Você está na página 1de 25
; | O Romantismo J. Guinsburg | Sy 3. A VISAO ROMANTICA —b Benedito Nunes I. As Categorias do’ Romantismo O dualismo, a antitese & 0 principio motor, 0 principio passional, dialético e espirituoso. (Naplita a Settembrin’) — THoMas Mann, A Montanha Magica, On nia jamais bien jugé te romantisme. Qui Vaurait jugé? Les Critiques!" Les Romantiques? qui provent si bien que la chanson est si peu souvent oeuvre, cestaddire la pesée chancée et comprise du chanteur. — Riwsavp. Por uma questéo de método, convém que se ‘ reformule, como requisito prévio & abordagem da hi \ visio roméntica, a distingdo das duas categorias i iti AMG implicitas no conceito de Romantismo: a psicold= | ria i gica, que diz respeito a um modo de sensibili- ile ate is dade, ¢ a histdrica, referente a um movimento | literdtio e artistico datado. i A categoria psicol6gica do Romantismo! & 0 1. Tomamos por base a disting’o de Lali Storia dela Litteratura Tedesca (Del Pietismo al romantic 1700-1820), Torino, Biaudi, 1964, pp. 698703, ‘A VISKO ROMANTICA 51 Sentimento como objeto da acdo interior do Sijeito, que excede a condicio de simples estado afetivo: a intimidade, a espiritualidade e a aspi- mycio do infinito, na interpretagio tardia de Baudelaire 2, Sentimento do sentimento ow dese- jo do desejo, a sensibilidade roméntica, dirigida pelo “amor da irresolugdo e da ambivaléncia” 8, que separa e une estados opostos — do entusias- smo A melancolia, da nostalgia ao fervor, da exal- taco confiante a0 desespero —, contém o ele- mento reflexivo de ilimitagdo, de inquietude e de insatisfagio permanentes de toda experién- cia conflitiva aguda, que tende a reproduzir-se indefinidamente .4 custa dos antagonismos in- soliiveis que a produziram. Pelo seu caréter con- flituoso interiorizado, trata-se, portanto, consi- derada assim, de uma categoria universal. Mas somente na época do Romantismo, esse modo de sentir coneretizou-se no plano literdrio e artistico, adquirindo a feicfo de um comportamento es- Piritual definido, que implica uma forma de visio ou de concepgio do mundo, No movimento romantico, que se desenvol- veu entre as duas dltimas décadas do século XVIII os fins da primeira metade do século XIX, quando, num perfodo de cronologia osci- lante, verifificou-se a grande ruptura com os pa dies do gosto cléssico, prolongados através do neoclassiscismo iluminista, fundiram-se varias fontes filoséficas, estéticas ¢ religiosas préximas, ¢ reabriram-se veios mégicos, miticos religiosos remotos. Pela variedade de seus aspectos, exten- sivos, para além da literatura e da arte, a todas as dimensées da cultura, pela diversidade das posigdes contrastantes que abrangeu, 0 Roman- tismo foi, na verdade, uma confluéncia de ver- tentes até certo ponto auténomas, vinculadas a diferentes tradigbes nacionais, A primazia da vertente alemi (de 1796 em diante), a primeira a empregar, numa conota- io critica ¢ histérica, a palavra romédntico, Baudelaige — Salon de 1846 — 1 — Qwesrce que iume? Curisités esthétiqus. Ocvores Completes Bibi Matvsen, que selaria a fortuna teérica desse termo, 0 qual passou desde entio a significar um estado’ da Poesia ¢ uma atitude em relac&o a literatura, resultou de uma ascendéncia intelectual; pois que ligada ao classicismo de Weimar (Goethe e Schil. ler), © particularmente sensibilizada pela pro- blematica schilleriana da poesia ingénua dos an- tigos ¢ da poesia sentimental dos modernos*, a escola germinica nasceu no clima universitério estimulante de Tena, de uma geragio posterior 20 Sturm und Drang, 20 mesmo tempo que o idea- lismo pés-kantiano, As matrizes filoséficas da visio romintica do mundo podem ser localizadas nas espécies complementares desse idealismo — a metafisica do Espirito de Fichte e a metafisica da Natureza de Schelling —, que derivaram do criticismo de Kant. Nao se deveré, contudo, identificar a visio romantica do mundo com a filosofia do Roman- tismo, que designa 0 conjunto dos sistemas idea- listas e das doutrinas posteriores a Kant, inclu- sive a teologia sentimental de Schleiermacher, 0 tealismo méagico de Novalis, menos o idealismo de Hegel §. Articulando-se em fins do século XVIII, em oposigio ao pensamento iluminista, e per- durando até meados do século XIX, a visio roméntica do mundo, que se desenvolveu nos prddromos das mudancas .struturais da socieda- de européia, concomitantes ao surgimento do capitalismo, € por certo uma visio de época, condicionada que foi a um contexto sécio-histé- rico e cultural determinado, que possibilitou a ascendéncia da forma conflitiva de sensibilida~ de enquanto comportamento espiritual definido. Sao largamente sintomdticas as idéias diretrizes, a escala de valores e as tendéncias preponderan- tes, que assinalam 0 teor idealista da visio ro- méntica, e que a distinguem da configuragao 4. Aavun 0, Lovesor, “Romantic” in early german Romane ticim, Essays in the History of Ideas: Nova’ Yor, pp. 215223, Cepricora Books. SW. Wixostsaxn, Historie de fe filozofi, 2 vol, p. 204 « ss, Buenos Aires, Eiitota Nova, Hasouy Horrsinc, A Brief Hise tory of Mader Phiosophs, Macmillan, p. 169; Nicotat Hanticae, La Filosofia del Tdeahomo Alomen, Editora Sudamericana. 1 ¥0l, 282, sa Picticular de cada uma das espécies metafisicas ‘dh idealismo pés-kantiano de que suas matri 2 repontam. Outro tanto se pode dizer do importamento espiritual, que produziu, tipitica- do na literatura e na arte, um conjunto de ati- tujes intelectuais, insepardveis de uma gestua ligica dos sentimentos e de padrées ret6ricos dterminados. A grande ruptura dos padrées clissicos, que Projetou o Romantismo como fendmeno da his. tia literdria e da evolugdo das artes, foi o efei to mais exterior e concentrado de um rompi- Mento, interior € difuso, no Amago das correla- ‘ies. significativas da cultura, rompimento que Se aprofundou, ainda na primeira metade do séulo XIX, com o desenvolvimento da socieda- de industrial, e do qual a reagao contra o siste- ma das idéias do Iuminismo, desde as nascen- tes do movimento roméntico, ja era a manifesta- io preliminar. Se a visio romantica pode ser considerada como visio de época, nao € no sen- tido de uma Weltanschawung, configurada atra- vé de uma forma artistica, de um estilo hist6- rico determinado, e sim no de uma concepcao do mundo relativa a um perfodo de transigio, que se situa entre 0 Ancien Régime e o liberalis- mo, entre o modo de vida da sociedade pré- industrial e 0 ethos nascente da civilizagio ur- bana sob a economia de mercado, entre o mo- mento das’ aspiragdes libertérias_renovadoras das minorias intelectuais, as vésperas do grand ébranlement de 1789, © 0 momento da con- versio ideolégica do ideal de liberdade que essas minorias defenderam, no princfpio de dominio real das novas maiorias dirigentes, firmadas com © Império Napolednico e apds a Restauracao. A essa concepcao do mundo, preponderan- temente idealista e metafisica, percorrida por um afi de totalidade e de unidade, proprio da sensibilidade conflitiva que a impulsionou, ¢ po- larizada por sentimentos extremos ¢ atitudes an- tagénicas, comportando uma vivéncia da Natu- reza fisica, um senso do tempo ¢ um poder mi- togénico; a essa concepcio do mundo, que se- parou do universo cultural a literatura e a arte, transformando-as_na_instancia privilegiada de uma s6 atividade poética, supra-ordenadora das correlagies significativas da cultura, concomi- tantemente ligada afirmagao do individuo e ao conhecimento da Natureza; a essa concepgio do mundo corresponde o Romantismo estritamente considerado, que conjuga e solidariza as duas categorias, a psicoldgiva e a histérica, antes referi- das, do conceito respective, Mas. assim deli- mitada, a vistio roméntica, que se interrompe com © advento da modernidade, nao esgota o alcan- ce do Romantismo. Na acepeio lata, que pertence a histéria da cultura, esse fendmeno determinou o nivel da experiéncia incorporada literatura, e trouxe a luz, no conjunto da vida social, o estado da arte ea situagao do poeta (e do artista), que nos sio familiares até os dias de hoje. Para além da conquista de uma forma mais livre e de um conteido mais variado, que seria, no juizo do Goethe amadurecido da fase de elaboragéo do Segundo Fausto, a inevitavel resultante dos ex- tremos e exageros da época literéria, por ele comparada a um acesso de febre intensa®, o urgent feeling? da visio romantica fixou o limiar de acesso estético a literatura de valores Iidicos € festivos da cultura cémica popular do Medievo e do Renascimento , valores nao-candnicos, neutra- lizados pelo decoro cléssico, como também a transfusio, sobretudo na Krica, de elementos magicos encantat6rios ¢ divinat6rios, canaliza- dos, quando nio do ocultismo e da tradi¢ao he- terodoxa do misticismo cristo, de veios religio- sos arcaicos. F também por intermédio dela que surgem, no momento em que a atuacdo politica da intelligentzia fora neutralizada, essa autono- 5, Conversations de Goethe vee Eckermann, Gallimard, 7, “ose apgent feeling rather than 2 style". Sven, Wylie, Racoca 16. eatin in arf nud. tesatare. (Transformations it style in’ art and. litertare “from the T8th. to the 20th, cen tury), Vintage Beck, p. 63 aroterc, que Victor Hugo associow 20 disforme S reepelto do “groteseo de chmara”™ do. Roman: tismm pj clastica (abot se Mesrsne Baswrive, Qaruste de Frangeis ‘Rabelais et ls culture fopalaire au Moven Age et sons Je Renizenare. Callin A VISKO ROMANTICA 53 Goethe, por Delacroix, © Carnaval, litografia de Gavarni, 1846. ‘nia intelectual dilematica da consciéncia artisti- ta, ora cultivada em altivo isolamento, ora tra- da a piblico, em cumprimento de um dever apostélico, de uma misao espontinea para com V arte; ¢ é nela, finalmente, que. se condensam 0s nexos sociais ¢ politicos, ideologicamente po- larizados, daf por diante jamais desfeitos, que en- ttamam a obra de arte ¢ o estado do mundo, olocando aquela num permanente confronto com o real. Na época transicional de efetiva vigéncia da Visio romantica do mundo, quando comega a interferir, por forga das classes sociais existen- ‘ks, 0 efeito ideoldgico, distorsivo e encobridor das. posigdes e dos interesses, a literatura, a0 mesmo tempo que denuncia a insatisfagdo com o Teal, passa a oferecer, contra ele, 0 abrigo do ideal decepcionado, que se constitui em refigio, € que transforma o reftigio em sucedaneo de aspi- tagées insatisfeitas ®, : caréter sintomal dos aspectos constitutivos da visio romantica recobre 0 largo espectro dos fenémenos que indicam a mudanca das estrutu- ras da sociedade pré-industrial: a separagio da arte quer do artesanato quer do modo de produ- 0 industrial que se iniciava, 0 comeco da de- pendéncia dos produtos literdrios ¢ artisticos as leis concorrenciais do mercado ™, a justificativa ideol6gica da religiio como instrumento legitima- dor do poder e da ordem — que denuncia o arrefecimento do sagrado —, 0 nivelamento dos valores morais a regra benthamiana do maior in- teresse e da melhor utilidade, a marginalizagio social de toda atividade improdutiva, o prin- cipio fiduciério da moralidade burguesa ", as re- lagdes possessivas da moral doméstica ¢ do casa- mento, a separagdo entre as esferas sexual e sen- timental do amor, o filisteismo como atitude 9. Desse ponto de vista, 0 romiatico ¢ aquele cuja inestisf fo com o real se transmuda em Hteratuta ov em teora cstétien, Vide Rate Twseus, German Romentic Literature, Methaen, 10, Wautinss, Re Cultuye and. Society 1780-1950. Penguin, p82, |=. Bthos eaptado por Marx como a universalizagio do valor fiducidrio: “0 dinheiro avilta toios e& deutet do bomem.., ¢ 08 trassforma em mereadora, O'dinksro @'0 val unverial de todas a8 exis" da maioria dominante em relagdo as letras ¢ as artes — desde entio confinadas ao plano da neu- tralizante respeitabilidade que constitui a cultura estética — e, por fim, a mecanizagio e a racio- nalizagao da vida ™, ‘posteriormente as relagdes comunitérias dentro de uma civilizagéo cada vez menos rural ¢ cada vez mais urbana. A estrutura social emergente dessas mudan- gas mio ofereceré ao processo de individualiza- ‘go condutos abertos para a vida coletiva, Tor- nada menos mével e mais estranha, como um mecanismo alheio & consciéncia, atrofiando a individualizagéo a falta de reajustamentos inter- nos, a vida coletiva contribuird para “a aliena- Go, a introjecdo, a subjetividade e a introver- so das energias sublimadoras” #8 Contudo, as diretrizes da visio romantica, que imediatamente assimilam, pela dinamica dos eventos politicos, o entrechoque dos modos tra- dicionais de vida com 0s novos padrdes sociais, nao podem ser reduzidas a uma funcdo ideolégica reflexa. Elas traduziriam posigdes eminentemen- te reativas, nem sempre opostas, mas sempre transversais & sociedade ¢ a cultura, da intelli- gentzia situada num periodo de transicao. A rebeldia contra a disciplina do gosto clas- sico, que concentrou essas posigées reativas, rea- briu, de fato, na transigio do século XVII para © século XIX, como -pensa Max Scheler, a disputa entre os antigos e 0s modernos, que se declarara muito antes no Ambito do humanismo renascentista, Mas se, em virtude disso, pode 0 Romantismo ser incluido, do ponto de vista so- ciolégico, na categoria dos movimentos juve- nis, 0 certo é que o seu impeto rebelde, esten- dido sociedade e & cultura, ao sabor de uma sensibilidade conflitiva, nasceu enfermigo ¢ en- velheceu depressa. As idéias da viséo romantica do mundo nas- cem em oposi¢éo as do Tluminismo, e agru- pam-se, como estas, de maneira ordenada, num 12, Muwrono, 4 Condiggo de Homem, Editors Globo, p. 317, 13. Manner, Karl, Sociologia’ Stfemdtica, Liveatia’ Pio= neira Editor, p. 126, Tas Serene, Max fa del Seber. Hditora Losada A VISKO ROMANTICA 55 | eSquema de caréter sistemético. As matrizes fi- 1Osficas que permitem encadeé-las, e que impri- Xen ao esquema que elas compéem a unidade dé uma constelagao de principios interdependen- £4, procedem de uma combinagéo das linhas mes- £74 das doutrinas idealistas pés-kantianas de Frichte ¢ de Schelling. © cotejo dos pressupostos do Huminismo ¢ do Romantismo, dar-nos-4, pelo conhecimento dife- Fencial, a possibilidade de abrangermos, a partir ‘de suas matrizes, as tendéncias dispersas ¢ hetero- gtneas que se constelam na visio romantica. IL O Iluminismo e a Constelagéo Romantica Como iiltimos elos que se confundem, da cadeia hermenéutica que sustentou as tendén- cias gerais do pensamento do Iluminismo, as idfias de Razdo e de Natureza, idéias regulado- ras desde o século XVII, desempenharam, no século XVIII, a fungdo de conceitos limitantes averca do homem e do mundo. Figuras com- plementares dentro dessa cadeia, 0 classicismo ea réligido natural — 0 detsmo — do perio- do, fizeram parte de uma constelagio de principios. O primeiro deles ¢ a uniformidade da razio, que ligou entre si, numa s6- matriz filos6fica, essa mesma idéia de Razio — o bom senso cartesiano, igualmente compartilhado por todos os homens — e a idéia de Natureza — 0 conjunto daquelas disposigées que, acessiveis a0 livre exame analitico, seriam sempre iguais em toda parte, escapando a forca do habito, a0 prestigio da autoridade, as tradigées e aos capri- chos das circunstincias histéricas, bem como & influéncia, considerada perturbadora, das pai- xGes e dos hébitos. Foi a tal matriz que se vin- calou 0 individualismo racionalista da Tlustra- do, que reconheceu o homem como sujeito uni~ versal de direitos naturais em nome da huma- nidade, e como sujeito universal de conheci- mento em nome do progresso da inteligéncia da 1S, Lovejoy. “The parallel of dsism and classicism”. Essays fn the history of Ideas, Wo. 7898, espécie. Também decorreram dela o consensus gentium 16, como instancia coletiva da razio uni- forme, 0 cosmopolitismo abstrato, nivelador de todas as diferencas nacionais e de todas as parti- cularidades locais, ¢ 0 igualitarismo intelectual, que se‘completou por uma curiosa tendéncia an- tiintelectualista, que defendia a posse pacifica, pela simples aplicagio do bom senso, de verdades essenciais, acessiveis, em igual medida, aos ci- vilizados europeus ¢ aos selvagens de Bougain- ville, verdades essencisis que tanto mais garan- tidas seriam quanto menos metaffsicas fossem ¢ quanto mais proximo de suas origens os homens estivessem. A concepcio mecanicista do univer- so, que permitiu integrar o homem e a Nature- za fisica exterior sob a regéncia de leis unifor- mes, coroou a unidade desses principios, que se harmonizaram dentro do esquema racionalista do pensamento da Ilustragio, ¢ & luz dos quais recaem a idéia de causa suprema ordenadora das coisas, como substrato das crengas religio- sas da humanidade (a religiéo natural “nos li- mites da simples razio”) admitida pelo defsmo, ea normatividade do bom gosto — esse cor- relativo estético do bom senso, substrato comum da fantasia artistica (a arte nos limites da bela natureza), adotado pelo classicismo. © deismo ¢ 0 classicismo ratificam pois, em dois diferentes planos, a regéncia de leis unifor- mes ¢ necessérias, que tiveram 0 seu modelo na lei geral da gravitagdo, a grande mola da atra- go que tudo move, segundo Voltaire", Da mesmo forma que as leis fisicas, as leis civis, as leis politicas e as normas do bom gosto, parti- cularizam, de acordo com a perspectiva de um causalismo mecanicista, nos dominios contiguos das coisas naturais, da sociedade ¢ da cultura, “as relagdes necesséirias que derivam da na- tureza das coisas” #8 — natureza imutavel ¢ eter- na a que se referiu d'Alembert na Enciclopé- shamoe oe prinefpioe admitidos por Lovejoy no ensaig supra cit Tye Wovtains, Sobre o sistema da atragéo, Cartas Filoss- ficas (XV). 18.) Mowresquixu, L'eepit dee fois, iy 9, sujeita as mesmas regras, independente- Tente das entidades metafisicas, ¢ a que se ajystam, pela trama continua da linguagem, li- Bando os conceitos as coisas, as ‘palavras aos Gbjetos, o sistema de representagdes do espirito humano e o sistema do universo. _ Haveria, portanto, entre o interior ¢ 0 exte- tior, entre 0 homem e 0 mundo, um prévio “cit Gita de comunicacio” da natureza das coisas €da natureza humana; circuito que caracterizou a ditegio epistemolégica do pensamento da época clissica, fundada num achatamento do sujeito, eneaixado como sujeito universal do conheci- mento, a uma Natureza cuja ordem e cuja ree gularidade se prolongaram na ordem e na regu- Intidade dos discursos cientifico, religioso, es- ttico, juridico e politico do século XVIII. Nivelando-o & Natureza fisica exterior, a que j4 se encontra ligado por um acordo ticito, esse achatamento do sujeito, que abstrai a singu- laridade do individuo, refletiu-se na disciplina candnica do gosto clissico e na disciplina intelec- tual da doutrina deista, ambas refratarias 4 domi- nincia da experiéncia singular individual subje- tiva, transgressora da uniformidade da razéo, ¢ ambas portanto avessas, em seus respectivos do- minios — 0 artistico e o religioso — & afirma- Gio da originalidade pessoal e ao entusiasmo, es- tados espiritualmente afins. As matrizes filoséficas da visio romantica, que legitimam, dentro de uma nova constelagio de principios, a originalidade e o entus so © cardter transcendente do sujeito humano © 0 carater espiritual da realidade, que quebram a uniformidade da razao ¢ a conseqiiente forma de individualismo racionalista, ao mesmo tempo que a concepgio mecanicista da Natureza. A primeira matriz moldou-se pelo principio da transcendéncia do Eu na filosofia de Fichte, ¢ a segunda pela idéia de Natureza como individua- lidade orgénica na filosofia de Schelling. 19, D'Avesearen, acto 2b! Foveseus, liek Le naa Linha mestra do idealismo de Fichte, o qual interpretou num sentido metafisico a fungio ca- tegorial que. Kant emprestou 20 Cogito carte- siano® — consciéncia de si, enquanto cons- ciéncia pura que se conjugando em todas as categorias, torna-se a instdncia formal, nio em- pirica de nossa experiéncia — o Eu é a acdo origindria (Tathandlung), que precede o sistema das representagdes do espirito, e de que o mun- do, com a sua aparéncia de realidade indepen- dente, constitui 0 pélo opositivo (nao-Eu). Co- meco’ incondicionado, a autoconsciéncia, trama formada na intuigdo intelectual de mim mesmo que possibilita o principio gerador do saber — intuigdo indistinta do ato que, instaurando o meu ser, ins- taura, ao pensé-lo, 0 proprio mundo 22 — tam- bém serve de fundamento @ realidade. Mas desse modo, a ordem objetiva e necessdria do sistema do universo, que corresponde ao sistema das representacdes, ordem consubstanciada no prin- cipio de legalidade universal, j4 assente, para Kant, na estrutura categorial do entendimento, € produzida pelo espirito; ela nao mais circunda e bloqueia o sujeito humano na continuidade natu- ral com as coisas, em que a universalidade do conhecimento humano se estribava para a Ilus- tragio. O circuito de comunicagéo entre o interior € 0 exterior depende agora do sujeito, que trans- cende, assim avultado, a Natureza fisica, eis que somente exprimindo, nas palavras de Fichte, “em toda parte relagdes de mim mesmo para mim mesmo” %, essa mesma Natureza, vista por Schelling como um todo vivo, como indivi "21. "0 Ex powe deve paler aeom nihagrepresentagien” (516 == Dn unidade cx ih aperccpcin) “Teno pois conseene {eg identschowslbit) rlativamente su diverso dig representa: Ges que me sin dalas auma intuigio, yanjue ew chamo de mk Shas las as reprerenagies que na formam. senlo uma IKexte Critow gi Ruse Pure, Ded. $16 Da unlade originge amente sintctiea sa anercencin, Dislugho, dow coneitus puras do Enfenimente, Segunda, Seegio, Cap, UU CAnaliten. dos Coneeitos). pa eae op as paca mim eu Sh ccessivin (na mel ‘nin ji ponho 0° mew Sate Fie Hr dacnschftsehre Cis, Patis Mine ” Lr), Relig: Meie A VISAO ROMANTICA 57 Aitade orginica, devolutiva da ago origindria Eu, 6 justamente aquilo que parece ser, e que A intuigao intelectual apreende: a cobertura visi- v4 objetiva e inconsciente, de um entendimento Amijsivel, andlogo a imaginagao poética, e que Pvduzitia as coisas, de acordo com a decisiva ‘Mudfora schellinguiana, por um proceso ape- A&' mais rudimentar do que aquele mediante o ‘ul o artista produz as obras de arte, Paralela- Mnte, a intuicdo intelectual, identificada A cons- citncia de si, tem como fundo a singularidade do intividuo, e desfaz a uniformidade da razio teérica, trasladando-a, em decorréncia da ili Milagdo ¢ da infinitude da atividade do Eu, a exi gércia de aperfeigoamento ‘ético progressive im- plisita & razdo pratica de Kant, Foi essa exigtn- cit que Fichte explicitou na oposic&o polar entre o Bu e o Nio-Eu, que o marginal da Tlustra- 20, Jean-Jacques Rousseau unira, em seu Emi- lio, & idéia de Natureza 38, Precursor da hegemonia da subjetividade no Romantismo — da domindncia da experiéncia in- dividual subjetiva —, esse avultamento do su- jeito, em que a direcdo epistemolégica do pen- samento da época classica se inverte, demitiu © individuatismo racionalista da Tlustracdo, subs- tituindo-o por um individualismo egocéntrico, que vinculou o lastro idealista e metalisico da visto romantica & capacidade expansiva e a forca irra- diante do Eu. Ponto céntrico da realidade e pas- sagem para o universo (“das Ich als zugang zum dem Universum”, disse-o Novalis), 0 Bu, assim configurado, assegurou um primado onto- I6gico a interioridade, & vida interior, que foi sindnimo de profundeza, espiritualidade, elevagiio € liberdade, no vocabulério do Romantismo, quando nao significou também 0 “solo sagrado” 24, Scumuuanc. “Systdme de Videalisme transcendental” 800) wait de Schelling. fection que Ia rsisoa i Higada as disposigdes primitivas (aaturesa), que te alteram pela forga do habito e se desenvolvem pela educaguo, 26, "Solo sagrado da Uberdade", vida interior, eterna, ‘nfo afetada pelo tempo, encerra em sua profundera, tiv dle eriatora do espirto, de que © undo e 6 homem sio as obras, ch Seunermuaciien, Motdlogos, da verdadeira vida, 0 recesso do ideal, de onde © sentimento religioso brota, onde a perfeigio moral se abriga e a arte comeca. A dimensio Gtica ¢ religiosa, a par do alcance cognoscitivo conquistado pela atividade artistica ou postica, que sintetiza a operagio mais completa do es- pirito, estaria subordinada a esse primado, Chegando-se a este ponto, 6 preciso no es- quecer que as duas matrizes codeterminantes da viséo romintica se relacionam entre si, A vida interior, espiritual, livre e profunda, a que levam a capacidade expansiva e 0 poder irra diante do Eu, coneretiza-se em tudo aquilo que © individuo tem de singular e caracteristico, e Por tudo quanto nele, dos sentimentos aos pen- samentos, € capaz de, sob a ténica do entusias- mo, manifestar espontaneamente, aflorando ao exterior, pela riqueza superabudante de con- tetidos que possuem forca propria, a simula dos elementos pessoais e intransferiveis que cons- tituem o indice de sua originalidade, Semelhante espontaneismo, que passat ao plano da arte, ¢ que a estética do Romantismo refletiu na sua ter- minologia, principalmente no metaforismo do conceito de “expresso” significando, como “tra- dugo” da personalidade, uma floragio das véncias reais, refletiu-se também no plano da in- dividualidade orgénica da natureza, com a qual ividualidade singular do homem se entrosa- ria, O Eu transcende a Natureza fisica — 0 ex- terior mecdnico disperso dos fendmenos — mas para encontrar-se, dada a esséncia absoluta que © Romantismo germénico da primeira fase lhe atribuiu, ao nivel orginico das coisas, com o entendimento interno da Natureza viva e ani- mada, “O que estd fora de mim esté justamen- te em mim, € meu — e inversamente” 7. O uni- verso a que se chega através do Eu, ainda é, con- forme a doutrina de Novalis, em Os Discipulos de Sais, 0 proprio Eu, que se espelha nesse entendimento interno da Natureza (“einen innern 27, Novauis. Encyclopédie, Frag. 1783, Les faltions de Mie sit Verstand der Natur"), que o homem pode alean- far sob o efeito da poesia. Produzindo-se nas mais variadas formas, que tiferem entre si pela maior ou menor espiritua- lidade, formas que compéem os miltiplos de- aus de um entendimento invisivel — ora mais distante, ora mais préximo do consciente ¢ do wubjetivo —, e que j& so individuos integrando um grande organismo em crescimento evolutivo, a Natureza revela o mesmo espontanefsmo flores- cente, a mesma expressividade das obras nas quais 0 homem verte os contetidos originais caracteristicos de sua experiéncia subjetiva, Uma Yez que 0 seu aspecto material significa 0 espiti- ‘ual que as anima, as formas naturais, por um lado produtivas e portanto criadoras, por outro expressivas e portanto simbolicas, oscilam entre 0 estado de coisa e o estado de linguagem, achan- do-se comprometidas pela dualidade da expres- so e da criagdo — conceitos romanticos man- tidos com valéncia quase igual para a literatu- ra, O universo inteiro fala2® ¢ os corpos so os signos de sua linguagem. entrosamento da individualidade orginica da Natureza com a individualidade singular do homem far-se-A através de formas de vida mais complexas: as civilizagdes ¢ os povos, que Her- der ensinou, ainda no periodo do Sturm und Drang, a valorizar em seus elementos caracte- risticos ¢ originais, provenientes das condigdes de existencia sempre particulares no espago sempre varidveis no tempo. Elementos fisicos, vitais e espirituais, conforme o clima, 0 tempo € © momento, articulam-se na sintese coletiva ¢ histérica que define uma nagio. Unindo o ge~ ral 0 particular, a personalidade cultural e na- cional de cada povo (Nationalcharakter, Geist des Volkes, Geist der Nation) se distingue por valores préptios e intransferiveis; € uma for- ma de vida completa, auto-suficiente, da qual a singularidade do individuo humano se torna inse~ pardvel. “Num certo sentido”, diz Herder,. “to- 28. "O bomem no é o Union a falar — o universe também fala = tudo fala linguas infinitas", Novauts, Op. eit, Frag a5 da perfeigdo humana é nacional, secular, e estrita- mente considerada, individual” 22, ‘Ao cosmopolitismo abstrato do século XVIIL, supressor das diferengas nacionais, 0 Romantis- ‘mo opés um nacionalismo concreto, que foi pre parado pela concepgio herderiana da “unidade orginica de cada personalidade com a forma de vida que Ihe corresponde” #: unidade expressi- ‘ya quando florescente, dando-se a manifestar em tudo 0 que o homem faz. Mas é sobretudo nas obras de arte que a acio comunicativa dos indi- viduos se incorpora, ganhando o relevo simbé- lico de uma nova escala da linguagem e da ex- periéncia humana. Nessas condig6es, 0 espiritual comporta diferenciagées locais externas © mu- tagées temporais internas, que diversificam e pluralizam a cultura em cada época e em cada momento dentro de uma época. O consensus gen- tium do racionalismo serd, portanto, apenas o consenso de uma época, aplicado como medida niveladora de todos os valores distintivos das per- sonalidades histéricas. Para aprender essas per- sonalidades, para conhecer os valores distintivos que as singularizam, € necessdrio repetir pela empatia (a simpatia da imaginagio), que nos leva a sentir exteriorizando-nos nas coisas, a ago comunicativa dos individuos. Defendendo, quanto mais préximo da’ con- cepcao de Herder, a equivaléncia no tempo desses valores distintivos, 0 nacionalismo roméntico (que também derivou para um nacionalismo po- Iitico de fundo mistico como o de Joseph Gér- res, da segunda geragio — a de Heidelberg — do Romantismo germnico), esteve circunscrito pela imagem do crescimento orginico e da flo- raco espontanea: o que existe ¢ “um produto do clima, das circunstincias temporais ¢, por- tanto, com virtudes préprias nacionais e seculares, flores que crescem sob determinado céu onde prosperam a custa de quase nada, mas que mor- rem e murcham miseravelmente em outro lu- 29, Haars. Filosofia de le hstorin pera le educacéu de Ta humanided, (Trai. Elsa, Tabernigh, Batt, Nova, p. $8 Soe Drains Tseiah, Herder," ea. uchhol2, Bogoti, dex. ames A VISAO ROMANTICA 59 g9T.,.” 4, Essa imagem carreou para a visio roMintica 0 sentido dramético do tempo histé- 1i¢0— tempo espesso, caudaloso, ocednico, que soMente abrange as transformagdes incessantes do sujeitos humanos de porte coletivo — os pos € as nagdes — sobre que se espraia, sem qUé se possa divisar um desenho tnico ou uma dif¢s4o determinada no fluxo transindividual — a histéria — a que dio origem e de que parti- cipim, Em vez da razio, € um grande e cego destino que conduz a evolugio dos povos @, NA concepgio historicista da realidade como prOv%sso histérico (Geschichte), que se perfaz por meio de mudancas, de manifestacdes indi- vidlais méltiplas, igualmente valiosas ®, perdu- row a sombra desse destino grande e cego, em lugar do progressivo aperfeigoamento da inteli- géncia da espécie que o Tuminismo postulou. A medida do individualismo egocéntrico ¢ or ganicista da visio romintica pode ser aquilatada pela idéia de génio, que ocupou o centro da constelagdo das idéias na época do Romantismo. A estética clissica nao desterrou completa- mente a imaginagio; valorizou, na arte, a re- prestntacio de idéias ou de correlagdes que, acessiveis a0 génio, enquanto capacidade de en- genho artistico, escapariam & pura aplicago dos conceitos e ao raciocinio analitico. Mas essas idéias ou correlagées traduziriam apenas um de- tivativo do conhecimento racional; ainda que considerado um dom inato, o génio nao excede © alcance da fantasia subordinado a razio, nem autoriza o desvio das normas que fazem da beleza, dentro do circulo da legalidade univer- sal, 0 eventual acompanhamento da verdade soberana. Reinterpretando a mimese aristotélica, ou seja 0 nexo entre arte e natureza, na perspectiva 31. Hewes. Op. cite py 113, 32) “Antes de tudo, tenho. que afirmer, com respite ao clo sio excessivo da raz Ramana, que & muito’ menos essa rardo, posto assim dizélo, do que um cego destina, equi. a Se coisas ¢ que agin nesta evolugio gerald mundo", Tenet hts RB 53” Niavanwors, Hans. The Philsophy of History iu our time, Introducion. Doubletay, 10, 60 do belo como objeto dos juizes de gosto — dos juizos de cardter contemplativo © desinteressa- do, que permitem qualificar de estética a expe- riéncia relativa ’s coisas naturais e as obras de arte — foi Kant quem preparou a excepcional autonomia da nogdo de génio. Gracas & satista- do desinteressada que provocam, as coisas na- turais que so belas, parecem livres produtos da Natureza; as obras artisticas so tanto mais belas. quanto mais aparentam essa livre finalida- de atribuivel 4 Natureza, quanto mais assumem © aspecto de uma formacio espontinea, que se sobrepée aos artificios da arte, As artes do belo participam, como qualquer técnica ou es- pécie de artificio, de uma recta ratio formandi. Todavia, 0 aspecto espontaneista que as apro- xima do plano da natureza, mostra-nos que, modelos singulares, as obras artisticas no se produzem mediante a aplicagdo de regras gerais (do mesmo modo que o belo agrada sem concei- to). Dai a proposigao kantiana de que as artes do belo ou.as belas-artes so as artes do génio, € que 0 genio € 0 talento dando regras & arte — talento capaz de infundir a um attificio a aparéncia espontinea da Natureza. Néo somen- te a genialidade exerce uma funcao reguladora; como talento, ela é um dom natural, e, como dom natural, é uma capacidade especifica que pertence A Natureza, Ultrapassando, por conseguinte, na estética de Kant, a significagio de um simples engenho, a nogio de genio comecou a mudar de sentido, desde a segunda metade do século XVIII, quan- do nela se introduziu um elemento de transgres- séo permanente, indo da infringéncia dos pa- drdes clissicos entre .os pré-rominticos ingleses & infringéncia dos padrées sociais de compor- tamento entre os Stiirmer. Mas além da rebel- dia estética e do sentimento de revolta contra a sociedade que tal dupla infringéncia compor- HM. CE § 45 (Sehine Kunst it cine Kunst, sofern se Zagleich Natur au sein scheint), Kant, Kvidh der Unelekraft, Reclam 35. “oo. Genie ist die angeboene Gemisteanlage (ingenium) durch "weleke die Natur der ‘Kunst die Resel gibt” (46 Krai arr Urtetstrat, ed, et ‘wa, a reavaliagdo kantiana ainda apontou para \ma outra espécie de desvio, transgressiva da dem racional, e que, pondo em xeque a autor ide da razio tedrica sobre a fantasia, autori- 2a a fazer-se do génio, sem medida comum m o talento para a investigagdo cientifica, um tho de organizago mental e espiritual a parte. Cymo ele produz sem imitar, aprendendo a fa- Zz téo-somente o que as determinagdes interio- res the ensinam, 0 génio artistico conhece ape- mes quando produz, e assim conhece, apenas Pela intuigo, 0 que 0 conhecimento racional jamais alcanca. Para o pré-roméntico inglés, Edward Young, o poeta genial estard, pela ma- ira de proceder, que o afasta do espirito ju- dicioso, mais préximo de um magico que de um arquiteto®, Shaftesbury, que influiu na es- tiética de Kant, via no talento artistico a capaci- dade de criagéo, equivalente a intuigao das for- gas que mantém a unidade do universo*”. Talento originério para a arte, faculdade e dom inato, intuigéo e predestinagéo, 0 genio tomou-se, no Romantismo, o mediador entre 0 Eu ¢ a Natureza exterior. A faculdade de repre- sentar artisticamente, isto é, de apresentar idéias estéticas, que Kant Ihe atribuira®8, converte-se, para a visio romantica, no poder intuitive cog- noscente (a Magie der Einbildungskraft de Jean- -Paul), ao mesmo tempo criador e express vo, da imaginagio poética, acima do conheci mento empirico — poder correlative 4 capaci dade expansiva e a forca irradiante do Eu, a originalidade e ao entusiasmo, e no qual se te- fletiriam a profundeza, a elevacio, a espirituali- dade ¢ a liberdade da vida interior. O Romantismo alemao, particularmente, con- feriu a0 génio, que foi uma das bases do idea- 16, 0 arquiteto “constr lentamento 9 seu edificio: 0 outro s-9 mime instante por mos ivisivis™, aw Trsncex, Pal Le Mouvement Romantigne (Angleterre —~ Allemagne — Tislie — France), Tester choisity commenter et annotde, Libraire Vulbert, pee. 37. Vide Eaxsr Cassinen, Filosofia de la Hustracon, Fendo de Coituray pp. 349-85, 38. Nrepresentagio da imaginagio (Vorstlting dor Ein tildunoskrai) que di muito 2 pensar, sem que no entanto algom pensamento determinado, isto f, alum conesite, The seis adeau foe Rawr, Krist der Oroteret, 19, lismo de Schelling, de sua filosofia da Natureza, continuada pela doutrina enciclopédica de No- valis (indiferentemente denominada de idealis- mo ou de realismo mégico), uma posigio teérica e pratica superior, de- porte ético, estético & metafisico, supra-sumo da originalidade do in- dividuo singular e do estado de entusiasmo, Na imaginagio poética a que Schelling trans- ferira a intuigdo intelectual de Fichte, 6 que se completaria a atividade produtiva do espirito, jé operante nas formas da Natureza. Assim, € na obra de arte que o Eu alcanca a intuicio de si mesmo como Absoluto (a intui¢do artistica se- ria a verdadeira espécie de intuicdo intelectual, porque cria o seu proprio objeto), e que a in- dividualidade orginica da Natureza, regressiva- mente esclarecida, se revela como operagio ar- tistica, produto do entendimento, do nous poie- tikos que a penetra ¢ anima. Orgio do conheci- mento realizado, a arte solveria as contradigées entre 0 subjetivo e 0 objetivo, o consciente ¢ 0 inconsciente, o real e o ideal, a liberdade e a necessidade®, que o artista genial supera ¢ reabre a cada passo. Representando o finito no infinito, a arte, que tem a forca de uma revela- cdo eterna, também realiza a unidade entre a beleza e a verdade, e descerra a unidade congé- ita da filosofia com a poesia, reconhecida por Schelling e proclamada por Friedrich Schlegel *®, Enquanto o genio passa a ser a capacidade sintética que universaliza ¢ transubstancia*, a 89. A intuigdo artistca, que preside as operagdes da. fils fia, 6, m0 mesmo temo, intulgo da liberdade «a, Natutera. O impaleo artisien soluciona a eontradigio interna de que sce, oreo #énlo exh para a estén atsim como o Eu est para 2 filoofas O eardter absoluto «a tuperiridade dx arte acham-se fondados no génio, que € estranho e incompativel com a ciecia, Ver Senscuncy wn 62-170 40." A ‘unidade ot a euivaléncia da verdade com a beleza, antes. proclamada, por Stattesbury, adqire. ent aot sentido de reprovsgio i elénelae a0 conecimento. eacional. Tratase. da terdade fntutiva, a altura. da eleza. dos verse de Keats: "eauty is truth, truth beauty, — that is all/ Ye know on earth, and all ye need’ to know" F. Schlegel: "Tuda atte deve tornarse cigncla; poesia e filo ype deve anigse™ 10cm de to eenin ne” 3 compenetragio. seals ji no esforga commu dos omanticos de Tena a symhlloaophie, Vers Hive, Racatds, Ler Roman figuer dllemondn, Bi. Granct; Fanveuss, El Romavticisma en Alemania, "BA. Argos. “HL. Novas, Enevelopédie, y. 322. A VISAO ROMANTICA 61 4M se volve no modelo da atividade espiritual, cOnpartindo, em sua esséncia, do cardter supe- rit, profundo ¢ intimo da realidade eterna e aboluta, de que é a tnica via de acesso. Mas em todo Romantismo europeu, a excep- ital autonomia do génio, resumindo a figura da verdadeira humanidade — do homem tal Ono & e tal como devera ser — ‘do homem ca- p% de ligar o ideal e 0 real — correu parala- mente & excepcional relevancia religiosa e ética, serio metafisica, da poesia (quer no amplo sen- tido abrangente da literatura e da arte, quer no settido estrito da lirica), como um novo reino dios fins espirituais. Guardando as significagies de espontaneida- de criadora, de poder intuitivo, de manifestagie original de forca da Natureza, que confluem pa- 2.0 entusiasmo, como exaltagao platdnica do i dividuo possuido ou inspirado, a idéia de génio se pluralizou & época do Romantismo. O cardter de um povo € considerado a floragio do seu g nacional; 0 legislador que prevé, 0 fildsofo que intui, 0 homem de Estado que modifica o des- tino coletivo, 0 homem de agio que arrosta a fortuna com a presciéncia do futuro, e o homem religioso de dons proféticos, sio outras tantes encarnagdes do génio individual. Mas 0 poeta 6 0 genio por exceléncia; mediador entre 0 Eu e a Natureza exterior, 0 genio nacional floresce através e por forca de suas obras, a cuja lingua- gem se vai conferir um alcance original forma- tivo, a altura do trabalho do legislador e proxi- mo do visionarismo mistico ¢ profético, quando nao de uma importincia transcendente & espe- culagio do filésofo, & atividade politica e a ciéncia, que ela possibilita, elucida e perpe- tua, E que, altivo, incompreendido ¢ distan- te, 0 poeta romintico impde-se, intimado pela inspiragio que o visita, a tarefa universal de legislador do reino dos fins espirituais intangi- veis, onde, imune a lei da causalidade ¢ As mu- taveis circunstincias do mundo exterior, ocupa, 442. Ura dos principais temas de A defence of poetry, de Staley 2 como o viu Lamartine, um lugar firme e elevado em relagdo a humanidade: Assis sur fe base immuable/ de 'éternelle Tu vois d'un ceil inalterable/ Le nité, (Meditations, XX, “Le Genie" verité/ hases de Vhuma- Nessa tarefa ele nao somente se define como porta-voz ¢ guia espiritual de seu povo (Shelley), sébio, humanista, guia para todos os homens (Keats), mestre verdadeiro (Wordsworth), mas também’ como um mago, um mégico, um pro- feta _visionario. Insepardveis do tom confessional e, sob o pressuposto da inspiragao, da tendéncia ao es- pontaneismo, que sobredeterminaram a lirica na fase romantica, tais funcdes pedagégica, tera- péutica, mégica, divinatéria, encantatéria, que © poeta, misto de cantor e de vate, assume, na medida em que exprime a originalidade de sua vida interior, acompanham o fenémeno de uni- versalizagao ¢ de autonomizacio da poesia que o Romantismo desencadeou. Ora linguagem original e primitiva, ora lin- guagem intercomunicante dos dominios religio- so, ético e filoséfico, a poesia, superior a ciéncia, andloga a filosofia, capaz de exercer uma acio moral e de purificar a religiéo, sus- tentada por um processo apologético de digni- ficacio, alca-se a um plano de universalidade cultural e histérica, penetrando horizontalmen- te em todos os dominios da cultura, e enlagan- do-se verticalmente, desde os primérdios, ao desenvolvimento sécio-histérico, Na sua primeira conceituagdo, Schlegel, devida a a poesia romantica € a poesia universal progressiva. Seu destino nio & simplesmente unir de novo todos (5 setores separados da poesia e apresentar 0 entto- samento da poesia com a filosofia e com a retética, Ela quer e deve misturar, fundir completamente a poesia ea prosa, a genialidade ¢ a critica, a poesi da arte © a poesia da natureza, tornar 2 poesia vi © socidvel, ¢ poéticas a vida e a sociedade, poetizar 0 espitito e preencher as formas de arte com atraente matéria e animar cada espécie com as oscilagdes do humor (Frag, 116.) Urras, Ciprestes ¢ Vasos Cineririas, Roma, Villa Corsini, por Giovanni Battista Piranesi, Anbito da comunidade dos génios com Dan- ‘ts, Shakespeare, Cervantes, Calderén, Lope da ‘Vega e Goethe por centro, no eixo sincrénico 4 "sua _penetragio horizontal, a poesia emol- dura, no eixo diacrénico de seu desenvolvimento Wittical, 0 quadro sintético da evolucéo da hu- manidade, seguindo as etapas exemplarmente configuradas por Victor Hugo no “Prefacio” * de Cromwell ®, Essa universalizagao cultural ¢ his- ica penetrante, que se deve a perfectibilidade Progresssiva da poesia, e logo ao seu senso do infinito, estabeleceu entre a poesia e as aspira- Gies religiosas um nexo congenial atado pela consciéneia concentrada em si mesma, aspiran- te da infinitude, e que teve como fulero, de acor- do com © consenso undnime dos roménticos, o expirito de cristianismo, Projetando a poesia como realidade hist6ri- a, ¢ assim interrompendo a disciplina canénica do gosto clissico, uma tal universalizagéo 6 0 aspecto extensivo da concomitante autonomi- zacdo do imagindrio, que se destaca da vida es- piritual enquanto principio de desenvolvimento independente, ao mesmo tempo que a arte se comportamento espiritual do poeta roman- tiC®, dando o acento impulsivo de sua sensibili- dats conflitiva, é a aspiragéo do infinito, como afisio vago e indefinido — que a palavra Selnsucht exprime — como inde‘erminacio do desjo, amor da infinitude pela infinitude, e da procura pela procura, que transbordou na ironia da forma e da vida. “Est-ce ma faute, si se trouve partout des bomes, si ce qui est fini n’a pour moi aucune valeur?”, exclama René. Obrigado a perseguir © Objeto diferido de seu desejo, “qui n’était nulle part et qui était partout”§', assombrado_ pelo fantasma de um ideal a realizar, fata Morgana que diante dele se distancia e se esvanece 8, 0 romantico se fixa & inquietude que o dilacera, ¢ amando © contraste pelo contraste, vive, em meio de antiteses, uma existéncia duplice e des- dobrada, A ironia, de que os roménticos alemies de Tena fizeram um valor positivo da vida e da arte, € a ilimitacdo da inquietude espiritual no que tem de alentadora e deceptiva. Como “consciéncia clara da eterna agilidade, do caos infinitamente pleno”, da definico de ironia por F. Schlegel, esse jogo ilimitado do espirito infinito, que ten- de a ultrapassar tudo, inclusive qualquer espécie de forma artistica, inferior ¢ efémera em relagao aos sentimentos efusivos — cuja Tinguagem ori- ginal, a juizo de Wackenroder, é a misica —, submete a vida ao capricho da subjetividade evanescente, efeito da concentragio do eu no ev, pela qual todos os lacos so rompidos, ¢ que nfo pode viver senio na felici- dade que proporciona 0 gozo de si mesmo’9, 52, Cuarzauanuano, Rend 58, Ch Rave Trucs, op. city 9. 6 59, Eshdtigne, Avtiet, vol 18, 9, 92 Estaria af o extremo limite do individualismo egocéntrico, que Hegel assinalou na sua critica 4 ironia de F. Schlegel, Novalis e Tieck. Uma ironia mais profunda, uma ironia tré- gica, haveria de marcar o Romantismo, na acep- do estrita do termo, e 0 sentido dos valores da visio romantica. Por um lado, o inatingivel e 0 invistvel, transformados na instincia poética da alidade superior e verdadeira, encerrou as 1 gides privadas do artista, abrigado no ideal. Sao as regides do sonho adordvel abertas pela mési- ca®, regides onde, habitante do mundo feético, do munde das fadas *', como o Anselmo do conto “O Vaso de Ouro”, de Hoffmann, 0 poeta se abri- ga do real, nos jardins de Serpentina. Evasiva evanescente, a aspiracdo ao infinito se identificou com a infinitude do desejo insatisfeito, Sequioso, aspirante de uma plenitude imposstvel com que a satisfago estética Ihe acena, o artista romanti- co, erético ¢ sonhador, é, na acep¢ao kierkegaar- diana do termo, o homem do desejo, Simula de um comportamento espiritual e de um modo de sensibilidade, 0 préprio elemento “roméntico” seria, na definigtio de Kierkegaard — o primeiro critico do Romantismo depois de Hegel, — “o perpétuo esforco para apreender aquilo que se desvanece” €, Vista sob esse Angulo, a critica de Hegel & ironia revela a natureza sintomal da visdo roman- tica que, presa da ‘mA infinitude”, concretizava, em conflito com a realidade cultural-da época, 0 momento da “consciéncia infeliz”, de que tra- tou a Fenomenologia do Espirito. IV. © processo do Romantismo Por trés da atragio dos cendrios naturais, da fruigio voluptuosa da paisagem — “a varieda- 60, “... pois eu sei que tu também penetrate nestas rides omintieas que" a magia eeleste dos sons. provoca”, Horruan, Dow iar. "E contado, cao leitor, existe um reino felsen, chlo de" espantosas maravifhas, euja poténcia. scbrebumana produ eate 0 éxtase supremo 0 espanto inbondivel” “Hor? any, "0 Vaso de Ouro", Gi. “Somente a franqueza dos nossos drpfos do nosso cons facto, conoseo mesmo Impedenos de_peresber que vivemos num mundo de fades” Novauts. Encyclopédie. 1678 62." Ch Trax Wart, Studes rierkeaardiennes, Anneset, Bxtrite du Towrnal (18341899), Aubier, p. S81, ds, a grandeza e a beleza de mil espetdculos sur- teendentes”, que Saint-Preux jé descrevia a Jé- Ti; por trés do nomadismo spiritual desses prendizes, o Heinrich Ofterdingen, de Novalis, 0 Sternbald, de Tieck, émulos de W. Meister, €m didlogo com os quatro elementos; por trés do nomadismo geogrdfico, que vai de Chateau- biiand a Gérard de Nerval, a busca do sublime ou do exético, dos recantos solitérios que tran- Giilizam, das paisagens remotas que acendem © desejo da terra paradisiaca, ou de lugares em muinas, abandonados pelo homem, que desper- tam a nostalgia da terra perdida — por trés des- ses aspectos do culto da Natureza, enquadrados tum confronto dramético com o mundo, esta si- Thuetada a técita insatisfagio com o todo da cultura, misto de afastamento desencantado ¢ de reprovacio & sociedade, depois do assomo liber- tério do idealismo politico de 1789. culto da Natureza, convém lembré-lo, co- mMegou sem esse afastamento desencantado; li- gou-se 20 Contrato Social de Rousseau, e lua um principio de esperanca politica. Ainda quando se refugiava as margens do lago de Bienne, nos “‘charmes de la nature” que 0 com- pensaram das incompreensoes ¢ injusticas softi- das, a decepcao misantrépica de Rousseau pelos homens manifestou-se como afronta A sociedade. Que maior afronta do que o exibicionismo do écio, do estado de farniente, no Reveries dun Promeneur Solitaire, especialmente no relato da Cinquidme Promenade? A aspiragio arcédica de Rousseau, implicita nos dois Discursos, em A No- va Heloisa ¢ no Contrato Social, consumou, de fato, a politizagdo do conceito idilico da Natu- reza, que Schiller assimilou e transmitiu a primeira geragéo dos roménticos alemaes, leito- res, sem excetuar Hoelderlin, da Teoria da Ciéncia 63. “ses le plaisic de ne voir autour de soi que des objets tout nouvedirs, ds oiseaux Mranges, des plates bzarres et incon= fuss, observer en quelque sorte une autre nature et dé fe trouver dane un nouveau monde", La Nowelle Hélose, Lette XXL 4. C£ Avsanancx, Mimesits le reoided en lx literature Fondo de Cultura, p, 43. de Fichte, das Cartas sobre a Educacéo Estética ede A Poesia Ingénua e a Poesia Sentimental. Incorporados a uma parte considerivel da gestualistica dos sentimentos que os interiori- zaram na literatura, 0 desencanto, a reprovacio, € até, como em Byron, 0 repiidio’altivo ¢ deses- perado da cultura e da sociedade ®, que nio fo- ram s6 a revolta dos dandys®, j4 sio, passada a rdpida fase inicial da juvenilidade entusidstica do movimento romintico, o fadério daquela jeunesse soucieuse sentada num mundo em rui- nas, da qual Musset foi um dos intérpretes ®': a juventude desarvorada, perplexa, que regrediu ao Weltschmerz dos Stiirmer, mitificando, sob a fi- gura do mal du siécle, transformado numa fa- talidade inexordvel, a realidade social e hist6rica que se problematizava, ¢ que iria adquirir, até 0 final da primeira década do século XIX, enquan- to os modos tradicionais de vida principiavam a ser corroidos e esvaziados pelas novas estrutu- ras nascentes, um cardter fugidio, exterior e m¢ cnico, cada vez mais alheia 4 vontade dos in- dividuos ¢ cada vez mais fechada e enrijecida, O dilaceramento da consciéncia individual, so- cialmente bloqueada, que se introverte e se afirma como a poténcia interior infrangivel do Eu, negando 0 mundo que a nega, enxertou-se, com o afa de totalidade e de integridade em que o individualismo egocéntrico se externou, no culto da Natureza. Na conformacio da conduta espiritual dos romfnticos, que fez ascender a ilimitacio, a i quietude ¢’a insatisfagio permanentes ao. prim ro plano da sensibilidade literdria ¢ artistica, 0 empenho de totalidade e de integridade, ¢ o dila- ceramento da consciéneia individual que o acom- . Porém dos homens breve ser conhece/, O menos com homens,/ Com quem bem poueo de coma Sher emt ecu enfado acha em si. vida/ pra rex: Thumena & parte.” ‘Bytow, Child Harold, Canto sir. Go.” Para Cans, em L’Homme Revolté, « fieura mais orig ral da'eevolta romintien & 0 dandy ¢ sip o revolucionétio. 67. Toute la maladie dy sitcle vient de deux causes peuple qui a pased par 93 et par 1814 porte au cocur deux Blessures, out ce qui était tout ce qui aera west pas encore. Musser, La confession d'un’ enfont du side, ‘A VISAO ROMANTICA 69. Panha, ndicionaram, através da posigio emi- Rentensente reativa da intelligentzia situada, ¢ do Proces¢© de poetizacao da vida em torno do qual se conv ¢¢giram, nao s6 0 poder mitogénico ®, mas também. a par das projecdes utépicas, o fendmeno das duPiicacdes, das misturas culturais e da su- Pléncia 4 fungdes pela cumulagdo de papéis, com que se {entou contrabalancar 0 rompimento das correlagées significativas da cultura tradicional em mudinca ®, Desewvolvida pari passu com uma teoria poéti= ca da Ofigem do mito e da linguagem na alma de cada povo, a atividade mitogénica do Roman- tismo figou 0 sentido dramético do tempo his- térico, caudal propulsivo transformando as na- gGes, a0 crescimento orginico e & floragio es- pontinea da natureza, que circunscreveria, como tiltimo limite de uma consciéneia retrospectiva dirigida a etapas remotas do pasado, o estado primigénio do homem, onde o natural ¢ o cultu- ral se transpassam e se confundem. Ness¢ estado, o homem € um sonmbulo in- consciente; abrigado no ventre maternal da Na- tureza, que se revelaria depois nas imagens onf- icas ¢ miticas, ele é, para Joseph Gérres,. como © verbo e a palavra da terra”. A mulher que Gérard de Nerval Ihe dar4 por companheira, mis- to de mie e de divindade, assimila as figuras das deusas cténicas primordiais™, Além da Terra- 68. Sobre a estimulo que esse poder mitolégien resebeu da fileafia de Seheling entre os. romantios alemies, ver 0 notivel trabalho “Aspectos do Romantismo Alemio”, de Axato, Rost Pato, in Teeto/Contesto, Editora. Perspe 145-108, 4, Joe Gunuuence Mesgoron falas, de acordo emt Mannheim, no Remantiamo como uma extratégia de revgate das des, ¢ modes de vida de origem, em ltina.anilie, religiosa, inalisno eapitalista — mas uma ememoragio do. ‘irracional” levada a. efeito no. plono da. refles *Saudede do Carnaval, Forense, pp, M6-147,, Nesae sentido foi o Romantismo um cultiyo de tradigio: um tradiefonaliome “eontra o. mundo deseafetigad, destae ‘dos tempos mo- dernos, abertamente exaltado pela Mustraglo — 0 tradicional ape- lida" de iteacional”.Zdem, 'p. 147. ‘A esse respello, atentese para 4 observagio de Hume; The Romanticism... and this ig the best definition 1 can give of it, 1 spilt religion’, “Romanticism and. clasicem”, int Speculations, Routledge, & Keyan Paul, p. 118. 70." Ver, a respelto, Aires Dasuatsn, Der Myth on Orient und Occident' (Eine Metephysik der alton Well, ans den Werker ‘vow J. J. Bachofen), Munigue, Binleitang, CU/CHL, 71. “Assn, em Aurelia, a amante‘do poeta eontundense, nx sma de‘suas aparigdes, com 0 espirito de terra e dos ates, aban 70 -Mée, que constitu o precedente mitico do Volks- tum — do génio de um povo, de seu carter nacio- nal e de suas virtudes morais e intelectuais — além do ser feminino, celeste e transparente, ou carnal ¢ subterrineo, mas sempre superior ao seu ‘oposto masculino, a quem pode salvar ¢ redimir, © sonho, estado primitive da alma humana e “segunda vida do espirito” (Gérard de Nerval), foi- outro dos grandes mitos do Romantismo 7, Proveniente do mesmo empenho de totalida- de, 0 amor ao passado, que se distendeu as fontes remotas e as origens da unidade da espécie, mitifi- cou a Idade Média e poder espiritual da Igre- ja nessa fase. Assim é que 0 compromisso, que marcou a viséo romantica, entre a simples espe- ranca utdpica € a confiante adesio ao papel so- cial e politico regenerador do cristianismo, re- fletiu-se no escrito de Novalis, Europa ou a Cris- tandade (1799), que prenunciava 0 restabeleci- mento da unidade das nagdes e dos Estados, gracas ao dominio espiritual da Igreja Catélica, finalmente levando de vencida, pela virtude dos tempos novos, sequiosos de uma verdadeira reli- giosidade, o cisma protestante. Que sustentard, pergunta Novalis, o esforco que revolucionou os Estados, se no for uma poténcia espiritual, su- perior as poténcias terrestres? Chegando a bem alto, a Revolugdo esti condenada a trabalhos de Sisifo, “a menos que uma atracZo do céu man- tenha-a suspensa nos cumes a que se ergueu” "3, A teligio, que tem o poder de despertar e de unificar a Europa, e, reunindo os Estados numa sociedade supranacional, conferir-lhes um Eu po- Kitico superior, € o cristianismo da antiga £6 ca- t6lica, antes de Lutero: Rebate-se sobre essa construgdo novaliana, que ainda conserva o vigor do idealismo politico tendo os elementos vegetais ¢ luminosos da Naturera. A mulher é, para Gérard. de Nerval, um ser primordial, figura, mitica fits epost po8e J figure, identiqae et eanemie, une femme charnelle ou, sou: terraine” de Nerv 72. Cf, Acrenr Beavrs, (Bara ‘sur Te romantisme allemand ef 1a: pobsie frangaise), Jose Conti Th, Novauis, “Europe ou la ehrétienté, Le Romantisme Alle- rand" Cahiers de Sud, pp. 412434. notivado pela Revolugio Francesa, de que 0 tini- % legitimo herdeiro foi Hoelderlin, e em que erpassa, com a ondulagdo do tempo histérico Iogressivo e transformador, o sopro da confian- ta no porvir, que faltou a Le Genie du Christia- tisme, de Chateaubriand, — inteiramente nos- ‘igico e saudosista — a romantica adestio 20 mundo intangfvel do ideal, que serviu de escudo 4 evasionismo, ¢ de fixador da racionalizacio ideolégica, mundo intangivel a que se atribui, quanto mais alto se acha colocado, uma eficd- tia espontinea irresistivel, imune as interferén- as do real empitico, Entrangado a linhas ideoldgicas bastante nf- tidas, 0 utopismo roméntico seguiu 0 sulco do Processo de poetizacdo da vida em sua totalida- de, & custa do qual se delinearam, como pers- pectiva promissora oculta da realidade, somente descobertas pelo genio, as duplicagdes ¢ as mis- turas de dominios culturais distintos, das quais 4 Enciclopédia de Novalis (verdadeiro modelo antiiluminista de enciclopedismo fragmentirio) pode ser considerada o principal reposit6rio, As duplicagdes comecam ao nivel da Na- tureza fisica, que se desdobra num sistema espi- ritual; passam & individualidade humana, que se desdobra num organismo fisico e metafisico; con- tinuam na arte, duplicada por uma “arte eterna” que © transcendentalista Emerson viu manifes- tar-se nas coisas; encontram-se na_ religiao, abrangente de todo 0 dominio do supra-sensivel e do supraterrestre™* — cindida porém nu- ma forma natural ¢ histérica e numa forma ar- tistica ou poética — e aparecem, ainda, na ética, polatizada entre 0 senso moral interno ¢ a Ici moral externa. As misturas se revelam nos com~ postos hibridos — a ética poética, a poesia cien- tifica, a fisica teoldgia, a filosofia poética —, que o génio elabora, e dos quais extrai um co- nhecimento de ordem superior. Mas tanto as mis- turas quanto as duplicag6es significavam o resul- sultado de uma reagdo transversal, sub specie 74. Novauis, Eneyclopédie, 1766 wea artis, a0 deslocamento dos valores que se produ- Zia socialmente. O sentido histérico universalista da evolugdo da poesia e das artes em geral, coincidiu, para os romianticos, que interiorizaram o sagrado e sacra- lizaram a arte — num contexto em que se con- fiava a religiéo a guarda dos valores tradicionais, senio a propria defesa da ordem instituida —, com 0 sentido do desenvolvimento espiritual da humanidade. Sob esse aspecto, na medida em que se manteve imune a essa interiorizagio do sagrado, fazendo da poesia um meio de revelar- -lhe a presenga ausente no corpo de uma nature za plana, sem desdobramentos supra-sensiveis, ¢ sem sacralizar a poesia, a obra de Hoelderlin continuaré sendo uma pedra de escéindalo den- tro do romantismo histérico, Firmava-se, enfim, algada a um plano ideal, a superioridade da arte ou da poesia, como um dominio privilegiado e transcendente, veiculo. de todos os valores e prinefpios da formagio espiri- tual do homem, Paralelamente ao alargamento da forma romanesca — do romance, elaborado interpretado como forma literdria’ épico-lirico- dramética, sinté'ica e inclusiva, capaz de conter a variedade dos aspectos da existéncia individual e a diversidade dos interesses humanos > — a li- teratura, a que se delega uma fungio de sintese, de unificagdo e de totalizagio, preserva a tinica possibilidade de acio pedagégica, de formagao (Bildung) humanistica, possibilidade que Wag- ner reivindicou para a arte, como instrumento revolucionério "4, A pedagogia, a Bildung romantica, foi, con- tudo, 0 confinamento subjetivo da antiga paideia humanistica; sem aquela irradiagdo ética do ideal 75, “Arte do romance. A absoltiracio — a universlizao — 4 cltificagio: do clemente individual, da situagio tndividual, ete, © fessencia proprig a romantizagio", Novauts, Op. eit 75. Como se vi. do escrito de julbo de 1849, drt Revolugde, de Richard. Wagner, humanites € j8 3° bere hs dade antistica que a arte Jo futuro deveri compreender formar, ‘A educagio "“Yortar-seei sempre mais aristica, um die 2eremos todos artistas..." Wacnsn, Richard, L’arte ct ly Rigeustone (e altri seri politi’), 1848-1851, & cura di Marsio Mangia, Gaara ‘A VISKO ROMANTICA 71 schéllriano da educagao estética conjunta do in- divé4io e da sociedade, esgotou-se no culto da arté> de que o ritualismo da mésica wagneriana foi @consumagio, preparou o caminho para 0 estetijsmo, que se firmou na segunda metade do séctth XIX, j4 no Ambito do realismo, Muito proxino da egolatria, esse culto, que adotou o ethOS da tejeigio religiosa do mundo do asce- tisi° cristo, sacralizou a arte, que se torna, para adotirmos as expressdes de Max Weber, “um cosim de valores independentes percebidos de formmt cada vez mais consciente, que existem por si mMtsmos” ", Na visio romantica, o cosmo ar- tistico é um meio soteriolégico: a arte sagrada exer “a fungio de uma salvagio neste mun- do" ® Dentro dese quadto da condigio soterio- logica ¢ transcendente da arte — transcendente pela sua propria esséncia, e porque, drgio do Abscluto, dé acesso as regides supra-sensiv espirito — é que 0 poeta genial, recebendo as or- dens sagradas quando a ele se transfere 0 caris- ma Teligioso, assumiré papéis cumulativos, que 0 colocam numa posigio eminente, “Le monde en- tier passe 4 son crible”, dizia Victor Hugo, Mas na proporcdo em que fazia’ do poeta o suplente inerme de funcdes sociais neutralizadas, esse acdimulo de papéis marginalizou-o. Excepcional ¢ solitério, guia obscuro da hu- manidade, tardio descendente da raga dos magos, dos profetas ¢ dos videntes, ¢ sobretudo decifra- dor da Natureza, que por ele se deixa ler como um livro aberto”, detentor de verdades inaces- siveis 4 maioria de que se dessolidariza, sentin- do-se mais préximo, pela atividade nao-utilitéria, ngo-produtiva, € pela sua dependéncia a ima nagio, das criangas e dos loucos, 0 poeta romén- tico, j4 habitante das metrépoles ao aproximar-se 77. Wana, Max. Fnsaior de Socicloniv. (Orgonizacio © 1 trodugéo de Hl. H. Gerth e C. Wright Mill), Zahar Eiiioves, 2. cd, 9 38h 78. ““Broporeiona wma seloagdo dae rotinas da vida cotiia na, © especialmente das eresentes prentSes do rovioalisi tei 0 ratico”” Wenen, Max, Op. sip. 191 anil est toujours feilleter ta naturef Car est fa grande letre et ln grande eoeritwee™, Neen, Viet “Auteetis VIII (Les Contemplotions). n © meio do século, sé a custa da vida boémia poderd preservar 0 écio, 0 farniente rousseauista, Acionado por um processo de sublimacdo, © comportamento espiritual, que dele se tipifica na literatura, eristalizou-se no didlogo com a Na- tureza, e teve como focos principais o amor e 0 oder, tematicamente condensados no erotismo € no satanismo, De uma voluptuosidade nareisistica, que se alimenta dos “langores da alma entenecida”, que Julie conheceu diante de Saint-Preux ®, ex- teriorizado por aqueles amaneiramentos da fina observagio de M.™° de Staél®, 0 erotismo ro- mantico esteve tio distante do amor-paixio quan- to o amor de Werther de Goethe por Carlota esteve distante do amor do Octave de Musset por Brigitte. O amor romantico nao conhece mais a en- trega absoluta do amor-paixio, que sacrifica to- dos os valores 4 mulher divinizada, Tanto mais sensual ele € quanto menos sexual quer ser, ¢ tanto mais sexual se torna, quanto mais, afetando pureza e elevagao do sentimentos, elevado A ca- tegoria de “lei celeste tio potente e téo incom- preensivel quanto aquela que ergue o sol no fir- mamento” ®, ele envolve os amantes, parceiros desiguais, ou angélicos ou perversos, entre mo- mentos de éxtase, num antagonismo_sadomaso- quista. Angelical como Brigitte ou maligna, como membro da estirpe de femmes fatales — a que pertencem a Cecily de Eugéne Sue ou a Carmen Mérimée —, a mulher, sempre mitificada, con- serva uma auréola de pureza, de mistério e de plenitude inacessivel ao homem, © amor roméntico oscila entre extremos de abnegacdo e sacrificio, quando exaltado, e de li- beriinagem e deboche suicida (Rolla, de Musset), 80. “Que de delices inconnues tu fig dprouver A mon ene 0 winiesse enchanterense! "0 Tanguesr d'une ame_atendrie La Noweele" Heloise, Lettre, XXXVIM de. Saint Pretx i Sule, " es sins de voix muanierés, ces revarde qui veulent tre vas, tout, cet appareil enfin de Ta sensibiite..” De Fle rue, Quatridae “artic, ape NITE (Dg. ly diausition| Imantigue dans les affections dy coeur), p. $21, ed, eit Sz. Musser Lu Confession ou cufant di sidele. Teisieme Partie, Cap. VT Sando decepcionado. Mas sempre em intima Waco com o estado de fruicdo estética, incor- Porando a antecipada melancolia que 0 envene- % diante da transitoriedade da beleza “Beau- 4 that must die” — que Keats exprimiu na Sia Ode on Melancholy, 0 amor €, como dir Nax Scheler, mais a consciéncia reflexiva do ’mor do que 0 proprio amor ®, Fantasma do 4isejo insatisfeito e indefinido, 0 amor serd, as- sim _compreendido, um auténtico paradigma da sinsibilidade romantica, de que foi a motivacio Piicolégica fundamental e o tema prioritério, pathos da rebeldia, implicito a0 individua- lismo egocéntrico, desse desejo insatisfeito e in- Gefinido, sublinhou-se no satanismo, transfor- mando a sede de conhecimento e de poder na cusa de um conflito dramético de proporgdes teolégicas, pelo qual o homem nio € 0 tnico agente responsdvel. Como poténcia éspiritual ex- terna de atuagio ambigua, maléfica e benéfica, ée que 0 homem se aproxima, com quem pactua por vontade propria, ¢ contra quem se debate, Lécifer, anjo caido e acdlito de Deus, instiga a sede do poder e do conhecimento, a fim de tornar a consciéncia, tal como no Manfredo de Byron, presa da morte e da consciéncia de culpa, Adver- sirio e aliado, antagonista necessério que trans- figura a drvore do Bem e do Mal na arvore da vida, a0 encorajar 0 homem a, infringindo as interdigdes de Deus-Pai, defrontar-se com o seu destino ¢ com a morte, Sata, fonte do vigor do espitito ¢ da imaginagéo para William Blake, “aquele que fala aos homens nos desejos do co- tacdo e nos sonhos da alma” (Vigny), & o sim- bolo maior da sequiosidade ambivalente da al- ma roméntica, de sua introversio, de seu desdo- bramento interno, do conflito entre as suas as- piragdes ideais e a sua impoténcia teal: simbolo de tudo isso que 0 Primeiro Fausto de Goethe, ja num plano que ladeia e supera 0 Romantismo, 83. “Essa ida faz do amor, inclusive da mera conscéncia > amor, fee da reflerda sobre’ 0. amor, compreendida fomo o proprio amor, uma expécie de Tart pour Tart” Ervencis § forma de 1a simpatic, Losada, p. 162 captou e sintetizou como tragico embate do des- tino humano. A ascensio ¢ a descensdo, a subida e a queda vertiginosas, verdadeiros padrdes retéricos, que tipificam, na lirica e no romance, a conduta espiritual dos romfnticos, acompanharam a “tur- buléncia faustica” em que se forjou “o escudo de sublimagdo ou do ideal do eu", A sublimagio da conduta espiritual, voltada para as altas esferas, foi um processo inerente & visdo romantica, como visio de época. Limiar da nossa experiéncia literdria e artistica, essa visdio se interrompeu sem perder a sua influéncia in- cessante (haverd sempre rominticos entre nés), por um processo inverso de dessublimacao, cujos sinais precursores efetivos, mais do que no To- mance realista, foram as tupturas dos lineamen- tos expressivista e transcendentalista da escrita na lirica — patentes num Baudelaire e num Rimbaud, em que pesem as afinidades da poe- sia do primeito com a idéia das correspondén- cias mégicas, e do segundo com o visionaris- mo poético ®, A. des-romantizagio — Entromantsierung (Hugo Friedrich) — como tendéncia geral, que se implanta na lirica aps Mallarmé, atingindo no seu centro egolégico ¢ na sua abdbada supra- -sensivel e metafisica — nas suas matrizes ori- gindrias — a visio roméntica, mostra-nos que a arte e a literatura da modernidade se configura- ram polarizadas pelo Romantismo, Tal fato, in- dicativo de uma irradiagao extensiva ¢ penetran- te, leva-nos a considerar a resisténcia da visio 84, Salentes a liries de Victor, Hugo, of, movimentos de ascensio as atturas (de Rogsseas a ChiM Harold), de onde 3 frole contemplar 0. mundo Tiere ¢. superiormente, emolduram 0 Fert do herd tomdntico de seu “ttanismo”. Para o romance Ane tonic Candido destacoa 4 retériea da) aseensio em O Monte Crite, de Alexanre Dumas, Ver "Da Vinganga Anrtese, Companhia, Editors Nacional N Ronttnr Gra, Pescholonie ef Histoire ow “La tragédle Ate Hive Paschnalise ct anthropotopic. Gallina, p. S38 We Sotre ae dierencoe rents que separa a8 respon Aeneas tnuiciiane dn ssa de repcentagio Romani seeesjate te Ane Taxinns Et movie ambtite, Caps TE ‘ecient yl romantic e"fxaleie”) PTA Etre: Mrngeton "Eormalime ne 14: Rermalsme't iadigee moderne O' Probleme Befte'na Cre da Caltra, Etors Foren A VISAO ROMANTICA 73 rOantica, em fungGo do avultamento do sujeito hUuano a que ela se entroncou, na transigéo da Pia clissica, e assim a reinterpretar-lhe 0 card- tt sintomal, em fungao do primado da realida- d€ humana, determinante da episteme moderna dele Kant. Condicionando a repartigao de duas esferas cOhoscitivas distintas — a das ciéncias humanas © das ciéncias da natureza — numa bifureagao dO racional entre a compreensio intuitiva do En- temtimento ¢ a explicagao analitica da razdo te6ri- c@.8 realidade humana foi o fulcro da reagdo mo- dema, consumada sobretudo através das filoso- fias intuicionistas € historicistas, contra a ascen- démia do pensamento cientifico positive, con- tinvador do racionalismo iluminista, O avulta- mento do sujeito instilou-se na tradigao metafi- 4 sica do pensamento ocidental, que desembocou no niilismo, isto & no processo da desvatorizagao dos valores, enquanto processo de crise das bases da nossa experiencia histérica-cultural. A ceritica desse proceso — e da metatisica — passa, inevitavelmente, pela critica da visio romantica e de sua equivocidade fundamental, que Nietzsche caracterizou: como tardia justifica. tiva da f6, como hipérbole de uma grande pai- xo consumida, ela afirmou a caréneia sob uma retérica da abundancia. Perpetuando a fome de que saiu, € de que nos fala 0 autor de A Genea- logia da Moral, ela foi assim, para acompanhar- mos de perto o famoso aforismo de Goethe, muito mais © sintoma de uma doenga do que um estado euférico de saiide,