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Roberto Acizelo de Souza | TERIA DA LITERATURA ry nt A teoria da literatura &@ hoje reconlieeida ri como fundamental, nao sé nos cursos de te | Letras, mas também por sua vocacdo intentisciplinar, em diversos séteres das ci€neias humanas, Introduzida no ensino universitéio brasileiro Samenta a partir dos anos 50, 6 eonstituida por iimeras arentagcsées diverdeantes, Nesse ie sentido, este livre contribui para o eslabelecimento de varias questées-chava dessa disciplina, tals como: modos do tearizar sobre @ literatura; ralacionarnentos com as damais | disciplings literarins © humantsticas; objeto @ meétodo; principals correntes} niieleas concaituais basicos; linalidades a, enfin, sok histérico. j Roberto Acizelo tle Souza 4 professor da Universidade Federal Fluminense @ autor de Varios énsaios sobre teoria da lileralura 6 literatura brasileira. Sa aa j Areas: de interesse- do volume e Comunicacées e Estética e Literatura Outras trees de sérve. | e Admfnistracdo e Antropologia « Artes = Ciéncias » Civilizagao # Mireitn « Eduinac ; Filosofia « Geografia « Politica e Psicologia « i J p 94635 eee Diregiio Benjamin ea dunicr Samira Youssef Campodelli ; Preparagiio de texto Pedro Gunha Junior Tae Arte Coordanacao @ projeto grafico (miolo) Anténio do Amaral Rocha Arte-final René Etlene Ardanu Josaval Sousa Ferna [5-3 BICEN 426233 UFS serie 87.0 1 S719t "Teoria da literatura / Roberto Acizelo de Souza svessco | HMMIMIMNMT i penitmee seer | | PROCEDENCIA IN 85 08 01097 4 1986 Todos os direitos reservados Editora Atica S.A. — Rua Bardo de Iquape, 110 Tel: (PABX) 278-9322 — Calxa Postal 8656 End. Telegrafico “Bomlivro” — Sao Paulo Sem uma teoria, a literatura é 0 6bvio A pergunta “O que é literatura?”, dirigida a uma pessoa que, mesmo se interessando por livros e leituras, néo faga parte daquele circulo mais estreito dos que se Scupam profissionalmente com cla — escritores, jornalis- tas, professores e estudantes de Letras —, causard certa- Mente embarago a seu destinatario, B 6 embarago nao sera decorréncia do pressentido cardter complexo da res- posta a ser dada; ao contraria, a pessoa interrogada acha- ra tio dbvia a fesposta que nao atinard com o motivo Por que se faz uma Pergunta tao... idiota, Provayelmente, nosso interrogado imagindrio fr: fi a testa, surpreso exclamativo pelo inusitado da questao, e rebaterd com outra(s) pergunta(s): “Como?! Hem?! O qué?! oO que 6 literatura?!", Se insistirmos, a Fresposta sera algo equi- valente ao seguinte: “Bem, literatura é uma obra. escrita, - quero dizer, um Tomance, um livro de poesias, ou de contos” 1, Respostas assim, na verdade, nfo chegam a Tespon- der 4 pergunta feita, Nao formulando uma definigao, limi- 1 Cf, Forster, E, M, Aspectas do romance, Porto Alegro, Globo, 1969, p, 19-20, 6 tam-se a alinhar exemplos — obra escrita, romance, livro de poesias, livra de contos —, 6 que equivale a aceitar uma espécie de nogfo difusa © culturalizada de literatura, Difusa porque o vocdbulo “literatura” nao corresponderia a um conceito, isto & a algo abstrato, definido ow deli- mitado, antes ilimitando seu alcance, por cobrir inumera- veis exemplos mais ou menos semelhantes entre si; cultu- ralizada porque correspondente a uma idéia comunitaria- mente admitida como tio normal, téo natural, que nao pode encerrar nenhum problema, o que destitui de toda pertinéncia e sentido a pergunta “© que é literatura?”, Voltemos agora Aquele cireulo mais estreito dos que, de algum modo, se ocupam profissionalmfente com a lite- Tatura. Para os integrantes desse cfrewlo, a pergunta seria também embaragosa. F isto certamente, como ja se tera percebido, nfo porque ela seja impertinente ou sem sen- tido, nem porque sua resposta seja o dbyio mais atroz; ao contratio, a perturbagfio do interrogado derivard de sua familiaridade com o cardter complexo da questao proposta, cujos desdobramentos extrapolam muitissimo o espaco in- controverso de uma defini¢io conclusiva, Assim, ele es- tar advertido para os argumentos contrarios que qual- quer definigéo acarretaria; saberd, ainda, que os termos com que venha a definir literatura ficam sujeitos, por sua vez, as competentes definicdes respectivas, o que engen- dra ampla ¢ complexa rede de conceitos, definigdes ¢ ter- mos técnicos. Enfim, este segundo interrogado imagin- tio parte do principio de que a literatura é objeto de uma — problematizagao, de um questionamento, apto a revelar a~ superficialidade—da atitude para_a qual @la corresponde — apenas a-uma-nogio-difusa e culturalizads, sende-o-dbyio, portanio, Provisoriamente, digamos que a segunda atitude por nés descrita — fazer da literatura um objeto de questio- hamento ou problematizagaéo — implica a construgéo de 7 uma teoria, Provisoriamente, ainda, fixemos © seguinte: uma teoria, construfda em fungao de qualquer campo de nila vé obscuridades cujo esclarecimento justifique o em-- Penho da razio €nalitica. Quem se banha ou mata a sede numa fonte limita-se a servir-se dessa coisa crista- lina que € a agua, ndjo 8@ coloca o Problema da sua com- Posigdo quimica ou de seu estado fisico, Quem se Apai- xona apenas vive a agitagdo de um Sentimento, nao o transforma num problema a ser quacionado em. termos Psicolégicos. Desse modo, nao 6 privilégio da literatura 4 faculdade de Subtrair-se ao reino da Sbvio por inter- vengao de uma teoria, Fechemos agora este capitulo explicando por que insistimos no carater provisdrio das duas assertivas desen- Vvolvidas no Pardgrafo anterior, Quando explicamos que a littatura se transforma num Problema 4 medida que enseja a construgdo de uma teoria, utilizamos o termo “teoria” ainda numa acepcao demasiado ampla, como equi- valente de estudo © andlise melodica; assim, nao estamos ainda pensando na disciplina conhecida pelo nome de teoria da literatura, que, conforme se verg em capitulo adiante, constituj apenas uma das disciplinas que se pro- poem fazer da literatura um Problema digno de estudo, Por outro lado, quando caracterizamos “teoria® em geral Capitulos forem acreseentando a esta Primeira outras de- terminagées do que se entende por teoria, g Pode-se teorizar sobre a literatura? Pelo que ficou dito até agora, teorizar sobre algo é transforma-lo num objeto problematico, isto €, de inte- fesse para um estudo de cardter metédico e analitico, Ora, © produto cultural que hoje chamamos literatura (cuja designagdo variou ao longo da histéria, como se vera em préximo capitulo), desde que se fez presente na civiliza- gao ocidental, tem sido objeto de teorizagdo, no sentido amplo em que estamos por ora empregando essa pala- vra, Alias, devemos dizer que a literatura é um produto “cultural que surge com a prépria civilizagao ocidental, ~pelo fato de que textos literdrios figuram entre os indi- cios mais remotos da existéncia histérica dessa civilizagio, E esses textos literdrios mais antigos, entre os quais avul- tam os poemas homéricos — a Iliada e a Odisséia —, ja trazem em si préprios as primeiras consideragGes da literatura como um objeto sobre o qual sio necessirios certos esclarecimentos, o aue implica néo aceité-la como uma evidéneia acerca de que nada cabe dizer. Em outros teririos, o que problematiza pela primeira yea a literatura é a propria literatura. Vejamos em detalhe como isso se dd, 9 Na /ifada e na Odisséia, poemas cuja redagio oco.- reu no século YI a.C., mas cuja circulagao oral na Grécia antiga remonta ao século K a.C,, ha passagens em que a agiio narrada enseja consideragdes sobre a fungao e a natureza da poesia, bem como sobre o poder do discurso. Observemos o seguinte exemplo: Depols da terem comida a beblda 4 vontade, Ulisses ex- clamou; “Demddocos, coloce-te acima de todos os homens mortals! Deves ter aprendido com a Musa, filha de Zeus, ou com Apolo, seu filha, pols contas muita bem o destino dos aqueus, tudo o que eles fzeram e sofreram e as dl- ficuldsdes que enfrantaram, como se all tivesses estado, oy ouvido de alguém que esteve. Agora, muda de tom e conta o ardil do cavalo de madeira, coma Epelos o fez com a ajuda de Atenéla, a UNsses o introduziu dentro de cida- dela, par meio de um estratagema, chelo dos homens que tomaram Ilion. Depols, se contares bem a@ histdéria, decla- rare] sem demora a todo mundo que Zeus fol ganeroso contigo ¢ insplrou.teu canto” 1, A passagem 6 clara: o herdi Ulisses se dirige ao poe- ta Demddocos, clogiando-Ihe a capacidade de marrar, através da poesia, o destino do povo aqueu, capacidade esta que Ihe teria sido legada por divindades, a Musa ou Apolo, filhos de Zeus, Ulisses Ihe pede também que con- te/eante a histéria da fabricagdo do cavalo de madeira (o famoso cavalo de Trdia), afirmando que, se ele o fizer apropriadamente, ha de declarar a todos que a generosi- dade de Zeus havia inspirado o canto, isto é, a capacidade de elaboragao poética. Analisado, o trecho em aprego encerta uma teoria relativa a literatura, propondo uma explicagio para sua origem, natureza e fungaio, Essa teoria assim pode ser 1 HomeRG. Odisséia, Tradugiio e adaptagio de Fernando C, de Araijo Gomes, Rio de Janeiro, Ed. de Ouro, sid. p. 126. 10 deserita: @ da_ litera ses; sua_natureza_consisi¢—em_ S610” umi_narrat “de especial poder de_encantamento; sua fungiio € recons- “tituir_com_fidelidade as agoes tos herdis, decorrendo _ dessa triplice determinagio & elevada consideragio de que_ _o poeta desfruta_na_comuniciade,—_ r F claro que a “teorla” depreensivel desse passe da poesia homérica nado engerdra uma teoria plena e@ pro- priamente dita: ela nao articula conceitos, nao empreende nenhuma andlise, nfo propoe definicgdes nem discute mé- todos; apenas tece consideragbes de ordem mitica, poética e ideolégica acerca da literatura e das representagdes 8o- ciais que ela suscita, Reyestem-se desse mesma carater as primeiras observagdes feltas sobre a literatura, encontra- das, como ja dissemos, ne proprio corpo dos mais antigos poemas gregos. Segundo o levantamento de D. A, Rus- sel e M. Winterbottom, constituem exemplos dessa matu- reza; os versos de abertura da Mfada, outras passagens da Odisséia, além da ja citada; o hino com que Hesiodo, poeta dos séculos VIL-VIT a.C., inicia sua Teogonia, um poema de Tedgnis, poeta lirico do século VI ou V acy trechos dos poemas de Pindaro, considerado o maior poeta lirico do século % a.C.; a comédia AS rds, de Aristéfanes, o celebrado comedidgrafo dos séculos V-I¥ a.C. *. Mas nao tardaria o momento histérica em que & literatura se tornaria objeto de teorizagao em sentido mais proprio. Na obra intitulada Defesa de Helena, cujo texto, ainda que um tanto truncado, se preservou 40 Jongo dos séculos, Gérgias, filésofo sofista e professor de retérica que viveu nos séculos V-IV a.C., dedicou-se a discussio do que hoje chamariamos de linguagem literaria. Porém é com Platao (séculos VAIV aC.) ¢ Aristoteles (século — 2 Russet, D. A. & Wintresnotrom, M., eds. Ancient literary eriti- cism; the principal texts in new translations. Oxford, Clarendon, 1972. p. 1-38. i IV aC.) que a andlise da literatura assume contornos mais definidos, nfo s6 pela extensdo dos trabalhos que os dois fildsofos dedicaram ao tema, mas também pelo grau de sistematizagio a que ambos chegaram, especial- mente o segundo, Platao se ocupa com a questio nas obras: fon, A Repiblica, Fedro e As leis, Aristételes, na Poética, Politica e Retérica, Nao nos interessa aqui discutir o pensamento de Platéo e Aristételes relativo a literatura, nem tampouco o cardter antagénico de suas teses, sempre assinalado ¢ desdobrada pela posteridade. Interessa-nos, sim, apenas realcar que suas contribuigdes constituem uma espécie — de consolidagéo da pertinéncia e necessidade de se pro- ™~ blematizar a literatura. De fato, depois deles, a civili- zagao ocidental nao abandonaria mais o conjunto de ques- tées que se podem levantar sobre a produco literaria. Facamos agora algumas distingSes que nos serio Uteis adiante. Embora as evidéncias histéricas indicadas imponham resposta afirmatiya 4 pergunta-titulo deste ca- pitulo — Pode-se teorizar sobre a literatura? —, 0 imenso conjunto de construges tedricas disponiveis para exame no constitui um acervo uniforme. Ao contrario, as diferengas sao tais e tantas entre as diversas teorias propostas que um estudioso iniciante poderdé desanimar ante o que lhe parecerf um caos de sistemas explicativos contraditérios, Entao, num esforgo de pér alguma ordem nessa suprema confusao, seri produtivo fazer certas dis- tingSes, capazes de distribuir as infimeras teorias propos- tas em alguns poucos grupos constituidos por construgdes teéricas assemelhadas, Lembrando mais uma vez que estamos empregando provisoriamente o termo teoria num sentido muito amplo — como equivalente de problema- tizacdo, transformagdo em tema de consideragées cujo grau de sistematizagio 6 varifivel —, podemos adm dois grupos bdsicos de teorias: um de natureza normativa e outro de natureza descritiva, Podemos ainda estabele- cer dois outros grupos, segundo se admita ou niio a possi- bilidade de investigagao. sistemética da literatura: um cons- tituido pelas teorias parn os quais a literatura é efetiva- mente objeto de estuda sistemdtico, @ outro, pelas teorias que se fixam na premissa dé que a literatura, nfo se pres- tando a estudos, s4 pode ser objeto de fruigao. Detalharemos essas oposigdes entre gripos de teo- rias nos préximos itens deste capitulo, Normativismo versus descritivismo Comecemos por examinar o seguinte trecho da Poé- tica de Aristételes: Dave pols o poeta ordenar as fébulas @ compor as elocu- ¢des dos personegens, tendo-as a vista o mals que for possivel ® § facil perceber que a passagem nao encerra propria mente uma andlise ou uma descrigao do fato poético, mas fixa uma norma ou preceito que cabe eo eseritor levar em conta, visando ao éxito da composigao: “Deve [...] © poeta...”. Para contrastar, vejamos este outro trecho, em que Aristoteles se limita a descrever as partes da tragédia, sem nenhum propdésito de estabelecer normas ou regras: .. segundo a-extenséo @ as segées em que pode ser re- partida, #8 partes da tregédia sdo as seguintes: prolage, eplsddio, éxedo, coral — dividida este em pdrodo e eaté: simo 4. a ApisTOTELES. Peétiea, Trad, de Eudoro de Souza, Porto Alegre, Globo, 1966. p. 87. 4 ApisTOTELEs, Op. cit. p. 81. 13 Os dois exemplos, ambos retirados, como s¢ viu, do mais antigo tratado sistematico inteiramente dedicado & lileratura — a Poética de Aristételes —, ilustram clara- mente duas atitudes extremas adotadas nesses estudos. Uma se caracteriza pelo normativismo, absolutizando cer- tos valores tidos como mais elevados, o que encerra OS problemas da literatura num circulo estreito de verda- deiros dogmas, orientadores tanto da produgao dos es- critores quanto da avaliag&o critica de suas obras. A outra, ao contrario, opta pelo descririvisino, atitude que favorece uma espécie de especulagio aberta, afeicoada a discussao de hipdteses explicativas diversas, Em outros — termos: a_atitude narmative diz o que & literatura deve = re como deve ser julgada, a_auitude descritiva diz 0 — que ela é e que explicacdes provaveis lhe sao apropriadas. — Nao se pense, no entanto, que todas as construgGes tedricas surgidas correspondem puramente ao tipo norma- tivo ou ao tipo descritivo. Wa verdade, as feorias nem sem- pre se reduzem assim de modo esquemitico a este ou Aquele grupo da distingao que estamas fazendo, sendo freqiiente que elas oscilem entre as extremidades apon- tadas. Mesmo considerando esse fato, podemos estabe- Jecer o seguinte quadro historico: 1°) Em Platao e Aristételes, isto ¢, na época clas- sica prega (séculos V-IV a.C.), mesmo tendo havido sen- siveis colocagées normativas, parece ter predominado uma especulagaéo mais aberta, sobretudo no segundo pensador. 2.9) Ainda na Antiguidade, depois da época classica o tom normative se impde, tanto entre os gregos quanto entre os latinos. 3.0) Na Idade Média, o normativismo persiste, tan- to pelo continuado prestigio de uma disciplina surgida na Antiguidade — a retérica — quanto pelo aparecimento da chamada gaia ciéncia — a arte ou técnica de compor versos segundo a pratica dos poetas ligados ao lirismo 14 de origem provengal, florescente no periodo que se es- tende do século XI ao XIII. 4.°) Na época que vai de fins do século XV até o século XVIII, ocorre uma redescoberta entusidstica da Poética de Aristételes, que é republicada, traduzida, co- mentada, além de influir decisivamente em diversos tra- tados entao surgidos, os quais acentuam fortemente a nota normativa cuja presenga em Aristételes se pode conside- rar disereta, Essa teorizagio clissica ou neoclassica cons- titui uma verdadeira preceptistica (isto 6, conjunto de preceitos, normas ou regras referentes A elaboragaéo e a avaliagao critica da literatura), correspondendo ao perio- do de vigéncia de atitude normativa mais exacerbada. §.°) A partir do século AIX, a consolidagao da Ro- mantismo faz ruir a preceptistica consagrada pelo Classi- cismo moderno (de fins do século XV ao século XVID). Na sua pratica literaria, os eseritores roménticos ndo aca- tam os principios estabelecidos pelos tratadistas classicos, partindo da premissa de que a obra literfria € criagao singular de um individue dotado de genialidade, razio por que nao podemos conforma-la a um receitudrio, Com isso, a reflexfo sobre a literatura se afasta do normativis- mo, orientando-se para atitudes mais especulativas; daf o aparecimento das mais diversas teorias, empenhadas em propor explicagGes adequadas para os rumos tomados pela produgao literaria romantica e pds-romiantica, cres- centemente diversificados e destoantes de padrGes ja fixados. ‘Nao faremos agora a aniilise detalhada dessa expan- sfio de teorias varias, surgidas do século XIX em diante, pois nos préximos capitulos pretendemos progressivamente dar conta da questao. Por enquanto, basta fixar o seguin- te: como jé yimos que conceber uma teoria implica pro- blematizar um campo de observagao, a atitude que se reveste desse traco é aquela que designamos pelo termo deseritivismo, pois 9 normativisme, inibindo a especula- gio, a livre proposigao de hipéteses explicativas, 6 cons- titui teoria se admitirmos um emprego amplo e um tanto impréprio dessa expresso. Estudo versus fruigéo Mesmo levando em conta a divergéncia de base entre 4 atitude normativa e a descritiva, vemos que elas con- vergem num ponto: ambas admitem que a literatura pode tornar-se objeto de um estudo, no sentido de considera- gio metdédica tendente 4 sistematizacio de conceitos ou regras, Mas freqiientemente o texto literdrio suscita a seu respeito observagdes que nfo constituem propriamente o resultado de uma reflexfio ou andlise, de uma ocupagao metédica, mas apenas o registro de um sentimento, uma impressio, um julgamento emanado da subjetividade. Muitas vezes, as pessoas terminam de ler um romance e, comentando-o com amigos, resumem a opinifo sobre ele através de adjetivos muito usuais nessas circunstincias: “ponito”, “bem escrito”, “emocionante’, ou “enjoado”, “monétono”, “ruim”... Assim, a literatura, conforme experimentada pelo leitor comum, d4 margem a formu- lagdo de julgamentos abertamente . subjetivos, podendo ser menos ou mais cotada. Ora, contrariando a sdlida tradi¢fo de que a litera tura se presta a tornar-se objeto de um estudo — de ca- réter normative ou descritivo-especulativo — desenvolyeu- “§@ UMA posigio que pretende subtrair o texto literario a esse circuito intelectualista, para restitui-lo A fruicao subjetiva e desinteressada de métodos e conceitos, prdxi- ma Aquela espécie de desarmamento tedrico préprio do leitor comum. Essa atitude antitedrica 6 conhecida pelo 16 nome de jmpressionismo eritico, tendo encontrado momento dureo em fins do século XIX e inicio do sécul XX, como resposta ao esforgo de atingir objetividad cientifica, caracteristico das teorias do século XIX, Pari os adeptos desse impressionismo, o que se pode fazer co a literatura nao é teorizar a seu respeito, mas tio-somentt registrar inpressdes de leitura, sem preocupagao de si tematizé-las ou submeté-las a controle conceitual, Com queria Anatole France, “o bom critico marca as aventur de sua alma entre obras-primas’ *. Para concluir, cabe assinalar que a atitude impre! sionista, ao investir contra a possibilidade de se teorizal sobre a literatura, acaba sendo, & sua propria revelia, um construgio,,. tedrica, pois consiste numa rede de a mentos relativos ao modo por que se deve tratar de lit ratura. 4 France, Anatole, apud Werrre, René, Histéria da eritica me derna; 1750-1950, Sao Paulo, Herder, 1972. v. 4, p. 23, 3 Que disciplina estuda a literatura? Visto que a literatura tem sido objeto de investiga- vio desde as-origens da civilizagdo ocidental, apesar da- qucla objecdo por nds j4 referida (segundo a qual, a obra literéria nfo se destina ao estudo, mas a fruigao), cabe lazer a pergunta: que disciplina estuda a literatura? Essa uestéo encerra um problema de nomenclatura, digno por si sé de consideragio, mas nfo se esgota nele. Por isso, ii razdes importantes para analisa-la, Se examinarmos os curriculos universitarios dos cursos de Letras, ou titulos de obras sobre literatura, en- vontraremios diversas designagées concorrentes, cujas sig- pificagdes especificas e precisas quase nunca constituem objeto de determinagéo. Quais sio essas designagdes? Eis relacdo: poética, histéria da literatura, critica literaria, rla@ncia da literatura, teoria da literatura, Visando a obter’relagio que julgamos completa, po- femos acrescentar ainda mais trés designagdes: retdrica, sstética ¢ 0 prdéprio termo literatura. Retdrica e estética iguram como adendg & lista inicialmente apresentada porque sio disciplinas que nao tratam exclusivamente da iteratura, A retérica a principio se ocupa cam o proble- 18 ma do poder de persuasdo de que se pode investir a linguagem em geral, tratando inclusive da linguagem lite- ratia, A estética se interessa pela arte em geral e pelos fenédmenos de percepgéo, sensibilidade e inteligéncia por ela implicados, englobando a literatura como modalidade especifica de arte. Quanto ao termo literatura, além de designar o préprio fato literdrio, ainda é usado para rotu- lar a disciplina que faz deste fato o seu objeto, situagao em que geralmente ganha a especificacio de um adjetivo: literatura universal, literatura comparada, literatura brasi- leira, literatura portuguesa ete. ,O que expusemos até agora situa uma dtyida: a série de designagdes desfiada 6 constituida por nomes diversos para a mesma disciplina, ou cada nome corres- ponde a uma disciplina distinta’ Embora seja freqiiente admitir que as varias desig- nagGes se aplicam & mesma disciplina, achamos mais apro- priado e rigoroso pensar que cada uma delas se aplica —a uma disciplina especifica. Para nds, portanto, poéfica, = pistéria da literatura, critica literdria, ciéncia da literatura, ~teoria da literatura, retérica © estética constituem discipli- nas distintas entre si, ja que todas se ocupam com a lite- ratura, mas cada uma 4 sua maneira. Se nosso pensamento quanto a esse fato é correto, conforme procuraremos demonstrar, a pergunta de que partimos — Que disciplina estuda a literatura? — deve ser colocada no plural, pois em sua resposta aparecera ndo uma iinica disciplina, mas diversas, Com isso, desde ja nos obrigamos a estabelecer as devidas distingSes entre essas disciplinas, o que faremos na ultima parte deste capitulo, Antes de tratarmos desse problema, porém, adiante- mos uma constatagéo: o termo feoria da literatura tor nou-se tio notério na atualidade, por razOes que a seguir 19 explicitaremos, que tende a ser entendido como uma es- pécie de sindnimo abrangente de todos os demais. Veja- mos, agora, por que isso ocorre, ¢ as conseqiiéncias desse fato, A teoria da literatura e seus (des)entendimentos usuais O termo teoria da literatura, até onde pudemos apu- rar, foi empregado inicialmente no titulo de duas obras Tussas — Notas para wma teoria da literatura (1905), de Alexander Portebnia, e Teoria da titeratura (1925), de Boris Tomachevski —, sem que essas ocorréncias lhe conferissem utilizacao mais ampla. No entanto, com o prestigio logo alcangado pelo livro de que so co-autores 0 tcheco René Wellek e 0 norte-americano Austin Warren, publicado em 1942 com o titulo Teoria da Hteratura, esse termo se difundiria e se consagraria, para designar atual- mente a disciplina que investiga a literatura. E A me- dida que seu emprego se generalizava, perdiam terreno as OxpressGes concorrentes mais tradicionais — postica, his- téria da literatura, critica literdria, ciéncia da literatura, retérica e estética, Mas a invasio do termo teoria da literatura ndo constitui apenas uma mudanga de nome; consiste numa alteragdéo de métodos, conceitos ¢ Propésitos, conforme veremos no capitulo 4, quando tratarmos do processo de constituigio da teoria da literatura como verdadeira nova disciplina, distinta das tradicionais. Como esse fato nem sempre & compreendido nesses termos, implantou-se o costume de entender a teoria da literatura como uma espécie de saber geral sobre a literatura, em cujo Ambita caberiam todas as outras disciplinas, reduzidas a simples 20 compartimentos seus, Esse entendimento da teoria da literatura, embora usual, nfo nos parece correto. Do mesmo modo, também nao consideramos valida aquele outro entendimento igualmente usual, que imagina ser a teoria da literatura uma disciplina preparatoria para o estudo das diversas literaturas nacionais ou cldssicas. Assim pensada, a disciplina em aprega nada mais repre- sentaria do qué um conjunto de nogGes basicas com as quais se poderia, por exemplo, estudar a literatura brasi- leira. Nessa mesma linha de raciocinio equivocado, tem-se difundido bastante no nosso meio universitirio a nogao de que a teoria da literatura constitui uma “teoria” en- quanto algo distinto de uma pratica, admitindo-se candi- damente que essa pritica se encontre, por exemplo, na literatura brasileira,, portuguesa etc. Ora, tal opinido falseia inteiramente a compreensio do que seja a teoria da literatura. Esta consiste numa modalidade histérica ¢ conceitualmente distinta de problematizar a literatura, de maneira met6dica e aberta a pluralidade da produgio literéria © de seus modelos de andlise. Assim sendo, a teoria da literatura ndo é uma meia dazia de nogées ele- mentares e “tedricas” cuja razdo de ser consiste em suas aplicagdes “praticas’’. Fechemos agora essas consideragdes com um resumo: embora muitas vezes (des)entendida como um saber geral sobre a literatura, dotado de diversos compartimentos — poética, histéria da literatura, critica literaria etc, —, ou como uma disciplina de natureza tedrica que visa a instru- mentalizagio para a pratica, a teoria da literatura dispoe, na yerdade, de um estatuto bem diferente desses, Cremos que até aqui alguma coisa j4 foi dita no sentido de carac terizar o referido estatulo, mas esperamos que a seqilén cia dos argumentos va reforcando essa caracterizagio. a A teoria da literatura e as disciplinas concorrentes Nos capitulos 1 ¢ 2, explicamos que naquela altura da exposigaéo est4vamos empregando o termo tcoria num sentido amplo, isto €, como qualquer problematizagao metodica sobre a literatura, sem restringi-lo A designagdo da disciplina chamada teoria da literatura, Depois, neste capitulo, vimos que ao longo da histéria se desenvolveram iniimeras disciplinas dedicadas ao estudo da literatura, ca- bendo a todas elas, portanto, o titulo de teoria, no sen- tido amplo a que nos referimos. Porém, como entre essas diversas “teorias” cristalizadas em disciplinas distintas — poética, histéria da literatura, critica literaria, ciéncia da literatura, retérica, estética, teoria da literatura — existe uma disciplina conhecida exatamente pelo nome de feoria da literatura, esclarecemos que, a partir de agora, nosso interesse é tratar desta dltima, Comecemos por retomar e ampliar a questio a que jé fizemos ligeira referéncia neste capitulo, Para isso, fa- gamos um resumo do que ficou dito: 1.°) © termo teoria da literatura ¢ de uso recente, tornando-se largamente empregado a partir da publicacdo, em 1942, do livro Teoria da literatura, de René Wellek e Austin Warren. 2.°) Nao se trata apenas de uma nova designacaio para as disciplinas tradicionalmente dedicadas A literatura, mas corresponde a uma mudanca de orientagao de tal ordem que o termo passa a rotular uma nova disciplina. 3.°) Apesar do largo uso, o termo nfo chegou a tornar-se absolute, havendo concorréncia de terminologia para designar a mencionada nova disciplina. 4.°) & necessdrio, portanto, situar essa concorréncia, de modo a se saber em que casos se d4 simples equiva- 22 léncia terminoldgica e em que casos a diferenca de nomes implica diferenga entre disciplinas. Visando a aleangar o objetivo expresso no ultimo item do resumo precedente, faremos sumaria considera- gao acerca de cada uma das disciplinas de nossa relagiio, bem como acerca dos empregos wirios a que se prestam os nomes por que sao conhecidas. O estabelecimento de preceitos Ja vimos que existe uma atitude em face do estudo da literatura cujo propésito é estabelecer normas ou pre- ceitos destinados a orientar a producdo literaria ¢ sua ava- lingo critica, Representam essa atitude duas disciplinas surgidas na Grécia classica, que sio as mais antigas na Area dos estudos literdrios, Sfo elas a retérica e¢ a poé- tica, Wamos conhecé-las no que tém de fundamental. A retorica, ou arte retérica, surge no século V a,C., com © objetivo de sistematizar os recursos capazes de do- -tar de eficiéncia a argumentagao através da palavra, bem como de tornar o discurso mais atraente ¢ convincente. No inicio abrangia as seguintes partes, correspondentes fis diversas operagdes de elaboragio e de execugado do discurso: invengaéo (inventar o que dizer); disposigdo . (dispor em determinada ordem as coisas inventadas); elocugdo (ornamentar as palayras); pronunctagao (agir © pronunciar); memdria (confiar 4 meméria). Através de sua histéria, porém, a retérica vai restringindo sua area de interesse, ao mesmo tempo em que se vai fun- dindo com outra disciplina, a poética, Assim, rompendo © projeto inicial de instrumentalizat os oradores para & persuasdo de auditérios através da palayra oral, a retérica tende a fixar-se na palavra escrita e numa nica operagaio — a clocugiio (ornamentar as palavras) —, de que se ori- 23 gina a famosa © longa lista das chamadas figuras (metd- fora, metonimia, paradoxo, hipérbato etc.). Muito aca- tada por toda a Antiguidade, Idade Média e época classica moderna, a retérica sé perdera seu prestigio a partir de fins do século XVIII, quando seu tom preceptistico nao resiste As novas idéias romanticas, para as quais a criati i vidade literdria néo se pode conformar ao carater disci- plinado e mecdnico das operagies retéricas. A disciplina chamada poéiica, ou arte poética, do mesmo modo que a retérica, surge na Grécia do periodo classico, tendo sido_a famosa Podética de—Aristételes 0 seu primeiro tratado sistematico. Inicialmente, ela se distingue _da_retorica, embora sempre se mantivesse bastante relacio- _nada com ela, Por isso, ja na Antiguidade se observou a tendéncia para um sincretismo entre as duas disciplinas. Até o século I d.C. se resguarda a distingdo: a reté- tiea cuida da oratéria ¢ do raciocinio; a poética, da lite- ratura, desdobrando-se em torno de alguns conceitos-chave ja definidos em Aristételes, Esses conceitos sdo os seguin- tes: mimese (concepcao da literatura, ¢ da arte em geral, como Imiitagao, tomando-se esse termo num sentido que tem suscitado inimeras interpretagdes); verossimilhanca (propriedade da obra literaria de, em vez de adequar-se a acontecimentos verdadeiros que lhe sejam exteriores, en- gendrar situacoes coerentes ¢ necessirias no interior da - prépria obra, dotadas nfo de verdade, mas de vero-simi- lhanca, isto é, semelhanga ao vero, verdadeiro); cafarse (propriedade da obra literaria de, mediante a criagao de situagSes humanas fortes e comoyentes, promover uma espécie de purificacdo ou clarificagio racional das paixdes); modalidades ou géneros literarios (distingio entre tragé- dia, comédia, epopéia etc.). A partir do século I d.C., porém, a separagao entre retérica e poética se dilui, na medida em que a primeira, ao incorporar ao seu objeto a composigéo escrita em ge- — 24 ral, absorve a segunda, Essa confluéncia entre retérica © poética prevalece até fins do século XV, época em que a poética recobra sua autonomia; surge, entao, a distin- Gao entre retérica geral e retérica poética. Ao mesmo tempo, com a entusiasmada redescoberta de Aristételes pelos eruditos da Renascenca, a poética se transforma em disciplina de cardter filoséfico-técnico-formal prezada por escritores e estudiosos da literatura, enquanto a retérica se reduz a uma disciplina apenas de cardter técnico-formal, circunserita meramente ao ensino escolar, Mais importante, porém, do que assinalar as apro- ximagdes ¢ afastamentos entre a retérica e a poética é chamar a atencio para o cardter normativo inerente a am- bas, isto 6, © cmpenho delas em fixar normas e¢ preceitos referentes A produco literaria e A sua avaliagio. A poé- tica, que em suas origens aristotélicas chegou a conhecer vocacio descritivo-especulativa, tornou-se absorventemente normativa no periodo que se estende de fins do século XV ao século XVIII, Depositéria que era das formas e dos valores literdrios consagrados pelo Classicismo, a poética, por isso mesmo chamada cldssica, entraria em declinio com o advento do Romantismo, movimento que, como se sabe, poria em cireulagao idéias antagénicas Aquelas sustentadas durante © longo periodo’clissico. Suwa supe- racdo, portanto, 6 simultfinea 4 da retérica e ocorre pelo -mesmo motivo. Ainda quanto & poética, cabe esclarecer duas asso- ciagdes terminoldgicas freqiientes nos estudos literdrios: uma entre poética e pocsia, outra entre poélica ¢ Classi- cismo. © termo poético, cotno é dbvio, deriva da palavra poesia, o que, a principio, permite concluir que se trata de disciplina cujo objeto ¢ exclusivamente a poesia, Mas o problema é saber o que deve ser entendicdo por poesia, palavra cujos significados nao sfio nada estaveis. 25 Vejamos uma sintese desses significados; 1.9) géne- ro de literatura caracterizado pelo uso do yerso, da lin- guagem metrificada, oposto ao género chamado prosa fesse significado, apesar da reserva que j4 lhe fazia Aris- toteles, prevaleceu na Antiguidade classica e no Classi- cismo modemo); 2.°) literatura em “geral, englobando tanto manifestdgdes em linguagem metrificada quanto nio metrificada, desde que em tais manifestagGes se reconhe- gam propriedades ditas artisticas e/ou ficcionais, por opo- sig¢do As demais obras eseritas — cientificas ou técnicas — destituidas de tais propriedades (esse significado tem procedéncia romantica); 3.°) fato, paisagem, manifestagao artistica, situagio existencial etc., dotados de aparéncia considerada bela ou comovente, capazes, portanto, de ge- rar especiais ressonancias interiores no espectador (esse significado, de procedéncia também romantica, se encon- tra em expressGes como “poesia do pOér-io-sol”, “poesia da vida", “poesia da natureza” etc,). Observemos agora as correlagées da poética com os diversos significados atribuiveis & palayra poesia. Na Antiguidade classica ¢ no Classicismo moderno, apesar das objegdes alinhadas por Aristételes, 0 objeto da poética serd mesmo a poesia no primeito sentido por nds referido, isto é, linguagem metrificada. Durante esses pe- riodos, a prosa so mereceu atengao por parte da retorica, assim mesmo com a exclusio de certas modalidades nar- rativas, entio consideradas indignas de maior atengao, Com o Romantismo, a poética entra em recesso, ja que seus conceitos — mimese, verossimilhanga, catarse, géne- ros literarios — se associavam automaticamente ao ultra- passado Classicismo. A partir de fins do séeulo XIX e sobretudo no sécu- lo XX, o termo poética volta a circular sem maiores res- trigdes: agora, porém, seu objeto 6 a poesia no segundo sentido por nds referido — isto é, a literatura em geral 26 —, entendida como conjunto de formas em prosa ou verso dotadas de propriedades consideradas artisticas e/ou fic- cionais. Além disso, desde entio a disciplina designada por esse termo nfo carrega mais a marca preceptistica da velha poética cldssica. Por fim, assinale-se que algumas verses pés-roman- ticas da po¢tica pretendem estender a andlise do fato lite- rdrio as vivéncias “poéticas” por ele suscitadas, interes- sando-se, por conseguinte, pelo terceiro sentido atribuivel & palavra poesia segundo nossa relagdo. Quanto A associacio entre poética e Classicismo, cremos que o essencial sobre esse assunto ja ficou dito. Recapitulemos, porém, Os roménticos, frisando a asso- ciacéo entre a poética ¢ o classicismo decadente, estimu- laram a sua superagio; no entanto, a partir de fins do século XIX, o termo poético volta a circular, desta vez para designar um tipo de estudo sistematico da literatura bastante diverso da poética normativa dos classicos. Assim, conseryou-se o termo, mas sua significagio mudou muitis- simo, Segundo esse novo emprego, o termo poética se torna equivalente de_teoria_da_ literatura, pois designa a _modalidade contemporaneamente dominante de se estudar a literatura, de cunho descritivo-especulativo e marcada_ pela preocupagao de discutir seus prdéprios métodos e Soenetescs Naan : Os critérios da beleza A questio do belo, em direta correlagiio com a do bem e a do verdadeiro, tem sido daquelas questées cru- ciais para o pensamento ocidental em todas as suas fases. Tanto assim que cada uma delas suscitou a criagio de disciplinas filoséficas dedicadas 4 sua tematizagaa. A ques- 27 tao do bem cabe A ¢tica A politica; a do verdadeiro, a légica e A metafisica; e a do belo, 4 estética *. Se é correto afirmar que o problema do belo e seus critérios tem rafzes muito profundas e antigas na expe- riéncia intelectual do Ocidente, ao mesmo nado se pode dizer da estética, que, como disciplina auténoma, apresenta historia bem recente. Platao e Aristételes, por exemplo, em suas consideragées sobre a literatura e também em outros passos de seus escritos, freqilentemente se referem ao belo e a beleza; entretanto s6 no século XVIII, com a obra do alemado Alexander Gottlieb Baumgarten, intitu- lada justamente Esrética, & que a disciplina ganha auto- nomia e passa a ser designada por esse titulo. JA dissemos que a estética nao se dedica unicamente ao estudo da literatura, embora se possa afirmar que até o século XVIII a produciio literdria constituiu campo privilegiado e quase exclusivo para a elaboragao dos seus conceéitos, que se encontram, portanto, presentes nas obras de poética e retérica, A partir do século XVI, porém, com a autonomia adquirida, a estética se empenha na defi- nigéo de seu proprio objeto, Segundo a posigfio que se adote, esse objeto seri o belo, o conjunto das chamadas categorias estéticas (belo, bonito, gracioso, tragico ete.), um tipo especial de sensibilidade, o julgamento do gosto, a arte em geral, as formas *. A busca das origens nas causas exterlores @ a fixagéo nos fatas No século XIX, com a superagio da retérica e da poética, ocorrida por uma série de fatores entre os quais 1Cf, Lima, Luiz Costa, Estruturalismo e teoria da literatura, Pe- trépolis, Vozes, 1973. p. 13. 2Cf, Sourtau, Etienne, Chaves da estética, Rio de Janeiro, Civi- lizagio Brasileira, 1973. p. 27-51. 28 se destaca a emergéncia do antinormativismo romantico, a histéria da literatura viria a ocupar o vazio deixado por essas duas disciplinas classicas. Abandonado 0 tom pre- ceptistico dominante até o século XVIII, os estudos de literatura acompanham ¢ adaptam a seu campo as grandes tendéncias intelectuais do século XIX; a pesquisa se torna histérica, isto é, pretende dar conta das origens ¢ dos pro- cessos de transformacao; ao mesmo tempo, quer tornar-se cleniifiea, ou seja, busca explicagdes causais para os fatos estudados. Essa atitude implicou a busca das origens ou causas da literatura em fatores externos a ela, identificados ou com a vida e personalidade do escritor, ou com o con- texto social, da producio a obra, Dal_dois_madelos_de natureza_biogrdfico-; -psicoldg oa que coloca a intae da pesquisa nao_no texto, mas _na vida do autor; outro de que igualmente desvia do texto lite- las analises, centrando-as nos fatores politicos, _econémicos, sociais, ideoldgicos, tidos como determinan-_ tes da organizacio dos te: Deve-se dizer que esses modelos de histéria da lite- ratura produzidos no século XIX, apesar de seus resulta- dos terem sido objeto de severas restrigdes por parte da _maioria das correntes da teoria da literatura contempo- tinea, ainda hoje exercem ponderdvel influéncia, tanto no ensino escolar de literatura quanto nos compéndios de histéria. literaria, Além dos dois modelos de histéria da literatura men- cionados — o biografico-psicolégico e o sociolégico —, 6 necessdrio fazer referéncia a um terceiro, ainda no sé- culo XIX, ao qual cabe a designagio de modelo filoldgico. Fiel aos principios cientificista © historicista entio domi- 29 nantes, a histéria da literatura de base filolégica limita seu alcance & constatagao de fatos. Isso significa que ela renuncia ao normativismo e 4s avaliagdes criticas, cin- gindo seu trabalho 4 area de competéncia da filologia, disciplina que Ihe da sustentagdo metodolégica, Assim, essa modalidade de historia da literatura busca funda- mentalmente o seguinte: 1.9) reconstruir textos, especial- mente os mais antigos, que por circunstincias varias se tenham truncado ou sé afastado da concep¢ao original de seus autores, em fungdo das sucessivas reprodugdes ou publicagSes através do tempo; 2.°) explicar textos, tam- bém especialmente os mais antigos, através de notas es- clarecedoras de alusdes — histéricas, geograficas, mitolé- gicas etc, — que tenham ficado obscuras para o leitor contemporiineo, ou ainda através de outras informagdes relativas 4 Lingua utilizada, em seus aspectos fonéticos, morfossintaticos e léxicos; 3.°) inventariar as fontes das obras ¢ as influéncias a que se sujeitaram, muito especial- mente as fontes ¢ influéncias representadas por outros autores e obras do passado. Mas, além da histéria da literatura em seus trés mo- delos mencionados — o biografico-psicolégico, a socio- légico e o filologico —, no século XIX se pe em circu- lagéo outro termo para designar a disciplina que estuda a literatura: trata-se da expressao ciéncia da literatura, Seu uso, porém, s6 se enraizou na lingua alema, em que feve origem, Assim, o termo alemao Literaturwissenschaft (ciéncia da literatura), cujo emprego inicial remonta, até onde pudemos apurar, a meados do século XIX, equivale no principio a histéria da literatura (expresso consagrada nas outras principais linguas do Ocidente), pois também designa a pesquisa de cunho historicista e inclinacao cientifica. Depois, ainda no dominio da lingua alema, a expressiio passa a ser empregada para rotular diversas di- 30 regdes tomadas pelos estudos literérios no século XX, enquanto outras linguas ocidentais vio consagrar para essa mesma finalidade os termos teoria da literatura, cri- tica literaria ou ainda poética, Por fim, o século XIX também conhecen o uso amplo da expressao critica literdria para designar 0 sistema do saber sobre @ literatura. Na nossa linha de prestar certos esclarecimentos terminolégicos que julgamos importantes, vejamos sumariamente como surgiram ¢ que acepgdes adquiriram as palavras critico ¢ critica aplicadas @ lite- ratura, Na Antiguidade, os gregos utilizavam como equiva- lentes as palavras Aritikés © gramaikds, mas 0 primeiro termo caiu em desuso; os romanos, por sua vez, Tara~ mente utilizaram a palavra eriticus, preferindo empregar gramaticus. No Renascimento, as palavras eritico e critica voltam a circular: primeiro, 4 semelhanga do uso grego antigo, critico é empregado como sindnimo de gramatico; depois, a palayra critica designa & atividade de estabe- lecer e restaurar textos antigos ¢ também a atividade, de comparar, classificar e julgar a produgio literdria, A partir da segunda metade do século XVII, em uso que atravessaria o século XVIII, a expressio critica literaria passa a designar o sistema do saber sobre a literatura *. Nessa acepgado, o termo se consolidaria no século XIX, concorrendo com as designagdes historia da literatura & ciéncia da literatura e nomeando disciplina desdobrada nos modelos jé mencionados — biografico-psicoldgico, sociolégica e filolégico. Finalmente, no século XX ob- serva-se concorréncia de uso dos termos critica literdria, poética, ciéncia da literatura e teoria da literatura. ———E 3CE Wetex, Rend. Termo ¢ conceito de critica literaria. Ini —, Cencelios de critica. Sfio Paulo, Cultrix, ad, p, 29-41. aL © relativismo subjetivo dos julgamentos Vimos que no século XTX, superada a preceptistica constituida pela retérica e pela poética, se implantam métodos e objetiyos bem distintos nos estudos literdrios. Em vez de a reflexdo estabelecer normas relativas A lite- ratura, o que se busca é descrever os fatos, ao mesmo tempo em que se desenvolvem esquemas explicativos sobre suas origens ou causas, bem como sobre seu pro- cesso de transformagdo. Em outros termos, 8° impdoem na investigagio da literatura métodos cientificos, que pre- tendem atingir o maior rigor ¢ objetividade possiveis, vi- sando a chegar a resultados cada vez mais sisteméaticos. Ora, essa atitude procurava minimizar ou até eli- minat a emogéo e o prazer proporcionados pela leitura, bem como os julgamentos acerca das obras lidas, uma ve2 que tais elementos — emogdo, prazer, julgamento — im- plicavam expans6es subjetivas, incompatiyeis, portanto, com a objetividade propria & ciéncia, Além disso, & me- dida que a literatura ia se tornando objeto de anilises metédicas © rigorosas, essa modalidade de interesse por ela tendia a satisfazer apenas & especialistas universitarios, afastando inteiramente o publico constituido pelos nao especialistas. Finalmente, a atitude cientificista, movida por seu interesse igualmente historicista, tendia a interes- sar-se mais pela literatura do passado do que pela pro- dugaéo contemporinea. Contra essa tendéncia cientificista, orientada para a especializagdo © propensa @ privilegiar as obras do passa- do como objeto de analise, desenvolveu-se, em torno da década de oitenta do século XIX, uma reagao. Assim, reabilita-se a emocdo, o prazer da leitura ¢ © relativismo subjetivo dos julgamentos, bem como se fortalece © inte- resse pelas obras contemporineas. Essa reorientagio 5¢ associa ainda A produgao de ensaios sobre literatura es- a critos em linguagem menos técnica ¢ especializada, desti- nados a publico mais diversificado e numeroso, cujo yeiculo, mais do que livros e tratados, passa @ ser a5 Co- lunas de jornais ¢ revistas. A consumacao dessa tendéncia anticientificista, 4 qual jé fizemos referéncia num item do capitulo 2 (Estudo versus fruigéo), se deu através da chamada critica impres~ sionista ou impressionismo critica, termos empregados pejorativamente pelas correntes contemporaineas dos es- tudos literdérios empenhados em alcangar objetividade em suas andlises. Segundo Jules Lemaitre, um dos principais representantes franceses dessa orientagao, a eritica se de- fine pelo seu carater pessoal, relativo c artistico, avesso, portanto, A objetividade do tratamento cientifico. ... uma rapresentagdo do mundo téo pessoal, téo relative, téo v8 e, por conseguinte, tao Interassante quanto oquelas que constituem os demals géneros literdrios +. . arte de apreciar livros @ anriquecer 6 refinar as fim prossies que deles 56 tém 5, 4Lemaitne, Jules, apod WELLEK, René. Histéria da eritica mo- derna; 1750-1950, Sao Paulo, Herder, 1972. v. 4, p. 22, 5 Ibidem, p. 22. A constituigéo da teoria da literatura Antes de prosseguir, retomemos colocagio j4 feita na abertura de um item do capitulo 3 (A teoria da lite- ratura e as disciplinas concorrentes), onde nos referimos a um significado muito amplo do termo teoria — qual- quer problematizagao ou estudo sistematico da literatura — ea um significado estrito — a disciplina constituida no século XX, caso especifico e historicamente situado desse estudo sistematico, Depois, ao longo das subdivi- sdes do referido item, procuramos demonstrar o carter especifico das demais disciplinas ocupadas com a literatura. Agora, nosso propésito 6 demonstrar os tragos defi- nidores da teoria da literatura em sentido estrito, o que faremos mediante © estudo dos seguintes tdpicos; 1.9) historico de seu surgimento; 2.°) suas questoes iniciais: as definigdes correlativas de método e objeto. Breve histérico Na passagem do século XIX para o XX, o panora- ma dos estudos de literatura apresentava os seguintes as- 34 pectos: 1.°) uma pesquisa historicista e de pretensdes cientificas que, pouco interessada no texto, visava 4 expli- cacao da literatura através de causas exteriores suposta- mente determinantes dela, identificadas com a vida e per- sonalidade do escritor ou com o contexto social da obra (historia da literatura, ciéncia da literatura ou critica lite- raria biografico-psicolégicas ¢ sociolégicas); 2.°) um se- gundo tipo de pesquisa historicista e de pretensdes cien- tificas que se propunha estabelecer e explicar textos, aten- ta 4s fontes ¢ influéncias a que: se sujeitassem as obras, bem como aos fatos _lingitisti amaticais, , especialmente os de natureza historica (historia da literatura, ciéncia da literatura ou critica literdria filolégicas); 3.°) uma atitude que se propunha menos o estudo rigoroso € sistematico da literatura, ¢ mais a fruigfo da leitura e a emissiio de juizos de valor baseados na sensibilidade e nas impresses pessoais causadas pela literatura (critica impressionista ou impres- sionismo critico). as Ee Nessa mesma época, no entanto, definem-se as con- digdes que vao permitir a superagfio desse panorama dos estudos de literatura que acabamos de sintetizar. Tem inicio a crise das linhas-mestras do pensamento filosdtico _e clentifico marcantes do século XIX, 0 historietsmo — atitude que vé na histéria, entendida como evolugéo con- tinua 6 linear, a instancia decisiva para a explicagao tanto da natureza quanto da sociedade & 0 positivisma — atitude que faz a apologia da ciéncia, entendida como um conhecimento neutro e objetivo, cujo critério de vali- dade é a adequag&o aos fatos observaveis. Correlativa- mente, as seguintes ocorréncias alteram o horizonte inte- lectual; 1.9) 0 método fenomenoldgico se desenvolve na filosofia, passando a ter aplicagdes nas ciéncias humanas; 2.°) surge a escola psicoldgica conhecida por gestaltismo; — 3.°)_delineia-se_a lingilistica estrutural na obra de Ferdi- nand de Saussure; 4.°) aparecem as chamadas vanguardas a5 artisticas — futurismo, cubismo, expressionismo, dadais- mo etc. —, segundo as quais, a arte — e portanto a lite- ratura — consiste muito mais em pesquisas de linguagem do que na representagao dos fatos e suas relagdes, Nesse novo horizonte intelectual, o que acontece com os estudos de literatura? Na diretriz generalizada de ques- tionamento do positivismo e¢ do historicismo, desenvol- vem-se, em diferentes centros culturais e universitarios, algumas correntes de investigagfo da literatura que apre- sentam pontos comuns, apesar das divergéncias que as separam. Essas correntes, cujo periodo de surgimento ¢ realizagdes de pesquisa se estende do inicio do século até a década de 30, sio as seguintes: estilistica, principaimen- te na Alemanha e Suica e, depois, na Espanha; o formalis- mo russo ou, mais amplamente, eslayo; a escola morfold- ~ gica alema; a nova crifica anglo-aniericana, a fenameno- logia dos estratos, criada pelo polonés Roman Ingarden. Entre essas orientagdes encontramos em comum © mesmo empenho em reconceber os estudos de literatura, e segundo orientagio que explicitamente se opunha a do século XIX. O que se_pretende, entio, 6 investigar nao as Caisas exteriores supostamente determinantes do texto literario, mas o préprio texto, entendido como um arran- jo especial de linguagem cujas articulagdes e org ra podem ‘ser descritas-e explicadas na sua imanéncia, isto 6, segundo sua coeréncia interna (e nao segundo referen- tes situados fora do téxto, na subjetividade do escritor ou na objetividade dos fatos e das relagdes sociais). Por outro lado, essas correntes, do mesmo modo que se distanciam dos modelos biografico-psicolégico ¢ socio- ldgico dominantes no século XIX, também se indispoem com o outro modelo participante do clima historicista ¢ positivista daquele século, o modelo filolégico, Este 6 tam- bém contestado porque sua base metodolégica o conduz a ima concepcéo demasiado ampla de literatura, que a % identifica com o conjunto da produgdo escrita. Assim, se para o modelo filolégico o problema de estabelecer, explicar e¢ determinar fontes ¢ influéncias é basicamente o mesmo quer se trate de um poema, quer se trate de obra de natureza pragmatica, cientifica ou filoséfica, para as cor- rentes por nds relacionadas, que sé preocupam com 0 texto na sua coeréncia interna, sé ha interesse no poema, Para elas, portanto, a0 contratio do que ocorré no mo- delo filolégico, é fundamental estabelecer-se um critério que possa recortar, no conjunto da producdo escrita, um Ambito mais reduzido, constituido apenas por aquelas obras dotadas de propriedades consideradas artisticas, ficcionais, poéticas ou literarias em sentido estrito. Finalmente, as correntes em apreco também procu- ram esquivar-se do relativismo subjetivo das apreciag6es, proprio dquela outra orientaciio do sécula XIX, a critica impressionista, Ao contrario dela, todas as correntes re- feridas se esforgam por discutir e estabelecer métodos ¢ conceitos capazes de dotar suas andlises de objetividade Assim, nelas também prevalece um compromisso ista, mas distinto daquele que yigorou no século XIX. Basicamente, a diferenca é a seguinte: enquanto os modelos cientificistas do século passddo procuravam adaptar & investigagaio da literatura métodos de outras disciplinas — biografia, psicologia, sociologia, filologia —,[as correntes surgidas nas primeiras décadas deste: sé- culo procuram estabelecer métodos prdprios, especificos, admitidos por isso como capazes de dar conta do carter também especifico da produgio literéria, cariter este que a torna distints de eet oe outras produces ee literfrlas. eet qa NT sinh aoe at? Bem, até “aq fivehio€ referéncia aos novos rumos representados pela estilistica, o formalismo eslavo, a escola morfolégica alem&, a nova critica anglo-americana e a fenomenologia dos estratos, Essas correntes, mais ou El menos desvinculadas entre si, despontando em artigos e livros fundadores, seriam objeto de sistematizagao, com- binagio e divulgagio através do conhecido tratado de René Wellek e Austin Warren, publicado em 1942, e cujo titulo — Teorla da titeratura — acabaria se tornan- do o nome adotado por yerdadeira nova disciplina, Assim, o termo_teoria da literatura passa _a designar uma 1a_ampla _tenoyagao metodolégica, adversiria das contribuiches oi- tocentistas representadas pela historia da literatura, cién- cia da literatura ou critica literdria, Cabe dizer, ainda, que, apesar da ampla aceitagdo do termo teoria da literatura para designar a aludida reno- vagiio metodolégica, essa renovagio no se encerrou no espago de uso do termo mencionado, ocorrendo também em obras cujos autores conservam designagoes alternati- vas tradicionais — ciéncia da literatura, critica literdria e poética, Correlatividade das definigées de objeto e método Toda disciplina cientifica tem como quest6es iniciais correlativas a definicfo do método e a definigaéo do objeto. Vejamos, a seguir, como tais questies se encaminharam no dmbito particular da teoria da literatura. Reencontramos aqui uma questéo que ja deixamos bem atrés, no capitulo 1 (Sem uma teoria, a literatura ¢ o dbvio): se para uma consideragao nao especializada a literatura é um fato evidente, para_a_teoria da literatura. 9 _primeiro_problema.¢ estabelecer limites precisos_para. “esse fato. E isso deve ocorrer sob controle metodolégico, de tal modo que o fato do senso comum seja superado e convertido num objeto de pesquisa cientifica, A interven- glo do métedo € tao essencial para a definigao do objeto 38 que, no moderno pensamento cientifico, se tem presente que o objeto de uma ciéncia nao é dado, mas construldo pela aplicagao do método, Agora, para entendermos como a constituigao do objeto é problemdtica para a teoria da literatura, reporte- mo-nos a um inicio sempre fecundo: a Poética de Arist6- teles, Na passagem transcrita a seguir, 0 filésofo afirma que ndo é um indicio exterior « Sbvio — 0 verso — que distingue um texto de poesia em relagio a outro, de me- dicina ou fisica, por exemplo; ou seja, nao é facil e€ imediato discernir o objeto da poética — a poesia — em meio a outras produgdes que tenham por vefculo a lingua- gem verbal: se alguém compuser em verso um tratado de Mae- dicina ou de Fisica, esse serd vulgarmente chamado “poe- ta’; na verdede,porém, nada hé de comum entre Homero e Empédocles, # nao ser @ metrificagdo: aquela merece 0 nome de "poata’, e este, o de “fisidlago", mals qua o de “poeta” t. Aristételes reconhece, por conseguinte, que, apesar da tendéncia do senso comum, — que ele chama “vulgar” — de identificar a poesia por uma evidéncia exterior — o verso —, 9 objeto da poética deve ser discernido por um eritério mais refinado. Assim, um texto de medi- cina escrito em versos, que o senso comum. considera poe- sia, nfo interessa & poética por nfo apresentar as proprie- dades do seu objeto. E, inversamente, um texto sem mé- trica pode interessar 4 poética, desde que possua as pro- priedades do seu objeto: ... 08 géneros poéticos [...] usam 8 Hinguagem [...] em prosa ou em verso 2, 1 ARISTOTELES: Op. cit,, p. 69. “Ibidem, p, 70. EL Desse modo, segundo o contexto conceitual em que se move Aristételes, o objeto da poética néo é a poesia enitendida superficialmente como 0 conjunto das composi- Ges em verso, mas sim uma série de propriedades por assim dizer mais sutis e profuidas do~queo simples re- vestimenta da mietrificagao, Essa série de propriedades, para Aristételes, € constituida pelo cardter mimético, a verossimilflanca, a universalidade e o potencial catartico. Saltando agora para um estégio cronologicamente mais proximo da teoria da literatura, assinalemos que a histéria da literatura do século KIX nfo se deteve em “sutilezas"” — na falta de termo melhor — semelhantes Aquelas que ocuparam Aristételes, Para ela, a maneira de resolver o problema do objeto de investigagao dos estudos literdrios foi a mais singela possivel. Melhor dizendo: para a histéria da literatura oitocentista, instalada no seu positivismo as vezes bastante simplista, isso nem 6 um problema, pois a literatura — t&éo clara! — sé pode ser constitufda pela massa de fatos formada por toda a pro- dugio escrita. Ora, essa solugio nao resolve nada, apenas desco- nhece o problema, Para ela, integram a literatura tanto um romance quanto um compéndio de sociologia, pois em ambos os casos estamos diante de obras escritas, Para a teoria da literatura, porém, essa questéo tem a maior relevincia, Assim, sem retornar simplesmente ao equa- cionamento aristotélico dessa questio, ela procura, a se- melhanga de Aristételes, critérios por assim dizer menos simplistas ¢ mais elaborados metodologicamente, com vistas 4 definicao do seu objeto. A definigao do objeto Para se definir 0 objeto da teoria da literatura, a primeira dificuldade diz respeito A significagao instavel das 40 palavras poesia e literatura. Delimitar o sentido desses termos é uma tarefa prévia indispensdvel, pois a teoria da literatura, como as demais ciéncias humanas ou sociais, ndo possui uma terminologia especializada estabelecida por convengdo universal. Seu vocabulério técnico, por- tanto, 6 afetado em sua consisténcia nfo sé pelos diversos usos especializados a que se prestam seus termos, mas também pela ocorréncia deles na linguagem usual, em que, como se sabe, néo ha compromisso com 6 emprego espe- cializado ¢ com o carater preciso da significagio. Sendo assim, vamos fazer um levantamento dos diversos sentidos associados no curso da histéria as expressdes poesia ¢ literatura, Significados de poesia e literatura Quanto 4 palavra poesia, limitemo-nos a repetir o inventdrio de seus significados j4 feito num subitem do capitulo 3 (O estabelecimento de preceitos); 1.) género de literatura caracterizado pelo uso do verso, da lingua- gem metrificada, oposto ao género chamado prosa; 2.9) literatura, englobando as manifestagdes tanto em linguagem metrificada quanto em nfio-metrificada, desde que em tais manifestagdes se reconhecam propriedades ditas artisticas ¢/ou ficcionais, por oposigio as demais obras escritas — cientificas ou técnicas — destituidas de tais propriedades; 3.°) fato, paisagem, manifestagao artistica, situagdo exis- tencial ete, dotados de aparéncia considerada bela ou comovente, capazes, portanto, de gerar especials ressonin- cias interiores no espectador. Com relagio A palavra fileratura, podemos conside- rar dois significados histéricos basicos: 1.°) até o século XVIII, a palayra mantém o sentido primitivo de sua ori- gem latina — lifieratura —, significando conhecimento a relativo as téenicas de escrever e ler, cultura do homem letrado, instrucao; 2.°) da segunda metade do século XVIII em diante, o vocdbulo passa a signifiear produto da atividade do homem de letras, conjunto de obras es- critas, estabelecendo-se, assim, a base de suas diversas acepeGes modernas. Quanto a essas diversas acepcdes modernas, cremos ser possivel reduzi-las As seguintes: 1.") conjunto da pro- dugio escrita de uma época ou pais (donde expressoes do tipo “literatura cldssica”, “literatura oitocentista”, “lite- ratura brasileira” etc.); 2.8) conjunto de obras distinto pela tematica, origem ou ptblico visado (donde expres- soes do tipo “literatura infanto-juvenil”, “literatura de massa", “literatura feminina”, “literatura de fiecao cien- tifica” etc.); 3.8) bibliografia sobre determinado campo especializado do conhecimento (donde expresses do tipo “literatura médica", “literatura juridica”, “literatura socio- légica” etc.), 4.) expresso afetada, ficcéo, irrealidade, frivolidade (donde empregos do tipo: “Depois de tanto palavrério, tanta literatura, nada se resolveu.”); 5.8) disci- plina que procede ao estudo sistematico da produciio literarla (donde expressdes do tipo “literatura geral”, “li- teratura comparada”, “literatura brasileira” etc.). Poesta e literatura como objeto da teorla da literatura Examinando agora as acepgoes modernas inventaria- das, vejamos quais poderiam corresponder a nogao de literatura como objeto de estudo da teoria da literatura. A quinta acepgao — disciplina que procede ao estudo sistematico da produgfo literdria — deve ser descartada, pois, segundo ela, o termo literatura designa nao um a2 objeto, mas sim uma disciplina (cujo objeto, alids, por solugdo terminolégica equivoca, também é designado pela palayra literatura), A quarta acep¢ao — expressio afe- tada, ficgao, irrealidade, frivolidade — também nao vem ao caso, pois constitu emprego figurado e pejorative do yocdbulo em aprego. Com isso, restam-nos a primeira — conjunto da produgéo eserita de uma época ou pais —, a segunda — conjunto de obras distinto pela temiatica, origem ou piblico visado — e a terceira — bibliografia sobre determinado campo especializado do conhecimento —, que, diferengas 4 parte, implicam a idéia comum de conjunto de obras escritas. Bem, ja dissemos que a orientagio positivista do sé- culo XIX compreendia como objeto de sua investigagdo © conjunto da produgio escrita. Porém, para as diversas correntes da teoria da literatura, esse sentido amplo do vocabulo literatura niio corresponde ao objeto de sua pes- quisa, Por isso, com o intuito de circunscrever esse obje- to, considerando que ele também ¢€ designado pela ex- pressfio literatura, convém estabelecer a seguinte distin- clio: 1.) literatura lato sensu: conjunto da produgao es- crita, objeto dos estudos literarios segundo a orientagéo positivista do século XIX; 2.°) literatura stricto sensu: parte do conjunto da produgdo escrita e, eventualmente, certas modalidades de composigdes verbais de matureza oral (ndo-escrita), dotadas de propriedades especificas, que basicamente se resumem numa elaboragio especial da linguagem e na constituicao de universos ficcionais ou imaginarios. Assim, a palayra literatura néo revela automatica- mente 0 objeto da teoria da literatura, Havendo exigéncia metodolégica um pouco mais apurada, foi necessirio passar em revista os diversos empregos a que se prestam 43 as palayras poesia ¢ literatura, a fim de se verificar que emprego poderia corresponder Aquele objeto. A conclu- slo 6, portanto, a seguinte: o-objeto-dateoria-da literatura — “6a literatura stricto sensu, ou a poesia no segundo sen-_ -tida_por_nds-apaniado, isto é, no_sentido de Tierenrt, _englobando manifestagdes tanto em _linguagem metrifica a “quanto em ndo-metrificada, desde que em tals manifestagbes sé jedades ditas artisticas e/ou ficcionais, _técnicas — destituidas_de tais_propriedades, Com relagfio & apontada concorréncia entre as pa- layras poesia ¢ literatura, cabe um esclarecimento histé- rico, Como até o século XVIII o vocdbulo literatura permaneceu significanda instrugaio, conhecimenta das téc- nicas de escrever ¢ ler, as obras que modernamente conse deramos literatura stricto sensu eram designadas pelo ter- . mo poesia (quando fossem em versos) ¢ eloqiiéncia ou oratéria (quando fossem em prosa). Da segunda metade daquele século em diante, a palavra literatura passa a ser empregada como termo geral, abrangendo tanto modali- dades em verso quanto em prosa, A partir de entao, se estabelecem duas relacdes freqiientes entre os vocabulos poesia e literatura; 1.") no uso mais difundido, literatura torna-se termo abrangente, enquanto poesia se reserva para designar um género particular de literatura, carac- terizado pelo emprego do verso e distinto do outro género literdrio, chamado prosa; 2.7) no uso menos freqiiente, provavelmente posto em voga pelo Romantismo, poesia, em vez de designar apenas o género que emprega © verso, designa também composigées em prosa, desde que tais composigdes possuam valores algo sentimentais ou tidos como artisticos. A literariedade como objeto da teoria da literatura Podemos agora dar por encerrada a tarefa prévia que nos impusemos no inicio deste subitem (A definigéo do objeto). Ainda que através de repeticdes enfadonhas, fizemos as devidas distingdes entre os diversos sentidos em que se tomam as palavras poesia ¢ literatura, chegan- do a determinar que sentidos dessas palavras correspondem ao objeto visado pela teoria da literatura. [sso foi possi- vel pela aplicagéo de um minimo de exigéncias metodold- gicas, que nos conduziu de uma simples questo de yoca- bulario até a delimitagiio do Ambito de interesse da pes- quisa. No entanto, uma vez delimitado esse Ambito, cons- tatamos que ainda permanecemos de fate, como havia- mos afirmado, na realizagio de uma “tarefa prévia", pos- sivel mediante a “aplicagio de um minimo de exigéncias metodolégicas”, E por que isso? Observemos o modo pelo qual de- finimos a literatura entendida como objeto da teoria da literatura: parte do conjunto da producao escrita e, even- tualmente, certas modalidades de composicgSes verbais de natureza oral (nao-escrita), dotadas de propriedades es- pecificas, que basicamente se resumem numa elaboracao especial da linguagem @ na constituigfo de universos fic~ cionais ou imaginarios. Ora, nessa definigio a que chegamos ha conceitos que, por sua vez, exigem definigio. Eles se encontram na expresso “propriedades especificas” ¢ seus desdobra- mentos: “claboragdéo especial da linguagem” e “constitui- gio de universos ficcionais ou imaginérios”. Afinal, cabe- tia perguntar: Que “propriedades especificas” sio essas? Em que consiste essa “elaboragio especial da linguagem’? © que sio e como se constituem tais “universos fiecionais ou imaginarios”? Na medida em que passamos a discussio dessas questées, as exigéncias metodolégicas crescem, 0 que equivale a dizer que o objeto da pesquisa se aprofunda ¢ sé refina. Assim, se ¢ por demais imperfeito o método que admite ser a totalidade da producao esecrita o objeto da investigagao da literatura, é mais elaborado o método que propde ser esse objeto constituido por apenas parte daque- la produgdo, delimitada por critérios especificos. E mais elaborado ainda é 0 método que elege como objeto da investigagio ndo um determinado conjunto de obras, mas justamente o critério que permite o discernimento desse conjunto, Em outras palavras, num grau mais refinado e abstrato o objeto da teoria da literatura nfo é o conjunto das obras consideradas literarias sirfcto sensu, mas “pro- priedades especificas” de que tais obras sio dotadas. Uma corrente da teoria da literatura — o formalismo russo — situou essa questio de maneira contundente ¢ programatica. Sua enunciacio coube ao lingitista russo Roman Jakobson, em trabalho de 1919: . 0 objeto do estudo Iiterario néo é& @ literatura, mas a! literariedede, isto 6, aquilo que torna determinada obra| uma obra litardrla®. Longa ¢ complexa tem sido a discussio pela teorla da literatura daquilo que Jakobson chamou “literariedade”, isto é, a propriedade especifica das obras integrantes da literatura stricto sensu, o elemento que, uma vez presente num dado texto, permite distingui-lo de outras composi- ces que nfo integram a literatura em sentido estrito, ape- sar de também constituirem mensagens verbais. Mas nao serA nosso propésito discutir aqui essa questao da litera- riedade. Assinalaremos apenas que a grande maioria das ‘Jaxouson, Roman, apud SCHNAIDERMAN, Boris. Prefacio, Int Teoria da literatura: formalistas russes, Porto Alegre, Globo, 1971, p. IX-X, 46 tendéncias ¢ autores da teoria da literatura vé como matea distintiva da literatura a operagao de certo “desvio" orga~ nizado ma linguagem, desvio perceptivel em relagio a outras ocorréncias da linguagem consideradas mais con- formadas aos usos tidos como normais. Para se ter uma ligeirissima idéia do que ¢ o aludido desvio, examinemos o seguinte fragmento: O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chao, @ protegida por ela — bracos largamente abertos, face vol- vida para os céus, — um soldado descansava. Descansava... havia tréa meses. Morrera no assalto de 18 de Julho *. O “desvio" presente no trecho que nos serve de exem- plo é constituido por um fato léxico (isto é, de vocabu- lario), combinado a um fato sintatica ou, mais especifi- camente, de pontuagiio, O fato Iéxico se configura no emprego do verbo descansar, O primeiro pardgrafo ter- mina com a palavra “descansava’’, que em principio nada tem de especial, Mas algo especial se prepara, quando o pardgrafo subseqilente se inicia com a mesma palavra “descansava", 4 qual se segue a suspensfo momenténea da frase, pelo emprego das reticéncias, concluindo-se o pe- riodo com segmento “hayia trés meses”. Assim, ante- cipa-se o verdadeiro sentido daquele “descansava’ inicial, finalmente revelado pela palavra que abre o tltimo pard- grafo: “morrera”. Quanto ao fato sintdtico, de pontuagao, ele consistiu no uso incomum das reticéncias, que em vez de servirem de fecho 4 frase operam um corte no meio dela, criando répido suspense logo desfeito pela pre- cipitagao de seu segmento terminal. Ora, tante o emprego do verbo descansar quanto o uso das reticéncias consti- tuem, no caso em aprego, unt desvio organizado, que afasta 4 CuNHA, Eliclides da. Os sertdes. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1946, p. 29-30, a7 a linguagem desse fragmento das ocorréncias mais ordi- narias dos arranjos verbais. Segue-se disso que o trecho em analise, marcado pelo desvio apontado, constitui lite- ratura em sentido estrito, apresenta propriedades especifi- camente literdtias, possui literariedade. Tentemos agora fechar este subitem, resumindo 0 que foi visto ¢ antecipando o contetido do proximo, Para a teoria da literatura, o objeto de pesquisa nao é a literatura Jato senst, isto 6, 0 conjunto da produgaio escrita. Levando-se em conta as exigéncias do método com que opera, seu objeto € a literatura stricto sensu, ou seja, determinadas composicdes verbais em que a linguagem se apresenta elaborada de maneira especial, e nas quais se d4 a constituicio de universos imagindrios ou ficcionais. Num nivel ainda mais elevado de exigéncias metodolé- gicas, deve-se dizer, enfim, que © objeto da teoria da literatura 6 constituido pela literariedade, isto é, 0 modo especial de elaboragao da linguagem inerente as compo- sicées literatlas, caracterizado por um desvio em relagao” as ocorréncias mais ordindrias da linguagem. Como se vé, 0 critério distintivo, a marca da litera- tura, a se admitir essa manecira de encarar o problema, s¢ encontra nessa elaboracéo especial da linguagem, donde a exigéncia de um método de base lingijistica para a teoria da literatura. Mas na definigdo de literatura estabelecida segundo © ponto de vista da teoria da literatura, além da determi- nacdo que jd exploramos bastante — a literariedade, en- tendida como desvio —, ha outra determinagéo da qual nada falamos até agora. Referimo-nos & constituigdéo de um universo imagindrio ou ficcional. Ai, entramos num terreno que extrapola o lingiifstico, donde a exigéncia de outros métodos, principalmente os de base antropoldgica ou psicanalitica. Da questéo do método trataremos a seguir. 48 A definigio do método Um dos tracos caracterfsticas do conhecimento cien- tificao é constituido pelo fato de que as investigagdes que conduzem a ele ndo sao regidas pelo acaso, nem se dio sob o signo da desordem, Ao contrario, uma pesquisa que se pretenda cientifica se desenvolve de maneira orde- nada, através de etapas estabelecidas o mais claramente possivel, visando ao encontro de fatos e relagées previa- mente definidos, Enfim, numa pesquisa cientifica néo se avanga As cegas, em busca do que der e vier, em procedi- mento tipo “tudo o que cai na rede é peixe’. Em vez dessa anarquia ingénun, é indispensdvel saber 0 que se busca ¢ como alcancgar, Emi outras palavras, € preciso delimitar-se o objeto da pesquisa — 0 que se busca — e estabelecer o método, isto é, principios e critérios para chegar até ele — como aleangar. Isso nao significa que, ao iniciarmos uma pesquisa, ja tenhamos uma idéia precisa sobre o objeto. Se assim fosse, evidentemente nfo haveria necessidade de empreen- der pesquisa nenhuma. Na verdade, a relagao entre objeto e método nao é constituida pela sucessio que assim se poderia enunciar: determinado o objeto, a providéncia se- guinte é forjar 0 método que dé acesso a ele, Assim a relacdo entre objeto e método, nao sendo de simples su- cessao, 6 uma relacado de correlatividade, “eompertinéncia” ou “interimplicagao". Quer Isto dizer que a objeto nao é uma evidéncia dada; 6 algo que, inicialmente pouco de- finido, vai ganhando contornos mais precisos, vai, enfim, se configurando como objeto na medida em que o asse- diamos através de um método, O método, por sua vez, de inicio nem sempre adequado ao objeto da busca, vai-se conformando a ele, vai-se aperfeigoando na medida em que @ objeta induz determinadas corregSes de rumo no avancgo da pesquisa. 49 Assim, se em nossa exposigio comegamas falando do objeto para agora falar do método, tivemos o cuidado de, antes de tratar desses dois assuntos, acentuar a im- plicagao reciproca que vincula esses dois aspectos bdsicos de qualquer disciplina cientifica (yer o item “Correlativi- dade das definigGes de objeto e método”). De qualquer modo, ainda que o tratamento sucessivo — primeiro o objeto, depois o métedo — nao seja ade- quado, ele nos deu comodidade expositiva que decidimos aproveitar. Por isso, retomamos agora o fio que deixa- mos meio solto no fim do subitem precedente (A defi- nicio do objeto). Vimos que, como a maioria das correntes da teoria da literatura cireunscreveu seu objeto segundo um critério baseado em tragos da linguagem, o métedo lingitistico foi considerado por clas como adequado a apreensio da propriedade especifica da literatura, Com isso, & teoria da literatura ficou na contingéncia de adaptar a seus obje- tivos 0 método da disciplina que, segundo se admitia, apresentava fortes afinidades com ela — a lingiifstica. Ou entao, nas formulagSes mais extremas, a teoria da litera- tura (ou poética, segundo variagao terminoldgica ji refe- rida) foi mesmo reduzida a um setor da lingtiistica; A Poética trata dos problemas da estrutura verbal, eesim como @ andlise de pintura se ocupa da estrutura pictorial. Como a@ Lingdistica 6 a ciéncla global da estrutura verbal, @ Poética pode ser encarada como parte Integrante da Lingéistica 5. Nao nos cabe aqui fazer ampla exposigio do método lingiiistico. Digamos agora o fundamental, a fim de que se possa ter uma idéia dele e de sua extensibilidade & investigagao da literatura. 5 JAxogsom, Roman. Lingilistica e comunicagde, Sic Paulo, Cul- trix, 1970, p. LES, 50 © método lingiiistico concebe seu objeto — a lin- gua — como uma estrutura, isto é, um conjunto de uni- dades de tal modo solidérias entre si que a existéncia e a funcionalidade de cada uma dependem da sua relagio com as demais. Em fungio disso, postula os seguintes prinei- pios de pesquisa; 1.°) tmanéncia: a investigagio se atém apenas ao funcionamento interno da estrutura, interes- sando-Ihe taéo-somente explicitar a rede de correlagGes e oposigGes que as diversas unidades contraem entre si no interior da estrutura; dessa rede resulta a significagdo das formas da lingua; 2.°) niveis de andlise: as unidades da estrutura se deixam analisar segundo suas instincias de organizacio, donde os niveis de andlise, que revelam as unidades componentes dos subsistemas respectivos — ni- vel ionolégico, nivel morfossintatico, nivel semintico; 3.°) integragdo: as unidades reveladas por um nivel de andlise, pertencentes portanto a um subsistema, se inserem no subsistema imediatamente superior, combinando-se para, por sua vez, formarem as unidades desse subsistema. Consagrando esses trés principios, o método lingtiis- tico favorece um tratamento tigoroso e formalista dos fatos da lingua, A andlise da literatura baseada no método lin- giifstico procurou acompanhar esse rigor € formalismo; contudo, nao obteve resultados tao nitidos quanto aqueles conseguidos em lingiifstica, Além disso, atentas ao prin- cipio de que a andlise deve ser imanentista, isto 6, circuns- crita A consideragiio dos fatos de linguagem observdveis no texto, as correntes formalistas da teoria da literatura desconsideravam algumas questées que, naa se formali- zando a nivel de texto, nem por isso deixam de ter inte- resse. De maneira muito geral, podemos dizer que essas quest6es dizem respeito ao universo ficcional ou imagina~ rio inerente as produgoes literdrias. Assim, se as correntes da teoria da literatura surgidas na primeira metade do século XX privilegiaram a inst@ncia textual da anilise, $1 consagrando, portanto, para seu uso o método lingiifstico, assiste-se na atualidade a uma reagio a essa tendéncia, Hoje se valorizam certas linhas de pesquisa que, j4 na pri- meira metade do século, levavam em conta alguns aspectos da literatura irredutiveis as formas textuais, ampliando suas andlises as conexGes entre o texto literdrio e outros processos sociais — ideologicos, histéricos, culturais, eco- némicos etc. A valorizagéo dessas linhas se prende a um reconhecimento que se vem generalizando desde fins dos anos 60; privilegiar o método lingilistico, tendéncia predo- minante na primeira metade do século, resultou no mé- rito de superar tanto o impressionismo critico quanto a superficialidade das orientagées positivistas do século XIX; mas 0 apego intransitivo ao texto, conseqiiéncia dessa ati- tude, acabou yedando o acesso a quest3es do maior inte- resse. Dai, o desenvolvimento de novas atitudes metodold- gicas, cujas andlises ndo pretendem simplesmente descon- siderar o método lingiifstico, mas partir das insuficiéncias que ele revela. Tais andlises tornam a teoria da literatura permedavel a outros métodes de investigagao, sobretudo os de base sccioldgica, antropolégica, psicanalitica ¢ histérica. oO Outras questoes No capitulo anterior, tratamos daquelas questGes que podemos considerar primérias em teoria da literatura: as questées. correlativas do objeto e do método, alias prima- tias também em qualquer outra disciplina, Mas entenda- -se esse “primérias” ndéo no sentido de “simples”, “mais faceis”. ““Primarias’* ai significa “primeiras’, tanto no sentido de iniciais (surgem em primeiro lugar) quanto no de basicas (fornecem a base conceitual para as questdes que se colocarem depois). Vamos agora, situadas as questoes primarias_ refe- rentes a objeto ¢ método, tratar de outros problemas que integram 0 universo conceitual da teoria da literatura. Os assuntos em que vamos entrar @ seguir ja foram objeto de alguma referéncia nos capitulos anteriores, mas neste pretendemos. consideré-los com mais vagar, Sao eles; as diversas correntes em que se divide a teoria da literatura, ag disciplinas com que ela mantém relagSes mais diretas, as micleos bisicos ou temas principais de sua investigagia e as finalidades que se podem atribuir-lhe. 53 A diversidade das correntes No final do primeiro item do capitulo 4 (Breve his- térico), mencionamos © fato de que 6 termo teoria da literatura serviu de titulo a um tratado em que René Wellek e Austin Warren, em 1942, procederam a sistematizagéo, combinagéo e divulgagao de diversas correntes de inves- tigago da literatura surgidas nas trés primeiras décadas do século, Assim, embora o termo teoria da literatura, usualmente empregado no singular, possa dar a entender que existe um acordo conceitual e metodolégico quanto ao estudo da literatura, essa pressuposigao é incorreta, tendo em vista a cireunstancia apontada, Alias, sao tan- tas as correntes contemporfineas de investigagio da lite- ratura, empenhadas em controvérsias relativas a métodos e conceitos, que seria mais apropriado falar-se em teorias da literatura, no plural. No entanto, cedendo ao costume, admitamos que ha s6 uma teoria da literatura, subdividida em intimeras orientagdes freqilentemente antagénicas, as quais estamos chamando de suas “correntes”, Vamos entéo fazer uma sumarissima apresentagdo dag principais correntes, ja advertidos para o fato de que, se quiséssemos tratar de cada uma delas em mintcia, te- riamos que escrever indmeros livros, @ nao apenas um breve item como este. Antes, porém, da apresentagao sumiria das correntes mais importantes, parece-nos apropriada uma ligeira refle- xfo. E que para os estudiosos iniciantes @ diversidade das correntes, agravada pelas diferencas de orientagao obser- vaveis no interior de cada uma delas, constitui comumente um dado desalentador, ou, quando nao, é interpretada como um desconcerto provisério, que um bom programa de estudos poderd superar definitivamente, Na verdade, essas atitudes n@o sao apropriadas. A diversidade de orientagdes deve ser vista como inerente & propria dina- 54 mica dos estudos ¢ pesquisas que, no seu afi de fazer avancar o conhecimento, propoem modelos explicativos sempre aperfeicodveis ¢, portanto, sujeitos a criticas e¢ im- pugnagdes procedentes de outros modelos alternativos. Alids essa situagdo nao 6 privilégio da teoria da literatura, mas 6 observavel em qualquer disciplina, embora ela se apresente de modo mais agudo na drea das chamadas ciéncias humanas, Facgamos agora nosso breve percurso pelas correrites. Correntes textuallstas Comecemos por aquelas que, em suas andlises, privi- legiam o texto, propondo-se portanto A consideragao ima~- nente da literatura, Estlio nesse caso as seguintes cor- rentes: estilistica, formalismo ¢slayo, escola morfolégica alema, new criticism, estruturalismo e poética gerativa. A estilistica surge na primeira década do século, ten- do por fontes iniciais trabalhos do suigo Charles Bally ¢ do alemao Karl Vossler. Da obra de Bally deriva a dire- triz lingiiistica da estilistica, interessada no estudo dos recursos expressivos do sistema da lingua, com base em pressupostos conceituais oriundos da teoria lingiiistica de Ferdinand de Saussure. J4 da contribuigio de Vossler provém a estilistica propriamente literdria, interessada no estudo de obras literdtias individuais; baseia-se na no¢ao de estilo como desvio em relagio aos usos lingiifsticas considerados mais normais e, em consonfncia com o pen- samento de Benedetto Croce e Henri Bergson, apSia-se na idéia de que a lingua constitui constante criacdo indiyi- A estilistica de feigdo literdria, por sua vez, apresen- ta ainda trés matizes diferencidveis: 1.°) tendéncia a vin- cular o texto literdrio as suas raizes psicoldgicas (repre- pana ' fee BH 63900 a sentada, por exemplo, por Leo Spitzer e Damaso Alonso) ; 2.) tendéncia a vincular o texto literario a seu contexto social ¢ ideoldgico (representada, por exemplo, por Erich Auerbach e¢ Carlos Bousofio); 3.°) tendéncia a centrar a analise exclusivamente no texto, abstraindo assim quais- quer condicionamentos psiquicos ou sociais (representa- da, por exemplo, por Leo Spitzer na chamada segunda fase de sua obra). O formalismo eslave tem inicio na segunda década do século, difundindo-se a partir do chamado circulo lin- giifstico de Moscou e do grupo de pesquisadores reunidos na Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética (fun- dada em Sao Petersburgo e conhecida pela sigla OPOIAZ, formada com base em seu nome original russo}). O for- malismo, por um lado, se empenhou na pesquisa de mé- todos que apurassem o imanentismo das andlises, e, por outro, concedeu especial atengiio ao estudo das conexdes entre a literatura e outros fatores culturais, concebendo a literatura e esses fatores como séries estruturadas segundo principios auténomos, Ainda como: diretrizes ligadas ao formalismo, na condigao de dissidéncias ou clesdobramen- tos seus, podem-se citar: o circulo de estudiosos ligados a Mikhail Bakhtin, pesquisador russo cuja obra s6 recen- temente tem sido objeto de maior divulgagiio e valorizagao; © cfreulo lingiifstioo de Praga; a escola de Tartu; ¢ o grupo Tel Quel, cujo nome provém da publicagao que diyulgou os trabalhos de seus integrantes, estudiosos fran- ceses dos anos 60/70. A escola morfolégica alema, aparecida por yolta de 1925, centrou seus esforgos na descrigdo de géneros ¢ formas de literatura, entendidos como esquemas cristali- zados na linguagem, © conhecido livro de André Jolles — Formas simples — figura entre suas obras mais repre- sentativas. 56 O new criticism constituiu corrente de procedéncia anglo-americana, que s¢ esboga nos anos 20 e s@ apresenta como movimento definido na década seguinte. Sua no- gao-chave é conhecida pelo termo close reading, anilise minuciosa do texto, entendido como tessitura de linguagem aut6énoma em relagéo aos fatores extratextuais. Na area de influéncia do new criticism, pode-se ainda colocar a chamada escola de Chicago, surgida em fins dos anos 30 como um ramo seu, tendo depois evoluido para uma posi- cio dissidente, francamente antagénica as teses basicas do movimento neocriticista. O estruturalismo nao constitui apenas uma corrente da teoria da literatura. Trata-se de uma atitude metodo- légica presente em diversas disciplinas e orientagbes do pensamento contemporfineo, Suas origens se encontram na lingiiistica, segundo o sistema conceitual proposto por Ferdinand de Saussure, ¢ numa corrente da psicologia, de procedéncia alema, conhecida pelo termo gestaltisma. Sua nogao-chave 6 a de esfrutura, entendida como uma rede de relagdes entre unidades minimas méveis e distintas entre si, cujos valores funcionais se instauram justamente na medida em que se estabelece a rede de relacées. Esbogado na lingiiistica saussuriana e no gestaltismo, o estruturalis- mo passaria a ter depois decisiva presenga nfo sé na lin- gilistica, mas também na antropologia e na psicanélise. No dAmbito do estruturalismo entendido como corrente da teoria da literatura, cabe mencionar as seguintes linhas: 1.2) 6 chamado grupo Tel Quel, j4 referido quando fala- mos do formalismo eslavo, e em cujo sistema se combinam as teses do formalismo com os desenvolvimentos da lin- gii/stica estrutural saussuriana, 2.°) uma diretriz derivada da antropologia estrutural, principalmente em fungio das andlises de narrativas miticas empreendidas por aquela disciplina, que tem em Claude Lévi-Strauss seu pesquisa- EY dor mais influente; 3.°) uma linhagem oriunda da psica- nélise, que tem no pensamento de Jacques Lacan seu apoio principal. Finalmente, ainda quanto ao estruturalismo € possivel referir linkas de reflexfo sobre a literatura baseadas na obra de dois autores tidos como pensadores pés-estrutu- ralistas, Michel Foucault ¢ Jacques Derrida. A poética gerativa 6 ainda uma corrente bastante in- cipiente, Seu objetivo é aplicar a aniilise da literatura os prinefpios e conceitos da lingitistica gerativo-transforma- cional, corrente de pesquisa lingilistica de origem norte- -americana cujo fundador e principal representante 6 Noam Chomsky. Opera com um conceito caro a estilistica (alias, ainda que sob outras designagdes, caro & maioria das otientagdes da primeira metade do século), o conceito de literatura como desvio da norma lingtifsticea, Destaca-se, porém, por empreender anilises revestidas de grande apa- rato formalizador, no que acompanha uma caracteristica central da sua fonte, a lingliistica gerative-transformacional. Corrantes fenomenolégicas Feita a apresentagio das correntes mais marcada- mente textualistas, passemos as demais, iniciando por aque- las que giram na érbita da filosofia fenomenoldgica ¢ que, em certos casos, combinam a essa matriz a influén- cia do pensamento do filésofo alemio Martin Heidegger. Sao elas: a teoria fenomenoldgica dos estratos, a escola de Zurique e a critica ontoldégico-hermenéutica, A teoria fenomenolégica dos estratos foi exposta pelo polonés Roman Ingarden, em livro de 1931. Se- gundo essa corrente, a estrutura fundamental ou a essén- 53 cia de uma obra literdria consiste num sistema de cama- das ou estratos, distintos mas integrados, que sao os se- guintes; 1.°) estrato das formas f6nico-lingfifsticas; 2.°) estrato das unidades de significado; 3.°) estrato dos aspectos esquematizados; 4.°) estrato das objetividades apresentadas, A escola de Zurique, chamada alternativamente es- cola da interpretagdo, encontra em Emil Staiger seu inte- grante mais conhecido ¢ influente, Da obra de Staiger cabe destacar o livro Conceitos jundamentais da poética, de 1946, em que o pesquisador suigo empreende um estu- do dos trés géneros literarios reconhecidos pela tradigao —o lirico, o épico ¢ o dramatico —, baseando sua refle- xao em principios provenientes das obras dos filésofos Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia, e Martin Heidegger, principal representante da chamada filosofia da existéncia. A critica ontoldgico-hermenéutica — ou ainda leitura poética, conforme terminologia proposta no meio univer- sitério brasileiro pelo professor Eduardo Portella — tam- bém se fundamenta no pensamento heideggeriano. Parte do principio de que o fenémeno literario é conatural & sua teoria, razio por que é necessariamente poética a reflexdio acerca do poético, Qutro principio basico da corrente consiste em liberar a analise da literatura de seu compromisso cientificista, no que s¢ abre polémica contra a conhecida pretensio de objetividade e rigor cientificos comum A grande maioria das correntes contemporaneas da teoria da literatura, Essa desconfianga para com a ciéncia reflete um ponto crucial do pensamento de Hei- degger, que vé no conhecimento cientifico um processe de calculo e controle da realidade, inibidor da manifes- tacao do Ser © incapaz de acolher a profundidade da existéncia, 9 Correntes socioldgicas Por fim, vamos concluir esta nossa sumaria apre- sentagio das correntes com uma referéncia aquelas em que predominam preocupagdes sociologicas ou ético-po- liticas. Sao elas: a eritica existencialista, a critica marxista, a critica sociolégica e a estética da recepgao. » A critica existenctalista, segundo seu principal autor, Jean-Paul Sartre, yé a literatura como um processo de re- yelagio do mundo através da palavra, constituindo essa revelagio um modo de agao social, assinalado por com- promissos éticos e politicos. A critica marxista, conforme obviamente revela seu nome, baseia-se no pensamento de Karl Marx — suas andlises econdémicas, sociais, politicas ¢ ideolégicas —, ou ainda nas reinterpretagdes contemporineas da obra desse pensador. Em seu fimbito cabem desde simplistas apologias de uma_ literatura dita engajada, que se pre- tende identificada com os interest Peto do proleta- riado, até andlises metodologicamente mais elaboradas © consistentes, interessadas em estudar as _relagdes_entre ideologia € processo de produgao/recepgao da literatura, ou ainda na pesquisa da incidéncia dos fatores econdmi- co-sociais sobre o texto literdrio, ‘A critica socioldgica 6 uma conceituagaio muito am- pla e, conseqiientemente, bastante vaga. No seu dmbito ha razdes para situar, por exemplo, tanto a critica. exis- tencialista sartriana quanto @ critica marxista, além de trabalhos como os de Erich Auerbach (nome ja referido quando tratamos da estilistica) e de autores vinculados @ chamada escola de Frankfurt (como Theodor Adomo € Walter Benjamin), Além disso, dado o amplo espectro das pesquisas de timbre sociolégico, convém distinguir entre aquelas que mais propriamente pertencem A socio- logia da literatura — em que o aparato conceitual socio- 60 légico nfo deixa espago para uma perspectiva baseada na teoria da literatura — ¢ aquelas em que prevalecem os pontos de vista dessa Ultima disciplina, Concluindo, fagamos mengao aquela orientagaéo que figura entre as mais récentes, pois sua origem pode ser situada no final dos anos 60, Referimo-nos a chamada estética da recepeae, também conhecida por escola de Kons- tanz, j4 que o movimento partiu da Universidade de Konstanz, localizada na cidade alema do mesmo nome. Questionando tanto as andlises imanentistas — centradas exclusivamente nos arranjos de linguagem do texto — quanto as andlises marxistas ou sociologistas — apoiadas numa concepgio de literatura como transparéncia e/ou condicionamento direto a situacdes sociais —, a estética da recepeao pretende valorizar um elemento pouco con- siderado pela teoria da literatura:’o leitor ou receptor do texto, Assim, sem cleger uma espécie de leitor ideal, os adeptos dessa corrente visam a analisar as miltiplas inter- pretagdes, as diversas constituigdes de sentido suscitadas pelos textos, o que direciona o interesse dessas pesquisas para questées de natureza histérica e sociolégica. As disciplinas afins A questao das afinidades existentes entre disciplinas distintas sempre foi vista como importante, mas por volta dos anos 60 og progressos e éxitos da lingilistica reves- tiram-na de um relevo muito especial. Como se tornava aguda a consciéncia de que a linguagem era presenga inevitével e fundamental nos mais diversos setores da realidade humana ou social, as disciplinas especializadas na investigacio de cada um desses setores passaram a ver na lingéiistica uma disciplina-chave para a pesquisa de seus problemas particulares, Com isso, a lingiiistica agi- 61 gantou-se e tomou-se uma espécie de paradigma para todas as demais ciéncias humanas, chegando mesmo a induzir telacionamentos com ciéncias naturais e formais, como a genética, a légica, a matemitica. Consolidou-se, desse modo, a pratica de pesquisas interdisciplinares; rom- peu-se o circulo da ultra-especializagao cientifica, erlan- do-se condicdes para interciimbios metodolégicos ¢ con- ceituais entre as mais diversas disciplinas, na medida em que clas admitiam na lingiifstica uma espécie de deno- minador comum. Particularmente algumas disciplinas se beneficiaram bastante com a extensio do método e dos principios bisi- cos da andlise lingiiistica a seus objetos. Estio nesse caso a antropologia & a psicandlise, cujas investigagoes passa- ram a processat-se no campo vasto dos fenémenos da linguagem. O mito eo sonho, por exemplo, quesiées de interesse respectivamente antropolégica @ psicanalitico, passaram a ser concebidos como arranjos de signos ou simbolos interpretaveis segundo regras semelhantes aque- las que permitem a analise ¢ interpretagio de uma mensa- gem verbal, competéncia da lingiistica. A teoria da literatura no ficaria imune a toda essa seducdo pela lingiifstica. Muito pelo contrario; na medida em que seu objeto é também constituido por determinadas acorréncias da linguagem verbal, ela foi das disciplinas mais fortemente influenciadas pelo método e conceitos lingilisticos, a ponto de alguns autores terem assumido 0 ponto de vista de que a teoria da literatura nfo passava de um setor da lingilistica, como tivemos oportunidade de ver num subitem do capitulo 4 (A definicgao do objeto), Assim, quando muito se celebrava © progressa da lingitis- tica estrutural (ocorrido mais ou menos entre meados dos anos 60 ¢ meados dos anos 70), foi comum sublinhar as afinidades entre teoria da literatura, antropologia ¢ psica= nalise, afinidades mediadas e avalizadas pela lingtistica. ——————————————————t—“‘iOSOSO—O—OOOO 62 O argumento ¢ basicamente o seguinte: essas tres diseci- plinas se ocupam com formagGes de linguagem, com mo- dalidades discursivas, aparentadas entre si pela presenga comum de elementos que — sem querer detalhar aqui — participam da ordem do que poderiamos chamar o sim- bédlico ¢ © imagindrio. Essas formagdes de linguagem sao constituidas pelo discurso_titerdrio (interesse da teoria da literatura}, o discurso mitico. (interesse da antropologia) e o discurso onirico (interesse da psicandlise). Além disso, a teoria da literatura tendeu a se rela- cionar de perto também com as disciplinas diretamente de- rivadas da expansio da lingtiistica; 1.°) a semiologia ou semidtica: ciéncia geral dos signos, interessada, portanto, em qualquer tipo de linguagem, embora se tenha estabe- lecido a tendéncia de a lingilistica se ocupar com uma modalidade especifica de linguagem — a linguagem ver- bal, ou simplesmente lingua —, ficando a cargo da semio- logia as modalidades nfo-verbais de linguagem — a gesti- culagio, as mensagens yisuais, publicitarias, est¢ticas de varios tipos etc.; 2.°) a teoria da informagao ou teoria da comunicagda: disciplina de base mateméatica, interessada nos processos fisicos de transmissio da informagdo, vi- sando a quantificar a capacidade transmissora de deter- minados canais de comunicagao, Ainda na onda de relacionamentos interdisciplinares suscitada pela voga da lingilistica, podem-se assinalar as pretendidas aproximagoes da teoria da literatura com cer- tos ramos das chamadas ciéncias exatas, na medida em que se reconhecia o parenteseo entre a linguagem verbal e lin- guagens artificiais de base matemdtica: a ldgica matemd- lica, a teoria dos conjuntos, a teoria dos jogos. Mas além das disciplinas citadas, cuja afinidade com a teoria da literatura foi sublinhada em decorréncia da posigao de destaque atribuida 4 lingilistica, 6 necessario referir ainda outras ciéncias. E o caso da fistéria, socto- 63 logia e psicotogia, Fssas disciplinas, largamente requisi- tadas pelos estudos literdrios do século XIX, passaram a ser olhadas com grande desconfianca pelas principais correntes da teoria da literatura desenvolvidas na primeira metade do século XX. E que essas correntes, preocupadas com o estudo do texto em sua imanéncia, viam na contri- buigéo da histéria, sociologia © psicologia interferéncias extratextuais inassimilaveis pelos axiomas lingiiisticos do- minantes, donde a impugnacdo metodoldgica dessas inter- feréncias, tachadas pejorativamente de historicismo, socio- logismo e psicologismo. De fins dos anos 60 em diante, porém, cessada a precedéncia absoluta da lingilfstica, yol- tam a ser admitidas e valorizadas as afinidades dessas dis- ciplinas com a teoria da literatura, embora sem o caréter simplista pelo qual o século XIX as encarou. Quanto a filosofia, trata-se de disciplina de projeto tao yasto, de fronteiras tio. indeterminadas, que sua pre- senca nos estudos literdrios — € nao s6 neles — 6 uma constante de antiqiiissima tradigao. Lembremos mais uma yer que é no trabalho de dois filésofos — Platéo ¢ Aris- tételes — que se encontram as primeiras sistematizagoes de cerla extensfio e complexidade acerca dos problemas literdrios. Se quisermos, contudo. verificar as afinidades da filosofia com a teoria da literatura podemos precisar e restringir mais a questio, Nesse caso, convém fazer refe- réncia Aquelas orientages filosdficas que mais. explicita~ mente influem em certas correntes da teoria da literatura: a fenomenologia (presente na chamada fenomenologia dos estratos, na escola da interpretagio e na critica onto- légico-hermenéutica), © existencialisma sartriane (respon- sfvel pela critica existencialista) ea filosofia da existén- cia (decisiva na escola da interpretagdo e na critica onto- légico-hermenéutica), No entanto, além dessas incidén- cias mais explicitas, pressupostos filoséficos quase sempre difusos se encontram presentes em todas as correntes da 64 teoria da literatura (¢, diga-se de passagem, também em todas as demais Areas do conhecimento). Por fim, acrescentemos a filologia ao rol de disei- plinas afins com a teoria da literatura. Essa disciplina da drea de Letras, especialmente através do seu ramo conhe- cido pelos termos critica textual ou ecddtica, oferece a teoria da literatura algumas contribuigdes basicas: a res- tauragiio, o estabelecimento © a explicagéo de textos; o levantamento de fontes @ influéncias. Os nicleos basicos da investigagao Dedicamos este nosso texto a uma conceituagdo da teoria da literatura, isto ¢, discutitnos seu status como dis- ciplina, seu objeto, método e processo histérica de cons- tituic&io, as disciplinas que a antecederam na indagagao do fato literirio, aquelas que the séo afins, as orientagdes divergentes que comporta, Assim, nfo foi nosso objetivo entrar em questdes setoriais da teoria da literatura, ou seja, tratar dos seus temas principais, dos seus niicleas basicos de investigacao, exceto naqueles casos em que tais nitcleos fossem pertinentes ao nosso propdsito de coneeituar a teoria da literatura. Faremos agora, porém, uma rapida colocacio acerca desses temas principais. Um deles diz respeito a propria questiio do método, objeto e estatuto da disciplina entre as produgdes intelec- tuais, Sob este tema discute-se, por exemplo, se a teoria da literatura constitui ou nfo uma ciéncia e, se nBo cons- titui, que tipo de saber ela implica. Diretamente ligado a esse niicleo de problemas esta aquele que diz respeito As afinidades da teoria da literatura com ouiras disciplinas, especialmente as da area das cha- madas ciéncias humanas. EK