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Outras obras de Noberto Bobbio em portugués: —A Bra dos Diretos, Camps, Rio e ani, A Teoria das Formas de Govern, UnB, Bessa — Ditrio de wm Século, Campus, Rio de Jani. —Diclondro de Poitica, UnB, Brasil DiretaeEsquerda, UNESP, Sto Paulo, = Direito.¢ Estado no Pensamento de Emanuel Kant, Mandarin, Sto Paulo — Ensalas sobre Gramci e 0 Conesito de Sociedade Cl, Pa e Tena, Sto Palo. ~ Bnire Duas Repiblicas, UnB, Brain Estado, Govern, Sociedade, Paz e Terr, So Paso —Iqualdade eLiberdde, UnB, Brasilia —Literalismo e Demoeraca, Brasilense, Sto Paulo. Locke eo Direto Nana, UnB, Bras = 0 Futuro da Democracia, Paz ¢ Tera, So Paulo — 0 Positivism Jurdico, cone, Sto Paulo =0 Tempo da Meméria, Campus, Rio de ani. = 0+ Inclecrais eo Poder, UNESP, io Palo, Sociedade ¢ Extado na Filosofia Politica Modera, Brasilense, Sto Paul, — Teoria do Ondenamentridico, Un, Breslia Norberto Bobbio TEORIA DA NORMA JURIDICA Traducio Fernando Pavan Baptista Ariani Bueno Sudatti Apresentasio Alar Caffé Alves Teoria da Norma Juridica ‘Norsento Bossi0 1 Eae80 2001, Spero Etre Lot Vero Coordin Ete ne Lt are Eo Asana Rajon Boien TrteresFerands Pin Bite ian! ra Sud eps Masao Carn Fone esas Ternen Er Bi Dito: Det fecal tes 1 deco: 1819 Dados de Catalogo (Cine Brailes, ont (C1) Internacional, a Lio, Beal Bot, Neto “Tecra da moma idea / Nebo Beto | ad Fern van Bape tan eno Su | ep As Cale ‘Atos = our, SP EDIPRO 200 Bitlet on dl cma pti (6. Gogh "SEN 672809277 1. Deo Fest 2, ites Abas, As Cll osn7 cova indices para catlogo sistomatico EDIPRO — EdigSes Profissionais Ltda. us Cone de Sto Joaqum, 382 ere CEP 01s20010- Sao aun ~ SP Fone (081) 9197-768 FAX 011) 107-0061 Erma espoQustean tr ‘Atendemos pelo Reembolso Postal SUMARIO APRESENTACAO - Alaér Caffe Alves 9 NOTA DOS TRADUTORES a Capito © DIREITO COMO REGRA DE CONDUTA a 1. Um mundo de normas 2 2. Varedadee mulipicidade das normas % 3.0 dio ¢ instil? 28 4.0 phiraemo jrcco 20 5. Observagbes eas 3 6.0 deo ¢rlago intersubetve? a7 7. Exam de urn ola 40 8. Observes cicas 2 Capitulo JUSTICA, VALIDADE E EFICACIA 45 9. Tis cto de valorgso 45 10. Os tes crtios so ndependentes 38 11, Possiveisconfustes entre os tds crtérios 51 Tron bs Novo dunives 12. 0 dieito natural 13, 0 postvisme juridieo 14,0 realism juridico Capitulo ttt AS PROPOSICOES PRESCRITIVAS 18, Um ponto de vista formal 16. A norma como proposicao 17. Formas e fungdes 18. As tes fungoes 19. Caracteristicas das proposigSes prescritivas 20. Pose-se reduair as proposigoes preseritivas a pro- osigdes descritivas? 21. Pode-se reduzi as proposigées prescrivas a pro osigdes expressivas? 2. Imperativos auténomos e heterBnomos 23. Imperativos categérics e imperatives hipotéticos 24. Comandos e conselhos 25. Os conselhos no direito 26, Comandos einstancias Capitulo 1V AS PRESCRICOES E © DIREITO 27.0 problema da imperatividade do dreito 28. Imperativos postivs e negativos 29. Comandos ¢ imperatives impessoais 30. O direto como norma técnica 31. Os destnatérios da norma jurdica 32. Imperatives e permiss6es 55 58 e Brass 87 89 92 95; 102 305 105 109 2 15 19 125 33. Relagéo entre imperativos ¢ permissoes 34. Imperativos regras finais 235. Imperaivos e juzos hipotéticos 36. Imperativos e jizos de valor Capitulo V AS PRESCRICOES JURIDICAS 37. Em busca de um ertéio 38. De alguns eritérios 39, Um nove cto: a resposta 8 violao 40. A sangéo moral 41. A sangéo social, 42, A sangéo jurdca 43, A adeséo espontinea 44, Normas sem sangso 45, Ordenamentos sem sangS0 46. As normas em cadela eo proceso a0 infito Capitulo VI CLASSIFICAGAO DAS NORMAS JURIDICAS 47, Normas geras esingulares 48. Generalidade e abstragao 49, Normas afrmativas e negativas 50, Normas calegéricase hipotéticas BIBLIOGRAFIA 128 132 135 40 145 145 147 152 154 187 159 162 16 170 173 17 180 184 187 191 APRESENTACAO Norberto Bobbio, nascido em Turim, norte da lla, em 18 de ‘outubro de 1909, ¢ um dos mais ilsres e destacadosjuslisofos do século XX. Fol profesor de fllsofia do direto em Camerino (1936-1938), em Siena (1938-1940), logo em Pédua (1940-1948) «¢, de 1948 a 1972, ensinou na Faculdade de Direto da Univers- ddode de Tarim. A pani de 1973, a6 a sua jubilogio em 1984, lecionou filsofia poltca ne Faculdade de Ciéncies Polticas da mesma Universidode. ‘Bobbio se intulava um emplrista, sempre preocupado em bus ‘cor fates. No ambito metadoloeico, considerava a necessidade de {forjar os instrumentos para buscar os fats, pois estes ndo esto ‘alcance dos maos. A crtica e a andise da inguagem seriam um destesinsrumentos. Esta posturafilosdfica, adotada por forga do “novo iuminismo” (Nicola Abbagnano) e da erescene inluéncia da escola neopostivisa, marcou a transigde, na Ita do pés ‘guerra, do cma hegemérico do pensamento idealita (Croce e Gente) para 0 neopostismo, sob a influéncia de Ludovico Geymonat, Foi um grande esforco de superacco das posigdes do ‘minantes na Ila, desde o ineio do século XX, representadas plas doutrinas neohegelinas, neokantianes, neotomisas, fono ‘menolégices e outras. Rechacando tanto 0 ideallsmo como 0 exis: tencialsmo, Bobbio defendia uma filosofa positiva comprometida 10 Nowecxro Boast Teoma ba None Jum com o esptitocientfco e contra as posturas metafsicas. Propug. nova @ subsituigdo da flosofia como concepgdo do mundo pela fllosofa como metodlogia, que pudesse, do porto de vista poit- ‘co-ulura promover as condigdes de uma sociedade democrat: ‘a, lic, universal e pautada nas conquistas da ciéneia. Por eféto deste cima cutural, Bobbio, Geymonat e Abbagrano fundaram, ‘com outros intlectuis, em Turi, em 1946, um “Centro de Es: tudos Metodoléaicos” Em duas séries de conferéncia, entre 1946 ¢ 1950, aquele Centro promoveu, dente outros assuros, a primeira agenda pro- vito as tia normativa se limita a afirmar que o fenémeno origind rio da experiéncia juridica é a regra de conduta, en- uanto que a teoria estatalista,além de afar que o di- relto & um conjunto de regras, afirma que estas regras tém caracteristicas partculares (por exemplo: serem coa: tivas)e, como tals, dstinguem-se de qualquer outro tipo de regra de concuta, A teoria estatalsta é uma teoria rormativa restita. E, portanto, no hé nenhuma razio para se considerar a teoria normativa em si, menos am pla do que a teora institucional. Em suma, ndo existe enhuma razdo que induza a rejetar que @ teoria nor ‘mativa também possa ser compativel com 0 phuralsmo juridico, 8 que no hé nenhum motivo para restrngit a palavra' “norma”, assim como ¢ usada pela teoria nor ‘mativa, somente ds normas do Estado. bb) Romano escreveu que “antes de ser norma”, o diteto "é organizacio”. Ora, esta afirmacao ¢ contestavel. O que significa organizagao? Significa distibuicao de tarefas de modo que cada membro do grupo contribua, segundo suas proprias capacidades e competéncias, para a reali ago do fim comum; mas esta distribuigdo de tarefas nao pode ser cumprida sendo mediante regras de con- duta. E eniéo, nao & verdadeiro que a organizagéo venha antes das normas, mas sim 0 oposto, que as normas ve- rnham antes da organizagéo. Uma sociedade organizada, uma instituigdo, 6 constituida por um grupo de indivicios, (05 quais discipiinam suas respectivas atividades com © objetivo de perseguir um fim comum, isto é, um fim que rnéo poderia ser alcancado por individuos sozinhos, iso: Jadamente considerados. A insttuigso nasce al onde sur. {9 € toma forma uma certa disciplina de condutas indivi duais, destinada a conduzi-las a um fim comum, Mas uma discipina é 0 produto de uma regulamentacio, isto 6, de um complexo de regras de conduta, Particular. ‘mente, para que se possa desenvolver 0 processo de ins 36 Nonae tituclonalizagéo que transforma um grupo inorganico em ‘um grupo organizado, ito 6, em um ordenamento jurid co ocortem és condigées: I) que sejam flxados os fins ue a instituigao devera persequir; 2) que sejam esta Delecidos os “meios”, ou pelo menos, os meios princi pais que se consideram apropriades para alcancar aque les fins; 3) que sejam atvibuidas as funcdes especticas dos individuos componentes do grupo para que cada um ‘olabore, através dos meios previsos, na obtengao do fim. Ora, esta daro que, quer a determinagio dos fin, ‘quer a determinacio dos meios e das fungoes $6 podem corer através de regres, sejam eas esritas ou no, pro clamadas solenemente em um estatuto (ou Consttuigao) fu aprovadas tactamente pelos membros do grupo, © aque vale dizer que 0 processo de insttucionalizagso e a procugio de regras de conduta néo podem andar sepa rads e que, portanto, onde quer que haja um grupo or ganizado, estaremos seguros de também encontrar um complexo de regras de conduta que deram vida aquela lrganizago ou, em outtas palavras, se insituigdo equivale ' ordenamento juridico, ordenamento juriico equivale a ‘omplexo de normas, Porém, assim, a teorta da insituigao ro excui, a0 contréio, incl a teria normativa do di reito, a qual néo sai dessa polémica vencida, mas, taivez, reforgada, ‘Temos esta confirmagao em um ensalo de M. S. Giannini, Sulla plural deal ordinamenti giurdic (Sobre a Pluralidade dos Ordencmentos Juridicos, 1950), que, reafrmando a equi valéncia das duas expressbes “grupo organizado” e “ordena- ‘mento juridico", tem © cuidado de distinguir o fendmeno da normatizagoo (isto é, da produgao das normas) do fenémeno da ‘organizagdo. Ele observa que pode haver normatizagao sem ‘organizagio: por exemplo, a classe socal, mesmo nao sendo um ‘grupo organizado, produz regras de conduta (normas socials) ‘para os seus componentes; mas no pode haver organizagdo ‘sem normatzogao. Em outas palavras, se € verdadeizo que uma (0 mero cowo Recta be Conair produgdo de normas, quaisquer que sejam, no basta para criar luma instiuigdo, 6 também verdadero que uma insttigdo no Pode ser criada sem uma prodiugdo de regras. E portanto, a pro gio de regras ¢ sempre 0 fendmeno originéo, ainda que nao ‘excusivo, para a constuigao de uma insttuigso. ‘Tudo que dissemos até aqui para defender ateorla normati va significa que talvez queiramos repelir totalmente a teoria da insttuigao? Certamente, néo. Para nés, a teoria da instituigo teve 0 grande mérito, mesmo prescindindo de seu significado ideolégico, que néo pretendemos discui, de por em relevo 0 fato de que somente se pode falar em direito onde hé um complexo de normas formando um ordenamento e, portanto, © direto nao & norma, mas conjunto coordenado de normas; concluindo, uma norma jurdica nao se encontra nunca s0zi- nha, mas ¢ligada a outras normas com as quals forma um sis- fema normativo. Gragas também & teorla da insituiglo, a teo ria geral do dieito velo evoluindo cada vez mais da teoria das rnormas juridicas & teoria do ordenamento juridico, e 08 pro blemas que vém se apresentando a0s teéricos do diteto 580 cada vez mais conexos & formacio, a coordenacao e & integra 0 de um sistema normativa, 6. © DIREITO RELACAO INTERSUBJETIVA? Que o elemento caracterstico da experiencia juridica seja a relacio intersubjetiva é, a0 contrério da teora institucional, doutrina vethisima e periodicamente recorrente. Se observar- ‘mos bem, ela nasce da mesma idéia fundamental de que nasce a teoria da instituigdo, qual sea, a de que o direito é um fené- ‘meno social, que tem sua origem na sociedade. E de se notar que a teoria da insttuigto surgiu eriticando ndo apenas a teotia normativa, como mostramos até aqui, mas também a teoria da relagéo intersubjetiva, Segundo os delensores do insttuciona lismo (sobretudo os franceses), uma pura e simples relagko entre dois sujeitos nao pode consitur dreto; para que surja o direito, é necessério que esta relagéo esteja inserida em uma série mais vasta e complexa de relacbes constituintes, ou seja, a instuigdo. Duas pessoas isoladas que se encontrar somente pata estabelecer ene sia regulamentaco de certos interesses particulates, néo consfituem ainda direto. Este nasceré apenas quando esta regulamentacio se tornar de um certo modo ests vel, e originar uma organizacio permanente da atividede dos dois individuos. (0 insttucionalistas, em geal, refutam a doutrina da relagio ‘porque julgam que sea inspirada em uma concepgao individua- lista do direito, aquela prevalecente no jusnaturalismo dos sé- ‘culos XVII e XVII, sequndo a qual o direto é produto da von- tade dos individuosisolados, considerados cada umm como uma tunidade separada das outras e que, de Tato, tinha elevado & suprema categoria juridica 0 acordo entre duas ou mais vonta- des individuas, isto 6,0 contrato, de modo a gerar a sociedade por exceléncia, ou sea, o Estado, mediante o ajuste de vonta es entre individuos pasticulares que se chamou contrato socal AA doutrina da instituigdo, a0 contaro, se inspira nas correntes sociologicas mais modemas, que ecusaram 0 individualismo jusnaturalsta de utopismo e racionalismo abstrato,¢ afimmam ealidade do grupo social como distnta da dos individuos par ticulares que a compdem. Logo, partindo deste pressuposo, consideram © direito como um produto nao do individuo ou dos individuos, mas da sociedade em seu complexo. Como contraprova da afirmacéo dos institucionalistas, se- gundo a qual a teoria da relagSo enterra suas raizes no indivie