“Olhos Tristes”

Giovanna Artigiani
Eu já nasci com esses olhos tristes, como se soubesse que não teria muitas felicidades na vida.
Tive uma infância sem luxos e sem fome. Rígida na moral e na religião, fui criada para ser trabalhadeira
e recatada, como convém a uma moça de família.
Vivia numa daquelas cidades pequenas, de uma praça e quatro ruas. Havia também duas pequenas
fábricas e um hospital psiquiátrico.
Aos quinze anos fui trabalhar na fábrica que só empregava mulheres solteiras. Toda manhã descia a
ladeira de paralelepípedos, virava à esquerda (esse era o momento em que soava o primeiro apito da fábrica)
e ia encontrando pelo caminho outras moças que tinham o mesmo destino.
Íamos todas penteadas, toucadas com o talco Alma d'flores, saias sérias e pequenos saltos. Íamos
estalando os paralelepípedos e olhando o mundo. Chegávamos pontualmente na fábrica e soava o segundo
apito quando cruzávamos o portão da fábrica às sete horas.
Lá cortávamos chapéus, costurávamos chapéus e encaixotávamos chapéus; que seriam usados num
mundo muito longe (de mim).
No final do mês, meu dinheiro tinha o certo destino das administradoras mãos de minha mãe, que me
soltava um bocado para o luxo mais esperado do mês: a fotografia.
Em um mês era eu e minhas irmãs, no outro eu e minhas primas, no outro eu e as amigas que fizeram
grupo escolar comigo, no outro eu e as amigas da fábrica de chapéus, no outro eu sozinha; de forma que, logo
em janeiro eu já tinha a lista das doze fotos que seriam feitas no ano.
Mas havia também a outra fábrica, que só empregava rapazes.
Em romaria inversa, os rapazes desciam a rua paralela e enquanto o cortejo engrossava, viravam à
direita, (esse era o momento que soava o primeiro apito da fábrica) e era a partir desse instante que o dia
tinha dez minutos de lentidão.
Os rapazes vinham pela calçada e as moças vinham em sentido contrário, e o mundo dava duas voltas
inteiras até que chegassem bem perto. As moças chegavam ao portão e ao entrarem os rapazes passavam, e
esse era o momento em que se arriscavam olhares.
E dia após dia iam se escolhendo os pares, e os pares feitos podiam ter olhares mais demorados.
E eu, que tinha nome de princesa, escolhi um rapaz moreno claro, olhos tão grandes que vinham de
longe se destacando no grupo.
Nunca se arriscavam palavras. Mas eu já lhe namorava e sonhando com seus olhos bordava o enxoval e
fazia simpatias com seu nome... Seu nome..., nunca nos falamos mas eu sabia sobre ele tudo o que achava que
deveria saber.
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Eu passei um vestido e separei dinheiro para uma maçã caramelada, pois tinha combinado com as
meninas da fábrica, por uma semana inteira, à que horas iríamos à quermesse de São João.
Naquela noite, foi difícil encontrar seus olhos no meio da multidão. Estariam eles apagados?
Quando encontrei seus olhos eles olhavam para outra e não para mim. Desci os olhos e vi que suas
mãos enlaçavam outras mãos e percebi então que não haveria mais maçãs carameladas, não haveria mais
quermesses, não haveria mais vaidades... Porque quando seus olhos se cruzaram com os meus foi por acaso. E
eles não brilhavam por mim.
Deveria eu lhe dizer sobre o que sentia? Deveria eu chorar algumas lágrimas? Deveria eu fazer uma
promessa à Santa Rita?
Não. Compreendi que daquele modo meus olhos se apagaram para não chamar a atenção de mais
ninguém.
Havia um rapaz que me queria para esposa. Minha mãe o achava bom e eu me casei com ele.
Ele me bateu, me fez filhos e me abandonou. Voltei para a casa da minha mãe com meus filhos e me
sentei de uma vez para sempre na máquina de costura.
Mas me restou uma alegria, que é comer doces escondida. Escondida, pois meu sangue é diabético e
não aceita que nenhum tipo de doçura entre em mim, sem transformar-se em veneno.
* Menção honrosa no 6° edição do Concurso de Contos do Tijuco (2012) – ALAMI e publicado na Antologia do concurso

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