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DUNKER, C. I. L. - Um Retorno à Freud In: Um Retorno a Freud.1 ed.Campinas : Mercado das Letras, 2008, v.1, p. 107-122.

O Inconsciente em Freud e Lacan

1. Um Retorno a Freud

Christian Ingo Lenz Dunker Instituto de Psicologia da USP

Estas jornadas colocam em pauta a noção de retorno, o modo de realizar este retorno e o destino ao qual se quer retornar. Um retorno a Freud, é a feliz expressão que reúne estas três tarefas. O título é uma alusão ao programa lacaniano dos anos 1953- 1960 conhecido como o retorno a Freud. Em linhas gerais este programa caracterizou- se teoricamente pela retomada dos primeiros textos de Freud, principalmente Interpretação dos Sonhos (Freud, 1900), Psicopatologia da Vida Cotidiana (Freud, 1901) e Chistes e sua Relação com o Inconsciente (Freud, 1905). Além das inovações estruturalistas e dialéticas que Lacan trazia para a leitura destes textos havia uma componente epistemológica importante. Naquele momento os principais debates psicanalíticos concentravam-se em torno de problemas legados pela obra freudiana posterior a 1920. Pode-se mencionar como exemplos desta problemática a aceitação ou recusa da pulsão de morte, a universalidade do complexo de Édipo, a teoria reformulada da angústia e do trauma e principalmente as implicações psicológicas e desenvolvimentais em torno do ego, do superego e do Id. Cabe notar que tais controvérsias induziam certos prolongamentos clínicos como o tratamento de crianças e psicóticos. É um tempo que assistiu inúmeras tentativas de autonomização teórica dentro da psicanálise, como a teoria das relações de objeto, a teoria do apego e a psicologia do ego. Pode-se dizer que este cenário gravita em torno de uma hesitação quanto ao tipo de teoria e, portanto, de progresso e transmissão que se espera da psicanálise. Sinteticamente podemos delimitar uma posição, fiel à própria pena de Freud, que advogava a inscrição da psicanálise entre as ciências biológicas. Considerada como tal a psicanálise deveria avançar a partir de reformulações sucessivas e acumulativas cuja referência é a positividade do objeto à qual se dedica. Nesta linhagem a história dos pressupostos e as hipóteses que deles decorrem, deve dobrar-se à observação clínica. Outra posição, mais fiel ao estilo demonstrativo e expositivo de

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Freud, argumentará que a psicanálise segue parâmetros semelhantes ao da crítica literária e que, ao final, seus critérios de cientificidade são afins ao de uma hermenêutica ou de uma teoria social. Neste caso a história desta ciência psicanalítica é elemento constitutivo de sua própria posição epistêmica. Aqui a figura de Freud exerce a autoridade de um fundador de discursividade (Foucault, 2004). No caso anterior retornar a Freud não é retornar ao autor e conseqüentemente à sua obra, mas retornar aos seus conceitos e descobertas. Lembremos ainda que a tradução das obras completas de Freud para o inglês, feita por James Strachey, veio à luz apenas em 1955, três anos após a compilação alemã das Gesammelte Werke. Esta tradução, como se sabe, continha uma declinação tipicamente orientada para a integração da psicanálise às ciências naturais. Até então o leitor francês dispunha apenas de um montante parcial, esparso e mal traduzido dos trabalhos do criador da psicanálise. É lícito supor que até a década de 1950 o contato do público francófano com a obra de Freud dava-se majoritariamente por vias indiretas, quer pela mão de comentadores, de divulgadores ou justamente destes desdobramentos que a psicanálise viu florescer no pós-guerra. Daí que o chamado de Lacan: o retorno a Freud, possa ser enunciado no universal (o) e não no existencial (um retorno a Freud), pois tratava-se do primeiro contato extensivo e formativo com o ensino deste autor, por parte de uma geração de futuros psicanalistas, o que daria origem a uma verdadeira cultura psicanalítica francesa. Contudo, antes de 1950 já havia uma presença significativa da psicanálise na cultura literária e filosófica francesa. O surrealismo por um lado, Sartre por outro e o marxismo de Politzer acusavam uma recepção bastante peculiar das idéias freudiana, mais ligada às vanguardas literárias do que aos círculos psiquiátricos ou universitários (Roudinesco, 1988). Por ser, supostamente, primeira e inaugural, a experiência prometida no retorno a Freud, sobrepunha o encontro com o conjunto da obra freudiana com este encontro, infiltrado pelas preocupações particulares de Lacan com a psicanálise. Talvez se possa atribuir a esta contingência histórica que reuniu a experiência de um primeiro encontro (o retorno a Freud) com as vicissitudes particulares deste encontro (um certo retorno a Freud), a formação do mito de que este seria não apenas uma leitura entre as diversas possíveis, mas Um retorno a Freud. O uso da maiúscula (Um) implica aqui a condensação entre o um (particular) e o o (universal). Introduz-se assim um coeficiente

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de verdade e unificação que justifica o seguimento conseqüente de uma nova tradição clínica, teórica e institucional em psicanálise: o lacanismo. Passados 26 anos da morte de Lacan temos então esta jornada que separa novamente o qualificativo pela escolha da expressão um retorno a Freud. O problema será então: retorno à qual Freud? – O da primeira tópica? O da segunda? O Freud lacaniano? Trata-se de Freud, autor inserido em uma tradição, ou de Freud inventor de um método que transcende a sua própria historicidade? De certa maneira, a partir dos anos 1970, sucedeu-se com a cultura psicanalítica brasileira, em relação à Lacan, um fenômeno similar ao da cultura psicanalítica francesa, nos anos 1950, em relação à Freud. Uma análoga dispersão de fontes e proliferação de comentários antecede a compilação (ainda inacabada) da obra de um autor. Uma homóloga disparidade entre as práticas institucionais e teóricas verifica-se em relação à experiência concreta da análise. Novamente a primeira experiência com um sistema de pensamento associa-se com esta ou aquela particular forma de recepção, que nem sempre se apreende como tal. Isso dificulta a crítica de seus próprios conceitos e práticas. Isso induz ainda uma espécie de crise permanente relativa aos modos de reconhecimento, diálogo e colaboração entre analistas, curiosamente semelhante às tensões institucionais que assolaram o grupo lacaniano depois de 1953. Tudo se passa como se a descoberta ou assunção que leva à descoberta de uma particularidade (uma maneira de retornar a Freud, de ler Lacan, de praticar a psicanálise) devesse reunir-se ao Um que faz a inclusão entre um e o. A espécie reduzida à seu gênero. Isso leva a um sintoma estrutural, qual seja, a localização e nomeação do um que faz a passagem ao Um, seja este uma escola, um líder ou uma instituição, esteja ele vivo ou morto. Os correlatos históricos são em geral um argumento precário e bastante limitado. Padecem da típica lógica narrativa que ajusta as diferenças de tempo e lugar, anacrônica ou utopicamente, suprimindo contradições e ocultando problemas de tal modo a justificar o presente. Contudo, quero crer que o uso de paralelos históricos, ao modo de um exercício conjectural, ou na forma experimental de um chiste, pode nos ajudar a encontrar o que se encontra suprimido em uma determinada realidade. Freud nos advertiu que um chiste só funciona se entre seu agente e seu destinatário existir uma certa comunidade de referências simbólicas, que ele designou pela expressão prosaica:

pertencer à mesma paróquia”. Portanto, para que um chiste encontre seu critério pragmático de eficácia é preciso poder enunciar um nós e não apenas um eu, você ou

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ele. Convido, portanto, o leitor a suspender, mesmo que provisoriamente, mesmo que parcialmente, sua pertença a uma paróquia particular e acompanhar este provável ou possível retorno ao retorno de Lacan à Freud em torno do conceito de inconsciente.

2. O Inconsciente como Retorno

Antes de estipular seu programa clínico, epistemológico e político, concentrado na expressão retorno a Freud, Lacan já havia valorizado à dimensão conceitual da idéia de retorno. Desde Platão, com a idéia de retorno da alma como reintegração da origem (epistrophé), passando pelos latinos que lhe atribuíram dois novos sentidos, o de conversão a si (conversio) e o de redução lógica aos princípios, até chegar a Nietszche, e a tese cosmológica do eterno retorno, o conceito de retorno apresenta-se como um conceito filosófico. Contudo, foi com Hegel que a noção de retorno da consciência alienada de si, absorvendo sua contradição constitutiva, tornou-se noção chave para o entendimento do sujeito no quadro de uma filosofia da história. Lacan observou que a noção de retorno está presente na expressão freudiana retorno do recalcado (Wiederkehr des Verdrängten). Na composição desta expressão Freud escolhe o mesmo termo que Hegel (Wiederkehr) descartando seu sinônimo mais usual (Rückgang). Vejamos então o caráter estratégico desta noção para o desenvolvimento do conceito de inconsciente. No Rascunho K (Freud, 1896) emprega-se pela primeira vez a noção de retorno do recalcado com as seguintes características: (1) o recusado retorna inalterado, mas sem atrair sobre si a atenção (2) ele aparece como consciência de culpa, vergonha, angústia ou hipocondria carente de conteúdo (3) ele entra em conexão com um substituto duplamente desfigurado no tempo (ação presente e futura) e no conteúdo (ocorrência real e efetiva). Em Novas Observações sobre a Neurose de Defesa (Freud, 1896b) sintomas de retorno são opostos a sintomas de defesa secundária, assinalando o caráter primário do retorno na formação de sintomas. Começa a destacar-se aqui a categoria de regressão (tópica, dinâmica ou temporal) como um caso particular do retorno. Enquanto o retorno é um trabalho produtivo que se positiva em formações do inconsciente a regressão é um esforço negativo que incide de forma causal sobre o retorno.

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Em Sonho e Delírio na Gradiva de Jensen (Freud,1907a), encontramos um ciclo consagrado: recalcamento, fracasso do recalcamento e retorno do recalcado. O retorno se faz respondendo a diferentes exigências de figurabilidade, como na fobia do pequeno Hans (Freud, 1909). O temor aos cavalos é simultaneamente um retorno do desejo hostil dirigido ao pai, um retorno de sua identificação com este e um retorno da angústia e excitação experimentada com a mãe. Exatamente como em Hegel a noção de retorno é empregada para exprimir uma contradição que aparece unificada e suprimida por um objeto. Ainda em acordo com a noção de formação (Bildung) o termo contempla a reunião de forças contrárias e heterogêneas. Em dois casos dedicados ao estudo da paranóia, (Freud, 1911c e Freud, 1915f) examina-se a possibilidade de que exista um retorno do recalcado que seria anterior ao recalcamento propriamente dito. Um retorno que se daria sem que aquilo que retorna tenha plenamente se inscrito no psiquismo. Ou seja, uma espécie de retorno do que não houve, ou de volta do que não foi. Ponto de origem para o problema clínico da construção como suplemento necessário para a tese de um retorno sem origem. Em O Recalcamento (Freud, 1915d) Freud discute criteriosamente a diferença entre retorno do recalcado e formação de sintomas. Todo sintoma é um retorno do recalcado, mas nem todo retorno do recalcado é um sintoma, pode ser, por exemplo, uma formação de compromisso ou um traço de caráter. Assim também o retorno pode ou não acompanhar-se de perda da crença na realidade suprimida (O Estranho,1919h) e de imagens ou de atos (Observações sobre a teoria e a prática da Interpretação de Sonhos, 1923c). Ou seja, pode haver inconsciente sem sintoma, mas não pode haver formação do inconsciente sem retorno. No texto que marca a passagem da primeira para a segunda tópica, Além do Princípio do Prazer (1920g), encontramos um novo emprego para a noção de retorno. A redefinição ou radicalização da noção de pulsão implica em pensá-la, antes de tudo, como um retorno a um estado anterior. Daí a inferência da pulsão de morte como retorno ao estado inorgânico, que precedeu o estado vital. Argumento que se reaplicará também à teoria dos afetos e em particular da angústia, como retorno a uma experiência anterior, o protótipo de um afeto. Os sonhos traumáticos, as neuroses de guerra e os brincar repetitivo da criança tem em comum o fato de que são formas de retorno. Se não há inconsciente sem retorno, o próprio retorno parece se inserir aqui em uma categoria mais ampla: a repetição.

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Finalmente em Moisés e a Religião Monoteísta (1939a), é o pai que centra e explica os efeitos genéricos do retorno como reanimação do trauma. A última formulação freudiana sobre este tema retoma, curiosamente, a primeira, ou seja, assim como na história do indivíduo retornam, com sinal trocado, experiências de prazer e desprazer, na história da civilização, modos de família e de dominação retornam sobre outros de forma invertida. Mas agora Freud pode distinguir as formas positivas e as formas negativas do retorno do traumático. Este breve percurso sobre a noção em Freud nos permite salientar que a noção de retorno é central para a consideração do inconsciente. Quase todos os atributos da noção de inconsciente encontram paridade direta na noção de retorno. Freud pode dizer, por exemplo, que nem tudo que é inconsciente é recalcado, mas ele não pode dizer que há inconsciente sem de alguma maneira afirmar a presença de um tipo de retorno. Isso decorre da abrangência da idéia de retorno. Ela implica o inconsciente como memória e desejo (retorno a traços mnêmicos de satisfação), ou como pensamento e linguagem (retorno associativo, Bahnung) e em última instância a própria definição de pulsão como trabalho de retorno a um estado anterior. Finalmente, mas não menos importante, a própria idéia de transferência, meio e princípio ativo do tratamento psicanalítico, contém referências marcantes ao retorno a traços de relação infantis ou atualização de objetos. Isso sem mencionar a recordação e a rememoração como formas terapêuticas do retorno. Temos então uma primeira definição possível do inconsciente em Freud: o inconsciente é o retorno. Não postulamos aqui uma identificação entre estes dois conceitos, decerto díspares entre si, mas uma noção mais ampla e genérica (o retorno) que condiciona e inclui um conceito central (o inconsciente). O retorno é uma hipótese operativa, não exclusiva nem fundante da psicanálise, o inconsciente é uma hipótese metapsicológica que pretende explicar e organizar as formas do retorno. O retorno pode ser descrito, como fenômeno de reconhecimento, o inconsciente só se apreende por seus derivados. Wieder Kehr, ou seja, novamente, de novo (Wieder) ao qual se acrescenta um Kehr, um círculo, uma volta, uma curva: uma volta nova, um outro turno, um retorno. Daí os cognatos: sich gekehrt (ensimesmar-se, voltar-se para si), Kehrreim (estribilho, refrão), Kehrseite (reverso, avesso). Contudo o retorno pode esquecer sua própria constituição e apresentar-se como retorno do mesmo, como retorno sem

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diferença, é a resistência: Wieder – Stand, o que apresenta, o que se coloca, o que se põe (Stand) de novo (Wieder).

2. A Primeira Inversão de Lacan

Diante desta primeira definição genérica do inconsciente freudiano como retorno Lacan introduzirá uma reviravolta (eine andere Kehr). Sabe-se que a noção de inconsciente era vista com suspeita pelo jovem Lacan. Ela quase não aparece em seus primeiros escritos como a tese (Lacan, 1932) ou no texto sobre o Tempo Lógico (Lacan, 1945) e ainda no Estádio do Espelho (1939). É provável que, advertido por Politzer, Lacan visse na noção de inconsciente um autêntico produto da psicologia acadêmica e sua descrição de processos mentais como uma metapsicologia impregnada de romantismo e idealismo. A preocupação primária de Lacan é com a teoria do sujeito e sua expressão freudiana: o narcisismo. Daí que nestes primeiros textos a função da hipótese do inconsciente seja substituída sistematicamente por uma sociologia da mentalidade coletiva (Lévy-Bruhl), pelo automatismo mental (Clérambault) e pela etologia (Von Üexcull). O inconsciente é assim decalcado, sistematicamente, por figuras da alteridade: o social, o outro mental e o ambiental. Este movimento é estrategicamente importante para descartar tanto o mentalismo dualista quanto o monismo organicista em circulação na psiquiatria na qual Lacan se formou. Lacan reabilita-se com a noção de inconsciente quando esta pode ser substituída por outra que recolhe seus atributos, mas sem o mesmo compromisso epistemológico, qual seja, a noção de função simbólica, extraída de Lévy-Strauss (Estruturas Elementares de Parentesco, 1947). Ora, o inconsciente como função simbólica implica um retorno sem origem, sem conteúdo e, principalmente, sem deformação de um objeto primordial. Ganha-se assim uma concepção de inconsciente que não é reduzida nem à sua função de defesa nem à sua substância formada por complexos. Todavia esta noção depende agora das trocas sociais, no interior das quais a noção de retorno ganha uma outra acepção. Perde-se, em contrapartida, a idéia de sujeito que Lacan queria tanto introduzir em psicanálise. O retorno a Freud, cujo ano base é 1953, segue duas estratégias fundamentais. Primeiro substituir todos os empregos e incidências da noção de inconsciente pelas propriedades imanentes da linguagem. O desejo e o deslocamento (Verschiebung) pela

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metonímia, o sintoma e a condensação pela metáfora (Verdichtung), o pai pelo nome, a deformação (Entstellung) pelo deslizamento do significado sob o significante, a

consideração de figurabilidade (Rücksicht auf Darstellbarkeit) pela escrita, a realização de desejo (Wünscherfullung) pela realização da palavra, a regressão (Regression) pela retomada dos significantes retidos da demanda, o recalque (Verdrängung) como barreira

e constituição da significação. A noção de retorno confunde-se assim com a idéia de

insistência do significante e de repetição do objeto. É a conhecida tese de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, sendo linguagem tomada aqui em sua dupla face de língua e de fala. Sistema abstrato de diferenças entre signos e sistema concreto de trocas sociais a linguagem, assim considerada, mostra-se compatível com o materialismo que Lacan pretente infiltrar em sua concepção de inconsciente. Um materialismo que é ao mesmo tempo uma crítica da positividade e da identidade, intuitivamente presentes na noção de retorno. O retorno do mesmo e o retorno como presença de objeto invertem-se, através da chave da linguagem, no retorno da diferença

e no retorno da negatividade, atributos essenciais da noção lacaniana de simbólico. A segunda estratégia em curso neste retorno a Freud refere-se, portanto, à valorização da negatividade contida no radical Un, de Unbewusste (inconsciente). Lacan opõe-se ao entendimento do inconsciente como não consciência, mas de certa forma essa é uma das surpresas adicionais contidas na encomenda recebida de Saussure e Levy-Strauss. Eles dissolvem a noção de inconsciente ao seu sentido descritivo de inconsciência. Assim como o falante que está em inconsciência das regras sintáticas e semânticas, que se atualizam em sua fala, ou o indígena que troca suas mulheres com clãs específicos, em inconsciência funcional da sua própria prática, o neurótico estaria inconsciente das leis que determinam seus sintomas e demais produções de retorno. O inconsciente é esta Lei, que não deve se identificar com as leis, enquanto conjunto de prescrições e interdições empiricamente pactuadas. Para solucionar este “pequeno problema” Lacan acentuará o radical negativo (Un). É neste ponto que ele introduzirá os ganhos de sua pregressa teoria do sujeito. O sujeito aparece ali onde há negação. Há diferentes gramáticas da negação em Freud, mas a sua riqueza e diversidade não está na teoria do inconsciente, mas na teoria da pulsão. Senão vejamos, a negação contida no recalque (Verdrängung) será revertida na relação entre inscrição no simbólico e retorno do simbólico (neurose). A negação expressa pela recusa (Verleugnung) será revertida da inscrição simbólica para seu

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retorno no imaginário (perversão). Finalmente a negação definida pela foraclusão

(Verwerfung), será lida na chave: aquilo que não se inscreve no simbólico retorna no real (psicose). Note-se como é pelo tipo de retorno que definem-se as relações diferenciais com o inconsciente. Daí que as estruturas clínicas sejam deduzidas das vicissitudes da denegação (Verneinung), algo que Freud jamais poderia imaginar. Lacan notou que os quatro tipos de destinos da pulsão (Freud, 1915c) referem-se simplesmente a formas gramaticais distintivas da negação:

(a) o recalcamento e seus termos congêneres, como vimos, são destinos da

pulsão definido pelo local do retorno.

(b) a transposição ao contrário (Verkehrung ins Gegensteil) define-se pelo

retorno do objeto ou sua introjeção simbólica.

(c) o retorno à própria pessoa (Wendung gegen die eigene Person), ou

narcisismo é definido pelos fenômenos de oposição ou negação simples (discordância, transitivismo, identificação, projeção).

(d) a sublimação (Sublimierung) é definida pela negação do objeto e sua

conseqüente elevação à afirmação de dignidade da Coisa, ou seja, negação como abolição e conservação (Aufhebung). Essa dupla estratégia, de equivalência lingüística e deslocamento da negatividade, é bastante ardilosa, mas consegue ao final e ao cabo preservar a afinidade entre a noção de retorno e a noção de inconsciente. Ocorre que ao final este inconsciente reinventado por Lacan mostra-se tópico (ou sistêmico) ali onde Freud o queria dinâmico (o conflito como determinante do retorno) e dinâmico ou dialético ali onde Freud o queria econômico (teoria das pulsões). Em contrapeso vemos entrar três dimensões ausentes em Freud, o Real, o Simbólico e o Imaginário. O Real, em sua primeira definição distintiva com relação à realidade é aquilo que “retorna sempre ao mesmo lugar”. O imaginário, por sua vez, é desde o início definido pelo retorno (pregnância) a certas imagens. Se apenas o simbólico associa-se ao inconsciente vemos que a operação feita por Lacan corresponde também a uma redução do inconsciente freudiano. Redução que se faz correlativa a uma expansão da noção de retorno. Redução a um processo de simbolização cuja determinação está na categoria de Outro, expansão que permite integrar a dimensão ôntica (Imaginário) e a dimensão ontológica (Real) ao conceito de retorno. O inconsciente como discurso do Outro ou como lugar de onde o sujeito recebe

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sua própria mensagem de maneira invertida são as teses que sintetizam estas duas estratégias lacanianas sobre o retorno (Lacan, 1955).

3. O Retorno do Retorno em Freud

Anos atrás dei uma aula sobre a importância de contar com as associações livres do paciente para interpretar um sonho. Comentei que Maxime Leroy, um estudioso da obra de Descartes, escrevera uma carta a Freud perguntando se este poderia tecer alguma interpretação sobre o sonho do autor do Discurso do Método. O sonho no qual Descartes vaga por uma cidade em ruínas e que ele mesmo interpreta como uma convocação para a reconstruir a cidade do conhecimento. Freud responde dizendo que sem as associações próprias que deveriam ser realizadas por Descartes, ele mesmo, não se poderia fazer muita coisa. Qual não foi minha surpresa ao encontrar na prova de meu aluno a seguinte leitura do ocorrido:

Descartes escreveu uma carta para Freud. E Freud respondeu! Ele não estava muito contente com o sonho de Descartes, porque Descartes estava errado.” Mas o que Freud teria dito desta operação de retorno ao retorno realizada por Lacan? Certamente muitas objeções poderiam ser levantadas na longa carta de Freud a Lacan: a linguagem é uma função pré-consciente; o inconsciente é matéria de representação-coisa, não de representação palavra; corta-se as vias de acesso à importante descoberta da existência de afetos inconscientes e a pulsão acaba compactando-se com o inconsciente que admite ainda uma ligação precária com a sexualidade. Penso que estas seriam objeções técnicas, que poderiam ser facilmente dilucidadas – E pour si move ! O mais provável é que Freud dissesse algo do tipo:

Você só me leu até 1919. Esqueceu-se do que fiz em O Ego e o Id (1923), apesar de repetir minha síntese clínica ad nausean (Wo Es war soll Ich werden). Minha hipótese, confesso meio aventuresca, sobre a pulsão de morte, está irreconhecível sem sua componente biológica.De fato, a partir de 1920, Freud faz uma mudança que não resiste ao quadro estrutural de absorção do conceito de inconsciente levado a cabo por Lacan em seu primeiro retorno a Freud: trata-se de pensar o inconsciente como uma qualidade multívoca nos sistemas psíquicos. Conforme a polêmica com Ferenczi pode-se entender que “no sentido descritivo há duas classes de inconsciente, mas no sentido dinâmico

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apenas uma” (Freud,1923c:17). Freud postula ao final que há três conotações para o inconsciente: o recalcado, o não recalcado e o latente. Com isso o conflito entre consciente e inconsciente perde seu sentido e com ele, em Lacan, a teoria da resistência à significação. O conflito entre Id, Eu e Superego jamais será admitido por Lacan quer em sua teoria do sujeito, quer em sua teoria do inconsciente. Em suma, o retorno a Freud é um retorno ao lugar de onde ele se evadiu, confirmando ironicamente a tese de Lacan:

“O inconsciente é um conceito forjado no rastro daquilo que opera para constituir o sujeito.” (Lacan, 1964:844) Isso nos faz compreender porque a noção de inconsciente estruturado como uma linguagem é deslocada, em Lacan para uma vigorosa teoria do sujeito. O que se faz ao custo do desenvolvimento das noções de real, simbólico e imaginário que superam o desenvolvimento inicial da noção de estrutura. Ou seja, em sentido francamente inverso ao de Freud. Enquanto Freud vai do inconsciente como instância para o inconsciente como qualidade, Lacan vai do SIR como atividades, ou qualidades, para o RSI como instâncias. Esta qualificação do inconsciente em Freud é compreensível no quadro da radicalização do conceito de retorno segundo a hipótese da pulsão de morte. Trata-se agora de um retorno a um estado inorgânico, que pode ser postulado com auxílio de uma espécie de cosmologia. O inconsciente, menos que uma formação negativa, é a própria positivação de uma negatividade anterior representada de um lado pelo Id e de outro pelas fantasias originárias (Urphantasien). Pois bem, se Freud tivesse escrito uma carta para Lacan fazendo-lhe observar as diferenças substanciais que este estava a introduzir no sistema psicanalítico certamente esta carta teria chegado em outubro de 1963. Três meses depois Lacan iniciaria uma revisão de seu primeiro inconsciente freudiano.

4. O Inconsciente Freudiano e o Nosso

A misssiva freudiana desencadeia um dos conhecidos ataques de cólera em Lacan. Há pelo menos três anos ele havia se dado conta de problemas bem mais sérios em seu próprio retorno a Freud. O inconsciente, assim considerado, começava a

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parecer-se demais com uma forma qualquer de kantismo: estruturas transcendentais ligadas à experiência por determinados intermediários epistêmicos: o falo e o Nome-do- Pai. O programa clínico decorrente apontava para uma purificação do desejo. O inconsciente como retorno deixava de lado o processo de formação de objeto. Era preciso rever a extensão na noção de retorno e particularizar suas incidências. Esta revisão começa pela idéia de que o retorno é um conceito que está sendo empregado em um espectro amplo demais. De fato, o retorno não é a reminiscência e nem a resistência (Wiederstand). O retorno não é a reatualização na transferência e nem mesmo encaixa-se bem na sua idéia de insistência significante (automaton) ou de re- encontro com a falta do objeto (tikê). Todos estes conceitos derivados da noção de retorno na verdade incluem-se em uma categoria mais ampla, a repetição

(Wiederholung), do qual a compulsão a repetição (Wiederholungszwang) seria ainda um outro caso particular. O conceito de inconsciente deve ser deduzido de três outros conceitos: o sujeito, o real e a repetição, cuja expressão conjugada é a transferência. Sua marca clínica não é mais o que retorna ao mesmo lugar, mas a descontinuidade, o caráter não antecipável de sua ocorrência. Não é o lugar de retorno que o caracteriza, mas seu tempo. Não é uma ontologia o que o fundamenta, mas uma ética. O lugar do retorno dá luz à uma topologia do sujeito, o tempo do retorno dá luz à noção de um inconsciente pulsátil, abertura e fechamento, alienação e separação (Lacan, 1964). Temos agora uma nova leitura do Un, presente em Unbewusste, é o um da totalidade (Lacan, 1964:30). O inconsciente não é a falta de conceito, mas o conceito da falta. Ele não é nem da ordem do ser, nem da ordem do não ser, mas algo não-realizado. Ele não é ôntico, mas ético. Seu sujeito não está mais marcado apenas pela negatividade, mas pela certeza e pela verdade. O inconsciente freudiano pode ser reconhecido agora em sua especificidade como retorno:

a função do retorno é essencial. Não apenas o Wiederkehr no sentido do

que foi recalcado – a constituição mesma do inconsciente se garante pelo Wiederkehr. É aí que Freud garante sua certeza.” (Lacan, 1964:50) Se o primeiro retorno a Freud fala a língua estrutural-hegeliana, o segundo retorno a Freud (aquele que o reconhece em sua diferença) fala a língua lógico- cartesiana. O inconsciente agora é função da negação aplicada ao pensamento e à existência. Ele está articulado ao Id, segundo a fórmula: penso onde não sou, sou onde não penso. O significante não é mais a representação, coisa ou palavra, mas o

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representante da representação (Vorstellungsräprasentanz). A ligação entre a língua (inconsciente) e a fala (sujeito) introduz-se agora pela autonomização da noção de escrita e seu arqui-traço, o traço unário. Mas o fulcro desta carta-resposta de Lacan a Freud em torno da segunda tópica reside na superação da tensão entre as relações de quantidade ou qualidade pela introdução de um quarto termo: a causalidade. O inconsciente se estrutura como uma linguagem apenas se entendemos o inconsciente como estrutura determinativa, ou seja, conjunto lógico de efeitos de uma causa indeterminada. Como se Lacan argumentasse, contra a carta de Freud, que ele estava procurando a causalidade, em um objeto negativo, com as categorias de uma função determinativa, ou seja, a função fálica. Em outras palavras, o tema freudiano das origens, marcado pelo radical Ur (Urphantasie, Urvater, Urverdrängung), é no fundo o tema da causa. Tema para o qual Lacan introduz a noção de objeto a causa de desejo. Esse movimento reformula as pretensões clínicas de uma psicanálise e responde a um dos impasses deixados por Freud nesta área. É possível separar o inconsciente da transferência. É possível resolver a transferência pela extração deste objeto a de seu lugar na relação terapêutica.

5. Uma Carta sempre Chega ao seu Destino

Vamos imaginar que esta carta-resposta de Lacan a Freud encontrasse o velho ancião exilado em sua nova casa, em Maresfield Garden, no outono de 1937. Ele está escrevendo o Esboço de Psicanálise (1940a), uma potencial terceira tópica sobre o inconsciente. Nela Freud abandona o uso do inconsciente como um atributo e tenta argumentar que há uma associação disjuntiva dupla entre Id e inconsciente e entre Ego e Pré-Consciente-Consciente. Ele escreve às pressas um cartão postal para Lacan:

Esta idéia sobre o objeto a soa-me estranhamente familiar. Gostei da noção de causa, ressoa para mim bastante científica, como convém à psicanálise. No entanto, ela exige tantos pressupostos que a própria idéia de realidade precisaria ser reinventada para que eu pudesse aceitá-la de bom grado.”

6. mas nem sempre em Tempo

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DUNKER, C. I. L. - Um Retorno à Freud In: Um Retorno a Freud.1 ed.Campinas : Mercado das Letras, 2008, v.1, p. 107-122.

O correio andava lento naquela época. O cartão postal chega até Lacan em meados de 1975. Ele só tem tempo de dizer que o “inconsciente é o real” (Lacan, 1975) e completar em seguida:

“O inconsciente é, que em suma, falamos sozinhos.” (Lacan, 1977) Telegrama que chegou às mãos de Martha Bernayse diante da lápide de seu marido.

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DUNKER, C. I. L. - Um Retorno à Freud In: Um Retorno a Freud.1 ed.Campinas : Mercado das Letras, 2008, v.1, p. 107-122.

Bibliografia

Foucault, M – O Que é um autor? Loyola, São Paulo, 2004. Freud, S. - Rascunho K (1986) - Novas observações sobre a neurose de defesa (1896b)

- Interpretação dos Sonhos (1900a)

- Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901b)

- Chistes e sua Relação com o Inconsciente (1905c)

- Sonho e delírio na Gradiva de Jensen (1907a)

- Análise da fobia de um menino de cinco anos – o pequeno Hans (1909b)

- Sobre um caso de paranóia descrito autobiograficamente – caso Schreber

(1911c)

- Pulsão e suas vicissitudes (1915c)

- O recalcamento (1915d)

- Um caso de paranóia que contradiz a teoria psicanalítica (1915f)

- O Estranho (1919h)

- Além do Princípio do Prazer (1920g)

- O Ego e o Id (1923b)

- Observações sobre a teoria e a prática da Interpretação de Sonhos (1923c)

- Moisés e a Religião Monoteísta (1939a)

- Esboço da Psicanálise (1940a)

Lacan, J – Da Psicose Paranóica e suas Relações com a Personalidade, Forense, Rio de Janeiro, 1932.

- O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada: um novo sofisma (1945)

- Estádio do espelho como formador da função do eu [Je] (1938)

- Posição do inconsciente no congresso de Bonneval (1964)

- O Seminário livro II – Os Escritos Técnicos de Freud (1955). Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1987.

- O Seminário livro XI – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise

(1964). Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1989.

- O Seminário livro XXIV – L´insu que sait de l une-béveu s´aile à mourre. – inédito.

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Lévy-Strauss - Estruturas Elementares de Parentesco (1947), Vozes, Rio de Janeiro,

1989.

Roudinesco, E. – História da Psicanálise na França, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1988.

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