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A Verdade de Tucum

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE ARTES DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

ARIANI CAETANO PARPAIOLA ERICA DA SILVA VAZ SOUZA

A VERDADE DE TUCUM

Vitória (ES) 2008

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ARIANI CAETANO PARPAIOLA ERICA DA SILVA VAZ SOUZA

A VERDADE DE TUCUM

Trabalho

de

Conclusão

de

Curso

apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau Social, de bacharel em em

Comunicação

habilitação

Jornalismo, sob a orientação do Prof. Dr. José Antonio Martinuzzo.

Vitória (ES) 2008

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ARIANI CAETANO PARPAIOLA ERICA DA SILVA VAZ SOUZA

A VERDADE DE TUCUM

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo.

Aprovada em _____ de ____________ de 2008.

COMISSÃO EXAMINADORA

______________________________ Prof. Dr. José Antonio Martinuzzo Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) – Orientador

______________________________ Profa. Fabíola Zardini Ribeiro Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

______________________________ Profa. M.Sc. Renata de Rezende Ribeiro Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

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SUMÁRIO
1 Memorial ..................................................................................................... 07

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Referências bibliográficas ........................................................................ 19

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Às almas livres que habitam os corpos encarcerados.

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Nossos agradecimentos: à Secretaria de Estado da Justiça do Espírito Santo (Sejus-ES); à direção e ao corpo técnico-administrativo da Penitenciária Estadual Feminina; às mulheres de Tucum, que nos contaram suas histórias.

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“No pior dos assassinos, uma coisa pelo menos deve ser respeitada quando punimos: sua ‘humanidade’” Michel Foucault

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Memorial

De maneira bem contraditória, o livro-reportagem A verdade de Tucum nasceu a partir da vontade de suas autoras e, ao mesmo tempo, de um desses estalos da vida. Tudo começou em uma tarde qualquer de 2007, dentro de um ônibus rumo ao Terminal de Vila Velha, quando uma olhou para outra e perguntou: “Vamos escrever um livro-reportagem?”. A resposta veio imediatamente: “Sim”. Estava formada a dupla e escolhido o formato do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que iríamos apresentar em dezembro de 2008.

A escolha do tema, entretanto, foi angustiante. Cogitou-se falar sobre o aniversário dos dois maiores jornais do Espírito Santo, A Gazeta e A Tribuna, que em 2008 completam, respectivamente, 80 e 70 anos de existência. Mas esse trabalho já havia sido escrito em outras datas comemorativas dos jornais e ainda não era o que mais nos agradava. Nem a história das paneleiras de Vitória, o símbolo mor da cultura e identidade capixaba nos atraía. Ainda não era “a nossa cara” e esse trabalho não traria uma experiência, digamos, diferente e emocionante aos nossos currículos de vida.

Logo no primeiro mês de 2008, escolhemos nosso orientador, o Professor Doutor José Antonio Martinuzzo, que nos conduziu na trajetória da escolha de um tema. Outro professor nos dizia sempre que um escrever um livro não deveria ser uma escolha assim, à revelia. Era necessário ter o que dizer e gente interessada em ler. Isso nos marcou. Marcou tanto que foi determinante para que em uma tarde de domingo, em uma das mesas da sorveteria Fioretto, e depois de muito pensar, escolhêssemos falar de Tucum. Não do presídio, pura e simplesmente, mas das mulheres que lá estavam ou que se relacionavam, de alguma forma, com aquela penitenciária.

A idéia inicial era contar as histórias de vida das presidiárias, ex-presidiárias, familiares e profissionais da Penitenciária Estadual Feminina (PEF), o Presídio de Tucum, no Espírito Santo. O objetivo que havíamos traçado era o de fugir do modo como as detentas são tratadas pelos tradicionais veículos de comunicação, ou seja,

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como números e estatísticas de práticas tipificadas como criminosas e de um sistema prisional que não vai bem no País. Em nossa proposta, elas seriam vistas como aquilo que realmente são: pessoas, que estão presas por motivos diversos e, algumas vezes, alheios à própria vontade. O importante, para nós, era resgatar suas histórias, de seus passados, de suas vidas encarceradas, e suas expectativas para o futuro, que, em Tucum, tarda a chegar.

Nosso problema de pesquisa era, então, responder a uma série de questionamentos sobre essas vidas encarceradas: quem são essas pessoas? De onde vieram? De que cor elas são? Qual sua escolaridade? Como eram suas famílias quando crianças? Qual é o tipo de envolvimento dessas pessoas com o crime? O que é crime? Como eles se estabelecem? Quais são as concepções de tempo, espaço, família e afeto dessas pessoas? Como elas se relacionam com elas mesmas, com o presídio e com a autoridade policial? Enfim, que histórias elas teriam para contar?

A escolha do tema e essa quantidade de questionamentos justificavam-se pelo desejo (individual) de realizar o trabalho. Prevíamos (e queríamos) que a obra fosse feita com a colaboração dos personagens e, principalmente, para eles, o que justificaria a preocupação com o tema e a proposta metodológica. Por outro lado, este trabalho também poderia dar contribuições à pesquisa sociológica e psicológica acerca do comportamento desses personagens e sobre os fenômenos pelos quais eles passam e/ou provocam.

Nossos objetivos com a pesquisa eram, portanto, encontrar as histórias de vida desses personagens e, também, experimentar a linguagem do jornalismo literário em um livro-reportagem sobre eles. Por isso, definimos que cada capítulo contaria a história de um personagem, escolhido em um universo de centenas deles, fugindo dos clichês e estereótipos e retratando o envolvimento dessas pessoas com o crime, umas com as outras e com elas mesmas.

Mas Tucum é sábio e nos mostrou que isso não seria possível da forma como havíamos imaginado. Seria complicado garimpar essas histórias em minas e mais minas delas e em tão pouco tempo. Optamos, junto com o orientador, por retratar o cotidiano, a vida, “a verdade de Tucum” a partir do olhar e das informações de

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nossas entrevistadas – que foram reduzidas, basicamente, às presidiárias. Por isso, fazíamos as entrevistas com os personagens-colaboradores sob a perspectiva da entrevista em profundidade, as gravávamos em aparelhos digitais e transcrevíamos na íntegra. Isso para não perdermos nenhuma fala, não ficarmos preocupadas em anotar longas e intensas conversas nem confiarmos na memória, que poderia nos trair.

Mas a missão não seria fácil. Nem era para ser e, com certeza, ia marcar nossas vidas para sempre e nos transformar em outras pessoas, talvez, melhores.

Em agosto de 2008, quando começamos as visitas ao presídio e a apuração do livro, havia em Tucum 530 mulheres. Só para se ter uma idéia, a capacidade da penitenciária, inaugurada em 6 de janeiro de 1997, é de 105 internas. Essa elevação no número de mulheres presas não era exclusividade do Espírito Santo. Dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), divulgados neste ano em várias matérias jornalísticas, mostram que, no Brasil, mais de 27 mil mulheres estão atrás das grades. Isso representa um aumento da população carcerária feminina em 11% por ano – contra 4% da masculina. E as diferenças entre essas mulheres e homens não param por aí. Enquanto 85% dos presos recebem visitas de suas companheiras, mães e irmãs, apenas cerca de 8% das mulheres são visitadas; a grande maioria cai no esquecimento e no abandono.

O tráfico de drogas é o primeiro no ranking dos crimes praticados por elas. Muitas acabam tendo um papel coadjuvante no crime por influência do companheiro e quando ele morre ou é preso (como elas costumam dizer, “para quem entra nessa vida, ou é caixão ou é prisão”) são as mulheres que assumem o controle da atividade. Em Tucum, mais da metade das detentas cumprem pena por causa do tráfico. Tendo em vista que a grande maioria dessas mulheres são mães, o crime é apontado como a saída para sustentar a família.

Além disso, mais da metade das mulheres são analfabetas, semi-analfabetas ou possuem Ensino Fundamental incompleto. Quase a totalidade das mulheres de Tucum é negra ou parda, mas isso nem era necessário contar, dava para ver a olhos

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nus: Tucum é negro. E as jovens (com idade entre 18 e 24 anos) também são a maioria nesse presídio de extremos.

Mas o cenário ainda não estava totalmente delineado. Conhecíamos Tucum por meio de estatísticas e de ouvir falar. Agora, era necessário imergir nessa realidade – não é essa a proposta da narrativa jornalística literária? Para isso, procuramos o fotógrafo Edson Chagas, que alguns anos antes havia feito um trabalho fotográfico na penitenciária, transformado no livro Mulheres de Tucum1. Os trabalhos eram diferentes, a época outra e a diretora também, mas sentíamos que havia alguma coisa para trocar com Chagas. Enquanto ele nos contava suas histórias, medo e curiosidade rondavam nossas cabeças. Mais curiosidade, pois sempre soubemos que o quadro não era como ele havia pintado.

Foi Chagas quem nos forneceu um contato importante na Secretaria de Justiça do Estado do Espírito Santo (Sejus-ES). Para executar o trabalho, precisaríamos percorrer um verdadeiro caminho das pedras, e percorremos. Montamos o projeto do TCC – na verdade, já havíamos montado durante a disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação – e o entregamos junto com uma solicitação para o nosso contato na Sejus. Essa pessoa não poderia permitir ou impedir que o trabalho fosse realizado, mas, com certeza, faria nossa solicitação chegar ao lugar certo. Nossa desesperança aconteceu somente quando ela disse que não poderíamos entrar nas galerias, onde ficam as celas, mas apenas no local de trabalho de algumas poucas detentas em Tucum. Ou aceitávamos isso

passivamente, ou abortávamos o trabalho diante da restrição ou continuávamos para ver até onde podíamos ir. Ficamos com a última opção.

Uma semana depois de entregarmos a solicitação com o projeto do TCC, recebemos um despacho do Subsecretário para Assuntos do Sistema Penal da Sejus nos autorizando a executar o que havíamos proposto no projeto. Faltavam apenas detalhes burocráticos, como o fornecimento de nossos números de RG para a Sejus e o contato com a diretoria do presídio. Afinal, havíamos solicitado permissão para entrar em Tucum toda a semana e, embora algumas pessoas não

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CHAGAS, Edson. Mulheres de Tucum. Vitória: Fotografia Planejada, 2003.

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tenham achado isso razoável e, até mesmo, “incumprível”, fomos com a proposta até o fim e a defendemos com a diretora da penitenciária. Aval conseguido – até mesmo para entrar em todos os becos e guetos de Tucum –, só nos restava começar, de fato, o trabalho de campo.

A esse tempo, nosso trabalho de pesquisa bibliográfica e a definição do referencial teórico que nortearia a produção do livro-reportagem já estavam avançados. Entendíamos mais e melhor os conceitos da teoria do jornalismo literário – um terreno totalmente novo para nós duas – e o nosso papel dentro dessa narrativa: a de mediadoras e condutoras de falas e pensamentos, que, reunidos, expressariam de forma muito “verdadeira” e humana o que buscávamos ali.

A escolha do tema, do formato e do caminho para a construção desta narrativa não tem o objetivo de desnudar todas as nuances do sistema prisional capixaba. Pelo contrário, o que está aqui é somente uma, das muitas verdades existentes. É a verdade de Tucum, das mulheres de lá, de suas realidades, sejam elas verídicas, sonhadas ou projetadas. É a verdade que vivemos em cada uma de nossas visitas. É a verdade do que vimos, ouvimos e sentimos. Esta é a essência do jornalismo literário: contar uma história com o acento da peculiaridade, do olhar diverso, da emoção e da interação, enfim, um mergulho.

Esse tipo de produção começou a ganhar forma e conceito na Europa muito antes de existir o jornalismo nos moldes como o conhecemos hoje. No século XIX, as diferenças entre jornalismo e literatura ainda não eram bem estabelecidas e o jornalismo era, na verdade, uma atividade desenvolvida pelos intelectuais, com vistas a debater, principalmente, assuntos políticos.

Décadas dessa prática consolidaram, entre aqueles que desenvolviam a atividade jornalística na Europa, o hábito de produzirem livros com narrativas verídicas, tratadas de forma analítica e intelectualizada. Essa produção jornalística, com o passar do tempo, foi ganhando objetividade e relatos que, até então, eram deixados de lado passaram a integrar o grande leque da produção editorial.

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Em uma conceituação sucinta, pode-se definir o jornalismo literário como aquele que “exige uma espécie de mergulho do repórter naquilo que se quer retratar, privilegiando uma observação minuciosa [...]. O jornalismo literário incorpora voz autoral e estilo, permitindo que seja dada ‘vida’ ao que é retratado” (PENA, 2005, p. 173).

Do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, o jornalismo já entrou no século XX como um negócio. As notícias eram transmitidas pelos jornais e pelo rádio e o País começava a despontar como a única potência capaz de rivalizar com a Europa. Nesse cenário de evolução econômica e social, o jornalista John Reed deu início a uma consistente produção de reportagens em livros como México rebelde! (1914) e Dez dias que abalaram o mundo (1919). Por sua contribuição, Reed é considerado um dos precursores do que viria a ser chamado de jornalismo literário e o “pai” do livro-reportagem, apesar de ter havido outros livros que se enquadrassem nessa categoria antes dos de Reed.

O fim da Segunda Guerra Mundial também deu sua contribuição para a alavancada da produção do jornalismo literário. Apesar da falta de recursos materiais e humanos, muitos jornais enviavam profissionais para relatar com profundidade histórias do combate. É o caso, por exemplo, de Rubem Braga, que escrevia para o Diário Carioca, e de Joel Silveira, dos Diários Associados.

Em 1946, com o término do conflito, o jornalista norte-americano John Hersey escreveu uma reportagem sobre como vivia a população sobrevivente de Hiroshima, cidade japonesa atingida por uma bomba atômica lançada pelos Estados Unidos em 1945 para pôr fim à guerra. Segundo Belo,
o relato denso, detalhado e sem anestesia de Hersey recebeu tratamento especial e inédito: ocupou toda a edição da revista The New Yorker, de 31 de agosto de 1946. Transformada em livro no ano seguinte, Hiroshima, a narrativa que põe a nu a vida dos sobreviventes da hecatombe é apontada por especialistas do mundo todo como a melhor reportagem da história (2006, p. 24).

Com a obra de Hersey e o contexto fervilhante da época, surgia o new journalism, com uma aproximação, novamente, entre jornalismo e literatura. “A tal técnica

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consistia em, simplesmente, narrar os fatos com recursos mais próximos da literatura que da linguagem apressada, telegráfica e enxuta do jornalismo. Enfim, era um ‘voto de protesto’ contra a ditadura do lead e da pirâmide invertida” (BELO, 2006, p. 24).

Produzidas com uma linguagem muito mais trabalhada, as reportagens fruto do new journalism ganharam os livros. A transposição de uma mídia para outra era, na verdade, conseqüência do profundo interesse por parte do público, que, muitas vezes, queriam guardar os relatos, mais humanos, interessantes e analíticos.

O livro-reportagem, em uma definição quase acadêmica,
é o veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos. Esse “grau de amplitude superior” pode ser entendido no sentido de maior ênfase de tratamento ao tema focalizado – quando comparado ao jornal, à revista ou aos meios eletrônicos –, quer no aspecto extensivo, de horizontalização do relato, quer no aspecto intensivo, de aprofundamento, seja quanto à combinação desses dois fatores (LIMA, 2004, p. 26).

Segundo Lima, há três características do livro-reportagem que o diferenciam das demais publicações classificadas como livros e que o aproxima dos veículos de comunicação (LIMA, 2004, p. 27-30):

1. O conteúdo de que trata o livro-reportagem corresponde ao real e ao factual. Por isso, a veracidade e a verossimilhança são fundamentais.

2. Quanto ao tratamento, compreendendo a linguagem, montagem e edição do texto, o livro-reportagem apresenta-se como eminentemente jornalístico, respeitando-se as qualidades de precisão, exatidão, clareza e concisão.

3. O livro-reportagem tem a função de servir a distintas finalidades típicas ao jornalismo, que se desdobram desde o objetivo fundamental de informar, orientar, explicar.

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Em 1965, surgia a obra máxima do new journalism: A sangue frio, de Truman Capote, caracterizada como romance de não-ficção. Dessa forma, a década de 1960 foi, sem dúvidas, a era em que as grandes reportagens ganharam força e notoriedade.

No Brasil, as expressões do jornalismo literário começaram com a revista O Cruzeiro, de 1928, cuja fórmula fez sucesso até a década de 1950. Em meados dos anos 60, com a revista Realidade, os repórteres também eram livres para escolher o enfoque de suas matérias, com a possibilidade de descrever a situação pela qual haviam passado para compor aquela narrativa. Aliás, essa técnica de imersão do jornalista tanto na fase de produção como no próprio texto já era uma das práticas do new journalism mais fartamente empregadas.

Nos anos seguintes, a prática de um jornalismo mais literário ganhou as páginas dos jornais diários e, na década de 1980, as páginas dos livros. Apesar disso, a primeira obra brasileira classificada nesse gênero é bem anterior: trata-se de Os sertões, de Euclides da Cunha, publicada em 1897.

É bom lembrar que a ocorrência do jornalismo literário não invalidava (nem invalida) a prática do jornalismo “tradicional”, do lead e da pirâmide invertida. As correntes eram paralelas, tendendo mais para uma ou outra, dependendo do tempo e da influência. No Brasil, o modelo europeu de jornalismo era o adotado até a década de 1950, quando o americano reinou de vez nas redações, mais preocupadas em organizar as notícias da forma como as conhecemos hoje.

E, claro, a adoção do modelo americano afastou o jornalismo brasileiro de uma vertente mais literária. A pressa, o imediatismo e a objetividade do texto impediam os repórteres de apostar em narrativas mais extensas, analíticas e profundas. Tanto que, atualmente, o new journalism ou o jornalismo literário é expresso como uma atividade paralela do profissional, uma vez que redações extensas – e que possibilitavam que um repórter ficasse dias ou meses para desenvolver uma só matéria – são muito mais difíceis de serem mantidas pelos veículos de comunicação atuais.

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Lima (2004, p. 38) considera o livro-reportagem a partir de dois pontos de vista:
Considerado do ponto de vista físico, material, o livro-reportagem é apenas um veículo de comunicação jornalística não-periódica. Mas se alçamos a vista para encarar o fenômeno completo, dinâmico, como um processo da comunicação social moderna, então podemos entendê-lo como um subsistema híbrido, com ligações fundamentais com o sistema jornalismo, em primeiro plano, e com ligações secundárias com o sistema editorial.

Nesse sentido, este livro-reportagem foi elaborado a partir dos fenômenos sociais e psicológicos vivenciados na Penitenciária Estadual Feminina de Tucum e que renderam tantos atrativos capazes de rechear a publicação de modo que ela não seja interessante somente para nós, mas também para você, leitor. Para isso, utilizamos os pressupostos da entrevista em profundidade e da observação participante, apontada por Lima como
uma forma de expressão por si, dotada de individualidade, força, tensão, drama, esclarecimento, emoção, razão, beleza. Nasce daí o diálogo possível, o crescimento do contato humano entre entrevistador e entrevistado, que só acontece porque não há a pauta fechada castrando a criatividade. Em muitas ocasiões, surge o painel de multivozes e o repórter, o autor, é apenas um sutil maestro que costura os depoimentos, interliga visões do mundo com tal talento que parece natural tal arranjo, como se surgisse ali espontaneamente, perfeito. Nessas ocasiões, o jornalistaescritor atinge uma situação máxima de excelência no domínio da entrevista: a de tecedor invisível da realidade, que salta, vívida, das páginas para o coração, a mente e todo o aparato perceptivo do leitor (2004, p. 107).

E para tecer essa realidade, a realidade de Tucum, esse painel multivozes, fomos a Tucum 12 vezes, entre agosto e outubro de 2008. A primeira visita aconteceu no dia 6 de agosto, quando fomos conversar com a diretora do presídio; a última, no dia 24 de outubro.

Tínhamos autorização para ir ao presídio todas as sextas-feiras. O grupo de assistentes sociais da penitenciária definiu o dia com base nas atividades que acontecem em Tucum. Na quarta-feira, por exemplo, é dia de entrega de malotes; na quinta, dia de visita assistida. Receber-nos nessas ocasiões em que a carga de trabalho aumenta seria complicado. Compreendemos os motivos e ficamos com as sextas-feiras. Ainda bem. A sexta-feira é um dia fervilhante em Tucum.

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Em nossas primeiras visitas, conversamos com a diretora e uma das assistentes sociais. Apresentávamos o projeto, dizíamos o que queríamos e pedíamos ajuda para executá-lo. Mas, apesar de elas conhecerem bem certas presas a ponto de nos indicar uma ou outra, era necessário falar com as próprias detentas, perguntar se queriam participar do projeto e se podiam nos indicar as presidiárias com as melhores histórias. E foi isso que fizemos. Passamos uma tarde inteira conversando com as representantes de cada cela, explicando o trabalho e perguntando se aceitavam dar entrevistas e se indicariam as colegas de cela para participar também. Embora tenhamos percebido mais tarde que nem todas passavam as informações para frente nem nos ajudam muito em nossa missão, o aval das representantes foi fundamental. É como elas nos dessem licença para entrar em seus barracos, e depois que entrávamos, falávamos diretamente com as outras presidiárias.

A escolha das entrevistadas começou pelo acaso. Muitas se ofereciam para falar; outras demonstravam uma resistência enorme, principalmente pelo medo de terem seus nomes divulgados. Para não identificar ninguém, optamos por colocar nomes fictícios em todos os entrevistados. Nosso objetivo não era atrapalhar o julgamento de quem ainda esperava a audiência ou a vida futura de quem estava prestes a sair. Até mesmo quem tem o corpo livre está com pseudônimo. O que queríamos era relatar, não delatar.

Aos poucos, fomos ganhando jeito em escolher as entrevistadas. Nas próprias falas de umas já pegávamos a indicação de outras. Suas histórias são muito parecidas, então, quando se encontra uma mulher que não está presa por causa do 33, é necessário entrevistá-la. Algumas entrevistadas, com quem, inicialmente, queríamos falar, tiveram que ser deixadas de lado ou por incompatibilidade de dias e horários – ninguém para suas atividades em Tucum para conversar conosco, portanto, se alguém precisa lavar roupa no dia em que estivéssemos lá, teríamos que colar a barriga no tanque para falar com ela –, ou porque a droga já havia consumido suas faculdades mentais. Às vezes, entrávamos em uma entrevista furada e percebíamos que a detenta não falava coisa com coisa.

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Para falar com elas, usávamos rotinas diferentes, dependendo de em que ala se encontravam. Para falar com uma detenta da ala das sentenciadas, entrávamos na galeria, éramos trancadas lá dentro e, de barraco e barraco, íamos falando com as presas. Pedíamos licença para entrar em cada cela e, geralmente, fazíamos as entrevistas sentadas nas jegas, com a permissão da dona, ou no pátio do banho de sol, se o barulho fosse muito alto dentro do barraco. Para ir embora, contávamos com o grito de uma detenta, chamando um dos agentes para abrir o portão.

Na ala das provisórias, as assistentes sociais não nos deixavam entrar. Por isso, entrevistar as mulheres de lá era mais complicado. Tínhamos que explicar com quem queríamos falar (entrevistamos, basicamente, as representantes, que já conhecíamos) e a assistente social responsável pelas provisórias pedia ao agente que a soltasse. Do lado de fora, perguntávamos se ela nos daria uma entrevista. Se a resposta fosse negativa, voltava à cela; se positiva, íamos conversar ou na sala da assistente social ou na sala da psicóloga do presídio, que fica fora da galeria, perto da fábrica de roupas. Terminado o papo, voltávamos à sala da assistente social, “devolvíamos” a presa e ela voltava ao seu barraco, conduzida por um agente.

O mesmo procedimento valia para conversar com as detentas do regime semiaberto. Elas vinham ao nosso encontro, que, algumas vezes, aconteceu até mesmo na sombra de uma árvore em frente à galeria. No berçário, podíamos entrar. Um agente abriu os portões e ficávamos lá dentro, com as mães, os bebês e as futuras mamães. Sempre permanecíamos nas celas por três horas, das 14 às 17 horas. Era tempo suficiente de conversar com quem queríamos.

Entre entrevistadas oficiais e não, falamos com detentas de todos os regimes, de diferentes classes sociais, cores e sexualidade. Falamos também com presas de diferentes valores e caráter. E aí morava uma pequena dificuldade. Não foi na primeira visita que percebemos que, para muitas delas, aquela realidade que viviam em Tucum precisava ser inventada para que ficasse um pouco melhor. Em alguns momentos, entrevistas inteiras caíram por terra porque descobríamos que não havia verdade em grande parte do que foi dito. Mas, por fim, isso nos mostrou que em Tucum é assim: não há uma ou a verdade, mas muitas verdades, vividas, inventadas e criadas por aquelas que estão lá.

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Os capítulos deste livro-reportagem estão organizados de modo a retratar essas verdades à medida que elas aparecem, meio até que de forma cronológica. No primeiro deles, abordamos a organização e a ética que permeiam o presídio. Para isso, fazemos um giro pela penitenciária, apresentando sua estrutura física e modus operandi. Depois, é hora de conhecer quem habita esse lugar, quem são essas mulheres de Tucum e por que estão encarceradas.

Tendo conhecido Tucum e as detentas, passamos a descrever como é a vida dessas mulheres, como subvertem as regras impostas pelo presídio e por elas mesmas, como se relacionam ao mundo externo, como lidam com a libido. Amor e sexo não são tabus em Tucum. Família é tema complicado, porque as conformações familiares dessas mulheres não são nada convencionais.

Convencional mesmo é a forma de elas se manifestarem como mulheres, como veremos em um capítulo específico. A feminilidade das encarceradas é a mesma das libertas. E da mesma forma que as que estão aqui fora, algumas têm a possibilidade de trabalhar, formal ou informalmente, como destaca o capítulo 8. Na nona parte, veremos como as detentas enxergam Deus e manifestam sua fé. Fé, que, em muitos momentos, está na vontade de que o filho não siga os mesmos passos que elas, como destacamos na parte relativa à maternidade.

O que elas fazem também está presente neste livro-reportagem. O que elas fazem como artistas está expresso no capítulo 11, com destaque para as atividades do Projeto Lilás, em que as próprias detentas escrevem um jornal com suas histórias de vida. Mas elas não fazem só arte, mas também motins e rebeliões. A última rebelião acontecida em Tucum está contemplada no capítulo 12. No 13, um amontoado de felicidade no evento “Tucum para as crianças”, ocorrido no dia 18 de outubro em comemoração ao Dia das Crianças. Em meio a tanto sofrimento e dor, não poderia faltar uma pitada de comoção e alegria.

Assim está organizado o livro-reportagem. Assim está expressa a verdade de Tucum.

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Referências bibliográficas

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BELO, Eduardo. Livro-reportagem. Contexto, 2006.

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CHAGAS, Edson. Mulheres de Tucum. Fotografia Planejada, 2003.

DEMO, Pedro. Pesquisa participante: saber pensar e intervir juntos. Brasília: Liber Livro, 2004. Série Pesquisa em Educação, v. 8.

FERREIRA, Carlos Rogé. Literatura e jornalismo: práticas políticas. Edusp, 2004.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2004. GALENO, Alex. Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. Escrituras, 2003.

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LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2005.

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20

PENA, Felipe (Coord.). Jornalismo. Rio de Janeiro: Rio, 2005. Coleção 1000 perguntas. ______. Jornalismo literário. Contexto, 2006.

PROSE, Francine. Para ler como um escritor. Jorge Zahar, 2008.

TALESE, Gay. Fama e anonimato. Companhia das Letras, 2004.

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VARELLA, Dráuzio. Estação Carandiru. Companhia das Letras, 1999.

WOLFE, Tom. Radical chique e o novo jornalismo. Companhia das Letras, 2005.

0

A verdade de Tucum

Ariani Caetano Erica Vaz

1

SUMÁRIO
Introdução ............................................................................................................... 02

1

Tucum, muito prazer .................................................................................... 09

2

As razões que a própria razão desconhece .............................................. 18

3

Um lugar onde o permitido é proibir .......................................................... 24

4

Mande notícias do lado de lá ...................................................................... 28

5

Elas gostam de meninos e meninas .......................................................... 31

6

Filhos da mãe ............................................................................................... 34

7

Corpos encarcerados também podem ser belos ...................................... 38

8

Mil motivos ................................................................................................... 41

9

“Uma página em branco, Deus, é o que eu quero ser” ............................ 46

10

A fé de Ana ................................................................................................... 49

11

Projeto Lilás ................................................................................................. 53

12

Olho por olho, dente por dente .................................................................. 61

13

Entre o sagrado e o profano ....................................................................... 65

O meu Tucum .......................................................................................................... 73

Resumo de um cotidiano não publicado ............................................................. 83

2

Introdução
De maneira bem contraditória, o livro-reportagem A verdade de Tucum nasceu a partir da vontade de suas autoras e, ao mesmo tempo, de um desses estalos da vida. Tudo começou em uma tarde qualquer de 2007, dentro de um ônibus rumo ao Terminal de Vila Velha, quando uma olhou para outra e perguntou: “Vamos escrever um livro-reportagem?”. A resposta veio imediatamente: “Sim”. Estava formada a dupla e escolhido o formato do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que iríamos apresentar em dezembro de 2008.

A escolha do tema, entretanto, foi angustiante. Cogitou-se falar sobre o aniversário dos dois maiores jornais do Espírito Santo, A Gazeta e A Tribuna, que em 2008 completam, respectivamente, 80 e 70 anos de existência. Mas esse trabalho já havia sido escrito em outras datas comemorativas dos jornais e ainda não era o que mais nos agradava. Nem a história das paneleiras de Vitória, o símbolo mor da cultura e identidade capixaba nos atraía. Ainda não era “a nossa cara” e esse trabalho não traria uma experiência, digamos, diferente e emocionante aos nossos currículos de vida.

Logo no primeiro mês de 2008, escolhemos nosso orientador, o Professor Doutor José Antonio Martinuzzo, que nos conduziu na trajetória da escolha de um tema. Outro professor nos dizia sempre que um escrever um livro não deveria ser uma escolha assim, à revelia. Era necessário ter o que dizer e gente interessada em ler. Isso nos marcou. Marcou tanto que foi determinante para que em uma tarde de domingo, em uma das mesas da sorveteria Fioretto, e depois de muito pensar, escolhêssemos falar de Tucum. Não do presídio, pura e simplesmente, mas das mulheres que lá estavam ou que se relacionavam, de alguma forma, com aquela penitenciária.

A idéia inicial era contar as histórias de vida das presidiárias, ex-presidiárias, familiares e profissionais da Penitenciária Estadual Feminina (PEF), o Presídio de Tucum, no Espírito Santo. O objetivo que havíamos traçado era o de fugir do modo como as detentas são tratadas pelos tradicionais veículos de comunicação, ou seja,

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como números e estatísticas de práticas tipificadas como criminosas e de um sistema prisional que não vai bem no País. Em nossa proposta, elas seriam vistas como aquilo que realmente são: pessoas, que estão presas por motivos diversos e, algumas vezes, alheios à própria vontade. O importante, para nós, era resgatar suas histórias, de seus passados, de suas vidas encarceradas, e suas expectativas para o futuro, que, em Tucum, tarda a chegar.

Nosso problema de pesquisa era, então, responder a uma série de questionamentos sobre essas vidas encarceradas: quem são essas pessoas? De onde vieram? De que cor elas são? Qual sua escolaridade? Como eram suas famílias quando crianças? Qual é o tipo de envolvimento dessas pessoas com o crime? O que é crime? Como eles se estabelecem? Quais são as concepções de tempo, espaço, família e afeto dessas pessoas? Como elas se relacionam com elas mesmas, com o presídio e com a autoridade policial? Enfim, que histórias elas teriam para contar?

A escolha do tema e essa quantidade de questionamentos justificavam-se pelo desejo (individual) de realizar o trabalho. Prevíamos (e queríamos) que a obra fosse feita com a colaboração dos personagens e, principalmente, para eles, o que justificaria a preocupação com o tema e a proposta metodológica. Por outro lado, este trabalho também poderia dar contribuições à pesquisa sociológica e psicológica acerca do comportamento desses personagens e sobre os fenômenos pelos quais eles passam e/ou provocam.

Nossos objetivos com a pesquisa eram, portanto, encontrar as histórias de vida desses personagens e, também, experimentar a linguagem do jornalismo literário em um livro-reportagem sobre eles. Por isso, definimos que cada capítulo contaria a história de um personagem, escolhido em um universo de centenas deles, fugindo dos clichês e estereótipos e retratando o envolvimento dessas pessoas com o crime, umas com as outras e com elas mesmas.

Mas Tucum é sábio e nos mostrou que isso não seria possível da forma como havíamos imaginado. Seria complicado garimpar essas histórias em minas e mais minas delas e em tão pouco tempo. Optamos, junto com o orientador, por retratar o cotidiano, a vida, “a verdade de Tucum” a partir do olhar e das informações de

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nossas entrevistadas – que foram reduzidas, basicamente, às presidiárias. Por isso, fazíamos as entrevistas com os personagens-colaboradores sob a perspectiva da entrevista em profundidade, as gravávamos em aparelhos digitais e transcrevíamos na íntegra. Isso para não perdermos nenhuma fala, não ficarmos preocupadas em anotar longas e intensas conversas nem confiarmos na memória, que poderia nos trair.

Mas a missão não seria fácil. Nem era para ser e, com certeza, ia marcar nossas vidas para sempre e nos transformar em outras pessoas, talvez, melhores.

Em agosto de 2008, quando começamos as visitas ao presídio e a apuração do livro, havia em Tucum 530 mulheres. Só para se ter uma idéia, a capacidade da penitenciária, inaugurada em 6 de janeiro de 1997, é de 105 internas. Essa elevação no número de mulheres presas não era exclusividade do Espírito Santo. Dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), divulgados neste ano em várias matérias jornalísticas, mostram que, no Brasil, mais de 27 mil mulheres estão atrás das grades. Isso representa um aumento da população carcerária feminina em 11% por ano – contra 4% da masculina. E as diferenças entre essas mulheres e homens não param por aí. Enquanto 85% dos presos recebem visitas de suas companheiras, mães e irmãs, apenas cerca de 8% das mulheres são visitadas; a grande maioria cai no esquecimento e no abandono.

O tráfico de drogas é o primeiro no ranking dos crimes praticados por elas. Muitas acabam tendo um papel coadjuvante no crime por influência do companheiro e quando ele morre ou é preso (como elas costumam dizer, “para quem entra nessa vida, ou é caixão ou é prisão”) são as mulheres que assumem o controle da atividade. Em Tucum, mais da metade das detentas cumprem pena por causa do tráfico. Tendo em vista que a grande maioria dessas mulheres são mães, o crime é apontado como a saída para sustentar a família.

Além disso, mais da metade das mulheres são analfabetas, semi-analfabetas ou possuem Ensino Fundamental incompleto. Quase a totalidade das mulheres de Tucum são negras ou pardas, mas isso nem era necessário contar, dava para ver a

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olhos nus: Tucum é negro. E as jovens (com idade entre 18 e 24 anos) também são a maioria nesse presídio de extremos.

Mas o cenário ainda não estava totalmente delineado. Conhecíamos Tucum por meio de estatísticas e de ouvir falar. Agora, era necessário imergir nessa realidade – não é essa a proposta da narrativa jornalística literária?

E para tecer essa realidade, a realidade de Tucum, esse painel multivozes, fomos a Tucum 12 vezes, entre agosto e outubro de 2008. A primeira visita aconteceu no dia 6 de agosto, quando fomos conversar com a diretora do presídio; a última, no dia 24 de outubro.

Tínhamos autorização para ir ao presídio todas as sextas-feiras. O grupo de assistentes sociais da penitenciária definiu o dia com base nas atividades que acontecem em Tucum. Na quarta-feira, por exemplo, é dia de entrega de malotes; na quinta, dia de visita assistida. Receber-nos nessas ocasiões em que a carga de trabalho aumenta seria complicado. Compreendemos os motivos e ficamos com as sextas-feiras. Ainda bem. A sexta-feira é um dia fervilhante em Tucum.

Em nossas primeiras visitas, conversamos com a diretora e uma das assistentes sociais. Apresentávamos o projeto, dizíamos o que queríamos e pedíamos ajuda para executá-lo. Mas, apesar de elas conhecerem bem certas presas a ponto de nos indicar uma ou outra, era necessário falar com as próprias detentas, perguntar se queriam participar do projeto e se podiam nos indicar as presidiárias com as melhores histórias. E foi isso que fizemos. Passamos uma tarde inteira conversando com as representantes de cada cela, explicando o trabalho e perguntando se aceitavam dar entrevistas e se indicariam as colegas de cela para participar também. Embora tenhamos percebido mais tarde que nem todas passavam as informações para frente nem nos ajudam muito em nossa missão, o aval das representantes foi fundamental. É como elas nos dessem licença para entrar em seus barracos, e depois que entrávamos, falávamos diretamente com as outras presidiárias.

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A escolha das entrevistadas começou pelo acaso. Muitas se ofereciam para falar; outras demonstravam uma resistência enorme, principalmente pelo medo de terem seus nomes divulgados. Para não identificar ninguém, optamos por colocar nomes fictícios em todos os entrevistados. Nosso objetivo não era atrapalhar o julgamento de quem ainda esperava a audiência ou a vida futura de quem estava prestes a sair. Até mesmo quem tem o corpo livre está com pseudônimo. O que queríamos era relatar, não delatar.

Aos poucos, fomos ganhando jeito em escolher as entrevistadas. Nas próprias falas de umas já pegávamos a indicação de outras. Suas histórias são muito parecidas, então, quando se encontra uma mulher que não está presa por causa do 33, é necessário entrevistá-la. Algumas entrevistadas, com quem, inicialmente, queríamos falar, tiveram que ser deixadas de lado ou por incompatibilidade de dias e horários – ninguém para suas atividades em Tucum para conversar conosco, portanto, se alguém precisa lavar roupa no dia em que estivéssemos lá, teríamos que colar a barriga no tanque para falar com ela –, ou porque a droga já havia consumido suas faculdades mentais. Às vezes, entrávamos em uma entrevista furada e percebíamos que a detenta não falava coisa com coisa.

Para falar com elas, usávamos rotinas diferentes, dependendo de em que ala se encontravam. Para falar com uma detenta da ala das sentenciadas, entrávamos na galeria, éramos trancadas lá dentro e, de barraco e barraco, íamos falando com as presas. Pedíamos licença para entrar em cada cela e, geralmente, fazíamos as entrevistas sentadas nas jegas, com a permissão da dona, ou no pátio do banho de sol, se o barulho fosse muito alto dentro do barraco. Para ir embora, contávamos com o grito de uma detenta, chamando um dos agentes para abrir o portão.

Na ala das provisórias, as assistentes sociais não nos deixavam entrar. Por isso, entrevistar as mulheres de lá era mais complicado. Tínhamos que explicar com quem queríamos falar (entrevistamos, basicamente, as representantes, que já conhecíamos) e a assistente social responsável pelas provisórias pedia ao agente que a soltasse. Do lado de fora, perguntávamos se ela nos daria uma entrevista. Se a resposta fosse negativa, voltava à cela; se positiva, íamos conversar ou na sala da assistente social ou na sala da psicóloga do presídio, que fica fora da galeria, perto

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da fábrica de roupas. Terminado o papo, voltávamos à sala da assistente social, “devolvíamos” a presa e ela voltava ao seu barraco, conduzida por um agente.

O mesmo procedimento valia para conversar com as detentas do regime semiaberto. Elas vinham ao nosso encontro, que, algumas vezes, aconteceu até mesmo na sombra de uma árvore em frente à galeria. No berçário, podíamos entrar. Um agente abriu os portões e ficávamos lá dentro, com as mães, os bebês e as futuras mamães. Sempre permanecíamos nas celas por três horas, das 14 às 17 horas. Era tempo suficiente de conversar com quem queríamos.

Entre entrevistadas oficiais e não, falamos com detentas de todos os regimes, de diferentes classes sociais, cores e sexualidade. Falamos também com presas de diferentes valores e caráter. E aí morava uma pequena dificuldade. Não foi na primeira visita que percebemos que, para muitas delas, aquela realidade que viviam em Tucum precisava ser inventada para que ficasse um pouco melhor. Em alguns momentos, entrevistas inteiras caíram por terra porque descobríamos que não havia verdade em grande parte do que foi dito. Mas, por fim, isso nos mostrou que em Tucum é assim: não há uma ou a verdade, mas muitas verdades, vividas, inventadas e criadas por aquelas que estão lá.

Os capítulos deste livro-reportagem estão organizados de modo a retratar essas verdades à medida que elas aparecem, meio até que de forma cronológica. No primeiro deles, abordamos a organização e a ética que permeiam o presídio. Para isso, fazemos um giro pela penitenciária, apresentando sua estrutura física e modus operandi. Depois, é hora de conhecer quem habita esse lugar, quem são essas mulheres de Tucum e por que estão encarceradas.

Tendo conhecido Tucum e as detentas, passamos a descrever como é a vida dessas mulheres, como subvertem as regras impostas pelo presídio e por elas mesmas, como se relacionam ao mundo externo, como lidam com a libido. Amor e sexo não são tabus em Tucum. Família é tema complicado, porque as conformações familiares dessas mulheres não são nada convencionais.

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Convencional mesmo é a forma de elas se manifestarem como mulheres, como veremos em um capítulo específico. A feminilidade das encarceradas é a mesma das libertas. E da mesma forma que as que estão aqui fora, algumas têm a possibilidade de trabalhar, formal ou informalmente, como destaca o capítulo 8. Na nona parte, veremos como as detentas enxergam Deus e manifestam sua fé. Fé, que, em muitos momentos, está na vontade de que o filho não siga os mesmos passos que elas, como destacamos na parte relativa à maternidade.

O que elas fazem também está presente neste livro-reportagem. O que elas fazem como artistas está expresso no capítulo 11, com destaque para as atividades do Projeto Lilás, em que as próprias detentas escrevem um jornal com suas histórias de vida. Mas elas não fazem só arte, mas também motins e rebeliões. A última rebelião acontecida em Tucum está contemplada no capítulo 12. No 13, um amontoado de felicidade no evento “Tucum para as crianças”, ocorrido no dia 18 de outubro em comemoração ao Dia das Crianças. Em meio a tanto sofrimento e dor, não poderia faltar uma pitada de comoção e alegria.

Assim está organizado o livro-reportagem. Assim está expressa a verdade de Tucum.

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Tucum, muito prazer

A palmeira tucum do brejo, nativa da região amazônica, é rica em fibras. Utilizada para fazer os famosos anéis de tucum – que mais parecem de madeira –, a Bactros setosa era tão abundante em determinada região de Cariacica, que deu a um bairro inteiro o nome de Tucum. Às margens da Rodovia José Sete, essa região, afastada e alta, abriga algumas importantes instituições do Estado do Espírito Santo. Uma delas é o Centro de Formação e Aperfeiçoamento da Polícia Militar, onde é formada a mão-de-obra que pode atuar logo ali ao lado, no Presídio Estadual Feminino.

Também na Rodovia José Sete, fica o Hospital Adauto Botelho, onde os considerados loucos são internados. O Adauto Botelho é vizinho à Penitenciária Estadual Feminina, o Presídio de Tucum, onde as consideradas criminosas são trancadas. Inaugurada em 6 de janeiro de 1997, a Penitenciária de Tucum nasceu para abrigar 105 internas em regime fechado. Até nossa última visita (em outubro de 2008), o presídio abrigava 568 mulheres nos regimes fechado e semi-aberto. São as mulheres de Tucum, mas nem por isso mulheres de fibra.

O local parece um vilarejo do interior. Depois da rodovia, é necessário descer uma estradinha de chão e subir uma ladeira para se chegar ao presídio. No meio do caminho há uma encruzilhada. À esquerda, o Adauto Botelho; ao centro, Tucum; à direita, casas. Seguíamos sempre em frente. Subíamos a ladeira e parávamos em frente ao grande portão de metal azul. Parávamos por dois motivos: para repor as energias perdidas na caminhada e para esperar que alguém o abrisse e nos deixasse entrar.

Nos primeiros dias de visita, a pergunta “quem são vocês” era inevitável, mas depois que passamos a ir a Tucum com certa freqüência nem era mais necessário tocar a campainha. Do alto da guarita central, agentes nos avistavam e abriam o portão. No meio do morro já separávamos o documento de identidade e desligávamos o telefone celular. Quando entrávamos, deixávamos o documento e o aparelho com o agente. Dentro da gaveta, RGs e celulares repousavam calados durante as três horas que permanecíamos lá dentro.

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Por fora, a penitenciária parece feia e pequena. De dentro, vimos que ela realmente é feia, mas não tão pequena assim. À esquerda do portão fica a parte administrativa do presídio. Uma pequena casa abriga a sala da diretora, algumas outras salas, a cozinha e dois banheiros, um masculino e um feminino. Nas paredes, fotos de eventos promovidos no presídio e cartazes feitos, muitas vezes, pelas próprias detentas.

A administração fica perto do prédio inacabado onde funciona uma confecção em que algumas poucas detentas trabalham. Lá também funciona escola, a sala da psicóloga e da médica e a biblioteca da penitenciária. Com espaços apertados e ainda no reboco, o canto à esquerda do portão é pouco freqüentado pelas detentas. É como se fosse o canto das pessoas libertas ou quase libertas, já que somente as presidiárias em regime semi-aberto podem trabalhar.

Na parte central do presídio ficam as galerias das provisórias e das sentenciadas. É uma ala apenas, dividida de forma que as julgadas fiquem à esquerda e as não julgadas, à direita.

Em um pequeno corredor que dá acesso às alas, a primeira sala do lado esquerdo é reservada aos agentes. É ali que eles ficam, sentados, conversando, ou na janela (a única da galeria que não tem grade), olhando o lento movimento do pátio ou brincando com os cachorros (Branquinha e Pretinha) que vivem por lá. Um jardim morto é a paisagem deles. Uma árvore grande e frondosa resiste ao ambiente pouco propício à vida. É ali também que eles revistam os malotes que chegam na quartafeira e olham o conteúdo das inúmeras bolsas e sacolas que as visitas trazem para as presas.

As próximas salas são de duas das três assistentes sociais de Tucum. São pequenas, quadradas, têm uma mesa, um telefone, duas ou três cadeiras, um armário de aço, um ventilador de teto e janelas com grade. Há vários papéis colados nas paredes. Geralmente, são recomendações: a lista do que cada malote pode conter, os dias de visita assistida, os dias de agendamento das visitas.

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Para entrar na galeria, subimos quatro degraus. Paramos diante da mesa utilizada para revistar os malotes das presas e já começamos a sentir o cheiro e a ouvir os gritos de Tucum. E como se grita em Tucum. Grita-se por nada e por tudo. Os sons são altos naturalmente; as vozes das quase 600 mulheres formam uma verdadeira sinfonia, e os berros de umas e outras são perceptíveis até aos mais dispersos. Geralmente, as gargantas exalam um “agenteee” ou clamam por uma assistente social. Independente do que seja, a voz tarda a calar porque o chamado demora a ser atendido.

Do lado de fora, a galeria é pintada até metade de azul e o restante de branco. Do lado de dentro, branco encardido. As paredes são estragadas e furadas; as janelas, de metal, são engradadas e sujas; o teto, repleto de teias de aranha, e o chão, coberto por um ladrilho vermelho e mal acomodado.

Dentro das celas, a pintura, as paredes e o teto são os mesmo. As janelas também, mas as grades das celas são muito mais grossas e reforçadas. Não há portas nas celas, apenas um portão formado por um chapão de metal até a metade e grades dali até o final. Lençóis esticados dentro dos barracos formam uma divisão entre os pseudo-quartos. Nos portões, panos separam o corredor da cela. Antes de entrar em cada uma, é preciso pedir licença.

Na galeria das sentenciadas – presas que já receberam a sentença –, há seis celas e um parlatório, uma cela especial onde as detentas recebem visitas íntimas. Os encontros acontecem nos dias de visita, sábados e domingos, mas parecem não ficar restritos ao local específico para eles. As celas são como as casas das detentas, por isso, por que não receber o companheiro lá mesmo?

Em cada cela, há um banheiro, que também não tem porta. O banho é frio, a água contém muito cloro, e do chão, vários pisos já se soltaram. As camas, ou jegas, como elas chamam, são de alvenaria, mas não há para todas. Algumas detentas dormem no chão, em cima dos finos colchonetes do presídio. Prateleiras são improvisadas e, de tanta coisa que carregam, parecem querer despencar a qualquer momento. Aparelhos de som, TVs, porta-retratos, comida, cremes, pratos e talheres de plástico, frutas e verduras repousam sobre as madeiras fixadas nas paredes.

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Bolsas e roupas ficam no chão, debaixo das camas. E quem não tem uma arranja um cantinho na jega de uma companheira de barraco.

A geladeira é comunitária. Ou se junta dinheiro para comprar uma ou a dona de uma permite que todas usem o eletrodoméstico. Os ventiladores também ventilam para todas e a resistência é usada comunitariamente para refazer a cascuda, a marmita, de todo santo dia. Em Tucum, há certas mordomias, como ter esses eletrodomésticos. Há barracos em que há duas geladeiras, inclusive. Por isso, e talvez só por isso, o banho não pode ser quente, para não fazer cair a energia de todo o presídio.

A comida chega quatro vezes por dia. Pela manhã, um pão para cada detenta e café. Ao meio-dia, chega a marmita, que as detentas refazem dentro das próprias celas. O feijão fica em um caldeirão no corredor da galeria. Quem quiser que se sirva. No meio da tarde, mais pão com café e à noite, outra cascuda. Elas comem nos pratos de plástico, bebem nos copos de plástico e usam talheres igualmente de plástico. Não há faca para cortar a carne; rasga-se no dente.

A marmita é refeita todos os dias. Aproveita-se o arroz e a carne. Verduras e legumes são preparados nos barracos e, às vezes, junta-se ao almoço um bom ovo frito estalado. De sobremesa, quando há, banana. Nos finais de semana, a janta é substituída por pão com presunto e queijo, no sábado, e por hambúrguer, no domingo. Para completar, refrigerante. Água mineral é item escasso em Tucum. Cada detenta tem direito a até cinco litros de água mineral por semana. Por isso, prefere-se beber água da torneira mesmo. Se der, ferve-se a água antes de consumir, se não, bebe-se a da torneira mesmo.

Além de muitas peculiaridades, em Tucum há uma organização própria, que, talvez, funcione muito melhor que a sociedade livre. É como se as detentas refletissem na cadeia o mesmo modus vivendi daqui de fora, só que de forma melhorada, mais ética, coerente e respeitosa. Nas sentenciadas, nos barracos de 1 a 6, as regras de convivência são bastante parecidas. Abrem-se os portões das celas às 7h30; fecham-se às 19 horas, depois da chamada nominal. Quem dorme na cama pode ficar o dia todo deitada, mas quem passa a noite no chão precisa levantar até as 10

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horas. Isso para não atrapalhar o trânsito no barraco e liberar o espaço para a colega que está no Dia de Princesa. A felizarda lava o banheiro duas vezes por dia e mantém a cela limpa. Na sexta-feira pela manhã, todas se envolvem na faxina da galeria.

Se há horário para levantar, também há para apagar as luzes. Às 22 horas, apagamse as lâmpadas, ficando apenas a luminosidade da TV. Há quem prefira aproveitar esse feixe de luz para adiantar o bordado ou a confecção de outro trabalho manual. Nos dias de final de novela, a cela fica mais alvoroçada e as regras caem por terra, afinal, todas se juntam para saber quem, de fato, matou o mocinho da trama.

Mas as regras existem e precisam ser cumpridas. O que determina o modo de execução de uma ordem, muitas vezes, é o dinheiro. Se em um barraco há uma cama sobrando, uma detenta pode pagar R$ 150 por ela e residir naquela cela, dormindo na jega comprada. O preço é tabelado, igual em todos os barracos. Quem não pode pagar, dorme no chão ou espera valer a regra da presa mais velha. Segundo essa “disciplina”, como dizem, uma cama esvaziada pela saída da detenta, por exemplo, deve passar para a pessoa mais velha da cela. E assim sucessivamente. Quem compra uma jega pode vendê-la, mas quem ganha só pode repassá-la, sem obter nenhum retorno financeiro com isso. O dinheiro também fala alto na hora dos serviços “domésticos”. Quem pode paga para uma companheira assumir o Dia de Princesa, lavar roupa e, até mesmo, arrumar a cama. Mas mandar uma detenta tomar naquele lugar ou pisar na mão de uma enquanto se vai ao banheiro à noite é proibido de acordo com a disciplina imposta pelas representantes de celas.

As representantes não são as presas mais perigosas, as que cometeram crimes hediondos, as mais velhas ou as que têm mais tempo de cadeia. São as que impõem mais respeito, por serem duras ou por serem como mães. As representantes são figuras muito importantes para o funcionamento do presídio. Pode parecer loucura, mas sem elas, os representantes “oficiais”, poderiam não conseguir executar suas atividades da forma adequada. Essas líderes informais são responsáveis por manter a ordem em suas celas; levar os pedidos, queixas e

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reclamações das outras detentas para as assistentes sociais, e, principalmente, interceder pelas colegas, e nesses momentos, um grito vai ecoando no outro.

Há duas formas de se fazer ouvir em Tucum. Gritando (e como gritam) ou batendo nos chapões, as partes fechadas dos portões das celas. E quem coordena as batidas, nada ritmadas, nos momentos de desespero ou revolta, são as representantes. São elas quem chamam os agentes, no grito ou na batida, quando alguma colega de cela está passando mal, por exemplo. A parte delas, pelo menos, é feita.

Na ala das provisórias, à esquerda da galeria, o cenário é o mesmo, com pequenas, porém consideráveis diferenças. Há cinco celas nas provisórias: três grandes, com janelas, que abrigam cerca de 60 mulheres, mas com capacidade para metade disso, e duas pequenas, sem janelas. Em cada uma destas vivem aproximadamente 30 mulheres, em um espaço feito para caber 15.

Há apenas oito camas em cada uma das maiores celas da ala das provisórias. Em cada jega, dormem duas mulheres; o restante dorme no chão, no miolo, bem no centro da cela, ou no chapão, perto do portão. As mais velhas e respeitadas ganham um canto, que, mesmo sem cama, é o melhor lugar para ficar, por conta do espaço.

A ala das provisórias é, de fato, a mais superlotada de todo o presídio. Teoricamente, todas as presas que chegam teriam que ir para lá. Como se as celas das provisórias, daquelas que esperam pela audiência, fossem um DPJ. Como nesses lugares não há celas femininas, e as mulheres não podem ficar junto aos homens, levam-se as suspeitas de qualquer delito para Tucum, para a ala das provisórias.

Talvez seja esse o motivo de haver tanta esperança nas detentas que habitam as celas 7 a 11. Pode ser que elas pensem que vão ficar ali por alguns dias, mas a espera pelo julgamento leva anos. Há quem já tenha pago toda sua pena só esperando pelo dia da audiência. Há aquelas também que logo que chegam ao presídio são atravessadas e passam a residir junto às sentenciadas, como se fossem uma delas. O que determina isso são as amizades, a influência ou mesmo

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um pedido feito à assistência social. O argumento é sempre o mesmo: “nas sentenciadas é mais tranqüilo”.

Junto à ala das provisórias, há uma cela especial: o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado). Criticado por muitos, o RDD permanece como uma cela de castigo, ou reflexão como querem pensar algumas. Sempre há gente no RDD. Os nomes que vão habitar esse barraco geralmente são anunciados depois de um motim ou rebelião. Colocam-se algumas presas lá para pensar. Pensar na vida, no que fizeram, no que têm feito e no que vão fazer. Nunca há superlotação no RDD e chegam a sobrar jegas. Mas ninguém as quer ocupar. Dormir no chão com baratas e ratos nem é tão ruim assim.

Em Tucum há outra cela especial. Chamado de cafofo, esse barraco não fica em galeria alguma, mas isolado, separado dos outros. Lá são colocadas as detentas com suspeita de alguma doença transmissível. O cafofo já abrigou tuberculosas, embora suas condições não permitam a recuperação de doença alguma.

Atrás da galeria das sentenciadas e das provisórias fica o banho de sol. É uma quadra coberta que tem um tanque grande de oito torneiras e varais espalhados por boa parte do local. As provisórias podem sair para o banho de sol nas segunda e quartas, durante todo o dia, e na quinta-feira, até as 13 horas. O restante dos horários – terça, quinta à tarde e sexta-feira – é destinado às sentenciadas. É esse momento que elas aproveitam para lavar e secar as roupas. Quando há eventos na quadra – e são muitos (quase todos os dias um grupo religioso está no presídio) –, os varais são retirados, e as roupas nunca cheiraram como quando são lavadas em casa.

Se o banho de sol é regrado para as sentenciadas e provisórias, o mesmo não vale para as detentas que ficam no berçário. Como a ala é específica para as grávidas e mães de crianças de até seis meses, o banho de sol é liberado e as celas têm outra estrutura. O berçário do Presídio de Tucum parece uma casa, com quartos, dois banheiros e uma cozinha. Há portas e banho quente. Mas as regalias são para os bebês, não para as mães. Na área descoberta, tanque e varais. Nos varais, roupas disputavam espaço com fraldas e calças plásticas.

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No berçário, as jegas são de madeira e não há berços. Mães e filhos dividem a cama ou o colchão. Não há espaço nem dinheiro para deixar as crianças, que não têm culpa de nada nem são suspeitas de crime algum, dormir em bercinhos. Na geladeira, água e leite. No fogão, nada. Nas paredes, pinturas infantis e cartazes colados. O berçário é o cantinho menos triste de Tucum. Pelo menos até as crianças estarem lá. Depois que elas vão embora, aos seis meses, as mães precisam deixar o berçário e voltar à cela de origem. No mesmo dia, perde-se o filho e a liberdade do berçário. É muita dor para uma mãe.

Dor também é saber que o dia de ir embora está próximo, mas que tarda a chegar. As presas do regime semi-aberto convivem com a expectativa da ida e a incerteza do quando. Divididas em quatro contêineres metálicos com 18 vagas cada, as detentas do semi-aberto têm banho de sol todos os dias. Separadas do restante do presídio por um alambrado pintado de azul, convivem mais facilmente com o mundo aqui de fora. Podem trabalhar, dentro da própria penitenciária ou fora dela. Há vagas na confecção instalada dentro de Tucum, nos serviços de limpeza do presídio e em algumas empresas parceiras da Secretaria de Justiça (Sejus). As detentas que trabalham foram do presídio vão e voltam por si só, saem certas de que precisam voltar e voltam certas de que um dia vão sair definitivamente. Para que a rotina de trabalho seja cumprida, os portões dos contêineres são abertos às 6 horas. Até as 18 horas, as detentas que saem de Tucum para trabalhar precisam estar de volta.

As que estão mais próximas da liberdade têm direito a saídas de sete dias. O indulto é dado em períodos festivos e em alguma data especial, escolhida pela própria detenta. Geralmente, são concedidos no Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal, Páscoa. A presa vai e volta sozinha, sem escolta policial, e goza da maneira que bem entender de sua liberdade provisória. Da mesma forma como ocorre no dia de visita, quando o indulto está chegando ao fim, a vontade é a de que ele nem tivesse existido. Despedir-se das pessoas e voltar à cadeia pode até ser uma ação digna, mas difícil de ser executada.

Nos dias de visita, também é assim. Quando toca o sinal e os familiares precisam deixar o presídio, a vontade de algumas detentas é a de que seus familiares nem tivessem ido lá. A paixão se agrava quando quem vai visitá-las são os filhos. Das 9

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às 17 horas do sábado e do domingo é pouco tempo para colocar em dia o que as grades fazem ficar para trás. A convivência de final de semana é o único consolo que algumas têm. Mas somente algumas, porque a maioria nem sequer tem visitas assistidas, que são aquelas de meia-hora feitas na presença de um assistente social.

Separadas do mundo, essas mulheres de Tucum passam os dias esperando o próximo, o próximo e o próximo...

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As razões que a própria razão desconhece

- Você foi presa por quê?

- Amei demais!

Um diálogo assim não é inverossímil quando falamos sobre as mulheres de Tucum. Por questão de ordem, quase sempre iniciávamos nossas entrevistas como uma pergunta simples e crucial: “como você chegou até aqui?”. Sorriso amarelo, pausa para pensar e lá vem história... Tão parecidas e diferentes ao mesmo tempo no jeito de agir, de justificar seus atos, de querer ser compreendidas antes de julgadas.

Em 2006, a autônoma Marcela, 28 anos, tentou fugir quando percebeu os carros de policiais militares do Núcleo de Repressão Contra o Crime Organizado (Nuroc) rondando a sua casa em Linhares. Não conseguiu. Foi abordada em um bairro próximo e, na casa que dividia com o ex-marido, foram encontradas drogas, munições e uma pistola. Julgamento oficial: associação ao tráfico e porte ilegal de armas. Julgamento pessoal: conivência.

O então marido de Marcela foi preso um mês depois por tráfico, mas, ao contrário da mulher, que pegou oito anos, foi condenado a quatro anos de prisão. Um ano e sete meses depois já estava solto. Para anunciar seus planos de vida nova, foi até Tucum num sábado reencontrar a mulher. Sentou numa ponta da jega e, olhando para ela, pediu desculpas por tê-la envolvido em nos crimes dele. Disse também que estava namorando outra mulher e que tinha largado a “antiga vida”. O casamento de dez anos tinha chegado ao fim. Marcela só chorou.

Embora nunca tivesse tido participação direta nos “negócios” do ex, Marcela sempre soube quem ele era. Brigou com toda a família para ficar com o rapaz. Tinha então 18 anos. Já trabalhava desde os 15, quando saiu de casa em busca de liberdade. Morou na Serra por três anos antes de se mudar para Linhares com o companheiro. Lá, junto com sogra, revendia roupas de São Paulo.

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Porém, na sua conta bancária, entrava muito mais do que o dinheiro conquistado com a venda de roupas. Marcela era “laranja” do marido. Toda a renda do tráfico ia para a conta dela, embora ela jure que nunca tivesse mexido em um centavo. A contragosto, também deixava armas e drogas entrar em casa.

Antes de pegar o bonde para Tucum, Marcela ficou um ano e sete meses na Penitenciária de Linhares, em uma ala só para mulheres. Testou a paciência da diretora da prisão até o limite e, em uma manhã de 2007, foi mandada, com mais três mulheres, para Cariacica.

Durante toda a entrevista, Marcela parecia rir da própria situação. Simpática e franca, não se eximiu de culpa pelo seu destino, embora ainda estivesse ressentida com o ex-companheiro. Atualmente, namora um antigo vizinho que a mãe arrastou até Tucum para lhe fazer visitas, mas mostra-se cética quanto ao futuro do relacionamento. Prometeu a si mesma nunca mais casar.

Ser abandonada pelo companheiro após ser presa é como final de novela das oito: previsível. Ainda mais se é o tipo de mulher que se arrisca a entrar em presídios com celular e outras coisas dentro do corpo para entregar ao companheiro nos dias de visita. Se eram presas, já não tinha mais utilidade alguma. Como era o caso de Daniele.

Ninguém sabe ao certo quem é Daniele e o que de fato é verdade ou mentira em sua vida. Era a nossa primeira incursão oficial para entrevistas em Tucum. Embora ela não fosse a entrevistada “da vez”, fez questão de nos contar sua história. De uma maneira desbocada, diga-se de passagem.

Seu drama começou quando o marido foi preso. A pedido dele, passou a entrar no presídio com até três celulares dentro no corpo. Todos inseridos em suas partes íntimas. Numa dessas, foi presa. Para o nosso espanto, Daniela contava com detalhes como colocava e tirava os celulares de sua vagina e seu ânus. Inclusive com a ajuda da filha mais velha. Não bastasse tudo isso, logo depois que foi pega, recebeu uma notícia do marido. Podia esquecê-lo. Enquanto ela se “f**** na prisão, ele f**** uma menina de 19 anos”.

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O céu é o limite

Viviane era uma adolescente comum. Cabulava aula para ficar com os amigos. Saía para se divertir sempre que podia. Gostava de se vestir bem. Bonita, vaidosa, cheia de si. Imponente como qualquer jovem. Vivia às turras com os pais separados. Nutria uma raiva especial pelo pai depois de descobrir o caso extraconjugal dele, numa época em que ela, a irmã mais nova e os pais ainda eram uma só família.

Em 2006, com 18 anos, Viviane descobriu muito cedo um jeito fácil, mas arriscado, de ganhar dinheiro. Foi convidada por uma amiga do bairro onde morava na Serra para trazer drogas do Paraguai para o Espírito Santo. Fez o bonde oito vezes. Saía de Vitória para São Paulo. De lá, ia para o Paraná, onde pegava uma balsa para uma cidade paraguaia.

A mercadoria era pasta base de crack. A jovem amarrava as embalagens em suas pernas com fita crepe bem forte. Para disfarçar, usava calças boca de sino. Por causa da pressão e do peso, suas pernas doíam muito. Tanto, que tomava remédio para suportar. Chegando ao Paraguai, geralmente, ficava com a amiga por lá dois dias, para não “ser marcada” pelos funcionários da rodoviária e não levantar suspeitas.

Para Viviane, tudo aquilo valia a pena. Com o serviço de mula, que lhe garantia mil reais por viagem, a jovem pegou as suas coisas e saiu da casa do pai. Foi para o Rio de Janeiro, onde comprou um barraco por R$ 400 reais, na favela Beira-Mar. Mobiliou toda a casa com o dinheiro que conseguiu. Como na favela onde ficava mulher não fazia parte do tráfico como ela gostaria, voltou a fazer bondes. Do Rio fazia o mesmo esquema de São Paulo indo para o Paraguai. Depois passava em Vitória para deixar a mercadoria e voltava para a casa.

Confiante no seu trabalho, Viviane nunca pensou que fosse ser pega. Seu castelo começou a desmoronar no início de 2007. No bonde em que foi pega, ela e amiga trocaram a rotina dos ônibus. Foram rastreadas até chegarem a Serra, onde entregariam a droga. Era uma manhã de abril quando foi abordada por nove policiais junto com a amiga enquanto saíam, em um táxi, do terminal de ônibus.

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Foram encaminhadas para Tucum no mesmo dia. Seu pai já a esperava na porta, chorando. A mãe ficou sabendo da prisão depois, quando saltava de um ônibus e viu na capa de um jornal popular a foto da filha com a chamada “Mulas paraguaias”.

Viviane se lembra bem de como a foto do jornal foi feita. O delegado as provocara dizendo que em Tucum só havia sapatões. Viviane debochou dele e, naquele exato momento, o fotografo disparou os flashes. Furiosa, a jovem avançou para cima do jornalista, mas já era tarde. As duas saíram no jornal rindo.

Em três meses, a primeira audiência. Condenada a dez anos por associação e tráfico interestadual. Mesmo assumindo todos os seus atos com naturalidade, Viviane não considerou a prisão justa. “Eu não fui presa com drogas. Eu não devia ter sido presa. Não tem prova concreta.”

Apesar da rebeldia que a levou para prisão, Viviane contou com todo apoio da família, o que é difícil acontecer. A maioria das presas de Tucum recebe visitas nos finais de semana. Em setembro deste ano, desceu para os contêineres, onde ficam as mulheres que estão no regime semi-aberto. Espera sair do presídio na condicional em janeiro de 2009. Quer voltar a trabalhar. Mas, desta vez, um emprego como garçonete já está bom. No banco dos réus

Solteira, 27 anos, natural de Vila Velha. Cristina saiu de casa para morar sozinha há oito anos, enquanto sua mãe mudava-se definitivamente para os Estados Unidos. O pai faleceu há quatro anos e seus irmãos “estão por aí”. Fez três períodos de Direito em uma faculdade particular e trabalhava no setor financeiro de uma pequena empresa em Vitória. Inteligente, articulada, enumera sem constrangimentos tudo que conquistou com seu alto poder aquisitivo: um carro de R$ 30 mil, jóias avaliadas em R$ 15 mil, roupas de grifes famosas e outros mimos. “Almoçava em churrascaria todos os dias”, gaba-se.

Cristina é uma pessoa vaidosa. Orgulha-se das suas conquistas pessoais e das pessoas “influentes” que conheceu em seu pequeno universo de classe alta. Mas a

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expressão de orgulho esvai-se do seu rosto com uma simples pergunta: “Como você veio parar em Tucum?”. Embora a resposta esteja na ponta da língua, a jovem desvia o olhar e pensa um pouco antes de dizer que está presa pelo mesmo motivo de boa parte de suas colegas: tráfico de drogas.

“Dinheiro fácil e rápido”. Reticente sobre os detalhes, revela apenas que começou a traficar por influência de amigos e que tinha uma posição invejável na hierarquia do grupo de que fazia parte. “Eu obedecia, mas também mandava”. Ela atribui sua prisão à incompetência dos outros, ou melhor, à terceirização dos serviços. “Até para fazer coisa errada é preciso ter competência e honestidade. Se dependesse só de mim, nunca teriam me descoberto.”

Cristina entrou em Tucum em abril de 2006. Seus bons advogados haviam dito que em, no máximo, sete meses estaria livre. Condenação: nove anos. Já cumpriu dois anos e oito meses. Na época, confiando nas promessas dos seus advogados, transferiu para aquele ambiente os mesmo hábitos de bon vivant que mantinha fora. “Eu gastava 500 reais por semana. Sou diabética, mas tenho compulsão por comida. Por dia, eram quatro latas de leite Ninho®”, recorda.

Preocupada com uma política de boa-vizinhança, costumava dividir tudo que recebia com as outras detentas. “Dentro de cadeia é puro interesse”. Continuou pagando o aluguel do seu apartamento em Itapuã e os advogados até seu dinheiro acabar. “Em um ano, foi embora tudo que eu conquistei. Penhorei minhas jóias e meu carro continua apreendido pela Polícia Federal”, faz as contas. Hoje, Cristina depende de um defensor público e da ajuda de uma amiga.

Embora comesse descontroladamente, a jovem que entrou no presídio com 72 kg, em poucos meses, passou a pesar 49 kg. Fragilizada, acabou sendo vítima de uma intriga armada por outra presidiária que queria roubar sua cama. “Fui acusada de bater em uma senhora de 57 anos que dormia do meu lado. Acordei num sábado com seis mulheres me chutando”, recorda. Um minuto seguido de espancamento, até cinco agentes penitenciários a socorrerem.

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Edemas por todo o corpo, três dias no Centro de Terapia Intensiva e mais vinte dias hospitalizada. Voltou ao presídio com suspeita de tuberculose e passou algumas semanas isolada antes de voltar ao convívio das outras mulheres. Não prestou queixa com medo de represálias. O desejo de vingança é mascarado, mas latente. “Hoje tenho Jesus na minha vida, não faria nada com elas. Mas, não sei se quando eu estiver fora daqui, vou pensar dessa forma. Eu teria esse direito, né”, argumenta.

Há poucos meses, Cristina conseguiu sair da ala das condenadas e foi para os contêineres onde ficam as detentas do semi-aberto. Em um espaço um pouco maior que um trailer, bem equipado com televisão, geladeira e rádio, convive com mais 19 mulheres. Mas, de acordo com seus planos, isso só deve durar até janeiro, quando espera conseguir sua condicional com a remissão de pena. “Começo a trabalhar em uma biblioteca pública ainda em outubro, com isso vou conseguir diminuir minha permanência nesse lugar.”

Apesar das expectativas, Cristina se recusa a falar do futuro. Com propriedade de quem estudou direito com o sonho de ser juíza, sabe que não será fácil recomeçar. Voltar aos estudos? Procurar a família? Ir para outro lugar? Nada em mente. “Adianta fazer planos? Nem sei se vou conseguir um emprego quando eu sair”, reforça. De certeza, só que nada disso valeu à pena. “Assim como eu apaguei o dia da minha prisão, vou fazer o mesmo com todos os dias que passei em Tucum.”

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Um lugar onde o permitido é proibir

Em Tucum, a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo” vale tanto quanto aquela que diz que “toda regra tem a sua exceção”. Convivendo em plena harmonia, os dois jargões significam, na prática, que pouco importa quem tenha o poder (e que poder seja esse), mas sempre há formas de quebrá-lo. As lideranças formais e as informais de Tucum exercem poderes diferentes e de formas distintas sobre as pessoas. Também são heterogêneas as formas de desmantelar qualquer ordem, regra ou uma voz que ecoe mais alto que outras.

Para funcionar, o presídio precisa estabelecer normas para as detentas. Mas normas, todos sabemos, não valem da mesma maneira para todos nem são aplicadas com tanto rigor assim. Em penitenciárias, em geral, presos não têm direito a qualquer regalia. Em Tucum, sim. Celas têm geladeiras, ventiladores, TVs e fogões. Em Tucum, há listas e mais listas do que pode ou não pode ser entregue via malote para as detentas, mas, dependendo da escala de plantão dos agentes penitenciários, alguns itens ficam de fora ou entram mesmo sem poder.

Sábados e domingos é dia de visita. Malotes podem ser entregues nesses dias ou nas quartas-feiras. Tudo o que entra precisa ser revistado. O rigor de uns e a vista grossa de outros já quebram certas regras ali mesmo, em âmbito legal. Parentes ficam chateados quando não conseguem colocar para dentro do presídio o achocolatado preferido da sobrinha, mas, mesmo que esse produto seja permitido na lista dos itens que cada malote pode conter, é só tentar em outro plantão que não apenas uma mais duas ou três embalagens chegarão ao destino correto. Porém, há aqueles produtos lícitos que nunca vão chegar, como garrafas de água mineral. Nunca tomamos a água das presas em Tucum. Por mais calor que fizesse – e como faz calor naquele lugar –, sabíamos que água, para elas, é artigo de luxo. Os cinco litros que podem entrar por semana não dão para uma pessoa, quem dirá para outras sedentas do líquido matador da sede.

Mas não é só com os malotes que as regras parecem diferentes dependendo do dia, do agente e da detenta. Até mesmo a prática de atravessar para a ala das

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sentenciadas presas recém-chegadas a Tucum mostra a subversão das regras oficiais. E o pior: tendo como cúmplice aqueles que detêm o poder de manter a ordem. Mas se nem aqui fora o mundo é justo, por que haveria de ser em um presídio?

Apesar dos pesares, abaixar a cabeça para as injustiças é uma prática muito comum. Muitas presas já internalizaram que elas são a escória da sociedade e que, por isso mesmo, precisam mais é acatar as regras a que são submetidas. Para algumas é como se a direção do presídio estivesse certa em todas as decisões e práticas, e elas, criminosas, precisassem se sujeitar a qualquer tipo de imposição.

E é assim em vários momentos. Nos cultos religiosos, nos postos de trabalho, nas vagas para os cursos de panificação, confeitaria e manicure. Para tudo, há um quadro de vagas, preenchidas de forma aleatória, sem observância a qualquer princípio.

Quebrar regras é a regra de todos, principalmente das detentas. As imposições nem sempre são cumpridas por aquelas que, um dia, desobedeceram aos próprios princípios morais e éticos. O pior é quando se descumprem normas do presídio com o consentimento dos próprios funcionários. Não se fala em subversão, mas talvez em prêmio de quem já paga demais. Ou pena. Em Tucum, há uma detenta que tem autorização da diretoria da penitenciária para continuar freqüentando sua antiga cela na ala das provisórias, mesmo que seu lugar atual seja o contêiner. O argumento é o de que ela precisa voltar para continuar escrevendo seu livro. Mas cadernos, canetas e papéis são objetos móveis, que podem muito bem ser carregados para seu novo barraco. Talvez a desculpa não seja o livro, mas a companheira de longa data que continua na antiga cela.

E mesmo que trocar de cela seja impossível, dependendo do plantão, é possível formar um contêiner somente de casais, no semi-aberto. Quando é feita a chamada nominal, umas tomam os lugares de outras, só para ficar pertinho da companheira, mesmo que seja só por uma noite, e por camaradagem do agente. Às cinco horas, antes dos portões serem abertos de verdade, todas voltam às celas originais, e lá despertam, como se nunca tivessem saído de suas jegas.

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Da mesma forma que as regras oficiais, aquelas extra-oficiais, ou seja, decretadas pelas próprias detentas, são passíveis de obediência e subversão. O furto de roupas ou outros objetos pessoais é proibido, mas não é raro ver uma blusa desfilando em outro corpo que não seja o da sua dona. E como nada fica sem ser descoberto, o castigo para a ladra é a vassoura, e a delinqüente fica responsável pela limpeza da galeria. A disciplina das presas diz que não é necessário repetir na cadeia os mesmos (maus) hábitos que se tinha antes de parar em Tucum.

Mas, claro, “toda regra tem a sua exceção”, não é mesmo? As proibições de qualquer presídio, e também de Tucum, são postas em xeque a todo o momento. Não se sabe como, pois nestes casos, ninguém nunca vê, há celulares em praticamente todas as celas da Penitenciária de Tucum. Celulares, carregadores, baterias, chips e cartões de recarga. Celulares tocam, vibram e possibilitam a comunicação diária entre internas e pessoas de fora da penitenciária. Em várias visitas presenciamos detentas falando ao telefone, tentando esconder o ato proibido com o barulho do chuveiro. Outras desfilavam com eles nas mãos ou dentro dos shorts e blusas.

Nos dias de visita, todos são revistados de forma muito constrangedora. Toda a roupa precisa ser retirada, inclusive de crianças, e homens e mulheres são revistados por agentes masculinos e femininos. Com tanta brutalidade de alguns agentes ao revistar as pessoas, ainda assim celulares são postos dentro do presídio. Algumas detentas conhecem toda a anatomia do órgão genital feminino e do ânus, a ponto de saber quantos centímetros cada um dilata e quantos aparelhos celulares comportam.

O mesmo acontece com drogas ilícitas. Cigarros são permitidos. Alguns maços podem entrar por malote ou ser levados pelo próprio visitante. Mas maconha, crack e fristo são proibidos, apesar de haver várias bocas-de-fumo em Tucum. A pedra de crack custa R$ 5 e algumas mulheres admitem que a maior perdição para uma viciada é a cadeia. Com medo de que as detentas sofram perseguições, familiares insistem em deixar dinheiro com elas. O máximo permitido é R$ 30 por semana, mas nenhuma delas tem ou dá troco para uma nota de R$ 50.

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Outra proibição no presídio são os materiais cortantes. Mas, mediante autorização da direção, algumas detentas conseguem ser portadoras de tesouras e alicates. São aquelas que utilizam esses materiais como ferramentas de trabalho, como as bordadeiras, cabeleireiras e manicures. Há até quem consiga subverter a ordem a ponto de carregar as tesouras da fábrica de confecções que fica dentro do presídio para as celas.

Em Tucum, as proibições não são para todas. E o que vale são elementos mais subjetivos do que pode supor nosso pensamento. Afinal, em Tucum, a maioria é preta e pobre, o que descarta a idéia de qualquer favorecimento por interesse. Só se o interesse for outro, talvez de cunho sexual, ou se o favorecimento se der por causa de medo, compaixão ou pena. De um modo ou de outro, toda regra pode ser, e na maioria das vezes é, quebrada em Tucum.

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Mande notícias do lado de lá

Quando o alvará de soltura de alguma presa chega a Tucum, um dos agentes penitenciários vai até o chapão e grita pelo nome da felizarda. A expressão no rosto do portador da boa notícia parece séria. Teria ela cometido alguma infração? Nada. O suspense do agente é parte da encenação que ele gosta de fazer para anunciar a notícia que quase todas as presas esperam ouvir.

De repente, ele solta um grito, que, segundo relatos de algumas presas, é o grito mais lindo que já ouviram na vida: Liberdade. Sim, esse grito é o passaporte para o mundo novamente. Para o mundo externo: a sociedade, a família, a casa.

O contato com o mundo externo é a meta a ser alcançada. Engana-se quem pensa que Tucum é uma ilha. Por meio de diversos mecanismos, as mulheres ficam sabendo o que aconteceu com o marido, o que rolou na novela de ontem, quem casou, quem morreu, quem sumiu.

Em quase todos os barracos, há pelo menos uma televisão e um rádio, que, dificilmente, ficam desligados. Em vários momentos, as vozes das entrevistadas eram abafadas pela música alto que a mulher da jega ao lago insistia em colocar, ignorando nossa presença. Do funk pancadão ao gospel. Vale a pena ver de novo. “A rádio que toca a sua música”.

Em certa entrevista, não satisfeitas em colocar o som na maior altura, as meninas começaram a dançar freneticamente ao nosso lado. Funk. Nem a entrevistada, nem nós conseguíamos nos concentrar, tamanho o alvoroço. O jeito foi fazer a entrevista no pátio do banho de sol.

Além das novelas e da música, os telejornais também chamam a atenção das presidiárias. Principalmente, quando é noticiada alguma nova prisão. Fernanda, uma loira muito bonita presa em Vila Velha por, supostamente, chefiar uma quadrilha de tráfico internacional, foi notícia em jornais e telejornais. Inclusive no Jornal Nacional. Chegou ao presídio já famosíssima. Outra que causou frenesi entre as presas foi

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Maria, chilena presa por furto. Muitas delas nunca tinham conversando com uma estrangeira; por isso, o que Maria mais ouvia em seus primeiros dias era “fala alguma coisa”.

Outro canal importante de notícias para as presas são as visitas dos finais de semana e os advogados. Mas nem todas têm parentes dispostos a passar pelo constrangimento da revista para vê-las ou advogados interessados em suas causas. Se forem de outros estados ou do interior do Espírito Santo, as chances de receber alguém são quase nulas. Nos dias de visita, que acontecem sempre aos sábados e domingos, das 9 às 17 horas, relacionamentos são desfeitos, notícias são anunciadas e esperanças, renovadas.

Cláudia descobriu que o marido está com outra mulher pela cunhada. Cíntia ouviu do advogado que ainda naquele mês estaria na rua. Michele ficou sabendo pela mãe que seu avô estava doente. O tio de Daniela foi dizer que o irmão dela havia sido assassinado na última quinta. Márcia deu bronca no filho ao saber, pela irmã, que o menino estava cabulando aulas para ficar na rua.

Presa de novo

As presas mulheres que vão para os contêineres têm a oportunidade de sair do presídio seis vezes por ano, sendo que uma das saídas pode ser em uma data que a presa julgue especial, como o aniversário do filho ou o casamento de um parente. Saem por conta própria, sem escolta, e precisam voltar, sozinhas, em sete dias.

Desde que foi para o semi-aberto, Bruna, uma jovem ex-universitária presa por tráfico de drogas há dois anos, já conseguiu sair três vezes. A primeira vez que saiu foi “horrível”. O medo de ser julgada e de ter que assimilar o mundo novamente era enorme. Outra coisa que doía a Bruna era reencontrar as pessoas e ter sempre que contar as mesmas histórias sobre “como era viver em um presídio”.

Ao voltar, tenha sempre a sensação de estar sendo presa de novo. “A volta é horrível. Não no primeiro dia, mas nos dias que vão passando. Você acostuma com

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o silêncio de casa, a fazer o que você quer, a estar do lado de quem quer. Voltar é ser preso de novo, só que com experiência.” Tem alguém na linha?

Não chega a ser novidade para ninguém que nos presídios do Brasil afora há muitos celulares. Em Tucum, não seria diferente. Sempre que há revista, pelo menos um é encontrado. Logo nas primeiras semanas, quase no fim de uma entrevista, perguntamos a uma moça se ela sabia que horas eram. Ela se levantou, pediu o celular de uma colega, olhou e prontamente respondeu: “são quase cinco horas já”.

Esse episódio passaria batido se não fosse por um fato que aconteceu na semana seguinte. No meio de uma entrevista com duas mulheres, uma senhora chegou perto de nós e ordenou a uma das entrevistadas:

- Bota meu celular para carregar aí!

As duas meninas ficaram caladas, se entreolharam e encaram a senhora com espanto, como se quisessem dizer “esconde isso, olha quem está aqui”. Nós estávamos lá. As intrusas, que não poderiam ver, de maneira alguma, o celular. Demoramos a perceber porque elas estavam assustadas, mesmo com o celular na nossa cara. Em meio às gargalhadas, as três pediram que não mencionássemos isso para “eles”, ou seja, alguma assistente social ou agente penitenciário. Fingimos que nem vimos o celular, como fazem tantos outros que atuam na penitenciária.

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Elas gostam de meninos e meninas

Márcia engravidou no presídio do irmão de uma detenta. Carla recebe a visita do marido todas as semanas; Luísa também recebe, mas não pode ter com ele relações sexuais porque não tem acesso ao parlatório e, em seu barraco, a transa não é permitida por consenso entre as detentas. Juliana mantém há algum tempo um relacionamento homossexual com uma companheira de cela. Fabiana, que sempre teve orientações heterossexuais fora da cadeia, recebe de uma mulher o afeto que nunca tivera. Carinhosa, a companheira cuida do cabelo de Fabiana e passa desodorante nela.

As mulheres de Tucum manifestam a sexualidade de uma forma muito diferente do padrão. Para elas, afeto, carinho e sexo nada têm a ver com gênero masculino ou feminino. Se for homem ou mulher pouco importa. Importa que a carência seja suprida de alguma forma e que a pessoa de quem se goste esteja lá. O resto é resto.

Das quase 600 mulheres que estão na Penitenciária de Tucum, a maioria está lá por causa de tráfico de drogas. A maioria delas foi presa por causa do companheiro, e, como diz uma detenta, “soltas somos traídas, presas somos esquecidas, mortas deixamos saudades”. Isso tanto é verdade que nos dias de visita é possível contar o pequeno número de homens em meio a tantas mulheres.

Lara, presa junto com o marido, cumpre uma pena maior que a dele. Ele, livre, foi até a penitenciária, em uma visita assistida, avisar à mulher que queria se separar porque já estava com outra. Outros nem esse ato de hombridade praticam. Esquecem suas companheiras de vida e de crime atrás das grades.

Os poucos homens que aparecem em Tucum visitam suas esposas, irmãs ou primas. Os que são desimpedidos causam interesse em outras detentas ou são atraídos por elas. Foi numa dessas que Márcia engravidou. Aos sábados e domingos, lençóis escondendo a jega indicam para as outras que a dona do cantinho não quer ser incomodada. As visitas íntimas, que, teoricamente, deveriam

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acontecer no parlatório, ocorrem ali mesmo, dentro do barraco. Exceto em alguns, como no contêiner 3 do semi-aberto. As próprias detentas de lá decidiram que visitas íntimas são proibidas. Nem adianta o companheiro chegar cheio de vontade. Assim como nas visitas assistidas, o casal precisa se contentar apenas com os beijos.

Os casais formados apenas por mulheres têm mais liberdade. Isso se ambas estiverem presas e ficarem na mesma cela. Muitas mulheres que já tiveram relacionamentos homossexuais fora do presídio enxergam na colega de cela a companheira ideal. Há relacionamentos longos e duradouros em Tucum. Da mesma forma, há brigas por causa de ciúmes. As que dividem cela dividem também a jega, e podem passar a noite juntas, encobertas pelos lençóis pendurados no teto. Pela manhã, beijo de bom dia e até café-da-manhã na cama.

Declarações de amor são expressas de várias formas: faixas penduradas em um local visível, cartas, desenhos nas paredes ou um bem dito “eu te amo”. As apaixonadas pelo sexo feminino alegam que as mulheres são mais carinhosas e compreensivas. Some a isso a carência e a falta de afeto próprios da reclusão e o fato de muitas serem abandonadas pelos companheiros. Até o mais duro de todos os corações é capaz de se render.

Ana conheceu Beatriz na cadeia, onde permaneceram juntas até que esta tenha tido o grito de liberdade. Agora, Beatriz está grávida e faz visitas assistidas a Ana. O amor permanece e ninguém parece se importar com o fato de Beatriz ter tido um relacionamento com um homem. Afinal, a gravidez foi algo planejado e muito conversado. Quando sair de Tucum, Ana vai cuidar da criança junto com a companheira.

O que pode parecer estranho aos nossos olhos cheios de pudor é a pura manifestação da sexualidade dessas mulheres. Sexualidade manifestada nas cantadas aos agentes penitenciários ou na conquista de outras mulheres. Fabiana, quando conheceu Juliana, foi logo avisando que respeitava muito a opção homossexual da amiga, mas que aquilo não correspondia a sua preferência. Não demorou muito para que a própria Fabiana se apaixonasse pelos encantos de uma

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companheira de barraco. Sem visitas masculinas desde que entrou em Tucum, Fabiana se entregou à companheira. Chegaram a dividir a jega, mas, depois de brigas por causa de ciúmes, as duas se separaram, apesar de ainda ficarem juntas algumas vezes.

Corpos entrelaçados, seja com homem seja com mulher, tudo precisa ser feito de modo a não incomodar ninguém e sem barulho, para não causar alvoroço ou assustar as crianças nos dias de visita. Controlar os hormônios femininos em meio ao assédio não é tarefa fácil para os agentes. Alguns recebem cartas e bilhetes convidativos, mas eles e elas sabem que o relacionamento entre eles é complicado. Esse amor bandido é como um jogo de polícia e ladrão.

Em nome do amor, ex-presidiárias sobem de novo à cadeia para visitar suas amadas. Mas o encontro, agora, é sob os olhos da assistente social. Também movidas a uma paixão arrebatadora, muitas mulheres que acabaram de ganhar a liberdade continuam indo às penitenciárias masculinas atrás dos homens que as abandonaram ou que nunca tiveram a oportunidade de estar com elas, talvez porque já estivessem presos. Como diria a música, “quem inventou o amor me explica, por favor”.

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Filhos da mãe

Nossos pais são nossos primeiros heróis. “Tal pai, tal filho”. A cara da mãe. “Filho de peixe, peixinho é”. Mãe professora, filha professora. Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Mas, se, para alguns pais, enxergar no filho o seu próprio reflexo é motivo de orgulho, para outros isso só traz a sensação de fracasso e impotência.

A preocupação de Josiane, presidiária de Tucum, com o futuro de seus filhos é a mesma de uma mulher bem-sucedida que deixa o filho na creche enquanto trabalha o dia inteiro. Ambas carregam a culpa por não estar perto das crianças, deliciandose com suas pequenas descobertas. O nascimento do dentinho que faz a criança ficar manhosa, os primeiros amigos, as primeiras palavras... Ambas questionam o estilo de vida que levam e o quanto isso pode afetar na educação dos filhos. Ambas têm medo.

A diferença entre as duas mães é que Josiane não pode dar um beijo de boa noite na filha, hoje com nove anos, e no filho, de sete. Ela está presa pela segunda vez em Tucum por tráfico de drogas. O remorso por ter abandonado os filhos é constante, embora ela alegue ter feito o que fez para sustentar as crianças.

Josiane nunca conheceu o pai e perdeu a mãe ainda criança. Criada pelo irmão mais velho, quando completou 18 anos, saiu de casa para casar-se com um homem que acreditava ser um simples trabalhador. Mas não era. Além do emprego em uma oficina de conserto de bicicletas, o marido incrementava a renda familiar vendendo drogas.

O casamento só durou três anos. A única “herança” da relação foi o casal de filhos. Para sustentá-los, Josiane trabalhava como doméstica ganhando R$ 100 reais por mês mais uma ajuda de custo da patroa. Tentada pelo dinheiro fácil, procurou uma amiga que vendia drogas na Serra e começou a jornada dupla de trabalho. Em dias bons, conseguia tirar até R$ 80 reais.

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Mas, após cinco meses traficando, Josiane foi presa. Era fevereiro de 2006. Na época, a filha tinha apenas três anos e o mais novo, um ano e sete meses. Com o ex-marido preso em Viana, o jeito foi deixar a crianças com ex-sogra.

As notícias que chegavam sobre seus filhos não eram fáceis de digerir. A avó não tinha afeto nenhum pelas crianças e os casos de maus-tratos começavam a ser freqüentes. Quem mais sofreu com isso foi a menina, que assumiu a função de doméstica da casa e quase morreu de overdose com os remédios dados intencionalmente pelo marido da avó. Triste, a menina ficou reprovada na escola duas vezes e ainda não sabe nem ler nem escrever direito.

Esse suplício durou quase dois anos, quando Josiane foi solta. Ao resgatar os filhos, ouviu um desabafo da mais velha. “Mãe, ainda bem que você veio me buscar; não agüentava mais o que a minha avó estava fazendo comigo”. Apesar da distância forçada, os filhos de Josiane eram carinhosos e dóceis, o que não deixa de ser um orgulho para a mãe, que estava disposta a mudar de vida por causa deles. Para isso, alugou um barraco na periferia da Serra e, por indicação de uma amiga, começou a trabalhar como babá. Parecia ser um novo começo. Parecia.

Com pouco mais de um mês no trabalho, chegaram aos ouvidos da patroa a única coisa que ela não podia saber. Conclusão: foi demitida. Quatro meses depois, estava de volta ao tráfico. Em março deste ano, foi presa novamente. Assim mesmo, com essa rapidez, Josiane transitou entre o purgatório e o inferno.

Na segunda prisão, o carinho dos filhos deu lugar às lamentações. Ao ver a mãe algemada sendo tirada de casa pela polícia, o filho se desesperou. “De novo não, mãe, por favor!”, suplicava. Não tinha jeito. Eram 185 pedras de crack. Dessa vez, as crianças foram separadas. O menino está com uma tia. Já a menina foi morar com ex-cunhada, que é responsável por levar as crianças para visitar Josiane nos finais de semana. Como não é ré primária, não tem a menor idéia de quantos anos pode pegar se for condenada.

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De certeza, é que quando sair, vai tentar de novo levar uma vida diferente e garantir um futuro menos sofrido para os filhos. Não sabe como vai conseguir isso, mas tem fé. Tudo que Josiane quer é que eles não sejam seus reflexos. Separadas pelas grades

Kátia e Roberta já dividiram a mesma casa e a mesma cama. Hoje, são separadas por barracos. Mãe a filha estão presas em Tucum por tráfico de drogas desde fevereiro de 2007, quando o Núcleo de Repressão Contra o Crime Organizado (Nuroc) invadiu a casa Kátia. Não havia nem dez minutos que Roberta estava na casa da mãe. E, de quebra, a sogra de Kátia, que trabalhava com ela, também foi levada presa.

Mas como as três mulheres foram parar em Tucum? Kátia nunca tomou uma batida na rua e o lugar onde trabalhava era acima de qualquer suspeita. Sua prisão foi um desfecho triste de um relacionamento que começou há dez anos, quando Kátia, então com 33, se envolveu com um adolescente de então 14 anos e com diversas passagens pelas cadeias do Estado.

Tentando preservar a sogra e a filha, que já tinha sido presa antes por associação ao tráfico, Kátia assumiu toda a culpa pelas drogas encontradas. Em vão. As três continuam em Tucum. Na primeira vez em que foi presa, Roberta estava grávida de seis meses. Quinze dias depois, a criança nasceu e sobreviveu por quinze minutos.

Na segunda prisão, Roberta estava novamente grávida. Dois meses. Aborto espontâneo. Para Kátia, o peso na consciência é tanto por fazer a filha e a sogra passarem por esse sofrimento, que ela se recusa a dividir o mesmo barraco com as duas. O que os olhos não vêem o coração não sente, não é mesmo?

Além de Roberta, Kátia tem mais três filhos, todos homens. O caçula, de 17 anos, trabalha com carteira assinada, para o orgulho da mãe. Os outros dois, gêmeos, além de trabalhar, freqüentam a Igreja Quadrangular. Não bebem nem fumam. Os três se revezam aos domingos para visitar a mãe e a irmã. Quando fala deles, Kátia tenta pensar no futuro que a espera daqui a alguns meses, fora da prisão.

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Além de correr atrás da liberdade da filha, Kátia espera, fora de Tucum, retomar a sua vida exatamente no ponto em que parou. Garante que até promessa de amigos para ajudá-la a abrir um negócio próprio tem. Quer viver a sua vida em paz, torcendo para que seus filhos sigam o exemplo tardio.

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Corpos encarcerados também podem ser belos

Toda sexta-feira, quando chegávamos a Tucum, vários cheiros nos recebiam ainda no chapão do barraco. Muitos eram de produtos químicos, mas não de cigarro ou drogas. Alisantes, tintura de cabelo, cremes hidratantes, acetona, entre outros, compunham o elemento principal da espera pelo dia de visita.

Era comum encontrar mulheres com toucas de cabelo ou então com o produto aplicado escorrendo pelos fios, somente com uma toalha apoiada sobre os ombros. Por R$ 1, no máximo R$ 5, uma companheira de cela aplica o produto em outra. Há aquelas que são profissionais e que exercem na cadeia as funções de cabeleireira, manicure, depiladora...

De forma amadora ou não, o trato na feminilidade está em toda a parte em Tucum. Os cabelos sempre sofrem mutações: de cor, de textura, de comprimento. Os potes de creme e as bisnagas de tintas saltam aos olhos nas prateleiras de cada uma das detentas. Não podem faltar.

Os dias de beleza são, geralmente, os que antecedem à visita. Na quinta e sextafeira elas se preparam para receber os visitantes do final de semana. Ou não. Talvez se arrumem para elas mesmas, para a namorada ou para trazer mais paz de espírito e sentir o dia passar mais depressa enquanto esperam as unhas secarem.

Nos dias de eventos em Tucum, elas se preparam, se perfumam, lavam os cabelos, colocam a calça jeans mais nova, o vestido inédito e o salto mais alto. É como se a ida da cela para o banho de sol e a exposição a outras pessoas fossem, para elas, uma saída de sábado à noite. Se não for nesses momentos, quando estrear aquele modelo? No geral, as mulheres de Tucum são todas iguais. Passam o dia de pijama ou trajando a “moda cadeia”: short curtíssimo e top minúsculo. Faz muito calor em Tucum. No banho de sol, é comum encontrar meninas de biquíni lavando as roupas ou enfiando a cabeça debaixo da torneira do tanque.

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Da mesma forma, em dias frios, não é raro encontrar detentas batendo queixo, mas andando de vestido curto e sem mangas só porque ele é novo, e precisa ser estreado. Os tamancos de que elas mais gostam são os de madeira, com tira de couro e salto muito alto. Até as mães conseguem se equilibrar sobre eles segurando os bebês com uma naturalidade incrível.

Para sair, elas gostariam de ter, mas não têm, tempo de se arrumar. Não têm por incompreensão da ala masculina do presídio, que só as avisa de última hora que elas precisam ir para a audiência, para o médico ou que vão puxar um bonde para outro presídio. Sair de Tucum vestida da mesma forma como se fica lá dentro é uma afronta às mais desleixadas. Ninguém quer ir para o próprio julgamento calçando um par de Havaianas. É como se elas tivessem a roupa de ficar em “casa” e a roupa de sair.

Brincos, anéis, cordões, pulseiras e outros penduricalhos também são itens básicos de qualquer uma dessas mulheres. De ouro, prata ou qualquer metal menos nobre, lá estão eles, dando vida a rostos cansados e a mãos criminosas. Nos dedos, além de anéis, tatuagens de letras. Cada dedo traz uma, e a mão fechada em punho exibe a mensagem, que pode ser o nome de alguém que se ama ou um simples “vida loka”. Vida na mão direita, loka na mão esquerda.

As tatuagens que essas mulheres carregam são elementos interessantíssimos. Com alto poder de comunicação, essas mensagens são traçadas, na grande maioria das vezes, no próprio presídio. As tatuadoras utilizam tintas próprias de tatuagem e agulhas de costura para fazer os desenhos e letras escolhidos. Por isso, as tatuagens de Tucum são muito parecidas, no conteúdo e na cor, sempre desbotada.

O cinza e o vermelho imperam nos desenhos do corpo. Se a tatuagem for de algum nome, com R$ 1 paga-se cada letra. Mas se a arte for mais elaborada, algumas tatuagens podem chegar a custar R$ 20. Não há lugar preferido para abrigar o desenho. Muitas precisam tatuar onde há espaço. Pés, mãos, seios e costas acolhem as tatuagens mais expressivas. Nos pés, nomes; nãos mãos, mensagens; nos seios, potes de mel, e nas costas, desenhos enormes ou vários desenhos pequenos, geralmente com os nomes dos filhos, companheiros e pais.

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As unhas também são decoradas. Esmaltes vermelhos dão cor e alegria a uma vida desbotada. Algumas unhas são praticamente cultivadas e, na hora de pintá-las, desliza-se o pincel cheio de tinta sobre a grande área já lixada.

As manicures percorrem barracos e alas com suas maletinhas de trabalho na mão. As cabeleireiras carregam as sacolas com tintas e alisantes. As tatuadoras só precisam de agulha e tinta. Na hora marcada, põe-se tudo para funcionar, de modo que, movida pela vaidade, a beleza desabroche e dê vida à mulher escondida nesses corpos que vivem atrás das grades.

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Mil motivos

O sonho do empreendedorismo, de ter o seu próprio negócio, pode surgir de quem e de onde nós menos esperamos. Que o diga Dayse Alessandra, que dentro do presídio de Tucum, onde permaneceu de 1999 a 2005 por participar de um seqüestro, abriu a sua própria oficina de bordados.

A idéia de criar uma oficina apareceu quando Dayse começou a trabalhar na oficina de trapos dentro de Tucum e, posteriormente, quando conseguiu uma vaga na Framodas, fábrica que funciona dentro do presídio em convênio com a fábrica Blink Jeans. Habilidosa, também gostava de fazer artesanatos nas horas vagas. Isso tudo apenas seis meses depois de ser presa.

A inquietação de Dayse por trabalho surtiu efeito rápido. Ainda em 1999, ela conseguiu apoio das assistentes sociais e levou até a Secretária de Justiça o projeto de criar uma oficina de bordado para oferecer emprego e remissão de pena a outras internas. Era criado oficialmente a Mil Motivos.

Em uma sala de confecções ao lado da sala de aula, as presas bordavam biquínis, maiôs, tamancos, blusas e bolsas. O material era vendido em feiras e eventos dentro do presídio. Durante muito tempo, as presas também bordaram todas as peças de uma loja de biquínis situada em um bairro nobre da cidade. O negócio começava a prosperar.

Na Mil Motivos, as presas ganhavam por produção, não tendo horário rígido de trabalho. O que importava era dar conta das encomendas que surgiam e das peças que seriam expostas no tempo estipulado. A oficina já chegou a empregar 21 internas, que tiravam de R$ 200 a R$ 300, por mês, cada.

Dias de glórias

O projeto desenvolvido pelas internas ganhou repercussão nacional entre de 2004 e 2005, quando foram realizados os desfiles de moda “Mulheres de Tucum”, em

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comemoração ao Dia Internacional da Mulher, 8 de março. No evento, amplamente divulgado pela mídia, eram expostos todo o material produzido pela Mil Motivos. Os desfiles aconteciam no Parque Tancredão, no bairro de Santo Antônio, em Vitória. Com o apoio de alunos de escola de moda, dez internas se revezaram nas passarelas para mostrar roupas e acessórios produzidos pelas internas.

A repercussão foi a melhor possível. Além de aumentar as vendas, as presas envolvidas no projeto despertaram para um sentimento pouco comum dentro de um presídio: o amor-próprio. O reconhecimento da sociedade pelo trabalho

desenvolvido, pela vontade de mudar, era algo único na vida de muitos delas. Inclusive na vida de Lígia.

Com a saída de Dayse da prisão, foi Lígia quem assumiu a oficina Mil Motivos. E a história das duas se assemelham. Presa em 1996 por participar de um latrocínio, Lígia conseguiu sair de Tucum poucos meses depois para responder a acusação em liberdade. Em 2000, foi julgada à revelia, pois era considera pela Justiça como foragida. A verdade é que, como em tantos casos, o advogado de Lígia abandou o processo, sumiu e não a informou nada, nem de que seria julgada. Em maio de 2005, foi presa novamente.

Um mês após a nova prisão, Lígia já estava trabalhando na Mil Motivos. Seu tino para a administração chamou a atenção de Dayse, que estava prestes a sair e precisava de alguém para comandar os negócios. Lígia caiu como uma luva. Na nova administração, algumas mudanças foram feitas. Uma delas foi a inclusão de outros trabalhos, além dos bordados, como a confecção de bonecas, sandálias, tapetes, fuxicos, entre outros.

Mais conservadora, Ligia não deu continuidade ao desfiles de moda. Disciplinada, começava os trabalhos às 7 e só parava às 21 horas. Em pouco tempo, conquistou a confiança de todos, até da diretoria do presídio, que a deixou sair de Tucum uma vez, para participar de uma exposição, mesmo ela ainda cumprindo pena em regime fechado. Lígia também se concentrava em expandir a produção, o que acabou beneficiando até mesmo algumas ex-presidiárias. Toda mulher que saía de Tucum e quisesse continuar produzindo bastava procurar a sogra de Lígia, que cedia todo o

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material e, depois, com o trabalho entregue, pagava pelo serviço. Era mais uma garantia que a mulher conseguia para não cair, novamente, nas tentações do tráfico. Portas fechadas

No dia 3 de setembro de 2008, houve uma revista em todo o presídio. Um celular foi achado dentro da sala onde funcionava a oficina Mil Motivos. Era de uma detenta que tinha começado no trabalho recentemente e que desafiou as regras do grupo de não trazer nada ilícito para dentro da oficina. Mesmo que a presa tenha confessado o deslize, a diretora do presídio puniu todas as dez mulheres que participavam da Mil Motivos. Em poucos dias, a oficina foi esvaziada.

Lígia já tinha 130 toalhas de mão bordadas, dinheiro e muito material que havia comprado a prazo. Com o fechamento da oficina, tudo teve que ser levado para a casa da sogra e as dívidas começaram a se acumular. Ainda assim, em sua

entrevista, concedida no mês de outubro, logo após o anúncio de mudança da diretora do presídio, Lígia estava serena e otimista.

Com o apoio dos funcionários de Tucum e até da própria Secretaria de Justiça, as presas que faziam parte da Mil Motivos quando ela foi fechada aguardam uma posição da nova diretora da Penitenciária Feminina. Mais do que o dinheiro, o trabalho representa a oportunidade de diminuir a pena (para cada três dias trabalhados, um dia a menos na cadeia).

Enquanto espera a decisão, Lígia sonha alto. Uma de suas metas, se a oficina for reaberta, é conseguir alugar ou comprar uma casa para transformar em ponto fixo de exposição. Isso só seria possível com a ajuda de ex-detentas. E, em julho de 2009, Lígia espera ser um delas, para tocar os negócios do lado de fora. Assim como outras presas à espera de uma vida nova, Lígia diz que não faltam mil motivos para sonhar, para acreditar de novo e provar de que é capaz. O primeiro passo já foi dado.

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Tempos modernos

Ver as presas trabalhando na Framodas, fábrica que funciona dentro de Tucum em parceria com a Blink Jeans, é como fazer uma releitura tropical e precária do filme de Chaplin, Tempos Modernos. As roupas, os personagens e o local são diferentes, mas o ambiente fabril permanece. Principalmente pelo festival de ações sistematicamente repetidas pelas mulheres durante horas.

Na fábrica, são cinco horas de trabalho, por período, com apenas um intervalo de oito minutos para o café da manhã e da tarde. O pagamento de é de cerca de meio salário mínimo, dividido em três partes: uma para a detenta, uma para seu beneficiário e outra que fica em poder da Secretaria de Justiça enquanto a mulher estiver presa.

A princípio, só quem está no regime semi-aberto pode trabalhar. Raríssimas vezes são oferecidas trabalhos fora do presídio, muito por causa do desinteresse, preconceito ou desinformação dos empresários.

De bicos

Além do trabalho formal na fábrica, algumas mulheres se viram fazendo bicos. Manicures, cabeleireiras, tatuadoras, faxineiras... Tudo tem seu preço dentro de Tucum. Se paga com dinheiro, cigarros, favores, proteção, comida. A moeda de troca depende da necessidade de quem oferece seus serviços e do interesse de quem estar disposto a pagar por eles.

Às quintas e sextas-feiras, é comum encontrar mulher com algum produto no cabelo. Hidratação, alisamento, pintura e até escova progressiva são possíveis de serem feitas dentro de Tucum por até R$ 3. Dificilmente, algum serviço estético ultrapassa o valor de R$ 10.

Para atuar como cabeleireiras ou manicures, as presas precisam de uma licença especial da assistente social. Alicate e tesoura, por exemplo, materiais cortantes e perigosos, só podem ser usados por quem tem essa autorização. Algo como uma

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“licença de trabalho”. Tudo combinando de maneira informal, claro. Sem carteira assinada, sem remissão de pena. Apenas por uns trocados, que dentro de um presídio, valem muito.

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“Uma página em branco, Deus, é o que eu quero ser”

Da mesma forma que a sexualidade é manifestada de forma independente de sexo, a religiosidade também é posta em evidência sem que tenha relação com uma ou outra religião. Para as mulheres de Tucum pouco importa se o nome do deus é Deus, Alá, Jeová ou Buda. O que realmente importa é que a crença e a fé vivem, mesmo que seja em um ambiente de determinismo e de separação entre céu e inferno, salvação e pecado.

A grande maioria das detentas do Presídio de Tucum se diz evangélica. Louvores são entoados a todo o momento. Em cada cela, aparelhos de som fazem girar os CDs com cantos de esperança. No barraco 8, da ala das provisórias, as presas viram a meia-noite, todos os dias, em oração. As incomodadas com tanta beatice respeitam.

Talvez a religiosidade das internas tenha relação com a grande quantidade de grupos religiosos que atuam em Tucum. Evangélicos, católicos e espíritas se reúnem com as mulheres várias vezes por semana para tentar recuperar as almas perdidas. O determinismo está presente em todas as palavras, homilias e cânticos.

Todos os dias, no banho de sol, há um grupo religioso. A participação nesses eventos é determinada pela vontade da detenta em participar e do presídio em deixar. Nomes são colocados em listas, mas por questões de espaço, nem todas podem gozar daquele momento de conforto para a alma. É assim nas novenas, por exemplo. A de Nossa Senhora Aparecida, que aconteceu no berçário, tinha até fila de espera. Mas novena é coisa séria e só eram liberadas as detentas que, com certeza, iriam acompanhar os nove dias.

Refúgio e abstração, as manifestações religiosas no presídio carregam sempre a intenção de dizer às detentas que elas precisam se voltar a Deus, que o crime que elas praticaram foi só por causa de um momento de “besteira”, de “más companhias” e por aí vai. Como se no momento do crime, elas tivessem um anjinho e um diabinho, cada um em cima de um ombro dizendo “não faça isso” e “vai, faça”. E os

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discursos religiosos dizem sempre a mesma coisa: “naquele momento, irmã, você deu ouvidos ao diabinho”.

E se umas crêem, com fé, que a palavra de Deus vai salvá-las de todo o mal, outras têm nos eventos religiosos uma oportunidade de abstração. Estas aproveitam o culto para sair de suas celas, passar o tempo do lado de fora, conversar com outras detentas ou fumar um cigarro. Há quem não esteja nem aí para o que está sendo dito, mesmo que por um homem de Deus, como um pastor ou um bispo.

As bíblias na mão indicam aquelas que estão prontas a qualquer momento para trazer uma mensagem de fé e consolo as outras irmãs. Umas dão bíblias às outras. E os livros sagrados circulam por todo o presídio, convertendo até mesmo os corações mais duros. Muitas se convertem na cadeia. Outras já chegam lá religiosas. Mas estas são minoria. Grande parte delas busca respostas em Deus e, não encontrando, continuam procurando todos os dias, e, mesmo sem saber, faz viver a fé e a possibilidade de salvação todos os dias dentro de Tucum. Nesse lugar, Deus permite que as coisas aconteçam ou castiga quem precisa castigar. Nada acontece de graça, mas porque Deus quer.

Mas independente da religião, do que elas gostam mesmo são as músicas. Músicas católicas, louvores evangélicos, cânticos de adoração... Não importa o quê, elas sabem cantar tudo e se emocionam todas as vezes que uma música narra a vida delas. O consenso dentro do presídio é a canção “Página em branco”: “Uma página em branco, Deus, é o que eu quero ser / Reescreve minha história, me ajuda a vencer. / Deus, estende a tua mão, me levanta desse chão / E escreve a minha vida outra vez”.

As músicas dizem muito em Tucum. Há louvores típicos para cada situação, para quando uma irmãzinha está triste, para quando uma sai ou uma vai embora. Se a velha máxima de que “quem canta seus males espanta” for mesmo verdade, as mulheres de Tucum já devem estar absolvidas de todos os pecados. Até quando o som do barraco é um misto de funk com pagode, até mesmo nesses momentos, uma ou outra se cala para orar cantando, fazendo uma serenata de louvores.

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Mas mais difícil que orar em meio ao barulho é a dúvida entre participar ou não de um culto ou celebração da mesma forma como elas. Por várias vezes, nos vimos entre círculos de detentas, como se fôssemos duas delas, em eventos religiosos. Nossa presença ali era a de meras espectadoras, de observadoras da realidade delas. Mas como não apertar a mão nos momentos de dar a paz ou como não abraçar quando elas já chegam com os braços abertos? Participar dessas manifestações religiosas com elas talvez deixasse nossas almas e corações mais abertos e mais humanos.

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A fé de Ana

Dizia o pastor sobre uma passagem bíblica: no tempo dos juízes, em Israel, uma mulher sem filhos era uma mulher maldita, esquecida por Deus. No lugar mais profundo de seu coração, Ana guardava um imenso desejo de ser mãe. Mas o “Senhor lhe tinha cerrado a madre” (1 Sa 1:5b). Decepcionado, seu marido, Elcano, arrumou uma segunda esposa, Perina, fértil no ventre e na malícia.

Sabendo do amor maior que Elcano sentia por Ana, Perina passava os dias atormentando a vida da primeira esposa, zombando de sua “madre cerrada” e dizendo que Deus não a amava. Em uma visita à terra de Siló para adorar e fazer sacrifícios ao Senhor, Ana se ajoelhou e suplicou um filho varão. Como forma de gratidão, prometeu que o filho, ainda criança, seria entregue ao tabernáculo da região para servi-lo.

Tomado por compaixão, Deus enviou um filho a Ana e Elcano, a quem deram o nome de Samuel, que significa “pedido ao Senhor”. Quando ele já estava grande o suficiente para comer e se vestir sozinho, Ana levou-o a Siló, onde foi entregue a um juiz de Israel. A promessa havia sido cumprida, e Samuel dedicou sua vida a servir a Deus.

A história de Ana, tão difundida em cultos cristãos, comoveu Sandra durante o culto do pastor. Grávida de seis meses, a jovem de 27 anos havia demorado sete anos para ter o seu segundo filho. O primogênito, Luiz Henrique, tinha sido arrancado de seus braços com três anos de idade pelo seu ex-marido, que, inconformado com a separação, levou o menino para ser criado pela avó paterna. Com as ameaças de violência do ex, Sandra nunca conseguiu resgatar a criança.

Nem poderia, mesmo que quisesse. Usuária de crack, Sandra foi presa no final de 2006 acusada de matar sua melhor amiga, Jéssica. O crime aconteceu no ano anterior, quando as duas tinham saído à noite para consumir drogas e acabaram conhecendo dois rapazes. Sandra foi para Nova Almeida com um deles; Jéssica

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para Praia Grande com outro. Sandra acordou viva. Jéssica morta. A vida de sua amiga se esvaeceu com pauladas e pedradas.

As investigações da polícia apontaram para uma participação de Sandra, embora ela alegue que o rapaz que estava com Jéssica já confessou o assassinato e que ela nem estivesse no local no momento do crime. A justiça pensa diferente, pois lhe negou três pedidos de habeas corpus. Sandra não sabia, mas quando foi presa e encaminhada a Tucum, estava grávida de um mês de um novo namorado.

Sozinha, abandonada pelo companheiro, com uma família que acreditava em sua inocência desacreditando, Sandra estava decidida a dar sua filha para sua irmã adotar. Casada, com dois filhos e uma vida responsável, a irmã parecia ser o perfil ideal de mãe que desejava para a filha, embora não fosse sua real vontade abrir mão novamente da maternidade.

Como não sabia da gravidez, Sandra foi levada para a ala das provisórias. Em Tucum, as grávidas só vão para o berçário em estado avançado de gestação, ou, muito raramente, em casos excepcionais que exigem mais cuidados. Pré-natal é algo que praticamente inexiste. O atendimento clínico é realizado dentro do presídio por uma médica pouco presente.

O berçário fica do lado esquerdo da parte central do presídio. É como se fosse uma casinha acoplada, composto de vários quartos, bem decorados e coloridos, dois banheiros e uma cozinha. Apesar do conforto um pouco maior, os quartos não comportam um berço para cada criança. Por isso, mãe e filho dormem na mesma cama. Há ainda um pátio separado, onde mulheres e crianças podem tomar banho de sol todo dia, sem restrição.

Enquanto as mães lavam suas roupas e conversam, os recém-nascidos dormem em um cercadinho. O clima é sereno, tranqüilo. Sentada em sua cama, Sandra nos conta sobre a escolha do nome da sua filha: Ana Vitória. A menina, de dois meses, se chamaria apenas Vitória. A vitória da mãe contra as drogas. Mas, após ouvir de um pastor, durante um culto, a história de Ana, resolveu também homenagear a personagem bíblica.

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Ao ver a filha pela primeira vez, Sandra desistiu de vez da adoção. Já era algo que não queria fazer e de que teve certeza após o pai da criança, o companheiro que a havia abandonado, ter ido visitá-la em Tucum para reatar o relacionamento e assumir a paternidade da menina. Com a desistência de doar a criança, sua irmã parou de visitá-la.

A gravidez de Sandra foi relativamente tranqüila. Em agosto deste ano, acordou sentindo-se mal. Acompanhada por um policial e uma agente penitenciária, foi levada para o Hospital Ferroviário. Ana Vitória nascia de cesárea. Dois dias depois, Sandra estava de volta a Tucum. Não agüentou a escolta policial que não a deixava fazer nada no hospital.

Durante a entrevista, Ana Vitória várias vezes interrompeu a mãe com um choro fino e alto, típico de recém-nascido e que aterroriza qualquer mãe de primeira viagem. Pacientemente, Sandra acalmava a filha enquanto colocava um dos seis à mostra para a filha sugar.

Otimista, Sandra se recusa a lidar com um fato muito constante para as mães de Tucum: a entrega da criança aos seis meses de idade para alguém cuidar enquanto a pena é cumprida. Um tio, a mãe, uma amiga, o marido. A guarda provisória da criança passa a ser de quem está do lado de fora.

A entrega da criança é descrita pelas mães de Tucum com o momento mais doloroso de uma maternidade dentro do presídio. A mãe chora. As outras mães choram junto imaginando quando será a vez delas. É mais uma pena que se paga por gerar um filho no livre ventre de um corpo preso.

Nesses sete meses em que está no berçário, Sandra já viu oito bebês serem levados. Um deles foi Henrique, filho de Jussara. Como em muitos casos dentro de Tucum, a jovem engravidou do marido quando já cumpria pena de um ano e quatro meses por tráfico. Meses depois, o marido também foi preso pelo mesmo motivo. A solução foi entregar a criança para o cunhado, que mora em Marechal Floriano.

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Jussara entregou seu filho uma semana antes do previsto, motivada por uma chance de emprego na Blink Jeans. O trabalho não veio, mas Jussara está otimista com a possibilidade do seu alvará de soltura chegar a qualquer momento. Hoje, já não mora no berçário. Como toda presa que entrega o filho, foi transferida para a ala onde estava antes de entrar em “resguardo” , seja nas sentenciadas, seja nas provisórias.

Mas o berçário não é um espaço somente para mulheres grávidas. Presas com diploma de curso superior também costuma passar uma temporada no local. Como em uma república, o esquema de faxina do local é dividido pelo número de presas. A limpeza do pátio, mais demorada, é dividida por equipes. A faxina é realizada diariamente, em ordem de escala entre as presas.

Nessa rotina, pouco menos agressiva fisicamente, mas não menos dolorosa para quem a experimenta, as mulheres aguardam o rumo dos seus destinos e de seus rebentos. A angústia de um futuro incerto encontra, muitas vezes, consolo em histórias como a de Ana ou em cantos de louvor. No final da nossa entrevista, as vozes de algumas poucas detentas que se encontraram conosco na cozinha, eram abafadas por esses cantos. No pátio, um grupo missionário católico, acompanhado de dezenas de mulheres, celebrava uma novena.

Era uma cena cômica e, ao mesmo tempo, comovente. Em alguns momentos, as moças se empolgavam tanto que tiravam o microfone das mãos do padre e cantavam as suas versões para famosas canções católicas. Não dá para saber se todas ali estavam com o objetivo de orar ou se estavam encantadas com a beleza do jovem sacerdote, mas elas cantavam e dançavam com vontade. E o jovem padre finalizou a novena com uma música que já ouvimos da boca de várias presas em ocasiões distintas: “Ainda que vierem noites traiçoeiras / se a cruz pesada for / Cristo estará contigo / o mundo pode até fazer você chorar / mas Deus te quer sorrindo...”

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Projeto Lilás

Olá, Senhoras e Senhores,

Não somos jornalistas. Não temos uma boa leitura e a maioria de nós não fez nem mesmo o segundo grau. Mas somos todas sonhadoras. Só queremos expressar o sentimento de sermos presas. Não estamos aqui para falar se somos culpadas ou inocentes. E sim para falar que somos seres humanos como qualquer um de vocês.

Aqui temos a oportunidade de relatar verdadeiramente como somos e vivemos, de ver que cada um tem uma opinião diferente e isso não é um problema. Esse jornal é a nossa voz que grita trás das grades, queremos deixar em destaque para todos que a maioria de nós não é ameaça para a sociedade.

Somos sim mulheres que precisam de uma nova oportunidade, atenção para provar a todos que aprendemos com o nosso próprio erro. E não queremos errar mais. Pois queremos ser novamente mulheres livres e dignas de viver em sociedade.

Esse foi o primeiro editorial do Informativo das Internas da Penitenciária Feminina de Tucum, O Diário da Realidade de Tucum, produzido em maio de 2007 pelas internas que participam do Projeto Lilás, uma atividade de extensão interdisciplinar da Universidade Federal do Espírito Santo e da Secretaria Estadual de Justiça.

O Projeto Lilás foi criado oficialmente em março de 2006, após uma visita do professor do Centro de Educação Física e Desportos José Luiz dos Anjos a Tucum. A idéia era reunir vários cursos da universidade em um projeto voltado ao resgate da cidadania das presidiárias.

A primeira equipe do Projeto Lilás era formada por quatro alunos dos cursos de Educação Física, Serviço Social e Psicologia. Outros cursos da universidade foram consultados, mas não demonstraram interesse em participar das atividades. Em abril daquele ano, o grupo teve o primeiro desafio para colocar o projeto em prática: definir quais seriam os critérios de seleção das presidiárias.

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Ficou determinado que fossem escolhidas 60 presas. Todas sentenciadas e com dois anos ou menos de cadeia para cumprir. Requisito simples de checar, se não fosse um porém: nas fichas de boa parte das detentas não havia informações sobre o tempo de reclusão; conseqüentemente, não dava para calcular quanto tempo ainda restava de pena. A solução foi entrevistá-las individualmente, um processo moroso, tamanho era o interesse dos alunos pelas histórias das mulheres. Todo o processo de triagem durou três semanas.

Durante as entrevistas de seleção, houve uma resignação por parte das presas, e que muitas vezes presenciamos ao selecionar mulheres para o livro: o medo. Desconfiadas, algumas presas temiam estar sendo investigadas pela direção do presídio por meio do projeto. As mulheres de Tucum não estão acostumadas com o interesse que despertam em pessoas que, aparentemente, não têm ligação ou vínculo com a realidade delas. Julgam-se esquecidas, muitas vezes, pelo resto da sociedade. Quando não, temem serem vistas como o “exótico”, o “diferente”, aquilo que chama atenção por um momento, mas que depois é deixado de lado.

E isso realmente é um problema em Tucum. Vários estudantes, principalmente os ligados aos cursos da área de humanas, aparecem em Tucum com a proposta de elaborar algum projeto, ouvem algumas mulheres e simplesmente somem. Nunca mais voltam. Na nossa primeira entrevista com as representantes de celas, essa desconfiança era latente e visível no rosto de muitas delas. Das atividades criadas por pessoas sem ligação com a Secretaria de Justiça, com exceções dos grupos religiosos que promovem cultos todos os dias, apenas o Projeto Lilás vingou.

Mas vencidas as desconfianças, as atividades do Projeto Lilás começaram em maio de 2006. Uma vez por semana, as mulheres eram retiradas de suas celas para praticar atividades físicas e interagir em um ambiente descontraído. Semanas depois, as estudantes de Psicologia e Serviço Social começaram com dinâmicas de grupo.

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Diário da realidade

O ano de 2007 foi um ano de mudanças no Projeto Lilás. O departamento de Educação Física abandonou o projeto, restando apenas três alunos dos cursos de Psicologia e Serviço Social: Kesya de Souza Silva, Thais Barbosa Medeiros e Válber Ricardo dos Santos.

Com o fim dos esportes, o grupo teve que se “reinventar”, propondo atividades que despertassem mais interesse das presidiárias. Desse processo de criação de novas dinâmicas, surgiu o jornal O Diário da Realidade de Tucum. A idéia de escrever em um jornal aquilo que vivenciavam animou as mulheres.

Cerca de 30 presas deram o nome para participar da primeira edição. Além do grande número de interessadas, os estudantes se depararam com uma questão comum dentro do presídio: a individualidade. Cada presa queria a sua história no jornal, mas não tinha paciência para ouvir as histórias das outras mulheres.

Com isso, cada encontro para pensar o conteúdo da publicação acabava se transformando em um palco para histórias repetidas. Falavam a mesma coisa, mas não conseguiam parar e se ouvir, percebendo o que elas tinham em comum. Era sempre “a minha história”, “não pode mexer”, “eu quero que a minha vida esteja no jornal”.

Com tantos egos brigando por um espaço, a primeira edição do jornal foi basicamente dedicada às histórias de vida das mulheres de Tucum. O Diário da Realidade de Tucum é impresso em papel A4 dobrado ao meio. O lançamento da primeira edição aconteceu em maio de 2007 e a tiragem foi de 300 exemplares.

Já na segunda edição, lançada em novembro de 2007, houve uma tentativa de conter o individualismo dando mais espaço para as reivindicações comuns a todas as presas. O único problema dos estudantes foi conter os inúmeros palavrões que as mulheres queriam colocar para fazer referência aos seus “superiores”. Os espaços destinados para as histórias de vida foram menores, e a seção cultural, que

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na primeira edição só ocupou uma coluna da última folha, no segundo jornal ocupou todo o espaço com poesias e músicas criadas pelas presas. Na fase de produção da terceira edição do O Diário da Realidade de Tucum, que teve início no primeiro semestre de 2008, o Projeto Lilás estava na mão de apenas duas estudantes: Kesya e Poliana. Para dar continuidade ao trabalho de criações coletivas entre as presas, as estudantes adotaram uma técnica que elas denominam “técnica do caderno”.

Funciona da seguinte forma: um caderno fica com as presas e quando alguém sente vontade de escrever é só pegá-lo com outra pessoa e registrar o que se deseja. Esses textos são lidos e discutidos nas reuniões do grupo. Aos poucos, as presas foram começando a aceitar a idéia de construir histórias juntas. Não histórias apenas de uma pessoa, mas de todas. E mais: não só relatar fatos, mas criá-los. A técnica deu tão certo que na terceira edição do O Diário da Realidade de Tucum, quase todos os textos foram feitos coletivamente. Poucos são assinados. O tom reivindicatório permanece. Corporificação das histórias

Kesya e Poliana estão em Tucum todas às quartas-feiras. Era comum, quando entrávamos nos barracos e nos apresentávamos como estudantes da Ufes, alguma presa dizer: “gente, são as meninas do jornalzinho”. Essa confusão acontecia com freqüência, principalmente pelo fato de sermos estudantes de Jornalismo e estarmos ali também para ouvir as histórias delas. Às vezes, acreditando que a aceitação seria mais fácil, não as corrigíamos.

Mas, ao contrário de nós, que tínhamos liberdade para entrar nos barracos das sentenciadas, Kesya e Poliana não transitam com tanta facilidade por Tucum. Suas entrevistas não eram feitas sentadas em jegas, por exemplo. O comum era chegar na sala da assistente social, pedir que chamassem as presas e só depois, dependendo da quantidade de participantes, definir onde aconteceria a reunião. Isso porque o Projeto Lilás não possui um espaço fixo dentro de Tucum. Os encontros já

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aconteceram em todos os lugares possíveis. Na sala da assistente social, na sala de aula, no berçário, no pátio do banho de sol e até perto da guarita dos guardas.

Há quase dois anos no Projeto, “as meninas do Projeto Lilás”, como as chamávamos, possuem um vínculo forte e estável com as presas. Elas acabaram “corporificando” as histórias que ouvem e se envolvem muito. “Estamos lá por inteiras”, ressalta Kesya.

E esse “estar por inteira” faz toda a diferença para as presas. Levando em conta que a maioria delas não recebe visitas, as meninas do Projeto Lilás são as únicas pessoas do mundo externo dispostas a ouvi-las. E isso já basta. Para as meninas, ir para Tucum é diversão; é como visitar velhos amigos.

Embora o relacionamento com as presas seja harmonioso, Kesya e Poliana passaram por estranhamentos comuns a qualquer pessoa que nunca freqüentou um presídio. Uma simples brincadeira de uma presa, como dizer “eu te mato”, pode ganhar proporções maiores. São pré-conceitos oriundos do medo e da expectativa causada pelo desconhecido, facilmente superados pela convivência.

E mesmo com tanto tempo convivendo com as presas, as jovens ainda não têm a dimensão exata de como o trabalho delas reflete nas mulheres de Tucum. Mas dão uma dica: na festa de lançamento da terceira edição, que aconteceu em setembro deste ano, as presas, por conta própria, resolveram fazer um teatro. Organização, história e texto foram todos produzidos por ela. Sem ajuda de ninguém. Vida loka

Assim como sentimos saudades dos nossos amigos quando partem, as meninas do Projeto Lilás sentem saudades daquelas que ganharam o alvará de soltura. O nome de Lidiane Birica. É o primeiro que vem na mente delas ao serem questionadas de quem sentem mais falta.

Segundo o relato das meninas, Birica começou a se envolver com drogas após a morte do pai. Presa por tráfico, fugiu meses depois, arrumou um namorado e teve

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filhos. Por causa das dívidas que o marido tinha com o tráfico, caiu em uma emboscada e levou três tiros. Fingindo-se de morta, ainda viu o marido levar dois disparos na cabeça e morrer ao seu lado. Do pronto-socorro foi direto para Tucum. Durante os anos em que ficou presa, seus filhos ficaram com sua mãe.

Lidiane Birica é descrita pelas meninas como extrovertida e participativa. Na terceira edição do jornal O Diário da Realidade de Tucum, um texto de sua autoria, intitulado “Vida loka”, relata um pouco da sua história. O título do texto de Birica é quase um código de identificação. E mesmo não a conhecendo pessoalmente, por ele dá para ter uma noção de como foi sua vida.

“Vida loka” é um termo bastante comum nas periferias das grandes cidades e geralmente, faz referência uma música dos Racionais MCs, que fala sobre a brevidade da vida para os jovens imersos em uma realidade sem expectativas de futuro. Jovens que não temem a morte, ao contrário, a esperam. Por sua origem, “Vida loka” é facilmente associado ao banditismo.

Na letra da música, a síntese dos morros: Eu sou guerreiro do RAP / E sempre em alta voltagem um por um / Deus por nós, to aqui de passagem / Vida Loka / Eu não tenho dom pra vitima /Justiça e Liberdade, a causa é legitima / Meu Rap faz o cântico do lokos e dos românticos / Vô por o sorriso de criança, onde for / Os parceiros tem a oferece a minha presença / Talvez até confusa, mais Real e Intensa / O que será, será, é nóis vamo até o final / Liga eu, liga nóis, onde presciso for/ No Paraíso ou no dia do Juízo Pastor / E liga eu, e os irmão / É o ponto que eu peço, Favela, Fundão/ Imortal nos meus versos/ Vida Loka.

Relatos registrados nos jornais O Diário da Realidade de Tucum:

“Eu pedi tanto a Deus para sair daqui e quando conseguir a minha liberdade. Saí na quarta-feira e voltei na quinta-feira. Sabe por quê? Porque eu saí da cadeia e fui para a casa e quando eu cheguei lá não tinha não tinha nada para eu comer. Eu tenho 4 filhos e moto de aluguel, meu marido me abandonou. Mas me arrependo, eu só queria um emprego, mas a sociedade não dá oportunidade a ex-presa. Eu não

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agüentei ver meus filhos pedindo pão e eu não ter da onde tirar. Então eu fui presa de novo pelo artigo 155.” (Depoimento de A.R., edição nº 2)

“Sei que estou aqui porque errei, mas não acho justo que minha família passe pelas humilhações da revista para me ver, principalmente quando tem algumas pessoas que não tem noção do que se passa pela mente de uma menina de 11 anos de idade quando ela pede para que ela tire a calcinha e se abaixe. Poxa, minha filha é uma criança e entra reclamando pela situação. Acho que não tinha necessidade disso.” (Depoimento de J., edição nº 2)

“Aos quatorze anos eu deixei um lugar, que era o melhor lugar, era o lugar que muita criança queria. Só que para mim era o pior, era a casa dos meus pais. Então vim para Vitória, depois de dois meses conheci um cara. E com o passar dos tempos me apaixonei por ele. Só que ele era traficante. Eu já tinha minha profissão, sou auxiliar de veterinário. Eu me casei e vivemos cinco anos juntos, iríamos fazer seis anos, caímos na cadeia e ele jogou a droga toda para mim. Fui sentenciada a 8 anos e 6 meses. Só eu e Deus sabemos o que passei. Tenho os meus bichos que precisam de mim. Então eu me pergunto: Por que estudei tanto agora eu estar aqui? Isso me revolta. Meu eu penso, não posso, pois eu tenho a minha vida classe media. Só que por falta de fofoca estou sem visita a seis meses. Mas está na Paz. Vou deixar que Deus vá tomar providencias na minha vida. Se Deus está por nos, quem estará contra nós. A justiça é lenta demais.” (Depoimento de S., edição nº 1)

Eu, A.C, vim presa no dia 22 de fevereiro de 2005 por trafico de drogas, formação de quadrilha e corrupção de menores. No dia 4 de março fugi junto com as visitas. A partir desse momento começou meu sofrimento, me arrependi é claro porque eu fui muito discriminada pelos meus amigos até minha família me virou as costas. Quando eu fugi fiquei desesperada sem saber o que fazer, parei para pensar, desabafei com uma colega e falei: vou me entregar, estou presa do mesmo jeito. Minha colega virou para mim e disse: e seus filhos? Eu já não sabia o que fazer. Desisti de me entregar, peguei meus filhos e fui para outro lugar. Fiquei 4 meses foragida. Resolvi voltar para Vila Velha, foi no dia 16 de julho, passei o sábado e o domingo muito bem com meus filhos e minha família, quando foi na segunda 8 horas da manhã, acordei com a polícia na minha porta. Foi um desespero para mim e para

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meus filhos, parece que tudo acabou para mim. Hoje tem um ano e nove meses que estou aqui neste lugar e agradeço a Deus estar aqui com vida e saúde eu agradeço a Deus todos os dias por estar aqui livrando minha família e meus filhos. Sei que estou esquecida pela sociedade, mas não por Deus. Eu peço liberdade, liberdade, liberdade. (Depoimento de A.C., edição nº 1)

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Olho por olho, dente por dente

Revistas de rotina acontecem periodicamente no Presídio de Tucum. Mas como aquela, que aconteceu no começo no final do mês de março, nunca havia ocorrido, segundo aquelas que presenciaram essa e outras ações. Os olhos das detentas jamais haviam visto tanta atrocidade.

Na tentativa de encontrar qualquer coisa dentro das celas, o Grupo de Apoio Operacional (GAO), da Polícia Militar, colocaram todas as detentas no banho de sol. Sentadas, com as pernas abertas, umas encaixando-se nas outras, deveriam permanecer com as mãos na cabeça durante todo o tempo que durasse a revista. E a ação durou mais de uma hora.

As mulheres haviam sido revistadas, inclusive, com detectores de metal. Todas elas sofreram o constrangimento de terem a placa de metal encostada na própria vagina. Isso sem falar nas bofetadas e nas palavras que eram dirigidas a elas e que doía muito mais. Ninguém agüentava mais ouvir os policiais dizendo que beberiam o sangue delas e que eram uma vadias e piranhas, coisa que nem entre as internas eram dito.

Enquanto esperavam do lado de fora, o GAO destruía tudo nas celas. Quando as internas foram postas novamente dentro dos barracos, encontraram as celas molhadas, ventiladores destruídos, comida revirada e misturada. Junto com o pó de café estava o açúcar e todas as roupas estavam emboladas no chão.

Muitas detentas de Tucum afirmam ter medo do GAO. Mas não a ponto de não se revoltar com as atitudes horrendas praticadas pelos homens da Polícia Militar naquele dia. Quando viram os barracos daquele jeito, e sem nada a perder por já estarem presas, internas das provisórias e das sentenciadas iniciaram uma rebelião em Tucum. Unidas, começaram a bater nos chapões e atearam fogo nos colchões.

Juntas em um canto separado vendo o fogo arder, as detentas foram novamente esbofeteadas pelo GAO e pelo Batalhão de Missões Especiais (BME), que lançaram

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gás de pimenta para conter os ânimos e atiraram contra elas com balas de borracha. Segundo uma das detentas, talvez a Polícia Militar nem tivesse saído do presídio, mas sim continuado lá porque sabia que haveria revolta. Em poucos minutos, o fogo já estava apagado e as internas foram reconduzidas às celas. Era hora de arrumar tudo.

No mesmo dia, a PM retornou ao presídio com uma lista de quase dez pessoas que deveriam ser conduzidas ao RDD. Algumas pela participação na rebelião de mais cedo, outras pelo histórico de “baderneiras” e pelos antecedentes. No outro dia, algumas foram liberadas, mas outras mantidas para “refletir” sobre o que havia acontecido.

Dias mais tarde, em 2 de abril de 2007, em decorrência da rebelião, 11 detentas ainda estavam no RDD. Uma seria assassinada na madrugada do dia 3 por outras nove; uma, como foi comprovado posteriormente, não participou do homicídio, mesmo porque era a namorada de Mariana.

Mariana, de 19 anos, já havia tomado um tiro na rua e foi presa por roubo. “Que justiça é essa que prende uma pessoa por ter roubado uma barra de chocolate?”, pergunta-se uma interna. Bonita, homossexual e filha de presa, Mariana tinha seus relacionamentos dentro da cadeia. Por causa da rebelião, tinha ido parar no RDD com outras dez. Todas eram jovens e muito bagunceiras. Jogavam urina nos agentes, gritavam por socorro durante a noite e diziam que havia uma detenta morta. Fizeram isso durante toda a semana, mas sempre que a suposta doente ou morta era levada da cela, percebia-se que se tratava de uma brincadeira de mau gosto.

Na madrugada do dia 3 de abril, vários gritos foram ouvidos. Uns clamavam pela mãe, outros pediam que, pelo amor de Deus, não fizessem aquilo. Mas, certamente, pensaram todos, aquilo não passava de mais uma gozação das meninas do RDD. Mas não era. Quando amanheceu o dia, uma das presas, em tom de deboche, chamou o agente e disse que ele poderia levar o café e o pão porque já elas já tinham o presunto. Sem acreditar, mas querendo pagar para ver, um dos agentes entrou no RDD e encontrou Mariana morta. Ela estava com o corpo todo rasgado e a

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cabeça amassada, conforme relatos de outras internas. O vaso sanitário quebrado denunciava que as companheiras de cela haviam feito aquilo com a cerâmica.

O motivo para uma morte tão bárbara, que começou por causa de uma rebelião, só as dez mulheres que estavam no RDD junto com Mariana naquela noite podem dizer. Mas o assunto é meio que um tabu em Tucum. Não se fala muita coisa, e quem arrisca, diz que a briga começou por causa de namorada. Independente de qualquer justificativa, “os fins não justificam os meios”, e a população carcerária mais uma vez se revoltou. Um motim foi armado novamente exigindo a transferência das dez detentas de presídio. Temporariamente, elas foram colocadas em um dos contêineres, que ainda não eram ativados. Posteriormente, elas foram levadas para outros presídios. Se ficassem ali, morreriam. E do mesmo jeito que mataram.

Mas uma dessas detentas acabou voltando para Tucum. Grávida, ficou no berçário, porque a única unidade prisional do Estado que tem uma ala específica para grávidas e crianças ainda é Tucum. Depois que o filho lhe foi tirado, ela voltou para o presídio onde estava. Ainda hoje não pode freqüentar Tucum. As nove que participaram do homicídio ou respondem pelo artigo 129, tentativa de homicídio, ou pelo 121, homicídio. À pena de cada uma delas, somou-se outra, a da morte da companheira.

Tucum ficou mais aberto ao diálogo depois da morte de Mariana. Não houve mais rebeliões, exceto poucos motins para reivindicar algo mais específico. Em meados de dezembro, quando um bebê de seis meses morreu no berçário, por falta de atendimento médico, dizem, um motim foi puxado para protestar.

O bebê de Cláudia morreu no dia em que completava seis meses. O laudo médico alega pneumonia, mas detentas afirmam que ele pode ter morrido de leptospirose e que o atendimento demorou a ser feito. Uma tia de Cláudia, quando recebeu o telefonema do presídio, pensou que seria para buscar o sobrinho-neto. Era sim. Mas para enterrá-lo.

Outro foi feito para pedir que seja dada mais atenção aos pedidos de atendimento às detentas que passam mal. Mas os motins são muito diferentes. Geralmente, são

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batidas nos chapões e gritos, muitos gritos. Em um desses motins, uma detenta se empolgou tanto que jogou a panela de feijão para cima; quebrou a lâmpada; foi vista pelo agente, e teve sua pena aumentada.

Sem possibilidade de remissão da pena ou com o alvará já vencido, muitas passam os dias presenciando cenas como essas na esperança pelo dia em que um dos agentes pare em frente ao portão e grite em alto e bom som: “liberdade!”.

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Entre o sagrado e o profano

Todas as visitas feitas a Tucum eram em dias ensolarados. Um calor infernal, que faziam de nossas subidas à ladeira que dava acesso ao presídio um verdadeiro teste de resistência. A semana inteira de clima ameno, mas era só pensar em ir para Tucum que a temperatura aumentava.

No sábado do dia 18 de outubro não foi diferente. Mas, dessa vez, a intensidade não era apenas dos raios solares. Atravessando o portão de Tucum, nos deparamos com milhares de pessoas, entre crianças e adultos, circulando pela área externa do presídio. Pareciam aquelas praças públicas em dia de Ação Global. Mas era a comemoração do Dia das Crianças em Tucum.

Chegamos à festa com atraso. Ao contrário das outras visitas, dessa vez entrar em Tucum foi demorado. Nosso nome não estava na lista dos convidados. Tivemos que explicar todo o nosso projeto para uma moça da organização que decidia quem entrava e quem saía. Ainda sim, ela não estava convencida de que poderia nos deixar entrar. Por sorte, enquanto tentávamos persuadi-la, uma assistente social conhecida intercedeu por nós. Deixamos nossos celulares e identidades e entramos.

No lado dos contêineres, foram armadas barraquinhas. Música animava os convidados; as crianças tinham os rostos pintados de borboletas; havia algodão doce, refrigerante, picolé, pipoca e água, muita água. Diversas famílias passaram o dia sentadas na grama, em verdadeiros mini-piquiniques.

Com o forte calor, algumas crianças sortudas estavam sem roupa nenhuma, tomando banho na única torneira que havia por perto. Outras, só de fraldas. Quem sofria eram as presas com as maquiagens borradas, roupas não muito confortáveis e tamancos altíssimos. Mas a ocasião era especial. Usar roupas comuns não valia. Muitas já deviam estar se produzindo desde quinta-feira, quando começam, com mais intensidade, as atividades “estéticas" em Tucum.

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O palco onde aconteciam as atrações culturais, orações e sorteios de brinquedos era quase um picadeiro, com uma lona enorme dando cobertura e algumas cadeiras de plásticos colocadas em círculo. Não havia um palco necessariamente, mas a posição das cadeiras dava certo limite entre o público e as pessoas responsáveis em comandar as atrações. Por causa do calor, era o espaço onde mais aglomerava gente. Fantoches humanos

As atrações comandadas por grupos evangélicos dominaram todo o evento. Orações, sermões e peças teatrais foram realizados durante todo o dia. Sempre com bastante audiência por parte das pessoas presentes. Uma das peças apresentadas foi a um de um grupo de jovens da igreja Universal. Seis deles estavam fantasiados de bonecos, todos pintados, com perucas e acessórios. Cada um entrou em um caixa de papelão e se sentou.

Eis que de repente, aparece uma garota, toda de preto, com a boca pintada de vermelho e a cara de branco. Em outra ocasião eu diria que estava fantasiada de morte, como nas festas de Halloween, mas era uma peça evangélica. A fantasia era outra. Com um microfone na mão e uma voz bastante aguda, potencializada ainda mais pelas caixas de som, ela começou andar entre os bonecos até parar em um deles. Na verdade uma moça, que mais parecia a Emília, do Sítio do picapau amarelo. Pegando nos braços dela, ela começa a dizer:

- O que significam esses bonecos, o que eles representam? Representa a sua vida. Tá vendo este boneco aqui? Olhem só os braços dela, olhem só a cara dela. Todos os dias ela cheira. Todos os dias ela come, ela almoça, ela janta cocaína. Sabe por quê? Porque eu coloco nela o desejo de depender das drogas. Eu faço ela usar drogas todos os dias. Meus bonecos são perfeitos, são minhas criações, são todos meus. Eu faço o que eu quiser com eles. E assim como vocês, eu faço o que quiser com vocês.

A platéia ficou em silêncio. Apenas alguns se incomodaram com os gritos da moça de preto, que largou a primeira boneca e partiu para o segundo.

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- Tá vendo este boneco aqui? Tá grávida, adolescente. Eu coloquei o desejo no coração dela de se prostituir com o namoradinho. Ela acabou ficando grávida e ele abandonou ela. Gostei, gostei. Eu faço tudo isso com ela, destruo a vida dela. A família dela está revoltada com ela. Bem feito, bem feito.

A expressão nos rostos das crianças que estavam na primeira fila é indescritível. Para nosso espanto, nenhuma ainda tinha começado a chorar. A moça de preto largou o segundo boneco e prosseguiu:

- Tá vendo esta boneca aqui, é mais uma criação minha. É mais uma criancinha em quem eu mando e desmando. Assim como muitos de vocês. Será que no meio de vocês tem algum bonequinho meu. Linda esta boneca. Perfeita. Criação minha. Esta boneca aqui é prostituta. Ela tem todos os homens aos pés dela. Eu coloquei homens de grana aos pés dela. Ela tem ganância por dinheiro, se prostitui por dinheiro. Ela não é feliz no amor, eu não deixo ela ser feliz. Eu atrapalho a vida dela, eu quero destruir ela. Ta vendo só o que eu faço com vocês?

Era a vez da moça de preto falar do traficante:

- Tá vendo este boneco aqui? É o que mais gosto, é o que eu mais amo. Ele é meu escravo. Ele é traficante, tem uma boca de fumo. É dono praticamente do morro inteiro. Manda e desmanda. As pessoas olham pra ele e ficam com medo, saem com medo. Mas eles não sabem que por trás dele estou eu. Eu que dou tudo para ele. Eu que faço ele matar, traficar. Eu, eu atiro. Eu que faço ele atirar todos os dias naqueles adolescentes que compram e não pagam. Vão para vala. Eles todos vão para o inferno. Porque é para lá que eles devem ir, porque é lá onde eu quero eles. Por isso, eu amo ele. Ele me usa, eu uso ele. Ele usa e abusa de mim porque ele me ama. Eu faço dele o que eu quiser. Assim como eu faço com muitos que estão por aí. Todos os dias, morrendo por causa das drogas, famílias sendo destruídas porque eu faço isso. Eu entro na casa de vocês para destruir tudo. Eu faço isso.

Problemas domésticos também são lembrados pela moça de preto:

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- Ah, tem um boneco aqui especial. Coitado desse boneco. É um alcoólatra. Destruí a família dele. Todos os dias ele acorda na lama. Todos os dias as pessoas carregam ele pra casa porque ele bebeu todas, perdeu o emprego, perdeu tudo que tinha por causa do álcool. Eu destruí a vida assim como faço com muitos de vocês. Não é, boneco? Obedeça-me, faça o que eu gosto, o que eu quero.

Os ricos também são lembrados:

- Ah, vou mostrar para vocês uma coisa muito especial que eu tenho. Este boneco aqui é minha jóia preciosa. É o boneco que eu mais gosto. Assaltante. Filhinha de papai. Tem tudo do bom e do melhor. Mas eu coloco no coração dela a vontade de sair por aí assaltando banco. Chega, assalta e ainda mata.

Um pouco de autocrítica no boneco seguinte:

- Este boneco aqui é crente. Eu adoro esses crentes. Todos os dias vão para a igreja, ouvem a voz do pastor. Mas quem eles vão obedecer? Eu, é claro. Porque eu estou no coração deles. Eles vão para igreja, se emocionam, cantam, mas não se converteram. E por isso estou na vida deles, assim como eu estou na vida de muitos crentes que não ouvem a voz de Deus, mas ouvem a minha voz.

A essa altura, algumas pessoas começam a rir dos excessos cênicos da moça de preto. Muitos gritos, muitos mesmo. Aliás, ela berrava tanto que tampando os ouvidos bem forte ainda era possível ouvir perfeitamente tudo que ela dizia. E ela estava só na metade:

- É essa bonequinha loirinha? Tentou suicídio várias vezes. Várias vezes eu soprava no coração dela para ela tirar a vida dela, porque não tem mais jeito, não tem mais solução. Acabou. É a morte. Eu falei isso com ela, mas ela não me dá ouvidos. Tentou se matar, mas alguma coisa faz ela desistir. Eu coloquei que a vida dela é uma desgraça, que não vale nada. Assim como eu fiz com ela, eu faço com vocês. Assim como eu faço com todos esses bonecos. Todos eles que estão na minha frente. Todos vão para o inferno junto comigo.

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As palavras “eu”, “inferno”, “vocês” eram ditas com muita ênfase e de maneira demorada. Algumas vezes, ela apontava o dedo para alguém da platéia aleatoriamente. saído da tenda. Alguns pareciam hipnotizados, outros já tinham se cansando e

- Quer ver só como eles me obedecem? Braço direito para cima. Braço esquerdo. Um passo para frente. Um passo para trás. Vira para o lado direito agora. Vira para o lado esquerdo. Ajoelha agora. Viu só? Eu monitoro a vida deles. Eu destruí a vida deles, muitos estão aqui derramando lágrimas de sangue, todos vão para o inferno. Todos, todos. Todos de pé agora.

Todos os bonecos estavam de pés nesse momento. Um sinal de que aqui tudo já estava no fim. O desfecho se aproximava:

- Como em todo reino tem sempre um desobediente, tem um boneco aqui que deve estar com defeito de fábrica. Passo para frente. Passo para frente. Agora! É uma ordem.

A boneca abre os olhos, se movimenta, ganha “vida”. Em um ato de rebeldia, enfrenta a moça de preto.

- Tira mão de mim, você não manda mais em mim.

- Mando sim.

- Não manda não. Eu sigo um Deus maior que você.

- Não é.

- Como ele me libertou, vai libertar os outros também.

- Não vai.

- Vai sim, você não pode contra o meu Deus.

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A boneca saiu, então, da caixa e começou a tocar em todos os outros bonecos, que pareciam despertar. Os bonecos cercaram a moça de preto, que enfraquecida e caiu no chão. A boneca rebelde sentenciou:

- Você é um derrotado. Deus libertou todas as almas que estavam aqui. E, agora, por amor de Jesus, você vai cair de joelhos. Vai sim, vai se render ao meu Deus.

A moça de preto parece falecer. É o clímax. O mal é derrotado e todos aplaudem efusivamente. Fim.

Antes de se retirarem do palco, um recado dado por um dos atores para a platéia:

- Esta peça representa a vida de vocês. Muitos de vocês são como esses bonecos que estão nas mãos do nosso amigo diabo. Ele está na vida de vocês, fazendo de vocês bonecos. Só que Deus pode mudar a vida de vocês e fazer vocês deixarem de ser fantoches na mão do diabo. Deus é o único que pode mudar a vida de vocês. Por favor, dêem uma salva de palmas para o nosso Senhor Jesus.

Encerrada a peça, começaram os sorteios dos brinquedos. Bicicletas, bolas, bonecas, carrinhos. Tudo que toda criança, independente da classe social, quer ganhar no Dia das Crianças. Mas, para aquelas crianças, em particular, mais que o presente, a oportunidade de rever a mãe que mal conhecem e reunir a família é o verdadeiro presente. Realidade em rimas

Deixando o tom ecumênico um pouco de lado, era chegada a hora das atrações musicais. Expectativa na platéia. O apresentador fez um suspense. Começaram uns gritinhos. Uma jovem negra, magrinha e de cabelo curta se aproximou do apresentador. Nós não sabíamos, mas era uma jovem famosa dentro de Tucum. Ela era celebridade, a atração mais aguardada. Era MC Babi.

De repente, o pancadão típico do funk começou a tocar. As pessoas foram ao delírio. MC Babi assumiu o microfone e cantou seu música mais famosa,

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acompanhada por um coro incrível. Todos conheciam a música. MC Babi cantava e as mulheres dançavam com gosto, rebolando e pulando. Mas, de erótica, a letra não tinha nada. Era o Rap do Sofrimento: Lugar de sofrimento / Nunca vou esquecer / Cadeia de Tucum / Lugar de presa sofrer / O sofrimento é de vera / Dói o meu coração / Quando as trancas se fecha / Vem aquela solidão / A saudade do mundão / Bateu no meu pensamento / Lembranças dos amigos / Que lá fora estão vivendo / Estão curtindo, estão zuando / Esqueceram de mim / mas se liga traidores que um dia vou sair / eu vou sair de cara limpa / não vou mais querer roubar / principalmente nas boquinhas / e não vou mais traficar / porque a vida do crime não recompensa não / você tem tudo na vida / mas caba na prisão / a prisão é um lugar que / filho chora e mãe não vê / o sofrimento é muito grande / só quem ta preso pra ver.

Foi uma catarse coletiva. MC Babi improvisou ainda duas músicas a pedido da platéia. Não deixa de ser curioso um evento que não existiria sem a colaboração de entidades religiosas acabar em ritmo de funk. Depois do show, apenas mais uma oração de despedida. As famílias que estavam na grama começavam a guardar as coisas. As crianças que brincavam nuas começavam a ser vestidas. Lentamente, as despedidas aconteciam.

Desligado o som, os agentes começam as gritas pelas presas. Sentenciadas. Provisórias. Era hora de organizarem em filas para serem aprisionadas novamente. E devia ser esse mesmo o sentimento. Mesmo a festa acontecendo dentro dos limites que cercam Tucum, ver os filhos, maridos, mães e irmãos partindo, dando as costas com pesar, é como reviver os primeiros dias dentro do presídio. É uma sensação que nunca se acostuma.

A dor de largar as mãos de quem se ama é tanto para algumas mulheres que elas simplesmente se recusam a passar por isso. Jéssica, grávida de oito meses e mãe de mais dois meninos, não quis saber de visitas nem de piqueniques pelos gramados de Tucum. Passou a tarde inteira circulando entre as pessoas sem ver o resto de um parente sequer. Não deixou a mãe trazer seus filhos. Outras mulheres, mães envergonhadas ou orgulhosas, nem sequer saíram das galerias.

Acompanharam toda a festa pelas janelas, batendo nas grades para externalizar seus gritos.

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No portão de saída, filas para pegar documentos e celulares e outra fila para revista e saída. Como todo o processo de identificação dos convidados era feito cuidadosamente, a aglomeração de pessoas e confusão foi inevitável. Ânimos exaltados. Nunca sair de Tucum foi tão difícil. Imagine para quem fica.

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O meu Tucum
Ariani Caetano

A primeira vez que fui a Tucum, fui sozinha. Fazia muito tempo que eu não ia ao Terminal de Itacibá, em Cariacica. Uns três anos, pelo menos. Como sabia que a viagem seria longa, puxei Cora Coralina da estante e pedi que ela me acompanhasse. Aliás, ela e todos os anjos e santos de Deus. Eu ia sozinha. Quando liguei e marquei com Erica, ela disse que tinha uma entrevista agendada e que não podia faltar. Ela não sabe, mas só não a chamei de santa por causa disso.

Claro que esse dia ia chegar. E logo. Afinal, só quatro meses nos separavam da data de apresentação do trabalho de conclusão de curso. E nossa escolha não foi das mais “normais”, nem das mais fáceis de executar. Visitar Tucum todas as semanas em busca de personagens e histórias boas de contar não é nada, digamos, convencional.

Era com as mulheres de Tucum que eu queria falar. Era atrás delas que eu estava. Mas, confesso, fiquei desesperada quando o dia chegou. Nunca torci tanto na vida para que engarrafamentos enormes me impedissem de chegar no horário ou me impedissem de chegar. Mas não. As ruas eram um verdadeiro tapete vermelho, estendido só para me levar a Tucum.

Cora Coralina foi comigo, mas não li muito no ônibus. Prefiro ouvir a conversa das pessoas. E ouvi, por quase uma hora, até o ônibus parar no terminal. Desci e perguntei a um dos funcionários que ônibus eu podia pegar para ir até Tucum. Ele me indicou várias plataformas. Pelo visto, não faltam linhas para Tucum, e elas circulam com muita freqüência.

E mais uma vez, o que eu pensei que fosse demorar longos minutos, foi apenas “um pulinho”. O trocador deu sinal para mim e disse que eu podia descer. Na verdade, queria que o ônibus inteiro fosse lá comigo, que entrasse em Tucum me acompanhando. Mas não. Mais uma vez, eu estava sozinha. Desci perguntando para ele como eu chegava ao presídio.

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- Desce nessa estradinha e sobe. Fica lá em cima.

Subi na rua que dá em Tucum. Uma verdadeira ladeira. Quando estava quase lá, já percebi que um agente, na guarita do presídio, me observava com um binóculo. Talvez ele já soubesse que eu iria e me esperava. Desci os olhos da guarita e percebi que não estava sozinha. Umas quinze pessoas estavam do lado de fora, na rua, esperando. Os homens de um lado e as mulheres de outro, sentadas na sombra, conversando.

Aproximei-me do portão e nem precisei apertar a campainha. Um agente abriu uma janelinha no portão grande e azul do presídio e meteu a cara lá.

- Bom dia, meu nome é Ariani Caetano. Eu vim falar com a diretora.

- Um minuto.

E fechou a janelinha. Fiquei lá, do lado de fora, esperando mais um contato. Até que a janelinha foi aberta novamente.

- Oi.

- Oi, meu nome é Ariani, eu vim falar com a diretora.

Dessa vez era uma mulher, negra, que me afirmou que a diretora não havia chegado ainda e me pediu para esperar “só mais um pouquinho”. Esperar mais um pouquinho era continuar lá, de pé, do lado de fora, no sol. Eu no meio da rua, homens à minha direita e mulheres à minha esquerda.

Quando o caminhão de lixo chegou, todo o portão grande e azul foi aberto. Quem fez esse serviço foi o homem, que primeiro me atendeu, e a agente, que usava uma camisa azul de uniforme, calça jeans e sapatos pretos. O homem, de camisa branca, tinha uma arma e um rádio e ela, apenas o rádio. Tinha esperança de que eles me chamassem para entrar junto com o caminhão, mas não. Continuei do lado de fora, vendo o portão se fechar.

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Quando eu menos esperava, a mulher abriu o portão.

- O subdiretor tá aí. Quer falar com ele ou é só com a diretora?

Aproximei-me e contei tudo para ela. Falei que tinha agendado a visita com Fulana, que já havia conversado com Ciclano e que a Beltrana marcou a reunião com a diretora para aquele dia às 10 horas.

- Então, espera aí que eu vou passar o rádio.

E fechou o portão.

- Moça, a senhora é advogada?

Era uma das mulheres sentadas na sombra.

- Eu? Eu não.

- Hum...

- Por quê?

- Parece. Responderam-me duas delas, ao mesmo tempo.

De fato, parecia. Minha roupa era muito diferente da delas. Meu scarpin, calça jeans, blusa, casaquinho, cabelo escovado e perfume bom contrastavam com as minisaias, tops, cabelos enrolados e o cheiro próprio delas. Não me senti mal, mas diferente, fora do meu espaço, dentro do delas.

- Ariani, eu me enganei. A diretora tá aí sim. Pode entrar.

Era a agente, que parecia mais simpática. Senti-me mal pelos que ficaram de fora. Afinal, eles estavam ali há mais tempo que eu e, se havia o mínimo de ordem, quem deveria ser atendido naquele momento não era eu. Mas eu não estava ali para

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questionar senso de justiça de uns e de outros. Nem era lugar para isso. Não em Tucum.

Enquanto entrava, ela me dava as instruções:

- Me dá sua identidade e celular.

- Você quer o número da minha identidade?

- Não. Ela vai ficar aqui comigo.

Desliguei o telefone e o entreguei para ela junto com o documento.

- O administrativo fica naquela casinha ali. Pode ir andando que o cara de camisa verde lá na frente vai te levar.

Não vi o cara de camisa verde. Mas decidi ir andando, sem olhar para trás. Quando estava perto da tal casinha, o homem de camisa verde estava falando no rádio. Devia ser com ela.

- Ariani?

- Sim.

- Vamo lá?

E o segui.

Entramos na casinha. A diretora estava na sala dela falando ao telefone. Esperei do lado de fora, em um corredor, onde uma senhora estava sentada. Era tão velhinha. Fiquei vendo fotos em quadros nas paredes enquanto a diretora conversava com o juiz. Sabia que era com o juiz porque a porta estava aberta e eu conseguia ouvir tudo. Ela queria autorização judicial para umas presas assistirem a uma palestra

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naquele mesmo dia à tarde. Quando a conversa acabou – percebi pelo “obrigada, tchau” –, entrei.

- Diretora, bom dia. Disse apertando sua mão. Eu de pé e ela sentada.

- Oi, bom dia.

- Meu nome é Ariani.

- Ah, então é você quem vai passar um tempo com a gente, né?

“Passar um tempo”. Ia mesmo. Não na mesma condição com a qual as mulheres de lá estão acostumadas, ou seja, encarcerada, mas podia dizer que ia passar um tempo sim.

Conversamos por uma hora. Ela me explicou a rotina e os procedimentos do presídio. Conheci os regimes da prisão – provisório, fechado e semi-aberto – e perguntei tudo o que eu queria saber.

- Na minha cadeia, você pode entrar na cela sozinha que não vai acontecer nada com você. Você não vai ser feita refém, nada disso.

Muito maior que a tranqüilidade que ela me passou com essa informação, foi a intriga que me causou o fato de ela ter chamado o presídio de seu. O presídio não era seu, mas não havia presunção nenhuma em sua fala. Pelo contrário, o tom era muito maternal. A impressão que tive foi a de que a diretora educou as “apenadas” da mesma forma como se educa aos filhos. Percebi que ela era igual a todas as outras: uma mulher, com histórias de vida e de morte.

Fiquei aliviada com as declarações da diretora. Acho que desmistificou em mim muita coisa que havia pré-julgado em Tucum. Nesse momento, vi que não ia desistir, não havia mais volta. Eu já estava envolvida com aquelas mulheres até a alma, sem nem sequer conhecê-las. As coisas haviam mudado em Tucum. No meu Tucum, naquele que eu havia desenhado na minha cabeça.

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Contei toda a experiência para Erica, que iria comigo na próxima vez. Nossas idas a Tucum foram agendadas por uma das assistentes sociais do presídio. Íamos todas as sextas-feiras. Às 13 horas nos encontrávamos e saíamos, sempre no 504, até o Terminal de Itacibá e, de lá, até Tucum.

Na primeira vez que em que Erica foi comigo a Tucum, não senti que ela estivesse com medo. Não, não era isso. Ela estava ansiosa, louca para saber o que iria encontrar. E o que encontrávamos podia até parecer, para o mais banal dos observadores, sempre a mesma coisa: mulheres. De fato. A população prisional de Tucum estava estimada em quase 600 detentas. Dados recentes apontam o crescimento da população feminina encarcerada em 11% ao ano. O número de homens presos cresce 4%. Como disse uma detenta, “o caminho para quem se envolve em crime ou é prisão ou é caixão”. E para cada homem que vai preso ou morre por causa, principalmente, do envolvimento com o tráfico de drogas, há uma mulher, pronta para assumir seu posto no movimento ou virar isca fácil, fácil de quem já ronda suas vidas há muito tempo. Por isso, muitas delas vão presas.

Já sabíamos que a maioria das encarceradas estava lá por causa do 33, tráfico de drogas. Isso era até motivo de alívio. Pelo menos, confiávamos que elas não iam nos fazer mal. E nessa fé, subimos a ladeira que dá a Tucum.

Paramos diante do grande portão azul. Identifiquei-me pela segunda vez; Erica pela primeira; nós duas pela última. Nas outras vezes, não nos perguntavam mais nada. Apenas abriam o portão, assim mesmo como o mar se abriu para Moisés, de forma milagrosa. Deixávamos o telefone celular desligado e um documento de identidade com o funcionário. Não precisávamos passar por mais portões, policiais ou detectores de metais, como muita gente imagina. Apenas íamos caminhando em direção à entrada da galeria.

Mas os poucos metros eram capazes de despertar as mais diversas emoções. Tucum é um palco. No teatro, sabemos que o palco é dividido em planos para que as cenas ocorram. A marcação correta dos atores e a iluminação adequada garantem o espetáculo que nós, da platéia, esperamos ver. Em Tucum é a mesma coisa. Com a diferença de que a platéia (nós) não quer ver espetáculo nenhum. Não

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quer, mas assiste a vários. Em cada plano desses pequenos metros acontecem cenas das mais inesperadas. O drama de uma é colocado ao lado das risadas de outra; a tragédia (que parece com aquelas greco-romanas) acontece ao lado do grotesco. E nesse cenário de encenação e realidade, cada um ilumina o que lhe convém.

E como eu tenho olho até na nuca, via tudo aquilo ao meu redor. No final do dia, na hora de ir embora, sempre comentava com Erica e, para o meu espanto, nem sempre ela havia reparado a mesma coisa que eu. Ela tinha uma tranqüilidade que eu invejei em muitos momentos. Por fim, achava isso ótimo. Os olhos distantes dela eram muito mais técnicos que os meus, que ficam marejados ou estatalados com muita facilidade dentro de Tucum. Por isso, as coisas davam certo. Enquanto ela fazia as perguntas que já havia preparado em um bloquinho e gravava as respostas em um MP3 com a pilha à mostra, eu olhava, ouvia, cheirava e sentia.

Cheirava tanto e tão bem que percebi que liberdade não tem cheiro nenhum. O que cheira é o cárcere. Tucum tem cheiro próprio. Não o cheiro da planta, a palmeira rica em fibras (o cheiro desta eu não conheço), mas cheiro de Tucum, o presídio. Isso era nítido já no primeiro dos quatro degraus que davam para a galeria. Pelo cheiro, já sabia: agora, sim, estamos, de fato, entrando em Tucum e nos deixando inebriar por ele.

O que queríamos naquela segunda visita era apresentar Erica, de quem só sabiam o nome, e conversar com a assistente social sobre a melhor maneira de realizar o trabalho. Ela nos disse que ia chamar as representantes de cela para conversarmos com elas.

Primeiro, vieram as representantes da ala das sentenciadas. Entendemos na hora que a aprovação delas seria condição das mais imediatas para que pudéssemos dar continuidade ao projeto. Devíamos respeitar essa hierarquia. Mais até, nos submeter a ela. Imagine só, que arrogância entrar em um barraco sem falar com a “general” dele...

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Ficamos sentadas, em cadeiras de plástico, e elas a nossa volta. Depois das devidas apresentações, explicamos nosso projeto, perguntamos o que elas achavam e pedimos ajuda para realizá-lo. Afinal, eram muitas mulheres. Falar com suas representantes é o mesmo que falar com elas.

Uma das representantes foi muito prática. Prática demais. Repetiu o que dissemos, perguntou se era aquilo mesmo e foi embora rapidamente, como se tivesse muita coisa para fazer ou “deixado a panela no fogo”. Identifiquei-me com o pragmatismo dela. Mas gostei mais de passar um longo tempo conversando com as que ficaram. Enquanto a assistente social entrava e saia da sala que é dela, mas que havíamos tomado emprestada, elas falavam, riam, falavam, riam mais um pouco... E nós também. Erica soltava gargalhadas. Não era para menos. Aquelas mulheres, mesmo encarceradas, têm um pensamento livre, livre. Começaram a nos contar sobre a rotina do presídio, sobre o que elas tinham nas celas, sobre o que gostariam de fazer e não podem por serem sentenciadas, sobre família e filhos e, aí, nesse momento, elas deixavam transparecer aquilo que elas mais são: mulheres, mães e filhas. Esposas não. Muitas delas devem suas condenações aos companheiros e é muito comum ouvir algumas delas dizendo que não querem “homem nunca mais, nem pintado de ouro”.

Senti-me muito envergonhada. Estava diante de mulheres presas por motivos diversos e, algumas vezes, alheios à própria vontade, e que sabiam muito mais que eu. Elas não têm conhecimentos acadêmicos ou técnicos sobre algum assunto, mas conseguem ter opiniões e concepções de mundo muito melhores que as minha, e de Erica também. Imagine que elas tiveram a “audácia” de dizer que sabem muito melhor que um juiz quem é culpada ou inocente. Hoje estou certa de que sabem mesmo. Tucum é um doutorado...

Pronto. Havíamos conseguido o aval das representantes das sentenciadas. Com certeza, elas conheciam as colegas muito melhor que nós e sabiam exatamente quem convidar para contar suas histórias. Despedimo-nos afirmando que voltaríamos na outra semana, na sexta-feira, à tarde.

- Ih, mas é dia de faxina. Lamentou-se uma detenta.

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Outra, sem deixar a colega terminar, já foi logo avisando que a faxina era pela manhã e que tudo daria certo.

Sim, tudo daria certo. A detenta pragmática e apresada, que saiu correndo da sala da assistente social, já havia voltado com uma lista de pessoas que topavam contar suas histórias de vida. Tudo daria certo mesmo. Já tínhamos até uma listinha de entrevistadas na mão.

Elas foram embora. Cada uma para sua cela, ou barraco, e não vimos elas entrarem na galeria. Recebemos as outras representantes. Uma delas, a do berçário, veio com o filho no colo, chacoalhando a criança de um lado para o outro. Estavam para se separar, pois o menino já tinha quase seis meses, que é o tempo máximo que o filho pode viver com a mãe em Tucum. Senti pena um do outro, mas mais da mulher. Acho que criança ainda não entende certas coisas de adulto.

Mais uma vez, o mesmo discurso. Todas entenderam e ficaram de passar o recado para as outras. A que estava com o bebê no colo foi embora logo. O menino não estava bem e ainda se recuperava de uma bronquiolite. Mas as outras ficaram e conversamos por mais longos e interessantes minutos. Uma se lamentou porque iria sair do presídio antes de sua filha, que também estava presa; outra comemorava o fato de poder fazer a prova do Enem, e outra ainda nos contava sobre seus três livros (ou cadernos), todos escritos em Tucum, e seus amigos famosos que havia deixado aqui fora.

Mais uma vez, as detentas aprovaram o projeto e nossa intromissão em seus barracos. Era hora de ir embora e um agente penitenciário, iria nos acompanhar até o grande portão azul. Antes disso, fomos caminhar pelo presídio. Ele abriu a ala das provisórias para conhecermos, meio a nosso contragosto – demos a desculpa do tempo. Colocamos um pé para dentro do portão que havia sido aberto por ele e as detentas começaram a gritar “oh, presa nova, presa nova”. Não, não éramos. Uma das representantes, que havia acabado de estar conosco, deu um grito mais forte e disse que éramos “as jornalistas do livro”. Apesar de ter me sentido péssima, não estranhei a atitude delas. É para aquela ala que vão as mulheres que acabam de chegar a Tucum, e quase todo dia chega uma.

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Demos ainda uma breve passada no berçário. Uma detenta estava com o filho no colo esperando o transporte para levar a criança ao médico. Em um braço, a criança, e em outro, o documento que autorizava a saída do presídio. Antes ainda de cruzarmos de volta à liberdade, uma parada no trailler do Senai. Conhecemos o professor de panificação. O curso tinha acabado há pouco e a aula tinha sido sobre panetone. Não era Natal, nem Páscoa, mas 11 panetones fresquinhos saíram do forno. Eu e Erica comemos um cada e os outros nove foram divididos entre mim, ela e o agente, que nunca havia ganhado panetones de Tucum. E foi com sua sacolinha de panetones na mão que o agente abriu e fechou o portão para a gente. Eu estava novamente sentindo cheiro algum, o que representava liberdade, mas grata a Tucum, que matou nossa fome.

Foi assim que iniciamos este projeto. Dali pra frente é o que está escrito. Todas as sextas-feiras estávamos lá, das 14 às 17 horas, presas ou não, com gravador em punho e coração acelerado, ouvindo aquelas histórias, de realidades inventadas ou criadas. Um misto de medo, ansiedade e curiosidade pelo que iríamos descobrir. E na busca por alguma verdade, tudo o que, inicialmente, eu reprimi ou temi disse alguma coisa que pudesse nos indicar a verdade de Tucum.

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Resumo de um cotidiano não publicado
Erica Vaz

Quando decidi que escreveria um livro-reportagem como Projeto de Conclusão de Curso, junto com Ariani, sempre soube que terminaria o projeto frustrada. Não por duvidar de minha capacidade de produzi-lo junto com minha parceira ou por considerar a proposta trabalhosa demais (e realmente foi). A frustração, na verdade, é apenas uma constatação óbvia de que, por mais que tenhamos nos empenhado neste projeto, é humanamente impossível para nós relatar tudo que presenciamos, sentimos, escutamos e descobrimos nesses quatro meses de visitas semanais a Tucum.

E o que buscamos ao escrever um livro? Realizar esse humanamente impossível. Esse paradoxo de editar mentalmente o que seria exposto é doloroso, lento e talvez injusto. Para mim, é um cálculo simples: quatro meses, uma vez por semana, quatro horas em cada dia. Ainda que eu fizesse deste livro um diário, com detalhes mais precisos de cada momento, ainda sim, seria insuficiente.

Então, diante dessa frustração, o que me resta é ser fiel, sempre, as todas as mulheres que chegaram até nós. E, a partir do que elas nos ofereceram, tentar transportar o leitor para Tucum de mala e cuia, mente aberta, olfato aguçado, paciência e disposição. Não é tão simples ouvir o que o outro tem a nos dizer. Mesmo com todo o aparato tecnológico que usamos no nosso dia-a-dia como se fosse a extensão do nosso corpo, ainda nos comunicamos muito mal.

Um exemplo de má comunicação aconteceu logo na minha primeira visita a Tucum. Como estagiava pela manhã, o almoço foi no restaurante mais perto que encontramos do meu local de trabalho, na Reta da Penha. De lá, seguimos para um ponto de ônibus rumo ao Terminal de Itacibá. Tucum era quase um parque de diversões. Logo na nossa primeira entrevista, sorte! A personagem era ótima. História interessante, franca, simpática. A fonte ideal para qualquer jornalista com faro para boas reportagens.

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O barraco onde as presas ficavam não era nada assustador. Ao contrário, o que não faltava era aconchego naquele lugar. Camas agradáveis, clima tranqüilo. No final da entrevista, já estava esparramada na cama da entrevistada, conversando com outras mulheres e dando muitas risadas.

Não foi uma intimidade forçada. Realmente, me sentia bem ali. E as mulheres pareciam confortáveis com a nossa presença. Bom, nem todas. Minutos antes de sairmos do barraco, uma mulher, que estava sentada no chão, quase ao meu lado, observando toda a conversa, interpela:

- Posso dar um toque para vocês?

- Claro.

- Dá próxima vez que vocês vierem fazer entrevista, joguem os chicletes fora. É muito feio entrevistar alguém mascando chicletes.

- Ah, sim...

- Mas, olha, não estou falando por mal não, tá? Se vocês quiserem, eu tenho uma apostila que ensina essas coisas, como se comportar e tal... Eu já fui secretária bilíngüe...

Eu já não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha. De volta para casa, minha euforia tinha dado lugar à indignação. Não com a mulher, mas comigo mesma. Trabalho há quase três anos, já entrevistei dezenas de pessoas e nunca, nunca mesmo, fiz isso mascando chiclete. O que me fez pensar que poderia agir com elas de maneira diferente?

Arrogância, claro. Quando nos apresentamos como estudantes de jornalismo, que estávamos produzindo um livro, naturalmente, elas esperavam certo tipo de comportamento nosso. Algumas não ligaram para o nosso deslize, mas outras interpretaram isso como desleixo, como se tivéssemos fazendo pouco caso delas.

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A partir desse episódio, por mais que eu me divertisse estando ao lado delas, rindo junto com elas e as consolando em momentos de tristeza, sempre me preocupei em emitir sinais de respeito. Seja pelo gravador que deixava exposto, seja pela minha postura na hora da entrevista, seja pelo olho no olho.

Outra situação que me deixou angustiada foi quando perdi quatro horas de entrevistas gravadas em um MP3. O áudio estava “corrompido” e todas minhas tentativas de recuperá-lo foram em vão. Com isso, também perdi uma personagem incrível: Ingrid. Como não vou contar a história dela, dessa vez, me reservo ao direito de escrever o seu nome verdadeiro.

Ingrid é uma mulher jovem, linda e que destoa das outras pessoas presas por causa do seu porte físico. Ao elogiar sua beleza, acabei, sem querer, ofendendo outras mulheres que estavam por perto e que me ouviram dizer que ela, a Ingrid, não tinha “cara de presa”. Claro que não foram com essas palavras exatas. Por ser branca, loira e muito bonita, Ingrid poderia ser facilmente confundida com uma moradora de um bairro nobre da Grande Vitória. Ao contrário das outras mulheres, que trazem suas origens de classe baixa no tom de pele, na maneira de falar e na aparência.

Seria hipocrisia dizer que Tucum não tem uma “cara”, um estereótipo, mas eu não tinha o direito de manifestar uma opinião tão pessoal da forma como fiz. Até consegui contornar a situação com as mulheres, fazendo graça do que tinha dito, mas novamente, não soube me comunicar com elas.

Além dessas pequenas gafes, algumas inconfessáveis, trago na lembrança momentos “de bastidores”, como um dia que a entrevista teve de ser interrompida porque as mulheres resolveram “brincar” de luta e começaram a se espancar na minha frente, pelas diversas conversas paralelas que ouvíamos “sem querer” ou pelas inúmeras vezes que presenciamos presas chorando ao telefone na sala da assistente social, pedindo ajuda de familiares para sair daquele “inferno”.

São diversos “causos”, histórias e momentos de silêncio em que as trocas de olhares diziam tudo. As histórias até podem ser compartilhadas, mas as experiências, estas são únicas.

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