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Apenas um sach de acar

Giovanna Artigiani
Ele se aproximou dela mexendo nos bolsos e retirou de um deles um sach de acar, estendendo-o a
ela com um sorriso dizendo: lembrei de voc. Ela examinou o sach, onde se lia Diga mais eu te amo, ergueu
os olhos e lhe agradeceu com um beijo.
Da trivialidade do objeto grandeza do gesto. Em um cotidiano que aprisiona e ocupa, a lembrana
dela era o pensamento que o fazia voar, como na histria de Peter Pan. Sim, fazia tempo que ele no dizia que
a amava. No era mesmo de dizer muito, ela j tinha aprendido a ler seu amor em gestos.
Ela no sabia em que circunstncia ele estava, na companhia de quem, vindo de onde e indo pra onde
quando ele parou para tomar um caf e deparou-se com aquele sach. Mas o que importava mesmo era saber
que a sua presena se apresentava em meio s coisas dirias dele, mesmo que ela prpria no estivesse
presente. nesse mesmo cotidiano massificador que o amor mora, que a amizade vive, que a vida acontece.
No h outro lugar para a vida existir que no seja no dia de hoje, e nesse dia a dia tambm que as pessoas
se aproximam, se envolvem, se amam ou no. nas pequenas aes do cotidiano que aes como a de dar
um sach de acar se eternizam como lembrana.
O sach de acar no durar enquanto objeto real, como duraria um anel de diamantes. Mas o anel
ficaria no cofre e no na vida de todo dia. E eu posso assegurar que a lembrana desse pequeno gesto estar
marcada na memria dela e vir tona, pelo menos, nas muitas vezes em que ela tomar um caf com um
sach de acar, por toda a vida.

* Crnica selecionada no Concurso Literrio da Casa do Poeta de Praia Grande/SP - (2015)