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“Cocada Morena e Papel Dobrado”

Giovanna Artigiani
Eles ainda eram crianças quando se conheceram, e estudaram na mesma sala por muitos anos
consecutivos. Por algum tempo, sentavam-se lado a lado, em outros momentos, ficavam mais distantes, mas
ambos estavam presentes nas fotos um do outro em todas as festas e comemorações escolares.
Mas tudo o que é amizade, ainda mais assim tão longa, deixa uma marca que é difícil transpor, pois não
se sabe bem qual é o final da margem onde o carinho de amigo se transforma no rio de águas correntes do
amor.
E foi assim que aconteceu com eles. Passaram a se sentar mais perto na escola, e um dia, Cocada Morena
deixou cair sua borracha no chão, mas nem tinha percebido isso. Quando chegou à escola no dia seguinte,
encontrou sobre sua carteira uma caixinha feita de origami com a sua borracha dentro. Olhou instintivamente
para o lado e sorriu para Papel Dobrado. Eles tinham apenas quatorze anos.
Naquele dia, Cocada Morena pensaria muito em Papel Dobrado. Ela se lembrava da presença silenciosa
e tranquila dele em muitos momentos e se recordava que num tempo não muito distante, os dois tinham os
joelhos ralados e se sentavam no chão para que ele ensinasse, a ela e a outras crianças também, como fazer
aviões, barcos e sapinhos pulantes de origami.
No dia seguinte, ela deixaria sobre a mesa dele um brigadeiro que ela tinha feito. A mãe dela era uma
doceira tradicional na cidade, hábil em fazer doces finos brasileiros, por isso, Cocada Morena aprendeu desde
pequena, na barra do avental de cozinha da mãe e da avó, a fazer iguarias para festas. Essa era a sua arte,
assim como a arte de Papel Dobrado era fazer os origamis que aprendeu com sua família de origem japonesa.
E assim se seguiram os fatos. Em um dia, ele colocou sobre a mesa dela uma estrela feita com papel
colorido; no outro dia, ela retribuiu com um camafeu. Ela separou uma caixa para guardar os presentes dele
dentro do armário. Ele guardava os doces para comer sozinho, solenemente, no seu quarto, antes de dormir.
Seguiu-se uma flor de papel rosado sobre a carteira dela e um cajuzinho na mesa dele no outro dia. Foi assim
até o dia em que ele depositou sobre a mesa dela uma flor natural, com um beija-flor de origami pousado. A
flor era um crisântemo branco. Cocada Morena sentiu-se derreter por dentro como margarina no fogo brando.
No outro dia, ela não teve como não trazer a Papel Dobrado um beijinho de coco.
Ele se sentiu rasgar por dentro, como um papel de seda se rasga num movimento inesperado. Respirou
fundo, partiu o beijinho de coco ao meio com as pontas dos dedos hábeis e colocou na mão dela metade do
doce. Olhou nos seus olhos e lhe propôs um encontro depois da aula, embaixo da mangueira, no pátio da
escola.
Talvez um dia, a família dele se reunisse para fazer mil tsurus de origami, na intenção de atrair
felicidade para aquele jovem casal. Talvez um dia, a família dela produzisse mil doces bem-casados para a festa

do casamento. Esses doces, afinal, nada mais são do que um doce recheado embrulhado em um papel
dobrado, amarrado suavemente com um laço afetivo. Mas essas são conjecturas nossas, seres sempre
preocupados com o futuro. Cocada Morena e Papel Dobrado, naquele momento, não tinham tempo para fazer
outra coisa que não fosse provar o doce sabor do tempo presente.
* Publicado na antologia da IX CLIPP – Concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos (2015)