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COLEÇÃO COMPORTAMENTO HUMANO

A ORIGEM DA VIOLÊNCIA

Uma contribuição ao estudo do comportamento violento

1ª EDIÇÃO

Luiz Gonzaga de Freitas Filho

Uma contribuição ao estudo do comportamento violento 1ª EDIÇÃO Luiz Gonzaga de Freitas Filho NOME –

NOME– E D I T O R A

Uma contribuição ao estudo do comportamento violento 1ª EDIÇÃO Luiz Gonzaga de Freitas Filho NOME –

2

3

Biografia do autor: (or elha do livro)

Luiz

Gonzaga

de

Freitas

Filho

é

médico

formado

pela

Universidade

Federal

do

Pará

(1970);

com

curso

de

formação

didática

em

Psicanálise

pelo

Grupo

Brasileiro

de

Psicoterapia

Analítica

de

Belo

Horizonte/MG

(1979/1983).

Médico

chefe

da

Unidade Sanitária de Maués e assistente na Unidade Hospitalar de Parintins - FSESP/AM (1971/1973) coordenou e executou

programas de saúde pública. Dirigiu a Divisão de Saúde e Higiene da Secretaria de Saúde do então Território Federal de Roraima (1973/1974) e participou como assistente no Curso de Administração

em

Saúde

Pública

promovido

pela

SESPA/OPS/OMS.

Em

1974

chefiou

o

serviço

de

socorros

de

urgência

do

mesmo

Território

Federal de Roraima. Em 1976 dirigiu o Hospital da Paranapanema S/A durante o período de abertura de um trecho da rodovia Perimetral Norte. Participou como médico na Unidade de Saúde Eletronorte durante o início de implantação da usina hidroelétrica de Tucuruí/PA na execução de trabalhos de Clínica e Assistência Materno-Infantil. Foi, de 1976 a 1985, psiquiatra da antiga Escola FEBEM “Monsenhor Messias” em Sete Lagoas/MG, assessorando e executando trabalhos de reabilitação em comunidade terapêutica para menores Infratores. Durante o período em que viveu na Amazônia fez várias incursões em aldeia s indígenas, coletando informações e estudando os trabalhos etnográficos de Pierre Clastres, Bronislaw Malinowski, Protázio Frikel, entre outros etnólogos e antropólogos, que produziram trabalhos de campo. Atualmente desenvolve e aplica em consultório metodologia própria para uso em psicoterapia analítica e medicina psicossomática, criando alternativas de profilaxia em saúde mental com seus Grupos de Apoio Familiar.

É autor dos trabalhos:

F"Viver eu quero, conviver é preciso!" (texto). FRelação de Qualida de (treinamento de pais e educadores para prevenir comportamentos reativos em crianças e adolescentes (slides eletrônicos do Power Point)). FA Origem da Violência: Uma contribuição ao estudo do comportamento violento. FDiário de um hospital psiquiátrico

Em parceria:

FManual da Comunidade -Escola: uma experiência bem sucedida em comunidade de menores infratores (texto). FAprendendo a Ensinar: uma experiência com alfabetização de adolescentes marginalizados (texto). FAmadeu, um caso especial: uma experiênc ia com menor considerado infrator de “alta periculosidade” (texto).

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A ORIGEM DA VIOLÊNCIA

Uma contribuição ao estudo do comportamento violento

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Luiz Gonzaga de Freitas Filho

A ORIGEM DA VIOLÊNCIA

Uma contribuição ao estudo do comportamento violento

NOME E D I T O R A

8

Capa: do autor

Copidesque:

Revisão:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ()

()

Filho, Luiz Gonzaga de Freitas. A Origem da Violência: Uma contribuição ao estudo do comportamento violento/ Luiz Gonzaga de Freitas Filho – Sete Lagoas, MG E d i t o r a, 1999. - (Coleção Comportamento Humano)

Bibliografia. ISBN 00-000-0000-0

1. Comportamento 2. Violência 1. Título. II. Série.

00 - 0000 CDD- 000.00

Índices para catálogo sistemático:

1. Cultura e Comportamento : Sociologia 000.00 2. Comportamento: Aspectos sociais 000.00

3. Comportamento e cultura: Sociologia 000.00

1ª edição

1999

DIREITOS

PORTUGUESA:

M.R. Cornacchia Livraria e Editora Ltda. - Papirus Editora Telefones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax~ (019) 272-7578 Caixa Postal 736-CEP13001-970-Campinas-SP-Brasil. E- ma il: papirus@lexxa.com.br - http://www.papirus.com.br

RESERVADOS

PARA

A

LÍNGUA

Proibida a reprodução total ou parcial. Editora afiliada à ABDR.

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COLEÇÃO COMPORTAMENTO HUMANO

Comportamento é ação de pessoas, é um fenômeno que envolve, antes

de

ramo que abrange várias ciências

concomitantemente e não pertence ao campo das ciências exatas.

Transcende a esfera das meras relações econômicas.

tudo,

gente.

É

um

A tendência da humanidade é a de se concentrar nas grandes cidades,

o que torna esses núcleos humanos muitas vezes fonte de violência e neurose urbanas.

Dado esse quadro, vemos atualmente deteriorar-se cada vez mais as relações humanas, proporcionando ao indivíduo a experiência da violência nessas relações, que o distanciam da convivência harmoniosa e produz alterações no seu psiquismo e no seu meio ambiente, tornando-o cada vez mais hostil e inadequado para o bem-estar em comum.

Esta coleção pretende ser uma ferramenta de reflexão para todos os que se interessam pelo fenômeno da violência e pelos fatores que

os

profissionais atuantes no estudo dessa área, atendendo à demanda por bibliografia nacional e por novas visões da dinâmica social que

possam unir vários interesses acadêmicos no grande desafio de fazer com que, no futuro, a vida em sociedade e sua compreensão não seja mais um privilégio de minorias, mas um direito de todo cidadão.

determinam

sua

existência

e

expansão,

assim

como

para

Coordenador

10

11

Este livro é dedicado aos indígenas brasileiros e ás pessoas que ainda convivem ou conviveram entre eles. Minha utopia é resgatar, para a nossa civilização, a sabedoria que essas comunidades possuem.

12

13

AGRADECIMENTOS

A

todos

que,

de

forma

direta

ou

indireta,

tornaram

possível

esta

obra.

Á

minha

família,

que

por

longo

tempo

suportou

meu afastamento

relativo da vida em comum para me dedicar à confecção deste trabalho.

14

15

SUMÁRIO

A ORIGEM DA VIOLÊNCIA (uma contribuição ao estudo do comportamento violento)

Apresentação e objetivos

17

CAPÍTULO I

21

A

Natureza e seus mecanismos

21

Interação, Integração e Função

21

Natureza e diversidade

22

Tropismo e Entropia

23

Interação, comportamento e desvios

25

A

origem da destrutividade

26

CAPÍTULO II

29

O

Comportamento violento

29

O

Cérebro humano 30

Percepção e convenção

32

Comportamento Humano - Ativo e Reativo

34

Comportamento: organização e desvios

37

CAPÍTULO III

40

Bando, agrupamento e Cultura

40

O Bando

41

 

A Cultura

41

Modelo Cultural, Etnocentrismo e Racismo

43

O AGRUPAMENTO

44

Associação e dissociação (POLARIDADE VITAL)

46

Civilização e origem do conceito de Estado

49

Propriedade territorial

50

Poder Econômico - Riqueza

 

51

Instituição e violência

52

CAPÍTULO IV

54

Comportamento e representação

54

 

Fama e exibicionismo

54

Sociedade e comunidade

55

(política, governo e lei)

55

Fatos ocorridos em aldeias indígenas *

57

(RELATOS E SIGNIFICADOS DE COMPORTAMENTOS ATIVOS)

57

1

CAPÍTULO V

70

Exemplos históricos de comportamentos reativos

70

Reatividade nas sociedades antigas REATIVIDADE NAS SOCIEDADES ATUAIS

70

102

 

130

CAPÍTULO VI Trabalho e violência

Violência na família 165

161

CAPÍTULO VII

167

Psicose e sanidade 167 (mecanismos de intermediação)

167

Mecanismos estabilizadores e desestabilizadores

169

16

Esquizofrenia nas sociedades naturais (?)

176

Esquizofrenia nas sociedades civilizadas

178

CAPÍTULO VIII

180

Problemas civilizados da atualidade

180

Marketing: um conceito controverso

184

higidez e cura

Machismo e feminismo

Aprendendo a conviver numa sociedade civilizada

Aprendizagem subliminar

O FUTURO

SUGESTÕES DE LEITURA

185

186

195

196

159P

187

17

Apresentação e objetivos

Este texto perpassa um longo trecho da minha vida, desde quando não compreendia bem a existência próxima na convivência, entre as pessoas chamadas de ricas e de pobres naquela época; no tempo em que também via entrarem na minha casa e no consultório do meu pai, pessoas estranhas á minha imaginação infantil – os índios. Um longo período onde, na juventude, se adicionaram outras dúvidas advindas dos cursos de psicologia médica e psiquiatria na universidade.

Outras interrogações vieram nos tempos que passei num hospital psiquiátrico como

acadêmico residente, lidando com pessoas que, além de pobres, eram chamadas de loucas. Foi, porém, do curso dos anos e das insistentes questões que fiz a mim mesmo – costume

herdado dos pais –

do auxílio dos livros e de tantas outras pessoas, que resultou este

trabalho. Determinantes foram as observações feitas desde 1971 até 1983, quando andei pelas aldeias indígenas em busca de explicações para um tipo de vida estranho e desconhecido e

quando convivi com menores infratores durante nove anos numa comunidade-fazenda.

e

Sentia necessidade de compreender e sistematizar a compreensão do comportamento das pessoas nesses dois mundos tão diferentes – o da sociedade branca e o das comunidades indígenas - e, ao mesmo tempo, tão próximos. Tudo o que consegui com essa aventura foi descobrir um material inesgotável de mais dúvidas, produzidas pelo desconhecimento quase total nessa busca de comparar e compreender duas sociedades que atuam com sinais contrários e opostos na forma de conceber a Vida e de lidar com ela. Muitos trabalhos feitos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que têm como eixo comum a preocupação com as sociedades antigas e contemporâneas e seus comportamentos violentos, nunca conseguirão, como este trabalho, esgotar o tema.

Seguindo esse eixo, o presente texto tenta discutir conceitos referentes às sociedades pré-letradas e pós-industriais, priorizando o enfoque das organizações dessas sociedades – e dos comportamentos individuais – como fatores facilitadores ou inibidores das formas de violência que conhecemos atualmente.

No decorrer das análises, procurei não me prender a uma abordagem acadêmica e a uma linguagem hermeticamente científica para permitir maior clareza e torná -lo accessível. Tentei contestar e ampliar conceitos médicos usados em psiquiatria, sugerir uma classificação das alterações do comportamento que se torne mais próxima da realidade do que as que estão sendo utilizadas atualmente e que se orientam por parâmetros semelhantes aos utilizados para as doenças físicas. Acredito ter aberto caminho no sentido de ampliar o uso das psicoterapias para a direção da profilaxia e da educação.

Na verdade o que posso ter feito foi dar um primeiro passo alternativo para pesquisas mais profundas na área da compreensão do comportamento humano e da sua aplicação

prática. Os estudantes e profissionais de diferentes áreas, através do conteúdo desse texto, terão farto material para crítica e reflexão. É necessário que as pessoas saiam, de vez em quando, do horizonte civilizado e conheçam outras realidades; que troquem de ângulo visual e

sem as lentes estreitas do dogmatismo e do puro

se

conservadorismo.

disponham

a

viver

no

mundo

18

o

pela

convivência. Comportamento humano não é assunto para ficar preso aos domínios dos acadêmicos ou dos profissionais da área. Tampouco pode ser encarado como conversa fácil, passível de ser resolvida sem maiores mergulhos intelectuais, pelo senso comum das esquinas e mesas de bar.

comportamento

Este

texto

é

apenas

uma

o

contribuição

cotidiano,

no

sentido

as

rodas

de

levar

dos

que

a

discussão

se

sobre

humano

para

para

interessam

Escrever é como ter uma relação privilegiada com os outros. Quando o interlocutor

não está presente, a imaginação é livre, a idéia

espaço de liberdade na solidão. Uma liberdade relativa, pois sabendo que os outros irão ler o

que

imaginação.

cuidado e nos tornamos, ás vezes, rígidos censores da nossa

torna-se verdade e lei. É como encontrar um

escrevemos,

tomamos

próprias

idéias e verdades, mas sabemos que elas perderão o sentido se não forem comunicadas e

muito

Viver em sociedade é uma

coisa

parecida.

Desejamos

criar

nossas

partilhadas

com

os

outros.

A

convivência

 

influencia

nossas

idéias

e,

elas,

o

nosso

comportamento,

mas

o

comporta mento

e

as

idéias

dos

outros

enriquecem

as

nossas

experiências. Escrever é uma forma virtual de conviver, com relação e sem presença física, pois os outros, embora ausentes, estão sempre presentes na imaginação de quem escreve. Não existe solidão absoluta, existem sim, duas formas de conviver: uma real e outra virtual.

Talvez tenham sido essas reflexões que impulsionaram este trabalho: saber que vivemos em dois planos simultâneos de convivência, um virtual (mental) e outro real (social). Perceber que o elemento intermediário entre esses planos é o comportamento, que pode expressar como nos sentimos na convivência, que pode reforçar ou enfraquecer mais ainda essa vontade de escrever, de viver e de conviver. É preciso admitir que o objetivo maior não é apenas chegar à conclusão que o comportamento expressa o resultado dessas relações, mas que ele é o único meio que possuímos, na relação social, para manifestar nosso bem estar ou mal estar. A curiosidade em saber porque os indivíduos e as sociedades entram em crise e se comportam reativamente é privilégio de um pequeno grupo de pessoas, mas, quem sabe se a maioria delas também se interessa por esse assunto?

O desejo de saber para que serve a Vida e se o seu maior objetivo está mesmo voltado para a convivência, pode nos transportar para um campo onde atuam os intrincados mecanismos de interação e regulação mental e social. Nos anos setenta havia uma grande curiosidade da classe média, no Brasil e em outros países, sobre hábitos e crenças orientais (orientalismo). Era a época dos gurus, da macrobiótica, do naturalismo e do misticismo oriental. Se quisermos arriscar uma interpretação desses comportamentos da época, poderíamos pensar que:

se consumo massacrantes

Muitos

sentiam

saturados

pelo

cotidiano

ocidental

da

produção

e

do

Esses rituais formavam grupos afins com objetivos voltados para a valorização da figura humana

19

Rituais voltados para o místico e para a natureza podiam atuar como um bálsamo para a Vida

O resultado, observado em pouco tempo, foi o florescimento da “indústria oriental”, com a produção e comercialização de diferentes tipos de produtos e seitas, onde os adeptos pudessem gastar o seu dinheiro e aliviar sua alma e seu bolso.

Acabamos tendo que concluir que o materialismo, impregnado no imaginário dos ocidentais, pode ser considerado uma doença, um impulso obsessivo e insaciável, que impede as relações pessoais de se organizarem fora dessa estreita concepção de vida. Foi nesses mesmos anos setenta que surgiram as primeiras e mais demoradas incursões no mundo da verdadeira “cultura brasileira” – o universo indígena. Foram essas experiências, muito difíceis de compreender no início, que me fizeram pensar com liberdade, melhorar o senso crítico, para poder refletir e contestar os fundamentos sobre os quais jazem os sentimentos, princípios e valores da vida civilizada. Foi um golpe mortal no meu etnocentrismo branco. Como bem disse o líder indígena Marcos Terena: “a civilização de vocês é o exemplo de uma cultura que não deu certo!”.

Esse certamente deve ter sido o principal objetivo de escrever - aprender sobre experiências obtidas em dois universos diferentes: o universo virtual do mundo civilizado, construído sobre sonhos intelectuais de grandeza, e o mundo da realidade natural, assentado nas possibilidades existentes da Natureza.

Alguns pensadores e filósofos tratam os “universais” como se fossem objetos descartáveis de uso pessoal. Já li muitos debates, sobre diferentes assuntos, entre doutores e pesquisadores. Com certeza todos deram - ou tiveram intenção de dar - alguma contribuição

estar

suficientemente pesquisado com a profundidade que exige, este trabalho serve também como

uma

campos como a Etologia, Psicoantropologia e Antropologia Cultural. Sem a intenção de ser profeta diria mais: num futuro próximo acredito que as relações entre comportamento e relação social passarão a ser objeto de um novo ramo de pesquisa científica. Talvez esses estudos possam estar dirigidos para uma área próxima a da teoria computacional da mente, da lógica imprecisa e dos processos elaborativos que fazem com que o cérebro “dê respostas” para situações onde estejam envolvidos, simultaneamente, os interesses do indivíduo, do seu grupo e do ambiente.

outros

esclarecedora.

Por

ser

este

um

para

tema

futuros

amplo

e

complexo

em

área

de

e

pelo

fato

de

e

não

em

contribuição

motivadora

estudos

Neurociências

uma

estratégia usada pelo sábio para divulgar conhecimento. Uma capacidade de armazenar suas

verdades ou as

ou escrever sobre elas. Como grande parte das verdades não resiste ao tempo, o sábio usa o

silêncio excessivamente e fala moderadamente para manter -se sábio.

O

que

conhecemos

como

sabedoria

(conhecimento

profundo)

parece

ser

verdades da sua cultura sob a forma de “verdades provisórias”, antes de falar

Minha

utopia

é

resgatar,

para

a

nossa

civilização,

a

sabedoria

que

as

sociedades

naturais possuem. Quem sabe se um dia poderemos nos tornar também povos desenvolvidos?

20

Não sou um especialista em filosofia ou em dialética, mas aceito as críticas sérias. Não dou muita importância a títulos universitários. Penso que “a melhor qualificação para um bom profissional é estar construído sobre a base de um excelente cidadão”. O título mais importante que um indivíduo pode alcançar é o de Cidadão. O único título que possuímos, mesmo antes de nascer, quando somos esperados por nossos pais. É um título homologado pelo nascimento, gratuito e sem necessidade de qualquer esforço pessoal ou registro em cartório; porém, talvez seja o mais difícil de manter pelo resto da vida; uma honraria que

precisa

ser

preservada

com

simplicidade,

pois

todos

os

outros indivíduos também são

possuidores

do

mesmo

título

e

todos

eles

são

outorgados

pela

mesma

Univers(al)idade.

Quando

morremos

levamos

conosco

duas

coisas:

o

conhecimento

que

adquirimos

e

a

convivência que tivemos. O resto fica!

21

CAPÍTULO I

A Natureza e seus mecanismos

Interação, Integração e Função

As verdades são relativas. São como as folhas, que se renovam durante as estações

O eixo dinâmico dos mecanismos da Natureza é a Interação! A Interação é constante e geral, provoca as mudanças, promove a diversidade de formas, cores, situações e fatos. Até os elementos inanimados sofrem a ação desse eixo universal. Um exemplo visível está na força gravitacional, aquela força que mantém os corpos celestes em equilíbrio. Tudo está em movimento e se relaciona para resultar em alguma coisa. Tanto a Biosfera quanto o nosso corpo - que estão em contínuo processo de mudanças – necessitam interagir para manter a vida em movimento.

Poderíamos dizer que a Interação é a principal razão da Vida, ou que a Vida é Interação. A partir dessa premissa podemos entender a Natureza como um processo interativo entre elementos naturais animados e inanimados. Esse tipo de fenômeno quando ocorre nos seres humanos, de forma integrada, não só mantém o equilíbrio do corpo (fisiologia e anatomia) e do psiquismo (equilíbrio psicológico ou emocional) como patrocina e coordena a estrutura social (modelo sociocultural). Integra o ser como unidade individual e como parte do grupo social e do todo universal.

Interação 1 é permitir a Integração 2 entre as partes, para

cumprir o objetivo da Função (função construtiva e reprodutiva 3 ) que resulta na produção da Vida. Visto esquematicamente poderia ser assim:

Um

papel

significativo

da

INTERAÇÃO

da Vida. Visto esquematicamente poderia ser assim: Um papel significativo da INTERAÇÃO INTEGRAÇÃO FUNÇÃO META VIDA

INTEGRAÇÃO

da Vida. Visto esquematicamente poderia ser assim: Um papel significativo da INTERAÇÃO INTEGRAÇÃO FUNÇÃO META VIDA
FUNÇÃO META
FUNÇÃO
META

VIDA

da Vida. Visto esquematicamente poderia ser assim: Um papel significativo da INTERAÇÃO INTEGRAÇÃO FUNÇÃO META VIDA

22

Interação pode significar Ativação ou Animação 4 , isto é, estado integrado e animado

produto

(com

ativo –

estímulo reativo) entre as partes, resultando em produto reativo – morte.

alma,

com

união,

harmônica,

estímulo

ativo)

entre

as

partes,

resultando

em

a convivência, a Vida; mas também pode significar Reação 5 (sem união, conflitivo,

o conflito, a destruição, a

Visto esquematicamente poderia ser assim:

a destruição, a Visto esquematicamente poderia ser assim: Natureza e diversidade Chamamos de Natureza a um

Natureza e diversidade

Chamamos de Natureza a um conjunto de leis organizadoras da interação, integração e

tempo

e

– Diversidade. Essa disposição interativa também é múltipla, dependendo do grau, da natureza, das propriedades e da qualidade de cada uma e da relação interativa entre elas. Por exemplo, o simples balançar dos galhos de uma árvore pelo vento é considerada uma interação mecânica (natureza de interação); se possuir intensidade forte, pode partir esse galho (grau de interação); pode, se for frio, fazer cair as folhas (propriedade de interação), etc. Nesse caso essa interação está ocorrendo entre uma unidade não-viva (vento) e uma unidade viva (árvore). O melhor exemplo interativo entre duas unidades vivas, sexualmente diferentes e da mesma espécie é a reprodução (interação reprodutiva).

a

determinado,

evolução

função

entre

unidades

com

animadas

ou

inanimadas

Essa

numa

que

coexistem

natural

muito

num

espaço

e

direções

alternativas.

resultando

associação

permite

grande

a

do

reprodução

conjunto

dessas

unidades,

diferenciação

1 Interação significa: “relação entre” as partes de um todo.

2 Integração significa: “ação solidária entre” as partes de um todo. 3 Função significa: “ação específica” para desempenhar um papel em benefício do todo.

4 Ativação ou Animação

significa:

“ação

construtiva,

reprodutiva e sintônica para unir as

partes beneficiando o todo”, permitindo a sobrevivência. 5 Reação significa: “ação reativa, contrária, dissociada entre as partes” de um todo, conflito.

23

Se utilizarmos a Teoria dos Sistemas podemos pensar a Natureza como um grande

sistema (Universo), compondo um conjunto de sistemas (galáxias) constituído de sub- sistemas (corpos celestes) que compõem outro sistema (Terra) composto por outro conjunto

de indiv íduos que,

para terem suas partes funcionando, necessitam de outros sub-sistemas (aparelhos) formados

(Biosfera)

que

possui

mais

sub-sistemas

(grupos

humanos),

constituídos

de

outros,

(órgãos)

com

funções

específicas

e

que

também

são

constituídos

por

células

diferenciadas

(tecidos)

que

atuam

de

forma

especializada,

produzindo

substâncias,

etc.

Se

procurarmos,

desde

o

macrocosmo

até

o

microcosmo,

o

encadeamento desses mecanismos,

iremos

encontrar

os

mesmos

fatores

(interação-integração-função)

em

qualquer

uma

das

partes

dessa

extensão.

O

que

chamamos

de

Ciclo

Vital

é

um

complexo

conjunto

de

fenômenos

renováveis

que

possui,

para

cada

 

parte

funcional,

um

eixo

organizador

 

para

manter o equilíbrio de todo o sistema.

Essa disposição natural pode ser fruto de uma fonte (ou mais de uma) sobre a qual ignoramos a origem e os objetivos. Admite-se que qualquer modificação antinatural nessa disposição poderá provocar desvios e alterações com resultados perturbadores para o conjunto, ou passíveis de reordenação. Quanto maior o grau de integração entre as partes componentes que um conjunto comporte (diversidade) e quanto menor a ocorrência de desvios entre essas partes, maior será sua estabilidade.

Tropismo e Entropia

O conceito de tropismo 6 é um bom exemplo para compreendermos a orientação dada pela Natureza para organizar a interação entre seus elementos constituintes. Dizemos que uma planta possui tropismo positivo para a luz ou para a Terra, quando ela se volta para um ou para outro, no caso de alteramos sua posição inicial. A flor do girassol, por exemplo, está

sempre

a

posição da planta, ela naturalmente voltará á posição anterior (heliotropismo). Se colocarmos um vaso com o girassol deitado, paralelamente ao nível do solo, suas raízes farão uma curva para se posicionarem em direção ao centro da Terra (geotropismo).

voltada

para

receber

os

raios

solares

da

melhor

forma

possível;

se

alterarmos

Este fato nos mostra que, para cumprir uma função, as partes que interagem (flor/luz do sol, raízes/Terra) necessitam funcionar integradas e sintônicas para alcançarem a lógica da sobrevivência e da reprodução. São leis que organizam os mecanismos naturais da Vida.

entropia 7

mesma

orientação dada pela Natureza para mostrar que a interação entre seus elementos constituintes

necessita de integração e sintonia para cumprir uma função vital. Se o mecanismo natural

O termo

é

um

exemplo,

em

contrário,

para

compreendermos

a

sofre

mudanças

consideráveis

para

pior,

dizemos

que

“o

sistema

se

tornou

negativamente

entrópico”,

ou

seja,

que

fatalmente

se

desorganizará

e

caminhará

para

a

falência.

Visto

esquematicamente poderia ser assim:

24

SISTEMA NATURAL (entropia positiva)

24 SISTEMA NATURAL (entropia positiva) SISTEMA ANTINATURAL (entropia negativa) Se retirarmos os ponteiros de um

SISTEMA ANTINATURAL (entropia negativa)

(entropia positiva) SISTEMA ANTINATURAL (entropia negativa) Se retirarmos os ponteiros de um relógio, não mais

Se retirarmos os ponteiros de um relógio, não mais poderemos marcar o tempo por ele; seu mecanismo continuará funcionando, porém a integração entre o mecanismo e os ponteiros - que empresta a função de visualizar as horas - se perderá. Se cortarmos o tendão de um dedo polegar, certamente perderemos a função de apreender objetos, porque sabemos que o tendão cumpre a função de intermediar o movimento dos dedos. Analogamente, para viver de modo ativo e em harmonia, as pessoas necessitam obedecer às regras sociais e ecológicas determinadas pelo seu grupo cultural de acordo com as leis da Natureza. Os modos de associar-se é que determinam “a qualid ade” 8 do comportamento das pessoas em relação ao seu grupo e ao ambiente em que vivem. Se o comportamento é integrador, sintônico e funcional, o sistema vital no grupo e no indivíduo decorrerá de forma natural (comportamento ativo/ associação equilibrada); se o contrário acontece teremos um sistema entrópico, o que caminha para a extinção (comportamento reativo/ associação desequilibrada).

Associação humana entrópica ou desequilibrada é aquela que perdeu seu Eixo Cultural, isto é, perdeu o conjunto de regr as, hábitos e costumes que mantêm a qualidade dos comportamentos, a coesão e harmonia dentro do grupo e fora dele (no ambiente). Nesse tipo de associação as pessoas se tornam reativas (portadoras de comportamento reativo). Visto esquematicamente poderia ser assim:

Individualismo/Isolamento

poderia ser assim: Individualismo/Isolamento Desintegração Disfunção/Reação/Conflito 6 tropismo

Desintegração

poderia ser assim: Individualismo/Isolamento Desintegração Disfunção/Reação/Conflito 6 tropismo em Biologia

Disfunção/Reação/Conflito

Desintegração Disfunção/Reação/Conflito 6 tropismo em Biologia significa: reação de

6 tropismo em Biologia significa: reação de aproximação ou afastamento de um organismo em relação à fonte de estímulo.

significa: Medida do grau de desordem em uma substância ou sistema; Na teoria

da informação e em ciência de computador, é uma medida do conteúdo de informação de uma

mensagem, avaliada por sua incerteza.

“a qualidade” do comportamento significa: se o comportamento é integrador, sintônico e funcional entre seus membros e com o ambiente.

7 Entropia

8

25

Interação, comportamento e desvios

Chamamos de “interação” a uma forma universal de relação que ocorre entre as partes componentes de um sistema e que segue as leis naturais. Esse sistema poderá ser o Universo, a Terra, uma sociedade animal ou vegetal ou o nosso próprio corpo ou mente.

que

ocorre entre as partes componentes de um sistema e que segue as leis naturais, composto de

seres vivos (animais ou vegetais). Essa resposta é geralmente originada pela constituição genético-instintual das partes, frente aos estímulos internos e externos.

Chamamos

de

“comportamento

animado”

a

uma

forma

particular

de

relação

forma especializada de relação que

ocorre entre os seres compone ntes de um sistema cultural humano e que nem sempre segue as

leis naturais (sociedade humana). Essa forma especializada determina uma ampla diversidade

de

onde

grupo e com o ambiente. Esses atributos podem modificar individualmente a resposta a um mesmo estímulo. O livre-arbítrio, aprendizagens diferenciadas e os estados reativos

como: sentimentos, princípios e valores estão agregados às relações com o

avançada” de ssas relações,

Chamamos

e

de

“comportamento

Isso

humano”

ocorre

a

uma

à

culturas

comportamentos.

devido

“natureza

atributos

(comportamentos

reativos) podem alterar as respostas. Visto esquematicamente poderia ser

assim:

Interação (forma universalde relação)

Interação (forma universal de relação ) Comportamento Animado (forma particular de relação: animais ou

Comportamento Animado (forma particular de relação: animais ou vegetais)

(forma particular de relação: animais ou vegetais) Comportamento Humano (forma humana de relação)

Comportamento Humano

(forma humana de relação)

vegetais) Comportamento Humano (forma humana de relação) Comportamento Ativo (forma normal de relação)

Comportamento Ativo

(forma normal de relação)

Comportamento Reativo

(forma desviada de relação)

equilíbrio desequilíbri
equilíbrio
desequilíbri

Os desvios no comportamento humano se dão em condições antinaturais, quando sua sobrevivência, seus direitos, seus desejos pessoais (liberdade) e sua necessidade de conviver harmoniosamente em grupo encontram-se limitados ou alterados pela organização social, refletindo-se para a mente e produzindo comportamentos alterados. A esses desvios de comportamento chamamos de Comportamento Reativo.

26

Costumamos confundir “comportamento normal” e “comportamento violento”. Chamamos de “feras” aos animais que matam outros animais para sobreviver. O ataque de uma onça à sua presa, por exemplo, vemos como ato violento e injusto. O instinto predador dos carnívoros protege sua sobrevivência e é movido por seus instintos. Na verdade, esse ato é perfeitamente natural e serve a diferentes funções do equilíbrio natural entre animais. O espaço vital necessita de “desbastes” periódicos das populações animais e vegetais para que a Vida possa circular sem problemas. Os seres vivos na scem para viver e reproduzir, mas não

podem

ocupar

o

espaço

vital

indefinidamente. Morrem para ceder espaço a outros que

nascem!

 

Podemos

pensar

a

violência

como

uma

anomalia

na

interação

humana;

como

subproduto

portadores de comportamentos reativos podem produzir violência, assim como o desequilíbrio das relações sociais num grupo pode originar comportamentos reativos nos indivíduos.

Indivíduos

das

relações

instáveis

entre

pessoas

e

entre

grupos

de

pessoas.

Os comportamentos podem sofrer desvios quando os mecanismos naturais são alterados por circunstâncias ambientais (enchentes, superpopulação e catástrofes naturais) ou provocados artificialmente pelos homens (guerras, poluição, alterações da organização social). Todo animal quando experimenta situações com as quais não está adaptado, atua reativamente na tentativa de readaptar-se ou mudar a situação alterada. Nesses períodos sua

agressividade

altera-se

em

qualidade

e

intensidade,

podendo

produzir

o

que

conhecemos

como

destrutividade .

Essa

alteração

poderá

retornar

a

normalidade

desde

que

cessem

os

fatores que a iniciaram, fazendo com que os distúrbios transmitidos para o sistema também se atenuem ou desapareçam.

A origem da destrutividade

Pode parecer incrível, mas os primeiros registros cerebrais, no plano relacional, que os

homens

sobrevivência; a agressividade natural é sua expressão, na interação entre os indivíduos. Na

verdade a agressividade natural é uma função de todo ser vivo dirigida

no convívio entre as espécies. Um homem ou animal que não usa sua agressividade natural tende a enfraquecer e morrer.

da

(e

os

outros

animais)

possuem

são

destrutivos.

A

destrutividade

é

a

matriz

para a sobrevivência

fosse um treinamento primitivo e grosseiro da

agressividade, que tenta buscar equilíbrio adaptativo. Todo animal é naturalmente destrutivo, mas nem sempre é agressivo. O que intermedia esse processo nos animais são seus instintos. Enquanto alguns cuidam dos filhotes arriscando a própria vida (instinto maternal ou paternal), outros os devoram (canibalismo). Alguns tipos de cobras devoram seus filhotes logo após o nascimento. A capacidade de fugirem imediatamente para um abrigo salva suas vidas. Entre os humanos a destrutividade também ocorre em situações especiais (desvio instintual), sobretudo quando o indivíduo está submetido a uma forte condição reativa (forte tensão). Quando a mãe mata o filho em estado de eclampsia, a destrutividade se sobrepõe ao instinto

A

destrutividade

é

como

se

27

maternal. Quando acometido por uma crise de automatismo epiléptico qualquer indivíduo pode matar quem estiver próximo (estado alterado da consciência). Quando um pai mata o filho para defender sua própria vida, entra em ação a parte de strutiva da sua agressividade natural (autodefesa). Esquematicamente poderia ser assim:

destrutividade (matriz)

destrutividade (matriz ) agressividade natural (autodefesa, readaptação) Comportamento Humano (estado de consciência)

agressividade natural (autodefesa, readaptação)

(matriz ) agressividade natural (autodefesa, readaptação) Comportamento Humano (estado de consciência) Comportamento
(matriz ) agressividade natural (autodefesa, readaptação) Comportamento Humano (estado de consciência) Comportamento

Comportamento Humano

(estado de consciência)

Comportamento Ativo (agressividade natural - estado de consciência normal)

Comportamento Reativo (reatividade - consciência alterada, de svios doHumano (estado de consciência) Comportamento Ativo (agressividade natural - estado de consciência normal) psiquismo)

psiquismo)

A destrutividade é a matriz bruta; a agressividade natural é o resultado de um ato processado pelo cérebro através da aprendizagem social (socialização). O que intermedia as duas coisas no animal são os instintos. No caso do homem os instintos também podem produzir atos violentos, dependendo do seu estado de consciência. Na maioria das vezes o homem usa recursos especiais para intermediar seus impulsos agressivos. Os sentimentos, os princípios, os valores, a religiosidade, o discernimento, entre outros tantos, são utilizados para processar os estímulos e resultar na ação (comportamento). A socialização dos impulsos agressivos é condiç ão essencial para a vida em grupo. Vários sentimentos podem originar impulsos agressivos (ódio, raiva, irritação, humilhação, etc.) dependendo de como são processados pelos centros superiores cerebrais e da sua carga reprimida. Essa carga (reatividade) pode ser reprimida, atenuada, deslocada ou sublimada. Dependendo da direção que tome, sempre haverá um resultado final. Vejamos alguns exemplos:

Reatividade reprimida – alternativas:

Acumula tensão, aumentando a reatividade existente. Ao atingir certo limite, explode num ato destrutivo Ex. homicídio, suicídio, acidente vascular cerebral (AVC) Reatividade atenuada – alternativas:

Expressa-se através de comportamentos agressivos leves. Ex. agressão verbal (debate acalorado)

Expressa-se através de comportamentos agressivos médios. Ex. agressão física (luta)

Reatividade deslocada - alternativas:

Expressa-se através de comportamentos substitutos. Ex. chutar um gato, ao invés de agredir o chefe.

28

Reatividade sublimada - alternativas:

Expressa-se através de comportamentos sublimados. Ex. o cirurgião corta os tecidos ao invés de esfaquear.

É necessário praticar a destrutividade para podermos passar para a fase seguinte - a construtividade. Essa passagem se dá na fase infantil quando se inicia a socialização dos instintos. É comum o bebê morder o seio da mãe durante a amamentação. Crianças pequenas costumam morder ou bater nos menores, quebrar brinquedos ou objetos. Brigas entre crianças são aprendizagens que ajudam a desenvolver a autodefesa e a socialização, se forem compreendidas pelos adultos como matéria -prima de aprendizagem social.

29

CAPÍTULO II

O Comportamento violento

O verdadeiro comportamento violento só ocorre em seres humanos que convivem de forma desequilibrada ou em animais sob indução ou adestramento.

circunstancias

antinaturais ou sob situações em que o instinto determina uma exacerbação do comportamento. Citemos alguns desses casos:

Um

aparente

comportamento

violento

entre

os

animais

se

em

Animais famintos, feridos ou presos durante longo tempo (condições estressantes).

Animais afetados por doenças (hidrofobia) ou sob efeito de substâncias neurotóxicas (intoxicação)

Animais com prole em desenvolvimento (fêmea protegendo os filhotes)

Animais acuados sob forte ameaça física (autodefesa)

Nessas mesmas condições os seres humanos podem reagir instintivamente, pois ainda estão preservadas suas respostas instintuais primárias. Para que um comportamento seja considerado verdadeiramente violento são necessárias, entre outras, algumas condições:

Capacidade de planejar e calcular conscientemente (racionalidade)

 

Capacidade de avaliar as conseqüências (discernimento)

Capacidade de julgar eticamente o resultado (consciência ética)

Capacidade de associar idéias (associação)

 

Capacidade

de

memorização

para

fatos

antigos

(memória

retrógrada,

experiência).

Capacidade

de

compreender

situações

sutis

(inteligência,

capacidade

de

abstração).

Essas, entre outras, habilidades especiais de pensar e agir são atributos existentes apenas nos seres humanos, que podem gerar violência sem a utilização de respostas instintuais primárias. Essa condição confere ao homem a possibilidade de uso de comportamentos alterados (reativos). Como exemplo teríamos: sadismo, crueldade, perversão, maquiavelismo, etc. O comportamento violento nos seres humanos só ocorre em situações em que o cérebro encontra-se saturado e a mente torna-se perigosamente reativa. Para compreendermos melhor isso torna-se necessário saber como o cérebro funciona.

30

O Cérebro humano

Se for entendido como um sistema computacional, o cérebro pode ser visto estruturalmente como uma complexa central de processadores, interligados através de centros especiais de processamento de dados (informações), com capacidade de responder a diferentes tipos de estímulos, gerar estímulos (sinais) e induzir a resultados.

Todo sistema que produz trabalho é movido por energia e produz energia; o cérebro também é mobilizado por energia e, após processá-la, induz a trabalho físico e energético

conversão

(programas).

recíproca sob certas condições. Nessas condições o cérebro distribui energia (a partir da

matéria) em forma de descargas (pulsos eletroquímicos), correspondentes às necessidades do

trabalho

características (função). Esse trabalho tanto pode expressar-se de uma

forma real (coordenação motora, locomoção) como pode assumir forma virtual (imaginação,

pensamento lógico).

Sabemos

de

suas

também

que

energia

e

massa

(matéria)

são

passíveis

de

e

Podemos admitir o psiquismo como função do cérebro, atuando como um possante sistema operacional que abriga um conjunto de programas inteligentes (afetividade, sexualidade, sociabilidade, habilidades, etc.) interligados por um circuito neuronal integrado, com possibilidade de desenvolver-se e de alternar e alterar essas ligações. Com uma configuração administrada pelas aprendizagens pessoais, familiares e culturais. Possui razoável capacidade de moldar essas configurações de acordo com diferentes situações novas (adaptação), operando numa velocidade incrivelmente fantástica (pensamento, reflexos).

As funções cerebrais estão dirigidas para duas direções fundamentais: uma interna e outra externa. A interna está orientada para duas outras, uma que cuida da integração do corpo (vida vegetativa) e uma autoreguladora do próprio cérebro (autoregulação psíquica) que

às

funciona como “controle e manutenção” do equilíbrio mental. A externa está dedic ada

situações

que

acontecem

no

meio

ambiente

(vida

de

relação).

Essas

funções

se

refletem

mutuamente,

permitindo

a

comunicação

interfaces

e

proporcionando

uma

sensação

global

(estado consciente).

O cérebro parece possuir um mecanismo de defesa semelhante ao do corpo (sistema

imunológico). Ele seria o responsável em manter, mesmo em estados graves, um registro de segurança (“backup”) da configuração mental sadia. Uma espécie de arquivo anterior ao processo de instabilidade mental, que o faz reconhecer de novo a condição de equilíbrio antes existente. Como nos “softwares”, onde é possível recuperar arquivos após uma instabilidade no sistema, a mente também se reabilita de situações traumáticas. Falaremos mais sobre isso no capítulo “Psicose e sanidade”.

A mente é capaz de guardar registros cerebrais complexos (engramas) de experiências

agradáveis ou desagradáveis, carregadas de energia. O engrama é um arquivo multimídia complexo composto de informações de várias naturezas (imagem, som, sabor, odor, textura,

31

etc.) captados pelos órgãos dos sentidos ou imaginados pela criatividade e armazenados na

informações,

relacionados

possibilita o armazenamento das informações no cérebro como se ele funcionasse como um banco de dados relacional avançado, permitindo o uso variado e estratégico de ssas informações através de mecanismos de busca (memória) ou dedutivo-associativos (raciocínio, inteligência). Essas experiências geralmente estão impregnadas de cargas diferentes de energia especial (emoções) que lhe conferem qualidade e força.

capacidade

memória.

Após

serem

si,

processados

servem

por

centros

suporte

superiores,

para

novas

esses

blocos

de

Esta

entre

como

experiências.

qualidade,

como solidariedade e altruísmo, provocando o surgimento de “impulsos ativos” (sinais ativos)

que se acumulam no plano inconsciente do psiquismo determinando um caráter construtivo do comportamento individual, que conhecemos com o nome de Comportamento Ativo. Quando as experiências são desagradáveis, se associam a emoções de baixa qualidade, como ressentimento e vingança, provocando o surgimento de “impulsos reativos” (sinais reativos). Os impulsos reativos são impulsos represados que se acumulam no plano inconsciente do psiquismo determinando um caráter destrutivo do comportamento individual, que determina uma agressividade facilmente aflorável, e que conhecemos como: “nervosismo”, temperamento agressivo, neurastenia ou recalque. O represamento ocorre porque um “grupo de informações especiais” (bom senso) indica que a liberação de sses impulsos pode causar instabilidade no sistema (psiquismo – culpa) e na rede (família, cultura – conflito).

Quando

as

experiências

são

agradáveis,

se

associam

a

emoções

de

alta

O psiquismo é capaz de manter represados esses sinais reativos (tensão, “stress”) até

organismo

(físicas

controlam

evitando transtornos mais graves, ainda não são suficientemente conhecidos. Os resultados podem aparecer sob forma de:

que

determinado

limite.

as

Ultrapassado

que

que

se

essas

esse

limite

começam

de

a

surgir

alterações

Os

livrar -se

no

e/ou

psíquicas)

direções

manifestam

energias

diferentes

formas.

para

mecanismos

do

tensionais

tomam,

acúmulo,

Manifestações físicas ou somatismos (diarréia, queda de cabelos, úlcera, espasmos musculares, etc).

Manifestações funcionais ou disfunções (dor de cabeça, mal estar, taquicardia, dispnéia, insônia, etc).

Manifestações psíquicas ou emocionais (ansiedade, depressão, angústia, idéias de suicídio, etc).

Manifestações

alteradas

do

comportamento

ou

comportamentos

reativos

(isolamento, agressões, sado-masoquismo, homossexualismo, transgressões).

No início da formação reativa essas manifestações dificilmente são percebidas, produzindo apenas sensações de mal estar. Quando passam para o corpo determinam o aparecimento de sintomas ou sinais e, quando aumentam, podem produzir lesões físicas, de difícil diagnóstico, pois geralmente não estão associadas a agentes específicos (bactérias, vírus, substâncias tó xicas, etc.) causadores de doenças comuns; ou podem alterar a estabilidade psíquica, produzindo alterações do comportamento, leves ou graves; quando graves, são conhecidas como doenças mentais (comportamento reativo grave). Esses

32

mecanismos

determinam

a

origem

daquilo

que

chamamos

de

doenças

psicossomáticas

e

psicoses.

Os comportamentos reativos (represamento de tensão, “stress”) também extravasam

através de expressões do comportamento, como as condutas ansiosas, comumente observadas

no dia -a -dia em pessoas:

Que falam excessivamente (verborragia)

Que comem excessivamente (bulimia)

Que mentem excessivamente (mitomania)

Que roubam compulsivamente (cleptomania), etc.

Todo excesso de energia tensional armazenada (nódulos reativos) possui uma tendência de se descarregar em qualquer direção (para o comportamento ou para dentro do corpo) com a finalidade de reequilibrar o organismo. Essa direção da descarga reativa se dá pela capacidade, maior ou menor, de cada indivíduo em conter (reprimir) ou expressar (descarr egar) essas tensões. Podemos concluir então que o modo de vida de uma pessoa em seu grupo social é determinado pela cultura do grupo, que forma os hábitos e costumes

circulantes (sentimentos, princípios e valores), que moldam os comportamentos, que origina m

a qualidade da convivência, que promovem o bem-estar ou mal-estar, que facilitam o

equilíbrio ou o desequilíbrio psíquico e orgânico de cada um, e que promove a união (harmonia) ou reatividade (conflito) entre os membros no grupo.

Percepção e convenção

Nós formamos uma consciência do mundo através das percepções e das convenções advindas das informações e aprendizagens que a Cultura nos fornece. Cada Cultura denomina

e cria conceitos os mais diversos para diferentes objetos, fatos e situações da realidade.

Classificamos

e

conceituamos

a

maioria

das

coisas

para

facilitar

nossa

compreensão

e

permitir

as

ações.

Percebemos

e

convencionamos

para

compreender

e

agir.

Vivemos

no

mundo

das

representações

mentais

(engramas)

às

quais

adicionamos

emoção

para

formar

registro (percepção) e armazenamento (memorização). A realidade, para nós, varia segundo

nosso

momento.

naquele

modo

de

interpretar

o

mundo

segundo

a

emoção

e

sentimento

que

ocorre

Um fato curioso de observar é que o cérebro parece não armazenar informações de pouca importância, para não oc upar espaço desnecessariamente. É possível que exista um processo de “emotização” (informação impregnada de emoção) que organizaria as informações em blocos seqüenciais de relevância gradativa, com variações de intensidade emocional, ou seja, aquilo que nos parecesse mais importante formaria registros permanentes. As informações mais usadas seriam reforçadas também pelo uso freqüente. O armazenamento poderia ser feito por um mecanismo onde essas informações permaneceriam compactadas até serem solicitadas pela memória, quando se expandiriam para facilitar a le mbrança. A percepção, assim como a formação dos mecanismos de compreensão, parece funcionar com incrível rapidez, passando por complexos filtros de avaliação.

33

Um exemplo simples de entender é o de uma criança de três anos que vê o rosto de sua mãe e pergunta: - Por que você está triste? (ela está triste por ter brigado com o marido). Ficamos admirados com a percepção da criança que conseguiu detectar o sentimento sem que a mãe tivesse dito qualquer palavra. Na verdade essa criança já viu sua mãe em diferentes circunstâncias que se expressam pelo rosto. E guardou (arquivou) essas imagens visuais na memória de forma seqüencial como os fotogramas de um vídeo. Cada fotograma é um conjunto de dados que identifica um grau de sentimento, que vai do mais leve até o choro. Comparando os diferentes fotogramas essa criança saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo:

saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)
saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)
saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)
saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)
saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)
saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)
saberá a intensidade da tristeza. Como no esquema abaixo: Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.)

Nossos sensores (olhos, ouvidos, pele, nariz, etc.) transmitem informações específicas, de cada órgão dos sentidos, para centros superiores no cérebro que as decodificam. Elas, após processadas, se associam e formam um bloco (engrama) que possui significado lógico (ou impreciso, dúvida) e que nos transmite propriedade qualitativa (bom/ruim, quente/frio, prazer/dor, certo/errado, etc.). Direcionamos nossas respostas (atos) guiados por módulos mentais, fortemente influenciados pelos hábitos e costumes do grupo ao qual pertencemos.

maioria das vezes automático, pois já aprendemos,

individualmente e com o grupo, qual o molde que deve formar o resultado das respostas. Mesmo assim, criamos novas respostas e testamos a aceitação do grupo em relação a elas. Ás vezes transgredimos as normas para testar a reação do grupo ou porque nos tornamos reativos e precisamos descarregar tensões acumuladas.

Esse

processamento

é

na

obter

“feed-back” sobre a direção a ser seguida ou mudança a ser efetuada. Nossas insatisfações pessoais, manifestadas para o grupo com excessiva freqüência e de forma explosiva, podem causar distúrbios no equilíbrio geral, mudar radicalmente a direção das normas grupais ou o modo de nos comportarmos.

As

leis

ou

regras

grupais

são

testadas

freqüentemente

pelos

indivíduos

para

Quando o número de indivíduos do grupo cresce exageradamente, surge a tendência

da

membros e pela afinidade entre eles, tende a criar autonomia e pode formar um universo próprio, com conceitos, interesses e comportamentos divergentes do grupo maior. Essa dif erenciação pode resultar em áreas de atrito com o grupo maior, que pode ocasionar uma

formação

de

subgrupos

dentro

do

grupo.

Esses

subgrupos,

pela

proximidade

de

seus

34

cisão e resultar na formação de um novo grupo independente ou divergente. Isso nos mostra que os grupos possuem um limite de crescimento e complexidade, podendo dividir-se em vários grupos. Esse é um fenômeno natural na dinâmica da formação e interação de grupos.

Comportamento Humano - Ativo e Reativo

Chamamos de modelo cultural de um grupo ao conju nto de sentimentos, princípios e valores priorizados pelos me mbros do grupo social. Esse conjunto, na convivência, resulta na formação de hábitos e costumes que, pelo uso continuado, cria as normas e regras de convívio tradicional do grupo.

O homem, por ser um animal social, depende do seu grupo. A família, como grupo

social original, cumpre a função de modelar o indivíduo para a sua futura inserção no grupo

social maior (sociedade) e, ao mesmo tempo, é influenciada pelo grupo social maior. Essa

do

– ser reativa e funcionar em sentido oposto, através de comportame ntos reativos (convivência reativa)

indivíduo

modelagem,

interage por meio de comportamentos ativos (convivência ativa). Pode também

sendo

função

natural

e

construtiva -

permite

a

sobrevivência

do

grupo

e

Dizemos que uma sociedade é antropocêntrica quando situa a figura humana (e sua convivência) no centro dos interesses do grupo. O resultado desse tipo de organização é a formação das sociedades naturais, onde a solidariedade e o respeito pelas normas fortalecem a coesão do grupo. Da mesma forma chamamos de ergocêntrica a uma sociedade que situa o trabalho (e os bens produzidos por ele) no centro dos interesses do grupo, onde a competição excessiva entre seus membros e o desrespeito pelas normas enfraquece a coesão do grupo. No primeiro caso é valorizado o coletivismo, isto é, o bem-estar dos membros do grupo; no segundo, é valorizado o individualismo, isto é, o bem-estar individual dentro do grupo. O resultado desse último tipo de organização é a formação das sociedades de classes e da competição destrutiva entre seus membros.

A violência, alguns tipos de doenças, conflitos, desvios de caráter e de comportamento

e mal-estar geral numa sociedade em desequilíbrio geram e, ao mesmo tempo, são o resultado de comportamentos reativos de seus membros que convivem reativamente, determinando mais comportamentos violentos. Denominamos essas sociedades de “sociedades civilizadas”. Uma das características das sociedades civilizadas é a valorização excessivamente materialista de conceitos como:

Produção e produtividade

Propriedade individual

Desenvolvimento científico e tecnológico

Poder (pessoal, político, econômico).

35

civilizadas valorizam as aquisições

individuais

grau de importância abaixo das aquisições materiais, espirituais e ecológicas. O resultado da

compõe são medidas por sua

capacidade em adquirir bens produzidos (poder aquisitivo), possuir propriedades (territorialismo), conhecimento científico e tecnológico (cientificismo, apropriação pelas

patentes) e deter controle político (controle das decisões centralizado em pequenos grupos)

detrimento das aquisições coletivas, isto é, posicionam a figura humana num

Organizadas

em

dessas

dessa

forma,

as

sociedades

as

classes

estratificação

sociedades,

onde

que

a

promove

e

estimula

a

competitividade.

A

importância

de

um

indivíduo

nessas

sociedades

depende

da

sua

capacidade de competir com outros indivíduos (pragmatismo materialista) e

do quanto consegue reter de bens, poder e riquezas. A não distribuição proporcional - dos bens produzidos pelo grupo e das oportunidades de ocupar um papel social (identidade social)

- resulta no que chamamos de

onde

gera

podem se situar em pontos

anomalias da interação social. A ocorrência desses fenômenos

civilizada,

os

indivíduos

desequilíbrios

na

sociedade

extremos

de

importância

social,

dando

origem

a

comportamentos

reativos.

Vejamos

alguns

exemplos:

Magnata

mendigoMagnata

Virgem

prostitutaVirgem

Abstêmio

drogadoAbstêmio

Cientista

analfabetoCientista

Santo

pecadorSanto

Proprietário

peãoProprietário

Vimos que uma sociedade antropocêntrica gera naturalmente comportamentos ativos nos indivíduos, enquanto uma sociedade ergocêntrica produz comportamentos reativos. Vamos agora definir esses dois conceitos com base em comportamentos que se refletem em atividades humanas:

Comportamento Ativo: é todo comportamento humano positivo e construtivo, que produz apenas harmonia e equilíbrio interno (no psiquismo) e externo (na família e no ambiente) e que contém altos níveis de sentimentos, princípios e valores saudáveis nas pessoa que o expressam. Ex. A invenção da vacina contra a paralisia infantil por Albert Sabin e sua equipe de pesquisas.

Comportamento Reativo: é todo comportamento humano negativo e destrutivo, que produz apenas desarmonia e desequilíbrio interno (no psiquismo) e externo (no ambiente

e na família) e que contém baixos níveis de sentimentos, princípios e valores nas pessoa que o expressam. Ex. O tráfico de drogas.

Enquanto os comportamentos ativos estimulam a solidariedade promovendo a coesão do grupo e o bem-estar individual (atividade), os comportamentos reativos atuam no sentido contrário produzindo mal-estar (reatividade). Não é demais ressaltar que entre os membros que trabalham na pesquisa de uma vacina (bem coletivo), a ocorrência de conflitos e atos destrutivos é bem menor do que nos que atuam numa atividade de tráfico de drogas (lucro

36

individual) dentro da mesma sociedade. A diferença está nos agentes mobilizadores (sentimentos, princípios e valores) dos membros de cada grupo e na natureza construtiva ou destrutiva da atividade.

O comportamento reativo humano pode levar a diferentes graus de intensidade na alteração do estado de consciência. O grau de alteração torna-se diretamente proporcional ao acúmulo de impulsos agressivos represados (carga reativa). O comportamento reativo é, portanto, o elemento gerador das violências e desvios que conhecemos no dia -a-dia (guerras, doenças psico-sócio-somáticas, autoritarismo, assaltos, seqüestros, etc.). É provável que sejam produzidos pelas diferenças desproporcionais, na capacidade de sobreviver e de expressar-se, entre os membros da sociedade que chamamos de “civilizada”. Visto numa tabela seria assim:

ComportamentoReativo

Psiquismo

Resultado

Leve

alterações leves

Pequenos distúrbios do comportamento, dificuldades de aprendizagem, agressividade aumentada, períodos de isolamento, etc. Uso de drogas, doenças psicossomáticas, depressões, furtos, fugas de casa, dificuldades de relacionamento.

Médio

alterações aumentadas

Grave

sinais de desorganização psíquica

Delitos contra a vida e contra o patrimônio, tentativas de homicídio e suicídio, neuroses graves e crises psicóticas.

Instalado

distúrbios graves do psiquismo

Psicoses, homicídios, suicídios, crimes hediondos.

Existe uma tendência muita arraigada, sobretudo entre médicos, de procurar a causa

físicos, químicos e biológicos. Os mecanismos que

integram o psiquismo ao corpo também são capazes de produzir disfunções e lesões físicas. Além disso, simulam, através de sinais e sintomas, doenças que são produzidas por fatores que normalmente produzem alterações físicas. Os mecanismos produtores de doenças físicas

das doenças apenas através

de

fatores

tanto podem ser originados por agentes naturais (vírus, bactéria, exposição excessiva a raios ultravioletas, etc.) como também por tensões reativas internas, geradas no psiquismo e

dirigidas

para

o

corpo

(somatismos).

Essas

tensões

reativas

podem

interferir

nos

sistemas

reguladores

do

organismo

(termoregulação,

ritmo

cardíaco,

ritmo

respiratório,

secreções

glandulares,

etc.),

produzir

lesões

(tumorações,

úlceras)

e

simular

condições

fisiológicas

naturais (cefaléia, vômitos, diarréia, gravidez psicológica, etc).

Não é correto avaliar separadamente os mecanismos fisiológicos dos psicológicos, porque ambos se manifestam no corpo e na mente; nem, tampouco, os comportamentos das doenças, nos indivíduos dentro de uma cultura. Os sistemas dinâmicos de um organismo e de uma sociedade estão irremediavelmente interligados. A perda de um parente, por exemplo, pode ocasionar sérios distúrbios emocionais e fisiológicos nos membros do grupo. Cada vez ficam mais claras suas funções interagentes. Ambos possuem a função essencial de zelar pela integração entre as partes (fisiológicas e psicológicas) representadas pelo corpo e pela mente, refletindo os desvios (sinais e sintomas) ora para o corpo, ora para o comportamento, na busca do equilíbrio natural do corpo (saúde) e da sociedade (convivência). As alterações no corpo ou na mente de um indivíduo, muitas vezes, podem estar espelhando as insatisfações, o mal estar e a inadaptação às condições hostis do meio familiar e social. Os exemplos mais dramáticos estão representados pelo homicídio e suicídio, ambos ocasionados por fortes

37

tensões produzidas na convivência e refletidas para o ambiente sociofamiliar, e daí para o indivíduo que as manifesta em condutas reativas, fechando o ciclo.

Comportamento: organização e desvios

Mecanismos naturais e reativos

Para compreendermos a existência de comportamentos observados nas sociedades civilizadas, torna-se necessário compará-los com comportamentos existentes nas comunidades naturais, ou seja, comparar comportamentos entre duas sociedades humanas organizadas sob parâmetros políticos, econômicos, sociais e religiosos diferentes. Partimos da premissa de que “estímulos diferentes podem gerar comportamentos diferentes”. Já vimos que os principais fatores mobilizadores do comportamento geral são: sentimentos, princípios e valores; que ao circularem com freqüência num grupo, acabam determinado seus hábitos e costumes. Que hábitos e costumes são modos de viver e conviver que mobilizam um grupo cultural.

Esquematicamente poderia ser assim:

Individual MEIO REATIVO L
Individual
MEIO
REATIVO
L

convivência

social

COMPORTAMENTO não ético ético egoísta solidário mentiroso verdadeiro MEIO desonesto honesto ATIVO
COMPORTAMENTO
não ético
ético
egoísta
solidário
mentiroso
verdadeiro
MEIO
desonesto
honesto
ATIVO
agressivo
pacífico
J
materialista
humanista
avarento
generoso
hostil
hospitaleiro
conflito
equilíbrio

Vimos também que sentimentos, princípios e valores possuem qualidades tão diferentes que podem originar comportamentos construtivos ou destrutivos, variando com o bem estar ou mal estar individual na relação, dentro do grupo, entre grupos, e com o ambiente físico (natureza). O cérebro é capaz de guardar registros cerebrais complexos (engramas) de experiências agradáveis ou desagradáveis, carregadas de energia (pulsos eletroquímicos). Essa capacidade possibilita o armazenamento das informações no cérebro como se ele funcionasse como um banco de dados relacional avançado, permitindo o uso estratégico dessas informações. Essas experiências impregnadas de cargas diferentes de energia especial (emoções) lhe conferem qualidade e força. Quando as experiências são agradáveis, se associam a emoções de alta qualidade (+), como solidariedade e altruísmo, provocando o surgimento de “impulsos ativos”.

38

y + y + y + y + y + y + y = Comportamento Ativo

Sentimentos comportamento cultura princípios valores
Sentimentos
comportamento
cultura
princípios
valores

Quando as experiências são desagradáveis, se associam a emoções de baixa qualidade (-), como ressentimento e vingança, provocando o surgimento de “impulsos reativos” (nódulos reativos), impulsos represados que se acumulam no plano inconsciente do psiquismo determinando um caráter destrutivo do comportamento individual.

Ú-Ú - Ú - Ú - Ú - Ú - Ú - Ú = Comportamento Reativo

O represamento ocorre porque um “grupo de informações especiais” na mente (bom senso), indica que a liberação desses impulsos pode causar instabilidade no sistema (psiquismo – culpa) e na rede (família, cultura – conflito).

-

Indivíduo Família Cultura - - - - - - - Ú Ú Ú Ú -
Indivíduo
Família
Cultura
-
- -
-
-
-
-
Ú Ú Ú Ú
-
-
Ú Ú
Ú
Ú Ú Ú
Ú Ú Ú Ú
– conflito). - Indivíduo Família Cultura - - - - - - - Ú Ú Ú

39

O cérebro é capaz de represar, até determinado limite, os pulsos eletroquímicos não descarregados, armazenando “cargas de energia condensadas” (nódulos reativos) ocasionando tensão, “stress”. Ultrapassado esse limite essas cargas começam a provocar instabilidade geral e podem surgir alterações físicas e/ou psíquicas que se manifestam de diferentes formas. Os mecanismos que controlam as direções que essas energias tensionais tomam para livrar-se do acúmulo, evitando transtornos mais graves, ainda não são suficientemente conhecidos. Todo exc esso de energia tensional (nódulos reativos) possui uma tendência de se descarregar em qualquer direção (para fora ou para dentro do corpo) com a finalidade de reequilibrar o organismo. Essa direção da descarga reativa se dá pela capacidade, maior ou menor , de cada indivíduo em conter (reprimir) ou expressar (descarregar) essas tensões.

<

(reprimir) ou expressar (descarregar) essas tensões. < d Podemos concluir então que o modo de vida
d
d

Podemos concluir então que o modo de vida de uma pessoa em seu grupo social é determinado pela cultura do grupo, que forma os hábitos e costumes circulantes (sentiment os, princípios e valores), que determinam os comportamentos, que originam a qualidade da convivência, que promovem o bem-estar ou mal-estar, que facilitam o equilíbrio ou o desequilíbrio psíquico e orgânico de cada um, e que podem colaborar para a união (harmonia) ou reatividade (conflito) entre os me mbros no grupo.

40

CAPÍTULO III

Bando, agrupamento e Cultura

Sobrevivência e convivência

Todo ser vivo, para se compor de forma estável, necessita de três dimensões que o integrem no plano vital. São eles:

Continente (ambiente)

A associação (bando, agrupamento, grupo cultural)

Indivíduo (constituição física, neural, mental)

Assim como o cérebro precisa funcionar como um sistema integrado e estável para não acumular tensões excessivas e não gerar comport amentos reativos, as associações humanas, para funcionarem de modo adequado, necessitam organizar-se também como um sistema estável. Um sistema social pode ser compreendido como um conjunto, cujas partes (sub-sistemas) se orientam para funções específicas essenciais à manutenção do equilíbrio do convívio. As características físicas, psicológicas, econômicas, religiosas e políticas são sub- sistemas que configuram o sistema (modelo) cultural de cada grupo humano.

O modelo cultural só se mantém em equilíbrio quando consegue suprir as necessidades

básicas de todos os indivíduos que a ele pertencem, integrando-os no sistema. Por essa razão,

a existência de normas ou regras de comportamento dos indivíduos é essencial. A liberdade

individual é um direito natural de cada membro, porém seu limite se inicia onde começam os direitos e interesses dos outros membros do conjunto grupal. Em outras palavras, dizemos que

o discernimento de cada membro necessita perceber tanto a existência dos seus direitos como

a exigência dos seus deveres em relação ao conjunto. Esse bom senso facilita a vida em grupo.

As insatisfações e, conseqüentemente, os comportamentos reativos tendem a

aumentar, quando essa distribuição de direitos e oportunidades torna-se desproporcional entre

os indivíduos.

41

O Bando

O sistema de agrupamento mais arcaico que se conhece é o bando. Alguns animais

sempre formaram bandos, tipo de associação que facilita a segurança, a alimentação, a reprodução e outras necessidades essenciais dos membros. O bando facilita a vida da espécie, mas é um sistema rudimentar que não consegue viabilizar funções mais especializadas entre

os indivíduos, como as manifestações artísticas e religiosas; portanto esse tipo de associação não comporta o surgimento de Modelos Culturais. Essa forma de associar-se é determinada pelo instinto (gregário), gerenciado por uma camada mais arcaica do cérebro (paleoencéfalo),

dirigido

necessárias algumas condições fundamentais:

para

funções

de

sobrevivência

e reprodução. Para sobreviver em grupo são

Ser da mesma espécie (compatibilidade genética)

Espaço vital (território)

Alimento (subsistência)

Regras mínimas de convivência (modos de organização social e política)

Os primeiros primatas que originaram os Hominídeos (formas evolutivas do homem) viviam em bandos. É provável que essas formas de associação tenham evoluído, na medida em que cresciam as exigências dos indivíduos no grupo, e ao mesmo tempo em que ocorria uma especialização cerebral. Dessa especialização decorreu um desenvolvimento técnico primitivo com o uso do fogo, da escrita e da confecção de ferramentas rudimentares que facilitaram as estratégias de sobrevivência.

A organização dos bandos parece possuir estrutura simplificada e é fundamentalmente

instintual, voltada para dois objetivos principais: a sobrevivência e a reprodução. Sabemos, porém, que primatas mais evoluídos, como gorilas e chimpanzés também possuem cultura rudimentar, onde, através de sons e gestos, são compreendidas as regras de organização do grupo.

A Cultura

O sistema de associação animal mais avançado que se conhece é a Cultura. Cada

Cultura constrói um modelo próprio e diferente em alguns aspectos, que é o que determina uma Identidade de grupo (Modelo cultural). Enquanto os animais formam bandos os homens formam grupos culturais que também facilitam a segurança, a alimentação, a reprodução e outras necessidades essenciais dos indivíduos. O grupo cultural facilita a vida da espécie e é um sistema ava nçado que consegue viabilizar funções mais especializadas entre os indivíduos, como as manifestações tecnológicas, artísticas e religiosas; portanto esse tipo de

42

associação

comporta

o

surgimento

de

Modelos

Culturais.

Essa

forma

de

associar-se

é

determinada

não

pelos

instintos,

mas

resulta

de

processamento

especializado, gerenciado

por uma camada mais alta do cérebro (neoencéfalo, córtex), dirigida para uma função de

interação complexa – Vida social ou Convivência humana.

Dissemos antes que o eixo dinâmico dos mecanismos da Natureza é a Interação! Dissemos também que o eixo central dos mecanismos interativos dentro de um grupo humano é o comportamento social. Se aceitarmos essas hipóteses, teremos de aceitar que, o que chamamos de Convivência, é o conjunto de comportamentos consensualmente aceitos dentro de um grupo humano. Quando admitimos que a organização dos bandos possui estrutura simplificada e é fundamentalmente instintual, voltada para os objetivos da sobrevivência e da reprodução, estamos querendo dizer que os estímulos motivadores dos comportamentos dos membros do bando possuem objetivos determinados: comer e reproduzir.

Em contrapartida, os objetivos determinados pelas culturas são tão diversos que seria difícil identificar todos. Afirmamos no início que o Eixo Cultural é o conjunto de regras, hábitos e costumes que mantém a qualidade dos comportamentos, a coesão e harmonia no

grupo

estrutura simplificada e, se o estímulo motivador das atividades dos membros do bando, possui obje tivos determinados (comer e reproduzir), quais serão os estímulos motivadores em uma Cultura?

e

no

ambiente,

isto

é,

sua

estabilidade.

Ora,

se

a

organização

dos

bandos

possui

Vamos começar lembrando que uma cultura humana resulta da complexa interação entre diferentes comportamentos individuais. Que cada indivíduo é um “sistema pensante” único e que não visa apenas a sobrevivência e a reprodução. Todo indivíduo possui seus próprios interesses individuais, mas não perde a consciência de pertencer ao grupo. A associação em grupos determina não só a defesa dos próprios interesses, porque esses interesses podem coincidir ou divergir dos interesses dos outros membros do grupo.

Podemos usar termos como: “espírito de grupo”, “vontade grupal”, “inconsciente coletivo”, e tantos outros, para denominar uma direção, crença, ideologia, vontade ou desejo de grande parte dos membros de um grupo. Um indivíduo não vive sem esses atributos particularmente humanos. Todos vivemos de projetos, sonhos, crenças e desejos. O mundo mental é virtual. A imaginação cria, e a vontade ou impulso (inconsciente) executa a maior parte dos nossos comportamentos. Temos que nos associar para conseguir alcançar o que não conseguiríamos atingir nunca, sozinhos. Essas características humanas criam uma dinâmica muito complexa dentro dos grupos.

Os estímulos motivadores dos comportamentos dentro de uma Cultura são inúmeros, porém o Eixo Cultural poderia ser compreendido como uma fusão de consensos dos membros de um grupo, algo que poderíamos chamar de Normas do Grupo ou Tradição Grupal. Essa

tradição estaria representando a sí ntese de tudo àquilo que esse grupo acredita; sua alma, sua doutrina de vida, sua própria “identidade em grupo”. Estaríamos diante daquilo que resultaria num Modelo Cultural. Apenas as sociedades que conseguem conviver em equilíbrio (entre

seus

com a Natureza) possuem Modelo Cultural. Não existe cultura civilizada,

cultura brasileira, cultura alemã ou outra qualquer abstração que não funcione no “aqui e

membros

e

43

agora” da realidade. Um modelo cultural não se representa apenas como unidade lingüística, econômica, religiosa ou política. Deve, antes de tudo, possuir características de integração e estabilidade entre os membros e com seu suporte físico (ambiente). Acervo cultural sem eixo cultural integrado não é Cultura, é agrupamento. Reatividade individual e desequilíbrio social são fenômenos interligados que compõe um só quadro.

criador e nem organizador da Natureza

(Biosfera), e que é apenas uma pequena parte constituinte dela, pode se tornar útil para

sobreviver no mundo real.

Lembrar

sempre

que

o

Homem

não

é

Modelo Cultural, Etnocentrismo e Racismo

é

conhecido como etnocentrismo. Esse estímulo interno possui função integradora no grupo,

uma espécie de auto -estima

todo; uma

melhor grupo entre todos os outros. O etnocentrismo cria no indivíduo uma tendência de

Essa

tendência sustenta uma “verdade cultural” aceita em consenso. Enquanto ocorre em culturas não-reativas, funciona como cimento social entre indivíduos e destes com o território (a terra como berço dos ancestrais). É impressionante, porém, a diferenciação existente nas culturas naturais, que aceita o princípio da diversidade apenas parcialmente, isto é, para elementos não-humanos do ambiente extra grupal (floresta, animais, território) e o modifica para grupos

dessemelhantes de sua cultura mantendo, porém, um certo grau de aceitabilidade,

sentir e pensar sua cultura como referencial

Um

dos

força

estímulos

que

motivadores

do

comportamento

dentro

de

um

grupo

humano

grupal, uma forma de identificar cada indivíduo como parte do

no

cérebro

e

que

diz

a esse

indivíduo que o seu

grupo é o

absoluto

para

todas

as

outras

culturas.

imprime

humanos

uma espécie de relação não confiável.

Nas sociedades reativas (civilizadas) o etnocentrismo pode produzir desvios de comportamento social, quando assume formas exacerbadas (nacionalismo, fanatismo, racismo). As insatisfações de toda ordem (reatividade) existentes nos indivíduo dessas sociedades transfiguram esse fenômeno natural, produzindo uma etnofobia, que pode originar movimentos como anti-semitismo, terrorismo, nazi-fascismo, etc.

O conceito de Modelo Cultural (cultura humana) não está obrigatoriamente associado a idéias como: quantidade de pessoas, tecnologia avançada e conhecimento científico. É mais

sensato pensar que se associe a: equilíbrio social, identidade de grupo e qualidade de convivência, fatores esses que determinam o futuro da existência de um grupo e o seu grau de

manter-se em equilíbrio e manter sua

evolução, são necessárias algumas condições:

satisfação.

Para

que

um

grupo

humano

consiga

Possuir Modelo Cultural (inclui sintonia com o ambiente)

 

Ser

numericamente

reduzido

(possibilidade

de

interação

entre

todos

os

membros)

44

Possuir território suficiente para sobreviver

 

Possibilidade

de

intercâmbio

com

outros

grupos

humanos

culturalmente

equilibrados

 

Não incorporar costumes e hábitos estranhos ao grupo

 

Não

permitir

estratificação

de

classes

desproporcionalmente

desiguais

(classes

sociais polarizadas)

 

Não

permitir

formação

de

poder

político

excessivamente

centralizado

(instituições políticas coercivas)

 

Não permitir formação de instituições religiosas estranhas aos costumes do grupo (religiosidade alienante)

Não permitir formação de privilégios econômicos (sobrevivência)

 

Formação de instituição familiar articulada ao grupo (família extensa e clã)

Posicionamento da figura humana como “centro” na organização grupal (humanização da ideologia grupal)

Evitar

qualquer

mecanismo

que

promova

diferenças

excessivas

entre

os

membros (identidade social)

 

Manter a Tradição (eixo cultural)

Em outras palavras, uma cultura é um organismo que tem vida própria. Grupos humanos que não conseguem equilíbrio interno (mental) nem externo (social) não são culturas, nem possuem modelo cultural. Chamamos a essas tentativas de organização humana de “agrupamentos”, bem representados pe las sociedades civilizadas. Mas fica a pergunta: o que determinou o desequilíbrio de muitos grupos humanos, enquanto outros conseguiram manter-se estáveis, continuar existindo e evoluindo como entidades culturalmente autônomas?

O AGRUPAMENTO

O agrupamento é uma forma de associação humana que enfraqueceu ou perdeu sua identidade cultural, suas tradições (hábitos e costumes) e substituiu o consenso grupal por

formas

de

organização social não-integradas e estimuladas pela competição entre seus

membros.

 

O

agrupamento

humano,

forma

de

associação

sem

modelo

cultural,

surgiu

com

o

advento

da

Civilização,

e

tem

provocado

sensíveis

alterações

na

convivência.

A

forma

coletivo,

criando aspirações individuais de conteúdo materialista. Vejamos algumas características dessa forma de associação:

organizacional

dessas

associações

desestruturou

as

relações

humanas

de

grupo

A proliferação excessiva de subgrupos (impossibilidade de interação entre todos os membros)

45

Interesses e funções desarticuladas nos subgrupos (individualismo)

 

Estratificação

por

importância

social

no

agrupamento

(formação

de

classes

sociais)

Território

mal

distribuído

entre

os

membros

para

garantir

a

sobrevivência

(propriedade individual/empresarial)

 

Aversão

e

exploração

no

intercâmbio

com

outros

grupos

humanos

culturalmente equilibrados (etnofobia)

 

Incorporação de hábitos e costumes estranhos ao grupo com objetivo de lucro (moda, propaganda).

Presença

de

mecanismos

que

permitem

diferenças

excessivas

entre

os

membros (privilégios econômicos, sociais).

 

Posicionamento

da

produção

como

“centro”

na

organização

grupal

(objetificação da ideologia grupal)

 

Formação

de

poder

político

centralizador

(instituições

políticas

desarticuladas

do agrupamento)

 

Formação

em

número

excessivo

de

instituições

religiosas

(religiosidade

polimorfa e comercial)

 

Formação de família nuclear substituindo a família extensa e o clã (família desarticulada do agrupamento)

Ausência de tradição de grupo (desmanche do eixo cultural)

 

Ausência de Modelo Cultural (despersonalização da identidade grupal e perda da sintonia com o ambiente)

É preciso destacar as grandes diferenças entre bando, agrupamento e cultura, utilizando conceitos já vistos de Interação, integração e função. Veremos no quadro abaixo algumas dessas diferenças:

Associação

Interação

Integração

Atributos

Função (meta)

Resultado

Bando

existente

existente

mobilização

sobrevivência/reprodução

equilíbrio entre membros

 

instintual

Agrupamento

existente

precária

mobilização reativa

concorrência/reatividade

desequilíbrio entre membros

Cultura

existente

existente

mobilização ativa

sobrevivência/convívio

equilíbrio entre membros

46

Associação e dissociação (POLARIDADE VITAL)

Aprendemos a julgar e escolher “o melhor”, mas certas vezes “o melhor” é só uma parte do todo indivisível.

Polaridade vital é apenas uma expressão convencional que nos ajuda a compreender a

o branco, a

estabilidade e a instabilidade são expressões dos pólos (extremos) em que fenômenos ocorrem. É também uma forma de dizer que o resultado depende da organização, qualidade e intensidade dos fatores (“a ordem dos fatores pode alterar o produto”).

flexibilidade e direcionalidade das relações na Vida. O bem e o mal, o preto

e

Dissemos anteriormente que existem fatores associativos e dissociativos, isto é, que integram ou desintegram as relações vitais. Dissemos também que a capacidade que um grupo possui para manter a coesão intragrupal e ambiental (integração) é determinada pelo nível de satisfação dos membros do grupo, ou seja, na possibilidade de convivência expressiva e

capacidade

resultados diferentes:

de uma condição para a outra pode determinar

de

sobreviver.

A

interpolação

INSTABILIDADE

ESTABILIDADE

de sobreviver. A interpolação INSTABILIDADE ESTABILIDADE INSATISFAÇÃO SATISFAÇÃO Significa dizer que a

INSATISFAÇÃO

SATISFAÇÃO

Significa dizer que a alternância dos fatores (mudanças) altera as condições em que se dá uma interação, ou seja, produz desvio no produto final.

A vida humana pode ser pensada, na interação, como se fosse constituída por três instâncias interligadas: o corpo (bio), a mente (psico) e o grupo (social). Podemos imaginar que cada parte se orienta para seus objetivos (funções), mas possuem meta comum.

Instância

Biológica

Psicológica

Social

Função

Vida individual e social

META
META
Social Função Vida individual e social META Se admitirmos também que cada instância possui certa

Se admitirmos também que cada instância possui certa autonomia de organização e características próprias, compreenderemos a importância dessa diversificação. Admitindo interpolar cada componente teríamos como resultados:

BIO

saúde

doençacada componente teríamos como resultados: B I O saúde P S I C O satisfação insatisfação

PSICO

satisfação

insatisfaçãoP S I C O satisfação

SOCIAL

harmonia

conflitoS O C I A L harmonia

47

Se admitirmos o que foi exposto até agora teremos que admitir também que cada instância possui a propriedade de integrar -se com os outros componentes e formar um organismo (indivíduo) e uma organização de indivíduos (modelo cultural).

Esses desvios podem ser percebidos através de resultados conhecidos em diferentes áreas. Por exemplo:

Medicina: desvio de fatores reguladores da glicemia

diabetes

Psiquiatria: desvio de fatores reguladores do psiquismo

comportamento reativo dissociativo (esquizofrenia)

Antropologia: desvio de fatores reguladores do grupo

racismo

corpo mente grupo
corpo
mente
grupo

Se

olharmos

agora

de

uma

forma

global,

concluiremos

que

desvios

que

possam

ocorrer

em

qualquer das partes se refletem nas outras, originando alterações das funções de uma ou mais instâncias. O que queremos dizer é que cada parte funciona de modo conjugado ao modo de funcionar do conjunto e que há necessidade de equilíbrio entre as partes para que o todo funcione sem desvio excessivo.

Como vimos, corpo, mente e social são planos qualitativamente distintos. Corpo é estrutura física; mente é organização virtual; social é dimensão onde corpo e mente podem se expressar. Comportamento é veículo que permite a interação no continente social. Anomalias da interação social (desvios) podem produzir no corpo: disfunções e doenças; no psiquismo:

alterações do comportamento (comportamentos reativos); no social: alterações da convivência.

Cada plano pode manifestar resultados que são percebidos sob diferentes formas. Se pudéssemos representar cada plano com processos e resultados correspondentes á sua natureza, poderíamos imaginar suas relações como na tabela abaixo:

Plano

Natureza do desvio

Processo regulador

Função (meta)

Resultado do desvio

Corpo

física, físico-química programática, virtual relacional

regulação fisiológica regulação psíquica regulação cultural

saúde física

disfunção, doença comportamento alterado convivência alterada

Mente

saúde mental

Social

harmonia social

ego,

superego)

comportamentos ativos (socializados). Desvios nesse funcionamento, por conseqüência, estariam gerando comportamentos reativos. Como no modelo sugerido por Freud, o “id” estaria vinculado aos instintos; o “ego” ao individual; o “superego” ao plano social. No social cada indivíduo não deveria reprimir demasiadamente os instintos e nem liberá-los totalmente.

harmoniosamente para resultar em equilíbrio mental e gerar

Por

analogia,

precisariam

os

mecanismos

reguladores

no

plano

inconsciente

da

mente

(id,

funcionar

48

Representando dessa forma as relações entre corpo, mente e social, o que chamamos de Esquizofrenia não seria doença; seria uma desorganização da integração mental, uma manifestação comportamental das alterações ocorridas nos processos de integração da mente. Seria um comportamento reativo dissociativo, reversível, desde que o meio sociofamiliar facilitasse essa reversão e desde que ficasse comprovada a ausência de fatores genéticos atuando na sua etiologia. De origem preponderantemente relacional (faltam provas

convincentes de determinantes genéticos), essa dissociação mental provisória, necessitaria de

para

estímulos

parâmetros da realidade. Mesmo admitindo a existência de fatores predisponentes de natureza genética, a dissociação mental não se manifestaria em meio sociofamiliar harmônic o, pois uma convivência amena provavelmente impediria essa manifestação. Essa tese, já comprovada em consultório e em comunidades terapêuticas bem estruturadas, mostra que mudanças qualitativamente significativas no ambiente relacional, podem reduzir ou suprimir as manifestações dissociativas da mente.

do

ambiente

(familiar

e

social)

readaptar -se

e

voltar

a

funcionar

sob

os

49

Civilização e origem do conceito de Estado

Cristo disse: todos são iguais diante do Pai!

O

Direito diz: todos são iguais perante a Lei!

O

homem diz: tudo depende de vontade política

Existem versões sobre a história da humanidade que se transformam em verdadeiros mitos, sobretudo quando são endossados por veículos de informação muito poderosos ou

quando

Nem sempre correspondem à verdade, porque a verdade é conceito humano, mutável pelas

ideologias.

transmitidos,

em

escolas

e

universidades,

como

verdades

científicas

inquestionáveis.

Todo grupo cultural naturalmente constituído, quando atinge determinado tamanho, se

divide em dois grupos que se tornarão distintos e com características diferentes. O crescimento numérico, a diferenciação nas descobertas de utensílios e ferramentas, a migração, o conhecimento da produção de vegetais (agricultura), a domesticação de animais (atividades pastoris), a atividade comercial, e muitos outros fatores forçaram a expansão dos grupos e a especialização das atividades dentro de cada grupo. As atividades iniciais de caça e coleta – forma de subsistência dos pequenos grupos – foram substituídas pelas atividades agro-pastoris, aumentando a produção e estimulando as primeiras trocas comerciais. O homem deixou de ser nômade e passou a habitar em pequenas localidades fixas (aldeias), que

se transformaram em cidades; a divisão do trabalho se tornou mais complexa e as primeiras

experiências de civilização começaram a surgir há aproximadamente quarenta mil anos antes

de Cristo.

O homem civilizado sempre achou que poderia organizar artificialmente grandes

populações, por meio de estruturas centralizadoras, para defender certos interesses de classes.

O resultado dessas idéias, sem qualquer fundamento lógico, sempre se mostrou falido diante

das experiências históricas mal sucedidas de muitos povos antigos. Foram os gerzeanos, povo que habitava no Egito Inferior, que alcançaram um grau elevado de perfeição técnica na época. Conheciam o cobre, o chumbo e a prata. Cultivavam oliveiras e cereais. Utilizavam uma escrita rudimentar, jogavam um jogo parecido com o de damas e inventaram uma espécie

de calendário para auxiliar na agricultura. Foi entre eles que surgiu, na historia do homem, o

primeiro Rei.

Após á cultura gerzeana, nota-se um firme desenvolvimento da civilização: crescendo demais, as aldeias se fizeram cidades autônomas, com os seus próprios funcionários; o uso do cobre e de outros metais se tornou mais freqüente; descobriu -se o torno do oleiro e, com o uso regular da escrita, a Historia da Civilização começou. Com a sucessão do desenvolvimento tecnológico e para defender interesses de enormes agrupamentos humanos foi engendrado o novo conceito de associação humana - a Civilização - e uma nova forma de coordená -la – o

50

Estado.

intermediários.

No

início

dessa

evolução

a

organização

A idéia de Estado pressupõe três condições:

do

Estado

Nacional

passou

por

estágios

Um território delimitado

Um agrupamento humano com hábitos e costumes semelhantes

Um governo central com fortes poderes coercivos

O Estado é uma concepção abstrata criada pelo homem. É representado pelo conjunto das Instituições que tentam ordenar a vida política, econômica, legislativa e religiosa de um agrupamento humano. Na verdade é constituído por uma casta de pessoas (funcionários do

Estado)

(Instituições). Observando essa forma de organizar o poder, percebemos profundas anomalias estruturais e funcionais:

que

detém

o

poder

do

agrupamento

(povo),

através

de

procedimentos normativos

Centralização das decisões nas mãos de um reduzido número de pessoas (poder minoritário)

Superpoderes de poucos sobre a complexidade social (conhecimento precário sobre a realidade do agrupamento)

Impossibilidade

na

prática,

do

conjunto

social

fiscalizar

e