“Loja de cristais”

Giovanna Artigiani
Talvez não seja muito simples de explicar as motivações que levam a nós vitrinistas, a buscar coisas das
quais não temos referências com o objetivo que criar nos observadores uma vontade incontrolável de entrar
em uma loja. Na minha rotina circular eu reservava tempo para inspirar-me no mundo e seguia assim,
caminhando pela rua observando as pessoas e seus jeitos, as coisas e seus detalhes. Eu desempenho no
mundo comercial o papel de cupido, buscando flechar pela cena apaixonante de uma vitrine o olhar do
comprador. Dirão que não tenho uma missão muito nobre, que sou é uma enganadora que seduz para extirpar
e usufruir. Mas não, a vitrine é uma promessa, se for montada de uma forma que abrace o provável
comprador com um véu ela pode até mesmo unir duas pontas de corda: o desejo recém-nascido e a
associação de felicidade que a vitrine propõe.
Eu tinha em mente um projeto específico de uma loja de bolsas. Pensava em montar a vitrine com as
bolsas semi-abertas exibindo cristais como se eles tivessem sido roubados. “Fui a uma festa e roubei essa
taça”, “visitei tia Sophia e roubei esse vaso”. Mensagens escondidas e cifradas de aquisição não legítima de
glamour, leveza e beleza. Como quem beija um homem que não é seu às escondidas, como quem quer vender
refrigerante e fala de sorrisos, como quem quer vender cigarros e fala de aventuras, como quem quer vender
sanduíches e fala de amor.
Eu sabia onde deveria ir e entrei na galeria apertada e antiga, em direção à loja de cristais.
Fui recebida na loja pelos olhos compreensivos do seu antigo dono. Haveria hoje peças novas? Com os
óculos na ponta do nariz e a habilidade na ponta dos dedos, mostrava-me variados objetos de cristal. Olhava-o
através das peças enquanto escutava sua voz pausada e descritiva de origens e funções. Eu separei algumas
peças médias, sempre unitárias, nada aos pares. Ouvi o farfalhar dos cristais sendo abraçados em papel de
seda e sendo colocados para dormir em suas caixas-berço de papelão. Aquele homem fazia o seu trabalho
parecer o trabalho mais importante do mundo pelo tempo em que ele despendia no manuseio. Anotou o
endereço da entrega em um papel amarelo-velho e me prometeu que no dia seguinte as peças de cristal
acordariam o vigia da loja onde eu montaria a vitrine. Elas me dariam um beijo de bom dia e nós nos faríamos
companhia, como velhos amigos que tem segredos em comum.
* Publicado no Blog da Companhia Duo Encantado em fevereiro/2014
http://rositafloreshistorias.blogspot.com.br/2014/02/conto-loja-de-cristais-da-autoria-de.html?spref=f

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