado qual é a realidade da questão criminal à
minha avó Rosa – que, insisto, raciocinava muito melhor do que o comunicador que inventou o
personagem –, ela me teria respondido, com toda sabedoria, que a única realidade nisso tudo
são os mortos.
E é isso mesmo, sem dúvida: a única verdade é a realidade, e a única realidade na questão
criminal são os mortos. Não qualquer morto, é claro, porque, de acordo com o que a estatística
demonstra, há quase um morto por pessoa. Como, todavia, alguns ainda não estão mortos, há
uma pequena diferença, o que levou o imortal poeta português Fernando Pessoa a afirmar que o
homem é um cadáver adiado. Evidentemente que não recomendo sua leitura em casos de
bipolaridade (me parece que antes se chamava de alterações ciclotímicas, maníaco-depressivos
melancólicos, agora é mais complicado, mas tampouco me meto em questões diagnósticas).
Concretamente, o certo é que todos os vivos – isto é, os que vivem – somos adiados, mas há
alguns aos quais não se adia o suficiente, porque são mortos. Estes ficam mudos, porque
costuma se afirmar, peremptoriamente, que os mortos não falam, o que é verdade em sentido
físico, mas, sem dúvida, os cadáveres dizem muitas coisas que esta sonora afirmação oculta.
Vejamos: às vezes chegam a nos dizer até quem matou (pelas pistas que o autor deixa no
cadáver), mas o cadáver nos diz sempre que está morto. Esta é a mais óbvia palavra dos mortos:
dizer-nos que estão mortos. Por isso, quando se afirma que não há pretexto algum para a
realidade na questão criminal, o que na verdade fazemos é emudecer os mortos, ignorar que nos
dizem que estão mortos.
Na minha complicada vida, quando muito jovem, inspecionava hospitais municipais e

conheci algumas pessoas que falavam com os mortos nos necrotérios (com certeza elas tinham
alguns neurônios fora de lugar). Embora não duvide de minha saúde mental, não me dedico a
isso agora, mas a algo bem diferente: trata-se de perguntar que cadáveres antecipados há nos
necrotérios, nas fossas comuns, no mar ou quem sabe onde.
Por isso, o que vou explicar a vocês tem três etapas fundamentais: o que nos foi sendo dito
ao longo da história e o que nos diz hoje em dia a academia (as palavras dos acadêmicos), o que
nos dizem os meios de comunicação (as palavras dos meios de comunicação) e o que nos dizem
os mortos (a palavra dos mortos). Depois veremos se podemos chegar a alguma conclusão que,
da minha parte, adianto: o conjunto nos recomenda antes de tudo prudência, cautela no uso do
poder repressivo, muita cautela.
Este é o programa dessa exposição em sua síntese mais acabada: saber o que nos dizem os
acadêmicos, os meios de comunicação e os mortos. Como posso arregaçar as mangas da toga,
mas não ficar sem ela – porque cada um tem sua deformação profissional dificilmente
controlável, e nunca totalmente anulável –, começarei pelas palavras da academia.
Para entrar no tema, porém, devo explicar algumas questões prévias sem as quais não se
comprende quase nada dos dialetos acadêmicos, porque tampouco há um único dialeto na
questão criminal. Não só há vários dialetos acadêmicos, como também não costumam entenderse entre si e, mais do que isso, não é raro que se detestem reciprocamente, embora às vezes não
o façam em voz alta. De toda forma, as imputações recíprocas são os temas preferidos dos
congressos e seminários, os matizam e lhes dão sabor.
Mais ainda: quando alguém passa de um para outro grupo e consegue dominar o outro
dialeto, é considerado um traidor ou um perdido, que deixou de ser cientista.
Às vezes a agressividade alcança níveis cômicos, mas que podem se tornar dramáticos, como
quando nos anos setenta do – por sorte – século passado, segundo a posição do dolo na teoria
do delito, que então pretendia descobrir subversivos. Vocês sabem qual é a posição do dolo no
delito? Podem ficar tranquilos, viver os anos de Matusalém sem sabê-lo e sem que sua existência
se altere minimamente, mas o certo é que há quatro décadas a coisa podia terminar muito mal.
Longe de constituir uma crítica negativa, esta é a pura descrição da realidade do mundo
acadêmico por dentro e, da minha parte, creio que é um dado positivo, apesar de seus
inconvenientes, porque demonstra o quanto o debate é vivo, a paixão que se coloca, a
intensidade das discussões.
Tampouco se trata de uma característica contemporânea, nada disso: foi sempre assim. A
história, a tradição oral, os relatos divertidos dos mais velhos e o que vivemos diretamente nos
confirmam. Quem participa desse mundo não se aborrece, posso lhes assegurar que permite
conhecer personalidades notáveis, gente com uma capacidade de trabalho e uma sensibilidade e
inteligência tais que, se se dedicassem a algo com maior rating, teriam se sobressaído em
qualquer âmbito.
Mas não se alarmem. Meu propósito é traduzir esses dialetos a uma linguagem
compreensível para os mortais. Espero ter êxito e que não me aconteça o que acontece a alguns
tradutores, que terminam escrevendo espanhol com a estrutura da língua original.
Devo confessar que me sinto muito mais seguro por ter o cartunista Rep a meu lado. Dentro
de pouco lhes explicarei a função da arte na criação de estereótipos, e creio que é necessário
combater no mesmo campo para desfazer essa construção. Por outra parte, estou seguro de que
os desenhos de Rep perdurarão muito mais do que aquilo que eu digo. Quando há pouco li que
Ferro havia falecido,[2] voltaram à minha memória Langostino, Bólido, o fantasma Benito, Tara

Service, o Livro de Ouro de Patoruzú. Eles estão vivos em mim desde a infância, mas faz tempo
que os que escreviam sobre a questão criminal naqueles anos são só história.

2. Quem sabe disso?
Voltando, porém, ao programa das três palavras (da academia, dos meios de comunicação e
dos mortos), se queremos começar pelas da academia, a primeira coisa que devemos saber é a
quem perguntar. Quem se ocupa academicamente da questão criminal? O primeiro movimento
será olhar para a Faculdade de Direito. Ali estão e dali são os penalistas. Sabem direito penal.
Sem dúvida que é algo que tem a ver com a questão criminal. Mas até que ponto?
A ideia de que o penalista é o mais autorizado para proporcionar os conhecimentos
científicos acerca da questão criminal é uma opinião popular, mas não científica. Nem de longe
basta saber direito penal para poder opinar com fundamento científico acerca da questão
criminal, ainda que, se o conhece bem, pode fazer muito para resolver numerosos aspectos
fundamentais na prática, mas isso é outra coisa.
É necessário distinguir dois âmbitos do conhecimento que são muito diferentes, embora
costumem ser confundidos: o do penalista e o do criminólogo, ou seja, o direito penal, por um
lado, e a criminologia, por outro.
Esclareço desde já que não se dão nada bem, mas não se podem separar, e ainda que
declarem estar divorciados, são como esses casais que se excitam discutindo e terminam como
todos nós sabemos. Nos casais é patológico, claro, mas no que concerne ao direito penal e à
criminologia talvez seja um pouco menos.
O que fazem os penalistas? Antes de tudo são juristas, advogados. O direito se divide em
ramos: civil, comercial, trabalhista, administrativo, constitucional etc., e cada dia se especializa
mais e mais. Hoje não há quem lide com todo o direito em profundidade, como não há médico
algum que domine todas as especialidades. O direito penal é um desses ramos, que se ocupa de
trabalhar a legislação penal, para projetar o que chamamos de doutrina jurídico-penal, isto é,
para projetar a forma em que os tribunais devem resolver os casos de maneira ordenada, não
contraditória.
De maneira mais sintética, eu diria que a ciência do direito penal que se ensina nas cátedras
universitárias de todo o mundo se ocupa de interpretar as leis penais de modo harmônico para
facilitar a tarefa dos juízes, promotores e defensores. Seu trabalho consiste basicamente na
interpretação de textos com um método bastante complexo, que se chama dogmática jurídica,
porque cada elemento em que a lei é decomposta deve ser respeitado como um dogma, visto
que, do contrário, não interpretariam a lei, mas sim a criariam ou a modificariam.
A tarefa do penalista é fundamental para que os tribunais não resolvam arbitrariamente o
que lhes for conveniente, e sim conforme uma ordem mais ou menos racional, ou seja,
republicana e algo previsível. Não vou discutir agora se a dogmática jurídica do penalista
consegue ou não esses objetivos. Tampouco vem ao caso nem interessam muito a vocês os
detalhes dessas construções.
A fonte principal da ciência jurídico-penal de hoje, isto é, da dogmática jurídica aplicada à lei
penal, é a doutrina dos penalistas alemães. Os ingleses têm sua própria construção, que pouco
influi na nossa. Os franceses fizeram muito pouca dogmática jurídica, estão muito próximos da
velha interpretação literal da lei (o que se chamava exegese). Os italianos estão bastante

próximos aos alemães, ainda que com uma tradição penal muito sólida e antiga. Os suíços e
austríacos seguem diretamente as escolas alemãs. Os espanhóis também o seguem, sem dúvida
alguma, quase mais do que nós. Há muitos anos que as escolas alemãs são acompanhadas de
perto em toda a América Latina. O penalismo estadunidense é mais ou menos compreensível, na
medida em que segue o modelo inglês, mas quando se afasta deste é bastante limitado.
Conforme os princípios da ciência jurídica alemã, os penalistas constroem um conceito
jurídico do delito que se chama teoria geral do delito. As discussões sobre essa teoria são
praticamente intermináveis, mas se trata, em geral, de uma ordem prioritária conceitual para
estabelecer frente a uma conduta se ela é ou não delitiva com vistas a uma sentença.
Para isso, diz-se que o delito é uma conduta típica, antijurídica e culpável. Ou seja, antes de
tudo deve ser uma ação humana, isto é, dotada de vontade. Em segundo lugar, deve estar
proibida pela lei, ou seja, cada tipo é a descrição que a lei faz de um delito: matar, apoderar-se
de uma coisa móvel alheia etc. Em terceiro lugar, não deve ser permitida, como acontece no
caso de legítima defesa ou de estado de necessidade. Por último, deve ser culpável, ou seja,
reprovável ao autor: não o é quando este não sabia o que fazia, estava louco (inimputável) etc.
Essa é a estrutura básica sobre a qual se discute, respeitando certos princípios
constitucionais como, por exemplo, a legalidade, que impede que a pena seja imposta por algo
que não está estritamente descrito em uma lei anterior ao fato, ou a lesividade, que requer que
em todo delito haja um bem jurídico lesionado ou colocado em perigo.
Como se pode ver, o delito dos penalistas é uma abstração que se constrói com um objetivo
bem determinado, que é chegar a uma sentença racional ou pelo menos razoável. Na realidade
social, porém, esse delito não existe, porque no plano do real existem violações, homicídios,
fraudes, roubos etc., mas nunca o delito. Em outros tempos, os penalistas também projetavam os
códigos e as leis penais, porque lhes era dada muitíssima importância e se considerava, com
razão, que eram um apêndice da Constituição, porque impunham limites à liberdade.
Em nosso país, para não irmos mais longe, os códigos penais foram projetados em 1866, por
Carlos Tejedor, que foi governador da província de Buenos Aires e não chegou a ser presidente
da República em lugar de Roca porque protagonizou a última guerra civil em 1880, e por
Rodolfo Moreno (filho) em 1917, que também foi governador da província e pré-candidato a
presidente nas eleições de 1944, tendo sido derrotado no interior do Partido Conservador por
Patrón Costas, o que precipitou o golpe de 1943.
Nesse meio tempo houve vários projetos, e o mais importante foi o de 1891, obra dos
fundadores de nossa Faculdade de Filosofia e Letras, que eram os jovens brilhantes da época:
Rivarola, Piñero e Matienzo. Os três foram importantes personalidades públicas e um deles,
Matienzo, foi candidato à vice-presidência da República.
A trajetória jurídica, intelectual e política desses projetistas prova que levavam muito a sério
as leis penais, o que hoje mudou completamente, pois agora quem as elabora são os assessores
dos políticos, conforme a agenda que lhes marcam os meios de comunicação de massa.
Por isso, hoje, tampouco os penalistas fazem as leis penais, ocupando-se quase
exclusivamente do que lhes conto, quer dizer, da sua interpretação, na forma em que assinalei.
Logicamente, vocês se perguntarão o que é que esses senhores sabem acerca da realidade
do delito, do que se passa no mundo em que todos nós vivemos, do que fazem os delinquentes,
os policiais, os juízes, as vítimas, os empresários midiáticos, os jornalistas etc. Simplesmente, o
mesmo que qualquer vizinho que lê os jornais e assiste televisão, porque o penalista se ocupa da
lei, não da realidade.

Isso, que pode chamar a atenção de quem não se tenha inteirado antes deste mundo, é
sabido e inclusive teorizado. Desde jovem, quando se entra na Faculdade de Direito, explicam
que ali se estudam relações de normas, de dever ser e não de ser.
Há mesmo toda uma corrente que pretende um corte radical entre os estudos do dever ser e
do ser. São os neokantianos, que dividem os conhecimentos entre ciências da natureza e da
cultura. O direito seria uma ciência da cultura e o que acontece no mundo em que vivemos
todos os dias seria matéria das ciências da natureza. Isso lhes parece um pouco esquizofrênico?
É um pouco, com certeza.
A divisão foi tão taxativa que permitiu que a grande maioria dos penalistas dos tempos do
nazismo viesse tranquilamente desde o Império Alemão até o pós-guerra, passando por cima da
República de Weimar, dos crimes da ascensão do nazismo, dos massacres, do genocídio, da
guerra, sem inteirar-se dos milhões de cadáveres. Tudo isso pertencia às ciências da natureza,
que não lhes dizia respeito.
Para que vocês se tranquilizem, direi que hoje nem todo o direito penal segue este caminho,
embora não faltem nostálgicos que tentam se entrincheirar nas normas. De qualquer maneira,
isso é questão do direito penal, ou seja, do que não nos ocuparemos aqui enquanto tal, mas sim
precisamente do que pertence ao mundo do ser, no qual vivemos todos os dias.
Disso se ocupa precisamente a criminologia, para onde convergem muitos dados que
provêm de diferentes fontes – da sociologia, da economia, da antropologia, das disciplinas psi,
da história etc. –, que tentam nos responder o que é e o que acontece com o poder punitivo,
com a violência produtora de cadáveres etc.
É bem verdade que esta palavra da academia também esteve carregada de palavras
obscenas (ou pelo menos são elas que temos vontade de dizer às vezes), e aconteceu em
diferentes etapas. Primeiro perguntou-se pelas causas do delito, o que se chamou de
criminologia etiológica, e os demonólogos, os juristas e filósofos, os médicos, os psicólogos e os
sociólogos trataram de responder. Muito mais recentemente deu-se conta de que o poder
punitivo também era causa do delito, e passou a ser analisado e questionado com diferente
intensidade crítica. São estas etapas que passaremos a percorrer depois de uma visão geral
sobre o poder punitivo e sua função real no marco do poder planetário.

Ilustração 3

3. O poder punitivo e a verticalização social
O poder punitivo é como o bife à milanesa com batatas fritas, isto é, ninguém se pergunta
por que existe. Parece que sempre esteve ali. Mas não é assim.
Alguém comparou o tempo de nosso pequeno planeta com uma semana e advertiu que
aparecemos no último minuto antes da meia-noite do domingo. Não sei quando apareceu o bife
à milanesa, mas nesses segundos geológicos que levamos arranhando a superfície da Terra, só
carregamos com o poder punitivo por alguns décimos de segundo.
O humano é social, não sobrevive isolado, e em toda sociedade há poder e coerção. Todo
grupo humano conheceu sempre duas formas de coerção, cuja legitimidade quase não se
discute, embora se possa discutir como se exerce.
Uma é a coerção que detém um processo lesivo em curso ou iminente: quando uma parede
está prestes a cair ou quando alguém corre atrás de mim pela rua com uma faca na mão, há um
poder social que demole a parede embora o dono se oponha, ou que desarme aquele que quer
me enfiar a faca. Isso se chama hoje coerção direta, em outra época poder de polícia, e no
Estado está regulada pelo direito administrativo.
Outra é a coerção que se pratica para reparar ou restituir quando alguém causou um dano.
Esta é hoje própria do direito civil e de outros ramos do direito.

Mas o poder punitivo é diferente, não existiu em todos os grupos humanos, e surgiu muito
mais tarde. Por que? O que o diferencia dessas outras coerções?
As duas formas de coerção antes referidas resolvem os conflitos: uma, porque evita o dano,
outra, porque o repara. Porém, quando na coerção reparadora alguém que manda diz que o
lesado sou eu e afasta quem realmente sofreu a lesão, é ali que surge o poder punitivo, ou seja,
quando o cacique, rei, senhor, autoridade ou quem quer que seja substitui a vítima, a confisca.
Comprovamos isso em qualquer caso: se uma pessoa agride a outra e quebra-lhe um osso, o
Estado leva o agressor, o penaliza, alegando que o faz para dissuadir terceiros de romper ossos
ou para ensinar-lhe a não fazê-lo de novo ou para o que quer que seja, e o que sofre com o osso
quebrado deve recorrer à Justiça civil, na qual pode não obter nada, caso o agressor não possuir
bens.
O poder punitivo reduziu a pessoa com o osso partido a um mero dado, porque não toma
parte na decisão punitiva do conflito. Mais ainda: deve mostrar seu osso partido e se não o fizer
o poder punitivo a ameaça como testemunha remisso e pode levá-la pela força a mostrar o que
o agressor lhe fez. A característica do poder punitivo é, pois, o confisco da vítima, ou seja, é um
modelo que não resolve o conflito, porque uma das partes (o lesado) está, por definição,
excluído da decisão. O punitivo não resolve o conflito, mas sim o suspende, como uma peça de
roupa que se retira da máquina de lavar e se estende no varal até secar.
Detemos o agressor por um tempo e o soltamos quando o conflito acaba. É certo que
podemos matá-lo, mas nesse caso não faríamos outra coisa senão deixar o conflito suspenso
para sempre. Não repomos nada à vítima, não lhe pagamos o tratamento, o tempo de trabalho
perdido, nada. Nem sequer lhe damos um diploma de vítima para que o pendure em um canto
da casa. Não ocorreria a ninguém obrigar o agressor a trabalhar para reparar o lesado,
ameaçando-o com uns açoites em público, como fazem nossos povos nativos, porque isso seria
prático, mas consideramos incivilizado.
Ademais, frente a outros modelos de efetiva solução do conflito, o modelo punitivo se
comporta de modo excludente, porque não só não resolve o conflito como também impede ou
dificulta sua combinação com outros modelos que o resolvem. É óbvio que, quando prendemos
o marido agressor, a mulher e os filhos devem se virar como possam para viver, porque a besta
fera não pode trabalhar e, por conseguinte, não cobra.
Imaginemos que um menino quebre uma vidraça na escola com os pés. A direção pode
chamar o pai do pequeno energúmeno para que pague a vidraça, pode mandá-lo ao
psicopedagogo para ver o que está acontecendo com a criança, também pode sentar-se e
conversar com o pequeno para averiguar se alguma coisa lhe faz mal e o irrita. São três formas
de modelos não punitivos: reparador, terapêutico e conciliatório. Os três modelos podem ser
aplicados porque não se excluem. Em compensação, se o diretor decide que a quebra da vidraça
afeta sua autoridade e aplica o modelo punitivo expulsando o menino, nenhum dos outros pode
ser aplicado.
É claro que o diretor, ao expulsar o menino, reforça sua autoridade vertical sobre a
comunidade escolar. Isso quer dizer que o modelo punitivo não é um modelo de solução de
conflitos, mas sim de decisão vertical de poder. É por isso, justamente, que ele aparece nas
sociedades quando estas se verticalizam hierarquicamente.
O modelo reparador é de solução horizontal e o punitivo de decisão vertical. Este aparece
quando as sociedades vão ganhando a forma de exércitos com classes, castas, hierarquias etc.
Por isso surgiu em muitos lugares do planeta, sempre que uma sociedade começou a verticalizar-

se hierarquicamente. A arqueologia penal estuda isso em sociedades distantes.
Houve uma sociedade que se verticalizou com muita força na Europa: a romana. Quando
Roma passou da república ao império seu poder punitivo se fez muito mais forte e cruel. E o
que pode fazer uma sociedade quando se verticaliza até assumir a forma de exército? A resposta
é óbvia: conquistar outras. Roma conquistou quase toda Europa. Como conseguiu fazer isso?
Porque tinha uma estrutura colonizante, ou seja, hierarquizada, em forma de exército. Essa
estrutura, montada mediante o poder punitivo, é a necessária para a empresa de conquista e
colonização.
No entanto, Roma caiu praticamente sem que ninguém a empurrasse; seus imperadores
eram generais que brincavam de golpe de Estado, passavam o tempo intrigando ou
neutralizando intrigas, e em seus momentos de ócio se divertiam com amantes e escravos
núbios. Os costumes se relaxaram, dizem os moralistas.
Porém, Roma não caiu por causa das amantes ou dos escravos, mas sim porque a estrutura
vertical que proporciona o poder colonizador, imperial, logo se solidificou até imobilizar a
sociedade, as classes tornam-se castas, o sistema perde flexibilidade para adaptar-se às novas
circunstâncias, torna-se vulnerável aos novos inimigos. Nesse momento, decai e perde o poder.
Chegaram os bárbaros com suas sociedades horizontais, que ocuparam os territórios quase
caminhando, e o poder punitivo desapareceu quase por completo.
Os germânicos resolviam seus conflitos de outra maneira: quando um alemão dava um golpe
de garrote na cabeça do outro, corria para se refugiar na igreja, onde não podia ser tocado (asilo
eclesiástico). Com isso, evitava o primeiro impulso vingativo, mas, imediatamente, os dois
germânicos velhos, chefes de clãs, reuniam-se e um fazia notar ao outro que tinha um germânico
avariado e que isso tinha de ser resolvido de algum modo. Do contrário, o choque ia se dar
entre os clãs, como na guerra, porque assim o determinava a vingança de sangue (Blutrache,
diziam), o que não convinha a nenhum dos dois. E a coisa se ajustava com uma reparação,
entregavam-se animais, metais, coisas etc. (o que se chamava Wertgeld).
Havia um único crime ao qual era aplicado o modelo punitivo: a traição. O traidor era
pendurado em uma árvore: proditores et transfugas arboribus suspendunt, recorda o velho
Tácito, ao relatar os costumes dos germânicos. As outras ofensas eram acertadas entre as partes.
No bairro, acontece a mesma coisa com o alcaguete, embora com menos violência.

Ilustração 4

Mas por que há que se dar tanta importância a Roma, se estamos tão longe, aqui estavam
nossos nativos e nunca um romano colocou um pé na América? Precisamente porque a história
segue, o poder punitivo desapareceu quase por completo (salvo uns tantos traidores
pendurados nas árvores), até que um dia ocorreu aos senhores que era um bom negócio
confiscar a vítima e que isso também servia para reforçar seu poder, e voltaram ao mau
costume, fazendo renascer o poder punitivo nos séculos XII e XIII europeus. E aqui isso começa
a nos interessar, porque não desaparece já há quase mil anos, verticalizou as sociedades
europeias, deu-lhes estrutura corporativa, sob a forma de exército, e elas se lançaram à
colonização de todo o planeta.
O poder punitivo foi o instrumento de verticalização social que permitiu à Europa nos
colonizar. A Península Ibérica assumiu a liderança porque adquiriu caráter vertical para
conquistar os muçulmanos do sul, ainda que até hoje digam que os reconquistaram, o que é
duvidoso depois de 700 anos de permanência deles ali e de uma civilização que era brilhante.
Quando terminaram de convertê-los ao cristianismo aos golpes, os Reis (muito) Católicos fizeram
o que faz todo exército: homogeneizaram o discurso religioso e para isso obrigaram os judeus a
converterem-se como marranos ou a irem embora, e assim a frente interna passou a rezar ao
mesmo Deus, na versão dos reis.
Para dizer a verdade, a verticalização europeia havia começado um pouco antes dos séculos
XII e XIII, ou seja, por volta do ano 1000, quando todas as leis locais que iam surgindo

timidamente regularam as relações familiares e sexuais de maneira detalhadíssima, mais do que a
propriedade. Isso se explica porque todo exército necessita de cabos e sargentos, sob cujo
comando caem as pequenas unidades de tropa. A verticalização começou por baixo, como devia
ser, porque é sabido que uma revolução triunfa quando as tropas se sublevam; por conseguinte,
a primeira coisa que quem quer reforçar o poder vertical deve fazer é se assegurar de que tem
os comandos inferiores sob controle.
O cabo deste exército social foi o pater, sob cujo comando ficaram todos os seres inferiores:
mulheres, crianças, servos, escravos, animais domésticos etc. (havia poucos velhos, porque as
pessoas morriam muito jovens). O patriarcado não é mais do que o poder dos cabos e sargentos
da sociedade corporativa, fruto do primeiro passo da disciplina vertical.
O próprio pater impunha os castigos aos seres inferiores, salvo casos de insubordinação,
como as mulheres desobedientes e os gays ou traidores, que não assumiam devidamente seu
papel de pater. Como ninguém podia permitir a insubordinação da tropa porque senão o barco
afundava, as lutas que se seguiram foram entre senhores, mas todos reafirmaram a ordem sobre
os inferiores.
O poder punitivo foi se estendendo, mas não havia leis suficientes e as que havia eram
caóticas. Dispunha-se menos ainda de um discurso legitimador desse poder renascente. Nesse
momento apareceram as universidades no norte da Itália e com elas os juristas, que, como
deviam fazer o discurso mas não tinham leis razoáveis, não tiveram ideia melhor do que trazer o
Digesto de Justiniano e começar a comentá-lo.
Assim nasceu a ciência jurídico-penal, com supostos comentários ao Digesto. E o que era o
famoso Digesto? Nada menos que uma coleção de antigas leis romanas, recolhidas por
determinação do imperador Justiniano, que nunca foi imperador em Roma e sim em
Constantinopla, quando o império do Ocidente – ou seja, Roma – já havia caído em poder dos
germânicos. As leis penais recolhidas no Digesto eram as piores e, além disso, com alguns
retoques deformantes do próprio Justiniano, que desde a romanização do cristianismo (que
costuma se chamar de cristianização de Roma) se considerava chefe religioso e perseguia com
singular furor e alegria os não cristãos, entre eles os que continuavam adorando os deuses
romanos. Essa injeção legal dos primeiros juristas foi denominada recepção do direito romano.
A ciência jurídico-penal nasceu, portanto, com a importação de Constantinopla dos
chamados libris terribilis do Digesto. Os primeiros penalistas se chamaram glosadores porque
fingiam que comentavam essas leis; na verdade, sob o pretexto de comentá-las, diziam o que
bem entendiam, mas começaram a ensaiar alguma lógica interna em seu discurso.
É bem verdade que aqueles que deviam legitimar essas leis atrozes não podiam confessar
que o poder punitivo serve para verticalizar e colonizar, razão pela qual sempre se buscou
encontrar alguma justificativa para cada lei penal, baseada em uma necessidade fundada em
fatos do mundo real. Como se tratava de legitimações sobre argumentos fáticos, os supostos
comentários dos glosadores e pós-glosadores misturavam o direito penal com a criminologia.
Assim começaram as palavras da academia nas universidades do norte italiano mil anos
atrás, mas o poder que em todos os tempos estas legitimaram não foi outro senão o instrumento
de verticalização social que possibilitou a colonização. Esse poder não se estendeu porque
Henrique, o Navegador se lançou para a África ou porque Cristóvão Colombo, com a história
das jóias da rainha, tenha armado as caravelas, mas sim porque o poder punitivo havia dado
forma de exército a essas sociedades. Sem cair em fantasias não verificáveis, o certo é que os
nórdicos chegaram à América antes de Colombo, mas como não dispunham de uma estrutura

colonizadora morreram de frio no norte, não se animando a seguir para o sul.
E a história reiterou o processo romano: a Espanha não conseguiu modificar sua estrutura
vertical quando o industrialismo amanheceu no século XVIII e terminou perdendo seu império e
sua hegemonia, que passou para as potências do centro e do norte da Europa. O poder
punitivo, contudo, não desapareceu, mas ficou limitado à sua função interior, apontando para
uma sociedade imóvel.
Como o punitivo é a chave do poder planetário, o que se diz a seu respeito não é resultado
de uma busca ingênua de conhecimentos, de curiosidade científica desinteressada em âmbitos
acadêmicos, mas sim que se defronta com o cerne da expansão colonial. Por isso, tudo o que se
diz em criminologia é político, porque sempre será funcional ou disfuncional ao poder, o que
não muda, ainda que quem o afirma o ignore ou o negue.
Por isso, não podemos evitar o passado, porque se o ignoramos não saberemos onde fomos
parar. O que interessa do passado não é se María Antonieta se deixou seduzir pelo colar, se
Catarina levou Miranda para a cama, se a rainha Isabel tomava banho ou se Ludwig II fazia
orgias com seus guardas enquanto sonhava com palácios de Disneilândia, e sim saber onde
estamos parados em uma continuidade de poder, que em seu fluxo nos trouxe a este lugar. E a
questão criminal é central nessa corrente que não para, como algo do presente, que é pura
projeção do passado. Se não comprendemos que a Idade Média não terminou, não podemos
entrever para onde vamos, ou pior, para onde podemos ir (o que me eximo de dizer, até mesmo
por motivos de boa educação).
Como a Idade Média não terminou, nada do passado está morto nem enterrado, mas apenas
oculto, e não por acaso. Não é um passado que volta, mas sim que nunca se foi, porque ali está
o poder punitivo, sua função verticalizante, suas tendências expansivas, seus resultados letais.
Dessa perspectiva, o passado não evoca aborrecidas lições com datas e próceres movidos
pelo acaso ou pela genialidade, mas sim nos mostra um zoológico de fósseis vivos e não em um
museu paleontológico. Por isso, se quiserem me seguir, devo começar pelo passado, para que
um tiranossauro não nos coma.
Estamos habituados a que o locutor elegante comunique a notícia sangrenta com voz
cavernosa, preludiando a exortação à reforma do Código Penal e de imediato vai ao tribunal
para anunciar produtos íntimos. Mas também estamos acostumados a que isso gere um mar de
opiniões díspares e em todos os tons: há que matar a todos; deixar a polícia atuar e baixar o
sarrafo; aplicar o talião; ter boas prisões para ressocializar; atender aos fatores sociais; não
atendê-los porque nem todos os pobres delinquem; nem só os pobres delinquem, um
longuíssimo etcétera.
Creio que muitas pessoas ficariam surpresas se lhes disséssemos que os Estados absolutos
matavam há centenas de anos, que desde a Inquisição recorrem à violência, que o talião foi
apoiado por Kant no século XVIII, que a ressocialização – que vem do positivismo do século
XIX, dos fatores sociais – é coisa de muitos e em especial de Bonger há um século, que a
negação dos fatores sociais era de Garofalo no final dos Oitocentos, que os delitos de colarinho
branco foram teorizados por Sutherland há sessenta anos etc. Nada disso morreu e se na
criminologia acadêmica não se sustentam determinadas teses é porque já não são politicamente
corretas, continuam sendo afirmadas com escassa dissimulação na criminologia midiática.
Porém, o que quero dizer com que a Idade Média não terminou? Por um lado, que somos
hoje um produto daquele poder punitivo que renasceu na Idade Média e permitiu aos
colonizadores europeus ocupar a América, a África e a Oceania, escravizar, dizimar e até

extinguir os povos nativos, transportar milhões de africanos, avançar sobre o mundo com
massacres e depredação colonialista e neocolonialista.
No entanto, por outro lado, quero dizer que os discursos legitimadores do poder punitivo da
Idade Média estão plenamente vigentes, até o ponto de que a criminologia nasceu como saber
autônomo no final do período medieval e fixou uma estrutura que permanece quase inalterada e
reaparece cada vez que o poder punitivo quer se libertar de todo e qualquer limite e
desembocar em um massacre.
Quando o poder punitivo renasceu, o bispo de Roma – o Papa – estava desejoso de conter a
todos os que pretendiam se comunicar diretamente com Deus, à margem de sua mediação ou da
de seus dependentes. Para reforçar esse monopólio telefônico, e também para concentrar poder
econômico, estabeleceu-se uma jurisdição, ou seja, um corpo de juízes próprios encarregados de
perseguir os revoltosos, chamados hereges. Esse foi o tribunal do Santo Ofício ou Inquisição
romana.
O reaparecimento do poder punitivo e o surgimento da Inquisição mudaram tudo. Até esse
momento, nos processos entre as partes, a verdade se estabelecia pelos ordálios ou pelas provas
de Deus. Os juízes anteriores à volta do Digesto e aos inquisidores eram, na realidade, árbitros
desportivos, pois o ordálio mais frequente era o duelo. O que vencia era quem tinha razão,
porque se invocava a Deus e este baixava magicamente convocado e se expressava no duelo,
permitindo ganhar só àquele que tinha razão. Os juízes não julgavam e sim cuidavam que não
houvesse fraude. Quem decidia era Deus. Pode-se imaginar que esses juízes tinham uma
absoluta tranquilidade de consciência.
Com as leis romanas imperiais injetadas pelos juristas, a verdade passou a ser estabelecida
por interrogação, por inquisitio. O imputado devia ser interrogado, e se não queria responder a
verdade lhe era extraída pela violência, pela tortura. Para isso haviam sequestrado Deus e o
ordálio se havia tornado desnecessário, pois Deus já estava sempre do lado de quem exercia a
violência. O poder tinha atado Deus, porque sempre fazia o bem.
Segundo Foucault, todo saber adotou o método do interrogatório violento. Parece haver algo
disso se comparamos a inquisição com a vivissecção, mas voltemos ao nosso. A Inquisição
romana exercia o poder de julgar em toda Europa porque não havia Estados nacionais e os
senhores feudais não podiam impedi-lo, embora isso lhes incomodasse. Na Espanha, onde a
sociedade já tinha a forma de exército, o poder da Inquisição não foi papal, e, diferentemente do
resto de Europa, encontrava-se a serviço do rei. Por isso, a Inquisição espanhola tem uma
história separada da romana.
Com esse instrumento, o Papa massacrou rapidamente uns tantos hereges (os albigenses, os
cátaros etc.). Também se juntou aos franceses para fritar os templários e repartir suas riquezas,
imputando-lhes que eram gays e que tinham um ritual de iniciação de submissão sexual, meio
leather style. Logo, porém, a Inquisição ficou sem trabalho e sem inimigo, porque havia matado
todos eles. Para justificar seu brutal poder punitivo necessitava de um inimigo que tivesse mais
vigor, que fosse de melhor qualidade. Assim, acabou apelando para um inimigo de muito bom
estofo, que durou vários séculos: Satã, que em hebraico significa justamente inimigo.
Como era difícil explicar semelhante poder sanguinário no marco de uma religião cujo Deus
não era guerreiro, e sim uma vítima executada em um instrumento de tortura próprio do poder
punitivo do Império Romano (equivalente à cadeira elétrica do século XX), era necessário
inventar-lhe um inimigo guerreiro, e assim Satã terminou sendo o comandante em chefe de um
exército composto por legiões de diabos.

Para isso lhe caiu muito bem a cosmovisão que Santo Agostinho havia imaginado quase dez
séculos antes. Ele – que havia vivido no norte de África no século IV e depois de participar de
quantas festas pôde, quando lhe baixaram os hormônios, e como antes havia combinado suas
andanças com o maniqueísmo – imaginou que havia dois mundos enfrentados na forma de
espelho: um de Deus e outro de Satã, a cidade de Deus e a do diabo.
As duas cidades tinham equipes rivais: a do diabo dedicava-se ao esporte de tentar a de
Deus, porque os partidários deste podiam salvar-se, ao passo que eles, como anjos caídos,
estavam irremediavelmente condenados a ser destruídos no juízo final e, portanto, tentavam
adiá-lo e baixar o número de salváveis. Não ficava claro por que não os destruíram antes e era
necessário esperar o julgamento, mas isso não importa.
O certo é que nesse mundo maciço, mas perfeitamente dividido, não havia possibilidade de
neutralidade: ou se estava com Deus ou com Satã. Tudo o que estava fora da cidade de Deus
era domínio satânico, incluindo os deuses pagãos (e depois seriam as religiões dos nossos povos
nativos).
Cabe esclarecer que o pobre Santo Agostinho não matou ninguém. Ele apenas armou esse
discurso e, como havia morrido há quase mil anos antes da Inquisição, se livrou da pena de ver
o que se fazia com apoio nele. Houve outros ideólogos que tiveram menos sorte e a vida lhes
deu a oportunidade de queixar-se e arrepender-se, vendo como usavam suas ideias. Agostinho
teve inclusive vislumbres muito inteligentes, como o de enunciar a primeira política de redução
de danos em matéria de aborto.
Todavia, quando o Papa se valeu do invento agostiniano para perseguir tudo o que não se
submetia a seu poder e consagrou a Inquisição à luta contra Satã, como este não aparecia em
lugar nenhum, teve de se agarrar a ela com alguns humanos, e já não lhe restavam hereges. Por
conseguinte, empreendeu-a contra a metade da espécie humana, contra as mulheres. Para isso
foi inventada a teoria do pacto satânico. Satã não podia atuar sozinho, necessitava da
cumplicidade de humanos (não me perguntem o porquê, porque não sei). Para isso havia
humanos que celebravam um pacto com o inimigo, com Satã. Era um contrato de compra e
venda proibido, mas que por sua natureza só podia ser celebrado por humanos inferiores, que
eram as mulheres. Por que? Por razões genéticas, biológicas: tinham um defeito de fábrica por
provir de uma costela curva do peito do homem, o que contrastava com a retidão deste (não sei
tampouco onde o homem é reto, mas prossigamos). Por isso, elas têm menos inteligência e, por
conseguinte, menos fé. E ratificavam essa afirmação, inventando que femina provém de fé e
minus, ou seja, menos fé (é mentira, pois femina vem do sânscrito, do verbo que significa
amamentar).
Foi assim que a Inquisição se dedicou a controlar as mulheres desobedientes e levou à
combustão milhares delas, como bruxas, em quase toda Europa.
Na verdade, o poder de Satã e seus rapazes foi muito estudado e teorizado pelos
encarregados da Inquisição, que foram os dominicanos, ordem fundada por São Domingos de
Gusmão, mas também conhecidos como cães do Senhor (canes do Dominus). Na condição de
estudiosos da etiologia, ou da origem do mal, eles foram os primeiros criminólogos. É claro que
não foram chamados de criminólogos e sim de demonólogos. Quase nenhum criminólogo aceita
essa origem, porque não é uma boa certidão de nascimento; preferem considerar-se herdeiros do
Iluminismo ou mesmo do século XIX e esquecer o nome dos velhos demonólogos, aos quais
ninguém menciona. Mas o certo é que ninguém tem a culpa de seus antepassados.
A demonologia, porém, não deixou de criar contradições porque os juristas – glosadores e

pós-glosadores – haviam tratado de sistematizar suas especulações conforme uma certa lógica,
que tomavam da ética tradicional. Isso se deve a que, na medida em que se queira dotar de
alguma lógica interna o discurso legitimador do poder punitivo, surge um mínimo de limites,
porque a necessidade não é infinita. Justamente para eliminar esses limites criando uma
necessidade quase infinita e absoluta, foi que se autonomizou a criminologia com o nome de
demonologia.
Os juristas pretendiam que a pena fazia pagar a dívida do delito. Se o crime resultava de
uma escolha livre, havia que retribuir o mal com o mal. A ideia de culpa dominava suas
elucubrações. Lembro a vocês que culpa e dívida são sinônimos. O velho Padre Nosso dizia
perdoai as nossas dívidas e não eram os “pagareis” que firmávamos, e sim nossas culpas. Em
alemão Schuld tem também esse duplo significado. Isso impunha um pequeno limite à pena,
exigia certa proporção com a censura da culpa.
E como a mulher era inferior, era menos inteligente que o homem, devia ser menos culpável
e, por conseguinte, merecer pena menor. Os juristas as consideravam como meninas, em
permanente estado de imaturidade. No entanto, os inquisidores não se atinham à culpa, e sim ao
grau de perigo que as bruxas e Satã representavam, que colocava em risco a humanidade. Para
os demonólogos havia uma emergência gravíssima e nada devia obstaculizar a repressão
preventiva. Aqui surgiu uma questão que até hoje não foi solucionada: a pena se fixa pela culpa
ou pela periculosidade? Os penalistas continuam discutindo a incoerência com paliativos,
enquanto os juízes decidem o que lhes parece.
Como vemos, a Idade Média está presente. Em seu tempo, isso se resolveu argumentando
que o pacto satânico era um crime mais grave que o pecado original, porque neste Adão e Eva
haviam sido enganados, mas o pacto com Satã se celebrava com vontade plena, com consciência
do mal e, ademais, era uma traição, para com, nada menos, a cidade de Deus, com o qual havia
que seguir a tradição germânica. Cabe fazer notar que os germânicos eram mais ecológicos,
porque não danificavam as árvores, enquanto os inquisidores queimavam sua madeira. O certo,
porém, é que este modelo marcou a estrutura de todos os discursos posteriores legitimadores de
massacres. Por isso, será necessário deter-se na análise dessa estrutura.

Ilustração 5

4. A estrutura inquisitorial
Os demonólogos elaboraram um discurso muito bem armado para liberar seu poder punitivo
de todo e qualquer limite, em função de uma emergência desencadeada por Satã e seus
seguidores, em combinação com as moças terrenas. Por certo que se alguém sustentasse, hoje
em dia, esta tese seria inevitavelmente psiquiatrizado. Não podemos, porém, ficar na anedota,
porque, embora pareça mentira, a estrutura demonológica mantém-se até o presente. Os
discursos têm uma estrutura e um conteúdo. Trata-se, digamos, de algo parecido a um programa
de computação alimentado com os livros de uma biblioteca. Podemos carregar o programa com
livros esotéricos e teremos uma biblioteca dessa natureza, mas também podemos esvaziar seu
conteúdo e recarregá-lo com outros livros e teremos bibliotecas de medicina, física, química,
história, ou o que quer que seja. Pois bem: o que permanece do discurso inquisitorial ou
demonológico não é o conteúdo, e sim justamente o programa, a estrutura.
Ao longo dos séculos o mesmo programa foi esvaziado e voltou a ser alimentado com outras
informações, com dados de novas emergências, críveis segundo as pautas culturais de cada
momento: deixou-se de se acreditar em Satã e suas meninas, mas passou- se a acreditar em
outras coisas, que, hoje, tampouco são críveis, ainda que se continue alimentando o programa
com dados que hoje são críveis e amanhã serão não tão críveis quanto Satã, suas legiões de
diabos e suas mulheres.
Desde a Inquisição até hoje os discursos foram se sucedendo com idêntica estrutura: alega-se
uma emergência, como uma ameaça extraordinária que coloca em risco a humanidade, quase

toda a humanidade, a nação, o mundo ocidental etc., e o medo da emergência é usado para
eliminar qualquer obstáculo ao poder punitivo que se apresenta como a única solução para
neutralizá-lo. Tudo o que se quer opor ou objetar a esse poder é também um inimigo, um
cúmplice ou um idiota útil. Por conseguinte, vende-se como necessária não somente a
eliminação da ameaça, mas também a de todos os que objetam ou obstaculizam o poder
punitivo, em sua pretensa tarefa salvadora.
É evidente que o poder punitivo não se dedica a eliminar o perigo da emergência, e sim a
verticalizar mais ainda o poder social; a emergência é apenas o elemento discursivo legitimador
de sua falta de contenção.
Isso se verifica ao longo de cerca de 800 anos de sucessivas emergências, algumas das quais
implicavam certo perigo real, mas o poder punitivo nunca eliminou nenhum desses perigos. Satã
está um pouco cabisbaixo, com seu tridente sem ponta e sua cauda quebrada; o alcoolismo
continua fazendo estragos; as drogas se expandem cada dia mais; a sífilis foi resolvida com a
penicilina; a tuberculose com a estreptomicina; os hereges fizeram suas igrejas nacionais; a
degeneração da espécie e o perigo das raças inferiores passaram a ser uma grande mentira; as
bruxas continuam cozinhando seus cozidos esquisitos e no máximo criam algum problema
bromatológico. Os perigos foram inventados ou mesmo quando eram reais desapareceram por
outros meios ou permanecem, e até se ampliam, mas, ao longo de 800 anos, o poder punitivo
jamais eliminou um risco real.
Diriam no meu bairro que o discurso inquisitorial sempre foi, e continua sendo, um modo de
colocar a corda no pescoço. Mais academicamente, diríamos que é um imenso engano, uma
tremenda fraude e que o poder punitivo, ao projetar-se na opinião das pessoas como o remédio
para tudo, não é mais do que o delito máximo da propaganda desleal da nossa civilização.
Trata-se do instrumento discursivo que proporciona a base para criar um estado de paranoia
coletiva que serve para aquele que opera o poder punitivo o exerça sem nenhum limite e contra
quem lhe incomoda.
Por desgraça, porém, quando aparece um discurso com estrutura inquisitorial e ninguém
detém sua instalação, a consequência última é um massacre. Assim aconteceu com as mulheres
queimadas, com as vítimas das máfias e da corrupção produzidas pela proibição do álcool e das
drogas; com os inimigos do Ocidente cristão massacrados pela segurança nacional ou pelo
franquismo; com os doentes e incapacitados esterilizados ou assassinados pela eugenia; com a
eliminação nos campos de concentração nazistas, e com muitos milhões de pessoas, mas já estou
me metendo com a palavra dos mortos, que é questão que deixo para mais adiante.
Vejamos agora como os demonólogos instalaram essa estrutura discursiva originária que
permanece intocável até o presente. O certo é que esses pioneiros foram muitos e escreveram
uma quantidade de livros muito sofisticados. A criminologia não registra os nomes de seus
fundadores, porque os nega, como esses antepassados piratas, contrabandistas ou escravistas a
quem todos ocultam e ninguém reconhece.
Não vale a pena resgatar todos eles, porque de qualquer modo não creio que nenhum
instituto de criminologia de nossos dias queira ostentar algum desses nomes. Para quem se
interessa pelo tema, vale a pena dizer que há uma antologia bem feita. Para nossos efeitos, é
melhor centrarmos na obra tardia, porém sintética, que consagra a autonomia da criminologia
em relação ao direito penal, expondo pela primeira vez, de forma orgânica, uma completa teoria
sobre a origem do crime, ou seja, uma exposição da chamada etiologia criminal. Trata-se do
Malleus maleficarum ou Martelo das bruxas, de 1484.

Ilustração 6

A esse respeito – e entre parênteses – é bom recordar que a inquisição romana teve seu
esplendor nos tempos feudais, mas, quando os Estados nacionais se organizaram como
monarquias fortes, estas reclamaram para si seus poderes punitivos e os foram retirando do
Papa, de modo que a tarefa de queimar mulheres passou a ser desempenhada por juízes
estatais, dependentes dos monarcas e príncipes, alguns dos quais não reduziram seu entusiasmo
pela combustão. Continuaram queimando mulheres até o século XVIII, porém pelos Estados, em
um momento em que o Papa não se ocupava mais das mulheres mas sim dos luteranos e
reformados. Desde o século XV, ou seja, com a chamada Contra-Reforma, a inquisição romana
se dedicava a estes últimos e não conferia nenhuma ênfase às mulheres.
De qualquer maneira, os juízes estatais da Europa central continuaram usando como manual
o Martelo das bruxas, que se encontrava no guia oficial dos queimadores de mulheres desde 5
de setembro de 1494, quando o tenebroso Papa Inocêncio VIII o consagrou como tal, mediante a
bula Summis desiderantes affectibus.
O Martelo foi escrito por dois inquisidores muito particulares: o alsaciano Heinrich Krämer e
o suíço-alemão Jakob Sprenger. Este último era um sujeito de vida monacal, que fazia aparições
e tinha fama de beato. Já Krämer – também conhecido como Institoris (que, em latim, significa
quitandeiro, o mesmo que Krämer em alemão) – era mais problemático, pois o bispo o
suspendeu de suas funções porque, em seu afã incendiário, estava deixando a diocese sem
mulheres e, além disso, segundo as más línguas, se havia envolvido com dinheiro de
indulgências. Embora seja discutível, também parece que falsificou a recomendação do pequeno
manual por parte da Universidade de Colônia, para atribuir-lhe maior base acadêmica.
O certo é que esses dois personagens produziram essa obra singular, que foi um best-seller
durante duzentos anos, tempo no qual foi o livro mais publicado depois da Bíblia. Como dado
curioso, devo advertir que, se alguém hoje quiser lê-lo em espanhol ou português, deve buscá-lo
nas seções de livros esotéricos das livrarias.
Sua leitura é, às vezes, entediante, mas não podemos deixar de pensar que se trata de dois
delirantes com fixações sexuais insólitas. A verdade é que para ter uma ideia completa do

universo cultural da Idade Média não se pode prescindir, evidentemente, de Dante, mas
tampouco do Malleus maleficarum. Uma mesma época produziu um poeta sublime como
Alighieri e dois delirantes alucinados, como Sprenger e Krämer. Talvez hoje aconteça a mesma
coisa.
O delírio está muito bem sistematizado e é a primeira vez na história que se construiu uma
obra que integrou, em um único sistema harmônico, a criminologia (origem do mal) com o
direito penal (manifestações do mal), com o processo penal (como se investiga o mal) e com a
criminalística (dados para descobrir na prática o mal). A elaboração é, por conseguinte, bastante
sofisticada. Como o conteúdo com o qual preencheram a estrutura que lhes dava fundamento é
para nós tão disparatado, tem a vantagem de, em razão dessa tremenda distância temporal e
cultural, nos permitir ver com maior clareza os principais núcleos estruturais que permanecem
até a atualidade desde a própria origem da criminologia. Por isso, repassá-los não é um mero
divertimento, mas sim uma constatação de sua permanência através dos séculos. Passo a
assinalar vinte destes núcleos, embora advirta que há mais, mas não quero aborrecer vocês.

1. O crime que provoca a emergência é o mais grave de todos. Como vimos, os inquisidores
afirmavam que era mais grave que o pecado original. Outros se sucederam no tempo:
subversão, terrorismo, uso de tóxicos etc. A gravidade do crime é exaltada ao máximo
porque dela depende o grau de perigo da emergência e do poder correspondente do
repressor.
2. A emergência só pode ser combatida mediante uma guerra, ou seja, a linguagem não pode
ser senão bélica. Os autores pretendem saber como estavam organizadas as hostes de Satã –
porque, supomos, haviam conseguido infiltrar algum agente disfarçado no inferno. Bush e
Obama sempre disseram o mesmo, e sem dar margem a dúvidas o primeiro usou o mesmo
procedimento para descobrir as armas químicas no Iraque, que Satã logo fez desaparecer.
3. Sua frequência é alarmante. Diziam que a Alemanha estava cheia de bruxas, mais do que
qualquer outro país. É o mesmo que nos dizem pela televisão, todos os dias e todas as horas:
em nosso país há mais crimes que em qualquer outro (nosso país pode ser qualquer um em
que houver uma televisão).
4. O pior criminoso é quem duvida da emergência. Quando alguém pede números e duvida da
gravidade e da frequência corre sérios riscos, porque se erige em inimigo, não da sociedade
nem da humanidade, mas sim daquele que exerce o poder punitivo. Embora hoje “pegue”
mal que ele seja queimado, como Sprenger e Krämer postulavam, não duvido que muitos
lamentem que os tempos tenham mudado.
5. Qualquer fonte de autoridade que diga o contrário deve ser neutralizada. Nos tempos dos
inquisidores havia um cânone – isto é, uma lei muito antiga –, o Canon episcopi, que se
referia a uma seita de mulheres (as filhas de Diana) que existira muitos anos antes e que não
lhes atribuía nenhum poder maléfico e negava que pudessem voar. É claro que um texto
venerável dessa natureza é um obstáculo para o discurso, como também o pode ser uma
verificação científica ou fundada com seriedade.
Quando se produz esse fenômeno há três soluções discursivas: a fonte é falsa (por exemplo:
o planeta não está aquecendo, os cientistas que afirmam o contrário não sabem nada ou
falseiam a realidade), mas é verdadeira se se refere a outra coisa (as filhas de Diana não
eram como as bruxas alemãs; os ladrões de antes eram bons e cavalheirescos, não como os
de agora; os anarquistas não eram como os subversivos etc.) ou a interpreta mal (o Canon

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não diz exatamente isso, o que os técnicos dizem é outra coisa, há que fazer distinções etc.).
Para Sprenger e Krämer, as bruxas voavam mesmo, e se não tivessem voado e só
provocavam uma ilusão, elas deveriam ser queimadas da mesma maneira porque
compactuavam com Satã e pronto.
A valoração dos fatos se inverte por completo. É o que muitos anos depois Merton chamará
de alquimia moral. Se a bruxa não confessava, a despeito de ser brutalmente torturada, era
porque Satã lhe dava forças; se, desesperada, enforcava-se, era porque Satã a havia levado
para que não confesasse e se salvasse no mais além (porque, ainda que confessasse, seria
morta de qualquer forma). Se ela enlouquecia com a tortura e ria, era porque Satã fazia
pouco dos inquisidores. Nada muda: se os presos estudam é para delinquir melhor, se se
arrependem são dissimulados, se matam uns aos outros é porque são criminosos, se alguém
pede uma trégua está simulando para contra-atacar.
O delírio serve de pretexto para encobrir muitos delitos. Se um padre estava observando o
pênis de um penitente, era porque tentava convencê-lo de que não o havia perdido por obra
de um encantamento; se outro aparece nu dentro de um celeiro, contará que Satã o levou a
um banquete e, como não quis jurar-lhe fidelidade, o lançou ali; se um homem santo é
encontrado debaixo da cama de uma mulher, será porque Satã se apoderou de seu corpo
para se esconder. Quando um investigador é surpreendido num lugar suspeito, até hoje
costuma se dizer que ele estava se infiltrando; o terrorismo também é útil para eliminar aos
maridos incômodos das amantes etc.
As imagens dirigentes são imaculadas: isso os levava ao extremo de sustentar que os anjos e
Jesus não completavam o processo alimentício, isto é, não defecavam, e sim dissolviam o
alimento no estômago. A pureza dos líderes em toda emergência é algo que se cuida com
singular esmero, em especial sua correção sexual. Para os inquisidores, os diabos nem sequer
tinham orgasmos (porque, no final, também eram anjos), ou seja, eles copulavam com as
bruxas só para fazer o mal; eram uma espécie de sadomasoquistas inorgásmicos.
Os inimigos são inferiores. A misoginia do Malleus é extrema: a mulher é biológica e
geneticamente inferior, o que era comprovado com alentadas citações em que misturavam
indistintamente pagãos e padres da Igreja. Quase todas as emergências são promovidas por
inferiores na história posterior: mestiços, mulatos, raças colonizadas ou degeneradas,
defeituosos, incapazes, doentes, degenerados etc. Como não podiam eliminar todas as
mulheres, contentam-se em queimar somente as desobedientes.
A inferioridade pode estender-se: as filhas das bruxas tinham predisposição à bruxaria. E isso
pode acontecer por causações genéticas, pois os diabos sabiam de quem retirar o sêmen e
onde colocá-lo para produzir esse efeito; seria o contrário da eugenia e se chamaria
disgenesia, ainda que, como para os diabos era bom, trata-ser-ia de uma eugenia diabólica.
Mas não nos atrapalhemos mais. Também podia haver transmissão por caracteres adquiridos
a partir da bruxaria da mãe.
Os filhos do bruxo-chefe não eram filhos de diabos, porque estes são anjos e não têm sêmen,
só adotam a forma humana, mas na realidade são de ar concentrado, como uma espécie de
bonecos infláveis de sex-shop, se bem que conhecem a engenharia genética. Aqui os
inquisidores, com séculos de antecipação, combinam Darwin com Lamarck, a exemplo de
emergências posteriores: há que matá-los se são geneticamente inferiores, como faziam os
nazistas; há que criá-los com uma família sadia se a inferioridade provém da educação, como
Franco ou os ditadores na Argentina fizeram.

11. As vítimas não devem ser colocadas em situação de vulnerabilidade, porque os vícios
favorecem a ação de Satã. Aqueles que têm amantes antes de se casar provocam-nas a que,
sentindo-se despeitadas, façam sortilégios para matar suas esposas. É necessário viver na
ordem para cuidar do inimigo; toda desordem pode ser aproveitada por ele. Aquele que
exerce o poder punitivo quer moralizar, na verdade para facilitar-lhe a tarefa.
12. É uma regra inveterada que o poder punitivo descontrolado quer um mundo regular e cinza,
monótono, que possa controlar sem problemas: tudo aquilo que sai do costumeiro é
suspeito. A alegria conspira contra o controle e baixa o nível de paranoia, porque a festa faz
pensar em outra coisa, as pessoas se distraem. Os inquisidores advertem contra o perigo das
festas populares: são sempre os dark da época.
13. Os inquisidores negam os danos colaterais, afirmando que não há terceiros inocentes, e sim
que o castigo é sempre merecido, ainda que se baseiem num dogma: por alguma coisa será.
Em muitos massacres se afirma que não há inocentes, que todos são culpados, embora não
tenham feito nada.
14. Os inquisidores são infalíveis e, mais do que isso, são puros: São Macário, porque era puro,
era o único que via uma mulher quando os demais, por efeito de bruxaria, viam uma égua,
até que Macário a desencantou e os demais puderam ver a mulher. A pureza garante a
perfeita percepção dos fatos. É o que passa com os grandes empresários dos massacres: são
os únicos puros que veem com clareza; por isso devem ser seguidos sem discussão.
15. Os inquisidores não admitem erros, quem é condenado é culpado e a condenação é prova
suficiente; nunca houve um erro e todas as mulheres queimadas eram bruxas. É óbvio que as
cinzas não apelam. A única razão que davam para negar algum erro era que Deus não podia
permitir isso, porque, como sabemos, estava sequestrado por eles. Os sucessivos
empresários de emergências massacradoras não puderam dizer o mesmo, porque Deus já
havia escapado deles. Por isso, apelaram à tese de que é inevitável, em toda guerra, que
alguns inocentes sejam sacrificados.
16. Os inquisidores se eximem de toda ética frente ao infrator: podem prometer de tudo e
depois não cumpri-lo. A inferioridade da bruxa lhes autoriza a fazer isso. O mesmo acontece
em qualquer emergência, os empresários massacradores não têm códigos, porque não vale a
pena frente aos terroristas, subversivos, criminosos, degenerados, estrangeiros inimigos,
doentes etc.
17. Os inquisidores são imunes ao mal que combatem: Satã não pode enganá-los, porque Deus
não o permitiria. Posteriormente, será sua ciência ou conhecimento especial que os tornará
imunes. O cobrador de impostos não colaborará com a evasão fiscal, o funcionário que
combate o tráfico não ajudará a traficar etc. Todo poder punitivo garante que seus agentes
são imunes ao mal e, quanto mais fora do controle, maior é a garantia de imunidade e menor
a possibilidade de eles serem desmascarados.
18. O mal tende a prolongar-se. As parteiras eliminavam as crianças não batizadas para que não
se completasse o número de eleitos e o juízo final fosse adiado. Assim, elas sobreviveriam
mais tempo. O mal sempre se prolonga e o raciocínio, por isso, faz com que seja exigida sua
erradicação total e absoluta: o massacre deve ser radical e definitivo.
19. A crença no poder das bruxas era um preconceito da época. O Malleus o reforça ao
extremo, com a garantia do saber acadêmico de seu tempo. Não foi à toa que Krämer fez
algo não totalmente claro para obter o apoio da Universidade de Colônia. Todas as
emergências posteriores exploraram e aprofundaram os preconceitos; é o que se chama de

uma política völkisch ou popularista (não populista, que é outra coisa muito diferente).
20. O Malleus garante a reprodução da clientela: a mulher não era torturada para que
confessasse, mas para que revelasse os nomes de seus cúmplices e a mera menção de um
nome sob tortura autorizava que a pessoa nomeada também fosse torturada. Toda
emergência cuida para que a clientela não termine, porque se se esgota seu poder punitivo
perde sentido, como havia acontecido ao Papa depois dos massacres dos cátaros e outros
hereges.

Esta é, em sua maior síntese, a estrutura fundacional do poder punitivo ilimitado, trabalhada
durante duzentos anos e sintetizada tardiamente pelo Malleus em 1494, mas que até hoje se
manteve em todas as fabricações de emergências que foram feitas nos seis séculos posteriores. O
Malleus é uma obra tardia, porque no século seguinte ao seu aparecimento consolidaram-se as
monarquias e, com algumas delas, as igrejas nacionais. A inquisição papal teve de fazer de tudo
para evitar que os adeptos dessas igrejas nacionais não se sublevassem na parte que ficava sob
seu controle, razão pela qual deixou as mulheres um pouco de lado e se ocupou de queimar
reformados. Os reformados, por sua vez, também praticavam a combustão com grande
entusiasmo, como Calvino, que encarregou Servet da tarefa, porque parece que não lhe
agradava que o sangue circulasse. É óbvio que o sangue continuou circulando, mas não o de
Servet.
O poder dos inquisidores e de seus rapazes era cobiçado por outros e, entre estes, pelos
médicos, que aspiravam ficar com pelo menos parte deste poder. Teremos, mais adiante,
oportunidade de verificar que os médicos sempre tiveram vontade de deter o poder punitivo e
chegaram a dominar seu discurso legitimador com horríveis consequências massacradoras.
Porém, o primeiro avanço do poder médico sobre o campo punitivo foi tentado em 1563 por um
médico protestante dos Países Baixos, Johann Weyer (ou Weier ou Wier), que publicou, em
Basileia, um livro denominado As artimanhas do demônio, que rapidamente correu toda s
Europa, armando considerável reboliço.
Wier não negava a inferioridade da mulher nem a existência das bruxas e muito menos sua
periculosidade, pois continuava atuando dentro da mesma visão agostiniana do mundo,
configurada pelas cidades espelhadas de Deus e Satã. O que ele introduziu foi a novidade de
que as bruxas eram melancólicas e que, por isso, Satã se aproveitava delas, explorando sua
doença. Não é demais recordar desde já que a melancolia era o que, com Charcot, logo seria
chamado de histeria.
Ao mesmo tempo, como bom protestante, Wier aproveitava para dizer que os verdadeiros
bruxos eram os padres exorcistas, que praticavam sua magia diante de fetiches, que eram os
santos católicos. Cabe esclarecer que havia um agrupamento de exorcistas que protestava toda
vez que um padre que não pertencia ao agrupamento se lançava a exorcizar alguém.
Mas voltando a Wier, devemos advertir que ele havia viajado a lugares distantes e estudado
várias plantas alucinógenas, razão pela qual também afirmava que muitas dessas mulheres
sofriam os efeitos de intoxicações pela atropina, pelo ópio e pelo hashish (a maconha e a
cocaína não haviam chegado).
A novidade introduzida por Wier é muito interessante, porque dá lugar àquilo que subsiste
ainda hoje, as chamadas medidas de segurança. O poder punitivo pode libertar-se de limites
argumentando de várias maneiras, e não há exagero nessa afirmação, pois o engenho perverso
que caracteriza seus discursos legitimadores é inusitadamente fértil. Um deles consiste em ocultar

ou dissimular seu próprio carácter punitivo, o que continua fazendo mediante o expeditivo
recurso de deixar de chamar penas às penas. Foi isso o que Wier introduziu.
Com efeito, vimos que havia uma contradição entre, por um lado, a pena limitada pela
reprovação de culpabilidade fundada na escolha do infrator, na qual lhe é cobrada sua culpa,
própria dos juristas (glosadores e pós-glosadores), e, por outro, a periculosidade afirmada pelos
demonólogos, pois os primeiros não podiam justificar as penas máximas às mulheres, porque
eram menos inteligentes e, por conseguinte, deviam ser menos culpadas.
A solução transacional encontrada foi aumentar ao máximo a gravidade do delito das bruxas
e torná-lo superior até mesmo ao pecado original, com o qual, por qualquer das duas vias, se
habilitava a combustão, recurso que quatrocentos anos depois os penalistas do nazismo
voltariam a usar.
Wier propôs uma variante consistente na qual as bruxas eram retiradas do campo dos
juristas e dos inquisidores e deixadas nas mãos dos médicos, de modo que estes pudessem
colocá-las nos manicômios, que eram, em sua época, asilos infectos piores que as prisões, onde
não sobreviveriam por muito tempo. Desse modo, não se penalizava formalmente as mulheres,
mas as privava materialmente de liberdade até sua morte ou pouco menos, se bem que
suponhamos que as mulheres de classe alta poderiam ser atendidas a domicílio.
É interessante observar que até hoje no direito penal se discute se a pena é determinada
pela culpabilidade ou pela periculosidade, conquanto se dissimule a terminologia tratando de
combinar remendos contraditórios. Nessas combinações do não acumulável, o mais frequente na
legislação comparada é que se prevê fixar a pena segundo a culpabilidade, mas os perigosos ou
inimigos são deixados à mercê das medidas administrativas de segurança. Desse modo,
verificamos que não estamos falando de história no sentido mais usual do termo, e sim do
presente, ou seja, confirmamos, uma vez mais, que a Idade Média não terminou.
De qualquer maneira, essa primeira tentativa de manipular o poder punitivo por parte dos
médicos não se fez graças à Igreja, nem tampouco aos reis e príncipes. O jesuíta Martín do Río –
belga como Wier, mas filho de pai espanhol – afirmou que Wier não só era um herege, porque
negava que as bruxas voassem, mas também um mago. Por conseguinte, se Wier houvesse caído
nas mãos católicas teria sido permitido que eles celebrassem um assado a mais.
Todavia, como a queima de mulheres já não se praticava tanto por iniciativa da Igreja, e sim
pela dos juízes dos reis, a proposta de Wier alarmou os teóricos que estavam lançando as bases
do conceito de soberania, porque ele queria arrebatar um poder que estava passando
rapidamente para seus soberanos. Wier não só se havia imiscuído com o poder do Papa, como
também com o dos soberanos: tudo bem que o disputassem entre eles, mas não que alguém
pretendesse retirá-lo de ambos e deixar de queimar as mulheres para enfiá-las em asilos.
Os dois teóricos mais fortes do conceito emergente de soberania, hoje tão descaracterizado,
foram, no século XVI, o inglês Thomas Hobbes e o francês Jean Bodin (ou Bodino). Este último
publicou um livro em resposta a Wier em 1580: De la démonomanie des sorciers. De l’inquisition
des sorciers. Bodin se dava conta de que a manipulação médica não se limitava às bruxas, mas
que ameaçava ir muito mais longe e, portanto, discorria que, com o mesmo critério, todos os
criminosos deveriam ser psiquiatrizados.
Porém, não foi somente Bodin quem percebeu a gravidade da ameaça médica ao poder dos
soberanos. O próprio filho de Maria Stuart, o rei Jaime I da Inglaterra e VI da Escócia –
perseguidor um tanto desanimado de católicos e puritanos, nos momentos de ócio que a atenção
de seus favoritos lhe permitia, uma vez que a rainha lhe dispensava muito pouca – escreveu

uma Demonologia em resposta a Wier.
Isso dá conta de que desde a primeira tentativa séria da corporação médica, todos os donos
do discurso do poder punitivo fizeram soar o alarma, o que parece mais que justificado à luz dos
fatos dos três séculos posteriores.

Ilustração 7

5. Sempre houve rebeldes e transgressores
Vimos que os inquisidores eclesiásticos no século XVI já não se ocupavam muito das bruxas.
Isso se deveu ao fato de o Papa ter nomeado um cardeal embaixador na Espanha e este viu
como a inquisição funcionava ali, como um instrumento muito eficaz de verticalização a serviço
do rei, dedicado a converter em cinzas todos os dissidentes perigosos para a Coroa (os
chamados hereges), em particular os que tentavam introduzir a desordem com ideias das Igrejas
reformadas nacionais de outros países.
Pois bem. Este cardeal voltou a Roma e quando o Papa morreu, foi eleito para substituí-lo.
Nem lento nem preguiçoso, copiou a organização da inquisição espanhola para combater os
reformados e suas heresias, ou seja, todos os que não lhe respondiam, revitalizando a decadente
inquisição romana e transferindo sua condução aos jesuítas.

Aqui vemos uma mudança de corporação hegemônica, em que o primado do discurso sobre
a questão criminal passou dos dominicanos aos jesuítas. Isso ocorreu no tempo em que o
discurso se centrava nos luteranos e em outros hereges e deixava de lado as bruxas, cuja
combustão passou a ser decidida pelos juízes dos reis e príncipes, que continuaram praticando-a
com singular paixão incendiária, em especial na Europa central, valendo-se sempre dos
ensinamentos do famoso Malleus.
Contudo, nem todos estavam tão loucos nesse tempo, pois houve autores que escreveram
contra essa prática, em particular alguns jesuítas. O grande rebelde foi Friedrich Spee, que
publicou, em 1631, um livro exclusivamente destinado a destruir o Malleus e aos doutrinários
que legitimavam a combustão de mulheres acusadas de bruxaria. Como era natural, por
elementar prudência, ele publicou o livro anonimamente e sem a licença dos superiores de sua
ordem, o que constituía uma falta gravíssima.
Em todas as épocas, o transgressor é um enigma. Como surge? Por que alguém desafia o
poder ou os valores dominantes, mesmo às custas de graves riscos? Há quem afirme que se trata
de casos em que aquilo que foi ensinado desde pequeno contrasta muito fortemente com o que
se verifica em seguida, na vida adulta, porém o certo é que isso acontece mais ou menos com
todos nós e para resolver os psicanalistas costumam comparecer.
De toda forma e sem descartar essa possibilidade, o certo é que por sorte sempre há
transgressores e, no caso de Spee, não podemos verificar se quando era pequeno, ao invés de
contos de fadas, lhe liam relatos de bruxas, e tampouco podemos fazer uma reportagem com ele
e lhe perguntar a esse respeito.
A julgar pelo que os biógrafos de Spee relatam, parece que o encarregaram de tomar a
confissão de todas as bruxas de sua comarca antes de queimá-las, e o pobre ficou tão
traumatizado que seu cabelo foi ficando branco, e não justamente porque as neves do tempo
branquearam suas cãs, já que era muito jovem.
O livro desse rebelde grisalho se chamou Cautio criminalis, ou seja, cautela ou prudência
criminal. O próprio título da obra era incômodo porque encerrava uma ironia: a Constitutio
criminalis era a ordenança criminal vigente e brutal de Carlos V, isto é, o texto legal, de
inusitada crueldade, que regeu o direito penal comum alemão desde 1532 até final do século
XVIII e em função do qual os juízes do imperador do Sacro Império Romano-Germânico
queimavam mulheres (depois que o SIRG foi dissolvido, essa tarefa coube aos dois príncipes que
se consideravam herdeiros do império desmembrado).
É curioso, mas Spee não era nem um jurista nem um criminólogo, e sim um poeta e,
segundo os especialistas, o melhor poeta alemão de seu tempo, além de destacado teólogo.
Pois bem. Esse rebelde encanecido, cansado das brutalidades e iniquidades das quais era
testemunha (ao que talvez conviesse acrescentar que as tinturas de seu tempo não eram boas),
decidiu jogar tudo em seu livro e se valer disso à vontade, sem poupar nenhum detalhe nem
adjetivo.
Spee não andou em círculos e não se enredou em discussões sobre o poder de Satã ou das
bruxas. Ele começa afirmando que não discute sua existência, mas que nunca conheceu
nenhuma e que não havia bruxa alguma entre as mulheres de quem recolheu confissão antes de
serem queimadas. Pelo contrário: afirma que com o procedimento inquisitorial qualquer um
podia ser condenado por bruxaria.
O encanecido não era nenhum bobo – um bom poeta nunca pode sê-lo – e, por
conseguinte, tomou o caminho correto em qualquer crítica ao poder punitivo, evitando cair na

armadilha usual que desvia a questão para a gravidade do mal que este pretende combater e
contra o que livra sua guerra.
Se o poder punitivo não serve para o que pretende, não é questão de entrar na discussão
acerca da maldade do que diz combater, e sim, simplesmente, mostrar que não o faz. Nas
discussões sobre as atuais andanças de Satã (ou o inimigo), não tem sentido discutir se a
cocaína é daninha, porque não há dúvida de que é; o importante é mostrar que a pretensa
guerra à cocaína provocou 40.000 mortos no México nos últimos quatro anos, boa parte deles
decapitados e castrados (a cocaína teria demorado quase um século para provocar a mesma
quantidade por efeito de overdose). Tampouco tem sentido discutir a perversidade do terrorismo,
e sim fazer notar que a suposta guerra já causou muito mais mortos inocentes que o próprio
terrorismo. Spee soube disso em 1631, embora muitos comunicadores sociais não tenham se
dado conta até o presente. Talvez tenha sido mais fácil para Spee porque não via televisão.

Ilustração 8

Nosso encanecido jesuíta se perguntava como era possível que acontecessem essas
aberrações, o que era que permitia que continuasse semelhante barbárie. Em primeiro lugar o
atribui à ignorância da população, isto é, à desinformação, ou seja, à criminologia midiática de
seu tempo, carregada de preconceitos que se reforçavam desde as praças e os púlpitos, ou seja,
ao que hoje chamamos técnica völkisch (popularista, que alguns traduzem equivocadamente por
populista, que obviamente não é a mesma coisa).

Além do mais, ele destacava a responsabilidade da Igreja, entendendo por tal os teóricos,
isto é, os dominicanos e seus seguidores, que repetiam as palavras-de-ordem discursivas da
criminologia acadêmica de seu tempo, legitimadora desses assassinatos.
Prosseguia atribuindo culpa aos príncipes, que, desse modo podiam imputar todos os males
a Satã e a seus seguidores, sobretudo porque não controlavam seus subordinados, a quem
deixavam livres. Isso, hoje, é o que chamamos de autonomização policial, ou seja, permitir que a
corporação policial atue fora de todo controle político, para o qual se lhe atribuem âmbitos de
arrecadação autônoma, também destacados por Spee.
Com efeito, os inquisidores oficiais dos príncipes cobravam por bruxa executada, ou seja,
trabalhavam por tarefa. Por isso, esforçavam-se por obter o nome de outra candidata, a fim de
que a clientela nunca se esgotasse e, além do mais, atribuíam a Satã o suicídio de algumas
dessas infelizes, porque nesse caso não cobravam. Os príncipes não pagavam por bruxas
suicidas, porque não lhes serviam como espetáculo popular. Porém, como se isso fosse pouco,
Spee conta também que se dedicavam a percorrer os domicílios solicitando contribuições para
seu santo labor de purificação, ou seja, que trata-seva de uma venda de proteção mafiosa. Como
vemos, há poucas coisas novas sob o sol. Por último, nosso encanecido poeta destacava algo
que é até hoje moeda corrente na linguagem jurídica: os eufemismos. Quando nas atas se fazia
constar que as mulheres confessavam voluntariamente, era porque o haviam feito uma vez
penduradas e desconjuntadas, uma vez que só se considerava confissão sob tormento quando os
ferros eram aplicados.
O livro de Spee é um pouco tedioso e bastante desordenado, pois está escrito com base no
método das questões, ou seja, perguntas e respostas. São 52 questões e nas últimas ele não
poupa qualificativos: considera que a queima de mulheres pode ser comparada com o que Nero
fazia aos cristãos, o que implica que os juízes dos príncipes eram criminosos. Ninguém se havia
animado a semelhante adjetivação e teria de se passar mais de um século e meio até que
dissesse o mesmo Jean-Paul Marat, o revolucionário francês execrado por toda a historiografía
fascista posterior.
O que cabe destacar como mais significativo desse texto é que, assim como o Malleus fixou
a estrutura do discurso inquisitorial, a Cautio o fez com o discurso crítico. Com efeito, qualquer
discurso crítico do poder inquisitorial e do poder punitivo em geral, desde 1631 até hoje destaca
o seguinte: 1) o descumprimento de seus fins manifestos pelo poder punitivo; 2) a função dos
meios de comunicação; 3) a dos teóricos convencionais legitimadores; 4) sua conveniência para
com o poder político ou econômico; 5) a autonomização policial; e 6) a corrupção ou a
arrecadação autônoma.
Esses elementos estruturais estão presentes no discurso deslegitimador ou crítico de todo
poder punitivo, desde a crítica liberal ao poder punitivo do Antigo Regime até as teorias da
criminologia crítica das últimas décadas do século passado.
Nesse sentido, Spee fixou outro programa de computação que em cada época em que
floresce a crítica volta a ser prenchido com os dados correspondentes ao tempo de cada autor.
Pode-se dizer que até hoje construímos discursos seguindo alternativamente as estruturas
fundacionais do Malleus ou da Cautio.
O livrinho de Spee incomodava muito os príncipes, os dominicanos, os policiais e os juízes,
mas também os próprios jesuítas, que embora não queimassem mulheres, aplicavam o mesmo
procedimento contra os luteranos, e por isso ter semelhante infrator em suas fileiras lhes criava
um problema com os príncipes.

Se bem que o livro tenha sido publicado sem nome de autor, aos poucos se soube que Spee
era o responsável e não faltou quem imediatamente propusesse que ele fosse assado em fogo
lento, ideia que não prosperou, talvez porque isso lhe tivesse dado mais fama. De qualquer
maneira, era contaminador para a ordem, motivo pelo qual quiseram obrigá-lo a renunciar a ela,
a que o poeta se negou veementemente. No final, resolveram suportá-lo e acalmá-lo na medida
do possível, dando-lhe uma cátedra de teologia.
Alguns citam seu nome como Friedrich von Spee, o que não é certo, porque não era nobre;
seu nome era somente Friedrich Spee e o von Langenfeld não faz mais que indicar seu lugar de
origem.
Quatro anos depois da publicação da Cautio criminalis, em 1635, morreria contagiado
enquanto prestava assistência a soldados vítimas da peste. Imaginamos que sua morte tenha sido
um alívio para seus superiores, pois não se preocuparam muito com seus restos, que ficaram
perdidos até que, em 1980, conseguiu-se identificar seu corpo.
Pese a todo o empenho colocado por Spee e aos riscos que ele correu, seu livro passou sem
pena nem glória e os juízes continuaram levando adiante sua alegre queima de mulheres,
conforme as instruções do Malleus, que continuava sendo o livro de cabeceira dos corruptos da
época.
Setenta anos depois do aparecimento da Cautio, o filósofo Christian Thomasius releu sua
obra. Thomasius era um simpático senhor, que aparece nos retratos com seu rosto rosado
arredondado, sem que saibamos se era grisalho, pois cobria sua cabeça com uma peruca loura,
de longos cachos. Ao que parece, esse recurso protegia um respeitável conteúdo craniano,
porque Thomasius não duvidou em retomar os argumentos de Spee. Em 1701, ele defendeu
publicamente sua tese Dissertatio de crimine magiae, na qual desbaratava os disparates do
Malleus. Esta tese foi traduzida para o alemão três anos mais tarde e alcançou grande
repercussão, o que era explicável. Afinal, com Thomasius anunciou-se o Iluminismo e, como se
isso fosse pouco, lançou as bases para uma adequada distinção entre moral e direito (pecado e
delito), embora até hoje pululem muitos que se negam a compreendê-la e que, sem dúvida, se
bem que nossa civilização mostre, a cada dia, mais defeitos, é uma de suas melhores conquistas.
Esse emperucado filósofo obscureceu o Malleus até desaparecer e ficar reduzido a uma
curiosidade histórica.
Na verdade, devo dizer que tudo o que estou contando era muito pouco conhecido pelos
penalistas e criminólogos posteriores, até o momento em que o Malleus foi publicado em versão
em espanhol há menos de quarenta anos por historiadores, em uma edição que está
completamente esgotada (há menos de uma década veio à luz uma outra edição). A Cautio
criminalis nunca foi traduzida para o espanhol e até onde sei, tampouco o foi a tese de
Thomasius. Tudo isso foi recoberto por um manto de silêncio, como se não fizesse parte da
história do direito penal e da criminologia. Insisto em que se trata de ascendentes que esses
saberes tentaram ocultar, como a árvore genealógica de algumas famílias ilustres que se
empenham em esconder a origem de suas fortunas.

6. As corporações e suas lutas
Nos anos transcorridos entre a Cautio e a Dissertatio – ou seja, entre 1631 e 1701– estava a
se aprofundr outro fenômeno, o surgimento do sujeito público, que se acentuaria no curso do

século XVIII.
No Estado absoluto o senhor exercia poder de vida e morte, que, na realidade, era só poder
de morte, pois não podia dar a vida. Para matar ou deixar viver, como diz Foucault, não se
necessitava de muita especialização, porque, no geral, matar é uma operação bastante simples
para o poder estatal, que, para isso, não tem necessidade de mais nada do que uma agência ou
corpo de assassinos mais ou menos dissimulados e elevados a funcionários.
O problema se complicou quando o poder estatal começou a se preocupar em regular a
vida pública, quer dizer, não de cada indivíduo em particular, mas sim do sujeito público. A
função do Estado complicou-se e o príncipe precisou se cercar de secretários ou ministros
especializados que passaram a encarregar-se da economia, das finanças, da educação, da
salubridade públicas, isto é, desse sujeito público.
Como é natural, ao redor de cada ministro se foi formando uma burocracia especializada,
que construiu um saber ou ciência que se alimentava a partir das universidades.
Desse modo, formaram-se as corporações de sábios especialistas, cada uma com um saber
próprio, expresso em um dialeto compreensível apenas para os iniciados, ou seja, para os que
pertencem à respectiva corporação e, por conseguinte, inacessível ao vulgo de estranhos a esta,
geralmente chamados leigos (também poderiam ser chamados de bárbaros, porque assim eram
chamados os que não compreendiam ou falavam mal a língua local).
Trata-se de corporações que monopolizam o discurso e se fecham aos estranhos mediante
seu dialeto particular. Não deve chamar a atenção que os criminalizados façam o mesmo sob a
forma do jargão delinquencial, que foi matéria de estudo de sisudos criminólogos do século
passado, que não se deram conta de que eles se expressavam em seu próprio jargão e que
também eram bárbaros a respeito do dialeto dos presos.
Desde os séculos XVII e XVIII e até o presente, as corporações monopolizam seu discurso e
disputam entre elas para ampliar sua competência, sem contar que há, também, uma luta interna
de escolas na busca de conseguir impor a hegemonia do próprio subdiscurso. Em síntese, há
lutas intercorporativas e também intracorporativas.
Não é de estranhar, portanto, que o discurso penal e criminológico tenha sido matéria de
disputas entre as corporações, como não podia ser deixar de ser, dado que é sempre um
discurso acerca do próprio poder. Isso não é nenhuma novidade, posto que desde muito antes
de essa luta entre corporações tomar corpo vimos como o primado passou dos dominicanos aos
jesuítas, e os médicos, com Wier, também quiseram meter sua colher, que em séculos posteriores
se tornará um enorme colherão.
Vimos que o poder punitivo gera as estruturas colonizadoras, mas também fossiliza as
sociedades que adquirem essa estrutura, razão pela qual elas não são muito aptas como cenário
para a luta de corporações e menos ainda se se trata do discurso do próprio poder punitivo.
Sempre há discursos sobre esse poder, mas apenas um se torna hegemônico ou dominante,
porque resulta funcional a algum setor social, que o adota e o estimula. Isso tem lugar quando
há uma dinâmica social mais ou menos acelerada, ou seja, quando surge um conflito interno na
sociedade e um setor de certa importância quer deslegitimar o discurso do poder do setor a que
tende a se deslocar ou frente ao qual quer abrir-se um espaço. Por isso, as sociedades
colonialistas espanhola e portuguesa não eram o melhor campo para a luta das corporações e,
consequentemente, o cenário desta luta transferiu-se para a Grã-Bretanha primeiro e para a
França e a Alemanha depois, onde estava surgindo uma classe de industriais, comerciantes e
banqueiros.

Essa classe em ascensão necessitava controlar e impor limites ao poder da nobreza e do
clero, que até então eram as classes dominantes. É claro, o poder mais temível das camadas
hegemônicas era o punitivo, que ameaçava os novos empresários que assediavam seu Estado
absoluto e que eram considerados dissidentes perigosos. Veremos que não foi apenas o livrinho
de Spee que se publicou anonimamente por razões de prudência elementar e sentido de
conservação.
Como não existe poder sem discurso – ou, pelo menos, este não dura muito sem o texto –,
resultava funcional às novas classes em ascensão assumir outro discurso acerca do poder
punitivo e, por conseguinte, deviam procurá-lo em outras corporações, diferentes daquelas que
o haviam monopolizado até aquele momento.
Por essa razão, na segunda parte do século XVIII foi tomando corpo o saber das
corporações dos filósofos e pensadores no campo político geral e, portanto, o dos juristas que
seguiam seus alinhamentos limitadores do poder punitivo. Assim nasceu o Iluminismo, o século
das luzes ou da razão e, em seu amparo, o chamado direito penal liberal.
O novo discurso passou a ser obra das corporações dos filósofos e juristas que se
defrontavam com os legitimadores do Antigo Regime e frente ao qual houve várias reações
diferentes.
Em princípio, houve príncipes que se davam conta de que algo estava mudando e que, antes
de que a prateleira caísse, preferiram acolher o novo discurso, pelo menos em boa parte (na que
incomodava menos e lhes permitia continuar gozando da maioria de seus privilégios). Foi essa
atitude que deu lugar ao chamado despotismo ilustrado, que pretendia fazer todas as mudanças
a partir do poder, desde cima, com o lema tudo para o povo, tudo pelo povo, mas sem o povo.
Houve outros príncipes menos sagazes, que preferiram seguir em frente, e contra os quais se
ergueram os revolucionários, radicalizando o discurso crítico do sistema penal em maior ou
menor medida, de liberais a socialistas.

7. O utilitarismo disciplinador
Em geral, o Iluminismo penal se nutriu de duas variantes opostas, embora muitas vezes
coincidentes em seus resultados práticos: o empirismo e o idealismo. Com a permissão dos mais
finos historiadores da filosofia, que nós obtivemos sem consultá-los, pode-se dizer que houve, no
Iluminismo, uma convergência de vias de conhecimento ou acesso à verdade: uns a buscavam
mediante a verificação na realidade material e outros através da dedução de uma ideia
dominante.
Sem nos aprofundarmos muito, poderíamos afirmar que se achavam em germe os elementos
que em seguida teriam de se separar entre aqueles que só aceitavam o que resultava da
observação, medição e experimentação, e aqueles que partiam de uma primeira ideia
iluminadora, que lhes servia de guarda-roupa no qual acomodar as roupagens do mundo, às
vezes sob pressão.
No campo criminológico, essa dupla corrente deu lugar a duas ordens teóricas: o
utilitarismo disciplinador e o contratualismo (ou talvez, os contratualismos, em todas as suas
variantes).
Os utilitaristas tinham como base que era necessário governar proporcionando a maior
felicidade ao maior número de pessoas. A cabeça mais visível dessa corrente foi o inglês Jeremy

Bentham, personagem de vida longa, cujo esqueleto vestido se encontra em uma vitrine no
colégio que ajudou a fundar, embora se diga que a cabeça foi mumificada e em seu lugar se
colocou uma de cera. Parece que acontece alguma coisa com as cabeças daqueles que elaboram
teorias criminológicas, pois se comenta que a de Lombroso está conservada em formol em um
museu em Turim. Por sorte, faz tempo que se perdeu o costume de se dispor das cabeças dos
criminólogos post-mortem, embora isso seja sempre preferível a que outros o façam antemortem por eles. Mas voltemos ao nosso ponto.
Bentham concebia a sociedade como uma grande escola, na qual devia impor-se a ordem,
ou seja, a chave era a disciplina e, para tal, o governo devia repartir prêmios e castigos: como é
óbvio, os prêmios proporcionavam felicidade e os castigos dor e, como também parece óbvio, o
ser humano saudável e equilibrado devia preferir os primeiros, com sua felicidade, e não os
castigos, com sua dor. Por isso, ele deveria abster-se de cometer delitos. Todavia, delitos eram
cometidos, o que indicava que o infrator não estava bem, ou seja, que não era suficientemente
ordenado, dado que escolhia a dor. Era como a criança desobediente, que obriga a professora a
chamar os pais e lhes informar que algo está acontecendo com ela. Hoje o psicólogo intervém, e
se ele é bom pode chegar a descobrir que o menino é mais inteligente que os pais e a
professora; há cinquenta anos ele corria o risco de o deixarem bobo com uns eletrochoques, e,
há duzentos, Bentham queria colocar o adulto a quem acontecia alguma coisa em um invento
arquitetônico que chamou de panóptico, que era um aparato para discipliná-lo. Vamos, porém,
por partes.
É evidente que Bentham se deparava com o problema da impunidade da grande maioria dos
delitos e bancava o distraído a respeito da seletividade do poder punitivo, razão pela qual
tratava de resolver a questão postulando que as penas deviam ser mais graves quanto maior
fosse a impunidade, o que não parece muito razoável, porque ninguém tem a culpa da torpeza
ou Da referência do Estado ao repartir o poder punitivo. Para disciplinar os desobedientes
descontrolados, Bentham se irritava com os mais bobos, que eram os enganados pelo poder.
Mas prossigamos. Para Bentham, o delito coloca em evidência um desequilíbrio, produto da
desordem pessoal do infrator, que deve ser corrigido. Para isso, projetou a referida prisão
chamada panóptico, com estrutura radial, para que o preso saiba que será observado a partir do
centro e por olhos mágicos a qualquer momento. Desse modo, ele seria introduzido na ordem e,
ao final, acabaria se tornando seu próprio vigilante, isto é, comeria o guardião (é mais delicado
dizer que o introjetaria).
Essa ideia era tomada de alguns médicos que asseguravam ser a doença mental também
produto da desordem e por isso os manicômios deviam ocupar-se do disciplinamento dos
doentes, colocando-os para trabalhar, na convicção de que a ordem física redundaria na ordem
mental. Dessa perspectiva, não importa que o trabalho dos presos ou dos loucos seja ou não
rentável ou útil, porque é um valor disciplinador em si mesmo, como podia ser o famoso
quebrar pedras.
O disciplinamento devia ser levado a cabo na medida do talião, ou seja, de uma dor
equivalente à provocada pelo delito. A obssessão pela retribuição exata levou Mr. Jeremy a
projetar uma máquina de açoitar, para que a intensidade da dor fosse uniforme e não ficassse
entegue ao arbítrio do carrasco. Ainda que a guilhotina não tenha sido inventada por ele (foi
criada na França), o certo é que ela foi imaginada respondendo ao mesmo critério.
As leis penais são feitas hoje em dia pelos assessores dos legisladores, de acordo com a
agenda definida pelos meios de comunicação de massa, mas no começo do século XIX as

projetavam os penalistas e, quando estes tomaram a ideia de Bentham, acabaram elaborando
códigos penais com penas fixas e longas listas de agravantes e atenuantes, prevendo percentuais
para cada um. Assim foi redigido, por exemplo, o primeiro código penal do Brasil, em 1831, e
seus comentadores anotavam os difíceis cálculos matemáticos para cada caso, porque não se
conheciam as calculadoras e nem todos os juízes haviam obtido boas notas no secundário.
Bentham presenteava seu modelo a todo o mundo, tendo, inclusive, mantido
correspondência com Bernardino Rivadavia. Houve panópticos em muitas cidades da América
Latina, às vezes completos e outras semi-radiais, em geral porque o orçamento não era
suficiente para fazê-los completos. Alguns subsistem, convertidos em museus ou mercados
(como em Recife e em Ushuaia), ou funcionando como prisão – o de Quito, construído no século
XIX pelo ditador Gabriel García Moreno e por cujas celas passaram quase todos os políticos
equatorianos do século seguinte, sem contar com o fato de as turbas, instigadas pelos
conservadores, terem arrancado o líder liberal Eloy Alfaro desse presídio e o linchado, em 28 de
janeiro de 1912.
Cabe esclarecer que os panópticos nunca funcionaram como Bentham havia imaginado, pois
logo os presos descobriram sua lógica e a superlotação fez com que a visão fosse interrompida
com os múltiplos obstáculos.
O disciplinarismo dos utilitaristas deu muito o que falar nos anos setenta do século passado,
quando Foucault o considerou diretamente um modelo social e, na Itália, Dario Melossi e
Massimo Pavarini publicaram um livro intitulado Cárcere e fábrica, em que destacam uma matriz
comum com o disciplinamento para a produção fabril nas origens do industrialismo. Um
professor argentino, Enrique Marí, contribuiu para enriquecer essas reflexões entre nós.
Os utilitaristas não admitiam que existisse nenhum direito natural anterior à sociedade e
sobre o qual esta não pudesse avançar. Os direitos deviam ser respeitados unicamente porque
sua lesão havia provocado mais dor que felicidade.
Era claro que o utilitarismo de Bentham encerrava uma concepção criminológica, pois
fincava a etiologia do delito na desordem da pessoa e, por conseguinte, surgia daí uma política
destinada a combatê-lo mediante o disciplinamento, que importava a pena talional no curioso
aparato inventado.
Se bem que Bentham tenha se desenvolvido na Grã-Bretanha e rechaçado a ideia do
contrato social e do direito natural anterior à sociedade, foi condecorado pelos revolucionários
franceses, pois representava um avanço frente ao brutal exercício do poder punitivo de seu
tempo.

8. Os contratualismos
Vimos que nas obras tradicionais se costuma afirmar que a criminologia nasceu na segunda
metade do século XIX, ou seja, quando obteve reconhecimento acadêmico como saber
independente. O mais curioso, porém, é que essas obras não só se calam sobre tudo o que
relatamos até agora a respeito dos séculos anteriores, como também, não podendo ignorar o
pensamento do século XVIII e da primeira parte do século XIX, preferem afirmar que este não
era criminológico.
É muito curiosa essa posição, porque faz parecer que a criminologia assim entendida não só
se comporta como uma família que oculta seus antepassados pouco apresentáveis, bem como
nega todo parentesco com os que não pode ocultar, porque a vizinhança os conheceu bem e as
comadres do povoado se lembram deles. Realmente, trata-se de uma ciência à qual é necessário
recordar que seu berço foi um cortiço iluminado a querosene.
Se bem que os autores dos discursos acerca da questão criminal, provenientes das
corporações de filósofos de primeiríssima linha ou de juristas que seguiram seus pensamentos, se
tenham dedicado a criticar o poder punitivo de seu tempo e a propor reformas legislativas, não
se pode ignorar que eles se apoiavam numa criminologia, pois partiam de certa concepção do

delito e do delinquente e, portanto, atribuíam a origem do delito a determinadas razões e
propugnavam penas dirigidas a eliminá-lo ou a reduzi-lo. Para isso, necessitavam partir de uma
certa ideia do ser humano e da sociedade.
Por outro lado, como propunham reformas ao sistema penal, eram fortemente críticos do
poder punitivo de seu tempo. Tudo isso, sem dúvida, é criminologia, pois difícilmente se pode
negar que a crítica ao poder punitivo, à forma em que é exercido, a suas modalidades etc. o seja.
Essa negação da dimensão criminológica dos filósofos e juristas do Iluminismo do penalismo
liberal obedece a uma fábula inventada em fins do século XIX por Enrico Ferri, que foi o mentor
do positivismo italiano, de grande fama em seu tempo e de quem falaremos com mais detalhe.
Como bom positivista, Ferri considerava-se o porta-voz dos donos da ciência, afirmando que
antes dele e seus partidários não tinha havido senão escuridão, metafísica e charlatanismo.
Chegou a afirmar que tudo o que antes se havia dito acerca da questão criminal era espiritismo,
mas, com muitíssima habilidade e pretendendo tributar-lhe uma homenagem, chamou a todo o
saber precedente de escola clássica, para erigir-se, ele mesmo, no líder da nova escola, da scuola
positiva.
A invenção de uma escola clássica, que abarcava tudo o que fora pensado desde o século
XVIII até as torpezas do positivismo racista das últimas décadas do século XIX, foi a melhor
fábula de Ferri, tão bem sucedida que ainda é repetida nos manuais dos nossos dias. Não posso
deixar de recordar que assim me explicava, na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos
Aires, um professor que usava polainas e chapéu de palha a Maurice Chevalier, se declarava
positivista e se referia ao presidente da República como esse gringuinho. Outro professor, não
tão pitoresco, continuou falando a mesma coisa até o final da ditadura. Por via das dúvidas,
esclareço que foi no século passado, mas não no XIX, porque tudo passa muito rápido e repito
que não sou nenhum fenômeno biológico.
O certo é que resulta inadmissível que os utilitaristas e todas as variantes do contratualismo,
os kantianos, os hegelianos, os krausistas, os déspotas ilustrados de calças brancas e peruca e os
descamisados revolucionários, todos juntos, formassem uma escola, além do mais fundada por
um marquês milanês gordinho, do final do século XVIII, e que tenha durado mais de cem anos,
estendida por países que se matavam alegremente entre si.
Foi sem dúvida a melhor brincadeira de Ferri, na qual caíram inclusive seus oponentes. Se
Ferri está em algum lugar, com sua oratória envolvente e seus cabelos revoltos, continuará
gozando com segurança do êxito de sua ocorrência. Se nos afastarmos dessa armadilha tramada
pelo velho positivista e prescindirmos da imaginária escola clássica, o que encontramos é um
conjunto de discursos mais ou menos funcionais à classe em ascensão dos industriais,
comerciantes e banqueiros, para seu enfrentamento com o poder hegemônico das nobrezas nos
países da Europa central e do norte.
Não podemos passar em revista aqui todos esses discursos, que por certo são
interessantíssimos, tanto para o direito penal quanto para a criminologia. Limitando-nos a esta,
podemos afirmar que, em conjunto, eles representaram uma forte corrente crítica ao exercício
arbitrário do poder punitivo, baseada na experiência das arbitrariedades e crueldades de seu
tempo, dominado pelas nobrezas.
Todos eles, valendo-se dos elementos filosóficos de sua época, repensaram profundamente
o concernente à questão criminal. O utilitarismo mais puro ficou na Grã-Bretanha, enquanto que
no continente os pensadores deduziram suas visões e propuseram suas reformas
preferencialmente a partir da outra vertente do Iluminismo, quer dizer, do contratualismo.

Obviamente que nenhum destes pensadores acreditava seriamente que uns tantos seres
humanos, adornados com folhinhas de parreira nas partes pudendas, houvessem se reunido num
escritório para firmar um contrato e fundar a sociedade, como hoje poderiam fazer uns bons
comerciantes mais protegidos. Eles eram muito inteligentes para acreditar em algo semelhante. O
contrato era, para eles, uma metáfora, uma figura da imaginação para representar graficamente
a essência ou a natureza da sociedade e do Estado. Essa corrente foi a que predominou na
Europa continental para enfrentar os ideólogos do Antigo Regime, que se valiam, por sua vez, de
outra metáfora, pois para eles a sociedade era um organismo natural, com uma repartição de
funções que não podia ser alterada nem decidir seu destino pela escolha da maioria de suas
células. Todo o organicismo social, inclusive os que renascem no presente, é essencialmente
antidemocrático: as células que mandam são as do cérebro, e as das unhas devem conformar-se
com sua função de não incomodar; qualquer pretensão ao contrário não é, para qualquer
organicismo social, mais do que caos contra a lei natural.
Para o racionalismo contratualista, a sociedade não era em nada natural, mas sim produto
de um artifício, de uma criação humana, ou seja, de um contrato que, como tal, podia ser
modificado e até mesmo rescindido, como acontece com qualquer contrato quando a vontade
soberana das partes o decide.
Nesse marco, podemos afirmar que o pensamento crítico acerca da questão criminal
alcançou um de seus momentos de mais elevado conteúdo pensante com os discursos dos
contratualistas do Iluminismo. O marquês gordinho, que, segundo a fábula do velho Ferri
encabeçava essa escola era Cesare Beccaria, um funcionário milanês que publicou, em 1764, um
famoso livrinho (Dos delitos e das penas), o qual desencadeou uma série de trabalhos análogos
em toda a Europa, propondo profundas reformas quanto às garantias e aos limites ao poder
punitivo.
Além de ser o avô do inesquecível autor de I promessi sposi – Alessandro Manzoni –,
Beccaria era um homem tranquilo e acomodado, que nunca mais voltou a escrever nada sobre a
questão criminal e que dedicou o resto de sua vida a questões como a unificação dos pesos e
medidas.

Seus pressupostos antropológicos não são de todo claros, porque também era tributário de
Hume, o que, em alguma medida, o aparentava com as raízes do utilitarismo, mas o certo é que
foi oportuníssimo, algo assim como a bofetada intelectual mais contundente ao poder punitivo
da nobreza. Através da tradução francesa do abade Morellet, ele foi divulgado por toda a Europa
pelo velho Voltaire, que havia declarado guerra ao poder punitivo francês, assumindo a defesa
postmortem de Calas, um protestante executado, falsamente acusado da morte de seu filho,
supostamente para que este não se convertesse ao catolicismo. Algo muito parecido havia
olcorrido um século antes em Praga com um judeu, mas este não teve a sorte de encontrar o seu
Voltaire.
Em função das ideias iluministas, começaram a ser sancionados códigos, isto é, foram
abolidas as recopilações caóticas de leis e tratou-se de concentrar toda a matéria em uma única
lei, redigida de forma sistemática e clara, conforme um plano ou programa racional. Essa
tendência legislativa era uma derivação do enciclopedismo, que havia levado à redação da
Enciclopedia na França pré-revolucionária, ou seja, a tentar concentrar sistematicamente, em um
único livro, todo o saber da época.
Desse modo, procurava-se dar clareza e que todos soubessem, com base na lei prévia, o que
era e o que não era proibido, substraindo-o da arbitrariedade dos juízes. Os revolucionários
franceses quiseram levar isso até o extremo de substituir as orações nas escolas pelo código
penal, para que todos o soubessem de cor. Menos mal que ninguém teve a ideia de fazer o
mesmo com os 4.000 artigos do nosso Código Civil.
Quanto ao processo, os julgamentos se tornaram públicos. Foucault destaca a mudança: no
Antigo Regime, os julgamentos eram secretos e as execuções públicas; desde fins do século XVIII
os julgamentos passaram a ser públicos e as execuções secretas. O espetáculo era o julgamento
e não a execução, levada a cabo privadamente e à qual podiam assistir somente alguns
convidados especiais. É claro que com o julgamento público a tortura foi abolida.
Não deixa de ser importante a redução da pena de morte e a supressão das penas corporais.
Até esse momento, falava-se das penas naturais, ou seja, que, além dos açoites, havia uma
sobrevivência da pena no órgão que se havia sido usado no fato: a língua do perjuro e do
blasfemo, a mão do ladrão e na violação e na sodomia vocês deduzirão qual. A partir do século
da razão, a coluna vertebral das penas passou a ser a privação da liberdade.
Indo contra o que usualmente se crê, a prisão é um invento europeu bastante recente e
difundido pelo neocolonialismo, pois antes do século XVIII era usada pelos devedores morosos e
como prisão preventiva, isto é, à espera do julgamento. A privação de liberdade como pena
central é um produto do Iluminismo, seja pela via do utilitarismo (para impor a ordem interna
mediante a introjeção do vigilante) ou do contratualismo (como indenização ou reparação pela
violação do contrato social).
Este último é interessante e não em vão o gordinho Beccaria dedicou parte de sua vida à
unificação de pesos e medidas. Na Revolução Industrial, era fundamental a atividade mercantil e
para ela era necessário resolver as diferenças que o caos de pesos e medidas diferentes
provocava em cada país. A unificação facilitava o comércio. A unificação das penas também
facilitava sua medida, superava o caos prévio das penas naturais e permitia medi-las todas em
tempo.
Como se entende que um homicídio valha de oito a 25 anos e um furto de um mês a três
anos? O que é isso? Dois juízes procedendo como comerciantes que vendem pena por metro (ou
por anos) no mostrador da justiça? Por estranho que pareça, não é mais do que um efeito do

contratualismo que perdura até o presente.
Quem viola um contrato (não cumpre o que está acordado nele) deve indenizar. Se me
comprometo a vender algo e não entrego a coisa em seu momento, devo indenizar o comprador
pelo dano que lhe ocasionei. Se não pago voluntariamente reparando esse dano, me embargam
e sequestram bens e os executam, fazendo-se, desse modo, a cobrança. Pois bem, se não
cumpro com o contrato social e cometo um delito, devo indenizar. Como? Com o que? Ora, com
o que posso oferecer no mercado, ou seja, com minha capacidade de trabalho.
Daí que a pena me prive de oferecer meu trabalho no mercado durante mais ou menos
tempo, segundo a magnitude de minha infração ao contrato (delito) e o consequente dano. Até
mesmo a pena de morte entra nesta lógica tão particular, pois opera como uma confiscação
geral de bens; daí que também tenha desaparecido a pena de morte agravada com a tortura.
Pode parecer insólito, mas essa é a origem da ideia da unificação das penas em tempo de
privação de liberdade, que em seguida se cobrirá com outras racionalizações até nos parecer, a
pouco mais de dois séculos de distância, como normal e quase óbvia. Rapidamente nos
acostumamos às coisas mais rebuscadas e quando nos perguntam por que, a resposta é sempre
foi assim, embora não tenha sido sempre nem muito menos assim.
Na prática, tampouco, funcionou desse modo, mas sim que os europeus viram, desde muito
cedo, que seu problema não era com os “ameaçadores”, e que a prisão não atingia a todos, por
mais miseráveis que fossem e por mais alta que tenha sido a taxa de mortalidade nelas
registrada. Como eram países neocolonialistas, o primeiro que fizeram foi tirar de cima os
incômodos e enviá-los para suas colônias. Essas penas de relegação ou transporte foram
aplicadas particularmente pela Grã-Bretanha e pela França. Os ingleses mandavam seus
indesejáveis para a Austrália, onde os prisioneiros eram destinados aos colonos, em um regime
muito parecido com as encomiendas da nossa colonização, embora com melhor destino, porque,
ao que parece, muitos sobreviveram e seus descendentes povoaram o continente.

9. Os contratualismos tornam-se problemáticos
Na realidade, os contratualistas se ocupavam em imaginar e programar o Estado e a questão
criminal tornava-se central para eles, porque o que planificavam conforme suas concepções era
o próprio poder. Essa íntima e inseparável relação do poder com a criminologia foi o que se
perdeu de vista na última metade do século XIX, quando se quis fazer da criminologia uma
questão científica e asséptica, estranha ao poder e separada da ideia mesma de Estado. Essa
tendência não foi abandonada até a atualidade e hoje retoma grande força em toda a construção
da realidade midiática.
Como era de se esperar, houve vários contratualismos, porque a metáfora do contrato
permitiu construir diferentes imagens do Estado, fundadas também em ideias díspares do ser
humano (antropologias filosóficas, diríamos hoje).
Desde os albores modernos dessa metáfora notou-se essa disparidade, que começou na GrãBretanha no final do século XVII, prenunciando o processo de industrialização e a acumulação
primitiva de capital. Ali se enfrentaram o contratualismo de Hobbes e o de Locke. Para Hobbes,
em seu famoso Leviatã, a origem da sociedade se encontrava em um contrato, mas celebrado
entre sujeitos dos quais tinham caído as folhas de parreira, porque tinham as mãos ocupadas
com garrotes para se matarem com singular prazer entre eles. Em certo momento, eles teriam se

dado conta de que não era bom negócio o que estavam fazendo, baixaram os machetes e se
puseram de acordo em dar todo o poder a um deles, para que terminasse a guerra de todos
contra todos.
Como, na realidade, isso era pouco verificável, este filósofo (cujos retratos o mostram um
pouco mefistofélico, embora à medida que ia ficando mais velho, ia ganhando a cara de um bom
velhinho), não sabia onde encontrar um exemplo de grupo humano em semelhante condição,
mas afirmou que ainda existiam na América. Os hobbesianos atuais possívelmente o situam em
algum planeta de estranha galáxia, a muitos anos-luz de nós, cujos hipotéticos habitantes podem
se ofender no futuro, tanto como nós, hoje em dia.
É óbvio que o conceito do ser humano de Hobbes não era muito edificante, pois o concebia
como um ente movido pela ambição de poder e prazer. O depositário do poder em seu contrato
não tomava parte deste, razão pela qual os que lhe haviam dado o poder não poderiam
reclamar-lhe nada, porque, do contrário, reintroduziriam o caos, ou seja, a guerra de todos
contra todos. Por outra parte, como antes do contrato o que existia era o caos, não havia direitos
anteriores ao contrato e todos derivavam deste, de modo que, caso se negasse a autoridade do
depositário, todos os direitos desapareciam.
Desse modo, Hobbes não aceitava direito algum de resistência à opressão, embora não
explicasse o que aconteceria quando o depositário do poder, que continuava sendo humano, se
movesse, exercendo-o conforme a tendência natural à ambição de poder e glória e
desconhecesse qualquer limite legal imposto pelo contrato. Sua resposta era que qualquer
opressão é preferível ao caos, o que escutamos toda vez que se quer converter a política em
filme de terror.
Para manter essa curiosa paz, Hobbes exigia que as penas fossem estritamente legais e se
aplicassem mecanicamente, salvo aos inimigos, que eram os dissidentes que se queixavam e os
colonizados que estavam em estado selvagem.
Para Locke (a julgar por seus retratos, no meu bairro o chamariam de John, o fracote), o
contrato era diferente, pois antes de sua celebração houve um estado de natureza em que os
humanos tinham direitos, mas estes não estavam assegurados, e por isso decidiram celebrar o
contrato como garantia. Para isso entregaram o poder a alguém, mas o deixaram submetido ao
contrato. Devem obedecer a este, embora não gostem de fazê-lo, mas quando ele viola o
contrato e nega esses direitos anteriores, reintroduzindo o estado de incerteza prévio, aí surge o
direito de resistência ao opressor.
Com toda certeza, o conceito de ser humano do fracote John não era tão negativo como o
de Hobbes e, além do mais, a ideia que manipulava do estado de natureza era mais digna de
crédito.
Como se pode ver, Locke é uma das mais destacadas expressões do liberalismo político e,
no fundo, o inspirador das declarações de direitos das últimas décadas do século XVIII.
Nesses anos finais do século XVIII o debate inglês de quase cem anos antes se reproduziu
com fineza na Alemanha, ao aprofundar-se a investigação acerca da razão e seus limites. Era
natural que um século que fora caracterizado como da razão se perguntasse finalmente quais
eram sua natureza e seus limites. As tentativas mais elaboradas de responder a isso foram
levadas a cabo por Inmanuel Kant, com suas duas investigações ou críticas, sobre a razão pura e
a razão prática.
Dizem que Kant levava uma vida extremamente metódica, a ponto de as comadres de sua
Monterrey (não era mexicano, mas é isso que Königsberg significa, embora ninguém o traduza)

sabiam que deviam deixar de fazer fofoca começar a preparar a comida porque Herr Professor
havia passado. O certo é que o pobre era uma máquina de pensar e escrever. Estava mais
próximo de Hobbes do que de Locke, embora meus colegas penalistas o destaquem como o pai
do liberalismo penal. Não obstante, admitia que, se a resistência se transmutava em revolução e
estabelecia outro governo, a discussão estava encerrada e era preciso apoiar o novo.
Para conservar o contrato e não voltar ao estado de guerra de todos contra todos (estado de
natureza), Kant defendia a necessidade da pena talional, com a qual vinha, por uma via curiosa,
coincidir com a medida da pena dos utilitaristas.
Houve, nesse tempo, um jovem brilhante que, partindo da filosofia kantiana, afastou-se de
seu autor e com seus próprios fundamentos aproximou-se mais de Locke. Era Anselm von
Feuerbach, o pai do muito mais conhecido Ludwig Feuerbach. Não obstante, o velho foi muito
fora de série. Aos 23 anos escreveu algumas obras maravilhosas, superando a Kant no jurídico,
porque, por sorte, teve que se dedicar à questão criminal quando o pai lhe cortou as provisões
porque tivera um filho fora do casamento. Devido a esse feliz acidente biológico, tivemos um
penalista genial, que defendeu o direito de resistência à opressão e a ideia de direitos anteriores
ao contrato, aprofundando a separação da moral e o direito iniciada por Thomasius e seguida
por Kant, segundo alguns com maior êxito do que este último.
Entre as coisas que Feuerbach fez em sua vida – que foram muitas e nem todas santas –,
destaca-se seu código para a Baviera, de 1813. Ele é importante para nós porque Carlos Tejedor,
quando foi encarregado de redigir o primeiro projeto de código penal argentino, tomou como
modelo este código e não o de Napoleão, que era o mais empregado. Desse modo, Feuerbach é
o avô do pobre código que hoje foi completamente demolido ao compasso dos tiros de canhão
obedientes aos meios de comunicação de massa. Nos tempos de Feuerbach não havia televisão,
mas igualmente não pôde suprimir o delito da sodomia (como Napoleão o havia feito). Ele
degradou-o a contravenção menor e o justificou de modo muito curioso: disse que, se todos a
praticássemos, a humanidade acabaria. É claro que ele não acreditava nisso, mas também nessa
época havia meios de comunicação e agenda midiática.
É algo mais do que pitoresco recordar que nos últimos anos de vida, Feuerbach se interessou
por um adolescente, ao qual protegeu, que apareceu perambulando perdido, que crescera
encerrado numa torre e cuja origem nunca se conheceu. Ele foi batizado de Kaspar Hauser e sua
história deu lugar a uma novela e a vários filmes. Era inevitável que alguém que acreditasse em
um estado de natureza anterior ao contrato se interessasse por esse personagem. Chamou de
crime contra a humanidade o que fora feito com ele e, embora nunca se tenha provado que
fosse o herdeiro da coroa, o certo é que pouco depois da morte de Feuerbach o pobre Kaspar
foi atravessado por uma espada numa esquina.
As más línguas dizem que o próprio Feuerbach morreu envenenado por causa de seu
protegido, mas tudo indica que isso não passa de uma lenda, sendo o mais provável que sua
morte tenha sido causada por hipertensão, pois era gordinho, parece que não se privava de
nada e, além do mais, tinha um caráter bastante corrompido.

10. Contratualismo socialista?
Se é verdade que a linha que deriva de Hobbes foi mais funcional para a atitude política do
despotismo ilustrado e a de Locke para a do liberalismo político das nascentes classes industriais

urbanas, as coisas não terminaram ali. O contratualismo servia para tudo, de modo que não
faltou uma versão socialista.
Todos nós conhecemos o revolucionário francês Jean-Paul Marat, que editava o periódico O
amigo do povo, figura difamada por todas as correntes da historiografía fascista desse país, que
preferem santificar Charlotte Corday, que foi a mulher que o apunhalou ao surpreendê-lo na
banheira; pode-se dizer que morreu por não preferir o chuveiro. Muitos anos depois, Lombroso
estudou o crânio de Corday e disse que tinha a fossa occipital média, ou seja, que era uma
criminosa nata. Porém, deixando de lado banheiras e crânios, o certo é que Marat escreveu
também um Plano de legislação criminal antes da Revolução, quando estava precisando de
dinheiro em seu exílio suíço.
Com essa obra, apresentou-se a um concurso cujo prêmio, diz-se, era financiado por
Frederico da Prússia (der Grosse, como o chamavam, embora não porque fosse gordo). Marat era
médico e veterinário, fazia experimentos com a eletricidade e muitas outras coisas, mas não era
jurista. Seu plano parte do pressuposto de que o talião é a pena mais justa, mas afirma que foi
estabelecida no contrato social quando o poder foi repartido equitativamente entre todos, mas
que logo uns foram se apropriando das partes de outros e, no final, uns poucos ficaram com as
da maioria.
Nessas condições, o talião deixava de ser uma pena justa para Marat, pois só o era em uma
sociedade justa, que havia desaparecido. Por conseguinte, da mesma forma que Spee um século
e meio antes, afirmava que o juiz que impunha uma pena de morte nesta sociedade era um
assassino. É óbvio que não deram o prêmio a Marat, mas sim a dois desconhecidos alemães, a
quem a história esqueceu (ou, melhor, nunca registrou), mas que ficaram com o dinheiro e a
Marat só lhe restou a fama posterior do seu Plano, reeditado várias vezes em francês e em
espanhol em 1890 (com tradutor anônimo) e em Buenos Aires há uns dez anos. Marat não pôde
cobrar os direitos de autor dessas reedições, posto que havia morrido na banheira muitos anos
antes. Nem sempre, com certeza, a fama coincide com o sucesso econômico.
Por volta de 1890, houve um juiz francês, de convicções republicanas, em uma pequena
comarca (Chateau-Terry), que sem citar Marat aplicava sua lógica, para grande escândalo de
seus colegas provenientes do império de Napoleão III (Napoleão, o pequeno ou o doente de
gota), que, carregados de barretes e togas liam apenas o código e ignoravam a Constituição. Era
o bom juiz Magnaud ou Presidente Magnaud, cujas sentenças ficaram famosas em toda Europa
e mereceram comentários, entre outros, de Tolstoi.
Quando nosso Código Penal de 1921 foi discutido no Senado, havia um senador socialista,
Del Valle Iberlucea, que interveio na discussão e conseguiu que na fórmula sintética (hoje
desbaratada pelas emendas Blumberg e outros disparates) se incluísse como critério a maior ou
menor dificuldade para ganhar o sustento próprio necessário ou o dos seus. Na nota
correspondente do Senado, o juiz Magnaud é expressamente citado. Antes as leis penais eram
feitas com mais cuidado e mais neurônios e até os conservadores aceitavam conceitos socialistas.
Voltando ao contratualismo e a Marat, o certo é que este era muito funcional à classe dos
industriais em ascensão, mas suas possibilidades eram excessivamente amplas. Por debaixo
dessa classe estava a mão de obra industrial que se ia concentrando nas cidades, onde ainda não
havia capacidade para incorporá-las ao sistema de produção, tanto em razão de sua falta de
treinamento como pela insuficiência da acumulação de capital produtivo. Isso fazia com que em
um espaço geográfico reduzido se acumulassem a riqueza incipiente e a maior miséria, com os
conflitos que se pode imaginar.

O contratualismo tornava-se um pouco disfuncional à categoria que o havia impulsionado
como discurso hegemônico e a própria possibilidade de que fosse usado para legitimar
programas socialistas mostrava seus riscos. O disciplinamento dos utilitaristas não parecia
suficiente e o contratualismo mostrava seus assomos arriscados.
Vamos nos aproximando de uma mudança mais profunda do discurso criminológico, no qual
o contratualismo – depois de um máximo esforço de legitimação hegemônica da classe industrial,
ou de deslegitimação da participação do subproletariado urbano – terá de dar lugar a uma
brusca queda do conteúdo pensante da criminologia e do direito penal, que coincidirá,
justamente, com a consagração da primeira como saber academicamente autônomo. Mas isso já
é outra história, muito menos luminosa e mais trágica.

Ilustração 9

11. Nem todos são “gente como a gente”
O contratualismo era um marco (hoje se chamaria um “paradigma”) no qual tinham lugar
todas as possíveis variáveis políticas, desde o despotismo ilustrado até o socialismo, ou seja,
desde o meticuloso Kant, com sua pontualidade, até o revoltado Marat acalmando suas urticárias

na banheira.
Por conseguinte, também podia converter-se em algo perigoso para a própria classe que o
impulsionava, que defendia a igualdade, mas que começava, também, a distinguir entre os mais
e os menos iguais, à medida que não apenas ia considerando a si mesma como a melhor e mais
brilhante da Europa, senão de todo o planeta.
Os pensadores da questão criminal não podiam ser insensíveis aos temores do setor social
ao qual deviam sua posição discursiva dominante e, em consequência, começaram a adequar
seu discurso à exigência de não correr o risco de deslegitimar o poder punitivo necessário para
manter os indisciplinados subordinados, no interior, e fora, os colonizados e neocolonizados.
Nessa tarefa acadêmica podem ser delimitados dois momentos: 1) o hegelianismo penal e
criminológico; e 2) o positivismo racista.
O primeiro foi um esforço máximo, altamente sofisticado, do pensamento idealista, enquanto
o segundo rompeu com tudo e se desprendeu de toda racionalidade.
Qualquer filósofo diria que aproximar o hegelianismo do positivismo racista é uma
aberração, e não duvido de que desde sua perspectiva estará certo, porque aproxima um
discurso finíssimo, que soa como uma sinfonia, de outro, que evoca antes a gritaria de uma
serenata de bêbados destemperados na madrugada.
Não tenho dúvida alguma a esse respeito, mas não se trata de uma analogia quanto ao nível
de elaboração pensante dos discursos, que não admite comparação, mas sim no que torna
similar a utilização política de ambos os pensamentos por parte dos penalistas e criminólogos.
Esclareço que nem sequer tenho a pretensão de compreender Hegel. Além do mais, estou
seguro de não ser o único que não o entende completamente, a julgar pelos quilômetros de
estantes de livros escritos acerca de seu pensamento. Todos nós sabemos que ele é um filósofo
bastante difícil, que terminou de escrever um de seus livros mais complicados (Fenomenologia
do Espírito) enquanto bombardeavam a cidade, porque seu editor o pressionava. Como,
diferentemente de Beethoven, não era surdo, é possível que sua prosa tenha sofrido alguns
sobressaltos. O que eu efetivamente entendo são algumas coisas que Hegel escreveu com
clareza e, em especial, o que os juristas e criminólogos lhe atribuíram. A esse respeito, tampouco
afirmo que estes tenham interpretado bem seu mentor, o que aqui pouco interessa, dado que
nos interessa sobretudo a forma como o projetaram sobre (ou o lançaram contra) a questão
criminal.
Os ideólogos da questão criminal que o invocaram partiam da afirmação hegeliana de que o
“espírito” avança dialeticamente. Embora seja óbvio, cabe esclarecer que o “espírito” (“Geist”),
não era nenhum fantasma, e sim o espírito da humanidade como potência intelectual. Em quase
todas as histórias da filosofia Hegel é qualificado como um “racionalista”, mas devemos advertir
que, para ele, a razão era algo dinâmico, uma espécie de motor, e não um simples modo ou via
de conhecimento.
O avanço se dava na história dialeticamente, ou seja, “triadicamente”, por tese, antítese e
síntese. As duas anteriores desapareciam e se conservavam nessa última, pois estavam
“aufgehoben”, particípio passado de um verbo um tanto misterioso.
Havia, pois, um momento de “espírito subjetivo” (tese) em que o ser humano alcançava a
autoconsciência e, com ela, a liberdade, contraposto a outro, do “espírito objetivo” (antítese), em
que duas liberdades se relacionavam e, finalmente, ambos se sintetizavam no “espírito absoluto”.
A nós, bastam os dois primeiros, porque o direito pertencia, nesse esquema, ao momento
“objetivo”, posto que era nesse plano que os seres livres se relacionavam.

Deixando de lado o complicado que isso parece, o certo é que sua consequência prática é
que não tem autoconsciência quem não é livre e não pode passar ao momento objetivo, ou seja,
sua conduta não é “jurídica”. Mais ainda: os hegelianos afirmavam que a conduta “não livre” não
era conduta para o direito. Por conseguinte, os criminólogos e penalistas concluíam facilmente
que os seres humanos se dividem em “não livres” e “livres” e o direito era patrimônio destes
últimos. Pois bem: quando um “não livre” lesava outro não cometia um delito, mas sim operava
sem nenhuma relevância jurídica, porque não realizava propriamente uma conduta. Pelo
contrário, apenas os “livres” podiam cometer delitos, pois eram eles que realizavam condutas.
O efeito prático era que os “livres” eram retribuídos com penas proporcionais à liberdade
com que haviam decidido o fato, ou seja, com limites; quanto aos “não livres” que causavam
danos, eles só podiam ser submetidos a “medidas” de segurança, que não eram penas e,
portanto, não admitiam a medida máxima de sua culpabilidade ou liberdade, mas sim
unicamente a do perigo que implicavam para os livres.

Levando às últimas consequências, nossos colegas hegelianos pretendiam tratar os “não
livres” de forma mais ou menos análoga a um animal fugido do zoológico, que devia ser contido.
Se bem que não o expressassem desse modo, para nos entendermos é melhor dizer o que acho
que eles pensavam.
Quem eram os “não livres” para os penalistas hegelianos? Antes de tudo os loucos, mas

também os delinquentes reincidentes, multirreincidentes, profissionais e habituais, porque com
seu comportamento demonstravam que não pertenciam à “comunidade jurídica”, ou seja, não
compartilhavam dos valores dos setores hegemônicos. Os “não livres”, definitivamente, eram os
que não podiam ser considerados “gente como a gente”, mas somente como tipos perigosos.
É evidente que tampouco os selvagens colonizados eram livres. Hegel era absolutamente
etnocêntrico, o que fica demonstrado pelo que escreveu em suas Lições sobre filosofia da história
universal.
Por um momento, peço perdão e rompo meu costume de não transcrever nem aborrecer
com citações. Tomo o livro (tradução de José Gaos, edição de 1980) e leio que nós seríamos o
produto de índios inferiores em tudo e sem história (página 169), de negros em estado de
natureza e sem moral (177), de árabes, mestiços e aculturados islâmicos fanáticos, decadentes e
sensuais sem limites (596), de judeus cuja religião lhes impede de alcançar a autêntica liberdade
(354), de alguns asiáticos que apenas estão um pouco mais avançados que os negros (215) e de
latinos que nunca alcançaram o estágio do mundo germânico, esse “estágio do espírito que se
sabe livre, querendo o verdadeiro, eterno e universal em si e por si” (657).
Era natural que Hegel considerasse que os latino-americanos não tinham história e sim
“futuro”, pois para ele nossa história começava com a colonização, que nos havia colocado no
mundo; o passado dos povos colonizados não era nada, por ser alheio ao avanço do “espírito”.
Quando alguém é muito jovem costuma idealizar os grandes mestres mais do que o normal.
Vem à minha mente uma história que tem a ver com o que estamos falando. Certa manhã, na
Praça das Três Culturas do México, em Tlatelolco, alguns anos antes dos dramáticos assassinatos
de 1968, escutei um afamado jurista afirmar que ele era “europeu e europeizante”, e que não
compreendia as culturas pré-hispânicas “porque não entravam em Hegel”. Obviamente que
minha admiração pelo renomado homem de leis diminuiu notavelmente, visto que, embora
minha ignorância juvenil fosse considerável – não porque agora seja muito menor –, me ocorreu
perguntar a mim mesmo se Hegel estaria equivocado ou se as culturas pré-hispânicas teriam
mesmo existido. Voltemos, porém, ao nosso ponto.
Por certo, Hegel não havia obtido boas notas em geografia, porque colocava as nascentes do
Rio da Prata na cordilheira dos Andes. Também afirmava que nossa independência obedecia a
um erro dos ibéricos, que se haviam misturado com os índios, ao contrário dos ingleses, muito
mais astutos porque, na Índia evitaram misturar-se e desse modo não produziram uma raça
mestiça com amor à terra. Cabe deduzir que, para Hegel, nossa independência era obra da
incontinência sexual de espanhóis e portugueses. Gandhi o teria desconcertado, pois como a
Índia não tinha nenhuma raça mestiça com os ingleses, não deveria ter tido amor à terra nem se
tornado independente. Tampouco aqui sei quem estava equivocado, se Hegel ou Gandhi.
Prossigamos.
A ideia que Hegel tinha da América Latina provinha claramente de Buffon, que escreveu
muitos tomos de história natural enquanto cuidava dos jardins reais. Para este conde jardineiro
éramos um continente em formação, como provavam os vulcões e os sismos (supomos que
agora diria que a Islândia está em formação). Como corriam ao contrário (quer dizer, do norte
para sul, ao invés de fazê-lo corretamente, de leste para oeste, como na Europa), as montanhas
interrompiam os ventos e tudo se umedecia, apodrecendo-se; por isso, havia muitos animais
pequenos e nenhum grande e tudo o que se trazia se debilitava, inclusive os humanos. Para
Buffon, na América toda a evolução estava retardada.
O etnocentrismo de Hegel legitimava o colonialismo e abria o caminho das “grandes

narrativas” com centro na Europa. Combinado com o que os criminólogos que o invocavam
diziam para o controle dos europeus clandestinos, resultava um esquema muito adequado para
os interesses da classe que ia alcançando a hegemonia: a pena com limites ficava reservada aos
dessa classe ou a quem ela julgava conveniente; os “diferentes” (loucos, ameaçadores e
“incômodos”) que não eram livres, como não realizavam condutas humanas, eram submetidos a
penas sem limites, que eram rebatizadas como “medidas”. Quanto aos territórios extraeuropeus
povoados por selvagens, podiam ser ocupados porque eram perigosos para o “espírito” e,
ademais, colonizá-los era a maneira de introduzi-los na história, de levar-lhes o “espírito”.
É claro que o “espírito hegeliano” avançava na história como dominação colonial no
planetário e, ao mesmo tempo, como dominação de classe no plano interno. Mais que um
espírito, parecia um monstro que arrasava tudo em seu avanço massacrador e que, além disso,
arremessava para as margens de seu caminho de espoliação mundial os sobreviventes – índios,
negros, árabes, judeus, latinos, asiáticos etc. –, ou seja, todas as culturas que não atingiam a
clareza de Hegel, que se sentava, satisfeito, na ponta da flecha da história, posição por certo
muito incômoda.
Tudo isso, porém, continuava sendo “idealismo”, ou seja, para Hegel o poder punitivo se
explicava por uma via dedutiva, que não admitia nenhuma verificação no plano da realidade. A
exemplo do meticuloso Kant, sua legitimação não se contaminava com nenhum dado do mundo
real.
O velho Kant havia visto isso claramente, pois sabia, com sobras, que se fosse introduzida
alguma informação do mundo em que todos vivemos, as coisas seriam complicadas. Hegel
alterou muitas coisas em relação a Kant, entre as quais nada menos que seu conceito de “razão”,
mas nisso seguiu o mesmo caminho, só que por via da pura lógica: para Hegel, o delito era a
negação do direito; a pena era a negação do delito; como a negação da negação é a afirmação, a
pena era a afirmação do direito. E ponto.
Tudo isso era muito elaborado, permanecia no plano do idealismo filosófico e, em meados
do século XIX, resultava excessivamente abstrato frente ao que estava sucedendo em um mundo
que mudava com celeridade.

12. O salto do contrato à biologia
Na segunda metade do século XIX a classe em ascensão havia chegado ao poder. Os nobres
empobrecidos haviam casado seus descendentes com os dos industriais, comerciantes e
banqueiros; estes se haviam refinado e os netos se enfeitavam com os títulos dos avós nobres,
enquanto os castelos e palácios eram restaurados e as recepções suntuosas, com mulheres e
homens encasacados, voltavam a acontecer.
Ao mesmo tempo, os indisciplinados tornavam-se mais incômodos. Os acontecimentos
europeus de 1848 e sobretudo de 1871 – a Comuna de Paris – eram alarmantes para a nova
classe hegemônica. O que esta classe começava a necessitar não era de construções idealistas,
mas de algo muito mais concreto e de menor nível de elaboração, e também mais de acordo com
a cultura do momento.
Na ordem planetária, as relações do centro com a periferia exigiam a eliminação do sistema
escravocrata, porque a integração demandava maior nível tecnológico na periferia e, além do
mais, a Grã-Bretanha, que dispunha de mão de obra gratuita na Índia, se erigiu em campeã do

antiescravismo e exercia a polícia dos mares.
A “ciência” era a nova “ideologia” dominante. As maravilhas da técnica assombravam: a
ferrovia, os navios a vapor, o telégrafo, alguns avanços médicos, as vacinas, o canal de Suez etc.
O ser humano se tornava todo-poderoso, podia controlar por completo a natureza e chegar a
vencer a própria morte. Darwin havia provocado alguma decepção, mas também havia
demonstrado que o ser humano podia continuar evoluindo e que, quando as leis da evolução
fossem dominadas, o progresso não teria fim. A intenção era que, com a biologia, se constatasse
que os mais poderosos eram os mais “bonitos” e que os colonizados eram inferiores, “feios”,
todos iguais e parecidos aos macacos: era óbvia sua evolução inferior.
A classe outrora em ascensão havia passado a deter, na Europa, a posição dominante e a
considerava “natural”, de modo que o artifício do contrato não só lhe resultava inútil, como
também perigoso. Sua hegemonia “natural” só fora negada antes pelos obscurantistas e
metafísicos. Tanto os discursos legitimadores do poder nobiliário quanto o famoso contrato
passaram a ser superstições, pois necessitavam de um novo discurso que lhes permitisse exercer
o poder punitivo sem travas para manter sob controle os “de baixo”, que não podiam ser
incorporados ao sistema produtivo por escassez relativa de capital e que, ademais, tinham a
ousadia de exigir direitos.
Como era de supor, o novo paradigma que convinha a essas classes era o do organismo,
ainda que não o antiquado – baseado na “mão de Deus”– mas um novo, fundado na “natureza”
e revelado pela “ciência”. Porém, por mais “científica” que fosse a roupagem, como não é
demonstrável que a sociedade seja um organismo, o novo organicismo não passava de um
dogma arrebatado ao idealismo.
O instrumento com que os incômodos nas cidades eram controlados era a polícia, instituição
relativamente nova no continente europeu, ainda que não tão nova fora, porque era a mesma
força de ocupação territorial usada para colonizar.
Isso soa estranho, porque não se leva em conta que, com toda certeza, nunca houve guerras
coloniais verdadeiras, e sim operações de ocupação policial de território. Nem sequer no
colonialismo do século XV houve tais guerras: nem na ocupação de Tenochtitlán nem na do
Incanato houve guerra; tanto Cortês como Pizarro limitaram-se a algumas escaramuças policiais
de ocupação. Também não houve guerra com o neocolonialismo do século XIX, pois a enorme
superioridade técnica dos colonizadores impedia de se falar propriamente de guerras. Havia, no
máximo, resistência da população que recorria a ataques isolados e quase individuais, mas a
ocupação do norte da África tanto pelos ingleses como pelos franceses não consistiu, no geral,
em guerras, nem sequer quando enfrentaram hordas precariamente armadas. O aparecimento
das armas de repetição não deixou nenhuma dúvida a respeito.
Quando foi preciso conter os explorados que reclamavam direitos nas cidades europeias,
transferiu-se a experiência política de técnica policial de ocupação territorial para as metrópoles.
Na Grã-Bretanha resistiram bastante, pois sabiam bem o que significava e o que consideravam
bom para os africanos não queriam para os ingleses, mas ao final tiveram que admiti-lo e criar a
Scotland Yard, em 1829.
Os poderes das polícias europeias aumentavam em paralelo com as reclamações dos
explorados urbanos, mas careciam de um discurso legitimador. Em 1838, o Colégio de França,
que reunia todas as academias, lançou um concurso sobre “as classes perigosas nas grandes
cidades”, ganho por Fregier, um comissário, com um livro volumoso, mas incoerente, que só
continha lições de moral e algumas experiências pessoais, mas que, de modo algum, servia para

legitimar o crescente poder policial. O pobre Fregier limitou-se a escrever o que os acadêmicos
queriam escutar.
Desde os tempos de Wier os médicos estavam ansiosos por manipular a hegemonia do
discurso da questão criminal, em particular os psiquiatras, mas careciam de prestígio social, pois
trabalhavam em lugares infectos e em contato com seres indesejáveis e sujos.
A mudança da publicidade do julgamento, assinalada por Foucault, determinou que os
médicos despertassem interesse, pois começaram a ser chamados para os grandes processos
públicos como peritos, o que os projetou para a fama midiática, e a “gente de bem” deixou de
virar a cara ao vê-los passar. Aos poucos, foram se apropriando do discurso e explicando todos
os crimes investigados. Por certo tinham discurso de sobra, embora com a justificada
desconfiança dos juízes, que disputavam com eles as cabeças dos guilhotinados.
Como a polícia tinha poder sem discurso e os médicos o discurso sem poder, era inevitável
uma aliança, que é o que se conhece como “positivismo criminológico”, ou seja, o poder policial
urbano legitimado pelo discurso médico.
Porém, o discurso médico não se esgotava nos indivíduos ameaçadores e incômodos, e sim
era um mero capítulo dentro do grande paradigma que começava a se instalar: o do
reducionismo biologista racista.
Se os criminosos eram controlados por uma força de ocupação trazida das colônias, não
podia demorar muito a afirmação de que eram parecidos e sua criminalidade se explicava pelas
mesmas razões que legitimavam o neocolonialismo. Tanto uns quantos outros eram “seres
inferiores” e a razão pela qual se justificava o neocolonialismo era a mesma que legitimava o
poder punitivo.
A categorização racista dos seres humanos tem uma longuíssima história, mas a da segunda
parte do século XIX é muito interessante e apresenta aspectos incríveis.
Houve duas principais versões do racismo, que podemos denominar de “pessimista” e
“otimista”. A pessimista é a que afirma que houve uma raça superior, que, depois, se foi
degradando por misturar-se com uma espécie de símios que encontraram no caminho, que
provocaram uma decadência da espécie. Esse é o conto da raça “ariana” superior, que entrou na
Índia pelo norte, que falava uma língua única, nunca conhecida, da qual derivam as línguas
europeias e que alimenta todos os mitos nacionais “arianos” (os francos na França, os
germânicos na Alemanha, os saxões na Inglaterra, os godos na Espanha etc.), salvo na Itália, que
sempre preferiu o mito romano imperial.
Na verdade, a única coisa certa é que as línguas europeias costumam provir da Índia, na
qual entraram uns louros pelo norte e que se combinaram com o elemento druida moreno do
sul. Todo o resto é produto de uma obra escrita por um diplomata francês de duvidosa nobreza,
o conde Arthur de Gobineau. Ele foi um escritor pouco talentoso que, não obstante, escreveu
uma extensa novela sobre as raças que teve êxito singular. Castigado por algumas
irregularidades, foi embaixador no Brasil, onde verificou, horrorizado, que toda sua população
era mestiça africana e vaticinou que isso determinaria sua esterilidade por hibridação. Parece
que não acertou a esse respeito.
Gobineau terminou seus dias escondido com a mulher de um colega, porém sua novela foi
continuada por um inglês, Houston Chamberlain, tão germanófilo que adotou a cidadania alemã
e se casou com a filha de Wagner. A novela escrita por este personagem foi o livro de cabeceira
do kaiser Guilherme II. Por desgraça, tampouco ali terminou a saga desta novelística, pois o
nazista Alfred Rosenberg a continuou com O mito do século XX, do qual há uma única tradução

espanhola, publicada por uma editora nazista na Argentina, nos tempos da última ditadura.
Rosenberg foi enforcado em Nurenberg, mas não por ter escrito esse livro, e sim por ter sido o
ministro responsável por organizar os massacres de milhões de “seres inferiores” na Europa
oriental.
No entanto, esse racismo pessimista não servia para o novo momento de poder mundial,
que necessitava deslegitimar a escravidão, mas justificar o neocolonialismo, divulgar o
liberalismo econômico, mas controlar policialmente os excluídos no centro. O discurso que
legitimasse semelhante imbroglio não podia ter um grau muito alto de elaboração e por isso
esteve a cargo de alguém também bastante raso, que foi Herbert Spencer, que não era médico,
nem biólogo, nem filósofo e nem jurista, e sim engenheiro ferroviário e que, ademais, dizia não
ler outros autores porque o confundiam. Desse modo, ele foi capaz de conceber os disparates
mais incríveis de toda a história do pensamento, afirmando que levava Darwin do biológico ao
social.
O pobre Darwin carrega até hoje o peso do chamado “darwinismo social”, quando na
realidade foi o bom Sr. Herbert que o concebeu. Partindo de que na geologia e na biologia tudo
avança com propulsão a catástrofes, afirma que o mesmo acontece na sociedade, e que os seres
humanos que sobrevivem são os mais fortes e desse modo tudo vai evoluindo, inclusive o ser
humano na história. Esse catastrofismo deprime os mais débeis, mas para Spencer isso é um
detalhe inevitável e sem maior importância.
Por isso, ele defendia a posição de que não se devia ajudar os pobres, para não privá-los de
seu direito a evoluir, que a filantropia era um erro, da mesma forma que o ensino obrigatório ou
gratuito porque, se não custava nada, as pessoas não o valorizariam e terminariam lendo livros
socialistas. Desse modo justificava a renúncia a qualquer plano social por parte dos governos
europeus. O controle dos insubordinados por meio da polícia parecia ser a principal função do
Estado para nosso amigo ferroviário.
É isso mesmo que hoje afirmam os “think tanks” da ultradireita estadunidense, que na
verdade são mais “tanks” que “think” (por educação, é excusado dar muitos detalhes sobre o
real conteúdo dos “tanks”), ainda que, como corresponde à sua desonestidade, eles omitem o
nome do velho Herbert.
Quanto ao neocolonialismo, Spencer afirmava que os ocupados são seres humanos
inferiores, mas, diferentemente dos “pessimistas”, isso não se deve a que eles tenham decaído,
mas sim a que ainda não evoluíram. Por isso não têm moral, não conhecem a propriedade,
andam seminus e são sexualmente muito “frequentes”. Daí que, como “a função faz o órgão”,
têm a cabeça menor e os genitais, maiores, porém, a piedosa obra dos colonizadores os tornaria
menos “frequentes” (possivelmente mostrando-lhes um retrato da rainha Vitória) e, desse modo,
sob tão terna proteção, chegariam, em alguns séculos, a ter cabeça maior (e se supõe que
genitais menores). Escareço que nada disso é lenda, e sim que está escrito nos livros do bom Sr.
Herbert, de cuja transcrição textual lhes poupo.
A conclusão prática era que os colonizados podiam ser dominados, mas não escravizados.
Cabe precisar que os europeus não foram muito sutis em relação a essa diferença e que, em
1885, se reuniram no Congresso de Berlim, convocado por Bismarck, e repartiram a África como
uma grande pizza. As consequências desse congresso são sentidas até o presente, pois a
arbitrária divisão política de África é, até hoje, fonte de sangrentas guerras, alimentadas por
negociatas armamentistas que mantêm a região subsaariana imersa em catástrofes.
Porém, com o neocolonialismo também se lançaram à empresa inclusive quem nunca o

havia feito, com as mais funestas consequências humanas. A memória dos italianos em Trípoli
não é nada boa, mas foram os alemães que levaram o prêmio com o aniquilamento maciço dos
hereros na Namíbia, embora, sem dúvida, o prêmio maior quem ganhou mesmo foi o
empreendimento privado de Leopoldo II, que matou cerca de dois milhões de congoleses,
forçados a extrair borracha sob ameaças de morte e amputações, e reduziu a população em oito
milhões.
Esse crime foi denunciado em seu tempo em uma famosa novela de Joseph Conrad, Coração
das trevas, e também divulgado por Mark Twain nos Estados Unidos, o que obrigou Leopoldo II
a entregar sua empresa ao Estado belga, que não alterou em nada a atividade massacradora e
exploradora de seu monarca.
O rei Balduíno, no discurso de independência do Congo em 1960, teve a desfaçatez de fazer
o elogio da obra belga, o que provocou a resposta de Patrice Lumumba, que, nos primeiros dias
do ano seguinte seria assassinado por um pelotão sob o comando de um oficial belga.[3]
É bom lembrar que Leopoldo II ergueu um luxuoso museu perto de Bruxelas com todos os
troféus e amostras de sua obra (além de muitas estátuas e retratos dele mesmo), rodeado de um
formoso parque, e que em uma de suas vitrinas se encontra uma carta enviada pelo
administrador do Congo Belga ao presidente Truman, felicitando-o pelo êxito de Hiroshima e
Nagasaki, pois o urânio das bombas procedia das minas do Congo.
Quanto à América Latina, é sabido que o curioso ferroviário inglês alimentou a ideologia
assumida pelas elites intelectuais de todas nossas repúblicas oligárquicas, desde o “porfirismo”
mexicano até a “oligarquia bovina” argentina e desde o “patriciado peruano” até a “República
Velha” brasileira. Nossas minorias dominantes se consideraram vanguardas iluminadas da
civilização, que exerciam um paternalismo piedoso sobre as grandes maiorias excluídas do
poder, necessário até que os povos perdessem sua condição “bárbara” e estivessem em
condições de decidir seu destino, ou seja, supomos, até que a cabeça crescesse.
O spencerianismo foi o reducionismo biologista levado ao social que serviu de marco
ideológico comum ao neocolonialismo e ao saber médico que legitimou o poder policial com o
nome de positivismo criminológico, que bem poderia se chamar de “apartheid criminológico”.
Como os médicos vincularam a inferioridade dos neocolonizados à dos agressivos e incômodos?
Essa é a história do “apartheid criminológico” em sentido estrito, com todas suas deploráveis
consequências.

13. Começa o “apartheid criminológico”
Na realidade, os positivistas chamaram de “criminalidade” ao conjunto de presos, que era o
único a que tinham acesso, porque os muitos mais que cometiam delitos e ficavam impunes lhes
eram desconhecidos, ou seja, que seu “laboratório”, por assim dizer, se limitava ao estudo
daqueles que se encontravam enjaulados. Como se sabe, em todos os tempos, os mais lerdos e
com menos poder são colocados na jaula.
Para vincular “a criminalidade” (os presos) aos “selvagens colonizados”, os positivistas
elaboraram um discurso em cuja análise entramos, advertindo que estamos abrindo as portas de
uma história macabra, que terminou muito mal em todos os sentidos. Se bem que os disparates
que foram ditos em seu curso causem risos, suas funestas e letais consequências não têm nada
de engraçado.
Essa história se suaviza na manualística criminológica, relatando-a como um simples
momento do passado “teórico”, centrado em um médico de Turim, Cesare Lombroso, a quem se
descreve como um “exagerado” e nada mais. Se fosse apenas isso, não passaria de um relato
quase curioso.
Para dizer a verdade, o pobre Lombroso era um investigador sério, que, na verdade, teve

muito pouco a ver com a origem e as consequências desse capítulo trágico. De família judia e
filho de um rabino, Lombroso nunca imaginou as consequências da corrente em que se movia,
mas na realidade não inventou o reducionismo biologista e se limitou a enquadrar suas
observações no marco spenceriano, ou seja, no paradigma de seu tempo.
O chamado “positivismo criminológico” (que, como já dissemos, não é mais do que o
resultado da aliança do discurso biologista médico com o poder policial urbano europeu) foi
sendo armado em todo o hemisfério norte e estendeu-se ao sul do planeta, como parte de uma
ideologia racista generalizada na segunda metade do século XIX e que terminou,
catastroficamente, na II Guerra Mundial. Não tem um autor: tem muitos e de todas as
nacionalidades e, por certo, os criminólogos positivistas não foram mais do que uma das
múltiplas manifestações de todos os pensamentos enquadrados nesse paradigma.
Dito de forma mais crua e extremamente sintética, podemos afirmar que começou décadas
antes de Lombroso, com os médicos que lançaram as primeiras teorias que pretendiam expor
uma etiologia orgânica do delito – e, ao mesmo tempo, a inferioridade dos colonizados – e
terminou nos campos de extermínio nazistas.
Bénedict Augustin Morel expôs, em 1857, sua “teoria da degeneração”, segundo a qual, em
razão da mescla de raças humanas combinar fios genéticos muito distantes, tinha por resultado
seres inteligentes, mas moralmente degenerados, desequilibrados, incômodos.
Hegel tinha alguma razão, pois esses “degenerados” eram nossos gaúchos, mestiços e
mulatos. Sem eles não teria havido exércitos libertadores em nossa América, os colonizadores
podiam ter aniquilado todos nossos povos nativos e a América poderia ter sido totalmente
repovoada pela “raça superior” colonizadora. Talvez esse genocídio completo tenha sido o
sonho irrealizado de muitos racistas da época (e de alguns atuais que não se animam a dizê-lo).
Os mestiços sempre foram mais incômodos para o poder do que os índios ou africanos puros,
pois eram muito mais difíceis de domesticar.
A “degeneração” de Morel foi um mito que continuou vigente inclusive na escola psiquiátrica
francesa da Argélia até a guerra de libertação. Antes de Morel, o inglês James Pritchard havia
exposto sua teoria da “locura moral”, na linha que destacava a inferioridade dos criminosos e
dos colonizados, afirmando que Adão havia sido negro e que seus descendentes foram se
embranquecendo. Supomos que o pecado original deveria ser imputado a uma raça inferior.
Contemporâneo de Hegel, o alemão Franz Joseph Gall considerava que seu crânio era o
“normal” e todos os outros, anormais. Por conseguinte, acreditava diagnosticar a criminalidade e
a genialidade apalpando a cabeça, com sua famosa “frenologia”. Perseguiram-no por “ímpío”,
apesar de só apalpar a cabeça das pessoas.
Outros contemporâneos de Lombroso rechaçaram suas teorias, porém sem deixar de afirmar
despropósitos, como o francês Feré, que em 1888 afirmava ser a sociedade biologicamente justa,
pois provocava uma “sedimentação social dos degenerados”, os quais caíam “naturalmente” até
as classes mais subalternas, e que a falta de proteção aos não degenerados representava uma
omissão de defesa social, isto é, que a defesa social devia ser contra os pobres.
O maior crítico da teoria lombrosiana nos congressos de antropologia criminal de seu tempo
foi o francês Alexandre Lacassagne, que atribuía o delito a modificações cerebrais do occipital,
do parietal ou do frontal: as do occipital eram as responsáveis pelos crimes primitivos das
classes baixas, as do parietal, dos ocasionais e impulsivos das classes médias, e as do frontal, dos
delinquentes alienados das classes altas. Parece que os pobres costumavam cair de costas e
golpear a parte traseira da cabeça. Como se pode ver, a chamada “escola francesa” tampouco

economizava disparates. A estes era acrescentado o trabalho de um médico colonialista – o Dr.
Corre –, que exemplificava as consequências da independência dos “selvagens” com o caso do
Haiti.

Como o racismo era um paradigma, pouco importava a ideologia política dos protagonistas,
porque todos se moviam dentro desse marco. José Ingenieros – que era socialista e é
considerado o fundador da criminologia argentina – não compartilhava a teoria lombrosiana,
mas professava uma firme convicção racista, que colocou em evidência em um horripilante

artigo publicado em 1906, com o título “As raças inferiores”, no qual fala de “farrapos de carne
humana”, justifica a escravidão etc. Realmente, parece escrito em pleno surto psicótico de
racismo agudo.
Raimundo Nina Rodrigues, fundador da criminologia brasileira, era tributário da escola
francesa e, na linha de Morel, combatia a mestiçagem (“a miscigenação”) com base na tese da
degeneração, considerava os mulatos semi-imputáveis e dedicava seu livro ao mencionado Dr.
Corre e a Lacassagne.
Nina Rodrigues foi caricaturizado por Jorge Amado, com a licença literária que o fez viver
algumas décadas mais, no personagem de Nilo Argolo de Araújo de sua famosa novela Tenda
dos milagres, também levada ao cinema.
Lombroso só se limitou a formular observações mais meticulosas e a articulá-las ao marco do
mesmo paradigma dominante. Se bem que a síntese que formulou tenha garantido sua
celebridade mundial, dando-lhe maior difusão e êxito acadêmico (com as consequentes invejas),
o certo é que sua teoria do “criminoso nato” não inventou nem esgotou o reducionismo nem o
positivismo racista. Inclusive a própria expressão “criminoso nato” lhe foi sugerida por seu
seguidor Enrico Ferri, que a plagiou de Cubí y Soler, que havia sido um discípulo espanhol de
Gall, obviamente sem citá-lo.

14. A síntese lombrosiana: um bicho diferente
A tendência a deduzir caracteres psicológicos a partir de dados físicos ou orgânicos remonta
a um velho tratado de “fisiognomia” atribuído falsamente a Aristóteles e ganhou força no
Renascimento.
A origem desse suposto saber encontra-se em um preconceito bastante absurdo, que começa
com a classificação e a hierarquização dos animais. O ser humano atribuiu aos animais virtudes e
defeitos humanos e, de acordo com estes, classificou-os e hierarquizou-os: o cachorro fiel, o gato
diabólico, o burro imbecil, o veado asqueroso etc. Realmente, os animais são como são e nunca
se inteiraram dessas valorações; ao que parece, eles se limitam a ter um conceito um tanto pobre
dos humanos, mas isso é um outro problema.
Foi assim que os humanos coroaram “rei” ao urso, que aparece em numerosos brasões
(inclusive no de Madri), até que foi destronado por obra dos eclesiásticos que descobriram
(quem sabe como) que ele tinha uma conduta sexual indevida – não sei em que isso consiste,
mas, por prudência, nunca perguntei a nenhum urso (parece que eles não gostam que se
intrometam em sua vida particular, em especial depois de visitar o Canadá, onde, por toda parte
há cartazes “Take care with the bears”). O certo é que o leão o substituiu, portador, presumo,
de costumes sexuais saudáveis, mas a quem, tampouco, me atrevi a indagar.
Uma vez estabelecidas essas classificações humanas dos animais, houve quem pensasse que,
devido à semelhança de alguns humanos com certos animais, eles podiam ser caracterizados
psicologicamente. O jogo não podia ser mais infantil: primeiro classificaram os animais com
traços humanos e em seguida atribuíram aos humanos os traços que antes haviam colocado nos
animais. Isso mesmo se faz na esquina, onde os rapazes, sem pretender fundar nenhuma ciência,
classificam os que têm pinta de cavalo, de burro, de raposa etc.
Não obstante a simplicidade, Gian Battista Della Porta, no século XVII, e Johann Caspar
Lavater, no século XVIII, escreveram formosos tratados repletos de bonitas ilustrações, com as

quais sustentaram esta nova “ciência” da “fisiognomia”, provocando um longo debate do qual
participou ninguém mais do que Goethe.
No século seguinte, em 1876, Lombroso deu a luz à primeira edição de L’uomo delinquente,
na qual afirmava que se podia reconhecer o “criminoso nato” como uma espécie particular do
gênero humano (“specie generis humani”) pelos caracteres físicos. A criminologia – que, nessa
época, se chamava “antropologia criminal” – ocupava-se, por conseguinte, de um objeto
biológico diferenciado, o que levou um extremista a sustentar que era um ramo da zoologia.
Como explicar o “criminoso nato”? Por sua semelhança com o selvagem colonizado,
aduzindo que as raças selvagens eram menos evoluídas do que a raça branca europeia. Em seu
tempo, afirmava-se que no seio materno se sintetiza toda a evolução, desde o ente unicelular até
o ser humano completo (dizia-se que “a ontogenia resume a filogenia”). O “criminoso nato” era
produto acidental de uma interrupção deste processo, que fazia com que, em meio da raça
superior europeia, nascesse um sujeito diferente e semelhante ao colonizado. Era, pois, um
branco que nascia mal acabado, sem o último golpe de forno e, portanto, era um colonizado. Os
caracteres “atávicos” que o assemelhavam ao colonizado lhe atribuíam traços “africanoides” ou
“mongoloides” (parecidos aos africanos ou aos índios). Da mesma maneira que os selvagens,
não tinham moral, pudor e, ademais, eram hipossensíveis à dor (para que a sentissem era
necessário bater neles com mais força), o que era verificável porque se tatuavam. Imagino o
terror de Lombroso em uma praia nos dias de hoje, rodeado de criminosos natos.
É bastante claro que Lombroso estava imbuído de claros elementos estetizantes. Em seu
tempo, os colonizados eram feios e maus, porque havíamos feito algumas diabruras, como
fuzilar Maximiliano no México, parar a frota no rio Paraná, expulsar os franceses do Haiti etc.
Nossos tipos humanos contrastavam com a branca beleza europeia, protegida do sol por
sombrinhas e usando corpete.
A fealdade e a maldade sempre vão associadas; nos raros casos em que o belo é mau, tratase, no geral, de uma beleza diabólica, do tipo de Dorian Gray. Hoje sabemos que a polícia
seleciona por estereótipos e que estes se configuram através da comunicação com base em
preconceitos, nos quais os valores estéticos desempenham um papel fundamental, seguindo a
regra de associar o feio ao mau. Reproduz-se, em definitivo, o mecanismo da “fisiognomia”:
define-se o “feio”, associa-se ao “mau” e acaba se selecionando o “mau” mediante o “feio”.
A ingenuidade dos positivistas levou-os a espantar-se com a “intuição” dos artistas ao
descrever ou pintar o crime, quando, na realidade, eles haviam definido os estereótipos de
acordo com os quais se selecionavam os criminalizados por “feios”, ou seja, por se assemelharem
aos colonizados. São numerosos os tediosos livros positivistas sobre “criminosos na arte”.
Em edições posteriores, a obra de Lombroso foi acompanhada por um volume ou “Atlas”,
com fotografias e desenhos de delinquentes, todos presos ou mortos, é claro. Basta olhar para
essa enorme coleção de caras feias para convencer-se de que esses sujeitos não podiam andar
por muito tempo soltos por uma cidade europeia sem que a polícia os prendesse, pois pareciam
todos saídos dos desenhos de “malvados” dos folhetins de costumes.
O erro de Lombroso consistiu em acreditar que essa feiura era a causa do delito, quando, na
realidade, era a causa da prisionização, pois se eles fossem bonitos não estariam no “Atlas”,
como Jack, o Estripador, em relação ao qual cabe presumir que, como era bonito, não casava
com o estereótipo e nunca conseguiram colocá-lo na prisão.
Com toda certeza, Lombroso, que era um observador meticuloso, nos legou a melhor
descrição dos estereótipos criminosos de seu tempo.

Entretanto, ele não se ocupou apenas dos criminosos – ou seja, dos mal acabados –, mas
também dos que iam mais além do esperado, isto é, dos “gênios”, a tal ponto que se empenhou
em conhecer alguns, como Tolstoi. Tanto ele como Max Nordeau escreveram livros sobre o
“homem de gênio”; Nordeau advertia, em dois grossos volumes, acerca do perigo do “gênio
louco ou degenerado”, em cuja categoria incluía Oscar Wilde, batendo em cavalo morto.
Lombroso ocupou-se também dos dissidentes e escreveu sobre os delinquentes políticos e
sobre os anarquistas.
A verdade é que a criminologia lombrosiana parecia um grande elogio à mediocridade: não
havia que se parecer com os colonizados, mas tampouco se sobressair muito em inteligência e
criatividade nem discordar demasiadamente. Para completar o quadro, tampouco deixou a
mulher em paz. A exemplo dos inquisidores, considerava-a menos inteligente do que o homem,
apesar de afirmar que isso era compensado pela sua maior sensibilidade. Atribuía sua menor
representação no delito à existência de um “equivalente” do delito na mulher, que era a
prostituição. Tudo isso foi desenvolvido em um livro escrito junto com seu genro – o historiador
de Roma, Guglielmo Ferrero –, intitulado A mulher delinquente, prostituta e normal.

15. O rastro do positivismo biologista
Quanto a nós, latino-americanos, podemos assim deduzir as consequências da criminologia
positivista sintetizada por Lombroso: se a prisão estava destinada aos brancos “atávicos” nos
países colonialistas, porque eles se pareciam com os selvagens, cabe pensar que os territórios
colonizados eram grandes prisões, ou seja, imensos campos de concentração.
Esse pensamento tem sua lógica: o “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) escrito sobre o
portão de Auschwitz é uma consigna que poderia provir de todo o colonialismo na forma de
“trabalhem, que assim aprendem e chegarão a ser livres como nós” (supomos que com a cabeça
maior, obviamente com prejuízo de outros atributos). Por outro lado, o positivismo
criminológico, com seu enfeite de ciência, chocava-se frontalmente com o neotomismo
fossilizado dos discursos confessionais e assim obtinha patente de pensamento progressista, mas
suas consequências práticas eram mínimas. Um historiador uruguaio, José Pedro Barrán, afirma
que não havia problema no casamento entre uma menina católica, que comungava diariamente,
e um médico agnóstico ou ateu, porque o que para ela era pecado, para ele era anti-higiênico.
Por isso, adequava-se perfeitamente aos interesses de nossas oligarquias regionais, que não
podiam deixar de lhe dispensar uma calorosa acolhida. Na Argentina, foi Luis María Drago quem
divulgou precocemente as teses lombrosianas em uma conferência intitulada “Os homens de
presa”, logo publicada em versão italiana com prólogo do próprio Lombroso.
O positivismo foi tão impactante na Argentina que não só foi acolhido pelas cátedras de
todo o país, incluindo a de Córdoba, como também Lombroso foi convidado a nos visitar. Por
motivo de saúde, não veio porém no centenário da independência do país, veio Enrico Ferri, que
era seu discípulo jurista. Por essa época, Ferri era um proeminente socialista italiano e seus
correligionários argentinos foram recebê-lo com entusiasmo. Mal desembarcou, Ferri afirmou que
não se justificava o socialismo em um país não industrializado, provocando uma polêmica com
Juan B. Justo, enquanto desfrutava da companhia do que havia de mais ilustre na nossa
oligarquia e pronunciava suas conferências com singular êxito.
Como penalista, Ferri afirmava que a pena devia ter a medida da periculosidade que,

logicamente, na falta de um “perigosímetro”, mediam na base do “olhômetro”. O juiz se
convertia em um policial a mais. A dogmática jurídica era uma “abstrusidade germânica” e as
garantias processuais, um preconceito metafísico. O determinismo monista de Ferri era radical:
tudo estava mecanicamente determinado, não havia liberdade alguma.
O delinquente era, para Ferri, um agente infeccioso do corpo social do qual era preciso ser
separado, com o que convertia os juízes em leucócitos sociais. O filósofo Martin Buber ridiculiza
isso, imaginando um diálogo em que o processado alega perante o juiz que não tem a culpa
porque está predeterminado ao delito, ao que o juiz lhe responde que ele está predeterminado a
condená-lo.
Embora o próprio Ferri tenha pretendido compatibilizar isso com Marx, nunca o conseguiu
e, talvez cansado de tentá-lo, mais para o final de sua vida terminou aceitando uma senadoria de
Mussolini.
A prédica positivista em nosso país fez escola e José María Ramos Mejía patologizou boa
parte de nossos próceres em seu famoso livro A neurose dos homens célebres, em que incluía o
dr. Francia,[4] o que levou Lombroso, que não reparava muito nesses detalhes, a considerar
argentino o famoso paraguaio. Cabe destacar que Lombroso incorreu em outros erros a nosso
respeito, como afirmar que os incêndios da Boca ameaçavam estender-se a Montevidéu, ou
recolher, das memórias de Garibaldi, que nossos hábitos carnívoros eram a causa da frequência
homicida. Também disse que em Mendoza a população tomava banho sem roupa no rio, o que
motivou a retificação de Drago em defesa do pudor das damas mendocinas.
A tese da degeneração teve ampla repercussão entre os argentinos. Carlos Octavio Bunge
publicou, em 1903, Nossa América, um livro que foi muito útil por seu racismo, na linha de
Morel. Muito mais tarde, em 1938, Francisco De Veyga publicou um livro intitulado Degeneração
e degenerados. Miséria,vício e delito, em que parecia advertir que, se nada fosse feito para conter
a degeneração, os degenerados iriam nos superar. A julgar pelo tom do livro, acredito que sete
anos depois sua teoria teria sido considerada verificada na Plaza de Mayo, como anos antes o
haviam manifestado aqueles que se escandalizaram porque o povo desamarrou os cavalos do
coche do presidente Yrigoyen para levá-lo até a casa de governo. Um senador nacional
publicou, nesses anos, um opúsculo com o título de Chusmocracia [algo como a democracia do
populacho]. Cabe esclarecer que, anos antes, De Veyga estivera obcecado com a
homossexualidade masculina e escreveu consideráveis disparates a respeito.
Os criminólogos positivistas dedicaram-se a percorrer prostíbulos e outros antros da época e
conceberam o conceito de “má vida”. Escreveram-se livros sobre a “má vida” em Roma, em
Madri, em Barcelona e, como não podia faltar, também em Buenos Aires. Quem o publicou aqui,
em 1908, foi Eusebio Gómez, destacado professor de direito penal da UBA, com prólogo de José
Ingenieros, foi muito útil por conta de sua redundância biologicista. Ali desfilavam prostitutas,
espertalhões, ladrões, religiosos, curandeiros, gays etc. A respeito dos últimos, Gómez, afirmava
que admirava a Idade Média.
Como resultado dessas andanças nada santas, os positivistas propunham leis de “estado
perigoso predelitual”, ou seja, que caso se soubesse que quem andava na “má vida” teria de
desembocar no delito, o mais natural era detectá-lo antes e metê-lo na cadeia. Para que esperar
que cometessem algo? Para obviar algumas formalidades, lhe mudavam o nome da pena e a
chamavam de “medida”, de modo que ninguém poderia objetar que lhe fossem impostas penas
sem delito. Famosos professores estrangeiros vieram em apoio a essa luminosa ideia que, por
sorte, entrou em choque com a decidida recusa de Yrigoyen, mas não de Alvear, que

encaminhou alguns projetos que, felizmente, não receberam sanção.
Se levarmos ao extremo a colocação, o mesmo delito não era mais que um “sintoma” da
periculosidade e, portanto, tampouco teria muito sentido ter uma parte especial do código penal
como catálogo fechado, porque sempre poderiam aparecer novos “sintomas”, e inclusive alguém
poderia pensar-se em suprimir essa parte especial.
Embora ninguém tenha apoiado essa ideia na Argentina, não faltou quem o propusesse do
outro lado, o que demonstra que não há disparate que não possa estar presente nesta matéria.
Com efeito, Nikolai Krylenko – destacado jurista soviético, revolucionário e magistrado –
elaborou um projeto de código penal sem parte especial que não foi sancionado.
De qualquer maneira, o positivismo criminológico se defrontava com um gravíssimo
problema, que era a própria “naturalidade” do delito. Não podia negar que se criminalizava por
decisão política e que o proibido mudava de tempos em tempos e de sociedade em sociedade.
Um outro jurista italiano, seguidor de Lombroso e Ferri, o barão Raffaele Garofalo, inventor do
“delito natural”, dedicou-se a superar esse obstáculo. A esse respeito, ele publicou, em 1885,
uma Criminologia, que merece ser lida com atenção, porque é um manual que expõe, com
incrível ingenuidade, racionalizações às piores violações de direitos humanos imagináveis.
Entre outras coisas, ele afirma que o delinquente é o inimigo interno na paz, como o soldado
inimigo o é na guerra; prefere a pena de morte à prisão perpétua, porque é mais piedosa e
elimina o risco de fuga; afirma que há povos degenerados que cumprem no plano internacional
o mesmo papel que os criminosos natos desempenham no nacional, e muitos outros absurdos
que são bem úteis. Seria uma leitura recomendável para a turma do “Tea Party”, os europeus
antiextra-comunitários e os argentinos antibolivianos, entre outros tantos.
Como Garofalo construía seu “delito natural”? Misturando o ferroviário Spencer nada menos
do que com Platão (esclareço que houve misturas piores). Afirmava que a civilização avançava
em refinamento dos sentimentos de piedade e justiça, alcançando seu mais alto grau, é claro, na
Europa, e que isso se expressava na proteção aos animais. Escrevia isso, enquanto os capangas
de Leopoldo II mutilavam negros porque não lhes traziam borracha suficiente.
Pois bem. Para Garofalo, o “delito natural” seria a lesão do sentimento médio de piedade ou
de justiça imperante em cada tempo e sociedade. Assim, ele construía um quadro de valores e
subvalores lesionados no qual colocava os diferentes delitos. O resultado era algo assim como
um Platão em estado bruto. Nem todos os positivistas aceitaram de bom grau esse platonismo à
Spencer. Pedro Dorado Montero, por exemplo, foi um personagem singular, professor de
Salamanca, positivista, mas, ao mesmo tempo, um anarquista moderado, que meditava no
isolamento de seu refúgio castelhano. Rechaçou a tese de Garofalo, afirmando que não havia
nenhum “delito natural”, mas sim que o Estado definia arbitrariamente os delitos. Porém, como
havia homens determinados a realizar essas condutas, o que o Estado devia fazer era “protegêlos” em instituições às quais eles pudessem recorrer pedindo ajuda.
Evidentemente que ninguém seguiu Dorado e de nenhum modo ocorreu a alguém
materializar as curiosas instituições que ele propunha e com as quais pensava mudar o direito
penal por um “direito protetor dos criminosos”.
É bastante óbvio que o positivismo criminológico desembocava em um autoritarismo policial
que correspondia a um elitismo biologicista. Não apenas legitimava o neocolonialismo, mas
também a repressão das classes subordinadas no interior das metrópoles colonialistas. As elites
dessas sociedades temiam sua insubordinação e perseguiam os agitadores “dissidentes”. O
próprio Garofalo escreveu um livro intitulado A superstição socialista. Mais temor ainda

inspiravam as reuniões públicas: as “multidões”.
A lembrança da Comuna de Paris era inapagável. Foi precisamente um autor francês –
Gustave Le Bon, autor da famosa Psicologia das multidões – quem se destacou no tema e seus
escritos também constituem, em geral, um bom reservatório de disparates antidemocráticos. Para
Le Bon, na multidão se neutralizavam as funções superiores do cérebro e dominava a
“paleopsique”. Em outras palavras, e embora não o expressasse desse modo, a multidão fazia
surgir em cada um o “criminoso nato”, atávico, regressivo, selvagem. Como era demasiadamente
incrível afirmar que todo povo insubordinado era composto de criminosos natos ou selvagens,
Le Bon encontrou a forma de explicar que quando atuavam na multidão se convertiam a isso
por efeito da própria massa humana.
Houve outros positivistas preocupados com as multidões e entre eles destaca-se Scipio
Sighele, que publicou um livro intitulado Os delitos da multidão. O resultado prático foi que
vários códigos penais incluíram disposições acerca de delitos cometidos pelas multidões,
responsabilizando os líderes. O fato de que Le Bon, Sighele, o próprio Lombroso e outros
exemplificavam, invariavelmente com os líderes da Comuna de Paris e que os códigos penais
centrassem sua atenção punitiva nos líderes de multidões, mostra claramente o medo das classes
hegemônicas em relação à “peble reunida”.
Como se pode ver, o positivismo restaurou claramente a estrutura do discurso inquisitorial: a
criminologia substituiu a demonologia e explicava a “etiologia” do crime; o direito penal
mostrava seus “sintomas” ou “manifestações” da mesma forma que as antigas “bruxarias”; o
direito processual explicava a forma de persegui-lo sem muitas travas à atuação policial
(inclusive sem delito); a pena neutralizava a periculosidade (sem menção da culpabilidade) e a
criminalística permitia reconhecer as marcas do mal (os caracteres do “criminoso nato”). Tudo
isso voltava a ser um discurso com estrutura compacta, alimentado com os disparates do novo
tempo histórico.

Ilustração 10

16. Os crimes da criminologia racista: campos de extermínio e
eugenia
Ninguém acredite que estejamos falando de uma história distante e menos ainda de uma
entretenimento que consista em recordar disparates. Estamos falando do poder planetário e dos
genocídios cometidos no seu avanço e, por conseguinte, estamos adentrando no núcleo central
dos direitos humanos que desemboca nos nossos dias.
O domínio mundial sempre hierarquizou os seres humanos e considerou inferiores os
colonizados. Isso aconteceu do colonialismo do século XV em diante e, depois, com o
neocolonialismo, desde o século XVIII. O que expusemos foi a ideologia racista dominante no
neocolonialismo, da qual fazia parte a criminologia positivista biologista, porém o marco em que
esta se inseria vinha de muito mais longe.
Nos tempos do velho colonialismo também houve racismo, embora não com discurso
científico. Mais ainda. Embora pareça incrível, houve também um racismo pessimista, ao estilo
de Gobineau, e outro otimista, ao estilo de Spencer.
Durante a colônia, ninguém discutia que éramos inferiores, o ponto central era se o

Apóstolo Tomás havia chegado ou não à América, se ele viera caminhando sobre as águas, ou
pelas pedras e, se havia trazido a mensagem e nossos nativos o haviam desprezado, éramos
hereges e, portanto, matéria dos tribunais eclesiásticos. Se ele não tivesse vindo, éramos
simplesmente infiéis e, portanto, submetidos ao príncipe cristão cuja missão era nos doutrinar.
No primeiro caso, havíamos caído, no segundo não havíamos chegado. Exatamente o mesmo
do racismo posterior, só que com outro discurso e refletindo uma luta entre o poder eclesiástico
e o monárquico.
Bibliotecas inteiras foram escritas sobre isso e os dados mais incríveis eram tomados como
prova em torno da lenda de Tomás de América, registrados por nossos antropólogos pioneiros:
cruzes pré-hispânicas, pisadas petrificadas etc.
O racismo do neocolonialismo, com seu reducionismo biologista, não podia deixar de
terminar muito mal. Enquanto foi usado para legitimar o poder do domínio colonialista e
controlar a as classes incômodas dos países centrais, foi funcional; porém se estilhaçou, quando
foi usado na Alemanha para legitimar um poder punitivo sem limitações dentro da própria
Europa e por uma potência que se considerava estar na vanguarda da civilização. Era inevitável
que acontecesse, e aconteceu.
O formidável instrumento de poder policial vertical que legitimava esse racismo não era
exercido em toda sua amplitude na Europa controlada pelas classes dominantes tradicionais.
Porém, quando a Europa ficou arrasada depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os
aliados não viram nada melhor do que cobrar dívidas que a Alemanha não podia pagar, eles
humilharam e desestabilizaram a frágil República de Weimar, abrindo o espaço político para um
chefe extrassistema; um grupo de desaforados nacionalistas radicalizados tomou o ápice de um
Estado desde muito antes conformado por corporações fortemente verticalizadas, que não fez
mais do que passar a exercer o poder punitivo fora de toda a prudência e legitimado por
discurso idêntico.
Os novos condutores nazistas, que tomaram em suas mãos o poder punitivo, usaram-no
para homogeneizar a frente interna, inventando um novo Satã (inimigo), e elevando ao máximo
o verticalismo social, com o objetivo de preparar a sociedade para a colonização de todo o
planeta, seguindo a lógica de que a verticalização sempre anuncia uma colonização.
Por mais maluco ou irrealizável que tenha sido o projeto final, esse objetivo rompeu com a
relativa prudência das classes tradicionais e, como o discurso positivista não se havia
preocupado em fixar-lhe limites, continuou servindo de legitimação a um poder punitivo sem
freios.
O nacional-socialismo alemão não inventou ideologicamente quase nada sobre a questão
criminal, e sim usou o que outros haviam inventado; tampouco teve um discurso criminológico
original, pois, para encobrir seus massacres, valeu-se do que dominava havia muito tempo.
Quando se parte do pressuposto de que o ser humano é um ente puramente biológico que,
quando mais bem construído, está destinado a usar os outros humanos que saem defeituosos ou
pertencem a séries com menor sofisticação, não é nada difícil concluir que esses últimos podem
ser destruídos se criarem obstáculos aos mais perfeitos em sua tarefa de construir outros
melhores.
O aniquilamento de todas as raças inferiores e incômodas é um corolário quase necessário
desse ponto de partida. Também o é que não vale a pena manter presos os fracassados internos
que causam problemas aos aparatos mais aperfeiçoados. A eliminação dos que custam
muitíssimo dinheiro nos manicômios e asilos não é menos coerente. Mais ainda. Explicam-se

essas consequências quando esses recursos são considerados necessários para sustentar os
perfeitos que oferecem sua vida nas trincheiras após a conquista do planeta.
Consequentemente, fica claro que os campos de concentração, de trabalho forçado e de
extermínio tenham sido legitimados com racionalizações provenientes do racismo positivista.
Justamente quando, ao final da Segunda Guerra, já ninguém podia mais ignorar o que os povos
longínquos ou os subalternos muito distantes de seus bairros sofriam, porque acabava de
acontecer na casa do vizinho ou mesmo na sua própria, o paradigma mudou rapidamente.

Ilustração 11

A isso se deveu a Declaração Universal de 1948, que anunciou a mudança de paradigma no
plano mundial. A guerra e a Shoah[5] foram o prolegômeno da Declaração, pois sem as
atrocidades nazistas o discurso racista teria continuado a se espalhar pelo planeta e jamais se
teria formulado semelhante declaração diante do concerto mundial. Seu próprio texto parece
elementar e ingênuo, se não o contextualizarmos como uma mudança de paradigma que
procurava enterrar o discurso do racismo até então dominante.
Há uma história – que corresponde à criminologia do apartheid, mas que poucas vezes se
recorda – amplamente demonstrativa de que o nazismo não inventou nada no plano ideológico,
que foi imensamente perverso, mas ao mesmo tempo infimamente criativo, só talvez um pouco
engenhoso.

Houve um capítulo anglo-saxão da criminologia positivista, que foi o prolegômeno do uso
nazista do reducionismo biologista aplicado ao controle social repressivo. Ele quase foi apagado
dos manuais correntes de criminologia e embora soe como uma má lembrança, é preciso
rememorá-lo, em particular em nosso tempo que, como veremos mais adiante, não está livre de
perigosos surtos de biologismo criminal.
Por regra geral, quando se menciona a esterilização forçada de delinquentes e de deficientes
real ou supostamente hereditários, a contaminação do sangue com raças inferiores, a proibição
de matrimônios interraciais ou mistos e outras aberrações semelhantes, o nazismo é
imediatamente evocado. É verdade que o nazismo se valeu de tudo isso com singular empenho,
mas não devemos esquecer que não o inventou, mas sim o copiou do mundo anglo-saxão,
colocado no papel na Grã-Bretanha, mas levado à prática até extremos inadmissíveis nos
Estados Unidos muitos anos antes do que na Alemanha.
Estamos nos referindo a uma palavra que hoje causa medo e ninguém usa, mas que esteve
em voga em boa parte do século passado: a eugenia.
Os médicos estadunidenses haviam rechaçado a tese lombrosiana do criminoso nato, porém,
ao estudar sua população penal, encontraram o que era óbvio que achariam: pessoas mais
frágeis que a média e com menor quociente intelectual.
Desde o começo do século XX, Alfredo Niceforo, na Itália, havia verificado que supostas
causas biológicas não eram mais do que defeitos de alimentação na primeira idade. Uma geração
mais bem alimentada é mais forte e, além disso, mais bonita; a força física e a beleza nunca são
produto da miséria. Além do mais, não é raro que na população penal algumas pessoas tenham
um menor nível de inteligência; não que a isso se deva condicionar o delito, mas sim que são
mais ingênuos e, por conseguinte, são presos por serem bobos.
Contudo, os iluminados médicos estadunidenses deduziram outra coisa e não faltou um
investigador, de duvidosa seriedade (Henry Goddard), que aplicou uns testes questionáveis, e
em 1913 chegou a publicar um livro sobre uma suposta família Kallikak, de delinquentes por
gerações, com o que pretendia verificar a herança das taras condicionadoras da criminalidade.
Na verdade, duvida-se mesmo se essa família existiu.
Com esses antecedentes, não era difícil chegar à conclusão de que não havia criminosos
natos, mas que a criminalidade era resultado de taras físicas e mentais, em sua maioria
hereditárias.
Uns trinta anos antes, Francis Galton – que foi um inglês pouco equilibrado, primo de
Darwin, e que supunha terem a genialidade deste e a dele mesmo raiz num ascendente comum
– abandonou seus estudos de medicina e se dedicou às matemáticas. Aí começou a contar tudo
o que se podia contar no mundo, até afirmar que as sociedades criavam os gênios em razão
direta à reprodução de seus seres mais perfeitos ou superiores.
Entre seus disparates, Galton disse haver calculado o número exato de gênios que os gregos
haviam produzido, e inventou uma ciência para o melhoramento da raça que batizou com o
nome de eugenia.
Galton, porém, era um tipo prudente. Sua ciência era uma espécie de religião que
aconselhava ou desaconselhava casamentos, mas não pretendia fazer nada à força, e sim
convencer acerca das vantagens de se seguirem seus conselhos. Por isso, considera-se sua
eugenia como positiva.
Quando os livros de Galton cruzaram o Atlântico encontraram um terreno diferente. Por um
lado, a pretensa constatação dos médicos acerca das taras hereditárias causadoras do delito; por

outro, uma sociedade muito complexa, na qual os habitantes nativos se encontravam rodeados
de estranhos, com os quais não se misturavam.
Esses estranhos eram, em primeiro lugar, os afro-americanos libertados poucas décadas
antes, aos quais não conseguiram mandar para a Libéria nem fixar no México, mas que nem o
próprio Lincoln considerava estadunidenses. A eles se somavam os grupos de imigrantes
europeus que pretendiam obter avanços sociais e pregavam o socialismo e o anarquismo; e,
para culminar, pelo sul, os mexicanos.
O ambiente intelectual estava dominado por livros de escandaloso racismo nórdico, quase
idêntico à novela nazista de Rosenberg. Um pretenso cientista, chamado Madison Grant,
afirmava ser necessário evitar a reprodução dos criminosos, doentes e loucos, e esperar que eles
morressem, e também a dos indivíduos de raças inferiores. Seu discípulo Stoddard advertia sobre
o perigo do avanço da gente de cor no mundo. A popularidade desses racistas e seus vínculos
políticos com alguns presidentes decidiram a política migratória daqueles anos, que rechaçava a
vinda dos imigrantes de raças inferiores e privilegiava os nórdicos, qualificados por Adolf Hitler
como a única raça racional em Mein Kampf. Cabe recordar que as obras desses bons rapazes
foram usadas em Nurenberg pelos defensores dos genocidas nazistas para tentar provar que
suas condutas respondiam a teorias científicas que não lhes eram próprias.
Ficava claro que o terreno estava preparado para deixar de lado os escrúpulos do inglês
Galton e passar de sua eugenia positiva a uma negativa, imposta e radical. Para que esperar que
as pessoas se convencessem, se era possível fazê-lo antes? Além do mais, como convencer os
inferiores? De acordo com o projeto de Grant, a humanidade poderia se livrar, em um século, de
todos os inferiores.
A batuta desse movimento foi tomada por um veterinário, Charles Davenport, que
demonstrou ser um coletor de financiadores muito bom, tendo rapidamente convencido a
Fundação Carnegie, a viúva do magnata Harrison e a Associação de Criadores (de animais,
claro). Incorporou à sua campanha pessoas famosas, como o Prêmio Nobel Alexis Carrel, sujeito
pouco equilibrado que pretendia que o governo estivesse a cargo da Corte Suprema (toda
semelhança com a Argentina de 1943 é mera coincidência) e terminou a serviço do vergonhoso
regime de Vichy.
Davenport teve como assistente um personagem chamado Harry Laughlin; ambos foram
piedosamente ignorados durante a guerra por seus obscuros contatos com os médicos do
nazismo e morreram antes do término do conflito. Ao que parece, o intercâmbio de informações
científicas com os médicos malditos foi intenso e até se supõe que proporcionaram apoio
financeiro para os primeiros laboratórios de eugenia alemães, inclusive o do mestre do
tristemente famoso Josef Mengele. Davenport disputou a presidência da Associação Americana
de Antropologia nada menos do que com Franz Boas, cuja mão se negava a apertar porque era
judeu.
O dano que causaram foi enorme, embora primeiro Galton e depois seu discípulo Pearson
tenham denunciado sua campanha como anticientífica e negado qualquer vínculo com esses
delirantes (o que demonstra que eles eram apenas um pouco loucos).
Não se poderia afirmar hoje se o episódio de Davenport foi uma grande fraude, uma
manobra de arrivistas alucinados, místicos racistas ou uma mistura de tudo isso.
O certo é terem conseguido que, em 1907, fosse sancionada em Indiana a primeira lei de
esterilização forçada, copiada na maior parte dos estados do país nos anos seguintes. Em função
dessas leis, foram esterilizados milhares e milhares de oligofrênicos, epilépticos, surdos-mudos,

índios, cegos, delinquentes, doentes mentais etc.
A Suprema Corte validou a constitucionalidade dessas leis de esterilização forçada graças ao
voto do juiz Oliver Holmes Jr., que já não era nenhum júnior e de quem se diz que foi um dos
ministros mais pensantes da história dessa Corte; é possível, mas cabe se perguntar se o fazia
bem.
Os juízes não se conformaram com as leis de esterilização, mas, seguindo o velho Morel,
proibiram os casamentos entre afro-americanos e brancos em numerosas leis estaduais.
Novamente, a brilhante Suprema Corte legitimou essas leis com o argumento de que não eram
discriminatórias porque não proibiam o casamento, uma vez que o autorizavam entre os afroamericanos, respondendo ao lema antes assentado em sua jurisprudência de iguais mas
separados, ou seja, o apartheid. A inconstitucionalidade dessas leis foi declarada, sem muita
pressa, apenas em 1957. Creio que com isso fica suficientemente fundamentada a razão dessas
explicações, que mostram onde foi parar e que horripilantes consequências teve o pretenso
progressismo positivista, que extraía sua matriz de pensamento avançado de sua capacidade de
assustar os padres dos povoados, mas que não era mais do que um pensamento reacionário e
potencialmente genocida.

17. A criminologia do canto da Faculdade de Direito
Na Europa, os penalistas começaram a ficar nervosos. Isso porque gostavam cada vez menos
do estilo inquisitorial da criminologia, que lhes dizia como deviam decidir, e resolveram
recuperar seu território por razões puramente acadêmicas, sem que isso implicasse
necessariamente consequências políticas. Não se queixavam do potencial genocida do
positivismo biologista, mas não suportavam estar subordinados aos médicos.
Por conseguinte, foram isolando os criminólogos. Decidiram que o delito era definido pelos
penalistas e os criminólogos deviam ater-se a explicar as causas das condutas que os penalistas
previamente identificavam como delitos. Quer dizer, não os expulsaram das Faculdades de
Direito, deixando-os com seus crânios e frascos de restos em formol, mas em um canto.
Não vem ao caso explicar que argumentos usaram, embora já tenhamos feito alguma
referência ao mais elaborado: era o neokantismo, que distinguia entre ciências naturais e
culturais. Como o direito era uma ciência cultural, não podia contaminar-se com a outra,
natural.
Havia algumas dificuldades, como a de a criminalização, que era uma decisão política, fixar
os limites de uma ciência natural, mas os penalistas resolveram rapidamente, afirmando que não
existia nenhuma ciência natural chamada criminologia, mas sim um conjunto de conhecimentos
auxiliares do direito penal que eram convocados quando este o considerava conveniente e nada
mais. A criminologia positivista biologista passava a ser uma ordem de conhecimentos servis ao
direito penal.
Com a Inquisição e o positivismo, a criminologia mandava no direito penal; com o
neokantismo, o direito penal subordinava a criminologia. Porém, a criminologia que ficava no
canto continuava sendo exatamente a mesma do reducionismo biologista e tão racista como
antes. Tratava-se de uma questão de prioridade acadêmica, na qual tudo ficava igual quanto ao
conteúdo.
Prova disso é que se registrou um vergonhoso debate em 1941, em plena guerra mundial,

entre os professores de Munique e os de Milão, para ver quem tinha o melhor discurso para
legitimar as leis penais do nazismo. O grupo de Milão defendia a prioridade do discurso ao estilo
do velho Ferri (que havia morrido uns anos antes) e por certo impôs-se ao de Munique, que, à
primeira vista soletrava algumas coisas incompreensíveis. Evidentemente, nenhum dos dois
grupos voltou ao tema depois da guerra e continuaram escrevendo e publicando, e sendo
citados entre nós, com a maior naturalidade, mas isso é um outro assunto.
Os criminólogos do canto continuaram postulando a esterilização, investigando os gêmeos
univitelinos e propondo medidas de segregação radicais, como Franz Exner, que, juntamente
com o penalista do neokantismo mais citado entre nós (Edmund Mezger) elaborou um projeto
para mandar todos os de vida ruim (ele os chamava de estranhos à comunidade) aos campos de
concentração, em 1944. Exner havia estado nos Estados Unidos na década anterior e voltou à
Alemanha muito contente com seus colegas racistas estadunidenses. Em seu livro, que foi leitura
recomendada em nossas cátedras durante anos, dizia-se que o grande número de afroamericanos nas prisões era resultado do fato de a sociedade estadunidense lhes exigir um
esforço que suas condições biológicas não tinham condições de suportar. Essa criminologia do
canto da Faculdade de Direito enriqueceu seu biologismo com as novidades médicas,
fundamentalmente com o descobrimento das glândulas de secreção interna, ou seja, com a
endocrinologia, o que motivou novos entretenimentos, em particular na área da conduta sexual,
onde quiseram curar todas as desvios com injeções, ocasião em que explicavam o avanço da
civilização por uma suposta contenção da hiperfunção da hipófise.
O que mais impactou a criminologia do cano foram as classificações segundo os biotipos, ou
seja, voltou-se a correlacionar as características físicas com as psicológicas, ao estilo dos
fisiognomistas. Algum autor mais moderno diz que era uma nova frenologia, só que Gall deduzia
as características psicológicas dos volumes no crânio e agora pretendiam fazê-lo a partir dos
glúteos, embora não necessitassem recorrer à apalpação.
Houve várias classificações biotipológicas, porém a mais difundida foi a alemã de Ernst
Kretschmer, que em seu livro (sob o impressionante título de Körperbau und Charakter)
estabelecia cinco biotipos: leptossômico, atlético, pícnico, displásico e misto. Em qualquer
esquina de Buenos Aires se conhecem com outros nomes: magro, sarado, gordo, urso e yeti.
As profundas consequências criminológicas indicam que os magros costumam ser ladrões; os
atléticos, homicidas; e os gordos, farsantes; os outros dois não se sabe bem. Creio que ninguém
imagina um obeso ousado, escorregando por uma janela estreita.
A endocrinologia, além disso, conferia nova base ao próprio racismo, constatando que os
nórdicos são magros e, portanto, pensadores, enquanto que os alpinos são gordinhos
ciclotímicos e, portanto, artistas.
Nesse período do pré-guerra houve uma variante no interior da tese biologista que é
necessário destacar por causa de suas consequências diferentes. Por um lado, havia a posição
genética, assumida pelo nazismo, que, como não dava outra solução senão impedir a
reprodução, deduzia a necessidade de matar todos os inferiores, incluindo as crianças. Por outro,
estava a tese da transmissão dos caracteres adquiridos do velho Lamarck, cuja consequência era
que as crianças deviam ser colocadas sob os cuidados das famílias saudáveis. Esta última foi a
que predominou na ditadura franquista, comandada por Antonio Vallejo Nágera, dono da
psiquiatria oficial espanhola e chefe dos campos de concentração nacionais. Esta última variável
foi a que se aplicou às crianças retiradas das hostes republicanas e inspirou os criminosos contra
a humanidade em nosso país.

Não deixa de ser curioso que o lamarckismo tenha sido ideologia oficial da biologia na
URSS, com a escola de Lyssenko.

18. A agonia da criminologia do canto
Essa criminologia do canto entrou em crise depois da guerra. O primeiro Congresso Mundial
de Criminologia no pós-guerra foi celebrado em Paris, em 1950, sob a presidência de Donnedieu
de Vabres, juiz francês em Nurenberg.
Nesse congresso, como num passe de mágica, o racismo desapareceu, porque, salvo algum
desavisado, que nunca falta, ninguém queria arcar com suas letais consequências depois da
guerra.
Embora desde muito antes ninguém sustentasse a tese lombrosiana do criminoso nato, até o
final da guerra a criminologia do canto conservava pela biologia um interesse destacado, seja
pelo tema debilidades, seja pelo tema taras, pelo tema conformação etc. Porém, a partir do pósguerra, ao rechaçar o racismo e o reducionismo biologista, a criminologia, embora continuasse
sendo etiológica, deixava de considerar o delinquente uma variável do ser humano e, por
conseguinte, perdia seu objeto diferenciado e natural, seu bicho diferente.
Esta criminologia etiológica do canto se foi esvanecendo e terminou por derreter-se nas
contradições de sua plurifatorialidade. Seu objeto perdia progressivamente os contornos,
anunciando seu ocaso inevitável, porque ficava evidente que seus cultores careciam dos
elementos para a análise do exercício do poder punitivo e do dado óbvio da seletividade. Não é
justo, porém, considerar todos eles como racistas ou biologistas furiosos e, menos ainda, que
todos compartilhassem dos disparates a que fizemos referência.
Assim como, no que concerne à Inquisição, advertimos que no século XVI nem todos
estavam tão loucos, cabe aqui dizer mais ou menos a mesma coisa. Em todos os tempos houve
algumas pessoas bastante lúcidas, cujo discurso não foi hegemônico, muito menos no momento
em que surgiu e, ademais, lhes era muito difícil escapar ao paradigma dominante, ainda que
alguns enfrentassem a marginalização acadêmica.
Desde o final do século XIX, algumas vozes prudentes se fizeram ouvir, como a da
criminóloga feminista espanhola Concepción Arenal. Contemporâneos de Lombroso, autores
como Turatti e Vaccaro rechaçavam o biologismo. Alfredo Niceforo, não obstante ser um
etiologista, deu-se conta perfeitamente de que os pretensos signos biológicos eram os da miséria.
O holandês Willen Bonger escreveu o primeiro ensaio de criminologia marxista em princípios do
século XX e seguiu essa linha até que se suicidou, no dia em que os nazistas ocuparam a
Holanda.
Se bem que nossa tradição criminológica latino-americana tenha sido tributária dessa
criminologia do canto, entre nossos criminólogos de pós-guerra houve pessoas que nada tiveram
a ver com as ideias racistas, e alguns foram mesmo seguidores distantes de Bonger.
É óbvio que nossos criminólogos de meados do século passado – ao prescindir da análise do
poder punitivo e das características do sistema penal, mantendo-se no marco de uma etiologia
criminal que se alimentavam na plurifatorialidade – caíam em contradições no marco de uma
disciplina que se ia derretendo. Essas limitações, porém, não podem ser confundidas com o
aberto racismo do pré-guerra europeu.
Por isso, importa distinguir cuidadosamente, a partir do político, entre os cultores de uma

criminologia de pós-guerra que agonizava e os reducionistas biológicos que os precederam, e
não colocar todos no mesmo saco.
O colombiano Luis Carlos Pérez dedicou todo um capítulo de sua obra geral de criminologia
dos anos 50 do século passado a uma forte crítica do racismo. O brasileiro Roberto Lyra Filho foi
um dos criminólogos mais avançados na linha de Bonger. O mexicano Alfonso Quiroz Cuarón,
um patriarca da criminologia regional, interveio em questões tão conhecidas como o estudo do
assassino de Trotsky e dos restos do imperador Cuauhtémoc; seus artigos jornalísticos eram
marcadamente críticos do sistema penal de seu país. Na Argentina, Oscar Blarduni (advogado e
médico) foi o artífice do Instituto de Investigação e Docência Criminológica do Prata e um crítico
do reducionismo biologista.
Todos esses nossos autores do pós-guerra cultivavam uma criminologia que se encontrava
em um corredor sem saída e tampouco tinham o treinamento sociológico prévio para vislumbrar
metodologicamente outros horizontes. Contudo, vista a sua marca política, não podem ser
considerados no mesmo nível dos reducionistas aos quais me referi antes.
Coube a eles, como a todos, viver uma época com seus condicionamentos limitadores de
nossa visão científica, e sem dúvida, foram produzidas contradições irredutíveis, entre suas
atitudes políticas e o agonizante marco etiológico. Porém, se essas contradições não tivessem
acontecido, teria sido impossível pasar a outra etapa superadora, como sempre acontece.
Suponho que hoje também incorremos em contradições.
A agonia da criminologia do canto da Faculdade de Direito estava indicando que a
hegemonia do discurso criminológico logo deixaria de estar nas mãos de médicos e de
advogados formados por estes, para passar a outra corporação de especialistas que, em outras
latitudes, já vinha, há muito tempo, trabalhando a questão criminal. Começava a era dos
sociólogos, que nos Estados Unidos, algumas décadas antes, haviam começado a discutir e
investigar as coisas de uma perspectiva diferente. Eles anunciaram a direção que haveria de
conduzir às colocações atuais.

Ilustração 12

19. O parto sociológico
A velha criminologia etiológica de médicos e advogados se enlanguescia nos cantos de
nossas faculdades de direito, pese a boa fé de muitos de seus expositores, que não conseguiam
se aproximar do fenômeno da perspectiva do grupo humano e menos ainda do poder. De vez
em quando lhe esparziam sua vasilha com um pouco de sal social, com afirmações um tanto
socialistas (quando se abre uma escola, se fecha uma prisão, e outras semelhantes), mas
ignoravam os criminosos que nunca passariam por uma prisão e haviam frequentado as
melhores escolas. Para eles, a delinquência continuava sendo aquela que viam na prisão ou na
crônica policial, embora, de vez em quando, não percebessem a contradição em que caíam.
Ainda que a questão criminal tenha sido sempre um tema central para aqueles que
exerceram ou disputaram o poder, ela não podia ser explicada por uma criminologia de médicos
e advogados. Por sorte, porém, há saberes que se ocupam do comportamento humano e
excedem bastante o limitado campo desses especialistas, de modo que outros avançavam por
um caminho diferente, observando os fenômenos a partir do plano social. Nunca faltaram
aqueles que o fizeram desse ponto de vista diverso, mas foi precisamente a partir da análise da
questão criminal que uma nova ciência foi ganhando forma e terminou obtendo patente

acadêmica: a sociologia.
Tudo começou entre 1830 e 1850, quando dois personagens – o belga Adolph Quetelet e o
francês André-Michel Guerry – chamaram a atenção para as regularidades na frequência dos
homicídios e dos suicídios.
Quetelet vivia de fazer cálculos atuariais para as companhías de seguros, mas inventava toda
espécie de coisas e, entre elas, foi o fundador do observatório astronômico de Bruxelas, o que
não deixa de ser original, porque a capital belga tem o céu nublado na maior parte do ano.
Guerry era um advogado que se enamorou das estatísticas e denominou essas regularidades
de estatística moral, enquanto Quetelet buscava um nome para sua ciência. Quando se quer
obter hierarquia de ciência para algum saber existe a tendência de aproximá-lo da física (isso
hoje se chama fisicalismo) e como Quetelet não era alheio a essa tendência, não teve melhor
ideia senão chamar a sua de física social.
Ele, porém, não era o único que queria fundar uma física social, pois, na França, Augusto
Comte andava no mesmo caminho e se aborreceu muito com Quetelet, afirmando que ele tinha
roubado o nome da sua ciência, e por isso decidiu rebatizá-la de sociologia. Graças ao plágio,
nós escapamos de estar rodeados hoje de físicos sociais.
Na verdade, Comte foi surprendido pelo surgimento do belga, mas suas ideias são produto
de outra história. A empresa de Comte foi precedida e impulsionada pelos reacionários (Louis de
Bonald, Joseph de Maistre, Edmund Burke), que consideravam a Revolução Francesa um
episódio criminoso e antinatural que ia contra a história e que, depois da derrota do
desobediente Napoleão e da Santa Aliança (aliança de cabeças coroadas para manterem-se
presas ao corpo), voltaram à carga, reafirmando que a sociedade é um organismo e jamai ss pode
admitir o disparate do contrato. Se a sociedade é um organismo, supõe-se que deve existir uma
ciência que estude suas leis naturais.
Mas os reacionários eram nostálgicos da Idade Média e apelavam a argumentos do direito
divino, que já tinha passado de moda, em um momento em que a ciência despontava como
única garantia do saber. Ademais, os críticos da ordem social, os chamados socialistas utópicos,
com os quais os reacionários se confrontavam, eram tão organicistas quanto eles, ou mais.
Nessas condições, era óbvio que haveria de ocorrer a alguém a ideia de responder-lhes da
mesma perspectiva conservadora e organicista, mas conforme o sinal dos tempos, isto é, com
uma ciência da sociedade.
Foi isso que Comte fez. O grande mérito de Comte foi ter dado impulso a uma ciência da
sociedade livre do lastro religioso, mas, do ponto de vista ideológico, ele teria podido tomar uns
tragos com os reacionários sem muitos problemas práticos.
Como ninguém pode comprovar que a sociedade seja um organismo, a volumosa obra de
Comte, publicada em meados do século XIX, pressupunha um dogma gratuito. Embora pareça
mentira, fundou-se uma ciência sobre uma premissa anticientífica ou não verificável.
Conforme esse dogma, o organismo social tinha suas leis; por conseguinte, devia ser
governado por quem as conhecesse, ou seja, pelos sociólogos. Por isso, iam além de Platão,
postulando algo parecido a um sociólogo-rei (um tecnocrata social). Isso era explicado pela lei
dos três estados pelos quais a humanidade teria passado: o teológico (primitivo), o metafísico (os
iluministas) e, finalmente, o científico (adivinhem com quem: com Comte). Havia mais alguém
com vontade de sentar-se na ponta da flecha do tempo.
Ademais, por humanidade se entendia a raça branca (à qual Comte pertencia), mas nem
todas as pessoas dessa raça, e sim somente os homens (Comte também era homem), porque as

mulheres tinham que ser mantidas em estado de perpétua infância, para sustentar a célula básica
da sociedade: a família.
Dada a importância das hierarquias para sustentar a ordem social, ele olhava com simpatia a
sociedade de castas da Índia. Como se isso fosse pouco, ele nem sequer renunciava a um
componente místico e inventou uma nova religião, com toda sua liturgia, em que o Grande Ser
era a humanidade e integrava uma trindade com O Grande Meio (espaço do mundo) e O
Grande Fetiche (a terra).
Curiosamente, as ideias de Comte vingaram no Brasil e, após a queda do Império, os
militares fundadores da República as levaram tão a sério que incorporaram à insígnia nacional o
lema Ordem e progresso. Mas a coisa não parou aí. Houve até mesmo um templo comtiano no
Rio de Janeiro, o que prova que não é nova a generosidade de nosso continente na importação
de disparates.
É mais do que sabido que Comte não gozava de saúde mental muito boa e que, ao
compasso de suas desilusões amorosas, tentara suicidar-se, lançando-se ao Sena. É óbvio que se
houvesse vivido perto do Riachuelo[6] não teria inventado a sociologia. Como regra geral, as
histórias da sociologia assinalam como fundadores Comte e Spencer, de quem já nos ocupamos
e vimos que, do outro lado do canal da Mancha, compartilhava a concepção organicista e
também se acomodava na ponta da flecha civilizatória.

20. Os verdadeiros pais fundadores
Essa pré-história da sociologia moderna mostra como esta e a criminologia nasceram do
entrevero entre o poder e a questão criminal, mas enquanto a criminologia ficou atada a
Spencer, a sociologia posterior a Comte se desprendeu do conteúdo reacionário de suas ideias e
adquiriu voo próprio na Europa continental até a Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra
(1914-1918).
A rigor, a criminologia e a sociologia nasceram gêmeas, só que a criminologia permaneceu
presa do racismo e do reducionismo biologista do spencerianismo, desintegrando-se
paulatinamente a partir da crise dessas lamentáveis bases ideológicas, enquanto na sociologia, as
ideias de Comte, talvez por reacionárias e insólitas, abriram um amplo espaço de discussão e
análise.
O certo é que, na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do XX,
apareceram os sociólogos que deixaram de lado as elucubrações de sobremesa e começaram a
pensar mais a sério, colocando uma quota de ordem e bom senso. Esses sociólogos mais
analíticos podem ser considerados, na realidade, os verdadeiros pais fundadores da sociologia.
Muito se escreveu sobre esses primeiros autores e, se bem que seu pensamento seja um tema
próprio da sociologia, é necessário assinalar ao menos por que caminhos andaram, porque, do
contrário, parecerá que saiu uma criminologia diferente de algum chapéu de mágico, quando, na
realidade, vinha sendo preparada a partir da sociologia, mesmo sem que os criminólogos do
canto da Faculdade de Direito lhe prestassem muita atenção.
Esses pais fundadores foram os principais sociólogos franceses, como Emile Durkheim e
Gabriel Tarde, e alemães, como Max Weber e Georg Simmel. Sua importância não se deve tanto
àquilo que afirmaram, mas sim a como se projetaram para o futuro dessa ciência, pois Durkheim
e Max Weber foram os pioneiros do que se desenvolverá em seguida como sociologia

funcionalista e sistêmica, enquanto que Tarde e Simmel abriram o caminho do que haveria de
ser o interacionismo.
Traduzido para uma linguagem compreensível, isso significa simplesmente que a sociologia
europeia anterior a 1914 tendia a atender a dois diferentes aspectos do social: um privilegiava a
busca de um sistema dentro do qual tudo cumpriria alguma função, e outro não pensava tão
grande e se detinha nas relações mais micro, tratando de estabelecer suas regras. Partindo do
macro, Durkheim pensava que o delito cumpria a função social positiva de provocar uma recusa
e, com isso, reforçar a coesão da sociedade. Em outras palavras, para Durkheim não era positivo
que alguém esquartejasse a avó, mas sim a reação social de coesão que esse crime provocava.
Dessa forma, ele despatologizava o delito, o considerava normal na sociedade.
Max Weber, na Alemanha, também pensava no macro e acentuava a importância das ideias
para avançar através dos sistemas de autoridade, que passavam do ancestral ao carismático e
deste ao legal-racional, que seria o das grandes burocracias que regiam nos países centrais e
que se estenderiam a todo o mundo. Nesse sentido, ele afirmava que o protestantismo havia
facilitado o desenvolvimento do capitalismo.
Enquanto isso, Gabriel Tarde se detinha mais especificamente na imitação como chave das
condutas, impressionado pelo poder que a imprensa adquiria, especialmente com o escândalo
do caso Dreyfus, que provocou um surto antissemita reacionário e monárquico que dividiu a
França talvez até o próprio governo de Vichy, na Segunda Guerra. Ele se dava conta, ao
contrário de Durkheim, de que havia uma enorme quantidade de delitos impunes, e com isso
adiantava a questão da seletividade.
Simmel, por sua vez, colocou sua ênfase na observação de que a essência do social é a
interação das pessoas e que, a cada dia, as capacidades individuais na sociedade industrial
tinham menos valor, o que também parecia contradizer algumas ideias de Durkheim.
É evidente que, na Alemanha, não se podia evitar Karl Marx, embora ele não tenha sido
sociólogo, mas as ideias de Weber respondem a um debate com Marx (alguns historiadores
afirmam que toda a sociologia alemã da época fez isso).
Cabe esclarecer que Marx se referiu a temas penais e criminológicos apenas muito
tangencialmente. Há um artigo publicado na Gazeta Renana, em 1842, no qual ele critica a
penalização do furto de lenha, e um parágrafo na Teoria da mais-valia, em que ironiza acerca
da necessidade dos delinquentes. Nesse último caso, ele parece um funcionalista, mas coloca
algo real: se os delinquentes não existissem, teriam de ser inventados. Com efeito, ainda que
Marx não o tenha dito, se deixarmos voar a imaginação e pensarmos em uma fantasmagórica
greve geral de delinquentes, veremos que o sistema todo seria derrubado: os seguros, os bancos,
as polícias, as alfândegas, os escritórios que tratam dos impostos etc. se tornariam inúteis. Seria,
sem dúvida, uma verdadeira catástrofe.
No pensamento de Marx e de Engels chama a atenção o total desprezo pelo subproletariado
(Lumpenproletariat), que é o nome marxista da má vida positivista. Eles o consideravam uma
classe perigosa, inútil, incapaz de qualquer potencial dinamizador e sempre disposta a aliar-se à
burguesia. Essas afirmações pesaram mais tarde no marxismo institucionalizado, dando lugar aos
conceitos de parasita social e análogos e permitindo legitimar a repressão perigosista da
delinquência nesses sistemas. Na realidade, a criminologia marxista não se apoia nas
escassíssimas referências de Marx ao tema, mas sim na aplicação que os criminólogos marxistas
fizeram das categorias de análise dele, como veremos mais adiante.
Porém, todo esse riquíssimo debate sociológico das últimas décadas do século XIX se

esgotou na Europa com os pais fundadores que, por coincidência, morreram perto do final da
Primeira Guerra; por volta de 1920, a sociologia europeia tornou-se opaca.
Isso se explica porque a Grande Guerra arrasou a Europa. Em 1914, as potências europeias
haviam acreditado que esta seria uma guerra de exércitos, como a franco-prussiana de 1870, e
que duraria alguns meses. No entanto, foi a primeira guerra total; jogou-se com o potencial
econômico dos beligerantes durante quatro anos sangrentos, em que os jovens morriam
espetados na barriga por baionetadas, de tétano no barro ou envenenados ou cegos por gases
tóxicos. A população civil foi considerada inimiga e os centros industriais e econômicos
tornaram-se alvos bélicos.
Ao final da guerra, todos os contendores estavam esgotados e suas economias, destruídas. A
intervenção dos Estados Unidos inclinou a balança, mas os impérios centrais caíram quando os
outros não estavam em situação nada boa. A Europa se suicidou com essa guerra que, por certo,
está bastante esquecida pelos historiadores. Para culminar, imediatamente depois da guerra
sobreveio uma terrível epidemia de gripe que matou uns tantos milhões.

21. A criminologia sociológica dos Estados Unidos
O grande beneficiário da Primeira Guerra Mundial foram os Estados Unidos, que não a
sofreram em seu território. O presidente Wilson pensava em ratificar o tratado de paz de
Versalhes, mas os republicanos ganharam as eleições. Péssimos presidentes assumiram o
governo, não ratificaram o tratado de paz e a Europa ficou só e devastada, enviando uma
maciça corrente de emigrantes para a América do Norte. Os vencedores insistiram no suicídio
porque, para recuperar-se, tiveram a brilhante ideia de impor à Alemanha uma reparação de
guerra, cujo pagamento era impossível, humilharam-na e desestabilizaram a República de
Weimar, fomentando os extremismos e abrindo o caminho para um capo austríaco, que assumiu
a batuta da maior loucura criminosa do século.
Os pensadores europeus tentavam explicar o desastre sob o viés depressivo. Oswald
Spengler, com A decadência do Ocidente, e Vilfredo Pareto, com as elites, eram os dark da
época. Além do mais, os totalitarismos que iam se instalando desprezavam aqueles que
pretendiam explicar-lhes o que acontecia, porque os ditadores sempre sabem e quando alguém
lhes diz que estão enganados costumam matá-lo. A sociologia nunca teve uma boa acolhida nas
ditaduras: nossa segurança nacional quis incorporar a carreira à Faculdade de Direito e reduzilas a uma escola de técnica de mercado.
Enquanto a Europa não conseguia explicar seu eclipse e dominavam as respostas dos
iluminados como Hitler, Mussolini, Dollfuss, Oliveira Salazar, Pétain ou Franco, os Estados
Unidos estavam na crista da onda: choviam capitais, milhões de imigrantes europeus, suas
cidades cresciam de modo incontrolável, o melting pot era mais pot que melting, a especulação
financeira alcançava o nível de um verdadeiro orgasmo econômico. Tudo isso criava problemas,
mas era encarado com o otimismo próprio de quem ganhou na loteria.
Eram os loucos anos 20, com seu fundo de charleston e fonógrafo. Os estadunidenses que se
consideravam autênticos descendentes do Mayflower sentiam-se invadidos pelos imigrantes.
Haviam proibido a maconha para reafirmar seu puritanismo diante dos mexicanos, mas agora
lhes chegava a cultura da taverna pela mão dos católicos e luteranos. Para reafirmar sua
supremacia cultural puritana, empreenderam uma cruzada contra o álcool, impulsionada por

velhas loucas que irrompiam nas tavernas aos berros e que conseguiram impor uma reforma
constitucional que proibia o álcool.
Toda proibição que reduz a oferta e deixa em pé uma demanda rígida faz com que a
porcaria proibida adquira uma mais-valia que a converte em ouro e desencadeia a concorrência
por sua produção e distribuição no mercado ilícito. No caso do álcool, tanto sua produção
relativamente barata como sua distribuição se realizavam dentro do próprio território.
A contenção da oferta era necessária para manter o efeito alquímico da proibição, mas
desencadeou uma violência competitiva com altíssimo grau de corrupção do aparato punitivo e
político, provocando uma simbiose letal de uma criminalidade astuta e violenta nunca vista
antes.
Esse fenômeno dos anos 1920 foi instrutivo porque com a cocaína apelou-se a uma
distribuição internacional do trabalho: a produção e o controle da oferta, com a violência dela
decorrente, ficam fora do território do principal demandante, provocando os massacres em curso
no México (40.000 mortos, decapitados e castrados, em quatro anos) e na América Central,
enquanto dentro do território do grande consumidor só se distribui, o que é, ao mesmo tempo, a
atividade menos violenta e mais rentável do tráfico. Alguns suspeitam que ela proporcionou
parte dos recursos necessários para as salvações bancárias na recente crise.
Mas voltemos aos roaring twenties e à jazz age. Era óbvio que esses problemas deviam
chamar a atenção dos sociólogos estadunidenses. Como é sabido, uma das grandes virtudes dos
Estados Unidos é seu considerável espaço de liberdade acadêmica, comprometido no pós-guerra
apenas pela campanha do senador McCarthy. No uso desse espaço, o pensamento acadêmico se
separou e denunciou a ideologia que dominava nos quadros da administração.
Por efeito da autonomia acadêmica, uma coisa foi a administração e o governo (e a Suprema
Corte), que continuavam na linha do spencerianismo racista admirado por Hitler em Mein
Kampf, e outra a que ocorria nas universidades, onde se respiravam outros ares: Franz Boas
renovava a antropologia e assentava as bases do culturalismo, que deixava de lado os pretensos
naturalismos biologistas e criava a escola em que se destacariam Margaret Mead, Ruth Benedict
e Clyde Kluckhohn. Este último chegou a escrever que nossas crenças mais profundas e nossas
convicções mais caras podem ser, inclusive, a expressão de um provincianismo inconsciente.
Foi nesse clima que a questão criminal começou a ser estudada sociologicamente, a trabalhar
com investigação de campo, a perguntar o que condiciona o delito na sociedade. Desse modo,
com a passagem do primado da sociologia da Europa para os Estados Unidos teve início uma
nova etapa da criminologia.
Pode-se dizer que, daí em diante, começamos a falar a sério, embora no princípio não
completamente, porque a criminologia arrastará durante décadas uma falha fundamental:
continuará se perguntando pelo delito e deixará de lado o funcionamento do poder punitivo. O
aparato penal do Estado não entrava no campo de investigação dessa criminologia. Embora não
o legitimasse ativamente, o fazia por omissão: se não pergunto por algo é porque creio que
funciona bem.
Se bem que seja inevitável que quem pergunte sobre a etiologia social do delito em algum
momento se depare com o próprio aparato punitivo como reprodutor de boa parte do
fenômeno, esse era um caminho que ainda devia ser trilhado. Foi esta a função que a
criminologia etiológico-social cumpriu.
Além de sepultar a carga de racismo manifesto de seu antecessor, encarou o problema pela
via adequada e foi o passo necessário para chegar ao que hoje parece quase evidente: não se

pode explicar o delito sem analisar o aparato de poder que decide o que define e o que reprime
como delito.
Devido a essa omissão, as colocações da primeira etapa da criminologia sociológica, que se
estendem até as décadas de sessenta e setenta do século passado, são um tanto ingênuas e até
simplistas, mas criaram todo um arsenal conceitual sem o qual não teria sido possível a etapa
posterior.
Esses sociólogos estadunidenses continuavam perguntando, desde 1920 até final dos anos
1970, pela etiologia do crime, ou, dito mais simplesmente, pelas causas do delito. Esclareço que
não se deve entender causas em sentido literal, porque a sociologia, a despeito de Quetelet, não
é a física, mas a expressão vale só por gráfica.
Nessa busca por causas, fatores, correlações ou como se queira chamar, eles se dividiram,
concentrando sua atenção em cinco diferentes fontes: 1) na desorganização social; 2) na
associação diferencial; 3) no controle; 4) na tensão; e 5) no conflito. Desse modo, abriram-se
cinco grandes correntes nessa etapa da criminologia sociológica.
Tudo isso parece muito complicado, mas não o é em absoluto. Na verdade, esta criminologia
sociológica elaborou conceitos que circulam em qualquer mesa de bar onde alguém pergunte
pelas causas do delito e se manifeste com certo senso comum, a partir da ingenuidade de
desconhecer o papel do próprio aparato repressivo.
Confesso que devo conter o riso quando escuto, em conversas de depois do almoço, alguém
lançar essas teorias para aqueles que nem suspeitam que houve quem as embrulhassem para
presente, com todo o arsenal do vocabulário sociológico. Eu era pequeno quando escutava os
gorilas afirmarem que a invasão de cabecitas negras[7] à cidade havia desorganizado tudo.
Embora certamente com um senso político mais democrático, esta é a essência da teoria
ecológica da Escola de Chicago dos anos 1920 e 1930.
Quem não ouviu alguém afirmar que o delito juvenil obedece à falha da família, da escola
etc., a conhecida falta de educação? Estas são as teorias do controle. Outros há que na
sobremesa afirmem que ela se cria na favela,onde há narcotraficantes e delinquentes. É isso que,
no fundo, se respira – um pouco mais sofisticadamente – na teoria da associação diferencial.
Não falta aquele que denuncia que a TV mostra riquezas fáceis, êxitos súbitos, ídolos
surgidos da noite para o dia e sem maior esforço, adorados por mulheres bonitas, oferece
automóveis luzidios, quando estes objetos não estão ao alcance da grande maioria das pessoas.
É esta a essência das teorias da tensão. Por último, haverá alguém que observe que reina um
individualismo em que cada um atira para seu lado, que todos são grupos de interesses, que se
chocam e que matam entre eles. Não é muito diferente a base sobre a qual foram elaboradas as
teorias do conflito.
Todavia, todas essas opiniões do senso comum, que a criminologia sociológica sofisticou
entre 1920 e 1970, não são incompatíveis. Os convivas da mesa de depois do almoço ou do bar
discutem, mas, na realidade, se sabem escutar um ao outro, não terminarão em uma discussão
aberta, e até não faltará quem pretenda compatibilizar as opiniões com um certo assentimento
geral.
O que é que permite compatibilizar essas opiniões? Se pensarmos um pouco, veremos que é
o fundo comum de confiança em que a sociedade é capaz de melhorar e superar esses fatores
ou causas. É a opinião de que temos que ir para frente, que Fulano, Beltrano ou Cicrano são uns
corruptos que têm de ser afastados, mas que, no final, podemos ter uma sociedade melhor.
Se os taxistas de Buenos Aires são, em sua maioria, razoáveis – pelo que lhes peço perdão

pelo que se segue, pois não é nem de longe a minha intenção fabricar um estereótipo –, o certo
é que, com certa frequência, nos vemos obrigados a suportar que alguns de seus companheiros
que escutam rádio nos atormentem com frases do tipo “a única saída é a mão pesada, que se
necessita de uma mão forte, que há que se colocar ordem dando porrada, metendo bala, que na
ditadura não aconteciam essas coisas, que não se pode encher o país de bolivianos” e outros
conceitos politológicos semelhantes.
Bem. Suponhamos que o taxista, com esse discurso, se junte à conversa de bar e coloque
sua visão para o grupo. Os que vinham discutindo até então, se bem com diferente grau de
convicção, lhe responderão: Você está louco! Depois acabam matando todos nós, não aconteciam
porque você não sabia, não, eu não quero voltar à ditadura não, eles ficam com as mãos livres e
atiram em qualquer um. Não, isso tampouco é vida. E seguindo adiante na conversa, começarão
a discutir a corrupção policial.
Assombroso! Os companheiros de bar ou da mesa de depois do almoço terão percorrido o
caminho da criminologia sociológica do século XX! A intuição os terá levado até aquilo que a
sociologia demorou mais de quarenta anos para descobrir!
Os da primeira discussão se movimentaram dentro do esquema de que a sociedade pode
avançar e, removendo obstáculos, pode superar as causas do delito. No fundo, todos admitiriam
que se pode melhorar aqueles que sofrem esses fatores e trazê-los junto com o resto. Talvez sem
sabê-lo, estão postulando um conceito pouco claro, ou não técnico, do modelo de Estado social.
O taxista fascista (insisto, não me queiram mal os taxistas, mas reconheçam que têm alguns
companheiros assim; não são os únicos, todos nós os temos), chega e rompe o esquema. Por
que? O que ele propõe? Também intuitiva e confusamente, ele está propondo um modelo de
Estado diferente, no qual uma autoridade vertical não discuta e sim faça que cada um
permaneça em seu lugar e não incomode, mediante um exercício ilimitado do poder repressivo.
Isso não é mais nem menos que o modelo do Estado policial.
O que aqueles que o rebatem terminam colocando em discussão? A crítica ao aparato do
poder repressivo. Fizeram todo o trajeto e, incitados pelo taxista, chegaram por intuição à
criminologia dos anos 1970.
A isso que eu queria chegar. Não duvidem, embora não tenhamos nos dado conta, a
discussão é política. Os sociólogos desse período identificavam-se, preparavam ou andavam ao
redor do populismo estadunidense, do New Deal de Franklin Delano Roosevelt, de um modelo
de welfare State, de estado social. Estavam confrontados com o modelo de Estado policial, com
os afro-americanos iguais mas separados (como havia dito a Suprema Corte), supremacia branca,
Ku Klux Klan, patriarcalismo, cadeira elétrica, e todo o pró-nazismo desses anos, Henry Ford,
Charles Lindbergh etc.
Passou o tempo e a criminologia seguiu o curso que iremos vendo, mas convém advertir
desde agora que o debate de fundo – com epicentro nos Estados Unidos e mais evidente na
atualidade – continua sendo entre dois modelos de Estado: o social, ou inclusivo, e o policial, ou
excludente. This is the question.
Voltemos, porém, a esse período para ver mais de perto o que cada uma das cinco correntes
mencionadas pôs a descoberto e extrair os elementos que nos permitem compreender o curso
posterior.

Ilustração 13

21. Desorganização, associação diferencial e controle
Como os maiores conflitos produzidos pela súbita explosão econômica aconteciam nas
cidades e nelas se tinha uma sensação geral de desorganização, era natural que os
pesquisadores sociais racionais centrassem sua atenção na sociologia urbana. Foi isso o que fez
o Instituto de Sociologia da Universidade de Chicago, nas primeiras décadas do século passado.
A cidade era ideal, pois Chicago havia passado de quatro mil para três milhões de habitantes em
um século.
Nós, que vivemos em cidades grandes, já escutamos alguma vez essa declaração de que
quero ir morar tranquilo no campo. Algo parecido acontece com a tônica que os de Chicago
tomaram de Charles Cooley, que era professor de Michigan.
Para atribuir os problemas, entre eles a criminalidade, a algo que se desorganiza, deve-se
pressupor que antes algo estava organizado. Pois bem, para Cooley, o organizado era a vida
provinciana. Assim, diz-se que a marca registrada da escola era a nostalgia da sociedade de
pequeno contorno.
Todavia, Cooley trouxe alguns conceitos que até hoje vigoram, como a distinção entre
grupos primários e secundários. Os grupos primários eram, para este autor, os de infância e
formação, da família, dos velhos do povoado etc., ao passo que os secundários eram as
instituições. A diferença entre eles centra-se no tratamento, que nos grupos primários é
personalizado e, nos secundários, despersonalizado.
Essa diferença fundamental é deixada de lado quando se pretende que um grupo secundário
substitui um primário (que o internato ou o asilo substitua a família ou que o juiz de menores

seja o pai). O pai e a mãe, se não estão loucos, devem dar a cada filho um tratamento conforme
suas características, necessidades, virtudes e carências, enquanto que, no plano institucional, o
princípio elementar da igualdade impede, em boa medida, essas distinções.
Outro conceito trazido por Cooley foi o de papéis mestres. Na sociedade há certos papéis
que condicionam todos os demais, como o do médico, o do sacerdote etc. O pedreiro ou o
carpinteiro são bastante livres para farrear ou travestir-se se isso lhes aprouver, mas a mesma
coisa não acontece com o sacerdote ou o dirigente. Algo parecido acontece com os papéis
associados ao poder repressivo, como o policial, o juiz e também o próprio criminalizado. A
estigmatização que se segue à criminalização obriga este último, em boa medida, a assumir seu
papel desviado. Trata-se de algo parecido a um grande teatro em que alguns personagens têm
seu papel muito marcado, enquanto outros podem afastar-se mais criativamente do roteiro.
A figura mais destacada da primeira Escola de Chicago foi William I. Thomas, que
revolucionou a metodologia sociológica numa investigação sobre O camponês polonês na Europa
e na América, levada a cabo juntamente com o polonês Znaniecki, porque incorporou cartas,
autobiografias e outros materiais até então considerados cientificamente heterodoxos. Thomas
dirigiu a escola até 1920, quando foi expulso da universidade porque o encontraram em um
hotel com uma mulher casada. Pelo visto, as autoridades acadêmicas consideravam que os
sociólogos estavam proibidos de manter relações sexuais extra-código. Para nós, a contribuição
mais importante desse sociólogo é o chamado teorema de Thomas, segundo o qual se os homens
definem as situações como reais, suas consequências são reais. Isso tem uma imensa validade em
todas as ordens sociais: é conhecida a experiência de Orson Welles em Nova York, em 1938, ao
anunciar a presença de marcianos pelo rádio. O mesmo acontece com a criminalidade: pouco
importa sua frequência ou gravidade, mas se se afirma que são altas se reclamará mais
repressão, os políticos concordarão com isso e a realidade repressiva será como se a gravidade
fosse real.
Depois da aventura sexual de Thomas, seus colegas se aborreceram com a universidade e o
elegeram presidente da Associação Americana de Sociologia; Robert Park e Ernest Burgess
continuaram na Escola de Chicago. Park – que havia estudado com Simmel, na Alemanha – foi
quem aplicou à cidade os conceitos tomados da ecologia (simbiose, invasão, domínio, sucessão)
para explicar os conflitos e a coexistência de diferentes grupos humanos em um território
limitado, razão pela qual também se conhece esse grupo como escola ecológica de Chicago.
Burgess dividiu a cidade em cinco zonas concêntricas: I (a central, com atividade comercial
intensa), II (o círculo seguinte tende a ser invadido pelo anterior e por isso as moradias são
precárias e ocupadas pelos recém-chegados), III (a zona ocupada pelos operários que fogem da
anterior), IV (a residencial) e V (a dos subúrbios ou comutação).
Ele assinalava que a zona de desorganização permanente era a II, devido à contínua invasão
dos imigrantes que logo passavam à III. Não encontrava diferenças étnicas, pois a transferência
para a III não trazia consigo a criminalidade.
No geral, a Escola de Chicago representou um notável progresso, em particular por seu
antirracismo e por inaugurar uma sociologia criminal urbana muito mais razoável. É claro que
teve limitações importantes, uma vez que a criminalidade que observava era só a dos pobres e a
zonificação de Burgess é própria de uma sociedade muito dinâmica, em crescimento
permanente, mas não poderia explicar os fenômenos de zonas precárias das grandes
concentrações urbanas da atualidade.
Por outro lado, a maior criminalização dos jovens de sua zona II não leva em conta que esta

se achava sob maior controle policial (os recém-chegados são sempre suspeitos) e a precariedade
habitacional expõe mais a criminalização (os jovens de classe média não têm necessidade de
fumar maconha fora de casa).

Ilustração 14

Erwin Sutherland, professor da Universidade de Indiana, opôs-se à tese chicaguiana da
desorganização, afirmando que não era isso e sim que se tratava de uma organização diferente.
A ideia central de Sutherland era que o delito é uma conduta aprendida e que se reproduz,
como qualquer ensinamento, por efeito de contatos com definições favoráveis e da
aprendizagem dos métodos.
Embora Sutherland não se refira aos crimes de Estado, o certo é que, quando nos
perguntamos como é possível que as pessoas treinadas precisamente para evitá-las cometam
atrocidades, nos damos conta de que isso responde a um processo de aprendizagem em uma
agência que, por autonomizar-se do controle político, encerra uma grande quantidade de
definições favoráveis ao delito. É claro que isso aconteceu com a introdução dos discursos
importados do colonialismo francês, a partir dos anos 50 do século passado, quando nossos
círculos oficiais começaram a receber definições favoráveis a condutas criminosas.
Sutherland introduziu essa tese na edição de sua Criminology, de 1939, e a modificou na de
1947, com seu princípio da associação diferencial: uma pessoa se torna delinquente por efeito de

um excesso de definições favoráveis à violação da lei, que predominam sobre as definições
desfavoráveis a essa violação.
Com isso, ele pretendia explicar a criminalidade de forma mais ampla do que a Escola de
Chicago, porque os de Chicago explicavam apenas os delitos dos pobres, ao passo que
Sutherland deixou claro que a criminalidade perpassa toda a escala social e que há tanto delitos
de pobres como de ricos e poderosos. Assim, a única cara visível dos prisioneiros deixa de ser a
dos delinquentes e, como era de se esperar, pouco depois, em 1949, Sutherland publicou um
estudo sobre o crime do colarinho branco (White Collar Crime) que se tornou um clássico da
criminologia e cuja dinâmica não era antes compreendida.
Se bem que Sutherland não chegou a incorporar o poder punitivo à criminologia, deu um
passo fundamental e deixou a questão no limite, pois o delito do colarinho branco (grandes
delitos contra o patrimônio, quebras fraudulentas etc.) deixava a descoberto a seletividade da
punição. Era demasiado claro que os poderosos raramente iam para a cadeia.
Como colocação geral, pode-se observar que o ser humano ficava demasiado preso ao meio:
a leitura de Sutherland – e ainda que o matizasse bastante – não deixava de provocar a
impressão de que o bairro causava a delinquência dos pobres e o clube a dos ricos.
A associação diferencial levou, de imediato, outros sociólogos a pensar que não eram o
bairro e o club, mas sim que havia outros agrupamentos que treinavam e, estudando as gangues
ou os bandos, Cloward e Ohlin afirmaram, nos anos seguintes, que se deviam à formação de
subculturas. Segundo eles, os que têm menos oportunidades sociais se agrupam e se submetem
a uma aprendizagem diferencial. Dito mais claramente, as condições sociais desfavoráveis
levariam à marginalização e esta favoreceria os agrupamentos de semelhantes com definições
favoráveis ao delito, ou seja, uma variável cultural ou subcultura.
Esta teoria subcultural pressupõe a existência de uma cultura dominante, o que não é
simples em sociedades plurais e menos ainda quando as condições sociais desfavoráveis são as
da maioria, como em muitíssimos países periféricos.
Em 1955, Albert K. Cohen expôs uma nova teoria da subcultura criminal, afirmando que as
crianças e jovens dos estratos desfavorecidos, como não podiam ajustar sua conduta à cultura de
classe média que lhes era ensinada nas escolas, reagiam, rechaçando-a e invertendo os valores
da classe média. Cabe observar que esta tese negava toda criatividade valorativa às classes mais
desfavorecidas, pois se limitava a inverter os valores da classe média.
Essas teorias subculturais receberam uma resposta crítica por parte de dois sociólogos –
Gresham Sykes e David Matza – que, em 1957, publicaram um artigo na American Sociological
Review, que marca um momento muito importante na criminologia contemporânea: Técnicas de
neutralização: uma teoria da delinquência.
Se bem que Sykes e Matza, nos anos 1950, tinham em vista os jovens rebeldes sem causa
(com filme póstumo de James Dean e a direção de Nicholas Ray e com música de fundo e
movimento de quadris de Elvis Presley), o certo é que sua tese voltou a primeiro plano quando
começamos a nos fixar nos crimes de massa dos Estados, porque a teoria das técnicas de
neutralização parece ter sido feita pensando nos genocidas. Voltaremos a esse ponto mais
adiante, mas vocês podem meditar sobre isso desde agora. Pelo momento, vejamos em que ele
consiste.
A tese central de Sykes e Matza é que os jovens delinquentes não negam nem invertem os
valores dominantes, e sim aprendem a neutralizá-los. Seria a consequência de receber um
excesso de definições que ampliam, de modo inadmissível, as causas de justificação e de se livrar

da culpa. Não se trata de que eles racionalizam atos perversos, porque a racionalização é
posterior ao fato, ocorre quando digo uma mentira e depois tento me justificar. Não, as técnicas
de neutralização são anteriores ao ato, são algo que se aprende antes e permitem realizar o ato
na convicção de que se está justificado ou não se é culpado.
Sykes e Matza revelam os seguintes cinco tipos de técnicas de neutralização:

1. Negação da própria responsabilidade (São as circunstâncias que me fazem assim, eu não o
escolhi, minha mãe é castradora, meu velho é rígido,a sociedade me faz assim).
2. Negação do dano (Não me compadeço de ninguém, têm muita mais grana, não é tão grave,
havia ofendido a minha velha).
3. Negação da vítima (Foi ele que me agrediu, eu só me defendi, são uns negros, uns maricas,
uns favelados etc.).
4. Condenação dos condenadores (A polícia é corrupta, na escola me tratam mal, meu velho é
intolerante, os juízes são uns hipócritas).
5. Apelo a lealdades superiores (Não posso deixar os companheiro sozinhos, não posso me
afastar deles agora, não posso faltar aos amigos, tenho que atender aos cumpinchas).

Vamos pensando se essas técnicas não são mais próprias dos genocidas que dos rebeldes
sem causa. Porém, avançando nos anos 50 e 60 do século passado, é natural que, se se pensa
que o delito é uma conduta aprendida, cabe perguntar por que é mais facilmente aprendida por
uns do que por outros. Isso é o que tentaram responder as chamadas teorias do controle,
centradas na família e na escola.
Não há dúvida de que essas instituições e as primeiras vivências têm muitíssima importância
no curso posterior, mas isso pertence mais ao campo da psicologia do que ao da sociologia, que
antes teria de se ocupar das condições sociais desfavoráveis a seu bom funcionamento. Por isso,
não nos ocuparemos em detalhe dessas teorias, que são muitas e, embora isto não seja verdade
a respeito de todas, o certo é que costumam deixar um sabor conservador e nem sempre liberal.
Ao prescindir de outros fatores sociais, elas provocam uma sensação estranha, pois parecem
sugerir pistas técnicas para provocar conformismo, consenso, homogeneização, o que nem
sempre é saudável, porque, ao não se ocupar da maior parte dos problemas sociais, dariam por
certo que a sociedade funciona muito bem e que a única coisa que há que se fazer é domesticar
prematuramente as pessoas.
Se o conformismo fosse o ideal e houvesse um modo infalível de obtê-lo, a humanidade
ficaria órfã de inovadores em todas as áreas e o delito, com certeza, não desapareceria, pois o
conformismo com o poder que dirige a punição deixaria os crimes do poder impunes.

22. Sistêmicos e conflitivistas
Das cinco correntes em que se dividiu a criminologia sociológica estadunidense antes de
deter-se no próprio poder punitivo, conforme os condicionamentos em que cada uma se
detinha, sobrevoamos as três primeiras (desorganização, organização diferente e controle) e nos
restam as duas últimas: tensão social e conflito.
Estas não apenas disputam entre elas a etiologia social do delito, como também o próprio
conceito da sociedade. Enquanto as teses sistêmicas concebem a delinquência como resultado de

tensões provocadas dentro de um sistema, as conflitivistas a explicam como resultado do
permanente conflito entre grupos sociais. Aqui se localiza o enfrentamento entre as duas
diferentes ideias de sociedade: para uns, a sociedade é um sistema que abarca todas suas partes,
as relações entre estas e as relações do conjunto com o meio externo, enquanto que para outros
é um conjunto de grupos em conflito que estabelecem, em determinadas ocasiões, as regras de
jogo para resolvê-los, que lhe atribuem uma aparente estabilidade, mas nunca configuram um
sistema.
Como não há forma de verificar que a sociedade seja um sistema ou que se esgote nas
regras comuns para decidir os conflitos entre grupos, acreditamos que tanto a concepção
sistêmica quanto a conflitivista são algo assim como armários de cozinha nos quais se colocam
os copos, os pratos, as taças e os talheres (que, em sociologia, seriam os fatos empiricamente
observados) e como os utensílios da cozinha não podem ficar espalhados pelo quarto de dormir
e devem ser guardados em algum lugar, o sociólogo deve escolher o tipo de armário que
prefere.
A escolha não é aleatória, pois os sistêmicos têm problemas para explicar porque a
sociedade muda, enquanto os conflitivistas os têm para explicar porque há componentes que
são mais estáveis, visto que nem todos os utensílios cabem com comodidade em nenhum dos
armários.
Dentro dos sistêmicos há os mais ou menos radicais e, por certo, os mais extremistas se
aproximam quase até se identificar com o velho organicismo. Não obstante, não se pode deduzir
daí que todos os sistêmicos sejam reacionários e os conflitivistas progressistas, pois os houve
para todos os gostos.
O sociólogo sistêmico mais interessante para a criminologia foi Robert K. Merton, que fez
época na sociologia estadunidense a partir de sua obra mais difundida (Social theory and social
structure), publicada em 1949.
Merton explica o delito como resultado de uma desproporção entre as metas sociais e os
meios para alcançá-las. Se a meta social é a riqueza, os meios para alcançá-la são poucos e, por
conseguinte, gera-se uma tensão porque nem todos podem chegar a ela. É como um concurso: à
medida que as provas vão se sucedendo, mais concorrentes vão sendo excluídos, até que apenas
uns poucos chegam ao final. Ele denomina essa desproporção de anomia (palavra tomada de
Durkheim, embora para este significasse outra coisa).
Evidentemente, nem todos os que ficam fora de concurso delinquem, e por isso Merton
afirma a existência de cinco distintos tipos de adaptação individual, segundo a aceitação ou o
recusa das metas ou dos meios institucionais:

1. As metas e os meios são aceitos (conformismo).
2. As metas são aceitas e os meios rechaçados (inovação).
3. As metas são rechaçadas e os meios são aceitos (ritualismo).
4. As metas e os meios são rechaçados (retraimento).
5. As metas e os meios são rechaçados, mas são propostos novas metas e novos meios
(rebelião).

De acordo com essa esquema, o conformista é o socialmente adaptado, o ritualista
identifica-se com o burocrata, o retraído é o vadio, o mendigo, o alcoólatra etc., e o rebelde é o
renovador social, que quer mudar a estrutura. O inovador é a categoria mertoniana que abrange

vários personagens, como o inventor, mas ao qual também correspondem os chamados
delinquentes, ou seja, os que escolhem caminhos que não são os institucionais para chegar à
meta. Segundo Merton, isso explica porque o delito não é produto da simples limitação de meios
para alcançar riqueza nem da exaltação isolada das metas pecuniárias, mas é necessária a
combinação de ambas para que se produza o desvio.
A tese de Merton merece críticas, como a de não conseguir explicar o delito do colarinho
branco, de não levar em conta, aparentemente, a delinquência grupal e, sobretudo, pela
dificuldade em definir as metas comuns em sociedades plurais. De qualquer maneira, porém,
não se pode ignorar que trouxe uma série de conceitos que até hoje iluminam a criminologia.
Assim, partindo do teorema de Thomas, ele anunciou a ideia da profecía que se autorrealiza
(espalha-se o boato de que o banco está quebrando e aí todos os correntistas retiram suas
poupanças, e o banco termina quabrando). Outra contribuição é a ideia de alquimia moral, que
faz que o que é positivo e virtuoso para o in-group resulte negativo e vicioso no out-group (é
bom que os jovens estudem para progredir, mas é mau que os presos estudem, porque o fazem
para delinquir melhor).
Uma contribuição interessantíssima de Merton, em especial quando incorporada ao sistema
penal, é a ideia de incapacidade adestrada e a de psicose profissional, sintetizadas no
adestramento burocrático – e profissional em geral – que proporciona um modo de ver que é
também um modo de não ver. Em outras palavras, enfocar um objeto é algo que pressupõe, ao
mesmo tempo, o desenfoque de outro objeto: o gorila invisível dos modernos psicólogos de
Harvard.
Isso explicará, em seguida, algumas características kafkianas nos segmentos do sistema
penal. Mostra como a adesão às regras termina convertendo um meio em um fim e deslocando
as metas, com o quê o resultado deixa de importar, sempre que as formas sejam observadas (se
não há certificado de disfunção, a presença do cadáver não tem importância).
Há outros aportes não menos interessantes por sua utilidade na análise do sistema penal,
como o tratamento despersonalizado da clientela do burocrata, que alcança limites insólitos no
sistema penal, ou a ideia de grupo de referência, que é adotado como modelo, como quando a
polícia adota o modelo militar e acaba que alguém assume o papel de Rambo, ou quando a
classe média adota como modelo a classe alta (é a ridiculização de Arturo Jauretche, em El
Medio Pelo en la Sociedad Argentina)[8].
Se bem que Merton tenha sido um sociólogo sistêmico, o foi em uma medida muito
prudente. O modelo de armário que escolheu para colocar os utensílios da cozinha era um tanto
modular, isto é, à medida que tinha novas panelas, o ampliava para poder guardá-las. Porém,
nem todos os sistêmicos foram iguais, porque não faltam aqueles que, quando as panelas não
cabem, as tiram ou as amassam para enfiá-las à força.
Com efeito, há toda uma sociologia que defende uma ditadura do sistema. Ela parte da
descrição de um sistema (para esses sociólogos, essa é a sociedade), e, a partir daí, deduz tudo o
que é necessário para mantê-lo em equilíbrio. Em geral, essa sociologia não se ocupa muito da
criminologia de forma expressa, podemos mesmo dizer que quase nada, porque se limita a dar
por certo que o poder repressivo faz parte do sistema, sendo necessário para manter seu
equilíbrio. Seus maiores expoentes foram Talcott Parsons, nos Estados Unidos, e seu discípulo
alemão Niklas Luhmann. Não nos ocuparemos aqui dos detalhes dessas correntes sociológicas,
porque são muito complexos e não têm consequências criminológicas expressas, mas têm
consequências tácitas que são importantes.

Essas posições sistêmicas extremas reconduzem ao organicismo, porque definitivamente a
única coisa importante para elas é o sistema e seu equilíbrio. Porém, diferentemente do velho
organicismo criminológico positivista racista, já não lhes preocupa a etiologia do crime, mas sim
unicamente o que o sistema deve fazer para não se desequilibrar ou para se reequilibrar.
Desse modo, poder-se-ia concluir que, se a criminologia midiática cria uma realidade que
gera tal pânico na sociedade a ponto desta reclamar uma repressão enorme, esta terá de ser
feita, porque é necessária para normalizar a situação e reequilibrar o sistema. Não é por acaso
que as consequências práticas das versões mais radicais dessa teoria coincidem com o postulado
por James Q. Wilson, politólogo estadunidense de extrema-direita, que afirma ser inútil se
perguntar pelas causas do delito, pois a única coisa eficaz que o Estado pode fazer não é
neutralizar essas causas, mas sim reprimir o delito. É claro que para aqueles que pretendem
reduzir o Estado a quase nada para deixar tudo nas mãos do mercado (ao estilo Reagan-Bush), o
único bem que esse cadáver insepulto do Estado deve fazer é castigar os pobres.
A teorização sistêmica acaba em uma criminologia que não responde ao paradigma
etiológico legitimador nem ao da reação social, e sim ao da pura repressão como necessidade do
sistema, na medida em que seja necessário para produzir consenso. Para Wilson, isso seria
equivalente a satisfazer às exigências da publicidade vingativa da demagogia midiática: se a
opinião pública pede para prender todos os negros, devemos investir 200 bilhões de dólares
anuais para fazer isso.
Cabe esclarecer que podemos criticar Parsons e Luhmann, mas eles são sociólogos, enquanto
James Q. Wilson, que não é um sistêmico, não passa de um reacionário com espaço midiático, e
não creio que ele tenha estudado ninguém muito a fundo.
Os conflitivistas são os que partem da ideia oposta de sociedade, concebendo-a como
resultado dos conflitos entre diferentes grupos que em algumas ocasiões encontram algum
equilíbrio precário, mas que nunca constitui um sistema. Seus antecedentes remontam a Marx e
a Simmel, mas a primeira expressão moderna do conflitivismo criminológico foi a do holandês
Willen Bonger, que, no começo do século passado, rechaçava todas as teses que subestimavam
os fatores sociais do delito, enfrentando o positivismo e em particular Garofalo.
Ele afirmava, de uma perspectiva marxista, que o sistema capitalista gerava miséria por
inocular egoísmo em todas as relações e por isso era o único criador do delito, tanto nas classes
despossuídas quanto na burguesia. Negava, desse modo, o pretenso caráter socialista das teses
de Ferri. Rechaçou inteiramente o biologismo criminológico e combateu frontalmente a
esterilização e o racismo, o que constitui um mérito que hoje ninguém lhe pode negar.
Afirmava que o delito resulta das condições de sobrevivência dos trabalhadores obrigados a
competir entre si, ressaltando algo sobre o qual se costuma passar por cima, inclusive por
criminólogos progressistas: a pobreza não gera mecanicamente o delito de rua, mas sim, quando
se combina com o individualismo, o racismo, as necessidades artificiais e o machismo.
Se bem que Bonger tenha sido considerado durante muitos anos o expoente da criminologia
marxista, o certo é que continuava fazendo criminologia etiológica e não chegava a criticar o
próprio poder criminalizador, razão pela qual os criminólogos marxistas mais modernos o
consideram um marxista formal. Mais adiante, nos anos 1930, foi Thorsten Sellin quem voltou ao
posicionamento conflitivista, mas do ponto de vista do pluralismo cultural que, como vimos,
havia sido uma determinante da proibição acoólica.
Nos anos 1950, George B. Vold defendeu a teoria do conflito grupal, concebendo a
sociedade como configurada por grupos de interesses que competem entre si; na medida em que

essa competição se acentua, reforça-se a solidariedade do grupo, mas essas lutas também
determinam a dinâmica social. O processo de legislar, violar a lei e impô-la policialmente
responderia, no fundo, à dinâmica dos conflitos entre grupos, na qual perdem aqueles que não
têm poder suficiente para impor seus interesses.
Vold afirmava, dessa perspectiva, que boa parte do delito é produto dos conflitos
intergrupais. Nesses mesmos anos, essas teses receberam, da sociologia geral, o impacto da obra
de Ralf Dahrendorf sobre o conflito de classes na sociedade industrial.
As teorias do conflito não podiam deixar de ir se aproximando da crítica ao poder punitivo,
de modo que muitas delas fazem a ponte entre esta criminologia etiológica e a que veremos na
sequência. Por outro lado, quando elas se mantêm dentro da criminologia etiológica, à medida
que encontram a etiologia em planos de análise social mais macro, é mais difícil deduzir medidas
concretas de política criminológica, pois estas dependeriam de reformas estruturais muito
profundas. Ainda que pareça mentira, a regra parece ser que, quanto mais radical é uma crítica
ao poder social, menor é a possibilidade de modificá-lo de imediato e, por conseguinte, de
incomodá-lo. Daí que os que o exercem as consideram mais inofensivas.
Veremos, a seguir, o momento em que se produz aquilo que se tornava inevitável como
resultado desse trajeto: a incorporação do aparato de poder punitivo à análise criminológica.

Ilustração 15

23. A prateleira caiu!
Desde os anos 1930, a sociologia estadunidense vinha demolindo a visão convencional da
sociedade. Os surveys, como Middletown (Robert S. Lynd e Helen Lynd) e Yankee City (William
Lloyd Warner) mostraram a estratificação social. Samuel Stouffer e Paul Lazarsfeld desnudaram a
manipulação da opinião e o efeito da radiotelefonia, que de brincadeira de criança passou a
decidir a eleição de Roosevelt. O Prêmio Nobel sueco Gunnar Myrdal, com seu American
dilemma, colocava em relevo os efeitos dos preconceitos dos brancos sobre o comportamento
dos negros. As informações de Alfred C. Kinsey sobre as práticas sexuais despertaram uma
gritaria histérica sem precedentes.
Algumas contribuições da microssociologia seguiam pelo mesmo caminho. William Foote
White na sociedade da esquina, metido no meio de um grupo de imigrantes italianos (método do
observador participante) colocou em evidência, em 1947, que o líder não era o mais hábil, mas
sim era o mais hábil porque era o líder, o que é importante para compreender a resistência a
qualquer mudança nas agências do sistema penal (e da política em geral: não me mude as regras
do jogo, porque com estas estou ganhando e com as novas posso perder).
Na teoria sociológica geral, quem dava a tônica era Charles Wright Mills, um sociólogo difícil
de classificar, mas um bom demolidor de preconceitos. Há três obras deste autor que são únicas.
Em White collar (1951), ele descreve e ironiza a formação da classe média, próxima à classe
operária, mas diferenciando-se desta em status e prestígio. Observa que não é um grupo
homogêneo, mas sim uma pirâmide superposta à outra pirâmide. Suas ironias são válidas para
boa parte das nossas classes médias latino-americanas. Outro livro importante é, sem dúvida,
The power elite, no qual ele procura estabelecer quem tem o poder na sociedade estadunidense
e observa, visionariamente, que uma verticalização e uma burocratização iam correspondendo a
uma sociedade de massas e não de públicos. Ele fazia notar que as associações voluntárias
desapareciam e os meios de comunicação de massa manipulavam a opinião pública. Em um
terceiro – A imaginação sociológica (1959) –, zombava da sociologia sistêmica de Parsons,
chamando-a de a grande teoria, e a acusava de escamotear o problema do poder com uma
linguagem obscura (dizia que ainda era necessário traduzi-lo para o inglês).
Como vemos, é inquestionável que as coisas não surgem do nada, e que as palavras da
academia têm uma continuidade e nunca são obra de alguém que as inventou, enquanto se
enfeitava ou se maquiava.
Nesse clima, criado pela sociologia geral ao longo de mais de vinte anos, a criminologia
sociológica não podia continuar se perguntando pelas causas do delito sem reparar no poder
punitivo.
Até esse momento, ninguém havia analisado o exercício do poder repressivo. O delito podia
ser atribuído a muitos fatores, inclusive ao próprio poder, mas ninguém se ocupava do sistema
penal em particular. Não obstante, não se podia continuar avançando sem o levar em
consideração e, ao fazê-lo, podemos dizer que a prateleira caiu.
A queda da prateleira é algo que, em termos científicos, foi batizado há alguns anos por
Kuhn, de um modo mais elegante: mudança de paradigma. Significa que todas as taças caíram e
se misturaram com outras e, por conseguinte, devem ser recolocadas em uma nova ordem e com
umas tantas taças novas, em um novo armário. Isso é o que acontece na ciência, quando se
rompe o marco dentro do qual todos pensavam e se passa a um outro diferente, como
aconteceu com Copérnico, Einstein e outros.

Foi assim que a discussão acerca da polícia, dos juízes etc., ou seja, até onde haviam
chegado nossos velhos amigos do bar, discutindo com quem queria pulso firme e bala, foi
assumida pela criminologia nos anos 60 do século passado. Dado que os frequentadores
habituais do bar não haviam patenteado a mudança de paradigma, eles perderam os direitos
autorais.
Desse modo, abriu-se uma nova etapa na criminologia acadêmica que, por incorporar o
poder punitivo, é chamada de criminologia da reação social, embora também possa ser
chamada de criminologia crítica. Esclareço que as denominações são discutíveis e que
preferimos não perder tempo com isso.
Dentro dessa nova criminologia (da reação social ou crítica), podem distinguir-se duas
correntes, às quais se convencionou chamar de liberal e radical, respectivamente. Vejamos a que
essa diversificação responde.
Toda a criminologia da reação social, pelo mero fato de introduzir em seu campo o sistema
penal e o poder punitivo, não pode senão criticá-lo (por isso também a chamamos crítica).
Pois bem. A crítica ao sistema penal é uma crítica ao poder e, portanto, pode se situar no
nível do sistema penal (ou seja, do aparato repressivo) ou elevar-se até diferentes níveis do
poder social. Posso analisar e criticar o que a polícia, os juízes, os agentes penitenciários, os
meios de comunicação etc. fazem, ou ir mais além e analisar sua funcionalidade em relação a
todo o poder social, econômico, político etc. e chegar a uma crítica do poder em geral.
Diz-se que há uma criminologia crítica que se situa no nível dos cachorros pequenos (under
dogs), que chega no máximo nos cachorros médios (middle dogs), mas que não alcança os
cachorros grandes (top dogs). Pois bem. Denominou-se aquela que não chega aos de cima, por
certo que com um certo tom pejorativo, de criminologia liberal e a que os alcança de
criminologia radical.

Ilustração 16

Nos anos 1970, a discussão entre as duas correntes da criminologia crítica era forte, mas nas
últimas décadas, o giro brutalmente regressivo da repressão penal, especialmente nos Estados
Unidos, fez com que elas cerrassem fileiras e o enfrentamento perdeu força. Os radicais,
geralmente baseados no marxismo não institucionalizado (como a Escola de Frankfurt),
afirmavam que os liberais eram reformistas, se deixavam ficar no meio do caminho e que era
preciso se chegar a uma transformação mais profunda de toda a sociedade.
O certo é que a criminologia radical, ao elevar sua crítica a essas alturas, não deixava espaço
para uma política criminológica de menor alcance e, em suas expressões mais extremas, levava à
quase impotência, porque havia que esperar a grande mudança, a revolução, para atirar tudo
pela janela (e, de quebra, a própria janela também).
Em tempos em que muitos acreditavam que a revolução estava ao dobrar a esquina, podia
se sustentar uma posição semelhante, mas quando os fatos demonstraram que o que estava por
vir era uma reconstrução brutal do Estado policial, essas posições tiveram de ceder à prudência.
Por outra parte, a chamada criminologia liberal tampouco era tão ineficaz como pensavam
alguns radicais e confesso minha própria experiência a esse respeito.
Em 1979, um extraordinário pensador italiano que era catedrático na Alemanha, Alessandro
Baratta, cujo desaparecimento deixou um vazio muito difícil de ser preenchido no pensamento
criminológico, publicou um artigo em que demonstrava que a sociologia anterior à crítica e a
sociologia liberal bastavam para demolir todos os discursos correntes com que o direito penal
legitimava o poder punitivo de forma racional.
Esse artigo me impressionou muito, porque achei que podia demolir todo o direito penal
com consequências imprevisíveis para as garantias individuais, acerca das quais, por outro lado,
acabava de escrever cinco volumes inatacáveis. Tentei responder-lhe, naturalmente sem êxito,
do que me convenci pouco depois.
Com efeito, a criminologia liberal-reformista, de meio caminho e tudo mais – bastava para
deslegitimar o poder punitivo de forma irreversível. Essa criminologia mostrou que o poder
punitivo é altamente seletivo, que não respeita a igualdade, que se fundamenta no preconceito
de unidade valorativa social, que não persegue atos e sim pessoas, que seleciona conforme
estereótipos etc.
Por certo que isso não é nada inofensivo para o poder, porque embora a crítica não chegue
a níveis mais altos, deslegitima um instrumento necessário para seu exercício; não arremessa a
janela, mas a deixa bastante desmantelada.
A criminologia da reação social chegou à América Latina nos anos 1970 e foi difundida por
duas distinguidas criminólogas venezuelanas: Lola Aniyar de Castro, a partir da Universidade de
Zulia, e Rosa del Olmo, da Universidade Central de Caracas. Em nosso país, seus seguidores se
viram forçados a tomar o caminho do exílio durante a ditadura, entre os quais Roberto Bergalli,
que se fixou em Barcelona, e Luis Marcó do Pont e Juan Pegoraro, no México. Durante os anos
sangrentos essa criminologia só era comentada em nosso meio em pequenos círculos, enquanto
as cátedras continuavam enlanguescendo no canto da Faculdade de Direito (na de Buenos Aires,
com o mais puro positivismo perigosista).
Na atualidade, passados os anos, vemos que a prateleira caiu para sempre, que a
criminologia atual não pode evitar a análise do sistema penal e do poder punitivo em geral e,
como dissemos, o confronto entre as duas correntes criminológicas se atenuou muito, embora
mais por causa do pânico do que do amor. O modelo Reagan-Thatcher-Bush e seu nefasto
festival do mercado tiveram esse efeito paradoxal.

24. A criminologia crítica liberal e a psicologia social
A chamada criminologia liberal foi anunciada desde os anos 1950, em particular com um
trabalho de Edwin Lemert que destacava ser o desvio primário, por conta do qual se impõe uma
pena, seguido em geral por um desvio secundário, pior que o anterior, causado pela mesma
intervenção punitiva e que condiciona as chamadas carreiras criminosas.
Lemert escreveu textualmemente: O desvio secundário constitui conduta desviada ou papéis
sociais baseados nele que chegam a ser meios de defesa, ataque ou adaptação aos problemas
manifestos ou ocultos criados pela reação da sociedade ao desvio primário. Com efeito, as
“causas” originais do desvio desaparecem e cedem lugar à importância central das reações de
desaprovação, degradação e isolamento de parte da sociedade.
Essa criminologia liberal não estava isolada da sociologia geral; antes, procedia diretamente
dela e, em particular, de duas grandes influências que ela havia recebido: por um lado, da
psicologia social, com o interacionismo simbólico; por outro, da filosofia, com a fenomenologia
de Husserl. Comecemos pór nos aproximar do primeiro.
O interacionismo simbólico baseava-se nas ideias de George Mead, segundo as quais todos
temos um mim que se vai formando pelas exigências de papéis dos demais, e um eu que é o
que nós trazemos.
O sociólogo mais importante dessa corrente foi Erving Goffman, que o explicou como uma
dramaturgia social.
Falemos um pouco mais claramente. Para Goffman, a sociedade funciona como um teatro,
no qual há atores, público e organizadores. Suponhamos que, por acaso, me convidem para uma
conferência; há um público e os organizadores prepararam tudo. Eu espero do público que ele
se comporte como tal, que me escutem com certa atenção etc. O público espera de mim que eu
dê uma conferência mais ou menos interessante, não muito tediosa. Tanto o público como eu
esperamos dos organizadores que tudo esteja em ordem, que não se corte a luz, que o
microfone funcione etc. Todas estas esperanças (ou expectativas recíprocas) são o que
chamamos de demandas de papel.
Pois bem: se todas as demandas de papel são satisfeitas, todos nós ficamos contentes e
felizes. Porém, se me ponho a ladrar, o público se aborrece e reclama de mim; se no público há
um grupo de bêbados, que grita barbaridades, aí quem se aborrece sou eu. No primeiro caso, os
organizadores explicarão ao público que quando me convidaram não imaginavam que eu
estivesse louco; no segundo caso, eles me explicarão que a presença dos bêbados tinha sido
imprevisível.
Esses episódios, que geram agressividade quando não se responde às demandas de papel,
são chamados de disrupções e nos irritamos porque, quando acontece uma disrupção, não
sabemos como prosseguir, ficamos sem roteiro.
Isso acontece em todos os atos da vida. Se nosso vizinho sai sempre com um macacão e
uma caixa de ferramentas e um dia lhe pedimos que nos ajude a fazer o automóvel dar partida e
ele nos diz que sente muito, mas que não poderia ajudar porque na realidade é o catedrático de
biologia molecular da universidade, embora disfarcemos, ficaremos desconcertados e em nosso
foro íntimo, seremos agressivos, nos perguntando por que esse aparato (ou algo pior) se veste
dessa maneira e sai com uma caixa de ferramentas.
Os papéis podem ser socialmente positivos ou negativos, mas isso não importa quanto a seu
funcionamento, pois operam da mesma maneira. Geralmente, costumamos responder às

demandas de papel, para que os outros não se aborreçam e evitemos as disrupções. É isso que
vai configurando nosso eu, ou seja, em boa medida somos como os outros nos demandam que
sejamos.
Quando a quem se atribui um papel negativo (ladrão, por exemplo) são formuladas as
demandas de papel correspondentes ao atribuído porque se espera que se comporte como tal,
também nos aborrecemos quando ele não as responde da forma adequada ao papel. A exemplo
do que acontece com o vizinho do macacão, nos perguntaremos porque esse sujeito assume as
características de um ladrão e nos confunde.
Com esse esquema, Goffman analisou as instituições totais, que são aquelas em que a
pessoa desenvolve toda sua atividade vital, desde o momento em que se levanta até quando se
deita, sejam elas manicômios, prisões, internatos, asilos etc. Os círculos separados de trabalho,
diversão e descanso se unificam e regulamentam, não há esferas separadas da vida. A pessoa se
desculturaliza, a separação entre o pessoal e o interno é contundente. O interno deve se
acostumar a pedir por favor o que na vida livre é óbvio, sofre o efeito de cerimônias de
degradação, a pessoa fica entregue a profanações verbais por parte do pessoal e, além do mais,
perde toda reserva, é invadida e controlada até mesmo nos atos mais íntimos.
A pessoa sofre ataques ao eu, ou seja, perde autonomia, fica à mercê do pessoal e de seus
humores, inclusive os hierarcas podem dar-se ao luxo de ser mais bondosos que os subalternos,
assumindo a função do rei bom e gracioso dos contos infantis.
Imaginemos, por um momento, algo muito louco: que você vive em um prédio de
apartamentos que, um belo dia, é ocupado por invasores que demolem todas as paredes
divisórias, inclusive as dos banheiros, e o obrigam a conviver com todos os outros ocupantes do
edifício com os quais mantinha relações nem sempre cordiais, sob o controle dos invasores, que
os vigiam constantemente e os igualam no que é possível, porque necessitam manter a ordem.
Esta é uma imagem alucinante, um pesadelo. Pois bem, uma instituição total é mais ou menos
isso, com maior ou menor intensidade controladora.
É óbvio que no caso desse pesadelo você não aprenderia a socializar-se, que seus hábitos
de vida mudariam totalmente, que sofreria uma brutal perda de autoestima e seu objetivo
dominante seria ver como fazer para sair daí, para ir-se o mais longe possível, fugir do sonho
ruim. Todo o discurso de ressocialização se dissipa com essa investigação, e embora Goffman a
tenha levado a cabo principalmente nos manicômios, ele é transferível em grande medida à
prisão.
Dentro da mesma corrente do interacionismo simbólico foi determinante um livro de
Howard Becker, de 1963, Outsiders, que consolidou a teoria do etiquetamento (em inglês
labeling approach). Becker trabalhou sua pesquisa com músicos de jazz usuários de maconha e
o fez com tamanho empenho que se converteu em um virtuose do piano. Descobriu que o
desvio é provocado, que há uma empresa moral que faz as regras, que não se estudam os
fabricantes das regras (empresários morais) e sim as pessoas às quais lhes é aplicada a etiqueta
que as deixa fora (outsiders). Essa rotulação coloca a pessoa em outro status, que a impede de
continuar sua vida normal: desde o não te juntes até a desqualificação em qualquer atividade
competitiva da vida corrente. Foi condicionada a ele uma carreira, conforme a etiqueta que se
lhe foi colocada.
É óbvio que essa crítica representa um golpe muito forte ao poder punitivo, ao colocar em
evidência a repartição arbitrária das etiquetas e lançar dúvidas não sobre os subordinados (os
cachorros de baixo) e sim sobre os altos responsáveis do poder que decidem a legislação penal e

orientam a seleção das pessoas a criminalizar. Nem lerdos nem preguiçosos, os defensores da
ordem lhe objetaram que, por se ocuparem dos chamados delitos sem vítima (consumidores de
maconha, hippies, homossexuais), trata estes e os assassinos seriais de velhinhas do mesmo
modo, porque todos seriam puras etiquetas. Nada menos exato nem mais falso do que essa
objeção.
Embora sem etiqueta não há delito, não é certo que esta cria o delito, nem Becker nem
ninguém afirmou isso. Sem contratantes também não há matrimônio, mas o matrimônio não cria
os contratantes como namorados anteriores ao ato; o testamento não cria o causador nem
tampouco o mata, embora sem autor morto de testamento não haja sucessão testamentária.
Há etiquetas que se colocam em material mais etiquetável que outro; sem dúvida, no caso
dos assassinos em série há muito material bem etiquetável, assim como entre fumantes de
maconha haja pouco e entre homossexuais ,nada, mas o certo é que isso não interessa ao
etiquetamento, que o faz em uns poucos casos e de modo arbitrário, pois nem sempre se
etiqueta como homicidas os que matam: sem me deter nas execuções sem processo, nos
esquadrões da morte, nos assassinatos em massa genocidas e em outros horríveis crimes
impunes, o certo é que tampouco se etiqueta como homicídio a guerra, as mortes por poluição
ambiental, as penas de morte por erro, o fechamento de hospitais, de postos de saúde, a
negligência no cuidado das estradas, nem os fabricantes e vendedores de armas são etiquetados
como cúmplices de homicídios, embora cooperem necessariamente com eles, nem sequer
quando as vendem aos dois lados em guerra ou a narcotraficantes em luta.
Os recipientes podem conter muito, pouco ou nada de material etiquetável, mas isso é
indiferente para a distribuição arbitrária das etiquetas, que as fixa em recipientes vazios ou
cheios, mas deixa de fazê-lo com outros muito mais cheios.
Esta é a questão que nunca deve nos confundir: o que Becker prova é a arbitrariedade do
etiquetamento e isso coloca em xeque todos os argumentos com que o direito penal tenta
conferir racionalidade ao poder punitivo. Não foi à toa que o artigo de Baratta me causou tanta
impressão e alarme. A minha prateleira caiu, com certeza.
O panorama do interacionismo simbólico foi completado a partir da Grã-Bretanha por Denis
Chapman, com o livro Sociologia e o estereótipo do criminoso (1968), no qual o autor esclarece
como se seleciona para criminalizar de acordo com estereótipos que são criados como síntese
dos piores preconceitos de uma sociedade e que não respondem somente a questões de classe
nem de capacidade econômica.
O conceito de estereótipo é hoje indispensável para explicar como funciona a seleção
criminalizadora policial ou judicial. No bairro, costumam chamá-lo de pinta de ladrão e é uma
espécie de uniforme do outsider, mas por causa das demandas de papel não é algo apenas
externo; seu portador vai incorporando, vai se obrigando a engolir, a tragar o personagem,
assume-o à medida que responde às demandas dos outros, seu mim vai sendo como os outros o
veem, é como o estereótipo respectivo e, por conseguinte, carrega um estigma que condiciona a
proibição de coalizão (no bairro é o não com más companhias).

25. A crítica liberal e a fenomenologia
Como é sabido, Husserl colocou o problema da intersubjetividade a partir da filosofia, o que
não podia deixar a sociologia indiferente. O sociólogo austríaco Alfred Schutz colheu a ideia no

ar, afirmando que a intersubjetividade não é um problema e sim uma realidade e, com isso,
conferiu um novo enfoque à sociologia do conhecimento.
Quanto à questão criminal, interessa-nos em particular a contribuição que procede de um
pequeno livro publicado em 1966 por um austríaco (Peter Berger) e um alemão (Thomas
Luckmann), que se converteu num clássico nas carreiras de comunicação: A construção social da
realidade.
Embora esse trabalho não se ocupe da criminologia, veremos sua enorme projeção quando
nos ocuparmos da criminologia midiática, mas digamos brevemente em que ele consiste. A
investigação parte do suposto de que há conhecimentos de senso comum sem os quais não
poderíamos agir em sociedade, pois a realidade com a qual lidamos é, definitivamente, uma
interpretação aceita por todos os significados subjetivos. Vale dizer, vivemos em um mundo de
interpretações compartilhadas, intersubjetivo.
Isso não significa que não existam os entes físicos; é óbvio que, se não me detenho diante de
um ônibus, ele me atropela; porém, se estendo a mão de um lado da rua, ele se detém e abre
sua porta dianteira. O mundo é o conjunto de significados que compartilho com os outros e que
faz com que o motorista não me atropele nem os passageiros protestem porque o ônibus parou
para eu subir. O material do mundo é só sua base física, mas o mundo mesmo resulta do
conjunto de significados (os para o que) que formam o senso comum do conhecimento
objetivado.
Esse conhecimento comum da vida cotidiana se sedimenta com o tempo e se tipifica
tornando-se anônimo, isto é, se objetiva – o ser humano se habitua.
Um ato que se repete com frequência cria um hábito que o reproduz com economia de
esforços, pois limita as opções e evita que, perante cada situação, se tenha de colocar tudo de
novo, desde o princípio. Ao nos levantarmos de manhã não nos perguntamos se Deus existe e
daí deduzimos significados em cadeia até chegar ao valor da ação de tomar banho. Há
recolocações que se fazem algumas vezes na vida, mas sempre continuamos tomando café com
leite com pãezinhos.
Esses hábitos sedimentados adquirem caráter estável, anônimo, precedem a nossa vida e
estão submetidos ao controle social. O mais importante instrumento de legitimação é a
linguagem, com uma lógica que se dá por estabelecida. Desse modo, os conhecimentos de senso
comum (que são subjetividades compartilhadas) se objetivam e se tornam coisas, produz-se a
reificação (de res, coisa).
Se me afasto do mundo reificado, me sancionam. Ninguém faz a prova, mas se você colocar
o croissant na orelha, lustrar os sapatos com café com leite e falar em russo ou em guarani com
o garçom, se você parar na frente do ônibus ou pedir ao motorista que lhe venda cigarros, o
levarão ao manicômio, o que também é uma sanção de internação em uma instituição total.
Berger e Luckmann explicam que, desse modo, o outro na relação interpessoal sempre é
visto como um ser-como, isto é, exercendo um papel. O motorista do ônibus nos vê como
passageiros e nós a ele, como motorista. Essas relações e papéis que conservamos e praticamos
com base em um sistema de significantes comum, é alterado quando estamos em outro país e
não sabemos como se compra o bilhete do ônibus, e muito mais quando, por desconhecer o
idioma e o alfabeto, nos tornamos analfabetos.
A sociedade, escrevem Berger e Luckmann, é a soma total das tipificações e dos modelos
recorrentes de interação estabelecidos através deles. Enquanto tal, a estrutura social é um
elemento essencial da realidade da vida cotidiana.

A conversação do encontro direto transcende do pensamento comum e dá lugar ao
pensamento abstrato, filosófico e científico. Nesse sentido, o pensamento científico depende de
um prévio conhecimento do senso comum (que resiste a desaparecer). Os filósofos também
molham os pãezinhos no café e tomam banho pela manhã, se são asseados.
Para Berger e Luckmann, os seres humanos são produto e artífices do mundo social. Tudo o
que no institucional parece objetivo é meramente objetivado, é o que se alcança através do
processo de reificação.
É interessante assinalar que Berger e Luckmann observam que a sociedade incomoda o
intelectual. Isso se deve ao fato de que nela prima o conhecimento objetivado como coisa
(reificado) e o intelectual o questiona, pois quando todos afirmam que a coisa está, ele sai do
seu canto e mostra que a tal coisa não existe. É o que diz que o rei está nu. Embora cumpra um
papel dinamizador e fundamental, pois propõe uma visão alternativa, o intelectual assume uma
posição marginal e tem necessidade de um grupo que o defenda.
Como se explica esta opção pela marginalidade própria do intelectual? Os autores acreditam
que surge de uma disparidade entre a socialização primária (que tem lugar na infância) e a
secundária (do adulto). Trata-se de uma insatisfação pessoal do agente adulto com sua
socialização primária. Ao que parece, quando criança, o intelectual não ficou muito satisfeito
com as respostas – e ordens – dos adultos ou depois se deu conta de que eles eram bastante
bobos.
Em determinadas ocasiões se produzem importantes transformações nas pessoas, que
chamam alternações e que provocam redefinições ou processos de ressocialização semelhantes
à socialização infantil. De acordo com o que vimos, o etiquetamento desencadeia um processo
de ressocialização forçada. A pessoa é forçada a mudar, a autoperceber-se de outro modo. Não
é por acaso que uma prisão impacta como uma espécie de internato para adultos infantilizados
e o importante seria proporcionar um tratamento que neutralize, até onde seja possível, esse
processo de ressocialização. Nessa terminologia, o tratamento penitenciário deveria evitar a
ressocialização.
É bastante clara a influência de Heidegger em Berger e Luckmann: o ser humano, ao invés
de se perceber como produtor do mundo, o faz como produto deste. Os significados humanos já
não são vistos como algo que se produz pelo mundo, mas sim como produtos da natureza das
coisas. Assim foram vistos a escravidão, o colonialismo, a guerra e tantas outras aberrações no
curso da história. Cabe assinalar que não esgotamos, com o exposto, o quadro da criminologia
crítica que chamamos de liberal, mas tampouco nos propomos a fazê-lo. Simplesmente,
recolhemos os elementos que nos serão úteis em seguida para esclarecer o fenômeno da
criminologia midiática e em especial para escutar as palavras dos mortos e fundar nosso projeto
de criminologia cautelar.

Ilustração 17

26. A vertente marxista da criminologia radical
Como era de se esperar, as críticas ao poder punitivo chamaram a atenção daqueles que
formulavam colocações críticas mais amplas da sociedade, que começaram a vinculá-las com os
resultados da criminologia liberal.
Por nossa parte, chamamos criminologia radical aquela que provém desse encontro com os
marcos ideológicos que reclamam mudanças sociais e civilizatórias profundas ou gerais, embora
isso não seja pacífico, pois está em discussão o que é e o que não é radical. Sem entrar nessa
discussão, a definimos desse modo, por puras razões de ordem expositiva.
Nesse entendimento, para nós, a criminologia radical (ou crítica radical) responde a tantas
versões quanto os marcos ideológicos que a inspiram. Certamente, a mais profunda crítica social
do século passado foi o marxismo, que não podia deixar de impactá-la.
Do campo marxista, publicou-se, em 1939, um trabalho anterior a toda a criminologia
sociológica dos anos 1960, que foi a obra de Georg Rusche e Otto Kirchheimer, intitulada
Punição e estrutura social[9]. Pela primeira vez, o marxismo aprofundou sua análise do poder
punitivo, diferentemente dos ensaios anteriores, como o do holandês Willen Bonger, que
procediam do marxismo, mas analisando as causas do delito.
Essa investigação realizou-se no Instituto de Investigação Social de Frankfurt, fundado para
renovar o marxismo diante da versão institucionalizada da União Soviética. Embora fale-se em
Escola de Frankfurt, ela não foi propriamente uma escola, porque convocou prestigiosos
pensadores sob a única consigna da crítica social. Tomaram parte dessa equipe figuras tão
conhecidas e díspares como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Erich Fromm,
entre muitos outros.
A investigação da questão penal foi atribuída a Georg Rusche, que permaneceu na Europa,
enquanto o instituto, perseguido pelo nazismo, era transferido para Nova York. Rusche enviava

seus escritos para Nova York, onde a investigação não era suficiente. Encomendaram a
Kirchheimer que a completasse, o que não mereceu a total aprovação de Rusche. Por essa razão,
a versão final tem duas partes diferentes.
De toda forma, a ideia central do livro é que existe uma relação entre o mercado de trabalho
e a pena, ou seja, com a pena uma quantidade de pessoas deixa o mercado de trabalho, num
momento em que há demanda trabalho no próprio sistema. Essa situação reduz a oferta e
impede que os salários baixem muito; inversamente, aumenta a oferta quando há uma demanda
de mão de obra, evitando uma subida acentuada do salário.
Isso seria comprovado na história. Na Idade Média, a oferta era enorme e o poder punitivo
podia matar sem problemas; a força do trabalho teria começado a ser cuidada quando, com o
capitalismo, aumentou a demanda de mão de obra.
Por outra parte, os autores asseguravam que o mercado determina as penas conforme a lei
de menor exigibilidade, segundo a qual as condições da vida carcerária, para ter efeito
dissuasivo, devem ser inferiores às piores da sociedade livre.
Esse livro caiu praticamente no esquecimento e, como às vezes acontece, foi reavaliado
trinta anos mais tarde, em plena vigência da criminologia crítica, reeditado e traduzido em vários
idiomas.
Em 1979, quando seus autores haviam morrido (Kirchheimer em 1965 e Rusche em data
incerta), abriu-se um debate em torno de Punilção e estrutura social e sua tese foi criticada na
obra Carcere e fabbrica[10], de Dario Melossi e Massimo Pavarini, os quais afirmaram que ela
pecava por um excessivo economicismo. Esses autores da Escola de Bolonha não negam a
importância do mercado de trabalho, mas não acreditam que opere de forma tão mecânica, mas
sim através do disciplinamento no momento do surgimento do capitalismo e da acumulação
primitiva do capital. A similitude entre o cárcere e a fábrica nesta época (lembremos de Bentham
e de seu panóptico) respondia a um programa de disciplinamento que visava a oferta de mão
de obra qualificada.
García Méndez, no epílogo à sua tradução espanhola desta obra, assinala que a função de
disciplinamento não passou completamente desapercebida a Rusche e Kirchheimer e que o que
vigora de sua tese é o ponto segundo o qual cada sistema de produção tende ao descobrimento
de castigos que correspondem a suas relações produtivas, indicando que a categoria de mercado
de trabalho parece demasiado estreita, ao mesmo tempo que a de relações de produção mostrase demasiadamente ampla.
Cabe esclarecer que a ideia do disciplinamento foi desenvolvida ao máximo dentro da
criminologia radical, mas fora das correntes marxistas, por Michel Foucault em Vigiar e punir
(1975), em que poder-se-ia assinalar um caminho para o abolicionismo, ao qual voltaremos.
Para Foucault, o poder punitivo não é tanto o negativo da prisionização, como o positivo,
em que o modelo panóptico se estende a toda a sociedade sob a forma de vigilância. Nisso ele
tem toda a razão, porque o mero poder de encerrar um número sempre muito reduzido, em
relação à população total, de pessoas dos estratos mais subordinados da sociedade não importa
o exercício de um poder politicamente muito significativo: o importante é que, sob esse pretexto,
todos nós que estamos soltos somos vigiados.
A Escola de Bolonha fez um reparo a Foucault, porque, na colocação deste, a disciplina
aparece descolada. Ele não a relaciona à mudança operada no sistema produtivo, ao qual os
estudiosos de Bolonha atribuem as reformas penais do Iluminismo.
À margem disso, nos anos 1970, houve manifestações do marxismo criminológico nos

Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Seus expositores mais conhecidos nos Estados Unidos são
Richard Quinney e William Chambliss.

Ilustração 18

Quinney afirmou que os delinquentes são rebeldes inconscientes contra o capitalismo e o
poder punitivo é o instrumento de repressão a serviço das classes hegemônicas. Se o criminoso
age brutalmente contra a vítima, isso é resultado da forma em que ele foi brutalizado. Com isso,
Quinney inaugura uma espécie de visão romântica dos delinquentes.
Por certo, esse autor estava muito próximo da nova esquerda (New Left) dos protestos
estudantis de Berkeley e ficou deprimido com seu fracasso. As autoridades universitárias não
viram com bons olhos seu movimento e optaram por dissolver seu grupo. De qualquer maneira,
foi um fenômeno que chamou a atenção quando ocorreu e, exageros à parte, semeou bastantes
dúvidas acerca das racionalizações correntes.
Chambliss defendeu uma tese menos linear. Ainda que considere o poder punitivo como um
instrumento do capitalismo, este o usaria para adiar até onde fosse possível o colapso final do

sistema, que considera inevitável. Em linhas gerais, e pese os matizes, esse marxismo
criminológico estadunidense defende uma racionalidade do delito, como resposta às
contradições do capitalismo. Quem nos assalta na rua ou nos bate a carteira, estaria, sem sabêlo, agindo racionalmente diante das contradições do sistema.
Como entre as ideias da New Left encontrava-se a crença de que os intelectuais podiam
conscientizar os delinquentes e marginais a respeito da racionalidade de sua função, alguma
coisa disso está presente nessas construções. Com isso, iam além de Marx, que, como vimos,
desprezava olimpicamente o Lumpenproletariat, enquanto a New Left acreditava em seu
potencial revolucionário. Apesar de sua ingenuidade e de que Marx lhes houvesse dito coisas
menos bonitas, não podemos negar a generosidade de seu pensamento, levando em conta o
contexto em que se expressou.
A criminologia marxista britânica teve muito mais êxito e se expandiu desde a publicação,
em 1973, da Nova criminologia de Ian Taylor, Paul Walton e Jock Young. Esta obra alcançou um
êxito singular porque a primeira parte é uma cuidada síntese da criminologia teórica desde o
Iluminismo, resgatando, a partir de Durkheim, os elementos críticos de cada corrente, com
conhecimento e aguda penetração sociológica.
Em seguida, analisam Marx e Engels e destacam que, como vimos, Marx ocupou-se apenas
tangencialmente da questão criminal, razão pela qual concluem que a teoria criminológica
marxista deve ser construída a partir dos princípios e não das manifestações incidentais do
próprio Marx.
Se o marxismo nos oferece algo útil para apreciar as formas em que o conflito social é gerado
e mantido – escrevem – e em que este ajuda a determinar o tipo e a quantidade de atividade
delitiva e desviada em geral, é mais provável que o encontremos na teoria geral de Marx do que
nas afirmações mais concretas dadas como resposta a questionamentos empíricos isolados.
Uma cabal teoria marxista do desvio – afirmam – teria por fim explicar como determinados
períodos históricos, caracterizados por conjuntos especiais de relações sociais e meios de produção,
produzem tentativas dos econômica e políticamente poderosos em ordenar a sociedade de
determinada maneira. Ênfase maior iria para a pergunta que Howard Becker formula (mas não
examina), a saber, quem impõe a norma e para o quê?
Eles consideram que nenhuma teoria do desvio conseguiu isso e que a consequência seria
vincular as teses da criminologia liberal às teorias da estrutura social que estão implícitas no
marxismo ortodoxo.
Esse pensamento também se afasta do desprezo de Marx pelo Lumpen, atribuindo-lhe
caráter dinamizador, o que permite entender que, em geral, os criminólogos marxistas do
Primeiro Mundo que escreviam em plena sociedade de consumo haviam perdido a confiança na
força dinamizadora e revolucionária do proletariado (segundo eles, adormecida pelo welfare
State) e a depositavam na marginalização social.
A criminologia radical promoveu a criação, tanto na Europa quanto na América, de grupos
de estudos que aglutinaram os criminólogos dessa tendência e, em alguns países, os críticos em
geral. Houve um importante grupo europeu, outro italiano, grupos británicos, um círculo de
jovens criminólogos alemães etc. Em 1981, por iniciativa da criminóloga venezuelana Lola Aniyar
de Castro, proclamou-se no México o Manifesto do Grupo Latino-Americano de Criminologia
Crítica, subscrito por ela (professora da Universidade de Zulia), Julio Mayaudon (da
Universidade de Carabobo), Roberto Bergalli (exilado e professor em Barcelona) e Emiro
Sandoval Huertas (de Bogotá, assassinado no massacre da Corte Suprema, em 6 de novembro de

1985).

27. Na direção do abolicionismo e do minimalismo
Era natural que a obra de Goffman causasse certa impressão na psiquiatria, visto que se
baseava na experiência manicomial das instituições totais. Da crítica ao manicômio passou-se
rapidamente à da psiquiatria e daí à crítica radical de todo o sistema psiquiátrico, o que se
convencionou chamar de antipsiquiatria.
Todo o movimento antipsiquiátrico foi uma crítica radical ao controle social repressivo
exercido à margem do sistema penal formal. O poder punitivo reveste-se de muitas formas e já
vimos o efeito do acordo entre médicos e policiais que acabou nos campos de concentração
nazistas e outros não tão notórios, mas nem por isso menos letais.
Se nos colocassem diante da possibilidade de carregar uma etiqueta negativa, dando-nos a
opção entre a de criminalizado ou de psiquiatrizado, se bem o último evoque um sentimento de
pretensa piedade (e o primeiro oculta o de vingança), o certo é que o de criminalizado seria
preferível, porque pelo menos não nos poderia ser negado o direito de defesa nem de denunciar
os abusos cometidos conosco. Já ao psiquiatrizado até esses direitos são negados, sob o
argumento puro e simples de que o pobre está louco, não sabe o que faz, tem que ser tutelado,
tem de ser protegido de si mesmo.
Não foi à toa que um conhecido psiquiatra húngaro radicado nos Estados Unidos, Thomas
Szasz, escreveu um interessantíssimo livro comparando o sistema psiquiátrico à Inquisição e
afirmando que a medicina substituiu a teologia, o médico, o inquisidor e o paciente, a bruxa.
Tudo o que o paciente alegar contra sua condição de doente não será mais do que prova de sua
doença, a exemplo do que acontecia com o herege: pobre não tem consciência da doença.
Na corrente antipsiquiátrica alistaram-se autores famosos nas décadas de 1970 e 1980, como
o italiano Franco Basaglia, o escocês Ronald Laing, o inglês David Cooper, o mencionado Szasz e
muitos outros, que fundaram em 1975, em Bruxelas, uma Rede Internacional de Alternativa à
Psiquiatria.
A ideia de vários desses antipsiquiatras era que a doença mental é uma resposta política, ou
seja, o ser humano, diante das contradições do poder, se encaminha em direção à loucura ou à
revolução e, portanto, não se deve matar o potencial subversivo da loucura, e sim politizá-lo
para converter o louco em um agente de mudança social.
A extrema radicalização dessas posições, da mesma forma que as referidas ao próprio
sistema penal formal, pode levar à impotência, visto que é óbvio que há algo a fazer frente a um
esquizofrênico que fica imóvel como um móvel no extremo de seu autismo psicótico (hoje há
poucos, é certo) e outros tantos padecimentos em que não se pode deixar de reconhecer que o
paciente sofre.
Não bastará explicar que seu sofrimento é uma reação às contradições do poder, porque o
catatônico não vai se inteirar disso. Não obstante, deixando de lado o extremismo que pode
levar à imoblidade, o certo é que esse movimento contribuiu amplamente para que os direitos
dos pacientes psiquiátricos fossem levados em consideração, abrindo um campo de debate que
de modo nenhum se fechou.
Se bem que os psicofármacos tenham eliminado as camisas de força e as celas acolchoadas e
quase não se usa o choque elétrico (que era o mais parecido ao eletrochoque), o atual jaleco

químico é distribuído com incrível generosidade à população. A consequência desse abuso é que
tende a suprimir toda resistência e tolerância à dor, quando sabemos que existem os inevitáveis
e não é de modo algum saudável sua simples supressão psicofarmacológica nem a generalização
da anestesia diante dos sofrimentos socialmente condicionados.
O resultado prático mais importante da antipsiquiatria foi a desmanicomialização, ou seja, a
redução da institucionalização ao mínimo, para evitar a deterioração da pessoa.
Como nunca faltam os espertos ou perversos que tudo desvirtuam, este generoso movimento
de desmanicomialização acabou sendo usado por políticos imorais para reduzir o gasto na
atenção psiquiátrica e por delinquentes corruptos para tentar fazer negociatas imobiliárias com
os edifícios e terrenos dos manicômios. Isso, porém, não pode ser imputado à antipsiquiatria, e
sim somente à necessidade de ficarmos atentos às contradições do poder, que não são só
aquelas que os antipsiquiatras imaginaram.
Paralelamente à abolição do manicômio e à antipsiquiatria, e com referência ao sistema
penal formal, abriu-se caminho a um complexo movimento de abolicionismo penal, que
podemos denominar novo abolicionismo, para distingui-lo do velho, que era o dos teóricos
anarquistas.
Embora tenha tido como antecedente o livro do professor de criminologia de Genebra Paul
Reiwald, intitulado A sociedade e seus criminosos e publicado em 1948, sua obra não foi
compreendida quando foi lançada, talvez também devido à precoce morte do autor, razão pela
qual o novo abolicionismo viria a eclodir nas décadas de 1970 e 1980. Nesses anos, recebeu um
notório impulso com os trabalhos de Michel Foucault, embora este não se proclamasse
abolicionista, pois seu pensamento resiste às classificações e ele mesmo procurou, durante toda
sua vida, evitar os encasulamentos.
Não tem muito sentido selecionar aspectos particulares da crítica de Foucault, porque ela
impactou de tal modo as ciências sociais e a criminologia que ao longo dessas páginas estamos
vendo sua clara marca transversal. Os filósofos discutirão durante muito tempo as ideias de
Foucault, em especial sua concepção antropológica, mas nas ciências sociais suas contribuições
estão acima de qualquer avaliação e não estão necessariamente soldadas com esta, que é o
principal ponto de discussão no campo da filosofia pura.
O novo abolicionismo surgiu quase inteiramente de movimentos e organizações que se
ocupavam dos direitos dos presos e pelas quais criminólogos e outros acadêmicos se
interessaram. Conforme essa experiência, eles passaram a teorizar e a postular a abolição da
prisão e finalmente do sistema penal. Alguns desses movimentos, que surgiram na Europa nos
anos 60 do século passado, converteram-se em verdadeiras organizações e foram imitados mais
timidamente em outras latitudes.
Os primeiros foram os movimentos escandinavos: o KRUM sueco (1965), o KRIM
dinamarquês (1967) e o KROM norueguês (1968). Eles foram seguidos em 1970 pelo RAP
britânico (Radical Alternatives to Prison), em 1971 pela Liga Holandesa COORNHERT, pelo
grupo alemão de Bielefeld, pelo Liberarsi do carcere italiano e pelo Group d’information sur les
prisions (GIP) francês. No Canadá, o impulso mais importante veio do campo religioso, dos
quakers. Cabe notar que depois da ditadura argentina, organizou-se algo semelhante em Buenos
Aires, através de uma ONG, o SASID (Servicio de Assistência Social Integral ao Detenido), que
sobreviveu alguns anos. Não podemos aqui segui-los em detalhe, mas foi um conjunto
importante e demostrativo de uma tônica humanista muito interessante. Se algum de vocês
quiser se aprofundar em sua história e ideologia, há em espanhol um livro de Iñaki Rivera Beiras

(Abolir o transformar?, Buenos Aires, 2010) que se ocupa do tema.
Participaram dessas organizações acadêmicos de prestígio, como Michel Foucault, no GIP,
Louk Hulsman e Herman Bianchi, na Liga Holandesa, Ruth Morris, no movimento quaker
canadense, e Thomas Mathiesen e Nils Christie, no KROM norueguês. Eles foram os principais
promotores teóricos do novo abolicionismo penal, que se institucionalizou internacionalmente no
ICOPA (International Conference on Penal Abolition), que promove congressos bianuais em
diferentes países do mundo.
O pensamento de Louk Hulsman foi sintetizado em um livro escrito em colaboração com
Jacqueline Bernat de Celis (Peines perdues, Le système pénal em question, Paris, 1982), no qual
evidencia a irracionalidade do poder punitivo e, de certa forma, sua derivação teológica, o que o
vincula ao posicionamento de Szasz em psiquiatria. Cabe precisar que Hulsman era professor
emérito da Universidade de Rotterdam e o líder visível do documento sobre descriminalização
do Conselho de Europa de 1980. No ano de seu falecimento – 2009 – havia sido indicado como
candidato ao Prêmio Nobel da Paz, por ter promovido as primeiras iniciativas de política de
drogas na Holanda.
Quanto a Nils Christie, sua obra mais conhecida em espanhol é Los límites del dolor (1981),
cuja tese central é que, até o presente, o poder punitivo inflige intencionalmente dor, e por isso
ele postula alternativas e não meras limitações. O marco ideológico de Christie é mais da
antropologia cultural. Em sua bibliografía posterior, ele destaca os perigos do modelo
estadunidense das últimas décadas, daí o sugestivo subtítulo de uma de suas obras: Rumo ao
gulag estilo occidental. Talvez o primeiro livro da nova onda abolicionista seja o do norueguês
Thomas Mathiesen, The Politics of Abolition (1974), no qual narra sua experiência no KRUM ao
longo de vários anos. Embora sua obra participe do campo ideológico do marxismo não
institucionalizado, não se submete a ele, forçando os fatos verificados com sua experiência. Daí
que tenha várias contribuições interessantes, que abriram o caminho a posteriores elaborações.
Consideramos que a maior contribuição de Mathiesen é a caracterização do poder punitivo
como fagocitário em relação a todos os movimentos que o enfrentam, aos quais procura
comprometer e incluir em seu discurso e ação. Daí advertir que estes devam manter uma estrita
posição de confrontação não contaminadora. Nesse sentido, constrói um conceito que tem plena
vigência: o de unfinished, o nunca finalizado. Veremos mais adiante, quando fizermos referência
à cautela, que esta deve operar como um unfinished, ou seja, um caminho para a contenção do
poder punitivo nunca de todo acabado.
Entre todos os personagens humanamente incríveis do novo abolicionismo destacou-se Ruth
Morris, socióloga canadense, de personalidade muito interessante, tanto enquanto teórica quanto
como ativista. Sua obra mais difundida foi Penal Abolition: The Practical Choice (1995), na qual,
entre outros pontos, afirma que a fé no poder punitivo é uma religião. Acreditamos que essa
ideia é muito interessante, tendo em conta que hoje se atribui ao poder punitivo uma
onipotência que não é deste mundo, razão pela qual se converteu em um verdadeiro ídolo e seu
culto, em uma idolatria. Seria bom se aqueles que, a partir das distintas religiões, o adoram,
refletissem acerca da possibilidade de que esse culto não lhes faça incorrer num gravíssimo erro
dogmático. Morris foi membro ativo da Religious Society of Friends (quakers) e embarcou todo
seu grupo no abolicionismo penal.
A pergunta inevitável quando se defende o abolicionismo é o que colocar no lugar do
sistema penal? Os novos abolicionistas propõem soluções de acordo com todos os outros
modelos de solução de conflitos aos quais fizemos referência: reparador, terapêutico, conciliador

etc. Por minha parte, não creio que suas propostas sejam de política criminal, e sim de política
em geral, mas no sentido de uma profunda mudança cultural e civilizatória. No fundo, a
discussão poderia sintetizar-se na questão da possibilidade de eliminação da vingança, o que nos
leva a um tema que, por sua complexidade, trataremos extensamente mais adiante, e que não é
nada simples de resolver.
O abolicionismo teve uma virtude, que compartilha com outras correntes às quais nos
referiremos mais adiante, mas que chega a seu máximo extremo com esses autores e que
consiste em desnaturalizar o poder punitivo.
Na verdade, tal como Berger e Luckmann explicam, há muitas coisas que nos são tornadas
naturais porque subjetivamente coincidimos, compartilhamos a mesma opinião em relação a
coisas que nos parecem que sempre existiram ou que deveriam ter existido. Desde o bife de
chorizo[11] até a pizza com fainá,[12] tudo nos parece natural e não nos perguntamos porque
motivo elas existem: está ali porque tinha que estar ali e pronto. Com o poder punitivo acontece
o mesmo: diz-se que ele sempre existiu, embora, como vimos, isso não seja certo. Está porque
tem que estar. Isso determina que todo aquele que o critica deve explicar por o que o faz,
enquanto que o poder punitivo não precisa explicar nada acerca de sua existência.
Imagino que o mesmo terá acontecido com a escravidão, com a tortura, com a monarquia e
com tantas outras coisas tão pouco naturais, como a pena de morte, a prisão ou o próprio poder
punitivo. Isso é o que muda com a crítica abolicionista: é o poder punitivo que deve justificar sua
existência e não o inverso. E a verdade é que, quando fazemos isso, quando tratamos de justificar
a existência do poder punitivo, ainda que não sejamos abolicionistas e tenhamos diferenças para
com as soluções e as vejamos como colocações não criminológicas e sim diretamente
civilizatórias, nos encontramos em meio a dificuldades, e o abolicionismo é uma das principais
fontes dessas dificuldades.
Há, por outros caminhos, propostas menos radicais e inclusive críticas do abolicionismo,
visto que não postulam a abolição do sistema penal, e sim sua redução. Trata-se daquilo que se
conhece como minimalismo penal, cujos autores mais conhecidos, ainda que por diferentes vias,
são o inesquecível Alessandro Baratta, o querido Luigi Ferrajoli e a Escola de Bolonha em geral,
com Massimo Pavarini e outros tantos.
Com diferenças, esses autores destacam que o poder punitivo deveria limitar-se a conflitos
muito graves e que comprometem maciçamente bens básicos (como a vida ou o meio ambiente)
e resolver os conflitos de menor magnitude por outros caminhos. É inquestionável que, embora
nossa cultura não admita a decisão não punitiva de alguns conflitos, isso não acontece nem
muito menos com todo o imenso campo abarcado pela projeção da criminalização secundária.
Não obstante, cabe assinalar que essas propostas de direitos penais mínimos exigem
também uma profunda transformação do poder que hoje caminha em sentido diametralmente
oposto, ainda que, a exemplo do abolicionismo, tenham a virtude de inverter a questão: uma vez
mais é o poder punitivo, como artifício humano, que deve justificar sua existência e extensão.
Essas posições, que exigem profundas mudanças sociais e civilizatórias, apresentam o
inconveniente de que é muito difícil dar respostas concretas a problemas urgentes, o que não é
funcional em uma região onde a violência do poder punitivo é muito alta ou, ao menos, constitui
uma ameaça constante.
Isso não significa, muito menos, que devamos subestimá-las, porque oferecem contribuições
que nos ajudam a refletir sobre nossa realidade. Pessoalmente, entendo que a posição de Baratta
e toda sua escola minimalista, da mesma forma que o abolicionismo, tornam inevitável a questão

da legitimação do poder punitivo e a pergunta sobre a que se devia a incapacidade do direito
penal para atribuir uma função à pena. Hulsman prova que o modelo punitivo não resolve os
conflitos e, consequentemente, nos impõe a tarefa de buscar, no campo das ciências sociais, uma
explicação para a sua permanência no tempo. O unfinished de Mathiesen, por sua vez, é uma
ideia que pode oferecer um fundamento consistente para uma criminologia cautelar e para
refundar o direito penal liberal a partir de uma perspectiva mais sólida.

Ilustração 19

28. Da criminologia crítica passou-se à debandada?
Alguns criminólogos reacionários afirmam que a crítica criminológica fracassou e que ela não
passou de um momento de euforia ou de uma moda superada. É claro que, para isso, tomam em
consideração as versões mais radicais e ingênuas, às vezes fáceis de ridicularizar.
Em seu lugar, eles propõem uma criminologia administrativa que, falando abertamente,
pretende que a palavra da academia se limite a discutir uma técnica eficaz de contenção dos
pobres.
Não nos devemos enganar com os livros bem encadernados e os cursinhos de fim de

semana, próprios de uma criminologia sem história nem passado e que, além do mais, pretende
mostrar-se independente da política.
O certo é que entre os criminólogos mais sérios o viés crítico não desapareceu; pelo
contrário, aprofundou-se, ganhou em realismo e arquivou as ingenuidades. O que é o que foi
chamado de realismo? De onde provém o impulso para superar a crítica com mais crítica?
É muito simples: o que mudou é o quadro do poder planetário. Os criminólogos críticos dos
anos 1970 nos países centrais viam-se às voltas com um poder punitivo próprio dos Estados do
bem-estar e de suas sociedades de consumo, com a sociologia sistêmica de Parsons e a economia
de Keynes.
Para nós, latino-americanos, isso parecia um tanto estranho, porque nossos Estadosprovidência, incipientes e nunca completados, criados pelos populismos que ampliaram nossas
bases de cidadania real, haviam sido desbaratados brutalmente ou estavam em vias de sê-lo.
A crítica criminológica central não correspondia aos nossos sistemas penais, pois no nosso
lado montava-se um poder punitivo que só buscava conter os excluídos. Eram impostos a nós
Estados policiais com ditaduras ou com políticos corruptos pós-modernos. Não tinha sentido
colocar em crise, aqui, a ideia de ressocialização, porque nossas prisões tendiam a ser, ou já
eram, campos de concentração, nossas polícias eram forças de ocupação territorial, substituídas
com frequência por militares, o número de presos à disposição do Poder Executivo competia com
o de presos por ordem judicial e, além do mais, 70 ou 80% destes últimos estavam presos por via
das dúvidas, porque eram processados e não condenados.
Desde os anos 1970 as coisas mudaram: o Estado policial avançou sobre os países centrais.
Friedman e Hayek foram os novos gurus do festival de mercado; Reagan, Thatcher e Bush
marcaram o caminho para o Estado que tem por função única manter os pobres dentro dos
limites; Roosevelt era pouco menos que um comunista desprezível, Keynes era um marxista
irresponsável, toda gestão e intervenção estatal era ineficiente e corrupta; o mercado era o único
racional no mundo; o Estado devia deixar a máxima liberdade para permitir a eliminação dos
mais débeis.
Herbert Spencer estaria feliz com um mundo como esse e afirmaria que esse mundo não
seria mais do que a confirmação de suas teorias; poderia pedir a Satanás uma revisão
extraordinária de seu julgamento. Há raças inferiores, que somos nós, os habitantes dos países
periféricos, e os imigrantes e excluídos dos países centrais. As raças superiores, que são os
incluídos dos países centrais e seus procónsules designados nos periféricos, devem defender-se
dos inferiores. O Estado deve limitar-se a manter a supremacía das raças superiores e não privar
os inferiores de seu direito à luta que os torne fortes e que permita que, de vez em quando,
algum deles pule a cerca, participando do Big Brother ou abriando espaço em alguma negociata.
O brutal salto do sistema penal dos Estados Unidos, a exclusão definitiva do criminalizado e
de sua família, a pena desproporcional pela menor infração, de acordo com a tolerância zero do
demagogo municipal de Nova York (que cobrou uma quantia exorbitante aos ingênuos
empresários mexicanos para proferir-lhes uma conferência absurda), não são mais que um
terrorismo de Estado contra os pobres, um modelo neonazista em marcha. O Estado policial é
isso, seu pensamento nu e cru diz para os negros ficarem em seu lugar, nós mandamos e
cortamos a cabeça do negro que incomodar. (A isso dever-se-ia acrescentar: Os índios do sul
devem produzir cocaína e matar-se para não nos mandar mais do que o necessário para manter
o preço alto; nós nos ocupamos de que só nos chegue a cocaína que podemos distribuir a um preço
alto e ficarmos com o maior lucro e o benefício da reciclagem).

Vocês têm razão se, por acaso, a clareza dessas expressões lhes chamar a atenção, dado que
hoje eles não se manifestam dessa maneira, pois não têm a sinceridade do velho Spencer, de
Garofalo, dos positivistas racistas. Os velhos racistas pelo menos eram sinceros; autênticos
oligarcas, falavam claro, sem subterfúgios, não posavam de democráticos nem de generosos,
eram abertamente elitistas e confessavam isso. Em que mundo vivemos que nos permite
encontrar algum motivo para termos saudade dos velhos racistas?

Ilustração 20

Hoje as coisas são mais complicadas e é mais fácil confundir-se. Agora, quando o Estado
policial chegou como um bumerangue ao próprio centro, tanto no centro como na periferia há
classes médias desclassificadas, desconcertadas, anômicas (no sentido original de Durkheim),
ameaçadas pelos de cima, que lhes cobram fidelidade, e pelos de baixo, aqueles que consideram
seus únicos e mortais inimigos. São pasto fácil para internalizar a publicidade midiática de um
eles inimigo, composto de pobres, imigrantes e adolescentes de bairros precários.
Todavia, não se trata apenas da classe média empobrecida pela demolição do Estado do
bem-estar. Insistimos em que o mais astuto deste spencerianismo dos dias de hoje é fazer com
que os pobres se matem entre si, que a vitimização avance entre os próprios excluídos, ao que
se acrescenta que a polícia também seleciona entre eles.
A técnica de controle dos excluídos responde à ideia de que os negros se matem entre eles,
assim não incomodam. Essa é a lógica não confessada do racismo de nossos dias. E ela é eficaz,
porque isso permite que inclusive entre os próprios excluídos tenha êxito a publicidade
televisiva que os erige em um eles inimigos da sociedade.
Voltaremos a esse ponto com maiores detalhes, mas não posso deixar de assinalar isso
agora, porque do contrário parece que a criminologia crítica desapareceu, quando na realidade
aconteceu exatamente o contrário: ela se tornou mais realista e profunda, eclodindo em várias
direções.
Os criminólogos se acham agora diante de uma realidade do poder punitivo completamente
diferente da dos anos 1970. Não poderiam continuar criticando um poder punitivo que já não se
exerce da mesma forma. A brutal regressão dos direitos humanos por obra do avanço do Estado
policial – não mais na margem, e sim no próprio centro do poder planetário – coloca a
necessidade de ser mais realistas.
Os criminólogos centrais já não têm tempo para sentar-se à calçada de um café elegante de
Paris a fim de discutir a possível revolução que os faça despertar em uma sociedade igualitária;
hoje eles têm também as urgências que nós tivemos, os ameaçam os mesmos perigos e seu
poder punitivo corre o risco de ir-se assemelhando a cada dia mais ao nosso, embora em alguns

países centrais ainda esteja longe.
Como era de se esperar, os criminólogos centrais se desconcertaram, porque tudo passa
muito rápido, não há sequer mudança geracional marcada, muitas vezes são os mesmos que
ontem defendiam posições radicais os que hoje devem mudar de critério. A brutal virada
repressiva dos Estados policiais instalados ou em vias de instalação representou para eles um
forte murro de realismo que, como todo murro, levou alguns ao nocaute, mas em outros
provocou uma considerável descarga de adrenalina crítica.
A nós isso cai bem, mas não, bem entendido, por nos alegrar com a desgraça alheia. Ainda
que não tenhamos na América Latina o mesmo desenvolvimento teórico da criminologia central,
sempre lidamos com o poder punitivo nu e cru com o qual eles agora se defrontam e, por
conseguinte, os elementos críticos que nos chegam mostram-se muito mais adequados aos
fenômenos de poder que devemos controlar do que os que a crítica ao poder punitivo do Estado
do bem-estar nos fornecia.
Em décadas passadas, quando expúnhamos nossa realidade no centro, não deixava de haver
um certo tom de bom, são países em vias de desenvolvimento. Hoje temos problemas comuns e,
além do mais, a famosa globalização facilita a comunicação.
Vale lembrar que, quando as brutalidades colonialistas aconteciam na África ou na América
do Sul, elas eram atribuídas, no centro, à inferioridade dessas sociedades, mas, quando o mesmo
poder neocolonialista deu a volta e as brutalidades passaram à Europa, esse discurso não pôde
continuar vigindo e a comunidade internacional teve necessidade de declarar solenemente uma
obviedade: todo ser humano é pessoa. O discurso atual não é o mesmo, claro, mas corre o risco
de sê-lo.
A necessidade de aprofundar a realidade do poder punitivo fez com que os olhares se
dirigissem para diferentes direções e se encontrassem com outras que já haviam reparado nesses
fenômenos do poder. Por isso, quando lançamos um olhar sobre a crítica criminológica de
nossos dias, muito longe de acreditar que ela não existe, o que vemos é que debandou em
diferentes sentidos.
Se bem que isso seja, a princípio, desconcertante, é muito saudável, porque o poder
punitivo é um fenômeno muito complexo, que não pode ser encarado com simplificações que
satisfazem o acadêmico porque ficam redondinhas e fecham, mas que não incomodam a
realidade do poder.
Tampouco se trata de uma dissolução, mas antes abrir a cabeça, incorporando outras visões
críticas. Por último, essa saraivada de olhares críticos não é um caos, como a princípio parece,
mas sim, quando olhado bem, é perfeitamente lógico frente à necessidade de encarar a agressão
violenta de um poder punitivo desenfreado e brutal.
Quando, diante dessa necessidade, os criminólogos se perguntaram o que se estava
deixando de lado e por que não haviam se apercebido do perigo antes, seus olhares se voltaram
para quatro direções básicas e que, no fundo, não são excludentes.
(a) Por um lado, ao tratar de explicar o poder punitivo e centrar a atenção em seu exercício,
subestimou-se o dano real que o delito provoca. O delito tem vítimas e a distribuição da
vitimização é tão seletiva quanto a da criminalização. Não por acaso as classes subalternas são
vítimas da publicidade midiática vingativa, pois são as mais vitimizadas. Por esse caminho do
dano real, a crítica se fixa na vitimologia e na Grã-Bretanha alguns dos próprios críticos
marxistas de outrora propõem um realismo de esquerda.
(b) Por outro lado, é claro que a criminologia midiática vingativa, ao construir o eles inimigo

mostrando o delito comum como o único perigo, provoca o que se chama de pânico moral
(conceito que se deve a Stanley Cohen e Jock Young), medo ao delito e a nada mais, e, por
conseguinte, estão sendo ocultados outros perigos e danos em ação, muito mais graves e em
curso.
Inventa-se uma sociedade de risco, na qual o único risco é a agressão do adolescente do
bairro pobre, como se não houvesse outros danos sociais em curso. É algo assim como a
campanha para não usar desodorante em aerosol porque, com isso, vamos evitar que a camada
de ozônio seja furada, enquanto se queimam, irresponsavelmente, bilhões de toneladas de
petróleo.
Isso levou os olhares para mais além da criminologia, isto é, a procurar fazer um saber do
dano social (é o paradigma do dano social proposto por alguns criminólogos ingleses – o social
harm approach), mas também para as contribuições que a crítica social feminista vinha fazendo
e, por último, para algo que se ia colocando em relevo, e que a criminologia havia deixado de
lado de modo pouco menos que inexplicável: o genocídio. O fenômeno dos massacres foi
estudado à margem da criminologia e não pode deixar de impactá-las.
(c) Como é óbvio, o renascimento violento do spencerianismo e seu Estado policial não
podia deixar de ser objeto de análise e crítica, de forma direta, por parte dos criminólogos
centrais que assistiam a esse novo parto letal. Em consequência, surgiu toda uma corrente que se
ocupa de analisar e criticar a manifestação repressiva deste Estado policial e que a batizou de
neopunitivismo.
(d) Por último, todo o panorama mundial contemporâneo configura uma paisagem de
enorme agressividade, que provoca interrogações que se situam além da sociologia e da ciência
política e cujas respostas levam a mergulhar em outras palavras da academia, como são as das
disciplinas psi, da antropologia e da etnologia. Como podemos ver, a debandada não é
anárquica, mas sim responde a atitudes que eram de se esperar, porque são bastante razoáveis,
dadas as novas circunstâncias do poder planetário.
Esse mero enunciado prova que nada é mais falso do que afirmar que a crítica desapareceu,
quando está claro que ela só se diversificou para se aprofundar, o que é muito mais adequado à
urgência para se chegar a uma melhor abordagem do fenômeno de poder repressivo. Os
criminólogos se perguntam, pura e simplesmente:
Por que a criminologia midiática se instala entre os pobres? Porque há um dano real do
delito, do qual nos ocupamos pouco. Pois bem, vamos estudar as vítimas.
O que a criminologia midiática se empenha em ocultar do público com o pânico moral à
agressão do adolescente de bairro precário? Pois bem, vamos estudar os danos sociais que não
são mostrados.
O que é este neopunitivismo brutal? É claro que se trata de uma questão exclusivamente
política; pois bem, é mister analisá-la e estudá-la.
A que se deve essa agressividade intraespecífica, que se coloca manifestamente nesse
momento do poder? Vamos perguntar a outros sábios.
Como se pode ver, a academia não ficou louca nem renunciou à crítica, e sim vai mais longe.
Passemos a lançar uma vista d’olhos sobre o panorama que cada uma dessas quatro
perspectivas oferece, ainda que brevemente, pois, na realidade, essas contribuições da
criminologia acadêmica atual nos preparam para compreender o sentido da criminologia
midiática e para escutar melhor a palavra dos mortos, razão pela qual voltaremos, no curso
desses suplementos, a insistir muitas vezes nos aspectos de seu conteúdo que nos permitem nos

aproximar da realidade da questão criminal.
Não acreditem que seja uma descoberta integralmente pessoal o que vou expor nos
próximos suplementos e que, depois de ouvir atentamente a palavra dos mortos, termina numa
proposta de criminologia cautelar. Ela é, em boa parte, o produto da aplicação dos
instrumentos conceituais que essa aparente saraivada das perguntas contemporâneas nos
proporciona.
Em alguma medida, o que exponho aqui resulta do uso sintético desses elementos e de uma
atenta observação da realidade cotidiana.

29. O dano real do delito: realismo de esquerda e vitimologia
Em 1973, Jock Young era um dos autores da nova criminologia que ensaiava uma
recolocação radical a partir da perspectiva marxista. No começo dos anos 1990 ele surprendeu,
juntamente com John Lea, Richard Kinsey e Roger Matthews, adotando um posicionamento que
chamaram de realismo de esquerda e cujo lema é levar o delito a sério, partindo da constatação
de que causa graves danos a vítimas das classes populares urbanas, em especial às mulheres,
que são as mais vulneráveis.
Embora essa volta seja atribuída políticamente a uma aproximação do trabalhismo britânico,
nós acreditamos que seja antes o resultado de uma aproximação da realidade da vitimização.
As teorias macro têm o inconveniente óbvio de satisfazer explicações acadêmicas
enquadradas em marcos ideológicos prévios, mas não oferecem nenhuma resposta para as
vítimas concretas e seus parentes e para as reclamações que estes e os vizinhos formulam aos
políticos.
Creio que o contato mais elementar de um criminólogo acadêmico com esta realidade não
pode deixar de colocar em evidência a necessidade urgente de fazer algo e de dar uma resposta,
a não ser que prefira que os impulsos de vingança, a criminologia midiática e os políticos
colocados de lado marchem cada vez mais na direção do modelo do Estado policial e da
repressivização neofascista dirigida em fim de contas contra os excluídos.
É bastante claro que as colocações puras da criminologia crítica radical, elaboradas a partir
da academia sem contato com as vivências cotidianas e sem investigação de campo, são úteis
como marco de crítica, mas que, ao recair nesse nível, aplainam o caminho para uma suposta
criminologia administrativa, que é a típica do Estado policial, contando com a aprovação,
quando não com o decidido apoio, dos próprios setores contra os quais esse modelo de Estado
políticamente se dirige.
Acredito piamente que essa verificação, do senso comum, foi determinante para o chamado
realismo de esquerda britânico que vem propondo reformas ao sistema penal e assistencial de
seu país, algumas interessantes, ainda que nem todas transferíveis à realidade da nossa latitude.
Entre as propostas concretas desses criminólogos, as mais interessantes são as que se
referem à polícia, colocando a alternativa entre um modelo de polícia militar (que nós
chamamos aqui de ocupação territorial) e outro de polícia de consenso (que nós chamamos
comunitária).
Voltaremos a esse ponto quando nos ocuparmos dos segmentos do sistema penal, com a
advertência, que formulamos desde agora, de que não se pode confundir uma polícia
comunitária com uma ditadura ética, com a intervenção de pessoas que não tenham nada a

fazer senão incomodar os jovens.
Ao centrar a atenção no dano real do delito não se pode deixar de reparar na vitimologia,
que não é uma ciência nem um saber autônomo, mas uma linha de investigação que teve como
antecedente a obra de Hans von Hentig (que foi um criminólogo alemão antinazista e muito
criativo) e da qual considera-se fundador o criminólogo romeno radicado em Israel, Benjamin
Mendelsohn.
Inicialmente, a vitimologia se dedicava às vítimas de delitos comuns, em especial a seu
comportamento como determinante ou facilitador destes delitos, mas hoje ampliou seu campo
de observação até chegar quase a abranger tudo o que levam em consideração aqueles que
pretendem ir mais além da criminologia e ocupar-se de todo o dano social. Um dos mais
destacados teóricos da vitimologia em nosso tempo foi o sempre lembrado Antonio Beristain,
que elaborou o conceito de macrovítimas, em referência aos conflitos armados ou ao que se
denomina “terrorismo”. Na Argentina, esta perspectiva foi amplamente desenvolvida por Elías
Neuman, lamentavelmente falecido em 2012.

30. Os danos que a criminologia midiática oculta
O feminismo é um forte movimento teórico e ativista com desenvolvimento autônomo e em
cujo seio se movem desde posições radicais, inspiradas em marcos ideológicos preexistentes, até
toda a gama de possíveis matizes em torno do inegável fenômeno civilizatório da subordinação
da mulher.
No fundo do debate feminista, acreditamos encontrar o fundado temor de que seu potencial
transformador, que é enorme, possa ser neutralizado por um pensamento falocêntrico ou, como
dizem no bairro, machista, suscetível de cooptá-lo.
Porém, indo além dos extremos a que esse temor pode conduzir, o certo é que o feminismo
comove as próprias bases do poder planetário, tendo em conta, como vimos, que este se
preparou hierarquizando as sociedades colonizadoras mediante a regulação das relações sexuais
para erigir a seus primeiros sargentos na pirâmide do exército colonialista.
O temor das feministas não é outra coisa senão um capítulo importantíssimo das armadilhas
que todas as racionalizações do poder e todas suas naturalizações nos estendem.
O feminismo trouxe dois conceitos – o de patriarcado e o de gênero – que hoje são de uso
corrente e sem os quais nos faltariam letras-chaves no abecedário que usamos para descrever a
hierarquização naturalizada que o poder planetário nos vende.
Entende-se por patriarcado, para afirmar claramente, o domínio machista e todas suas
implicações. O gênero revela a principal armadilha do patriarcado: a confusão de sexo com a o
papel atribuído. O sexo é algo anatômico, mas o gênero não tem nada a ver com a anatomia. A
mulher tecendo, cozinhando,esperando o marido, cosendo, não tem nada de sexual, tratando-se,
antes, de um conjunto de papéis culturalmente atribuídos pelo poder patriarcal. Isso é o gênero.
Chamou sempre a atenção que o sistema penal se ocupasse quase exclusivamente dos
homens, mas isso não tem nada de estranho: no exército da sociedade hierarquizada, os
sargentos controlam a mulher e os sargentos são controlados pelo poder punitivo, que só se
ocupa das mulheres quando elas se rebelam contra os sargentos. Este é o programa original que
provém da Idade Média e que, com matizes, se mantém em vigor.
Por conseguinte, a criminologia guardou bastante silêncio acerca da mulher, salvo alguns

disparates positivistas, como o do equivalente de Lombroso ou o estereótipo da mulher
envenenadora.
Todavia, deixando de lado os disparates e também as discussões estadunidenses tentando
explicar o maior protagonismo da mulher, o feminismo impôs correções à crítica criminológica
ao destacar que se a mulher tinha menor incidência na criminalização, o mesmo não sucedia na
vitimização. Isso tem lugar não apenas na delinquência de rua, mas também nas vitimizações
que são consequência direta da discriminação de gênero, desde a violência familiar homicida até
o tráfico de pessoas (antes se chamava de brancas, curioso vício racista da escravidão).
Não houve uma crítica criminológica gay tão desenvolvida como a feminista, embora já há
muitos anos o britânico Gordon Taylor tenha observado que em toda sociedade ocorre uma
relação inversa entre o patriarcalismo e a tolerância à homossexualidade.
De qualquer maneira, existem estudos importantes (como o de John Boswell), muitas
ridiculizações dos disparates positivistas (Jorge Salessi, na Argentina), relatos da perseguição
nazista (a rosa Winkel [13]), do processo de Oscar Wilde (o de Gide, por exemplo), numerosas
contribuições literárias (Jean Genet à frente) e, é inegável, o peso da questão gay na crítica de
Michel Foucault.
Se bem que a vitimologia tenha colocado em relevo danos que não se tinham levado
suficientemente em conta, o feminismo chamou a atenção sobre a metade da população
esquecida pela criminologia, e se bem que nossos vizinhos tenham colocado os teóricos ingleses
na terra, o panorama das vítimas do poder mundial não estava de modo algum completo.
Stanley Cohen chamou a atenção para isso, o que chama de sociologia da negação, que nos
condiciona uma indiferença moral, em seu livro, de 2001, Estados de negação.
Na obra, Cohen não se refere ao grosseiro negacionismo neonazista da Shoá e similares, e
sim, para exemplificá-lo claramente, àquilo que protagonizamos enquanto olhamos, pela TV, o
noticiário que nos mostra massacres e continuamos molhando os pãezinhos no café com leite.
Seguindo este caminho, um grupo de ingleses (Paddy Hillyard, Christina Pantazis, Steve
Tomb e David Gordon) organizou um livro, em 2004, que propõe ir além da criminologia (assim
se chama seu livro, com o subtítulo Levando o dano a sério) e abranger todos os danos sociais do
poder: pobreza em massa, fome, violações em massa dos direitos humanos, massacres estatais,
mortes causadas por condições de trabalho, por privilégio da heterossexualidade, por
preferências nos nascimentos, por guerra aos migrantes, por maus tratos infantis, por poluição,
por envenenamento de alimentos etc.
É indiscutível que o livro passa em revista dados aterradores, como aquele que lembra que,
embora em 11 de setembro de 2001 tenham morrido 3.045 pessoas em Nova York, nesse mesmo
dia também morreram no mundo 24.000 pessoas de fome, 6.200 crianças de diarreia e 2.700 de
sarampo.
É claro que nos acostumaram a considerar que o crime de Nova York era evitável e as
outras mortes eram inevitáveis, mas isso não é correto. Segundo os cálculos da ONU, seriam
necessários 13 bilhões de dólares para resolver a fome e 40 bilhões para atender às necessidades
básicas no mundo (esta última cifra representa a metade do consumo de pizza nos Estados
Unidos). Embora o cálculo da ONU fosse otimista e as cifras subissem ao dobro, o óbvio é que
essas carências não são naturais nem inevitáveis, com o argumento de que sempre houve
miséria.
De qualquer maneira, se enfrentasse todos esses danos, a criminologia se perderia em um
enorme campo tudológico de conhecimentos inabarcáveis. Todas essas mortes são resultado de

violações aos direitos humanos e estes, como campo de estudo jurídico, devem ser sustentados
por dados reais para os quais contribuem todos os conhecimentos humanos, o que, por
definição, não pode ter unidade. Trata-se de conhecimentos que os estudiosos de direitos
humanos devem requerer a todas as ciências naturais e sociais, a todo o saber humano. Um
saber que pretenda abranger tudo isso se perderia ou resultaria diretamente diletante.
Há, porém, um campo que indubitavelmente pertence à criminologia e sobre o qual houve
um singular silêncio, que é o do homicídio doloso, intencional. A criminologia acadêmica detevese nos homicídios seriais sensacionais e em todos os cometidos por iniciativa privada, mas
nunca nos públicos ou estatais, isto é, nos genocídios e massacres, nos crimes de massa
cometidos pela ação de agências estatais.
Estranha omissão, por certo! Se quisermos levar a sério os danos sociais, não podemos
ignorar esses crimes e, além do mais, tampouco podemos negar que seu estudo corresponde à
criminologia. A criminologia dos últimos anos está chamando a atenção sobre isso, embora ainda
sem suficiente penetração e a contragosto por parte de boa parte dos criminólogos acadêmicos.
Isso, porém, é tão importante, que merece um capítulo especial.

Ilustração 21

31. Os homicídios estatais ou crimes de massa
A criminologia acadêmica guardou um silêncio significativo acerca dos assassinatos estatais
em massa, interrompidos apenas por algum artigo isolado, como o de Leo Alexander, em 1948,
ou o livro de Sheldon Glueck, de 1944, sobre crimes de guerra. Nos últimos anos, os trabalhos
são mais frequentes: Alex Alvarez (1999), William Laufer (1999), Georges S. Yacoubian (2000),
Andrew Woolford (2006) e em especial Wayne Morrison, professor neozelandês radicado em
Londres, que, em 2006, publicou um livro intitulado Criminologia, civilização e a nova ordem
mundial. Por ser este último o mais extenso e analítico, o tomamos como referência.
Morrison recorda que Hobbes separava o espaço civilizado do não civilizado (de guerra de
todos contra todos), cuja presença constituía uma ameaça, e afirma que esta linha hobbesiana se
quebrou quando o mundo incivilizado irrompeu no coração do civilizado, em 11 de setembro de
2001, destruindo o símbolo desse mundo funcional e utilitarista da globalização.
O World Trade Center era o templo máximo da tecnologia e da segurança e sua queda
converteu, de repente, o espaço civilizado em espaço de Terceiro Mundo. Precipitadamente, os
residentes do espaço civilizado tomaram consciência do mundo externo, o que foi muito
impactante para os Estados Unidos, que haviam sido muito afortunados em seu próprio
território.
A partir do 11 de setembro, a administração Bush reforçou sua discutível origem e escasso
prestígio com um discurso que confundia guerra com o crime para tornar porosa a fronteira
entre o controle interno e o externo, apagando os limites hobbesianos.
Bush agitou o nacionalismo, tomou da tolerância zero a ideia de prevenção e a levou à
guerra, e manipulou a tecnologia da comunicação para declarar a guerra ao Iraque, baseado
numa mentira. Moveu-se, porém, de acordo com regras diferentes, pois as válidas para os outros
civilizados não foram as que aplicou aos incivilizados, ou seja, da luta na selva, o que não passa
de mais outra faceta da doutrina da segurança nacional e da guerra suja.
Morrison afirma que o presente se caracteriza por uma volta da emocionalidade, um novo
popularismo, politização, um sentido de crise, um sentido de normalidade das altas taxas de
criminalidade, uma nova relação do crime com os meios de comunicação de massa, uma perda
de confiança na eficiência do Estado de bem-estar.
Ele reconhece que a criminologia é o produto de um setor do planeta cujos Estados foram
construídos sobre a violência e o genocídio, e recorre a Bauman: o triunfo de umas poucas
etnias sobre outras levou à destruição dos vencidos e a história foi escrita pelos vencedores,
mostrando sua civilização como um caminho de progresso para a pacificação da vida cotidiana.
Por outra parte, destaca que as cifras de criminalidade registrada, reportadas nos países
onde houve genocídios, não incluem as centenas de milhares e às vezes milhões de mortos por
esse crime. Para a estatística criminal só contam os homicídios normais. Com toda razão,
Morrison assinala que existe uma estatística criminal que registra sob a forma de apartheid
criminológico.
A criminologia só recolhe dados domésticos e condicionados pelo poder dos Estados-nação,
constituídos por meio da violência e que dominam outros de igual modo. Consequentemente, a
criminologia é um discurso muito parcial, construído em torno de um mundo de fatos
políticamente delimitado.

Para começar, Morrison apresenta uma tabela impressionante de crimes de massa, cometidos
desde 1885 até 1994, reconhecidos e não reconhecidos, da qual nos ocuparemos mais adiante.
Perante esses milhões de cadáveres que a criminologia não leva em conta em suas estatísticas,
ele formula as seguintes interrogações, que ficam em aberto: Podemos globalizar a estatística
criminal? Se parte do objeto da análise estatística de Quetelet era medir a taxa normal de crime
em uma sociedade e assim determinar o risco, como se pode criar uma imagem estatística de uma
sociedade mundial de risco? Voltaremos mais adiante a essa possibilidade.
Ele passa em revista toda a criminologia neocolonialista e os crimes legitimados (Congo,
Namíbia, Benin etc.). Destaca que a criminologia não deu atenção nem a Nurenberg nem a
Tóquio, por considerá-los crimes de guerra, violatórios das regras que as próprias potências
colonialistas não respeitavam em suas colônias. Mas se Hitler os houvesse cometido somente
dentro das fronteiras alemãs, os campos de concentração teriam ficado impunes? Assegura que
houve ambiguidade no julgamento, que a vítima era a humanidade, mas que o fato de as vítimas
concretas terem sido judeus, ciganos e gays não deixou de pesar.
Morrison afirma que a criminologia considerou que os grandes crimes do século passado são
exceções das quais a criminologia – como ciência de operações normais de controle, levadas a
cabo pelo Estado – não necessita se ocupar. No caso do Holocausto, a imagem dos campos de
concentração reafirma essa distância, assegurando que se trata de lugares verdadeiramente
excepcionais, que jamais voltarão a existir.
Ele nega terminantemente a explicação do caminho especial – o Sonderweg – do nazismo e
da patologização da Shoá, uma vez que as pessoas que participaram ativamente nesses crimes
eram normais e muitos deles retomaram a vida cotidiana sem dificuldades.
Compara as execuções exemplificadoras – como a de Tupac Amaru, esquartejado
publicamente – que tinham por objetivo a reafirmação da verticalidade do poder (Olhem o que
vamos fazer a vocês se resistirem) com a secreta fabricação de cadáveres nos campos de
extermínio, como dois objetivos completamente diferentes.
No momento em que escrevia, afirma que há um jogo de espelhos entre Bush e Bin Laden,
pois sem Bin Laden, Bush não teria obtido poderes extraordinários nem teria podido ganhar as
eleições.
Morrison observa que, quando se atribui ao terrorismo o status de ato de guerra, ele fica
excluído das garantias penais. Ao mesmo tempo, como não são combatentes regulares, os
terroristas ficam excluídos da Convenção de Genebra, permanecendo à disposição das ordens do
mais poderoso, que é quem resolve na situação de exceção. Para ele, essa característica é o

equivalente atual da lei marcial nos regímes coloniais e do Fuhrerprinzip no nazismo.
Ainda que não o afirme, é claro que esta é a tese central da definição do político de Carl
Schmitt e a constatação de que se tenta uma trágica planetarização da chamada doutrina da
segurança nacional dos anos 1970 sul-americanos. Esse caminho teórico é um dos que, desde a
periferia, devemos reelaborar e aprofundar, porque nos toca muito diretamente; além do mais, é
a partir daí que podemos detectar mais facilmente o papel central e protagonista do poder
punitivo.

32. O neopunitivismo
Nos Estados Unidos, as características do Estado mudaram totalmente desde o
estabelecimento do que se denomina New Punitiveness (neopunitivismo).
Insisto nas características do novo rosto do sistema penal estadunidense. Um em cada três
homens negros entre 20 e 29 anos encontra-se criminalizado, um estadunidense em cada cem
está na prisão, outros três estão submetidos à vigilância com probation [liberdade condicional]
ou parole [liberdade vigiada], os condenados por qualquer delito são alvo de muitas inabilitações
por toda a vida para votar, difunde-se o three strikes and you’re out [14] (ou seja, uma pena de
confinamento perpétuo para aqueles que são simplesmente incômodos), a familia do condenado
é expulsa das convivências sociais, são cancelados todos os benefícios sociais, os trabalhos
forçados foram restabelecidos, e foram executadas cerca de 1.300 penas de morte desde o final
da moratória dos 1970 (incluindo doentes mentais e menores), os governadores fazem
campanhas para reeleição rodeados de retratos dos executados que não tiveram a pena
comutada, são feitas condenações sem que se vá a julgamento, mediante extorsão as
testemunhas são compradas impunemente, são praticados os métodos mais imorais de
investigação, instiga-se a denúncia dentro da família, o pós-moderno recupera todas as
características do pré-moderno inquisitorial.
O nazismo penal renasceu nos Estados Unidos e é oferecido como modelo mundial. Disso se
ocupam muitos criminólogos, mas como não posso mencionar todos eles, nos ocuparemos dos
três mais conhecidos: David Garland, Loïc Wacquant e Jonathan Simon.
Garland formou-se em Edimburgo, mas ensina em Nova York. Publicou várias obras, mas a
que mais nos interessa é A cultura do controle[15], de 2001.
Ele afirma que na sociedade pós-moderna reina uma espécie de esquizofrenia, que dá lugar,
por um lado, a uma criminologia da vida cotidiana, que apela a todos os recursos preventivos
mecânicos, eletrônicos etc., e, por outro, a uma criminologia do outro, que ressuscita,
definitivamente, as versões mais tenebrosas do velho positivismo.
A criminologia da vida cotidiana incorpora o delito como risco normal e nos enche de
engenhos humanos preventivos, ou seja, a prevenção do delito não depende de valores morais,
e sim de impedimentos físicos que retiram a oportunidade. Nesse sentido, contrasta com a
tradição conservadora que entende que a prevenção depende dos valores morais e do respeito à
autoridade.
Por outro lado, aparece a criminologia do outro, baseada na vingança, que se expressa como
exclusão, defesa social, neutralização do sujeito perigoso, ou seja, lança mão do discurso do
velho positivismo, mas em um sentido bem vingativo.
A contradição é clara: o delito não pode ser tão normal como a chuva e, ao mesmo tempo,

não pode ser dramatizado ao máximo, usando vocabulário militar ou de guerra e apresentando
o infrator como um sujeito irredutivelmente mau, que deve ser aniquilado.
Wacquant é francês, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley) e pesquisador do
Centro de Sociologia de Paris. Também publicou várias obras a respeito nos últimos dez anos.
Para Wacquant, a tensão assinalada por Garland responde a um sistema pós-fordista que
precariza o trabalho, aprofunda as discriminações e segregações de classe e raciais, relega os
setores mais golpeados pela política chamada de neoliberal aos bairros mais pobres, marginais e
distantes, e monta um aparato punitivo de contenção que configura aquilo que ele denomina de
Estado penal.
Afirma também que este Estado penal dá continuidade ao racismo do apartheid, o qual,
segundo ele, jamais desapareceu das práticas burocráticas estadunidenses, razão pela qual o
considera também um Estado racial.
Na realidade, é revelador que em 1989, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, a
população penitenciária negra se tenha tornado majoritária nas prisões. Para Wacquant, isso
provoca a política de expulsão do mercado laboral, que torna economicamente desnecessária ou
subempregada e mal paga a uma parte da população, que suporta o trabalho como uma
obrigação cidadã, sendo funcional manter essa posição subordinada à criminalização da
pobreza, empreendida claramente a partir dos anos oitenta do século passado.
Além do mais, a precarização do trabalho fez desaparecer a solidariedade do gueto, que foi
substituída por um supergueto sem sentimento comunitário, o que provoca a vitimização dos
pobres (os da favela roubam na favela).
É claro que Wacquant sustenta uma interpretação estrutural do fenômeno, diante da
interpretação cultural de Garland. O certo é que Wacquant detém-se pouco nas mudanças
políticas gerais e no próprio sistema penal que foram preparando o terreno para a virada
autoritária, ou seja, não repara na transformação institucional que se produziu nas últimas três
décadas e que, sem dúvida, incidiu na virada repressiva do poder punitivo estadunidense.
Jonathan Simon é professor em Berkeley. Em 2007, publicou Governing through Crime[16],
How the War on Crime Transformed American Democracy, em que leva a cabo uma interessante
investigação que, no meu entender, não se opõe à tese culturalista de Garland nem à estrutural
de Wacquant, mas sim as complementa, analisando em profundidade como se foi gestando a
tremenda transformação institucional e social que desembocou no autoritarismo penal atual. Ele
atribui essa explosão repressiva à lenta, mas incessante, deslegitimação do Estado de bem-estar,
fixando seu início na agressiva campanha do conservador Barry Goldwater em 1964, baseada
quase completamente na palavra de ordem da lei e ordem. A ela se seguiram as guerras contra a
droga de Nixon, Reagan e Bush pai, para culminar com a guerra ao terrorismo de seu
inolvidável filho, depois do 11 de setembro de 2001.
Para Simon, tudo isso configura uma governance – ou seja, uma técnica de governo – que se
caracteriza como um governo referenciado pelo crime, completamente oposto à tradição liberal.
A chave de sua interpretação está no fato de que quando se governa tendo o crime como
referência, o modelo punitivo – e vingativo – torna-se uma técnica geral de governo, ou seja,
estende-se a todas as formas sociais: vai desde o Estado nacional até a escola, invade o âmbito
privado e as relações familiares, ameaça a democracia em todas as suas instituições.
Simon adverte, acima de tudo, sobre a ameaça à democracia que a vítima-herói pode
representar: A democracia estadunidense está ameaçada pelo surgimento da vítima do delito
como modelo dominante do cidadão, como representante da gente comum, cujas necessidades e

capacidades definem a missão do governo representativo.
Segundo Simon, o Safe Streets Act de 1968, de Lyndon Johnson, marcou uma mudança
fundamental, pois fez a passagem do modelo do trabalhador manual como representante do
cidadão comum no imaginário coletivo para o da vítima, determinando o começo do governo
mediante o crime.
O processo se acelerou porque, desde Reagan até Bush, todos os presidentes tinham sido
antes governador de estado (exceto Bush pai, que vinha da CIA, o que não alterava a tônica), e
levaram para o governo federal a modalidade vingativa da política provinciana, na qual os
promotores são eleitos por voto popular e adquiriram a prática de fabricar vítimas-heróis como
modo de dar o salto às governances, com base em campanhas vingativas.
Essas campanhas estigmatizaram os juízes como inimigos, aliados ou encobridores dos
criminosos e responsáveis pela insegurança frente ao crime, o que motivou as reformas
legislativas que impuseram penas fixas ou reduziram a possibilidade de avaliação judicial (são
reações políticas frente aos juízes garantistas).
Os políticos – que, ao legitimar o desmantelamento do Estado de bem-estar, violam os
direitos de toda a população – têm a oportunidade de se firmar, mostrando sua despreocupação
com a segurança mediante leis mais autoritárias, atendendo ao clamor público do que as vítimasheróis são sua vanguarda (caso Blumberg), enquanto o modelo punitivo vai se estendendo a
todas as instituições e formas sociais, públicas e privadas.
Trata-se, em essência, de uma maneira de governar mediante a administração dos medos. O
próprio Simon recorda que nos tempos de Nixon o medo dominante era do câncer, o que foi
evoluindo até chegar ao medo do terrorismo.
A análise de Simon é muito mais pormenorizada que as de Garland e Wacquant, embora
não se oponha necessariamente a estes, pois tanto a dimensão cultural quanto a estrutural
podem encaixar-se em sua interpretação como um complemento.
Não obstante, cremos que Simon não percebe a dimensão total da virada autoritária, pois
não enfoca a questão com uma visão histórica mais ampla. Governar mediante o medo importa a
fabricação de inimigos e a consequente neutralização de qualquer obstáculo ao poder punitivo
ilimitado, supostamente usado para destruir o inimigo, ainda que todos saibamos que é
materialmente utilizado para aquilo que o poder quiser. No fundo, o fenômeno é sempre uma
enorme enganação para distrair a atenção sobre outros riscos e obter o consenso para exercer
um poder policial sem controle.
Este poder punitivo sem controle foi sempre usado para verticalizar e hierarquizar as
sociedades, como manifestamos reiteradamente, ou seja, para dotá-las de estrutura colonizadora.
Por conseguinte, é natural que esta técnica, ou governance, tenha penetrado como uma torrente
em todas as instituições sociais. A Inquisição precisou reforçar o patriarcado para assegurar a
base da sociedade exércitoforme que em seguida foi lançada sobre a América e a África. Toda
inquisição tende a hierarquizar e a produzir homogeneidade e conformismo; o ideal político de
todo inquisidor é a colmeia de abelhas ou o formigueiro.
O que Simon faz é descrever muito bem o processo atual em detalhe e em sua genealogia,
mas o certo é que, quanto ao estrutural, não há diferenças dessa natureza com outros momentos
inquisitoriais. Trata-se do prolegômeno ou de uma tentativa em marcha de impor um Leviatã
planetário? Ou antes, obedece à necessidade de reforçar um poder debilitado ou declinante?
Essa é a pergunta que não se formula, mas que deve nos preocupar, no nosso canto.
De qualquer forma, Simon bate na tecla certa: a chave é governar valendo-se da

centralização do medo em um objeto. Nesse sentido, sua contribuição, ao descrever como e por
que isso é feito na atualidade nos Estados Unidos, é fundamental para nós, porque a partir daí
se globaliza ou planetariza essa técnica de governo. Investigações análogas à de Simon fazem
falta em nossos países.

33. Outras palavras: as ciências psi
Quando a criminologia crítica proveniente do interacionismo e da fenomenologia colocou
em evidência as características estruturais do poder punitivo, a criminologia etiológica do canto
da Faculdade de Direito acabou de se derreter e com isto a chamada clínica criminológica – ou
seja, o estudo da pessoa criminalizada pelos especialistas – perdeu prestígio.
Essa desconfiança não era gratuita, dados os antecedentes do primeiro encontro dessas
disciplinas com a criminologia no marco da criminologia racista, mas também porque sua
etiologia e sua prática institucional não levavam em conta o efeito deteriorador e estigmatizador
da própria criminalização.
Era um pouco difícil exigir do psi institucional que deixasse evidente o papel determinante
cumprido na etiologia pela intervenção da própria instituição da qual ele faz parte. Supomos
que um operador psi que informasse que a polícia, os juízes e os penitenciários estavam
condicionando uma carreira criminal, pelo menos em nosso meio, o teriam jogado na rua por via
rápida.
Foi devido a isso e aos tristes antecedentes históricos que os criminólogos críticos em geral
reagiram alergicamente frente às propostas de intervenções psi em seu campo e se inclinaram
por cortar todos os vínculos com esses saberes. Isso não passa de uma reação emocional, nunca
boa conselheira da ciência, produto de uma confusão de níveis. Em princípio, os saberes psi de
hoje não são os do positivismo. Entre os cultores dessas ciências há tantos sujeitos de alta
periculosidade quanto em todas as outras, mas por sorte não são dominantes.
É verdade que não faltam aqueles que pretendem reconstruir o criminoso nato com base nas
neurociências, voltando a extrair consequências apressadas de novos conhecimentos médicos e
biológicos, como outrora aconteceu com o evolucionismo, com as localizações cerebrais ou com
a endocrinologia. Também é certo que alguns pretendem resolver qualquer coisa repartindo
alegremente o jaleco químico com toda a população, ao mesmo tempo em que se escandalizam
porque alguém fuma maconha. Porém, em todos os saberes, assistimos a saídas de tom que, sem
prejuízo de sua periculosidade, são passageiros.
A antipsiquiatria deixou uma marca que foi além de seus exageros pontuais, a psicanálise
fez a sua parte, a antropologia de Franz Boas não passou sem deixar de impactar o campo psi, a
desnaturalização das preferências sexuais minoritárias é um fato etc. Em síntese: está muito
claro que o psi não se nutre hoje de ideologias racistas nem totalitárias.
A psicanálise impactou no começo a criminologia etiológica do canto com uma montanha de
trabalhos, alguns dos quais só extraíam sua profundidade do que seus autores haviam lido em
Freud no metrô. Nos anos 1930, fez furor O delinquente e seus juízes do ponto de vista
psicanalítico, de Franz Alexander (psicólogo) e Hugo Staub (jurista), do qual quase todos os
outros escritos foram tributários (alguns o plagiaram).
Não era, porém, tarefa dos psicólogos colocar em evidência as características estruturais do
poder punitivo, e sim dos sociólogos. Seria injusto atribuir-lhes uma responsabilidade que não

lhes dizia respeito. O certo é que tampouco é verdade que tentaram reconstruir um criminoso
nato por via psicológica, pelo menos no que diz respeito a seus expoentes mais destacados.
Não nego que, às vezes, se geram confusões provenientes de alguns leitores apressados do
próprio campo psi, como quando alguém – que também viu as capas do código penal no metrô
– confunde lei do pai de Freud ou a ideia do nome do pai de Lacan com o código penal, sem
dar-se conta de que esses conceitos não se fixam por maioria parlamentar.
Felizmente, porém, nem Freud nem Lacan pensaram nisso (nem Melanie Klein se olhava no
espelho para ver se tinha dois seios muito diferentes). Tampouco Lacan pensou que as prisões
deviam encher-se de loucos. Esta gente escreveu textos inteligentes, que não podem ser lidos
como se lê a revista Hola.[17]
Esse desencontro não é mais do que o resultado do desconhecimento dos respectivos planos
de análise e observação: o sociólogo observa a partir do grupal e o psicólogo a partir do sujeito
concreto. Por isso, os conhecimentos do sociólogo são particularmente úteis para formular
políticas, mas nada nos diz sobre o que fazer com o sujeito concreto, do qual a criminologia não
pode ignorar que lhe diz respeito.
Quando nos deparamos com um fenômeno que é necessário controlar, como pode ser o uso
de um veneno do tipo do chamado “paco”, o sociólogo pode nos informar acerca das medidas
grupais (planos de assistência para reduzir o tráfico de subsistência, programas de fomento da
escolaridade e de geração de projetos de vida positivos, modos de instruir os operadores,
medidas que eliminem ou reduzam a estigmatização do usuário etc.). No entanto, nada nos pode
dizer sobre o que fazer com o sujeito concreto (com o pequeno usuário, a quem é preciso tratar
para evitar que morra ou se machuque de forma irreversível). E isso é válido para qualquer
outro problema.
A criminologia crítica bem entendida, em lugar de limitar o campo psi em sua matéria, o
amplia. O etiquetamento não é algo que opera de forma mecânica nem afeta a todos por igual,
pois o ser humano não é uma marionete. Há pessoas que assumem a etiqueta do estereótipo e
outras que não o fazem. É óbvio, pois, que existe um grau de fragilidade que condiciona uma
vulnerabilidade ao etiquetamento. Esta é questão que faz o sujeito concreto e nesse terreno são
as disciplinas psi que devem nos informar.
Se a intervenção do poder punitivo tem efeito deteriorador e estigmatizante e se há pessoas
que sofrem esses efeitos muito mais que outras, é o campo psi que nos pode informar sobre a
que corresponde a maior vulnerabilidade em cada um e, o que é mais importante, como abordála no sujeito concreto.
Nesse último sentido, não devemos omitir a inspiração que Viktor Frankl pode proporcionar.
Depois de sobreviver a um campo de concentração, ele fez de toda essa experiência uma
teorização (que chamou de logoterapia) com base existencial, que sintetiza em um livro
intitulado Um psicólogo sobrevive ao campo de concentração.
Se é impossível ocultar que o delito e o poder punitivo produzem vítimas – ou seja, exercem
violências que afetam muitas pessoas – e que a criminologia sociológica traga informação para
políticas redutoras dos danos, não é menos certo que, frente aos sujeitos concretos afetados, são
as disciplinas psi que podem indicar como atuar. Só o especialista psi pode nos dizer como tratar
quem sobrevive a um atentado criminoso ou quem passa pela tortura.
Ademais, uma vez que incorpora a seu campo o exercício do poder punitivo, a criminologia
atual amplia o universo de condutas dos sujeitos concretos. Já não se trata apenas de observar o
criminalizado e a vítima, e sim de incorporar os operadores do sistema penal.

Sem ânimo de psiquiatrizar nada, é sabido que tudo o que se relaciona com o exercício do
poder punitivo opera como mel para moscas no que concerne a muitas pessoas com patologias
sérias. Esse não é um dado menor para a tomada de decisões na hora de selecionar pessoal ou
de averiguar a natureza de algumas condutas manifestas em outros segmentos do sistema.
Ignorar, desde a criminologia, o campo psi é um erro preconceituoso gravíssimo, que faz
perder de vista o sujeito concreto, é tão negativo como pretender transferir as observações sobre
este do campo psi às políticas sociais. São duas perspectivas que devem se encontrar, sem
pretender ignorar-se nem neutralizar-se, mas sim, simplesmente, reconhecendo que trazem
visões diferentes sobre a conduta humana, que é um objeto configurador de extrema
complexidade.
Sabemos que não faltam aqueles que, a partir da academia, argumentam que isso é questão
da criminologia aplicada, mas não da teórica. Mais adiante, mostraremos como os
conhecimentos psi são indispensáveis para a criminologia teórica atual; se alguém pretende fazer
uma criminologia teórica pura, sem consequências práticas, sem a aplicação, é melhor que
fechemos a porta e o deixemos sozinho em seu escritório.

Ilustração 22

34. Somos todos neuróticos?
Não é nossa intenção cair em uma teoria macro e subir num avião a jato para que, por
conta de querer abarcar um panorama mais amplo, quando olharmos para baixo não
consigamos ver nada. No entanto, não podemos negar que devemos perguntar alguma coisa aos
homens sábios diante da inquestionável característica de nossa espécie, que é sua tremenda
agressividade intraespecífica (e extraespecífica também, é claro).
Sem dúvida, os danos sociais assinalados pelos ingleses que pretendem ir mais além da
criminologia existem e estão em curso, milhões de pessoas morrem diante da indiferença dos
demais e os massacres vitimaram muitos milhões, sem contar os outros milhões de mortos pelas
guerras e, além do mais, nada disso pertence a um passado remoto.
Não é fácil se perguntar pelas razões profundas e últimas desta agressividade da espécie
porque é frequente que, por detrás da busca dessa resposta, se esconda um bom pretexto, e até
uma justificativa, para os poderes que operam massacrando ou violentando, em especial se a
resposta segue o caminho da inevitabilidade ou da naturalização dessas calamidades. (No bar,
seria a tese de um gordo que esteve preso por cheques voadores e por vender uma passagem
para Marte: Você vai ficar louco, sempre foi assim, não há nada a fazer).
Entretanto, é inevitável começar a apresentar essas questões, porque a tese naturalista é
uma defesa insensata – para não dizer outra coisa – que, traduzida na minha resposta ao gordo
no bar, significa que é inevitável nos tornarmos inúteis dentro de pouco tempo.
Por isso, para não cair na insensatez – pelo menos não completamente –, e ainda que
devamos tomar as devidas precauções, não há mal algum em rastrear um pouco a questão das
raízes últimas da agressão humana, e isso não pode ser entendido, de modo algum como a
legitimação de qualquer massacre.
É possível que, a partir da crítica macro, nos seja objetado que, com isso, passamos por cima
do capitalismo, ou o minimizamos, mas me parece que ali se confundem duas coisas bem
diferentes e, talvez, por temor de não ter resposta diante daquele que diz que não há nada a
fazer. Colocar um automóvel em marcha, girar a chave da partida, é uma coisa, outra bem
diferente é, em seguida, já na estrada, apertar o acelerador e bater.
Admitindo que as formas desapiedadas da exploração capitalista e da busca de acumulação
indefinida de lucro sejam as que apertam o acelerador, parece haver algo antes, posto que
houve massacres antes do capitalismo, antes mesmo das formas modernas de Estado, como o
genocídio dos cartagineses pelos romanos ou as campanhas de Gengis Khan.
Além do mais, nisso mesmo de acelerar, cabe se perguntar ao que responde o afã pela
acumulação de poder ou de lucro, de forma indefinida, quando a existência é finita (Para que
você quer tanta grana, se não há mortalha com bolso? se perguntaria o filósofo magricela na
esquina).
São perguntas que não podemos ignorar se olharmos para o que se passou nos últimos
séculos. Ninguém pretende legitimar com isso os massacres neocolonialistas, a Shoá ou
Hiroshima e Nagasaki, mas apenas perguntar o que é que deu a partida antes deles.
A pergunta se impõe porque se vai fazendo urgente averiguar se é possível desconectar a
partida e parar o motor.
Talvez se objete que vamos demasiadamente longe, mas infelizmente não nos resta outro
recurso, porque se não paramos o motor corremos o risco de acabar com as condições de vida
humana no planeta. Que o último jogue fora o lixo e apague a luz já não é uma questão

colocada apenas por um estraga-prazeres.
Isso não é brincadeira e não o consertamos deixando de usar o desodorante em aerossol: no
último século deterioramos essas condições muito mais do que em todos os milênios anteriores
em que caminhamos sobre o planeta, e com essa projeção não falta muito para chegar ao limite.
Ademais, a destrutividade atual não é exercida com armadilhas e flechas.
Por isso, ao colocar a questão criminal e nos darmos conta de que, se ela está inserida em
um mundo onde as mortes em massa e não em massa importam pouco e onde os que exercem o
poder nos iludem para que nos cuidemos só dos ladrões enquanto eles vendem armas em
grandes quantidades, não podemos colocar de lado a questão da agressividade e deixar de nos
perguntar sobre sua possível raiz última na civilização.
No século passado muitos se perguntaram por isso, em particular na psicologia e mais ainda
a partir de Sigmund Freud, que foi um personagem bastante incômodo para seus
contemporâneos. Não é à toa que ele é comparado a Copérnico e a Darwin. Como se não fosse
suficiente que um dissesse que não éramos tão centrais e o outro que tínhamos o macaco como
primo, veio Freud e disse que nem sequer somos racionais.
Pois bem. Entre as perturbações causadas por Freud, uma das mais interessantes é de ter-se
remontado até a etnologia, ou seja, mais além – antes – da história, para explicar a
destrutividade humana. Desse modo, foi ele quem localizou o terreno em que se devia buscar a
resposta.

Ilustração 23

Além de sua teoria do pai terrível da horda, do parricídio originário e das limitações que os
irmãos se impuseram para consolidar o novo sistema (tese para a qual seus próprios seguidores
olham com desconfiança), a consequência antropológica que sustentou em 1930, em O mal estar
na cultura, é muito penetrante.
Ele afirma ali que a cultura reprime as pulsões agressivas, gerando um controle interno
mediante o superego que não as elimina, mas as mantém no inconsciente, onde lutam por
aflorar, produzindo culpa, o que estimula a procura pela punição como compensação.
Falando mais claramente. A vontade de destruir o outro não desaparece ao se conter, mas
sim é colocada para dentro, no superego, carregando inconscientemente a consciência (o

superego diz Por que razão você foi querer isso?!) e se traduz numa busca inconsciente de castigo
(e a seguir acrescenta: Por ser um tipo que merece um castigo).
O delito seria, pois, uma das vias para satisfazer essa reclamação inconsciente de punição,
embora possa ser outro autocastigo que nada tenha a ver com o sistema penal do Estado, como
cortar o dedo descascando batatas, morder a língua comendo um bife ou prender o dedo numa
porta.
Para Freud, a reação social punitiva não cumpriria a função de eliminar nem prevenir a
criminalidade, mas sim proporcionaria satisfação à demanda de punição inconsciente do próprio
infrator. Este não seria quem introjetou equivocadamente as normas, e sim justamente quem
internalizou a autoridade de maneira tal que as pulsões reprimidas em seu inconsciente o
movem a buscar a punição mediante a infração.
Freud adverte que, quando uma pessoa se abstém de agredir a outra só porque existe uma
força exterior que o impede (quando a sério se diz só não quebro a tua cara porque vou em
cana), não há consciência pesada; esta aparece quando a autoridade está internalizada, ou seja,
quando faz parte do eu.
Nos nossos dias, isso estaria indicando uma confiança muito escassa da autoridade em sua
capacidade de provocar a introjeção, evidenciada na parafernália do aparato mecânico e
eletrônico de impedimentos, ainda que também poder-se-ia pensar que a autoridade projeta sua
própria e escassa introjeção de normas, isto é, sua pouca consciência pesada (na esquina dizem
que parece que tem a consciência morta).
Conforme essa tese, Freud criticava a pena de morte, pois segundo uma pesquisa
respondida por Theodor Reik, ao que parece por iniciativa de Freud, longe de constituir um
elemento dissuasório, a pena de morte seria uma ocasião de expiação máxima, uma espécie de
suicídio com cumplicidade da justiça estatal.
Essa explicação é interessante no que diz respeito aos atentados suicidas fundamentalistas
do nosso tempo, que desconcertam aqueles que pretendem preveni-los, mas não precisamos
recorrer a exemplos tão extremos, pois, na violência urbana, verifica-se que, diariamente, se
produzem muitos delitos suicidas e muitíssimos mais em que a imprevisão do infrator é tão
notória que parece confirmar a tese freudiana. São muitos os delitos que dão a impressão de que
são cometidos para ser descobertos.
Se bem que por esta via se deslegitima a racionalidade do poder punitivo, por outra
explicaria sua resistência e permanência.
A ideia que Freud tinha do ser humano não era muito positiva, porque estaria
filogeneticamente condenado a uma agressividade que, ao ser reprimida, o carrega de culpa e
esta, por sua vez, o impulsiona inconscientemente à infração em busca de castigo, ainda que não
necessariamente no sentido penal.
Cabe precisar que, numa etapa posterior, Freud deixou de falar de sentimento inconsciente
de culpa, para referir-se à necessidade de castigo ou masoquismo primordial. Esta seria a
explicação para os erros de conduta muito grosseiros, que acarretam notórios preconceitos aos
protagonistas, completamente alheios ao poder punitivo, mas que não podemos compreender.
Nesse sentido, a rudeza não passaria, muitas vezes, de representar uma manifestação
inconsciente desse masoquismo primordial, inclusive a rudeza do delinquente frente ao aparato
repressivo.
De qualquer maneira, para Freud os massacres seriam, em sua raiz última, uma espécie de
preço civilizatório, ao que parece não muito evitável. Esta ideia foi expressa na resposta,

bastante pessimista, à proposta pacifista de Albert Einstein, em 1932.
Com efeito, para Freud, o preço a ser pago pelo progresso da cultura reside na perda da
felicidade pelo aumento do sentimento de culpa, expressa em uma crescente necessidade de
castigo.
Passando por cima do social, ele afirma a existência de um superego cultural, para eliminar
o maior obstáculo com que a cultura se choca: a tendência constitucional dos humanos a
agredir-se mutuamente.
Nesse sentido, afirmava que o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo era
irrealizável e lançou a hipótese de que a origem de uma neurose coletiva, conceito que abriu um
formidável espaço de discussão, talvez se encontre na impossível realização do superego
cultural.
Freud concluía que o destino da espécie humana dependerá do grau em que a cultura
consiga fazer frente às perturbações da vida coletiva, emanadas do instinto de agressão e
autodestruição. Em síntese, tudo dependerá da forma em que nos acertemos com nossas pulsões
de vida (Eros) e de morte (Tanatos). Em outras palavras, do seu lindo apartamento de Viena, ele
nos dizia que nosso futuro dependerá de como nos arranjaremos para conter nossas repreensões
futuras e tudo indica que até agora o vimos fazendo bastante mal.
O certo é que, como não podia ser de outra maneira, a ideia de neurose coletiva de Freud
abriu um leque de reflexões e respostas, dado que implicava em algo assim como todos somos
neuróticos, condição que nem todos assumem com naturalidade (e alguns rechaçam ofendidos,
enquanto tomam psicofármacos).

35. Podemos deixar de ser neuróticos?
A gama de reações à tese da neurose coletiva colocada por Freud é enorme e não posso
nem sequer mencionar todos os que opinaram, de forma inteligente, a esse respeito, e por isso
selecionei apenas dois autores: Herbert Marcuse e Norman O. Brown.
Estou perfeitamente consciente da heterodoxia dessa escolha e talvez até de sua
arbitrariedade. Marcuse é muito conhecido e alcançou sua fama máxima no 1968 francês, e é por
isso que chamo a atenção ao fato de citar, juntamente com ele, Brown, que hoje está
completamente esquecido (embora ele tenha sido o autor de cabeceira de Jim Morrison, o que
em nada afeta a permanência do The Doors).
Não obstante, não o fazemos somente porque a tese de Brown seja tão radical e seu
desenvolvimento, engenhoso e divertido, e sim porque entendemos que constitui a antípoda
mais livre e, ao mesmo tempo, necessária neste debate.
Ademais, pelo rumo que o mundo toma, nada pode ser considerado totalmente inverossímil
nem nenhum pensamento que proponha uma saída deve ser desprezado, embora seja
considerado desmedido ou démodé.
Por que entendo dessa maneira? Em uma síntese bem grosseira, diria que Marcuse aceitava a
hipótese freudiana, mas afirmava que podíamos ser menos neuróticos e desse modo seguir em
frente. Brown, por sua vez, também a aceitava, mas como a civilização era a causa da neurose,
propunha suprimir esta civilização e assim deixarmos de ser neuróticos. Por desmedida que
pareça a resposta, não se pode negar que incursiona por um caminho atrevido e, diante da
magnitude da questão, não há caminho que não deva ser explorado.

O que Marcuse propunha? Seguia Freud e admitia que, regido pelo princípio do prazer e
sem contenção, o id destruiria tudo (quando explico na esquina, traduzo assim: claro, se cada
um faz o que quer, vira bagunça).
Não obstante, ele afirma que Freud confundiu a necessidade de repressão que a ordem
biológica impõe com aquela social ou historicamente condicionada, que, na atualidade, demanda
uma sobre-repressão desnecessária para a manutenção da civilização, isto é, para manter a
civilização não se necessita de tanta repressão.
Essa sobre-repressão desnecessária (ou excesso de repressão) não responderia ao princípio
de realidade (ao necessário para não virar bagunça), e sim ao que chama de princípio do
rendimento, que na civilização atual privilegia a concorrência, o crescimento, a expansão, que
faz que tudo o que não se considere útil seja proclamado como perverso ou nocivo.
Marcuse escrevia nos anos 1950 e 1960. Considerava que nos países centrais se havia
desenvolvido uma aparente racionalidade envolvente, que impossibilitava qualquer resistência
ou contrassistema, pois era tão perfeita e fechada que a incorporaria, fagocitando-a (o Che se
converte em uma camiseta). Parece-me que hoje não poderia explicar a exclusão nas sociedades
centrais, a imigração periférica não assimilada, os surtos de xenofobia, a seletividade racista do
giro repressivo do sistema penal estadunidense, a redução do nível de vida imposta pelo FMI na
Europa etc.
Por sorte, não existe um sistema tão perfeito como o que Marcuse descreve: tudo continua
fluindo (Viva Heráclito!).
Como vemos, Marcuse aceita a tese freudiana da necessidade civilizatória, que converte a
criança (que, para Freud, era um perverso polimorfo, análogo ao selvagem) em um ser civilizado.
Limitava-se a observar uma sobrerrepressão da nossa civilização, cuja eliminação em um modelo
de sociedade que não chegava a delinear muito claramente, porém que passava pelo que ele
chamava de ditadura da ideia e chegava à sociedade ideal (isso de ditadura sempre me soa
mal, mas não importa, não é isso o que nos preocupa agora).
Brown escrevia nos mesmos anos e não só constitui a contraface antropológica de Marcuse,
como também do próprio Freud, de cujas posições parte. Sua tese central não é a existência de
um excesso repressivo, como via Marcuse, mas que a fonte da neurose civilizatória relaciona-se
diretamente em fazer a criança perder seu polimorfismo: o que Freud considerava necessário,
Brown considera neurótico.
Brown deu o salto do individual ao social e concluiu que a própria sociedade é neurótica,
que a história humana é a de uma neurose maciça, e que a psicanálise jamais poderá curar os
indivíduos, salvo se fizer mudar radicalmente a sociedade, cuja estrutura neurótica reflete o
próprio indivíduo.
A história humana seria a história de uma neurose, que destaca a incapacidade da civilização
ocidental para incorporar a morte, pois ao separá-la radicalmente da vida provoca uma
ambivalência irredutível. Segundo Brown, ao não poder incorporar a morte à vida, faz o
contrário, ou seja, incorpora a vida à morte. Indo além dos exageros, acho que devemos refletir
sobre isso.
O signo neurótico não só se traduz, para Brown, em uma busca indefinida de bens, mas
também de poder, o que é válido também para a acumulação do saber como poder, pois a
busca de poder indefinido mediante a ciência redunda, com certeza, também na acumulação de
bens. A esse respeito, as características mórbidas da sociedade moderna não são quanto ao
conhecimento em si, mas sim com respeito aos esquemas que regem a busca do conhecimento e

que têm por meta a dominação dos objetos.
Apesar de essa crítica ter mais de meio século e ser anterior ao despertar da consciência
ecológica, a conclusão de que uma ciência não mórbida não deveria ter por objeto o domínio da
natureza, e sim se unir a ela, ganha muita atualidade.
O capitalismo, estimulador da acumulação indefinida, seria a expressão dessa neurose
civilizatória, que, ao determinar como meta a acumulação de riqueza, conduz à negação do Eros
mediante a sublimação do corpo: a riqueza não é um meio, mas sim um fim em si mesmo, com o
qual avança o triunfo da pulsão de morte sobre Eros.
Brown segue Freud, mas vai além dele, às vezes em coincidência com Jacques Lacan – em
especial ao criticar a psicologia do eu –, embora não conhecesse os trabalhos deste. Considera
que, embora Freud tenha descoberto o novo mundo do inconsciente, as consequências que os
freudianos extraem são muito estreitas. Acredita que a civilização ocidental está assentada sobre
a negação do corpo, o império da repressão e as deformações do desejo, cuja origem localiza na
formação genital do psiquismo na infância, deslocando o princípio do prazer e substituindo-o
pelo princípio de realidade.
Para escapar a essa repressão genitalista, na qual vê a origem da neurose civilizatória,
Brown afirma a necessidade de se voltar à perversidade polimorfa infantil, em que todo o corpo
é erotizado (nesse sentido, não considera o pobre Wilhelm Reich como nenhum libertador).
Enquanto para Freud a repressão do polimorfismo era uma necessidade de todo processo
civilizatório, para Brown é a causa da neurose civilizatória. Para chegar a isso, critica o conceito
de sublimação freudiana como uma forma de repressão. O ascenso, para Brown, é da mente ao
corpo, forma de liberação das potencialidades corporais, até alcançar o estado do polimorfismo.
(No bar me perguntariam: Cara,isso não é um pouco demais?)
Creio que, em boa parte, contribuem para o esquecimento deste autor suas reflexões muito
detalhadas e divertidas sobre o conceito de analidade freudiano e o conhecido vínculo
psicanalítico entre o dinheiro e os excrementos (o dinheiro sujo). Em suas pitorescas reflexões,
Brown considera que Jonathan Swift, em suas Viagens de Gulliver, foi um precursor da
psicanálise, afirmando que os yahoos – que, com certeza, eram uns porcos – são uma metáfora
do ser humano. Avança mais, e levando em conta que Martinho Lutero confessava sua frequente
inspiração no banheiro, destaca-o como o máximo expoente da ética protestante, que se
corresponde com o capitalismo e a vincula com este lugar de inspiração (não sabemos o que
Max Weber teria opinado).

36. Um pouco de etnologia
Freud localizou corretamente a pergunta sobre a destrutividade humana no campo da
etnologia; por isso, vale a pena entrar um pouco nessa matéria, para ver se podemos encontrar
alguma alternativa diferente.
A essa altura, julgo ser necessário mencionar René Girard, um filósofo francês dedicado à
investigação da violência nas sociedades primitivas, na qual constrói sua teoria da mímesis, que
aplica em seguida à civilização atual. Voltaremos a esse pensador, porque ele é fundamental
para entender a questão dos massacres. Girard concorda em seguir Freud até a paragem da
etnologia, mas considera que o do pai terrível não é antropologicamente verificável e, além
disso, é uma tese estática, que deixa a sociedade fundada para sempre e não explica bem como

pode se manter até o presente (a memória filogenética freudiana não é muito convincente).
Girard traz uma tese dinâmica, afirmando que na sociedade vai sendo gerada uma tensão
que, em certo momento, traduz-se numa violência difusa, porque todos vão querendo as mesmas
coisas, em função de uma rivalidade mimética.
O que significa isso? Seria o que se produz quando se toma o outro como modelo. Se Fulano
tem um automóvel novo, eu também quero tê-lo, da mesma marca ou melhor. Por que? Porque
tomo o Fulano como modelo e, portanto, quero me parecer com ele ou superá-lo e, por lógica,
ter o que ele tem ou ter algo mesmo melhor. Isso é a mímesis de Girard.
Entendamos que não se trata de uma tensão que se gera porque é necessário para a
sobrevivência: não se produz porque o outro come e eu não como e tenho fome, mas porque o
outro come caviar e toma champanhe e eu também quero comer e tomar isso, porque quero me
parecer ao modelo de quem come e toma isso. Girard explica que os grupos começam se
olhando e terminam se imitando e desejando o mesmo, mas à medida que a violência aumenta,
os objetos desejados podem passar ao segundo plano e inclusive ser esquecidos, momento em
que se passa da mímesis de apropriação à pura mímesis de antagonismo (a propósito, jamais
gostei de caviar e prefiro o semillón ao champanhe).
Chega-se, dessa maneira, à violência coletiva: verte-se sangue que reclama mais sangue –
vingança –, em uma escalada de violência essencial que só cessa quando se canaliza numa
vítima expiatória, cujo sacrifício resulta milagroso, pois faz cessar de imediato a violência
destruidora.
Girard observa que são assinaladas vítimas sacrificiais muito diferentes, que são
consideradas enquanto tais por sua idoneidade canalizadora em cada sociedade, sem que isso
determine nenhuma identificação ôntica prévia. Em geral, se requer que a vítima seja estranha,
mas não completamente diferente, razão pela qual se pode deslocar inclusive animais, mas que
antes tiveram de ser domesticados para aproximar-se do humano.
Justamente porque não é totalmente diferente, a vítima pode encarnar o mal de toda a
sociedade, canalizar a vingança de todos seus integrantes, sem importar se é culpada ou
inocente.
O nazista Carl Schmitt aconselhava precisamente isso: buscar quem seja mais adequado para
fazê-lo alvo de toda a raiva social, sem importar se é bom ou mau, feio ou bonito; a única coisa
que deve importar é que seja útil para torná-lo responsável por todos os males. (No bar,
opinariam que quem faz isso merece ser recordado por sua progenitora, por mais que tenha sido
uma santa; eles têm toda a razão.)
De qualquer maneira, todos acreditarão que a vítima é culpada quando, depois de matá-la, a
paz e a ordem retornam, embora para Girard seja este o momento em que a vítima começa a se
tornar sagrada.
Girard é taxativo ao considerar que o poder punitivo formalizado na civilização atual tem
por função tentar canalizar racionalmente a vingança. Se nosso sistema nos parece mais racional
– escreve –, é porque, na realidade, está mais estreitamente conformado com o princípio da
vingança. A insistência sobre a punição do culpado não tem outro significado. Ao invés de
esforçar-se para impedir a vingança, para moderá-la, para evitá-la, ou para desviá-la para um
objeto secundário, como todos os procedimentos propriamente religiosos, o sistema judicial
racionaliza a vingança, consegue subdividi-la e limitá-la como melhor lhe parecer; faz com isso
uma técnica limitadamente eficaz de cura e, secundariamente, de prevenção da violência.
O religioso procura evitar ou desviar a vingança sobre um objeto secundário, ao passo que o

sistema penal quer racionalizá-la: Por detrás da diferença prática e ao mesmo tempo mítica –
acrescenta Girard –, é necessário afirmar a não diferença, a identidade positiva da vingança, do
sacrificio e da penalidade judicial, justamente porque esses três fenômenos são invariavelmente os
mesmos, que tendem sempre, em caso de crise, a recair, todos eles, na mesma violência
indiferenciada.
Essas reflexões são um golpe de misericórdia em quase todo o direito penal, porque
explican sua dificuldade para conferir racionalidade à pena. Como a vingança não é racional,
não pode incorporar-se a um discurso racional; só consegue racionalizá-la, ou seja, dar-lhe
aparência de racionalidade, perante o fato consumado de seu exercício.
Permítam-me agora tomar um velho livro e ler umas linhas escritas em 1886, no Brasil, por
Tobias Barreto, um mulato nordestino que defendia a abolição da escravidão e que mandava
comprar livros na Alemanha, mastigando-os, solitário, no interior do estado de Pernambuco.
Esse divertido e genial violonista, fundador da Escola de Direito do Recife, escrevia: Envolto
com o sacrificio, que constitui o primeiro momento histórico da pena, mais além da expiação, que
lhe dá um caráter religioso, já se encontra o sentimento de vingança, que os deuses de então têm
em comum com os homens e os homens com os deuses. Contudo, à medida que vai decrescendo o
lado religioso da expiação, aumenta o lado social e político da vindicta, que permanece, ainda
hoje, como predicado indispensável para uma definição de pena.
Mais adiante, acrescentava essas palavras inesquecíveis: O conceito de pena não é um
conceito jurídico, mas sim um conceito político. Este ponto é capital. O defeito das teorias
correntes em tal matéria consiste justamente no erro de considerar a pena como uma
consequência de direito logicamente fundada. E alguns parágrafos mais à frente, concluía: Quem
procurar o fundamento jurídico da pena deve também procurar, se é que já não o encontrou, o
fundamento jurídico da guerra.
Como verão, pensando apenas nas coações do meio acadêmico europeu, o homem nascido
em Sergipe não dizia nada muito diferente do que Girard, mais de um século depois, descobriu.
Voltaremos a Girard. Seu pensamento abre horizontes muito amplos, como o provam as
implicâncias que ele desperta em um filósofo como Gianni Vattimo, mas julgamos não ser
necessário acompanhar Girard em suas considerações mais ou menos teológicas, nas quais
costuma chegar a conclusões dogmáticas.

Ilustração 24

37. A criminologia midiática
Desde o princípio, divididimos esses suplementos em três palavras: a da academia, a da
criminologia midiática e a dos mortos. Vocês nos acompanharam no longo curso da criminologia
dos criminólogos, ou seja, a acadêmica.
As pessoas comuns, porém, não conhecem essa palavra, uma vez que vivem no mundo da
criminologia midiática. E não pode ser de outra maneira, porque as pessoas geralmente não
frequentam os institutos de criminologia nem leem os trabalhos especializados, porque têm
outras coisas para fazer.
Em alguns momentos, tampouco, foi muito desejável que o fizessem, porque vimos que há
livros perigosos e encobridores.
O certo é que as pessoas que todos os dias caminham pelas ruas e tomam o ônibus e o
metrô junto a nós têm a visão da questão criminal que é construída nos meios de comunicação,
ou seja, se nutrem – ou padecem – de uma criminologia midiática. Isso sempre aconteceu e o
que vimos René Girard explica claramente: se o sistema penal tem por função real canalizar a
vingança e a violência difusa da sociedade, é mister que as pessoas acreditem que o poder

punitivo está neutralizando o causador de todos seus males.
Mas por que as pessoas a aceitam ou ficam indefesas diante dessa construção da realidade?
A disposição em aceitá-la obedece a que, assim, se reduza o nível de angústia que gera a
violência difusa. Voltaremos a esse ponto mais adiante, mas a regra é que quando a angústia é
muito pesada, ela se converte, através da criminologia midiática, em medo a uma única fonte
humana.
Por isso, a criminologia midiática sempre existiu e sempre apela a uma criação da realidade
através de informação, subinformação e desinformação em convergência com preconceitos e
crenças, baseada em uma etiologia criminal simplista, assentada na causalidade mágica.
Esclarecemos que o mágico não é a vingança, e sim a ideia da causalidade especial que se usa
para canalizá-la contra determinados grupos humanos, o que, nos termos da tese de Girard, os
converte em bodes expiatórios.
Essa característica não muda; o que varia muito é a tecnologia comunicacional (desde o
púlpito e a praça até a TV e a comunicação eletrônica) e os bodes expiatórios. O poder da
criminologia midiática foi detectado pelos sociólogos desde fins do século XIX. Motivado pelo
poder dos jornais no caso Dreyfus, Gabriel Tarde afirmava que no presente (no ano de 1900), a
arte de governar se converteu, em grande medida, na habilidade de servir-se dos jornais.
Denunciou claramente a força extorsiva dos meios de comuinicação de massa (no seu tempo, os
jornais), a grande dificuldade para neutralizar os efeitos de uma difamação jornalística e a
exploração da credulidade pública.

Tarde, porém, foi mais longe, destacando o poder inverso ao da extorsão, ou seja, o do
silêncio cúmplice, como o que acontecia diante do genocídio armênio ou da negociata do
Panamá. Sem dúvida, foi o sociólogo que descobriu o imenso continente da construção social da
realidade que anunciava seu crescente poder.
O socialista Jean Jaurés havia denunciado na Câmara dos Deputados francesa, em 1896, o
silêncio cúmplice da grande imprensa perante os massacres de armênios, porque seus principais
dirigentes eram beneficiários de empresas otomanas e os jornais levavam adiante sua campanha
antissemita – prelúdio europeu da Shoah – difundindo a invenção dos Protocolos, encabeçados
pelo delirante Edouard Drumont e por Charles Maurras, que terminaria seus dias imputado como
ideólogo do vergonhoso regime de Vichy. Recentemente, Umberto Eco reconstruiu esses anos
em sua novela O cemitério de Praga.

Consequentemente, não falamos nada de novo, embora, como é natural, a criminologia
midiática atual tenha características próprias. O discurso da criminologia midiática atual não é
outro senão o chamado neopunitivismo dos Estados Unidos, que se expande pelo mundo
globalizado. Trata-se do fenômeno que Garland, Wacquant e Simon analisam, ao qual já nos
referimos e sobre o qual não insistiremos.
A característica central da versão atual desta criminologia provém do veículo empregado: a
televisão. Por isso, quando dizemos discurso é melhor entender mensagem, pois ele se impõe
mediante imagens, o que a dota de um poder singular.
Os críticos mais radicais da televisão são Giovanni Sartori e Pierre Bourdieu. Para Bourdieu
a televisão é o oposto da capacidade de pensar, enquanto Sartori desenvolve a tese de que o
homo sapiens se está degradando em um homo videns, por efeito de uma cultura de puras
imagens.
A tese de Sartori é um tanto apocalíptica, embora não seja necessário compartilhá-la em sua
totalidade para reconhecer que lhe atribui um alto grau de razão. Efetivamente, uma
comunicação por imagens refere-se sempre, necessariamente, a coisas concretas, pois elas são a
única coisa que as imagens podem mostrar e, em consequência, o receptor dessa comunicação é
instado, de forma permanente, ao pensamento concreto, o que debilita seu treinamento para o
pensamento abstrato.
O pensamento abstrato é a base da linguagem simbólica que caracteriza o humano. Explicome mais claramente: quando um psiquiatra interroga um paciente e suspeita que ele pode ter
um problema de inteligência – certo grau de oligofrenia, para ser preciso – lhe faz uma pergunta
por meio de um conceito abstrato para ver se ele pode responder no mesmo nível. Por exemplo,
Você acredita em Deus? O que é Deus para você? Se o paciente responde algo assim como os
santos ou o que faz milagres, está indicando a necessidade de investigar, com métodos mais
depurados, a possibilidade de um déficit intelectual.
O gancho da comunicação por imagens está no fato de ela impactar a esfera emocional. Por
isso não se pode estranhar que os serviços de notícias pareçam antes síntese de catástrofes, que
impressionam mas não dão lugar à reflexão.
Às vezes, a imagem nem sequer necessita de som (a do 11 de setembro era muda), só o
intérprete falava.
Por outro lado, também não informa muito, porque passa imagens sem contextualizá-las; é
como se cortassem pedaços de filmes e os mostrassem, prescindindo do restante. Vemos, mas
não entendemos nada, porque isso requereria maior tempo e explicação.
Aliás, nem sempre se percebe o que se olha. Em um recente livro chamado O gorila invisível –
sem nenhuma alusão política, certamente – dois psicólogos estadunidenses demonstraram que,
colocados para ver a filmagem de uma partida para contar o número de passes, 50% dos
participantes do experimento não registraram que uma pessoa disfarçada de gorila entrava no
campo de jogo e fazia uma saudação.
Além do mais, a voz do intérprete vale-se de uma linguagem empobrecida. Diz-se que a
televisão não usa mais que umas mil palavras, quando em uma língua podemos chegar a usar
umas trinta mil. Talvez o cálculo seja exagerado, mas não muito. Essa interpretação às vezes tem
conteúdos implícitos, porque a correção política impede que sejam explícitos, como no caso do
racismo, por exemplo.
Nesses casos, muito se insinua, dando a impressão estudada de que se deixa ver, o que
afaga a inteligência do destinatário, que acredita que deduz o conteúdo implícito (Como sou

esperto!), quando, na realidade, é vítima de uma traição comunicacional.
A criminologia midiática cria a realidade de um mundo de pessoas decentes, diante de uma
massa de criminoso, identificada através de estereótipos, que configuram um eles separado do
resto da sociedade, por ser um conjunto de diferentes e maus. Os eles da criminologia midiática
incomodam, impedem que se durma com portas e janelas abertas, perturbam as férias, ameaçam
as crianças, sujam por todos os lados e, por isso, devem ser separados da sociedade, para
deixar-nos viver tranquilos, sem medos, para resolver todos nossos problemas. Para isso é
necessário que a polícia nos proteja de seus assédios perversos, sem nenhum obstáculo nem
limite, porque nós somos limpos, puros, imaculados.
Este eles é construído por semelhanças, para o qual a televisão é o meio ideal, pois joga com
imagens, mostrando alguns dos poucos estereotipados que delinquem e, de imediato, os que não
delinquiram ou que só incorrem em infrações menores, mas são parecidos. Não é preciso
verbalizar para comunicar que, a qualquer momento, os parecidos farão o mesmo que o
criminoso. É a velha afirmação do genocida turco Talât: Somos censurados por não distinguirmos
entre armênios culpados e inocentes, mas isso é impossível, dado que os inocentes de hoje podem
ser os culpados de amanhã.
Para configurar este eles são cuidadosamente selecionados os delitos mais carregados de
perversidade ou violência gratuita; os outros são minimizados ou apresentados de modo
diferente, porque não servem para armar o eles dos inimigos. A mensagem é que o adolescente
de um bairro precário, que fuma maconha ou toma cerveja na esquina, amanhã fará o mesmo
que o parecido que matou uma anciã na saída de um banco e, portanto, há que se afastar todos
eles da sociedade e, se possível, eliminá-los.
Como para concluir que eles devem ser criminalizados ou eliminados, o bode expiatório
deve infundir muito medo e ser crível que seja ele o causador único de todas as nossas aflições.
Por isso, para a TV, o único perigo que espreita nossas vidas e nossa tranquilidade são os
adolescentes do bairro marginal, eles. Para isso se constrói um conceito de segurança que se
limita à violência do roubo.
Quando um homicídio foi por ciúme, paixão, inimizade, conflito entre sócios ou o que seja,
para os meios de comunicação não se trata de uma questão de segurança, o que as próprias
autoridades também costumam afirmar em declarações públicas e com tom de alivio. O
homicídio da mulher a golpes dentro do santo lar familiar não produz pânico moral, é ignorado,
e se algum desses homicídios tem ampla cobertura jornalística é por causa de suas conotações
sexuais.
Esse eles é construído sobre bases bem simplistas, que se internalizam à força da reiteração e
do bombardeio de mensagens emocionais mediante imagens: indignação frente a alguns fatos
aberrantes, mas não a todos, e sim somente aos dos estereotipados; impulso vingativo por
identificação com a vítima desses fatos, mas não com todas as vítimas, e sim somente com as dos
estereotipados e se é possível que não pertençam, elas mesmas, a esse grupo, pois, nesse caso,
considera-se uma violência intragrupal própria de sua condição inferior (eles se matam porque
são brutos).
É possível que vocês não pensem assim, que racionalmente se deem conta de que esta
crença é falsa, mas ninguém me dirá que todos os dias não se sentem obrigados a fazer um
esforço de pensamento diante de cada mensagem para não cair na armadilha emocional que a
acompanha. Isso se deve ao fato de que a introjeção da criminologia midiática é muito precoce e
poderosa, sem contar que é confirmada, todos os dias, na interação social: sua construção se

tornou uma obviedade, ou seja, é algo, nos termos de Berger e Luckmann, que se dá por sabido,
por efeito da longa e paulatina sedimentação do conhecimento, como poder das bruxas era uma
obviedade seiscentos anos atrás, ou que a melancia se endurece com o vinho. É o que mostra a
televisão, é o que todos comentam entre si, é o que se verifica naquilo que me contam na fila do
ônibus ou na padaria.
Se cada um de nós puxasse pela memória e elaborasse uma lista das pessoas conhecidas
pessoalmente e que foram vítimas fatais do trânsito e de homicídio por roubo, verificaria que a
hierarquía midiática de riscos à vida nada tem a ver com a real. Somem-se a isso os suicídios e
os homicídios fora das hipóteses de roubo e ficaremos ainda mais espantados.
Os bodes expiatórios variam muito conforme o tempo e o lugar. Basta recordar o estereótipo
do subversivo dos anos 1970, que abrangia todos os adolescentes de cabelos longos e de barba,
que fumavam maconha de vez em quando e que hoje são pacíficos avôs. Houve inclusive
sentenças nas quais se expressou que eles afetavam a segurança nacional. Todo sinal de
inconformismo ou de desvio de qualquer natureza era estereotipado nesses tempos obscuros.
Este eles desenha um mundo de nós os bons e eles os maus, que não deixa espaço para a
neutralidade, como também não existe na guerra. A prudência não tem espaço na criminologia
midiática, toda tibieza é mostrada como cumplicidade com o crime, com o inimigo, porque
constrói um mundo bipolar e maciço, como o agostiniano nos tempos da Inquisição.
A gravidade das infrações não interessa ao três vezes você está fora com que os
estadunidenses enchem suas prisões, pois três muito pequenas são suficientes para lhe ser
creditado seu pertencimento ao eles e eliminá-lo.
Deve ficar muito claro que a criminologia midiática não se lança contra os assassinos,
violadores e psicopatas, pois estes sempre foram e continuarão sendo condenados a penas
longas em todo o mundo, mas sim contra um eles poroso de parecidos, que abrange todo um
grupo social jovem e adolescente e, no caso de Nova York, de negros.
Eles nunca merecem piedade. Eles são os que matam, não os homicidas entre eles, mas todos
eles, são todos assassinos, só que a imensa maioria ainda não matou ninguém.
Identificado o eles, tudo o que lhes for feito é pouco, mas, além disso, segundo a
criminologia midiática, eles não são objeto de praticamente nenhum dano, tudo é generosidade,
bom tratamento e gastos inúteis para o Estado, que é pago com nossos impostos. Isso,
implícitamente, está reclamando morte, exigência que, de vez em quando, alguém inconveniente,
que viola os limites da correção política, torna explícita, mas rapidamente é desculpado como
um desabafo emocional, porque o alguém inconveniente coloca a descoberto a Tânatos, a
necrofilia da mensagem, o grito do sinistro Millán-Astray[18] (General, isso se pensa, mas hoje não
se pode dizer).
A criminologia expressa sua necrofilia em seu vocabulário bélico, instigando a aniquilação
do eles, o que em determinadas ocasiões é levado à prática sob a forma de fuzilamentos
policiais. Quando se pretende encobrir esses fuzilamentos, isso vem acompanhado dos supostos
dados do estereótipo – prontuário volumoso, fartos antecedentes, drogado –, de forma
automática, confiando em que ninguém raciocine que um par de roubos a mão armada retiram
de circulação uma pessoa até quase os quarenta anos, quando quase todos os executados
dificilmente passam dos vinte, que o tóxico criminógeno por excelência é o álcool e que
ninguém pode cometer um delito violento sob os efeitos da maconha.
A efebofobia manifesta-se em todo seu esplendor. Esquadrões da morte e vingadores
justiceiros completam o panorama das penas de morte sem processo em nossa região, centrada

em jovens e adolescentes. Basta olhar as estatísticas para verificar que são muitos os países onde
há mais adolescentes mortos pela polícia do que vítimas de homicídios cometidos por
adolescentes.
A criminologia midiática naturaliza essas mortes, pois todos os efeitos letais do sistema
penal são para ela um produto natural (inevitável) da violência própria deles, chegando ao
encobrimento máximo nos casos de fuzilamentos disfarçados de mortes em confrontos,
apresentadas como episódios da guerra contra o crime, em que se mostra o cadáver do fuzilado
como indicador de eficácia preventiva, como o soldado inimigo morto na guerra.
Como todos os mortos nessa guerra se contabilizam e divulgam porque são considerados
inimigos abatidos, é possível seguir o fenômeno pelas notícias. Quando a frequência é muito
irregular (desaparece quando se questiona um ministro ou as eleições se aproximam), a boa
pontaria é excessiva (aumenta o número de mortos e cai em muito o de feridos), a concentração
é inexplicável (é produzida em determinado circuito e não nos próximos) e a sorte é conhecida
(os únicos mortos e feridos são eles), podemos concluir que nos encontramos diante,
indubitavelmente, de uma prática habitual de execuções sem processo. Muito à vontade, a
criminologia midiática pode prestar este serviço.
A criminologia midiática assume o discurso da higiene social: eles representam, para a
criminologia midiática, as fezes do corpo social. Continuando o raciocínio, que costuma ser
interrompido aqui, resultaria que este produto normal de descarte deva ser canalizado através
de uma cloaca, que seria o sistema penal. Nenhum operador deste sistema deveria omitir esta
reflexão. Para essa criminologia, nossa função seria a de limpadores de fezes e o código penal
um regulamento para condutos de despejos cloacais. Policiais, juízes, magistrados, promotores,
catedráticos, penalistas, criminólogos, poderíamos todos nos despojar de uniformes e togas e
imaginar o aparato que esta criminologia que nos amedronta pretende nos colocar.
A criminologia midiática entra em conflito quando o poder punitivo comete um erro e
vitimiza alguém que não pode identificar com eles e que, como vítima, não pode negar-lhe
espaço midiático. É o collateral damage da guerra ao crime.
Nesses casos, as agências entregam o executor material para acalmar a onda midiática e
aproveitam para demonstrar que estão se depurando dos elementos indesejáveis. Na realidade,
entregam um policial selecionado de um setor social humilde, ao qual treinaram com singular
negligência para fazer isso, e que acabou perdendo.
A construção da realidade não se faz necessariamente mentindo e nem sequer calando. Atrás
de cada cadáver há um drama, uma perda, um dolo. Basta destacar o que o estereotipado
cometeu, em toda sua dimensão real ou dramatizá-lo um pouco mais, e comunicar
assepticamente outro, em espaço muito menor, para que o primeiro provoque indignação e
medo e o segundo não.
Em qualquer cultura, a causalidade mágica é produto de uma urgência de resposta. Isso não
obedece a nenhum desinteresse pela causalidade, mas justamente à urgência por encontrá-la. Na
criminologia midiática sucede o mesmo. Deve-se responder já e ao caso concreto, à urgência
conjuntural, ao drama que se destaca e deixar de lado todos os demais cadáveres; a falta de uma
resposta imediata é prova de insegurança.
Evidentemente, reclama-se uma resposta impossível, porque ninguém pode fazer que o que
aconteceu não tenha acontecido. Frente ao passado a urgência de uma resposta impossível só
pode ser a vingança. Como a urgência é intolerante, não admite a reflexão, exerce uma censura
inquisitorial, pois qualquer tentativa de responder convidando a pensar é rechaçada e

estigmatizada como abstrata, idealista, teórica, especulativa, distanciada da realidade, ideológica
etc. Isso combina à perfeição com a televisão, onde qualquer comentário mais elaborado em
torno da imagem é considerado uma intelectualização que faz perder rating.
Cabe esclarecer que isso não significa que a TV careça totalmente de programas e
apresentações que façam pensar. É claro que há comunicadores responsáveis, mas estes devem
resignar-se, desde o começo, a um menor rating e a uma crescente redução de espaço por
interesses empresariais óbvios.
Temos contado com verdadeiros virtuosos nessa técnica comunicacional na Argentina.
Quem, talvez, alcançou o nível mais alto foi um famoso comunicador nos anos 1990, que
encaminhava a exigência de resposta urgente por intermédio de uma imaginária matrona de
bairro, que usava uma túnica comprida e rolinhos no cabelo, e era incapaz de qualquer
pensamento abstrato. Com esse personagem, dona Rosa, subestimava tanto o discernimento dos
moradores do bairro como o dos destinatários, aos quais levava a armadilha de forçá-los a
raciocionar sem pensamento abstrato, ou seja, no nível do oligofrênico. (Sempre me senti
ofendido, porque minha avó se chamava Rosa, morreu com 95 anos de idade e discorria muito
mais e melhor do que esse personagem.)
A urgência de resposta concreta e conjuntural leva a duas grandes contradições etiológicas,
pois, por um lado, atribui à criminalidade uma decisão individual e, por outro, estigmatiza um
conjunto com características sociais parecidas; ademais, proclama uma confiança absoluta na
função preventiva dissuasória da pena, mas ao mesmo tempo promove a compra de todos os
meios físicos de impedimento e defesa.
Como a emotividade impede que o destinatário perceba as contradições, os controles
eletrônicos e mecânicos aumentaram de forma impresionante. Stanley Cohen (Visions of Social
Control) destacava esse aspecto há anos e hoje a síndrome de Disneylândia é uma realidade.
Praticamente não há momento algum sem que uma cámara esteja registrando quando saímos de
nossas casas.
Há fantásticos estudos futuristas, como os dados bancários ocultos no ciberespaço, os
cheques eletrônicos, as casas inteligentes etc., com ameaças muito intrusivas à privacidade, mas
que não alarmam a criminologia midiática, que as mostra como provedoras de segurança. Como
ela minimiza a seletividade da vitimização, converte-nos a todos nós em consumidores da
indústria da segurança e em pacíficas ovelhas que não só nos submetemos às vexações do
controle, como inclusive as reclamamos e nos enchemos de aparatos controladores.
Em certas ocasiões, o interesse midiático centra-se em alguns delitos sexuais, porque são
fatos cujas imagens provocam muita indignação e também despertam grande interesse mórbido,
ainda que não em todos os delitos sexuais, mas só naqueles que lhes servem. É claro que não é
dito que os violadores seriais são poucos, nem que a grande massa de delitos sexuais contra
crianças acontece no interior dos grupos familiares, nem sempre irregulares, nem sempre em
bairros precários, nem sempre contra adolescentes, e sim contra crianças, que são um objeto
sexual diferente. Essas vítimas não aparecem na televisão, supostamente para ser protegidas,
embora, na realidade, é porque elas colocam em evidência a inutilidade do poder punitivo para
resolver o conflito.
Mas insistimos, definitivamente, que o grande paradoxo da criminologia midiática é que ela
não busca nada contra os criminosos violentos, porque em nenhum país os homicidas e
violadores ficam soltos, sendo, sim, submetidos a penas longas, salvo coberturas oficiais. Não se
necessita de conhecimento técnico para dar-se conta de que o fato de um homicida ser

penalizado com 25 anos de prisão ao invés de vinte não tem nada a ver com o risco de que me
furtem na bilheteria do metrô.
Para o pensamento mágico da criminologia midiática, a guerra contra eles esbarra no
obstáculo dos juízes, que são seu alvo preferido. A mídia oferece um banquete quando um exdetento ou um preso em liberdade transitória comete um delito grave, o que provoca uma
maligna alegria nos comunicadores. Os juízes são o obstáculo para uma luta eficaz contra eles.
As garantias penais e processuais são para nós, mas não para eles, pois eles não respeitam os
direitos de ninguém. Eles – os estereotipados – não têm direitos, porque matam, não são
pessoas, são diferentes, e os jovens têm que ficar dentro.
Os politicastros, sem muitos méritos nem ideias, estimulam julgamentos políticos contra os
juízes para obter seu espaço gratuito de publicidade, reforçando a causalidade mágica.
O juiz singular tenta não abrir a guarda à criminologia midiática porque age solitariamente e
demora em conceder saídas da prisão, por isso elas ficam cheias e acontecem motins e mortes,
que são mostradas como prova de que eles são selvagens e os juízes pouco diligentes.
A causalidade mágica estimula as reformas legais mais absurdas, porque a imagem
transformada em lei também é uma questão mágica. Nosso ancestral desenhava os animais de
presa nas paredes das cavernas, pois, segundo o pensamento mágico, quem possuía a imagem
acreditava possuir o objeto representado. Agora, a imagem é a descrição do representado no
boletim oficial. É o mito da caverna, mas não o de Platão que tanto deu o que falar, e sim o do
homem das cavernas que saía para caçar com um pedaço de pau.
Os políticos atemorizados ou oportunistas, que se somam ou se submetem à criminologia
midiática, aprovam essas leis disparatadas e afirmam que desse modo enviam mensagens à
sociedade, confundindo a lei penal com internet. É tão óbvio que essas leis não têm nenhuma
incidência sobre a frequência criminal na sociedade que não estou nada seguro de que entre
aqueles que as promovem exista alguém que acredite seriamente nelas.
No entanto, a criminologia midiática não se alimenta somente de notícias, mas também, e
principalmente, da comunicação de entretenimentos que banaliza os homicídios e da imaginação
da ideia de um mundo em guerra. Em um dia de televisão vemos mais assassinatos ficcionais que
os que têm lugar na realidade durante um ano em todo o país, e cometidos com uma crueldade
e violência que quase nunca ocorre na realidade.
Além do mais, há sempre um herói que termina fazendo justiça, geralmente matando o
criminoso, alguém que qualquer psiquiatra qualificaria de psicopata. Não tem medo, é
hiperativo, ultrarresistente, hipossensível à dor, aniquila o inimigo sem trauma por ter provocado
a morte de um ser humano, é hiperssexual, desperta na mulher (sempre em papel de alguém um
tanto bobo, que tropeça e cai nos momentos de maior perigo), impõe sua solução violenta às
expensas do burocrata que obstaculiza com formalidades (atrás de quem se adivinha a figura do
juiz, do procurador ou do policial prudente). Por sorte, os policiais reais não são como eles, pois
do contrário seria aconselhável pegar o passaporte e fugir.
Esses seriados transmitem a certeza de que o mundo se divide em bons e maus e que a
única solução para os conflitos é a punitiva e violenta. Não há espaço para reparação,
tratamento, conciliação; só o modelo punitivo violento limpa a sociedade.
Isso se introjeta muito cedo no equipamento psicológico, principalmente quando a televisão
é a baby sitter.

Ilustração 25

38. A criminologia midiática e a vítima-herói
Como a criminologia midiática atual é importada dos Estados Unidos e em nossa região não
existem as condições para manter dois milhões de pessoas presas e baixar o índice de
desemprego mediante os serviços necessários para vigiá-los, os efeitos políticos são totalmente
diferentes.
No norte, reforça-se a política de prisionização de negros e latinos e na Europa a expulsão
de extracomunitários, mas na América Latina é impossível aprisionar todas as minorias
incômodas – que, tampouco, são tão minorias assim –, com o qual a vingança, estimulada até o
máximo pela criminologia midiática, se traduz em maior violência do sistema penal, leis penais
piores, maior autonomia policial, com a consequente corrupção e risco político, vulgaridade de
políticos oportunistas ou assustados e redução dos juízes à impotência, tudo o que, como logo
veremos, provoca mortes reais em um processo de fabricação de cadáveres que a criminologia
midiática ignora ou mostra em imagens com interpretações deformantes.
A criminologia midiática do sul reproduz o discurso do desbaratamento do Estado de bemestar do norte, mas em países que o tiveram apenas parcialmente ou que batalham por
reestabelecê-lo.

Os eles do sul não são tão minorias assim, mas antes setores muito amplos e inclusive
maiorias, das quais provêm todos os implicados na violência do poder punitivo, ou seja,
infratores, vítimas e policiais.
Não interessa à criminologia midiática a frequência criminal nem o grau de violência que
exista em uma sociedade, porque na realidade nem os criminosos nem suas vítimas lhe
importam. Por isso, envía a mesma mensagem desde o México (com mais de quarenta mil
mortos em cinco anos, decapitados, castrados, quinze mil em 2010) até o Uruguai (com um
índice quase desprezível de homicídios dolosos), desde a América Central com as maras e os
capangas (como os que mataram Facundo Cabral[19]) até uma esquina suburbana de Buenos
Aires, com os jovens tomando cerveja e fumando um baseado. Como sempre e em todas as
partes quando se comete algum delito violento, jamais faltará material para a criminologia
midiática construir um eles maligno, responsável por toda nossa angústia e a quem é preciso
fazer crer que é necessário aniquilar.
Entre outras coisas, o que a criminologia midiática oculta do público é a potenciação do
controle redutor de nossa liberdade. Ao criar a necessidade de proteger-nos deles, justifica todos
os controles estatais, primitivos e sofisticados, para prover segurança. Em outras palavras: o nós
pede ao Estado que vigie mais o eles, mas também o nós, porque necessitamos ser monitorados
para ser protegidos.

Ilustração 26

Esta é a chave última da política criminal midiática, magistralmente exposta por Foucault há
mais de três décadas. Não esqueçam: o que interessa ao poder punitivo não é controlar eles, mas
sim nós. Para infundir o medo necessário de modo que as pessoas deixem de valorizar a
intimidade e a liberdade, cada homicídio cometido por algum deles é recebido, celebrado e
exposto com verdadeiro entusiasmo. O observador pode dar-se conta de que o intérprete da
imagem televisionada, que se mostra sorridente e falante na apresentação do noticiário, muda
imediatamente, assume uma atitude compungida, adota voz baixa e começa a mostrar o
homicídio brutal, o sangue no chão, a porta do hospital, o necrotério, a ambulância, o enterro,
os parentes, mas sua forçada compunção não chega a mascarar a íntima satisfação de quem
dispõe de um brinquedo novo, que prepara seu embate final vingativo contra os juízes e o
código penal, com gesto de resignada indignação.
Quando não há nenhum homicídio mostrável no dia, repete as notícias dos dias anteriores;
quando não o tem no lugar, mostra o de outra cidade, minimizando a referência geográfica.
Quando termina a notícia sangrenta, o comunicador recupera a sorriso e a eloquência para
mostrar a festa com glamour ou a discussão mais vulgar entre personagens do jet set.
O medo de um objeto temível é positivo, serve para a sobrevivência e para isso está
filogeneticamente condicionado. Nesse sentido, o medo à vitimização é normal quando é
proporcional à magnitude do risco, que, sem dúvida, é algo temível e real.
Porém, quando se crê que um objeto é a única fonte de todos os riscos e não há outros, o
medo decorrente deixa de ser normal. Assim, quando não se leva em conta a frequência e a
magnitude da vitimização, os outros riscos passam a ser o gorila invisível da experiência dos
psicólogos estadunidenses.
Esse medo anormal deixa de cumprir sua função de servir à sobrevivência, pois quando não
atribuo importância aos outros riscos me comporto temerariamente diante deles. Assim, cuido do
roubo e não me dou conta de que a violência aumenta em meu próprio domicílio; com o
pretexto do temor ao roubo ninguém se detém no sinal de trânsito da esquina e todos
ultrapassam o sinal vermelho, e, o que é mais grave, por temor ao roubo peço mais vigilância ao
Estado e quando dou por mim aqueles que me vigiam me sequestram. Exageros, dirão os
publicitários do autoritarismo vingativo? Recomendo-lhes que perguntem às vítimas que não são
mostradas, se é que estas têm a sorte de poder dizer algo mais que testemunhar sua condição de
cadáveres.
Há vítimas e parentes a quem não se pergunta porque não são funcionais. Não vemos nas
telas os fuzilados por policiais. Tampouco interessa aquele que morre numa briga entre bêbados,
porque não produz o mesmo entusiasmo comunicacional que o homicídio por roubo ou por
motivo torpe, mas seria uma festa se o tóxico não fosse o álcool, o que quase nunca acontece.
A criminologia midiática latino-americana tem uma particular preferência pelos shows em
que confronta algumas vítimas com os responsáveis da segurança (policiais, políticos e, se
possível, algum juiz). É óbvio que a perda não tem solução e que a única coisa a fazer a respeito
da vítima é respeitar sua dor e dar-lhe assistência. O show, porém, pressupõe que, se o Estado
não evitou a desgraça, foi por negligência, o que fixa no imaginário coletivo a perigosa ideia de
que o Estado deve ser onipotente, capaz de prevenir até os delitos e acidentes mais patológicos e
imprevisíveis, que em nenhum país do mundo podem ser evitados.
Quem não ratifica o que as vítimas ou seus parentes expressam é estigmatizado como débil,
perigoso e acobertador, além de insensível à dor da pobre vítima.

Se o delinquente passou pela prisão e foi libertado, pouco importa se devia ou não ser
libertado, pois o homicídio é atribuído a quem o colocou em liberdade ou à justiça em geral,
ainda que ele tenha sido libertado por passar um cheque sem fundos e que depois tenha sido
envolvido na violação da vizinha, porque o pensamento mágico apela à pura causalidade física.
No fundo, fica a sensação de que a criminologia midiática pretende que nunca mais um preso
seja libertado.
Em alguns casos, a criminologia midiática encontra a vítima ideal para seu propósito, capaz
de provocar identificação em um amplo setor social e, nesse caso, converte-a em porta-voz de
sua política criminológica, consagrando-a como vítima-herói. O procedimento revela-se de uma
particular crueldade, porque o que a criminologia acadêmica chama de vítima-herói é um
porquinho da Índia, ao qual se infere um grave dano psíquico; é pouco menos do que uma
vivissecção psíquica.
Toda vítima de um fato violento grave sofre uma perda com dano psíquico considerável que,
muitas vezes, demanda uma assistência especializada para recuperar sua saúde. Em um primeiro
momento, a vítima apresenta um estado de estupefação ou desconcerto ante a perda que lhe
custa acreditar. Em uma etapa posterior, é inevitável – e qualquer um de nós conhece a
experiência diante de uma perda súbita – que a vítima comece a jogar irracionalmente com a
causalidade: se eu houvesse agido de outra maneira, se não houvesse dito, se houvesse advertido,
se houvesse proibido, se houvesse... Produz-se – geralmente, sem nenhum pretexto plausível –
uma carga de culpa que se torna insuportável. O peso dessa culpa irracional provoca uma
extroversão que projeta a responsabilidade em alguém ou em algo, isto é, em um objeto externo.
Observe-se que não se trata da culpa pelo homicídio ou por o que quer que seja, que sem
dúvida tem um responsável, às vezes já bem identificado, mas sim de uma culpa pela situação.
Assim como essa culpa não é racional, tampouco o é a responsabilidade do outro pela situação,
ou pelo menos não o é na medida em que se pretende.
O tempo e a assistência especializada ajudam a superar essa fase, isto é, a elaborar o dolo.
Pouco a pouco, vão desaparecendo as irrupções ou interferências no curso do pensamento que
perturbavam a atividade normal da vítima e esta vai recuperando sua saúde mental. Trata-se de
um processo doloroso e nada simples, até que a perda se torna razoavelmente convertida em
uma das nostalgias e lembranças que todos carregamos.
Quando a criminologia midiática instala uma vítima-herói, explora algumas de suas
características particulares, como o histrionismo e talvez traços histéricos, as reforça, oferecendolhe um cenário gigantesco para seu desenvolvimento, mas sobretudo porque a fixa no momento
de extroversão da culpa, fortalecendo ao máximo essa fase, imobiliza a pessoa nela e lhe
interrompe brutalmente o caminho de elaboração do dolo, ou seja, de restabelecimento de seu
equilíbrio emocional. A pessoa redefine sua autopercepção como vítima e fica fixada nesse
papel.
A vítima-herói é instada a reclamar repressão por via mágica e é proibido responder-lhe,
pois qualquer objeção se projeta como irreverente diante da sua dor. Perante o peso da pressão
midiática são poucos os que se animam a desafiá-la e a fazer objeções a suas reclamações.
Aqueles que mais se amedrontam são os políticos que, desconcertados, tratam de colocá-la de
seu lado, redobrando apostas repressivas de acordo com a criminologia midiática, que são
amplamente difundidas por esta, juntamente com a desqualificação dos juízes.
Por causa da interrupção do dolo, a vítima-herói continua acumulando culpa que a
pressiona psicologicamente e a leva a incrementar sua extroversão, até que cai em exigências

que são claramente inadmissíveis e incorre em inconveniências.
Quando esse processo se agudiza, a vítima-herói se torna não mostrável por ser disfuncional.
Nesse momento, a criminologia midiática se desprende dela, ignora-a até silenciá-la por
completo, sem lhe importar o dano psíquico que lhe provocou ao interromper a elaboração do
dolo. Trata-a como uma coisa que usa e quando deixa de lhe ser útil a arremessa para longe e a
esquece.

39. A criminologia midiática como reprodutora
O poder punitivo não seleciona sem sentido, e sim conforme o que as reclamações da
criminologia midiática determinam. O empresário moral de nossos dias não é, por certo, nenhum
Savonarola; são a política midiática, os comunicadores, os formadores de opinião, os intérpretes
das notícias que acabam de comentar a disputa entre moças de biquíni para passar a reclamar a
reforma do código penal.
Evidentemente, por detrás deles se encontram os interesses conjunturais das empresas
midiáticas, que operam segundo o marco político geral, quase sempre em oposição a qualquer
tentativa de construção do Estado social e, regra geral, com interesses justapostos aos de outras
corporações ou grupos financeiros, dado o considerável volume de capital que controlam.
Por outro lado, a criminologia midiática se entrincheira em sua causalidade mágica e nem
sequer admite que alguém suspeite de seu próprio efeito reprodutor do delito funcional do
estereotipado, que lhe é imprescindível para sustentar sua mensagem e infundir o pânico moral.
De fato, não há dúvida de que o reproduz.
A mensagem contra a pretensa impunidade quando as prisões estão superlotadas e, ainda
que o cidadão comum o perceba como uma mensagem de medo, as personalidades frágeis dos
grupos de risco o entendem como uma incitação pública ao delito contra a propriedade:
delinquem porque há impunidade.
A publicidade dos delitos também difunde métodos criminosos e incita uma criminalidade
amateur muito perigosa. Um bom exemplo de reprodução criminal foi a enorme publicidade de
sequestros extorsivos que teve lugar faz poucos anos na Argentina, onde esses delitos não são
comuns. A insistência midiática fez difundir a falsa crença de que se trata de um delito rentável e
fácil de ser cometido, o que provocava medo na população, quando, na realidade, é um dos
delitos mais difíceis, salvo quando conta com cobertura oficial.
Não obstante, houve outros receptores da mensagem que a entenderam de maneira muito
diversa e isso provocou uma onda de sequestros bobos, com alto risco para a vida das vítimas,
pois são os que implicam mais perigo (o sequestrador tonto e desesperado diante da iminência
de ser descoberto ou sabendo-se reconhecido pela vítima, mata-o como último recurso diante de
sua estupidez).
Não é raro que, nesses casos de sequestro bobo, a criminologia midiática viole todos os
protocolos universalmente reconhecidos que assinalam o indicado para essas suposições e,
enquanto a vítima permanece em perigo e o delito continua sendo cometido, obtenha
inconfidências dos investigadores e difunda toda sorte de notícias acerca dos passos da família e
das autoridades, como se não fosse evidente que os criminosos são também destinatários delas,
o que pode colocar em maior risco a vida da vítima.
Ademais, a criação de realidade de um contexto violento oferece um pretexto perfeito para

qualquer delito. Alguém mata a mulher e pretende fazer crer que foi um roubo; outro mata o
marido da amante e quer fazê-lo passar por um ato de terrorismo; outro enterra o sócio no
fundo da casa e diz que o sequestraram; outro rouba o vizinho e grita que não há segurança.

Ilustração 27

41[20]. A criminologia midiática e os políticos
Os movimentos políticos atuais de restauração do Estado de bem-estar não são imunes à
criminologia midiática e costumam cair em seus jogos, o que se traduz em uma permanente
ambivalência frente ao fenômeno, ou seja, parecem não saber como proceder frente à agressão
levada adiante pelos partidários do Estado spenceriano.
Os políticos latino-americanos são pressionados por soluções imediatas, mas os tempos de
mudança social não são os da política, marcados pela proximidade das eleições. A averiguação e
o assédio constantes lhes condicionam condutas desconfiadas e até paranoides.
A criminologia midiática vale-se do mesmo veículo de que o político atual necessita: a TV. O
político atual costuma ser algo assim como o ator ou a atriz de telenovela, passa a ser um
telepolítico. Porém, diferentemente do ator ou da atriz profissional, não pode mudar o
personagem, ele fica preso ao seu papel.
A política atual é a política-espetáculo e o próprio Estado é, em alguma medida, um Estadoespetáculo, como Roger-Gérard Schwartzenberg vem assinalando desde os anos 1970.
Como os políticos não conhecem outra criminologia senão a midiática, frente aos embates
desta respondem conforme seu discurso da causalidade mágica e, para demonstrar que estão
preocupados com a segurança, caem na armadilha de curvar-se às suas exigências.

Por isso adotam medidas paradoxais, autonomizam as polícias, dotam-nas do poder de
praticar golpes de Estado mais ou menos encobertos quando se veem privadas de fontes de
arrecadação, sancionam leis descabidas, pedem castigos para os juízes etc. Vão ficando presos às
agências policiais que se descontrolam e desorganizam e à própria TV.
Se bem haja políticos que fazem isso por oportunismo ou por ideologia autoritária, por sorte
estes não são a maioria. Sustentar o contrário é cair na antipolítica e isso é o mesmo que ansiar
por uma ditadura. A verdade é que a maior parte dos políticos não tem ideia do problema e
atuam conforme a criminologia midiática porque não conhecem outra e não sabem como
defender-se de seus golpes.
Os políticos desorientados costumam acreditar que fazendo concessões à criminologia
midiática conterão seus golpes e, quando se dão conta de que isso não a detém e sim a
potencializa, sua desorientação aumenta. Eles ignoram que a criminologia midiática não tem
limites, vai num crescendo infinito e acaba reclamando o inadmissível: pena de morte, expulsão
de todos os imigrantes, demolição dos bairros precários, deslocamentos de população, castração
dos violadores, legalização da tortura, redução da obra pública de construção de prisões,
supressão de todas as garantias penais e processuais, destituição dos juízes etc.
Como isso chega-se a um ponto em que tampouco os políticos podem admitir o
inadmissível, o embate contra eles continua, montado na mesma causalidade mágica que eles
reforçaram com suas concessões. Os políticos desorientados não percebem que a criminologia
midiática é extorsiva e que frente a uma extorsão nunca se deve ceder, porque cada vez quem
extorque exigirá mais e as concessões não farão outra coisa senão fortalecer seu método.
O maior risco político em nossa região é que os próprios políticos comprometidos com a
restauração dos demolidos Estados de bem-estar, ao fazer concessões, acabem serrando o galho
em que estão sentados, pois a criminologia midiática faz parte da tarefa de neutralização de
qualquer tentativa de incorporação de novas camadas sociais.
Muitos políticos perceberam tarde demais que se trata de um problema central na política,
que a criminologia midiática não é um detalhe a mais de algo que sempre consideraram que a
polícia devia se ocupar. Na atualidade, é a maior arma com que contam os demolidores do
modelo do Estado do bem-estar no mundo, que não são outros senão os beneficiários do caos
que produziu sua destruição. Mais ainda. As concessões que os políticos desorientados
costumam fazer à criminologia midiática podem desmontar sua própria identidade ideológica.
O público da política-espetáculo cansa-se facilmente do personagem, sobretudo quando este
se diferencia pouco dos outros personagens, ou seja, quando perde sua identidade. O político,
obcecado pela busca do triunfo eleitoral próximo, não percebe que o maior risco que corre não
é o de perder uma eleição, e sim o de perder sua identidade.
Quando, na política-espetáculo, os personagens terminam ficando excessivamente parecidos,
abre-se o espaço para que a criminologia midiática saque de seu arsenal e desfralde sua
bandeira da antipolítica.
Como vemos, o peso político da criminologia midiática na nossa região não é pequeno. Mas
não é só nela, pois parece que também no norte não calcularam o efeito caótico provocado pelo
crescimento do aparato punitivo até os extremos atuais e não sabem como contê-lo e menos
ainda revertê-lo. A dimensão econômica do aparato penal não é compatível com a necessidade
de controlar o gasto público, pois emprega a cifra sideral de 200 bilhões de dólares anuais, ou
seja, supera por ano o total da dívida externa argentina. O público, porém, reclama cada vez
mais repressão por conta de uma criminologia midiática que não é fácil deter, porque responde

a demasiados interesses gerados por ela mesma, como são todas as indústrias de segurança, sem
contar que é muito difícil desviar para outras atividades a imensa mão de obra ocupada nesses
serviços, que somam quase 3.000.000 de pessoas.
Esse problema certamente não é nosso, mas é bem demonstrativo da magnitude do
fenômeno e, ademais, nos afeta porque a publicidade se acha globalizada.
Cabe observar que, embora a criminologia midiática atual se globalize a partir dos Estados
Unidos, o certo é que a criação midiática de uma realidade caótica para desprestigiar os
governos populares é muito velha na América Latina e desde sempre foi preparatória dos golpes
de Estado; seu discurso foi o prólogo que nunca faltou a todas as ditaduras militares.
Não houve proclamação revolucionária em nenhum golpe de Estado latino-americano que
não tenha invocado a necessidade de deter a criminalidade. Nesse aspecto, não se trata de
nenhum invento estadunidense, e sim um velho e batido recurso vernáculo.

42. Como o pensamento mágico pode triunfar?
A criminologia midiática está para a acadêmica mais ou menos como o curanderismo está
para a medicina. Cabe perguntar por que tem êxito, quando nos movemos em um tempo em
que a ciência tem enorme prestígio. Mais ainda. Com as vítimas-heróis produz-se um fenômeno
que equivale a imaginar que a organização hospitalar e as intervenções cirúrgicas ficassem nas
mãos dos doentes. Certamente eu daria apoio irrestrito ao protesto dos doentes que não
recebessem os medicamentos oncológicos, mas me limitaria a considerar com piedade o paciente
que acha que sabe curar sua doença sem ter estudado medicina e ainda fazendo tudo ao
contrário do que ela indica.
Já assinalamos, e reiteramos, ser óbvio que ninguém defende a impunidade para homicidas e
violadores; a discussão sobre se devem ser penalizados com mais cinco ou dez anos é
secundária e isso, com certeza, não impedirá que o número de homicidas e violadores aumente,
nem determinará que diminua.
Com relação ao crime de fato, essa criminologia midiática não agrega nada. Todavia, foi
capaz de fazer com que os Estados Unidos tenham hoje mais de dois milhões de presos. Alguém
poderá acreditar seriamente que pode haver mais de dois milhões de pessoas em um país
dispostas a passar ao ato do homicídio?
É indubitável que essas cifras incluem uma quantidade de pessoas que não são os criminosos
que a criminologia midiática mostra alegremente todas as vezes que pode, chegando ao cúmulo,
em alguns países, de inventá-los. Na Argentina, ela tem como cúmplices as agências policiais que
criam fatos para fazer estatística, que fabricam delitos para impingir fatos, que deformam outros
para a televisão.

Ilustração 28

Ninguém com certa experiência judicial pode ler muitos expedientes sem reprimir a
sensação de que, fora do círculo de autores violentos, e mesmo entre estes, cada condenado
parece ser mais estúpido e inábil do que o outro. Mais do que o criminoso sádico da série
televisiva, é um infeliz que perde talvez os melhores anos de sua vida por causa de uma conduta
absolutamente insensata e que jamais poderia ter tido êxito, sem contar que nenhum sucesso
patrimonial valeria a pena diante do risco de se pôr em jogo liberdade, autoestima, saúde e vida.
Acredito piamente – e, certamente, sem subestimar o dano que causam – que na enorme
maioria dos casos estamos prendendo pessoas estúpidas e desnorteadas e não aqueles que
realmente optaram pelo ato danoso. Mas, de qualquer forma, o peso da criminologia midiática
lota as prisões com pessoas que, em quase um terço dos casos, não condenamos, ou seja, que
nem sequer são os estúpidos que cometeram delitos.
É uma verdade inquestionável ser necessário, para baixar os níveis de violência em uma
sociedade, motivar condutas menos violentas e desmotivar as mais violentas, ou seja, fixado esse
objetivo estratégico, é necessária uma tática que se deve basear nas técnicas de motivação de
comportamentos.
O curioso é que em todas as outras áreas em que se coloca essa tarefa, ninguém pretende
fazê-lo com o pensamento mágico, mas sim usando as técnicas melhores e mais depuradas.
Quando um empresário quer impor um produto motivando o público a comprá-lo e

desmotivando-o a comprar do seu competidor, empreende uma pesquisa de mercado, que é
feita sobre sólidas bases da ciência social, da economia, da psicologia social etc. Toda uma
disciplina – a técnica de mercado – nutre-se de conhecimentos e métodos científicos. Os
próprios políticos apelam a esses conhecimentos em tempos de política-espetáculo.
Entretanto, quando a sociedade quer motivar condutas menos violentas e desmotivar as mais
violentas, tudo isso é deixado de lado e se apela para uma causalidade mágica. Nesse caso, a
ciência social não tem espaço e cada um opina segundo o pensamento mágico. Os simplismos
mais grosseiros e as hipóteses mais estapafúrdias se retroalimentam entre a televisão, a mesa do
bar e as decisões políticas. O certo, porém, é que o pensamento mágico substitui esses saberes.
A criminologia midiática não pode ignorar a necessidade de vestir-se de científica e, para isso,
convoca seus especialistas. Nisso há uma diferença considerável entre o norte e o sul.
Começamos descrevendo o que se passa entre nós.
Entre os especialistas de nossa criminologia midiática há uma minoria que só é especialista
na arte da simulação, mas são muito poucos e, além isso, felizmente eles não costumam ser bons
atores. O curioso é que os especialistas da nossa criminologia midiática, em sua grande maioria,
o são de verdade, são pessoas que sabem o que dizem, em determinadas ocasiões com um
altíssimo nível de conhecimento.
Qualquer mesa-redonda televisiva sobre segurança – no conceito midiático específico –, se é
mais ou menos séria, convoca pessoas vinculadas ao sistema penal: policiais, promotores, juízes,
peritos médicos etc. São especialistas que, em geral, articulam bem seus conhecimentos e os
explicam às vezes com clareza, dependendo de seus dotes de comunicação.
Aqui o paradoxo alcança sua máxima expressão: cria-se uma realidade com base no
pensamento mágico disfarçado de científico, mediante a opinião de especialistas sérios. Se não
fosse trágico e pouco menos que diabólico seria divertido.
A chave reside no fato de a criminologia midiática operar com uma onda de
retroalimentação. Assim é denominado o temido fenômeno de que um aparato criado pelos
humanos se torne tão inteligente que se retroalimente e nos impeça de desligá-lo, o que faz com
que seja impossível pará-lo. E com a criminologia midiática acontece isso: o especialista fala do
que sabe (organização policial, dificuldades de investigação, melhoria do processo, diagnóstico
de algum caso particular etc.). Em um dado momento, o apresentador o interroga sobre o
aumento do delito, da criminalidade, as causas do delito, os fatores sociais, se a droga tem muito
a ver, se a liberação sexual tem incidência, se a desintegração da família pesa, se “isso” se
conserta com planos sociais, com penas maiores, com o valor simbólico da pena, com a
restauração dos valores etc. Ou seja, lhe formula perguntas que só um criminólogo poderia
responder e, mesmo assim, depois de pesquisas de campo que, obviamente, não são realizadas
em nosso país porque não se destina nem um mísero tostão para isso.
Um policial, um promotor, um juiz ou um médico podem ser muito bons em suas profissões
e, no entanto, não saber quem foi Robert Merton, porque nenhuma falta lhe faz isto para
desempenhar as suas funções.
Ele pode não ter aberto, em toda sua vida, um único livro de sociologia e desconhecer
completamente a teoria sociológica e os métodos de pesquisa empírica, pode não saber o que é
uma pesquisa de vitimização ou de autoincriminação, nem um fluxo de casos, pode muito menos
saber como eles são realizados, não ter ideia do que é um observador participante, nem da
importância das entrevistas, ele pode ignorar tudo o que concerne à estatística social, nunca ter
tido contato com uma pesquisa de campo e, no entanto, ser um excelente funcionário e

profissional em sua matéria.
O que acontece é que, quando o apresentador lhe pergunta, o especialista não pode deixar
de responder ao apresentador, porque acha que responde sobre conhecimentos que são comuns
e até óbvios, porque pertencem à realidade construída, dada como certa. E é ali onde se produz
a onda de retroalimentação: o especialista reproduz o discurso da criminologia midiática; fala do
que sabe e em seguida fica falando do óbvio, que é a realidade construída midiaticamente, e que
assimilou na padaria e no supermercado.
Isso confere autoridade científica à criminologia midiática. A pouca difusão da ciência social
entre o público faz com que aquele que observa que tudo o que se diz carece de base empírica
e que não há dados disponíveis porque ninguém se interessa em pesquisar a violência, seja visto
como um ser extraplanetário, que propõe algo esotérico e sem sentido prático. Entretanto,
bastaria perguntar a qualquer empresário sobre o valor prático da tecnologia de mercado para
se convencer do contrário: ninguém se empenha em fabricar algo sem saber se poderá
convencer o público a comprá-lo e sem que haja um planejamento sobre como vendê-lo.
No norte as coisas são um pouco diferentes, pois o enorme desenvolvimento alcançado pelo
sistema penal nos Estados Unidos produziu seus próprios especialistas que integram o thinktank da direita estadunidense e que se vendem bastante bem, gerando, por sua vez, a indústria
de conferências pagas, direitos autorais suculentos, entrevistas televisivas etc. Em revistas de
ampla circulação, como a Newsweek, são defendidas as teses mais estranhas, como, por
exemplo, a de Morgan O. Reynolds, que afirma ser o crime uma questão de custo-beneficio, e
por isso são necessárias penas mais pesadas para forçar a escolha racional do possível infrator.
Isso não é nenhuma novidade, visto que provém do século XVIII, como já vimos. Seria bom
perguntar a Mr. Reynolds que pena propõe para os terroristas que se imolam. O mais
lamentável é que, indo além da Newsweek, uma junta de economistas distinguiu com o Prêmio
Nobel um colega que afirma algo parecido acerca do que obviamente nada sabe.
Outro inventor da pólvora é Charles Murray, o coautor do livro racista The Bell Curve,
juntamente com Richard Herrnstein, a quem logo me referirei. Murray participa da tese do
escritor da Newsweek e, segundo sua disparatada teoria, os jovens de classe pobre delinquem
porque são tratados benevolamente pelos programas de desemprego e outros semelhantes.
Segundo este pensador, os jovens andam com um computador fazendo um cálculo de custobeneficio, assim como as adolescentes que engravidam prematuramente para ganhar o auxílio.
Sua proposta consiste em suprimir esses programas e guetizar seus beneficiários para que eles
se matem ou morram de fome em seus locais de moradia.
Este é um dos maiores representantes do think-tank de Washington, apesar de aparentar ser
mais só do tank, respeitando obviamente a natureza do conteúdo.
Os best seller criminológicos estadunidenses são comentados em generosos espaços em
jornais que se supõem sérios, dando lugar a uma verdadeira indústria de fabricação de embustes
criminológicos que se vendem em bancas nos aeroportos, juntamente com as novelas policiais e
as revistas pornográficas em plásticos lacrados.
Todos eles projetam a imagem do crime como um fenômeno individual. Para isso dão uma
enorme divulgação às novidades dos biólogos e geneticistas, mas terminam incorrendo em uma
confusão que não faz mais do que ocultar um renascimento do pior reducionismo biológico.
Em linhas gerais me atrevo a dizer que concorrem quatro atitudes diferentes: (a) por um
lado, a fraude científica de alguns escrevedores; (b) por outro, a ingenuidade de alguns cientistas
sérios, que não são capazes de reconhecer os limites de seus próprios conhecimentos, ou seja,

que passam da biologia à filosofia sem escalas; (c) a tudo isso se soma a ideologia
grosseiramente racista de alguns cientistas e (d) por último, o horrível guisado que os
comunicadores ou formadores de opinião cozinham, misturando tudo o que veio antes para
reforçar a imagem puramente individual do crime, projetado como o único risco social.
Nessa espécie de guisado ou sopa midiático – ou caldeirão da bruxa – ressurgem coisas tais
como a tese da meritocracia biológica segundo testes de habilidade disfarçados de testes de
inteligência, a investigação de gêmeos univitelinos, os estudos de herança falsificados dos anos
1920 etc. Esses estudos foram renovados pelo professor de Columbia Henry E. Garrett, que
depois de se aposentar passou para a Universidade de Virginia, onde suas ideias foram apoiadas
pelo senador Harry Byrd, conhecido promotor da resistência em massa à integração racial.
Garrett foi apoiado financeiramente pela Pioneer Foundation, criada em 1937 pelo milionário
têxtil Wickliffe Draper, velho eugenista e defensor da segregação racista, que se encarregou de
pagar as piores e mais adulteradas pesquisas.
Os embustes da Pioneer Foundation e de seus seguidores se renovaram em 1994, quando
Richard J. Herrnstein e o disparatado Charles Murray publicaram The Bell Curve: Intelligence and
class structure in American life, exumando os velhos testes que provavam o menor cociente
intelectual dos afro-americanos.
Cabe esclarecer que Herrnstein e mais James Q. Wilson publicaram em 1986 um volume com
o título pouco científico Crime e natureza humana, que é o mais completo revival da biologia
criminal, escassamente dissimulado com contradições.
O embuste científico desses autores se descobre com um cuidadoso exame de sua
bibliografía, pois eles não rebatem as toneladas de trabalhos demolidores, e sim os ocultam
diretamente, apresentando um impressionante arsenal bibliográfico sem mencioná-los. Com isso,
conseguem impressionar o leitor leigo. Pode-se dizer que a deslealdade científica beira o
escândalo.
Além do mais, propõem algo insólito: não atentando para o fato de que há mais bobos na
prisão precisamente porque são bobos, Herrnstein e Murray propõem que o sistema penal seja
claro e conclusivo, sem dúvidas nem indulgências, para que os bobos entendam. Em outras
palavras: para que os bobos entendam é bom que todos nós sejamos tratados como bobos, o
que na esquina se diz pegamos os bobos. Quando assisto TV, tenho muitas vezes a sensação de
que eles tiveram êxito.
O reducionismo biológico nunca desapareceu completamente e o risco de seu renascimento,
com ampla cobertura midiática, não pode ser subestimado. Até poucos anos atrás, a ciência
apressada teve gravíssimas consequências letais, tendo recebido também muita publicidade.
O português Egas Moniz, que não se chamava assim (adotou o nome de um antepassado de
oitocentos anos antes), foi famosíssimo e recebeu o Prêmio Nobel por furar a cabeça dos
pacientes e destruir-lhes as células frontais. Desse modo, o paciente perdia a vontade e era mais
manipulável, com o que a tarefa manicomial ficava mais fácil; cerca de 25% deles puderam ser
enviados para suas casas, pois estavam mansos.
Entre 1942 e 1954 foram praticadas na Grã-Bretanha cerca de doze mil lobotomias e nos
Estados Unidos umas vinte mil. Estima-se que essa brutalidade foi perpretada em cerca de cem
mil vítimas, muitas dos quais hoje reclamam indenizações e pediram que o Prêmio Nobel fosse
retirado de Moniz.
A lobotomia teve singular êxito nos Estados Unidos, onde o médico Walter Freeman a
praticava a marteladas na cabeça atrás da órbita ocular (lobotomia transorbital).

Um paciente, que não tinha sido lobotomizado, desferiu alguns tiros contra Moniz, deixandoo paralítico para o resto da vida, o que tinha pouca importância, pois na realidade ele se valia
de um assistente para essas brutalidades, uma vez que suas mãos estavam artríticas. A lenda diz
que outro paciente o eliminou, mas isso não é verdade.
Lembro-me disso porque o risco de um neolombrosianismo não se encontra neutralizado,
dado que hoje se lança a teoria de que a violência é associada às disfunções frontais e a
agressão sexual, às temporais. É um renascimento da frenologia através de meras hipóteses, pois
Moniz já se havia ocupado do frontal. As neurociências pretendem prever futuros desvios
criminosos de conduta nos jardins de infância aos três anos de idade e esse disparate é levado a
sério por alguns funcionários do atual governo francês. Eu começaria a acreditar nessas
predições, se as provas fossem aplicadas aos exportadores e vendedores de armas à África.
Pretende-se que a genética ocupe o lugar que nos anos 1930 coube à endocrinologia
criminal, mas esta tampouco morreu completamente, porque a tese da constituição criminosa
reapareceu em 1989, quando o psiquiatra inglês Hans Eysenck, em colaboração com Gisli H.
Gudjonsson, ressuscitou as teorias biotipológicas em um livro que leva, como não poderia deixar
de ser, o sugestivo título de As causas e a cura da criminalidade.
É certo que houve surtos muito precoces de criminogenética. Nos anos sessenta do século
passado fez furor um renascimento do lombrosianismo com a tese do cromossoma atípico ou
adicional, com grande cobertura midiática. A fórmula cromossomática do homem é XY e a da
mulher XX. Pois bem, alguns indivíduos apareceram com XYY, ou seja, um cromossoma
adicional. Imediatamente, os cientistas apressados lançaram-se a medições e constataram que
havia uma frequência um pouco maior de sujeitos com cromossoma adicional na população
penal. Pouco depois, os dados se reduziram quando se mediu a mesma classe social. Ademais, a
pequena diferença restante se explica pelo estereótipo: os portadores são mais altos, mais
assimétricos – mais feios – e um pouco débeis mentais. Hoje ninguém mais resgata o pretenso
valor criminógeno do cromossoma atípico.
Todo esse conjunto de descobertas tem uma ampla cobertura midiática, quando, na
realidade, não passam de verdadeiras banalidades. As teses mais elaboradas e sérias sobre a
biologia criminal não deixam de provar o óbvio. Ninguém ignora que todos os humanos somos
diferentes e, portanto, temos diferentes habilidades biologicamente limitadas ou condicionadas:
não posso ser bailarino clássico a essa altura da vida nem integrar a seleção nacional de futebol.
Também tenho condicionamentos sociais e vivenciais que, em boa medida, determinam meu
catálogo de possíveis reações frente a situações determinadas. Esses condicionamentos incidiram
sobre minha biologia: se tive vida sedentária, terei mais colesterol, se bebi muito álcool,
possivelmente tenho o fígado um pouco maltratado, se comi demais, terei sobrepeso etc. É
impossível explicar minha conduta só com base na biologia que herdei, nem sequer em
características indubitavelmente herdadas e biologicamente reconhecíveis.
Assim, a pretensa correlação entre o baixo quociente intelectual e o delito não indica uma
causa, porque não se leva em conta a frustração escolar da pessoa, sua estigmatização familiar, a
lesão sofrida em sua autoestima e o efeito interatuante de outras frustrações e, o que é mais
significativo, tampouco se considera a maior vulnerabilidade ao poder punitivo: se temos mais
bobos nas prisões, não é porque os menos inteligentes cometem mais delitos, mas sim porque é
mais fácil prendê-los.
Nunca se pode confundir uma correlação com uma causa. Um baixo nível de serotonina se
correlaciona a uma conduta agressiva, mas é o baixo nível de serotonina que condiciona o

comportamento agressivo ou é o comportamento agressivo ao longo da vida do sujeito que
condiciona o baixo nível de serotonina? Há neurocientistas que afirmam que veem o pensamento.
A única coisa que estabelecem é que, quando o sujeito pensa, o cérebro opera de certa maneira,
da qual se conhece muito melhor os detalhes e é muito bom que assim seja. Mas são esses
contatos que causam o pensamento ou é o pensamento que faz funcionar esses contatos? Não
pretendo assumir nenhuma posição metafísica nem falar da alma, mas no mero plano terreno e
verificável posso pelo menos afirmar que penso com todo o corpo. Assim, verifico que não
poderia pensar sem função hepática ou cardíaca e que penso muito pior quando me sinto mal
em qualquer órgão. Não creio que Einstein tenha concluído a teoria da relatividade sob os
efeitos de uma cólica.
Explico mais claramente. Suponhamos que todos nós sejamos uns energúmenos e em vez de
trocar ideias acabamos trocando socos e cadeiradas. Vem a polícia e acaba com o tumulto.
Somos presos. Nesse momento, colhem uma amostra do nosso sangue e verificam que todos nós
temos um altíssimo nível de adrenalina.
Será que é a adrenalina que nos faz energúmenos ou será que a adrenalina subiu por causa
da nossa conduta de energúmenos? Todos os que brigam têm a adrenalina elevada. Seria uma
solução baixar a adrenalina de toda a população para evitar as brigas?
Em síntese e, lamentavelmente, apesar de poucas coisas serem mais irracionais do que a
criminologia midiática, a verdade é que as decisões de poder são adotadas seguindo suas
incoerências e sua base de causalidade mágica, no mais perfeito estilo völkisch. Spee voltaria a
escrever seu livro.

Ilustração 29

43. O fim da criminologia negacionista: o que, como e onde?
Vimos que a criminologia acadêmica nem sempre andou por caminhos recomendáveis; o
resultado é ainda mais desalentador na criminologia midiática. Cabe perguntar se não será
possível se aproximar da realidade ou até mesmo se esta existe. Há algo a que agarrar-se na
questão criminal? Existe algum dado forte capaz de nos tirar da confusão? Minha avó me olharia
surpresa e me faria notar que o único dado certo na questão criminal são os mortos. Ela estaria
coberta de razão: se a única verdade é a realidade, na criminologia a única realidade são os
cadáveres.
Sabemos que os cadáveres nos dizem que estão mortos. A criminologia, porém, não os
escutou. Comecemos, pois, a escutar os mortos onde eles existem em grande número, nos
assassinatos cometidos pelos Estados. O certo é que nem sequer temos dados precisos acerca da
quantidade de cadáveres produzidos pelos Estados no curso do século passado, porque há
muitas tabelas macabras e todas elas são aproximações.
A de Wayne Morrison traz os seguintes dados: no Congo (1885-1908) 8.000.000; na África do
Sul (hereros) (1904): 80.000; na Armênia (1915-1922): 1.500.000; na Ucrânia (judeus) (1918-1922):

entre 100.000 e 250.000; na Ucrânia por fome (1932-1933): seu número causa as maiores
dificuldades de cálculo (para alguns autores supera os 30 milhões[21]; na União Soviética
(dissidência política) (1936-1939): 500.000; na Europa (judeus) (1933-1945): 6.000.000 (mais
5.000.000 de ciganos, gays, deficientes e outros); na Indonésia (dissidentes) (1965): 600.000; em
Burundi (hutus) (1965-1972): entre 100.000 e 300.000; em Bangladesh (1971): 2.000.000; no
Camboja (1975-1979): 2.000.000; em Timor (1975-2000): 200.000; em Ruanda (tutsis) (1994):
800.000. A estes devemos somar cifras não estimadas de budistas no Tibet (1950-1959), índios na
Guatemala (1965-1992), o povo Iho na Nigéria (1966), religiosos Baha’i no Irã (1980-1994), os
curdos no Iraque (1991-1994) e os muçulmanos na Bósnia (1992-1998). As cifras contabilizadas
por Morrison somam cerca de 65 milhões de cadáveres.
Há outros cálculos mais macabros, como o de Rudolph J. Rummel, que o eleva o total a 165
milhões, pois inclui outros casos, dado que as mortes por fome provocada distorcem os cálculos.
Admitindo que a lista de Rummel seja exagerada e a de Morrison estreita, podemos calcular
que no século passado os Estados produziram uns cem milhões de cadáveres fora das guerras. O
número de mortos nas guerras tampouco é unanimemente aceito, pois varia segundo a inclusão
de mais ou menos vítimas não europeias e de danos colaterais, como a fome e as pestes, mas o
certo é que seu número nunca alcança ao de mortos por massacres.
Isso significa que mais de um em cada cinquenta habitantes do planeta foi morto pelos
Estados no decorrer do século passado, sem contar os mortos em guerras. Este cálculo de 2% da
população mundial terem sido assassinados foi recentemente ratificado pelo professor de
Harvard Daniel Jonah Goldhagen, que tampouco descarta as estimativas mais altas, que chegam
a 4% da população mundial. Esse cálculo pessimista indicaria que quase um habitante em cada
vinte e cinco foi eliminado pelos Estados fora das situações de guerra real.
Mantendo-nos com o percentual mais prudente de 2%, não podemos deixar de ficar
alarmados, por menor que seja nossa sensibilidade frente às matanças, e não menos alarmante é
que a criminologia o tenha ignorado quase por completo e as estatísticas de homicídios não
tenham sido registradas. Os genocidas sempre temeram os cadáveres e, por isso, os reduziram a
cinzas, os ocultaram em fossas comuns ou os lançaram de aviões em pleno voo, mas que a
criminologia compartilhe desse temor é forte demais. Não podemos continuar fazendo uma
criminologia que olhe de frente sem que nos encarreguemos dos cadáveres: minha avó ficaria
muitíssimo aborrecida. A criminologia negacionista chega a seu fim. Uma criminologia séria deve
começar por escutar que esses mortos estão mortos.
Para nos adentrarmos no tema, percorremos ao caminho das sete perguntas de ouro da
criminalística: o que? como? onde? quando? com o que? por que? quem?
Comecemos pelas três primeiras (o que? como? onde?)
Para começar a percorrer esse caminho, não nos serve a definição legal, que nesse caso seria
a de genocídio, do direito internacional, cunhada a partir da proposta de Raphael Lemkin e
estabelecida na fórmula da Convenção para a prevenção e sanção do delito de genocídio das
Nações Unidas, de 1948.
Não nos serve porque foi elaborada na medida das grandes potências no começo da guerra
fria e, por conseguinte, não abrange o aniquilamento dos grupos políticos porque não convinha,
exige aniquilamento para deixar de fora as matanças neocolonialistas e, também, para evitar
que as bombas de Hiroshima e Nagasaki entrassem na definição.
Embora a consagração internacional do crime de genocídio tenha conseguido revelar uns
tantos milhões de cadáveres, o que foi muito positivo, o certo é que se tentou calar os gritos de

muitos milhões a mais no curso das negociações.
Como consequência desse recorte microcirúrgico do conceito, em todos os massacres
posteriores se colocaram dúvidas jurídicas. Ainda que possa parecer mentira, foram colocados
em dúvida se eram genocídios os massacres perpetrados pelos japoneses na China, na Coreia e
em outras regiões; pelos chineses desde 1950, quando ocuparam o Tibete (calculam-se 500.000
vítimas); a destruição da cidade de Hama em Siria, em 1982; as do nosso Cone Sul americano; os
deslocamentos convertidos em marchas da morte (a dos armênios, as de Etiópia no regime de
Mengistu Hailé Mariam, a recente, de Darfur para o Chade); o massacre dos tutsi em Ruanda (de
1.250.000 ficaram reduzidos a 300.000); a eliminação de 2.200.000 pessoas pelo regime de Pol
Pot, no Camboja; a dos paquistaneses em Bangladesh (foram mortos pelo menos 1.000.000), e
um muito longo etcetera.
O curioso é que em quase todos esses casos foi a indiferença do resto do mundo que
permitiu o massacre. Vejamos o caso de Ruanda, que tem uma população tutsi minoritária, e
Burundi (o país vizinho), onde eles são maioria. A maioria dos ruandeses são hutus. Os tutsis
ruandeses foram privilegiados pelos colonialistas belgas, de modo que quando Ruanda se tornou
independente os hutus mataram uns 14.000 tutsis e expulsaram meio milhão. Em Burundi, por
sua parte, uns 100.000 hutus foram mortos e outros 200.000 foram deslocados. Os tutsis expulsos
de Ruanda organizaram em Burundi uma guerrilha, que entrou em território ruandense. O
governo ruandense gerou pânico na população hutu, manipulada pela mulher do presidente, em
especial por meio da Rádio Televisão Livre das Mil Colinas (RTLM), que considerava os tutsis
subhumanos, chamando-os de baratas e serpentes.
Quando os franceses conseguiram um acordo mediante o qual hutus e tutsis se
comprometiam a resolver seus conflitos recorrendo a um sistema com pluralidade de partidos, o
grupo hutu do presidente Habyarimana temeu por seus privilégios e começou a preparar forças
paramilitares, até que um misterioso míssil derrubou o avião presidencial. A partir desse
momento, desencadeou-se a matança de tutsis, instigada pela mencionada Rádio das Mil Colinas
e a cargo de cada chefe municipal, executada geralmente a machadadas. Nem o exército nem a
polícia tomaram parte, mas tampouco fizeram coisa alguma para impedi-lo.

Ilustração 30

Os homicídios em massa sempre foram cometidos e continuam sendo porque a política de
um Estado assim o decide, seu poder punitivo o executa e os demais Estados olham com
indiferença, ou complacência. Suas condições indispensáveis são, pois, a decisão política interna
e o espaço político internacional. Sem elas não há massacre.
Em cada massacre os responsáveis não são apenas os Estados que o cometem, mas também
os que não atuam, os que se omitem e que dominam a política internacional planetária.
É claro que o apoio de Carter e Reagan ao regime genocida de Pol Pot foi vergonhoso e
ideologicamente um disparate, com o objetivo de não reconhecer a importância da intervenção
vietnamita. É também inegável seu apoio incondicional ao regime de Suharto e ao massacre
perpetrado por este entre 1965 e 1966. Em 1975, a Indonésia apoderou-se do Timor Leste,
iniciando um massacre que continua até o presente, diante do silêncio cúmplice de todos.
Mais atrás no século, o mesmo vale a respeito do genocídio armênio pelos turcos em 1915 e
1923. Foi a Turquia que decidiu, mas isso foi possibilitado pela indiferença internacional: às
potências centrais convinha o silêncio, pois embora o Império Austro-Húngaro estivesse
dissolvido e o Império Alemão, substituído pela República de Weimar, os sucessores desses
sistemas sabiam que seus predecessores foram aliados complacentes do Império Otomano; a
Rússia havia firmado a paz em separado e tinha interesse de sobra em não ter conflitos com a
Turquia, com a qual celebrou em 1920 um tratado de amizade e cooperação. Nos Estados

Unidos, os republicanos se desentenderam com a Europa e não ratificaram o Tratado de
Versalhes. França e Grã-Bretanha dedicaram-se a assegurar o resultado que até então haviam
obtido do desmembramento do velho Império Otomano. Os armênios ficaram sós.
Houve muitíssimos testemunhos qualificados entre cidadãos, funcionários e diplomatas das
grandes potências, e alguns deles tiveram reações muito corajosas, embora seus governos se
recolhessem ao silêncio: James Bryce, com a colaboração de Arnold Toynbee, publicou um livro
na Grã-Bretanha; o pastor Johannes Lepsius fez o mesmo na Alemanha; o embaixador
estadunidense no Império Otomano, Henry Morgenthau, teve uma atuação destacada na
publicidade do caso. Ninguém, porém, os escutou.
Em 1939, poucos dias antes da invasão da Polônia, em um discurso dirigido a seus generais,
Hitler perguntou: Wer redet noch von der Vernichtung der Armenier? (Quem fala ainda dos
armênios?).
Conforme a filigrana que recorta o conceito legal de genocídio, tal como acabamos de
expressá-lo, tampouco falariam os cadáveres produto de todos os deslocamentos forçados de
população, incluindo os da ex-Iugoslávia na guerra de 1991-1995, que começou com a
independência da Croácia e da Eslovênia e terminou com o estabelecimento das fronteiras
internas e externas da Bósnia.

O argumento é tomado das justificativas dos deslocamentos na URSS: Stalin não se
propunha a aniquilar os kulaks e os expurgos dos anos 1930 também não pretendiam aniquilar
nenhum grupo étnico nem religioso. No caso da ex-Iugoslávia, os juristas esforçam-se por
distinguir entre limpeza étnica e genocídio.
Quanto à prevenção do genocídio, a convenção de 1948 foi quase uma manifestação de boa
vontade, posto que os massacres do século passado só cessaram porque alcançaram seus
objetivos (por exemplo, no caso armênio ou no indonésio), porque algum Estado estrangeiro
interveio (como no Camboja e em Bangladesh) ou porque os massacradores perderam uma
guerra (como os nazistas).
Como tudo isso demonstra que a definição legal de genocídio é produto de um exercício de
poder (de uma decisão política de criminalização primária) que não perde seu caráter seletivo
por provir do campo internacional, faz-se necessário substituí-la por um conceito criminológico.
A esse efeito – e acompanhando, com correções, Semelin, que é um estudioso do tema –,
usaremos a definição mais ampla de massacre, entendendo por tal toda prática de homicídio de
um número considerável de pessoas por parte de agentes de um Estado ou de um grupo
organizado com controle territorial, de forma direta ou com clara complacência destes, levada a
cabo de forma conjunta ou continuada, fora de situações reais de guerra que importem forças
mais ou menos simétricas.
Cabe advertir sobre um risco gravíssimo ao conceituar os massacres: embora pareça
absurdo, se se tenta hierarquizá-los (meu massacre foi pior que o teu), isso confunde muito e faz
perder de vista os cadáveres.
Tais raciocínios são aberrantes e perigosíssimos, porque encerram germes de mitos de alto
risco que podem habilitar novos discursos massacradores, uma vez que oferecem elementos para
novas técnicas de neutralização. Assim, poder-se-ia dizer que se justifica a morte de 600.000
pessoas por Suharto diante da ameaça comunista proveniente da Revolução Cultural da China
de Mao; por sua vez, poder-se-ia justificar a morte dos dois milhões de cambojanos por Pol Pot,
diante do temor provocado pelo massacre de Suharto e da submissão da população camponesa

cambojana; o assassinato a machadadas de 800.000 tutsis em Ruanda se justificaria pelo temor
produzido pela morte de 100.000 hutus em Burundi. Esta é a inadmissível consequência da
hierarquização dos massacres.
Por um lado, as potências batem-se para fazer com que só a outra seja criminalizada, mas,
por outro, as vítimas se batem para ver quem é mais vítima. No meio ficam uns tantos milhões
de cadáveres dos quais nem a criminologia se dá conta. Isso deve nos alertar sobre os riscos da
armadilha da hierarquização.
Por regra geral, a questão da hierarquização surge diante da Shoah, e a pergunta que se
coloca é se ela foi única ou se não se diferencia de outros massacres.
A rigor, todo massacre tem características particulares. Ademais, todo massacre é único para
as vítimas. O problema é que se o consideramos substancialmente diferente, estamos a um
passo de estimar que é irrepetível e produto de um caminho especial – o Sonderweg alemão dos
anos 30 do século passado. Acreditamos que considerá-la irrepetível é muito perigoso e atribuí-la
ao Sonderweg é, em algum sentido, uma forma de negacionismo (não do fato, mas sim da
responsabilidade).
É indubitável que a Shoah pertence aos judeus – porque para estes é justa a sua dor –, sem
prejuízo de que ela se insere em um programa de extermínio organizado, que também
massacrou vários milhões de não-judeus, respondendo a motivações profanas abomináveis,
sobre as quais não se pode passar, confiando na dor causada e acreditando ingenuamente na
impossibilidade da sua reiteração.
O que confere maior particularidade à Shoah é que foi cometida contra europeus e por
europeus, tendo à frente uma potência considerada um dos pináculos da cultura universal (ou
universalizadora). A flecha da história hegeliana cravou-se em pleno coração do Estado sintético.
Os perpetradores não foram asiáticos teocráticos, nem africanos difícilmente reconhecíveis como
humanos nem latino-americanos degenerados pela mestiçagem, mas sim quem estava na ponta
da flecha hegeliana. E não vale enaltecer nacionalismos para imputar tudo aos alemães, uma vez
que não se pode negar a participação do regime de Vichy, de outros aliados do Eixo e dos
colaboradores dos países ocupados, que por certo houve e muitos.
Esta é uma característica mais diferencial: a civilização orgulhosa não pode negar o
massacre desqualificado. Encobriram-se discursivamente os piores crimes do colonialismo: a
criminologia, de mãos dadas com a antropologia colonialista, naturalizou-os, dizendo que os
massacres eram inevitáveis. Mas isso já não pode ser encoberto.
A característica da criminalidade nazista – e a mais dolorosa e que a civilização se nega a
assumir– é que sintetiza como ninguém o fato de ter feito tudo o que outros haviam inventado e
o levou à prática de um modo tão inexorável, aplicando a máxima racionalidade funcional
moderna na fabricação de cadáveres (até chegar ao extremo de produzir sabão e cintos e
recolher obturações de ouro dos dentes), que apresenta juntas todas as características que os
outros massacres costumam oferecer separadamente.
O nazismo careceu da mais ínfima criatividade. Sua originalidade baseou-se somente em seu
brutal extremismo assassino: o racismo e o reducionismo biologista eram o paradigma dominante
em toda a Europa e nos Estados Unidos; a eugenia negativa estava legalizada nos Estados
Unidos desde 1907; o ódio nacionalista a havia alimentado na Primeira Guerra Mundial; a
mistura de tudo isso fora sustentada por Chamberlain no livro de cabeceira de Kaiser; o culto
natural da lei inexorável do mais forte era de Spencer; o antissemitismo era europeu e os reis
católicos haviam expulsado os judeus quatro séculos antes; os outros europeus os

estigmatizavam como deicidas e comedores de criancinhas; os condenavam a viver nos guetos e
impediam que eles tivessem acesso à propriedade imóvel; os ciganos eram perseguidos por toda
a Europa; a estigmatização e a punição dos gays se perdem nos tempos medievais; os franceses
antidreyfusianos reviveram o antissemitismo até o extremo; o trabalho escravo até o
esgotamento e a morte eram praticados em todo o colonialismo; o extermínio havia sido
praticado com os hereros; as técnicas de extermínio provinham da indústria.
Nada, o nazismo não inventou absolutamente nada, sua criatividade foi nula, recebeu tudo
da civilização, a única diferença foi uma brutalidade tão desqualificada que a linguagem não é
capaz de relatá-la, mesmo apelando para os vocábulos mais inadequados para o âmbito
acadêmico e que me eximo de reproduzir aqui (no bar o expressariam com maior clareza).
Essa brutalidade se explica porque o nazismo acreditou que se colocava na vanguarda da
civilização e a vanguarda da criminalidade não pode ser senão uma criminalidade ainda maior. É
isso que a civilização planetarizada não pode dissimular e tenta negar com o Sonderweg, que
não é mais do que outra forma de negacionismo de responsabilidade.

44. Os massacres e as guerras
Numerosos massacres pretenderam se confundir com guerras. Embora também seja um
crime (remeto-me a Juan Bautista Alberdi)[22], a guerra exige que haja duas forças armadas
regulares ou irregulares, porém mais ou menos simétricas. Se bem às vezes há massacres
coetâneos, decididos e executados aproveitando a guerra, nada têm a ver com ela mesma. Os
turcos aproveitaram a Primeira Guerra para massacrar os armênios, os nazistas fizeram o mesmo
com os judeus, ciganos, gays, dissidentes e doentes. Nem uns nem outros eram vencidos,
combatentes ou prisioneiros de guerra, como tampouco o era a população civil japonesa de
Hiroshima e Nagasaki.
Esses massacres parabélicos foram favorecidos porque, desde a Primeira Guerra (1914-1918),
a guerra deixou de ser travada apenas contra exércitos, passando a envolver a população,
apelando à sua substanciação como inimigo e como inferior, razão pela qual os mortos não só
eram efeitos colaterais, mas também começaram a ser produto de represálias sobre a população
civil.
Com a guerra total de Ludendorf os inimigos foram substancializados, e passaram a ser os
franceses, os alemães etc., ou seja, deixaram de ser indivíduos para converter-se em uma
manifestação dessa substância à qual usualmente se agrega algum genitivo excrementício. A
radicalização substancialista da guerra é o que se trata de provocar artificialmente fora da
hipótese bélica, e por isso todo massacre se disfarça de guerra, como já havia acontecido com a
invenção das pretensas guerras coloniais, disfarçando como tais as ocupações territoriais
policiais, das quais as guerras sujas do século passado não seriam mais que uma subcategoria
relativamente tardia.
Nossos territórios latino-americanos foram enormes campos de concentração e de trabalhos
forçados sob controle territorial policial dos colonizadores: não houve guerras, não houve forças
enfrentadas simetricamente armadas. As únicas guerras foram as de independência, mas não a
conquista. Algo análogo pode-se dizer do neocolonialismo, quando a Europa se arremessou
sobre a África depois do congresso de Berlim de 1885, como antes havia feito sobre o norte da
África, a Índia e a Oceania; tampouco houve guerras, e sim ocupações policiais.

Em 1918, o domínio imperial europeu estendia-se a uns 75 milhões de km2 e a
aproximadamente 600 milhões de pessoas. Desde 1895, quando as metralhadoras apareceram,
ficou ainda mais claro que não houve guerras, pois na batalha de Omdurman, no Sudão, os
britânicos massacraram, com elas, os derviches, inflingindo-lhes 11.000 baixas contra somente 49
em suas fileiras. É óbvio que isso não pode ser chamado de guerra.
As consequências dessas ocupações policiais de território foram desastrosas. Entre 1825 e
1830 os holandeses mataram cerca de 200.000 habitantes em Java, os portugueses uns 100.000
em Moçambique e os alemães 145.000 na África Oriental. A Argélia teve sua população reduzida
em 15% entre 1830 e 1870; em toda a África francesa a população diminuiu entre um terço e a
metade, no Congo Belga em cerca de 50% (10.000.000), no Sudão inglês passou de nove para
três milhões; algo análogo aconteceu na Oceania. A carestia cerealífera provocada pelo mercado
livre, somada à seca, provocou mais de trinta milhões de mortes no Sudeste Asiático, na Índia e
na África entre 1870 e 1890. Em 2 de outubro de 1904, o Império Alemão declarou que os
hereros do África sul-ocidental deixavam de ser cidadãos alemães – o mesmo que foi feito, trinta
anos depois, com os judeus – e entre essa data e 1906 foram exterminados.
Hannah Arendt disse, com razão, que os europeus praticaram seus métodos colonialistas
brutais e acabaram transferindo-os ao próprio coração europeu, mas – talvez por ficar tomando
chá com Heidegger– chegou tarde ao cinema: antes os romanos o haviam praticado em quase
toda Europa, os castelhanos haviam colonizado os muçulmanos do sul (embora falem de
reconquista) e haviam expulsado os judeus etc.
Se nos instalarmos no cinema antes de Hannah e olharmos o filme todo, veremos que existe
uma espécie de pulsão massacradora que se estendeu pela Europa e que, em seguida, a Europa
expulsou para outras sociedades indefesas que submeteu ao seu controle e exploração policial e
que, com o passar do tempo, refluiu e voltou a seu território. Isso indicaria que a tendência a
expandir-se, submeter e hegemonizar às custas de massacres estatais faz parte da civilização que
a Europa planetarizou.
Isso é tão certo que a planetarização massacradora continuou funcionando entre nós depois
de nossas independências: os massacres dos povos nativos também foram praticados por
governos pátrios, como a chamada campanha ao deserto argentina, a contenção das
mobilizações do Altiplano (Bolívia) contra a tentativa de reposição de um Wilka[23] por volta de
1900, Canudos, no Nordeste do Brasil, talvez mesmo nossas insensatas guerras civis e contra os
vizinhos etc.
Essa herança europeia se concretizou mais proximamente sob a forma de autocolonialismo.
Talvez por sua proximidade não percebamos sua verdadeira natureza, pois em alguma medida
assimilamos o colonizador, extremamente parecido conosco e próximo de nós. A expressão
autocolonialismo não deve ser descartada pelo fato de que tenha havido uma clara ingerência
de interesses forâneos em seu estabelecimento, porque embora isso seja inquestionável, também
o é que, sem condicionamentos endógenos favoráveis, o fenômeno não teria sido possível.
Quando lutava para manter seu poder colonial, primeiro sobre a Indochina e mais tarde sobre a
Argélia, a França apercebeu-se de que tinha de lutar contra um povo, porque, embora nem
todos fossem combatentes, a maior parte da população lhes prestava um considerável apoio e,
em particular, os escondia, permitindo que se confundissem com ela.
Nessas circunstâncias, os militares franceses inventaram a tese de que não se tratava de uma
guerra clássica, mas sim de combatentes irregulares que não respeitavam as leis da guerra e,
portanto, eles se consideravam livres da obrigação de respeitá-las e aptos a disseminar o terror

na população e detectar os combatentes, valendo-se de qualquer meio, em particular da tortura,
da conquista e da execução de reféns, das execuções sem processo, do desaparecimento forçado
de pessoas etc., o que mereceu a duríssima crítica de Jean-Paul Sartre no famoso prólogo a Franz
Fanon.
A tal efeito, esquentaram a guerra fria, alimentando uma guerra entre Oriente e Ocidente da
qual seu genocídio colonialista não era mais que uma batalha. Deixando de lado que Marx era
bem ocidental – o que, para os teóricos da guerra fria, não passava de um detalhe menor –,
nessa guerra suja, como era guerra, não cabia apelar ao direito penal, e como era suja
tampouco cabia respeitar as leis de guerra, reservadas para as limpas, razão pela qual eles a
deixavam em um limbo do não direito.
A mais completa síntese desta chamada doutrina foi exposta por Carl Schmitt, o velho
teórico nazista do Estado absoluto, que a enunciou na Espanha franquista, enquanto a França
julgava o general Raoul Salan, chefe da OAS, organização terrorista de extrema-direita
colonialista que havia tentado por várias vezes matar Charles De Gaulle, por considerá-lo um
traidor a sua causa.
Essa versão do colonialismo foi difundida a partir da Escola das Américas, no Panamá, e na
Argentina pelos mesmos franceses instalados em nosso ministério desde 1957. Desde aí
envenenaram a mente de nossa oficialidade militar, divulgando essas atrocidades com o nome de
doutrina da segurança nacional. No Cone Sul, as forças armadas, tomando como pretexto a
violência política na Argentina e os governos antipáticos aos partidários do Ocidente cristão e
liberal no Chile e no Brasil, cercaram-se de ideólogos dos movimentos de regressão da cidadania
real, verdadeiros defensores dos privilégios lesados pelos movimentos populistas de ampliação
da cidadania real. Eles os ajudaram a encetar uma guerra e degradaram-se à condição de forças
policiais de ocupação do próprio território, aplicando todas as técnicas do colonialismo francês
contra suas próprias populações.
O resultado foram os massacres dos anos setenta do século passado, com milhares de
mortos, torturados, presos, exilados e desaparecidos, e uma notória regressão da cidadania real,
destruidora dos projetos de Estados de bem-estar.

Ilustração 31

45. Quando se cometem os massacres?
Os massacres sempre pretenderam um controle territorial para limpar e homogeneizar,
higienizar, desinfetar, que começou dentro da própria Europa e que esta expeliu para o resto
do mundo através do colonialismo e do neocolonialismo, até que refluiu e voltou brutalmente
para a Europa, deixando múltiplos rastros pós-colonialistas em seu caminho. Porém, nesse
processo milenar houve sociedades que não perpetraram massacres. Vejamos, pois, quando eles
são cometidos.
Quando se praticam no próprio território requerem Estados policiais, salvo quando se trata
de massacres que, como continuação do colonialismo, são praticados contra os povos nativos: a
campanha ao deserto argentina, o roubo de crianças dos nativos australianos etc. Quando se
cometem fora do próprio território do Estado genocida, podem ser praticadas por Estados mais
ou menos liberais, como sucedeu no neocolonialismo ou no caso da Sérvia.
Girard lança a hipótese de que os massacres são levados a cabo por Estados débeis, que
procuram sair de suas crises, reafirmando seu poder mediante a construção do bode expiatório,
mostrando-o como responsável perante todos os demais.

Se deixarmos de lado a abstração Estado e nos referirmos ao grupo hegemônico
massacrador, isso costuma ser verdade. Os massacres dentro do território quase sempre foram
um instrumento de consolidação do poder de um grupo hegemônico que se sentia débil.
A Inquisição consolidava o poder papal, debilitado pelos grupos dissidentes e pelo poder
terreno. Os nazistas eram um pequeno partido que chegava ao poder com dissidências internas
e que se propunha a montar um Estado totalitário, para o qual necessitava concentrar
muitíssimo poder. O Império Otomano encontrava-se em uma crise de dissolução quando Talât
e seu bando de jovens turcos começaram a massacrar os armênios. Pol Pot tomou o poder no
Camboja com um partido que contava com poucos quadros. A Sérvia assistia à dissolução
iugoslava e perdia sua hegemonia. As minorias privilegiadas que apoiaram as ditaduras de
segurança nacional sul-americanas estavam sitiadas por maiorias que haviam adquirido
consciência de cidadania.
Tudo parece indicar que o bode expiatório aparece quando um grupo hegemônico débil
opta por criá-lo como forma de acumular poder. Isso não significa que seja um meio eficaz para
conseguir esse objetivo, pois, na maioria dos casos, no médio e no não muito longo prazo não
deu o resultado esperado. O Império Otomano se dissolveu e a Turquia até hoje não conseguiu
entrar na União Europeia; a Alemanha nazista acabou no desastre que todos conhecemos; o
regime de Pol Pot foi derrubado e o Camboja ficou sem profissionais nem serviços. Pode-se
afirmar, no máximo, que os beneficiados foram alguns corruptos.
A regra do grupo hegemônico débil não parece ser cumprida no caso do neocolonialismo;
contudo, a diferença está no fato de que se produz um deslocamento territorial do massacre e
do Estado policial que pressupõe.
Os grupos hegemônicos europeus eram débeis na segunda metade do século XIX: as
revoluções de 1848, a Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo, a miséria, as
massas urbanas, as ameaças dos vizinhos e do equilíbrio de opereta do continente ilustram bem
a debilidade e a violência difusa de Girard.
A identificação dos criminosos com os selvagens não foi uma invenção de Lombroso, mas sim
um estereótipo que tendia a unificar dois bodes expiatórios, quer dizer, o marginalizado interno e
o colonizado externo, o que justificava a importação da metrópole da polícia de ocupação
territorial das colônias.
O curioso é que em todos os casos em que um grupo hegemônico decide massacrar, emite
antes sinais claros que, no geral, são ignorados, inclusive pelas próprias vítimas.
O sinal mais inequívoco são as técnicas de neutralização no sentido de Sykes e Matza, que
vimos oportunamente. O risco se torna iminente quando estas deixam de ser difusas para
difundir-se e reiterar-se no público e, em particular, quando se tornam discurso do poder.
O massacre não pode ser levado a cabo se não conta com o apoio ou a indiferença da
população e com a convicção das agências executoras. Esse pressuposto depende da criação
prévia da realidade midiática, que instale o pânico moral (mundo paranoide), neutralizando os
valores dominantes.
Houve poloneses e lituanos linchando judeus, a população hutu matando tutsi etc. Ademais,
não é verdade que os executores integrados a um corpo hierarquizado atuem por obediência ou
temor; não se tem conhecimento de que os nazistas tenham dado morte a ninguém porque se
tenha negado a matar judeus.
Não acreditamos que a observação de que a tese de Sykes e Matza de 1957 parece ter sido
feita à medida dos massacres estatais possa se estender a todos os massacres.

Recordemos os tipos de técnicas enunciados por Sykes e Matza que vimos anteriormente: (1)
negação da própria responsabilidade; (2) do dano; (3) da vítima; (4) condenação dos
condenadores; e (5) apelação a lealdades superiores. Vejamos como operam estas categorias no
discurso dos massacradores.
A negação da própria responsabilidade nos massacres se caracteriza por definir situações
como de extrema necessidade e são criadas pelo grupo a que se pretende aniquilar. Por
conseguinte, o bode expiatório em todo massacre deve ser alguém que torne crível a atribuição
de um enorme poder, capaz de gerar o pânico moral.
Para isso se recorre a uma causalidade mágica, baseada sempre em uma urgência de
resposta.
A reclamação autoritária é sempre de urgência: dê-me uma resposta. Se você não gosta disso,
o que propõe? Examine a realidade. O que me diz disso? São expressões que escutamos todos os
dias por parte dos formadores de opinião da criminologia midiática.
Quando o conteúdo mágico é muito evidente, disfarça-se de científico. Quando ficou
demodé atribuir à relação com Satanás a capacidade dos judeus de causar as pestes, lhes foi
atribuída a posse de um veneno tão poderoso que podia matar toda a população; passou-se do
diabo à química.
O nazismo rodeava-se de cientistas para legitimar suas teses disparatadas e os
renascimentos cíclicos da frenologia o confirmam. Recordemos o experimento de Stanley
Milgram, na Universidade de Yale. Ele convidou os estudantes a participar de uma suposta
prova científica na qual um ator simulava sofrer descargas elétricas progressivas que o
convidado produziria com um aparato. Verificou-se que entre 60 e 80% dos convidados não se
detiveram diante da simulação de dor do ator. A autoridade da ciência gerou um verticalismo
obediente em pessoas normais, que não pararam frente ao sofrimento.
Cabe esclarecer que o pânico moral é quase sempre ilusório, mas não é alucinado, isto é,
deforma a realidade, mas raramente inventa tudo. Isso obedece ao fato de ser mais simples
alterar a percepção de um objeto real do que promover a de um inexistente. A existência de um
objeto portador de algo de perigo ou dano facilita a tarefa de manipulá-lo até fazer crer que é
necessário aniquilá-lo para sobreviver.
Em algumas ocasiões, alimenta-se o pânico moral com um fato desencadeador, cuja autoria
fica encoberta, como o incêndio do Reichstag ou o míssil que matou o presidente de Ruanda. Em
menor medida, as agências policiais autonomizadas valem-se de táticas iguais: permitem que se
cometam homicídios, provoquem ou incitem saques ou desordens, liberam zonas, para
precipitar o pânico moral.

Ilustração 32

Embora a fonte da pretensa emergência seja um fato deformado, seria demasiado ingênuo
crer que esses fatos desencadeiam os massacres, pois implicaria no fato de que esses dados reais
não tivessem existido, os massacres não teriam sido produzidos, o que acabaria por atribuir a
responsabilidade às vítimas, que é justamente o que os massacradores pretendem.
Na nossa opinião, na realidade, parece que tudo isso foi necessário, porque senão ia acabar
sendo inventado ou criado, mais cedo ou mais tarde, à custa de mais esforço. É óbvio que se de
cada perigo, conflito ou risco real derivasse um massacre, nenhum de nós estaria vivo. Há fatos
muito graves que desencadeiam até mesmo guerras civis, mas não massacres.
Esses fatos dão lugar à tese da provocação suficiente, mediante a qual o massacrador se
apresenta como alguém a quem as circunstâncias históricas colocaram na triste função
massacradora, e que, para salvar a comunidade, a civilização, a raça, ou a república (ou a sua
santa mãe, costumam acrescentar no bar) não há outro remédio senão sacrificar algumas vidas
como único meio de preservar o resto. Esta é a nada inovadora fórmula de Caifaz. Na Argentina,
foi chamada de teoria dos dois demônios.
A negação do dano (segunda técnica de Sykes e Matza) é uma técnica de comunicação,
segundo a qual nenhum massacrador quer assustar sua população mostrando suas atrocidades,
mas sim assustá-la ao mostrar aquelas que, segundo ele, o bode expiatório comete. Com isso
busca a participação ativa da população, embora a forma mais frequente desta sejam as

delações, que abrem espaço para múltiplos crimes triangulares, originados em qualquer ódio ou
frustração. Enquanto o poder punitivo está contido, a delação ou a denúncia falsa acarretam
poucos inconvenientes; porém, perante o poder massacrador se tornam assassinas, porque
qualquer um tem nas mãos um aparato homicida.
É mais fácil negar o dano quando os fatos têm lugar fora do território; por isso, quando
ocorrem no próprio território fomenta-se uma resistência a acreditar. Os habitantes dos bairros
residenciais das grandes cidades resistem a crer nas execuções sem processo que têm lugar nas
áreas marginais da mesma urbe, mostradas como enfrentamentos.
A revolução comunicacional não eliminou a negação do dano, como provam os casos da
Bósnia e de Ruanda; pelo contrário, a Rádio das Mil Colinas de Ruanda incitava publicamente ao
massacre, lançando mão de um tom juvenil, desinibido, com música popular do Zaire, que
contrastava com a tediosa rádio oficial e que faz lembrar alguns meios especializados de nossos
países.
A negação da vítima é outra técnica de neutralização indispensável na preparação do
massacre. O bode expiatório se constrói sempre sobre um preconceito prévio, que é uma
discriminação que hierarquiza seres humanos: negros, índios, judeus, albaneses, muçulmanos,
croatas, armênios, tutsis, hutus, gays, comunistas, degenerados, antissociais, imigrantes,
deficientes, pobres, ricos, habitantes urbanos, tudo o que, substancializado, permite considerálos subhumanos ou menos humanos e atribuir-lhes os piores crimes, construindo um coletivo eles
de malvados e daninhos que devem ser eliminados para que se possa sobreviver.
Dado que a negação da vítima nasce de uma discriminação, o bode expiatório
correspondente nem sempre está bem delimitado, nem sequer quando se apela a racismos.
Assim, a contaminação do sangue da eugenia estadunidense é um bom exemplo: não só eram os
negros, mas também os que tinham algum gene negro; o mesmo aconteceu com os ciganos na
Alemanha; entre hutus e tutsis não há diferenças notórias (falam a mesma língua e até praticam
a mesma religião) etc. Nos massacres políticos a identificação foi progressiva, pois os inimigos
iam se descobrindo na marcha e os amigos de hoje eram os inimigos de amanhã.
O bode expiatório deixa de ser pessoa porque passa a fazer parte de um eles, através do
fenômeno da substancialização, à qual já fizemos referência. Instala-se uma categoria de
pensamento, o outro diferente como parte de um todo maligno. Não se pode pensar no outro
como indivíduo, mas como pertencente a uma totalidade que tem um para quê maligno, com o
qual passa a ser uma coisa e deixa de ser uma pessoa.
À medida que a ideologia massacradora se estende à chamada opinião pública, aquele que
dissente sente medo da solidão, de ficar só no meio da multidão, se sente como o personagem
de Henrique V, de Luigi Pirandello, perguntando-se se o louco é ele ou são todos os outros.
A coisa vai se tornando perigosa, à medida que se atribuem a eles crimes mais graves, com o
que cada vez mais lhes é negada a condição de vítimas e se atribui a crise a causas morais
(como em todas as proclamações ditatoriais latino-americanas). Em primeiro lugar, são atribuídos
a eles crimes violentos; em segundo lugar, crimes sexuais. Em terceiro lugar, crimes contra o
simbólico e o sagrado (historicamente a profanação de hóstias, em muitos casos o ultraje a
símbolos nacionais).
Caberia pensar que, quanto maior a proximidade com os massacradores e a opinião pública,
mais diferente o bode expiatório deveria ser para tornar crível sua condição de todo maligno.
Não é assim: as vítimas locais são demasiado parecidas aos massacradores ou convivem com
estes há muito tempo.

O massacre do vizinho requer que este não seja totalmente diferente, mas que, por efeito do
narcisismo, segundo Freud, ou do mimetismo, segundo Girard, a diferença se estabeleça
potencializando características muito secundárias. Com detalhes mínimos, ele é convertido em
um estrangeiro, que não entende as hierarquias da sociedade e, por isso, é um anormal. Se o
que não se ajusta às hierarquias é o diferente, é mais fácil erigi-lo em inimigo da sociedade, mas
se ele é muito parecido é necessário elaborar a diferença, criar um estranho, o estrangeiro,
porque o estranho sempre gera suspeita e desconfiança, abre espaço para a paranoia
Seguindo com os tipos de técnicas de neutralização, que podem nos colocar na pista de
quando os massacres se produzem ou se avizinham, outro dos tipos comumente usados é a
condenação dos condenadores, pois os massacradores pretendem identificar todos os que
condenam seus crimes como traidores, idiotas úteis que não veem o perigo do inimigo,
obstáculos, ou encobridores dos crimes que se imputam a eles.
Não obstante, a condenação dos condenadores não é um simples recurso defensivo dos
criminosos de massa, pois estes neutralizam seus valores até o extremo em que não podem
retroceder, não só porque perderiam sua liderança, como também porque quando se afunda na
execução do massacre, o menor reconhecimento de suas atrocidades acarretaria seu
desmoronamento psíquico: não há aparato psíquico que resista ao formidável grau de culpa que
esse reconhecimento geraria. Girard afirma que odeiam sem causa, mas não sabem disso.
Agregaríamos que não podem se permitir sabê-lo, nem sequer duvidar minimamente: a dúvida
os levaria à catástrofe psíquica.
Daí que não há massacradores arrependidos, salvo entre os níveis participativos mais baixos
ou entre os corruptos que lhes somam para cometer latrocínios ou negociatas, mas os autênticos
responsáveis só podem admitir alguns excessos inevitáveis como efeitos colaterais da guerra que
forjam ilusões.
O último tipo de técnica de neutralização é um componente ideológico presente em todos
os massacres, que é a invocação de lealdades superiores, onde encontramos todas as construções
megalômanas que fazem que o nós adquira dimensões míticas: a Volksgemeinschaft, a Grande
Sérvia, o poder hutu, a Camboja democrática, a Indonésia ocidental, o Ocidente cristão etc.
Como regra geral, esses criminosos não fazem por menos em matéria de projetos delirantes.

46. Com o quê? E quem?
Ao responder à quinta pergunta de ouro – Com o quê os massacres são cometidos? –, nos
vemos diante do ponto crucial para a criminologia, pois a resposta, à luz da experiência
histórica, é redonda: com o poder punitivo.
A Gestapo e as SS foram agências policiais; o massacre cambojano foi nitidamente policial;
no genocídio armênio participaram presos libertados para isso; no dos tutsis, foram libertados
presos portadores de HIV, que foram encarregados da violação das mulheres hutus. As agências
executivas do sistema penal estiveram presentes em todos os genocídios. Em determinadas
ocasiões, foram as forças armadas, mas não em função bélica, e sim assumindo funções policiais,
como nas ditaduras de segurança nacional.
A fragmentação do governo dissimula essa realidade, em particular no caso das empresas
colonizadoras, porque não foram levadas a cabo pelas polícias urbanas das metrópoles, assim
como as ditaduras de segurança nacional tampouco estiveram comandadas por policiais

uniformizados como tais, embora as agências policiais em sentido estrito tenham tido uma
participação importante: a investigação histórica prova a cooperação do aparato penal com as
SS, e a cooperação policial foi indispensável nas ditaduras de segurança nacional.
De qualquer maneira, o importante é que, fossse qual fosse o corpo armado (policiais,
militares, organizações políticas uniformizadas, parapoliciais, paramilitares, capatazes, bandos),
sempre atuaram na função punitiva.
Não é essa a visão tradicional a respeito do neocolonialismo, porque parece que as
empresas deste nada têm a ver com os controles policiais metropolitanos. Mas insistimos em
algo que muda a perspectiva: não foi a função policial metropolitana que se estendeu ao
colonialismo, mas sim a ocupação colonialista que inspirou a extensão da função policial às
metrópoles, colocando-a sob um controle militar mais rígido, visando, com isso, dotá-la de
especificidade controladora. Por isso, como vimos, não houve guerras coloniais, mas sim
ocupações policiais de território.
Controlar o território, massacrar os rebeldes e os ocupantes indesejáveis, forçar ao trabalho,
castigar os renitentes são atividades próprias de uma função policial de controle territorial. As
repressões aos índios revoltosos e aos escravos prófugos nos quilombos são tarefas próprias da
ocupação policial do território e pouco importa como se tenham denominado seus executores,
nem o uniforme que tenham usado, pois o que interessa é a natureza da função que cumpriram.
No século passado, quando o massacre se produziu em Estados com agências policiais e
militares de alto nível técnico especializado, as cúpulas tiveram de proceder a uma depuração,
separando os resistentes ou relegando-os a atividades secundárias e privilegiando os guerreiros
ideológicos, que se colocam à frente da execução. No geral, estes são oportunistas, ávidos por
escalar posições na agência, saltando degraus e hierarquias mediante sobreatuações, como
costuma suceder em toda corporação.
Isso cumpre uma dupla função: por um lado, facilita a execução e, por outro, oferece
cobertura às cúpulas, que podem alegar excessos não autorizados, quando na realidade não são
mais que consequências inevitáveis de suas orientações.
Em qualquer caso, é preciso distinguir diferentes níveis de executores. Os executores
materiais, regra geral, são muito jovens e às vezes até adolescentes, e é possível que os
massacradores de escritório não tenham exercido alguma violência.
A sensação de onipotência de dispor da vida de um semelhante, tê-lo à disposição, sentir
seu medo exerce uma atração fascinante, em particular sobre os muito jovens. Daí que o
recrutamento dos executores materiais selecione, preferencialmente, jovens e adolescentes ou
adultos com transtornos de personalidade, pois é sabido que a onipotência é sinal de
imaturidade emocional e o massacrador explora esse distúrbio, assim como o psicólogo
industrial malvado aconselha o empresário sobre como explorar a patologia do empregado, pois
não é qualquer um que está disposto a massacrar.
O caso cambojano é muito sugestivo, pois chegaram a recrutar marginais, vagabundos,
alcoólatras, traficantes, bandidos e analfabetos, e lhes foi atribuída autoridade policial. Os
historiadores desse massacre se assombram com a mudança de personalidade experimentada
por essas pessoas. A rigor, trata-se de um processo inverso ao da estigmatização: se um
segregado passa a ser respeitado e temido e a ter um lugar no mundo, sua autopercepção muda
totalmente. E não há dúvida de que a base dessa transformação foi a obediência cega. O
recrutamento de marginais também não foi estranho à tática do Partido Nazista.
Embora o criminólogo fique extremamente impressionado ao verificar que os massacres

foram cometidos pelas agências do poder punitivo, ou pelas que assumiram essa função, o certo
é que as agências executivas nunca massacraram sem prévia decisão ou indiferença das cúpulas
governamentais que as toleram ou desejam, quando não as estimulam.
No caso mais caótico das últimas décadas, que foi o de Ruanda, a aparente espontaneidade
não era assim tão grande, pois os chefes da comunidade estavam envolvidos e eles eram
estimulados pelo grupo no poder e instigados por uma emissora de rádio, tudo diante da
indiferença das forças armadas e dos policiais.
Isso nos leva à sexta pergunta de ouro da criminalística: quem? Esta pergunta não pode ser
respondida com referência aos executores materiais e nem sequer aos massacradores de
escritório, que bem podem ser burocratas. Quando nos perguntamos quem, estamos nos
referindo às cúpulas do poder massacrador e a seus ideólogos.
O surpreendente é que em quase todos os casos nos deparamos com intelectuais que
elaboraram suas técnicas de neutralização e que, com frequência, as colocaram em prática, como
no caso de Alfred Rosenberg, que não apenas deu sua contribuição intelectual, como também foi
quem comandou os massacres na Europa ocupada.
Ziya Gökalp foi um sociólogo que mesclava Durkheim com Herder e Fichte e dessa mescla
obtinha o nacionalismo que o genocida Mehmet Talât defendia, e que foi executado pelos
armênios em uma rua de Berlim. Outro intelectual do nacionalismo foi Yusuf Akçura, que
teorizava que os armênios eram um corpo estranho em uma Turquía etnicamente definida.
Está fora de qualquer dúvida que a elite dirigente do nazismo, que planejou os mais atrozes
massacres, era integrada, em sua quase totalidade, por universitários com titulação máxima.
Hendrik Frensch Verwoerd, o criador do regime do apartheid na África do Sul e que dispôs
sobre os deslocamentos maciços da população negra, também foi um acadêmico.
O ideólogo sérvio Jovan Raskovic, que mesclava argumentos psicanalíticos, religiosos e
nacionalistas para alimentar a limpeza étnica foi um psiquiatra, membro da Academia e visiting
professor em várias universidades europeias. Suas afirmações eram do tipo A realidade humana
se enriquece com a destruição de mundos interiores. É nos cataclismos que se revela a realidade
étnica do povo sérvio... Povo de destino trágico, divino, povo da vida e da morte. A conjunção do
céu e de nosso destino nacional encontra-se na origem de nossa identidade étnica. Considerava
que os croatas estavam feminilizados pela religião católica, padecendo de um complexo de
castração que os submetia a uma total incapacidade para exercer qualquer autoridade, que os
muçulmanos e as populações vizinhas eram vítimas de frustrações retais, que os levam a
acumular riquezas. Para terminar, os sérvios ortodoxos são o povo edipiano, destinado a libertarse do pai. Semelhante mistura de Freud com Adler, Darwin e mística, não obstante, não deixava
de ser uma elaborada técnica de neutralização.
Após sua morte, foi sucedido por outro psiquiatra, Rodovan Karadzic, que está sob
julgamento em Haia.
Não esgotamos, com ele, a lista de ideólogos de regimes massacradores, alguns muito mais
refinados e sofisticados do que o psiquiatra sérvio trambiqueiro. Mencionamos, reiteradas vezes,
Carl Schmitt, como teórico penetrante e grande arrivista nazista. Charles Maurras foi um hábil
jornalista, que conseguia misturar tudo para proporcionar certa ideologia aos inimigos de
Dreyfus e ao vergonhoso regime de Vichy. Giovanni Gentile foi, sem dúvida, um filósofo
consistente e acompanhou o fascismo até o final.
Talvez o caso mais interessante seja o do Camboja, pois Pol Pot e seu grupo se formaram
nas universidades francesas, quase todos como pedagogos, entre os quais Duck, o encarregado

dos expurgos e das execuções, que forçava confissões sob tortura, que depois lia e marcava com
o temível lápis vermelho de nossa infância escolar.
As ideias dos maoístas franceses tiveram eco nesses intelectuais durante sua formação, mas
estamos certos de que os estudantes franceses não imaginaram o efeito dessas ideias na mente
daqueles que voltaram a uma realidade como a do Camboja, sobre cujo território Nixon e
Kissinger haviam lançado mais bombas do que sobre o Japão na Segunda Guerra, com voos
rasantes que aniquilaram pequenos povoados camponeses e deixaram um ressentimento
enorme.
Cabe perguntar se os massacres cometidos em nossa região tiveram ideólogos. Sem dúvida
que, se nos referimos aos massacres do século XIX e em particular aos que nossos povos nativos
sofreram, mesmo depois da emancipação, eles os tiveram: toda criminologia positivista e racista,
em alguma medida o foi. Não me refiro, porém, a massacres tão antigos, mas sim aos mais
recentes, da segunda metade do século XX e em especial os da segurança nacional. Creio que
não podemos confundir um ideólogo, que pelo menos apresente alguns assomos originais, por
disparatados que sejam, com repetidores de teses francesas ou estadunidenses. Golbery do
Couto e Silva e Augusto Pinochet escreveram livros, mas com elaboração simplista e importada,
reiterando os elementos infeccionados do autocolonialismo. Certamente houve intelectuais a
serviço de nossas ditaduras massacradoras, mas esses escribas ocasionais não merecem esse
nível de consideração. A ideologia de nossos massacres era completamente colonizada.

Ilustração 33

47. Por quê?
Reservamos para o final a pergunta acerca do porquê dos massacres. O que leva um grupo
no poder a montar um Estado policial, a eliminar as limitações de seu poder e a aniquilar uma
massa humana que rotula e substancializa como inimiga?

É certo que assinalar um inimigo é um modo de canalizar mal-estar e vingança, pois colocar
todo o mal na cabeça de um grupo é um fortíssimo recurso político, por mais amoral que seja,
mas sempre muito eficaz, a ponto de um teórico psicopata como Carl Schmitt o considerar a
essência da política.
Porém, indo além dessa constatação, cabe perguntar o que é que move um grupo humano a
buscar semelhante acúmulo de poder atrás de um poder absoluto, ao qual nunca se chega e que
termina em sua própria ruína. Chama a atenção que esse recurso se reitere sem desgastar-se ao
longo de milênios, apesar de se saber que, se ninguém o detém, ele acaba sempre em um
massacre, cuja proximidade muitas das próprias vítimas nem sequer detectam.
Trata-se de perguntas que são cruciais para qualquer tentativa séria de prevenção de
massacres.
Vimos que, para nos aproximar um pouco das respostas, devemos sair da criminologia e
olhar para outros campos do conhecimento. Foi assim que recordamos que, a partir da
psicologia, Norman Brown corrigia as teses dos últimos anos de Freud, atribuindo a uma
patologia civilizatória o impulso à acumulação indefinida de riquezas que milhares de vidas
muito longevas não poderiam consumir, lançando a ideia de que a história humana seria a
história de uma neurose, que obedeceria à incapacidade de incorporar a morte, pois, ao separála radicalmente da vida, provocaria uma ambivalência irredutível.
Definitivamente, os bens dão poder e, portanto, o que se persegue é uma busca indefinida
de poder, que compreende também o acúmulo do saber como poder, na forma de saber
senhorial, do Dominus.
Resulta daí que a sociedade moderna apresenta características mórbidas a respeito dos
esquemas que regem a busca do conhecimento, que têm por meta a dominação dos sujeitos. O
capitalismo selvagem, estimulador da acumulação indefinida, seria a expressão dessa neurose
civilizatória que, ao assinalar como meta dominante a acumulação de riqueza, levaria à negação
de Eros, à sublimação do corpo: a riqueza se torna um fim em si mesmo, o corpo se neutraliza e
Tanatos, a pulsão da morte, triunfa.
Vimos antes que uma acumulação infinita de poder pressupõe a ideia do tempo linear, em
forma de flecha, que supera a existência individual e não retorna, e que sobre essa mesma ideia
do tempo se assenta a vingança, a cujo respeito recordamos Nietzsche: a vingança é sempre
vingança contra o tempo, porque não se pode fazer que o que foi não tenha sido.
Consequentemente, a ideia linear do tempo é pressuposto tanto da acumulação indefinida
de poder como da vingança. Também vimos como o saber senhorial, ou seja, a ciência do
dominus, leva à coisificação da pessoa e impede qualquer diálogo, acabando em um fenômeno
de retroalimentação perigoso.
Tanto a neurose civilizatória quanto a acumulação senhorial do saber, ambas apoiadas, da
mesma forma que a vingança, sobre a ideia linear do tempo, embora sejam explicadas de forma
muito convincente, parecem permanecer nos fatos do último milênio, mas os massacres não se
limitam à nossa civilização dominante, moderna e pré-moderna. Os massacres costumam ser
encobertos com visões religiosas e são tão antigos como a religião e, como ela, são pré-estatais,
pois apareceram em sociedades com organizações muito diferentes das modernas e também
muito distintas entre si.
Esta constatação abre espaço para uma tese que subjaz a Hobbes e que se deforma até a
aberração em todo o imoralismo que pretende legitimar o Estado policial como a única forma
possível de organização social, que é a naturalização dos massacres.

Segundo essa tese, a persistência e a antiguidade do fenômeno responderiam a razões
biológicas, ou seja, a algo não mutável da biologia humana. A lógica naturalizante é impecável:
se viemos com uma falha genética e o gene perverso nos leva à violência, sigamos adiante, por
esse caminho que vamos bem, ao estilo de Carl Schmitt.
Essa lógica massacradora podia ser sustentada no século passado com um certo ar de
indiferença e até de soberba, porque os massacres mataram um habitante do planeta em cada
50, mas sobraram 49.
Michel Serres afirmou em seu Atlas (1994) que desde Hiroshima aparece o temor de uma
nova morte: a da espécie. Faz tempo, porém, vem-se observando que o avanço tecnológico abre
hoje a possibilidade de um massacre que afeta toda a espécie, não mais através de um conflito
bélico, mas pelo próprio sistema de produção que, na sua busca de acúmulo de bens, não se
detém nem sequer diante do risco do aniquilamento total da vida humana.
Quando nos referimos à cautela de Spee, o certo é que, com este ou com outro nome, sua
recomendação sobrevoa o pensamento contemporâneo. É claro que responde a esse princípio a
ética da responsabilidade de Hans Jonas, cujo imperativo poderá ser sintetizado na fórmula
trabalhe de maneira tal que os efeitos de sua ação não destruam a possibilidade de uma vida
futura.
O naturalista francês do Saara, Theodor Monod, propôs que os cefalópodes do fundo dos
mares substituíssem, depois de alguns milhões de anos, os humanos extintos por sua violência
intraespecífica. Parece que cada vez que comemos um polvo à galega estamos massacrando
aqueles que poderão nos suceder. Imaginemos um polvo de cabeça grande e inteligente, daqui a
alguns milhões de anos, dedicado à arqueologia, descrevendo como uma espécie de gigantes
tontos foi extinta por ter os braços longe da cabeça.

A amoral e irresponsável tese da naturalização dos massacres significa hoje, digamos
claramente, impulsionar massacres muito maiores do que os passados. Pouco tempo nos restaria
no planeta se essa tese estivesse correta. (No bar, me dizem algo assim como pare esse mundo
louco que eu quero descer. Outro reflete: querendo agarrar o anel, não nos damos conta de que o
brinquedo não para mais.)
Mas não é necessário apelar para antidepressivos, pois não existe prova alguma dessa
fatalidade biológica da espécie. Recordemos que, se olharmos o nosso planeta em tempos
geológicos, ou seja, desde seu aparecimento, e imaginemos isso como uma semana, nós
chegamos à sua superficie uns poucos segundos antes da meia-noite do domingo.
Ao longo de nossa breve história sobre o pequeno planeta que ocupamos um número
excessivamente grande de produtos culturais foi considerado natural – como a escravidão ou as
hierarquias racistas – e, em consequência, não podemos deixar de suspeitar que a pretensa
fatalidade dos massacres seja também um produto cultural politicamente naturalizado. Assim, há
umas tantas coisas que podemos fazer para que o brinquedo não nos arraste e para continuar
comendo polvo à galega com certa paz de consciência.

48. O que a criminologia pode fazer?
Os massacres são um crime (o mais grave de todos) e quando se trata de prevenir o delito,
sabe-se, desde sempre, que há dois níveis de prevenção: a prevenção primária, que vai à raiz

social do conflito (por exemplo, em delitos de rua contra a propriedade em geral, a renda per
capita e a estratificação social muito marcada), e a prevenção secundária, que é a que opera
contra o próprio fato (a segurança pública, a polícia e o aparato penal).
A respeito dos massacres, seria prevenção primária corrigir nossa neurose civilizatória e
deter o efeito acelerador do capitalismo selvagem. Obviamente estas não são tarefas que
correspondem à criminologia, e sim à toda humanidade, mas é sobre aquelas que esta deve
alertar.
Quando nós, criminólogos, descemos da cátedra e tomamos o ônibus na esquina somos
seres humanos que votamos em alguém, que nos filiamos a um partido ou a um sindicato, que
participamos de um protesto, que nos associamos à entidade de proteção dos animais, que
discutimos a partida de futebol de domingo etc., ou seja, nos integramos à dinâmica social e,
embora seja por um ato de fé, supomos que esta nos levará a uma sociedade um pouco melhor,
capaz de neutralizar um dia nossa neurose civilizatória assentada sobre o tempo linear e a
vingança. Porém, enquanto isso, e como criminólogos, temos algumas tarefas para casa: a
princípio, chamar a atenção sobre a necessidade de preservar os espaços de liberdade social
necessários para a dinâmica social, isto é, para a mudança que permita essa sociedade melhor.
E, ademais, trabalhar sobre a prevenção especial dos massacres.

Ilustração 34

Para essas tarefas para o lugar contamos com umas tantas pistas que as últimas palavras da
academia e outras palavras provenientes da psicologia e da etnologia nos proporcionam, as
quais mencionamos antes.
A princípio, verificamos que os sistemas penais canalizam a violência vingativa, mas
também, que quando esse mesmo poder rompe os diques de contenção, lhe opomos operadores
do segmento jurídico – ou quando estes faltam à sua tarefa– o poder punitivo eclode em
massacres, cujos autores são precisamente aqueles que, segundo o discurso, têm a função de
preveni-los. (Se não o controlas, nos destrói, observaría o sociólogo da esquina.)
Por isso, acreditamos firmemente que o jurista – o penalista, não o criminólogos – deve

deixar de lado as racionalizações com que pretende explicar a pena, para aceitar que esta
responde a um conteúdo irracional – a vingança – e, portanto, sua primordial e quase única
função seria a de contê-la, com o que chegaríamos a uma política criminológica que responda ao
convite à cautela do velho Spee.
O saber dos juristas recuperaria, desse modo, uma hierarquía e dignidade que vai perdendo,
à medida que busca desesperadamente moldar-se a uma técnica politicamente sem vitalidade.
(O sociólogo da esquina se irritaria: Esses engraçadinhos querem gozar a nossa cara? Se isso
não é política o que é? – aqui intercalaria uma palavra que omito – Acontece que não nascemos
ontem.)
O direito penal concebido como contenção jurídica das pulsões vingativas do poder punitivo
e, portanto, como garantia do estado de direito, assumiria, no momento político, um papel
equivalente ao do direito humanitário no momento bélico; ambos serviriam para conter um
factum: à guerra, o direito internacional humanitário e, ao poder punitivo, o direito penal.
(Obviamente, tudo na medida de seu limitado poder de contenção.)
Devido a essa característica do poder punitivo é que não podemos acreditar que esse
mesmo poder seja capaz de prevenir os massacres, pois seria como colocar a raposa para cuidar
do galinheiro. O poder punitivo, pelo fato de internacionalizar-se, não perde seu carácter
seletivo, e sim, pelo contrário, até parece que o acentua ainda mais. Perante os tribunais
internacionais comparecem apenas alguns que perderam o poder nos Estados periféricos e as
grandes potências já não necessitam deles. (O internacionalista do bar, que lê o jornal inteiro,
observa: Sim, algum negro da África vai ali. E vejam o que fizeram com esse Sadam. E o outro?
Como se chama? Esse Bin Laden. O que aconteceu? Eles se meteram na casa do homem, fizeram
peneira dele e ninguém disse nada.)
De qualquer maneira, o poder punitivo internacionalizado cumpre funções úteis, tanto
práticas quanto teóricas. No prático, serve para evitar um possível caos por descontrole do
princípio universal segundo o qual qualquer Estado pode julgar um crime contra a humanidade,
mesmo se este não se tenha produzido em seu território. O princípio é muito lindo, porém se
não se coloca um pouco de ordem, corre-se o risco de que cada um queira julgar o vizinho.
Há, porém, algo mais importante. Quando o criminoso contra a humanidade não é
submetido a um julgamento, ele fica, na prática, em uma condição de não pessoa. Se alguém o
condena à morte, um tribunal imparcial não poderia condenar o homicida ou executor. Isso se
viu nos poucos casos em que aconteceu: assim, na morte de Mussolini e seus acompanhantes,
em que a justiça encerrou o caso fantaseando que foi um ato de guerra, ou no caso do jovem
armênio executor de Talât, em que o tribunal alemão inventou que era inimputável. (O
internacionalista continua refletindo: Claro, se alguém o barrar, os juízes não podem dizer nada,
ficam parados.)
O direito que não julga o criminoso contra a humanidade perde força ética e, embora
nenhuma sentença o afirme e as poucas que houve o dissimulem com invenções, deve-se
reconhecer que a impunidade o deixou na condição de não pessoa. Ao julgá-lo com as devidas
garantias, o direito se reivindica e o restaura na condição da qual o próprio genocida saiu por
causa de seu crime.
Com isso, porém, os massacres não são evitados e, portanto, a criminologia deve se
defrontar com o tema esquecido, com o detalhe que deixou no tinteiro, que são os mais de
100.000.000 de mortos do século passado. A princípio, visto que os massacres se anunciam com
técnicas de neutralização de valores, a criminologia deve abandonar sua incrível pretensão

asséptica para entrar no campo da crítica das ideologias, com o objetivo de analisar as palavras
e estabelecer quando estas constituem uma técnica de preparação de massacres mediante
discursos vingativos, mesmo penais e criminológicos. Todos os dias, com as discriminações, são
lançadas sementes de massacres que, por sorte não brotam.
Não é simples para um saber que pretendeu se apresentar como neutro por crer que isso é
condição do científico, quando na realidade o é a renúncia ao conhecimento da dimensão de
poder do saber.
Se bem que o primeiro sinal é dado pelas técnicas de neutralização, visto saber-se que o
agente dos massacres é o poder punitivo, é claro que, além do mais, a criminologia deve se
ocupar de observar muito de perto o exercício deste poder e, em particular, as práticas de suas
agências executivas.
É duro aceitar que nunca se havia reconhecido que o agente dos massacres é o mesmo que
supostamente está encarregado da prevenção dos homicídios, apesar de que isso sempre esteve
muito à vista. A participação das agências executivas do poder punitivo nos massacres foi
considerada como uma patologia institucional, mas o certo é que, desde os séculos XI e XII até o
presente, sempre ficou manifesta sua tendência a se descontrolar, sob o pretexto de combater
inimigos que geram emergências de risco iminente para a humanidade e frente às quais nunca se
fez nada de eficaz. Levamos 800 anos criando inimigos, erigindo bodes expiatórios e cometendo
massacres.
Desde a segunda metade do século passado fica claro para a criminologia que o poder
punitivo, com sua seletividade estrutural, criminaliza umas poucas pessoas e as usa para
projetar-se como neutralizador da maldade social. Apresenta-se como o poder racional que
encerra a irracionalidade em prisões e manicômios. Assim enfeitado, canaliza as pulsões de
vingança, o que lhe proporciona uma formidável eficácia política, que não se explica por
circunstâncias conjunturais, pois se mantém inalterada ao longo da história do poder punitivo
estatal e mesmo pré-estatal.
Para o inimigo – que, em determinadas ocasiões, se torna bode expiatório – é construída
uma agência empresária moral que hegemoniza o discurso punitivo e o poder massacrador, até
que outra agência o dispute, começando por negar o risco e a periculosidade do inimigo
construído pela anterior, mas para construir outro, como o verdadeiro ou novo perigo gerador
de outra emergência e de outro possível bode expiatório.
Se a inquisição romana contra as bruxas decaiu, e foi substituída por sua nova orientação
contra os reformados foi porque a corporação jesuíta substituiu os dominicanos.
Entre a hegemonia decadente de uma agência e a ascensão da seguinte (no momento da
crítica discursiva praticada para debilitar a anterior) abre-se uma brecha, pela qual avança
secularmente o discurso crítico do poder punitivo, ou seja, o direito penal de contenção ou
redução, que vai instalando o consequente estado de direito no plano político.
Costuma se chamar o primeiro de direito penal autoritário e o segundo de direito penal
liberal¸ embora essas denominações correspondam a séculos muito posteriores ao início desse
movimento pendular.
Apesar de o poder punitivo descontrolado sempre renove a mesma estrutura discursiva, que
é originária do Malleus maleficarum, seu conteúdo varia integralmente, de acordo com o inimigo
eleito, ainda que invariavelmente reduza todo o direito penal à coerção direta (direito
administrativo), pois supsotamente combate um processo lesivo em curso, e suas penas são,
todas elas, formas de coerção direta ou exercício de poder de polícia administrativo.

Como se pretende que um mal gravíssimo está a ponto de nos fazer desaparecer, tudo o que
se faz é policial, nada deve obstaculizar a suposta tarefa salvadora, contra o inimigo vale tudo,
se se comete algum erro ou algum excesso é desculpável porque acontece em todas as guerras;
embora se faça o maior esforço, os erros são inevitáveis e, no fragor da luta, não se pode conter
completamente os rapazes.
Rompe-se a diferença entre o poder punitivo e a coerção direta administrativa, toda
violência para desbaratar o inimigo torna-se legítima através da pretensa necessidade ou da
legítima defesa. Esse é o discurso legitimante da tortura próprio da ideologia da segurança
nacional no sul da América trinta anos atrás e no norte hoje: anulada a diferença entre poder
punitivo e coerção direta, torcer o braço de um sujeito ou aplicar-lhe uma bofetada para tirar
dele a chave com a qual será desarmada a bomba amarrada no berço de um bebê é a mesma
coisa que organizar e planejar a submissão à tortura de um membro de um bando ou de um
grupo político violento para desbaratá-lo.
O direito penal de contenção, por sua vez, tem também, desde suas origens, a mesma
estrutura discursiva, que é a da Cautio criminalis, de Spee, só que, diferentemente do
inquisitorial, seus conteúdos não mudam, e sim aumentam e se aperfeiçoam, com as sucessivas
experiências de crítica às pulsões policiais e de capitalização da experiência dos massacres
passados.
As garantias não são inventos para encobrir criminosos, como pretende a criminología
midiática, e sim resultado das experiências massacradoras anteriores dos Estados policiais.
Quando o poder punitivo se descontrola, o fenômeno passa diretamente à teoria política,
porque surge o Estado policial com tendência ao absolutismo.
A política criminal que se espraia pelo mundo, inspirada no chamado neopunitivismo das
administrações republicanas dos Estados Unidos e promovida pela criminologia midiática, oculta
o fato conhecido de que o poder punitivo sem contenção passa de canalizador a executor da
própria vingança e, portanto, executor do aniquilamento da vítima expiatória.
Como consequência, a primeira medida para uma adequada prevenção secundária da
conflitividade que descamba na violência difusa consistiria em esgotar as possibilidades dos
modelos de solução efetiva de conflitos (como os reparadores, restitutivos, terapêuticos e
conciliadores, entre outros), limitando a aplicação do modelo punitivo aos poucos casos em que
seja absolutamente necessário por não serem os outros modelos culturalmente admissíveis.
Isso significa que a política criminal que impera no mundo necessita urgentemente girar em
sentido inverso, vindo a se converter em um fator que acabe com o alto nível de conflitividade,
ou, pelo menos, que a partir da periferia não podemos nos curvar e copiá-la na forma suicida
com que a criminologia midiática o faz.
A desintegração provocada pela conflitividade pode neutralizar-se de duas formas:
potencializando os modelos eficazes de solução dos conflitos, o que reforçaria a coesão social,
ou com o sacrifício da vítima expiatória, ou seja, com o massacre. Se quisermos evitar este
último, é óbvio que se impõe fortalecer a outra alternativa, e o mais contraindicado é
potencializar o poder punitivo, ou seja, acelerar o caminho para o massacre.
Os juristas costumam desculpar-se, argumentando que nada podem fazer frente o poder
punitivo, e que é melhor buscar refúgio no pragmático.
Essa objeção subestima o poder do discurso, que é precisamente o ponto em que os juristas
não devem ceder. O poder se exerce com o discurso, o que os ditadores sempre souberam, pois
de outro modo as censuras nunca teriam existido. Embora não seja o mesmo poder de que as

agências executivas do sistema penal dispõem, o certo é que estas, sem o discurso, ficam
deslegitimadas e o poder sem discurso, embora possa causar grave dano antes de ser derrubado,
definitivamente, não se sustenta muito tempo.
Não me canso de repetir as palavras de André Glucksman: o que os que sobem ao poder
necessitam hoje, além de uma boa tropa, aguardente e salsicha? Necessitam do texto. Se o
penalismo em massa lhes retirasse o texto, a incitação pública à vingança ficaria reduzida ao que
é: pura publicidade midiática, empenhada em destruir, até suas raízes, qualquer tentativa de
ressurgimento do Estado social, mas com as limitações que toda publicidade de produto
comercial conhece.
Sintetizando, julgamos que a contribuição da criminologia à prevenção dos massacres deve
consistir (a) em primeiro lugar, na análise crítica dos textos suspeitos de ocultar técnicas de
neutralização; (b) em segundo lugar, deve estudar os efeitos da habilitação irresponsável do
poder punitivo e advertir os juristas e os políticos sobre seus riscos; (c) em terceiro lugar, deve
investigar a realidade violenta, aplicando as técnicas próprias da investigação social de campo,
para (d) neutralizar, com dados reais, a criminologia midiática e (e) adquirir prática
comunicacional midiática para revelar publicamente sua causalidade mágica. Por último (f), deve
analisar as conflitividades violentas em todas as suas particularidades locais, a fim de apontar o
caminho mais adequado para desmotivar os comportamentos violentos e motivar os menos
violentos.
Essa é, sem dúvida, uma tarefa teórica, mas também prática e militante, pois deve fazer
chegar seus conhecimentos a todos os estamentos comprometidos no funcionamento do sistema
penal.
Se a criminologia não conseguir convencê-los, ao menos lhes provocará consciência pesada
e com isso fará com que eles nunca cheguem a ser perpetradores ingênuos de massacres. Se os
cometerem, terão plena consciência de sua ilegalidade e atrocidade, o que é sempre um
importante fator preventivo, tendo em conta que os cadáveres sempre voltam e que, em
muitíssimas ocasiões – diria que na maioria delas – o massacre nunca foi um bom negócio para o
grupo de poder que decidiu fazê-lo e menos ainda para os instrumentos humanos de que se
valeu.
A criminologia passou por duas etapas diante dos massacres: a primeira foi de legitimação
dos massacres, com o reducionismo biológico e as dissimulações posteriores, na qual viu os
cadáveres e os considerou normais. Em seguida, passou por uma etapa negacionista por
omissão, na qual ninguém se ocupou do tema; nesta, os cadáveres foram silenciados. Essa etapa
chega a seu fim, pois já é insustentável no mundo contemporâneo; é hora de encerrá-la e fazer
uma mea culpa considerável. Chega-se, então, à terceira etapa, que é a que chamo de
criminologia cautelar.
Assim designamos a criminologia que proporciona a informação necessária e alerta a
respeito do transbordamento do poder punitivo, suscetível de produzir um massacre.
Não se trata de uma criminologia abolicionista, pois, como temos dito, isso implica um
projeto de nova sociedade que nós, criminólogos, não estamos em condições de formular, ao
menos enquanto tais.
Trata-se somente de uma criminologia de prudência, de cautela, como indicava o jesuíta
Spee. Definitivamente, tampouco hoje sabemos com segurança se as bruxas existem, embora
possamos pelo menos assegurar, como Spee, que não conhecemos nenhuma. Isso nos leva
necessariamente à contenção e à cautela no uso de um poder que sempre está tentado a se

expandir e a acabar cometendo um massacre.
A criminologia cautelar demandará um novo marco teórico, pois, para superar o
negacionismo e chegar à cautela, é necessário que reconheça que o poder punitivo e o
massacrador têm a mesma essência – a vingança – e, mais ainda, que o massacre é o resultado
do funcionamento do mesmo poder punitivo quando pretende fazer a contenção jurídica ir pelos
ares.
Sua tarefa será desenvolver os instrumentos para investigar e determinar, o mais
precocemente possível, os sinais dessa ruptura de limites de contenção e as condições
ambientais dessa tenebrosa possibilidade.
Acreditamos que, desse modo, é desarticulada a oração fúnebre, reiterada com muita
frequência pelos defensores da paz burocrática, da criminologia crítica do século passado. Não
é verdade que tenha morrido, está mais viva que nunca e goza de muito boa saúde, só que, com
ela, encerrou-se a criminologia negacionista, e ela foi o passo preliminar indispensável para
inaugurar a criminologia cautelar.
A crítica criminológica não caiu com o muro de Berlim, mas a queda berlinense deixou a
descoberto outros muros, as tentativas de erguerem-se novos e as dificuldades que aqueles que
os saltam provocam.
Estamos marchando para além da crítica, mas por intermédio dela. Os pacifistas burocratas
negacionistas teriam mais motivos de inquietude, porque a crítica que propomos é muito mais
realista e desnuda riscos muitíssimo maiores.
A criminologia cautelar proporcionaria ao direito penal a informação necessária para sua
função de contenção do poder punitivo, e arruinaria a frequente celebração da racionalidade
jurídica pelo direito penal legitimante do poder punitivo, pois não pode deixar de pedir que
baixem as taças desses brindes.
A missão do criminólogo cautelar não será nada simpática: é sempre tétrico andar pelo
necrotério levantando lençois e mostrando cadáveres produzidos pelo poder punitivo, mas
muito pior é negar sua existência e, ademais, é suicida fazê-lo, pois, a qualquer momento, pode
ser ele mesmo o que fica debaixo do lençol.
Para avançarmos minimamente em um esboço de criminologia cautelar, devemos começar
analisando o funcionamento do aparato do poder punitivo, ou seja, do sistema penal, e, a partir
de suas características, destacar os pontos de maior risco de transbordamento e as modalidades
que este pode assumir.

Ilustração 35

49. O aparato canalizador da vingança
O sistema penal é o aparato que regula o poder punitivo operando o sistema de canalização
da vingança. De seu funcionamento depende que esta se contenha com cautela, condicionando
a prevenção de massacres e, eventualmente, o próprio destino da espécie.
A despeito da experiência milenar do poder punitivo e dos reiterados massacres como uma
sucessão de pulsões entre a vingança e o poder de contenção jurídica, não é fácil ter-se
consciência de que a substância do poder massacrador é a mesma que contemos juridicamente
no sistema penal, porque fomos colonizados mentalmente, sobretudo nas faculdades de direito,
para conceber o sistema penal como um instrumento da justiça, quando, na verdade, o sistema
penal rompe a balança da pobre justiça e, aproveitando que ela é cega, lhe dá espadadas onde
bem entende.
Feito esse registro, vejamos agora como opera o conjunto de agências que decidem o
exercício do poder punitivo, ou seja, o sistema penal.
As agências do sistema penal são específicas ou inespecíficas, segundo se ocupem só ou
predominantemente do exercício desse poder, ou bem incidam nele, no marco de uma

incumbência mais ampla. (a) As específicas são as executoras ou policiais (incluindo todas as
polícias e, evidentemente, os serviços de inteligência dos Estados), as judiciais penais (incluindo
juízes, promotores, defensores, advogados e funcionários administrativos), as penitenciárias, as
de reprodução ideológica (universidades, institutos de pesquisa especializados), as organizações
não governamentais (dedicadas ao tema), as internacionais (especializadas nos níveis mundial ou
regional) e as transnacionais (que influem específicamente sobre os governos a partir de outros
governos). (b) As inespecíficas são os poderes legislativos e executivos, os partidos políticos e,
sobretudo, os meios de comunicação social de massa (ou aparato de publicidade do sistema
penal).
É óbvio que os sistemas penais dos diferentes países apresentam notórias diferenças, o que
também acontece dentro dos países com organização federal.
Aqui nos referiremos fundamentalmente à experiência regional latino-americana, que se bem
não difira quanto a suas características estruturais dos sistemas penais de outras latitudes, suas
arestas costumam ser mais violentas do que as centrais, pois correspondem a sociedades mais
estratificadas. Isso faz com que o estudo de nossos sistemas penais lance luz sobre os centrais,
pois geralmente neles é mais difícil detectar as sementes dos massacres.
Todos os sistemas penais apresentam duas características estruturais: suas agências são
compartimentalizadas e cada uma delas tem um discurso duplo.
A compartimentalização faz com que careçam de uma direção comum, cada uma depende
de uma autoridade diferente. O conjunto é algo assim como uma orquestra sem maestro (ou com
muitos maestros) ou uma fábrica em que cada seção tem sua própria gerência geral e seu
próprio controle de qualidade do produto. Ninguém é responsável pelo produto final; pelo
contrário, costumam atribuir-se a responsabilidade reciprocamente.
Tomando de Merton a ideia de fins manifestos e latentes, diríamos que os fins manifestos se
articulam em um discurso público (moralizador para a polícia, de justiça para os juízes,
ressocializador para o penitenciário, de informação para os meios de comunicação de massa, de
bem comum para os poderes legislativos e executivos etc.). Os fins latentes escondem-se sob
discursos para o interior das próprias agências, que buscam maior autonomia na caso policial,
melhor infraestrutura e estabilidade burocrática no judicial, ordem interna e segurança
preventiva de fugas e motins para o penitenciário, rating e sintonia com interesses corporativos
mais amplos para os meios de comunicação de massa, eleitorais para os políticos etc.

50. As agências executivas exercem o poder punitivo
Todas as agências do sistema penal incidem sobre o poder punitivo, mas nem todas o
exercem. As que realmente exercem o poder punitivo são as policiais, no sentido amplo da
expressão (serviços de inteligência, aduaneira, bancária, de fronteiras, tributária etc.).
As outras agências influem sobre estas, limitam-nas ou estimulam, mas não exercem
diretamente o poder punitivo. Os juízes e fiscais não saem às ruas para buscar delinquentes; são
os policiais que selecionam para eles os candidatos a condenados.
Há, porém, outra razão mais forte para assinalar as agências policiais como as que exercem
esse poder: no aspecto do poder punitivo que tem verdadeiramente importância, os juízes não
têm ingerência alguma.
Ao contrário do se pensa, o poder punitivo de criminalização secundária não tem muita

importância, porque recai sobre um número de pessoas muito reduzido (na média mundial
pouco mais de um por mil), composto por alguns psicopatas e muitos ladrões bobos.
Pode-se objetar que há um ou outro preso VIP, mas se analisamos cada um desses raríssimos
casos descobriremos que ele caiu sob o poder punitivo porque lutou com outro poderoso,
perdeu e lhe foi retirada a cobertura. Ademais, para preservar-lhe a vida lhe deve ser dado um
tratamento carcerário especial, o que revela que a prisão não está destinada a ele. Por último, a
criminologia midiática o exibe como o oposto do self made man, para projetar uma imagem
social igualitária e com mobilidade vertical: assim como o engraxate pode chegar a gerente do
banco, o poderoso pode acabar na prisão. São casos publicitários plurifuncionais.

Ilustração 36

Pode-se também observar que há massacradores presos, mas quando perderam o poder e os
que se serviram deles lhes retiraram a cobertura porque deixaram de lhes ser úteis – ou quando
se revelaram contaminadores – e os entregaram ao poder punitivo. O políticamente importante
do poder punitivo é a vigilância que as agências executivas exercem sobre todos nós que
andamos soltos. Hoje o Estado sabe mais de cada um de nós que nós mesmos. A capacidade de
armazenamento e cruzamento de dados é imensa e, portanto, não sei quantos metros cúbicos de
gás eu consumo, mas o Estado pode apertar um botão e ficar sabendo.
Não nos ocuparemos aqui do poder de vigilância em toda sua dimensão – isso Foucault
ressaltou há quarenta anos –, o certo, porém, é que esses poucos ladrões bobos e os psicopatas
isolados são os que legitimam nossa submissão a crescentes medidas de controle.
Em comparação com os controles a que estavam submetidos nossos avós, nos vão sobrando
cada vez menos espaços sem vigilância. Compartilhamos a vida com pessoas que se sentem
seguras com mais controles, sem perceber que estão a caminho da insegurança mais absoluta
nas mãos de um Estado policial neofascista, ao qual são indispensáveis os ladrões bobos e
alguns psicopatas assassinos; se eles não existissem, teriam que ser inventados e sem dúvida o
fariam, pois sua máquina burocrática não se deixaria morrer de inanição.
Para o poder, muito mais importante do que criminalizar um ladrãozinho é saber aonde

vamos, com quem falamos, que livros lemos, que filmes e peças de teatro assistimos, com que
bancos operamos, que amantes temos etc., porque tudo isso é tanto material de controle como
de eventual extorsão. E esse poder escapa das mãos do próprio Estado, se privatiza. Ampliamse as bases de dados privados nas mãos de corporações que passam a ser verdadeiros serviços
de inteligência privados.
A informação não fica nas mãos estatais, e sim nas das corporações. Cada passo que damos
é registrado por alguém. As câmaras nos filmam constantemente e se vendem os registros, as
chamadas telefônicas são anotadas, as compras também, a moeda plástica nos controla, o
enorme aparelhamento de registros aumenta em sofisticação e em descontrole de seu emprego,
a privacidade desaparece.
Espiões eram os de antes; hoje essa profissão está desprestigiada porque todos nos espiam.
Nós nos deleitamos com programas de televisão que mostram até as condutas mais íntimas, mas
não sabemos se nos contemplam quando vamos ao banheiro, e se o soubéssemos não descarto
a possibilidade de que alguém se alegrasse por se considerar a salvo dos homicidas em série que
a ficção televisiva mostra.
Ignoro até onde vai essa crescente invasão da privacidade. Vamos em direção a uma nova
ética? Veremos com naturalidade o que qualquer pessoa faz em seu quarto de dormir ou em seu
banheiro? Não sobrará nenhum ato privado? Nós não nos importaremos mais com isso? Excede
minha imaginação essa perspectiva. Porém, prossigamos.
Na América Latina copiamos a Constituição dos Estados Unidos, mas não o modelo de
polícia comunitária estadunidense, e sim o burbônico de ocupação territorial com ordem
militarizada, ou seja, não saímos muito do modelo colonialista.
No século XIX, quando nossos países se organizaram mais ou menos precariamente, as
autoridades políticas pactuaram com as agências policiais a concessão de áreas de arrecadação
autônoma em troca do controle das maiorias como garantia de governabilidade, sem ocupar-se
dos meios de que estas se valiam, habilitando toda forma de violência, sempre que esta recaísse
sobre as classes subalternas e os dissidentes.
À medida que o século XX avançava, esse modelo de polícia assumiu formas mais
complexas, como resultado dos movimentos de ampliação de cidadania. Não obstante, mantevese com variáveis mais ou menos técnicas e acomodando-se às novas condições sociais.
O certo é que, até o momento, não existe na região um modelo próprio de polícia,
democrático e adequado às nossas sociedades e necessidades. Sobrevivem práticas do século
XIX junto a segmentos tecnificados e algumas iniciativas ordenadoras, mas sem deixar o
esquema hierarquizado militarizado, tudo isso misturado com os inumeráveis tráficos
globalizados e manifestações de criminalidade econômica.
O abandono das polícias indica um baixo nível de inteligência política dos dirigentes, que se
conformaram em encobrir sua organização, na medida em que foram lidando com
inconvenientes inevitáveis.
No geral, os políticos não têm uma ideia clara da questão policial, o que é grave, pois não
há país sem polícia, visto que ela é uma instituição imprescindível na vida social moderna e seu
abandono revela uma falha de consequências políticas gerais imprevisíveis. Lembremos que
Spee responsabilizava os príncipes, porque não controlavam o que seus funcionários faziam. Na
realidade, não os controlavam porque lhes eram funcionais, mas o modelo do século XIX faz
tempo que deixou de ser funcional para nossas democracias, porque é incapaz de fazer frente às
novas formas de tráficos, e mesmo ao delito convencional, e porque possibilita golpes de Estado.

A desconfiança da população repercute no esclarecimento dos delitos, pois dá lugar à
resistência em denunciar, em proporcionar informação e em testemunhar. É um modelo suicida,
que serviu para uma sociedade estratificada e oligárquica, mas que hoje destrói uma instituição
necessária, porque vai anulando sua função manifesta, perde eficácia preventiva, comandos
intermediários lhe fogem ao controle, não é possível o controle interno quando excede certa
dimensão, o recrutamento indiscriminado não faz mais que aumentar os males, a imagem do
Estado se deteriora e espalha a desesperança.
Quando as situações de violência se tornam insustentáveis pela repercussão pública e não
basta entregar algum executor, o político renova as cúpulas, mas o modelo continua vigente e se
reproduz.
A criminologia midiática oscila: em determinadas ocasiões faz eco ao discurso policial que
atribui o fracasso às garantias penais e, em outras, o atribui à corrupção ou à ineficácia policial,
segundo as conjunturas políticas.
Ademais, o modelo vigente autoriza um uso de violência que, em alguns momentos, atinge o
limite do massacre: as execuções sem processo disfarçadas de enfrentamentos são uma realidade
policial, as detenções sem outro objetivo senão fazer estatística somente reafirmam a imagem
negativa, o afã por mostrar eficácia leva à tortura e à fabricação de fatos, que podem ir desde a
acusação de um inocente vulnerável, até uma emboscada onde várias pessoas são executadas.
Tudo depende do grau de deterioração institucional que se tenha alcançado.
Esse modelo não apenas leva a uma claríssima violação de direitos humanos dos elementos
mais vulneráveis da sociedade, como também atinge os direitos humanos do próprio pessoal
policial, que enfrenta péssimas condições de trabalho.
Além da precariedade salarial e do escasso treinamento, o policial é submetido a um regime
disciplinar militarizado, que, na prática, não é mais do que um verticalismo autoritário e
arbitrário. Quando um fato violento repercute sobre a imagem pública policial, ele é entregue à
justiça penal. Os policiais são dotados de um armamento precário e, sem uma etapa
intermediária, passam a ter em mãos uma arma de fogo letal. Nessas condições, são colocados
em situações de risco, sendo ameaçados pela violência social e pela arbitrariedade de seus
superiores.
Deixando de lado a moralidade e desdramatizando a realidade, o certo é que a arrecadação
autônoma do modelo não é repartida com equidade, sendo distribuída sob a forma da pirâmide
invertida, ou seja, a maior parte destina-se às cúpulas. Portanto, essa arrecadação cumpre muito
pouca função social interna.
Essa particularidade faz com que as cúpulas resistam a qualquer forma de sindicalização do
pessoal policial, que desnudaria sua injusta distribuição. Em consequência, o pessoal policial não
tem asseguradas as mínimas garantias trabalhistas de qualquer trabalhador, suas reivindicações
coletivas devem ser formuladas anonimamente, às vezes encapuçados, respondendo à mídia de
costas (para garantir o anonimato). Isso conspira seriamente contra o crescimento da consciência
profissional. Imaginemos o que aconteceria se os docentes fossem impedidos de se sindicalizar e
só os ministros de Educação pudessem falar em seu nome. É natural que não se outorgue ao
pessoal policial o direito de greve, como em todos os serviços de primeira necessidade, mas nem
por isso se nega ao pessoal desses serviços o direito à sindicalização.
Diferentemente dos tempos das repúblicas oligárquicas, cujas classes dirigentes dispunham
de recursos militares e não corriam nenhum risco diante de seus policiais empíricos e bravos,
hoje os políticos vão ficando presos a um poder policial que ameaça sua estabilidade: as polícias

autonomizadas protagonizam e precipitam novas formas de golpes de Estado. Basta que
executem várias pessoas, simulem fatos ou lancem alguns cadáveres na rua, tudo devidamente
apresentado pelos empresários da comunicação de massa e aproveitado por algum setor político
como signo de caos, para que se produza uma comoção social que derrube um governante.
Para o cúmulo dos males, aprofundou-se a chamada privatização da segurança, com
empresas privadas que superam a capacidade da polícia estatal. Quando os controles não são
rígidos, essas empresas podem acabar envolvidas em atividades próximas ao pagamento de
proteção. Não é raro que as epidemias de certos delitos ou sua frequência em certas zonas,
convenientemente publicitadas pela criminologia midiática, obedeçam à criação de uma
demanda de serviços privados de segurança.
Existe outra funcionalidade preocupante do modelo policial suicida, que é aquela que o
relaciona com o controle da exclusão social.
O excluído urbano é um produto em potencial do irresponsável festival de mercado das
últimas décadas do século passado, que se diferencia do explorado, pois este faz parte de um
sistema, enquanto o excluído é não humano, um elemento descartável, que se aglomera nas
periferias urbanas e que, de uma maneira ou de outra, tem de ser controlado.
Alguns acreditam que os excluídos serão controlados pelos cossacos do czar, que cercarão as
zonas de moradias precárias de nossa região, sem se dar conta de que já não há mais cossacos
nem czares. Por outro lado, os pueblos jóvenes peruanos, as favelas brasileiras e as villas miserias
argentinas não são mais do que versões folclóricas de um fenômeno mundial produzido pela
nova concentração urbana: a ONU indicava em 2003 que um bilhão de pessoas vivem em slums
e calcula que, mantendo-se o atual ritmo de crescimento, em 2030 serão dois bilhões, ou seja, em
todo o mundo, os partidários do Estado policial têm o inimigo localizado territorialmente para
empreender suas guerras.
O modelo policial de ocupação territorial é reforçado, às vezes, pelo exercício da função de
fraudes, como, por exemplo, os milhões de dólares pagos pelo governo mexicano a Giuliani[24]
para que este ensine como desarticular seus bairros precários ancestrais, como o Tepito.[25]
Quando observamos atentamente a composição do pessoal policial, vemos que em
particular o de menor nível é selecionado entre as camadas sociais mais humildes e treinado
mediante um processo de medos que é, em parte, bastante análogo à deterioração pela
criminalização. A pessoa é imersa em um meio com discursos contraditórios e em uma função à
qual se associa, de imediato, um estereótipo negativo, resultado da deformação provocada pelo
próprio modelo na população.
O estereótipo dominante do polícia não é nada positivo, em particular nas classes médias.
Estas o percebem como alguém não confiável, vivo, astuto, personificando um poder não limpo,
com características machistas, violento e, em nossa região, ainda por cima corrupto.
O modelo deteriorou tanto a instituição policial, que basta mencionar a função para que,
por associação, remeta à corrupção. Nada tem a ver que a pessoa seja correta ou não, pois é o
estereótipo que a mancha. Há um eles dos policiais como há o dos jovens e adolescentes de
bairros marginais: não importa que cometam ou não atos de corrupção, porque em todo caso
pertencem a um eles substancializado, que provoca uma proibição por associação.
Não é necessário apelar ao exemplo do policial negro nos subúrbios nova-iorquinos.
Também na América Latina muitos policiais padecem de um destino de isolamento social,
quando não são rechaçados, sem que isso tenha alguma coisa a ver com seu comportamento
pessoal, mas sim com o estereótipo alimentado pelo modelo institucional suicida, tolerado por

uma política insensata.
Esse fenômeno – que, em boa medida, pode ser neutralizado no que diz respeito à
oficialidade – atinge mais intensamente o chamado pessoal de tropa, em contato com a mesma
população onde são selecionados os criminalizados e vitimizados, com quem se deve conviver
como membro do mesmo segmento social e da mesma vizinhança.
O melhor estado psicológico não é o de um funcionário com condições precárias de
trabalho, atividades de risco, submetido à arbitrariedade sancionadora e ao isolamento
provocado por uma estigmatização negativa estereotipada.
Se a isso somamos as condições de stress da atividade de trabalho, sua saúde física e mental
não parece estar a salvo de riscos, mas a instituição só costuma ocupar-se a sério de seu pessoal
quando sofre um acidente fatal de trabalho, em que imediatamente se organiza um enterro
militar, mostrando o soldado caído em combate. Quando qualquer um dos integrantes de outra
agência do sistema penal é vítima fatal de um fato violento, vinculado à sua função, passa a ser
um herói e a publicidade é enorme; quando quem o sofre é um policial, a notícia não tem maior
trascendência, não vai muito além do simbólico enterro militar, funcional à imagem bélica e à
passageira manipulação midiática.
Como o estereótipo se introjeta, não é difícil que em muitos casos – e, como se trata
geralmente de jovens – essa internalização facilite algumas características de onipotência que
são, assim, intensificadas.
Sinceramente, fica muito difícil determinar se esse modelo conduz a uma violação mais grave
de direitos humanos nos criminalizados do que nos policializados, não sei de que lado o modelo
opera com mais crueldade. Quanto mais deteriorada está a instituição policial em um país, como
resultado da vigência desse modelo, maior será o grau de deterioração que provocará em seu
pessoal e, evidentemente, menor o grau de eficácia específica.
O certo, porém, é que, assim como são selecionados os criminalizados e os policializados, a
vitimização se distribui de modo igualmente seletivo entre os segmentos mais carentes dos
bairros mais perigosos. Como não podem pagar segurança privada, às vezes caem nas mãos de
justiceiros locais ou de traficantes que controlam o território e em qualquer caso sofrem as
consequências de um serviço de segurança deteriorado e com pessoal no qual não confíam.
A vulnerabilidade vitimizante se reparte de modo tão desigual como a criminalizante e
também recai sobre pessoas dos mesmos setores sociais carentes.
É frequente que as pesquisas a respeito da pena de morte, dos preconceitos racistas, e do
repúdio aos imigrantes e outros revelem a presença das posições mais vingativas nos setores
sociais mais desfavorecidos. É falso que isso se deva, como alguns pretendem, ao menor nível de
instrução. Isso se deve, na realidade, ao fato de que são eles os que mais sofrem com a
vitimização e com a disputa com os recém-chegados pelos espaços públicos de saúde, educação
etc.
O resultado é que criminalizados, vitimizados e policializados são selecionados nos mesmos
setores sociais.
Não nos cansaremos de insistir que não costuma haver conspirações nos desajustes
perigosos do sistema penal, não se trata de máquinas armadas por nenhum gênio maligno que
as maneja com computador a partir de um centro do mal, e sim tendências que vão se dando e
que ninguém detém, na medida em que resultam funcionais aos diferentes interesses setoriais. É
algo assim como: veja o que está acontecendo. Parece que nos convém, deixe-o ir. Nesse caso é
muito funcional que os pobres se matem entre eles, pois enquanto se entretêm em matar-se não

podem coligar-se, dialogar, nem tomar consciência de sua situação, neutralizando toda
possibilidade de participação política coerente.
Trata-se da forma mais sutil e, ao mesmo tempo, brutal de controle social da exclusão. Por
certo, a criminologia midiática não registra esses cadáveres, salvo quando os fatos são
singularmente brutais, em que os mostra para reafirmar a naturalização dos cadáveres restantes,
atribuindo-os ao selvagismo próprio do segmento social a que pertencem e do que é natural que
os inimigos emerjam.
No final das contas, as mortes entre pessoas desse setor são a forma de controlá-lo, o que é
mais fácil e barato do que submetê-lo à vigilância e reprimi-lo continuadamente. Os esquadrões
da morte, os justiceiros de bairro, as mortes por tóxicos ou para eliminar competidores em sua
distribuição ou no mercado e a execução policial sem processo, bem como a vitimização dos
habitantes do próprio bairro e a de policiais são todas funcionais a essa tática de controle da
exclusão social.
Essa sucessão de mortes configura um massacre em conta-gotas que, diferentemente das que
vimos e das quais se ocupam os internacionalistas, não producem todas as mortes de uma só
vez, e sim as vão produzindo dia a dia. Os números não são registrados na contabilidade
macabra que vimos, mas nem por isso deixam de ser massacres, embora isso não preocupe os
internacionalistas.
De qualquer maneira, há casos regionais de violência extrema que escaparam das mãos
daqueles que aceitaram como funcional a produção desses cadáveres, tornando-se muito
disfuncionais. Temos o exemplo mais claro disso na violência que acomete o México nos anos
2010, onde o massacre a conta-gotas está derivando para um massacre ordinário, com um
número de cadáveres muito alto. Isso reafirma que não há ninguém controlando tudo com um
computador, e sim que aqueles que permitem os massacres a conta-gotas não calculam que
podem deixar de ser úteis e passar a ser muito difícil controlá-los.
Acreditamos que não é necessário explicar mais para dar-nos conta da urgência em definir
novos modelos policiais, se é que se deseja prevenir novos massacres e deter os massacres a
conta-gotas em curso.
Reiteramos que deve ficar claro que as agências executivas é que detêm o poder punitivo
real e politicamente significativo, ao contrário do que afirma o discurso jurídico. Para este, os
legisladores são aqueles que manejam o poder punitivo (em razão do princípio de legalidade
penal), os juízes aplicam a lei penal e os policiais fazem o que os juízes mandam.
A dinâmica real do poder punitivo é exatamente inversa: os legisladores habilitam âmbitos
de arbítrio seletivo ao poder punitivo sem saber sobre quem nem quando recairá, enquanto os
juízes não podem fazer mais do que se limitar a decidir nos processos de criminalização
secundária que colocam as polícias em funcionamento.
Em palavras mais simples. Os juízes dispõem, em cada processo de criminalização
secundária, do sinal de trânsito que indica a luz verde, habilitando a continuação do poder
punitivo, a luz vermelha que o interrompe ou a luz amarela, que o detém para pensar um
pouco. Quanto ao poder punitivo com importância política – poder de controle –, os juízes não
têm nenhuma ingerência.
Nesse sentido, a justiça penal – ou seja, o aparato conformado pelos juízes de todas as
instâncias penais, os fiscais e os advogados defensores, com a correspondente equipe
administrativa – tem um importante papel de controle e contenção sobre o exercício do poder
punitivo negativo, ainda que não sobre o de configuração ou positivo.

Da sua eficácia contentora dependerá a magnitude do poder punitivo negativo e sua
extensão. Os desajustes entre o modelo eficaz de poder judicial e o policial são geradores de
frequentes conflitos entre as agências, aproveitados pela criminologia midiática para indicar os
juízes como responsáveis pela violência social.
Prova da importância da função de contenção judicial é que sempre que se produz um
massacre em massa o controle judicial se omite totalmente, pois este requer o completo
descontrole do poder punitivo. É óbvio que no estado nazista, turco, ruandense etc., a agência
judicial não tinha nenhum poder de contenção. E mais ainda, no Camboja, a primeira coisa que
Pol Pot fez foi matar todos os juízes. A criminologia midiática, assentada no neopunitivismo
antijudicialista estadunidense, e as atitudes de alguns políticos latino-americanos, que cedem às
pressões midiáticas, não são nada auspiciosas quanto à prevenção de massacres.

Ilustração 37

51. O resultado: a prisionização reprodutora
O resultado mais espectacular do sistema penal é a prisionização, pois desde o século XIX a
privação de liberdade é, em todo o mundo, a coluna vertebral do sistema de penas.

Sua grande vantagem é permitir uma unidade de medida que facilita o cálculo talional, mas
o limite do talião impede que se retire do meio os incômodos para a polícia, que cometem
infrações menores. Para esses, foram inventadas penas desproporcionais à gravidade da
infração. A mais drástica foi a deportação para a Austrália, a Ilha do Diabo, Sibéria ou Ushuaia.
A patologia política dos EUA e sua criminologia midiática reviveram a deportação, aplicando
aos incômodos penas de 25 anos por delitos ínfimos: roubo de uma luva, posse de um gravador
roubado, tentar descontar um cheque de 100 dólares, usar uma carteira de motorista falsa etc.
Trata-se da velha má vida positivista, mas, como eles não podem ser deportados nem tampouco
mortos, são encarcerados. Dado que a maioria da sua população penal é afro-americana,
acrescente-se a isso o fator racista, como substituto da tentativa de deportação dos afroamericanos para o México, no século XIX. Se o presidente Benito Juárez os tivesse recebido,
hoje não haveria tantos afro-americanos presos nos Estados Unidos e o México teria ganhado
muitos campeões desportivos e a melhor música estadunidense.
Nos países ricos, as prisões tendem a converter-se em instituições de tortura branca (sem
predomínio de violência física) e, nos países pobres, em campos de concentração, com mortes
frequentes (massacre por conta-gotas) e erupções de mortes em massa (motins).
A intervenção penal por desvios primários gera outros, secundários e mais graves, e a
reclusão de adolescentes prepara carreiras criminosas. A prisionização desnecessária fabrica
delinquentes, do mesmo modo que a estigmatização de minorias em uma clara profecia
autorrealizada (jovens com dificuldades de identidade assumem os papéis desviados imputados
midiaticamente, reafirmando os preconceitos próprios do estereótipo).
As cifras não mentem. Os Estados Unidos são o único país com renda per capita elevada que
não consegue reduzir o número de homicídios. Sua taxa é quase análoga à argentina (5,5 por
100.000) e superior a esta, a despeito das mentiras do demagogo Giuliani, em Nova York (8,65)
e San Francisco (8,10). Essas taxas são muito maiores que a do Canadá (1,77 por 100.000),
apesar de os Estados Unidos terem um índice de prisionização de quase 800 por 100.000 e o
Canadá somente 116. O Uruguai registra uma taxa de homicídios dolosos de 4,7 por 100.000 e a
Bolivia de 3,7, sem nenhuma inversão astronômica.
O modelo estadunidense ganhou autonomia e é difícil detê-lo, pois gerou uma poderosa
indústria da segurança, que chegou mesmo a inventar a privatização carcerária como panaceia.
Trata-se de empresas que constróem prisões premoldadas que alugam aos governos até que,
passados alguns anos e uma vez que os presos as destruíram, as deixam na propriedade dos
países que as compram. Alguns governos concedem créditos com essa finalidade, com a
condição de que as prisões se encarreguem das respectivas empresas; para isso, enviam
corretores que vão pelo mundo afora fazendo propaganda de suas vantagens e economia, uma
vez que o custo da prisão privada é muito superior ao das públicas, razão pela qual essa
privatização não se generalizou nos EUA, sendo antes usada para exportação.
Esse jogo maléfico é explicado muito claramente pela baronesa Vivien Stern, em um
magnífico livro de 2006 intitulado precisamente Criando criminosos. As taxas de uso da prisão
no mundo variam ao infinito: no ápice encontram-se os Estados Unidos, com os quase 800 por
100.000 já mencionados, seguida pela Federação Russa, com cerca de 600 por 100.000
habitantes. Cabe observar que esses campeões da prisionização registram em Nova York a
mencionada taxa de homicídios de 8,65 por 100.000 e em Moscou a de 18,38 por 100.000 (a taxa
total de Rússia é nada menos do que 22,10), o que revela que não têm muita eficácia preventiva.
Inversamente, entre os países que fazem um uso muito inferior da prisão encontram-se a

Finlândia, com 71 por 100.000 (menos de um décimo da taxa estadunidense) e uma taxa de
homicídio de 2,90; a Austrália, com 117 por 100.000 habitantes e taxa de homicídio de 1,87; o
Canadá, como vimos, com 116 por 100.000 e taxa de homicídio de 1,77; e a Nova Zelândia, com
118 presos por 100.000 habitantes e taxa de homicídio de 2,50.
A explicação convencional segundo a qual há mais prisionização porque há mais homicídios
é falsa porque, se fosse correta, ao longos dos anos as taxas elevadas deviam deviam ter
provocado a diminuição dos homicídios, enquanto as taxas reduzidas deveriam ter subido, e
nada disso aconteceu. A conclusão é clara: o maior uso da prisão não tem efeito preventivo dos
homicídios, e cabe suspeitar até que tem um efeito contrário. Igualmente chama a atenção a
enorme diferença nas taxas de prisionização de países vizinhos: os 800 por 100.000 dos EUA e
os 117 do Canadá, os 600 da Rússia e os 71 da Finlândia. Será porque os canadenses e os
finlandeses soltam todos os assassinos e violadores seriais? Não parece razoável: em qualquer
país do mundo os autores de crimes graves ficam presos por muito tempo e às vezes por toda a
vida. Em todo o mundo civilizado, menos nos Estados Unidos, a prisão prolongada substituiu a
pena de morte.
No outro extremo, em nenhum país com governos racionais se penalizam infrações muito
menores com a prisão. Faz mais de um século e meio que são conhecidos os efeitos
deterioradores da prisão e por isso foram inventadas a liberdade vigiada (probation) e a
condenação condicional. E, quanto a isso, ninguém inventou recentemente a pólvora, nem a
água morna.
Em síntese: em todo país razoável os malfeitores são enjaulados nas prisões e os infratores
muito menores, não. Contudo, no meio do caminho ficam os incômodos e os autores de
infrações de gravidade média, a cujo respeito não há regras fixas, ou seja, cada país decide o
que fazer com eles. Essa enorme massa dá lugar à decisão política arbitrária de cada nação. É
necessário penalizar com a prisão o furto, o roubo sem violência contra as pessoas, a ladra
contumaz de lojas, os vendedores ambulantes de produtos falsificados? Podem ser penalizados
com penas não privativas de liberdade ou dar-lhes soluções coercitivas reparadoras? As
respostas são variáveis e, por isso, cada país tem o número de presos que decide politicamente.
A criminologia midiática estimula uma solução tão absurda como a do FMI em economia,
pois leva a um círculo vicioso: mais prisionização, mais homicídios e assim até o Estado
neofascista ou, em nosso contexto, até que a prisão se converta em um campo de concentração
e assim até os 40.000 mortos mexicanos.
A prisão em nossos países é uma instituição muito deteriorada. O sistema penitenciário
federal argentino é o que destina mais recursos mensais por preso (699 dólares) (mas em
algumas províncias problemáticas é menos), seguido pelo da Costa Rica (393), do Brasil (296) e
do Uruguai (293), enquanto a Bolívia destina 24 dólares, a República Dominicana 31, a
Nicarágua 60, o Panamá 73, o Paraguai 76 e a Guatemala 99.
Em consequência, as prisões estão superlotadas: no período 2005-2007 para cada 100 vagas
de capacidade havia na Bolívia 207 presos, no Brasil 173, no Equador 161, no Panamá 161, no
Uruguai 145 etc. Esses dados de 2005 podem ser vistos no texto de Elías Carranza, Prisão e
justiça penal na América Latina: como implementar o modelo de direitos e obrigações das Nações
Unidas (México, 2010).
Essas condições não só aumentam o efeito reprodutor criminógeno da prisão, como também
os frequentes massacres por conta-gotas fazem com que a pena de prisão se converta em uma
pena de morte aleatória por qualquer delito e inclusive por nenhum delito. O risco de

vitimização homicida costuma superar em 20 vezes o da vida em liberdade.

Ilustração 38

Dissemos que há uma pena de morte aleatória também por nenhum delito, porque cerca de
70% dos presos da região não estão condenados, e sim submetidos a medidas cautelares (prisão
preventiva). Dessa cifra, entre 20 e 25% serão absolvidos ou liberados sem julgamento, ou seja,
encontram-se na prisão por nada e para nada.
As taxas de prisionização latino-americanas não variam segundo as penas previstas nos
códigos penais, e sim segundo as disposições processuais que ampliam ou limitam a prisão
preventiva. A pessoa que permanece em prisão dois ou três anos tomará como uma brincadeira
de mau gosto que se diga para não se preocupar, porque se tratou somente de uma medida

cautelar.
A expressão medida cautelar, tomada do processo civil, é um claro eufemismo, que sempre
é uma forma de linguagem encobridora, própria de todo poder punitivo de modelo inquisitorial;
Spee o fazia notar quando os inquisidores chamavam de confissão voluntária aquela que a
mulher prestava depois de ter sido pendurada e desconjuntada, e não voluntária só quando se
aplicavam outras torturas. Os nazistas usavam tratamento especial, distanciamento, internação
especial, limpeza, solução. Nós escondemos a pena sem condenação como medida cautelar.
Pouco importa que, no final, a pessoa acabe libertada ou absolvida, porque socialmente
carregará um estigma, dado que a criminologia midiática publica sua detenção, mas não sua
libertação, quando não a critica: alguma ela fez, se safou por acaso, teve um bom advogado, teve
sorte, fizeram um acerto com os juízes etc.
Essas prisionizações inúteis não são erros judiciais e sim práticas correntes. Os erros judiciais
são às vezes dramáticos (sobretudo quando a pena de morte já foi executada, como nos Estados
Unidos), mas a prisionização sem causa, sob a forma de prisão preventiva, não é exceção
alguma e sim uma prática corrente, com a qual os juízes se protegem da criminologia midiática,
dos políticos e de suas próprias cúpulas, pois se decide conforme o grau de periculosidade
política que o juiz experimenta, ou seja, de periculosidade judicial, entendida como o grau de
perigo que uma libertação, uma absolvição ou a colocação em liberdade por mandado judicial
pode repesentar para o juiz.
A prisionização sem causa em função da periculosidade judicial não foi medida, mas em
algumas jurisdições estima-se que entre 20 e 25% dos casos a prisão preventiva termina com a
absolvição. São casos de verdadeiro sequestro estatal, com alto risco de vida.
Esses sequestros estatais ou presos para nada se selecionam conforme estereótipos e a
prisão opera, nesse caso, conforme a velha periculosidade sem delito que a inquisição policial do
positivismo propunha há um século. Ao longo do tempo, podemos observar que a proposta do
positivismo racista foi acolhida e a periculosidade sem delito funciona, só que disfarçada de
prisão preventiva.
Não podemos esquecer que a periculosidade é um elemento presente em todo discurso
genocida: com base nos delitos que alguns cometem, ou que lhes são atribuídos, considera-se
que todos os integrantes do grupo são perigosos e, de acordo com isso, se constrói o eles.
Dado que o positivismo racista estendeu o perigo do selvagismo dos neocolonizados ao dos
excluídos na concentração urbana, a periculosidade é o mesmo elemento discursivo genocidário
que mudou de objeto, passou da colônia à grande cidade da metrópole, e seu objeto são hoje os
jovens e adolescentes dos bairros pobres.
Para resolver o problema da prisão “por nada” nos é proposta uma condenação “por nada”,
também inspirada no modelo estadunidense: trata-se de obrigar o preso para que negocie com o
funcionário e aceite uma pena, como forma de condenar a todos sem julgamento. É a plea
bargaining ou negociação, chamada entre nós de julgamento ou procedimento abreviado.
O preso deve optar entre admitir uma pena ou ser julgado por um tribunal que o condenará
a uma pena maior. Se o preso é culpado, isso o favorece, porque os promotores, em vez de
arcarem com o trabalho de ir ao julgamento oral, oferecem penas pequenas; mas se o preso é
inocente, é forçado a receber uma condenação por algo que não fez. Ademais, muitas vezes a
demora que implica esperar a audiência oral na prisão faz que o preso opte por uma pena igual
ou um pouco inferior ao tempo em que esteve preso.
Nos Estados Unidos, menos de 5% dos casos são julgados pelos jurados, enquanto em 95%

se aplica esse procedimento extorsivo abreviador. O júri que nos vendem pela TV só funciona
para pessoas que podem pagar defesas muito caras e outras um pouco excepcionais.
Em síntese, nos propõem mudar presos sem condenação por condenados sem julgamento,
pela qual a subcategoria presos por nada passa a ser a de condenados por nada. Visto que não
temos 200 bilhões de dólares anuais, o modelo importado não é viável em nossa região.
Podemos importar a criminologia midiática, mas não o modelo. O resultado será superlotar
ainda mais as prisões, aproximá-las do campo de concentração, produzir mais massacres por
conta-gotas e fabricar mais criminosos e carreiras criminosas, em espiral ascendente.
Cabe assinalar que esse efeito reprodutor ou criminógeno da prisão, embora se intensifique
em nossa região, responde a características que são, de toda forma, estruturais desta e que não
podem ser eliminadas do todo, por mais que um sistema penitenciário seja bem provido, pois a
prisão é sempre uma instituição total, com as características e efeitos deterioradores assinalados
pelo interacionismo simbólico. Efetivamente, o preso sofre um processo de regressão a uma
etapa superada da vida, o que faz com que a prisão pareça uma escola de crianças bastante
complicada.
O pessoal deve controlar um grande número de presos, o que só é possível mediante uma
arregimentação interna. Como resultado, tudo o que a pessoa fazia na vida conforme sua
liberdade de adulto, passa a fazê-lo sob controle e na forma em que lhe é prescrita: se levanta,
come, faz a higiene, janta e dorme quando e como lhe ordenam, isto é, produz-se uma regressão
à vida infantil, submetida às limitações que seu grupo de criança ou a escola lhe impunha.
Ao mesmo tempo, o preso fixa eximido das obrigações do adulto. Mais ainda: o infrator
contra a propriedade às vezes pedirá à sua companheira que lhe assista com comida, porque
percebe sua situação como resultante de um acidente de trabalho. Nada disso estimula o
amadurecimento da pessoa. Parece algo tão absurdo como esvaziar uma piscina para ensinar
alguém a nadar.
Na vida carcerária, as condições infantilizantes fazem com que miudezas da vida livre
assumam uma trascendência incrível: a comida, insignificantes espaços de privacidade e o
consumo de algum tóxico e de álcool, o envio de mensagens, a comunicação com pessoas do
exterior do presídio, os objetos de asseio. Como Goffman assinalou, o espaço se contamina, a
privacidade desaparece, o que era feito em privado se torna público (embora, em alguma
medida, isso também esteja acontecendo na sociedade extra-muros).
O preso não pode dispor de um espaço próprio, tudo é alvo de intervenção, às vezes brutal,
como as revistas que, em busca de armas ou tóxicos, lançam todos seus pertences no chão e o
obriga a condutas degradantes, como mostrar o ânus. A intervenção de segurança trascende às
visitas, submetidas a revisões que chegam, em alguns casos, a tateios vaginais ou retais.
A angústia por seus seres queridos é um considerável fator de inquietude, a suspeita de que
é traído, de que os afetos vão desaparecendo, que o vão deixando sozinho. A vida cotidiana,
reduzida a âmbitos pequenos ou limitados, condiciona uma sensação fóbica dos espaços abertos
na hora de recuperar a liberdade (agorafobia), embora isso logo se dissipe.
Se a prisão é prolongada, o preso perde a dinâmica cultural e tecnológica externa, sai para
um mundo que não é o que conhecia, é um Robinson que retorna à civilização.
Os motins eclodem às vezes por ninharias: uma televisão ou a luz que foi apagada, a
proibição da visita naquele dia determinado ou a redução do horário ou, simplesmente, por
nada, salvo pelo stress e pela tensão crescente. O assédio, que algumas crianças sofrem nas
escolas e que nos Estados Unidos provoca homicídios múltiplos, acontece entre os presos. Com

frequência os alcaguetes, ou os que são estigmatizados como tais, são eliminados nos motins ou
fora deles.
Uma administração carcerária corrupta faz do preso um pequeno negócio, mediante o tráfico
de elementos proibidos, em particular tóxicos, prática que se conhece desde o século XIX. Com
maiores níveis de corrupção, pode-se chegar ao perigo extremo da introdução de armas de fogo.
As armas brancas não são introduzidas, uma vez que os próprios presos as fabricam: são as
famosas puas, afiadas durante horas contra os muros.
Parte do negócio do preso são os privilégios vendidos a presos que podem pagá-los, que vão
desde alojamentos especiais até provisão de presos jovens para uso sexual. Esta é a pequena
indústria do preso, porque a grande indústria está representada pelos fabricantes de prisões e
dispositivos de segurança.
Todos esses elementos demonstram que a tão famosa ideologia re é muito difícil de ser
concebida nos termos tradicionais e que a prisão opera antes em sentido contrário, mas a razão
principal pela qual lhe reconhecemos o papel de máquina fixadora de papéis desviados é uma
característica estrutural.
A sociedade carcerária – como a chama Elías Neuman – tem sua própria hierarquia interna e
os presos associam ao recém-chegado um estereótipo conforme o delito cometido e em razão
deste e de características pessoais o vincula a um estamento dessa hierarquia.
O preso deve comportar-se respondendo ao papel que o estereótipo demanda, pois do
contrário provoca as disrupções (reações agressivas) que podem lhe custar a vida. Assumindo
esse papel, ele se adapta à vida carcerária. Os estereótipos se internalizam e se reafirmam com
as novas e constantes demandas de papel, com as quais cabe imaginar o poderoso efeito de
fixação do papel desviado assumido ao longo de uma prisionização de vários ou muitos anos.
Por outro lado, o papel do preso na prisão às vezes é destacado conforme os valores
carcerários,[26] mas desaparece quando ele acaba de cumprir a pena. O personagem temido, da
pesada, ou o louco Fulano, na rua é uma pessoa a mais entre milhares nas quais ninguém repara.
A prisionização pode acabar com todo projeto de vida extra-muros como limite do deterioração,
e condicionar, inclusive, fatos violentos como forma de suicidio inconsciente ou de regresso ao
mundo em que tinha um papel destacado.
Realmente, é um milagre que quando o preso sai da prisão não reincida, porque está
submetido a um mecanismo de impressão humana capaz de marcar-lhe o papel de forma
indelével.
Várias razões fazem com que este aparato nem sempre tenha êxito e que a autopercepção
da pessoa mude. A princípio, o homicida não tende a reincidir entre conhecidos, porque sua
conduta não faz parte de uma profissão; no geral, ele é um bom preso. Em outros casos, a
aquisição de um nível de instrução e de alguma habilidade profissional ou grau determinam uma
mudança de autopercepção.
Também se opera uma espécie de jubilação por queda etária do estereótipo, pois
particularmente em delitos contra a propriedade, que são a maioria da população carcerária, a
vida profissional ativa conforme a estereótipo é análoga à do jogador de futebol ou à do
bailarino, sem contar que algumas atividades são diretamente incompatíveis com uma idade
avançada: um arrombador deve ser muito jovem, um assaltante armado, menos, mas nunca um
adulto mais velho.
É natural que o aparato fixador de papéis seja mais bem sucedido em sua tarefa quando
atua sobre os jovens e adolescentes, visto que, embora todos nós sejamos um pouco como os

outros nos veem, como observa Mead, o certo é que alguns estão nos observando há bastante
tempo, o que não ocorre com os adolescentes.
Quando se consegue criar um estereótipo de eles como maus, aquele que é assim
identificado é obrigado a assumir uma identidade que lhe confira prestígio – o respeito pelo
medo – a assume e atua enquanto tal, segundo o grau de instabilidade pessoal: quanto mais
necessidade tenha de definir sua identidade, maior será sua disposição de apegar-se ao papel
desviado, mesmo que isso lhe custe a própria vida, pois carece de outra identidade; ou ele é o
mau respeitado, ou não é ninguém.
Trata-se de profecias autorrealizadas.
A expressão máxima dessa reprodução é dada em nossa região pelos adolescentes latinos
expulsos dos Estados Unidos, que vêm a constituir o núcleo originário das maras centroamericanas. A prisionização em massa dos mareros na América Central, agrupando-os em
diferentes prisões, segundo a mara a que pertencem, reforça neles o pertencimento e a
identidade desviada e os estimula a mais atos violentos e suicidas.
A criminologia midiática pretende que isso seja resultante de uma escolha individual, quando
o certo é que uma personalidade instável o vivencia como a única possibilidade de
sobrevivência identitária que a sociedade lhe concede. Isso não significa, contudo, que sejam
inofensivos, muito pelo contrário; não é preciso cair em nenhuma idealização da criminalidade,
nem acreditar que eles se limitem, em todos os casos, a fumar maconha, nem que são críticos
sociais, para reconhecer que a redução do espaço social e a ação do poder punitivo preparam
verdadeiras bombas de tempo humanas.
Se a grande maioria dos jovens e adolescentes dos setores marginais e excluídos em nossa
região vislumbra outros caminhos é só porque a cultura de nossos povos ainda mantém certas
barreiras e, ademais, porque, por sorte, não há nenhum sistema perfeito de matriz humana,
posto que nada se faz para prevenir os fatores de risco que determinam a instabilidade de sua
personalidade.
O forte movimento a favor da prisionização em massa de adolescentes que se espalha pela
região expressa como objetivo manifesto a prevenção da violência, mas sua função latente é a de
fabricar criminosos desde etapas mais prematuras.
Acabo de ver a propaganda eleitoral de um candidato a deputado no Brasil com uma faixa
que dizia: Vote Fulano, para baixar a menoridade penal. Devo confessar, com a maior
sinceridade, que, às vezes, fico tentado a achar que bem que a criminologia psiquiátrica ou a
frenologia de Gall tinham razão, só que aplicada a outros papéis sociais, como ao desses
políticos televisivos, nos quais seria diagnosticado, mediante suaves marteladas, que eles
possuem, no lugar do pequeno oco da fossita occiptal lombrosiana, uma cavidade craniana
completamente oca ou loucura moral.
A reincidência não é nenhuma prova de inclinação ao delito, mas sim de uma personalidade
instável, que responde positivamente ao condicionamento reprodutor do próprio sistema. Não é
de estranhar que as ideologias re tenham fracassado, o que foi aproveitado nos Estados Unidos
para substituir a prisão de tratamento pela de segurança.
A isso se soma o fato de o pessoal penitenciário ficar anômico, uma vez que ele é instruído
de acordo com um discurso re, que, na prática, é uma missão impossível, sem contar que as
prisões deterioradas os submetem a constantes riscos e condições de trabalho extremamente
negativos e estressantes.
Suas cúpulas sentem-se, a todo o momento, ameaçadas pelos motins e pelas fugas, pois

todos os fatos dessa natureza contribuem para sua remoção. Isso as leva a fazer da segurança o
valor máximo, e às vezes único, entendida não no sentido de segurança para a vida dos presos e
do pessoal penitenciário, mas sim no de segurança de que não haverá motins nem fugas.
É justo assinalar, porém, que tudo isso depende do grau de deterioração do sistema
prisional: há aqueles menos afetados pelo inexorável caminho até o campo de concentração,
determinado pela superpopulação e pela carência de recursos.
Embora já tenhamos nos referido às agências políticas, devemos insistir em que, se bem que
a resposta varie, sua reação é, em geral, patética.
É possível constatar, com profundo alarme, que se está produzindo uma notória
deterioração dos níveis da política em todo o mundo, com uma agenda marcada pela televisão,
que se traduz na absoluta incapacidade dela para enfrentar a criminologia midiática e, ao mesmo
tempo, para prevenir a violência real desde suas raízes e mesmo suas manifestações.
Em geral, os políticos não se sentem capazes de enfrentar a criminologia midiática e se
limitam a ceder diante das reclamações que esta faz, na expectativa de fazê-la projetar a imagem
de que eles estão no controle, sem dar-se conta de que ela jamais o fará. Essa imagem é
reservada para quando tenha um governo de acordo com os desejos do establishment dos
empresários midiáticos, em sintonia com os beneficiários do desbaratamento criminal do Estado
de bem-estar e da consequente contenção violenta dos excluídos.
A resposta política limita-se a conceder maior autonomia às polícias, com o que se coloca
em posição de altíssima debilidade frente a estas e às empresas midiáticas. Também sanciona
leis penais, como resposta, mediante papéis que proliferam em todo o mundo, mas que
tampouco exercem algum efeito sobre a criminalidade violenta.
Como já dissemos e não nos cansamos de reiterar, os criminosos violentos, em nenhum país
do mundo nem em nenhuma época, foram tratados de outro modo senão com as penas mais
severas, salvo quando operaram com cobertura oficial.
Isso não muda com as leis inovadoras que os políticos, estimulados pela criminologia
midiática, inventam. Uns anos a mais de prisão para quem cometeu assassinatos pode afetar o
princípio de proporcionalidade e produzir um deterioração irreversível na pessoa, mas não
impede, em absoluto, que outro faça o mesmo.
O problema criado por essas leis não são os criminosos violentos, mas sim o fato de
encherem as prisões com aqueles que não cometeram nenhum assassinato e inclusive com
aqueles que não fizeram nada, com uma altíssima probabilidade de convertê-los em criminosos
violentos por efeito reprodutor.
Em outra ordem de coisas, o emaranhado legislativo que as constantes reformas penais
criam afeta a segurança de todos, uma vez que a lei penal perde convicção, ninguém sabe o que
está proibido penalmente, toda ilicitude tende a tornar-se ilicitude penal, a velha aspiração às
leis claras fica esquecida. O recurso permanente à criminalização banaliza-a, ao invés de
hierarquizá-la.

Ilustração 39

52. A criminologia cautelar preventiva de massacres
Depois de mostrar a construção de realidade da criminologia midiática e de descrever as
agências do sistema penal, vemos que em todo sistema penal estão alojados os elementos de um
possível massacre e com frequência um massacre em conta-gotas já em curso.
Em todo sistema penal a vingança está presente como material de um massacre potencial, só
que este contém também elementos que impedem seu desenvolvimento.
Não obstante, como a natureza de qualquer sistema penal é instável, um desequilíbrio de
origem interna (entre suas agências) ou externo (do ambiente) pode descontrolar suas agências
executivas ou permitir que outras mais agressivas assumam sua função, provocando o efeito
letal. Por isso, o sistema penal é sempre um aparato perigoso, cujo funcionamento deve ser
atentamente vigiado.
Deixemos a outros mais bem dotados intelectualmente a nobre tarefa de pensar em
sociedades futuras, livres da vingança, mas até que semelhante mutação tenha lugar – se é que
alguma vez o terá – muitos aparatos poderiam descontrolar-se e produzir centenas de milhares

ou milhões de novos cadáveres silenciosos e até mesmo colocar em risco a vida humana no
planeta.
Por isso, aqui e agora, é indispensável que o criminólogo indague como controlar o aparato,
no curto e no médio prazo, para procurar evitar que se desequilibre fortemente.
O caminho tático foi indicado em 1631 por Friedrich Spee. O jesuíta poeta não discutiu se as
bruxas eram reais, tudo é possível – disse –, mas a única coisa certa era que todas essas mulheres
inocentes estavam mortas. Seu método consistiu em evitar as abstrações com as quais o poder
punitivo legitima seus excessos e ir ao mais concreto. Sua única verdade era a realidade, e a
realidade eram as cinzas dos cadáveres de mulheres inocentes.
Em nosso tempo, a máxima abstração é a ideia midiática de segurança.
Em todo governo existe um área de segurança, porque de algum modo é preciso denominar
as polícias e seus assemelhados. A partir dessa denominação a criminologia midiática constrói
uma realidade de segurança bastante difusa, mas dela imediatamente deduz, e os juristas
deglutem, um direito à segurança.
Nessa invenção encontra-se o núcleo do discurso autoritário, colocado como a falsa opção
entre liberdade e segurança, em um plano de abstração máxima.
A armadilha consiste em pretender a existência de um direito à segurança volátil. Trata-se
de um recurso retórico de clonagem de direitos e realidades. Nenhuma vítima tem um suposto e
abstrato direito à segurança afetado, mas um direito à vida real e concreto, à integridade física, à
liberdade sexual, à propriedade etc. Se alguém duvida disso, bastaria perguntar a qualquer
vítima de violência o que é que lhe afetou.
Seguindo a tática de Spee, o que de mais concreto achamos são os cadáveres. Ao incorporar
os massacres à criminologia abrimos nossos olhos a uma realidade cadavérica tão concreta que
não deixa lugar para nenhuma abstração manipulável.
Cautela provém da raiz indoeuropeia keud, que indica prestar atenção, perceber, que em
sânscrito origina kaví, que significa inteligente, e em latim caveo, estar em guarda. É a palavra
exata, escolhida não por acaso por Spee.
Diante das montanhas de cadáveres, a civilização pareceu inclinar-se, depois da II Guerra
Mundial, pela via da cautela. Isso, porém, não evitou novos massacres e parece que hoje se
perdeu toda prudência, em especial nos EUA. Talvez alguém possa pensar que fui tomado por
um surto anti-estadunidense. Nada mais equivocado, pois quase tudo o que observamos não tem
outras fontes senão os próprios colegas criminólogos estadunidenses, aqueles que nos informam
e nos advertem sobre o risco, manejando dados seguros acerca de seu sistema penal, pois têm
acesso à informação e têm espaço para investigar a realidade.
Nós não dispomos desse espaço: tememos a criminologia midiática, não a denunciamos com
todas as palavras que merece e, se o fazemos, não dispomos dos elementos que nos permitam
evidenciar sua falsidade, porque na nossa região todos os dados que remetem à segurança, se é
que alguém os recolhe, são secretos por razões de segurança.
Na América Latina, estamos intimidados pelo descrédito que a publicidade negativa nos
pode acarretar, pelas difamações de que podemos ser vítimas, pelas represálias que em alguns
países as agências executivas podem tomar se nos envolvermos com a realidade.
Nossa academia não se anima a dizer o mesmo que muitos criminólogos estadunidenses
dizem de seu próprio sistema (e quando eles não o dizem, os ingleses o fazem e ninguém os
impede de circular pelos Estados Unidos e ensinar em suas universidades).
A eles são garantidos fundos para que pesquisem; a nós não nos dão nada, e menos ainda

se nos sabem críticos do poder punitivo, pois os nossos ministros de plantão não apreciam que
nos metamos a ver o que fazem as polícias autonomizadas com as quais compartilham suas
cotas de arrecadação autônoma. Nossos governos nunca sentariam em nossas câmaras de lordes
com uma criminóloga como a baronesa Vivien Stern, para denunciar que seu sistema penal está
fabricando criminosos.
Há muito a criticar nos Estados Unidos, na política estadunidense e na cultura anglosaxônica, mas também temos muito a aprender com eles e a imitá-los. Não podemos ignorar
que, no jogo de luzes e sombras da história, muitas vidas se perderam diante da brutalidade
nazista massacradora que ameaçou dominar o planeta na primeira metade do século passado.
Podemos lhes reprovar sua atual irresponsabilidade planetária, por globalizar a criminologia
midiática, mas os parâmetros a partir dos quais formulamos a reprovação são os que, em boa
medida, eles mesmos defenderam e que até hoje defendem os mais inteligentes dos nossos
colegas acadêmicos anglo-saxões. Eles, com agudo senso crítico e sem temores, mostram-nos os
efeitos que o modelo, cujo discurso se globaliza, tem em seu país.
Compete a nós mostrar os efeitos em nossa região, os quais, por certo, não são os mesmos,
pois na nossa realidade corre o risco de tornar-se muito mais letal.

53. As três frentes da criminologia cautelar
O descontrole punitivo que leva ao massacre responde, desde tempos imemoriais, à mesma
dinâmica. Tem razão Girard ao reinterpretar a paixão de Cristo e revelar que essa dinâmica se
manifesta no próprio Evangelho.
Quando se evidencia esta constante e, ademais, mostra-se que a vingança é o motor do
próprio poder punitivo, costuma-se cair em depressão e alguns propõem sentar-se na beira do
caminho e cortar as veias com uma bolacha.[27] Porém, não se deve confundir a queda de
muitos mitos e ilusões com a falta de soluções. María Lucía Karam, a excelente criminóloga
brasileira, diz, com razão, que o melhor exemplo do delito de propaganda desleal é o próprio
sistema penal, que nos vende um produto falso.
O que sucede é que sempre nos deprime saber que fomos vítimas de uma fraude, mas a
depressão própria da desilusão vitimológica pós-defraudatória nada tem a ver com a pretensa
falta de soluções. Estas existem, e a tarefa de uma criminologia cautelar é mostrá-las e recorrer
a elas. Por certo que esta tarefa não tem limite temporal; é algo permanente, porque a perigosa
instabilidade do sistema penal também o é.

Ilustração 40

Uma criminologia cautelar deve ser uma criminologia militante, porque enfrenta
verdadeiros guerreiros midiáticos que estão sempre fabricando novos eles para impulsionar a
vingança na direção do massacre e os fabricam em série: não faz muito tempo, o governo
francês deixou de lado os africanos e argelinos de seus subúrbios e voltou-se contra os ciganos.
Por isso, a criminologia deve ser militante se quer ser cautelar, ou seja, deve estar sempre
atenta e vigilante para evitar a armadilha que nos é estendida pelo discurso que diz: bem, esses
“eles” não, mas esses “eles”sim, são os maus em série. Deixemos por um instante os adolescentes do
bairro precário, mas vamos contra todos os motoristas de ônibus, os taxistas, o bêbados, os
fumantes, e assim ao infinito.
Não é simples fazer uma criminologia militante, pois deve-se deixar o sossegado espaço
acadêmico para estar na rua, nos meios de comunicação, na formação de profissionais, de
operadores do sistema penal, do pessoal policial e penitenciário, escrever para o grande
público, participar do sistema, compreender as vivências de seus operadores, acalmar suas
angústias, falar com as vítimas, com os criminalizados, com seus parentes, estimular aqueles que
têm a responsabilidade de equilibrar ou prevenir o desequilíbrio, investigar os discursos
midiáticos, não desanimar diante dos fracassos e não se amedrontar, não se deixar levar pela ira,
comprender as motivações para prevenir erros de conduta, interferir na política, acostumar-se a
ser mal visto, assumir o papel de portador de más notícias (sermos advertidos de que somos

vítimas de uma fraude é sempre uma má notícia) e, sobretudo, reproduzir a militância, porque
não é uma tarefa individual, e sim requer muitas vontades, de muitas pessoas com consciência
do problema e com compromisso com a tarefa de impor cautela.
Essa criminologia cautelar e militante tem três frentes a que atender:

a. deve estar atenta para analisar as condições sociais favoráveis à criação midiática do mundo
paranoico e desbaratar suas tentativas de instalação desde as primeiras manifestações
orgânicas;
b. deve levar muito a sério os danos reais do delito, isto é, a vitimização e suas consequências,
promovendo, de forma permanente, a pesquisa de campo e do efeito que o próprio poder
punitivo e a criminologia midiática têm a seu respeito; e
c. por último, deve investigar e propor publicamente os meios mais eficazes para a redução
dos anteriores.

Em síntese, tratar-se-ia dos três capítulos principais da criminologia cautelar, mas não se
deve esquecer que isso proporcionaría apenas os elementos para colocá-la em prática.
Para isso, deve estabelecer táticas, em especial no espaço midiático, mas também na
comunicação pessoal direta: assembleias, conferências, ONGs, âmbitos de reflexão, redes
alternativas, entrevistas etc.
Toda investigação deve tender a ser investigação-ação e não cair no puro nível do
conhecimento resignado. Nenhuma ação é insignificante quando se trata de salvar vidas
humanas, e a criminologia cautelar deve responder a esse imperativo ético.
As etapas de instalação do racismo que Michel Wieviorka assinala são as de qualquer mundo
paranoide: um momento difuso, outro orgânico e outro de Estado.
A etapa difusa não deve ser descuidada; são gritos isolados aos quais se deve prestar
atenção, mas a luz vermelha deve acender-se quando a etapa orgânica começa a se instalar. É
nela que aparecem as organizações, as instituições, as publicações.
Nessa segunda etapa, cabe um papel importante ao mundo acadêmico latino-americano se,
em lugar de se fechar em seus cubículos universitários, olhando para o próprio umbigo, opta por
uma atitude militante, de comunicação com as pessoas; se é capaz de ir a os meios de
comunicação e aos bairros, de comunicar o que sabe e de organizar a neutralização da pulsão
vingativa.
Os acadêmicos devem aprender no diálogo com as outras pessoas, com as vítimas, com os
que têm medo das ameaças reais, com os operadores do sistema penal e com os próprios
infratores, com a intenção de chegar a um momento em que a criminologia seja um
conhecimento de todos e, ao mesmo tempo, um empreendimento comum.
A atitude militante não pode ser outra senão o diálogo; as pessoas não são objeto de
conhecimento e sim provedoras de conhecimento. Por certo que, para isso, é preciso superar
obstáculos, entre outros o da procedência de classe do próprio criminólogo, que deve aprender
a comunicar-se com todos os setores sociais e detectar seus próprios preconceitos.
O diálogo rompe a compartimentalização do sistema penal, que retroalimenta preconceitos,
na medida em que cada um vê um pouco do todo. O preconceito mais comum é o dos
acadêmicos a respeito do pessoal policial e penitenciário que, no entanto, sofre gravíssimas
violações a seus direitos e em muitos casos está ávido de ser escutado.
Nessa etapa é fundamental o diálogo com os políticos, devendo-se evitar o preconceito de

que todos eles são malignos e que estimulam o caminho dos massacres. Isso conduz apenas à
antipolítica, que não é mais do que a antessala das ditaduras.
Os políticos estão submetidos a uma permanente e impiedosa concorrência, marcada pela
contenda eleitoral sempre próxima. É fácil, da academia, reclamar que um político enfrente sem
vacilar a criminologia midiática, mas pessoalmente eu não assumiria a responsabilidade de
aconselhá-lo sem advertir que, sem prévia preparação, ele pode pôr tudo a perder, não somente
diante de seus opositores, como também no interior do seu próprio partido (digo isso por
experiência própria: por isso me tiraram de uma lista de candidatos).
Todavia, temos, ao mesmo tempo, o dever de adverti-lo de que sua atitude suicida de
ampliação constante da autonomia das agências executoras e suas concessões à criminologia
midiática os levam à sua perdição e ao naufrágio da própria democracia.
Não resta dúvida de que nós, acadêmicos, somos desconcertantes: por um lado, advertimos
os políticos de que, se agirem corretamente, vão fracassar, e, por outro, de que, se continuarem
agindo incorretamente também afundam, e nós todos afundamos juntos. Quando a criminologia
midiática os ataca ferozmente e a agenda eleitoral os pressiona, eles nos pedem a fórmula
mágica para desbaratá-la, e lhes respondemos que isso não existe. É claro que os políticos não
podem deixar de nos olhar com desprezo, ou, no melhor dos casos, com comiseração, e seguir
seu caminho suicida.
Não é verdade que todos os políticos estejam apenas preocupados com a próxima eleição
ou montados, por puro oportunismo, na criminologia midiática. Por mais que a mesquinhez
esteja presente em boa parte da política, não se pode negar sua aspiração a um mundo melhor e
sem massacres.
O que acontece é que, assim como há empresas de infraestrutura viária, energética etc. que
requerem um trabalho que excede um ou dois mandatos, devemos estar conscientes de que a
tarefa de converter a criminologia cautelar em criminologia de Estado também é uma empresa
de infraestrutura social e, se em outras matérias foram implementadas obras dessa natureza, não
há razão para duvidar da possibilidade desta. Por isso, a criminologia cautelar deve se cuidar e
não aconselhar suicídios políticos, e sim ter como objetivo impulsionar e demandar fortemente
dos políticos sua instalação como criminologia de Estado.
Assim como a iluminação a gás continuou existindo enquanto a rede elétrica ia se
expandindo, e a tração animal sobreviveu ao avanço da tração a motor, da mesma forma os
políticos podem continuar fazendo algumas concessões discursivas prudentes à criminologia
midiática, enquanto se vai montando a cautelar e colocando em marcha a confrontação, à
medida que o Estado vai dispondo dos elementos capazes de levá-la adiante.
A criminologia cautelar só pode chegar a ser erigida como criminologia de Estado através de
uma adequada institucionalização de um órgão de monitoramento técnico da violência social.
Assim como há bancos centrais que são, em alguma medida, autárquicos, o que não significa
que não respondam à política econômica geral, deve haver, um dia, um órgão técnico que cuide
do controle da violência, com capacidade de monitorar o conjunto de agências do sistema penal
e de investigar e orientar esse conjunto, e também enfrente a criminologia midiática com dados
certos e com táticas tecnicamente planificadas, conforme o saber comunicacional.
É possível observar que não há nenhum responsável oficial pelo controle da violência e das
causas de morte violenta. Ninguém está em condições de confrontar seriamente os dados da
criminologia midiática, que constrói a realidade segundo sua conveniência conjuntural e mutável.
O Estado e a sociedade estão completamente indefesos diante da criminologia midiática.

Erupções de modalidades delitivas ganham publicidade e se mostram como ameaças sem
que saibamos se, na realidade, são produzidas espontaneamente ou são produto de uma espécie
de produção mafiosa de fatos violentos, em beneficio de qualquer agência ou mesmo dos
interessados na venda de segurança privada. Em pouco tempo desaparecem sem deixar pista e
caem no esquecimento.
Ninguém mede o efeito reprodutor da criminologia midiática e não sabemos até que ponto
ela reproduz o delito ou incrementa a conflitividade social.
Dispomos dos conhecimentos técnicos para levar isso adiante e, ademais, não requer muitos
gastos. Na maioria dos países existem excelentes estudos universitários de sociologia, de ciência
política, de psicologia, de comunicação social etc., com pessoal técnico ao qual bastaria
convocar e treinar mínimamente para poder fazer diagnósticos, prognósticos, detectar as
situações e fontes de risco e levar a cabo um trabalho coordenado de prevenção a sério.
Em nenhum país pobre investe-se dinheiro em investigação criminológica de campo, e por
isso não se dispõe de dados sérios sobre a violência criminal. Além do mais, em nossos países as
agências executivas negaceiam a informação porque temem revelar dados de sua arrecadação
autônoma.
Nessas condições, é impossível confrontar a realidade com os dados distorcidos da
criminologia midiática: estamos indefesos.
Essa carência de informação científica também é funcional às cúpulas das agências, porque
lhes permite manipular a inversão do orçamento. Confirma-se a tese foucaultiana de que o
poder punitivo não interessa tanto por seu objetivo manifesto (prevenção do delito), pois do
contrário o cuidado no primeiro passo da prevenção, que é o quadro da situação, seria levado
ao extremo. É óbvio que ninguém pode prevenir o que desconhece e, se não quer conhecê-lo, é
porque não tem a prevenção como meta.

54. A prevenção do mundo paranoide
Todo criminólogo deve estar atento às condições que favorecem a instalação do mundo
paranoide por parte da criminologia midiática. Esta requer um campo de insegurança existencial
que, tanto nos Estados Unidos como na Europa, provém hoje do desbaratamento dos Estados de
bem-estar (desemprego, insegurança no trabalho, assistência social, deterioração dos serviços
estatais, carestia, dificuldades de moradia, saúde, educação).
A violência difusa se expressa nas atitudes xenófobas, classistas, racistas, sexistas e em todas
as formas possíveis de discriminação contra imigrantes (Europa), grupos étnicos instalados desde
muito tempo (afro-americanos) ou em crescimento (latinos nos Estados Unidos), setores
excluídos dentro da própria sociedade (América Latina) ou etnias minoritárias (África).
A excessiva angústia social impulsiona a busca anárquica dos responsáveis pela
insegurança, que se traduz em violência contra os mais diferentes grupos e pessoas (violência
difusa, sem canalização dominante). A criminologia cautelar deve avaliar esse marco, pois de sua
dimensão dependerá a maior ou menor facilidade para a criação midiática do mundo paranoide.
A violência difusa e a angústia social se retroalimentam até que a última se torne
insuportável, mas enquanto se conseguir imputar a um bode expiatório a fonte da insegurança
existencial (instala-se o mundo paranoide com um inimigo identificado), o nível de angústia cai
porque esta se converte em temor (medo) da ameaça da emergência desencadeada pelo

inimigo. A angústia não tem objeto conhecido (tem objetos erráticos e, em última instância, a
morte), mas o medo sempre reconhece um objeto, podendo ser normal ou patológico,
conquanto seja proporcional à temibilidade do objeto. Na medida em que é patológico, a
criminologia o chamou de pânico moral. Quanto maior é a angústia social, de mais espaço a
criminologia midiática dispõe para instalar como temíveis objetos não temíveis.
Quando a angústia se converte em medo, todos os projetos existenciais reduzem seus
objetivos e a eliminação do obstáculo para sua realização, que é a presença do bode expiatório,
aparece como primeiro passo de todos, por mais díspares que sejam. Quando as pesquisas
mostram que a principal reclamação é a segurança, é porque a criminologia midiática conseguiu
instalar o mundo paranoide.
Essa base comum do consenso perversa tem por resultado uma deformação inqualificável do
verdadeiro consenso democrático: a publicidade favorável ao Estado policial é capaz de apagar
todas as reclamações por direitos que um Estado razoavelmente operativo deveria satisfazer e os
unifica em uma única reclamação de repressão, alienando a população, que, desse modo, não se
dá conta de que está renunciando a exigir do Estado o que cada um necessita para a realização
de seu próprio projeto existencial e só reclama o que servirá para que a controlem mais e a
reprimam melhor quando se lhe ocorre pedir outra coisa.
Os Estados de bem-estar se desmantelaram em meio a um festival de corrupção, enquanto o
mundo paranoide, centrado no delinquente ou no terrorista, funcionou como uma manobra
perfeita de distração. É dever da criminologia cautelar alertar os setores políticos acerca dessas
táticas.
Hoje é tecnicamente difícil fechar um país à informação, pois não é possível bloquear as
notícias do exterior, o que permite desbaratar montagens midiáticas muito grosseiras, como foi a
tentativa de desviar a responsabilidade do crime de Atocha em Madri na véspera de eleições.[28]
Não obstante, houve crimes e mentiras que só tardiamente vieram à luz (torturas, sequestros
antiterroristas, armas de destruição em massa do Iraque).
Quando reina a liberdade de informação, são as empresas de comunicação que exercem o
poder de instalação do mundo paranoide e o decidem de acordo com seus interesses (rating e
consequente renda publicitária) e os do setor político ou econômico, em sintonia com seus
proprietários. A escolha do inimigo, que o nazista Carl Schmitt havia assinalado como a essência
do político, agora está, em boa medida, nas mãos das empresas de comunicação social. Daí a
importância do pluralismo midiático: o oligopólio comunicacional é tão negativo quanto a
censura estatal autoritária, constituindo, com toda certeza, uma censura privada.
Todavia, para instalar o mundo paranoide também é indispensável um bode expiatório
adequado para imputar-lhe os crimes que se projetam como fonte de insegurança existencial.
A história mostra a enorme heterogeneidade dos inimigos em diferentes mundos paranoides:
bruxas, hereges, judeus, viciados em drogas, traficantes de drogas, comunistas, subversivos,
sifilíticos, deficientes físicos, prostitutas, africanos, índios, imigrantes, anarquistas, gays, minorias
sexuais, terroristas, alcoólatras, pedófilos, anarquistas, socialistas, delinquentes comuns, ciganos,
burgueses, ateus, religiosos etc. É difícil encontrar algum traço comum entre todos eles, apesar
de alguns terem sido reiteradamente vitimizados. Às vezes o bode expiatório é idôneo pelo
simples fato de pertencer a um grupo (judeus, ciganos, minorias sexuais e étnicas), enquanto em
outras situações alguns membros do grupo promovem conflitos que os tornam mais vulneráveis
como candidatos ao mundo paranoide.
As condutas de alguns membros do grupo não decidem a condição de bode expiatório, mas

são elas que midiaticamente facilitam a instalação paranoide e, desse modo, aumentam o risco
para o grupo. Em certos casos, basta a violência de um único de seus integrantes para que
contamine midiaticamente a todos.
A violência política facilita muitíssimo a pulsão de vingança, mas a falta dessa sinalização
residual de delinquentes comuns é usada para imputar indiferença aos governos que não são da
ordem. É necessário alertar os grupos vulneráveis acerca das condutas paradoxais que podem
agudizar sua vulnerabilidade. O papel de criminoso é sempre atribuído ao inimigo, que incorre
nos delitos de máxima gravidade, sem importar se na verdade os comete, pois o importante é o
que se acredita.
Quando os delinquentes comuns são selecionados como inimigos, a estigmatização se
orienta para todo seu grupo de pertencimento, que, na nossa região, são os jovens dos bairros
pobres. Nesse caso, os males que podem ser atribuídos a eles são limitados. Sempre existirão
delitos cometidos, o que servirá para exercer um poder de controle muito amplo, não obstante,
o certo é que os jovens e adolescentes não podem ser acusados de portar um elemento
extremamente útil para erigir um bode expiatório, que é a conspiração. Devido a isso, eles são
sempre escolhidos como inimigo de forma residual, ou seja, só são selecionados à falta de um
candidato melhor ou como acompanhante de outros candidatos melhores.
A criminologia midiática também não deve ser identificada com a totalidade dos meios de
comunicação que a estimulam, porque embora não se possa negar sua condição manipuladora,
tampouco se pode passar por cima de que alguns deles só têm funcionalidade por puro rating e
outros por mera ignorância ou imprudência. Daí que também é importante entabular o diálogo
com os proprietários e os trabalhadores dos meios de comunicação.
Deve-se sempre ter muito presente que a criminologia midiática prepara o mundo paranoide
com base em técnicas de neutralização, que podem consistir, inclusive, em discursos mais ou
menos sofisticados. Nesse aspecto, também é necessário planejar as táticas de desbaratamento,
que nem sempre consistem em confrontá-las publicamente, o que pode lhes atribuir uma
ressonância não desejada, como no caso dos movimentos de extrema-direita ou de difamações
grosseiras, em que escândalo midiático significa publicidade. Quando o bode expiatório são os
jovens de bairro pobre, as técnicas de neutralização não são nem de longe sofisticadas,
consistindo, geralmente, em grosserias midiáticas.
Não devemos nunca perder de vista que a criminologia midiática é uma arma de luta contra
o Estado de bem-estar, e que, mediante o pânico moral, faz com que as pessoas se sintam em
constante perigo de vida e, por conseguinte, privilegiam este bem sobre qualquer outro, com o
qual deixam de lado as reclamações que correspondem ao Estado de bem-estar para reduzir-se
somente àquilo que interessa ao Estado policial dos anos noventa do século passado, cujas
consequências ainda estamos pagando.

Ilustração 41

55. Não se pode prevenir o que não se conhece
A criminologia cautelar deve ocupar-se, necessariamente, de assinalar os meios para reduzir
os delitos violentos, toda vez que a criminologia midiática não só oculta outros riscos como
tampouco se ocupa de reduzir o da própria violência criminal que magnifica, pois estimula, a
seu respeito, medidas que, com frequência, os potencializam, fabricando criminosos, os quais,
por sua vez, resultam funcionais.
Por conseguinte, a criminologia cautelar deve, por um lado, se confrontar com o pânico
moral mas, por outro, apoiar o temor racional – e, daí, a cautela – frente aos riscos reais
causadores de cadáveres antecipados, seja os que provenham do delito violento, seja de outros
riscos minimizados midiaticamente ou do próprio poder punitivo.
Para isso, é necessário investigar os riscos que constituem as diferentes fontes de morte
violenta em cada sociedade e propor as medidas preventivas adequadas. Em última instância,
deve-se propugnar pela instalação de uma criminologia preventiva de Estado.
Essa tarefa não se esgota melhorando o sistema penal, pois este tem uma reduzida eficácia
preventiva e, ademais, é um mecanismo lento, que quase nunca se move, sem contar que, às

vezes, é ele mesmo quem o produz, em algumas ocasiões sob a forma de massacre; além do
mais, sempre chega tarde, quando o dano já se consumou.
Em todo o mundo, o sistema penal move-se muito pouco. Há casos, inclusive, em que a
regra é não mover-se, como no aborto. Por conseguinte, é claro que há que se chegar antes que
se tenha um morto, e isso deve seguir por outros caminhos, sem prejuízo de melhorar o que for
possível do sistema penal, para que tenha maior eficácia dentro de suas limitadas possibilidades
e, sobretudo, para que não se descontrole e acabe se tornando um agente massacrador.
Vale lembrar que há, a princípio, duas classes de prevenção: a primária e a secundária . A
prevenção primária é a que opera sobre a fonte mesma da conflitividade; a secundária seria,
resumidamente, a policial ou de vigilância. Isso é verdade, mas com a condição de considerar
que se trata de dois extremos em um espectro que pode abranger múltiplos modelos
intermediários.
Todas as cifras do mundo, segundo os dados da ONU, indicam que há uma relação inversa
entre o nível de vida, medido pela renda per capita, e a morte violenta. A distorsão produzida
nos Estados Unidos deve-se justamente ao efeito reprodutor de seu próprio sistema penal; é o
único país do mundo com alto índice de homicídios e, ao mesmo tempo, com elevada renda per
capita.
Isso indica que a regra de que as curvas do homicídio e da renda per capita se cruzam se
verifica sempre que não há uma extrema polarização da renda e que o próprio poder punitivo
não cria obstáculos, de alguma maneira, à tendência geral. Esta última é uma razão a mais para
reafirmar a cautela no exercício do poder punitivo.
Tudo aquilo que os Estados destinam à repressão, por precário que seja, é muito caro, e isso
não pode deixar de ser levado em consideração, dadas as necessidades de nossos países, que
devem investir em desenvolvimento e infraestrutura.Tudo o que se destinar a evitar violência
significa economia no médio prazo, pois significa, pelo menos, uma redução na repressão.
Quando se pergunta pelas medidas preventivas concretas, as respostas são vagas: são
aconselhadas medidas em saúde, educação, assistência social, esporte etc. Sempre se soube que
aumentando o nível de vida, baixa o delito violento e sobe o delito “inteligente” (assim afirmava
Niceforo um século atrás – baixa o homicídio e sobe a fraude). O criminólogo, porém, não pode
ficar sentado esperando que o produto aumente e aconselhando medidas de senso comum. O
que deve ser feito?
Tomemos como exemplo indicador o homicídio. O universo de homicídios dolosos de um
país do Cone Sul não é muito grande. Escrevamos em uma planilha uma dezena de perguntas
elementares: 1) lugar; 2) hora; 3) circunstância; 4) relação entre vítima e vitimário; 5) meio
usado; 6) dados pessoais da vítima (idade, estado civil, profissão, instrução, domicilio etc.); 7) do
vitimário; 8) informe socioambiental (em todos os expedientes se faz isso); 9) motivo presumível;
10) presença de tóxico (álcool, outros; em caso afirmativo, grau de alcoolemia, se houver); 11)
circunstâncias em que o fato foi conhecido; 12) descoberta do cadáver.
Se as respondêssemos em todos os homicídios e em seguida trabalhássemos sobre os dados
obtidos, poderíamos responder a muitas perguntas interessantes: quais são os homicídios mais
frequentes – os causados por violência familiar, ou ciúmes, disputas entre bêbados, pendências
entre gangues, roubo, sequestro etc.? Que perfis temos da vítima? Quem está em maiores riscos?
Em que circunstâncias aumentam os riscos de vitimização? Em que segmentos sociais
predominam uns e outros riscos? De que perfil de vitimário dispomos? A que faixa etária
corresponde, de acordo com os diferentes tipos de homicídios? Que sinais prévios de risco

existem? E muitas perguntas mais.
Além disso, se o fizéssemos durante quatro ou cinco anos, veríamos como varia a dinâmica
dos homicídios no país, quais aumentam, quais diminuem, e quais se mantêm. É bastante
simples e elementar. Mas ninguém fez isso.
Se quisermos nos ocupar dos adolescentes de bairros precários em conflito com a lei (não
digo homicidas, porque o número é muito reduzido e, portanto, não significativo para extrair
consequências gerais), a primeira coisa que observaremos é que, como é óbvio, nem todos os
jovens do bairro estão em conflito, e sim um grupo minoritário deles. Se formulássemos também
uma dezena de perguntas e as aplicássemos a esse universo, teríamos como resultado as
variáveis indicadoras de risco mais frequentes.
Assim, suponho que a evasão escolar pode ser um fator de risco, mas, na verdade, não
sabemos nem sequer em que medida ela incide. A procedência de um lugar violento ou o uso de
tóxicos pelos pais podem ser mais importantes, não os descarto, mas essas são hipóteses e não
constatações, e é apenas destas últimas que podem resultar os indicadores dos aspectos de
maior relevância preventiva e sobre os quais se deve atuar.
Sabemos que, se melhorássemos tudo, teríamos um número menor de homicídios e de
jovens em conflito com a lei, mas não podemos melhorar tudo, de modo que, no momento,
devemos saber para onde direcionar a maior atenção e concentrar os maiores esforços. Será
muito difícil fazê-lo? Custará milhões e milhões? Não, não custaria nem 1% do que se investe em
segurança, mas nos serviria para investir da maneira mais eficaz os 99% restantes.
É evidente que se trata de dados grosseiros, e exemplifico só para dar uma ideia da
metodologia. A mesma poderia ser aplicada à violência intrafamiliar, a mortes de trânsito, ao
roubo de automóveis, a lesões em tumultos, à disposição de denunciar, a zonificações por
delitos, a fraudes, à pirataria do asfalto, ao furto de gado etc.
Ninguém pode prevenir se antes não se esgotarem os recursos técnicos para saber o que é
que se deve prevenir. Não há tática possível sem um quadro da situação. Isso parece tão
elementar que não encontramos mais argumentos para reforçá-lo: muitas vezes a evidência cria
obstáculos à argumentação, porque ninguém se ocupa do que é evidente; ninguém faz uma tese
para demonstrar que os objetos pesados caem para baixo.
O quadro da situação se configura com base em quadros locais muito pequenos, que, em
determinadas ocasiões, detectarão marcos conflitivos sobre os quais se pode atuar, como a
proximidade de moradias de classe média ou alta com bairros pobres. Há líderes, pessoas
respeitadas, modos de estabelecer pontes de comunicação: se temos que viver juntos não nos
matemos, vejamos como fazê-lo, o que trocar.

A prevenção da violência não está muito distante de se requerer um modelo análogo ao
sanitário. Seria inimaginável um sistema de saúde em que cada funcionário decidisse como
investir segundo sua avaliação pessoal. Em zonas com doentes de Chagas-Mazza teríamos
hospitais cheios de centros cirúrgicos vazios, porque o projetista é cirurgião. Vacinaríamos ou
não, segundo o que reclamam os meios, formaríamos especialistas que não teriam trabalho,
enviaríamos tomógrafos para onde não há eletricidade. Qualquer meio de comunicação de
massa denunciaria erupções e epidemias, as pessoas entrariam em pânico ao viajar,
desinfetariam os sapatos quando entrarem em suas casas. Isso, que não passa de um disparate
imaginário, não fica muito longe do que fazemos em matéria de prevenção da violência.
Não há estatísticas ingênuas nem investigações objetivas no sentido da ciência pura. Todas
têm uma intencionalidade, de modo que, para evitar confusões é mister precisar o que se busca
e o que se quer obter. Isso, que é elementar em toda metodologia de investigação, deve ser
sublinhado na criminologia cautelar, para que fique bem evidente: a prevenção da violência com
o objetivo de reduzir seus índices de produção de cadáveres.

56. A dignificação policial
A criminologia cautelar deve prestar especial atenção às polícias, que em nossa região
padecem de diferentes graus de deterioração, que será mister diagnosticar para emprender um
processo de reconstrução institucional. O investigador deberá desdramatizar muitas situações,
porque o oncólogo que desmaia quando olha a radiografía não serve. O que está feito está feito,
as polícias estão, em boa medida, autonomizadas, foram permitidos os circuitos de arrecadação

o. Não se resolve nada com escândalo e reações espasmódicas e contraditórias, sem um prévia
análise da realidade e uma tática de retificação adequada. Salvo os casos intoleráveis, não se
trata de imputar a pessoas, pois estas se formaram em instituições de que a política descuidou
durante muitas décadas; os deteriorações têm causas estruturais que são as que devem ser
apontadas.
A princípio, nem todas as polícias da região padecem do mesmo grau de deterioração. Isso
nem sequer sucede com todas as polícias de um mesmo país, em particular quando se trata de
um país extenso e federativo. Por conseguinte, deve-se analisar cada caso e proceder a
diagnósticos particulares detalhados antes de tomar qualquer medida, especialmente porque a
função policial não pode parar: é um navio que deve ser reparado em plena navegação, com
todos os problemas que isso implica.
Dois devem ser os objetivos para eliminar a arrecadação autônoma: as formas de
compensação legal antes de obstruir os canais de arrecadação ilegais, e procurar a distribuição
equitativa dos novos benefícios legais. Nesse sentido, não há dúvida de que a sindicalização do
pessoal policial pode trazer soluções mais igualitárias.
Deve-se levar em conta que os novos beneficios não podem se limitar a maiores
emolumentos, e sim a um cuidado geral com as condições de trabalho, sanitárias, assistenciais,
de previdência etc., o que requer um interlocutor que seja expressão de todo o pessoal.
Na atualidade, a polícia que faz tudo tende a desaparecer, substituída por polícias
especializadas, de acordo com as diferentes funções, sobretudo com a distinção entre a função
de segurança pública e a de investigação criminal.
A tecnificação policial não obedece somente a maiores conhecimentos, mas também à
formação cívica e ideológica do pessoal. Se bem que em toda instituição deve primar um critério
pluralista, o limite são as ideologias incompatíveis com a convivência democrática e as garantias
constitucionais.
O pessoal deve formar-se de preferência nas universidades e não ser treinado inteiramente
em guetos profissionais; isso permitirá acabar com preconceitos absurdos e destruir estereótipos.
Por outro lado, o pessoal policial é muitas vezes a mais próxima e às vezes a única
representação que o cidadão tem do Estado, razão pela qual ele deve receber um mínimo de
treinamento para manejar a conflitividade cotidiana, aconselhar, orientar a população,
encaminhar os pedidos às diferentes agências do Estado com capacidade para resolver. A
delegacia, a escola, o hospital e a prefeitura devem coordenar-se, porque disso depende a
resolução de muitos conflitos, que, de outro modo, podem tornar-se violentos e até mesmo
custar vidas humanas.
Os corpos policiais não devem ser muito numerosos, pois números excessivos – que, em
alguns países, chegam a superar os efetivos das forças armadas – dificultam extremamente toda
possibilidade de controle.
Deve-se suprimir a pura meritocracia estatística, que descamba em práticas viciadas. O
controle da qualidade do serviço deve ser valorizado conforme critérios de eficácia preventiva e
não puramente numéricos. No final das contas, se em um circuito policial não acontece nada de
grave, é natural que tampouco tenha um número elevado de procedimentos. A regra de ouro
deve ser o menor incômodo possível à população.
Com lentidão, mas sem interrupção, deve-se pensar em uma aproximação ao modelo
comunitário, a uma polícia com inserção no bairro, no município, no local, porque para a
prevenção é fundamental a imagem pública da polícia e esta se constrói localmente, gera

confiança com sua atuação e sua boa inserção no meio.
Embora em nossos países não seria muito imaginável a eleição popular dos chefes policiais,
não seria demais pensar em consultas locais acerca da avaliação pública dos policiais e em
associações de moradores, pontos de encontro com instituições públicas e privadas, ONGs
locais.
É altamente recomendável que a criminologia cautelar reúna os dados sobre cada
organização policial em forma de survey, valendo-se de todos os meios tecnicamente conhecidos:
documentos e informação oficial, entrevistas anônimas com pessoal subalterno, com as cúpulas,
com as vítimas de delitos, as pessoas que tenham sofrido detenção, a população, análise dos
soldos para estabelecer se houve deterioração da capacidade real de compra, análise das
sanções e das baixas, entrevistas com pessoal aposentado etc. Só depois deste inquérito seria
prudente ensaiar uma tática de transformação com menores riscos.
Todas as modificações das condições de trabalho devem ser explicadas muito claramente a
todo o pessoal, pois do contrário corre-se o risco de que as cúpulas ou alguns grupos internos
façam correr versões alarmistas ou rumores apocalíptico, com o objetivo de gerar mal-estar e
resistência.
A operatividade do sistema penal mudará fundamentalmente com a modificação das
estruturas dessas agências, porque sua extração social e a proximidade ao conflito real a
colocam numa situação muito melhor para comprender sua natureza; não esqueçamos que o
movimento de desmanicomialização foi impulsionado pelos enfermeiros.
As opiniões concretas do pessoal policial, contra tudo o que o preconceito corrente pode
fazer crer, são com frequência muito mais cautelares do que as que provêm dos integrantes dos
outros segmentos do sistema, que guardam uma considerável distância da realidade conflitiva.

57. A prisão como fator de risco
Dado seu efeito reprodutor, a prisão é outro fator específico de risco. Várias são as
interrogações a respeito: não há, na realidade, outra opção senão a contenção de segurança em
jaulas de ouro psicotizantes ou em campos de concentração? A ideologia re era totalmente falsa?
A crise do discurso do pessoal penitenciário não tem remédio? Não achamos isso. Senão
vejamos.
Se por ideologia re se entende que o preso deve ser tratado como um aparelho perigoso a
ser introduzido em uma oficina de reparos para ser devolvido em condições de circular, isso não
somente é falso como também desumano e, além do mais, impossível de funcionar. Nesse
sentido não há nenhum fracasso, uma vez que nunca funcionou nem podia fazê-lo.
Os republicanos estadunidenses não descobriram nada de novo, e sim tomaram como
pretexto o que todos sabíamos e precisamente por isso sempre defendemos que a prisão fosse
usada na medida exatamente inversa àquela que eles praticam, ou seja, mínima e indispensável,
como último recurso. Com esse objetivo, aumentaram-se enormemente as instituições inventadas
para reduzir a prisionização, ou seja, a condenação e a liberdade condicionais. Isso deu lugar às
chamadas penas alternativas, que é preferível chamar de penas não privativas da liberdade.
Elas foram introduzidas em muitos códigos, mas pouco a pouco causaram uma desilusão
generalizada, porque os tribunais foram impedidos de usá-las e, ao invés de esvaziar as prisões,
funcionaram como uma ampliação da rede punitiva, ou seja, o número de presos continuou

subindo, mesmo com a aplicação dessas penas não privativas de liberdade.
Desde então, pensamos que o único modo de reduzir a prisionização é o estabelecimento de
percentuais, ou seja, determinar qual é a capacidade de cada estabelecimento e limitar o número
de presos a essa capacidade, submetendo o resto, na ordem de menor gravidade ou de maior
proximidade da saída, a penas não privativas de liberdade. Como há uma resistência
generalizada a essa solução, as prisões continuam degradando, com o consequente efeito
reprodutor.
Nos foros mundiais de governos, como os congressos da ONU, os representantes dos países
centrais se negam a projetar qualquer tratado que os obrigue a um maior controle das prisões,
apesar de os organismos de direitos humanos dependentes da própria ONU formulem
frequentes condenações aos Estados neste sentido.
Em alguns países a situação alcançou limites insólitos, porque funciona um sistema de
percentuais de facto. Suas prisões estão tão superlotadas que não cabem mais presos nem nas
condições mais deploráveis, razão pela qual as ordens de detenção são cumpridas à medida que
se abrem novas vagas nas prisões, que são preenchidas mediante a seleção implementada pela
polícias, o que lhes possibilitou uma nova fonte autônoma de receita.
De toda forma, o futuro das prisões é incerto. Com uma nova geração de chips poder-se-á
monitorar uma pessoa sem necessidade de institucionalizá-la, demarcando-lhe circuitos de
circulação e provocando sensações paralisantes ou dolorosas se a pessoa se afastar deles. Esse,
certamente, não é um bom panorama futuro, dado que os presos têm limites orçamentários,
mesmo nos Estados Unidos, embora o controle eletrônico possa ser muito mais barato e
generalizado.
Sem dúvida, haverá empresas interessadas em vender pelo menos um chip por habitante.
Tampouco se sabe o que sucederá quando se o sistema cair. Tudo isso, porém,pertence ao
âmbito da futurologia pessimista e não quero deprimi-los mais. Voltemos ao nosso tempo.
Dissemos que o pessoal penitenciário se acha anômico diante da crise dos discursos re e
afirmamos que a única alternativa não é a pura prisão de segurança. O certo é que nos
encontramos perante um número de pessoas institucionalizadas e devemos pensar o que fazer,
como tratá-las, pois é preciso dispensar-lhes um tratamento.
A população de nossas prisões é composta, em sua maioria, de infratores contra a
propriedade e de pequenos traficantes de tóxicos proibidos. Deixo de lado outros casos, que
representam uma minoria, alguns mais problemáticos por sua sintomatologia, outros menos,
porque são agressores ou homicidas ocasionais, que seguramente não voltarão à prisão. A carne
de prisão, aquele que retorna uma e outra vez até que, como vimos, sai do estereótipo por
idade, é em nossa região o delinquente contra a propriedade e o pequeno comerciante de
tóxicos ou as mulas usadas por terceiros.
São infratores que fizeram de seus ilícitos uma forma de sobreviver, certamente nada fácil e
bastante deterioradora e daninha.
Essas pessoas não chegam à prisão pelo que fazem, mas sim porque escolheram mal uma
forma de sobrevivência. Os white collar realizam condutas mais daninhas, embora só
excepcionalmente cheguem à prisão, mas os presos não sabem usar meios muito sofisticados e,
como vimos, são primitivos, desastrados no exercício da sobrevivência ilícita, praticamente se
entregam ao poder punitivo. Eles chegam marcados em um estereótipo inconfundível, quase que
adornados com um uniforme de sua atividade. Eles devem receber um tratamento na prisão.
Qual?

A anomia do pessoal penitenciário responde que o discurso re o coloque diante de uma
missão impossível. Não obstante, às vezes acontece de o preso não voltar mais, e esses casos são
considerados como êxitos ressocializadores. Na verdade, porém, é a ideologia re que funcionou
ou é outra coisa? Será que foi feito algo diferente sem se dar conta do todo? Não estarão
contando vantagem sem sabê-lo?
Creio que sim. Quando observamos mais de perto esses casos vemos que se trata de
suposições em que a pessoa mudou sua autopercepção; ao invés de reforçar a introjeção do
estereótipo de acordo com as demandas do papel desviado, percebe-se a si mesmo de outro
modo e elabora-se um projeto existencial diferente. Se se quer chamar a isso de re-alguma coisa
não me oponho, mas o importante é que nos demos conta do que se trata.
Nesses casos, o preso aprendeu que assumindo o papel conforme o estereótipo, longe de
desempenhar o papel de macho, forte, valente, desafiador, vivo, que sabe de tudo, na realidade
fez papel de bobo, útil ao poder punitivo. Ele se deu conta de seu desvio e de que lhe
enganaram e lhe fizeram seguir o caminho errado, por isso, só pode construir sua própria ruína
e jogar a favor do poder punitivo. Foi vítima de um mau passo, de uma escolha existencial
tremendamente catastrófica no pessoal, mas não porque foi mau, mas sim porque foi bobo.
A princípio, cabe pressupor que o tratamento humano e não degradante impõe velar, antes
de tudo, pela vida e pela saúde do preso. Isso, porém, não passa de um pressuposto bastante
elementar, embora nem sempre observado, a julgar pelo elevado número de mortes violentas
nas prisões, inclusive em sistemas mais ou menos bem cuidados.
Pois bem, contando com esse pressuposto elementar nem sempre observado, o certo é que
ninguém pode negar os efeitos estruturais da prisão que respondem à sua essência de instituição
total. Porém, pode-se empreender ingentes esforços por não acentuá-los e, basicamente, eliminar
do tratamento tudo o que contribua para degradar a autopercepção, lesar sua dignidade em uma
medida maior do que a imposta pelo fato de estar preso.
Eu nunca soube, por exemplo, porque as visitas são submetidas a revistas vexatórias,
quando é mais simples revistar o preso antes de devolvê-lo à cela. Também não entendo porque
faz parte do folclore penitenciário que as inspeções sejam feitas com um ruído infernal e
arremessando todos os pertences dos presos ao chão.
Se o preso por infrações de sobrevivência está preso não tanto pelo que faz, mas porque o
faz mal, porque escolheu um caminho para sobreviver que o leva à sua destruição e que é
funcional à legitimação do poder punitivo, o certo é que ele está preso por sua vulnerabilidade,
da qual toma parte central a introjeção do estereótipo, ou seja, sua própria autopercepção, que
confere um alto nível de vulnerabilidade ao poder punitivo.
Se o preso está preso por sua vulnerabilidade, o que se tem de procurar fazer (chame isso
de re-alguma coisa ou o que quer que seja) é lhe oferecer, não lhe impor, a oportunidade de
elevar seu nível de invulnerabilidade, não de acordo com o preceito você é bom, e sim não seja
bobo. Algo assim como: você é um ser humano, você tem que se dar conta de que essa imagem
que você construiu de você mesmo é falsa, você se degrada a si mesmo e é funcional ao poder, eles
se fazem de simpáticos e usam você como um bobo, estão usando você, explorando sua
ingenuidade. Oferecemos a você a oportunidade de que você se anime. Eles fazem com que você
acredite que a próxima vai ser a boa? Não, não há boa, é uma armadilha a mais. Aqueles que
fazem tudo direito não vêm aqui.
É isso que às vezes se faz sem sabê-lo e são esses os casos de ressocialização que o pessoal
mostra, que, na verdade, são o resultado de um aumento de seu nível de invulnerabilidade. Se

um preso ingressa na prisão quase analfabeto e sai como engenheiro eletrônico, ele conseguiu
mudar sua autopercepção, expulsar de seu interior o estereótipo introjetado e,
consequentemente, elevar seu nível de invulnerabilidade ao poder punitivo; quem expulsa o
estereótipo de seu interior também o faz de seu exterior, pois começa a se sentir portador de um
disfarce.
Não é nada simples levar a cabo essa tarefa. O impacto da revelação do engano
manipulador do poder punitivo pode ser forte, o estereótipo resiste a essa espécie de exorcismo.
Quando alguém se sente frustrado, ludibriado, vítima de um engano, de uma traição, seja na
amizade, no amor ou no dinheiro, fica deprimido. A depressão deve ser muito maior quando se
trata nada mais nada menos do que da própria escolha existencial. Tudo dependerá de que a
introjeção tenha sido muito prematura, preparada desde a infância ou sofrida posteriormente e
de forma mais ou menos súbita, da fragilidade da personalidade, do grau de imaturidade afetiva.
Se não for levada a cabo com o cuidado necessário e por mãos técnicas, a dúvida a respeito
da escolha pode levá-lo a reafirmá-la mediante um fato violento e absurdamente suicida. Não é
fácil aceitar que a perversidade do poder punitivo lhe enganou e lhe usou como uma coisa sem
valor, chegando ao extremo de levá-lo ao fundo social de marginalizado entre os marginalizados,
de excluído dos excluídos.
Este tratamento – que oferece, insistimos que não se trata de impor, a possibilidade de
superar o alto nível de vulnerabilidade – requer uma técnica, uma espécie de clínica da
vulnerabilidade, na qual, é claro, os psicólogos têm um amplo campo de ação especializada.
Estou ciente da tradicional desconfiança crítica a respeito da clínica criminológica, mas há
uma diferença substancial entre esta velha clínica, que buscava a criminogênese individual para
tratá-la, e o que propomos, que é uma clínica que busca e trata a prisiogênese.
Pessoalmente, e apesar de conhecer os preconceitos das escolas psicológicas, creio que
aqueles que encarem esta tarefa não perderiam nada se dessem uma boa lida nos escritos de
Viktor Frankl, ainda que eu não compartilhe de seu marco teórico, porque a experiência
vivencial que refletem é muito importante para colocar-se na situação do outro.
De qualquer maneira, um tratamento e uma clínica da vulnerabilidade são possíveis e sua
teorização teria enorme valor para dotar o pessoal penitenciário de um novo discurso não
contraditório. Se se quer sustentar que isso seria uma nova versão de re-alguma coisa é uma
questão de opinião e de terminologia, mas o certo é que não se trata de nenhum
empreendimento impossível, e sim altamente digno para revalorizar a difícil tarefa do pessoal
penitenciário.

Tradução de textos das ilustrações
Ilustração 1:
Ilustração 2:
Ilustração 3:
Ilustração 4:
Ilustração 5:
Ilustração 6:
Ilustração 7:
Ilustração 8:
Ilustração 9:
Ilustração 10:
Ilustração 11:
Ilustração 12:
Ilustração 13:
Ilustração 14:
Ilustração 15:
Ilustração 16:
Ilustração 17:
Ilustração 18:
Ilustração 19:

Ilustração 20:
Ilustração 21:
Ilustração 22:
Ilustração 23:
Ilustração 24:
Ilustração 25:
Ilustração 26:
Ilustração 27:
Ilustração 28:

Ilustração 29:
Ilustração 30:
Ilustração 31:
Ilustração 32:
Ilustração 33:
Ilustração 34:

Ilustração 35:

A palavra dos mortos
Lombrosianas – Ladrão piemontês – Estuprador de Ravenna – Ladrão Milanês (condenado 12 vezes) – Assassino,
chamado Fussil – Punga, vigarista calabrês – Viejita, tatuado, de Villa Lugano
A Idade Média não acabou
O bem é loiro – O mal é escuro
O grande sucesso da Inquisição – Best seller! O martelo das bruxas Heinrick Krämer e Jacob Sprenger tomaram notas para o Malleus
Friedrich Spee foi encarregado da confissão de todas as bruxas de sua região antes de serem queimadas – Friedrich o
“Grisalho” – Cansado de tantas brutalidades, Spee escreveu e publicou, de forma anônima, Cautio Criminalis
Bentham e o panóptico
A pena é a negação do delito, logo a pena é a afirmação do direito – Hegel
Hitler – Mein campf – Bom para os norte-americanos e suas ideias sobre eugenia
Leptosomático (fraco) = ladrão – Displáxico = urso – Atlético (marcado) = homicida – Pícnico (gordo) = vigarista
Augusto Comte não gozava de saúde mental muito boa. Se tivesse providenciado se suicidar no Riachuelo, não teria
inventado a sociologia; por sorte, tentou no Sena
Orson: Estão nos invadindo de outros mundos! – Se os homens definem as situações como reais, suas consequências
são reais
Não só os pobres delinquem – O delito atravessa todas as camadas sociais – Aposto qualquer coisa contigo
Quarteto Howard Becker – Disrupção
Erving Goffman – A sociedade funciona como um teatro – Atores – Público – E organizadores
Foucault – Panóptico – O poder vigia a todos nós
Eu acredito que sou Napoleão – Eu, Franco Basaglia – Eu, Ronald Laing – Eu, Foucault – Eu, David Cooper – Eu,
Thomas Zsazs – E eu creio na desmanicomialização!
O desmantelamento dos criminólogos críticos – Vitimologia criminal feminista – Outras palavras acadêmicas:
disciplinas psi, antropologia, etnolo​gia – Realismo de esquerda – Teoria do dano social – A academia não ficou
louca, nem renunciou à crítica; quer mais!
O problema é que entram por uma porta e saem pela outra.
Civilização barbárie – Como diria a professor Morrison: “Essa queda converte o espaço civilizado em terceiromundista
Sigmund, linha de barreira – Sigmund, o mal-estar na cultura
Marcuse nas barricadas do Maio francês – Entendo que meu ELO é regido pelo princípio do prazer e que este
momento não tem contenção – Mas vejam-me apenas como um perverso polimorfo
Como a senhora, Dona Rosa, pode não ter medo da rua, com tudo o que mostra a TV? – Você leu Sartori? Leu
Bourdieu? – Eu li.
Sequestrada e morta por obra e graça da televisão encurraladora
Empresários morais – Há vítimas que melhoram a classificação e as vendas – Estes são nossos heróis – A mãe –
Planilha minuto a minuto – Fala a mãe – O que esconde. Por que
A política espetáculo – Medo – Grrr – Insegurança – Mão dura – Penas mais duras – Vote em mim – Dar mais
poder à polícia – Mais prisões – Pesar a urna, em vez do boné
Um candidato voltou a pedir penas mais duras – Vote em mim, que acabarei com a insegurança... – ... com dois
pontapés – O outro candidato pede mais prisões – Menos garantismo e mais repressão exige o candidato – Pobre
eleitor, acossado pelos telepolíticos
LEVIATAN O soberano é composto pelos corpos massacrados de seus súditos
Escola das Américas – Argélia Argélia – Argélia Argélia – CIA – Doutrina de Segurança Nacional
A criminologia negacionista – Criminologia – Criminologia
Massacre – Massacre – Massacre –
O massacre dos inocentes – “PARA PREVENI-LAS De que precisam hoje os que sobem ao poder, além de uma
boa tropa, aguardente e salsichão? Precisam do texto” André Gluksmann
Bodes expiatórios – negros – índios – judeus – albaneses – islamistas – croatas – armênios – tutsis – hutus – gays –
burgueses – comunistas – degenerados – associais – imigrantes – incapacitados – pobres – ricos – habitantes urbanos
– garantistas – humoristas
Somos filmados, escutam nossas conversas ao telefone – A moeda plástica nos controla, tudo é poder punitivo – Não
se queixem. Nós sim é que somos os ladrões bobos, os delinquentes beócios – E nós? O pessoal de polícia não tem as
mínimas garantias trabalhistas que qualquer trabalhador tem. – O sistema penal existe para controlar vocês e para

Ilustração 36:
Ilustração 37:
Ilustração 38:

Ilustração 39:
Ilustração 40:
Ilustração 41:

nos isolar – Além disso, treinamento escasso, precariedade salarial, regime disciplinas autoritário e arbitrário –
Estamos cercados
SINDICALIZAÇÃO JÁ! Que ninguém pense em reprimir a nós mesmos, tá?
Ressocializar regressão – Readaptar reestigmatizar
“Tenho um nome, mas aqui me chamam de “Estafeta”, apelido associado a um estereótipo conforme ao fato que
me imputam, estou em prisão preventiva, ou seja, sem condenação. Na realidade, faço parte do número de presos
que meu país politicamente decide ter e do altíssimo percentual de pessoas privadas de sua liberdade submetidas a
medidas cautelares; e pensar que o Art. 18 da nossa Constituição reza que as prisões serão sadias e limpas, para
segurança e não para castigo dos réus. Sofro um processo de deterioração inevitável. É um absurdo que pretendam
adaptar-me, encarcerado, à vida em liberdade. Quem pode acreditar na pena?”
Criminologia militante – Os que enfrentam os verdadeiros guerreiros midiáticos – Atentos e vigilantes – Cidadãos
alertas – Não inventem mais maldades
Ministério do Monitoramento da Violência Social
Criminólogos – Atentos à criminologia midiática – Crime aqui crime ali crime em toda parte – Mapa estatístico

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[1] Este livro resulta da tradução de uma série de artigos publicados pelo autor, semanalmente, no diário argentino Página
12, a partir de 23 de agosto de 2011. As ilustrações são de Miguel Repiso, que se assina Rep, um dos mais talentosos
cartunistas argentinos.
[2] Referência ao cartunista, humorista e roteirista Eduardo Ferro (1917-2011), um dos principais nomes das revistas em
quadrinhos da Argentina. [N. do T.]
[3] Esse crime tenebroso tem descrição documentada na novela A Bíblia envenenada, de Barbara Kingsolver, publicada no
Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[4] O A. se refere a José Gaspar García Rodríguez de Francia, que governou o Paraguai desde praticamente a
independência, em 1811, até sua morte, ocorrida em 1840. [N. do T.]
[5] Expressão que significa “catástrofe” em ídiche, é o termo desse idioma usado por muitos judeus e um número
crescente de cristãos, devido ao desconforto com o significado literal da palavra “holocausto”, de origem grega, e que
remete à prática de expiação dos pecados por incineração. Os partidários dessa substituição argumentam que é ofensivo,
em termos teológicos, sugerir que o massacre de judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial tenha sido um
sacrifício a Deus. [N. do T.]
[6] Referência ao rio Riachuelo ou Matanza-Riachuelo, um curso d’água de 64 km que nasce na provincia de Buenos
Aires, constitui o limite sul da cidade de Buenos Aires e desemboca no rio da Prata. É o rio mais poluído da Argentina,
além de sua bacia ser um dos locais mais contaminados do mundo. [N. do. T.]
[7] Cabecita negra é um termo de conotação racista, muito utilizado na Argentina para denominar um setor da população
difícil de definir. É associado a pessoas de cabelo escuro e pele de tonalidade intermediária, pertencentes à classe
trabalhadora. [N. do T.]
[8] O termo “medio pelo” tem conteúdo pejorativo e se refere às pessoas que pertencem especificamente à classe média
baixa ou emergente da Argentina, Chile e Uruguai. [N. do T.]
[9] Publicado no Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[10] Publicado no Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[11] Bife feito com o miolo do contra-filé da carne de boi [N. do T.]
[12] A fainá é um prato feito com base na farinha de grão-de-bico, água, azeite de oliva, sal e pimenta. Em Buenos Aires,
é muito comum comer a fainá junto com a pizza (a pizza sobre a fainá). [N. do T.]
[13] Nome em alemão para o triângulo rosa, usado nos campos de concentração nazistas para identificar os prisioneiros
que haviam sido enviados para lá por conta da sua homossexualidade. [N. do T.]
[14] Expressão que se refere a leis aprovadas nos anos 1990 por diversos governos estaduais nos Estados Unidos que
obrigam os judiciários estaduais a impor a prisão perpétua a pessoas que foram condenadas por três ou mais delitos
considerados graves. A expressão, proveniente do jargão do beisebol, signidica que na terceira vez que o rebatedor não
conseguir devolver o arremesso do adversário ele está fora do jogo. [N. do T.]
[15] Publicado no Brasil pela Editora Revan. [N. do T.]
[16] Com edição no Brasil em preparação pela Editora Revan.
[17] ¡Hola! é uma revista semanal de língua espanhola especializada em notícias sobre celebridades, publicada na Espanha
e outros países da Europa, e também em diversos países latino-americanos. [N. do T.]
[18] Referência ao militar espanhol franquista José Millan-Aatray y Terreros, autor da frase: “Morte à inteligência! Viva a
morte!”. [N. do T.]
[19] Referência ao asssassinato do cantor e compositor argentino Facundo Cabral, na Guatemala, em julho de 2011,
provavelmente a mando da extrema-direita de El Salvador. [N. do T.]
[20] O número 40 foi pulado na sequência de capítulos da série publicada no jornal Página 12. [N. do T.]
[21] Número absurdo, pois equivaleria a praticamente toda a população da Ucrânia à época. [N.doT.]
[22] Juan Bautista Alberdi foi um político, diplomata, escritor e um dos mais influentes ativistas liberais argentinos do
século XIX. Passou a maior parte de sua vida no exílio em Montevidéu e no Chile. [N. do T.]
[23] Referência a Pablo Zarate Wilka, líder índio de uma rebelião na Bolívia que defendia a autonomia dos povos
indígenas e a reforma agrária. O movimento, ocorrido na passagem do século XIX para o século XX, foi duramente
reprimido pelo governo de La Paz. [N. do T.]
[24] Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, sinistramente famoso por sua “política de segurança” de extremo rigor
contra negros e pobres. [N. do T.]
[25] Tepito é um dos bairros mais antigos da Cidade do México. Conta com uma estação de metrô, em cujo emblema
encontra-se uma luva de boxe, esporte que deu fama mundial a este bairro por conta dos pugilistas que ali nasceram. [N.
do T.]
[26] São vocábulos de uso corrente nas prisões de Buenos Aires, com os quais os presos se diferenciam das autoridades.
[N. do T.]
[27] ... cortar as veias com uma bolacha (galleta) é expressão de uso corrente na Argentina para referir um modo mais
doloroso de suicídio. [N. do T.]
[28] O A. se refere ao mais grave atentado cometido até a atualidade na Espanha, ocorrido em 11 de fevereiro de 2004.
Os alvos dos ataques foram quatro trens que chegavam à estação metroferroviária de Atocha, a maior de Madri. As
explosões mataram 191 pessoas e feriram mais de 1.700. O comando terrorista foi localizado pela polícia semanas depois,

nos arredores da capital espanhola. Os seus membros cometeram suicídio, fazendo explodir o apartamento em que se
haviam refugido. O Partido Popular, então no poder e de orientação conservadora, precipitou-se a acusar a organização
separatista basca ETA como responsável pelo atentado. A tentativa de explorar eleitoralmente o evento acabou se
voltando contra os governistas, que foram derrotados nas eleições pela oposição socialista. [N. do T.]