“Ninguém da construção”

Giovanna Artigiani
Abaixado na beirada da piscina recém construída Chico assentava os azulejos com rapidez e precisão.
Trabalhava sob o sol forte do meio-dia, castigando sua pele sem proteção nem afagos frequentes. Ele não
podia se distrair nem por um minuto, o prédio estava para ser entregue e a construtora exigia prazos, exigia
produção, exigia o seu suor ininterrupto.
Era domingo, mas ele estava trabalhando, precisava daquela hora extra e de todas as outras que
pudesse fazer. Sentia-se exausto, de um cansaço da alma que o corpo nem tinha como decifrar. Trabalhava
mecanicamente, “põe a massa, ajusta e assenta cento e três”, “põe a massa, ajusta e assenta cento e quatro”.
O que o contrariava era ter que desviar com as caixas de material dando a volta em todo o jardim porque o
pessoal do paisagismo era implacável. “Põe a massa, ajusta e assenta cento e dez”.
Ele estava caprichando naquela piscina, que ia ficar linda com a casacata, embora seus filhos nunca
fossem brincar ali. Aquele prédio lindo, com apartamentos grandes e sem goteiras nunca abrigaria a sua
família. Ele não verá as moças de biquíni tomando sol naquele deck. Esse trabalho não representará para ele
nenhuma melhoria na vida, pois o suor de hoje vira o pão de amanhã e termina tudo nisso mesmo. Mas ele
não pode se distrair, sabe que não deve olhar longe, não deve olhar pra cima, não deve fazer pausas de
descanso muito longas. Daqui à apenas alguns dias se ele quiser entrar no condomínio será barrado na
portaria. E será barrado por quem? Por outro pau mandado igual a ele que anda no fio da navalha. “Põe a
massa, ajusta e assenta cento e trinta e três”.
Grita alguém por cima do muro:
- Tem alguém aí na obra? Preciso falar sobre esse barulho!
- Tem ninguém não... responde o Chico, que não é ninguém mas também não é besta.
Agora era hora de deixar essa parede secar e ir adiantar o rejuntamento do outro lado, de onde dá pra
ver a portaria. Essa vista o fez concluir que esse mundo está mesmo virado, ele pensou : “imagine só plantar
árvores já grandes, formadas, que ficam amarradas desse jeito como múmias. Filho de pobre é que devia já
nascer assim grande, com força pra ajudar a trabalhar”. Ele prepara a massa do rejunte e começa o serviço que
precisa ser feito com precisão e sem espalhar o produto, pra ter menos o que limpar depois. Ele trabalha com
rapidez porque o dia é curto e no fim de uma hora já rejuntou uma parede inteira: “passa a massa, acerta e
limpa trezentos e sete”; “passa a vida, engole e segue...” - perdeu a conta.
* Publicado na Antologia da VII CLIPP - Concurso literário de Presidente Prudente (2013)

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