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Ensaio sobre o entendimento humano (EEH), John Locke (1632-1704)

Não há princípios inatos na mente

1. A maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento constitui suficiente prova de que não é inato. Consiste numa
opinião estabelecida entre alguns homens que o entendimento comporta certos princípios inatos, certas noções primárias,
koinaì énoiai, caracteres, os quais estariam estampados na mente do homem, cuja alma os recebera em seu ser primordial
e os transporta consigo ao mundo. Seria suficiente para convencer os leitores sem preconceito da falsidade desta hipótese
se pudesse apenas mostrar (...) como os homens, simplesmente pelo uso de suas faculdades naturais, podem adquirir todo
conhecimento que possuem sem a ajuda de impressões inatas e podem alcançar a certeza sem nenhuma destas noções ou
princípios originais. (...)

Não há princípios práticos inatos

1. Nenhum princípio moral é tão claro e geralmente recebido como as máximas especulativas anteriormente
mencionadas. (...) Isto é ainda muito mais patente com respeito aos princípios práticos, que não alcançam uma recepção
universal. Penso que será difícil ilustrar qualquer regra moral com a mesma pretensão de ter o assentimento geral e
imediato da que diz “o que é, é” ou ter uma verdade tão manifesta com esta: “é impossível para uma mesma coisa ser e
não ser”. Por mais que seja evidente que elas se distanciem posteriormente do título de inatas, a dúvida de que elas são
impressões nativas na mente é muito mais forte em relação aos princípios morais do que aos outros. Nem isto coloca de
modo algum sua verdade em questão. Elas são igualmente verdadeiras, embora não igualmente evidentes. (...)

(Sobre as ideias. Locke distingue dois tipos de ideias, as simples e complexas. A origem de todas as ideias
são os sentidos: elas nascem das impressões sensíveis que afetam os sentidos na experiência, seja através da
experiência externa, a sensação, seja da experiência interna, a reflexão).

(As ideias simples de sensação podem ser oriundas de um só sentido, chamadas de qualidades secundárias,
ou de diversos sentidos, chamadas de qualidades primárias. As ideias simples também podem ser apenas de reflexão,
como a ideia de percepção ou de vontade, ou podem ser de sensação e de reflexão, tais como as ideias de potência,
de existência, de causalidade).

(Há ideias complexas de modos – simples ou mistos –, de substância – corpóreas, espirituais, Deus –, e de
relações – identidade, causalidade etc.).

Idéias em geral e sua origem

1. Aparência simples. Para entender melhor a natureza, a maneira e a extensão de nosso conhecimento, deve ser
cuidadosamente observado que algumas de nossas ideias são simples e outras complexas.

Visto que as qualidades que impressionam nossos sentidos estão, nas próprias coisas, tão unidas e misturadas que
não há separação, nenhuma distância entre elas, é claro que as ideias, produzidas na mente, entram pelos sentidos,
simples e sem mistura. Embora a visão e o tato recebam do objeto, com frequência e ao mesmo tempo, ideias diferentes,
fazendo com que um homem perceba o movimento e a cor, a mão sinta maciez e calor num mesmo pedaço de cera;
apesar disso, as ideias simples unidas num mesmo objeto são perfeitamente distinguíveis como as que entram pelos
diferentes sentidos; a frieza e a dureza que um homem sente num pedaço de gelo são ideias tão distintas à mente como o
perfume e a brancura de um lírio, ou como o gosto do açúcar ou do perfume da rosa; nada pode ser mais evidente a um

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homem do que a percepção clara e distinta dessas ideias simples, de tal modo que, sendo cada uma delas sem mistura,
nada contêm em si exceto uma aparência ou concepção uniforme na mente, que não pode ser distinguível em ideias
diferentes.

1. A mente não pode formá-las, nem destruí-las. Estas ideias simples, os materiais de todo o nosso conhecimento, são
sugeridas ou fornecidas à mente unicamente pelas duas vias (...): sensação e reflexão. Quando o entendimento já está
abastecido de ideias simples, tem o poder para repetir, comparar e uni-las numa variedade quase infinita, formando à
vontade novas ideias complexas. Mas não tem o poder, mesmo o espírito mais exaltado ou entendido, mediante nenhuma
rapidez do pensamento, de inventar ou formar uma única nova ideia simples na mente, que não tenha sido recebida pelos
meios antes mencionados (...) Gostaria que alguém tentasse imaginar um gosto que jamais impressionou seu paladar, ou
tentasse formar a ideia de um aroma que nunca cheirou (...)

As ideias simples de vários sentidos

1. Ideias recebidas tanto pela visão como pelo tato. Por mais de um sentido adquirimos as ideias do espaço ou extensão,
figura, repouso e movimento. De fato, suas impressões são perceptíveis tanto pelos olhos como pelo tato, levando-nos a
receber e conduzir às nossas mentes as ideias de extensão, figura, movimento e repouso dos corpos, que foram sentidas.
(...)

As ideias simples de reflexão

1. As ideias simples de reflexão são as operações da mente acerca de suas outras ideias. Como mostramos em outros
capítulos, a mente, adquirindo ideias do exterior, volta-se para dentro de si mesma e observa suas próprias ações das
ideias que já possui, retirando dessas tudo que for adequado como objeto de sua contemplação, do mesmo modo que faz
com uma daquelas recebidas das coisas externas.

2. As ideias da percepção e da vontade derivam da reflexão. Estas duas importantes e essenciais ações da mente, com
tanta frequência consideradas e tão constantes que todos podem deleitar-se em observá-las em si mesmos, compreendem:
percepção ou pensamento, e volição ou vontade. O poder do pensamento denomina-se entendimento, e o poder da
volição denomina-se vontade; tais poderes ou habilidades na mente são denominados faculdades. (...)

As ideias simples da sensação e da reflexão

7. Ideias de existência e unidade. A existência e a unidade são outras duas ideias sugeridas ao entendimento por cada
objeto externo e cada ideia interna. Quando as ideias estão em nossas mentes, as consideramos como estando realmente
lá, tanto como consideramos as coisas estarem realmente fora de nós, isto é, que elas existem, ou têm existência; e tudo
quanto podemos considerar uma coisa, quer um ser real ou uma ideia, sugere ao entendimento a ideia de unidade.

8. Ideia de poder. Consiste o poder igualmente em outra dessas ideias simples recebidas da sensação e da reflexão. Pois,
observando em nós mesmos que podemos pensar, e que podemos à vontade mover várias partes de nossos corpos que
estavam paradas; como, ainda os efeitos produzidos mutuamente pelos corpos naturais, ocorrendo a cada momento aos
nossos sentidos, terminamos, portanto, através dessas duas vias, por adquirir a ideia de poder.

Percepção

1. Percepção da primeira ideia simples de reflexão. Como a percepção é a primeira faculdade da mente usada por nossas
ideias, consiste, assim, na primeira e na mais simples ideia que temos da reflexão, por alguns denominada “pensamento”
em geral. (...)

3. Nasce na sensação apenas quando a mente nota a impressão orgânica. Não existe percepção quando quaisquer
alterações ocorridas em nosso corpo não alcançam a mente ou quando quaisquer impressões causadas nas partes externas
não são notadas pelas internas. (...)

15. A percepção é a entrada de todos os materiais do conhecimento. Sendo a percepção o primeiro passo e grau na
direção do conhecimento e a entrada de todos os seus materiais, implica que se alguma pessoa, ou outra criatura

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qualquer, estiver provida de menos sentido, são poucas e embaçadas as impressões que deixam sua marcas nelas, e são
tanto mais embaraçadas quanto as faculdades por ela utilizadas, permanecendo, deste modo, bem distante do
conhecimento descoberto por outras pessoas (...) a percepção é a primeira operação de todas as nossas faculdades
intelectuais e a entrada de todo conhecimento em nossas mentes.

Retenção

2. Memória. O outro modo de retenção consiste no poder de reviver em nossas mentes aquelas ideias que, após serem
impressas, desapareceram, ou parecem ter sido postas de lado, longe da visão (...) Constitui nisso a memória, que se
assemelha a um armazém de ideias. Portanto, sendo a mente humana limitada a ponto de ser incapaz de manter ao
mesmo tempo muitas ideias sob a vista e observação, mostrou-se necessário um depósito para preservar aquelas ideias
que, em outra oportunidade, podem ser usada. Contudo, nossas ideias são apenas percepções presentes na mente,
deixando de ser algo quando não são percebidas (...) Com este sentido é que se diz que as ideias estão em nossas
memórias quando, certamente, não estão em parte alguma, significando com isso apenas a habilidade da mente para revê-
las, como se as pintasse novamente por si mesma, embora algumas com mais e outras com menos dificuldade, algumas
mais vívidas e outras mais obscuras. (...)

3. Atenção, repetição, prazer e dor, ideias fixas. (...) As ideais (...) que na realidade marcam inicialmente as impressões
de modo profundo e permanente, são as que vêm acompanhadas pela dor e prazer. Uma vez que a principal tarefa dos
sentidos consiste em fazer-nos observar tudo o que causa mágoa ou proveito ao corpo, coube à natureza ordenar com
sabedoria (...) que a apreensão de várias ideais deve ser acompanhada pela dor, preenchendo, desta maneira, o espaço
para a ponderação e raciocínio nas crianças; e, agindo mais depressa do que a ponderação nos adultos, faz com que tanto
o velho como o jovem evitem objetos dolorosos com a rapidez necessária para a sua preservação, fixando na memória de
ambos uma advertência para o futuro.

[A partir das impressões recebidas pelas mentes são, pois, guardadas na memória, podendo ser, na verdade,
resgatadas pela recordação. Contudo, essas impressões, que são ideias, não existem, senão através do ato ou da ação de
recordar. A mente, por suas faculdades, é capaz de distinguir (distinção) uma ideia das outras, tomando-as como
percepções diferentes. A evidência e a certeza decorrem da faculdade de distinguir uma ideia de outra. A capacidade de
julgar (julgamento) depende da capacidade de distinguir com certeza e evidência as ideias, sem isso o juízo será obscuro
e confuso. A mente é também capaz de comparar as ideias, relacionado-as. É uma “prerrogativa do entendimento
humano a capacidade de distinguir quaisquer ideias, por percebê-las perfeitamente diferentes e, por conseguinte, como
duas ideias, levando-as a julgar e ponderar em que circunstância elas podem se comparadas” (Locke, EEH, Cap. XI, 5).
A mente realiza, da mesma forma, uma composição de ideias, que se faz mediante a reunião de várias ideias simples
adquiridas pela sensação e a reflexão, da qual resulta as ideais complexas. Outra operação da mente, outra faculdade é a
denominação, pela qual designamos por sinais (nomes) as ideias que estão em nossa mente ou memória. Através da
abstração “as ideias extraídas dos seres particulares tornam-se representações gerais de uma mesma espécie e seus
vários nomes aplicam-se a qualquer coisa que exista em conformidade com essas ideias abstratas].

16. Quarto escuro. Não me cabe ensinar, mas investigar; portanto, posso apenas de novo admitir que as sensações
externas e internas são as únicas passagens descobertas do conhecimento para chegar ao entendimento. Somente essas,
no que foi dado descobrir, são janelas pelas quais a luz é introduzida no quarto escuro (...) Se as imagens introduzidas
ficassem neste quarto escuro e permanecessem de tal forma ordenadas para serem ocasionalmente descobertas, seria
bastante semelhante ao entendimento do homem em relação a todos os objetos visíveis e a suas ideias.

As ideias complexas

1. Formadas pela mente das ideias simples. Consideramos, até aqui, as ideias apreendidas passivamente pela mente, ou
seja, as ideias simples introduzidas pela sensação e reflexão (...) sem as quais a mente não pode, por si mesma, formar
e/ou ter nenhuma ideia (...) Os atos pelos quais a mente exerce seu poder sobre suas ideias simples se reduzem
principalmente aos três seguintes: 1. Combinando várias ideias simples para formar uma composta, originando, assim,
toas as ideias complexas; 2. Reunindo duas ideias (simples ou complexas), e regulando-as reciprocamente a fim de ter
imediatamente uma visão delas, sem, contudo, unificá-las numa, obtendo por este meio todas as suas ideias de relações;
e 3. Separando-as de todas as outras ideias que lhes estão incorporadas em sua existência real mediante a abstração; deste

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modo a mente forma toas as suas ideias gerais (...) As ideias formadas por reunião de várias simples denominam-se
complexas, tais como beleza, gratidão, homem, exército, universo. Embora complicada por várias ideias simples, ou
ideias complexas formadas de simples, quando a mente deseja pode considerá-las cada uma por si mesma, como uma
coisa inteira e designada por um nome.

(As ideias complexas ou são ideias de modo, de substância ou de relação).

4. Ideias de modo (...) as idéias complexas que, embora compostas, não contêm em si a suposição de que podem subsistir
por si mesmas, mas são consideradas dependentes, ou atributos das substâncias, tais como as idéias expressas pelas
palavras triângulo, gratidão, assassínio etc. (beleza, roubo, contagem, dúzia).

5. Ideias de substâncias, singulares ou coletivas (...) as ideias de substância consistem em combinações de ideias simples
assumidas para representar distintas coisas particulares e que subsistem por si mesmas, sendo a suposta e confusa ideia
de substância, tal como é, sempre a primeira e principal. Deste modo, se acrescentamos à substância a ideia simples de
uma certa cor opaca e esbranquiçada, com certo peso, dureza, ductibilidade e fusibilidade, obtemos a ideia do chumbo;
combinando a ideia de certo tipo de figura, dotada com os poderes de movimento, pensamento e raciocínio, e sendo tudo
isso acrescido à substância, tem-se a ideia de homem.

6. Ideias de relação (...) o último tipo de ideias complexas denomina-se relação, que consiste na consideração e
comparação de uma ideia a outra.

Nossas ideias complexas de substâncias

1. Como são formadas as ideias de substâncias particulares. Tendo sido a mente, tal como demonstrei, provida de
grande número de ideias simples transportadas pelos sentidos e descobertas nas coisas externas, ou mediante reflexão de
suas próprias operações, ela observa, igualmente, que certo número dessas ideias aparece constantemente unido, sendo
supostas pertencer a uma única coisa; e, mostrando-se a conveniência de palavras para apreensões ordinárias, usadas para
maior rapidez de expedição, são denominadas, tão unidas ao substrato, por um nome que, por negligência,
posteriormente fomos levados a discorrer e a considerar uma ideia simples, constituindo, realmente, uma complicação de
várias ideias reunidas; pois, como afirmei, sem poder imaginar de que modo estas ideias podiam subsistir por si mesmas,
nós nos acostumamos a supor certo substratum no qual elas subsistem, e do qual resulta, por conseguinte, o que
denominamos substância.

2. Nossa obscura ideia da substância em geral. De sorte que, se alguém se examinasse com respeito à sua noção da
substância pura em geral, descobriria que não possui dela nenhuma outra ideia, excetuando apenas uma suposição de não
saber o que sustenta tais qualidades que são capazes de ocasionar em nós ideias simples, cujas qualidades são geralmente
denominadas acidentes. Se fosse perguntado a alguém qual é o substrato inerente à cor e ao peso, nada teria a dizer,
exceto acerca de suas partes sólidas, da extensão. Se lhe fosse, então, perguntado o que é inseparável da solidez e a
extensão, não se encontraria nem situação mais vantajosa do que a do índio antes mencionado, que, afirmando que o
mundo estava sustentado por um grande elefante, foi perguntado em que elefante se apoiava, e respondeu: em uma
grande tartaruga; sendo, porém, solicitado a desvendar o que sustentava as costas largas da tartaruga, respondeu que era
algo, mas não sabia o quê. Tanto neste como em outros casos em que usamos palavras sem ter delas ideias claras e
distintas, expressamo-nos como as crianças, que, perguntadas acerca de certa coisa que não conhecem, dão rapidamente
uma resposta afirmando que é algo (...) A ideia, pois, que temos com o nome geral de substância nada é senão o suposto,
mas desconhecido, suporte dessas qualidades que descobrimos existir (...)

4. Nenhuma ideia clara e distinta da substância em geral. Por conseguinte, quando mencionamos ou pensamos em
qualquer espécie particular de substâncias corporais, como cavalo, pedra etc., embora nossa ideia de qualquer uma delas
seja apenas a complicação ou coleção de várias ideias simples de qualidades sensíveis que costumamos encontrar unidas
na coisa denominada cavalo ou pedra, e, ainda, porque não podemos imaginar como podem subsistir sozinhas, nem uma
na outra, supomos que existem e são sustentadas por algum substrato geral, cujo suporte denominamos substância,
mesmo sendo evidente que não possuímos nenhuma ideia clara e distinta disto que conjeturamos como suporte.

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